Prévia do material em texto
Gesianni Gonçalves Da linguagem ao corpo: litorais Gesianni Gonçalves Gesianni Gonçalves Meu corpo não é meu corpo, é ilusão de outro ser. Sabe a arte de esconder-me e é de tal modo sagaz que a mim de mim ele oculta ... Carlos Drumonnd de Andrade Fronteiras entre a estrutura da linguagem e a matéria corporal. Da clínica da palavra à clínica dos fenômenos corporais (conversões, somatizações, fenômenos psicossomáticos e acontecimento de corpo) Dois tempos No entre ato ... Unidade I - O corpo e os sintomas (04 e 05/06/2021) Unidade II - Patologias do corpo e a clínica analítica (16 e 17/07/2021) 04/06/2021 - A linguagem que toca o corpo: modos de afetação 05/06/2021 - Sintomas histéricos e conversão: articulações 16/07/2021 - Corpo e pulsão: o dito e o não-dito 17/07/2021 - Psicossomática, somatizações e acontecimento de corpo Ver plano de ensino Aspectos introdutórios ❖ Sintoma analítico ❖ Corpo 1 Sintoma(l) O psicanalista diferente do médico, não trabalha diretamente sobre o sintoma. O médico descreve o sintoma e os diagnostica como doença, medica e, quando possível, cura a doença. Para o psicanalista o sintoma é essencial, porque através dele o inconsciente está em ação. Psicanálise, sintoma e medicina O lugar da psicanálise na medicina (1966) O sentido dos sintomas Qual o sentido disto que o sujeito construiu para ser/estar no mundo, que por vezes lhe causa tanto mal estar? Para a psicanálise o sintoma é rico em sentido e está tramado com os tecidos da vida e o vivenciar das pessoas que os portam. Na medicina o sintoma é um sinal que indica uma doença que afeta um organismo. Em psicanálise o sintoma é um sinal substituto de uma satisfação pulsional que não se realizou para o sujeito. O sintoma tem um sentido e procuramos pelo fio condutor que liga os fatos, sensações, sentimentos, de acordo com a história de cada sujeito. Há sentido no delírio da psicose, há sentido no sonho. Em ambos há uma conexão com a vida do sujeito, mesmo quando não parece haver. O fio de Ariadne Um sintoma pode ser aparentemente idêntico para todos os sujeitos, como um TOC, por exemplo. Porém, o sentido é contingente, particular a cada um. Não existe uma maneira de fazer um protocolo psicanalítico. O sintoma é tratado pela fala, priorizando o aspecto subjetivo. Singularidade 2 O que é um CORPO? Ver... O corpus psicanalítico Gesianni Gonçalves Na biologia e na medicina, um sintoma somático é aquele cuja natureza é eminentemente corporal, ao contrário dos sintomas psíquicos. SOMÁTICO Do grego Somatykos, relativo ao corpo. O termo deriva de um vocábulo grego que se pode traduzir por “corporal”. Este adjetivo é usado para se referir àquilo que é corpóreo, físico ou material. O corpo orgânico em Freud se constitui somático ao ser atravessado pela pulsão... Gesianni Gonçalves Ver... Em Sigmund Freud Contornos do corpo no dispositivo analítico Gesianni Gonçalves Não se trata do corpo da anatomofisiologia, mas da passagem do corpo somático da biologia para o corpo erógeno da psicanálise em que o que está em jogo é uma representação psíquica e fantasmática de corpo. O corpo, a psicanálise e o corpus freudiano Alguns aspectos: Estudos sobre histeria Pulsão Narcisismo conversão histérica Complacência somática Sintomas histéricos e conversão: Articulações É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo-a-corpo comigo mesma. (Clarice Lispector) Didi-Huberman, G. (2015). Invenção da histeria: Charcot e a iconografia fotográfica da Salpêtrière 1 ALGUNS ASPECTOS INICIAIS ACERCA DA HISTERIA Gesianni Gonçalves Freud, desde o início da constituição da psicanálise, levou em conta a expressividade do corpo, questionando frequentemente se os sintomas da histeria eram de origem psíquica ou somática. Concluiu que “todo sintoma histérico requer a participação de ambos os lados” (Freud, 1905/1980, p.45). O sentido dos sintomas Qual o sentido disto que o sujeito construiu para ser/estar no mundo, que por vezes lhe causa tanto mal estar? Para a psicanálise o sintoma é rico em sentido e está tramado com os tecidos da vida e o vivenciar das pessoas que os portam. sobre a conservação do sintoma no corpo ao mencionar a difícil transposição de uma excitação puramente psíquica para o corporal: Advertência freudiana [...] a parte somática do sintoma histérico parece ser a mais estável de substituir, enquanto a psíquica se afigura como o elemento mais variável e mais facilmente substituível. Todavia, não se deve pretender inferir dessa relação nenhuma hierarquia entre os dois elementos. Para a terapia psíquica, a parte psíquica é sempre a mais significativa (Freud, 1905/1980, p.57). O último tricot REPULSA - o corpo é transmutado do erótico para o orgânico, CONVERSÃO - ocorre uma supererotização do orgânico, por isso, ela é analisada como uma representação sexual SIMBOLIZAÇÃO Repulsa & Conversão A conversão histérica evidencia um tipo de funcionamento do corpo oposto ao que se produz no fenômeno da repulsa. Na conversão histérica o conflito entre o orgânico e o sexual, entre a necessidade e o desejo, se resolve na invasão da função orgânica pela função sexual. CASO DORA Sobre a conversão histérica: Na histeria, a representação incompatível é tornada inócua pela transformação de sua soma de excitação em alguma coisa somática. Para isso eu gostaria de propor o nome de conversão. A conversão pode ser total ou parcial. Ela opera ao longo da linha de inervação motora ou sensorial relacionada [...] com a experiência traumática (Freud, 1894/1980, p.56). A conversão possibilita omitir do consciente a representação conflitante, sendo esta, como sabemos, de natureza sexual. Gesianni Gonçalves Gesianni Gonçalves Todas as pacientes (Dora, Emmy von N., Miss Lucy R., Katharina, Elisabeth von R.) cujos casos Freud relata nos Estudos sobre a histeria (1893-1895/1980), defendem-se, por conversões mais ou menos acentuadas, de um sentimento de desprazer ligado a uma ideia incompatível com o ego que torna-se patogênica. Freud observa que nesses casos o sintoma somático frequentemente se apoia sobre sofrimentos orgânicos anteriores à neurose. Ou seja, o sintoma de conversão histérica se manifesta em uma região de sofrimento orgânico, anterior ou simultâneo ao acontecimento traumático, apoderando-se da região fragilizada à qual se sobrepõe a simbolização. O caso da Srta. Elisabeth Von R É exemplar, dado que uma parte das dores orgânicas das quais essa paciente se queixava eram reminiscências de dor, símbolo mnêmico, da época em que ela cuidara de seu pai doente. Freud esclarece que: “essa dor somática não foi criada pela neurose, mas apenas utilizada, aumentada e mantida por ela [...] (Freud; Breuer, 1893- 1895a/1980, p. 183). A propósito deste caso, Freud comenta sobre a dificuldade do diagnóstico, devido ao caráter das dores orgânicas da paciente. Por isso, ele é instrutivo também quanto ao diagnóstico diferencial entre hipocondria e conversão histérica. Gesianni Gonçalves Gesianni Gonçalves A paciente se queixava de dores na região da coxa direita, levando Freud a pensar, inicialmente, que esta localização não habitual da zona erógena repousava sobre uma alteração orgânica dos músculos. A dor muscular e reumática de Elisabeth tinha origem orgânica, porém a análise apontou para “a ocorrência de uma conversão de excitação psíquica em dor física, embora essa dor certamente não fosse percebida na ocasião em questão ou relembrada em época posterior [...] (Freud; Breuer,1893-1895a/1980, p. 162). Porém, no decorrer da fala de Elisabeth, o psicanalista descobre a verdadeira razão da formação dessa região erogeneizada. Ele diz: “uma primeira conversão haviaocorrido quando a paciente estava cuidando do pai, na época em que seus deveres de enfermeira entraram em conflito com seus desejos eróticos (Freud; Breuer,1893- 1895a/1980, p. 178). Quando cuidara do pai doente, todas as manhãs ele apoiava sua perna sobre a coxa direita da filha para que esta pudesse lhe trocar as bandagens Gesianni Gonçalves A respeito da relação simbólica entre os sintomas somáticos e as ideias ou representações que sofrem o recalque, vemos as dores de cabeça de Fräu Cäcilie associadas ao olhar penetrante da avó que, no dizer da paciente, iam direto para o seu cérebro. Freud (1915b) esclarece que o recalque constitui um processo que afeta as ideias na fronteira entre os sistemas inconsciente e consciente. Ele explana que: “na histeria de conversão, a catexia pulsional da ideia recalcada converte-se na inervação do sintoma” (Freud, 1915b, p. 212-213). O caso Fräu Cäcilie A ideia ou representação que sofre o recalque é ligada às pulsões, assim sendo, o que é recalcado é o representante da pulsão, indicando a presença de um conflito psíquico. Contudo, esse recalque nunca é definitivo e continua ativo exigindo um grande consumo de energia, mostrando que o sintoma é sustentado por duas fontes de energia: energia pulsional oriunda do inconsciente e uma quantidade menor de energia despendida pelo consciente para efetuar o recalque. Logo, o recalque não impede que o representante pulsional continue existindo no inconsciente (alimentando o sintoma) e dê origem a derivados estabelecendo ligações (Freud, 1915c). Complacência somática Os processos psíquicos em todas as psiconeuroses são os mesmos durante um extenso percurso, até que entra em cena a complacência somática que proporciona aos processos psíquicos inconscientes uma saída no corporal (Freud, 1905/1980, p. 