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HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE I 1. O PERÍODO PRÉ-REFORMA A pré – reforma como o próprio nome sugere foi o período que antecedeu a reforma protestante, que vai do final do século 13 a meados do século 16. Ela é caracterizada pelo apontamento de algumas doutrinas heréticas defendidas pelo catolicismo romano através de teólogos e homens piedosos que não se conformaram com as heresias e atitudes errôneas dos líderes da igreja. Pois quando a igreja completou seu primeiro milênio, já tinha se espalhado por todo o mundo, porém estava completamente distanciada dos ditames da Bíblia sagrada. É nessa época que surge alguns homens levantados por Deus, que inconformados com as doutrinas heréticas ensinadas pela igreja, começaram a denunciar os “erros doutrinários” da mesma. Historicamente são chamados de “os precursores da reforma”. 1.1 Os precursores da reforma Aqui cabe destacarmos uma síntese sobre a biografia e as doutrinas defendidas pelos principais precursores da reforma, WALTON (2000): ·Tomás Bradwardine (1290 – 1349), teólogo e matemático inglês, foi nomeado arcebispo da Cantuária em (1349), morreu vítima de peste negra. Realçava a graça de Deus na salvação. ·Gregório de Rimin (1358), era Filósofo italiano e tornou-se monge de ordem agostiniana. Também Realçava a graça de Deus na salvação em contraste com a doutrina das obras (Indulgências). ·João Wycliffe (1329 – 1384), foi professor da universidade de Oxford, foi forçado a aposentar-se em consequência da revolta dos camponeses em (1381). Traduziu a maior parte da vulgata latina para o inglês. Seu corpo foi exumado e queimado em (1428). Ele negava a doutrina da transubstanciação, opunha-se ao acúmulo de riquezas e a venda de indulgências, também frisava a autoridade das Escrituras. ·João Huss (1373 – 1415), foi Sacerdote da Boêmia, tornou-se professor na Universidade de Praga. Foi queimado em praça pública por ordem do Concílio de Constança. Em sua doutrina, ele definia a igreja por uma vida semelhante à de Cristo e não pelos sacramentos. Opunha-se a venda de indulgências e à veneração de imagens. Reforçava a autoridade das Escrituras. ·João de Wessel (1420 – 1489), Teólogo alemão, membro dos irmãos da vida comum, morreu na prisão depois de ser condenado por heresia e depois de se retratar. Também negava a transubstanciação, opunha-se a venda de indulgências e ao celibato clerical. Frisava a autoridade das escrituras. ·Jerônimo Savanarola (1452 – 1536), era monge dominicano italiano, foi enforcado e queimado por heresia em Florença. Pregava contra a imoralidade papal. ·Desiderio Erasmo (1466 – 1536), humanista holandês, compilou o texto do novo testamento grego usado por Lutero. Satirizou impiedosamente as falhas da igreja na obra Elogio da loucura. Atacou a incoerência e a hipocrisia na igreja. Todos deram sua parcela de contribuição para que acontecesse a tão almejada reforma, embora só viesse acontecer anos mais tarde com Lutero, Zuínglio, Calvino e João knox. A história relata que o pré – reformador João Huss, um dos mártires do cristianismo, quando estava para ser queimado disse as seguintes palavras ao seu carrasco: Vocês hoje estão queimando um ganso (Huss significa "ganso" na língua boêmia), mas dentro de um século, encontrar-se-ão com um cisne. “E este cisne vocês não poderão queimar.” Costuma-se identificar Martinho Lutero com esta profecia (que 102 anos depois pregou suas 95 teses em http://googleweblight.com/?lite_url=http://pt.wikipedia.org/wiki/Martinho_Lutero&lc=pt-BR&s=1&m=327&host=www.google.com.br&ts=1518606229&sig=AOyes_R8H6N_uP5XCF9sSMS84C-K1x9QXg Wittenberg), e costumeiramente se costuma identificá-lo com um cisne. 2. QUEM FOI MARTINHO LUTERO. Nascido em Eisleben, Alemanha, a 10 de novembro de 1483, Lutero era filho de camponeses católicos alemães. Como era comum na época, foi alvo de uma disciplina rígida. O menino Lutero aprendeu, entre outras coisas, a orar aos santos, realizar boas obras e reverenciar o papa e a igreja. Cedo, aos 5 anos, Lutero começou a estudar latim em uma escola local. Já aos 12 anos, foi aluno de uma escola de uma irmandade religiosa em Magdeburg. Em 1505 recebeu grau de Mestre em Artes da Universidade de Erfurt, e em 1505 e começou a estudar Direito. Pouco tempo após iniciar seus estudos de Direito, Lutero resolveu tornar-se monge e entrou no Mosteiro Agostiniano de Erfurt. A sua ordenação foi em 1507. Em seguida, deixou o Mosteiro para ensinar filosofia moral na Universidade de Wittenberg. Continuando seus estudos, Lutero obteve o título de Doutor em Teologia. De 1513 a 1518, ensinou Teologia Bíblica na Universidade de Wittenberg. Nessa época, começou a tornar-se bastante conhecido. Após certa idade, Lutero começou a ser afligido por uma angústia que pode ser sintetizada em uma pergunta: se o coração da pessoa é governado pelo pecado, como pode esperar salvação diante de Deus? Por causa do que havia aprendido, procurou resposta – e paz – através de boas obras, incluindo jejuns e autoflagelação. Contudo, seu sentimento de incapacidade para sentir paz diante de Deus continuou, levando-o às portas do desespero. A aflição de Lutero somente encontrou resposta no dia em que encontrou na Bíblia a certeza de que não há como alguém merecer o favor de Deus por causa de alguma coisa que faz; que a única forma de alguém obter o favor Deus é através da fé em Jesus Cristo; que é através da fé em Jesus que os pecados são perdoados por Deus. Este entendimento, conhecido como a doutrina da justificação pela fé, tornou-se um dos pilares do pensamento religioso de Lutero. A Igreja Romana da época costumava dizer que algumas pessoas possuíam mais méritos do que tinham necessidade para serem salvas. Por isso, o “mérito extra” dessas pessoas poderia ser transferido – especialmente através de pagamento – para pessoas cuja salvação era duvidosa. Lutero protestou contra esta prática, chamada de indulgência. Em 31 de outubro de 1517, Lutero afixou uma série de críticas – que se tornaram conhecidas como 95 Teses – na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. As Teses eram um protesto contra o abuso da autoridade do Papa, especialmente no sentido de desafiar o Papa a esvaziar de graça o purgatório, já que diz controlá-lo. Lutero também negou o ensino do “mérito extra” que estava por trás das indulgências. Segundo Lutero, o verdadeiro tesouro da Igreja é o Evangelho – a proclamação do amor de Deus. A Igreja Romana ordenou que Lutero se apresentasse em Roma para responder às acusações de heresia. Sabendo do caso, o Príncipe da Saxônia, Frederico o Sábio, interveio e insistiu que a audiência de Lutero fosse realizada em solo alemão. Como resultado, uma Dieta Imperial foi realizada na cidade de Augsburgo, em 1518. Lutero se recusou a mudar de opinião. Temendo ser preso, fugiu de Augsburgo. As ideias de Lutero logo encontraram adeptos em todas as regiões da Alemanha, e mesmo fora dela. A resposta do Papa à situação foi uma bula (ordem papal), ameaçando Lutero de excomunhão, caso não se retratasse. Em protesto, ele queimou publicamente a bula e foi excomungado em janeiro de 1521. Em junho de 1525, Lutero casou-se com Catarina de Bora, uma ex-freira. Os dois tiveram seis filhos e abrigaram onze órfãos. Lutero publicou cerca de 400 obras durante a sua vida, incluindo comentários bíblicos, catecismos, sermões e tratados. Também escreveu hinos para a Igreja. Partes de suas obras estão publicadas em diversas línguas modernas. Lutero faleceu de derrame cerebral em 1546, aos 63 anos de idade, em sua cidade Natal, Eisleben. Seu corpo foi sepultado na Igreja do Castelo de Wittenberg, onde, cerca de 30 anos antes, havia afixado suas 95 Teses. 2.1 AS 95 TESES DE LUTERO. Em 31 de Outubro de 1517, Martinho Lutero afixou na porta da capela de Wittenberg 95 teses que gostaria de discutir com os teólogos católicos, as quais versavam principalmente sobre penitência, indulgências e a salvação pela fé. O evento marca o início da Reforma Protestante “Movido pelo amor e pelo empenhoem prol do esclarecimento da verdade discutir-se-á em Wittenberg, sob a presidência do Rev. padre Martinho Lutero, o que segue”. Aqueles que não puderem estar presentes para tratarem o assunto verbalmente conosco, o poderão fazer por escrito. Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. “Amém”. (Lutero ) 1ª Tese Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei- vos..., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento. 2ª Tese E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como se referindo ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo do ofício dos sacerdotes. 3ª Tese Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de modificações da carne. 4ª Tese Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até a entrada desta para a vida eterna. 5ª Tese O papa não quer e não pode dispensar outras penas, além das que impôs ao seu alvitre ou em acordo com os cânones, que são estatutos papais. 