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HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE I
1. O PERÍODO PRÉ-REFORMA
 
A pré – reforma como o próprio nome sugere foi o período que
antecedeu a reforma protestante, que vai do final do século 13 a
meados do século 16. Ela é caracterizada pelo apontamento de
algumas doutrinas heréticas defendidas pelo catolicismo romano
através de teólogos e homens piedosos que não se conformaram
com as heresias e atitudes errôneas dos líderes da igreja.
Pois quando a igreja completou seu primeiro milênio, já tinha se
espalhado por todo o mundo, porém estava completamente
distanciada dos ditames da Bíblia sagrada. É nessa época que
surge alguns homens levantados por Deus, que inconformados com
as doutrinas heréticas ensinadas pela igreja, começaram a
denunciar os “erros doutrinários” da mesma. Historicamente são
chamados de “os precursores da reforma”.
1.1 Os precursores da reforma
Aqui cabe destacarmos uma síntese sobre a biografia e as doutrinas
defendidas pelos principais precursores da reforma, WALTON
(2000):
·Tomás Bradwardine (1290 – 1349), teólogo e matemático inglês,
foi nomeado arcebispo da Cantuária em (1349), morreu vítima de
peste negra. Realçava a graça de Deus na salvação.
·Gregório de Rimin (1358), era Filósofo italiano e tornou-se monge
de ordem agostiniana. Também Realçava a graça de Deus na
salvação em contraste com a doutrina das obras (Indulgências).
·João Wycliffe (1329 – 1384), foi professor da universidade de
Oxford, foi forçado a aposentar-se em consequência da revolta dos
camponeses em (1381). Traduziu a maior parte da vulgata latina
para o inglês. Seu corpo foi exumado e queimado em (1428). Ele
negava a doutrina da transubstanciação, opunha-se ao acúmulo de
riquezas e a venda de indulgências, também frisava a autoridade
das Escrituras.
·João Huss (1373 – 1415), foi Sacerdote da Boêmia, tornou-se
professor na Universidade de Praga. Foi queimado em praça pública
por ordem do Concílio de Constança. Em sua doutrina, ele definia a
igreja por uma vida semelhante à de Cristo e não pelos
sacramentos. Opunha-se a venda de indulgências e à veneração de
imagens. Reforçava a autoridade das Escrituras.
·João de Wessel (1420 – 1489), Teólogo alemão, membro dos
irmãos da vida comum, morreu na prisão depois de ser condenado
por heresia e depois de se retratar. Também negava a
transubstanciação, opunha-se a venda de indulgências e ao celibato
clerical. Frisava a autoridade das escrituras.
·Jerônimo Savanarola (1452 – 1536), era monge dominicano
italiano, foi enforcado e queimado por heresia em Florença. Pregava
contra a imoralidade papal.
·Desiderio Erasmo (1466 – 1536), humanista holandês, compilou o
texto do novo testamento grego usado por Lutero. Satirizou
impiedosamente as falhas da igreja na obra Elogio da loucura.
Atacou a incoerência e a hipocrisia na igreja.
Todos deram sua parcela de contribuição para que acontecesse a
tão almejada reforma, embora só viesse acontecer anos mais tarde
com Lutero, Zuínglio, Calvino e João knox.
A história relata que o pré – reformador João Huss, um dos mártires
do cristianismo, quando estava para ser queimado disse as
seguintes palavras ao seu carrasco: Vocês hoje estão queimando
um ganso (Huss significa "ganso" na língua boêmia), mas dentro de
um século, encontrar-se-ão com um cisne. “E este cisne vocês não
poderão queimar.” Costuma-se identificar Martinho Lutero com
esta profecia (que 102 anos depois pregou suas 95 teses em
http://googleweblight.com/?lite_url=http://pt.wikipedia.org/wiki/Martinho_Lutero&lc=pt-BR&s=1&m=327&host=www.google.com.br&ts=1518606229&sig=AOyes_R8H6N_uP5XCF9sSMS84C-K1x9QXg
Wittenberg), e costumeiramente se costuma identificá-lo com um
cisne.
 
2. QUEM FOI MARTINHO LUTERO.
Nascido em Eisleben, Alemanha, a 10 de novembro de 1483, Lutero
era filho de camponeses católicos alemães. Como era comum na
época, foi alvo de uma disciplina rígida. O menino Lutero aprendeu,
entre outras coisas, a orar aos santos, realizar boas obras e
reverenciar o papa e a igreja.
Cedo, aos 5 anos, Lutero começou a estudar latim em uma escola
local. Já aos 12 anos, foi aluno de uma escola de uma irmandade
religiosa em Magdeburg. Em 1505 recebeu grau de Mestre em Artes
da Universidade de Erfurt, e em 1505 e começou a estudar Direito.
Pouco tempo após iniciar seus estudos de Direito, Lutero resolveu
tornar-se monge e entrou no Mosteiro Agostiniano de Erfurt. A sua
ordenação foi em 1507. Em seguida, deixou o Mosteiro para ensinar
filosofia moral na Universidade de Wittenberg.
 
Continuando seus estudos, Lutero obteve o título de Doutor em
Teologia. De 1513 a 1518, ensinou Teologia Bíblica na Universidade
de Wittenberg. Nessa época, começou a tornar-se bastante
conhecido. Após certa idade, Lutero começou a ser afligido por uma
angústia que pode ser sintetizada em uma pergunta: se o coração
da pessoa é governado pelo pecado, como pode esperar salvação
diante de Deus? Por causa do que havia aprendido, procurou
resposta – e paz – através de boas obras, incluindo jejuns e
autoflagelação. Contudo, seu sentimento de incapacidade para
sentir paz diante de Deus continuou, levando-o às portas do
desespero.
 
A aflição de Lutero somente encontrou resposta no dia em que
encontrou na Bíblia a certeza de que não há como alguém merecer
o favor de Deus por causa de alguma coisa que faz; que a única
forma de alguém obter o favor Deus é através da fé em Jesus
Cristo; que é através da fé em Jesus que os pecados são perdoados
por Deus. Este entendimento, conhecido como a doutrina da
justificação pela fé, tornou-se um dos pilares do pensamento
religioso de Lutero.
A Igreja Romana da época costumava dizer que algumas pessoas
possuíam mais méritos do que tinham necessidade para serem
salvas. Por isso, o “mérito extra” dessas pessoas poderia ser
transferido – especialmente através de pagamento – para pessoas
cuja salvação era duvidosa. Lutero protestou contra esta prática,
chamada de indulgência. Em 31 de outubro de 1517, Lutero afixou
uma série de críticas – que se tornaram conhecidas como 95 Teses
– na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. As Teses eram um
protesto contra o abuso da autoridade do Papa, especialmente no
sentido de desafiar o Papa a esvaziar de graça o purgatório, já que
diz controlá-lo. Lutero também negou o ensino do “mérito extra” que
estava por trás das indulgências. Segundo Lutero, o verdadeiro
tesouro da Igreja é o Evangelho – a proclamação do amor de Deus.
A Igreja Romana ordenou que Lutero se apresentasse em Roma
para responder às acusações de heresia. Sabendo do caso, o
Príncipe da Saxônia, Frederico o Sábio, interveio e insistiu que a
audiência de Lutero fosse realizada em solo alemão. Como
resultado, uma Dieta Imperial foi realizada na cidade de Augsburgo,
em 1518. Lutero se recusou a mudar de opinião. Temendo ser
preso, fugiu de Augsburgo. As ideias de Lutero logo encontraram
adeptos em todas as regiões da Alemanha, e mesmo fora dela. A
resposta do Papa à situação foi uma bula (ordem papal),
ameaçando Lutero de excomunhão, caso não se retratasse. Em
protesto, ele queimou publicamente a bula e foi excomungado em
janeiro de 1521. Em junho de 1525, Lutero casou-se com Catarina
de Bora, uma ex-freira. Os dois tiveram seis filhos e abrigaram onze
órfãos. Lutero publicou cerca de 400 obras durante a sua vida,
incluindo comentários bíblicos, catecismos, sermões e tratados.
Também escreveu hinos para a Igreja. Partes de suas obras estão
publicadas em diversas línguas modernas.
Lutero faleceu de derrame cerebral em 1546, aos 63 anos de idade,
em sua cidade Natal, Eisleben. Seu corpo foi sepultado na Igreja do
Castelo de Wittenberg, onde, cerca de 30 anos antes, havia afixado
suas 95 Teses.
 
2.1 AS 95 TESES DE LUTERO.
 
Em 31 de Outubro de 1517, Martinho Lutero afixou na porta da
capela de Wittenberg 95 teses que gostaria de discutir com os
teólogos católicos, as quais versavam principalmente sobre
penitência, indulgências e a salvação pela fé. O evento marca o
início da Reforma Protestante
 
“Movido pelo amor e pelo empenhoem prol do esclarecimento da
verdade discutir-se-á em Wittenberg, sob a presidência do Rev.
padre Martinho Lutero, o que segue”. Aqueles que não puderem
estar presentes para tratarem o assunto verbalmente conosco, o
poderão fazer por escrito.
Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. “Amém”. (Lutero )
 
1ª Tese Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-
vos..., certamente quer que toda a vida dos seus crentes
na terra seja contínuo arrependimento.
2ª Tese E esta expressão não pode e não deve ser interpretada
como se referindo ao sacramento da penitência, isto é, à
confissão e satisfação, a cargo do ofício dos sacerdotes.
3ª Tese Todavia não quer que apenas se entenda o
arrependimento interno; o arrependimento interno nem
mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte
de modificações da carne.
4ª Tese Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a
verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se
desagradar de si mesmo, a saber, até a entrada desta
para a vida eterna.
5ª Tese O papa não quer e não pode dispensar outras penas, além
das que impôs ao seu alvitre ou em acordo com os
cânones, que são estatutos papais.
6ª Tese O papa não pode perdoar divida senão declarar e
confirmar aquilo que Já foi perdoado por Deus; ou então
faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se
desprezados, a dívida deixaria de ser em absoluto anulada
ou perdoada.
7ª Tese Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo
tempo o subordine, em sincera humildade, ao sacerdote,
seu vigário.
8ª Tese Cânones poenitendiales, que não as ordenanças de
prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar,
apenas aio Impostas aos vivos, e, de acordo com as
mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos.
9ª Tese Eis porque o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa,
excluído este de todos os seus decretos ou direitos o
artigo da morte e da necessidade suprema.
10ª
Tese
Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que
reservam e impõem aos moribundos poenitentias
canonicas ou penitências para o purgatório a fim de ali
serem cumpridas.
11ª
Tese
Este joio, que é o de se transformar a penitência e
satisfação, Previstas pelos cânones ou estatutos, em
penitência ou penas do purgatório, foi semeado quando os
bispos se achavam dormindo.
12ª
Tese
Outrora canonicae poenae, ou seja, penitência e
satisfação por pecadores cometidos eram impostos, não
depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de
provar a sinceridade do arrependimento e do pesar.
13ª
Tese
Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão
mortos para o direito canônico, sendo, portanto,
dispensados, com justiça, de sua imposição.
14ª
Tese
Piedade ou amor Imperfeitos da parte daquele que se
acha às portas da morte necessariamente resultam em
grande temor; logo, quanto menor o amor, tanto maior o
temor.
15ª
Tese
Este temor e espanto em si tão só, sem falar de outras
cousas, bastam para causar o tormento e o horror do
purgatório, pois que se avizinham da angústia do
desespero.
16ª
Tese
Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes
quanto o são um do outro o desespero completo,
incompleto ou quase desespero e certeza.
17ª
Tese
Parece que assim como no purgatório diminuem a
angústia e o espanto das almas, nelas também deve
crescer e aumentar o amor.
18ª
Tese
Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas
ações e nem pela Escritura, que as almas no purgatório se
encontram fora da possibilidade do mérito ou do
crescimento no amor.
19ª
Tese
Ainda parece não ter sido provado que todas as almas do
purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem
por ela, não obstante nós termos absoluta certeza disto.
20ª
Tese
Por isso o papa não quer dizer e nem compreende com as
palavras “perdão plenário de todas as penas” que todo o
tormento é perdoado, mas as penas por ele impostas.
21ª
Tese
Eis porque erram os apregoadores de indulgências ao
afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e
salvo mediante a indulgência do papa.
22ª
Tese
Pensa, com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às
almas no purgatório das que segundo os cânones da
Igreja deviam ter expiado e pago na presente vida.
23ª
Tese
Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das
penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são
muito poucos.
24ª
Tese
Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as
pomposas promessas do indistinto perdão,
impressionando-se o homem singelo com as penas pagas.
25ª
Tese
Exatamente o mesmo poder geral, que o papa tem sobre o
purgatório, qualquer bispo e cura d'almas o tem no seu
bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer
para com os seus em particular.
26ª
Tese
O papa faz muito bem em não conceder às almas o
perdão em virtude do poder das chaves (ao qual não
possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão.
27ª
Tese
Pregam futilidades humanas quantos alegam que no
momento em que a moeda soa ao cair na caixa à alma se
vai do purgatório.
28ª
Tese
Certo é que no momento em que a moeda soa na caixa
vêm o lucro e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a
ajuda, porém, ou a intercessão da Igreja tão só
correspondem à vontade e ao agrado de Deus.
29ª
Tese
E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser
libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com
Santo Severino e Pascoal.
30ª
Tese
Ninguém tem certeza da suficiência do seu
arrependimento e pesar verdadeiros; muito menos certeza
pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus
pecados.
31ª
Tese
Tão raro como existe alguém que possui arrependimento
e, pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que
verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos
os que se encontram.
32ª
Tese
Irão para o diabo juntamente com os seus mestres
aqueles que julgam obter certeza de sua salvação
mediante breves de indulgência.
33ª
Tese
A que acautelasse muito e ter cuidado daqueles que
dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais
preciosa graça ou dadiva de Deus, pela qual o homem é
reconciliado com Deus.
34ª
Tese
Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à
pena satisfatória estipulada por homens.
35ª
Tese
Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles
que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves
de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.
36ª
Tese
Todo e qualquer cristão que se arrepende
verdadeiramente dos seus pecados, sente pesar por ter
pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão
esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.
37ª
Tese
Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é
participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, dádiva
de Deus, mesmo sem breve de indulgência.
38ª
Tese
Entretanto se não deve desprezar o perdão e a
distribuição por parte do papa. Pois, conforme declarei, o
seu perdão constitui uma declaração do perdão divino.
39ª
Tese
É extremamente difícil, mesmo para os mais doutos
teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a
grande riqueza da indulgência e ao contrário o verdadeiro
arrependimento e pesar.
40ª
Tese
O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o
castigo: mas a profusão da indulgência livra das penas e
faz com que se as aborreça, pelo menos quando há
oportunidade para isso.
41ª
Tese
É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência
papal para que o homem singelo não julgue erroneamente
ser a indulgência preferível às demais obras de caridade,
ou melhor, do que elas.
42ª
Tese
Deve-se ensinar aos cristãos, não serem pensamento e
opinião do papa que a aquisição de indulgência de alguma
maneira possa ser comparada com qualquer obra de
caridade.
43ª
Tese
Deve-se ensinar aos cristãos proceder melhor quem dá
aos pobres ou empresta aos necessitados do que os que
compram indulgências.
44ª
Tese
Ê que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o
homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém,
não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.
45ª
Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu
próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta
dinheirocom indulgências, não adquire indulgências do
papa. Mas provoca a ira de Deus.
46ª
Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura,
fiquem com o necessário para a casa e de maneira
nenhuma o esbanjem com indulgências.
47ª
Tese
Deve-se ensinar aos cristãos, ser a compra de
indulgências livre e não ordenada.
48ª
Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa precisa
conceder mais indulgências, mais necessita de uma
oração fervorosa do que de dinheiro.
49ª
Tese
Deve-se ensinar aos cristãos, serem muito boas às
indulgências do papa enquanto o homem não confiar
nelas; mas muito prejudiciais quando, em consequência
delas, se perde o temor de Deus.
50ª
Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa tivesse
conhecimento da traficância dos apregoadores de
indulgências, preferiria ver a catedral de São Pedro ser
reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os
ossos de suas ovelhas.
51ª
Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por dever seu,
preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são
despojados do dinheiro pelos apregoadores de
indulgências, vendendo, se necessário fosse, a própria
catedral de São Pedro.
52º
Tese
Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no
mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à
indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor.
53ª
Tese
São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da
prédica de indulgências proíbem a Palavra de Deus nas
demais igrejas.
54ª
Tese
Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é
vaidade e mentira, mesmo se o comissário de
indulgências, mesmo se o próprio papa oferecesse sua
alma como garantia.
55ª
Tese
A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a
indulgência, que é a causa menor, com um sino, uma
pompa e uma cerimônia, enquanto o Evangelho, que é o
essencial, importa ser anunciado mediante cem sinos,
centenas de pompas e solenidades.
56ª
Tese
Os tesouros da Igreja, dos quais o papa tira e distribui as
indulgências, não são bastante mencionados e nem
suficientemente conhecido na Igreja de Cristo.
57ª
Tese
Que não são bens temporais, é evidente, porquanto
muitos pregadores a estes não distribuem com facilidade,
antes os ajuntam.
58ª
Tese
Tão pouco são os merecimentos de Cristo e dos santos,
porquanto estes sempre são eficientes e,
independentemente do papa, operam salvação do homem
interior e a cruz, a morte e o inferno para o homem
exterior.
59ª
Tese
São Lourenço aos pobres chamava tesouros da Igreja,
mas no sentido em que a palavra era usada na sua época.
60ª
Tese
Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade,
que estes tesouros são as chaves da Igreja, a ela dado
pelo merecimento de Cristo.
61ª
Tese
Evidente é que para o perdão de penas e para a
absolvição em determinados casos o poder do papa por si
só basta.
62ª
Tese
O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho
da glória e da graça de Deus.
63ª
Tese
Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado,
porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos.
64ª
Tese
Enquanto isso o tesouro das indulgências é sabiamente o
mais apreciado, porquanto faz com que os últimos sejam
os primeiros.
65ª
Tese
Por essa razão os tesouros evangélicos outrora foram às
redes com que se apanhavam os ricos e abastados.
66ª
Tese
Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com
que hoje se apanham as riquezas dos homens.
67ª
Tese
As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como
a mais sublime graça decerto assim são consideradas
porque lhes trazem grandes proventos.
68ª
Tese
Nem por isso semelhante indigência não deixa de ser a
mais Intima graça comparada com a graça de Deus e a
piedade da cruz.
69ª Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os
Tese comissários das indulgências apostólicas com toda a
reverência-
70ª
Tese
Entretanto têm muito maior dever de conservar abertos
olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de
cumprirem as ordens recebidas do papa, não preguem os
seus próprios sonhos.
71ª
Tese
Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras
insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências,
seja abençoado.
72ª
Tese
Quem levanta a sua voz contra a verdade das
indulgências papais é excomungado e maldito.
73ª
Tese
Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao
fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do
comércio de indulgências procedem astuciosamente.
74ª
Tese
Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão
àqueles que, sob o pretexto de indulgência, prejudiquem a
santa caridade e a verdade pela sua maneira de agir.
75ª
Tese
Considerar as indulgências do papa tão poderosas, a
ponto de poderem absolver alguém dos pecados, mesmo
que (cousa impossível) tivesse desonrado a mãe de Deus,
significa ser demente.
78 ª
Tese
Bem ao contrario, afirmamos que a indulgência do papa
nem mesmo o menor pecado venial pode anular o que diz
respeito à culpa que constitui.
77ª
Tese
Dizer que mesmo São Pedro, se agora fosse papa, não
poderia dispensar maior indulgência, significa blasfemar S.
Pedro e o papa.
78ª
Tese
Em contrario dizemos que o atual papa, e todos os que o
sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é,
o Evangelho, as virtudes o dom de curar, etc., de acordo
com o que diz 1Coríntios 12.
79ª Afirmar ter a cruz de indulgências adornada com as armas
Tese do papa e colocada na igreja tanto valor como a própria
cruz de Cristo, é blasfêmia.
80ª
Tese
Os bispos, padres e teólogos que consentem em
semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar
contas deste procedimento.
81ª
Tese
Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e
insolentemente a Indulgência, faz com que mesmo a
homens doutos é difícil proteger a devida reverência ao
papa contra a maledicência e as fortes objeções dos
leigos.
82 ª
Tese
Eis um exemplo: Por que o papa não tira duma só vez
todas as almas do purgatório, movido por santíssima'
caridade e em face da mais premente necessidade das
almas, que seria justíssimo motivo para tanto, quando em
troca de vil dinheiro para a construção da catedral de S.
Pedro, livra um sem número de almas, logo por motivo
bastante Insignificante?
83ª
Tese
Igualmente: Por que continuam as exéquias e missas de
ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve
o dinheiro recebido para o mesmo fim ou não se permite
os doadores busquem de novo os benefícios ou pretendas
oferecido em favor dos mortos, visto' ser Injusto continuar
a rezar pelos já resgatados?
84ª
Tese
Ainda: Que nova piedade de Deus e dó papa são esta,
que permite a um ímpio e inimigo resgatar uma alma
piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não
resgatar esta mesma alma piedosa e querida de sua
grande necessidade por livre amor e sem paga?
85ª
Tese
Ainda: Por que os cânones de penitencia, que, de fato, faz
muito caducaram e morreram pelo desuso, tornam a ser
resgatados mediante dinheiro em forma de indulgência
como se continuassem bem vivos e em vigor?
86ª
Tese
Ainda: Por que o papa, cuja fortuna hoje é mais
principesca do que a de qualquer Credo, não prefere
edificar a catedral de S. Pedro de seu próprio bolso em
vez de fazê-lo com o dinheiro de fiéis pobres?
87ª
Tese
Ainda: Quê ou que parte concede o papa do dinheiro
proveniente de indulgências aos que pela penitência
completa assiste o direito à indulgência plenária?
88ª
Tese
Afinal: Que maior bem poderia receber a Igreja, se o papa,
como Já O faz, cem vezes ao dia, concedesse a cada fiel
semelhante dispensa e participação da indulgência a título
gratuito.
89ª
Tese
Visto o papa visar mais a salvação das almas do que o
dinheiro, por que revogam os breves de indulgência
outrora por ele concedidos, aos quais atribuía as mesmas
virtudes?
90ª
Tese
Refutar estes argumentos sagazes dos leigos pelo uso da
força e não mediante argumentos da lógica, significa
entregar a Igreja e o papa a zombaria dos inimigos e
desgraçar os cristãos.
91ª
Tese
Se a Indulgência fosse apregoada segundo o espírito e
sentido do papa, aqueles receios seriam facilmente
desfeitos,nem mesmo teriam surgido.
92ª
Tese
Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo
de Cristo: Paz! Paz! e não há Paz.
93ª
Tese
Abençoados sejam, porém, todos os profetas que dizem à
grei de Cristo: Cruz! Cruz! e não há cruz.
94ª
Tese
Admoestem-se os cristãos a que se empenhem em seguir
sua Cabeça Cristo através do padecimento, morte e
inferno.
95ª
Tese
E assim esperem mais entrar no Reino dos céus através
de muitas tribulações do que facilitados diante de
consolações infundadas.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE II
A REFORMA NA SUÍÇA: ULRICO ZUÍNGLIO. (1484 – 1531)
 
Nasceu numa família rica da classe média, foi o terceiro de
oito filhos. Seu pai Ulrico era o magistrado chefe da cidade e o seu
tio Bartolomeu o vigário.
Fez os primeiros estudos em Basileia e Berna, e os estudos
superiores em Viena e depois em Basileia, onde, em 1506, obteve o
“Magister Sententiarum” (o título de Mestre das Sentenças de Pedro
Lombardo). No mesmo ano foi ordenado sacerdote e destinado à
paróquia de Glanora, na qual desempenhou com dedicação suas
funções pastorais, sem descurar, por isso os estudos e os contatos
com o mundo da cultura, tornando-se um convicto fautor do
humanismo.
Em 1516 foi transferido para a abadia de Einsiedeln como
capelão. Naquele santuário, a exuberância das práticas religiosas,
que, nos fiéis, raiava pela superstição e, no clero, pelas práticas
simoníacas, chocou profundamente o espírito do jovem sacerdote,
preparando-o para as ideias da Reforma Protestante que não
tardariam em vir da Alemanha.
Datam deste período os primeiros contatos com Erasmo de
Roterdã, do qual se tornou grande admirador e em larga escala
também seguidor.
Em 1519 foi transferido como cura da catedral, para Zurique,
onde em suas pregações começou a criticar com insistência as
indulgências e a comentar a Bíblia segundo o “evangelho puro”,
inspirando-se nos escritos de Lutero, que ele considerava
substancialmente na linha do reformismo de Erasmo ou pelo menos
não em antítese a ele. Mais tarde também atacou o celibato
eclesiástico e o jejum e começou a conviver com uma viúva, a qual
desposou publicamente em 1524. A partir de 1522 começou a
criticar cada vez mais radicalmente a devoção a Nossa Senhora e
aos santos, a autoridade dogmática e disciplinar dos concílios e dos
papas, o culto das imagens, a missa como sacrifício. Em vista disso,
o bispo de Constança proibiu-o de pregar, acusando-o de heresia.
A partir de 1522, ano em que se casou secretamente com
Anna Reinhard, Zwingli se empenhou na obra da Reforma. Partindo
do princípio de que só a Bíblia contém a doutrina necessária para a
salvação, preparou 67 breves artigos de fé. Neles afirmava que
Cristo é o único chefe da igreja e que a salvação se opera pela fé.
Em De vera et falsa religione commentarius (1525; Comentário
sobre a verdadeira e a falsa religião), negou o caráter sacrificial da
missa, a salvação pelas obras, a intercessão dos santos, a
obrigatoriedade dos votos monásticos, a existência do purgatório.
Afirmou o caráter simbólico da eucaristia, divergindo de Martinho
Lutero, que tomava de forma literal as palavras de Cristo “este é o
meu corpo”.
A reforma de Zuínglio foi apoiada pelo magistrado e pela
população de Zurique e levou a mudanças significantes na vida civil
e em assuntos de estado em Zurique. O governo de Zurique anulou
a proibição do bispo, introduziu a língua alemã na liturgia e aboliu o
celibato eclesiástico. A Reforma Protestante propagou-se desde
Zurique a cinco outros cantões da Suíça, enquanto que os restantes
5 ficaram firmemente do lado da fé católico-romana.
Zuínglio organizou sessões de debate teológico, nas quais os
argumentos dele e de outros protestantes eram confrontados com
os argumentos da Igreja Católica oficial. Normalmente, os seus
argumentos eram mais convincentes e estas sessões acabavam por
ser um fortalecimento da reforma. Em Janeiro de 1523, foi
organizada uma disputa em Zurique, com a presença de seiscentas
pessoas, que assistiram a uma confrontação entre Zuínglio e os
enviados do Bispo de Constança. Ao contrário do modelo medieval
(disputatio), esta forma de disputa tem lugar em local público e não
numa sessão fechada ao público, algures numa universidade, sendo
falada em alemão e não em latim. Em 1528, uma sessão
semelhante teve lugar em Berna.
Zuínglio tentou sem êxito a aliança entre Zurique, França e a
Savoia, mas conseguiu organizar uma Aliança Cívica Cristã, que em
1529já contava com vários cantões, iniciando-se a luta armada.
Decidido a pôr fim ao perigo de intervenção imperial, em face da
hostilidade dos cantões católicos, Zwingli incitou o Conselho de
Zurique a atacá-los e, ao acompanhar as tropas como capelão,
encontrou a morte em batalha, perto de Kappel am Albis, em 11 de
outubro de 1531. Crê-se que o seu cadáver foi esquartejado e dado
às chamas.
Martinho Lutero frequentemente atacava algumas afirmações
de Zuínglio. Muitas tentativas foram feitas para a aproximação dos
dois reformistas, mas nunca tiveram sucesso. Quanto à visão
teológica, a de Zuínglio tem muitos elementos em comum com a de
Lutero nas negações, mas é muito diferente dela nas afirmações.
De fato, o motivo que levou Zuínglio à Reforma é precisamente o
contrário ao de Lutero. Este último era movido por razões fideístas:
a incapacidade do homem, em virtude das quais o homem e Deus
estão separados por um abismo tão grande que nenhuma série de
intermediários jamais poderá transpor. Zuínglio, ao contrário,
apoiava-se em motivos racionalistas e humanísticos: a bondade
essencial do homem, que faz com que ele não precise de nenhuma
série de impulsos para subir até Deus, porque está em condições de
fazê-lo sozinho. A tendência racionalista da reforma zuingliana pode
ser notada imediatamente nas seguintes doutrinas: redução do
pecado original a um simples vício hereditário não merecedor de
condenação eterna e sem diminuição das forças éticas do homem;
valor positivo da Lei e não meramente negativo; felicidade eterna
acessível também aos sábios pagãos que tivessem praticado a lei
moral natural. Lutero e Zuínglio estão muito longe um do outro tanto
pelos motivos teológicos quanto pelos motivos que se propuseram
com a Reforma: enquanto Lutero que responder à questão “como
serei salvo?”, Zuínglio propõe outra: “como será salvo o meu
povo?”.
“A grande preocupação de Lutero, tanto em Erfurt quanto em
Wittenberg, era a salvação de sua alma. Não era certamente uma
angústia egoísta porque se pode dizer que ele tomou sobre si a
angústia de toda a sua época. Mas o que constituía o tormento de
Zuínglio era a salvação de seu povo.”
 
OS 67 ARTIGOS DE ZUÍNGLIO
Os 67 Artigos de Zuínglio são considerados não somente a
primeira confissão reformada, mas a primeira confissão protestante.
Ao contrário das 95 Teses de Lutero, eles não só abordaram um
vasto conjunto de doutrinas e práticas, mas deram considerável
atenção a alguns princípios basilares do novo movimento
protestante.
Zuínglio preparou estes Artigos como pontos de disputa para
a Primeira Disputa de Zurique. Esta Disputa ocorreria em 29 de
janeiro de 1523. Dependendo da conclusão desta Disputa, o
conselho da cidade decidiria ou não adotar o programa reformatório
de Zuínglio, o que acabou de fato acontecendo. Para a disputa
vieram 600 pessoas que se amontoaram no pequeno salão onde
ocorreu. Zuínglio e seus aliados se sentaram diante do ajuntamento
em uma mesa que possuía a Septuaginta, o Velho Testamento
Hebraico e o Novo Testamento em grego juntamente com uma cópia
da Vulgata Latina. Em 14 de julho de 1523 os 67 Artigos e suas
explicações foram publicados em Zurique.
 
1. Todo que diz que o Evangelho é nada sem a sanção da Igreja,
erra e blasfema contra Deus.
2. O resumo do Evangelho é que nosso Senhor Cristo, verdadeiro
Filho de Deus, nos fez conhecer a vontade de seu celestial Pai e
nos redimiu da morte e nos reconciliou com Deus por sua inocência.
3. Então, Cristo é o único caminho para salvação de todos que
foram, estão agora ou serão salvos.4. Aquele que buscar ou apontar outras portas, erra. De fato, ele é
um assassino da alma e um ladrão.
5. Então, todos que consideram outros ensinos iguais ou maiores
que o Evangelho, erram. Eles não sabem o que o Evangelho é.
6. Pois Cristo Jesus é o guia e capitão, prometido por Deus e
entregue para toda a raça humana.
7. Que ele é uma salvação eterna e o cabeça de todos os crentes
que são seu corpo, o qual é morto e incapaz de fazer algo fora dele.
8. Disto se segue, antes de tudo, que todos que vivem na cabeça
são membros e filhos de Deus. E esta é a igreja ou comunhão dos
santos, a noiva de Cristo, ecclesia catholica.
9. Se segue, em segundo lugar, que como os membros físicos são
incapazes de fazer qualquer coisa sem a cabeça os gerenciando,
assim também é impossível para qualquer um no corpo de Cristo
fazer algo sem Cristo, o cabeça.
10. Assim como uma pessoa é demente se os membros de seu
corpo fazem algo sem a cabeça, se machucando, se ferindo e se
prejudicando, assim são os membros de Cristo dementes, se
espancando e se sobrecarregando com leis insensatas, sempre que
eles empreendem algo sem Cristo, seu cabeça.
11. Disto nós vemos que os estatutos dos chamados clérigos com
toda sua pompa, riqueza, títulos e leis são a causa de toda loucura,
pois eles de forma alguma correspondem ao cabeça.
12. Assim, eles ainda agem loucamente, não por causa do cabeça
(pois o último – pela graça de Deus – alguém ainda tenta
restabelecer em nossa época), mas porque não se permite mais que
eles sejam néscios, ao invés disto, são forçados a prestar a atenção
apenas no cabeça.
13. Sempre que dermos ouvidos à palavra, nós adquirimos puro e
claro conhecimento da vontade de Deus e somos atraídos a ele por
seu Espírito e transformados em sua semelhança.
14. Portanto todos os cristãos devem fazer o máximo para que em
todo lugar o evangelho de Cristo seja pregado.
15. Pois a crença no evangelho constitui nossa salvação, e a
descrença, nossa condenação, pois toda a verdade está clara nele.
16. No evangelho nós aprendemos que o ensino e os estatutos
humanos são de nenhuma utilidade para a salvação.
17. Que Cristo é o único eterno sumo sacerdote; disto nós
deduzimos que todo aquele que pretende ser sumo sacerdote se
opõe à honra e poder de Cristo; de fato, ele o rejeita.
18. Que Cristo que se ofereceu uma vez como sacrifício é um
perpétuo e válido pagamento pelo pecado de todos os crentes; disto
segue-se que a missa não é um sacrifício, mas um memorial do
sacrifício e um selo da redenção que Cristo manifestou a nós.
19. Que Cristo é o único mediador entre nós e Deus.
20. Que Deus quer nos dar todas as coisas em seu nome. Segue-se
disto que nós não precisamos fora do tempo presente de outro
mediador senão ele.
21. Quando oramos uns pelos outros aqui na terra, nós fazemos
confiando que todas as coisas nos são dadas através de Cristo
somente.
22. Cristo é nossa justiça. Disto nós concluímos que nossas
palavras são boas à medida que elas são as de Cristo, mas à
medida que elas são nossas, elas não são nem justas nem boas.
23. Cristo rejeita as riquezas e pompas deste mundo. Disto
concluímos que aqueles que ajuntam riquezas para si mesmos em
seu nome o difamam enormemente já que eles o usam para cobrir
sua própria ganância e devassidão.
24. Todo cristão é livre de qualquer uma das obras que Deus não
ordenou e é permitido em todos os tempos a comer tudo. Disto nós
aprendemos que as dispensações a respeito de queijo e manteiga
são uma fraude romana.
25. Tempos e lugares são sujeitos aos cristãos, não o contrário;
disto nós aprendemos que aqueles que amarram tempos e lugares
roubam os cristãos de sua liberdade.
26. Nada desagrada mais a Deus que a hipocrisia. Disto nós
aprendemos que tudo que simula a bondade aos olhos humanos é
uma hipocrisia e infâmia total. Isto se aplica a vestimentas,
insígnias, tonsuras, etc.
27. Todos os cristãos são irmãos de Cristo e entre si, ninguém na
terra deveria ser elevado e ser chamado Pai. Isto anula ordens
religiosas, seitas e assembleias ilegais.
28. Tudo que Deus permite ou que ele não proibiu é permitido. Disto
nós aprendemos que é próprio para qualquer um se casar.
29. Que todos aqueles que nós chamamos “espirituais” pecam
quando, tendo descoberto que Deus não os deu a habilidade de se
manter castos, ao contrário, não se protegem através do
casamento.
30. Aqueles que fazem voto de castidade se comprometem
infantilmente ou tolamente demais. Nós aprendemos disto que
qualquer um que aceite tais votos faz injustiça a boas pessoas.
31. Nenhuma pessoa particular pode impor a exclusão sobre
ninguém, exceto a igreja, ou seja, a comunidade daqueles entre os
quais aquela pessoa a ser excomungada vive, juntamente com seu
guardião, ou seja, o ministro.
32. Somente a pessoa que causa ofensa pública pode ser banida.
33. Possessões obtidas impiamente que não podem ser restituídas
a seus donos por direito não devem ser dadas a templos, mosteiros,
monges, sacerdotes e freiras, mas ao pobre.
34. A chamada autoridade espiritual não pode justificar sua pompa
com base no ensino de Cristo.
35. Mas a autoridade temporal deriva força e afirmação do ensino e
obra de Cristo.
36. Toda autoridade judicial e a administração da justiça que a
propriedade sacerdotal se apropria para si, realmente pertence à
autoridade temporal na medida em que ela busca ser cristã.
37. Além do mais, todos os cristãos, sem exceção, devem
obediência a eles.
38. Todos os cristãos sem exceção devem obediência a eles, desde
que eles não ordenem nada que é oposto a Deus.
39. Então todas as suas leis devem se conformar com a vontade
divina de forma que elas protejam a pessoa oprimida, mesmo que
ele de fato não faça uma acusação.
40. Apenas eles estão designados a impor a pena de morte e
somente sobre aqueles que dão ofensa pública, sem com isto
incorrer na ira de Deus, a menos que ele ordene outra coisa.
41. Quando fornecem conselho e ajuda justa àqueles por quem
devem dar conta perante Deus, estes por sua vez têm o dever de
lhes dar suporte físico.
42. Se eles se tornarem infiéis e não agirem de acordo com os
preceitos de Cristo, eles podem ser depostos em nome de Deus.
43. Em resumo, o domínio de alguém que rege com Deus apenas é
o melhor e mais estável, mas o domínio de alguém que rege por seu
próprio capricho é o pior e mais inseguro.
44. Verdadeiros adoradores invocam a Deus em espírito e verdade,
sem qualquer clamor perante o povo.
45. Hipócritas fazem suas obras para serem vistos pelo povo, eles
recebem sua recompensa neste mundo.
46. Assim se segue que o salmodiar e o alto clamor, sem a devoção
verdadeira e feito por dinheiro somente, busca ou o louvor humano
ou o ganho material.
47. Uma pessoa deveria sofrer morte física ao invés de ofender ou
desgraçar um cristão.
48. Alguém que, por causa de enfermidade ou ignorância, tende a
se ofender sem qualquer causa, não deve ser deixado fraco ou
ignorante. Ao invés disto, ele deveria ser fortalecido de forma que
ele não considere como pecaminoso o que não é de nenhuma
maneira pecaminoso.
49. Eu não conheço maior ofensa que proibir sacerdotes a ter
esposas, no entanto permitindo-lhes se relacionar com prostitutas.
50. Somente Deus perdoa pecados através de Jesus Cristo seu
Filho, nosso único Senhor.
51. Quem quer que atribua isto a uma criatura rouba Deus de sua
honra e dá ela a outro que não é Deus. Isto é uma completa
idolatria.
52. Então a confissão que é feita a um sacerdote ou a um próximo
não pode ser tida como a remissão de pecados, mas simplesmente
como uma busca por conselho.
53. A imposição de atos de penitência deriva de conselho humano –
com a exceção do banimento. As penitências não removem o
pecado e são impostas meramente para dissuadir outros.
54. Cristo suportou toda nossa dor e fadiga. Assim, quem quer que
atribua a obras de penitência o que é de Cristo apenas, erra e
blasfema a Deus.
55. Quem se recusa a perdoar o pecado de uma pessoa
arrependida não pode clamar estar agindo em nome de Deus ou
Pedro, mas no do Diabo.
56. Quem quer queperdoe certos pecados somente por dinheiro é
companheiro de Simão e Balaão e o próprio mensageiro do Diabo.
57. As verdadeiras Escrituras Sagradas nada sabem de um
purgatório após esta vida.
58. A sentença daqueles que morreram é conhecida apenas por
Deus.
59. E quanto menos Deus nos deixa saber sobre isto, menos
deveríamos tentar saber sobre isto.
60. Que uma pessoa, por preocupação pelos mortos, pede a Deus
para lhes mostrar misericórdia, eu não desaprovo. Mas estipular um
tempo para isto e mentir por causa de ganho, não é humano, mas
diabólico.
61. De um caráter indelével que os sacerdotes se apropriaram para
si em tempos recentes, as Escrituras nada sabem.
62. As Escrituras não conhecem nenhum outro sacerdote senão
aqueles que proclamam a Palavra de Deus.
63. Àqueles que proclamam a Palavra de Deus, as Escrituras nos
ordenam a mostrar respeito ao dar a eles sustento material.
64. Todos aqueles que confessam seus erros, não devem ser
forçados a se reconciliar, mas deve-se permitir que morram em paz,
e sua herança deve então ser administrada em um espírito cristão.
65. Aqueles que desejam confessar seu erro serão tratados por
Deus. Então, nenhuma violência deve ser feita a seus corpos, a
menos, é claro, que eles se comportem de uma forma tão
indecorosa que ninguém possa fazer nada sem ela.
66. Todos os superiores clericais devem se humilhar
instantaneamente e levantar somente a cruz de Cristo, e não a caixa
de dinheiro. Do contrário eles perecerão; o machado é deitado na
raiz da árvore.
67. Se alguém desejar discutir comigo taxas de juros, dízimo,
crianças não batizadas ou a confirmação, eu me declaro desejoso
de responder.
 
JOÃO CALVINO (Jehan Cauvin) A SEGUNDA GERAÇÃO
DA REFORMA.
João Calvino nasceu na cidade de Noyon (França) em 10 de
julho de 1509 e faleceu na cidade de Genebra (Suíça) em 27 de
maio de 1564.
Depois do Luteranismo e do Zwinglianismo, a reforma entra
numa fase de consolidação com João Calvino.
Ao contrário de Martinho Lutero, que era um monge
agostiniano mais tarde ordenado padre e tornado professor de
Sagrada Escritura Universidade de Wittenberg, de Zuínglio, que foi
pároco em Zurique, João Calvino não é clérigo, mas apenas leigo.
Também enquanto os primeiros reformadores são germânicos, ele é
francês.
João Calvino, tal como Lutero e Zuínglio É também um
homem de profunda piedade enraizada numa fé confiante na
justificação pela graça de Deus.
Aos 12 anos vai para Paris, para estudar Teologia, como
bolseiro da Igreja Católica, por enquanto estava destinado ao
sacerdócio. Em Paris, frequenta o colégio Montaigu, onde aprende
filosofia e a arte da discussão. Inácio de Loyola é seu
contemporâneo no referido colégio.
Alguns anos depois, troca o estudo das Letras pelo Direito.
Obtida a licenciatura em Direito, torna-se professor na universidade
de Orleães.
Influenciado pelo humanismo Erasmo de Roterdã, é levado a
aprender grego, a estudar a Bíblia e os Padres da Igreja, sobretudo
Santo Agostinho.
Em muitos países a Reforma Protestante foi combatida de
forma bastante violenta. Milhares de protestantes foram presos pela
Inquisição (Tribunal do Santo Ofício) em toda a Europa, com muitos
deles sendo condenados à morte. E, na França, tradicionalmente
um reino aliado ao Vaticano, não foi diferente. Neste país, os
protestantes foram perseguidos e presos. Em consequência a isso,
muitos se refugiavam na vizinha Suíça.
João Calvino (1509-1564) foi um desses tantos protestantes
franceses que fugiram para o território suíço. Na Suíça, Calvino
entrou em contato com as ideias humanistas e, principalmente, teve
acesso à literatura grega antiga. Esse contato com a literatura
clássica e humanista foi muito importante para aquilo que Calvino
iria desenvolver em sua teologia.
Calvino, apesar de ter mantido quase todos os princípios
formulados por Martinho Lutero, desenvolveu uma teologia própria,
mas que tinha uma diferença muito importante: a Doutrina da
Predestinação. Nesta doutrina, influenciada na crença grega no
destino, Calvino afirmava que Deus, o único com conhecimento
sobre o futuro, já sabia, desde sempre, quem eram as pessoas que
seriam salvas por Ele, assim, como já sabiam quem não seria.
A teoria da predestinação de Calvino nasceu da sua crença
na presciência absoluta de Deus, e da firma convicção, robustecida
pelas suas leituras de São Paulo e Santo Agostinho, de que o
homem é incapaz de se salvar pelas suas próprias ações; somente
pode ser salvo pela imerecida graça de Deus, livremente concedida.
De acordo com Calvino, a fé não era o caminho para a
salvação, para ele, a fé era o sinal de que o fiel estava predestinado
à salvação. Com isso, o calvinismo se afastava daquilo que Lutero
havia defendido, ou seja, que a salvação somente era alcançada por
meio da fé em Jesus Cristo.
Mesmo contrariando a Lutero, a Doutrina da Predestinação
se tornou muito popular na Suíça. Mas quando as ideias de Calvino
chegaram às pessoas comuns, uma dúvida foi gerada: Como posso
saber se sou ou não salvo?
A resposta dos seguidores de Calvino era bastante simples.
Segundo os Calvinistas, a garantia de que alguém havia sido
predestinado por Deus à salvação estava em seu sucesso pessoal,
ou seja, uma pessoa próspera e bem sucedida (profissão, saúde,
família, etc.) demonstrava o favor de Deus para com ela. Portanto, o
próspero tinha a garantia de sua salvação, pois onde a planta de
seus pés pisasse iria prosperar. Mas, o contrário também era
verdadeiro. Pois, aquele que não prosperasse dava demonstrações
de que não estava predestinado à salvação.
 
O reflexo maior desta doutrina foi que, ao contrário dos
católicos, os calvinistas passavam a defender a riqueza pessoal.
Assim, a riqueza e o lucro deixavam de ser pecado para se
tornarem em sinais do favor divino e, também, numa forma de
glorificar a Deus. Como a Igreja Católica condenava os lucros e a
riqueza pessoal, os burgueses adotaram, quase que integralmente,
a nova fé.
Mas ao contrário de outras vertentes protestantes, o
calvinismo não se desenvolveu em uma igreja específica, mas como
doutrina que seria aceita em algumas igrejas protestantes já
existentes. Assim, a doutrina calvinista obteve uma grande
aceitação na Suíça (onde surgiu), de lá se espalhando por toda a
Europa, especialmente, na Escócia (onde fizeram muitos adeptos
entre os presbiterianos), na Inglaterra (puritanos, quakers e outros),
na Holanda (reformados) e na França (onde ficaram conhecidos
pejorativamente como huguenotes).
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE III
Igreja Anglicana e a Reforma na Inglaterra
A Reforma Religiosa foi um processo de oposição à Igreja
Católica que ocorreu em diversas regiões do continente europeu.
Geralmente estudamos três principais casos de Reforma Religiosa
no século XVI: a Luterana, a Calvinista e a Inglesa (Anglicana).
Diferentemente das demais, a Reforma Religiosa na
Inglaterra ocorreu a partir da iniciativa de um rei, e não de teólogos
críticos às doutrinas e práticas do clero católico. O motivo que levou
o soberano inglês Henrique VIII (1491 – 1547) a se desligar da
Igreja de Roma foi a não aceitação de seu pedido de divórcio
enviado ao papa Clemente VII.
Henrique VIII era casado com Catarina de Aragão, nobre de
origem espanhola. O motivo do pedido seria o fato de sua esposa
não lhe dar um filho homem, situação que impossibilitava ao
soberano inglês deixar em seu lugar no trono da Inglaterra um
descendente seu. Dos seis filhos de Catarina, apenas a princesa
Maria sobreviveu. O interesse de Henrique VIII era casar com Ana
Bolena, uma dama da corte da Inglaterra, e com ela poder ter um
filho que o sucederia. Como não foi aceito o pedido pelo papa, o rei
inglês declarou seu divórcio da rainha através de um tribunal
nacional, em 1533. Um ano depois, Henrique VIII foi excomungado
por Clemente VII.
Porém, não foi apenas a não aceitação do divórcio pelo papa
que levou Henrique VIII a romper com a Igreja Católica. Problemas
políticos entre Inglaterra e Roma vinham desde a Guerra dos Cem
Anos (1337-1453),quando os altos dignitários católicos, localizados
em Avignon, estavam mais próximos dos franceses que dos
ingleses, durante o chamado Cisma do Ocidente. Havia ainda sérias
críticas ao clero católico na Inglaterra desde ao menos o final do
século XV, cujo principal expoente foi John Wycliff. Tais críticas eram
tanto doutrinárias quanto sobre o comportamento luxuoso dos
clérigos católicos em momentos de penúria econômica da
sociedade inglesa.
Após Henrique VIII ser excomungado, foi decretado na
Inglaterra o Ato de Supremacia, pelo qual o soberano inglês
passava a ser o chefe supremo da Igreja da Inglaterra. Com essa
medida, era criada a chamada Igreja Anglicana. O rei inglês
passava a ter o poder de nomear os ocupantes dos cargos
eclesiásticos, além de decidir sobre assuntos de ordem religiosa. A
estrutura eclesiástica foi mantida, adotando-se, porém,
posteriormente, a doutrina teológica desenvolvida por João Calvino.
No aspecto econômico, o Estado Inglês confiscou todos os
bens da Igreja Católica, principalmente as terras dos mosteiros, que
foram vendidas a vários nobres, comerciantes e fazendeiros. Tais
medidas agradaram aos gentry, membros da pequena nobreza
ligados ao comércio e às atividades econômicas do nascente
capitalismo.
Por ironia dos acontecimentos, Henrique VIII não conseguiu
ter um filho homem com Ana Bolena. A filha do casal, Elizabeth,
tornar-se-ia rainha anos depois. Ana Bolena foi acusada de traição
extraconjugal, condenada e decapitada em 1536. Henrique VIII
ainda se casou mais quatro vezes, sendo que no terceiro
casamento, com Joana Seymour conseguiu ter um filho homem,
Eduardo, que o sucederia. Seu quinto casamento também terminou
de forma trágica, já que sua esposa Catarina de Howard foi também
decapitada em decorrência de ações extraconjugais.
Os contemporâneos de Henrique VIII, durante seu auge,
consideraram Henrique um rei atraente, bem educado e realizado, e
ele já foi descrito como "um dos governantes mais carismáticos a
ocupar o trono inglês". Além de reinar com poder considerável,
Henrique também escrevia e compunha. Seu desejo de ter um
herdeiro homem – em parte por causa de sua vaidade pessoal, por
acreditar que uma mulher não seria capaz de consolidar a dinastia
Tudor – levaram às duas coisas pelas quais Henrique é mais
lembrado: seus seis casamentos e a Reforma Inglesa. Ele tornou-se
obeso mórbido e com saúde fraca, contribuindo para sua morte em
1547. Ele é frequentemente caracterizado ao final de sua vida como
concupiscente, egoísta, severo e inseguro.
O anglicanismo consolidar-se-ia na Inglaterra apenas com o reinado
de Elizabeth I (1558-1603), depois de sua irmã Maria Tudor tentar
restaurar o catolicismo no reino.
 
