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A inteligência é, portanto, o conjunto das habilidades cognitivas da pessoa, a resultante, o vetor final dos diferentes processos intelectivos. Tais habilidades permitem ao indivíduo identificar e resolver problemas novos, reconhecer adequadamente as situações cambiantes da vida e encontrar soluções, as mais satisfatórias possíveis para si e para o ambiente, respondendo às exigências de adaptação às demandas do dia a dia. As principais habilidades reunidas no construto inteligência são: • Raciocínio, • Planejamento, • Resolução de problemas, • Abstração, • Categorização, • Compreensão de ideias complexas, • Aprendizagem eficaz • Aprendizagem a partir da experiência. Definição O que caracteriza o retardo mental é um funcionamento intelectivo significativamente inferior à média das outras pessoas. Houve na infância um desenvolvimento mental incompleto ou interrompido, o que impediu uma aquisição normal das habilidades cognitivas, linguísticas, motoras ou sociais. O nível de inteligência abaixo do normal se expressa por meio de uma reduzida capacidade de abstração, raciocínio, julgamento e planejamento, e por meio de uma maior dificuldade na realização de tarefas que exijam habilidades visuoespaciais, como montar um quebra-cabeça. Exame Dos Estado Mental Além da inteligência, outras funções psíquicas costumam estar afetadas em indivíduos que apresentam retardo mental. Podem ser observados: atitude pueril; um pensamento pobre, concreto, perseverante e prolixo; exaltação e labilidade ou incontinência afetiva (episódios coléricos), ou então embotamento afetivo; hipocinesia ou hipercinesia, ecopraxia, maneirismos e perseveração motora (alterações da psicomotricidade); hipobulia ou hiperbulia, impulsividade, automutilação e alotriofagia (conação); hipoprosexia ou labilidade da atenção; desorientação alopsíquica, desorientação autopsíquica parcial; hipomnésia de fixação ou, mais raramente, hipermnésia de fixação (memória); diminuição da capacidade imaginativa; e eventualmente delírios de grandeza (pensamento). Etiologia São inúmeras as causas possíveis para um quadro de retardo mental. Elas são classificadas em: pré-natais, perinatais e pós-natais. Entre as pré-natais, podem ser citadas infecções (como rubéola), complicações obstétricas (como descolamento prematuro de placenta), aberrações cromossômicas (como a síndrome de Down) e doenças hereditárias (como fenilcetonúria). Entre as causas perinatais, incluem-se prematuridade, tocotraumatismos, infecções e asfixia. Por fim, entre as causas pós-natais estão desnutrição, cretinismo endêmico, encefalites, traumatismo craniano e falta de estimulação ambiental. Classificação As DI's são Transtornos do Neurodesenvolvimento que incluem condições de desenvolvimento comportamental e cognitivo deficitárias, que surgem durante o período de desenvolvimento da infância, geralmente antes de a criança ingressar na escola, e implicam dificuldades significativas na aquisição de funções específicas nas áreas intelectuais, sociais e motoras Prejuízo Intelectual O prejuízo intelectual nas DIs implica dificuldade significativa ou impossibilidade em áreas como juízos e raciocínios, solução de problemas, planejamento, pensamento abstrato, capacidade de aprendizagem na escola e aprendizagem por experiência. Prejuízo Em Funções Adaptativas O prejuízo em funções adaptativas nas DIs é expresso pelas dificuldades significativas ou impossibilidade da pessoa em ter uma vida independente e autônoma, com as responsabilidades sociais concernentes, considerando os padrões da sociedade e da cultura na qual vive. Indivíduos com DI necessitam de apoio, geralmente continuado, em diferentes níveis. Sem tal suporte, suas vidas serão limitadas ou prejudicadas em relação a comunicação, participação social e vida independente em variados ambientes, como em casa, na escola, no trabalho e na comunidade. Diagnóstico O diagnóstico