6ª Tese O papa não pode perdoar divida senão declarar e confirmar aquilo que Já foi perdoado por Deus; ou então faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida deixaria de ser em absoluto anulada ou perdoada. 7ª Tese Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao sacerdote, seu vigário. 8ª Tese Cânones poenitendiales, que não as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas aio Impostas aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos. 9ª Tese Eis porque o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluído este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema. 10ª Tese Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõem aos moribundos poenitentias canonicas ou penitências para o purgatório a fim de ali serem cumpridas. 11ª Tese Este joio, que é o de se transformar a penitência e satisfação, Previstas pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado quando os bispos se achavam dormindo. 12ª Tese Outrora canonicae poenae, ou seja, penitência e satisfação por pecadores cometidos eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar. 13ª Tese Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canônico, sendo, portanto, dispensados, com justiça, de sua imposição. 14ª Tese Piedade ou amor Imperfeitos da parte daquele que se acha às portas da morte necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menor o amor, tanto maior o temor. 15ª Tese Este temor e espanto em si tão só, sem falar de outras cousas, bastam para causar o tormento e o horror do purgatório, pois que se avizinham da angústia do desespero. 16ª Tese Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza. 17ª Tese Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, nelas também deve crescer e aumentar o amor. 18ª Tese Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas ações e nem pela Escritura, que as almas no purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor. 19ª Tese Ainda parece não ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem por ela, não obstante nós termos absoluta certeza disto. 20ª Tese Por isso o papa não quer dizer e nem compreende com as palavras “perdão plenário de todas as penas” que todo o tormento é perdoado, mas as penas por ele impostas. 21ª Tese Eis porque erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante a indulgência do papa. 22ª Tese Pensa, com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas no purgatório das que segundo os cânones da Igreja deviam ter expiado e pago na presente vida. 23ª Tese Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muito poucos. 24ª Tese Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas. 25ª Tese Exatamente o mesmo poder geral, que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d'almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular. 26ª Tese O papa faz muito bem em não conceder às almas o perdão em virtude do poder das chaves (ao qual não possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão. 27ª Tese Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa à alma se vai do purgatório. 28ª Tese Certo é que no momento em que a moeda soa na caixa vêm o lucro e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da Igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus. 29ª Tese E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com Santo Severino e Pascoal. 30ª Tese Ninguém tem certeza da suficiência do seu arrependimento e pesar verdadeiros; muito menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados. 31ª Tese Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e, pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram. 32ª Tese Irão para o diabo juntamente com os seus mestres aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência. 33ª Tese A que acautelasse muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dadiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus. 34ª Tese Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória estipulada por homens. 35ª Tese Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar. 36ª Tese Todo e qualquer cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados, sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência. 37ª Tese Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência. 38ª Tese Entretanto se não deve desprezar o perdão e a distribuição por parte do papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão constitui uma declaração do perdão divino. 39ª Tese É extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e ao contrário o verdadeiro arrependimento e pesar. 40ª Tese O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo: mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para isso. 41ª Tese É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal para que o homem singelo não julgue erroneamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade, ou melhor, do que elas. 42ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, não serem pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgência de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade. 43ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta aos necessitados do que os que compram indulgências. 44ª Tese Ê que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena. 45ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheirocom indulgências, não adquire indulgências do papa. Mas provoca a ira de Deus. 46ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura, fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências. 47ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, ser a compra de indulgências livre e não ordenada. 48ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro. 49ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, serem muito boas às indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em consequência delas, se perde o temor de Deus. 50ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgências, preferiria ver a catedral de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas. 51ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por dever seu, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgências, vendendo, se necessário fosse, a própria catedral de São Pedro. 52º Tese Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor. 53ª Tese São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a Palavra de Deus nas demais igrejas. 54ª Tese Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências, mesmo se o próprio papa oferecesse sua alma como garantia. 55ª Tese A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a causa menor, com um sino, uma pompa e uma cerimônia, enquanto o Evangelho, que é o essencial, importa ser anunciado mediante cem sinos, centenas de pompas e solenidades. 56ª Tese Os tesouros da Igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionados e nem suficientemente conhecido na Igreja de Cristo. 57ª Tese Que não são bens temporais, é evidente, porquanto muitos pregadores a estes não distribuem com facilidade, antes os ajuntam. 58ª Tese Tão pouco são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto estes sempre são eficientes e, independentemente do papa, operam salvação do homem interior e a cruz, a morte e o inferno para o homem exterior. 59ª Tese São Lourenço aos pobres chamava tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época. 60ª Tese Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, a ela dado pelo merecimento de Cristo. 61ª Tese Evidente é que para o perdão de penas e para a absolvição em determinados casos o poder do papa por si só basta. 62ª Tese O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus. 63ª Tese Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos. 64ª Tese Enquanto isso o tesouro das indulgências é sabiamente o mais apreciado, porquanto faz com que os últimos sejam os primeiros. 65ª Tese Por essa razão os tesouros evangélicos outrora foram às redes com que se apanhavam os ricos e abastados. 66ª Tese Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens. 67ª Tese As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos. 68ª Tese Nem por isso semelhante indigência não deixa de ser a mais Intima graça comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz. 69ª Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os Tese comissários das indulgências apostólicas com toda a reverência- 70ª Tese Entretanto têm muito maior dever de conservar abertos olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não preguem os seus próprios sonhos. 71ª Tese Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado. 72ª Tese Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito. 73ª Tese Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente. 74ª Tese Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob o pretexto de indulgência, prejudiquem a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agir. 75ª Tese Considerar as indulgências do papa tão poderosas, a ponto de poderem absolver alguém dos pecados, mesmo que (cousa impossível) tivesse desonrado a mãe de Deus, significa ser demente. 