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os passos da dança são um jorro / as falas são manjar e 
reeditam / o script que a vida assina”. Esse diálogo com o inconsciente – de onde sai o jorro de 
significantes – é o material primordial da poeta, que assume sua escrita enquanto tessitura imaterial. Em 
“Firmamento”, ela nos dá a indicação: 
o espantadiço gosto da memória 
cristal de confeitaria 
adorno de sèvres longínquo 
faz desfilar aqui não só os mortos 
mas as tessituras abortadas no algo que têm 
de farelos 
de abstração 
de incongruência. 
 
 
 
A poeta e escritora curitibana deixa entrever em A palavra algo a sua clave do poético. Seu livro nos fala da 
construção da linguagem – seu cerne – e nos mostra a ficcionalidade do poema. Toda poesia é ficção. No 
poema “Óbvia”, Collin nos lembra disso: “a flor é forma de flor / que o poema vê / intenta / namora / 
cogita / grita com uma voz parecida / mas que nunca chega a ser voz de flor”. Ficção onde mais esconde do 
que mostra sua intencionalidade, como nos lembra em Atinências: “existem coisas que eu digo/no meio 
das coisas que escondo / (...) / resistem horas inteiras / em meio a meio minuto”. A poesia gravita em sua 
própria lei. Em “Desenlace”, Collin escreve sobre a inevitabilidade da escrita: “tentei escapar daquele areal 
por dentro / mas a palavra era oblívio / (...) / tentei escapar daquele terremoto por dentro / mas a palavra 
era limbo”. Poesia como limbo, limite do que é passível de ser dito. Em “Jim Said”, a poeta arma: “a poesia 
é metal precioso é metal nobre/agarrado aos detalhes e ao insubmisso”. Em A palavra algo, Luci Collin 
flerta com o corte incisivo do poema ao mostrar que toda poesia é artifício do real. Nos poemas que 
versam sobre o fazer poético da autora, lê-se que “o discurso é para ser longo e nítido/ mas a tinta borra 
hesita/ ela mesma tem lapsos/e talvez falsifique as cenas em seu arredamento de pávida lembrança”; ou 
“as palavras que se alcançam/ são o esquecimento das figuras/ que descem degraus na pressa/ do 
inédito”. 
O poema Grande Fome “anuncia” paródias anteriores e posteriores que se insinuam, mas não se 
concretizam - “essa maquiagem máscara e as paródias que insinua/ espantam as cirandas já - escassas/ e a 
pressa rega uma semente/ sifilítica” -, dando um calço nas expectativas do leitor. Luci não parodia 
explicitamente, mas cita diversos poetas como Fernando Pessoa, Mallarmé, Casimiro de Abreu. Nessas 
citações, a poeta parece ter encontrado “a amenidade do velho e a agitação de um menino ao repetir 
gestos que duplicam o pouso”. E Luci duplica o voo desses poetas. Em A Palavra Algo, Autopsicografia, de 
Fernando Pessoa, se transforma em Deveras e assim inicia: “O poeta finge/ e enquanto isso/ cigarras 
estouram/ pontes caem/ azaleias claudicam”. Luci se vale também de frases banais, provavelmente lidas 
em placas espalhadas pela cidade, e com elas constrói o poema Orçamento Sem Compromisso, no melhor 
exemplo de “escrita não criativa” contemporânea: “Compro ouro/ Cobrem-se botões/ Compro e vendo 
cabelo/ Xcalabresa/ Porção e executivo/ Piso escorregadio”. A poeta não “se incomoda” em não ser 
criativa, parece saber que, como se lê no poema Imortalha, “todos os termos foram inventados”. 
QUESTÕES 
1) (POSITIVO) Leia as assertivas a seguir: 
(01) Luci Collin em seu livro de poesias A palavra algo valoriza a língua portuguesa sem utilizar 
estrangeirismos, mas sim variantes locais, numa tentativa de reconhecer variantes regionais curitibanas 
como sendo as principais. 
 (02) Nos versos “o cavalo mais que imediato /que vibra no destino das lonjuras /trama uma esparsa 
coreografia/ que é seu discurso de casco /e informa tudo o que se diz /de olhos fechados/ amplitude 
redenção”, há um espaço proposital, cuja lacuna representa afastamento físico mesmo e pede para que o 
leitor as complete. 
(04) Em A palavra algo de Luci Collin podem ser encontrados alguns dos temas presentes da Poesia 
Brasileira Contemporânea, tais como a atualidade da apropriação de meios digitais em Imortalha e o 
suicídio em Cividade. 
(08) O recurso do neologismo (criação de novas palavras) se faz presente em títulos como Insoneto, um 
soneto no qual o eu lírico parodia várias outras referências literárias que se aventuraram nessa forma fixa, 
como Olavo Bilac e Vinicius de Moraes. 
 