só pode ser realizado após 5 anos; antes disso é atrasos na progressão cognitiva da criança. QI < 70. Inteligência E Deficiência Intelectual Principais Características Inteligência Características • Trata-se do grupo mais frequente de pacientes e compreende cerca de 80% de todos os indivíduos com DI. • QI na faixa de 50 a 69. • Crianças com DI leve com frequência revelam algumas dificuldades emocionais (ansiedade, depressão, às vezes com agressividade), sobretudo quando percebem que são diferentes e rejeitadas pelos colegas. • São, com relativa frequência, discriminadas na escola e podem sofrer bullying em variados graus. Domínio Conceitual 1.As aquisições no desenvolvimento neuropsicomotor dos três primeiros anos podem ser normais. A aquisição da linguagem nos primeiros anos de vida pode ter sido normal ou um pouco mais demorada; entretanto, essas pessoas são capazes de usar a fala adequadamente em situações do dia a dia. 2.Dificuldades nas habilidades escolares, como aprendizagem de leitura, escrita e matemática, e necessidade de apoio significativo para alcançar as expectativas associadas à idade. 3.Dificuldades em lidar com conceitos abstratos complexos e raciocínio lógico, além de problemas matemáticos. Domínio Social 1.Dificuldades para perceber, com exatidão e acurácia, pistas sociais na relação com pares. 2.As conversas e a linguagem indicam que seu pensamento é mais concreto e imaturo do que o de pares da mesma idade. 3.Possíveis dificuldades na regulação das emoções com os pares da mesma idade. 4.Possíveis dificuldades em lidar com a noção de risco, apresentar julgamento social imaturo, além de risco de ser manipulado pelos outros. Domínio Prático 1.Podem ser totalmente independentes em relação aos próprios cuidados (alimentar-se, vestir-se, lavar-se, controlar esfíncteres), mas precisar de apoio para realizar tarefas complexas da vida diária que envolvam, por exemplo, a organização das compras para a casa, o uso dos meios de transporte, a administração do dinheiro. 2.São potencialmente capazes de realizar atividades que requeiram mais habilidades práticas que intelectuais, como trabalhos manuais não especializados ou semiespecializados. No período adulto, podem ter vida bastante independente e autônoma e requerer apoio para situações mais complexas e mudanças ambientais abruptas. 3.No caso de se casarem e terem filhos, pode haver dificuldades significativas para lidar com os diversos desafios e exigências do casamento e da paternidade/maternidade; podem necessitar de apoio de familiares ou amigos. Características • Cerca de 10 a 15% do total da população com DI • QI na faixa de 35 a 49 Domínio Conceitual 1.A aquisição da fala e de outras habilidades no período pré-escolar é claramente mais lenta em relação à das crianças de mesma idade. 2.A aquisição escolar é bastante limitada. Os progressos em leitura, escrita, matemática, percepção e uso do tempo e do dinheiro são lentos e ficam bem atrás dos de pares de mesma idade. Apenas alguns indivíduos com esse grau de deficiência aprendem elementos de leitura, escrita e cálculo. Dificilmente vão além do primeiro ou segundo ano escolar em contextos educacionais onde não há aprovação automática. 3.São capazes de realizar tarefas e trabalhos práticos e simples se forem adequadamente estruturados e tiverem apoio nos vários aspectos do trabalho. Domínio Social 1.Há diferenças importantes em relação aos pares em termos de comportamento social e comunicação. A linguagem comunicativa é bem menos complexa do que a de pares de mesma idade. 2.Podem ter e manter amizades satisfatórias e eventualmente ter relacionamentos românticos (namorar, paquerar), mas podem apresentar dificuldades para perceber regras e pistas sociais. 3.Podem ter dificuldades para tomar decisões, e os relacionamentos interpessoais podem ser limitados pelas dificuldades de comunicação e interação social. 