78 ª Tese Bem ao contrario, afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo o menor pecado venial pode anular o que diz respeito à culpa que constitui. 77ª Tese Dizer que mesmo São Pedro, se agora fosse papa, não poderia dispensar maior indulgência, significa blasfemar S. Pedro e o papa. 78ª Tese Em contrario dizemos que o atual papa, e todos os que o sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o Evangelho, as virtudes o dom de curar, etc., de acordo com o que diz 1Coríntios 12. 79ª Afirmar ter a cruz de indulgências adornada com as armas Tese do papa e colocada na igreja tanto valor como a própria cruz de Cristo, é blasfêmia. 80ª Tese Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas deste procedimento. 81ª Tese Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a Indulgência, faz com que mesmo a homens doutos é difícil proteger a devida reverência ao papa contra a maledicência e as fortes objeções dos leigos. 82 ª Tese Eis um exemplo: Por que o papa não tira duma só vez todas as almas do purgatório, movido por santíssima' caridade e em face da mais premente necessidade das almas, que seria justíssimo motivo para tanto, quando em troca de vil dinheiro para a construção da catedral de S. Pedro, livra um sem número de almas, logo por motivo bastante Insignificante? 83ª Tese Igualmente: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para o mesmo fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou pretendas oferecido em favor dos mortos, visto' ser Injusto continuar a rezar pelos já resgatados? 84ª Tese Ainda: Que nova piedade de Deus e dó papa são esta, que permite a um ímpio e inimigo resgatar uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não resgatar esta mesma alma piedosa e querida de sua grande necessidade por livre amor e sem paga? 85ª Tese Ainda: Por que os cânones de penitencia, que, de fato, faz muito caducaram e morreram pelo desuso, tornam a ser resgatados mediante dinheiro em forma de indulgência como se continuassem bem vivos e em vigor? 86ª Tese Ainda: Por que o papa, cuja fortuna hoje é mais principesca do que a de qualquer Credo, não prefere edificar a catedral de S. Pedro de seu próprio bolso em vez de fazê-lo com o dinheiro de fiéis pobres? 87ª Tese Ainda: Quê ou que parte concede o papa do dinheiro proveniente de indulgências aos que pela penitência completa assiste o direito à indulgência plenária? 88ª Tese Afinal: Que maior bem poderia receber a Igreja, se o papa, como Já O faz, cem vezes ao dia, concedesse a cada fiel semelhante dispensa e participação da indulgência a título gratuito. 89ª Tese Visto o papa visar mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que revogam os breves de indulgência outrora por ele concedidos, aos quais atribuía as mesmas virtudes? 90ª Tese Refutar estes argumentos sagazes dos leigos pelo uso da força e não mediante argumentos da lógica, significa entregar a Igreja e o papa a zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos. 91ª Tese Se a Indulgência fosse apregoada segundo o espírito e sentido do papa, aqueles receios seriam facilmente desfeitos,nem mesmo teriam surgido. 92ª Tese Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Paz! Paz! e não há Paz. 93ª Tese Abençoados sejam, porém, todos os profetas que dizem à grei de Cristo: Cruz! Cruz! e não há cruz. 94ª Tese Admoestem-se os cristãos a que se empenhem em seguir sua Cabeça Cristo através do padecimento, morte e inferno. 95ª Tese E assim esperem mais entrar no Reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados diante de consolações infundadas. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE II A REFORMA NA SUÍÇA: ULRICO ZUÍNGLIO. (1484 – 1531) Nasceu numa família rica da classe média, foi o terceiro de oito filhos. Seu pai Ulrico era o magistrado chefe da cidade e o seu tio Bartolomeu o vigário. Fez os primeiros estudos em Basileia e Berna, e os estudos superiores em Viena e depois em Basileia, onde, em 1506, obteve o “Magister Sententiarum” (o título de Mestre das Sentenças de Pedro Lombardo). No mesmo ano foi ordenado sacerdote e destinado à paróquia de Glanora, na qual desempenhou com dedicação suas funções pastorais, sem descurar, por isso os estudos e os contatos com o mundo da cultura, tornando-se um convicto fautor do humanismo. Em 1516 foi transferido para a abadia de Einsiedeln como capelão. Naquele santuário, a exuberância das práticas religiosas, que, nos fiéis, raiava pela superstição e, no clero, pelas práticas simoníacas, chocou profundamente o espírito do jovem sacerdote, preparando-o para as ideias da Reforma Protestante que não tardariam em vir da Alemanha. Datam deste período os primeiros contatos com Erasmo de Roterdã, do qual se tornou grande admirador e em larga escala também seguidor. Em 1519 foi transferido como cura da catedral, para Zurique, onde em suas pregações começou a criticar com insistência as indulgências e a comentar a Bíblia segundo o “evangelho puro”, inspirando-se nos escritos de Lutero, que ele considerava substancialmente na linha do reformismo de Erasmo ou pelo menos não em antítese a ele. Mais tarde também atacou o celibato eclesiástico e o jejum e começou a conviver com uma viúva, a qual desposou publicamente em 1524. A partir de 1522 começou a criticar cada vez mais radicalmente a devoção a Nossa Senhora e aos santos, a autoridade dogmática e disciplinar dos concílios e dos papas, o culto das imagens, a missa como sacrifício. Em vista disso, o bispo de Constança proibiu-o de pregar, acusando-o de heresia. A partir de 1522, ano em que se casou secretamente com Anna Reinhard, Zwingli se empenhou na obra da Reforma. Partindo do princípio de que só a Bíblia contém a doutrina necessária para a salvação, preparou 67 breves artigos de fé. Neles afirmava que Cristo é o único chefe da igreja e que a salvação se opera pela fé. Em De vera et falsa religione commentarius (1525; Comentário sobre a verdadeira e a falsa religião), negou o caráter sacrificial da missa, a salvação pelas obras, a intercessão dos santos, a obrigatoriedade dos votos monásticos, a existência do purgatório. Afirmou o caráter simbólico da eucaristia, divergindo de Martinho Lutero, que tomava de forma literal as palavras de Cristo “este é o meu corpo”. A reforma de Zuínglio foi apoiada pelo magistrado e pela população de Zurique e levou a mudanças significantes na vida civil e em assuntos de estado em Zurique. O governo de Zurique anulou a proibição do bispo, introduziu a língua alemã na liturgia e aboliu o celibato eclesiástico. A Reforma Protestante propagou-se desde Zurique a cinco outros cantões da Suíça, enquanto que os restantes 5 ficaram firmemente do lado da fé católico-romana. Zuínglio organizou sessões de debate teológico, nas quais os argumentos dele e de outros protestantes eram confrontados com os argumentos da Igreja Católica oficial. Normalmente, os seus argumentos eram mais convincentes e estas sessões acabavam por ser um fortalecimento da reforma. Em Janeiro de 1523, foi organizada uma disputa em Zurique, com a presença de seiscentas pessoas, que assistiram a uma confrontação entre Zuínglio e os enviados do Bispo de Constança. Ao contrário do modelo medieval (disputatio), esta forma de disputa tem lugar em local público e não numa sessão fechada ao público, algures numa universidade, sendo falada em alemão e não em latim. Em 1528, uma sessão semelhante teve lugar em Berna. Zuínglio tentou sem êxito a aliança entre Zurique, França e a Savoia, mas conseguiu organizar uma Aliança Cívica Cristã, que em 1529já contava com vários cantões, iniciando-se a luta armada. Decidido a pôr fim ao perigo de intervenção imperial, em face da hostilidade dos cantões católicos, Zwingli incitou o Conselho de Zurique a atacá-los e, ao acompanhar as tropas como capelão, encontrou a morte em batalha, perto de Kappel am Albis, em 11 de outubro de 1531. Crê-se que o seu cadáver foi esquartejado e dado às chamas. Martinho Lutero frequentemente atacava algumas afirmações de Zuínglio. Muitas tentativas foram feitas para a aproximação dos dois reformistas, mas nunca tiveram sucesso. Quanto à visão teológica, a de Zuínglio tem muitos elementos em comum com a de Lutero nas negações, mas é muito diferente dela nas afirmações. De fato, o motivo que levou Zuínglio à Reforma é precisamente o contrário ao de Lutero. Este último era movido por razões fideístas: a incapacidade do homem, em virtude das quais o homem e Deus estão separados por um abismo tão grande que nenhuma série de intermediários jamais poderá transpor. Zuínglio, ao contrário, apoiava-se em motivos racionalistas e humanísticos: a bondade essencial do homem, que faz com que ele não precise de nenhuma série de impulsos para subir até Deus, porque está em condições de fazê-lo sozinho. A tendência racionalista da reforma zuingliana pode ser notada imediatamente nas seguintes doutrinas: redução do pecado original a um simples vício hereditário não merecedor de condenação eterna e sem diminuição das forças éticas do homem; valor positivo da Lei e não meramente negativo; felicidade eterna acessível também aos sábios pagãos que tivessem praticado a lei moral natural. Lutero e Zuínglio estão muito longe um do outro tanto pelos motivos teológicos quanto pelos motivos que se propuseram com a Reforma: enquanto Lutero que responder à questão “como serei salvo?”, Zuínglio propõe outra: “como será salvo o meu povo?”