O CONCÍLIO DE TRENTO (A CONTRARREFORMA).
O Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, foi o 19º
Concílio Ecumênico da Igreja Católica. Foi convocado pelo Papa
Paulo III para assegurar a unidade da fé e a disciplina eclesiástica.
Também foi guiado por outros Papas, Júlio III, Paulo IV, Pio V,
Gregório XIII e Sisto V, com a duração de 18 anos no contexto da
reação à divisão então vivida na Europa devido à Reforma
Protestante, razão pela qual é denominado também de Concílio da
Contrarreforma.
 
Contexto histórico e objetivos.
O Concílio de Trento foi uma reação da Igreja Católica à
Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero na primeira
metade do século XVI. Com o crescimento do protestantismo na
Europa, a Igreja Católica buscou uma reação, que ficou conhecida
historicamente como Contrarreforma.
Dentro deste contexto, o Concilio de Trento buscou condenar
as novas doutrinas protestantes, além de reafirmar os dogmas da fé
católica. Muitas das decisões tomadas pela Igreja Católica foram no
sentido de combater as ideias protestantes, muitas delas
consideradas heréticas. Vários decretos disciplinares também foram
aprovados pelo concílio, visando principalmente à moralidade e a
adoção de medidas para melhorar o nível de instrução dos membros
do clero (principalmente padres).
O Concílio Tridentino foi convocado pelo papa Paulo III com a
bula Laetare Jerusalem (19-11-1544) e aberto em 13 de dezembro
de 1545. A bula papal destinava ao concílio as seguintes tarefas: a
condenação dos erros em matéria de fé, a reforma dos abusos, a
reconstituição da unidade da Igreja, a cruzada contra os turcos.
Tiveram direito a voto (com o método de votação por cabeça) os
cardeais, os bispos residenciais, os gerais das Ordens religiosas e
os representantes das congregações monásticas. Estiveram
presentes, embora sem direito a voto, numerosos teólogos,
representantes das mais diversas correntes teológicas, e os
embaixadores dos príncipes católicos. Os trabalhos do concílio
articularam-se mediante as congregações dos teólogos (reuniões de
caráter privado e meramente consultivo), as congregações gerais
dos padres (em que cada qual com direito a voto exprimia o seu
parecer acerca das propostas de dogma ou de reforma) e as
sessões solenes, que sempre ocorreram na catedral de Trento e em
que se votavam definitivamente os decretos convencionados. Das
dez sessões solenes desse primeiro período (oito em Trento e duas
em Bolonha), a mais importante foi à quarta (8-4-1546), em que foi
promulgado o decreto sobre a Sagrada Escritura (da qual foi
estabelecido o cânon) e sobre as tradições apostólicas orais que
devem ser acolhidas com a mesma reverência que a Sagrada
Escritura. Na mesma sessão, foi aprovado o decreto sobre a edição
Vulgata da Bíblia, ou seja, foi decidida a atribuição de autenticidade
jurídica à tradução latina da Bíblia realizada por são Jerônimo, que a
Igreja já utilizava havia séculos.
Na quinta sessão (17-6-1546), foi aprovado o decreto sobre o
pecado original voltado tanto contra algumas instâncias otimistas
pelagianas como contra o pessimismo luterano que afirmava que o
pecado original permanecia mesmo após o batismo.
Na sexta sessão (13-1-1547), foi aprovado o decreto sobre a
justificação, estruturado em 16 capítulos, em que se expunha a
doutrina a ser aceita como verdadeira e, em 33 cânones, em que se
condenavam os erros. Esse decreto, um dos mais importantes do
Concílio Tridentino, constitui a resposta do magistério da Igreja à
doutrina da graça e da justificação de Lutero e enfatiza que, na obra
de justificação, a vontade humana atua juntamente com a graça
divina, rejeitando assim a noção protestante de justiça puramente
imputada.
Na sétima sessão (3-3-1547), foi aprovado por unanimidade o
decreto sobre os sacramentos, sinais eficazes da graça instituídos
por Cristo, para os quais se reforçou o número de sete sacramentos.
Além desses decretos dogmáticos, nesse primeiro período do
concílio também foram aprovados alguns decretos de reforma, como
os que versavam sobre a obrigação de residência dos bispos, a
atribuição de benefícios eclesiásticos e o ensino de teologia e da
Sagrada Escritura nas catedrais e nos conventos.
Paulo III decreta a suspensão do Concílio de Trento Inaugurado
com a presença de 31 bispos, a maioria italianos, sob a presidência
dos legados papais, os cardeais Giovanni del Monte, Marcello
Cervini e o inglês Reginald Pole, o Concílio de Trento foi suspenso
por Paulo III em 1549, em decorrência da epidemia de tifo petequial
e da transferência do concílio para Bolonha, também com o objetivo
de subtrair-se à excessiva ingerência de Carlos V. Reabertura do
Concílio de Trento Reaberto em 1551, após a suspensão, pelo papa
Júlio III, sucessor de Paulo III, o Concílio de Trento chega a ter seis
sessões solenes, mas é novamente suspenso em abril de 1552,
devido ao fracasso das negociações com os protestantes e à traição
de Maurício da Saxônia, que passara a apoiar os franceses.
Contudo, no decorrer dessas sessões, o Concílio não deixou
de discutir e aprovar importantes decretos, como os que versavam
sobre a presença real de Cristo na Eucaristia (doutrina da
transubstanciação), sobre a penitência (necessidade da confissão
auricular) e sobre a extrema-unção. Com Pio IV termina a última
convocação do Concílio de Trento (1562-1563).O Concílio de Trento foi retomado novamente, sobretudo graças ao
papa Pio IV, sucessor de Paulo IV. Caracterizado por uma presença
cada vez maior de padres, nesse terceiro período do Concílio foram
realizadas nove sessões solenes. Na de 26 de fevereiro de 1562 (a
XVIII sessão solene do Concílio), foi promulgado um decreto
determinando a redação de um novo Índice de livros proibidos. Na
sessão de 16 de julho de 1562 (a XXI), foi aprovado o decreto sobre
a comunhão “sub utraque specie”, que afirmava a presença real de
Cristo sob cada uma das duas espécies do pão e do vinho. Na XXII
sessão, de 17 de setembro, tratou-se do sacrifício da missa. Na
sessão de 15 de julho de 1563 (a XXIII), a mais frequentada,
discutiu-se o sacramento da ordem sagrada. Dentre outros, destaca-
se o cânon XVIII com o qual foram instituídos os seminários
diocesanos para a formação intelectual e pastoral dos chamados ao
sacerdócio.
Na XXIV sessão, de 11 de novembro de 1563, foram promulgados
um decreto dogmático sobre o sacramento do matrimônio e
numerosos decretos disciplinares referentes aos sínodos
diocesanos anuais, aos concílios provinciais trienais, às visitas
pastorais, à pregação, à instrução religiosa do povo, à atribuição de
benefícios eclesiásticos.
A última sessão solene (a XXV) estendeu-se
excepcionalmente por dois dias, de 3 a 4 de dezembro de 1563, e
abordou questões dogmáticas relativas ao purgatório, às
indulgências, ao culto aos santos, à veneração das imagens de
Cristo, de Nossa Senhora e dos santos, além de várias questões
disciplinares. A assembleia conciliar foi encerrada pelo cardeal
Morone, que teve papel importante no projeto de reforma desse
terceiro período do Concílio, cabendo ao papa Pio IV aprovar todos
os decretos conciliares, conferindo-lhes força de lei. Em 13 de
novembro de 1564, o próprio papa publicou a “Professio fidei
tridentina” com uma profissão de fé relativa a todas as decisões
dogmáticas do Concílio e uma promessa de obediência à Santa Sé.
 
Decisões do Concílio de Trento.
- Condenação à venda de indulgências (um dos principais motivos
da Reforma Protestante, que foi duramente questionada por
Martinho Lutero).
- Confirmação do principio da salvação pelas obras e pela fé.
- Ressaltou a importância da missa dentro da liturgia católica.
- Confirmou o culto aos santos e à Virgem Maria.
- Reativação da Inquisição (Tribunal do Santo Ofício).
- Reafirmou a doutrina da infalibilidade papal.
- Confirmou a existência do purgatório.
- Confirmação dos sete sacramentos.
- Proibição do casamento para os membros clero (celibato clerical).
- Criação de seminários para a formação de sacerdotes.
- Confirmação da indissolubilidade do casamento.
- Medidas e decretos visando à unidade católica e o fortalecimento
da hierarquia.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE IV
CIÊNCIAS ECLESIÁSTICAS — CONTROVÉRSIAS TEOLÓGICAS
Revolução religiosa e cultura antieclesiástica
 
CIÊNCIAS ECLESIÁSTICAS — CONTROVÉRSIAS TEOLÓGICAS
Reflorescimento das ciências — Literatura religiosa
Uma das mais belas manifestações da vida católica, no
princípio da idade moderna, foi o reflorescimento das ciências
teológicas. A própria pseudo-reforma lhes deu novo impulso; pois os
ataques dos inovadores obrigaram os teólogos católicos a examinar
c fundamentar mais solidamente os pontos principais da sua
doutrina. Ainda mais feliz e eficaz foi o trabalho grandioso das
diversas comissões do concilio tridentino. O humanismo que, nos
decênios anteriores, tinha sido causa da dissolução, fez-se agora
instrumento exímio da teologia.
Foi principalmente na Espanha e na Itália, em segundo lugar
também tia França c na Bélgica, que a nova vida científica começou
a prosperar. Dominicanos, franciscanos e jesuítas foram os seus
maiores representantes. Segundo assunto e forma podemos
distinguir cinco espécies de trabalhos teológicos: exegéticos,
apologético-polêmicos, escolásticos, místicos e histórico-patrísticas.
Os estudos exegéticos já eram cultivados com êxito antes da
reforma protestante. O espírito crítico do humanismo e o estudo das
línguas grega e hebraica tiveram um resultado salutar. As
controvérsias sobre o princípio escriturístico dos protestantes lhe
deram mais um forte impulso. “E os decretos tridentinos sobre
cânon, inspiração contexto autêntico deram lhe as diretrizes e
inauguraram o ‘‘século áureo da exegese católica”.
Foram base dos estudos as melhores edições que se fizeram
no século XVI: a compiutense do cardial Ximenes (151417), o Novo
Testamento de Erasmo de Roterdam (1516) e a Vulgata Sixto-
Clementina. Distinguiram-se entre os exegetas os jesuítas
espanhóis Afonso Salmeron (m. 1586), João Maldonado (m. 1583) e
Francisco Toledo (ni. 1596), os flamengos Guilherme van Esf (m.
1613) e Cornélio vanden Steen (a Lapide, m. 1637), e os italianos
Xisto de Sena O. P. e Antônio Possevino S. J. (m. 1611). Os seus
trabalhos foram tão profundos e tão vastos que séculos inteiros se
alimentaram de seus frutos.
 
No tempo da pseudo-reforma eram naturalmente de principal
interesse a apologética a polêmica. Também este ramo da teologia
teve, desde o princípio, exímios representantes. Os primeiros foram
João Eck e todos os teólogos católicos que defenderam a Igreja
contra os inovadores da Alemanha e da Inglaterra, na primeira
metade do século XVI.
Na segunda metade do século, tornaram-se baluartes da
Igreja o cardial-bispo Hósio de Ermlándia (m. 1579), são Pedro
Canisio (m. 1597), Possevino e, mais do que todos, o cardial
Roberto Belarmino (1542-1621). Este ilustre príncipe da igreja
nascera de antiga família italiana, entrou na companhia de Jesus,
lecionou cm Lovaina e Roma e foi, em 1559, criado cardial. Pio XI
elevou-o às honras dos altares (1923), inscreveu o seu nome no
catálogo dos santos (1930) proclamou-o doutor da Igreja (1931). Os
três volumes das suas Dispiitationes de controvórsiis christianae
fidei (ed. Ingolst. 1586-93) foram, por longo tempo, a obra mais
eminente deste gênero e ponto central das controvérsias entre
católicos e protestantes. A teologia especulativa e sistemática deve
a sua restauração ao cardial Caetano e, principalmente, aos
teólogos espanhóis Francisco de Vitória (ni. 1546), pai da escola
dominicana de Salamanca, e a seus discípulos Melquior Cano (ni.
1560), fundador da nova metodologia teológica e da teologia
fundamental (Loci theologici), e Domingos de Soto (m. 1560).
Baseavam-se nos princípios filosóficos e teológicos dos grandes
escolásticos do século XIII, Os próprios papas lhes mostraram o
caminho, declarando santo Tomas de Aquino (1567) e são
Boaventura (1587) doutores da Igreja. Grande influencia exercia
João Duns Scoto. Os jesuítas, embora votassem profunda
veneração ao Aquinate, adotaram, todavia certo ecletismo, o que
deu motivo a uma viva reação e acaloradas e pouco frutíferas
controvérsias. Assim, pois, se agrupam os dogmáticos deste
período nas escolas das três ordens principais.
A escola tomística teve à frente os discípulos imediatos e
mediatos de Francisco de Vitória, Domingos Baiáez (m.1604) e
Bartotomeu de Medina (m. 1581) são os mais notáveis. As suas
obras se completam, formando um todo. A sua doutrina é
considerada como tipo clássico da teologia tomística. Seguiram-nos
os carmelitas reformados que, no Cursus Salmanticensis in
Summam Sancti Thomae (! 5 vol.), nos deram a obra mais
grandiosa e mais perfeita da escola.
A escola franciscana do escotismo teve igualmente grande
florescimento, iniciado pelo irlandês Lucas Wadding (m.1637), autor
dos Annales Mhmrum. Criou em Roma o colégio de Santo Isidoro
como centro da filosofia e teologia escotística e fez aparecer uma
coleção completa das obras de Duns Scoto. Numerosos teólogos da
Espanha e da Itália seguiram o grande mestre. Parecia mesmo, por
algum tempo, que o escotismo ia tomar a dianteira às demais
escolas, dizendo o teólogo cisterciense Caramuel: “Scoti schola
numerosior est aliis sirmil sumptis”.
A escola dos jesuítas é filha da escola de Salamanca. O
cardial Francisco Toledo, já conhecido comogrande exegeta, fora
discípulo de Domingos Soto. Foi ele que transplantou o método
daquela escola ao colégio romano. Seguiram no caminho por ele
indicado Gregório de Valência, Gabriel Vasquez (m. 1604), Diogo
Ruiz de Montoya (m. 1632) e Francisco Suarez, todos espanhóis.
O maior de todos eles é talvez o maior teólogo post-tridentino
foi Francisco Suarez (1548-1617). Nascido em Granada de antiga
família de cavaleiros visigóticos que, repetidas vezes, se distinguira
nas lutas contra os mouros da Espanha, entrou na companhia de
Jesus e foi, em 1597, por Felipe II chamado à universidade de
Coimbra. Foi ali que, nos últimos vinte anos da sua vida, a sua
atividade teológica atingiu o apogeu. Suarez foi um gênio
universalista. Diversos papas o chamaram “Doctor eximius”.
Bossuef o designa como teólogo “dans lequel on entend toute
Lécole moderno”. Por seus tratados metafísicos influenciou até as
universidades protestantes da Alemanha e dos Países Baixos, e sua
sociologia é acolhida, até em nossos dias, com crescente simpatia.
À mesma escala pertencem ainda os espanhóis Luiz Molina
(cfr. § 159), José Martínez de Ripalda (m. 1648) e João de Lugo (m.
1660), o italiano Pedro Sforza Pallavicmi (m.1667), historiador do
concilio tridentino, o belga Leonardo Léssio (cfr, § 159) e o alemão
Adão Tunner (m. 1632), digno discípulo de Gregório de Valência. O
jesuíta francês Dionísio Peíau (m, 1652) lançou, pelos cinco'
volumes do seu De theologicis dogmatibus (ed. Paris 1644-50), o
fundamento da história do dogma.
Dez anos depois da morte de Suarez, nasceu o mais célebre
teólogo da época de Luiz XIV, jaeques Bénigne Bossuet (m. 1704).
Discípulo dos jesuítas em Dijon; estudou mais tarde filosofia e
teologia em Paris. Conhecedor exímio, dos Santos Padres, tornou-
se estrênuo defensor da Igreja contra os protestantes. A esta luta
serviram os seus escritos Exposition de la dodríne catholique sur les
matières des controverses (1671) e Histoire des variations des
èglises protestantes (1688). Combateu também o quietismo e
imortalizou o seu nome particularmente como grande orador sacro.
Pio X chamou-o “gênio cristão, glória da França e da humanidade”
(AAS 1911, 405-06).
A teologia moral era tratada, como na idade média,
juntamente com a dogmática, sendo os maiores dogmáticos
também grandes moralistas. Mas, desde fins do século XVI, formou-
se uma disciplina à parte, acentuando-se, mais e mais, o tratamento
casuístico, não sem excessos e defeitos. Daí nasceram vivas e
acaloradas controvérsias entre os diversos sistemas do laxíssimo,
condenado pelos papas Alexandre VII e Inocêncio XI (DB 1101 ss),
e do rigorismo, condenado por Alexandre VIU (1b. 1291 ss). O
probabilismo, fundado pelo dominicano espanhol Bartolomeu de
Medina (m. 1581) e adotado, em seguida, pelos jesuítas, foi
combatido pelos jansenistas rigoristas e pelos dominicanos
tucioristas. Mais tarde, Afonso de Ligório (m. 1787) fundou o
equiprobabilismo, procurando mediar entre os extremos.
O direito canônico teve o seu florescimento no fim do século
XVII e no principio do século XVIII, sendo os seus representantes
mais dignos o franciscano Reífíenstuh e o jesuíta Schmalzgruber.
A teologia histórica, tão negligenciada na idade média, teve,
neste período, um belo florescimento em todos os seus ramos.
Despertara, no tempo do humanismo, a crítica histórica, c os
inovadores obrigaram os católicos a defenderem a Igreja pela
história.
Os primeiros representantes da arqueologia cristã são o
eremita agostiniano Onófrio Panvini (m. 1568) e o sacerdote secular
Antônio Bosio (m. 1629), que imortalizou o seu nome pela célebre
Roma sotterranea. 0 piedoso cardial oratoriano Cesário Barônio (ni.
1607), prefeito da biblioteca vaticana. opôs aos centuriões
magdeburgenses os doze volumes de seus Annales ecclesiastici
(ed. Roma 15S8-1617).
O cardial Bellarmino publicou uma rica história literária, De
scríptoribus ecclesiasticis (ed. Roma 1613). O cartuxo Lourenço
Surius compilou a Vida dos santos.
Um centro admiravel de estudos históricos foi à congregação
beneditina dos maurinos. O abade Lucas d’Achéry deu a seus
monges as diretrizes. O maior de entre eles foi João MabiHon (m.
1707) que, nos Ada Sandorum 0. 5 B.(9 vol.) e Annales O. S. B. (6
vol.) escreveu a primeira história crítica da sua ordem. Outros
historiadores eminentes da escola foram Thierry Ruinart (m. 1709),
Pierrc Coustant, Bernard de Montfaucon, Pierre Sabatier. Tillemont
(m. 1698), Ughelli (m. 1670) e Fleury (m. 1723) imitaram-lhes o
exemplo. Os dominicanos Noel e Orsi e muitos outros pertencem,
pela maior parte da sua vida, ao século XVII1.
A eloquência sacra celebrou os seus triunfos mais belos na
França, sendo os mais brilhantes oradores os bispos Bossueí,
Fénelon e Massillon, e o jesuíta Bourdaloue. Na Alemanha fez ouvir
a sua voz original e espirituosa o eremita descalço de santo
Agostinho Abraão a Sancta Ciará (m, 1709), Também o capuchinho
Martinho de Cochem (m. 1712) desenvolveu uma atividade
abençoada por suas pregações e livros. Na Itália floresceram o
grande jesuíta Paulo Segneri (m. 1694) e o capuchinho Marcos de
Aviano.
Finalmente, também a literatura ascético-mística produziu
flores magníficas, sobretudo na Espanha. As figuras mais eminentes
da mística moderna pertencem à ordem dos carmelitas descalços.
Santa Teresa de Jesus (m. 1582) é a poetisa clássica da Espanha, e
seu amigo espiritual são João da Cruz (m. 1591) é um dos mais
brilhantes poetas místicos de todos os tempos (cfr. § 146). Muitos
outros carmelitas poderiam ser aqui enumerados.
Entre os escritores místicos da ordem beneditina têm o
primeiro lugar Garcia dc Cisncros (m. 1510) e o grande Luiz Blósio
(m. 1566). A ordem dominicana é representada por Luiz de Granada
(nr. 1588), Bartolomeu dos Mártires (tn. 1590) e Luiz Chardon. Os
franciscanos possuem a mística ardente cie João dos Anjos (m.
1609) e o precioso livrinho
Oração e meditação de são Pedro de Alcântara (m. 1562). Os
jesuítas, finalmente, chamam seu primeiro escritor ascético-místico
o próprio fundador, santo Inácio, cujo livro de exercícios é na
literatura moderna o que foi a Imitação de Cristo na idade média.
Entre seus filhos espirituais têm maior importância para a história da
mística Luiz da Ponte (m. 1620) e João Batista Scaramelli (m. 1752).
Na França floresceram, além de são Francisco de Sales (cfr.
§ 146), o cardial Pedro de Bérulle (m. 1629), Jean Jacques Olier (m.
1657), São João Eudes (m. 1680) e Luiz Grignion de Montfort (m.
1716). A Alemanha têm os seus Frederico de Spee (m. 1635) e
Balde, ambos jesuítas, e o meigo Scheffler, chamado Ângelo Silésio,
convertido ao catolicismo e sacerdote, que imortalizou o seu nome
por seus maravilhosos cânticos místicos, lembrando neles o grande
mestre Ecardo (StZ 111 (1926) 361-81).
 
Controvérsias teológicas: baiatfiismo e molinismo.
Os erros dos protestantes no tocante ao estado primitivo do
homem, à graça, ao livre arbítrio e à predestinação deu aos teólogos
católicos motivo para consagrarem sua especial atenção a estes
pontos do dogma a. E corno os protestantes invocassem em defesa
da sua doutrina a autoridade de santo Agostinho, as obras do g
reande bispo de Hipona tornaram-se novamente objeto de
acaloradas discussões também na Igreja católica.
O tridentino declarara que as boas obras meritórias são
operadas pela graça c pelo livre arbítrio. Mas não resolvera
precisamente o problema central sobre a cooperação dos dois
fatores da salvação. O estudo desta questão levou a veementes
controvérsias, sendo os partidos opostos chefiados, na primeira fase
da luta, por Baio & Léssio, na segunda, por Baiiez e Molina.
Miguel Baio (1513-89), dominicano, desde 1552 lente de exegese e
desde 1578 chanceler da universidade de Lovaina, tentou reformar
o método escolástico então em voga na universidade. Em lugar da
dialética escolástica quis acentuar mais a Sagrada Escritura e as
obras dos Santos Padres para, de preferência, nelas fundamentar o
dogma católico.
Principal norma devia ser santo Agostinho. Opinando ter-se a
escolásticaafastado da doutrina dos Santos Padres também no
tocante ao objeto, especialmente, mas questões antropológicas
julgava necessária igualmente uma reforma doutrinária da teologia.
Pretendia assim reconciliar mais facilmente os inovadores com a
Igreja. Mas o estudo unilateral dos livros antipelagianos de santo
Agostinho levou-o a um hiper-augustinismo, semelhante ao de
Lutero e de Calvino.
A sua doutrina não é um sistema orgânico. Consiste tão
somente em algumas proposições expostas em diversos escritos
sobre questões antropológicas. Seu erro fundamental consiste em
negar o caráter sobrenatural da graça no paraíso, afirmando que os
dons sobrenaturais pertencem à essência da natureza humana. Daí
se segue a completa corrupção da natureza humana pelo pecado
original. O homem, se não tivesse pecado, teria alcançado a bem-
aventurança como puro merecimento, enquanto que depois do
pecado, por suas próprias forças, não pode senão pecar, nem
dispor-se a receber a graça. Tudo é obra da graça. Esta, por seu
lado, é irresistível. A liberdade moral exclui somente a violência
externa, não a necessidade interna.
Tal doutrina encontrou não poucos admiradores, mas ainda mais
adversários. Principalmente se declararam contra ela os lentes
Tapper e Ravesteyn de Lovaina que, voltando em 1552 de Trento,
se uniram aos franciscanos da Bélgica, e estes conseguiram que a
Sorbona censurasse dezoito proposições, tiradas dos escritos de
Baio (1560).
Com isto se agravou a controvérsia. Como Baio desenvolvesse as
suas opiniões em diversos tratados, os franciscanos apresentaram
79 proposições ao papa Pio V, pedindo a sua condenação. O papa
condenou realmente as ditas proposições, algumas como heréticas
outras como errôneas, suspeitas, temerárias e escandalosas, pela
bula Ex omnibus afflictioniluis de Io de outubro de 1567 (DB 1001
ss), sem nomear o autor e sem publicar a bula. ,
Os amigos de Baio, porém, ora negavam a identidade das
proposições condenadas, ora a autenticidade da bula, ora
procuravam tirar-lhe a eficácia pela posição arbitrária de uma vírgula
(Comma Pianum). Por isso, Gregório XIII renovou a sentença, em
1580, e Baio finalmente se submeteu. Mas a doutrina não
desapareceu completamente; ressurgiu mais tarde na forma do
jansenismo (LThK I 922),
Em oposição a Baio, o jesuíta Léssio (1554-1623),
igualmente lente de teologia em Lovaina, parecia exaltar
demasiadamente a liberdade humana e diminuir o valor da graça
divina. Deus dá, segundo ele, a todos os homens a graça suficiente,
necessária para que se convertam. Mas a vontade humana é a
única razão pela qual a graça suficiente se transforma ou não em
graça eficaz. Intrinsecamente não há diferença entre elas.
Os amigos de Baio conseguiram fossem censuradas, pelas
universidades de Lovaina e de Douai, trinta e quatro proposições de
Léssio. Este apresentou, no entanto, uma apologia da sua doutrina
em Roma. Xisto V instituiu uma comissão para tratar da questão,
mas não pronunciou uma sentença definitiva, proibindo tão somente
às duas partes censurarem-se mutuamente.
Muito mais acalorada se tornou a controvérsia que sobre o
mesmo assunto se moveu na Espanha entre os jesuítas e os
dominicanos. Estes, chefiados por Domingos Banez (1528-1604),
baseando-se em santo Tomaz de Aquino, estabeleceram a chamada
praemotio (natura prius) ou praedeterminatio physica da vontade
humana para, por meio dela, explicar a eficácia infalível da graça.
As teses principais de Bariez são as seguintes:
1) Deus é a causa prima de todo o ser e de todo o agir. E’ ele quem
determina todas as causas secundárias.
2) Deus determina a vontade humana por sua graça (infusa) de tal
maneira que esta é eficaz por si mesma (gratia efficax est ex se
efficax et physice voluntatem determinans).
3) Não se nega a liberdade humana. Esta é determinada
intrinsecamente pela graça. Mas tal determinação se realiza
conforme a natureza da vontade que é livre.
4) A predestinação depende unicamente da vontade absoluta de
Deus que, como causa principal, não pode ser determinada por
outra causa alguma.
O jesuíta português Pedro Fonseca (m. 1599) julgou ter
achado um meio de harmonizar a eficácia da graça com a liberdade
humana na teoria da scientia media ou scientia conditionate
futurorum. E' esta uma ciência que se julga estar no meio entre as
duas formas do conhecimento divino admitidas pelos escolásticos,
scientia visionis, ou seja, conhecimento das coisas reais e scientia
simplicis intelligentiae, ou seja, conhecimento das coisas puramente
possíveis.
Esta teoria teve grande aceitação, quando o jesuíta espanhol
Luiz Molina (1535-1600), discípulo de Fonseca e lente em Évora,
publicou a sua obra principal: Liberi arbitriiciini pratiae donis...
concórdia (Ulissiponae 1588). Como Lessio, assim também Molina
afirma que Deus concede a todos a graça suficiente. Mas, para que
a graça suficiente passe a ser eficaz, devem cooperar graça e
vontade humana.
Não existe uma diferença real entre a graça suficiente e a
graça eficaz (efficacia gratiae ab extrinseco sive per accilens).
Molina não reconhece, portanto, a causalidade divina ia forma
banezista, mas ensina a teoria do concursus divinus dmultaneus.
O problema da predestinação, Molina pretende resolvê-lo por
meio da ciência média. Deus não predetermina, mas sabe ab
aeterno o que o homem faria, se estivesse em determinadas
condições. Aos que prevê cooperariam com a graça concede a
graça eficaz, aos outros só lhes infunde uma graça suficiente (aliis
parcius, aliis abundantius, omnibus tamen sufficienter ad saltitem).
Esta doutrina foi aceita por muitos e é hoje ainda, no essencial, a
doutrina dos jesuitas, na forma do congruíssimo, formado por
Suarez e Belarmino e prescrita à companhia de Jesus pelo geral
Aquaviva (1613). Os dominicanos, pelo contrário, julgavam ver nela,
como na doutrina de Léssio, uma espécie de semipelagianismo, que
exaltava a liberdade humana à custa da graça divina, e um
desprezo da autoridade de Agostinho e de Tomaz de Aquino. E logo
se agitaram de tal modo os espíritos opostos, que Clemente VIII se
viu obrigado a intervir, reservando-se a solução da disputa.
Em 1598, instituiu o papa uma comissão, a chamada
Congregatio de auxiliis divinae gratiae, cuja primeira decisão foi
favorável a Baitez. Como, porém, não faltassem votos em favor de
Molina, o papa não consentiu na condenação deste.
Dispôs, pelo contrário, se fizessem conferências entre ambas
as partes. For influência de Belarmino foi-se avigorando, cada vez
mais, á opinião favorável a Molina. Para proceder com segurança,
Clemente VIU resolveu fazer examinar o problema em sua presença
(1602). Mas o exame não teve resultado. Paulo V pôs termo,
finalmente, ao processo (1607), proibindo aos dois partidos de
censurar como herética a opinião oposta, com o que deu liberdade
de se professarem ambas as teorias (DB 1090).
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE V
I. O JANSENISMO.
Mestre Janson, um professor da Universidade de Louvain,
continuou a difundir secretamente as ideias de Baio, querendo
combater os jesuítas (especialmente Lessio), que pareciam dar
preponderância as forças humanas na conquista da salvação
eterna. Mestre Janson encontrou dois discípulos famosos: o
holandês Cornélio Jansenius e o francês Duvergier de Hauranne. O
primeiro se tornou professor de Teologia na Universidade de
Louvain (1617) e morreu como bispo de Ypres (1638). Hauranne foi
nomeado abade comendatário de Saint-Cyran e procurava
influenciar o público pela direção de consciência e a publicação de
escritos anônimos e pseudônimos.
Ao morrer, Jansenius deixou seu livro “Augustinus” inédito,
que saiu em edição póstuma em 1640, sem a autorização de Roma
e à revelia dos jesuítas. Era uma reafirmação dos erros, de Baio sob
o manto de S. Agostinho; o autor lera trinta vezes todos os escritos
de Agostinho contra os pelagianos e trabalhara vinte anos na
redação respectiva; professava logo no início do livro submissão à
Santa Sé e a infalibilidade do Papa.
O Augustinus.
Desde que tomou contato com S. Agostinhoe a sua doutrina
sobre a graça (muito marcada pela polêmica contra o pelagianismo),
Jansenius pensou em escrever uma obra onde expusesse e
defendesse com clareza a doutrina do grande Doutor. Durante anos
ocupou-se da composição desta obra, que nunca cessou de rever e
corrigir, ao longo dos anos, inclusive enquanto bispo de Ypres. Esta
obra, intensamente burilada, foi entregue, após a morte do seu
autor, pelos seus amigos, para ser publicada. Apesar da oposição
dos jesuítas, a obra foi efetivamente publicada na Holanda, em
1640, propagando-se com rapidez para a Alemanha e para outros
países. Alcançou bastante sucesso e foi louvada inclusivamente
pelos calvinistas, de tal modo que alguns chegaram a ver nesta obra
a base duma união entre calvinismo e catolicismo.
A obra de Cornelius Jansenius tem por título completo
Augustinus, seu doctrina Sancti Augustini de humanae naturae,
sanitate, aegritudine, medicina adversus Pelagianos et Massilienses,
e divide-se em três tomos. Apresentava um total de cerca de 1300
páginas, em duas colunas de letra pequena.
 
No primeiro tomo, constituído por oito livros, expõe-se a
história do pelagianismo e do semipelagianismo, refutando
cuidadosamente, com minúcia, todos os seus pontos (e fazendo
sub-repticiamente um paralelo entre os semipelagianos e os
jesuítas).
Nos nove livros do tomo II, após analisar as relações entre a
filosofia e a teologia e criticar com dureza os escolásticos e a
filosofia aristotélica exaltando a autoridade de S. Agostinho, peça
fundamental do seu método teológico, o autor descreve o estado de
graça e a liberdade do homem original, assim como a essência do
pecado original e as suas consequências, nomeadamente a
concupiscência e a diminuição do livre arbítrio. De seguida, nega a
possibilidade do estado de natureza pura e declara a
impossibilidade de o homem poder amar a Deus naturalmente.
O tomo III, nos seus dez livros, contém a parte principal da
obra. Jansen reflete agora sobre o modo de sanar a natureza
humana e de ela recuperar a liberdade através da redenção de
Cristo. A este propósito, a tese de Jansen é a de que a graça é ativa
e eficaz de modo infalível, sem que isso destrua, porém, a liberdade
do homem. Nega ainda à vontade salvífica universal e a
possibilidade de observar certos mandamentos. Ocupa-se também
do livre arbítrio, da conciliação entre liberdade e graça, da
predestinação e das diferenças entre a doutrina de S. Agostinho e a
de Calvino. Termina com uma síntese dos erros de vários teólogos
modernos, particularmente jesuítas, estabelecendo um paralelo
entre estes e os hereges massilienses.
 
A Condenação do Jansenismo.
Em 1642 Urbano VIII proibiu a leitura dessa obra. os amigos
de Jansenius tomaram isto como um ataque à doutrina de S.
Agostinho. Saint-Cyran procurou ganhar para a sua causa os
círculos influentes: conseguiu a adesão do famoso teólogo Antonius
Arnauld (t 1694) e das monjas cistercienses de Port-Royal (perto de
Paris), das quais Saint-Cyran era confessor e cuja abadessa,
Angélica, era irmã de Antonius Arnauld. Formou-se aos poucos um
partido jansenista, que tinha seus principais adversários entre os
jesuítas: estes eram tidos como semipelagianos e laxistas pelos
adeptos de Jansenius.
Visando a defender sua causa, A. Arnauld publicou em 1643
um livrinho “Sobre a Comunhão Frequente”, em que combatia a
recepção amiudada dos sacramentos recomendada pelos jesuítas;
estabelecia condições rigorosas para que alguém pudesse receber
a Eucaristia ou mesmo a absolvição dos pecados (a comunhão seria
prêmio da virtude praticada pelo cristão); o autor julgava estar assim
restaurando a disciplina da antiga Igreja. Teve grande sucesso; o
Parlamento de Paris colocou-se ao lado dos jansenistas. A situação
foi levada ao conhecimento da Santa Sé com o pedido de
intervenção. Depois de longas deliberações, o Papa Inocêncio X, na
Bula Cum occasione de 31/05/1653, condenava como heréticas as
cinco proposições seguintes, tiradas do “Augustinus”:
 
1. Alguns preceitos de Deus são impraticáveis mesmo para os
homens justos e de boa vontade, que tentem cumpri-los segundo
suas forças. Falta a esses homens a graça que tome os
mandamentos exequíveis.
 
2. Nas condições da natureza decaída, nunca alguém pode resistir à
graça Interior.
 
3. Para merecer e desmerecer no estado da natureza decaída, não
é necessária liberdade interior, mas basta a isenção de coação
extrínseca.
 
4. O homem nunca pode resistir à graça de Deus.
 
5. Cristo não morreu por todos os homens.
 
Esta condenação não pôs termo aos debates. Arnauld e seus
amigos reconheceram o caráter herético das sentenças
condenadas, mas negaram que elas fossem à doutrina de
Jansenius; o Papa as teria entendido em sentido calvinista, que não
era o sentido de Jansenius. o Papa, porém, declarou que quisera
condenar a doutrina de Jansenius como tal. os jansenistas
replicaram, distinguindo “questão de direito” e “questão de fato”: a
Igreja, diziam, é infalível ao decidir se uma doutrina em si é herética
ou não, mas não é infalível ao julgar um mero fato histórico, isto é,
se um teólogo proferiu esta ou aquela doutrina; neste último caso, a
Igreja não poderia exigir um assentimento interior ao juízo que ela
profere, mas apenas um “silêncio obsequioso” (com discordância
interior). Esta distinção deu novo alimento à luta. Depois de
discussões acesas, a Sorbona (Universidade de Paris fundada em
1253 por Roberto de Sorbon) expulsou em 1656 Arnauld e sessenta
outros mestres.
Entrementes entrou em cena o famoso filósofo e matemático
Blaise Pascal. Irmão da monja Jacqueline, de Port-Royal, agregou-
se em 1654 ao grupo dos Solitários, perto de. Paris: estes eram
homens austeros, que, mesmo sem votos religiosos, oravam,
trabalhavam e se mortificavam, mantendo o oficio Divino à noite e
períodos de silêncio; hospedavam visitantes que com eles
quisessem passar alguns dias de retiro o que muito impressionava o
público de Paris. Pascal resolveu dedicar sua atenção aos
problemas religiosos que fervilhavam no ambiente; assimilou as
doutrinas apregoadas por Arnauld e seus adeptos, e colocou sua
pena mordaz a serviço dos jansenistas contra os seus adversários,
principalmente os jesuítas. Usando o pseudônimo Louis de
Montalde, escreveu as suas famosas “Cartas Provinciais” (1656/7),
dirigidas contra a imoralidade da sociedade de Paris e a Companhia
de Jesus, tida como laxista em Moral. As sátiras de Pascal foram
traduzidas para outras línguas e causaram enorme mal é
Companhia, que não merecia tal tratamento.
A partir de 1660, o rei Luís XIV da França, por motivos
políticos, pôs-se a combater o jansenismo, o que agravou a
situação. Em 1665 apareceu uma Carta Pastoral de quatro bispos
franceses, que recomendavam apenas o silêncio obsequioso. O
Papa Alexandre VII condenou os quatro bispos e instituiu uma
comissão de nove bispos para julgá-los; os quatro prelados
protestaram em nome das “liberdades galicanas”, segundo as quais
o Papa não tinha o direito de julgar os bispos do reino. Assim o
jansenismo e o nacionalismo francês (galicanismo) se associaram
no combate a Roma.
Mas, sob o sucessor de Alexandre VII, inesperadamente os
quatro bispos assinaram um formulário de sujeição a Santa Sé; ao
mesmo tempo, porém, professaram a sua convicção jansenista num
protocolo que devia ficar secreto (1668). O Papa deu-se por
satisfeito com o gesto público dos quatro prelados e em 1669
concedeu a reconciliação a todos os jansenistas; era a Paz
Clementina, que os rebeldes receberam em atitude de triunfo; o
Papa Clemente XI teria anulado os atos de seus predecessores e
aprovado o silêncio obsequioso.
Nos decênios seguintes, o jansenismo as ocultas continuou a
se difundir. Mas no início do século XVIII reabriu-se a luta pública e
calorosa.
Começou-se a discutir de novo a questão: pode ser absolvido
em confissão quem observa apenas um silêncio obsequioso?
Quarenta doutores da Sorbona responderam afirmativamente.
Diversos bispos e o próprio Papa Clemente XI rejeitaram essa
sentença em 1703. Em 1705o Pontífice publicou a Bula Vineam
Domini, em que mais uma vez declarava insuficiente o silêncio
obsequioso e exigia a condenação das cinco sentenças do livro
“Augustinus” de boca e de coração. A Bula não teve o efeito
desejado. O clero francês, impregnado de nacionalismo separatista,
na assembleia geral de 1705 declarou que as instruções papais só
obrigam os fiéis quando reconhecidas e confirmadas pelos bispos
locais. O Papa protestou contra esta atitude, mas com pouco
sucesso. Também as monjas de Port-Royal, “puras como os anjos,
mas orgulhosas como os demônios”, resistiram ao Papa; então o
Governo Francês em 1705, com a aprovação do Pontífice, mandou
fechar o Mosteiro, destruir o respectivo edifício e a igreja.
A esta altura, novo foco se acendeu para alimentar a
discussão jansenista. O Padre oratoriano Pascásio Quesnel (?
1719) publicou o livro “Reflexões morais sobre o Novo Testamento”,
tendo a aprovação do bispo Luís Antonio de Noailles. Era obra
imbuída de jansenismo, que encontrou larga aceitação. Os jesuítas
conseguiram que Clemente XI censurasse o livro em 1708 e
proibisse, sob pena de excomunhão, a sua leitura. Diante da
resistência a ordem do Papa, Clemente XI mandou reexaminar o
livro e condenou 101 sentenças do mesmo mediante a Bula
Unigenitus de 1713. Recomeçou então o jogo dialético: já que
muitas sentenças extraídas do seu contexto pareciam ter sentido
ortodoxo, o Cardeal de Paris e sete bispos recusaram-se a aceitar a
decisão papal; a corrente destes contestatórios foi-se avolumando e
apelou para um Concílio Ecumênico. Assim dividiu-se a França em
partido dos “Aceitantes” e partido dos “Apelantes” ou
“Anticonstitucionalistas”; aqueles usavam faixas de seda castanha e
branca, e estes, faixas pretas e vermelhas.
A situação foi se agravando até o perigo de um cisma. Em
1718 Clemente XI excomungou os Apelantes. Muitos deles
rejeitaram a decisão papal. O acirramento das posições chamou a
atenção do novo rei Luís XV, pois o fanatismo dos jansenistas
constituía uma ameaça não só a Igreja, mas também a nação. o
poder civil adotou medidas repressivas, que chegaram a reduzir o
Cardeal Noailles, de Paris, à submissão; a maioria dos outros
Apelantes seguiu lhe o exemplo.
Os obstinados apelaram então para sinais do céu em favor
da sua causa: um diácono jansenista, Francisco de Paris, morreu
em 1727 e foi sepultado no cemitério de S. Medardo; ora os devotos
que iam rezar junto ao túmulo, afirmavam que lá se produziam
milagres, visões e êxtases; as curas eram obtidas por meio de
convulsões em torno do túmulo, enquanto se recitavam imprecações
contra o Papa, a Bula e os Bispos. O apelo a esses critérios
extraordinários não conseguiu deter o desmoronamento do
jansenismo. Em 1732 o rei mandou fechar o cemitério e um
humorista escreveu no portão: “Por ordem do rei, Deus está proibido
de fazer milagres neste lugar”.
 
II. O GALICANISMO.
O absolutismo dos reis da França começou a se afirmar com
Filipe IV o Belo (1285-1314); e manifestou-se fortemente no Exílio
de Avinhão e no Grande Cisma do ocidente (séculos XIV/XV);
cristalizou-se na Pragmática Sansão de Bourges sob Carlos VII em
1438, tendendo sempre a subtrair ao Papado a Igreja na França e
professando implicitamente a teoria conciliarista. Tal estado de
coisas chegou ao seu auge no reinado de Luís XIV (1643-1715), o
Rei-Sol, que dizia: “L’Etat c’est moi! – O Estado sou eu”.
Luís XIV era católico, sob a condição de dominar tudo,
mesmo a Igreja e o Papado, ao qual ele não poupou humilhações.
Interessa-nos considerar como o nacionalismo eclesiástico se
desenvolveu sob esse rei.
Em 1680 as Religiosas de S. Pedro Fourier (subúrbio de
Paris) estavam para eleger legitimamente a sua Superiora. Luís XIV,
porém, quis impor-lhes uma Superiora de outra ordem. As Irmãs
apelaram para Inocêncio XI, que mandou proceder à eleição;
todavia a Bula papal foi rejeitada pelo Parlamento francês. – O rei
resolveu então recorrer a uma assembleia geral do clero francês,
que se reuniu em Paris de 1681 a 1682. Alguns prelados e o rei
mostraram-se irritados pela “intromissão” do Papa na Igreja da
França… intervenção que eles julgavam contrária a uma concordata
de 1516, firmada com o Papa Leão X. Por isto o bispo jacques –
Bénigne Bossuet (1627-1704), encarregado pela assembleia, redigiu
quatro artigos que definiam os limites do poder papal na França.
Tais artigos, aprovados pelos presentes, constituem a “Declaração
do Clero Galicano”, que tomou o vigor de lei:
 
1. O Papa recebeu de Deus um poder meramente espiritual. Os reis,
em questões temporais, não estão sujeitos, nem direta nem
indiretamente, a alguma autoridade eclesiástica; por isto não podem
ser depostos em nome do poder das chaves, nem os seus súditos
desligados do juramento de fidelidade.
 
2. Os decretos do Concílio de Constança que estabeleceram a
supremacia do Concílio sobre o Papa tem vigor de lei perene.
 
3. O exercício da autoridade papal e regrado pelos cânones da
Igreja Universal, pelos princípios e os usos que, desde época
remota, se observam na Igreja Galicana.
 