 
(16) Mesmo em se tratando de uma escritora contemporânea, Luci Collins estabelece intertextualidade 
com os clássicos, como é o caso de Gonçalves Dias em Meus oito anos, bem como utiliza palavras no seu 
sentido original. 
Assinale o que for correto quanto à soma das alternativas sobre a obra A palavra algo de Luci Collin e 
sobre a Poesia Brasileira Contemporânea. 
a) 03. 
b) 06. 
c) 14. 
d) 30. 
e) 31 
GABARITO 
1) C 
O VENDEDOR DE PASSADOS 
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA 
Sobre o autor: José Eduardo Agualusa nasceu em Huambo, Angola, em 1960. Estudou agronomia e 
silvicultura e foi jornalista. Publicou até agora 13 romances, e diversas coletâneas de contos e de poesia. 
Os seus livros estão traduzidos em mais de 30 idiomas. Um dos seus romances, O Vendedor de Passados, 
ganhou o Independent Foreign Fiction Prize, em 2007. Teoria Geral do Esquecimento foi finalista do Man 
Booker International, em 2016, e vencedor do International Dublin Literary Award, em 2017. Além de 
escritor, é crítico e explora os sentidos identitários das relações entre Angola, Brasil e Portugal. 
 
Movimento literário: literatura angolana. Além da literatura brasileira e portuguesa, os vestibulares 
têm exigido como leitura obrigatória livros de autores africanos, particularmente de Angola e 
Moçambique, países também falantes do português. Como grande destaque da literatura angolana temos 
Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela). Para contextualizar, é importante lembrar que a 
literatura produzida nesses países é um tanto recente, pois tornaram-se nações independentes após 1974. 
Além disso, elas abordam a negritude, ou seja, a valorização do africano e sua cultura. 
 Sobre a obra: O Vendedor de Passados é um livro de 2004, que apresenta uma narrativa inovadora, 
com uma temática inédita e original. Esta obra tem como narrador principal uma osga, espécie de 
lagartixa, que é ao mesmo tempo personagem e narrador. A história gira em torno de Félix Ventura, um 
albino que vende passados. Desta forma, Eduardo Agualusa questiona as relações entre memória e 
identidade. Questiona ainda de que forma as nossas memórias influenciam nosso comportamento 
presente e o quanto de verdade ou ficção se compõem a nossa história. 
Analise da obra: O romance de Agualusa termina com a frase “Eu fiz um sonho”. Isso é o que se 
percebe em cada linha do livro. O primeiro capítulo, intitulado “(um pequeno deus noturno)”, introduz o 
leitor nesse mundo onírico, pois o narrador é uma lagartixa, o que já estabelece uma atmosfera de 
 
 
fantasia. No final do capítulo, o narrador diz que durante o dia dorme, reforçando a ideia de que tudo se 
passa no horizonte dos sonhos. 
O primeiro personagem a ser introduzido é Félix Ventura, um negro albino. Ironicamente se percebe que o 
personagem principal, que vende passados a seus clientes, constitui-se de um ser marcado pela 
contradição: é um negro que é branco. Toda a ação do livro se passa dentro da casa de Félix, que é um 
misto de biblioteca e museu e guarda em seu interior um acervo de obras que remontam a um passado ou 
a vários. Há então uma representação da cultura e ao mesmo tempo uma constatação da mesma em cada 
linha do romance, visto que se trata da representação de uma cultura em que seus participantes, muitas 
vezes, querem ter um passado glorioso, mesmo que para isso tenham que viver uma ilusão. 
 Todos os títulos dos capítulos são colocados entre parênteses, como se fossem uma explicação, 
dispensáveis e, ao mesmo tempo, como se fossem um sussurro que não quer interferir no sonho. Além 
disso, ao todo são 32 capítulos curtos, que facilitam a leitura e reforçam