. “A grande preocupação de Lutero, tanto em Erfurt quanto em Wittenberg, era a salvação de sua alma. Não era certamente uma angústia egoísta porque se pode dizer que ele tomou sobre si a angústia de toda a sua época. Mas o que constituía o tormento de Zuínglio era a salvação de seu povo.” OS 67 ARTIGOS DE ZUÍNGLIO Os 67 Artigos de Zuínglio são considerados não somente a primeira confissão reformada, mas a primeira confissão protestante. Ao contrário das 95 Teses de Lutero, eles não só abordaram um vasto conjunto de doutrinas e práticas, mas deram considerável atenção a alguns princípios basilares do novo movimento protestante. Zuínglio preparou estes Artigos como pontos de disputa para a Primeira Disputa de Zurique. Esta Disputa ocorreria em 29 de janeiro de 1523. Dependendo da conclusão desta Disputa, o conselho da cidade decidiria ou não adotar o programa reformatório de Zuínglio, o que acabou de fato acontecendo. Para a disputa vieram 600 pessoas que se amontoaram no pequeno salão onde ocorreu. Zuínglio e seus aliados se sentaram diante do ajuntamento em uma mesa que possuía a Septuaginta, o Velho Testamento Hebraico e o Novo Testamento em grego juntamente com uma cópia da Vulgata Latina. Em 14 de julho de 1523 os 67 Artigos e suas explicações foram publicados em Zurique. 1. Todo que diz que o Evangelho é nada sem a sanção da Igreja, erra e blasfema contra Deus. 2. O resumo do Evangelho é que nosso Senhor Cristo, verdadeiro Filho de Deus, nos fez conhecer a vontade de seu celestial Pai e nos redimiu da morte e nos reconciliou com Deus por sua inocência. 3. Então, Cristo é o único caminho para salvação de todos que foram, estão agora ou serão salvos.4. Aquele que buscar ou apontar outras portas, erra. De fato, ele é um assassino da alma e um ladrão. 5. Então, todos que consideram outros ensinos iguais ou maiores que o Evangelho, erram. Eles não sabem o que o Evangelho é. 6. Pois Cristo Jesus é o guia e capitão, prometido por Deus e entregue para toda a raça humana. 7. Que ele é uma salvação eterna e o cabeça de todos os crentes que são seu corpo, o qual é morto e incapaz de fazer algo fora dele. 8. Disto se segue, antes de tudo, que todos que vivem na cabeça são membros e filhos de Deus. E esta é a igreja ou comunhão dos santos, a noiva de Cristo, ecclesia catholica. 9. Se segue, em segundo lugar, que como os membros físicos são incapazes de fazer qualquer coisa sem a cabeça os gerenciando, assim também é impossível para qualquer um no corpo de Cristo fazer algo sem Cristo, o cabeça. 10. Assim como uma pessoa é demente se os membros de seu corpo fazem algo sem a cabeça, se machucando, se ferindo e se prejudicando, assim são os membros de Cristo dementes, se espancando e se sobrecarregando com leis insensatas, sempre que eles empreendem algo sem Cristo, seu cabeça. 11. Disto nós vemos que os estatutos dos chamados clérigos com toda sua pompa, riqueza, títulos e leis são a causa de toda loucura, pois eles de forma alguma correspondem ao cabeça. 12. Assim, eles ainda agem loucamente, não por causa do cabeça (pois o último – pela graça de Deus – alguém ainda tenta restabelecer em nossa época), mas porque não se permite mais que eles sejam néscios, ao invés disto, são forçados a prestar a atenção apenas no cabeça. 13. Sempre que dermos ouvidos à palavra, nós adquirimos puro e claro conhecimento da vontade de Deus e somos atraídos a ele por seu Espírito e transformados em sua semelhança. 14. Portanto todos os cristãos devem fazer o máximo para que em todo lugar o evangelho de Cristo seja pregado. 15. Pois a crença no evangelho constitui nossa salvação, e a descrença, nossa condenação, pois toda a verdade está clara nele. 16. No evangelho nós aprendemos que o ensino e os estatutos humanos são de nenhuma utilidade para a salvação. 17. Que Cristo é o único eterno sumo sacerdote; disto nós deduzimos que todo aquele que pretende ser sumo sacerdote se opõe à honra e poder de Cristo; de fato, ele o rejeita. 18. Que Cristo que se ofereceu uma vez como sacrifício é um perpétuo e válido pagamento pelo pecado de todos os crentes; disto segue-se que a missa não é um sacrifício, mas um memorial do sacrifício e um selo da redenção que Cristo manifestou a nós. 19. Que Cristo é o único mediador entre nós e Deus. 20. Que Deus quer nos dar todas as coisas em seu nome. Segue-se disto que nós não precisamos fora do tempo presente de outro mediador senão ele. 21. Quando oramos uns pelos outros aqui na terra, nós fazemos confiando que todas as coisas nos são dadas através de Cristo somente. 22. Cristo é nossa justiça. Disto nós concluímos que nossas palavras são boas à medida que elas são as de Cristo, mas à medida que elas são nossas, elas não são nem justas nem boas. 23. Cristo rejeita as riquezas e pompas deste mundo. Disto concluímos que aqueles que ajuntam riquezas para si mesmos em seu nome o difamam enormemente já que eles o usam para cobrir sua própria ganância e devassidão. 24. Todo cristão é livre de qualquer uma das obras que Deus não ordenou e é permitido em todos os tempos a comer tudo. Disto nós aprendemos que as dispensações a respeito de queijo e manteiga são uma fraude romana. 25. Tempos e lugares são sujeitos aos cristãos, não o contrário; disto nós aprendemos que aqueles que amarram tempos e lugares roubam os cristãos de sua liberdade. 26. Nada desagrada mais a Deus que a hipocrisia. Disto nós aprendemos que tudo que simula a bondade aos olhos humanos é uma hipocrisia e infâmia total. Isto se aplica a vestimentas, insígnias, tonsuras, etc. 27. Todos os cristãos são irmãos de Cristo e entre si, ninguém na terra deveria ser elevado e ser chamado Pai. Isto anula ordens religiosas, seitas e assembleias ilegais. 28. Tudo que Deus permite ou que ele não proibiu é permitido. Disto nós aprendemos que é próprio para qualquer um se casar. 29. Que todos aqueles que nós chamamos “espirituais” pecam quando, tendo descoberto que Deus não os deu a habilidade de se manter castos, ao contrário, não se protegem através do casamento. 30. Aqueles que fazem voto de castidade se comprometem infantilmente ou tolamente demais. Nós aprendemos disto que qualquer um que aceite tais votos faz injustiça a boas pessoas. 31. Nenhuma pessoa particular pode impor a exclusão sobre ninguém, exceto a igreja, ou seja, a comunidade daqueles entre os quais aquela pessoa a ser excomungada vive, juntamente com seu guardião, ou seja, o ministro. 32. Somente a pessoa que causa ofensa pública pode ser banida. 33. Possessões obtidas impiamente que não podem ser restituídas a seus donos por direito não devem ser dadas a templos, mosteiros, monges, sacerdotes e freiras, mas ao pobre. 34. A chamada autoridade espiritual não pode justificar sua pompa com base no ensino de Cristo. 35. Mas a autoridade temporal deriva força e afirmação do ensino e obra de Cristo. 36. Toda autoridade judicial e a administração da justiça que a propriedade sacerdotal se apropria para si, realmente pertence à autoridade temporal na medida em que ela busca ser cristã. 37. Além do mais, todos os cristãos, sem exceção, devem obediência a eles. 38. Todos os cristãos sem exceção devem obediência a eles, desde que eles não ordenem nada que é oposto a Deus. 39. Então todas as suas leis devem se conformar com a vontade divina de forma que elas protejam a pessoa oprimida, mesmo que ele de fato não faça uma acusação. 40. Apenas eles estão designados a impor a pena de morte e somente sobre aqueles que dão ofensa pública, sem com isto incorrer na ira de Deus, a menos que ele ordene outra coisa. 41. Quando fornecem conselho e ajuda justa àqueles por quem devem dar conta perante Deus, estes por sua vez têm o dever de lhes dar suporte físico. 42. Se eles se tornarem infiéis e não agirem de acordo com os preceitos de Cristo, eles podem ser depostos em nome de Deus. 43. Em resumo, o domínio de alguém que rege com Deus apenas é o melhor e mais estável, mas o domínio de alguém que rege por seu próprio capricho é o pior e mais inseguro. 44. Verdadeiros adoradores invocam a Deus em espírito e verdade, sem qualquer clamor perante o povo. 45. Hipócritas fazem suas obras para serem vistos pelo povo, eles recebem sua recompensa neste mundo. 46. Assim se segue que o salmodiar e o alto clamor, sem a devoção verdadeira e feito por dinheiro somente, busca ou o louvor humano ou o ganho material. 47. Uma pessoa deveria sofrer morte física ao invés de ofender ou desgraçar um cristão. 