4. Em decisões de fé o Papa tem voz preponderante, mas só
irreformável após obter o consentimento da Igreja inteira.
Bossuet, que redigiu estes artigos, era, de resto, um bispo
zeloso, promotor da união de católicos e protestantes e grande
orador sacro. Todavia nutria profunda admiração pelo poder
absoluto de Luís XIV, que ele apresentava nos seguintes termos:
“Todo poder reside inteiramente na pessoa do rei, não
podendo existir outra autoridade além da sua. Poder tão grande não
emana dos homens, mas sim de Deus, que estabeleceu os reis para
governar o mundo em seu nome, os quais a mais ninguém senão a
Ele devem prestar contas dos seus atos. os súditos devem ao rei
obediência e respeito, toda desobediência é grave falta cometida
contra ele.”
Ao tomar conhecimentos da promulgação dos artigos
galicanos, o Papa Inocêncio XI protestou, mas não impôs aos
franceses alguma censura eclesiástica para evitar a iminente ruptura
de relações. Aliás, o próprio Luís XIV não queria separar-se da
Igreja Católica, pois sabia que isto lhe tiraria muito do seu prestígio;
também as suas convicções religiosas eram assaz firmes para não
lhe permitir que fosse tão longe ao seu absolutismo. Diz-se mesmo
que declarou a galicanos que impeliam a novas violências: “Se eu
quisesse seguir essas ideias, deveria pôr o turbante sobre a cabeça
(isto é, eu me faria turco muçulmano)”. Em resposta ao rei, o Papa
Inocêncio XI recusou confirmar dois candidatos a bispo que o rei lhe
apresentou e que haviam participado da assembleia galicana. o rei
declarou que isto era uma violação da Concordata e proibiu aos
bispos que ele nomeava, fossem buscar a sua Bula de confirmação
em Roma. A consequência deste litígio é que, durante seis anos, os
titulares de trinta e cinco dioceses francesas não possuíram a
ordenação episcopal (ou não eram bispos). Ainda que o rei
nomeasse bispos, somente o Papa podia autorizar a ordenação
episcopal desses candidatos.
O Jansenismo, suscitando atitude de indiferença e frieza nos
cristãos, criava clima próprio ao Galicanismo, como também o
Galicanismo favoreceu o Jansenismo, pois ambos lutavam contra
Roma.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE VI
1. FEBRONIANISMO
Da França o Galicanismo passou para a Alemanha, onde
Lutero tinha denunciado os vexames da nação alemã, queixosa das
intervenções de Roma na nomeação de prelados, no arrecadamento
de taxas, no cerceamento de liberdades, das quais gozavam a
França e a Espanha.
No século XVIII o descontentamento se fez ouvir de novo
modo. Um dos principais transmissores dos erros franceses foi um
professor de Direito Canônico em Louvain, Bernardo van Espen (?
1728), que por seus escritos e discípulos exerceu grande influxo na
Alemanha; as suas obras foram postas repetidas vezes no Index a
partir de 1704. Propagava entre os prelados alemães uma onda de
episcopalismo, tendência que queria restringir, em favor dos bispos,
os direitos do Papa e de seu representante, oNúncio. Essa onde
era fomentada por uma antipatia contra a Cúria Romana suscitada
pela Concordata de Viena (1448). As ideias de van Espen foram
desenvolvidas na Alemanha por um discípulo deste mestre em
Louvain, doutor em Direito Canônico e bispo auxiliar de Tráviris:
João Nicolau de Hontheim (1701-1790). Empreendeu estudar a
situação da Igreja na Alemanha do ponto de vista jurídico. Como
fruto de suas reflexões, publicou em 1763. “Justini Febronii de Statu
Ecclesiae et Legitima Potestate Romani Pontificis liber singularis ad
reuniendos dissidentes in religione Christiana compositus. – Livro
singular de Justino Febrônio a respeito do estado da Igreja e do
legítimo poder do Pontífice Romano, redigido para reunir os cristãos
dissidentes na religião”. o autor usou de pseudônimo: Justina era o
nome de sua sobrinha, que no mosteiro era chamada Febrônia.
Propunha os princípios galicanos de 1682 reforçados por teses de
canonistas de Louvain, como se pode ver a seguir.
Para restabelecer a unidade entre os cristãos, dizia Febrônio,
é preciso reproduzir a constituição da Igreja nascente. Isto implica
restituir aos bispos e aos Concílios os seus direitos e limitar os
poderes do Papa. Este não é monarca absoluto nem infalível. o
poder na Igreja toca, primeiramente, ao conjunto dos bispos ou ao
Concílio Ecumênico. As decisões papais só tem vigor quando
aprovadas pela Igreja inteira e introduzidas em cada uma das
dioceses pelo respectivo bispo. Ao sucessor de Pedro, portanto, só
compete um primado de honra em relação aos outros bispos. os
únicos direitos que lhe assistem, são os direitos necessários ao
exercício da sua tarefa, que é: vigiar pela observância dos cânones,
conservar a fé e a unidade da Igreja. Confirmação e deposição de
bispos, preenchimento de cargos eclesiásticos, concessão de
dispensas, reservas são falsificações do Direito devidas à evolução
errônea. Por conseguinte, os bispos deveriam arrebatar para si
essas funções. Como meios aptos para obter a emancipação dos
bispos, eram recomendados: propaganda no grande público,
convocação de Concílio Ecumênico livre, Sínodos provinciais, união
dos bispos com os príncipes seculares; a estes tocaria o direito de
sancionar ou não as leis do Papa e de receber as apelações em
Tribunal.
A obra de Hontheim se difundiu rapidamente e em varias
traduções, provocando grave crise na Alemanha. obteve os
aplausos dos príncipes civis e dos inimigos da Igreja, principalmente
na Áustria, cujo Imperador José II a aprovou três vezes, as normas
de Febrônio foram introduzidas nos manuais de Direito Eclesiástico.
Clemente XIII pôs o livro no Index e exortou os bispos
alemães a combatê-lo – o que só encontrou execução parcial e
hesitante. Em dezembro de 1769 os arcebispos de Tréviris,
Mogúncia e Colônia mandaram elaborar um documento em 31
artigos (Avisamenta) sob a presidência de Hontheim, que tinha
sabor febroniano. Todavia em 1778, depois de haver triunfado,
Hontheim, instado pela Cúria Romana e pelo Arcebispo de Tréviris,
declarou que se retratava. Em 1781, porém, publicou o “Comentário
à Retratação”, que discretamente manifestava os mesmos princípios
de Febrônio: usando de estilo atormentado e cheio de restrições,
Hontheim não queria nem ofender a verdade nem retratar
abertamente uma obra que ele julgava ser a glória de sua carreira.
Poucos anos mais tarde, o febronianismo produziu seus
efeitos mais nocivos. Em 1785, Pio VI, a pedido do príncipe Carlos
Teodoro da Baviera, erigiu uma Nunciatura 64 em Munique. Isto
muito inquietou os citados arcebispos de Tréviris, Mogúncia e
Colônia, assim como o príncipe-bispo de Salzburgo, que temiam
uma restrição de sua jurisdição. Mediante delegados seus,
elaboraram a “Pontuação de Ems” (1786), que eram 23 artigos de
Febronianismo exaltado: exigiam a revogação da jurisdição dos
Núncios, o beneplácito dos bispos para as Bulas papais, além de
reformas na liturgia, na vida conventual e na pastoral em geral. O
documento terminava solicitando ao Imperador José II que dentro de
dois anos reunisse um Concílio nacional para abolir os “vexames”
da nação alemã.
Em breve evidenciou-se a impossibilidade de executar tais
postulados. Quando os arcebispos citados quiseram
autonomamente conceder certas dispensas, opôs-se lhes o Núncio
Pacca, de Colônia, hábil defensor das funções papais, que escreveu
uma carta aos párocos; os bispos sufragâneos 65 se associaram ao
Núncio, pois queriam defender seus interesses ameaçados pela
preponderância dos arcebispos. Estes então tiveram que retroceder;
ainda pleitearam um acordo a respeito da Nunciatura em Munique –
o que o Papa rejeitou energicamente (1789).
O febronianismo teve sua aplicação concreta mais rigorosa
na Áustria sob Maria Teresa a Católica (1740-1780) e principalmente
sob D. José II (1780-90), que Frederico II da Prússia chamava “Meu
Irmão o Sacristão” ou “o Arqui-sacristão do Império Romano”. Este
monarca teria levado a Áustria a um cisma, se não o tivesse
dissuadido o embaixador espanhol Azara. o Papa Pio VI foi a Viena
para entender-se com o monarca; foi muito aclamado pelas
populações durante a viagem; teve brilhante recepção na corte
imperial, mas, após quatro semanas de permanência, teve que
regressar sem ter conseguido demover o monarca de seus
propósitos febronianos e de outras medidas drásticas (redução do
número de Seminários a cinco ou seis, nos quais só ensinariam
professores da confiança do Imperador; supressão das ordens
contemplativas e de conventos de outras ordens; proibição, aos
bispos, de contato direto com Roma…).
 
2. Do Regalismo
O despotismo.
No século XVIII as monarquias católicas pretenderam o
controle da vida eclesiástica, movimento que ficou conhecido como
"Regalismo", o que fez com que o Pontificado Romano perdesse
parte de seu poder político. Isto não só pela perda de territórios para
nações protestantes. Pretenderam fazer da Igreja um serviço
público subordinado ao rei e integrante da administração do Estado.
Este comportamento era característico do Despotismo Ilustrado.
Catolicismo como única religião oficial do Estado e sob intervenção
do monarca e desconfiança em relação a Roma, seria a marca
desta fase. Esta tendência anti-romana teve como alvo preferido a
Companhia de Jesus, principal força de que dispunha o Papado. Os
jesuítas foram expulsos de Portugal, da Espanha, de Nápoles e da
França e finalmente foram dissolvidos por Clemente XIV.
Na França este intervencionismo clerical de Luiz XIV ficou
conhecido como "Galicanismo", nas terras germânicas surgiu o
Febronianismo, de Febrônio, pseudônimo de João Nicolau de
Hontheim, bispo auxiliar do bispo eleitor de Tréveris que defendia a
subordinação da Igreja aos príncipes. Na Áustria surgiu o
"Josefismo" de igual tendência, o mesmo se deu com Pedro, o
Grande na Rússia, que suprimiu o Patriarcado da Igreja russa. Os
episcopados das monarquias regalistas se transformaram em
patrimônio da aristocracia, tornaram-se dóceis ao poder, e nos finais
do Antigo Regime a vida cristã tanto da hierarquia como do povo
aparentava languidez e opacidade.
 
3. ILUMINISMO (XVII e XVIII).
Foi um movimento de ordem cultural idealizado por uma elite
intelectual europeia no final do século XVII. Este movimento surgido
na França (XVII) obteve o seu esplendor no século XVIII com a
Revolução Francesa. Tal movimento questionava o sistema
Absolutista que predominava na organização política da maioria dos
países europeus (chamados Estados Modernos) durante o Antigo
Regime (Idade Moderna). O Iluminismo questionava também a
influência exercida pela Igreja Católica sobre a sociedade europeia
daquele período. O Iluminismo defendia o uso da razão como
melhor caminho para o desenvolvimento do homem e para que ela
alcance sua liberdade, autonomia e sua emancipação.
Ideais Iluministas: O pensamento iluminista é fruto do
movimento renascentista do século XIV e também das importantes
consequências causadas pelo movimento de Reforma Protestante,
ambas os processos históricos contribuíram para o enfraquecimento
do poder exercido pelaIgreja durante a Idade Média. Segundo os
pensadores iluministas, o uso do pensamento racional deveria ser
levado adiante substituindo as crenças religiosas e o misticismo,
pois segundo eles, esta forma de pensamento bloqueava a evolução
do homem.
As Raízes do Iluminismo: Podemos dizer que as raízes do
movimento iluminista começaram a crescer ainda no século XVII,
através dos trabalhos do francês René Descartes, que lançou as
bases do racionalismo como a única fonte de conhecimento. Em sua
obra “Discurso do método”, ele recomenda, para se chegar à
verdade, que se duvide de tudo, mesmo das coisas aparentemente
verdadeiras. A partir da dúvida racional pode-se alcançar a
compreensão do mundo. Sua teoria passou a ser resumida na
célebre frase: "Penso, logo existo".
Século das Luzes: O apogeu do movimento iluminista ocorreu
no século XVIII, e este passou a ser conhecido como o “Século das
Luzes”. Tal denominação metafórica tinha como objetivo principal,
promover um entendimento a cerca da “luz” no sentido de “iluminar”
as “trevas” em que vivia a sociedade europeia daquele período
(Idade Média). O movimento iluminista foi mais intenso na França,
onde influenciou com seus ideais de liberdade, igualdade e justiça a
Revolução Francesa.
Iluminismo na França: Foi na França do século XVIII, o palco
mais expressivo dos ideais iluministas, que colocaram em cheque
os privilégios do Clero e da Nobreza em relação ao povo. A
insatisfação popular com o governo estava com seus dias contados,
as lutas sociais, a ascensão da burguesia e de seus negócios, e a
crença na racionalidade chegaram ao auge na propagação com a
propagação dos ideais iluministas, estes foram levados pela onda
da revolução (mudança). Os ideais iluministas ajudaram a por fim às
práticas feudais existentes naquele país e estimularam a queda do
regime absolutista na França e em outras partes da Europa.
Teoria Iluminista: Para os filósofos iluministas, o homem
nasce naturalmente bom, porém se torna corrompido pela
sociedade com o passar do tempo. Os iluministas lutavam para a
construção de uma sociedade mais justa e com direito iguais
estendidos a todos, independente da classe social. Por esta razão,
eram contra as imposições religiosas, ao sistema Absolutista e dos
privilégios concebidos a Nobreza e o Clero, que excluía a maioria da
população formada pelo povo, que não tinha participação política
efetiva nos governos absolutistas, entretanto, sustentavam toda a
sociedade com seu trabalho e pagamento de impostos.
 
Características do Iluminismo:
 
• Racionalismo: consiste na ênfase dada ao uso da razão,
considerada o mais importante instrumento para se alcançar o
conhecimento;
 
• Naturalismo: crença na perfeição da natureza. Da mesma forma
que os fenômenos da Natureza são regidos por leis naturais
determinadas, as relações entre os homens deveriam ser reguladas
por normas naturais;
 
• Liberalismo: é o reconhecimento da liberdade como um direito
natural do homem. Essa liberdade seria nos níveis econômico,
político e intelectual;
 
• Igualdade dos homens perante a lei: Dentro desse raciocínio, a
lei não poderia privilegiar alguém com base em seu nascimento ou
condição social;
 
• Anticlericalismo: Os iluministas eram contrários a Igreja, pois ela
apoiava o absolutismo e também se colocava acima da razão.
 
Burguesia e Iluminismo: A classe Burguesa (pertencente ao povo)
apoiava os ideais iluministas, este segmento social em ascensão,
apesar do dinheiro que possuíam, não tinham participação política
ativa nos governos deste período, além de gozarem de pouca
liberdade econômica.
 
Organização Social: Clero (membros da Igreja), Nobreza (Rei,
família real e nobres) e o Povo (Burgueses Artesãos e
Camponeses).
 
Teocentrismo X Antropocentrismo: Ao romper com os
paradigmas defendidos pela Igreja Católica, o antropocentrismo com
sua origem ainda no renascimento, representou a ascensão dos
ideais burgueses sobre o pensamento e a cultura medieval. Este
tipo de mentalidade rompeu com a visão de mundo onde a religião
ocupava o centro de todas as questões (teocentrismo). Para os
iluministas, o centro de toda e qualquer pesquisa deveria ser o
próprio ser humano (antropocentrismo) e não a religião, como
acontecia anteriormente. Como resultado imediato disso, a Igreja
deixou de ser vista como aquela que tinha as respostas para todos
os problemas da vida e da sociedade. Com suas estruturas
ideológicas abaladas, a Igreja Católica perdeu muito de seu poder
político e, por incrível que possa parecer, também perdeu muito de
seu prestígio no meio religioso, pois novas interpretações,
principalmente humanistas, sobre a religião passaram a surgir,
principalmente após a Reforma Protestante. Em suma, o Iluminismo
defendia o avanço da ciência e da razão, o racionalismo, colocando
o homem no centro, justamente o inverso do teocentrismo, dessa
forma, pode-se dizer que o iluminismo defendia o antropocentrismo.
Ao colocar o homem no centro das coisas, a visão antropocêntrica
se apresentou como uma resposta contrária aos modos de agir e
pensar da Idade Média. Prosseguindo nesse tipo de argumentação,
o comportamento subordinado e místico do religioso homem
medieval, seria trocado pela figura de um novo homem interessado
em falar de seus problemas e das demais coisas terrenas.
 
Esquema:
 
• Iluminismo > visão antropocêntrica > homem no centro de todas as
coisas;
 
• Igreja Católica > visão teocêntrica > Deus no centro de todas as
coisas.
 
Filósofos Iluministas:
 
• John Locke (1632-1704): posicionou-se frontalmente contra o
absolutismo, defendendo a ideia de que o governo deve representar
os cidadãos (entendidos como os membros das classes
dominantes). Foi ele o primeiro pensador moderno a afirmar serem
os indivíduos possuidores de certos direitos naturais, que o Estado
tem obrigação de respeitar.
 
• Voltaire (1694-1778): foi um dos mais destacados representantes
do iluminismo, graças a seus dotes literários, que lhe granjearam
grande prestígio entre os leitores. Voltaire foi um feroz adversário da
Igreja, defendia a liberdade de pensamento e não poupava crítica à
intolerância religiosa;
 
• Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): foi um partidário ardoroso
da democracia. Em seu livro O contrato social, afirmava ser o
Estado o representante da vontade geral, isto é, da maioria dos
cidadãos. Portanto, o poder político repousaria sobre o povo, que,
em última análise, seria a autoridade suprema. Em suma defendia a
ideia de existência de um estado democrático que garantiria
igualdade para todos;
 
• Montesquieu (1689-1755): Sua grande contribuição para as ideias
políticas foi à teoria da tripartição de poderes, segundo a qual o
governo deve ser dividido em Executivo, Legislativo e Judiciário. O
equilíbrio entre os poderes impediria a tirania e garantiria os direitos
e liberdades dos cidadãos.
 
• Denis Diderot (1713-1784) e Jean Le Rond d´Alembert (1717-
1783): Juntos elaboraram a “Enciclopédia”, obra monumental, que
contou com cerca de 150 colaboradores, procurou abarcar todos os
conhecimentos da época e, ao mesmo tempo, difundir as
concepções iluministas. O governo francês chegou a proibir sua
divulgação em duas ocasiões, mas em vão.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE VII
I. A Revolução Francesa e a Igreja Católica.
A Revolução Francesa marcou para Igreja Católica um dos
períodos mais difíceis de sua história. Isto porque a Revolução não
só propagou os ideais iluministas que incluíam um sentimento
anticlerical e antirreligioso, como também exerceu na prática esses
ideais, muitas vezes de forma violenta.
A França sempre teve uma posição de destaque na
cristandade, desde os séculos medievais, da conversão dos francos
ao catolicismo até a época em que a cidade francesa de Avignon
abrigou a sede do papado. Foi também a França um dos maiores
pontos de conflito entre católicos e protestantes. Tais fatos levaram
a França a ser considerada por muitos papas como a “filha predileta
da Igreja”. Às vésperas da Revolução, o paísmostrava um quadro
onde o catolicismo vivia o seu auge: a população participava dos
ritos religiosos e o clero paroquial cuidava da vida religiosa da
sociedade. Exercia grande influencia na vida política, pois o poder
absoluto do rei era garantido pelo direito divino, e o próprio clero
possuía status de Estado. A religião católica influenciava também o
tempo, com o calendário gregoriano que possuía festas e feriados
cristãos. Por fim, era papel de o clero presidir as atividades civis
como os casamentos e os registros de nascimento e óbito. Era esse
quadro que a revolução viria a mudar radicalmente.
A Revolução Francesa, em sua tentativa de acabar com as
estruturas feudais ainda vigentes, colocou a Igreja Católica em uma
difícil situação. Desde os primeiros passos da Assembleia
Constituinte até a Constituição Civil do Clero, foram tomadas
medidas capazes de levantar suspeitas de que a revolução era
hostil ao clero. Uma das primeiras medidas dos revolucionários foi à
supressão do dizimo e o confisco dos bens do clero, para saldar o
déficit nacional. Essas medidas, a principio, não causaram um
conflito direto entre a Igreja e a Revolução.
O conflito só viria com a Constituição Civil do Clero e o
juramento dos padres. Tal medida dividiu o clero francês: o clero
constitucional, fiel à constituição, e o clero refratário, fiel ao papa.
Este repudiava cada medida dos revolucionários, pois, além de
perder o controle sobre o clero francês também perdeu suas
possessões territoriais francesas na cidade de Avignon.
É possível afirmar que a Constituição Civil do Clero foi o
divisor de águas nas relações entre a Religião Católica e o Estado
revolucionário francês. Foi o juramento dos padres que estimulou a
contrarrevolução na Vendéia e a guerrilha camponesa dos Chouans
– a Chouannerie, da qual participaram o clero refratário e a
aristocracia. Foi também a questão do juramento que desencadeou
um movimento violento de ataques aos padres e aos templos. Além
disso, subordinava o clero ao Estado rompendo os seus vínculos
com o papa.
A Igreja ainda viria a perder suas áreas de influência na vida
política e social. O rei Luís XVI, antes de ser decapitado, é obrigado
a renunciar o seu “poder divino”, tornando-se um cidadão como
outro qualquer. O clero deixa de presidir as atividades da vida civil
como o casamento e os registros de certidões de nascimento e de
óbito. É importante ressaltar que na tentativa de enterrar de vez a
influência católica, o governo aboliu o calendário gregoriano
acabando com os dias da semana, e consequentemente, eliminando
as festas e feriados religiosos, inclusive o domingo, conhecido como
“Dia do Senhor”. Para substituí-lo criou um novo calendário,
conhecido como Calendário Republicano Francês, que marcaria o
inicio da nova era da Republica Francesa dando uma nova
nomenclatura aos meses e semanas de acordo com as estações do
ano.
O período do Terror marca o inicio do movimento violento que
se deu contra a Igreja Católica. Igrejas são apedrejadas, padres são
forçados a abdicar, imagens religiosas são destruídas e o culto
religioso passa a ser proibido. Podemos ainda citar as tentativas de
substituir o culto religioso por um culto revolucionário, como o culto
à razão e ao Ser Supremo. Esses cultos exaltavam a vitória da
razão e da consciência sobre a dominação da Igreja. Sobre o culto
ao Ser Supremo, Robespierre aparece como pontífice da religião do
Estado na tentativa promover a união entre o sentimento
revolucionário e o sentimento religioso.
Passado o período violento do Terror, com a queda de
Robespierre, seguiu-se uma fase confusa para a religião. Os
homens que o derrubaram eram anticlericais que participaram
dessas perseguições. Contudo, a política da Convenção
Termidoriana seguia a lógica do retorno da liberdade que o período
do Terror havia negligenciado. A essa lógica de liberdade estava
ligada à questão da liberdade de culto. No período que vai de 1795
a 1799, as Assembleias do Diretório agiam ora permitindo o retorno
ao culto, ora regressando a uma política de perseguição.
Esse quadro só seria resolvido com Napoleão Bonaparte. No
período do Consulado, Napoleão e o Papa Pio VII assinam uma
Concordata que redefine as relações entre a Igreja e o Estado. Por
essa Concordata a Igreja Católica era reconhecida na sua unidade e
estatuto, a liberdade de culto era garantida e o catolicismo era
aceito como a religião da maioria dos franceses. Contudo a Igreja
ficava subordinada ao Estado, uma vez que a nomeação de bispos
era feita pelo Consulado. Os territórios da Igreja, como Avignon, e
seus bens também não são restituídos.
O ultimo pilar do movimento de ataque à religião católica, o
Calendário Republicano, foi extinto por Napoleão no Império, em
1805.
 
Cronologia:
• 04/08/1789 – Abolição dos direitos feudais e supressão do dizimo.
• 02/11/1789 – Confisco dos bens do clero para saldar déficit
nacional.
• 12/07/1790 – Aprovada a Constituição Civil do Clero.
• 26/11/1790 – Decreto fixando o prazo de dois meses para o
juramento dos padres em exercício à Constituição.
• 03/1793 à 03/1796 – Revolta da Vendéia e guerrilha camponesa
dos Chouans
• 07/11/1793 (17 de Brumário do ano II) – Abjuração do bispo de
Paris marca o inicio da descristianização.
• 21/11/1793 (1 de Frimário do ano II) – Intervenção de Robespierre,
refreando a descristianização violenta.
• 24/11/1793 (4 de Frimário do ano II) – Convenção Nacional adota o
Calendário Republicano, determinando a data de 22/09/1792 como
inicio do ano I da Republica.
• 07/05/1794 (18 de Floreal do ano II) – Relatório da Convenção que
define as relações entre Estado e Igreja.
• 27/07/1794 (09 de Termidor do ano II) – Queda de Robespierre ,
sucedido por anticlericais que haviam participado da
descristianização violenta.
• 18/08/1797 à 17/09/1797 (Frutidor do ano V) – Inicio da política de
perseguição religiosa.
• 07/1801 – Concordata assinada entre Napoleão e o Papa Pio VII.
• 31/12/1805 – Abolição do Calendário Republicano por Napoleão.
 
II. Revolução Francesa: por que, exatamente, ela perseguiu os
católicos?
Afirmar que a Revolução Francesa perseguiu a religião não é
de todo correto. Muitos que fazem essa afirmação supõem ou
tentam fazer pensar que os revolucionários tinham os nobres planos
de construir uma sociedade laica na qual os segmentos religiosos
não tivessem privilégios nem fossem relevantes na vida pública.
Não é esta a verdade objetiva.
O que os revolucionários realmente tentaram foi substituir as
religiões históricas por uma “religião de Estado”, com suas próprias
pretensões teológicas, funcionários, elites e privilégios, visando
assegurar que os cidadãos se submetessem à lei não apenas no
comportamento externo, mas inclusive na consciência e no coração.
A lei é que seria “deus”.
Os Estados Gerais convocados por Luís XVI em 1789 se
dividiam em três ordens: o clero, a nobreza e o “terceiro estado”. Os
dois primeiros tinham 561 representantes em total (291 e 270,
respectivamente), enquanto o terceiro estado, cujos representantes
eram eleitos pelos franceses do sexo masculino, maiores de 25
anos e que pagassem impostos, contava com 578. O número não
era tão importante, em tese, porque o rei desejava manter o voto por
segmento e não por indivíduo. O objetivo da convocação era ajudar
a monarquia a realizar reformas que melhorassem a situação geral
do país, afundado na pobreza.
O clero não era um obstáculo para a política inicial de
reformas. Os padres apoiavam as medidas propostas pelo terceiro
estado para implantar a separação de poderes, a reunião frequente
dos Estados Gerais, a sua supremacia na determinação dos
impostos, o reconhecimento das liberdades individuais etc. Mas
esse apoio às reformas não era mediante ações radicais: só um
quarto dos membros do clero queria a ruptura da ordem vigente e a
revolução democrática, enquanto a maioria dos padres defendia
uma reforma paulatina e sem ruptura traumática. Apesar dessa
atitude de moderação, a tomada da Bastilha em 14 de julho em
1789 e a posterior aboliçãodos privilégios feudais não foram fatos
particularmente alarmantes para os bispos e sacerdotes, que
estavam mais preocupados com os resultados da reforma
constitucional iniciada por uma nova assembleia. A “Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão” promulgou a liberdade religiosa,
reservando ao Estado o poder de determinar quando as opiniões em
matéria de credo eram incompatíveis com a lei.
Esta liberdade teórica, no entanto, teve escassa duração real.
Em 12 de julho de 1790, estabeleceu-se a chamada “Igreja
constitucional”, que, na prática, imposta por um rápido processo de
fundamentalismo estatista, se tornou o único “credo” aceito pelas
autoridades. Essa “igreja” tinha organização e funcionamento
próprio, decidido pelo Estado. Os sacerdotes católicos foram
pressionados a jurar fidelidade às novas normas estatais em matéria
de religião e a se desligarem da obediência ao seu bispo e a Roma.
Apesar da determinação do Papa Pio VI e da rebelião dos bispos
perante a pressão estatal (só quatro cederam à nova ordem), muitos
presbíteros, em especial no centro do país, se uniram à “igreja laica”
e viraram comissários políticos do Estado em matéria religiosa. A
criação desta “igreja” foi celebrada no Campo de Marte, com os
oficiantes ataviados em vestes tricolores francesas.
A perseguição contra os católicos que não aceitaram esta
situação foi brutal. Os sacerdotes que se mantiveram católicos
foram perseguidos, impedidos de celebrar sacramentos e de pregar
e, a partir de 18 de março de 1793, se fossem presos em solo
francês, deviam ser executados em menos de 24 horas. Muitos
tiveram a pena de morte comutada por um destino tão pavoroso
quanto, nas infectas e tristemente célebres prisões da Guiana
Francesa.
Ao mesmo tempo, foi cortada a comunicação entre os
católicos franceses e o Papa, cujas cartas e documentos não
podiam ser divulgados no país sem a aprovação prévia dos órgãos
legislativos. A Igreja católica sofreu uma das piores perseguições da
história. As crianças não podiam receber o batismo, nem a
comunidade podia celebrar a Eucaristia. Só se conseguia oficiar
algum sacramento na clandestinidade. Na Bretanha, região que
registrou o maior número de sacerdotes contrários à nova “igreja”
cismática, os fiéis se reuniam em barcas, longe da costa, ou no
interior dos bosques. Aqueles que participavam dessas “reuniões
ilegais” corriam o risco ser condenados à morte como inimigos do
Estado. Na região bretã foram assassinados cerca de 120.000
católicos por motivos estritamente religiosos: tratava-se de mais de
15% da população.
Enquanto isso, as autoridades revolucionárias determinavam
por decreto, sob os impulsos de Robespierre, a existência do “Ser
Supremo” e a imortalidade da alma, instaurando a celebração de
“festivais do Ser Supremo” a partir de 1794. Antes disso já tinham
sido criados templos à “deusa Razão”, usando-se para tanto as
igrejas e sinagogas. Em todo momento, o povo era induzido a ligar a
sua consciência a uma série de normas políticas e morais ao gosto
do poder – um gosto altamente variável e volúvel, diga-se de
passagem.
Não foi o caso, portanto, de tentar eliminar a religião pura e
simplesmente, nem de desbaratar os privilégios que de fato existiam
para alguns setores do clero (e que de fato chegavam a ser
extravagantes em certos casos). Foi o caso, isto sim, de um esforço
estatal impositivo para transformar o Estado não apenas no máximo
ditador da consciência individual, mas em objeto, ele próprio, de
devoção pública.
Ainda hoje essas tentativas persistem, com outras estratégias
e formatos – e é de extrema importância reconhecer as tentativas do
Estado de ocupar o lugar da religião sob o disfarce abstrato e
obscuro de uma indeterminada “cidadania” que se intromete no
âmbito das consciências.
 
III. Pio VII e Napoleão Bonaparte.
Quando Pio VI morreu aos 29/08/1799 em Valença (França),
para onde tinham deportado o “cidadão Papa”, a Igreja se via em
situação crítica tal como nunca antes. Com efeito, a França, a “filha
primogênita”, caíra na incredulidade; a Itália estava invadida e
convulsionada; a Alemanha, contaminada pelo Iluminismo
(Aufklarung); a Bélgica, incorporada à República Francesa
revolucionária; a Polônia, retalhada por três potências vizinhas; a
Espanha e Portugal eram governados por Ministros hostis a Igreja;
na Inglaterra e nos Países Baixos, os católicos eram minorias
flutuantes. O Catolicismo parecia em agonia; dir-se-ia que Pio VI
fora o último Papa. Oradores irônicos faziam a oração fúnebre da
Igreja com frases blasfematórias. Como eleger novo Pontífice em
ambiente tão agitado e rebelde? Os Cardeais estavam ou
prisioneiros ou deportados ou dispersos em liberdade.
Apesar de tudo, o Conclave reuniu-se. Não em Roma
ocupada pelos franceses, mas em Veneza, território que os
austríacos e russos haviam conquistado aos franceses. Após três
meses e meio saiu eleito o Cardeal Barnabé Chiaramonti, monge
beneditino, que tomou o nome de Pio VII (1800-23). Assim quase
simultaneamente subiam ao centro europeu duas figuras
importantes: Pio VII e Napoleão Bonaparte. O novo Papa era
homem profundamente religioso, ao serviço de Deus e da Igreja.
Quando bispo de Imola, dizia aos seus diocesanos: “A forma de
governo democrático por vós adotada não se opõe em absoluto ao
Evangelho; exige, ao contrário, todas as virtudes sublimes que só se
aprendem na escola de Jesus Cristo… Sede bons cristãos, e sereis
bons democratas”. Tinha boa formação teológica e por toda a vida
quis ser o pobre monge Chiaramonti.
Quanto a Napoleão, não queria ser um ateu, mas um deísta
(isto é, alguém que segue a religião natural); na Córsega recebera
de sua mãe educação católica, que o tornava sensível aos valores
religiosos. Podia ter uma capela no palácio, como os reis de outrora,
e aí assistir a missa, mas só por conveniência ou por respeito às
tradições. Como quer que seja, queria um entendimento com a
Santa Sé. Percebia que, para fortalecer sua posição na França,
precisava do apoio dos católicos, que continuavam a ser uma força
no país. Quando a religião fora de novo permitida pelos
revolucionários, o júbilo do povo fora imenso, de modo que a Polícia
chegava a denunciar em 1798 o “fanatismo” que fizera progressos
na sombra.
Os austríacos e napolitanos em breve conseguiram expulsar
os franceses da maior parte da Itália – o que permitiu a Pio VII voltar
a Roma.
 
Acordos e conflitos.
Em breve Napoleão fez saber ao Papa que queria entrar em
negociações. Estas se realizaram, mas com grandes dificuldades
por causa das tendências galicanas dos franceses. Finalmente a
Cúria Romana fez concessões, e foi assinada uma Concordata em
Paris aos 15/07/1801: em 17 artigos atribuía grandes poderes ao
Estado sobre a Igreja; entre outros, é de notar que todos os bispos,
juramentados ou não, seriam pelo Papa obrigados a renunciar;
Napoleão nomearia todos os novos diocesanos e o Papa daria a
estes apenas a instituição canônica, isto é, a ordem sagrada.
Aos 18/04/1802 Napoleão mandou promulgar essa
Concordata acrescida de 77 artigos, ditos “orgânicos”, impregnados
de Galicanismo ainda mais avançado (os professores dos
Seminários eram obrigados a ensinar os quatro artigos galicanos).
Pio VII protestou, mas sem êxito. Napoleão os apresentava como
frutos das conversações com a Santa Sé – o que era evidentemente
falso: tais artigos exigiam o beneplácito do Governo para a
publicação, na França, de qualquer decreto do Papa ou de Sínodo
realizado no estrangeiro; proibia os Bispos de usar outro título a não
ser o de “cidadão” ou “senhor” (citoyen, monsieur); Sínodos e
Legados papais na França não poderiam agir sem a autorização do
Governo.
Na execução da Concordata, 38 dos 81 bispos católicos não
juramentados recusaram-se a resignar às suas dioceses. Não
obstante, o Papa os depôs – o que era acontecimento inédito na
história da Igreja! Partes das dioceses de Lyon e Poitiers não quis
reconhecer a Concordata, contando com o apoio de bispos
enérgicos; isto deu origem ao cisma da Petite Eglise (Pequena
Igreja),alimentado por teorias jansenistas; desde 1847, porém, o
cisma carecia de sacerdotes e os seus membros voltaram quase
todos a comunhão da Igreja.
A ambição de Napoleão levou-o a novos conflitos com a
Santa Sé. Com efeito; em maio de 1804, o monarca, por plebiscito,
foi aclamado Imperador dos franceses. Convidou Pio VII para sagrá-
lo e coroá-lo em Paris. o Papa, após hesitar, acabou aceitando: na
Catedral de Notre-Dame, aos 02/12/1804 sagrou o Imperador, mas,
a coroa, foi este mesmo quem a colocou sobre a sua cabeça (não
queria que se dissesse que recebera do Papa o poder imperial). Tal
procedimento contrariava o Cerimonial e era grave afronta ao
Pontífice. Este aturou o gesto, esperando receber alguma
compensação ou a retratação de artigos galicanistas. Iludia-se,
porém: Napoleão apenas restaurou algumas Congregações
Religiosas (Irmãs de Caridade, Lazaristas) e aboliu o Calendário
Republicano. Quis deter o Papa na França, afim de melhor utilizá-lo
como seu instrumento; mas Pio VII, prevendo o golpe, fora
prudente: antes de deixar Roma, havia assinado a sua renúncia ao
Papado, válida para o caso de não voltar à Cidade Eterna dentro de
um ano. Assim em abril de 1805 regressou a sua sede, um tanto
humilhado pelo tratamento que Napoleão lhe impusera.
Novos conflitos surgiram. Napoleão quis que o Pontífice
dissolvesse o casamento de seu irmão Jerônimo Bonaparte. Diante
da recusa do Papa, mandou invadir o Estado Pontifício, inclusive a
cidade de Roma. Aos 17/05/1809 o Estado da Igreja era incorporado
ao Império francês “para sempre”. Napoleão sentia-se como o
sucessor de Carlos Magno, Imperador Romano. Pio VII respondeu
lançando a excomunhão contra os usurpadores, a partir de
Napoleão até o último executor das ordens imperiais. o monarca se
inquietou com o fato, mas quis mostrar-se intrépido: na noite de 5 a
6 de julho de 1809 o Papa foi preso e levado a Savona (Itália do
Norte); os Cardeais também foram presos, e vinte e seis deles
foram transportados para Paris, a fim de ser mais rigorosamente
controlados.
Nova animosidade surgiu quando Napoleão quis separar-se
de sua esposa Josefina, estéril; alegava a nulidade do matrimônio
por falta da forma canônica e do consentimento devido. Para julgar
o caso, recorreu a tribunais franceses, que lhe deram razão. O caso,
porém, era de competência papal exclusiva (os casos de matrimônio
de famílias reais são exclusivamente da alçada do Pontífice para se
evitarem maquinações desonestas). Na base desse parecer
inválido, Napoleão contraiu novas núpcias com Maria Luísa da
Áustria aos 02/04/1810; treze dos Cardeais residentes em Paris
recusaram-se a comparecer, pelo que Napoleão os
“descardinalizou”, obrigando-os a vestir-se de preto e espalhar-se
pela França.
 
Novas lutas e desfecho.
Em Savona, o Papa continuava detido, sofrendo vexames por
parte do Imperador excomungado. Foi indignamente maltratado,
pois lhe tiraram livros, pena, tinta e anel.
Como houvesse muitas dioceses sem bispo na França (visto
que o Papa não queria aceitar as nomeações feitas pelo Imperador),
o monarca reuniu em Paris um Concílio nacional de 104 bispos
(1811) sob a presidência do Cardeal Fesch, tio do Imperador. O
Concílio começou por jurar fidelidade ao Papa. Foi então dissolvido
e de novo convocado; cedeu a pressão, decretando que aos
metropolitas caberia o direito de confirmar os candidatos episcopais,
caso o Papa não o quisesse fazer dentro de seis meses. Pio VII
acabou aceitando esta resolução e publicando-a em seu próprio
nome (1811).
Napoleão não se deu por satisfeito com o fato de que o Papa
não aprovara apenas, mas usara de sua autoridade publicando o
decreto em seu próprio nome. Declarou então a Concordata de
1801 e dissolveu o Concílio. Tinha em vista várias outras
reivindicações, inclusive a de que 2/3 dos Cardeais fossem
nomeados pelos reis e a de fazer o Papa residir na França. Tais
reivindicações, ele as proclamaria quando voltasse vitorioso da
Rússia (como esperava!).
Entrementes Napoleão mandou que o Pontífice fosse levado
de Savona para Fontainebleau perto de Paris (junho de 1812),
alegando que os cruzadores ingleses poderiam levar embora o
Papa residente no litoral da Itália. Na verdade, Napoleão queria
entrar em novas negociações com o Pontífice. Estas ocorreram
realmente, mas em termos mais fáceis do que as anteriores, porque
o Imperador fora infeliz na sua campanha militar da Rússia. Em
janeiro de 1813 Napoleão e Pio VII definiram onze artigos
preliminares de nova Concordata: o Papa renunciaria ao poder
temporal e residiria na França ou na Itália com uma renda de dois
milhões de francos anuais. As nomeações de Bispos seriam feitas
pelo Imperador; os Metropolitas lhes dariam a validade canônica,
sem a intervenção do Papa. o Imperador tinha outras pretensões,
que Pio VII rejeitou; já concedera muita coisa, porque estava
fisicamente muito abatido.
Napoleão aos 13/02/1813 publicou esse projeto de
Concordata como se fosse algo de definitivo (a Concordata de
Fontainebleau), mandando que se celebrasse a reconciliação em
todas as igrejas da França com o canto do Te Deum. Os Cardeais
“negros”, tendo podido aproximar-se novamente do Papa, fizeram-
lhe ver que tão exorbitantes concessões não podiam ser mantidas
(principalmente a renúncia ao Estado Pontifício). Diante disto, Pio
VII, inquieto, aos 23/03/1813 escreveu uma carta em que retirava as
concessões e convidava o Imperador para novas negociações.
Napoleão irritou-se furiosamente, mas teve que se conter porque a
situação política lhe era desfavorável: os aliados inimigos já se
tinham apoderado de quase toda a Itália e possuíam parte da
França. Viu-se assim obrigado a dar liberdade ao Papa aos
10/03/1814. Neste dia o Pontífice pôs-se a caminho de Roma, onde
entrou aos 24 de maio, tendo passado por Savona. Ao deixar esta
cidade, depositou uma coroa de ouro sobre uma imagem de Nossa
Senhora; e mais tarde instituiu a festa de Nossa Senhora
Auxiliadora a ser celebrada aos 24/05, dia do seu regresso a Roma.
Enquanto os romanos preparavam uma oração ao Pontífice
na Cidade Eterna, Napoleão no mesmo castelo de Fontainebleau,
testemunha das dores do Papa, era obrigado a abdicar
(11/04/1814), recebendo em compensação a Ilha de Elba com o
título de Imperador. – No ano seguinte, Napoleão escapou de Elba e
reassumiu o governo da França por cem dias. Nessa ocasião o
Papa se transferiu para Gênova, temendo a invasão de Roma por
Joaquim Murat, rei de Nápoles e aliado de Napoleão. Todavia este
foi definitivamente vencido em Waterloo (18/06/1815) e relegado
para a ilha de Santa Helena. Nos restantes seis anos de vida do
monarca, o Papa empenhou-se nobremente por aliviar a sorte do
exilado, hospedando os familiares deste; venceu moralmente o herói
do seu século, adquirindo grande prestígio junto aos seus
contemporâneos.
 
Uma vez livre das pressões napoleônicas, Pio VII aplicou-se
a organização do Estado Pontifício, depredado pela guerra e a
pilhagem dos franceses. Não conseguiu, porém, restituir completa
tranquilidade a Itália. O regime pontifício tradicional era tido como
um obstáculo à unificação da península, que os italianos almejavam
especialmente por inspiração das campanhas napoleônicas. Surgiu
então à sociedade secreta dos Carbonari, aos quais se opunham os
Sanfedistas, defensores da Santa Fé. Para apoiar a Igreja, Pio VII,
aos 07/08/1814, restaurou a Companhia de Jesus na Igreja
Universal, convencido de que ela tinha sua missão a cumprir no
século XIX.
Com a França e outros países da Europa as relações da
Santa Sé melhoraram; foram assinadas diversas Concordatas que
regeriam a situação da Igreja neste ou naquele país. Estes acordos
testemunhavam o prestígio do Papa, que de novo era acatado como
centro inabalável do governo da Igreja. Aliás, é de notar que o
Congresso de Viena realizado em 1815 entre as potências
europeias quis restaurar o Estado Pontifício quase na íntegra e
reconheceu aos Núncios Apostólicos o direito de precedência em
relação aos demais embaixadores.
Pio VII morreu em 1823 com 81 anos de idade,após um
pontificado de mais de 23 anos. O seu governo ressentiu-se da falta
de energia, que teria sido absolutamente necessária, mas assinala-
se pela grande caridade do Pontífice para com seu adversário
Napoleão. A história desse Papa é mais uma vez o testemunho de
quanto infeliz foi, para a Igreja, a união com o Estado; em vez de
colaborar com os grandes projetos pastorais do Papa, os regimes
monárquicos procuraram aproveitar-se da Igreja para realizar seus
planos políticos.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
PARTE VIII
LIBERALISMO e IGREJA.
Conforme certos filólogos, a palavra «Liberalismo» vem do
adjetivo espanhol «liberal», que na Europa do século' passado se
difundiu em oposição ao adjetivo «servil» durante os movimentos
políticos subsequentes ao governo de Napoleão Bonaparte. O
liberalismo veio então a ser uma corrente de pensamento que afirma
o valor da liberdade humana de modo tal que a cada cidadão toca o
direito de conceber a Verdade, o Bem e a religião segundo o seu
próprio alvitre, independentemente de qualquer tutela ou autoridade.
 
1. Histórico do liberalismo
Foi no setor da sociologia e da política que o Liberalismo
surgiu. Deve-se, com efeito, a uma reação dos povos contra os
sistemas de governo monárquicos absolutistas que tiveram voga na
Europa dos séculos XVII e XVIII (o poder executivo, representado
pelo rei, quase absorvia os poderes legislativo e judiciário, gozando
de faculdades praticamente ilimitadas).
 
O berço da reação foi à França, onde a Revolução de 1789
(preparada pela filosofia racionalista e naturalista dos
enciclopedistas Voltaire, Diderot, d’AIembert) desencadeou o ideal
da «emancipação» dos cidadãos e do povo em todos os setores.
Esse ideal encontrou em breve um dos seus maiores representantes
na pessoa do sacerdote Félicité Robert de Lamennais. Imbuído de
amor à causa cristã, esse varão concebeu a ideia de que a S. Igreja
muito se beneficiaria se sacudisse os encargos decorrentes da sua
união com o Estado; a partir de 1829, começou, pois, a propugnar
uma só tese: liberdade ... liberdade em tudo e para todos; o governo
civil procuraria promover o bem comum sem levar em conta os
direitos da Igreja, criando um bem-estar natural, emancipado do
sobrenatural; a S. Igreja, por sua vez, dispensaria a colaboração das
autoridades civis, colaboração que em muitos casos equivalia à
sufocação; a Igreja, dizia Lamennais, se desenvolveria melhor, pois
Ela possui o poder da Verdade e do Amor, o poder mesmo de Deus.
Lamennais comparava o sistema antigo à tutela exercida pelos
genitores sobre os filhos, tutela que deve cessar quando estes
chegam à maior idade; assim o povo teria estado sob o patrocínio
da Igreja e do Governo unidos até o séc. XVIII. Doravante, porém,
tendo chegado à plenitude dos tempos, o povo se devia libertar de
qualquer tutela profana ou religiosa, estabelecendo uma ordem de
coisas neutra em matéria de filosofia e religião; o Estado e a Igreja
se separariam, reconhecendo que sua união fora mera preparação
evangélica, a qual já se achava ultrapassada. O novo regime era
chamado «democracia» (como se vê, este termo, em si muito belo,
foi então forjado para designar uma ordem civil tida como leiga e
indiferente, mas, em última análise, naturalista, racionalista e
anticristã).
 
Eis como Lamennais se exprimia :
«O Estado deve considerar-se como colocado fora de todas as
comunhões religiosas, sem autoridade sobre alguma delas, mas
também sem outra obrigação para com elas que não a de lhes
assegurar a liberdade. Isto supõe que o Estado, destituído de
Religião ou, se quisermos, ateu, professe a liberdade de cultos e a
de consciência e que a Igreja aceite praticamente estas duas
coisas» (L'Avenir, t. I pág. 29s, artigo «De la Séparation de 1'Église
et de l'État»).
O ardoroso sacerdote reuniu em torno de si um grupo de
jovens inteligentes e generosos, tais como Lacordaire,
Montalembert, Gerbet, Rohrbacher, que constituíram a sociedade
dita «Agence Générale pour la Défense de la Liberté religieuse». O
movimento fundou o jornal «L'Avenir», com o lema «Dieu et
Liberté», mas de duração muito efêmera (de 16/X/1830 a
15/XI/1831).
Compreende-se que as ideias de Lamennais, ousadas como
eram, tenham provocado receios e oposição, da parte tanto de
bispos como de simples fiéis. Diante da situação, o Papa Gregório
XVI em 1832 publicou a encíclica «Mirari vos», condenando as
ideias de Lamennais (ideias que naquela época acarretavam
perigos e males que hoje já não se verificariam). Quase todos os
discípulos do mencionado sacerdote inclinaram-se diante da
sentença da Santa Sé, ficando Lamennais a sós na sua residência
de Chênaie, donde continuou a disseminar ideias cada vez mais
liberais.
Embora estivesse dissolvido, o grupo de discípulos de
Lamennais não abandonou o ideal de conciliar com os princípios do
Cristianismo a sede de emancipação dos homens do século
passado. Foi o que suscitou novas iniciativas e prolongadas
discussões nos decênios subsequentes. Em 1848 o Pe. Lacordaire
fundou o jornal «Ère nouvelle», inspirado por liberalismo assaz
acentuado e arauto de reivindicações sociais inovadoras; cora ele
se achavam o Pe. Maret e o leigo Frederico Ozanam. Na oposição
encontravam-se Louis Veuillot e Melchior Dulac, com o seu jornal.
«L'UnÍvers».
A situação se tornou cada vez mais confusa na França, onde
se originaram dois partidos bem característicos: um, liberal, ao qual
aderiram igualmente Montalembert, De Falloux, De Broglie, Augustin
Cochin, Mons. Dupanloup, bispo de Orleães; e o antiliberal, que
contou com o apoio de Mons. Fie, bispo de Poitiers. O estado de
coisas era tão complexo que até os mais fervorosos católicos
encontravam dificuldade para distinguir com clareza o que havia de
oportuno e o que havia de errôneo nas ideias então propaladas.
Tais circunstâncias exigiam novo pronunciamento da Santa
Sé. Este, de fato, se deu aos 8 de dezembro de 1864, quando o S.
Padre Pio IX publicou a encíclica «Quanta cura» acompanhada do
Sílabo (ou Sumário de erros do pensamento da época) ; nesses
documentos o Pontífice denunciava tudo que havia de condenável
nas teses dos católicos liberais.
Os anos seguintes foram anos de controvérsias. Menos de
um mês após a publicação da encíclica, Mons. Dupanloup, notável
por seus talentos e seu prestígio, divulgou um opúsculo intitulado
«La Convention du 15 Septembre et TEncyclique du 8 décembre
1864», em que ainda procurava tornar simpática e aceitável à
posição do Liberalismo. Em vista disto, distinguia entre doutrina e
prática: no tocante à doutrina, asseverava, Pio IX nada condenara
além do que já havia sido condenado em documentos anteriores;
positivamente, apenas reiterara o pensamento da Igreja com relação
à família, à sociedade e à política. No tocante à prática, porém,
Mons. Dupanloup julgava que Pio IX deixara margem à conciliação
com a vida moderna; seria possível, sim, abrir mão de algumas
exigências práticas da verdade ou da doutrina da Igreja, caso o
cumprimento de tais exigências aparecesse como algo de muito
difícil ou impossível na sociedade do séc. XIX.
Esta distinção entre doutrina e aplicação prática é, em
linguagem de escola, designada pela fórmula “tese-hipótese” (a
hipótese leva em conta os casos concretos ou a vida cotidiana,
permitindo abrandamento de conclusões decorrentes da tese ou
doutrina).
A situação política da Itália favorecia as discussões: os
patriotas tentavam unificar a península, abolindo o poder temporal
do Papado; à sua frente, estava o Conde de Cavour, que pretendia
apaziguar os ânimos, apregoando a fórmula de Montalembert: «A
Igreja livre no Estado livre! (L'Église libre dans l'État libre!)»; o que
queria dizer que nada haveria a temer para a Igreja caso viesse a
perder o território do Vaticano, pois o Estado italiano leigo ou neutro
(liberal) não entravaria as liberdades religiosas.
Sobreveio a figura de Leão XIII. Este Pontífice, pacificador
como era, quis esclarecer melhor a posição da Igreja na
controvérsia, publicando a 1 de novembro de 1885 e a 20de junho
de 1888 as encíclicas «Immortale Dei» e «Libertas»,
respectivamente. Tais documentos reafirmavam em primeiro lugar a
doutrina das encíclicas «Mirari vos», «Quanta cura» e do Sílabo:
asseveravam, sim, que todas as formas de governo são compatíveis
com a doutrina católica, mas que a nenhum governo é lícito atribuir
ao erro os mesmos direitos que à verdade ou colocar os diversos
cultos no mesmo plano legal que a verdadeira Religião.
«É necessário que a sociedade civil, como sociedade civil,
reconheça Deus como seu princípio e seu fim ... que ela respeite e
honre o poder e a soberania de Deus. A justiça e a razão proíbem
que o Estado professe o ateísmo ou — o que equivaleria ao ateísmo
— que ele mostre as mesmas disposições para com cada uma das
diversas religiões... e indistintamente conceda a todas os mesmos
direitos. Já que a profissão pública de uma só Religião é dever do
Estado, faz-se mister que o Estado professe aquela Religião que é a
única verdadeira, Religião que não é difícil reconhecer,
principalmente nos países católicos, pois as características da
verdade brilham nela por meio de sinais que a distinguem entre
todas. Essa Religião, os chefes de governo tratem de conservá-la,
de protegê-la, se querem prover, de maneira prudente e útil, como
estão obrigados, ao bem comum dos cidadãos» (Leão XIII, enc.
«Libertas»).
Esta tese pode, à primeira vista, parecer rígida demais e, por
conseguinte, utópica. Leão XIII tinha consciência de que seria
praticamente inexequível nas circunstâncias da vida moderna. Por
isto, não hesitou em explicar com precisão como na prática a
doutrina (tese) poderia ser abrandada; sua posição resume-se nos
três seguintes itens da enc. «Immortale Dei»:
«Ninguém tem motivo para acusar a Igreja de rejeitar
concessões e acomodações razoáveis ou de ser inimiga de sadia e
legítima liberdade. — Com efeito; se a Igreja julga que não é lícito
colocar os diversos cultos no mesmo pé legal que a verdadeira
Religião, Ela nem por isto condena os chefes de governo que,
visando alcançar determinado bem ou impedir certo mal, toleram na
prática que esses diversos cultos tenham cada qual seu lugar no
Estado. — É, aliás, costume da Igreja cuidar com todo o zelo, para
que ninguém seja constrangido a abraçar a fé católica contra a sua
vontade, pois, como observa S. Agostinho, a fé só pode existir onde
haja espontaneidade» (Denzinger, Enchiridion 1873-1875).
 