4.Têm necessidade de receber apoio social e na comunicação para que atividades no trabalho (geralmente tarefassimples) possam ocorrer com sucesso. 5.Muitos desses indivíduos, apesar de visivelmente deficientes e desajeitados no contato interpessoal, gostam da interação social e podem estabelecer uma conversa simples. Deficiência Intelectual Leve Deficiência Intelectual Moderada Domínio Prático 1.Uma vida completamente independente na idade adulta poucas vezes é alcançada. 2.Podem ser capazes de dar conta de atividades básicas como alimentar-se, vestir-se, controlar esfincteres e realizar higiene pessoal. 3.As tarefas domésticas, como limpar a casa, lavar pratos, arrumar as camas, podem ser aprendidas depois de paciente período de ensino. 4.Na vida adulta, necessitam de amplo apoio para o manejo de tarefas um pouco mais complexas no trabalho, para o transporte em meios coletivos e para o controle do dinheiro. 5.Epilepsia e incapacidades neurológicas e físicas são mais frequentes na DI moderada do que na leve. Características • QI de 20 a 34 • Cerca de 3 a 4% dos indivíduos com DI. • A linguagem geralmente está bastante afetada ou há quase total incapacidade na comunicação verbal Domínio Conceitual 1.Pouca ou nenhuma compreensão da linguagem escrita e de conceitos que envolvam números, quantidade, tempo e dinheiro. 2.Necessitam de cuidadores praticamente em tempo integral, bem como de grande apoio deles para a solução de problemas ao longo da vida. Domínio Social 1.A linguagem falada é muito limitada em termos de vocabulário e gramática. A comunicação falada pode ser composta de palavras isoladas, e é frequente a necessidade de uso de comunicação alternativa. 2.A comunicação se atém ao foco do aqui e agora dos eventos diários. 3.Entendem apenas comunicação com discursos simples ou comunicação gestual simples. Domínio Prático 1.Necessitam de apoio para todas as atividades cotidianas, inclusive para alimentar-se, vestir-se, tomar banho, urinar e defecar. 2.De modo geral, necessitam de supervisão em todos os momentos de suas vidas. 3.É comum que apresentem certos comportamentos mal-adaptativos, como de autolesão. Características • 1 a 2% dos indivíduos com DI • QI dessas pessoas fica abaixo de 20 • São pacientes que apresentam grave limitação da capacidade de entender (mesmo comandos simples) ou de agir de acordo com solicitações ou instruções. • Muitos dos indivíduos com DI profunda ficam restritos ao leito (devido a distúrbio motor grave), sem capacidade para a fala e sem controle voluntário dos esfíncteres. Domínio Conceitual 1.Praticamente não há processos simbólicos, as habilidades conceituais se restringem ao mundo físico; podem utilizar objetos de forma simples, de maneira direcionada a metas, também simples. 2.Podem apresentar algumas habilidades visuoespaciais (combinar e classificar), baseadas em características físicas dos objetos. Entretanto, deficiências sensoriais e motoras podem prejudicar o uso dos objetos. Domínio Social 1.Geralmente não há comunicação falada, pois a comunicação simbólica na fala e nos gestos é muito limitada. A comunicação é mais viável de forma não verbal, não simbólica. 2.Podem entender algumas instruções muito simples e gestos elementares. 3.Apreciam relacionamento com pessoas bem conhecidas, mas não conseguem iniciar interações sociais. 4.Com frequência apresentam prejuízos sensoriais e motores que impedem muitas atividades sociais. Domínio Prático 1.Dependem de outras pessoas de forma integral para todos os aspectos do cuidado físico diário. 2.Ações simples com objetos podem servir como base para algumas atividades úteis. 3.Podem gostar de ouvir música, brincar na água, sair para passear, sempre com apoio integral de outras pessoas. 