46). Na conversão histérica os conflitos psíquicos inconscientes são expressos simbolicamente em sintomas corporais variados. Nesse caso, o sintoma somático surge como a encarnação da fantasia, uma solução de compromisso que ao impedir o acesso à consciência do conflito recalcado, permite uma realização substitutiva e disfarçada do desejo proibido Em Jacques Lacan Recusa do Corpo Fala-se, a propósito da histérica, de complacência somática. Embora o termo seja freudiano, não podemos perceber que ele é bem estranho, e que trata-se antes de recusa do corpo?” (Lacan, 1970/1992, p. 88). O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. O sintoma histérico em sua versão clássica é caracterizado pela inscrição de um significante no corpo e pela conversão de um pensamento em linguagem metafórica transcrita no corpo onde carne e funções não respeitam a anatomia. Gesianni Gonçalves O corpo, isso deveria surpreender mais...(Lacan) Encarnação da fantasia Inscrição de um significante no corpo E HOJE, COMO A HISTERIA SE MANIFESTA? “Por onde andarão as histéricas de outrora, essas mulheres maravilhosas, as Anna O., as Emmy von N.? Elas representavam não apenas um certo papel, mas um papel social certo. Quando Freud se pôs a escutá- las, foram elas que permitiram o nascimento da psicanálise. Foi a partir de sua escuta que Freud inaugurou um modo inteiramente novo de relação humana. O que substitui hoje estes sintomas histéricos de outrora? A histeria não se deslocou, no campo social?” (Lacan, 1977 – Considerações sobre a histeria) Dimensão simbólica do sintoma Sintoma // comunicação, sentido o sintoma é fundamentalmente histérico e ligado ao sentido (LINGUAGEM) EM FREUD Dimensão real do sintoma Sintoma que se escreve em silêncio diferencia o sinthoma, do sintoma histérico (clássico) quando o sinthoma é tomado em sua consistência de gozo, como letra de gozo (LALANGUE) Acontecimento de corpo EM LACAN Portanto, temos aqui uma articulação da histeria tomada como uma POSIÇÃO DO SUJEITO e a posterior discussão - lacaniana - sobre o MODO DE GOZO A importância de se localizar o fantasma e não o sintoma como o balizador da clínica 2 ALINHAVAMENTOS POSIÇÃO DE SUJEITO MODO DE GOZO MARCA DO SIGNIFICANTE Sintoma que faz traço no corpo… vinheta clínica Passemos a uma entre o orgânico e o Bolinhas ... ... somático Gesianni Gonçalves Algo da ordem da materialidade do corpo CORPO BIOLÓGICO O corpo tocado pela libido marcando o SOMÁTICO chegou à sessão queixando-se de muito nervosismo, irritabilidade e com o hábito de espremer “bolinhas” na pele do braço criando feridas avermelhadas. Os sinais visíveis em sua pele, frutos das escoriações, assim como a descrição de sua ansiedade, facilmente se enquadrariam nos critérios diagnósticos propostos pelo DSM-5 para Transtorno obsessivo-compulsivo e transtornos relacionados. Segundo o manual, esse capítulo inclui o transtorno de escoriação (skin-picking), apresentando como critério diagnóstico “beliscar a pele de forma recorrente, resultando em lesões” (DSM-5, 2014, p.254). Algo da ordem da materialidade do corpo que é ferido, sangra e cicatriza. Aquilo que surgiu como queixa manifesta no momento das entrevistas preliminares perde a ênfase (as feridas cicatrizam), dando lugar a novos fatos que indicam a tendência desse sujeito em demonstrar no corpo a sua dor psíquica. Gastrite, inchaço (edema facial) e urticárias compõem o quadro clínico dessa jovem que reclama sentir “um peso nos braços” desde o nascimento da irmã caçula, quando tinha 11 anos de idade e teve que assumir a responsabilidade de ser babá, abrindo mão dos programas e interesses comuns às meninas da sua idade. Gesianni Gonçalves A MENINA E A RELAÇÃO DE OBJETO COM A MÃE Seu dito aponta para a vivência de conflitos como a rivalidade pelo nascimento da irmã e a dúvida quanto ao lugar que ocuparia no desejo da mãe. Dúvida que põe em cheque a “dialética intersubjetiva do engodo” que é marcada por um duplo equívoco: da criança que acredita ser o falo e da mãe que Lacan, J. (1995). O falo e a mãe insaciável (1957). In:. O seminário livro 4: a relação de objeto. (1957/1995, p. 198) É esse engodo que não se sustenta quando a mãe, dessa quase adolescente, fica grávida, ganha outra filha e provoca na jovem o seu deslocamento da posição de falo imaginário da mãe. A ambiguidade de sentimentos experimentados foi fonte de angústia que atravessou a garota, trazendo consequências gravadas na pele pela perda dessa imagem, que além de estruturar o sujeito, lhe dava um lugar inscrevendo-o no desejo de alguém. Aqui vemos o corpo tocado pela libido marcando o somático. Do corpo que sangra ao sangue do corpo... Esse sujeito encontrou novos modos de saber fazer com o desejo do Outro.