A fim de ilustrar melhor o pensamento do Pontífice,
transcrevemos mais as seguintes passagens da encíclica «Libertas»
“Em sua consideração materna, a Igreja leva em conta o
peso acabrunhador da fraqueza humana: Ela não ignora a onda
(libertina) que, em nossa época, arrasta os espíritos e as coisas. Por
isto, embora só reconheça direitos ao que é verídico e honesto, Ela
não se opõe à tolerância de que os poderes públicos dão provas
frente a certas instituições contrárias à verdade e à justiça, tendo em
vista evitar maiores males ou obter e conservar maiores bens.
Deus mesmo, em sua Providência, embora infinitamente bom
e todo-poderoso, permite, não obstante, a existência de certos
males no mundo, ora para não impedir bens maiores, ora para evitar
mais vultosos males. No regime das nações, convém que os
governantes imitem Aquele que governa o mundo. Mais ainda: não
podendo impedir todos os males particulares, a autoridade dos
homens está obrigada a permitir e deixar impunes muitas coisas
que, a justo titulo, cairão sob o juízo da Providência Divina.
Observe-se, porém, o seguinte: se, em vista do bem comum, as leis
dos homens podem e mesmo devem tolerar o mal, nunca o podem
ou devem aprovar e desejar em si mesmo. Com efeito, o mal é a
privação do bem; por conseguinte, ele se opõe ao bem comum, que
o legislador está obrigado a desejar e defender do melhor modo
possível. Neste ponto também as leis humanas devem procurar
imitar a Deus...
Uma coisa ficará sempre de pé, a saber: a liberdade
concedida indiferentemente a todos e em favor de todos não é,
como já muitas vezes dissemos, desejável em si mesma, pois
repugna à razão que o erro e a verdade gozem dos mesmos
direitos; no que se refere à tolerância, é estranho ver até que ponto
se afastam da equidade e da prudência da Igreja aqueles que
professam o Liberalismo”.
Após tais declarações da Santa Sé, foram-se apaziguando os
ânimos; o Liberalismo como tal deixou aos poucos de ser objeto de
discussão. As controvérsias, porém, imprimiram suas marcas na
mentalidade dos povos em geral até o dia de hoje. Pode-se dizer
que numerosas correntes de filosofia, sociologia, política, assim
como vários movimentos religiosos de nossos dias são, em última
análise, expressões concretas da mentalidade liberal que tanto
agitou os pensadores do século passado.
 
Vejamos, pois, mais precisamente como se caracteriza essa
mentalidade.
 
Em que consiste o liberalismo?
Como se depreende de quanto foi dito atrás, o Liberalismo
constitui uma tendência ou uma atmosfera muito mais do que um
sistema ou uma escola de pensamento.
 
Essa tendência se distingue primariamente pela intenção de
desligar a liberdade humana de qualquer lei ou autoridade que não
seja puramente humana ou até... que não seja a do próprio sujeito.
Atribui, pois, à razão a capacidade de discutir todos os valores,
remover o que ela julgar inaceitável e erguer o que ela considerar
oportuno. Em particular, o Liberalismo não reconhece autoridade
religiosa sobrenatural, como a afirma o catolicismo :... autoridade
que mereça acato e respeito independentemente dos valores
humanos (virtude e sabedoria) de seus representantes.
Aliás, esta premissa é essencial para que possa existir
Liberalismo: tudo é humano, e meramente humano. Por isto, tudo é
relativo, tudo é imperfeito. Nada, por conseguinte, nem mesmo a
Religião, merece a adesão incondicional do homem. Daí se
compreende que o Liberalismo acarrete indiferentismo, ora mais,
ora menos acentuado; implantando-se numa sociedade, cedo ou
tarde solapa as energias coletivas e o heroísmo das atitudes.
Tal mentalidade toma facetas bem definidas quando aplicada
às expressões da cultura. Eis um rápido catálogo dessas facetas:
 
1) Liberalismo filosófico. É a tendência a rejeitar no campo
filosófico (ou na maneira geral de encarar o mundo e a vida)
qualquer tutela que não seja a própria razão humana.
Na Idade Média, os estudiosos talvez tenham abusado da
autoridade do filósofo grego Aristóteles; Descartes (+1650) iniciou a
reação contra essa docilidade, reação que aos poucos foi tomando
proporções exageradas. A razão humana, em consequência, negou
qualquer limite no exercício da reflexão, pretendendo julgar tudo, até
mesmo as verdades religiosas. A possibilidade de dogmas de
origem sobrenatural, não derivados da razão, foi, de antemão,
negada: o homem bastaria a si mesmo (autossuficiência do
pensamento humano). As correntes filosóficas contemporâneas não
cristãs, por mais contrárias que sejam entre si, supõem todas tal
ponto de partida: assim o criticismo, o idealismo, o positivismo, etc.
Bons críticos modernos observam que nessa posição
filosófica está latente certa contradição: o Liberalismo, que rejeita o
dogma, de antemão admite um dogma — o dogma de que não pode
haver autoridade ou tutela que transcenda a razão humana. Sem
provas e gratuitamente, o pensador liberal se vincula a este
pressuposto, cerceando a sua liberdade dentro do seu imanentismo
ou da sua autossuficiência.
 
Liberalismo religioso. Lutero proclamou o livre exame da Bíblia, ou
seja, a recusa de qualquer autoridade visível que orientasse a leitura
das Escrituras Sagradas; cada crente deveria perceber dentro de si,
pelo testemunho meramente interno do Espírito Santo, o sentido da
Palavra de Deus. Com isto Lutero deu início a uma nova
mentalidade dentro do setor religioso — mentalidade subjetivista e
individualista. Eis, porém, que, quando a fé no testemunho interno
se atenuou (como no protestantismo do séc. XVIII), cada indivíduo
ficou com a liberdade de julgar os valores da Religião sem controle
superiorà sua própria razão; dai dizer-se que tanto faz abraçar esta
como aquela religião ou mesmo recusar qualquer religião. Em última
análise, todas as Religiões seriam boas; dir-se-ia que é o homem
quem as faz, quem as julga, quem as condena, em vez de ser
condenado pela Religião.
Tais ideias repercutiram em certas correntes bíblicas dos séc.
XVIII/XIX, favorecendo exageros na crítica dos livros sagrados. Em
consequência, notáveis autores dedicados ao estudo das Escrituras
chegaram a negar a Divindade de Cristo. Tal estado de coisas
provocou entre os anglicanos o benfazejo «Movimento de Oxford»,
encabeçado por Newman, o qual denunciou e impugnou o
liberalismo religioso, primeiramente como anglicano, depois como
católico.
Pio IX, no Silabo, condenou a proposição no 4, conforme a
qual a razão seria a soberana norma para se julgar qualquer tipo de
verdade (cf. Denzinger, 1704).
Aplicado ao setor das relações da Igreja com o Estado, o
Liberalismo religioso propugna um Estado leigo (que praticamente é
Estado ateu), dissimulado sob o nome de Estado «tolerante»:
Religião não seria valor necessário a um programa de bom governo;
em matéria de Religião, não haveria propriamente nem verdade
nem erro, nada enfim que merecesse o empenho do Estado.
A Igreja, na impossibilidade de conseguir melhor solução,
aceita esse agnosticismo, contanto que não degenere em
perseguição religiosa.
Liberalismo político. Caracteriza-se, no seu âmago, pelas ideias
que acabam de ser expostas no tocante à Filosofia e à Religião. A
política é uma das aplicações da Filosofia e da atitude religiosa do
cidadão.
 
Liberalismo econômico. No setor econômico, o Liberalismo ensina
que a livre concorrência é lei providencial, a qual estimula a
produção dos bens e a prosperidade dos povos; o interesse pessoal
dos cidadãos, isento de qualquer intervenção do Estado, seria o
grande propulsor das atividades econômicas.
Essas ideias foram apregoadas de maneira sistemática na
Escola de Manchester, orientada por Adam Smith (+1790). «Deixar
fazer, deixar passar», tal era o lema desse tipo de Liberalismo;
nenhuma autoridade teria o direito de exercer controle sobre as
iniciativas dos indivíduos, que destarte facilmente cediam ao
egoísmo e à ganância, estabelecendo a opressão dos pobres por
parte dos ricos, reduzindo o trabalho à categoria de mercadoria
sujeita às leis da oferta e da procura; tais males foram agravados
pelo fato de que os economistas liberais do séc. XVIII professavam
a total separação entre economia, de um lado, e moral
(consciência), do outro lado. Foi o liberalismo econômico que
provocou a concentração de grandes capitais em mãos de poucos
proprietários, com detrimento para a massa da população entregue
à miséria (donde o chamado «capitalismo»).
 
Liberalismo artístico. Propala a separação entre às regras da arte
e as normas da consciência ou da moral. Ao artista seria lícito
produzir toda e qualquer obra de arte, sem levar em conta os
ditames da ética.
Em conclusão: o Liberalismo resumiria todas as suas
expressões no seguinte princípio: Todo homem responsável por
seus atos tem o direito de fazer o que lhe agrade, «certo ou errado»,
desde que os atos de tal indivíduo não prejudiquem a sociedade.
As categorias de «certo» e «errado», conforme esta
apreciação, são muito variáveis, de modo que ninguém pode
pretender possuir a certeza ou a verdade.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
PARTE IX
1. PIO IX: O MAIS LONGO PONTIFICADO DA HISTÓRIA DA
IGREJA.
Beatificado em 2000, o papa Pio IX foi acusado de
antissemitismo e teve papel fundamental em meio ao processo de
unificação italiana. Pio IX foi o papa de número 255 na história da
Igreja Católica, entre 1846 e 1878.
Após a morte do Papa Gregório XVI -cuja eleição levará mais
de dois meses de Conclave cardinalicío – os cardeais demoraram
apenas 15 dias para elegerem um Cardeal italiano, Giovanni Conti
Mastai-Ferretti, que tomou o nome de Pio IX. O seu pontificado
prolongou-se por 31 anos e 8 meses, entre 1846 e 1848 o mais
longo da história da Igreja Católica.
Nascido no dia 13 de maio de 1792, Giovanni Maria Mastai-
Ferreti nasceu na cidade italiana de Senigallia e estudou em Roma.
Tentou seguir carreira militar, mas, por sofrer de epilepsia, não
conseguiu ingressar na carreira e optou pela teologia. Sua
ordenação como sacerdote se deu em 1819 e, então, foi para o
Chile, onde exerceu seus primeiros anos de sacerdócio. Voltou à
Itália em 1825 e, dois anos depois, foi nomeado arcebispo de
Spoleto. Chegou ao posto de cardeal em 1840. Com o falecimento
do papa Gregório XVI, um conclave foi convocado para escolher o
novo Supremo Pontífice. Houve uma divisão entre os reformadores
e os conservadores da época e Giovanni Mastai-Ferreti era
identificado como um candidato liberal. Sagrando-se como vencedor
no dia 16 de junho de 1846, assumiu o nome de Pio IX para
homenagear seu antigo benfeitor Pio VIII.
Pio IX desenvolveu um pontificado condenando o que
chamava de falso liberalismo, condenava o panteísmo, o
naturalismo, o racionalismo, o socialismo, o comunismo, a franco-
maçonaria, o judaísmo e várias outras manifestações tidas como
contrárias às diretrizes católicas. Insistia que a única teologia e a
única filosofia que deveria ser seguida era a de São Tomás de
Aquino.
Como devoto da Virgem Maria, promoveu o dogma da
Imaculada Conceição e também a devoção ao Sagrado Coração.
Foi responsável também por um elevado número de beatificações e
canonizações, sem precedentes para a época, e por reformas
monásticas e litúrgicas. Convocou o concílio Vaticano I que
determinou a infalibilidade papal como dogma da fé.
Pio IX teve uma relação tensa com o judaísmo. Mesmo
abolindo leis que determinavam condições opressoras aos judeus,
condenou o judaísmo em uma de suas encíclicas. Por sinal,
publicou mais de 75 encíclicas.
De início, esperava-se que Pio IX seria um homem de
abertura. Os católicos liberais, bem como os republicanos italianos,
depositavam nele suas esperanças, talvez exageradas, e ficaram
desencantados após o fracasso dos levantes revolucionários de
1848.
Eleito papa pelo conclave de cardeais, tornou-se além de
guia espiritual do mundo católico, soberano temporal dos Estados
Pontifícios na Itália Central, em torno de Ravena. A origem desses
Estados remonta a uma doação de Pepino, o Breve, ao papa de sua
época, mais de mil anos antes. Era destinada a assegurar a
autonomia da Santa Sé face às pressões dos soberanos temporais.
O papado de Pio IX é traz a marca da caridade: ele começa a
introduzir a democracia no governo de seus Estados; libera
militantes da unidade nacional e instaura duas Câmaras para a
votação de leis. Além disso, faz ingressar laicos nas comissões
governamentais, dá início à construção de uma estrada de ferro, a
renovação da iluminação pública, desobriga os judeus de Roma de
residir num gueto e manda destruir o muro que cercava esse antigo
bairro.
Numerosos italianos viam nele um possível chefe de uma
federação italiana. O abade piemontês Vincenzo Gioberti
preconizava uma federação em torno do papa. Em setembro de
1847, o agitador republicano Giuseppe Mazzini lança um apelo ao
papa para que lidere o movimento italiano de libertação.
As revoluções de 1848 iriam pôr termo a essas veleidades
liberais. Milão se subleva contra o absolutismo do imperador da
Áustria, que reinava sobre a Lombardia e Veneza após o Congresso
de Viena, de 1815.
O rei do Piemonte, Charles-Albert, apela aos príncipes da
península para que se juntassem a ele na guerra contra a Áustria, a
fim de libertar a Lombardia e Veneza. Pio IX envia tropas pontifícias
mas logo recua e renuncia à guerra.
Em meio à confusão, republicanos comandados por Mazzini
tomam a Santa Sé e proclamam a república em 9 de fevereiro de
1849. O papa teve de se refugiar na cidadela de Gaete, sul de
Roma, de onde aguardou o desenrolar dos acontecimentos.
Os italianos, comandados pelo rei de Piemonte-Sardenha são
impiedosamente batidos pelos austríacos em Novara. Pio IX apela à
França e à II Repúblicae envia o socorro de tropas francesas que
entram em Rome em 2 de julho de 1849 após esmagar os
voluntários de Giuseppe Garibaldi, vindos para defender a efêmera
república romana.
Pio IX impõe aos judeus de Roma uma contribuição especial
para financiar seu retorno ao Vaticano. Repudiando o liberalismo e o
engajamento político, confere total primazia à questão espiritual. Em
8 de dezembro de 1854, pronuncia o dogma da Imaculada
Conceição a propósito da Virgem Maria.
Em 1858 eclode o Caso Mortara. A polícia pontifical
sequestra uma criança, Edgardo Mortara, de uma família judaica de
Bolonha, sob pretexto que havia sido batizada por uma serviçal. A
criança seria colocada sob a proteção do papa a fim de ser educada
para o sacerdócio.
A polêmica em torno do Caso Mortara surge como a primeira
manifestação de antissemitismo moderna. O antissemitismo
tradicional cede lugar a um antissemitismo ideológico ligado aos
judeus cosmopolitas da burguesia, acusados de oprimir os
trabalhadores. São acusados também de negar os valores
universais da Europa das Luzes. Em resposta a esse antissemitismo
nascente, os judeus ocidentais criam a Aliança Israelita Universal.
Em 8 de dezembro de 1864, anexado à encíclica, Pio IX
publica um documento catalogando tudo o que ele, enquanto papa,
acreditava ser os erros do pensamento moderno. O documento
testemunhava sua apreensão ante os Estados cada vez mais
presentes que "tendiam a limitar a liberdade dos indivíduos".
Contudo, o tom sarcástico e o excesso de linguagem do texto
suscitou a ira dos católicos liberais.
Era a época do ‘ultramontanismo’. Nos grandes países
católicos, o clero e os fiéis manifestavam um crescente apoio ao
papa ‘de outros montes’.
A ação das tropas do rei de Piemonte-Sardenha e de
Garibaldi, que tomaram os Estados Pontifícios, com a única exceção
da Cidade Eterna, só fez crescer a simpatia dos católicos ao
soberano pontífice.
Em 1869 o papa convoca o Concílio Vaticano I com o fim de
consolidar sua autoridade, baseada no dogma da infalibilidade
pontifical.
Em 20 de setembro de 1870, as tropas do rei da Itália
ocupam Roma. Era o fim dos Estados Pontifícios. Pio IX se
considera prisioneiro no Vaticano. Uma situação que perduraria até
os Acordos de Latrão, em 1929, com o ‘duce’ Mussolini, e a criação
do Estado soberano do Vaticano.
O final do pontificado de Pio IX seria dedicado a combater o
crescimento do anticlericalismo e as ideologias laicas na Europa
Ocidental. O papa e seus sucessores fariam o possível para afirmar
a autoridade da Santa Sé sobre os católicos do mundo inteiro, em
detrimento das instituições intermediárias: associações culturais,
ordens monásticas e ações associativas de laicos.
Seu pontificado durou 31 anos, o segundo maior da história,
só perdendo para São Pedro. Ocupando o cargo de Supremo
Pontífice, foi um conservador. Condenava todas as novas ideologias
e os movimentos que faziam parte do mundo moderno. Pio IX
faleceu no dia sete de fevereiro de 1878 e foi sucedido por Leão
XIII. Seu túmulo está na igreja de San Lorenzo Fuori le Mura. Sua
beatificação foi controversa, mas o resultado foi dado no ano 2000.
 
2. Concílio do Vaticano I .
O Concílio do Vaticano I foi o acontecimento de maior relevo
na História da Igreja do século XIX. Considerado pela Igreja Católica
de Roma seu vigésimo concílio ecumênico, celebrou-se na Basílica
de São Pedro, em Roma, de 8 de dezembro de 1869 a 18 de julho
de 1870. Foi convocado e presidido pelo Papa Pio IX, que “desejava
remediar com um meio extraordinário os males extraordinários que
afligem a Igreja” (Bula Aeterni Patris, 1868).
 
2.1.Os preparativos
Mais de trezentos anos haviam decorrido após a última
Assembleia do Concílio de Trento (3-4/12/1563), quando Pio IX, em
dezembro de 1864, comunicou secretamente aos cardeais a sua
intenção de reunir novo Concílio Ecumênico: os tempos, ingratos
como eram, o exigiam; era preciso deliberar sobre os remédios a
oferecer-lhes - o que se faria por excelência num Concílio68.
A Bula de convocação saiu aos 29/06/1868, convidando
também os protestantes e os ortodoxos separados; estes, porém,
não compareceram. a notícia de um próximo Concílio suscitou
entusiasmo e também apreensões; o público só sabia que seriam
condenados erros contemporâneos, reafirmada a doutrina da Igreja,
revistas à disciplina, a obra missionária, a formação dos
seminaristas Mas na Cúria Romana reinava certo mistério sobre os
intensos preparativos do Concílio. A agitação pública aumentou
quando em fevereiro de 1869 a revista jesuíta La Civilta Cattolica
anunciou que o Concílio estava para definir a infalibilidade papal. o
mundo não católico imbuído de liberalismo proclamava-se defensor
da liberdade dos simples fiéis católicos, ¨subjugados pelo domínio
obscuro e obscurantista dos eclesiásticos¨. Na Alemanha, o
historiador Pe. lnácio Dollinger (1799-1890) colocou-se a frente do
movimento antiinfalibilista, com diversos escritos contrários a
definição. o Presidente de Ministros da Baviera, Clodoveu de
Hohenhole, procurou suscitar uma intervenção dos Governos
europeus contra os pretensos perigos do Concílio. Os bispos
alemães reunidos em Fulda (setembro de 1869) enviaram um
escrito ao Papa em que declaravam não julgar oportuna a definição,
embora não se opusessem a doutrina; temiam as reações dos
Governos e cisões entre os próprios católicos. Em verdade, a
definição desse dogma podia parecer ousadia numa época em que
se respirava o liberalismo.
 
2.2. O decorrer do Concílio
O Concílio foi aberto aos 08/12/1869 na basílica de São
Pedro, com a presença de 764 prelados. - No mesmo dia e na
mesma hora, abria-se em Nápoles, sob a presidência de Ricciardi,
um anticoncílio, do qual participaram 700 delegados maçônicos do
mundo inteiro; a Indignação dispersou esse conciliábulo após
poucos dias, tal era a indignação popular provocada por blasfêmias
contra Cristo e sua Mãe Imaculada.
Quatro foram às sessões públicas do Concílio. A terceira, aos
24/04/1870, promulgou uma Constituição Dogmática Dei Filius,
unanimemente aprovada: o cap. 1º afirma a existência de um Deus
pessoal, livre, Criador de todas as coisas e independente do mundo
criado (contra o materialismo e o panteísmo); o capítulo 2º ensina
que certas verdades religiosas, como a existência de Deus, ¨podem
ser conhecidas com certeza pela luz natural da razão humana¨
(contra o ateísmo e contra o fideísmo69 num século em que a fé
cristã era escarnecida pelo racionalismo, o Concílio defendia a
razão!); o texto desse 2º capítulo acrescenta que houve uma
Revelação Divina, a qual chega até nós mediante tradições orais e
Escrituras Sagradas. O capítulo 3º proclama que a fé é uma adesão
livre do homem a Deus, que surge um dom da graça divina. O
capítulo 4º define os setores próprios da razão e da fé e lembra que
qualquer aparente desacordo entre razão e fé Sé pode vir de falsa
compreensão das proposições da fé ou das conclusões da razão.
A quarta sessão do Concílio, aos 18/07/1870, definiu a
infalibilidade do Papa e seu primado de jurisdição sobre a lgreja
inteira. O texto proposto à discussão dos padres conciliares foi
debatido de março a julho; a assembleia se dividiu em dois campos:
a grande maioria julgava a definição oportuna e necessária (eram
apoiados por uma corrente de leigos franceses, encabeçados por
Louis Veuillot, que, repudiando os resquícios de galicanismo, eram
ditos ultramontanos, pois ultrapassavam a cordilheira dos Alpes
para aderir a Roma); os demais eram contrários à definição; destes,
poucos se opunham ao dogma como tal; outros apenas negavam a
oportunidade de proclamá-lo, por causa das reações que isto
poderia provocar. Entre os adversários da definição, citam-se o
bispo Strossmayer de Djakovar (Eslavônia), que, depois da
definição, aceitou fielmente a sentença do Concílio; e a bispo
Hetele, que aduzia o caso do Papa Honório contra a infalibilidade.
Este caso já foi abordado no capítulo 1º: sabe-se que Honório
I (625-38), homem pouco especulativo, foi solicitado pelo Patriarca
Sérgio de Constantinoplapara aderir ao monenergismo e ao
monotelitismo70; Honório parece ter dado razão a Sérgio em suas
cartas, ordenando que não se falasse mais nem de uma nem de
duas energias (atividades) em Cristo; o Concílio Ecumênico de
Constantinopla III em 681 condenou, por isto, o Papa Honório I. Ora
deve-se dizer que Honório não tencionou pronunciar definições
dogmáticas no caso; além disto, depreende-se do contexto mesmo
das duas famosas cartas que, quando Honório fala de uma Sé
vontade em Cristo, ele se refere ao plano moral e não ao plano
físico (a vontade humana e a vontade divina em Jesus queriam
sempre a mesma coisa). O mal de Honório não foi ter aderido ao
erro, mas foi permitir, por descuido, que este se propagasse.
Os argumentos da oposição foram sendo desfeitos. Quando
viram a causa perdida, 56 dos oposicionistas se retiraram de Roma,
tendo pedido e obtido a licença do Papa, aos 17/07/1870; deixaram,
porém, uma carta ao Santo Padre, em que afirmavam seu propósito
de conservar sempre fidelidade e submissão a Santa Sé. No dia
seguinte, 18/07, 533 padres conciliares deram voto favorável à
Constituição Pastor Aeternus; dois apenas se manifestaram
contrários, mas logo se anexaram a sentença positiva. Pio IV
promulgou logo a Constituição, o que provocou calorosa aclamação
em toda a basílica de São Pedro.
A Constituição assim aprovada consta de quatro capítulos,
que afirmam o fundamento bíblico e patrístico, a duração perpétua,
o valor e a essência do primado romano
Assim como a infalibilidade do magistério papal. A autoridade
do Papa foi definida como sendo sumo e imediato poder de
jurisdição sobre toda a lgreja, ficando assim condenados o
galicanismo e o febronianismo (cap. 3º). O capítulo 4º define, como
dogma revelado por Deus, que as definições do Romano Pontífice
proferidas ex cathedra, isto é, na qualidade de Mestre da lgreja
inteira, em questões de fé e de Moral, gozam de especial
assistência do Espírito Santo; são, pois, infalíveis e irreformáveis por
si mesmas, sem necessitar da aprovação da igreja.
Após esta memorável sessão, o Concílio ainda estava no
início das suas atividades. Dos 51 projetos de decreto, Sé tinha
estudado e publicado dois; das questões disciplinares, Sé quatro
haviam sido discutidas, mas não definidas. Não obstante, o Concílio
teve que ser interrompido abruptamente, pois no dia seguinte,
19/07, estourou a guerra franco-alemã, que obrigou muitos prelados
a regressar a pátria. Sobreveio a ocupação de Roma aos
20/09/1870, que tornou praticamente impossível a continuação dos
trabalhos. Em consequência, aos 20/10/1870 o Papa suspendeu o
Concílio, que deveria voltar a reunir-se em época mais apropriada,
mas na verdade nunca foi reaberto; o Concílio do Vaticano II (1962-
65) havia de completar os seus trabalhos.
A importância do Concílio do Vaticano I é enorme para a
Igreja. A definição da infalibilidade papal era a conclusão lógica de
premissas contidas na própria Escritura (Mt 16,16-19; Lc 22,31; Jo
21, 15-17) e desenvolvidas através dos tempos; principalmente por
ocasião dos litígios que afetavam a lgreja, foi emergindo na
consciência dos cristãos a preeminência do magistério dos
sucessores de Pedro. Precisamente as tendências galicanas e
febronianas dos séculos XVII/XVIII serviram para aguçar essa
tomada de consciência de modo mais vivo; humanamente falando,
os católicos podiam ter optado pelo nacionalismo eclesial, mas o
desenrolar dos embates e a ação do Espírito Santo levaram a lgreja
como tal a reafirmar a antiga verdade do primado papal tanto em
matéria de jurisdição quanto em matéria de doutrina. Numa época
de descrença, a fé se afirmava de maneira corajosa. A própria lgreja
aparecia como algo de transcendente ou como um Sacramento, que
o homem recebe de Deus, a diferença de outras sociedades e
instituições.
A centralização explicitada pelo Concílio do Vaticano I teve
expressões sempre mais perceptíveis durante os pontificados
seguintes. Era preciso que ocorresse o Concílio do Vaticano II
(1962-65) para terminar a obra que o anterior deixara inacabada. O
Vaticano I Sé pôde abordar a função do Romano Pontífice, dentro
do exíguo espaço de sua duração; o Vaticano II abordou também o
papel dos bispos e dos presbíteros na Igreja, pondo em relevo o
conceito de colegialidade que, sem apagar o primado de Pedro,
enriquece a estrutura da Igreja.
Claro está que a agitação pública que precedeu e
acompanhou o Vaticano I, não se apaziguou logo. - Os bispos da
minoria oposicionista submeteram-se pouco depois, inclusive Hefele
de Rottenburg à 10/04/1871). Também a maior parte dos teólogos
reconheceram a definição. - No cenário político, a definição do
Vaticano I não foi tão focalizada e discutida como o teria sido se não
fora a guerra franco-alemã; todavia alguns Estados e Estadistas
tomariam atitude de suspeita diante da Igreja; a Prússia e alguns
cantões da Suíça adotaram fortes medidas contra os católicos, que
levaram ao Kulturkampf (secularização de bens eclesiásticos). Estas
consequências desagradáveis, que culminaram no cisma dos
Velhos-Católicos, não chegam a extinguir as vantagens que da
definição resultaram para a lgreja.
 
2.3. Os Velhos-Católicos
O Sacerdote Inácio Döllinger, já mencionado como adversário
da definição, desde cedo se mostrara favorável ao sistema
febroniano. Era famoso historiador e teólogo de Munique, que
professava ideias liberais em matéria de doutrina e certo relativismo
ou historicismo.
Após a definição da infalibilidade, continuou a manifestar-se
hostil ao Papado, que ele julgava desnecessário. A sua posição
professada publicamente valeu Ihe a excomunhão da parte do
arcebispo de Munique em 1871 - censura este que em 1872 atingiu
outros professores de Faculdades alemãs, por se terem agregado a
Döllinger. Aos poucos esses adeptos do mestre, a revelia do próprio
mestre, resolveram fundar uma lgreja própria, cujo chefe era o
professor João Frederico von Schulte, de Praga. A partir de 1872
foram sendo criadas paróquias de ¨Velho-Católicos¨. Esta
designação se deve ao fato seguinte: quando o arcebispo de
Munique voltou de Roma, após o Concílio, convidou Inácio Döllinger
a ¨trabalhar Para a Santa lgreja¨; este respondeu secamente: ¨Sim,
Para a antiga lgreja! - Há uma Sé lgreja, replicou o arcebispo, não
existe nova nem antiga Igreja! - Mas fizeram uma nova!¨, retrucou o
professor. Por conseguinte, Döllinger pertencia a Velha Igreja;
resolveram também instituir um bispo Para si em 1873 na pessoa do
professor de Teologia Joseph Hubert Reinkens, que foi receber a
ordenação episcopal das mãos do arcebispo jansenista de Utrecht
na Holanda.
Em Pentecostes de 1874 um Sínodo em Bonn aprovou a
constituição eclesiástica traçada por Schulte: cada povo tem sua
Igreja nacional autônoma; as Igrejas nacionais estão ligadas pela
¨Conferência¨ de seus bispos. A autoridade suprema é o Sínodo, do
qual fazem parte todos os eclesiásticos e os deputados dos leigos
de cada paróquia; o Sínodo promulga leis e examina a
administração. Na paróquia a autoridade suprema toca à
assembleia dos fiéis, que elege o seu pároco; a este assiste o
Conselho Paroquial.
Os Velhos-Católicos aos poucos foram sendo penetrados por
teses protestantes, que Ihes pareciam corresponder à disciplina da
Igreja dos oito primeiros séculos (donde o nome ¨Velho-Católicos¨):
rejeitaram, portanto, além do primado do Papa, o celibato
sacerdotal, a confissão auricular, as indulgências, o culto dos
santos, as procissões e peregrinações, a Imaculada Conceição.
Introduziram a língua alemã na liturgia da Missa. Estas inovações
causaram descontentamento dentro da própria comunhão cismática:
dos Velhos-Católicos faziam-se Neo-protestantes. O próprio Inácio
Döllinger abandonou publicamente a facção que ele inspirara.
Aliás, a figura de Döllinger ficou sendo misteriosa. Ele não
teria levado suas ideias a tais consequências práticas; não queria o
cisma formal. Conservou-se sempre fiel aos votos do seu
sacerdócio; absteve-se de celebrar a S. Missa após a excomunhão.
Sempre levou vida muito modesta, de severasobriedade e muito
trabalho. Parece que no fim da vida sentia saudades da lgreja de
sua juventude. Desaconselhou mesmo a um de seus discípulos,
Blennerhasset, que o seguisse no caminho tomado após o Vaticano
I. O fato é que morreu em 1890 sem se ter reconciliado com a
Igreja.
Em 1889, os Velhos-Católicos e os jansenistas se aliaram na
chamada ¨União de Utrecht¨. As tendências liberais se fizeram sentir
muito especialmente na Suíça, onde os Velhos-Católicos são
chamados ¨Igreja Cristã Católica¨, dirigida por leigos e não por
teólogos, como na Alemanha, porque as razões da oposição ao
Vaticano I eram mais políticas do que teológicas.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
PARTE X
1. História da Igreja: De Leão XIII a Pio XI (1878-1939).
 
A queda do Estado Pontifício permitiu mais livre exercício das
funções do Papado. Os sucessores de Pio IX até hoje têm sido
grandes vultos, respeitados internacionalmente. Estudaremos, neste
capítulo, os quatro primeiros:
Leão XIII (1878-1903), Pio X (1903-14), Bento XV (1914-1922), Pio
XI (1922-39).
 
1.1. Leão XIII (1878-1903)
Após a morte de Pio IX, o conclave durou dois dias apenas
em circunstâncias tranquilas, apesar das apreensões de vários
Cardeais, receosos de que o Governo da Itália ou outra potência
quisesse intervir na eleição do novo Papa.
O rei da Itália fez questão de mostrar ao mundo que
observava a “lei das Garantias”, que a Cúria papal havia rejeitado. O
Colégio Cardinalício quis manter-se forte e independente de
qualquer tutela estranha. Elegeu o Cardeal Joaquim Pecci, que já
tinha 68 anos de idade e devia governar durante 25 anos com o
nome de Leão XIII.
Era homem de sólida formação teológica e humanista, que se
dedicava ao estudo de S. Tomás de Aquino e a literatura latina.
Passava por “moderado”; na verdade, Leão XIII foi firme na defesa
da verdade e do direito; mas soube também ser ponderado e
conciliador, de modo que se tornou uma das mais brilhantes figuras
de sua época, como se poderá depreender do que será dito adiante;
o mundo dava ouvidos a esse Papa tão prestigiado.
Frente ao Estado italiano, reafirmou a sentença de Pio IX
logo na sua primeira encíclica (21/04/1879): “O Estado da Igreja é
uma instituição indispensável da Providência Divina para assegurar
o livre exercício da autoridade eclesiástica”. Os “conciliadores”
procuravam a aproximação do Estado italiano e do Vaticano; em
vão, porém, pois a Maçonaria movia aquele e não cessava de
hostilizar a Santa Sé. A partir de 1890, as relações entre o Quirinal e
o Vaticano esfriaram mais ainda: este ignorou oficialmente a morte
do rei Humberto e o governo italiano ignorou as bodas de ouro
(1887) de sacerdócio do Papa.
Na Alemanha Leão XIII teve que enfrentar o Kulturkampf
(política antieclesial); comportou-se tão sabiamente em relação ao
Primeiro-Ministro Bismarck que este recuou e até convidou o
Pontífice para arbitrar um litígio da Alemanha com a Espanha a
respeito das ilhas Carolinas; a sentença de Leão XIII (1885) foi
acatada por ambas as partes.
Por duas vezes (1888 e 1903) recebeu a visita do Imperador
protestante Guilherme II no Vaticano, ao passo que aos príncipes e
estadistas católicos a visita de Roma em forma oficial estava
proibida desde 1870. Em 1888 Leão XIII recebeu a visita do rei da
Inglaterra. Em 1895 foi criada a Embaixada da Rússia junto a Santa
Sé. Por ocasião das bodas de ouro e diamante do Pontífice, quase
todos os soberanos do mundo lhe mandaram felicitações e belos
presentes (abstiveram-se, porém, a Itália e a Suécia).
Apesar de tudo, a Holanda não convidou a Santa Sé para a
Conferência Internacional de Haia em 1899, pois o Governo italiano
exigiu que assim fosse. Na última sessão da Conferência, foi lida
uma carta do Papa à rainha Guilhermina a respeito da missão
pacificadora que o Papado sempre exerceu na história e sobre o
modo como “ele sabe inclinar a concórdia tantos povos de gênio
diverso”; a mensagem foi acolhida com deferência, mas, não
obstante, as conversações de Haia sobre a paz e a guerra não
puderam ter a assinatura do Pontífice.
No regime interno da Igreja, Leão XIll revelou-se grande
pastor e mestre: em 1879 escreveu a encíclica Aeterni Patris, que
recomendava São Tomás de Aquino aos estudantes de Filosofia e
Teologia, numa época de certo desatino filosófico, que prejudicava a
própria teologia (o racionalismo, o fideísmo, o existencialismo…
prejudicavam a penetração mesma das verdades da fé). Em 1891,
deu início a serie de encíclicas papais referentes à questão social,
escrevendo a Rerum Novarum, depois que vários eclesiásticos e
leigos (Joseph de Maistre, Montalembert, Lacordaire, Ozanam,
Veuillot, Ketteler…) haviam abordado o problema. Em 1902 criou a
Pontifícia Comissão Bíblica para acompanhar as novas pesquisas
exegéticas empreendidas por pensadores de diversas correntes! Em
1883 abriu aos estudiosos do mundo inteiro o Arquivo e a Biblioteca
do Vaticano, querendo significar que a Igreja não teme a publicação
de sua história. Em 1891 renovou e ampliou o Observatório do
Vaticano, para onde ele se retirava com prazer a fim de trabalhar e
repousar.
Leão XIII faleceu com 93 anos de idade, ainda lúcido e
enérgico. Fizera do Papado uma potência moral universal, com a
qual deviam contar os estadistas. Já em 1883 Windthorst no
Parlamento prussiano afirmava: “A autoridade moral da Santa Sé
nunca foi maior em período algum da história”. Leão XIII fez
aumentar essa herança.
 
1.2. Pio X (1903-14) e Bento XV (1914-22)
1.2.1. Pio X
 
As probabilidades de eleição, no conclave seguinte, recaiam
sobre o Cardeal Rampolla, Secretário de Estado de Leão XIII.
Todavia o Governo austríaco, restaurando um antigo abuso, vetou
essa candidatura, intimidando alguns Cardeais. Os eleitores então
se voltaram para a figura de um pastor muito estimado pela sua grei
e alheio à diplomacia: era o Cardeal José Sarto, que tomou o nome
de Pio X e se tornou um Santo Pontífice. Logo no início do seu
pontificado anunciou o seu lema: Instaurare omnia in Christo
(instaurar tudo em Cristo). Propunha a si mesmo três tarefas:
 
1) conservar em estado puro a doutrina da fé, preservando-a de
qualquer contaminação;
 
2) estimular a ação social dos católicos, continuando a obra de Leão
XIII;
 
3) intensificar e reorganizar a espiritualidade e a pastoral da Igreja.
Na política externa seria também o firme defensor dos direitos de
Deus e da Igreja.
Logo no início do seu pontificado, publicou normas referentes
à eleição do Sumo Pontífice, a fim de evitar que se repetisse a
atitude assumida anteriormente pela Áustria.
Deu início ao trabalho de codificação do Direito da Igreja,
cujas leis se achavam esparsas em diversas coletâneas e que
precisava ser compilado de maneira orgânica e sistemática. Em
1904 foi nomeada para este fim uma Comissão, presidida por Mons.
Pedro Gasparri, a qual trabalhou até 1917, quando Bento XV
promulgou o novo Código de Direito Canônico (hoje substituído pelo
Código de 1983).
Foi muito importante à ação de Pio X nos setores da Liturgia
e da piedade. Até a época do seu pontificado, perduravam entre os
fiéis resquícios de Jansenismo e Galicanismo, que afastavam dos
sacramentos e dificultavam o “sentir com a igreja” ou ter um senão
eclesial apurado. Consciente disto, Pio X empreendeu a reforma do
Missal e da Liturgia das horas canônicas (Breviário), impregnando
estes livros do espírito de “volta às fontes” (S. Escritura, escritos dos
antigos Padres da Igreja e documentos da Tradição). Incentivou
também a Comunhão Eucarística frequente ou mesmo cotidiana;
determinou que a Primeira Comunhão fosse ministrada às crianças
desde o uso da razão. Estas medidas públicas e numerosas cartas
particulares deste Papa atestam quanto estimava a vida espiritual e
a procura dos meios de santificação.
 
No setor doutrinário, o Pontífice teve que enfrentar o
Modernismo, que reinterpretava toda a mensagem da fé, dando aos
seus clássicos vocábulos sentido totalmente novo; as fórmulas
dogmáticas seriam meros e mutáveis símbolos da verdade religiosa,que, como tal, não poderia ser conhecida. Refutando tais erros, Pio
X publicou a encíclica Pascendi (1907), que caracterizava
claramente as exigências da autêntica fé católica.
Na Questão Romana, o Papa manteve a atitude firme de
seus antecessores; permitiu, porém, que os católicos tomassem
parte nas eleições italianas, ab-rogando um veto emanado de Pio
IX. Ainda conheceu o início da guerra mundial de 1914-18, que o
entristeceu profundamente. Veio a falecer aos 20/08/1914. Cativara
a todos por sua simplicidade, piedade e meiguice. Foi canonizado
em 1954.
 
1.2.2. Bento XV
Em plena guerra mundial, foi eleito Papa aos 03/09/1914 o
Cardeal Giácomo della Chiesa, com o nome de Bento XV, escolhido,
em grande parte, por causa da sua experiência nos setores da
diplomacia internacional. Parecia ser o homem indicado para
governar a Igreja nas circunstâncias do conflito mundial. Era de
pequena estatura, mas piedoso e prudente como também dotado de
grande capacidade de trabalho, de perseverança férrea e notável
eloquência.
Conseguiu melhorar a sorte de populações e prisioneiros de
guerra, sem distinção de confissão religiosa ou nacionalidade.
Protestou contra meios bélicos desumanos.
A 19/08/1917 dirigiu a todos os beligerantes concretas
propostas de paz, procurando aproximar as nações entre si. Após a
guerra, colaborou para que, debaixo da paz das armas, se
realizasse a paz das mentes. Estes esforços muito aumentaram o
prestígio da Santa Sé; o número de representações diplomáticas
junto a esta subiu de 14 a 25; entre as novas, estava a da França,
que sob Pio X separara a Igreja e o Estado e rompera as relações
diplomáticas. A tensão entre a Itália e o Vaticano foi muito aliviada
após a guerra mundial; o Estado italiano, vendo-se a braços com
agitações internas, recebeu certo apoio do Papa, que concedeu aos
católicos liberdade de atividade política. Em janeiro de 1919 formou-
se, com o consentimento tácito da Santa Sé, o Partito Popolare
italiano sob a direção do Sacerdote D. Luigi Sturzo, que em breve
conseguiu numerosas cadeiras no Parlamento. Aliás, o conflito de
1914-18, embora tenha causado dolorosas devastações humanas
no plano temporal, ocasionou alvissareiro florescimento da vida
católica (renovação bíblica, litúrgica, teológica, Ação Católica…)
Bento XV fica na memória dos homens como o intrépido Apóstolo
da paz de Cristo durante a primeira guerra mundial.
 
1.3. Pio XI e o Tratado do Latrão
 
Aos 06/02/1922 foi eleito Papa o Cardeal Aquiles Ratti, de
Milão, com o nome de Pio XI. Era bem versado em Bibliotecas, em
estudos de história e na diplomacia. Reunia em si as qualidades da
prudência, da energia com a confiança em Deus e o otimismo.
O mais vultoso acontecimento eclesiástico-político do seu
pontificado foi à solução da prolongada Questão Romana; esta se
deve a iniciativa pessoal e à grande coragem de Pio XI. Foi
possibilitada também pela mudança do Governo italiano: em outubro
de 1922 deu-se o advento do Fascismo, que tomou posição
favorável à Igreja: o ensino da religião tornou-se de novo obrigatório
nas escolas, os clérigos foram dispensados do serviço militar, foi
oferecida assistência religiosa as Forças Armadas, os crucifixos
foram recolocados nas escolas, nos hospitais e tribunais; igrejas e
mosteiros profanados foram, em parte, restituídos, os dias santos
católicos reconhecidos…
Benito Mussolini, o chefe do Governo, percebeu a grande
conveniência política de conciliar a Itália com o Vaticano.
As negociações levaram dois anos e meio, terminando com a
assinatura do Tratado do Latrão aos 11/02/1929, que encerrava
sessenta anos de querela entre o Vaticano e o Quirinal.
Este Tratado reconhecia a absoluta soberania do Papa sobre
a pequena Cidade do Vaticano, que é o menor de todos os Estados
independentes: 0, 44 km2, quando a República de San Marino tem
61 km2 e a de Andorra 465 km2 Ao Vaticano tocaria o direito de
representação diplomática ativa e passiva. O Papa, de seu lado,
reconhecia o reino da Itália sob a dinastia de Savoia e com a capital
em Roma (reconhecia, portanto, a secularização dos antigos
territórios pontifícios). Além da Cidade do Vaticano, o Pontífice
dispõe de “lugares extraterritoriais”, como as principais basílicas de
Roma, edifícios da cúria, a Vila de Castel Gandolfo…
Num acordo separado, o Estado italiano se comprometia à
pagar a Santa Sé a quantia de 1.750 milhões de liras a título de
indenização.
O Papa Pio XI, por ocasião do Tratado do Latrão, quis
explicar o porquê da insistência de cinco Pontífices em não aceitar
simplesmente a perda do Estado da Igreja:
“Podemos dizer que não há uma linha, uma expressão do
Tratado (do Latrão) que não tenham sido, ao menos durante uns
trinta meses, objeto particular de nossos estudos, de nossas
meditações e, mais ainda, de nossas orações, que pedimos
igualmente a grande número de almas santas e mais amadas por
Deus.
Quanto a nós, sabíamos de antemão que não
conseguiríamos contentar a todos, coisa que geralmente nem o
próprio Deus consegue…
 
…Alguns talvez achem exíguo demais o território temporal.
Podemos responder, sem entrar em pormenores e precisões pouco
oportunas, que é realmente pouco, muito pouco; foi
deliberadamente que pedimos o menos possível nessa matéria,
depois de ter refletido, meditado e orado bastante. E isso, por vários
motivos, que nos parecem válidos e sérios.
Antes do mais, quisemos mostrar que somos sempre o Pai
que trata com seus filhos; em outros termos: quisemos manifestar
nossa intenção de não tornar as coisas mais complicadas e, sim,
mais simples e mais fáceis.
Além disto, queríamos acalmar e dissipar toda espécie de
inquietação; queríamos tornar totalmente injusta, absolutamente
infundada, qualquer recriminação levantada em nome de… iríamos
dizer: uma superstição de integridade territorial do país (Itália).
Em terceiro lugar, quisemos demonstrar de modo peremptório
que espécie nenhuma de ambição terrestre inspira o Vigário de
Jesus Cristo, mas unicamente a consciência de que não é possível
não pedir, pois certa soberania territorial é a condição universal
reconhecida como indispensável a todo autêntico poder de
jurisdição.
Por conseguinte, um mínimo de território que baste para o
exercício da jurisdição, o território sem o qual não poderia
subsistir…
Parece-nos, em suma, ver as coisas tais como elas se
realizavam na pessoa de São Francisco: este tinha apenas o corpo
estritamente necessário para poder deter a alma unida a si. O
mesmo se deu com outros santos: seu corpo estava reduzido ao
estrito necessário para servir à alma, para continuar a vida humana
e, com a vida, sua atividade benfazeja. Tornar-se-á claro a todos,
esperamo-lo, que o Sumo Pontífice não possui como território
material senão o que Ihe é indispensável para o exercício de um
poder espiritual confiado a homens em proveito de homens. Não
hesitamos em dizer que nos comprazemos neste estado de coisas;
comprazemo-nos por ver o domínio material reduzido a limites tão
restritos que… os homens o devem considerar como que
espiritualizado pela missão espiritual imensa, sublime e realmente
divina que ele é destinado a sustentar e favorecer” (trecho da
alocução publicada por L’Osservatore Romano de 13 de fevereiro de
1929).
As palavras acima definem bem a mente da Igreja a respeito
do poder temporal. Em última análise, vê-se que o Papa considera a
sua soberania territorial como o corpo imprescindível ao exercício
das atividades de uma alma ou como condição indispensável para o
cumprimento de sua missão; assim como a alma neste mundo não
age normalmente sem corpo, assim a tarefa espiritual da Igreja seria
impedida, caso lhe faltasse tal suporte temporal.
 
