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Obras uel

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Carlos, João José e Vera Eunice, nasceram quando 
já morava na favela do Canindé, respectivamente em 1948, 1949 e 1953. Ela nunca se casou com nenhum 
dos pais das crianças, pois não queria se submeter ao mando de um homem. 
Em reportagem sobre a favela do Canindé, onde vivia Carolina, o repórter Audálio Dantas a conheceu e 
descobriu que ela escrevia um diário. Surpreso com a força do texto, o jornalista mostrou-o a um editor. 
Uma vez publicado, o livro trouxe fama e algum dinheiro para Carolina. O suficiente para deixar a favela, 
mas não o bastante para escapar à pobreza. Quase esquecida pelo público e pela imprensa, a escritora 
morreu em um pequeno sítio na periferia de São Paulo, em 13 de fevereiro de 1977. Em seus 
depoimentos, Carolina relatou que começou a escrever quando sentia fome e não tinha o que comer, 
então para não xingar, ela escrevia. Além disso, segundo ela o motivo para ler um livro era simples: “para 
adquirirmos boas maneiras e formamos nosso caráter”. 
Movimento literário: literatura marginal 
 
 
Sobre a obra: Quarto de despejo foi o primeiro livro de Carolina. Publicado em 1960 e traduzido para 
13 idiomas, a autora tem outros seis livros publicados. Esse primeiro foi escrito como diário no período em 
que viveu na favela do Canindé em São Paulo.. O objetivo original da autora em escrever era registrar o 
que acontecia com ela e com os moradores da favela do Canindé. Porém, a autora não esconde nas 
páginas escritas que a sua intenção é publicar e conta com a ajuda de um jornalista que a descobriu, 
Audálio Dantas. Ela chegou a enviar 40 os originais para a revista Reader’s Digest nos Estados Unidos, mas 
houve recusa. De toda forma, em 1960 publicou seu livro no Brasil, a partir de uma entrevista dada à 
importante revista O Cruzeiro. A primeira parte do diário foi escrita entre 15 e 28 de julho de 1955 e a 
sequência entre 02 de maio de 1958 e 1 de janeiro de 1960. Trata-se de um diário, ou seja, não há começo, 
meio ou fim e apresenta o ponto de vista de uma mulher negra, pobre, batalhadora, favelada, com três 
filhos pequenos e de pais diferentes, sobre a vida do pobre e da favela. A ideia para o título da obra surgiu, 
como ela relata: “é que em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, 
nós, os pobres, que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo 
das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, 
somos os trastes velhos”. Por fim, as edições publicadas de seu diário respeitam fielmente a linguagem da 
autora, que muitas vezes contraria a gramática, incluindo a grafia e a acentuação das palavras, de forma a 
retratar exatamente a realidade vivida por ela. 
 O livro segue praticamente a escrita original da autora. 
 
QUESTÕES 
(UFRRS) Leia este trecho de Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. 
18 de dezembro... Eu estava escrevendo. Ela perguntou-me: 
 – Dona Carolina, eu estou neste livro? Deixa eu ver! 
– Não. Quem vai ler isto é o senhor Audálio Dantas, que vai publicá-lo 
. – E porque é que eu estou nisto? 
– Você está aqui por que naquele dia que o Armin brigou com você e começou a bater-te, você saiu 
correndo nua para a rua. 
Ela não gostou e disse-me: 
– O que é que a senhora ganha com isto? 
 Resolvi entrar para dentro de casa. Olhei o céu com suas nuvens negras que estavam prestes a 
transformar-se em chuva 
Considere as seguintes afirmações sobre o trecho acima. 
I. Está presente no fragmento uma tensão que perpassa o conjunto do livro: ao mesmo tempo em 
que se apropria da experiência de pobreza e violência da favela, Carolina quer diferenciar-se dela. 
II. Audálio Dantas aparece como figura que representa oportunidade de publicação e autoridade 
letrada. 
III. Aparece no fragmento uma alternância narrativa que marca Quarto de despejo: do dia a dia 
inclemente na favela para certa linguagem literária idealizada por Carolina. 
Quais estão corretas? 
a) Apenas I. 
b) Apenas II. 
c) Apenas III. 
d) Apenas I e III. 
e) I, II e III. 
 