48. Alguém que, por causa de enfermidade ou ignorância, tende a se ofender sem qualquer causa, não deve ser deixado fraco ou ignorante. Ao invés disto, ele deveria ser fortalecido de forma que ele não considere como pecaminoso o que não é de nenhuma maneira pecaminoso. 49. Eu não conheço maior ofensa que proibir sacerdotes a ter esposas, no entanto permitindo-lhes se relacionar com prostitutas. 50. Somente Deus perdoa pecados através de Jesus Cristo seu Filho, nosso único Senhor. 51. Quem quer que atribua isto a uma criatura rouba Deus de sua honra e dá ela a outro que não é Deus. Isto é uma completa idolatria. 52. Então a confissão que é feita a um sacerdote ou a um próximo não pode ser tida como a remissão de pecados, mas simplesmente como uma busca por conselho. 53. A imposição de atos de penitência deriva de conselho humano – com a exceção do banimento. As penitências não removem o pecado e são impostas meramente para dissuadir outros. 54. Cristo suportou toda nossa dor e fadiga. Assim, quem quer que atribua a obras de penitência o que é de Cristo apenas, erra e blasfema a Deus. 55. Quem se recusa a perdoar o pecado de uma pessoa arrependida não pode clamar estar agindo em nome de Deus ou Pedro, mas no do Diabo. 56. Quem quer queperdoe certos pecados somente por dinheiro é companheiro de Simão e Balaão e o próprio mensageiro do Diabo. 57. As verdadeiras Escrituras Sagradas nada sabem de um purgatório após esta vida. 58. A sentença daqueles que morreram é conhecida apenas por Deus. 59. E quanto menos Deus nos deixa saber sobre isto, menos deveríamos tentar saber sobre isto. 60. Que uma pessoa, por preocupação pelos mortos, pede a Deus para lhes mostrar misericórdia, eu não desaprovo. Mas estipular um tempo para isto e mentir por causa de ganho, não é humano, mas diabólico. 61. De um caráter indelével que os sacerdotes se apropriaram para si em tempos recentes, as Escrituras nada sabem. 62. As Escrituras não conhecem nenhum outro sacerdote senão aqueles que proclamam a Palavra de Deus. 63. Àqueles que proclamam a Palavra de Deus, as Escrituras nos ordenam a mostrar respeito ao dar a eles sustento material. 64. Todos aqueles que confessam seus erros, não devem ser forçados a se reconciliar, mas deve-se permitir que morram em paz, e sua herança deve então ser administrada em um espírito cristão. 65. Aqueles que desejam confessar seu erro serão tratados por Deus. Então, nenhuma violência deve ser feita a seus corpos, a menos, é claro, que eles se comportem de uma forma tão indecorosa que ninguém possa fazer nada sem ela. 66. Todos os superiores clericais devem se humilhar instantaneamente e levantar somente a cruz de Cristo, e não a caixa de dinheiro. Do contrário eles perecerão; o machado é deitado na raiz da árvore. 67. Se alguém desejar discutir comigo taxas de juros, dízimo, crianças não batizadas ou a confirmação, eu me declaro desejoso de responder. JOÃO CALVINO (Jehan Cauvin) A SEGUNDA GERAÇÃO DA REFORMA. João Calvino nasceu na cidade de Noyon (França) em 10 de julho de 1509 e faleceu na cidade de Genebra (Suíça) em 27 de maio de 1564. Depois do Luteranismo e do Zwinglianismo, a reforma entra numa fase de consolidação com João Calvino. Ao contrário de Martinho Lutero, que era um monge agostiniano mais tarde ordenado padre e tornado professor de Sagrada Escritura Universidade de Wittenberg, de Zuínglio, que foi pároco em Zurique, João Calvino não é clérigo, mas apenas leigo. Também enquanto os primeiros reformadores são germânicos, ele é francês. João Calvino, tal como Lutero e Zuínglio É também um homem de profunda piedade enraizada numa fé confiante na justificação pela graça de Deus. Aos 12 anos vai para Paris, para estudar Teologia, como bolseiro da Igreja Católica, por enquanto estava destinado ao sacerdócio. Em Paris, frequenta o colégio Montaigu, onde aprende filosofia e a arte da discussão. Inácio de Loyola é seu contemporâneo no referido colégio. Alguns anos depois, troca o estudo das Letras pelo Direito. Obtida a licenciatura em Direito, torna-se professor na universidade de Orleães. Influenciado pelo humanismo Erasmo de Roterdã, é levado a aprender grego, a estudar a Bíblia e os Padres da Igreja, sobretudo Santo Agostinho. Em muitos países a Reforma Protestante foi combatida de forma bastante violenta. Milhares de protestantes foram presos pela Inquisição (Tribunal do Santo Ofício) em toda a Europa, com muitos deles sendo condenados à morte. E, na França, tradicionalmente um reino aliado ao Vaticano, não foi diferente. Neste país, os protestantes foram perseguidos e presos. Em consequência a isso, muitos se refugiavam na vizinha Suíça. João Calvino (1509-1564) foi um desses tantos protestantes franceses que fugiram para o território suíço. Na Suíça, Calvino entrou em contato com as ideias humanistas e, principalmente, teve acesso à literatura grega antiga. Esse contato com a literatura clássica e humanista foi muito importante para aquilo que Calvino iria desenvolver em sua teologia. Calvino, apesar de ter mantido quase todos os princípios formulados por Martinho Lutero, desenvolveu uma teologia própria, mas que tinha uma diferença muito importante: a Doutrina da Predestinação. Nesta doutrina, influenciada na crença grega no destino, Calvino afirmava que Deus, o único com conhecimento sobre o futuro, já sabia, desde sempre, quem eram as pessoas que seriam salvas por Ele, assim, como já sabiam quem não seria. A teoria da predestinação de Calvino nasceu da sua crença na presciência absoluta de Deus, e da firma convicção, robustecida pelas suas leituras de São Paulo e Santo Agostinho, de que o homem é incapaz de se salvar pelas suas próprias ações; somente pode ser salvo pela imerecida graça de Deus, livremente concedida. De acordo com Calvino, a fé não era o caminho para a salvação, para ele, a fé era o sinal de que o fiel estava predestinado à salvação. Com isso, o calvinismo se afastava daquilo que Lutero havia defendido, ou seja, que a salvação somente era alcançada por meio da fé em Jesus Cristo. Mesmo contrariando a Lutero, a Doutrina da Predestinação se tornou muito popular na Suíça. Mas quando as ideias de Calvino chegaram às pessoas comuns, uma dúvida foi gerada: Como posso saber se sou ou não salvo? A resposta dos seguidores de Calvino era bastante simples. Segundo os Calvinistas, a garantia de que alguém havia sido predestinado por Deus à salvação estava em seu sucesso pessoal, ou seja, uma pessoa próspera e bem sucedida (profissão, saúde, família, etc.) demonstrava o favor de Deus para com ela. Portanto, o próspero tinha a garantia de sua salvação, pois onde a planta de seus pés pisasse iria prosperar. Mas, o contrário também era verdadeiro. Pois, aquele que não prosperasse dava demonstrações de que não estava predestinado à salvação. O reflexo maior desta doutrina foi que, ao contrário dos católicos, os calvinistas passavam a defender a riqueza pessoal. Assim, a riqueza e o lucro deixavam de ser pecado para se tornarem em sinais do favor divino e, também, numa forma de glorificar a Deus. Como a Igreja Católica condenava os lucros e a riqueza pessoal, os burgueses adotaram, quase que integralmente, a nova fé. Mas ao contrário de outras vertentes protestantes, o calvinismo não se desenvolveu em uma igreja específica, mas como doutrina que seria aceita em algumas igrejas protestantes já existentes. Assim, a doutrina calvinista obteve uma grande aceitação na Suíça (onde surgiu), de lá se espalhando por toda a Europa, especialmente, na Escócia (onde fizeram muitos adeptos entre os presbiterianos), na Inglaterra (puritanos, quakers e outros), na Holanda (reformados) e na França (onde ficaram conhecidos pejorativamente como huguenotes). HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE III Igreja Anglicana e a Reforma na Inglaterra A Reforma Religiosa foi um processo de oposição à Igreja Católica que ocorreu em diversas regiões do continente europeu. Geralmente estudamos três principais casos de Reforma Religiosa no século XVI: a Luterana, a Calvinista e a Inglesa (Anglicana). Diferentemente das demais, a Reforma Religiosa na Inglaterra ocorreu a partir da iniciativa de um rei, e não de teólogos críticos às doutrinas e práticas do clero católico. O motivo que levou o soberano inglês Henrique VIII (1491 – 1547) a se desligar da Igreja de Roma foi a não aceitação de seu pedido de divórcio enviado ao papa Clemente VII. Henrique VIII era casado com Catarina de Aragão, nobre de origem espanhola. O motivo do pedido seria o fato de sua esposa não lhe dar um filho homem, situação que impossibilitava ao soberano inglês deixar em seu lugar no trono da Inglaterra um descendente seu. Dos seis filhos de Catarina, apenas a princesa Maria sobreviveu. O interesse de Henrique VIII era casar com Ana Bolena, uma dama da corte da Inglaterra, e com ela poder ter um filho que o sucederia. Como não foi aceito o pedido pelo papa, o rei inglês declarou seu