2. O Papa Pio XII. (1939 – 1958)
O Papa Pio XII foi o 260º soberano da Igreja Católica.
Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli nasceu em Roma no dia 2
de março de 1876. Proveniente de uma família da nobreza italiana,
era neto de Marcantonio Pacelli, que fora subsecretário do Ministério
das Finanças Papais e fundador do jornal oficial do Vaticano sob o
pontificadode Pio IX. Seu pai e seu irmão também eram
extremamente ligados às questões religiosas. Pacelli estudou no
Liceu Visconti e, em 1884, ingressou na Universidade Gregoriana
para os estudos de Teologia. Chegou a cursar um ano de Filosofia
também na Universidade La Sapienza. Mais tarde, em 1899, passou
a estudar na Pontifícia Universidade Lataranense e obteve licença
em Teologia, Direito Civil e Direito Canônico.
O início dos trabalhos apostólicos de Pacelli aconteceu na
igreja de Santa Maria Vallicella, onde integrava um grupo de jovens.
Sua ordenação como sacerdote finalmente se realizou no dia 2 de
abril de 1899. Já em 1991, ingressou na Congregação dos Assuntos
Eclesiásticos Extraordinários e se tornou responsável pelas relações
internacionais do Vaticano. Assistiu ao conclave de 1903 e
presenciou o veto do imperador austríaco Francisco José I que
impediu o cardeal Rampolla ser nomeado papa.
Pacelli tinha respeito e a confiança dos altos escalões da
Igreja. Prova disso foi sua nomeação de “Camareiro” do papa.
Como intelectual, publicou algumas obras, mas recusou ser
professor em cadeiras de Direito Canônico até aceitar lecionar na
Pontifícia Academia Eclesiástica, importante formadora da Cúria
Romana. Foi o representante do Vaticano no Congresso Eucarístico
Internacional e representou a Santa Sé em várias ocasiões públicas
nas quais esteve em contato direto com grandes líderes de Estado.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Pacelli assume a
responsabilidade de promover a política papal durante o conflito.
Tenta, especialmente, evitar a entrada da Itália na guerra, mas não
obtém êxito. Ainda durante o conflito, é nomeado, em 1917, como
Núncio Apostólico na Baviera e arcebispo de Sardes. É responsável
por uma intensa atividade diplomática da Igreja Católica.
Após sua nunciatura na Alemanha, Pacelli foi nomeado
cardeal no dia 16 de dezembro de 1922 pelo papa Pio XI e tornou-
se, no ano seguinte, Secretário de Estado. Foi fiel colaborador do
papa Pio XI e condenou os totalitarismos. Chegou a Cardeal
Camerlengo em 1935 e viajou pela Europa e pela América em
missões diplomáticas. Ainda no mesmo ano de 1935, tornou-se
membro da Ordem Terceira de São Domingos, o que o fez receber o
hábito de dominicano.
Com o falecimento do papa Pio XI, teve início o conclave de
1939 para escolher o novo soberano da Igreja Católica. No dia do
aniversário de Pacelli, 2 de março, ele foi eleito para assumir o
cargo de Supremo Pontífice, adotando, então, o nome de Papa Pio
XII.
O Papa Pio XII assumiu a liderança da Igreja em um
momento crítico para a humanidade, o ambiente era de extrema
tensão e já se previa o início de um novo confronto entre os países
europeus. Não tardou para que, no mesmo ano, começasse a
Segunda Guerra Mundial. Com uma longa carreira diplomática,
procurou de todas as formas evitar o combate, porém sem sucesso.
Passou os anos do conflito tentando alcançar a paz e condenou a
perseguição aos judeus. Quando os nazistas invadiram Roma, abriu
a Santa Sé para os refugiados e concedeu cidadania a quase
1.500.000 de pessoas. O ativo posicionamento de Pio XII contra o
que acontecia na Europa fez com que Hitler ameaçasse raptá-lo. O
líder nazista tinha receio da influência e do poder do papa e
preocupou-se em garantir os arquivos e os tesouros artísticos do
Vaticano e transferir a Cúria para um lugar neutro para que pudesse
ter influência na eleição do novo papa.
Com todas as adversidades, o Papa Pio XII superou a
Segunda Guerra Mundial com um esforço notório pela paz, muito
embora seja alvo de polêmicas discussões. Depois do conflito,
condena a União Soviética pelos males contra povos do Leste
Europeu e contra a repressão religiosa. Foi também um crítico dos
males da Guerra Fria e rejeitou a doutrina do comunismo.
O Papa Pio XII faleceu no dia 9 de outubro de 1958. Seu
corpo foi embalsamado de maneira equivocada, o que ficou notório
durante seu velório. O odor e a decomposição aconteceram de
forma intensa. Seus restos mortais foram removidos secretamente
no dia 12 de outubro para finalmente receber um tratamento correto.
Foi sucedido pelo papa João XXIII.
Em 2007, a Congregação para a Causa dos Santos
reconheceu as virtudes de Pio XII e passou ao papa Bento XVI a
decisão de torna-lo Venerável, último passo antes de ser
beatificado. A proclamação de Venerável aconteceu em 2009 e,
agora, aguarda-se a confirmação de um milagre intercedido por Pio
XII para que seja declarado beato.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE XI
1. O PAPA JOÃO XXIII. (1881-1963)
João XXIII, foi cardeal de Veneza na Itália, eleito papa em 28
de outubro de 1958; aos 77 anos de idade; foi o Papa que convocou
ao Concílio Vaticano II e sentou as bases para a reforma da Igreja.
João Paulo II disse que o Vaticano II foi “a primavera da Igreja”.
 
Ao ser eleito, já idoso, dizia-se que o Patriarca de Veneza
(Cardeal Angelo Giuseppe Roncalli), seria um “Papa de transição”.
Sua grande obra foi o Concílio Vaticano II, anunciado em
25/1/1959 (festa da conversão de São Paulo) e aberto quase 4 anos
depois de preparação: o mais importante evento da Igreja no século
XX.
O Concílio reuniu por três anos (1963-65) cerca de 2600
bispos do mundo todo em Roma. João XXII faleceu no meio do
Concílio, em 3 de junho de 1963, substituído por Paulo VI.
Por seus gestos e palavras extraordinariamente populares se
converteu no “Papa bom”. A bondade e a santidade de João XXIII
foram consenso. Era um papa simples, alegre e brincalhão. Um dia,
visitando uma paróquia de Roma, ouviu uma senhora dizer: “Nossa,
como ele é gordo!”; simplesmente lhe respondeu: “Minha senhora, o
conclave não é um concurso de beleza”.
João XXIII conviveu com a modernidade sem a temer.
Esforçava-se por contatar com todos os homens seus
contemporâneos. O Vaticano passou a ser a “casa paterna”.
Um dia ele escreveu: “Nada há de heroico em tudo o que me
aconteceu e em tudo o que julguei que tinha de fazer. Uma vez que
se renunciei a tudo, (…) qualquer audácia resulta a coisa mais
simples e natural do mundo”. Por ocasião do falecimento de Pio XII
escreveu no seu Diário: “Estamos na Terra não para guardar um
museu, mas para cultivar um jardim cheio de vida e destinado a um
futuro glorioso”.
Como Papa (1958-1963), João XXIII valorizou o ministério de
bispo de Roma. Na Itália, procurou a autonomia da Igreja. A decisão
de colocar o Evangelho acima dos partidos políticos explica o
respeito com que foi acolhida a sua atuação durante a séria crise
dos mísseis de Cuba, em outubro de 1962.
Para João XXIII a mudança e a novidade do mundo exigiam a
realização de um concílio, um novo Pentecostes capaz de reanimar
a riqueza interior da Igreja. Daqui o perfil do Concílio Vaticano II
(1962-1965). Na oração de abertura ele pediu a Deus “um novo
Pentecostes para a Igreja”; e isto aconteceu.
Através das suas oito encíclicas, João XXIII dirigiu-se a todos
os “homens de boa vontade”. Sobre o Concílio Vaticano II, ele disse:
“A ideia do Concílio não amadureceu como fruto de
prolongada consideração, mas como o florir espontâneo de uma
inesperada primavera”. (Alocução de 09/8/1959)
 
“Consideramos inspiração do Altíssimo a ideia de convocar
um Concílio Ecumênico, que desde o início de nosso pontificado se
apresentou à nossa mente como o florir de uma inesperada
primavera”. (Alocução de 05/6/60).
 
“A ideia mal surgiu em nossa mente e logo a comunicamos
com fraternal confiança aos senhores cardeais, lá na Basílica
Ostiense de São Paulo Fora dos Muros, junto ao sepulcro do
Apóstolo dos Gentios, na festa comemorativa de sua conversão, a
25 de janeiro de 1959”. (Alocução de 20/6/62).
 
No dia 13 de setembro de 1960 ele explicou em linhas gerais
qual deveria ser o objetivo do Concílio Ecumênico. Disse então João
XXIII:
 
“A obra do Concílio Ecumênico é verdadeiramente concebida
para restituir ao semblante da Igreja de Cristo todo o esplendor dos
seus traços mais simples e mais puros das suas origens, a fim de
apresentá-la tal como o seu divino fundador a criou”.
 
2. ConstituiçãoApostólica do Papa João XXIII.
 
Humanae Salutis
Convocação do Concílio Ecumênico Vaticano II
 
1. O divino Redentor Jesus Cristo que, antes de subir ao céu, dera
aos Apóstolos o mandato de pregar o evangelho a todos os povos,
para sustento e garantia de sua missão, fez-lhes a consoladora
promessa: “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos
séculos” (Mt 28,20).
 
2. Esta divina presença, sempre viva e operante na Igreja, é sentida
sobretudo nos períodos mais graves da humanidade. É então que a
esposa de Cristo se mostra em todo o seu esplendor de mestra da
verdade e ministradora de salvação; e é então que, também, exerce
todo o poder da caridade, da oração, do sacrifício e do sofrimento:
meios espirituais invencíveis, usados por seu divino Fundador que
em hora solene de sua vida declarou: “Tende confiança: Eu venci o
mundo” (Jo 16,33).
 
Averiguações dolorosas
 
3. A Igreja assiste, hoje, à grave crise da sociedade. Enquanto para
a humanidade surge uma era nova, obrigações de uma gravidade e
amplitude imensas pesam sobre a Igreja, como nas épocas mais
trágicas da sua história. Trata-se, na verdade, de pôr em contato
com as energias vivificadoras e perenes do evangelho o mundo
moderno: mundo que se exalta por suas conquistas no campo da
técnica e da ciência, mas que carrega também as consequências de
uma ordem temporal que alguns quiseram reorganizar prescindindo
de Deus. Por isso, a sociedade moderna se caracteriza por um
grande progresso material a que não corresponde igual progresso
no campo moral. Daí, enfraquecer-se o anseio pelos valores do
espírito e crescer o impulso para a procura quase exclusiva dos
gozos terrenos, que o avanço da técnica põe, com tanta facilidade,
ao alcance de todos; e mais ainda – um fato inteiramente novo e
desconcertante – a existência do ateísmo militante, operando em
plano mundial.
 
Motivos de confiança
 
4. Estas dolorosas averiguações conclamam ao dever da vigilância
e despertam o senso da responsabilidade. Almas sem confiança
veem apenas trevas tomando conta da face da terra. Nós, porém,
preferimos rearmar toda a nossa confiança em nosso Salvador, que
não se afastou do mundo, por ele remido. Antes, mesmo,
apropriando-nos da recomendação de Jesus, de saber distinguir “os
sinais do tempo” (Mt 16,3), pareceu-nos vislumbrar, no meio de
tanta treva, não poucos indícios que dão sólida esperança de
tempos melhores para a Igreja e a humanidade. Pois mesmo as
guerras sangrentas que se seguiram em nossos tempos, as ruínas
espirituais causadas por tantas ideologias e os frutos de
experiências tão amargas, não se processaram sem deixar úteis
ensinamentos. E o progresso científico, que deu ao homem a
possibilidade de criar instrumentos catastróficos para a sua
destruição, fez com que se levantassem interrogações angustiosas:
obrigou os seres humanos a se tornarem mais ponderados, mais
conscientes dos próprios limites, mais desejosos de paz, atentos à
importância dos valores do espírito; acelerou o processo de mais
estreita colaboração e mútua integração entre os indivíduos, classes
e nações, à qual, embora entre mil incertezas, parece já
encaminhada a família humana. Tudo isto facilita, sem dúvida, o
apostolado da Igreja, pois muitos que ontem não percebiam a
importância de sua missão, hoje, ensinados pela experiência, estão
mais dispostos a acolher suas advertências.
 
Hodierna vitalidade da Igreja
 
5. Se voltarmos a atenção para a Igreja, vemos que ela não
permaneceu inerte espectadora em face destes acontecimentos,
mas seguiu, passo a passo, a evolução dos povos, o progresso
científico, as revoluções sociais; opôs-se, decididamente, às
ideologias materialistas e negadoras da fé; viu, enfim, brotarem de
seu seio e desprenderem-se imensas energias de apostolado, de
oração, de ação em todos os campos, por parte, primeiramente, do
clero sempre mais à altura de sua missão pela doutrina e virtude e,
depois, por parte do laicato, que se tornou sempre mais consciente
de suas responsabilidades no seio da Igreja e, de modo particular,
de seu dever de colaborar com a hierarquia eclesiástica. A isto se
acrescentam os imensos sofrimentos de cristandades inteiras, onde
uma multidão de pastores, de sacerdotes e de leigos, pela invicta
firmeza da própria fé, sofrem perseguições de todo gênero e
revelam heroísmo certamente não inferior aos dos períodos mais
gloriosos da Igreja. Assim, se o mundo aparece profundamente
mudado, também a comunidade cristã está em grande parte
transformada e renovada: isto é, socialmente fortalecida na unidade,
intelectualmente revigorada, interiormente purificada, pronta, desta
forma, a enfrentar todos os combates da fé.
 
O concílio ecumênico Vaticano II
 
6. Diante deste duplo espetáculo: um mundo que revela um grave
estado de indigência espiritual e a Igreja de Cristo, tão vibrante de
vitalidade, nós, desde quando subimos ao supremo pontificado, não
obstante nossa indignidade e por um desígnio da Providência,
sentimos logo o urgente dever de conclamar os nossos filhos para
dar à Igreja a possibilidade de contribuir mais eficazmente na
solução dos problemas da idade moderna. Por este motivo,
acolhendo como vinda do alto uma voz íntima de nosso espírito,
julgamos estar maduro o tempo para oferecermos à Igreja católica e
ao mundo o dom de um novo concílio ecumênico, em acréscimo e
continuação à série dos vinte grandes concílios, realizados ao longo
dos séculos, como uma verdadeira providência celestial para
incremento da graça na alma dos fiéis e para o progresso cristão. A
jubilosa repercussão que teve seu anúncio, seguida da participação
orante de toda a Igreja e do fervor nos trabalhos de preparação,
verdadeiramente encorajador, como também o vivo interesse ou,
pelo menos, a atenção respeitosa por parte de não católicos e até
de não-cristãos demonstraram, da maneira mais eloquente, como
não escapou a ninguém a importância histórica do acontecimento.
 
7. O próximo concílio reúne-se, felizmente, no momento em que a
Igreja percebe, de modo mais vivo, o desejo de fortificar a sua fé e
de espelhar-se na própria e maravilhosa unidade; como, também,
percebe melhor o dever urgente de dar maior eficiência à sua
robusta vitalidade, e de promover a santificação de seus membros,
a difusão da verdade revelada, a consolidação de suas estruturas.
Será esta uma demonstração da Igreja, sempre viva e sempre
jovem, que sente o ritmo do tempo e que, em cada século, se orna
de um novo esplendor, irradia novas luzes, realiza novas conquistas,
permanecendo, contudo, sempre idêntica a si mesma, fiel à imagem
divina impressa em sua face pelo esposo que a ama e protege,
Jesus Cristo.
 
8. No instante, pois, de generosos e crescentes esforços que de
várias partes são feitos com o fim de reconstituir aquela unidade
visível de todos os cristãos e que corresponda aos desejos do divino
Redentor, é muito natural que o próximo concílio ilustre mais
abundantemente aqueles capítulos de doutrina, mostre aqueles
exemplos de caridade fraterna que tornarão ainda mais vivo nos
irmãos separados o desejo de auspicioso retorno à unidade e lhes
prepararão o caminho para consegui-la.
 
9.Ao mundo, enfim, perplexo, confuso, ansioso sob a contínua
ameaça de novos e assustadores conflitos, o próximo concílio é
chamado a oferecer uma possibilidade de suscitar, em todos os
homens de boa vontade, pensamentos e propósitos de paz: paz que
pode e deve vir sobretudo das realidades espirituais e sobrenaturais
da inteligência e da consciência humana, iluminadas e guiadas por
Deus, criador e redentor da humanidade.
 
Programa de trabalho do concílio
 
10. Estes frutos do concílio, por nós tão esperados e sobre os quais
tão frequentemente temos falado, supõem um vasto programa de
trabalho, que ora se está preparando. Isto diz respeito aos
programas doutrinais e práticos mais consentâneos com as
exigências da perfeita conformidade à doutrina cristã, à edificação e
ao serviço do corpo místico e da sua missão sobrenatural, isto é, o
Livro sagrado, a veneranda Tradição,os sacramentos, a oração, a
disciplina eclesiástica, as atividades caritativas e assistenciais, o
apostolado dos leigos, os horizontes missionários.
 
11. Esta ordem sobrenatural deve refletir, porém, toda a sua eficácia
também sobre a outra, a temporal, que, infelizmente, vem a ser por
tantas vezes a única que ocupa e preocupa o homem. Também
neste campo, a Igreja demonstrou querer ser mãe e mestra,
segundo a expressão do nosso longínquo e glorioso antecessor
Inocêncio III, pronunciada por ocasião do concílio Lateranense IV
Embora não tendo finalidade diretamente terrestre, ela, contudo,
não pode desinteressar-se, no seu caminho, dos problemas e dos
trabalhos de cá de baixo. Sabe quanto aproveitam ao bem da alma
aqueles meios que são aptos a tornar mais humana a vida de cada
homem, que deve ser salvo; sabe que, vivificando a ordem
temporal, com a luz de Cristo, revela também os homens a si
mesmos, o próprio ser, a própria dignidade e a própria finalidade.
Daí a presença viva da Igreja, estendida, hoje, de direito e de fato,
às organizações internacionais, e daí a elaboração da sua doutrina
social referente à família, à escola, ao trabalho, à sociedade civil, e
a todos os problemas conexos, que elevam a um altíssimo prestígio
o seu magistério, como a voz mais autorizada, intérprete e
propugnadora da ordem moral, reivindicadora dos direitos e dos
deveres de todos os seres humanos e de todas as comunidades
políticas.
 
12. A influência benéfica das deliberações conciliares, como
vivamente o esperamos, deverá impor-se a ponto de revestir de luz
cristã e penetrar de fervorosa energia espiritual não só o íntimo das
almas mas o conjunto das atividades humanas.
 
Convocação do concílio
 
13. O primeiro anúncio do concílio por nós dado, no dia 25 de
janeiro de 1959, foi como a pequena semente que depusemos com
ânimo e mãos trêmulas. Sustentado pela ajuda celestial, nos
limitamos ao complexo e delicado trabalho de preparação. Três
anos já se passaram, nos quais, dia a dia, vimos desenvolver-se a
pequena semente e tornar-se, com a bênção de Deus, uma grande
árvore.
Ao rever o longo e cansativo caminho percorrido, eleva-se de nossa
mente um hino de agradecimento ao Senhor, por ser-nos ele
pródigo em auxílios, de tal modo que tudo se desenrolou
convenientemente e harmonicamente.
 
14. Antes de determinar os assuntos a estudar, com vistas ao futuro
concílio, quisemos, Antes de determinar os assuntos a estudar, com
vistas ao futuro concítudo, conhecer o sábio e ilustrado parecer do
colégio cardinalício, do episcopado de todo o mundo, dos sagrados
dicastérios da cúria romana, dos superiores das ordens e das
congregações religiosas, das universidades e das faculdades
eclesiásticas. No transcurso de um ano terminou-se este ingente
trabalho de consultas, de cujo exame brotaram claros os pontos a
serem submetidos a um profundo estudo.
 
15. Constituímos, então, os diversos organismos preparatórios, aos
quais comamos a árdua tarefa de elaborar os esquemas
doutrinários e disciplinares, de onde escolheremos aqueles que
pretendemos submeter à assembleia conciliar.
 
16. Temos, finalmente, a alegria de comunicar que este imenso
trabalho de estudo, ao qual deram sua contribuição valiosa os
cardeais, bispos, prelados, teólogos, canonistas, técnicos de todas
as partes do mundo, alcança já o seu termo.
 
17. Comando, pois, no auxílio do divino Redentor, princípio e fim de
todas as coisas, de sua Mãe e de são José, a quem, desde o início,
entregamos um tão grande acontecimento, parece-nos chegada a
hora de convocar o concílio ecumênico Vaticano II.
 
18. Portanto, depois de ouvir o parecer de nossos irmãos os
cardeais da santa Igreja romana, com a autoridade de nosso Senhor
Jesus Cristo, dos santos apóstolos Pedro e Paulo e com a nossa,
anunciamos, indicamos e convocamos para o próximo ano de 1962,
o ecumênico e geral concílio, que se celebrará na Basílica Vaticana,
nos dias que serão fixados segundo a oportunidade que a boa
Providência quiser nos oferecer.
 
19. Queremos em consequência, e ordenamos, que a este concílio
ecumênico, por nós indicado, venham de toda parte todos os nossos
diletos filhos cardeais, os veneráveis irmãos patriarcas, primazes,
arcebispos e bispos tanto residenciais como apenas titulares e
ademais todos os que têm direito e dever de intervir no concílio.
 
Convite à oração
 
20. E agora pedimos a cada um dos féis e a todo o povo cristão o
prosseguimento da participação e da oração mais viva que
acompanhe, vivifique e adorne a preparação próxima ao grande
acontecimento. Seja esta oração inspirada pela fé ardente e
perseverante; seja acompanhada por aquela penitência cristã que a
torna mais aceita e mais eficaz; seja valorizada pelo esforço de vida
cristã, qual penhor antecipado da disposição decidida de cada fiel
em aplicar os ensinamentos e as diretrizes práticas que emanarem
do próprio concílio.
 
21. Ao venerável clero, tanto secular como regular, esparso por todo
o mundo; a todas as categorias de fiéis, dirigimos o nosso apelo.
Mas, de modo especial, confiamos o seu êxito às preces das
crianças, sabendo muito bem o quanto seja poderosa junto a Deus a
voz da inocência; e aos enfermos e sofredores, porque seus
sofrimentos e sua vida de imolação, em virtude da cruz de Cristo, se
transformam e se erguem em prece, em redenção, em fonte de vida
para a Igreja.
 
22. A este coro de orações convidamos também os cristãos das
Igrejas separadas de Roma, pois também a eles o concílio trará
frutos. Sabemos que muitos destes filhos estão ansiosos por um
retorno à unidade e à paz, segundo o ensinamento e a prece de
Cristo ao Pai. Sabemos, também, que o anúncio do concílio não só
foi por eles acolhido com alegria, mas não poucos já prometeram
oferecer suas orações para seu feliz êxito, e esperam enviar
representantes de suas comunidades para seguirem de perto os
trabalhos. Tudo isto é para nós motivo de grande conforto e de
esperança, e, precisamente, para favorecer estes contatos,
instituímos, com este fim, já há tempos, um secretariado.
 
23. Repita-se deste modo, na família cristã, o espetáculo dos
apóstolos em Jerusalém, depois da ascensão de Jesus aos céus,
quando a Igreja nascente se viu toda unida em comunhão de
pensamento e de preces com Pedro e ao redor de Pedro, pastor dos
cordeiros e das ovelhas. E digne-se o divino Espírito ouvir da
maneira mais consoladora a oração que todos os dias sobe de
todos os recantos da terra: “Renova em nossa época os prodígios,
como em novo Pentecostes; e concede que a Igreja santa, reunida
em unânime e instante oração junto a Maria, Mãe de Jesus, e
guiada por Pedro, difunda o reino do divino Salvador, que é reino da
verdade, de justiça, de amor e de paz. Assim seja” (cf. AAS 51
[1959], p. 832).
 
Dada em Roma, junto a São Pedro, aos 25 de dezembro, festa do
nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo, de 1961, quarto do
nosso Pontificado.
***
Eu, João, Bispo da Igreja Católica
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE XII
1. O Concílio Vaticano II.
O XXI Concílio Ecumênico da Igreja Católica, foi convocado no dia
25 de Dezembro de 1961, através da bula papal "Humanae salutis",
pelo Papa João XXIII. Este mesmo Papa inaugurou-o, a ritmo
extraordinário, no dia 11 de outubro de 1962. O Concílio, realizado
em 4 sessões, só terminou no dia 8 de dezembro de 1965, já sob o
papado de Paulo VI.
Nestas quatro sessões, mais de 2 000 Prelados convocados
de todo o planeta discutiram e regulamentaram vários temas da
Igreja Católica. As suas decisões estão expressas nas 4
constituições, 9 decretos e 3 declarações elaboradas e aprovadas
pelo Concílio.
Os concílios, que são reuniões de dignidades eclesiásticas e
de teólogos, são um esforço comum da Igreja, ou parte da Igreja,
para a sua própria preservação e defesa, ou guarda e clareza da Fé
e da doutrina. No caso do Concílio Vaticano II, a necessidade de
defesa se fez de modo universal, porque as situações
contemporâneas de proporções globais abalaram a Igreja. Isto fez
com que a autoridadeuniversal da Igreja, na pessoa do Papa, se
encontrasse persuadida a convocar um concílio universal ou
ecumênico. A força do Concílio não reside nos bispos ou em outros
eclesiásticos, mas sim no Papa, como pastor universal que declara
algo como sendo próprio das Verdades reveladas (e, por isso,
implica a obediência dos católicos). Fora disso, o Concílio tem
apenas poder sinodal. Porém, quando o concílio está em comunhão
com o Papa, e se o Papa falasse solenemente (ex cathedra) de
matérias relacionadas com a fé e a moral, o episcopado plenamente
reunido torna-se também infalível.
 
2. Documentos.
 
Constituições:
Dei Verbum: Revelação divina e Tradição
Lumen Gentium: Igreja
Gaudium et Spes: Pastoral e a relação da Igreja com o mundo
moderno
Sacrosanctum Concilium: Liturgia
 
Decretos:
Ad Gentes: actividade missionária
Apostolicam Actuositatem: apostolado dos leigos
Christus Dominus: Bispos
Inter Mirifica: comunicação social
Optatam Totius: formação sacerdotal
Orientalium Ecclesiarum: Igrejas orientais católicas
Perfectæ Caritatis: renovação da vida consagrada
Presbyterorum Ordinis: vida dos presbíteros
Unitatis Redintegratio: ecumenismo
 
Declarações:
Dignitatis Humanæ: liberdade religiosa
Gravissimum Educationis: educação cristã e digna
Nostra Ætate: relação com os não cristãos.
 
3. Objetivos do Concílio Vaticano II.
O objetivo do Concílio é discutir a ação da Igreja nos tempos
atuais, ou seja, a sua finalidade é "promover o incremento da fé
católica e uma saudável renovação dos costumes do povo cristão, e
adaptar a disciplina eclesiástica às condições do nosso tempo" e do
mundo moderno. Por outras palavras, o Concílio pretende o
aggiornamento (atualização e abertura) da Igreja.
O Papa João XXIII "imaginava o Concílio como um «novo
Pentecostes» [...]; uma grande experiência espiritual que
reconstituiria a Igreja Católica" não apenas como instituição, mas
sim "como um movimento evangélico dinâmico [...]; e uma conversa
aberta entre os bispos de todo o mundo sobre como renovar o
Catolicismo como estilo de vida inevitável e vital".
Por esta razão, ao contrário dos concílios ecuménicos
anteriores, preocupados mais em condenar heresias e em definir
verdades de fé e de moral, o Concílio Vaticano II "teve como
orientação fundamental a procura de um papel mais participativo
para a fé católica na sociedade, com atenção para os problemas
sociais e econômicos". Aliás, o próprio Papa João XXIII teve o
cuidado de mencionar a diferença e a especificidade deste Concílio:
"a Igreja sempre se opôs a [...] erros; muitas vezes até os condenou
com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere
usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga
satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da
sua doutrina do que renovando condenações".
Logo, o Concílio não visava a condenar heresias nem
proclamar nenhum dogma novo. O Concílio apenas queria dar uma
nova orientação pastoral à Igreja e uma nova forma de apresentar e
explicar os dogmas católicos ao mundo moderno, mas sempre fiel à
Tradição. O próprio Papa João XXIII afirmou que "o que mais
importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito
sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais
eficaz". Para satisfazer esta sua intenção, o Papa queria
ardentemente que a Igreja mudasse de mentalidade, para poder
melhor enfrentar e acompanhar as transformações do mundo
moderno.
Pelas palavras da constituição Sacrosanctum Concilium, o
"Concílio propõe-se a fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar
melhor às necessidades do nosso tempo as instituições suscetíveis
de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os
crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a
todos ao seio da Igreja".
4. Vaticinou II, o 21º concílio da Igreja.
O 21º Concílio Ecumênico, chamado Vaticano II, terminou no
dia 8 de dezembro de 1965. Durante três anos, um mês e vinte e
nove dias (de 11 de outubro de 1962 até 8 de dezembro de 1965)
viveu a Igreja Católica em estado de Concílio. Neste tempo, cerca
de 2.200 bispos do mundo inteiro (incluídos os Superiores Maiores
das Ordens e Congregações) encontraram-se quatro vezes em
Roma, vivendo, rezando e trabalhando juntos durante 281 dias: 59
na primeira sessão (de 11 de outubro até 8 de dezembro de 1962);
67 na segunda sessão (de 29 de setembro até 4 de dezembro de
1963); 69 na terceira sessão (de 14 de setembro até 21 de
novembro de 1964); e 86 na quarta sessão (de 14 de setembro até
8 de dezembro de 1965). Trabalharam em 168 Congregações
Gerais (36 na primeira, 43 na segunda, 48 na terceira e 41 na quarta
sessão). E assistiram a 10 sessões solenes.
Nestes dias pronunciaram 2.217 discursos (600 na primeira,
618 na segunda, 666 na terceira e 333 na quarta sessão) e
entregaram 4.361 intervenções escritas não pronunciadas. Ouviram
147 relatórios e fizeram 544 votações, nas quais foram utilizadas
1.360.000 fichas para sufrágios individuais. Morreram neste período
253 bispos (6 do Brasil).
O Concílio, com seus teólogos e peritos, preparou, discutiu,
emendou, votou e promulgou 16 documentos: duas Constituições
dogmáticas, uma Constituição pastoral, uma Constituição litúrgica,
nove Decretos e três Declarações.
E assim no dia 8 de dezembro de 1965 estava tudo
preparado para encerrar formal e solenemente o 21º Concílio
Ecumênico. A cerimônia foi realizada na Praça de São Pedro, em
frente da Basílica Vaticana. Durante a Santa Missa, celebrada pelo
papa, Paulo VI pronunciou sua comovente homilia de despedida.
Depois anunciou as mensagens do Concílio aos governantes, aos
intelectuais (com o abraço a Jacques Maritain e o aplauso dos
bispos), aos trabalhadores, aos artistas, às mulheres, aos jovens,
aos sofredores. Mons. Felici, Secretário Geral do Concílio, leu o
Breve de Encerramento. Então todos juntos cantaram as
aclamações finais e as orações por todos quantos trabalharam no
Concílio. Tudo terminou com a Bênção Apostólica, à qual Sua
Santidade aditou as seguintes palavras: “Em nome de Nosso
Senhor Jesus Cristo: Ide em paz!” Ao que a assembleia respondeu:
“Demos graças a Deus!”. O relógio marcava 13h25.
À noite deste mesmo dia já estavam os bispos do Brasil no
avião, para retornar, cada um à sua diocese. E tentar viver no
espírito do Concílio Vaticano II. (Dom Frei Boaventura Kloppenburg,
O.F.M).
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
PARTE XIII
PAPA PAULO VI 1963-1978 (Pontificado)
Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini nasceu em 26
de setembro de 1897 em Concesio (Lombardia) de uma família rica
da classe alta. O seu pai era um advogado não praticante que se
tornou editor e promotor corajoso de ação social. Giovanni era uma
criança frágil, mas inteligente, que recebeu a sua primeira educação
dos jesuítas perto de sua casa em Brescia. Mesmo depois de entrar
no seminário (1916) foi autorizado a viver em casa por causa da sua
saúde. Depois da sua ordenação, em 1920, foi enviado a Roma
para estudar na Universidade Gregoriana e da Universidade de
Roma, mas em 1922 transferiu-se para a Accademia dei Nobili
Ecclesiastici para estudar diplomacia e continuar os seus estudos de
Direito Canónico na Universidade Gregoriana.
Em 1923, foi enviado a Varsóvia como adido da nunciatura,
mas foi chamado de volta a Roma (1924), por causa do efeito dos
invernos poloneses graves sobre a sua saúde, e afeto ao escritório
da Secretaria de Estado, onde permaneceu durante 30 anos. Além
de lecionar na Accademia dei Nobili Ecclesiastici foi nomeado
capelão da Federação de Estudantes da Universidade Católica
Italiana (FUCI), uma atribuição que irá ter um efeito decisivo sobre
as suas relações com os fundadores do Partido Democrata Cristão
do pós-guerra.
Em 1937, foi nomeado substituto para os assuntos comuns
sob o Cardeal Pacelli, o secretário de Estado, e ele acompanhou-o a
Budapeste (1938) para o Congresso Eucarístico Internacional. Na
eleição de Pacelli como Papa Pio XII em 1939, Montini foi
reconfirmado no cargo sob o novo secretáriode Estado, o cardeal
Luigi Maglione. Quando este último morreu em 1944. Montini
continuou a cumprir o seu dever diretamente sob as ordens do
Papa. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi o responsável pela
organização do extenso trabalho de assistência e os cuidados de
refugiados políticos.
No consistório secreto de 1952 o Papa Pio XII anunciou que
tinha a intenção de elevar Montini e Domenico Tardini para o Sacro
Colégio, mas que ambos haviam pedido para serem dispensados de
aceitar. Ao contrário, o Papa conferiu-os com o título de pro
secretários de Estado. No ano seguinte, Montini foi nomeado
arcebispo de Milão, mas ainda sem o titulo de cardeal. Tomou posse
da sua nova diocese em 5 de janeiro de 1955 e rapidamente ficou
conhecido como o "arcebispo dos trabalhadores." Revitalizou toda a
diocese, pregou a mensagem social do Evangelho, trabalhou para
reconquistar a classe trabalhadora, promoveu a educação católica
em todos os níveis, com o apoio da imprensa católica. O seu
impacto sobre a cidade nesta altura era tão grande que atraiu a
atenção mundial. No conclave de 1958 o seu nome foi
frequentemente mencionado, e no início do consistório do Papa
João, em dezembro do mesmo ano, ele foi um dos 23 prelados
elevados ao cardinalato com o seu nome no topo da lista. A sua
resposta ao chamamento para um Conselho foi imediato e mesmo
antes de conhecermos, ele foi identificado como um forte defensor
do princípio da colegialidade. Foi nomeado para a Comissão Central
Preparatória do Concílio Vaticano II e também à Comissão Técnico-
Organizacional.
Com a morte do Papa João XXIII, Montini foi eleito 21 de
junho de 1963 para sucedê-lo. Na sua primeira mensagem para o
mundo, ele comprometeu-se com a continuação do trabalho iniciado
por João XXIII. Ao longo do seu pontificado a tensão entre o
primado do papa e a colegialidade do episcopado foi uma fonte de
conflito. Em 14 de setembro de 1965, anunciou a criação do Sínodo
dos Bispos pedido pelos Padres conciliares, mas algumas questões
que pareciam adequados para discussão pelo sínodo foram
reservados para si mesmo. O celibato, removido do debate da
quarta sessão do Conselho, foi objeto de uma encíclica, 24 de junho
de 1967; a regulação dos nascimentos foi tratado na Humanae
vitae, em 24 de julho de 1968. As controvérsias sobre estes dois
pronunciamentos tendem a ofuscar os últimos anos do seu
pontificado.
Paulo VI teve uma inexplicável má imprensa e a sua imagem
pública sofreu em comparação com o seu antecessor, extrovertido e
jovial. Aqueles que o conheciam melhor, no entanto, descrevem-no
como um homem brilhante, profundamente espiritual, humilde,
reservado e gentil, um homem de "infinita cortesia." Ele foi um dos
papas que mais viajou na história e o primeiro a visitar os cinco
continentes. A Sua notável capacidade de pensamento pode ser
encontrado em muitos dos seus endereços e cartas, bem como nos
seus principais pronunciamentos. A sua conclusão bem-sucedida do
Vaticano II deixou marca na história da Igreja, mas a história
também irá gravar a sua rigorosa reforma da Cúria Romana, o seu
discurso bem recebido na ONU, em 1965, a sua encíclica
Populorum progressio (1967), a sua segunda carta Octogesima
adveniens (1971), um dos primeiros a mostrar uma consciência de
muitos problemas que só recentemente foram trazidos à luz e sua
exortação apostólica Evangelii nuntiandi, seu último grande
pronunciamento que também tocou na questão central da
concessão apenas de libertação e salvação.
O Papa Paulo VI, o papa peregrino, morreu em 6 de agosto
de 1978, na festa da Transfiguração. Ele pediu que o seu funeral
fosse simples, sem aparato e nenhum monumento sobre o seu
túmulo.
 
Paulo VI foi o papa de número 262 da história da Igreja
Católica, entre 1963 e 1978.
Nascido no dia 26 de setembro de 1897, Giovanni Battista
Enrico Antonio Maria Montini era proveniente da cidade italiana de
Concesio. Desde cedo, sua vida foi muito envolvida com religião.
Entrou para o seminário com o objetivo de se tornar um sacerdote
no ano de 1916. Depois de ser ordenado em 1920, estudou ainda
na Universidade Gregoriana, na Universidade de Roma e na
Pontifícia Academia Eclesiástica. Giovanni Montini tinha um talento
notável para a vida religiosa, foi o que o levou rapidamente a
desenvolver uma carreira na Cúria Romana. Na administração do
Vaticano, ocupou cargos importantes dentro da Igreja Católica,
desenvolvendo funções muito próximas e de confiança dos papas
Pio XI e Pio XII. Já em 1944, Giovanni Montini trabalhava
diretamente com o papa Pio XII.
A nomeação de Giovanni Montini para o cargo de Arcebispo
de Milão parecia ser um método para afastá-lo do papado. Porém
acredita-se mais que tal medida foi tomada por Pio XII para permitir
que Giovanni tivesse mais experiência pastoral. De qualquer forma,
mesmo sem ser cardeal da Igreja, durante o conclave de 1958 que
elegeria o novo papa, Giovanni Montini recebeu vários votos. O
sucessor de Pio XII acabou sendo João XXIII, que, no mesmo ano,
elevou Giovanni à condição de cardeal.
João XXIII exerceu pouco tempo o cargo de Supremo
Pontífice. Já em 1963 foi realizado um novo conclave para eleger
seu sucessor. Desta vez, Giovanni Montini foi eleito papa, no dia 21
de junho. Para exercer o cargo máximo da Igreja Católica, escolheu
o nome de Paulo VI, indicando que tinha uma missão mundial de
propagar a mensagem de Cristo. Inicialmente, determinou a
reabertura do Concílio Vaticano e lhe atribui prioridade e direção.
Promoveu grandes reformas no cristianismo que foram significativas
para afetar toda a Igreja.
Paulo VI era devoto de Maria, publicou três encíclicas
marianas, discursou várias vezes para congressistas marianos e
participou de várias reuniões. Mas também promoveu importantes
diálogos com o mundo, sem distinções de religiosidade. Ao mesmo
tempo, seguia a linha tradicional da Igreja Católica e era contrário à
regulação da natalidade.
Paulo VI foi o primeiro papa a viajar de avião e o primeiro a
visitar os cinco continentes. Chegou até a sofrer uma tentativa de
assassinato nas Filipinas. Sua postura aberta ao diálogo foi
fundamental durante seu papado, pois viveu uma fase de grandes
acontecimentos na história da segunda metade do século XX.
Aberto ao diálogo, foi o primeiro papa a conversar com o líder da
Igreja Anglicana e o primeiro, depois de muitos séculos, a conversar
com dirigentes das diversas Igrejas Ortodoxas do Oriente.
Apesar disso tudo, alguns críticos ainda caracterizam Paulo
VI como um papa distante, indeciso e sem carisma. Acusavam-no
também de ter pouca propensão para abordar assuntos mais
delicados. No entanto, Paulo VI publicou a encíclica Humanae Vitae
versando sobre o controle da natalidade, documento que se tornou
de referência para a Igreja Católica nas questões sobre aborto,
esterilização e métodos contraceptivos.
Paulo VI ocupou o posto de Supremo Pontífice por 15 anos.
Faleceu no dia seis de agosto de 1978 e foi sucedido por João
Paulo I.
 
1.1 Humanae Vitae”: 50 anos
No dia 25 de julho de 2018, a encíclica Humanae Vitae, do
Papa Paulo VI, completou 50 anos de publicação. Como qualquer
outro documento magisterial, também esse, que originalmente trata
da “reta propagação da vida humana” (do original latino: de
propagatione humanae prolis recte ordinanda), precisa ser lido à luz
da doutrina católica, e deve ser aceito por todos os católicos. Em
linhas gerais, a encíclica não se limita ao tema da regulação da
natalidade, como se pode entender pelas traduções do seu título em
língua vernácula, mas repete aquilo que outro documento da Igreja
já havia proclamado anos antes: que a natureza dos atos conjugais
está primeiramente ordenada à geração da prole.
A limitação do número de filhos foi um tema discutido pela
Igreja Anglicana na Conferência de Lambeth, em 1930. Nesse
encontro, os bispos anglicanos aprovaram, pela primeira vez na
história do cristianismo, o uso de métodos artificiais para a
contracepção. Prevendo o alcance de uma decisão como aquela, o
Papa Pio XI não demorou a reagir, e logomandou publicar a
encíclica Casti Connubii, de cujas linhas Paulo VI tomaria notas,
quatro décadas depois, para redigir a Humanae Vitae.
Ambos os textos defendem a moral católica sobre o
matrimônio, advertindo os fiéis contra a mentalidade anticristã.
Todavia, a força de seus argumentos não procede só da luz
sobrenatural da fé, mas apela à razão natural, à lei natural inscrita
no coração de todos os homens.
Ninguém precisa de um documento papal para entender que
a finalidade primária da alimentação é a nutrição. É verdade que,
em nossas refeições, preparamos um ambiente celebrativo, onde
podemos partilhar amigavelmente nossas experiências enquanto
nos saciamos com os alimentos, cujos sabores agradáveis nos
causam prazer e satisfação. Tudo isso faz parte desse momento
que, aliás, nos distingue profundamente dos demais animais: um
cachorro não partilha sua ração com nenhum outro animal, ao passo
que os homens podem viver a fraternidade, dividindo a carne e
outros alimentos sobre a mesa. Mas a nutrição é o elã das
refeições. Se se perdesse essa finalidade primária, e os homens
começassem a comer apenas por diversão, a humanidade estaria
fadada à morte.
A mesma lei está na sexualidade. O sexo possui finalidades
secundárias, até espirituais, mas o seu propósito mais radical é,
sem dúvida, a procriação. Se a humanidade parar de se reproduzir,
a espécie humana desaparecerá. É o que está acontecendo com a
Europa, especialmente em países como a Alemanha, onde a taxa
de natalidade é baixíssima. Em poucos anos, os alemães terão
desaparecido do mapa, a não ser que haja alguma intervenção
divina. E o mesmo pode acontecer com o Brasil se nosso país
continuar incentivando uma agenda cultural antinatalista.
A cultura moderna inventou o “direito ao orgasmo”. As
pessoas querem fazer sexo apenas por prazer, como se a união
entre os órgãos sexuais masculino e feminino não estivesse
perfeitamente ordenada à procriação. Para isso, homens e mulheres
não se envergonham de recorrer à castração, comportando-se como
verdadeiros animais. O falso alarmismo da bomba populacional
transformou a geração de filhos em uma ameaça e o sexo em um
parque de diversões. O resultado disso se expressa pela
desmoralização total da sociedade, que já não se sacrifica pelas
crianças. Trata-se de uma sociedade perversa, que está
caminhando para a morte demográfica e espiritual.
Na encíclica Humanae Vitae, o Papa Paulo VI advertiu
claramente para três consequências da pílula anticoncepcional: 1º)
a infidelidade; 2º) a desvalorização da mulher; e 3º) a imposição
estatal do controle de natalidade. Basta uma vista sobre a
sociedade para admitir que Paulo VI estava correto. O número de
traições e divórcios aumentou pelo “caminho amplo e fácil que tais
métodos” abriram “à infidelidade conjugal e à degradação da
moralidade” (Humanae Vitae, n. 17). As mulheres marcham na rua
pelo direito de serem “vadias” e, perdoem-nos a expressão,
“depósito de esperma” para os homens que, habituados à
contracepção, acabam perdendo o respeito pela mulher e as
consideram “como simples instrumento de prazer egoísta e não
mais como a sua companheira, respeitada e amada” (Id.). E, no fim
das contas, o Estado castra os civis pela força das leis, do lobby e
das ideologias.
A pílula anticoncepcional é, de fato, a pedra que rolou da
montanha, causando a grande avalanche de imoralidades e
perversões a que assistimos atualmente. Já se fala até em
aceitação da pedofilia. Se a sociedade não aprender a virtude e
voltar-se para a verdade o quanto antes, terminará soterrada por
essa avalanche que ela mesma provocou ao apartar-se de Cristo.
 
O Papa João Paulo I (Albino Luciani)
O Papa João Paulo I, título com o qual seria consagrado
posteriormente, nasceu no dia 17 de outubro de 1912, na cidade de
Forno de Canale, em Belluno, na Itália. Ele foi batizado com o nome
de Albino Luciani, no mesmo dia em que nasceu, pois seus pais
receavam que ele não fosse viver.
Procedente de uma família pobre, ele era filho de Giovanni
Luciani, socialista, operário que trabalhava em uma fábrica de
vidros, muitas vezes obrigado a procurar emprego em países
vizinhos; e da católica devota Bertola, que lhe inspirou o desejo de
seguir a vida eclesiástica. Assim, enveredando por este caminho,
Albino tornou-se padre em 1935, após realizar sua formação em um
seminário gregoriano. Sua ordenação se deu na Igreja de São
Pedro de Belluno; logo depois assumiu a paróquia de Canale
d’Agordo, mas logo a deixou para ensinar religião no Instituto
Técnico para Mineiros, onde já se observavam seu carisma e sua
popularidade, nascidos principalmente de seu sorriso cativante. Em
1937 ele se torna vice-reitor do Seminário em que estudara, posto
no qual permanece até 1947.
Neste mesmo ano, no dia 27 de fevereiro, ele se torna doutor
em Teologia Sagrada pela Universidade Gregoriana, em Roma,
defendendo a tese intitulada A origem da alma humana de acordo
com o Antonio Rosmini. Muito humilde e devotado à ideia de salvar
a Humanidade, ele não tinha maiores pretensões; mesmo assim foi
transformado em bispo por João XXIII, em 15 de dezembro de 1958;
e nomeado Patriarca de Veneza por Paulo VI em 15 de dezembro
de 1969, tentando se manter distante de discussões políticas
internas no Vaticano. Albino participou também do Concílio Vaticano
II, realizado em 1962 pelo Papa João XXIII para discutir a adaptação
da Igreja à modernidade.
No dia 5 de março de 1973 ele recebeu nova promoção,
desta vez para Cardeal, a convite de Paulo VI. Aos 65 anos ele se
surpreende ao ser eleito o novo Papa, derrotando o
ultraconservador cardeal Giuseppe Siri, considerado até então pela
mídia o mais provável ocupante do trono de São Pedro, por 99 votos
a 11. Tão surpreso ficou Albino, que sua primeira reação teria sido
recusar o cargo, mas o cardeal holandês Johan Willebrands, a seu
lado na Capela, teria convencido o novo Papa do contrário. Eleito,
Luciani adota o nome de João Paulo I, primeiro Papa a escolher um
título composto, para homenagear os que lhe antecederam, João
XXIII e Paulo VI.
Sua doçura, a extrema afabilidade e o incansável sorriso
terno lhe valeram o apelido de ‘Papa Sorriso’. O pouco tempo em
que permaneceu no pontificado indicava uma intensa humildade, um
desconforto com o luxo do Vaticano – ele chegou a recusar a
coroação papal, que era opcional, e o transporte em liteiras, ponto
em que ele foi obrigado a ceder -, e a intenção de realizar reformas
profundas na Igreja, a começar da própria sede do papado. Ele
morreu antes de qualquer tentativa, na madrugada do dia 28 de
setembro de 1978, entre 23h30 e 4h30 da manhã, em seus
aposentos, no Palácio Apostólico do Vaticano.
Sua permanência por tão pouco tempo no Vaticano suscitou
inúmeras teses sobre a verdadeira causa de sua morte, até hoje não
oficialmente determinada. A proibição de se realizar autópsia no
corpo de um papa morto impediu o esclarecimento total dos reais
motivos do falecimento de João Paulo I. O mistério é reforçado pela
rapidez com que se embalsamou o corpo, sem empenho na busca
de maiores detalhes, contrastando com a precisão dos registros
sobre a morte de Paulo VI. Assim, é difícil não pensar em uma
morte suspeita, talvez por envenenamento, já que o Papa parecia
desagradar a Cúria Romana, mais preocupada em contrapor-se aos
ideais socialistas, então crescentes entre o clero em diversas partes
do globo. A escolha de João Paulo II como seu sucessor parece dar
ainda mais vazão a esta tese, pois este membro conservador da
Igreja caminhava na contramão de seu antecessor, tanto na política
quanto em questões como o aborto, o uso de anticoncepcionais,
entre outras.
 
Luciani vinha mantendo contato com diversos especialistas
na reprodução humana, com pensadores e adeptos das mais
diferentes religiões, tentando assim repensar as convencionais
posturas da Igreja Católica. O controvertido jornalista investigativo
David Yallop, no seu livro Em Nome de Deus, afirma reunir provas e
fontes que lhe autorizam a considerar a morte de João Paulo I não
natural, ou seja,fruto de um assassinato bem urdido, do qual teriam
participado, entre outros, o cardeal Jean Villot, o membro da máfia
siciliana Michele Sindona, o cardeal americano John Cody, então
líder da arquidiocese de Chicago, e o presidente do Banco do
Vaticano daquela época, o bispo Paul Marcinkus, além de adeptos
da loja maçônica .
Infelizmente, de uma forma ou de outra, a personalidade
humilde e inovadora do ‘candidato de Deus’, como foi chamado por
um dos cardeais, não lhe permitiu ser aceito pelo governo da Santa
Sé, mas o perfil de autêntico discípulo de Jesus, somado a seu
sorriso ímpar, deixaram sua imagem gravada eternamente na
memória popular. Talvez a Humanidade, ou pelo menos a poderosa
elite que rege o Planeta, ainda não estivesse preparada para
receber um ser detentor de tão alta espiritualidade.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE XIV
1. Papa João Paulo II
O Papa João Paulo II nasceu Karol Józef Wojtyla, em 18 de
maio de 1920, em Wadowice, na Polônia. Ele foi ordenado em 1946,
e se tornou o bispo de Ombi, em 1958, e arcebispo da Cracóvia, em
1964. Ele se tornou cardeal em 1967 pelo Papa Paulo VI e, em
1978, foi o primeiro papa não italiano em mais de 400 anos. Ele foi
defensor dos direitos humanos e utilizou sua influência para realizar
mudanças políticas. João Paulo II morreu em 2 de abril de 2005, na
Cidade do Vaticano. Em 2014, ele se tornou santo.
 