4.Os prejuízos sensoriais e motores com frequência impedem maior participação na vida prática da família. Podem ter comportamentos de autolesão. Deficiência Intelectual Grave Deficiência Intelectual Grave Comparação Grau da DI QI Idade Mental Nível de escolaridade máx. % dos indivíduos com DI DI Leve 50 a 69 9 a 12 anos 7º a 8º ano do Ensino Fundamental 80% DI Moderada 35 a 49 6 a 9 anos 3º ano do Ensino Fundamental 10 a 15% DI Grave 20 a 34 3 a 6 anos Não consegue frequentar a escola 3 a 4% DI Profunda < 20 Menos de 3 anos Não consegue frequentar a escola 1 a 2% Fenótipos Síndrome Fenótipo Comportamental Síndrome de Down Melhor em habilidades visuoespaciais, pior nas verbais, dificuldade com números e para aprender escutando. QI em torno de 50, mas um subgrupo pode chegar até 70 ou mais (mosaicos). Pontos fortes: interação social, aprendizado visual, gestual e mímica; aprende vendo. Apersonalidade tende a ser afável, com boa sociabilidade. Podem ter TEA e/ou depressão (esta, sobretudo, na vida adulta). Síndrome do X frágil Limítrofe ou DI (QI geral entre 40 e 70), mais leve em garotas (QI = 60-80), e DI tendendo a grave em meninos (QI = 35-45). Pegoraro e colaboradores (2014) QI = 54,4 ± 4,6 (92% meninos). Melhor em habilidades verbais, pior nas visuoespaciais. Ponto forte em habilidades para a vida diária e autocuidado. Mais associação com TDAH hiperatividade, pouco contato visual, fala reiterativa. Sintomas de autismo ou mesmo TEA completo. Transtornos do espectro alcoólico fetal Dificuldades de memória, linguagem expressiva, matemática, atenção ecognição social. Faixa de QI muito variável, média de 60 a 80, mas amaioria se situa entre QI = 70 a 79, com média ≈ 75 (limítrofes). Pode haver hiperatividade, irritabilidade, instabilidade afetiva e agressividade. Dificuldade de socialização. Pode haver TDAH e TEA. Síndrome de Prader-Willi Melhor em habilidades visuoespaciais e pior em linguagem. QI: 61-70,média ≈ 65, mais frequente DI leve (63%), moderada (31%) e grave (6%). Pegoraro e colaboradores (2014) QI 56,4 ± 8,3. Voracidade intensa por alimentos e ausência de saciedade, que geram a obesidade. Nos primeiros anos, tendem a ser alegres e afetivos; problemas de comportamento tendem a surgir depois dos 4 ou 5 anos. Podem ter TOC, irritabilidade e impulsividade. Comportamentos obstinados, automutilação, repetição de palavras. No adulto, pode ocorrer psicose. Síndrome de Angelman Linguagem mínima ou ausente. Podem ter episódios de risos. Disposição feliz, comportamento alegre. Hiperatividade e transtornos do sono são comuns. Pode haver problemas alimentares. Crises convulsivas e tremor. Síndrome velocardiofacial Melhor em atividades verbais (embora possa haver atraso na aquisição de linguagem) e pior em habilidades visuoespaciais. QI na faixa normal inferior até DI moderada. Desatenção e hiperatividade, irritabilidade, fobias, TOC e TEA na infância. Pode haver esquizofrenia, TB e depressão no período adulto. Síndrome de Williams Bem melhor em habilidades verbais do que visuoespaciais; melhor em memória auditiva e no reconhecimento de faces. Podem ser loquazes, com tendência à distração; interesse e facilidade com música. Pior em habilidades visuoespaciais, habilidades motoras finas e planejamento perceptual motor. DI de leve a moderada (QI na faixa entre 50-60; média = 56-58; QI verbal melhor que QI de execução). Pegoraro e colaboradores (2014a) 58,9 ± 5,9. Tendem a ser cordiais e afetivos, com personalidade amigável. Muito sociáveis, confiam em estranhos, com sorriso frequente. Podem ter medo de sons altos e do contato físico. Podem ser comuns transtornos de ansiedade, TDAH, impulsividade, sintomas de autismo. Síndrome de Smith-Magenis Atraso na aquisição da fala, dificuldades em processamento sequencial (graus de DI e QI muito variáveis). Voz com tonalidade hipernasal, rouca e grave. Mais comum apresentarem problemas de sono, autolesões, letargia, estereotipias e impulsividade. No retardo mental é muito característico um comportamento pueril. Hipoprosexia (Oligofrenia Apática) Hipoprosexia consiste numa diminuição global da atividade da atenção, afetando tanto a tenacidade como a mobilidade. Há uma rápida fatigabilidade associada ao esforço