divórcio da rainha através de um tribunal nacional, em 1533. Um ano depois, Henrique VIII foi excomungado por Clemente VII. Porém, não foi apenas a não aceitação do divórcio pelo papa que levou Henrique VIII a romper com a Igreja Católica. Problemas políticos entre Inglaterra e Roma vinham desde a Guerra dos Cem Anos (1337-1453),quando os altos dignitários católicos, localizados em Avignon, estavam mais próximos dos franceses que dos ingleses, durante o chamado Cisma do Ocidente. Havia ainda sérias críticas ao clero católico na Inglaterra desde ao menos o final do século XV, cujo principal expoente foi John Wycliff. Tais críticas eram tanto doutrinárias quanto sobre o comportamento luxuoso dos clérigos católicos em momentos de penúria econômica da sociedade inglesa. Após Henrique VIII ser excomungado, foi decretado na Inglaterra o Ato de Supremacia, pelo qual o soberano inglês passava a ser o chefe supremo da Igreja da Inglaterra. Com essa medida, era criada a chamada Igreja Anglicana. O rei inglês passava a ter o poder de nomear os ocupantes dos cargos eclesiásticos, além de decidir sobre assuntos de ordem religiosa. A estrutura eclesiástica foi mantida, adotando-se, porém, posteriormente, a doutrina teológica desenvolvida por João Calvino. No aspecto econômico, o Estado Inglês confiscou todos os bens da Igreja Católica, principalmente as terras dos mosteiros, que foram vendidas a vários nobres, comerciantes e fazendeiros. Tais medidas agradaram aos gentry, membros da pequena nobreza ligados ao comércio e às atividades econômicas do nascente capitalismo. Por ironia dos acontecimentos, Henrique VIII não conseguiu ter um filho homem com Ana Bolena. A filha do casal, Elizabeth, tornar-se-ia rainha anos depois. Ana Bolena foi acusada de traição extraconjugal, condenada e decapitada em 1536. Henrique VIII ainda se casou mais quatro vezes, sendo que no terceiro casamento, com Joana Seymour conseguiu ter um filho homem, Eduardo, que o sucederia. Seu quinto casamento também terminou de forma trágica, já que sua esposa Catarina de Howard foi também decapitada em decorrência de ações extraconjugais. Os contemporâneos de Henrique VIII, durante seu auge, consideraram Henrique um rei atraente, bem educado e realizado, e ele já foi descrito como "um dos governantes mais carismáticos a ocupar o trono inglês". Além de reinar com poder considerável, Henrique também escrevia e compunha. Seu desejo de ter um herdeiro homem – em parte por causa de sua vaidade pessoal, por acreditar que uma mulher não seria capaz de consolidar a dinastia Tudor – levaram às duas coisas pelas quais Henrique é mais lembrado: seus seis casamentos e a Reforma Inglesa. Ele tornou-se obeso mórbido e com saúde fraca, contribuindo para sua morte em 1547. Ele é frequentemente caracterizado ao final de sua vida como concupiscente, egoísta, severo e inseguro. O anglicanismo consolidar-se-ia na Inglaterra apenas com o reinado de Elizabeth I (1558-1603), depois de sua irmã Maria Tudor tentar restaurar o catolicismo no reino. O CONCÍLIO DE TRENTO (A CONTRARREFORMA). O Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, foi o 19º Concílio Ecumênico da Igreja Católica. Foi convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade da fé e a disciplina eclesiástica. Também foi guiado por outros Papas, Júlio III, Paulo IV, Pio V, Gregório XIII e Sisto V, com a duração de 18 anos no contexto da reação à divisão então vivida na Europa devido à Reforma Protestante, razão pela qual é denominado também de Concílio da Contrarreforma. Contexto histórico e objetivos. O Concílio de Trento foi uma reação da Igreja Católica à Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero na primeira metade do século XVI. Com o crescimento do protestantismo na Europa, a Igreja Católica buscou uma reação, que ficou conhecida historicamente como Contrarreforma. Dentro deste contexto, o Concilio de Trento buscou condenar as novas doutrinas protestantes, além de reafirmar os dogmas da fé católica. Muitas das decisões tomadas pela Igreja Católica foram no sentido de combater as ideias protestantes, muitas delas consideradas heréticas. Vários decretos disciplinares também foram aprovados pelo concílio, visando principalmente à moralidade e a adoção de medidas para melhorar o nível de instrução dos membros do clero (principalmente padres). O Concílio Tridentino foi convocado pelo papa Paulo III com a bula Laetare Jerusalem (19-11-1544) e aberto em 13 de dezembro de 1545. A bula papal destinava ao concílio as seguintes tarefas: a condenação dos erros em matéria de fé, a reforma dos abusos, a reconstituição da unidade da Igreja, a cruzada contra os turcos. Tiveram direito a voto (com o método de votação por cabeça) os cardeais, os bispos residenciais, os gerais das Ordens religiosas e os representantes das congregações monásticas. Estiveram presentes, embora sem direito a voto, numerosos teólogos, representantes das mais diversas correntes teológicas, e os embaixadores dos príncipes católicos. Os trabalhos do concílio articularam-se mediante as congregações dos teólogos (reuniões de caráter privado e meramente consultivo), as congregações gerais dos padres (em que cada qual com direito a voto exprimia o seu parecer acerca das propostas de dogma ou de reforma) e as sessões solenes, que sempre ocorreram na catedral de Trento e em que se votavam definitivamente os decretos convencionados. Das dez sessões solenes desse primeiro período (oito em Trento e duas em Bolonha), a mais importante foi à quarta (8-4-1546), em que foi promulgado o decreto sobre a Sagrada Escritura (da qual foi estabelecido o cânon) e sobre as tradições apostólicas orais que devem ser acolhidas com a mesma reverência que a Sagrada Escritura. Na mesma sessão, foi aprovado o decreto sobre a edição Vulgata da Bíblia, ou seja, foi decidida a atribuição de autenticidade jurídica à tradução latina da Bíblia realizada por são Jerônimo, que a Igreja já utilizava havia séculos. Na quinta sessão (17-6-1546), foi aprovado o decreto sobre o pecado original voltado tanto contra algumas instâncias otimistas pelagianas como contra o pessimismo luterano que afirmava que o pecado original permanecia mesmo após o batismo. Na sexta sessão (13-1-1547), foi aprovado o decreto sobre a justificação, estruturado em 16 capítulos, em que se expunha a doutrina a ser aceita como verdadeira e, em 33 cânones, em que se condenavam os erros. Esse decreto, um dos mais importantes do Concílio Tridentino, constitui a resposta do magistério da Igreja à doutrina da graça e da justificação de Lutero e enfatiza que, na obra de justificação, a vontade humana atua juntamente com a graça divina, rejeitando assim a noção protestante de justiça puramente imputada. Na sétima sessão (3-3-1547), foi aprovado por unanimidade o decreto sobre os sacramentos, sinais eficazes da graça instituídos por Cristo, para os quais se reforçou o número de sete sacramentos. Além desses decretos dogmáticos, nesse primeiro período do concílio também foram aprovados alguns decretos de reforma, como os que versavam sobre a obrigação de residência dos bispos, a atribuição de benefícios eclesiásticos e o ensino de teologia e da Sagrada Escritura nas catedrais e nos conventos. Paulo III decreta a suspensão do Concílio de Trento Inaugurado com a presença de 31 bispos, a maioria italianos, sob a presidência dos legados papais, os cardeais Giovanni del Monte, Marcello Cervini e o inglês Reginald Pole, o Concílio de Trento foi suspenso por Paulo III em 1549, em decorrência da epidemia de tifo petequial e da transferência do concílio para Bolonha, também com o objetivo de subtrair-se à excessiva ingerência de Carlos V. Reabertura do Concílio de Trento Reaberto em 1551, após a suspensão, pelo papa Júlio III, sucessor de Paulo III, o Concílio de Trento chega a ter seis sessões solenes, mas é novamente suspenso em abril de 1552, devido ao fracasso das negociações com os protestantes e à traição de Maurício da Saxônia, que passara a apoiar os franceses. Contudo, no decorrer dessas sessões, o Concílio não deixou de discutir e aprovar importantes decretos, como os que versavam sobre a presença real de Cristo na Eucaristia (doutrina da transubstanciação), sobre a penitência (necessidade da confissão auricular) e sobre a extrema-unção. Com Pio IV termina a última convocação do Concílio de Trento (1562-1563).O Concílio de Trento foi retomado novamente, sobretudo graças ao papa Pio IV, sucessor de Paulo IV. Caracterizado por uma presença cada vez maior de padres, nesse terceiro período do Concílio foram realizadas nove sessões solenes. Na de 26 de fevereiro de 1562 (a XVIII sessão solene do Concílio), foi promulgado um decreto determinando a redação de um novo Índice de livros proibidos. Na sessão de 16 de julho de 1562 (a XXI), foi aprovado o decreto sobre a comunhão “sub utraque specie”, que afirmava a presença real de Cristo sob cada uma das duas espécies do pão e do vinho. Na XXII