Primeiros anos
Peço perdão, em nome de todos os católicos, por todas as
injustiças contra os não católicos no decorrer da história.
Nascido Karol Józef Wojtyla, em 18 de maio de 1920, em
Wadowice, Polônia, a infância de João Paulo II foi marcada por
grandes perdas. Sua mãe faleceu quando ele tinha 9 anos de idade
e seu irmão mais velho, Edmund, morreu quando ele tinha 12 anos.
Na adolescência, era atlético e gostava de esquiar e nadar. Entrou
em 1938 na Universidade Jagiellonian, demonstrando interesse por
teatro e poesia, mas ela foi fechada pelos nazistas no ano seguinte.
João Paulo começou a estudar em um seminário secreto mantido
pelo arcebispo da Cracóvia. Quando a Segunda Guerra acabou, ele
terminou seus estudos e foi ordenado em 1946.
 
A Igreja
A Igreja não tem necessidade de recorrer a sistemas e ideologias.
João Paulo passou dois anos em Roma, onde finalizou seu
doutorado em teologia. Ele retornou à Polônia em 1948 e serviu em
muitas paróquias na Cracóvia. Em 1951, se tornou bispo de Ombi e,
seis anos depois, arcebispo da Cracóvia. Considerado um dos
grandes pensadores da Igreja Católica, ele participou do Concílio
Vaticano II, que iniciou a revisão da doutrina da Igreja, em 1962.
Aclamado por suas contribuições à instituição, João Paulo foi
nomeado cardeal em 1967, pelo Papa Paulo VI.
 
O papado
Em 1978, João Paulo fez história ao se tornar o primeiro papa não
italiano em mais 400 anos. Como o líder da Igreja Católica, ele
viajou pelo mundo, visitando mais de 100 países para divulgar sua
mensagem de fé e paz. Mas ele estava próximo de casa quando
enfrentou uma grande ameaça à sua vida. Em 1981, um assassino
atirou duas vezes no papa, na Praça de São Pedro, no Vaticano.
Felizmente, ele se recuperou do ataque e depois perdoou o autor
dos disparos.
 
Legado
O homem não pode viver sem amor. Sem amor, torna-se um ser
incompreensível para si mesmo.
Um grande defensor dos direitos humanos, João Paulo falava muito
sobre sofrimento no mundo. Ele sustentou posições fortes em
diversos assuntos, incluindo sua oposição à pena de morte. Com
personalidade carismática, ele usou sua influência para promover
mudanças políticas e é creditado pela queda do comunismo na
Polônia. Porém, muitos dizem que ele era severo com quem ia
contra suas posições e em alguns assuntos ele não intervinha,
como a contracepção.
Em seus últimos anos, João Paulo II estava muito debilitado. Em
suas aparições públicas, se movia lentamente e era notável que
tinha tremores. Um de seus médicos disse, em 2001, que o papa
estava com Parkinson, mas nenhum anúncio oficial foi realizado.
João Paulo morreu em 2 de abril de 2005, aos 84 anos, em sua
residência na Cidade do Vaticano. Mais de três milhões de pessoas
foram dizer adeus ao papa antes do seu funeral, em 8 de abril.
Em 5 de julho de 2013, após o período usual de cinco anos, o
Vaticano anunciou a santificação do Papa João Paulo II, e que a
cerimônia aconteceria dentro de 16 meses. O anúncio veio após o
Vaticano revelar dois milagres atribuídos ao papa: após a freira
francesa à beira da morte Irmã Marie Simon-Pierre Normand orar
para o papa pela cura de seu Parkinson, ela foi curada. O outro
milagre se trata de uma mulher de 50 anos, que diz que após uma
fotografia do papa falar com ela, lhe foi concedida a cura de um
aneurisma cerebral. A cerimônia oficial aconteceu em 27 de abril de
2014.
 
2. João Paulo II, um pouco de seu pontificado
O Papa João Paulo II, agora São João Paulo II, foi o papa
com o terceiro maior pontificado da história da Igreja, com 26 anos à
frente do governo da Barca de Pedro. Em todo esse tempo ele
conquistou o carinho dos fiéis e do mundo inteiro pelo seu carisma,
pela sua bondade e pela sensibilidade com os mais necessitados.
Nos seus longos anos de pontificado, muitas coisas aconteceram e
seria impossível catalogar todas elas em um só texto. A seguir
vamos ver alguns fatos que marcaram o tempo de São João Paulo
II, mas talvez a palavra “Santo”, seja a que melhor resume o que ele
fez de mais importante: Alcançar a conformação com Jesus, o
Senhor.
 
Diálogo Inter-Religioso
No dia 27 de Outubro de 1986, em Assis, na Itália, o Papa
João Paulo II se reuniu com vários líderes religiosos em um dia de
jejum e oração. Buscar a verdade e a unidade foi sempre uma
preocupação para João Paulo II.
 
Proximidade com os jovens
O Papa João Paulo II foi especialmente próximo dos jovens.
Talvez o feito mais marcante nesse sentido tenha sido a criação da
Jornada Mundial da Juventude, em 1984, que teve sua ultima
edição justamente aqui no Brasil e que, como sabemos, continua
dando muitos frutos de conversão e de um renovado ardor na fé dos
jovens do mundo inteiro. A próxima jornada será na Cracóvia,
cidade onde esse Papa foi arcebispo durante 14 anos.
 
Viagens
João Paulo II também entrou para a história como o papa das
viagens. Durante seu pontificado (lembrando que foi um longo
pontificado) ele realizou viagens à 130 países do mundo. Em suas
viagens demonstrava sua proximidade com as pessoas de cada
região. Em sua terra natal, a Polônia, serviu para elevar o espírito da
nação, ajudando na formação do “Movimento Solidariedade”, que
conseguiu de volta a liberdade e os direitos humanos para o país.
Ele veio ao Brasil em quatro oportunidades. Em 1997,
participou do segundo encontro mundial com as famílias, realizado
no Rio de Janeiro. Na missa de canonização de João Paulo II, o
Papa Francisco afirmou que ele foi também o Papa das famílias,
que assim gostaria de ser lembrado. Realmente ele se preocupou
por defender a família e seus direitos.
 
beijo no chão
"João Paulo II também entrou para a história como o papa
das viagens. Durante seu pontificado realizou viagens à 130 países
do mundo".
 
Tentativa de assassinato
Esse fato também é muito conhecido do mundo inteiro. No
dia 13 de Maio de 1981, quando entrava para discursar na Praça de
São Pedro, foi baleado por um atirador Turco. Foi levado em
seguida a um hospital público onde passou por várias horas de
cirurgia. Depois do ocorrido, perdoou o atirador.
Ele é um papa que marcou também por saber viver a
experiência da dor sempre com esperança. Em uma carta apostólica
chamada Salvifiti Doloris, ele expõe como a dor do cristão é
redentora quando unida as dores de Nosso Senhor Jesus Cristo.
 
Reconciliação
Esse não é um fato propriamente dito, mas um tema muito
importante no pontificado de João Paulo II. Ele, colocando-se “em
escuta do grito do homem e vendo como se manifesta nas
circunstâncias da vida uma nostalgia de unidade com Deus, consigo
mesmo e com o próximo” quis “pela graça e inspiração do Senhor,propor com força esse dom original da Igreja que é a reconciliação.”
(A Eucaristia, fonte de reconciliação, Téramo, 30/06/1985, 6).
"Ele quis e promoveu durante seu pontificado a reconciliação
do homem com Deus, sabendo que nessa relação está a felicidade
do ser humano que muitas vezes se encontra perdido porque está
longe do seu criador".
Ele quis e promoveu durante seu pontificado a reconciliação
do homem com Deus, sabendo que nessa relação está a felicidade
do ser humano que muitas vezes se encontra perdido porque está
longe do seu criador.
Muitas outras coisas se poderiam dizer do pontificado desse
homem que é para os fiéis um exemplo concreto da vitória de Cristo
na vida de uma pessoa. Nós somos todos chamados a viver uma
vida na qual resplandeça Cristo vivo, assim como João Paulo II. Já
no fim da sua vida, depois de passar uma vida entregada a Deus e
ao próximo, ele disse: “Eu sou feliz, sejam felizes também vocês.”
Para entender melhor o que ele queria dizer com ser feliz,
podemos ler sua mensagem aos jovens em uma das Jornadas
mundiais da juventude: "Queridos jovens, só Jesus conhece vosso
coração, vossos desejos mais profundos. Só Ele, quem os amou até
a morte, (Jn 13,1), é capaz de saciar vossas aspirações. Suas
palavras de vida eterna dão sentido à vida. Ninguém fora de Cristo
poderá dar-vos a verdadeira felicidade."
 
3. CURIOSIDADES SOBRE A VIDA DE JOÃO PAULO II.
 
1 – Quando adolescente, João Paulo II era apaixonado por teatro e,
mesmo quando não participava de algumas peças, fazia questão de
acompanhar os ensaios. Em uma ocasião, quando um dos atores
desistiu de uma apresentação em cima da hora, o jovem Karol se
ofereceu para substituí-lo, afinal já sabia todas as falas. Assim,
salvou um grupo inteiro do fiasco que a apresentação poderia ter
sido.
 
2 – Quando era pároco na Polônia e, inclusive, quando já era
cardeal, João Paulo II fazia questão de passar tempo ao lado dos
jovens de sua comunidade, participando de viagens e retiros ao lado
dos mais novos.
Quando esses encontros foram proibidos por líderes políticos, João
Paulo II encontrou maneiras mais discretas de realizar suas
reuniões, e muitas missas e discussões aconteciam em meio a
caminhadas, acampamentos e até ao redor da fogueira, à noite.
Além das leituras religiosas, João Paulo II também lia literatura para
seus seguidores, especialmente o livro The Screwtape Letters,
traduzido como “Cartas de um diabo ao seu Aprendiz”, de C. S.
Lewis, autor também de “As Crônicas de Nárnia”.
3 – Ainda que o governo comunista tivesse sérias restrições com a
Igreja Católica na Polônia, João Paulo II foi considerado pelos
comunistas a pessoa ideal para ser o arcebispo de Cracóvia.
 
4 – Quando os comunistas tiraram os nazistas do poder na Polônia,
João Paulo II e outros líderes religiosos voltaram ao seminário onde
viviam anteriormente. O local estava abandonado e as tubulações
de esgoto estavam congeladas. Sem pensar duas vezes, João
Paulo II e seus amigos resolveram o problema com as próprias
mãos e desentupiram as tubulações de esgoto que estavam cheias
de cocô congelado.
 
5 – João Paulo II sempre gostou de esquiar, e continuou praticando
o esporte até quando já tinha 73 anos de idade.
6 – Conhecido em todo o planeta, é normal que João Paulo II tenha
viajado muito durante sua vida. Só para você ter ideia, estima-se
que ele tenha percorrido mais de 1,2 milhão de km ao longo dos
anos. É basicamente o mesmo que ir e voltar da Lua três vezes!
 
7 – Uma vez, durante uma entrevista, João Paulo II falou sobre o dia
mais feliz da sua vida: foi quando canonizou a irmã Faustina como a
primeira santa do novo milênio.
 
8 – Quando a Polônia estava ocupada por nazistas, Karol trabalhava
em uma pedreira, em condições péssimas, com temperaturas
negativas que não facilitavam seu trabalho noturno. Em uma das
madrugadas nas quais trabalhava, presenciou a morte de um
colega, vítima de uma explosão de dinamites. Sobre o ocorrido,
João Paulo II escreveu um poema.
 
Nos versos, falava sobre a perda da família do amigo e terminou
dizendo: “quanto maior a raiva, maior a explosão de amor”.
9 – Durante o governo comunista, a vida de Karol era monitorada
pelo governo, e ele sabia disso. Esperto, conseguia escapar da
fiscalização e tinha até meios de interromper as escutas telefônicas
que haviam sido instaladas em sua residência. Ele tinha até mesmo
uma forma de enganar os espiões quando precisava participar de
alguma reunião secreta.
 
10 – Conhecido pela bondade e pela doação não apenas de seu
tempo como de seus bens materiais, João Paulo II usou boa parte
do dinheiro arrecadado com a venda do seu livro “Cruzando o Limiar
da Esperança” para reconstruir igrejas que haviam sido destruídas
na Iugoslávia.
 
11 – Dedicado, chegava a trabalhar por até 16 horas por dia, e já foi
descrito como um “vulcão de energia”. Quem conhecia João Paulo II
de perto, dizia que ele tinha uma capacidade incrível de realizar
múltiplas tarefas ao mesmo tempo. Era o tipo de pessoa capaz de
conversar enquanto lia um livro.
12 – Ainda sobre o hábito de leitura do antigo papa, sabe-se que ele
leu toda a obra de Marx e, inclusive, falava sobre ela com os outros
religiosos.
 
13 – Quando voltou à Polônia, já como papa, em 1979, João Paulo
II levou até a Praça da Vitória 300 mil fiéis que o saudaram com
uma sessão de aplausos ininterrupta que durou 14 minutos.
 
14 – Se tudo o que foi escrito por Karol fosse reunido em volumes,
teríamos o equivalente a 20 bíblias. Durante seu pontificado,
escreveu em média 3 mil páginas por ano.
 
15 – Seu amor pela humanidade ia além das barreiras religiosas de
cada povo e, por isso, foi o primeiro Papa a pisar em uma mesquita.
16 – Como sentia falta de sua privacidade e liberdade, João Paulo II
costumava enganar os próprios seguranças do Vaticano e, coberto
por uma capa preta, fugia para esquiar ou fazer caminhadas.
 
17 – Divertido, costumava fazer piadas a respeito de si mesmo,
especialmente sobre sua voz quando precisava cantar.
 
18 – Dono de uma memória impecável, Karol tinha um mapa com
todas as dioceses do mundo devidamente anotadas. Ele era
conhecido também por se lembrar dos nomes de guardas,
seminaristas e conhecidos aleatórios.
 
19 – Foi a pessoa mais vista da história da humanidade – estima-se
que pelo menos 500 milhões de pessoas já tenham visto João Paulo
II de pertinho.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE XV
1. O que é a Teologia da Libertação?
Em face da condenação de um livro de Jon Sobrinho, um dos
teólogos líderes da teologia da libertação, pela Sagrada
Congregação da Doutrina da Fé, do Vaticano, a discussão sobre
esta teologia voltou a campo.
Um grupo de teólogos desta linha acaba de publicar um livro
contestando a ação do Vaticano e do Papa. São eles: Marcelo
Barros, Leonardo Boff, Teófilo Cabestrero, Oscar Campana, Víctor
Codina, José Comblin , Confer de Nicaragua, Lee Cormie, Eduardo
de la Serna, José Estermann, Benedito Ferraro, Eduardo Frades,
Luis Arturo Garcia Dávalos, Ivone Gebara, Eduardo Hoornaert,
Diego IrarrázavaI, Jung Mo Sung, Paul Kmitter, João Batista Libânio,
María y José Ignacio López Vigil, Carlos Mesters, Ricardo Renshaw,
Jean Richard, Pablo Richard, Luis Rivera Págan, José Sánchez,
Stefan Silber, Ezequiel Silva, Afonso Mª Ligório Soares, José Sols,
Paulo Suess, Luiz Carlos Susin, Faustino Teixeira, Tissa Balasuriya,
e José María Vigil.
A Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo
publicou o livro “Bajar de la cruz a los pobres: cristología de la
liberación”.
Muitos perguntam, o que é afinal, esta teologia da libertação?
Vou responder esta pergunta com a resposta que deu a ela a
autoridade da Igreja Católica; o Cardeal Joseph Ratzinguer,
escolhido pelo Papa João Paulo II, em 1981, para ser o Prefeito da
Sagrada Congregação da Doutrina da Fé; aquela que está
encarregada de cuidar da “sã doutrina” (1Tm1,10; 4,6; Tt1,9; 2,1;2,7;
2Tm4,3), que com tanta ênfase São Paulo recomendava a Timóteo
e a Tito. Hoje o então Cardeal Ratzinger é oPapa Bento XVI.
A teologia da libertação surgiu, mais especificamente, na
América Latina, na década de 60, e ganhou adeptos principalmente
nas Comunidades Eclesiais de Base. A partir dos anos 80 pudemos
sentir mais de perto a sua ação. Foi então que o Cardeal Ratzinger,
escreveu um importante artigo intitulado “Eu vos explico a teologia
da libertação” (Revista PR,n. 276, set-out, 1984, pp354-365), onde
deixou claro todo o seu perigo. Analisando este artigo, D.Estevão
Bettencourt, afirma: “O autor mostra que a teologia da libertação não
trata apenas de desenvolver a ética social cristã em vista da
situação socioeconômica da América Latina, mas revolve todas as
concepções do Cristianismo: doutrina da fé, constituição da Igreja,
Liturgia, catequese, opções morais, etc.
 
Entre as afirmações, o então Cardeal Prefeito diz:
“A gravidade da teologia da libertação não é avaliada de
modo suficiente; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje
existente; é a subversão radical do Cristianismo, que torna urgente o
problema do que se possa e se deva fazer frente a ela”.
“A teologia da libertação é uma nova versão do Cristianismo,
segundo o racionalismo do teólogo protestante Rudolf Bultmann, e
do marxismo, usando “a seu modo”, uma linguagem teológica e até
dogmática, pertencente ao patrimônio da igreja, revestindo-se até de
uma certa mística, para disfarçar os seus erros”.
 
O então Cardeal foi muito claro ao afirmar o perigo:
“Com a análise do fenômeno da teologia da libertação torna-
se manifesto um perigo fundamental para a fé da Igreja. Sem
dúvida, é preciso ter presente que um erro não pode existir se não
contém um núcleo de verdade. De fato, um erro é tanto mais
perigoso quanto maior for a proporção do núcleo de verdade
assumida”.
 
E o Cardeal vai explicando esta teologia “nova”:
“Essa teologia não pretende constituir-se como um novo
tratado teológico ao lado dos outros já existentes; não pretende, por
exemplo, elaborar novos aspectos da ética social da Igreja. Ela se
concebe, antes, como uma nova hermenêutica da fé cristã, quer
dizer, como nova forma de compreensão do Cristianismo na sua
totalidade. Por isso mesmo muda todas as formas da vida eclesial; a
constituição eclesiástica, a Liturgia, a catequese, as opções
morais…”
“A teologia da libertação pretende dar nova interpretação
global do Cristianismo; explica o Cristianismo como uma práxis de
libertação e pretende constituir-se, ela mesma, um guia para tal
práxis. Mas, assim como, segundo essa teologia, toda realidade é
política, também a libertação é um conceito político e o guia rumo à
libertação deve ser um guia para a ação política”.
A libertação, para a teologia da libertação, é conquistada pela
via política, e não pela Redenção de Jesus, o “Cordeiro de Deus
que tira o pecado do mundo” (Jo1,29). Jesus veio para “salvar o seu
povo dos seus pecados” (Mt 1,21), e disse a Pilatos que “o seu
Reino não é deste mundo”. O pecado, para a teologia da libertação,
se resume quase que só no “pecado social”, mas este, não será
“arrancado” com a conversão e com os Sacramentos da Igreja, mas
com a “libertação” do povo, pela luta política. Daí o fato de haver um
laxismo moral e espiritual em muitos adeptos dessa teologia. Muitos
não valorizam a celebração da Missa, a não ser como uma
“celebração de mobilização política” do povo oprimido. Não se
valoriza suficientemente a oração, a Confissão, a Eucaristia, o santo
Rosário, a adoração ao Santíssimo Sacramento, e a todas as
práticas de espiritualidade tradicionais, que são, então,
consideradas superadas e até alienantes.
Conheço vários jovens sacerdotes que se formaram em
seminários fortemente influenciados pela teologia da libertação, e
que hoje deixaram o sacerdócio, ficaram esvaziados
espiritualmente… Noto que nem se realizaram no campo social e
nem no campo religioso.
 
O então Cardeal Ratzinguer mostrou que é difícil enfrentar
esse perigo, pois, como afirma:
“Os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da
linguagem ascética e dogmática da Igreja em chave nova, de tal
modo que aqueles que leem e escutam, partindo de outra visão,
podem ter a impressão de reencontrar o patrimônio antigo com o
acréscimo apenas de algumas afirmações um pouco estranhas…”
 
O então Cardeal mostrou a inversão que se faz no papel da
comunidade, povo e história, para a vida da Igreja:
“A comunidade ‘interpreta’, com a sua ‘experiência’ os
acontecimentos e encontra assim a sua práxis”.
‘Povo’ torna-se assim um conceito oposto ao de ‘hierarquia’ e
antítese a todas as instituições indicadas como forças da opressão.
Afinal, é ‘povo’, quem participa da ‘luta de classes’; a ‘ igreja
popular’, acontece em oposição à Igreja hierárquica. Por fim, o
conceito de ‘história’, torna-se instância hermenêutica decisiva,…a
história é a autêntica revelação e, portanto, a verdadeira instância
hermenêutica da interpretação bíblica…Pode-se dizer que o
conceito de história absorve o conceito de Deus e de revelação”.
Em seguida, o então Cardeal mostra a deturpação também
naquilo que é essencial: o Reino de Deus.
“Esse conceito encontra-se também no centro das teologias
da libertação, lido porém no contexto da hermenêutica marxista.
Segundo Jon Sobrino, o reino não deve ser compreendido
espiritualmente, nem universalmente, no sentido de uma reserva
escatologicamente abstrata. Deve ser compreendido de forma
partidária e voltado para a práxis”.
Aqui se entende porque os adeptos da TL militam nos partidos
políticos que visam a “libertação do povo”.
 
O Papa Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi, explicou o que é a
verdadeira libertação:
“Acerca da libertação que a evangelização anuncia e se esforça por
atuar, é necessário dizer antes o seguinte: ela não pode ser limitada
à simples e restrita dimensão econômica, política, social e cultural;
mas deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as
suas dimensões, incluindo a sua abertura para o absoluto, mesmo o
absoluto de Deus… Mais ainda: a Igreja tem a firme convicção de
que toda a libertação temporal, toda a libertação política, mesmo
que ela porventura se esforçasse por encontrar numa ou noutra
página do Antigo ou do Novo Testamento a própria justificação, …
encerra em si mesma o gérmen da sua própria negação e desvia-se
do ideal que se propõe, por isso mesmo que as suas motivações
profundas não são as da justiça na caridade, e porque o impulso
que a arrasta não tem dimensão verdadeiramente espiritual e a sua
última finalidade não é a salvação e a beatitude em Deus.”
“A libertação que a evangelização proclama e prepara é aquela
mesma que o próprio Jesus Cristo anunciou e proporcionou aos
homens pelo seu sacrifício.” (n.33)
 
Os adeptos da teologia da libertação têm a enganosa mania
de pensar que quem não aceita esta teologia não trabalha pelos
pobres e oprimidos e não se preocupa com eles; se acham os
únicos defensores dos excluídos; é um grande erro. A Igreja em
seus 2000 anos de vida sempre socorreu os desvalidos e ainda o
faz, mas nunca precisou lançar mão de ideologias estranhas para
isso; sempre agiu pelo puro amor a Jesus Cristo que sofre no
doente, no preso, no faminto, etc. A Igreja não precisa que novos
teólogos a ensinem a fazer caridade; ela a faz desde os Apóstolos,
ela é “perita em humanidade”, como disse Paulo VI.
Hoje 25% das instituições que tratam dos aidéticos são da
Igreja; em toda a História da Igreja os santos e santas viveram a
verdadeira caridade; só para citar alguns: Santa Isabel da Hungria,
S. Vicente de Paulo, S. Francisco de Assis, S. Camilo de Lelis, S.
João Bosco, Madre Teresa de Calcutá, Ira. Dulce, e milhares de
outros que nunca precisaram reinterpretar o Evangelho e politizar a
fé com métodos marxistas de luta de classes, invasão de
propriedades alheias fora, da lei, etc., para promover os pobres. São
os verdadeiros bons samaritanos do Evangelho.
O Papa João Paulo II ao menos por duas vezes, falando aos
bispos do Brasil, condenou as invasões de terras:
1 – Ao segundo grupo de Bispos do Brasil, do Regional Sul l daCNBB, em visita “ad limina Apostolorum” de 13 a 28 de Março de
1996, o Papa disse:
“… mas recordo, igualmente, as palavras do meu predecessor Leão
XIII quando ensina que “nem a justiça, nem o bem comum
consentem danificar alguém ou invadir a sua propriedade sob
nenhum pretexto” (RN, 55). A Igreja não pode estimular, inspirar ou
apoiar as iniciativas ou movimentos de ocupação de terras, quer por
invasões pelo uso da força, quer pela penetração sorrateira das
propriedades agrícolas.”
2 – Em discurso em 26/nov/2002 aos bispos do Brasil, ele voltou a
dizer:
“Para alcançar a justiça social se requer muito mais do que a
simples aplicação de esquemas ideológicos originados pela luta de
classes como, por exemplo, através da invasão de terras – já
reprovada na minha viagem pastoral em 1991 – e de edifícios
públicos e privados, ou por não citar outros, a adoção de medidas
técnicas extremas, que podem ter consequências bem mais graves
do que a injustiça do que pretendiam resolver”.
Não podemos nos fazer de surdos a essas palavras. Concluo com
as sábias palavras de D. Estevão:
“O cristão não pode ser de forma alguma, insensível à
miséria dos povos do Terceiro Mundo. Todavia para acudir
cristãmente a tal situação, não lhe é necessário adotar um sistema
de pensamento que é anticristão como a Teologia da Libertação;
existe a doutrina social da Igreja, desenvolvida pelos Papas desde
Leão XIII até João Paulo II de maneira cada vez mais incisiva e
penetrante. Se fosse posta em prática, eliminaria graves males de
que sofrem os homens, sem disseminar o ódio e a luta de classes”.
 
2. A Teologia da Libertação e sua influência na Igreja.
Dentro do pensamento marxista, mais especificamente do
pensamento marxiano[1], a religião e a teologia fazem parte de uma
superestrutura, de algo que não faz parte da infraestrutura que
move a história, ou seja, a economia[2]. O pensamento
revolucionário posterior a Marx, porém, começou a perceber a
importância da cultura, da superestrutura[3]. Marx considerava a
religião como ópio do povo. Na Rússia, o stalinismo/leninismo tentou
abolir a religião, mas Gramsci e a escola de Frankfurt descobriram
que a cultura é, de alguma forma, a religião exteriorizada. Todos
parecem ter uma visão religiosa do mundo e a cultura seria a
exteriorização desta visão de mundo.
Feuerbach afirmava que toda a teologia é uma antropologia,
pois dizia que tudo aquilo que se afirmava a respeito de Deus, que
todas as afirmações religiosas podiam ser reduzidas a afirmações
antropológicas. A religião parece, desta forma, ser uma projeção da
humanidade na divindade. Feuerbach entende que a teologia é uma
antropologia alienada. A Teologia da Libertação se esforça para
seguir essa cartilha, pois é a imanentização[4] da religião cristã e de
qualquer outra religião[5]. Tudo aquilo que se refere a Deus é relido
em chave antropológica, mais especificamente em linguagem
sociológica. Todo o conteúdo do sagrado e do transcendente é
esvaziado na imanência humana.
Assim, uma das características básicas da Teologia da
libertação é a negação de uma esperança transcendente. Não se
espera o reino de Deus na transcendência, mas sim na imanência
deste mundo. Seu golpe, porém, se caracteriza pelo fato de se
afirmar que a transcendência se encontra no futuro. Mas, o futuro
também é imanente, pois pertence à realidade desse mundo.
Essa afirmação do futuro como transcendente é própria do
marxismo[6], ao se utilizar de um imanentismo fraco, afirmando que
o sentido do hoje está no amanhã[7]. O marxista adia a crise de
sentido diante de uma possibilidade de futuro. Mas, se o sentido do
hoje é o amanhã, qual o sentido do amanhã? Qual o sentido da
sociedade do futuro? Se a vida tem sentido, este sentido,
necessária e logicamente, estará fora da vida. O único caminho para
que a história tenha sentido é falar de uma meta-história, de algo
transcendente.
O Reino dos Céus, conteúdo da fé cristã, não é o reino do
amanhã, mas é o reino do além, da eternidade, eternidade que
irrompeu na história humana e se fez carne. O transcendente, o
sentido de tudo, o logos se fez presente na história humana.
Exatamente por isso tornou-se alcançável, tangível[8]. O esforço da
teologia será o de mostrar que esta aparente contradição não trai a
racionalidade, mas a aperfeiçoa. A verdadeira teologia é uma
tentativa de reflexão que tenta conciliar os paradoxos e aparentes
contradições da fé[9] com a racionalidade.
 
Um "teólogo" da libertação não se move por esse mesmo
caminho. Sua argumentação irá mudar quantas vezes forem
necessárias até a realização do seu intento. Não existe nenhuma
dificuldade em abandonar qualquer estereótipo. Tudo o que for
necessário para favorecer a revolução será feito, pois qualquer
argumento só tem validade enquanto convence. Se não convencer
será descartado. É por isso que os teólogos tradicionais tem uma
dificuldade imensa de compreender a forma de pensar de um
teólogo da libertação, pois a lógica aristotélico-tomista, a todo o
momento, percebe a falta de coerência lógica dos marxistas[10]. Na
realidade, não seguem a lógica de Aristóteles, pois Gramsci já
indicou o caminho: bom é aquilo que ajuda a revolução, mau é
aquilo que atrapalha.
Para se dialogar com um marxista é preciso inverter o
caminho costumeiro da argumentação, já que ele parte do primado
da práxis sobre a teoria, sabendo o que quer fazer e, num segundo
momento, cria a teoria para justificar a sua práxis. E, nesse
caminho, o grande adversário a ser combatido é o cristianismo, ópio
do povo, pois aliena 'o povo' da luta pela implantação de uma
sociedade justa e sem classes através da pregação do reino dos
céus. Tudo o que faça com que o povo não lute, não serve e não
deve existir.
O povo deve ser engajado num processo de engenharia
social e a religião deve ser metamorfoseada quantas vezes forem
necessárias para ajudar nesse processo. O revolucionário não
busca a verdade, pois não crê em sua existência. E uma vez que o
marxismo viu que não conseguia destruir a Igreja a partir de fora
(Revolução Russa, Gulags, Guerra Civil Espanhola) partiu para uma
nova tática: infiltrar-se na Igreja, através da teologia da libertação,
que se constituiu num projeto de engenharia social que, a partir da
própria Igreja, buscou fazer com que a Igreja mudasse a sua própria
natureza, constituindo-se numa força para ajudar a concretizar a
revolução social. A tentativa: fazer com que o cristianismo deixe de
ser visto como é, um acontecimento e passe a ser visto como uma
realidade mental
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE XVI
1. PAPA BENTO XVI (2005 – 2013).
O 265º Sumo Pontífice renunciou à Cátedra de Pedro. No dia 11 de
fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI apresentou, durante uma
reunião com as Cardeais da Cúria Romana, sua renúncia. Decisão
que trouxe um novo olhar sobre a figura do Papa alemão. Um fato
que revelou um Papa surpreendente.
O Cardeal Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, nasceu em
Marktl am Inn, diocese de Passau (Alemanha), no dia 16 de Abril de
1927 (Sábado Santo), e foi baptizado no mesmo dia. O seu pai,
comissário da polícia, provinha duma antiga família de agricultores
da Baixa Baviera, de modestas condições económicas. A sua mãe
era filha de artesãos de Rimsting, no lago de Chiem, e antes de
casar trabalhara como cozinheira em vários hotéis.
Passou a sua infância e adolescência em Traunstein, uma
pequena localidade perto da fronteira com a Áustria, a trinta
quilómetros de Salisburgo. Foi neste ambiente, por ele próprio
definido «mozarteano», que recebeu a sua formação cristã, humana
e cultural.
O período da sua juventude não foi fácil. A fé e a educação
da sua família prepararam-no para enfrentar a dura experiência
daqueles tempos, em que o regime nazista mantinha um clima de
grande hostilidade contra a Igreja Católica. O jovem Joseph viu os
nazistas açoitarem o pároco antes da celebração da Santa Missa.
Precisamente nesta complexa situação, descobriu a beleza e
a verdade da fé em Cristo; fundamental para ele foi a conduta dasua família, que sempre deu um claro testemunho de bondade e
esperança, radicada numa conscienciosa pertença à Igreja.
 
Até o mês de Setembro de 1944 esteve arrolado nos serviços
auxiliares antiaéreos.
Recebeu a Ordenação Sacerdotal em 29 de Junho de 1951.
Um ano depois, começou a sua actividade de professor na Escola
Superior de Freising.
No ano de 1953, doutorou-se em teologia com a tese «Povo
e Casa de Deus na doutrina da Igreja de Santo Agostinho».
Passados quatro anos, sob a direção do conhecido professor de
teologia fundamental Gottlieb Söhngen, conseguiu a habilitação
para a docência com uma dissertação sobre «A teologia da história
em São Boaventura».
 
Depois de desempenhar o cargo de professor de teologia
dogmática e fundamental na Escola Superior de Filosofia e Teologia
de Freising, continuou a docência em Bonn, de 1959 a 1963; em
Münster, de 1963 a 1966; e em Tubinga, de 1966 a 1969. A partir
deste ano de 1969, passou a ser catedrático de dogmática e história
do dogma na Universidade de Ratisbona, onde ocupou também o
cargo de Vice-Reitor da Universidade.
De 1962 a 1965, prestou um notável contributo ao Concílio
Vaticano II como «perito»; viera como consultor teológico do Cardeal
Joseph Frings, Arcebispo de Colónia.
A sua intensa atividade científica levou-o a desempenhar
importantes cargos ao serviço da Conferência Episcopal Alemã e na
Comissão Teológica Internacional.
Em 25 de Março de 1977, o Papa Paulo VI nomeou-o
Arcebispo de München e Freising. A 28 de Maio seguinte, recebeu a
sagração episcopal. Foi o primeiro sacerdote diocesano, depois de
oitenta anos, que assumiu o governo pastoral da grande
arquidiocese bávara. Escolheu como lema episcopal: «Colaborador
da verdade»; assim o explicou ele mesmo: «Parecia-me, por um
lado, encontrar nele a ligação entre a tarefa anterior de professor e a
minha nova missão; o que estava em jogo, e continua a estar –
embora com modalidades diferentes –, é seguir a verdade, estar ao
seu serviço. E, por outro, escolhi este lema porque, no mundo atual,
omite-se quase totalmente o tema da verdade, parecendo algo
demasiado grande para o homem; e, todavia, tudo se desmorona se
falta a verdade».
Paulo VI criou-o Cardeal, do título presbiteral de “Santa Maria
da Consolação no Tiburtino”, no Consistório de 27 de Junho desse
mesmo ano.
Em 1978, participou no Conclave, celebrado de 25 a 26 de
Agosto, que elegeu João Paulo I; este o nomeou seu Enviado
especial ao III Congresso Mariológico Internacional que teve lugar
em Guayaquil (Equador) de 16 a 24 de Setembro. No mês de
Outubro desse mesmo ano, participou também no Conclave que
elegeu João Paulo II.
Foi Relator na V Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos
Bispos realizada em 1980, que tinha como tema «Missão da família
cristã no mundo contemporâneo», e Presidente Delegado da VI
Assembleia Geral Ordinária, celebrada em 1983, sobre «A
reconciliação e a penitência na missão da Igreja».
João Paulo II nomeou-o Prefeito da Congregação para a
Doutrina da Fé e Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da
Comissão Teológica Internacional, em 25 de Novembro de 1981. No
dia 15 de Fevereiro de 1982, renunciou ao governo pastoral da
arquidiocese de München e Freising. O Papa elevou-o à Ordem dos
Bispos, atribuindo-lhe a sede suburbicária de Velletri-Segni, em 5 de
Abril de 1993.
 
Foi Presidente da Comissão encarregada da preparação do
Catecismo da Igreja Católica, a qual, após seis anos de trabalho
(1986-1992), apresentou ao Santo Padre o novo Catecismo.
A 6 de Novembro de 1998, o Santo Padre aprovou a eleição
do Cardeal Ratzinger para Vice Decano do Colégio Cardinalício,
realizada pelos Cardeais da Ordem dos Bispos. E, no dia 30 de
Novembro de 2002, aprovou a sua eleição para Decano; com este
cargo, foi-lhe atribuída também a sede suburbicária de Óstia.
Em 1999, foi como Enviado especial do Papa às celebrações
pelo XII centenário da criação da diocese de Paderborn, Alemanha,
que tiveram lugar a 3 de Janeiro.
Desde 13 de Novembro de 2000, era Membro honorário da
Academia Pontifícia das Ciências.
Na Cúria Romana, foi Membro do Conselho da Secretaria de
Estado para as Relações com os Estados; das Congregações para
as Igrejas Orientais, para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, para os Bispos, para a Evangelização dos Povos,
para a Educação Católica, para o Clero, e para as Causas dos
Santos; dos Conselhos Pontifícios para a Promoção da Unidade dos
Cristãos, e para a Cultura; do Tribunal Supremo da Signatura
Apostólica; e das Comissões Pontifícias para a América Latina,
«Ecclesia Dei», para a Interpretação Autêntica do Código de Direito
Canónico, e para a revisão do Código de Direito Canónico Oriental.
Entre as suas numerosas publicações, ocupam lugar de
destaque o livro «Introdução ao Cristianismo», uma compilação de
lições universitárias publicadas em 1968 sobre a profissão de fé
apostólica, e o livro «Dogma e Revelação» (1973), uma antologia de
ensaios, homilias e meditações, dedicadas à pastoral.
Grande ressonância teve a conferência que pronunciou
perante a Academia Católica Bávara sobre o tema «Por que
continuo ainda na Igreja?»; com a sua habitual clareza, afirmou
então: «Só na Igreja é possível ser cristão, não ao lado da Igreja».
No decurso dos anos, continuou abundante a série das suas
publicações, constituindo um ponto de referência para muitas
pessoas, especialmente para os que queriam entrar em
profundidade no estudo da teologia. Em 1985 publicou o livro-
entrevista «Informe sobre a Fé» e, em 1996, «O sal da terra». E, por
ocasião do seu septuagésimo aniversário, publicou o livro «Na
escola da verdade», onde aparecem ilustrados vários aspectos da
sua personalidade e da sua obra por diversos autores.
Recebeu numerosos doutoramentos «honoris causa»: pelo
College of St. Thomas em St. Paul (Minnesota, Estados Unidos), em
1984; pela Universidade Católica de Eichstätt, em 1987; pela
Universidade Católica de Lima, em 1986; pela Universidade Católica
de Lublin, em 1988; pela Universidade de Navarra (Pamplona,
Espanha), em 1998; pela Livre Universidade Maria Santíssima
Assunta (LUMSA, Roma), em 1999; pela Faculdade de Teologia da
Universidade de Wroclaw (Polónia) no ano 2000.
Contribuições do Papa Bento XVI para a Igreja, tanto
antes como durante o Pontificado
 
POR PE. GELSON LUIZ MIKUSZKA, C.SS.R. EM SANTO PADRE
28 FEV 2013 - 00H00
Contribuições do Papa Bento XVI para a Igreja, tanto antes como
durante o Pontificado
 
Joseph Ratzinger é um brilhante teólogo. Mas, na sua trajetória de
Papa Bento XVI, sofreu o impacto de diversos acometimentos –
missão, saúde, idade avançada – que naturalmente acabaram
minando o vigor indispensável para conduzir assuntos
contemporâneos e polêmicos da nossa fé, os quais não podem
deixar de figurar na agenda de um pontífice. Uma situação que dele
exigiu humildade e coragem para tomar a difícil decisão de abdicar
da sua função pontifical.
 
Bento XVI
Para alguns, sua renúncia foi como abandonar a cruz, a exemplo da
‘Última Tentação de Cristo’, constante no livro de Nikos Kazantzakis.
Para outros, representou um ato corajoso e compreensível, que
surpreendeu o mundo. Como já havia renunciado a tantas outras
coisas, tais como casamento, filhos, tempo, posses, baladas, etc.,
ele renuncia de modo tranquilo. Sua mais expressiva renúncia
implica, sem dúvida, a escolha para morrer na simplicidade, sem
honras ou homenagens dedicadas a um pontífice.
Estipulando suas contribuições à Igreja, reportamo-nos às fases
marcantes de sua vida eclesial, a saber: teólogo-professor, teólogo-
cardeal e teólogo-papa.
 
Teólogo-Professor
Um ano após a ordenação presbiteral, em 1952, iniciou sua
atividade docente na Escola Superior de Filosofia e Teologia de
Freising, na Alemanha. Lecionou teologia dogmática e fundamental.
Em 1953, concluiu doutorado em teologia, quando defendeu a tese:
‘Povo e Casa de Deus na doutrina da Igreja de Santo Agostinho’.
Atuando como professor, mostrou-se homem inteligente, porém
simples, gentil, amigo dos estudantes; eruditoe de fácil acesso.
Herança de sua família pobre, uma vez que era filho de pai policial e
de mãe cozinheira.
 
Foi colega do teólogo suíço Hans Küng, mas mantinha certa visão
conservadora em oposição às tendências marxistas dos
movimentos estudantis dos anos de 1960. Participou do Concílio
Vaticano II, na qualidade de especialista em teologia. Juntamente
com outros teólogos, fundou em 1972 a revista Communio,
refletindo a Igreja e a crise teológica e cultural do pós-Concílio.
 
Teólogo-Cardeal
Em março de 1977, ao ser nomeado bispo na Alemanha, escolheu
como lema de seu episcopado a ‘Verdade’. Elevado a cardeal,
poucos meses depois, participou da eleição do Papa João Paulo II.
Em 1981, tornou-se prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé
e um juiz de teólogos. Nessa função, passou a assumir posições
duras e atitudes conservadoras, condenando alguns teólogos da
libertação, que focalizavam a Igreja num contexto de América
Latina. Considerava a Teologia da Libertação correta, quanto ao
carisma profético e bíblico de justiça; mas não a aceitava, por
acreditar que o marxismo constituía a ferramenta de sua reflexão.
Nos anos seguintes, ao menos omitiu atitudes de padres e bispos
que agiam de modo nada cristão, em relação à pedofilia,
demonstrando um “pulso firme” na defesa da ortodoxia.
 
Teólogo-Papa
Eleito papa em 2005, deu continuidade à sua linha intelectual,
editando encíclicas e livros sobre importantes temas cristãos: amor,
esperança, fé, Jesus Cristo. Documentos de tal organização
teológica que possibilitam ser ele chamado de “intelectual da fé”.
No livro-entrevista, intitulado ‘Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os
Sinais dos Tempos’, baseado em vinte horas de entrevista
conduzida pelo jornalista alemão Peter Seewald, revelou-se
desencantado pelo que considerou exageros da Igreja em abrir-se
de modo indiscriminado ao mundo; não apreciava interpretações
demasiadamente positivas de um mundo sem fé. Como alternativa,
sugere restaurar o equilíbrio de valores no interior do catolicismo,
confirmando sua defesa à ortodoxia, indo contra o pensamento de
reforma eclesial do Concílio Vaticano II.
A primeira encíclica, ‘Deus Caritas Est’, publicada em dezembro de
2005, mostra um papa preocupado em esclarecer os conceitos de
amor do pensamento ocidental, tão relativizados no mundo atual: o
‘eros’, que é o amor erótico; o ‘ágape’, que é o amor incondicional, e
o ‘philia’, que é a amizade.
Quando surgiram os escândalos de pedofilia na Igreja, ele dirigiu
uma carta aos bispos da Irlanda, em 2006, onde reconheceu os
fatos como “crimes hediondos”. Assumiu que cabia à Igreja
solucionar eficazmente esse problema, mostrando a importância em
estabelecer a verdade e o respeito, dando os passos necessários
para que não voltasse a acontecer o que ocorrera no passado.
Propôs que os princípios da justiça fossem assegurados às vítimas.
Dentre tantos países visitados, Bento XVI esteve no Brasil, entre os
dias 09 e 13 de maio de 2007. O objetivo principal de sua presença
foi a Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e
Caribenho, realizado no Santuário de Aparecida. Nessa ocasião,
canonizou Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, em cerimônia
realizada no dia 11 de maio de 2007, em São Paulo.
A segunda encíclica: “Spe Salvi”, publicada em novembro de
2007, fala do entendimento cristão sobre a esperança. Para ele, a
vida do cristão deve ser cheia de esperança, sentimento que traz
sentido à existência, de vez que Jesus mudou a história porque
trouxe à humanidade a esperança de encontro com Deus, e não
uma mensagem política qualquer.
Em 2008, recolocou no missal romano a oração pela
conversão dos judeus, que era rezada antes do Vaticano II, mas
havia sido retirada, por causar polêmica com os judeus.
Ainda em 2008, fez uma viagem aos EUA, onde se
posicionou contra os casos de pedofilia, afirmando que os pedófilos
seriam excluídos do ministério sagrado, em vista do comportamento
incompatível com o sacerdócio. As vítimas têm necessidade de
cura, de ajuda, de assistência, de reconciliação, cabendo à Igreja o
dever de assumir isso como um grande compromisso pastoral.
Sobre esse mesmo tema, em 2010, respondendo a jornalistas,
afirmou que “o perdão não substitui a justiça; esta tem de ser real e
prática”.
A terceira encíclica, ‘Caritas in Veritate’, ou ‘Amor à verdade’,
publicada em Julho de 2009, aborda questões econômicas,
esclarecendo que não cabe à Igreja oferecer soluções técnicas para
os problemas econômicos, mas que ela pode apontar prioridades e
valores. Menciona vários pontos pertinentes à doutrina social da
Igreja, tais como a fome, ecologia, problemas relacionados às
migrações, bioética e demografia. As “janelas do Vaticano” devem
tê-lo ajudado a perceber a crise econômica em que a Europa está
mergulhada e que compromete a fé.
Neste mês de fevereiro, Bento XVI sentiu diminuir sua
resistência para lutar fisicamente contra a crise e declarou sua
renúncia, dando um passo além do Papa João Paulo II. Nesse ato
de renunciar ao papado, retoma o perfil do gentil e simples teólogo-
professor; reconhece sua limitação humana e toma uma atitude
nada conservadora, quebrando uma tradição de quase seis séculos.
Ao dar a notícia de que renunciaria ao pontificado, exatamente no
Dia do Enfermo, assume os limites humanos necessários para bem
exercer o ministério que lhe fora confiado. Um gesto que,
certamente, não o deixará esquecido na história. Ele nos abriu as
portas para pensar novas possibilidades na Igreja.
Pode ser que Bento XVI tenha descido da cruz, mas não
deixou de ser crucificado por alguns. Condenado ou absolvido, ele
continua filho de Deus. E sua renúncia mostra a necessidade da
Igreja rever seus conceitos e sua posição no mundo, cada vez mais
resistente para quem está pensando como ela. Respostas novas
diante do relativismo, fundamentalismo, ateísmo e tantos outros
pensamentos precisam vir do novo papa a ser eleito. Já não são
condizentes as respostas carregadas de dogmatismo, ortodoxia ou
de chavões de tempos passados. A ferramenta da Igreja não pode
ser a sua própria verdade, mas a verdade do Cristo: a Boa Nova.
Novos tempos, novas respostas.
Para o término do seu pontificado, Bento XVI escolheu o dia
de São Romão, um dos primeiros monges franceses. Romão
achava que as regras do mosteiro eram muito brandas e foi viver
nas montanhas desertas entre a França e a Suíça, levando apenas
uma bíblia, que considerava indispensável para viver. Alguns anos
depois, foi localizado por seu irmão Lupicino, em completa oração e
solidão. Coincidência ou não, Bento XVI pretende isolar-se entre os
muros do Vaticano e ali empreender uma forte vida de oração pelo
mundo, num exemplo de pensador que reza e busca cada vez mais
os mistérios de Cristo, a exemplo de São Tomás de Aquino, que no
fim da sua vida, no meio de uma missa, teve uma forte revelação e
passou a considerar palha tudo o que havia escrito. Reze em paz,
Bento XVI. Reze por nós, reze pela verdade… e que a vida lhe seja
longa!
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE XVII
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB)
Associação civil católica criada em 16 de outubro de 1952 no
Rio de Janeiro, então Distrito Federal, por iniciativa de dom Hélder
Câmara, bispo auxiliar do cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom
Jaime de Barros Câmara, com o objetivo de “coordenar e subsidiar
as atividades de orientação religiosa, de beneficência, de filantropia
e assistência social” em todo o território nacional.
Representando uma tentativa de centralizar o poder da Igreja,
que se encontrava fracionado em dezenas de dioceses espalhadas
pelo país, a CNBB se caracterizou no decorrer dos anos menos por
uma atividade assistencialista do que por uma presença ativa no
campo social. A sede da CNBB foi transferida para Brasília em
outubro de 1977, sendo oficialmente inaugurada na nova capital
federal no mês de novembro seguinte.
 