para se concentrar, e ocorre um aumento do limiar deestimulação, isto é, são necessários estímulos mais intensos para atrair a atenção do indivíduo. Labilidade Da Atenção (Oligofrenia Erética) A labilidade da atenção constitui um estado de hipotenacidade com hipermobilidade da atenção. O indivíduo é incapaz de manter por algum tempo sua atenção em um mesmo objeto. É a atenção espontânea que predomina. Amnésia (Hipomnésia) Anterógrada A amnésia (hipomnésia) anterógrada também é denominada amnésia (hipomnésia) de fixação. Consiste na impossibilidade (ou dificuldade) de formar novas lembranças de longo prazo. Na maioria dos pacientes com retardo mental grave, em virtude de uma lesão cerebral, que em geral está presente, e de uma dificuldade de apercepção. Hipermnésia Anterógrada (Muito Raro) A hipermnésia anterógrada (de fixação) também é chamada de hipertrofia de memória. Consiste numa capacidade exagerada de armazenamento de novas informações. Geralmente está restrita a uma habilidade específica: memorizar uma grande quantidade de números ou nomes; reproduzir na íntegra uma música ou um texto extenso após terem sido ouvidos uma única vez; ou efetuar cálculos matemáticos muito complexos. Pode ocorrer em pessoas normais, porém é mais frequente em indivíduos com retardo mental e, mais ainda, em autistas – entre os quais a maioria apresenta também retardo mental. A associação entre o baixo nível intelectivo e a hipermnésia observada nesses indivíduos originou a expressão idiota sábio (idiot savant), criada por J. Langdon Down em 1887. A memorização se dá de forma mecânica, em geral sem que haja uma compreensão do significado do que está sendo fixado. O próprio Down relata o caso de um indivíduo que, após uma única leitura de um livro, era capaz de recitar de cor todo o seu conteúdo. Já Oliver Sacks (2000) descreve a capacidade de um rapaz autista de desenhar com incrível precisão e riqueza de detalhes prédios e lugares que tinha observado apenas rapidamente anos antes. Prolixidade A prolixidade, que foi descrita por Lipmann e Edel, caracteriza-se por um discurso repleto de detalhes irrelevantes, o que o torna tedioso; a ideia-alvo jamais é alcançada ou só o é tardiamente. Decorre de uma incapacidade de síntese, de distinguir o essencial do acessório. Alguns autores preferem utilizar os termos circunstancialidade e tangencialidade para designar esse tipo de pensamento. O que diferenciaria um do outro é que, só no caso da circunstancialidade, a ideia-alvo seria atingida. Um paciente prolixo apresenta dificuldades em responder de forma direta e objetiva a uma pergunta. Se questionado sobre, por exemplo, onde mora, ele, em vez de fornecer de imediato seu endereço, vai dar um monte de informações desnecessárias. Pode comentar que reside num local muito bonito, que lá faz muito calor, citar todas as linhas de ônibus que circulam por lá etc. Quando pressionado a ir direto ao ponto, muitas vezes vai dizer algo como “calma, que eu chego lá!”. Perseveração A perseveração, descrita por Pick, caracteriza-se por uma recorrência excessiva e inadequada no discurso do mesmo tema, ou uma dificuldade em abandonar determinado tema. Consiste numa perda da flexibilidade do pensamento. Há a fixação persistente de uma única ideia-alvo e um empobrecimento dos processos associativos. Concretismo O concretismo (ou pensamento empobrecido) caracteriza-se por um discurso pobre em conceitos abstratos, em metáforas e analogias. Há uma intensa adesão ao nível sensorial e imediato da experiência. Ocorre na demência, no delirium, no retardo mental e na esquizofrenia. Uma forma especial de concretismo seria a reificação (res 5 coisa), que consiste na utilização de expressões e símbolos, não com algo representativo, mas com coisa substantiva, concreta. Um esquizofrênico, por exemplo, que diz que roubaram seu pensamento o está vivenciando como um objeto físico. Atitude Memória Pensamento Atenção Pseudologia Fantástica