sessão, de 17 de setembro, tratou-se do sacrifício da missa. Na sessão de 15 de julho de 1563 (a XXIII), a mais frequentada, discutiu-se o sacramento da ordem sagrada. Dentre outros, destaca- se o cânon XVIII com o qual foram instituídos os seminários diocesanos para a formação intelectual e pastoral dos chamados ao sacerdócio. Na XXIV sessão, de 11 de novembro de 1563, foram promulgados um decreto dogmático sobre o sacramento do matrimônio e numerosos decretos disciplinares referentes aos sínodos diocesanos anuais, aos concílios provinciais trienais, às visitas pastorais, à pregação, à instrução religiosa do povo, à atribuição de benefícios eclesiásticos. A última sessão solene (a XXV) estendeu-se excepcionalmente por dois dias, de 3 a 4 de dezembro de 1563, e abordou questões dogmáticas relativas ao purgatório, às indulgências, ao culto aos santos, à veneração das imagens de Cristo, de Nossa Senhora e dos santos, além de várias questões disciplinares. A assembleia conciliar foi encerrada pelo cardeal Morone, que teve papel importante no projeto de reforma desse terceiro período do Concílio, cabendo ao papa Pio IV aprovar todos os decretos conciliares, conferindo-lhes força de lei. Em 13 de novembro de 1564, o próprio papa publicou a “Professio fidei tridentina” com uma profissão de fé relativa a todas as decisões dogmáticas do Concílio e uma promessa de obediência à Santa Sé. Decisões do Concílio de Trento. - Condenação à venda de indulgências (um dos principais motivos da Reforma Protestante, que foi duramente questionada por Martinho Lutero). - Confirmação do principio da salvação pelas obras e pela fé. - Ressaltou a importância da missa dentro da liturgia católica. - Confirmou o culto aos santos e à Virgem Maria. - Reativação da Inquisição (Tribunal do Santo Ofício). - Reafirmou a doutrina da infalibilidade papal. - Confirmou a existência do purgatório. - Confirmação dos sete sacramentos. - Proibição do casamento para os membros clero (celibato clerical). - Criação de seminários para a formação de sacerdotes. - Confirmação da indissolubilidade do casamento. - Medidas e decretos visando à unidade católica e o fortalecimento da hierarquia. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE IV CIÊNCIAS ECLESIÁSTICAS — CONTROVÉRSIAS TEOLÓGICAS Revolução religiosa e cultura antieclesiástica CIÊNCIAS ECLESIÁSTICAS — CONTROVÉRSIAS TEOLÓGICAS Reflorescimento das ciências — Literatura religiosa Uma das mais belas manifestações da vida católica, no princípio da idade moderna, foi o reflorescimento das ciências teológicas. A própria pseudo-reforma lhes deu novo impulso; pois os ataques dos inovadores obrigaram os teólogos católicos a examinar c fundamentar mais solidamente os pontos principais da sua doutrina. Ainda mais feliz e eficaz foi o trabalho grandioso das diversas comissões do concilio tridentino. O humanismo que, nos decênios anteriores, tinha sido causa da dissolução, fez-se agora instrumento exímio da teologia. Foi principalmente na Espanha e na Itália, em segundo lugar também tia França c na Bélgica, que a nova vida científica começou a prosperar. Dominicanos, franciscanos e jesuítas foram os seus maiores representantes. Segundo assunto e forma podemos distinguir cinco espécies de trabalhos teológicos: exegéticos, apologético-polêmicos, escolásticos, místicos e histórico-patrísticas. Os estudos exegéticos já eram cultivados com êxito antes da reforma protestante. O espírito crítico do humanismo e o estudo das línguas grega e hebraica tiveram um resultado salutar. As controvérsias sobre o princípio escriturístico dos protestantes lhe deram mais um forte impulso. “E os decretos tridentinos sobre cânon, inspiração contexto autêntico deram lhe as diretrizes e inauguraram o ‘‘século áureo da exegese católica”. Foram base dos estudos as melhores edições que se fizeram no século XVI: a compiutense do cardial Ximenes (151417), o Novo Testamento de Erasmo de Roterdam (1516) e a Vulgata Sixto- Clementina. Distinguiram-se entre os exegetas os jesuítas espanhóis Afonso Salmeron (m. 1586), João Maldonado (m. 1583) e Francisco Toledo (ni. 1596), os flamengos Guilherme van Esf (m. 1613) e Cornélio vanden Steen (a Lapide, m. 1637), e os italianos Xisto de Sena O. P. e Antônio Possevino S. J. (m. 1611). Os seus trabalhos foram tão profundos e tão vastos que séculos inteiros se alimentaram de seus frutos. No tempo da pseudo-reforma eram naturalmente de principal interesse a apologética a polêmica. Também este ramo da teologia teve, desde o princípio, exímios representantes. Os primeiros foram João Eck e todos os teólogos católicos que defenderam a Igreja contra os inovadores da Alemanha e da Inglaterra, na primeira metade do século XVI. Na segunda metade do século, tornaram-se baluartes da Igreja o cardial-bispo Hósio de Ermlándia (m. 1579), são Pedro Canisio (m. 1597), Possevino e, mais do que todos, o cardial Roberto Belarmino (1542-1621). Este ilustre príncipe da igreja nascera de antiga família italiana, entrou na companhia de Jesus, lecionou cm Lovaina e Roma e foi, em 1559, criado cardial. Pio XI elevou-o às honras dos altares (1923), inscreveu o seu nome no catálogo dos santos (1930) proclamou-o doutor da Igreja (1931). Os três volumes das suas Dispiitationes de controvórsiis christianae fidei (ed. Ingolst. 1586-93) foram, por longo tempo, a obra mais eminente deste gênero e ponto central das controvérsias entre católicos e protestantes. A teologia especulativa e sistemática deve a sua restauração ao cardial Caetano e, principalmente, aos teólogos espanhóis Francisco de Vitória (ni. 1546), pai da escola dominicana de Salamanca, e a seus discípulos Melquior Cano (ni. 1560), fundador da nova metodologia teológica e da teologia fundamental (Loci theologici), e Domingos de Soto (m. 1560). Baseavam-se nos princípios filosóficos e teológicos dos grandes escolásticos do século XIII, Os próprios papas lhes mostraram o caminho, declarando santo Tomas de Aquino (1567) e são Boaventura (1587) doutores da Igreja. Grande influencia exercia João Duns Scoto. Os jesuítas, embora votassem profunda veneração ao Aquinate, adotaram, todavia certo ecletismo, o que deu motivo a uma viva reação e acaloradas e pouco frutíferas controvérsias. Assim, pois, se agrupam os dogmáticos deste período nas escolas das três ordens principais. A escola tomística teve à frente os discípulos imediatos e mediatos de Francisco de Vitória, Domingos Baiáez (m.1604) e Bartotomeu de Medina (m. 1581) são os mais notáveis. As suas obras se completam, formando um todo. A sua doutrina é considerada como tipo clássico da teologia tomística. Seguiram-nos os carmelitas reformados que, no Cursus Salmanticensis in Summam Sancti Thomae (! 5 vol.), nos deram a obra mais grandiosa e mais perfeita da escola. A escola franciscana do escotismo teve igualmente grande florescimento, iniciado pelo irlandês Lucas Wadding (m.1637), autor dos Annales Mhmrum. Criou em Roma o colégio de Santo Isidoro como centro da filosofia e teologia escotística e fez aparecer uma coleção completa das obras de Duns Scoto. Numerosos teólogos da Espanha e da Itália seguiram o grande mestre. Parecia mesmo, por algum tempo, que o escotismo ia tomar a dianteira às demais escolas, dizendo o teólogo cisterciense Caramuel: “Scoti schola numerosior est aliis sirmil sumptis”. A escola dos jesuítas é filha da escola de Salamanca. O cardial Francisco Toledo, já conhecido comogrande exegeta, fora discípulo de Domingos Soto. Foi ele que transplantou o método daquela escola ao colégio romano. Seguiram no caminho por ele indicado Gregório de Valência, Gabriel Vasquez (m. 1604), Diogo Ruiz de Montoya (m. 1632) e Francisco Suarez, todos espanhóis. O maior de todos eles é talvez o maior teólogo post-tridentino foi Francisco Suarez (1548-1617). Nascido em Granada de antiga família de cavaleiros visigóticos que, repetidas vezes, se distinguira nas lutas contra os mouros da Espanha, entrou na companhia de Jesus e foi, em 1597, por Felipe II chamado à universidade de Coimbra. Foi ali que, nos últimos vinte anos da sua vida, a sua atividade teológica atingiu o apogeu. Suarez foi um gênio universalista. Diversos papas o chamaram “Doctor eximius”. Bossuef o designa como teólogo “dans lequel on entend toute Lécole moderno”. Por seus tratados metafísicos influenciou até as universidades protestantes da Alemanha e dos Países Baixos, e sua sociologia é acolhida, até em nossos dias, com crescente simpatia. À mesma escala pertencem ainda os espanhóis Luiz Molina (cfr. § 159), José Martínez de Ripalda (m. 1648) e João de Lugo (m. 1660), o italiano Pedro Sforza Pallavicmi (m.1667), historiador do concilio tridentino, o belga Leonardo Léssio (cfr, § 159) e o alemão Adão Tunner (m. 1632), digno discípulo de Gregório de Valência. O jesuíta francês Dionísio Peíau (m, 1652) lançou, pelos cinco' volumes do seu De theologicis dogmatibus (ed. Paris 1644-50), o fundamento da história do dogma. Dez anos depois da morte de