Origens e implantação da CNBB
Nomeado cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro em 1930, dom
Sebastião Leme da SilveiraCintra empreendeu a tarefa de
centralizar o episcopado brasileiro e de organizar o movimento
católico leigo na tentativa de fortalecer a Igreja e sua relação com o
Estado.
No ano de 1942 dom Leme faleceu, sendo nomeado para a
arquidiocese do Rio de Janeiro no ano seguinte o cardeal dom
Jaime de Barros Câmara. Devido à incapacidade de dom Jaime de
exercer a mesma liderança de seu antecessor sobre o episcopado,
o poder eclesiástico tendeu a refluir para as dioceses.
A partir de 1949, entretanto, ao mesmo tempo em que as
dioceses entravam em rápida expansão, começou a se realizar, com
o apoio do núncio apostólico no Brasil, dom Carlo Chiari, uma série
de encontros de prelados e bispos visando à formação de um órgão
centralizador de todo o episcopado brasileiro. Dom Hélder Câmara,
assistente nacional da Ação Católica Brasileira (ACB) — associação
criada em 1935 para organizar o laicato católico — e um dos mais
importantes articuladores desses encontros, acreditava que os laços
entre o episcopado deviam ser fortalecidos, visando a uma melhor
administração da Igreja.
A ideia ganhou força durante o Congresso Mundial dos
Leigos, realizado em Roma em 1950, quando foram elaboradas
várias teses — na verdade, um esboço dos estatutos da futura
organização — posteriormente entregues ao papa Pio XII.
Monsenhor Giovani Montini, secretário de Estado do Vaticano e
futuro papa Paulo VI, exerceu uma grande influência junto ao papa
Pio XII para que a organização fosse aprovada, demonstrando
assim a preocupação do Vaticano em promover a criação de uma
instituição capaz de alargar o raio de influência da Igreja no Brasil.
Em outubro de 1952, finalmente, com a permissão da Santa
Sé, foi criada a CNBB, na época a terceira conferência episcopal do
mundo. Além de dom Jaime, participaram da fundação da entidade
bispos representantes de diversas tendências no interior da Igreja,
entre os quais dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, dom
Carlos Coelho, dom Eugênio Sales, dom Fernando Gomes, dom
Hélder Câmara, dom José Maria Pires, dom José Távora e dom Luís
Mousinho.
A reunião de instalação da CNBB realizou-se no palácio São
Joaquim, com a presença, entre outros, dos cardeais dom Jaime
Câmara e dom Carlos Mora, do núncio apostólico dom Chiari, além
de vários arcebispos como dom Vicente Scherer, de Porto Alegre.
Realizada a eleição para a comissão permanente encarregada de
dirigir a entidade, foram escolhidos dom Scherer, dom Mário de
Miranda Vilas Boas e dom Antônio Morais de Almeida Júnior, sendo
dom Hélder Câmara designado secretário-geral. Para a presidência,
a comissão escolheu o cardeal dom Carlos Carmelo Mota,
arcebispo de São Paulo. Foram ainda aprovadas as finalidades
gerais do secretariado geral e seu desdobramento em seis
secretariados nacionais — de educação, de ação social, de ensino
de religião, dos seminários e vocações sacerdotais, do apostolado
do leigo e da Liga Eleitoral Católica.
Satisfazendo a uma necessidade de organização geralmente
reconhecida pelos bispos, a CNBB em pouco tempo conquistou uma
posição fundamental na Igreja brasileira, assumindo o papel de
porta-voz da hierarquia eclesiástica. Por outro lado, a entidade
procurou manter um bom relacionamento com o governo de Getúlio
Vargas. Em visita ao presidente da República logo após a fundação
da CNBB, dom Carlos Carmelo Mota enalteceu as realizações que
considerava dignas do apoio da Igreja durante as duas fases da
administração de Vargas, predominantemente as de cunho social.
Vargas agradeceu e manifestou sua intenção de contribuir para o
bom entendimento entre a Igreja e o Estado.
De certo modo, a CNBB brotou da ACB, pois, na qualidade
de assistente dessa organização, dom Hélder dela se utilizou para
convocar os dois primeiros encontros da hierarquia eclesiástica.
Além disso, vários integrantes da CNBB haviam trabalhado na ACB
como assistentes, e ainda permaneciam em contato com a entidade.
Graças a essa ligação estreita com a CNBB, a ACB alterou também
sua relação com a Igreja: em lugar de depender das diretrizes de
cada bispo individualmente, passou a tratar com um órgão de
representação nacional, o que lhe propiciou maior autonomia de
ação e lhe abriu a possibilidade de se manifestar mais livremente
sobre as questões temporais.
 
Da fundação a 1964
Dois anos após a fundação da CNBB, a Santa Sé enviou ao
Brasil um novo núncio papal, dom Armando Lombardi, que até
morrer, em maio de 1964, desempenharia um papel fundamental na
orientação e na sustentação da unidade da CNBB e de seu
secretariado. Convicto da necessidade de uma renovação da Igreja
no país que se poderia efetivar através da CNBB, dom Lombardi
manteve encontros semanais com dom Hélder e assistiu a vários
encontros da CNBB onde apoiou as declarações sociais mais
avançadas. A partir de 1954, portanto, a CNBB se tornou o porta-
voz mais autorizado da Igreja Católica no Brasil. Segundo Della
Cava, a CNBB se teria tornado o verdadeiro sucessor do cardeal
Leme — e não o cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime
Câmara —, e dom Hélder Câmara emergiria assim como o “líder de
fato” da Igreja brasileira.
Em maio de 1956, sob os auspícios da CNBB e com a
presença de vários ministros do governo de Juscelino Kubitschek,
os bispos do Nordeste se reuniram em Campina Grande (PB) para
discutir os problemas socioeconômicos da região. Durante o período
de preparação da reunião, foram feitos contatos com técnicos —
particularmente economistas do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico como Celso Furtado e Rômulo de
Almeida — com o objetivo de formular um modelo de
desenvolvimento econômico que permitisse maior intervenção do
Estado. O encontro de Campina Grande se distinguiu dos anteriores
na medida em que preconizava a formulação de um plano geral
para o desenvolvimento do Nordeste, visando a um controle das
diversas instituições e organismos governamentais já existentes.
Solidários com as camadas mais pobres da população e criticando
as injustiças geradas pela estrutura socioeconômica do país, os
bispos procuravam aumentar o raio de influência da Igreja através
da elaboração de uma nova estratégia de ação. Já no mês seguinte,
o presidente Juscelino Kubitschek lançaria a Operação Nordeste,
assinando 20 decretos em boa parte baseados nas recomendações
episcopais.
A questão da justiça social tornava-se assim cada vez mais
relevante nas declarações dos bispos, principalmente sob o papado
de João XXIII, que teve início em 1958. No mês de novembro desse
ano, João XXIII dirigiu uma carta aos bispos da América Latina
enfatizando os problemas sociais da região, e manifestando-se
favorável a uma mudança daquela situação. Enquanto isso, em
maio de 1959, em novo encontro, os bispos do Nordeste
pressionaram o Congresso para que votasse a favor da criação da
Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
Criada finalmente pela Lei nº 3.692, de 15 de dezembro do mesmo
ano, a Sudene veio concretizar os anseios daqueles bispos que
reivindicavam a implantação de um órgão de planejamento regional.
Assim, através da CNBB, a Igreja caminhava relativamente próxima
do governo de Juscelino Kubitschek. A reunião dos bispos da
Amazônia, realizada em Belém nos primeiros dias de novembro de
1959, contou com a presença do próprio presidente, demonstrando
seu estreito contato com dom Hélder Câmara.
Também ao final da década de 1950 e início da década de
1960 estabeleceu-se uma aproximação entre alguns setores da
Igreja — basicamente o grupo progressista do episcopado,
juntamente com a ACB e seus setores jovens — e aqueles
segmentos sociais em luta pela transformação da sociedade. As
inovações do pensamento social da Igreja universal e a presença de
uma crítica crescente aos desequilíbrios estruturais contribuíram
para esse engajamento, que se fez dentro da Igreja através de dois
grupos: o grupo renovador, influenciado pela ideologia modernizante
do desenvolvimento, e o grupo progressista, autor de uma crítica
mais radical à sociedade, que constituiria a própria origem da
“teologia da libertação”.Num quadro mais amplo, o caminho
seguido pela CNBB estabeleceria portanto uma divisão no interior
da hierarquia eclesiástica na medida em que passava a marginalizar
seus setores mais conservadores. Em defesa destes, em 1960 era
fundada a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e
Propriedade (TFP), contrária ao catolicismo com engajamento social
e inimiga do socialismo e do comunismo. Em concordância com a
ACB, a facção mais engajada da CNBB era apoiada pelo núncio
dom Lombardi.
Apesar das condições favoráveis para sua atuação, a CNBB,
em 1961, foi bastante criticada por um grupo de bispos e leigos
conservadores contrários à política de reforma agrária defendida
pela organização. Em 21 de março do mesmo ano, o presidente
Jânio Quadros assinou o Decreto nº 50.370 criando o Movimento de
Educação de Base (MEB) como um departamento da CNBB visando
à organização de “escolas radiofônicas” nas áreas pouco
desenvolvidas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país.
 
Ainda em 1961, foi grande o impacto da encíclica Mater et
magistra do papa João XXIII, de forte conteúdo social. No mês de
outubro desse mesmo ano, após uma reunião extraordinária da
comissão central da CNBB, foi publicado um documento avançado
sobre as mudanças necessárias na sociedade rural e na estrutura
política do país, ficando a cargo do MEB, da ACB e dos sindicatos
rurais o trabalho de transformação social. Esse documento foi
considerado importante, pois diferia dos pronunciamentos anteriores
da CNBB, todos eles feitos unicamente em nível regional.
No mês seguinte, em carta à hierarquia eclesiástica da
América Latina, o papa enfatizou o papel da Igreja nas questões
sociais, pedindo que cada país estabelecesse um plano pastoral
com o objetivo de revigorar a vida sacramental, de demonstrar a
urgência de uma reforma das estruturas sociais e o necessário
auxílio da Igreja no cumprimento dessa tarefa. Em consequência
desse apelo, na V Assembleia Geral da CNBB, de 5 de abril de
1962, foi aprovado um Plano de Emergência para a Igreja no Brasil.
Adotado até o ano de 1965, quando foi substituído pelo Plano
Pastoral de Conjunto, o Plano de Emergência tratava da renovação
das paróquias, do clero e das escolas católicas, além de sugerir
reformas sociais. O plano reestruturava a CNBB, criando os
secretariados nacionais e regionais e decidindo a fundação do
Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS). No
interior dos novos órgãos deveria ser elaborada uma estratégia
alternativa para a Igreja, tendo em vista algumas das novas
orientações para a ação social em favor das camadas menos
favorecidas da sociedade. Segundo Márcio Moreira Alves, o plano
teve importantes consequências políticas que marcariam “uma nova
etapa do papel da Igreja na vida brasileira”.
Em outubro de 1962, no entanto, a comissão central da
CNBB reuniu-se para discutir o rumo que tomava a Juventude
Universitária Católica (JUC), um dos setores jovens da ACB, cada
vez mais envolvido na luta pela transformação radical da sociedade.
As diretrizes então adotadas visavam pôr limites à ação dos
militantes, o que levou a crescentes tensões entre os jucistas mais
engajados e a hierarquia eclesiástica. Além disso, nesse mesmo
ano, dom Hélder foi substituído no cargo de assistente nacional da
ACB por dom Cândido Padim, o que significou à primeira vista uma
tentativa de alijamento de uma linha renovadora dentro da Igreja.
Entretanto, o próprio dom Padim, influenciado pelo trabalho da JUC,
que acompanhou de perto, foi-se alinhando na mesma opção
renovadora.
A encíclica Pacem in terris publicada em abril de 1963
reforçou os postulados da Mater et magistra, acentuando ainda mais
a preocupação com o engajamento social. Aproveitando a ocasião,
a comissão central da CNBB publicou uma declaração sobre a
situação do país, considerada a declaração mais avançada e mais
decisiva até então proclamada pela Igreja no Brasil, obtendo ainda o
apoio da Santa Sé. O documento procurava refletir sobre a
realidade brasileira, afirmando que “se de um lado, rápidos
progressos se operam em escalas cada vez mais amplas, de outro
lado, grandes entraves a condicionam nas características, ainda
mercantes, de um país subdesenvolvido, em que as massas
populares não participam do processo brasileiro, onde subsistem a
miséria e a mortalidade prematura em números clamorosos, no qual
o impacto das realidades rural e urbana gera consequências
gravíssimas de despersonalização”. Ao mesmo tempo em que
criticava os grupos “fascinados pelo progresso material da ordem
capitalista”, o documento opunha-se às “soluções marxistas” que
viriam atentar contra os direitos do homem. Manifestava-se então
favorável a uma transformação urgente da estrutura social,
clamando por reformas da estrutura rural, empresarial, tributária,
administrativa, eleitoral e educacional.
Apesar de o documento incentivar a organização do laicato, a
comissão central da CNBB, em face da chamada radicalização do
meio estudantil, distribuiu à imprensa, em dezembro, uma carta
pastoral dirigida a dom Cândido Padim, assistente geral da ACB e
assistente eclesiástico da JUC. Redigido durante a segunda fase do
Concílio Ecumênico, encerrado em inícios do mesmo mês, o
documento afirmava, entre outras coisas, que a Ação Popular (AP)
— organização política criada em 1962 em boa parte por membros
da JUC e da Juventude Estudantil Católica (JEC), que atuavam
independentemente da hierarquia em luta pela transformação
radical da sociedade brasileira — não representava o “autêntico
pensamento cristão”, além de pôr condicionamentos à participação
de membros da JUC e da JEC na AP. Era somente aceita a
participação de jucistas na AP, desde que comprometidos em
enquadrá-la numa linha genuinamente cristã. O documento
condenava ainda a disposição das organizações católicas em fazer
aliança com movimentos de ideologia marxista.
Nos três primeiros meses do ano de 1964, o país viveu um
momento de intensa polarização política. No dia 19 de março, na
cidade de São Paulo, alguns setores do clero e entidades femininas
organizaram uma marcha conhecida como Marcha da Família com
Deus pela Liberdade, na tentativa de sensibilizar a opinião pública
contra as medidas que vinham sendo adotadas pelo governo
Goulart. Os setores que se opunham ao governo de João Goulart
denunciavam constantemente todos aqueles que, em algum
momento, privavam da companhia do presidente. Nesse sentido,
serviu-lhes a foto de dom Hélder e dom Carmelo Mota em almoço
com Goulart em meados do mês de março, para que divulgassem
amplamente os contatos entre os líderes da CNBB e o presidente.
As relações entre dom Hélder e a hierarquia eclesiástica
mostravam-se cada vez mais tensas, sendo dom Hélder atacado por
“fazer o trabalho dos comunistas”. O MEB e os setores jovens da
ACB também vinham sendo severamente atacados por Carlos
Lacerda, governador da Guanabara.
A vitória do movimento político-militar que derrubou o
presidente Goulart em 31 de março de 1964 provocou uma
alteração significativa na orientação até então vigente na CNBB. Os
partidários de dom Hélder foram severamente atacados pela
imprensa e, já no mês de abril, dom Hélder deixava a CNBB e
assumia o arcebispado de Olinda e Recife — para onde fora
nomeado alguns meses antes —, enquanto dom Carmelo Mota era
transferido da arquidiocese de São Paulo para a de Aparecida.
 
Durante a posse de dom Hélder em Recife, foi divulgada uma
declaração de descontentamento com o movimento de março
assinada por um grupo de bispos ali reunidos, identificados com
uma posição de crítica ao novo regime. Já a declaração conjunta de
maio, assinada por 26 dos bispos e arcebispos mais importantes do
país, constituiu a primeira declaração pública de apoio ao
movimento político-militar de março. Seus signatários saudavam a
vitória dos militares sob a alegação de que a nação estava agora
salva daquele “abismo iminente”. Mesmo reconhecendo que
tivessem ocorrido “facilidades e abusos” em alguns movimentos de
orientação católica, os bispos confirmavam osinúmeros esforços no
sentido de advertir e corrigir os culpados em geral. Por essa razão,
não concordavam “com a atitude de certos elementos, que têm
promovido mesquinhas hostilidades à Igreja, na pessoa de bispos,
sacerdotes, militantes, leigos e fiéis”, além de recusar as alegações
de que o MEB e a ACB fossem comunistas. Esperavam assim que
os “responsáveis pelos destinos temporais do Brasil” aceitassem e
cumprissem o Evangelho e a doutrina social cristã considerada “a
base fora da qual não há nem poderá haver ordem social,
segurança, estabilidade e verdadeiro progresso”.
A declaração de maio, endossada por uma grande parcela da
hierarquia eclesiástica, afinava-se com a orientação geral dada à
sociedade. A CNBB passou assim a enfocar prioritariamente
questões de caráter organizacional. Apesar disso, no mês de junho,
23 bispos e dois cardeais da CNBB favoráveis ao movimento de 31
de março manifestaram-se em favor do direito de defesa dos
acusados e contra o uso da força que contra eles podia ser
empregada.
Com a realização da VI Assembleia Geral da CNBB, em
meados de 1964, a estrutura da entidade foi radicalmente mudada.
O núcleo institucional da comissão central foi aumentado de sete
para 37 membros, na tentativa de ampliar o órgão central para uma
melhor representação da hierarquia como um todo. O espírito desse
plano diferia no entanto do projeto de descentralização proposto em
1962 por um grupo liderado por dom Hélder, cujo objetivo era
alargar as bases da instituição. Também nessa assembleia a CNBB
passava a vincular-se mais diretamente à hierarquia eclesiástica, já
que se encontrava até então separada das estruturas diocesanas
tradicionais da Igreja e com certa autonomia de ação e iniciativa.
Ainda em meados de 1964, foram realizadas em Roma
eleições para todos os cargos na CNBB. Enquanto o grupo da
situação esperava reeleger dom Hélder para a Secretaria Geral, o
bispo conservador de Pouso Alegre (MG), dom José D’Ângelo Neto,
organizou a oposição, congregando os bispos conservadores e os
moderados preocupados com o radicalismo. Dom Hélder foi
derrotado, juntamente com dom Fernando Gomes, candidato à
presidência. Foram eleitos finalmente, para secretário-geral, o bispo
dom José Gonçalves, auxiliar do cardeal dom Jaime Câmara, e,
para presidente, o arcebispo de Ribeirão Preto, dom Agnelo Rossi,
adepto da linha conservadora mas sem nenhuma orientação
particular. Para primeiro e segundo-vice-presidentes os candidatos
de dom Fernando Gomes foram igualmente derrotados, sendo
eleitos dom Avelar Brandão e dom Penedo.
Alijados da cúpula do órgão, os bispos renovadores
preencheram cargos menos importantes dos secretariados
nacionais. Enquanto dom Hélder e dom Padim foram eleitos
respectivamente para a direção da Ação Social e do Departamento
de Educação, dom Fernando Gomes passaria a dirigir a Pastoral
Especializada. Apesar disso, como dom José Gonçalves
encarregava-se sobretudo dos problemas administrativos, esses
bispos desenvolveram um trabalho, assessorados por sacerdotes e
leigos, que veio a ser consolidado em 1965 no Plano Pastoral de
Conjunto.
 
No regime militar
Em meados de 1965, realizou-se a VII Assembleia Geral da
CNBB, quando foi convocada uma reunião para tratar
especificamente da ACB. Ao final das discussões, os grupos
conservadores fizeram prevalecer suas posições e, preocupados
com o “radicalismo” da ACB, subordinaram a organização aos
bispos diocesanos, mantidos sob o controle da hierarquia.
Além disso, enquanto o projeto de expansão da jurisdição
das conferências episcopais nacionais era consagrado pelo Concílio
Vaticano II — cujos trabalhos, iniciados em 1962, chegaram ao fim
em 1965 —, a CNBB passava a enfatizar a direção do órgão por
regiões, em detrimento de uma organização central e de uma
autonomia de ação. Na Igreja brasileira, na verdade, procurava-se
desarticular o trabalho desenvolvido até março de 1964 pelas
associações católicas, entre as quais a CNBB.
Paradoxalmente, foi aprovado no mesmo ano em substituição
ao Plano de Emergência o Plano Pastoral de Conjunto, com o
objetivo de coordenar a Igreja em todo o país visando à criação dos
meios e das condições “para que a Igreja no Brasil se ajuste, o mais
rápido e plenamente possível, à imagem da Igreja do Vaticano II”. O
Plano Pastoral prescrevia entre outras coisas a divisão do país em
13 regiões e estipulava um extenso programa de pesquisa através
do CERIS, com o objetivo de tomar conhecimento dos problemas
sociais e religiosos. Segundo Thomas Bruneau, “o PPC é
basicamente uma resposta à solicitação do papa João XXIII, uma
continuação lógica do Plano de Emergência e uma declaração de
intenção otimista: não é de forma alguma um planejamento”.
Nos meses de junho e julho de 1966, a comissão central da
CNBB procurou defender-se das várias acusações proferidas contra
as associações católicas, afirmando que o grupo católico reunido na
TFP não representava o pensamento da comissão. Nesse mesmo
ano, houve alguns desentendimentos entre o governo e setores da
Igreja identificados com uma posição crítica ao novo regime. O
general Itiberê Gouveia do Amaral, comandante da 10ª Região
Militar, sediada em Fortaleza, divulgou nota culpando dom Hélder
pela “desagregação do rebanho católico em consequência de suas
atitudes” e proibindo a divulgação de um documento assinado por
15 bispos do Nordeste. Esse incidente provocou a indignação de
vários setores da Igreja, além de um encontro entre dom Hélder e o
presidente Castelo Branco.
No início do ano de 1967, realizou-se um encontro regional
de secretariados da CNBB. Os participantes revelaram-se
preocupados com o atual estágio “imutável” da Igreja, além de
exigirem profundas modificações nas estruturas paroquiais e
diocesanas. No mês de maio, na cidade de Aparecida, realizou-se a
VIII Assembleia Geral da CNBB, com a presença de mais de
duzentos bispos. Já sob as determinações da encíclica Populorum
progressio, a reunião restringiu-se a questões de doutrina e
administração interna da Igreja. Dom Hélder chegou a apresentar
uma declaração sobre a “Populorum progressio e o Brasil”, que no
entanto foi pouco discutida, não obtendo repercussão pública. Era
evidente que a Igreja recuara naquele momento em relação às
questões sociais, recusando ainda qualquer atividade inovadora.
Através de uma carta enviada aos bispos em outubro, o clero
brasileiro mostrou-se no entanto apreensivo frente à realidade
nacional, denunciando desde os índices de mortalidade infantil e as
precárias condições de vida dos trabalhadores até o paternalismo e
assistencialismo da Igreja expressos pelas inúmeras obras sociais e
de caridade.
No início do mês de novembro, foram presas quatro pessoas
ligadas à JOC que, num automóvel da diocese de Volta Redonda,
distribuíam panfletos com denúncias ao governo. Dom Valdir
Calheiros — bispo da citada diocese que, na ocasião, hospedava
duas das pessoas presas — declarou que não abandonaria aqueles
rapazes. Em entrevista à imprensa após ter sua residência invadida
por soldados armados, dom Valdir Calheiros criticou as condições
de vida dos trabalhadores. A comissão central da CNBB manifestou-
se posteriormente sobre o caso, solidarizando-se com os bispos,
padres e leigos vitimados pela injustiça cometida, e insistindo
também na necessidade de uma “ordem socialista”. Disposta a
dialogar com o governo para minimizar as dificuldades e resolver os
problemas futuros, a comissão procurava demonstrar a autonomia
da CNBB em face do Estado, questão essa que veio a ser
enfatizada nos anos seguintes.
Os primeiros meses de 1968 foram marcados por uma
intensa repressão policial às greves operárias e às manifestações
estudantis de repúdio ao regime vigente, que contaram com a
presença de padres e freiras. Em julho do mesmo ano, realizou-se a
IX Assembleia Geral da CNBB, onde foi apresentado um manifesto
de 350 padres dos estados da Guanabara, São Paulo, Paraná e do
Rio de Janeiro, apontando para uma série de problemas, entre os
quais o afastamento dos leigos mais conscientesda esfera da
Igreja, as más condições de vida no interior dos seminários e o
comportamento dos leigos que clamavam “por uma Igreja que
assumisse seu papel no processo de liberação”. Além disso,
propunham a formação de comunidades de base, sob a inspiração
de uma nova concepção pastoral, posteriormente oficializada na
Conferência de Medellín.
Durante a assembleia, foi ainda apresentado um texto de
dom Cândido Padim denominado “A doutrina da segurança nacional
à luz da doutrina social da Igreja”. O trabalho consistia num estudo
sobre a ideologia do regime instaurado a partir da Constituição de
1967, comparando os principais aspectos da nova doutrina de
segurança nacional com a doutrina católica expressa nas últimas
três encíclicas. Esse documento provocou a primeira ruptura pública
entre o conjunto do episcopado e os bispos ultraconservadores,
além de demonstrar o afastamento crescente entre alguns setores
católicos e os militares.
Também durante o encontro, dom Rossi foi reeleito para a
presidência da CNBB e, para a secretaria geral, foi escolhido dom
Aluísio Lorscheider, bispo de Santo Ângelo (RS). Este último, com o
tempo, se tornaria responsável tanto pela reabertura da CNBB para
os problemas sociais como pelo crescente distanciamento da Igreja
do poder político.
Dois dias após o encerramento da assembleia, 12 arcebispos
e bispos publicaram uma carta dirigida ao presidente Artur da Costa
e Silva, na qual mostravam sua incompatibilidade com as críticas
feitas ao regime por alguns bispos, padres e leigos. O conselho
nacional da TFP, por sua vez, promoveu uma campanha nacional de
denúncia da “comunicação do clero no Brasil”.
Entre 26 de agosto e 6 de setembro de 1968 realizou-se a II
Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Medellín
(Colômbia). Em defesa dos “direitos dos pobres e dos oprimidos”, o
encontro orientou-se no sentido de encorajar o povo a criar e
desenvolver suas próprias organizações de base, denunciando a
“violência institucionalizada” e enfatizando a ideia de “libertação”.
Além disso, a conferência estabeleceu, entre suas reivindicações, a
de maior autonomia da Igreja perante o poder central.
A questão da autonomia veio a ser enfatizada pela comissão
central da CNBB, reunida no Rio de Janeiro no mês de outubro do
mesmo ano, que também recomendou aos membros da hierarquia
que permanecessem mobilizados em favor da mudança social. A
comissão decidiu ainda criar um órgão encarregado de manter
contatos estreitos com o governo, com o objetivo de “reduzir, toda
vez que se tornar necessário, as tensões políticas”.
No início do mês de dezembro, a propósito da prisão dias
antes em Belo Horizonte de três padres franceses e um diácono
brasileiro, a CNBB publicou uma nota oficial assinada por dom Rossi
e dom Lorscheider, na qual afirmava que nenhuma autoridade não-
eclesiástica era competente para julgar sua forma de pregar o
Evangelho.
A promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) a 13 de
dezembro de 1968 provocou o fortalecimento do Executivo e o
agravamento da situação política nacional. A Igreja se deparava
agora com uma conjuntura ainda mais problemática para intervir.
Dada a dificuldade em organizar uma reunião da comissão
central para a discussão dessas questões, dom Rossi empenhou-se
pessoalmente na sua realização, o que ocorreu finalmente em
fevereiro de 1969. Após algumas dúvidas sobre a oportunidade de
ser lançada uma declaração sobre a situação política, foi aprovado
ao final do encontro um texto a ser enviado ao presidente Costa e
Silva. Acreditando até mesmo na possibilidade de que os poderes
de emergência ajudassem na realização de reformas básicas, a
nota alertava o governo sobre o perigo de violação dos direitos
humanos, referindo-se à supressão do habeas-corpus, à instalação
da censura e da tortura, esta última analisada de forma diferente
entre os setores conservadores e progressistas. Levada
pessoalmente a Costa e Silva pelo cardeal dom Jaime Câmara, a
nota acabou sendo divulgada pela imprensa, revelando-se assim
publicamente as preocupações e esperanças da Igreja em face da
situação política brasileira da época.
Os conflitos entre os setores conservadores e progressistas
da Igreja se agravaram, na medida em que ambos procuravam
exercer uma maior influência junto à hierarquia. E como o papel da
Igreja naquele momento era decisivo, o governo procurava também
dela aproximar-se.
Durante a X Assembleia Geral de julho de 1969, o secretário-
geral do episcopado discursou sobre a função sociocrítica da Igreja,
além de protestar caso o Estado infringisse os princípios dos direitos
humanos. Foram ainda tratadas outras questões como a reforma
agrária e os atentados terroristas ocorridos, além das relações entre
a Igreja e o Estado. Ao final do encontro, foi rejeitado por 135 votos
contra 60 um documento básico sobre “a relação entre a Igreja e o
Estado no Brasil”, que representou a vitória da ala conservadora
aliada à ala moderada do episcopado. Não foi emitido um
documento oficial sobre a assembleia, sendo somente distribuído à
imprensa um comunicado sobre os problemas debatidos no tocante
à dinâmica interna da organização.
Em declaração dada no mês de setembro daquele ano, a
comissão central da CNBB endossou a aceitação do regime
temporário de emergência — atacavam as posições radicais dos
movimentos terroristas de esquerda e de direita — desde que o
Legislativo e o Judiciário voltassem a funcionar normalmente e que
os direitos humanos fossem respeitados. Esses aspectos adquiriram
no entanto pesos diferenciados segundo cada uma das orientações.
O fato de que alguns membros progressistas da Igreja
estivessem comprometidos com algumas organizações de esquerda
veio a criar problemas para a relação entre a Igreja e o Estado,
sobretudo em novembro, quando 11 frades dominicanos, dois
padres seculares e um jesuíta foram presos sob a acusação de
pertencerem à organização de esquerda pró-luta armada
denominada Aliança Libertadora Nacional. Enquanto as autoridades
eclesiásticas pediam que os acusados fossem levados aos tribunais
com direito de defesa assegurado, a TFP pedia ao governo e ao
Vaticano um expurgo nos meios católicos.
A partir de 1970, o setor da Igreja identificado com uma
posição de crítica ao regime passaria a exercer maior influência nas
assembleias da CNBB. A CNBB foi ainda reestruturada,
estabelecendo-se a junção do Plano Pastoral de Conjunto com a
própria organização através de um corpo central de nove bispos,
três dos quais cuidariam da administração e seis do plano.
 
Durante a assembleia geral ocorrida em maio de 1970 em
Brasília, foi apresentado um relatório — encomendado por dom
Aluísio ao professor Cândido Mendes de Almeida, membro da
Comissão Episcopal para a Justiça e a Paz — sobre as torturas
cometidas contra presos políticos, sendo relatadas somente as
denúncias assinadas pelas próprias vítimas ou por pessoas que as
testemunharam. Presente à reunião, o ministro da Justiça Alfredo
Buzaid procurou, em sua intervenção, afastar a hipótese de um
conflito entre a Igreja e o Estado, afirmando que as torturas
ocorreram ocasionalmente e que os padres não foram detidos por
motivos religiosos.
A reunião da comissão central da CNBB realizada em
outubro do mesmo ano reiterou a independência dos bispos em
relação ao governo, não permitindo que houvesse transferência das
responsabilidades que lhes pertenciam “por vontade divina”. Frente
à repressão que se abateu sobre a Juventude Operária Católica, a
CNBB procurou diminuir as pressões, não podendo no entanto
evitá-las.
No final do ano, dom Agnelo Rossi foi transferido para Roma,
realizando-se eleições na CNBB para presidente, secretário-geral e
outros titulares. Para a presidência, venceu dom Aluísio Lorscheider,
com 105 votos, derrotando o conservador dom Vicente Scherer, que
obteve 65 votos. A secretaria geral coube ao primo de dom Aluísio,
o bispo-auxiliar da arquidiocese de Porto Alegre, dom José Ivo
Lorscheiter. A eleição dessa diretoria refletia assim o
descontentamento dos bisposcom o regime vigente, além de
revelar a tentativa destes de defender a autonomia da organização
em relação ao Estado.
No ano de 1971, a CNBB prosseguiu em sua luta contra as
arbitrariedades do regime vigente, manifestando-se contra a pena
de morte e contra as atividades do Esquadrão da Morte — grupo
para policial responsável por várias execuções sumárias ocorridas
principalmente na Baixada Fluminense. No mês de março do ano
seguinte, a presidência da CNBB, juntamente com os bispos da
região Centro-Oeste, repudiou a invasão de uma propriedade do
bispado de São Félix do Araguaia (MT) ocorrida em represália ao
bispo dom Pedro Casaldáliga. O religioso havia denunciado as
grandes empresas de criação de gado que, com ajuda policial,
tentaram expulsar os habitantes de um vilarejo localizado em terras
que o governo concedera para a implantação de um projeto de
desenvolvimento pecuário. E no mês de junho, em assembleia dos
bispos da Região Sul II realizada na cidade de Brodósqui (SP), foi
lançada a mais categórica declaração da Igreja sobre o problema da
tortura no Brasil.
No ano de 1973, os bispos do Nordeste e da região Centro-
Oeste apresentaram os documentos Eu ouvi os clamores do meu
povo e Marginalização de um povo respectivamente, denunciando a
realidade local marcada pela “opressão, miséria e injustiça”, além de
registrar o problema do alto nível de desemprego e subemprego, as
más condições de vida da população e as condições históricas que
determinaram essa situação. Demonstrando que a Igreja não podia
ficar indiferente à situação socioeconômica, política e cultural do
povo brasileiro, denunciavam a concentração de renda no país e o
consequente rebaixamento do poder aquisitivo das massas
assalariadas durante o período do chamado “milagre brasileiro”.
No mês de outubro de 1976, após uma reunião dos bispos da
comissão representativa da CNBB, foi lançado o “Comunicado
pastoral ao povo de Deus”, que, por seu estilo direto, inovou diante
das declarações mais solenes de textos anteriores. Essa declaração
denunciava o assassinato dos padres Rodolfo Lunkenbein —
ocorrido em meio a um conflito entre fazendeiros e índios no mês de
julho em Mato Grosso — e João Bosco Penido Burnier — morto
numa delegacia do povoado de Ribeirão Bonito, no município de
Barra do Garças (MT), ao reclamar contra a prisão e a tortura
sofrida por duas mulheres — e ainda o sequestro do bispo de Nova
Iguaçu, dom Adriano Hipólito. O documento relatava ainda a
coerção permanente que vinha atingindo a Igreja, como a censura
às declarações de dom Hélder e a explosão de um carro
estacionado em frente à sede da CNBB no Rio de Janeiro, além de
atentados a outras instituições, como a Ordem dos Advogados do
Brasil, a Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro, e o
Centro Brasileiro de Análises e Pesquisas, em São Paulo. Mais uma
vez, a nota repudiava as prisões políticas arbitrárias, que
seguidamente incluíam torturas, desaparecimentos e mortes.
A proposta dos bispos brasileiros à III Conferência Geral do
Episcopado Latino-Americano que se realizaria em outubro de 1978
na cidade de Puebla (México) sofreu algumas emendas quando
votada na assembleia geral extraordinária da CNBB, em Itaici. O
grupo de bispos progressistas mostrou-se no entanto entusiasmado,
na medida em que as modificações feitas não alteravam o conteúdo
básico do documento, que reafirmava Medellín. Os delegados
eleitos para representar o Brasil em Puebla resultavam no entanto
de uma aliança entre conservadores e moderados, pouco
representativa dos setores mais progressistas em ascensão.
Na mesma assembleia, foi aprovado um texto de apelo às
autoridades para que, “num esforço sincero de volta ao estado de
direito e reconciliação nacional”, fosse concedida anistia àqueles
envolvidos “em situações de desordem política e social de tal
amplitude que não possam ser considerados como responsáveis
únicos por elas”. A Igreja prosseguia assim sua luta contra o arbítrio
e a violação dos direitos humanos, exigindo uma ordem jurídica
estável. Considerando a aprovação do divórcio no país, foram
reforçadas as orientações pastorais sobre o matrimônio em
oposição ao divórcio.
Realizadas novas eleições para a diretoria da CNBB em
janeiro de 1979, dom Ivo Lorscheiter foi escolhido para a
presidência, e dom Luciano Mendes de Almeida para o cargo de
secretário-geral. No mês de setembro de 1979, a CNBB novamente
requisitou ao governo uma urgente revisão da política econômica
brasileira que prosseguia sem atender às necessidades básicas do
povo. Essas questões foram também tratadas no documento
Subsídios para uma política social entregue naquela época ao
governo, destacando a necessidade de uma “revisão da política da
terra e da estrutura fundiária” em prol daqueles que nela
trabalhavam. No mês seguinte, dom Luciano Mendes de Almeida
frisou que, apesar de não caber à Igreja a política partidária, todo
cristão deveria atuar “em busca do bem comum” através da prática
política.
 
A instabilidade das relações entre a Igreja e o Estado
acentuou-se no ano de 1980, quando seguidamente a CNBB se
defendeu das acusações de que fazia política partidária. No mês de
fevereiro, realizou-se a XVIII Assembleia Geral da CNBB em Itaici,
sendo mais uma vez condenado o modelo de desenvolvimento
econômico brasileiro. Foram condenados ainda a campanha pela
legalização do aborto, o controle da natalidade e a “escalada da
permissividade” que se baseava na “mentalidade consumista que,
erigindo o bem-estar em valor supremo, gerava a idolatria do
dinheiro e do poder, causa da injustiça e infelicidade social”. O
documento Igreja e problemas da terra, aprovado por ampla maioria
por tratar da questão fundiária, foi no entanto o que mais despertou
discussões entre as alas conservadora e progressista.
Ainda na reunião, os cinco bispos da CNBB membros da
regional do Araguaia-Tocantins entregaram aos presentes um
documento — que não iria a plenário — sobre a atuação do Grupo
Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins (GETAT). Segundo a
nota, o GETAT, órgão recentemente criado pelo governo, não estaria
resolvendo os problemas da terra dos posseiros e indígenas, e sim
a segurança do governo e das empresas que deste recebiam
incentivos fiscais. Além disso, considerando a catequese como ação
prioritária da Igreja brasileira, a reunião da CNBB qualificou as
comunidades eclesiais de base (CEBs) de “lugares privilegiados
para a educação da fé, sobretudo entre os pobres e
marginalizados”. Essa questão foi reforçada posteriormente pela
Igreja brasileira durante o VI Sínodo dos Bispos, realizado em
Roma, como sendo uma nova forma de socialização da sociedade.
A propósito do documento final de Itaici, Jarbas Passarinho, líder do
governo no Senado, condenou a “linguagem eminentemente
marxista” que norteou o texto, além de demonstrar sua preocupação
com o fato de a ala progressista da Igreja estar utilizando a CNBB
para pregar o socialismo.
Por ocasião da greve dos metalúrgicos das cidades do ABC
paulista — Santo André, São Bernardo e São Caetano —,
deflagrada no dia 1º de abril de 1980, foram intensas as acusações
por parte do governo de que a Igreja e particularmente o cardeal-
arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, estariam
envolvidos com o movimento. Defendendo a mesma posição de
outros eclesiásticos, o cardeal-arcebispo dom Aluísio Lorscheider
declarou que dom Paulo Evaristo “não participou de greve, ele não
infringiu nenhuma lei do país, ele apenas pediu que se ouvisse os
operários e que se encontrasse uma fórmula para superar a crise”.
Ademais, dom Aluísio considerava oportuna a atuação da Igreja em
prol da justiça social.
Afirmando, em nota à imprensa, que “a cada bispo em sua
diocese cabia cumprir a tríplice e grave tarefa de ensinar e
interpretar a verdade, presidir e promover a liturgia, discernir e
coordenar as formas de presença e ação de sua Igreja particular”
em nome do próprio Cristo, a CNBB esclarecia que cabia às igrejas
locais de Santo André e São Paulo, em coerência com os princípiosde Puebla, “apoiar as justas aspirações dos trabalhadores e criar
condições de concórdia social contribuindo para a atitude de
dignidade e comedimento”. Dom Ivo chegou a ir a Brasília e
encontrou-se com o chefe do Gabinete Civil da Presidência da
República, general Golberi do Couto e Silva, procurando levar a
preocupação da CNBB com os acontecimentos — a essa altura, já
havia 13 líderes sindicais presos — e com as críticas a ela
endereçadas.
Em encontro com o ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel,
dom Ivo e dom Luciano criticaram a política social do governo e até
mesmo sua ação policial. O ministro no entanto reagiu contra a
tentativa da Igreja de exercer uma ação semelhante à de um partido
de oposição.
A reação contra os elementos mais progressistas do clero se
manifestou através de pichações na sede da Ação Católica Operária
em Pernambuco — onde funcionava o comitê de ajuda para o fundo
de greve dos metalúrgicos paulistas — e na porta da casa de dom
Hélder, no mesmo estado.
Através de uma recomendação ao clero gaúcho para que não
apoiasse a greve, dom Vicente Scherer condenou o movimento, no
que foi cumprimentado por Teobaldo de Nigris, presidente da
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.
No mês de maio, dom Ivo afirmou que a CNBB não era um
“tribunal de bispos”, sendo no entanto possível um posicionamento
diferente entre eles no que se referia à estratégia de ação pastoral,
mas nunca em relação aos pontos fundamentais.
No mesmo mês, o Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (INCRA) desafiou a CNBB através da divulgação
das propriedades rurais da Igreja. Diante da acusação de que esta
possuía milhares de hectares de terra ociosa em todo o país, dom
Ivo pediu que o Ministério da Agricultura relacionasse as
propriedades rurais da Igreja viáveis para a reforma agrária,
reivindicando que, ao mesmo tempo, se procedesse à relação das
propriedades improdutivas dos membros do governo e dos grandes
empresários nacionais e estrangeiros, quantitativamente muito mais
expressivas. Dom Ivo afirmou ainda que as terras da Igreja eram
usadas para a sua sobrevivência, sendo essenciais para manter as
paróquias, os colégios, os orfanatos e os seminários.
Durante o mês de junho, foram intensos os depoimentos dos
bispos acerca da importância da missão que o papa João Paulo II
desempenharia no Brasil por ocasião de sua visita nos primeiros
dias de julho. A imprensa noticiou fartamente as declarações dos
vários setores da Igreja, conscientes da importância do
acontecimento.
A visita do papa foi ocasião de uma enorme mobilização
popular em todo o país. Seus discursos e atitudes foram
condicionados pelas diferentes pastorais das Igrejas locais, mas foi
muito notado seu apoio a dom Paulo Evaristo Arns e a dom Hélder
Câmara. Em discurso que proferiu à CNBB em Fortaleza em 10 de
julho de 1980, João Paulo II declarou que não poderia “esquecer o
caráter quase pioneiro desta Conferência”. E pouco antes indicava
que “o episcopado de que fazeis parte assume um prestígio mas
também uma responsabilidade que vão bem além das fronteiras de
vossa diocese e da própria nação... responsabilidade perante a
Igreja inteira”. E referiu-se “à imagem que vós, bispos brasileiros,
projetais a toda a Igreja e no mundo inteiro: imagem de pobreza e
simplicidade, de devotamente pleno, de proximidade ao vosso povo
e plena inserção em sua vida e seus problemas”.
No mês de agosto, dom Ivo protestou veementemente contra
os atentados terroristas em curso no país, que incluíam desde a
explosão de bancas de jornal que vendiam jornais da chamada
imprensa alternativa, até o sequestro do advogado Dalmo Dallari,
membro da Comissão de Justiça e Paz, no momento em que o papa
se encontrava no país. Ainda no mesmo mês, foi bastante criticado
por vários setores da sociedade e inclusive pela Igreja o recém-
aprovado Estatuto dos Estrangeiros. Entre outras disposições, o
estatuto delegava poderes ao governo para decidir sobre a entrada
ou expulsão do país de missionários estrangeiros.
A reação da Igreja contra o Estatuto dos Estrangeiros
acentuou-se com o episódio de expulsão do padre italiano Vito
Miracapillo, provocada por sua recusa em celebrar uma missa
comemorativa do dia da independência do Brasil numa localidade
da Zona da Mata pernambucana. O padre Miracapillo justificou sua
atitude afirmando que não acreditava que o povo brasileiro fosse
realmente independente. A expulsão teria assim um significado
muito mais amplo, sentido por vários setores progressistas e
moderados da Igreja como o de julgamento de sua ação pastoral.
Tal fato provocou o aprofundamento da crise nas relações entre
Igreja e Estado, dando lugar a uma série de conversações, nos
últimos meses do ano, entre as autoridades governamentais e a
cúpula da CNBB.
Em abril de 1983, dom Ivo Lorscheiter e dom Luciano
Mendes de Almeida foram reeleitos, respectivamente, presidente e
secretário-geral da CNBB para mais um mandato de quatro anos,
garantindo assim a manutenção da linha pastoral seguida pela
Igreja no Brasil nos últimos 12 anos.
 
Os limites da Igreja progressista
No decorrer da década de 1980, a relativa autonomia do clero
latino-americano para apresentar sua proposta de ação pastoral
identificada com os pobres e excluídos e inspirada na teologia da
libertação viu-se cada vez mais restringida por uma orientação
centralizadora emanada do Vaticano. A experiência libertadora da
Igreja Católica, envolvida com os problemas sociais e políticos do
continente, encontrou assim um limite dentro da própria instituição.
Da mesma forma que condenou a presença de religiosos no
governo sandinista da Nicarágua, instalado naquele país após uma
revolução armada liderada por guerrilheiros esquerdistas que
derrubou o governo da família Somoza em julho de 1979, o Vaticano
investiu contra o teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, um dos
iniciadores da teologia da libertação, condenando sua obra por
considerá-la resultado de um inadmissível recurso a pressupostos
da teoria social de inclinação marxista. Enquanto isso, a linhagem
progressista do clero brasileiro, que alcançara o predomínio na
CNBB no momento em que a instituição decidiu enfrentar o regime
militar e denunciar a violação dos direitos humanos praticada no
país, começou a dividir espaços com representantes de outros
segmentos da Igreja Católica, mais identificados com o
neoconservadorismo que se projetava no pontificado de João Paulo
II.
Mesmo assim, houve um grande esforço por parte da CNBB
para manter sua linha de ação pastoral, apesar das pressões da
hierarquia romana, que investia decididamente contra as teses
apregoadas pela Igreja latino-americana nos encontros de Medellín
(1968) e de Puebla (1979). Exemplo disso foi a resistência da CNBB
ao processo movido pelo Vaticano, a partir da condenação feita pela
Comissão Episcopal de Doutrina da Arquidiocese do Rio de Janeiro,
contra o livro do teólogo franciscano Leonardo Boff, Igreja: carisma
e poder — ensaios de eclesiologia militante. Esse processo, como
observam os analistas da história recente da Igreja Católica, não
pode ser entendido como um fato isolado. Ao contrário, faria parte
da conjuntura em que se inseriu a “Instrução sobre alguns aspectos
da teologia da libertação”, de 6 de agosto de 1984. Apresentado à
imprensa internacional pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger,
prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé e o
principal articulador da política disciplinadora que marcou a trajetória
de João Paulo II nos anos 1880, esse documento apresentava uma
visão geral das práticas eclesiais na América Latina e chamava a
atenção para os desvios encontrados em “certas formas da teologia
da libertação”, que estariam sacralizando a política e abusando da
religiosidade popular em benefício de iniciativas revolucionárias.
A defesa de Leonardo Boff, feita em primeiro lugar pelo
presidente da Comissão Episcopal de Doutrina da CNBB, dom
Aluísio Lorscheider, partiu da argumentação de que em nenhum
momento o Vaticano havia dado direito de resposta ao réu, nemrespeitado o princípio da subsidiariedade, intervindo na questão
antes que fossem esgotados todos os esforços da Igreja brasileira.
Essa insatisfação foi apresentada ao papa João Paulo II, que
autorizou um colóquio em Roma, no dia 7 de setembro de 1984, a
fim de que o teólogo brasileiro pudesse ser ouvido perante os
representantes da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé,
sob a presidência do cardeal Ratzinger.
Em 11 de março de 1985, uma notificação da Sagrada
Congregação para a Doutrina da Fé apresentou os resultados do
colóquio e deixou claro que a questão ainda se encontrava em
aberto para o Vaticano. Em 25 de abril, Leonardo Boff sofreu
punições disciplinares, que consistiram em um período de
“obsequioso silêncio” para que tivesse tempo de refletir sobre seus
escritos teológicos. A medida causou protestos em todo o Brasil, em
especial entre os católicos que militavam nas comunidade eclesiais
de base, que escreveram milhares de cartas em solidariedade ao
religioso. A Comissão de Justiça e Paz de Olinda e Recife caminhou
na mesma direção e apresentou um manifesto comparando o
desenvolvimento da ação movida contra Leonardo Boff aos métodos
utilizados nos inquéritos policiais militares durante o regime militar
de 1964. Lamentou ainda que a Igreja romana estivesse “punindo
em frei Boff a Igreja pobre e solidária. A Igreja descalça que
enterrou os pés na lama das favelas. A Igreja despojada que entrou
nas fábricas para defender os operários”.
Na tentativa de reverter a decisão tomada pela Sagrada
Congregação para a Doutrina da Fé, o presidente da CNBB, dom
Ivo Lorscheiter, viajou para Roma e em 11 de junho de 1985 obteve
um encontro reservado com o papa João Paulo II. O diálogo não
teve nenhum resultado no sentido da absolvição do teólogo
franciscano, tendo João Paulo II afirmado na ocasião não poder
aceitar que bispos e arcebispos brasileiros pudessem questionar a
decisão anunciada pelo Vaticano, numa referência ao manifesto
encabeçado pelo arcebispo de Goiânia, dom Fernando Gomes,
contra a condenação de Leonardo Boff.
No entanto, por decisão da própria Sagrada Congregação
para a Doutrina da Fé, três representantes da presidência da CNBB,
acompanhados de cinco membros da Comissão Episcopal de
Doutrina, estiveram em Roma no mês seguinte e foram recebidos
pelo papa, pelo cardeal Joseph Ratzinger e pelo cardeal Bernardin
Gantin, prefeito da Congregação dos Bispos. Nesse encontro, o
Vaticano voltou atrás e reconheceu o direito da Igreja brasileira de
decidir soberanamente acerca de seus problemas doutrinais,
quebrando a política que excluía a CNBB do controle sobre essas
questões.
Mesmo assim, as relações entre a Igreja brasileira e a Santa
Sé ainda prosseguiriam tensas. Em janeiro de 1986, o cardeal
Joseph Ratzinger obrigou a Editora Vozes a suspender a publicação
da série Teologia e Libertação, composta de 54 volumes com os
mais expressivos trabalhos de teólogos latino-americanos e voltada
especialmente para a formação e orientação de agentes pastorais.
Somente em março de 1986, durante uma conferência de
cúpula extraordinária realizada em Roma, os bispos brasileiros
tiveram a oportunidade de apresentar a sua defesa da teologia da
libertação de uma forma mais ampla. Nesse encontro, que marcou a
abertura de um diálogo acerca dos erros e acertos da Igreja
brasileira nos últimos 20 anos, estiveram presentes os
representantes de todas as tendências do clero nacional,
evidenciando-se entretanto o contraste entre uma maioria
progressista e uma minoria conservadora, liderada por dom Eugênio
Sales, arcebispo do Rio de Janeiro, e dom Lucas Moreira Neves,
secretário-geral da Congregação dos Bispos. Essa correlação de
forças favorável aos progressistas contribuiu, em grande medida,
para que após o encontro João Paulo II tomasse uma atitude mais
liberal e tornasse conhecido um documento revisionista acerca da
teologia da libertação, a Instrução sobre a liberdade cristã e a
libertação.
Nesse documento, João Paulo II reconhecia a importância
dos trabalhos realizados pelos teólogos da libertação no contexto
histórico da América Latina, mas estabelecia, por outro lado, uma
determinada leitura da teologia da libertação que deveria ser
seguida dali em diante como sua versão oficial. A instrução rompia
com a vocação política da teologia da libertação, que evocava os
pobres como o “povo de Deus”, e fazia da luta contra a exploração
econômica e os demais “pecados sociais” a essência de sua
atividade pastoral. Sendo assim, é de se notar que uma das
expressões mais utilizadas pelos teólogos da libertação — “a opção
preferencial pelos pobres” — passava a ser entendida não apenas
como a opção por aqueles que possuem as piores condições
materiais de existência, mas também como a luta contra a falta de
espiritualidade na vida cotidiana.
O desfecho da crise entre a CNBB e o Vaticano teve início
durante a Páscoa de 1986. Nessa data, foi suspenso o “silêncio
penitencial” imposto a Leonardo Boff. Na semana seguinte, João
Paulo II enviou uma mensagem à CNBB exaltando a sua prática
pastoral com as seguintes palavras: “Na medida em que se
empenha por encontrar aquelas respostas justas — penetradas de
compreensão para com a rica experiência da Igreja neste país, tão
eficazes e construtivas quanto possível e ao mesmo tempo
consoantes e coerentes com os ensinamentos do Evangelho, da
tradição viva e do perene magistério da Igreja — estamos
convencidos, nós e os senhores, de que a Teologia da Libertação é
não só oportuna, mas útil e necessária.” Essa mensagem foi lida por
dom Ivo Lorscheiter durante a XXIV Assembleia Geral da CNBB,
realizada entre 9 e 18 de abril de 1986. Para a maioria dos
presentes, o texto de João Paulo II foi um sinal definitivo de que o
Vaticano havia retirado toda a suspeita de heresia ou de desvio da
ortodoxia religiosa por parte da Igreja brasileira.
Mesmo superando em grande parte as objeções mantidas
pelo Vaticano, a presença da Igreja progressista na CNBB viu-se
diminuída no momento em que se encerrava o regime militar.
Segundo Scott Mainwaring, “a volta à democracia diminuía o
incentivo que muitos bispos tinham em se envolver com a política”.
Na prática, isso significou a quebra da unidade existente na CNBB
em torno de sua participação como representante legítima dos
anseios da sociedade civil, até então sufocados pelo autoritarismo.
Nesse momento, ainda de acordo com Mainwaring, reduziu-se o
apoio oferecido pelos bispos liberais às teses defendidas pela
direção progressista da CNBB, que passou a contar apenas com o
respaldo daqueles mais identificados com a chamada Igreja popular
em sua crítica aos problemas socioeconômicos da democracia
representativa.
O líder conservador dom Eugênio Sales assim definiu a nova
situação em que a Igreja brasileira se encontrava no momento da
transição para a democracia: “A Igreja teve um papel muito ativo no
momento em que o Brasil se tornava uma sociedade fechada. Ela
era ‘a voz daqueles que não tinham voz’. Hoje, o parlamento, a
imprensa e os partidos estão em total funcionamento. Eles deveriam
falar e a Igreja deveria se ocupar de seus próprios assuntos.”
 