A pseudologia fantástica (ou mitomania, ou mentira patológica) consiste no relato de histórias fantásticas e heroicas da qual o paciente é o protagonista; histórias essas criadas com o objetivo de impressionar os outros por pessoas muito autossugestionáveis. Os autores se dividem quanto a se há ou não crença por parte do paciente em relação à veracidade de seu relato. De qualquer modo, na pseudologia fantástica há uma exacerbação da imaginação, que estará associada a uma alteração da memória (se o paciente falsamente recorda) ou a uma alteração da atitude (se ele está mentindo). Pio Abreu (1997) cita um caso de Bumke de pseudologia fantástica. O paciente dizia falar cinco idiomas e ser engenheiro. Ingressou no exército imperial e foi enviado para a guerra na Romênia. Contou que se apresentou com o uniforme de sargento, mas fazia as refeições com os oficiais. Intitulava-se aviador e referia ter se salvado milagrosamente de uma grande catástrofe, recebendo assim medalhas e condecorações. Afirmava ainda ser filho de uma princesa, a qual, proibida pela família, não o reconhecia como tal. Uma paciente, que recebeu o diagnóstico de transtorno conversivo (histérico), referiu que via dinossauros verdes, vampiros e tigres. Os vampiros, segundo ela, eram bonitos. O tigre conversava com ela, dizia que era seu pai, já falecido, e queria beijá-la. Ela não ficava com medo quando tinha essas visões. Não tinha certeza da realidade desses fenômenos, admitindo que pudessem ser o resultado de “um distúrbio no sistema nervoso”. Na verdade, a paciente não estava alucinando ou apresentando qualquer outra alteração da sensopercepção. Esse relato, que reflete uma atividade imaginativa bastante exacerbada, foi produzido com a intenção inconsciente de parecer doente e de chamar a atenção de sua família. Hipobulia | Abulia (Oligofrenia Apática) Hipobulia e abulia significam, respectivamente, diminuição e abolição da atividade conativa. A hipobulia e a abulia caracterizam-se por uma sensação de indisposição, fraqueza, desânimo ou falta de energia; perda da iniciativa, da espontaneidade e do interesse pelo mundo externo; indecisão; dificuldade de transformar as decisões em ações; e inibição da psicomotricidade. Hiperbulia (Oligofrenia Erética) A hiperbulia caracteriza-se por um sentimento subjetivo de força, de energia, de disposição; observa-se um aumento da iniciativa, da espontaneidade e do interesse em relação ao mundo externo; costuma haver desinibição e aumento da psicomotricidade. Ocorre principalmente na síndrome maníaca. Atos Impulsivos Os atos impulsivos caracterizam-se por serem súbitos, incoercíveis e incontroláveis. São atos desprovidos de finalidade consciente. Pulam-se as etapas de deliberação e decisão do processo volitivo, indo-se direto da intenção para a ação. Presumivelmente, os atos impulsivos ocorrem em função de um aumento da intensidade dos impulsos ou de um enfraquecimento dos mecanismos de inibição e refreamento. Os atos impulsivos tornam-se patológicos quando são empaticamente incompreensíveis para o observador. Alguns comportamentos heteroagressivos, autoagressivos e suicidas, a frangofilia, a piromania, a dromomania, a dipsomania e os ataques de hiperingestão alimentar (da bulimia nervosa) podem ter as características de um ato impulsivo. Os comportamentos heteroagressivos impulsivos ocorrem de forma não premeditada, sendo muitas vezes imotivados. Podem algumas vezes resultar em homicídio. A frangofilia representa uma forma especial de comportamento agressivo. Nesse caso, a ação é a de destruir objetos – deixá-los em frangalhos –, como roupas, móveis, colchões etc. A piromania constitui uma propensão a atear fogo, provocar um incêndio. Muitas vezes trata-se de uma reação agressiva a uma contrariedade. A dromomania (poriomania, automatismo ambulatório ou fuga) consiste numa necessidade de afastar-se, de mudar de lugar, que se manifesta como uma deambulação sem finalidade ou como