 
2) (UEM) Sobre o livro Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), de Carolina Maria de 
Jesus, assinale o que for correto. 
01) A narrativa, escrita em forma de diário, começa no dia do aniversário de Vera Eunice, filha da 
autora, que recebe de presente um par de sapatos achado no lixo. Ao longo da obra, o leitor 
percebe como a escritora, que sobrevive do lixo e de materiais recicláveis, encontra sua resistência 
na escrita e nos livros. 
02) A escritora descreve a dura realidade de uma mulher negra, moradora da favela, que trabalhava 
como catadora de papel, faxineira e lavadeira para sustentar seus três filhos. O livro apresenta os 
relatos dessa mulher que vivenciou as mazelas das camadas mais marginalizadas da sociedade. 
04) Apesar da linguagem simples, contudo original, Carolina Maria de Jesus se revela uma escritora 
atenta à realidade social do Brasil. Questionadora, crítica da classe política, sua escrita se impõe 
vigorosa por sua atualidade, ainda que passadas décadas de sua publicação. 
08) Entre as situações abordadas na obra, há relatos de discriminação racial e social; há, também, 
diálogos, descrições de encontros amorosos, de festas, de brigas e de outros conflitos cotidianos. A 
fome, entretanto, é um dos assuntos mais abordados. 
16) No diário, inúmeras são as passagens que informam que a escritora foi candidata ao cargo de 
vereadora, em 1958, evidenciando sua grande participação no cenário político nacional da época. 
3) Assinale com V ou F as seguintes afirmações abaixo: 
( ) Carolina mora na favela, é pobre, catadora de lixo e alcoólatra. Às segundas-feiras são o melhor 
dia para catar papéis. 
( ) Carolina, apesar de se dar muito bem com seus vizinhos, almeja um dia poder sair da favela e 
publicar seu livro. 
( ) Os filhos de Carolina são muito bem tratados pela comunidade da favela. A solidariedade é muito 
presente. 
( ) Carolina tem 3 filhos, Vera Eunice, José Carlos e João José. Carolina sempre teve boas 
experiências com os homens. 
a) F, F, F, F 
b) V, F, V, F 
c) V, V, V, V 
d) V, F, F, V 
e) V, F, F, F 
 
GABARITO 
1) E 2) 01 + 02 + 04 + 08 = 15 3) A 
 
 
HISTORIAS QUE OS JORNAIS NÃO CONTAM 
MOACYR SCLIAR 
Sobre o autor: Moacyr Jaime Scliar nasceu em 23 de março de 1937, no hospital da Beneficência 
Portuguesa, em Porto Alegre (RS). Seus pais, José e Sara Scliar, oriundos da Bessarábia (Rússia), chegaram 
ao Brasil em 1904. Em 1955, foi aprovado no vestibular de Medicina pela Faculdade de Medicina da 
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1962. Especialista em Saúde Pública e 
 
 
Doutor em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública, exerceu a profissão junto ao Serviço de 
Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (SAMDU). 
Casou-se, em 1965, com Judith Vivien Olivien, com quem tem um filho, Roberto. Frequentemente era 
convidado para conferências e encontros de literatura no país e no exterior. Seu primeiro livro, publicado 
em 1962, foi Histórias de Médico em Formação, contos baseados em sua experiência como estudante. Em 
1968 publica O Carnaval dos Animais, contos, que Scliar considera de fato sua primeira obra. 
 Autor de 74 livros em vários gêneros: romance, conto, ensaio, crônica, ficção infanto-juvenil, escreveu, 
também, para a imprensa. Obras suas foram publicadas em muitos países, com grande repercussão crítica. 
Em 2003, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Seu nome figura entre os dez escritores brasileiros 
mais lidos no exterior. Teve textos adaptados para o cinema, teatro, tevê e rádio, inclusive no exterior. Foi, 
durante 15 anos, colunista do jornal Zero Hora, onde discorria sobre medicina, literatura e fatos do 
cotidiano. Foi colaborador da Folha de S. Paulo desde a década de 70 e assinou uma coluna no caderno 
Cotidiano. Moacyr Scliar é considerado um dos