A CNBB e a redemocratização
A posse de dom Luciano Mendes de Almeida na presidência
da CNBB, em abril de 1987, interrompeu um ciclo de 15 anos em
que se sucederam no cargo representantes dos setores mais
progressistas da Igreja. Embora não estivesse disposto a abrir mão
do passado de reivindicações políticas e sociais que marcara a
história recente da CNBB e se mostrasse comprometido com a
prática da “evangelização libertadora”, dom Luciano não era o
candidato preferido de seu antecessor, dom Ivo Lorscheiter, que o
considerava “místico demais” para exercer o cargo. Mesmo assim,
sua eleição — que contou com o apoio das bases da Igreja e com o
voto de figuras preeminentes do clero progressista, como dom
Pedro Casaldáliga — foi considerada uma vitória sobre os
segmentos conservadores da Igreja, que escolheram como
candidato o arcebispo de Belo Horizonte, dom Serafim Fernandes
de Araújo.
Duranteo mandato de dom Luciano Mendes a atuação
política da CNBB não foi restringida, tendo-se manifestado
sobretudo no decorrer dos trabalhos da Assembleia Nacional
Constituinte de 1987-1988. As principais exigências políticas feitas
pela CNBB durante a preparação da nova Constituição já haviam
sido definidas em seu encontro anual de 1986. Daí resultara o
documento Por uma nova ordem constitucional, que destacava a
posição assumida pela Igreja Católica a favor da criação de
instrumentos que permitissem a participação popular como forma de
garantir a legitimidade do ordenamento jurídico que seria entregue à
nação.
Nessa conjuntura, a CNBB criou uma equipe executiva
coordenada por dom Cândido Padim, bispo de Bauru (SP), para
acompanhar o andamento dos trabalhos constituintes e manter
informada a opinião pública. Com esse objetivo foi produzido o
programa de rádio Café da manhã Constituinte, que consistia numa
entrevista diária de cerca de 15 minutos com um parlamentar para a
Rádio Medianeira, da cidade de Santa Maria (RS). Nesse programa
cada entrevistado tratava da matéria que estava em debate naquele
momento e do que esperava da participação popular a respeito. A
entrevista era enviada através de um texto-telex para os demais
pontos do país, chegando a atingir a marca de trezentas
transmissões por dia. Outro veículo de divulgação utilizado pela
CNBB foram os encartes de seu Boletim de Notícias, com 5.500
assinantes.
A elaboração de emendas populares foi o principal
instrumento utilizado pela CNBB na tentativa de inserir as suas
propostas no texto constitucional. Essas emendas, que para serem
colocadas em pauta necessitavam da assinatura de no mínimo 30
mil eleitores e do apoio de três associações representativas da
sociedade civil, foram utilizadas pela CNBB para tratar de temas
como família, aborto, educação, liberdade religiosa, demarcação de
terras indígenas e reforma agrária.
Em agosto de 1987, foi publicada pelo jornal O Estado de S.
Paulo uma série de reportagens sobre a participação do Conselho
Indigenista Missionário (Cimi), órgão ligado à CNBB, em um
movimento internacional a favor do reconhecimento da soberania
dos povos indígenas, dando margem à criação de um “Estado
pluriétnico” no Brasil. A maneira pela qual a notícia foi divulgada
colocou a conferência episcopal como integrante de uma ação
contrária aos interesses brasileiros, do momento em que esta
defendia a proibição da exploração de riquezas minerais existentes
nas terras das comunidades indígenas. Em virtude desses
acontecimentos, dom Luciano Mendes de Almeida propôs a
instalação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para
investigar as razões que levaram à publicação da matéria.
Refutando as acusações de que a CNBB defendia a tese da
“soberania restrita” sobre as terras indígenas, dom Luciano afirmou
ser favorável ao monopólio da União sobre essas regiões, que em
sua opinião só deveriam ser exploradas pelo Estado, no momento
exigido pelos interesses nacionais, sem a interferência dos grupos
econômicos que pressionavam por sua liberação imediata.
Pouco antes do encerramento dos trabalhos constituintes, o
conselho permanente da CNBB reuniu-se, entre 23 e 26 de agosto
de 1988, para avaliar seus resultados. Nesse encontro foi preparado
o documento Texto constitucional: valores e expectativas, em que a
conferência episcopal exaltou como as maiores virtudes da nova
Carta a participação da sociedade em sua elaboração, a afirmação
dos ideais de cidadania e o repúdio à tortura e ao racismo. Por outro
lado, o documento destacou como pontos negativos a definição de
“entidade familiar” para os relacionamentos estáveis entre homens e
mulheres, o não-reconhecimento do direito à vida desde a
concepção e a omissão acerca da criação de mecanismos que
acelerassem o processo de reforma agrária.
Após a promulgação da nova Constituição, em 5 de outubro
de 1988, o processo de redemocratização da sociedade brasileira
seria complementado, um ano mais tarde, com a primeira eleição
direta para presidente da República realizada no país depois de um
intervalo de 29 anos. Nesse momento, os representantes da Igreja
Católica se dividiram entre os principais candidatos. O clero
progressista, com o apoio das CEBs e das pastorais sociais,
engajou-se na campanha de Luís Inácio Lula da Silva, do Partido
dos Trabalhadores (PT), acreditando haver uma coincidência entre a
utopia socialista e os ideais da Igreja. Enquanto isso, conservadores
e moderados apoiavam, com muito mais discrição, Fernando Collor
de Melo ou Mário Covas. A cúpula da CNBB, no entanto, não se
manifestou por nenhum dos postulantes ao governo da República,
buscando uma posição suprapartidária e a favor da liberdade
eleitoral. Em seus pronunciamentos, limitou-se a traçar o perfil do
candidato ideal como aquele que possuísse “uma vida séria e
honesta, competência administrativa e profissional” e, além disso,
fosse “contra o aborto e a favor da reforma agrária”.
A radicalização política do segundo turno das eleições
presidenciais de 1989 dividiu os vários setores da Igreja em relação
aos dois candidatos — Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Collor
de Melo — que disputariam as eleições de 17 de dezembro. A
possibilidade de uma vitória da esquerda, coligada em torno de Lula
na Frente Brasil Popular, levou o clero conservador a mover-se no
sentido de uma intervenção mais direta no processo eleitoral.
Conforme observou Zélia Seiblitz, o grupo liderado pelo arcebispo
do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales, apoiou Fernando Collor, “em
uma verdadeira cruzada da civilização cristã contra o comunismo”.
Diante desse quadro, o presidente da CNBB, dom Luciano Mendes
de Almeida, procurou evitar que o conflito afastasse cada vez mais
os diferentes segmentos de sua instituição. Em declaração ao Jornal
do Brasil de 2 de dezembro de 1989, afirmou que “a unidade da
Igreja não se expressa pela coincidência partidária mas pela
seriedade no esforço de escolher de modo livre e consciente o
próprio candidato, de respeitar a opção feita pelos outros e de zelar
pelo processo eleitoral”.
 
Após a eleição de Fernando Collor, a CNBB clamou por uma
pacificação nos ânimos políticos, para que se evitasse qualquer
atitude de ressentimento que levasse a uma oposição sistemática
ao novo presidente. Como decorrência dos efeitos recessivos do
plano de combate à inflação apresentado pela ministra da Economia
Zélia Cardoso de Melo logo após a posse de Collor, em março de
1990, entretanto, a conferência episcopal criticou a política
econômica do governo, que em nome da estabilidade da moeda
estaria provocando o achatamento dos salários e aumentando o
número de desempregados. No entendimento da CNBB, a
“existência de milhares de empobrecidos” seria “a negação radical
da ordem democrática”, o que significava que, de acordo com o seu
ponto de vista, a intervenção do governo Collor no terreno
econômico entrava em conflito com os princípios éticos cristãos.
Em março de 1992, em virtude do acúmulo de denúncias
sobre corrupção no governo Collor apresentadas pela imprensa, a
CNBB iniciou uma campanha contra a impunidade para os
chamados “crimes do colarinho branco”. Nos meses seguintes, após
a publicação pela revista Veja (23/5/1992) de entrevista com o irmão
do presidente, Pedro Collor, em que foi denunciado um esquema de
corrupção e tráfico de influência montado no interior do governo sob
a liderança do ex-tesoureiro da campanha presidencial Paulo César
Farias, que estaria contando com a conivência de Fernando Collor,
a CNBB destacou-se como uma das mais importantes entidades
envolvidas na criação, em agosto de 1992, do Movimento Cívico
contra a Impunidade e pela Ética na Política. Esse movimento, que
contou também com a participação de outras associações civis,
como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação
Brasileira de Imprensa (ABI) e a União Nacional dos Estudantes
(UNE), seria responsável por uma série de manifestações a favor do
impeachment que se espalharam pelas principais capitais do país, e
pelo pedidoformal de afastamento do presidente Collor, entregue
pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho.
No ano de 1992, a história da CNBB também seria marcada
pelas repercussões da IV Conferência do Episcopado Latino-
Americano (Celam), realizada em São Domingo entre 12 e 28 de
outubro. Convocada por João Paulo II, a conferência se propôs a
discutir a presença da Igreja Católica no continente americano
quinhentos anos após a sua descoberta, bem como a linha de
evangelização a ser praticada em toda a América Latina na virada
para o terceiro milênio. O interesse político do Vaticano nesse
evento manifestou-se na tentativa de inserir a questão do
relacionamento entre as culturas no centro das reflexões teológicas,
lugar até então ocupado pelas questões econômicas e políticas que
orientavam a teologia da libertação. Essa reordenação não se
completou por inteiro, em virtude da resistência do clero
progressista, que fez com que o texto final do encontro previsse a
“promoção humana” ao lado da chamada “inculturação” como meta
da chamada “nova evangelização”. Por outro lado, promoveu-se
uma redução do poder desse grupo na orientação da atividade
pastoral, marcando uma descontinuidade em relação à linha traçada
nos encontros de Medellín e Puebla.
 
No primeiro ano do governo Itamar Franco a CNBB reuniu-se
no seu 31º encontro anual, realizado em maio de 1993. Na ocasião
preparou o documento Ética: pessoa e sociedade, no qual mais uma
vez expôs suas preocupações com os assuntos relativos à
moralidade pública. No esforço para oferecer uma resposta ao que
os religiosos chamavam de “crise ética”, o texto representou uma
tentativa de superação do mal-estar que se havia instalado na cena
política brasileira após os escândalos de corrupção que marcaram o
fim do governo Collor. Além de discutir sobre a necessidade dos
valores éticos no fortalecimento da ordem democrática, o encontro
criticou o “individualismo exacerbado” presente nas ideias
neoliberais, considerado inaceitável para a Igreja, dado que estaria
pronto para corroer todo e qualquer sentido de fraternidade e
solidariedade existentes nas relações humanas. O documento
condenou a revisão constitucional ampla, que segundo a CNBB
traria “um retrocesso em relação aos direitos previstos na
Constituição de 1988”, considerando-a inoportuna em face da pouca
representatividade do Congresso Nacional no último ano da
legislatura. O encontro nacional dos bispos propôs uma consulta ao
Supremo Tribunal Federal (STF) para definir a amplitude das
alterações constitucionais, no limite das necessidades colocadas
pela vitória do presidencialismo no plebiscito de 21 de abril de 1993.
Nesse encontro, a CNBB também criticou a “deterioração da
mídia em geral e dos programas de televisão em particular”. Pediu a
criação de um conselho de comunicação social, conforme
determinava a Constituição de 1988, para ampliar a participação e o
controle da sociedade sobre as atividades das empresas que atuam
no setor. Atacou ainda os projetos de lei que tratavam da
liberalização do aborto, classificando o ato como um “um gravíssimo
pecado cometido contra a pessoa humana”.
 
As eleições de 1994 e o governo Fernando Henrique Cardoso
No decorrer da campanha presidencial de 1994, a CNBB se
viu dividida entre o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva, e o
candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB),
Fernando Henrique Cardoso. Essa divisão refletia sua própria
política interna, marcada pela disputa entre progressistas e
conservadores. Na cartilha Eleições 94: voto responsável,
preparada durante o seu 32º encontro anual, “neoliberalismo”,
“capitalismo organizado” e “democracia popular” foram
apresentados como as principais propostas à disposição do
eleitorado naquele momento. O candidato ideal para ocupar a
presidência da República, segundo o documento, seria aquele
identificado com “a pessoa humana como valor central da
sociedade” e favorável a que “o povo se transforme em protagonista
das mudanças que se fazem necessárias ao país”.
Durante o 32º encontro anual da CNBB, o padre José Ernâni
Pinheiro, responsável pelo setor de leigos, apresentou um
documento criticando as políticas neoliberais e o que considerava a
ambiguidade entre o discurso do Estado mínimo e a realidade do
país, que deveria servir de base ao posicionamento oficial da
conferência sobre as eleições. O texto desse documento, que
espelhava as posições da ala progressista da Igreja, foi contundente
ao dizer que: “As mesmas lideranças que sugaram o Estado estão
hoje em defesa das privatizações sem critérios, pressionadas pelas
exigências da nova ordem internacional e seus porta-vozes — o
Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).” A
declaração oficial da CNBB limitou-se, entretanto, a orientar os
católicos a darem seu voto àqueles candidatos que tivessem uma
postura ética considerável, não se deixando envolver pela
manipulação eleitoral dos meios de comunicação e pelo abuso do
poder econômico.
Em relação à aliança entre o PSDB e o Partido da Frente
Liberal (PFL), para a sustentação da candidatura de Fernando
Henrique Cardoso à presidência da República, o presidente da
CNBB, dom Luciano Mendes de Almeida, declarou publicamente
que, como cidadão, a considerava estranha. Essa opinião,
manifestada a título pessoal durante o 32º encontro anual da CNBB,
se justificava segundo o religioso porque “até então as posições
defendidas pelos dois partidos não coincidem”.
Em abril de 1995, a confirmação do nome do arcebispo de
Salvador, dom Lucas Moreira Neves, para a presidência da CNBB
— após ter derrotado o candidato progressista dom Jaime Chemello
— trouxe a influência conservadora para o comando da conferência
episcopal. Tendo sido assessor do papa João Paulo II, dom Lucas
estava plenamente de acordo com a política de enquadramento
promovida pelo Vaticano contra os excessos da teologia da
libertação. Mesmo assim, o peso do clero progressista não diminuiu
inteiramente, uma vez que seus representantes conseguiram eleger
oito dos nove nomes que passaram a compor a Comissão Episcopal
Pastoral (CEP), considerada o “ministério” da CNBB, cuja função é
coordenar a execução das deliberações da assembleia-geral.
No primeiro ano do governo Fernando Henrique Cardoso,
logo após a eleição de dom Lucas para a presidência, a CNBB iria
demonstrar que ainda carregava uma forte influência dos setores
progressistas do clero, abrindo a Campanha da Fraternidade de
1995 com o tema dos excluídos. O texto-base da campanha
procurou identificar as “causas mais profundas da exclusão social
que predomina na sociedade brasileira”, apontando como seus
fatores principais a cultura do consumismo e o modelo de
desenvolvimento voltado apenas para uma pequena parcela da
população. Neste documento a CNBB criticou as propostas
neoliberais esboçadas pelo presidente da República, afirmando que
estas não demonstravam a menor sensibilidade social e levariam ao
aprofundamento da concentração de renda, terra e poder.
No ano seguinte, a Campanha da Fraternidade iria caminhar
em um sentido igualmente crítico, ao estabelecer como tema a
importância da participação política entre os cristãos. Na sua cartilha
de divulgação afirmava-se que “o objeto da atual disputa política”
envolvia a concorrência entre dois modelos diferentes de sociedade.
Um que, beneficiando apenas os já integrados na sociedade de
consumo, estava decidido a acelerar a entrada do Brasil no mundo
da globalização — o que significaria a remoção de todos os
entraves à livre entrada e saída de capitais no país e o
enfraquecimento das relações de trabalho em benefício do capital
—, e outro que, beneficiando a maioria da população, buscava um
projeto de desenvolvimento econômico nacionalmente sustentado
— o que significaria a execução de reformas destinadas a promover
uma maior distribuição de riqueza, fortalecer o mercado interno e
gerar empregos. Rebatendo as críticas de que esse posicionamento
da CNBB representaria uma visão de esquerda em relação à política
econômica do governo, domLucas Moreira Neves preferiu não
atacar a ala progressista, envolvida na redação do documento,
defendendo a sua instituição ao afirmar que o texto da Campanha
da Fraternidade de 1996 estaria acima de qualquer dicotomia
política, espelhando apenas a doutrina social da Igreja.
No 35º Encontro Nacional da CNBB, ocorrido em abril de
1997, seria apresentado um novo documento contendo críticas ao
governo Fernando Henrique Cardoso, em especial ao processo que
levou à aprovação da emenda constitucional que abriu a
possibilidade da reeleição para os cargos executivos, por considerá-
lo “uma prática evidente de corrupção ativa por parte do governo,
que oferece bens em troca de votos”. Após a divulgação desse
documento, a assessoria de imprensa da Presidência da República
divulgou nota oficial criticando a postura da Igreja, que teria agido de
“maneira desabonadora com o Congresso e insultuosa em relação
ao governo”. Os representantes da CNBB buscaram amenizar a
situação, afirmando que o texto em questão não era um
pronunciamento oficial da instituição, mas um documento de
trabalho elaborado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento
(Ibrades) para servir de subsídio às discussões a serem travadas no
seu encontro anual. Pouco depois, a conferência episcopal lançou
um documento contendo sua palavra oficial, no qual criticou a
política econômica do governo sem entrar em detalhes quanto aos
seus aspectos éticos.
Em julho de 1998, dom Lucas Moreira Neves deixou a
presidência da CNBB para ocupar o cargo de prefeito da
Congregação dos Bispos no Vaticano. Seu substituto seria o bispo
de Pelotas, dom Jaime Chemello, candidato derrotado na eleição
anterior, quando foi apoiado pelos setores progressistas da Igreja.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE XVIII
1. PAPA FRANCISCO.
Francisco é o 266º papa da história da Igreja Católica.
Nascido em Buenos Aires, capital da Argentina, em 17 de
dezembro de 1936, Jorge Mario Bergoglio estudou Farmácia em sua
adolescência antes de despertar sua vocação para a vida religiosa.
Cursou o seminário em Villa Devoto e entrou para a Companhia de
Jesus aos 19 anos de idade. Estudou Teologia e Filosofia na
Universidade de San Miguel simultaneamente à sua ordenação
como padre.
Jorge Mario Bergoglio dividiu seu tempo entre vida religiosa e
acadêmica. Foi reitor da Faculdade de San Miguel por seis anos e
recebeu o título de Doutor na Alemanha. Em 1992, foi nomeado
bispo. Em 1997, foi elevado a arcebispo e passou a chefiar a
arquidiocese de Buenos Aires. Seu trabalho foi reconhecido pelo
Papa João Paulo II que o nomeou cardeal em 2001.
O Cardeal Jorge Mario Bergoglio foi membro da
Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos
Sacramentos, membro da Congregação para o Clero e da
Congregação para os Institutos da Vida Consagrada e das
Sociedades da Vida Apostólica e foi membro também do Conselho
Pontifício para a Família e da Comissão Pontifícia para a América
Latina.
A atuação religiosa de Jorge Mario Bergoglio em sua terra
natal caracterizou-se por posicionamentos conservadores e radicais.
Durante a ditadura militar argentina, a Igreja Católica foi criticada por
não fazer oposição ao regime autoritário e não se manifestar sobre
os sequestros e desaparecimentos de adversários políticos. Jorge
Mario Bergoglio é processado desde 2005 pelo suposto
envolvimento com o sequestro de dois missionários jesuítas e de
uma criança em 1976. Mais tarde, durante o governo dos Kirchner,
Bergoglio chegou a ser considerado o principal opositor. Em função
das desavenças, ele e Nestor romperam definitivamente. Cristina
Kirchner, por sua vez, tentou uma aproximação quando o marido
faleceu, mas houve um grande desentendimento com Bergoglio em
2010, quando a Argentina se tornou o primeiro país da América
Latina a legalizar o casamento entre homossexuais. Na ocasião, o
cardeal declarou que a medida era um ataque destrutivo aos planos
de Deus e que a adoção de crianças por casais homossexuais era
uma maneira de discriminá-las. A presidente Cristina Kirchner
retrucou dizendo que as lideranças religiosas ainda vivem na Idade
Média. Jorge Mario Bergoglio é considerado um conservador
ortodoxo em assuntos como aborto, sexualidade, casamento
homossexual e uso de métodos contraceptivos. Por outro lado, é um
intenso defensor de ajuda aos pobres e costuma apoiar programas
sociais e contestar políticas de livre mercado.
 
Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa pelo conclave no dia 13
de março de 2013 para ser o sucessor do Papa Bento XVI, que
renunciou ao cargo no dia 28 de fevereiro. O cardeal argentino já
era cotado para assumir o papado em 2005, no conclave que elegeu
o cardeal Joseph Ratzinger, mas sua posse foi prorrogada. Em
2013, ele se tornou o primeiro papa latino-americano da história da
Igreja Católica, assumindo o nome de Papa Francisco (será
chamado de Francisco I apenas quando existir Francisco II,
segundo o Vaticano).
O Papa Francisco assume a Igreja Católica em meio a muitos
escândalos de pedofilia e de administração do Vaticano. Seu maior
desafio é reverter a queda no número de fieis ao catolicismo. O
novo papa é natural do continente com maior número de católicos
no mundo, que, no entanto, já registra também uma diminuição
acentuada no número de fieis. Parece, contudo, que o Papa
Francisco não oferecerá nenhuma mudança em relação às posturas
mais conservadoras da Igreja Católica, motivo pelo qual alguns
críticos a consideram uma instituição ultrapassada. Mas a devoção
que apresenta por São Francisco de Assis deixa a esperança de
que atue mais efetivamente no combate a pobreza.
 
2. A escolha do nome de pontificado.
Cardeal Jorge Mario Bergoglio foi o primeiro Papa a escolher
o nome Francisco por causa de São Francisco de Assis.
O ano de 2013 foi dos Franciscos: do Papa e das crianças
que receberam o nome em homenagem a ele. Somente no Estado
de São Paulo, 30% das crianças registradas de março a dezembro
receberam este nome.
Francesco Sávio Vanderlei de Oliveira tem 10 meses e
recebeu o primeiro nome em homenagem ao Pontífice argentino. A
ideia foi do pai do garoto, Frederico Henrique de Oliveira, que
estava na Praça São Pedro, no momento do Habemus Papam. A
esposa, Edilma Oliveira, estava grávida de 8 meses.
“Quando ele foi eleito, apareceu aos milhares de fiéis e falou com
muita simplicidade, principalmente quando pediu que o povo
rezasse por ele. Aquela foi uma experiência muito forte para mim.
Eu fui às lágrimas, ali, na Praça de São Pedro, e me perguntava:
que homem é esse?”, conta Frederico.
Já para o Papa, a escolha foi para homenagear o Santo de
Assis, e a decisão precisou ser quase imediata. O Cardeal Bergoglio
teve apenas alguns minutos, após o fim da contagem dos votos dos
cardeais, para escolher seu nome de pontificado.
Ele mesmo conta como escolheu o nome ao receber uma
“dica” de um amigo do Colégio Cardinalício. O cardeal brasileiro,
Dom Cláudio Hummes, que estava sentado ao lado de Bergoglio
durante o Conclave, ao perceber que as votações já haviam atingido
os 2/3 necessários para eleger o Papa, cumprimentou-o.
“Ele abraçou-me, beijou-me e disseme: ‘Não te esqueças dos
pobres!’. E aquela palavra gravou sê-me na cabeça: os pobres, os
pobres. Logo depois, associando com os pobres, pensei em
Francisco de Assis. Em seguida, pensei nas guerras, enquanto
continuava o escrutínio até contar todos os votos. Francisco é o
homem da paz. E assim surgiu o nome no meu coração: Francisco
de Assis”, contou o Papa na primeira audiência que teve com os
jornalistas.
O Santo Padre brinca ainda com as sugestões recebidas dos
colegas cardeais. “Mas tu deverias chamar-te Adriano, porque
Adriano VI foi o reformador, e é preciso reformar. Outro me disse:
‘Não! O teu nome deveria ser Clemente’. ‘Mas por quê?’. ‘Clemente
XV! Assim, vingavas-te de Clemente XIV que suprimiu a Companhia
de Jesus!’. São brincadeiras”, disse Francisco.
Em um dos programas da TV Canção Nova, Dom Cláudio
Hummes comentou o grande dom para Igreja que é o pontificado de
Francisco. Destacouque a escolha do nome é um programa de
vida, um programa de Igreja. Dom Hummes falou ainda que a
experiência do Cardeal Bergoglio, em Buenos Aires, na Argentina,
foi uma preparação para seu pontificado.
 
Nome de pontificado
O especialista em informação religiosa, Andrea Gagliarducci,
conta que a escolha de Bergoglio tem como pano de fundo a
devoção do próprio fundador dos jesuítas, ordem à qual pertence o
Papa. Segundo a história, Inácio de Loyola tinha Francisco de Assis
como modelo de vida e até desejou imitar o santo.
“Tanto é que, no início, Inácio quis assumir a pobreza
absoluta dos franciscanos, uma ideia que, mais tarde, tomou outros
rumos, pois o objetivo da Companhia de Jesus era diferente da
ordem franciscana”, explica Andrea.
De acordo com o especialista, não há um motivo específico
para que, até hoje, não tenha sido escolhido por nenhum Pontífice o
nome Francisco, uma vez que o santo é tão querido e famoso em
todo o mundo.
“De modo geral, escolhia-se um nome com base na devoção,
porém, com o tempo, os Papas começaram a escolher o nome com
base em um programa de pontificado”, explica Andrea, reafirmando
a opção do cardeal argentino.
 
“Para mim, é o homem da pobreza, o homem da paz, o
homem que ama e preserva a criação; neste tempo, também a
nossa relação com a criação não é muito boa, pois não? [Francisco]
é o homem que nos dá este espírito de paz, o homem pobre… Ah,
como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!”, conclui o
Pontífice apontando de que modo irá caminhar.
Na história da Igreja, a escolha de um novo nome para o
Papa teve início no século VI com a eleição de Mercúrio como
Pontífice. O nome, por lembrar um deus pagão, não era adequado a
um Papa, surgiu, então, a ideia de mudar o nome dele para João.
A partir daí, não como uma regra, os Papas começaram a
optar pela mudança. Os mais utilizados foram João, Clemente e Pio.
Curiosamente, o nome Pedro, do primeiro apóstolo, nunca foi
escolhido, segundo o especialista, em respeito à grandeza do
primeiro Papa.
 
HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA.
PARTE XIX
História da RCC nas origens
Renovação Carismática surge da dimensão carismática da
Igreja o que significa dizer que ele é um sopro do Espírito, ninguém
planejou criar a RCC, ninguém desejou senão o próprio Espírito
Santo. “A Renovação é uma oportunidade para toda a Igreja” (Paulo
VI, 1973). A melhor maneira de falar de alguma coisa é dizer o que
ela não é para evitar os equívocos. Sendo assim, para falar o que é
a Renovação Carismática, talvez seja melhor começar falando o que
ela NÃO é:
Não é um movimento da Igreja que possa ser colocado ao
lado dos outros movimentos (C.Suenens). Essa compreensão é
unânime em todos aqueles que viveram esta experiência em seus
primórdios e ainda hoje, com várias exceções.
Ela não tem um fundador único ou um grupo de fundadores.
Não tem um coordenador com poder de governo, mas de
comunhão.
Não tem lista de membros;
Abriga uma grande variedade de indivíduos, grupos e
atividades: comunidades de vida e aliança, grupo de oração, grupo
de partilha, ministérios, paróquias renovadas. A Renovação é uma
corrente de graça para toda a Igreja Católica, não é um movimento
da Igreja, mas a própria Igreja em movimento (Suenens).
A RCC surge do desejo do próprio Senhor Jesus que desde o
final do século XIX vem inspirando os seus filhos. No ano de 1895
uma freirinha italiana, chamada Elena Guerra, vinha recebendo
revelações de que Deus queria que a experiência do Espírito Santo
voltasse a ser plena na Igreja. Ela escreveu várias cartas ao Papa
Leão XIII, pedindo pela pregação permanente do Espírito Santo.
Atendendo ao apelo de Deus através da freira o Papa Leão XIII
publicou duas encíclicas incentivando uma maior devoção e
abertura ao Espírito de Deus, porém os católicos não se deixaram
tocar por essa mensagem. Em primeiro de Janeiro de 1901
(01/01/1901), o Papa Leão XIII faz a seguinte oração: “Veni, Creator
Spiritus”, era uma profecia para o século que se iniciava. Porém o
Espírito sopra onde quer e se dá aqueles que o desejam e o
buscam. Diante de resistências dos cristãos católicos, pois a
experiência católica ainda era muito conservadora, quem se abre a
esta renovação são os irmãos de outras denominações cristãs. Nas
igrejas evangélicas são vários os relatos de experiências de batismo
no Espírito Santo.
 
No ano de 1961 ocorre um fato transformador na Igreja, o
Papa Alegre: João XXIII, convoca o Concílio Vaticano II, que renova
toda a Igreja: a Missa passa a ser em língua local, não mais em
latim; a Bíblia é estimulada para que todos a leiam e a possuam; os
leigos adquirem maior espaço de participação e comunhão. A
oração inicial que abre o Concílio, feita pelo próprio Papa foi:
“renovai Senhor, nos dias de hoje as mesmas graças abundantes de
pentecostes”. Durante o Concílio realizam-se diversos debates
sobre a ação do Espírito Santo. Alguns Cardeais diziam que não
viam necessidade desse debate, pois o que aconteceu naquele
tempo era só para aquele primeiro momento do cristianismo, mas
outros Cardeais, em especial o Cardeal Leon Suenens insistiu no
debate e foi o grande defensor do Espírito Santo durante o concílio.
O Concílio terminou no ano de 1965.
Nos primeiros anos da década de 60 membros do movimento
Cursilho de Cristandade começaram a experimentar coisas
diferentes e estranhas, carismas, houve até quem orasse em
línguas, algo inédito. Deste movimento duas pessoas se destacam,
no sentido de que serão referências dentro da Renovação
Carismática, são eles: Ralph Martin e Steve Clark.
Eles leram dois livros de pastores evangélicos: A cruz e o
punhal e eles falam outras línguas. Estes livros relatavam a
experiência do pastor David Wilkerson com jovens viciados. Dois
professores da Universidade de Duquesne, que também eram do
cursilho e conheciam Ralph e Steve, também começaram a ler os
livros do pastor Wilkerson. Estes dois professores perceberam que o
Senhor os estava chamando para uma realidade fascinante e
histórica, só não sabiam do que se tratava. Resolveram buscar
conhecer e conversar com pessoas que viviam a experiência do
Batismo no Espírito e os Carismas.
Tomaram conhecimento de um grupo de mulheres de várias
denominações evangélicas que se reuniam semanalmente para
orarem e vivenciarem os carismas. Foram atrás do tal grupo, que
era coordenado por uma santa e alegre senhora chamada de Flo. O
senhor havia revelado ao grupo de mulheres, quando souberam da
visita dos homens católicos, que elas se preparassem, jejuassem e
orassem, pois algo grandioso Ele iria realizar a partir daquele
encontro. A reunião transcorreu normalmente, no final quando Flo já
ia terminar a oração um dos professores católicos levantou-se
rapidamente, chegou junto à irmã Flo e disse: “Ó, não faça isso. Eu
venho esperando há muito tempo por essa ocasião. Eu vim para
receber o Batismo no Espírito Santo e não sairei daqui até que o
tenha”.
Elas deram-se as mãos e começaram a orar por aqueles
irmãos católicos, e relatam que podiam sentir o Espírito Santo
descendo sobre eles, era uma energia tão forte que cada um que ali
estava recebeu uma partícula de Deus. Um mês após este encontro
no grupo de Flo, uma sociedade de amigos da Universidade de
Duquesne, da qual participavam os professores católicos e Ralph e
Steve, faria um retiro que realizavam todos os anos naquele
período. O tema do retiro para aquele ano era: O Sermão da
Montanha. Mas nos últimos dias os professores mudaram o tema do
retiro para: Os Atos dos Apóstolos. No primeiro dia do retiro, que
aconteceu nos dias 17 a 19 de Fevereiro de 1967, eles leram os
quatro primeiros capítulos dos Atos e a senhora Flo que coordenava
o grupo evangélico foi quem pregou para eles, ela falou sobre a
realeza de Cristo e o Batismo no Espírito Santo.
No segundo dia à noite eles haviam programado uma
festinha para os aniversariantes, porém algo estranho ocorreu: sem
combinarem nada ou falarem, alguns, não todos, jovens sentiram o
desejo de irem para a capela onde o Senhor estava presenteno
Santíssimo Sacramento exposto e eles relatam que iam entrando e
sendo tomados de todo por uma força que os compungia o coração
e os impeliam a consagrar-se ao Senhor em toda a sua vida e eram
batizados no Espírito Santo, era uma atmosfera profunda da
presença do Espírito de Deus. Eles não sabiam, mas ali estava
começando a grande novidade de Deus que renovaria a Igreja
Católica.
Duas semanas após, jovens de outra universidade, Notre
Dame, tiveram a experiência do Batismo no Espírito Santo. E a
partir daí o Senhor foi derramando seu Espírito de forma abundante
em sua Amada Esposa, a Igreja.
 
História da RCC no Brasil
E a Renovação se espalhou por todo o mundo chegando ao
Brasil em 1970, através do Pe. Haroldo Hahn e Pe. Sales, que
realizaram vários retiros que ficaria conhecidos como Experiência de
Oração.
Hoje, praticamente todas as paróquias do Brasil têm grupos
de oração da Renovação Carismática Católica. O Espírito chama a
um despertar e lançar-se para águas mais profundas.
No Brasil a Renovação Carismática teve origem na cidade de
Campinas, SP, através dos padres Haroldo Joseph Rahm e Eduardo
Dougherty.
Em 1970 e 71 iniciou-se a Renovação em Telêmaco Borba,
no Paraná, com Pe. Daniel Kiakarski, que a conhecera nos Estados
Unidos também em 1969.
Em 1972 e 1973 Pe. Eduardo, de novo no Brasil, deu vários
retiros e iniciou grupos de oração. Assim foi, por exemplo, em Belo
Horizonte, em 1972, com um grupo pequeno de 8 ou 9 pessoas.
Em janeiro de 1973 o Pe. George Kosicki, CSB, que havia
muito participava ativamente da Renovação nos Estados Unidos,
veio a Goiânia para um retiro carismático de uma semana. A ele
compareceram D. Matias Schmidt, atual bispo de Rui Barbosa, na
Bahia, e vários padres e religiosas, que iriam iniciar grupos de
oração em Anápolis, Brasília, Santarém, Jataí, etc.
Em 1973, perto de Miranda, no Mato Grosso, um pequeno
grupo começou a ler o livro Sereis Batizados no Espírito e a rezar
pedindo o dom do Espírito. Um mês mais tarde veio a eles o Pe.
Clemente Krug, redentorista, que conhecera a Renovação em
Convent Station, New Jersey; orando com eles, receberam o
denominado “batismo no Espírito” e o suposto dom de línguas.
Em geral, pois, pode-se dizer que os grupos de oração
surgidos em inúmeras cidades do Brasil tiveram sua origem seja nas
“Experiências de Oração no Espírito Santo” do Pe. Haroldo Rahm,
SJ, seja nos retiros dados pelos padres Eduardo Dougherty, SJ e
George Kosicki, CSB.
Em vista da extensão que tomava a Renovação no Brasil, o
Pe. Eduardo Dougherty, sentindo a necessidade de uma melhor
organização, preparou com o Pe. Haroldo Rahm e Irmã Juliette
Schuckenbrock, CSC, um encontro de fim de semana em
Campinas, que foi o I Congresso Nacional da Renovação
Carismática no Brasil em meados de 1973, ao qual compareceram
cerca de 50 líderes.
Em janeiro de 1974 foi realizado o II Congresso Nacional da
Renovação Carismática, comparecendo lideres de Mato Grosso,
Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, dentre
outros.
Em outras regiões a Renovação Carismática começa a
crescer, a partir de 1974: no Norte a diocese de Santarém com Frei
Paulo, em Anápolis, no Centro Oeste, com Frei João Batista Vogel,
no Sul de Minas, com Mons. Mauro Tommasini na Aquidiocese de
Pouso Alegre. Também colaboram como divulgadores: Pe. Schuster,
Dr. Jonas e Sra. Imaculada Petinnatti, Peter e Ingrid Orglmeister, D.
Cipriano Chagas, Pe. Alírio Pedrini, Frei Antônio, Ir. Tarsila, Maria
Lamego, Ir. Stelita.
No início, a Renovação atingiu os líderes já engajados em
movimentos como Cursilho, Encontros de Juventude, TLC, e foi se
ampliando gradativamente como uma nova “onda” de doutrinação
com identidade própria.
Em 1972, Pe. Haroldo escreve o livro Sereis batizados no
Espírito, onde explica o que vem a ser o “Pentecostalismo Católico”.
Sendo uma das primeiras obras publicadas no país sobre o
movimento, trazia orientações para a realização dos retiros de
“Experiência de Oração no Espírito Santo”, que muito colaboraram
para o surgimento de vários grupos de oração.
 
CARACTERÍSTICAS E DOUTRINA
Em termos de doutrina a RCC afirma seguir a Bíblia, o
Catecismo da Igreja e todas as demais diretrizes da Igreja.
Em suas reuniões de Oração utiliza músicas de louvor,
adorações e pregações.
 
Prega que o pecado – definido pela Igreja como um ato ou
desejo contrário a vontade de seu Deus – é a fonte dos males
vividos na sociedade atual. Ganância, egoísmo, soberba, vícios,
mau uso da liberdade, etc., seriam consequências dos pecados do
homem.
Defende que Jesus tem o poder de libertar e perdoar os
pecados e que, para isso, basta que o homem arrependa-se diante
dele e se utilize da confissão.
O bem maior que a RCC afirma possuir é a Eucaristia que é a
celebração da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. No
movimento é também presente a devoção à Santíssima Virgem
Maria, mãe de Jesus, proclamando-a como bem-aventurada e
pedindo sua intercessão e auxílio.
 
RENOVAÇÃO CARISMÁTICA E ESPÍRITO SANTO
Ênfase no Espírito Santo
Segundo a RCC, o “Espírito Santo” habita dentro de cada
cristão. Seria o desejo de praticar o bem. Ele é descrito como um
‘conselheiro’ ou ‘ajudante’ (paraclete em grego), o Espírito Santo
paráclito (aquele que advoga) guiando-os no “caminho da verdade e
da justiça”.
A Renovação carismática coloca uma ênfase especial nas
obras do “Espírito Santo”. Segundo a Palavra, na qual a RCC se
detém, os ‘Frutos do Espírito’ (i.e. os resultados da sua influência)
são “amor, gozo (ou alegria), paz, longanimidade, benignidade,
bondade, fé, mansidão, temperança” (Gálatas 5,22). Ainda de
acordo com a RCC, ele também concede dons (i.e. habilidades) aos
Cristãos tais como os dons carismáticos de profecia, línguas,
discernimento, sabedoria, cura, fé, milagres, e ciência. Embora
alguns Cristãos acreditem que isto apenas aconteceu nos tempos
do Novo Testamento, a RCC acredita que hoje estes dons estão
novamente sendo concedidos.
Desse modo, nos grupos de oração da RCC é muito comum
o uso do “dom de línguas”. Também não é rara a manifestação de
visões e profecias de origem sobrenatural que transmitiriam
mensagens de Jesus, do Espírito Santo ou de Maria, como dons do
Espírito Santo. Às vezes ocorrem pela mesma manifestação do
Espírito Santo, através de dons, a realização de curas espirituais ou
físicas e milagres.
 
Efusão no Espírito Santo
Segundo a RCC, a Efusão no Espírito Santo é uma
experiência que normalmente decorre de um momento de oração e
pela qual a pessoa adquire um novo e apurado senso de “valor
espiritual”. A partir desse momento o “Espírito Santo” passaria a
orientar a vida da pessoa, confirmando verdades interiores e até
modificando posturas diante dos homens e do mundo. Como
primeiro resultado deste ‘batismo’ verificar-se-ia o desejo pela
oração e pela vida na Igreja.
Segundo a teologia católica, toda pessoa recebe o Espírito
Santo por ocasião do sacramento do Batismo. A Igreja não define a
necessidade de um segundo batismo, conforme a profissão de fé do
Credo Niceno: “Professo um só batismo para remissão dos
pecados”. Sendo assim, o ‘Batismo no Espírito Santo’ como
entendido pela RCC, não é um sacramento nem um requisito para a
Salvação. Ele seria uma renovação do contato com Deus que fora
adquirido originalmente pelo batismo, um auxílio para uma vivência
da fé mais próxima da anunciada no evangelho e o catalisador uma
vida de oração mais intensa. Entende-se que esse batismo no
Espírito Santo não seja uma invenção da RCC, mas parte dos
primórdios do nascimento da Igreja.
 
APOIO DO MAGISTÉRIO
Dentre vários documentos onde existe a manifestação clara e
positiva da aceitação da Igreja, destacam-se algumas notas que dão
ênfase e motivação à existência da RCC no Mundo:
Papa Paulo VI – 1973, no I Encontro Internacional com
Líderes da RCC em Roma: “Alegramo-nos convosco, queridos
amigos pela renovação espiritual que se manifesta hoje em dia na
Igreja, sob diferentes formas e em diversos ambientes. Certas notas
comuns aparecem nesta renovação:
O gostopor uma oração profunda, pessoal e comunitária a Deus;
Um retorno à contemplação e uma ênfase no louvor a Deus;
O desejo de entregar-se inteiramente a Cristo;
Uma grande disponibilidade às inspirações do Espírito Santo;
Uma leitura mais assídua da Bíblia;
Um amor fraterno mais generoso. “A Renovação Carismática é a
primavera da Igreja!”
Papa João Paulo II – 2005, Roma: “Estou convencido de que
este movimento é um sinal da ação do Espírito… um componente
muito importante na renovação de toda a Igreja”.
 
Papa Bento XVI – Quando ainda era Cardeal: “Eu tive a
alegria e a graça de ver jovens cristãos tocados pelo poder do
Espírito Santo… Num tempo de cansaço no qual se fala de um
“inverno da Igreja”, o Espírito Santo criou uma Nova Primavera”.
 
Prof. Felipe Aquino – 2008: A Renovação Carismática não é um
movimento uniforme; mas, como dizia o cardeal Suenens e diz o
padre Raniero Cantalamessa, “é uma corrente de graça para toda a
Igreja católica.” Ela não é um simples movimento a mais da Igreja; é
a própria Igreja em movimento pelo poder do Espírito Santo. “Todos
os cristãos de todos os movimentos precisam ser renovados no
Espírito Santo; e esta é a missão da RCC.”
 
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE I
	1.O PERÍODO PRÉ - REFORMA
	2.QUEM FOI MARTINHO LUTERO .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE II
	A REFORMA NA SUÍÇA : ULRICO ZUÍNGLIO . ( 1484 – 1531 )
	OS 67 ARTIGOS DE ZUÍNGLIO
	JOÃO CALVINO ( Jehan Cauvin ) A SEGUNDA GERAÇÃO DA REFORMA .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE III
	Igreja Anglicana e a Reforma na Inglaterra
	O CONCÍLIO DE TRENTO ( A CONTRARREFORMA ) .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE IV
	CIÊNCIAS ECLESIÁSTICAS — CONTROVÉRSIAS TEOLÓGICAS
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE V
	I . O JANSENISMO .
	II . O GALICANISMO .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE VI
	1 . FEBRONIANISMO
	2 . Do Regalismo O despotismo .
	3 . ILUMINISMO ( XVII e XVIII ) .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE VII
	I . A Revolução Francesa e a Igreja Católica .
	II . Revolução Francesa : por que , exatamente , ela perseguiu os católicos ?
	III . Pio VII e Napoleão Bonaparte .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE VIII
	LIBERALISMO e IGREJA .
	1 . Histórico do liberalismo
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE IX
	1 . PIO IX : O MAIS LONGO PONTIFICADO DA HISTÓRIA DA IGREJA .
	2 . Concílio do Vaticano I .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE X
	1 . História da Igreja : De Leão XIII a Pio XI ( 1878 - 1939 ) .
	2 . O Papa Pio XII . ( 1939 – 1958 )
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XI
	1 . O PAPA JOÃO XXIII . ( 1881 - 1963 )
	2 . Constituição Apostólica do Papa João XXIII .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XII
	1 . O Concílio Vaticano II .
	2 . Documentos .
	3 . Objetivos do Concílio Vaticano II .
	4 . Vaticinou II , o 21º concílio da Igreja .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE XIII
	PAPA PAULO VI 1963 - 1978 ( Pontificado )
	O Papa João Paulo I ( Albino Luciani )
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XIV
	1 . Papa João Paulo II
	2 . João Paulo II , um pouco de seu pontificado
	3 . CURIOSIDADES SOBRE A VIDA DE JOÃO PAULO II .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XV
	1 . O que é a Teologia da Libertação ?
	2 . A Teologia da Libertação e sua influência na Igreja .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XVI
	1 . PAPA BENTO XVI ( 2005 – 2013 ) .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XVII
	CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL ( CNBB )
	Origens e implantação da CNBB
	Da fundação a 1964
	No regime militar
	Os limites da Igreja progressista
	A CNBB e a redemocratização
	As eleições de 1994 e o governo Fernando Henrique Cardoso
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XVIII
	1 . PAPA FRANCISCO .
	2 . A escolha do nome de pontificado .
	HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XIX
	História da RCC nas origens
	História da RCC no Brasil
	CARACTERÍSTICAS E DOUTRINA
	RENOVAÇÃO CARISMÁTICA E ESPÍRITO SANTO

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