uma corrida súbita e imotivada. A fuga proporciona alívio para um estado dedisforia relacionado a circunstâncias do ambiente. Comportamentos Desviantes Em Relação Aos Impulsos Os comportamentos de automutilação e suicida podem ser considerados desvios dos impulsos de autopreservação. Formas leves e moderadas de automutilação ocorrem mais em pacientes com retardo mental A alotriofagia representa um desvio dos impulsos de nutrição, uma perversão do apetite, como se chamava antigamente. Consiste na ingestão de coisas estranhas ou inadequadas. Por exemplo: comer animais repugnantes (lagartixa, barata, minhoca), excrementos (coprofagia), substâncias nocivas e objetos perigosos (tinta, botões, alfinetes, sabão, etc.). Imaginação Conação Hipocinesia | Acinesia (Oligofrenia Apática) A hipocinesia (ou inibição psicomotora) caracteriza-se pela diminuição acentuada e generalizada dos movimentos voluntários. Os movimentos tornam-se lentos e são realizados com grande dificuldade. Em geral, há inibição do pensamento e da fala, empobrecimento da mímica (hipomimia), e diminuição da vontade (hipobulia). Na acinesia (ou estupor) há abolição dos movimentos voluntários. O paciente pode ficar por um longo período restrito ao leito, sem qualquer reação ao ambiente, apresentando mutismo, abolição da expressão facial (amimia), recusa de alimentos (sitiofobia) e incontinência urinária e fecal (gatismo), além de abulia. Hipercinesia (Oligofrenia Erética) A hipercinesia (ou exaltação psicomotora) caracteriza-se por um aumento patológico da atividade motora voluntária. Essa exaltação da psicomotricidade pode se dar em três níveis de gravidade: inquietação, agitação e furor (do menos para o mais intenso). Comumente a hipercinesia acompanha-se de logorreia (fala excessiva) e de heteroagressividade. Trata-se de uma alteração psicopatológica bastante comum e inespecífica, Ecopraxia A ecopraxia consiste na repetição automática e despropositada das ações motoras executadas por outra pessoa, que está diante do paciente. São imitados gestos, a postura, a fala (ecolalia) ou a expressão fisionômica (ecomimia). A ecopraxia está relacionada à sugestionabilidade patológica. Maneirismos Maneirismos são movimentos expressivos – isto é, movimentos que servem a um propósito de comunicação, tais como gestos, mímicas, vocalização – que se tornam exagerados quanto à sua amplitude, tornam-se afetados, rebuscados, estilizados ou desarmônicos, perdem sua graça natural e parecem extravagantes ao observador. Perseveração Motora A perseveração motora representa uma repetição sem sentido de uma ação motora de início executada adequadamente. Por exemplo: solicita-se ao paciente que coloque a língua para fora, o que ele faz, e, em seguida, que ele a coloque para dentro, o que ele também faz; todavia, o paciente agora passa a realizar repetidamente os mesmos movimentos com a língua sem que haja uma nova solicitação por parte do examinador. Embotamento Afetivo (Oligofrenia Apática) Embotamento afetivo (ou distanciamento, empobrecimento, esmaecimento, esvaziamento, aplainamento afetivo) significa diminuição da intensidade e da excitabilidade dos afetos, sejam eles positivos ou negativos. Nos estados de diminuição da afetividade, o doente torna-se indiferente ao meio, às outras pessoas e, algumas vezes, a si próprio, sendo a expressão emocional bastante restrita. Pode ocorrer ainda anedonia, que é a perda da capacidade de sentir prazer. Uma forma especial de embotamento afetivo é a mória, termo criado por Bruns e Jastrowitz. A mória caracteriza- se por uma alegria vazia, tola e pueril, sem conteúdo afetivo. Labilidade Afetiva (Oligofrenia Erética) A labilidade afetiva – também chamada de instabilidade ou volubilidade afetiva – constitui uma dificuldade no controle dos afetos. Caracteriza-se por mudanças do humor frequentes e bruscas, que são imotivadas ou inesperadas. Os afetos atingem grande intensidade (exaltação afetiva), mas são de curta duração. O estado afetivo está continuamente oscilando e dá verdadeiros saltos entre os diversos polos afetivos: por exemplo, o humor do paciente passa direto da alegria para a tristeza, logo após retorna para a alegria e, a seguir, passa para a irritabilidade. Incontinência Afetiva (Oligofrenia Erética) A incontinência afetiva consiste num distúrbio da regulação afetiva mais grave que a labilidade. Há uma perda completa da capacidade de controle da expressão afetiva; existe uma falha de certos mecanismos frenadores, inibitórios, adquiridos na educação e no convívio social. As reações afetivas são produzidas com grande facilidade, são exageradas, desproporcionais ao estímulo e prolongam-se em demasia. Desorientação Por Déficit Intelectivo No retardo mental, ocorre desorientação por déficit intelectivo. O paciente pode não ser capaz de compreender conceitos simples como tempo, ontem, amanhã, mês, ano etc. Psicomotricidade Afetividade Orientação Desorientação Autopsíquica A desorientação autopsíquica consiste em uma diminuição ou perda da consciência da identidade do eu. Na desorientação autopsíquica total, o paciente não sabe mais quem é, desconhece até o próprio nome. Isso ocorre no transtorno dissociativo conhecido como amnésia psicogênica, e ainda em quadros demenciais extremamente avançados. Na desorientação autopsíquica parcial, o paciente pode, por exemplo, lembrar-se do próprio nome, mas não saber sua idade. A prospecção consiste no planejamento que o indivíduo faz quanto à própria vida, e reflete a expectativa que ele tem em relação ao seu futuro. Os planos para o futuro podem estar ausentes ou presentes. Se estão presentes, podem ser adequados e exequíveis, ou então inadequados e inexequíveis – incompatíveis com a realidade do paciente. Em alguns indivíduos com retardo mental, em função do prejuízo intelectivo, noções abstratas como a de tempo podem estar ausentes, e a vida psíquica se limita à realidade imediata, sendo impossível a prospecção. Pensamento Dereístico O pensamento dito dereístico, algo semelhante ao pensamento mágico, é um tipo de pensamento que se opõe marcadamente ao pensamento realista, o qual se submete à lógica e à realidade. Aqui, o pensamento só obedece à lógica e à realidade naquilo que interessa ao desejo do indivíduo, distorcendo a realidade para que esta se adapte aos seus anseios. No pensamento dereístico, o pensar volta-se muito mais ao mundo interno do sujeito, suas fantasias e seus sonhos, manifestando-se como um devaneio, no qual tudo é possível e favorável ao indivíduo. A pseudologia fantástica e a mitomania implicam boa dose de pensamento dereístico. Na língua inglesa, utiliza-se o termo wishful thinking (tomar o desejo pela realidade) para indicar a identificação errônea dos próprios desejos com a realidade, o conjunto de crenças adotadas pelo indivíduo, crenças estas baseadas mais nos desejos que em fatos, ou seja, um aspecto do pensamento dereístico. Mitomania A mitomania deve ser diferenciada sobretudo do delírio fantástico. Ela é definida como a tendência patológica a mentir e criar mitos, de modo mais ou menos voluntário e consciente. O paciente mitômano conta longas e complicadas histórias (que mais parecem fábulas), seus feitos, suas aventuras, tudo é falso. Existem alguns subtipos de mitomania. Na mitomania maligna, o sujeito inventa histórias (orais ou escritas), cria fatos falsos e os divulga para prejudicar ou depreciar alguém (geralmente uma pessoa ingênua e confiante que vive no ambiente do mitômano). Tais mitômanos comumente se mantêm no anonimato e gozam em segredo. Já na mitomania vaidosa, mais benigna que a anterior, o sujeito, em geral fanfarrão e charlatão, busca apenas impressionar os outros para se promover. A mitomania da criança, por sua vez, é considerada menos patológica, pois expressa a inclinação natural pelo maravilhoso e pelo legendário. Consciência do Eu Prospecção Pensamento Dereístico e Mitomania