Suarez, nasceu o mais célebre teólogo da época de Luiz XIV, jaeques Bénigne Bossuet (m. 1704). Discípulo dos jesuítas em Dijon; estudou mais tarde filosofia e teologia em Paris. Conhecedor exímio, dos Santos Padres, tornou- se estrênuo defensor da Igreja contra os protestantes. A esta luta serviram os seus escritos Exposition de la dodríne catholique sur les matières des controverses (1671) e Histoire des variations des èglises protestantes (1688). Combateu também o quietismo e imortalizou o seu nome particularmente como grande orador sacro. Pio X chamou-o “gênio cristão, glória da França e da humanidade” (AAS 1911, 405-06). A teologia moral era tratada, como na idade média, juntamente com a dogmática, sendo os maiores dogmáticos também grandes moralistas. Mas, desde fins do século XVI, formou- se uma disciplina à parte, acentuando-se, mais e mais, o tratamento casuístico, não sem excessos e defeitos. Daí nasceram vivas e acaloradas controvérsias entre os diversos sistemas do laxíssimo, condenado pelos papas Alexandre VII e Inocêncio XI (DB 1101 ss), e do rigorismo, condenado por Alexandre VIU (1b. 1291 ss). O probabilismo, fundado pelo dominicano espanhol Bartolomeu de Medina (m. 1581) e adotado, em seguida, pelos jesuítas, foi combatido pelos jansenistas rigoristas e pelos dominicanos tucioristas. Mais tarde, Afonso de Ligório (m. 1787) fundou o equiprobabilismo, procurando mediar entre os extremos. O direito canônico teve o seu florescimento no fim do século XVII e no principio do século XVIII, sendo os seus representantes mais dignos o franciscano Reífíenstuh e o jesuíta Schmalzgruber. A teologia histórica, tão negligenciada na idade média, teve, neste período, um belo florescimento em todos os seus ramos. Despertara, no tempo do humanismo, a crítica histórica, c os inovadores obrigaram os católicos a defenderem a Igreja pela história. Os primeiros representantes da arqueologia cristã são o eremita agostiniano Onófrio Panvini (m. 1568) e o sacerdote secular Antônio Bosio (m. 1629), que imortalizou o seu nome pela célebre Roma sotterranea. 0 piedoso cardial oratoriano Cesário Barônio (ni. 1607), prefeito da biblioteca vaticana. opôs aos centuriões magdeburgenses os doze volumes de seus Annales ecclesiastici (ed. Roma 15S8-1617). O cardial Bellarmino publicou uma rica história literária, De scríptoribus ecclesiasticis (ed. Roma 1613). O cartuxo Lourenço Surius compilou a Vida dos santos. Um centro admiravel de estudos históricos foi à congregação beneditina dos maurinos. O abade Lucas d’Achéry deu a seus monges as diretrizes. O maior de entre eles foi João MabiHon (m. 1707) que, nos Ada Sandorum 0. 5 B.(9 vol.) e Annales O. S. B. (6 vol.) escreveu a primeira história crítica da sua ordem. Outros historiadores eminentes da escola foram Thierry Ruinart (m. 1709), Pierrc Coustant, Bernard de Montfaucon, Pierre Sabatier. Tillemont (m. 1698), Ughelli (m. 1670) e Fleury (m. 1723) imitaram-lhes o exemplo. Os dominicanos Noel e Orsi e muitos outros pertencem, pela maior parte da sua vida, ao século XVII1. A eloquência sacra celebrou os seus triunfos mais belos na França, sendo os mais brilhantes oradores os bispos Bossueí, Fénelon e Massillon, e o jesuíta Bourdaloue. Na Alemanha fez ouvir a sua voz original e espirituosa o eremita descalço de santo Agostinho Abraão a Sancta Ciará (m, 1709), Também o capuchinho Martinho de Cochem (m. 1712) desenvolveu uma atividade abençoada por suas pregações e livros. Na Itália floresceram o grande jesuíta Paulo Segneri (m. 1694) e o capuchinho Marcos de Aviano. Finalmente, também a literatura ascético-mística produziu flores magníficas, sobretudo na Espanha. As figuras mais eminentes da mística moderna pertencem à ordem dos carmelitas descalços. Santa Teresa de Jesus (m. 1582) é a poetisa clássica da Espanha, e seu amigo espiritual são João da Cruz (m. 1591) é um dos mais brilhantes poetas místicos de todos os tempos (cfr. § 146). Muitos outros carmelitas poderiam ser aqui enumerados. Entre os escritores místicos da ordem beneditina têm o primeiro lugar Garcia dc Cisncros (m. 1510) e o grande Luiz Blósio (m. 1566). A ordem dominicana é representada por Luiz de Granada (nr. 1588), Bartolomeu dos Mártires (tn. 1590) e Luiz Chardon. Os franciscanos possuem a mística ardente cie João dos Anjos (m. 1609) e o precioso livrinho Oração e meditação de são Pedro de Alcântara (m. 1562). Os jesuítas, finalmente, chamam seu primeiro escritor ascético-místico o próprio fundador, santo Inácio, cujo livro de exercícios é na literatura moderna o que foi a Imitação de Cristo na idade média. Entre seus filhos espirituais têm maior importância para a história da mística Luiz da Ponte (m. 1620) e João Batista Scaramelli (m. 1752). Na França floresceram, além de são Francisco de Sales (cfr. § 146), o cardial Pedro de Bérulle (m. 1629), Jean Jacques Olier (m. 1657), São João Eudes (m. 1680) e Luiz Grignion de Montfort (m. 1716). A Alemanha têm os seus Frederico de Spee (m. 1635) e Balde, ambos jesuítas, e o meigo Scheffler, chamado Ângelo Silésio, convertido ao catolicismo e sacerdote, que imortalizou o seu nome por seus maravilhosos cânticos místicos, lembrando neles o grande mestre Ecardo (StZ 111 (1926) 361-81). Controvérsias teológicas: baiatfiismo e molinismo. Os erros dos protestantes no tocante ao estado primitivo do homem, à graça, ao livre arbítrio e à predestinação deu aos teólogos católicos motivo para consagrarem sua especial atenção a estes pontos do dogma a. E corno os protestantes invocassem em defesa da sua doutrina a autoridade de santo Agostinho, as obras do g reande bispo de Hipona tornaram-se novamente objeto de acaloradas discussões também na Igreja católica. O tridentino declarara que as boas obras meritórias são operadas pela graça c pelo livre arbítrio. Mas não resolvera precisamente o problema central sobre a cooperação dos dois fatores da salvação. O estudo desta questão levou a veementes controvérsias, sendo os partidos opostos chefiados, na primeira fase da luta, por Baio & Léssio, na segunda, por Baiiez e Molina. Miguel Baio (1513-89), dominicano, desde 1552 lente de exegese e desde 1578 chanceler da universidade de Lovaina, tentou reformar o método escolástico então em voga na universidade. Em lugar da dialética escolástica quis acentuar mais a Sagrada Escritura e as obras dos Santos Padres para, de preferência, nelas fundamentar o dogma católico. Principal norma devia ser santo Agostinho. Opinando ter-se a escolásticaafastado da doutrina dos Santos Padres também no tocante ao objeto, especialmente, mas questões antropológicas julgava necessária igualmente uma reforma doutrinária da teologia. Pretendia assim reconciliar mais facilmente os inovadores com a Igreja. Mas o estudo unilateral dos livros antipelagianos de santo Agostinho levou-o a um hiper-augustinismo, semelhante ao de Lutero e de Calvino. A sua doutrina não é um sistema orgânico. Consiste tão somente em algumas proposições expostas em diversos escritos sobre questões antropológicas. Seu erro fundamental consiste em negar o caráter sobrenatural da graça no paraíso, afirmando que os dons sobrenaturais pertencem à essência da natureza humana. Daí se segue a completa corrupção da natureza humana pelo pecado original. O homem, se não tivesse pecado, teria alcançado a bem- aventurança como puro merecimento, enquanto que depois do pecado, por suas próprias forças, não pode senão pecar, nem dispor-se a receber a graça. Tudo é obra da graça. Esta, por seu lado, é irresistível. A liberdade moral exclui somente a violência externa, não a necessidade interna. Tal doutrina encontrou não poucos admiradores, mas ainda mais adversários. Principalmente se declararam contra ela os lentes Tapper e Ravesteyn de Lovaina que, voltando em 1552 de Trento, se uniram aos franciscanos da Bélgica, e estes conseguiram que a Sorbona censurasse dezoito proposições, tiradas dos escritos de Baio (1560). Com isto se agravou a controvérsia. Como Baio desenvolvesse as suas opiniões em diversos tratados, os franciscanos apresentaram 79 proposições ao papa Pio V, pedindo a sua condenação. O papa condenou realmente as ditas proposições, algumas como heréticas outras como errôneas, suspeitas, temerárias e escandalosas, pela bula Ex omnibus afflictioniluis de Io de outubro de 1567 (DB 1001 ss), sem nomear o autor e sem publicar a bula. , Os amigos de Baio, porém, ora negavam a identidade das proposições condenadas, ora a autenticidade da bula, ora procuravam tirar-lhe a eficácia pela posição arbitrária de uma vírgula (Comma Pianum). Por isso, Gregório XIII renovou a sentença, em 1580, e Baio finalmente se submeteu. Mas a doutrina não desapareceu completamente; ressurgiu mais tarde na forma do jansenismo (LThK I 922), Em oposição a Baio, o jesuíta Léssio (1554-1623), igualmente lente de teologia em Lovaina, parecia exaltar demasiadamente a liberdade humana e diminuir o valor da graça divina. Deus dá, segundo ele, a todos os homens a graça suficiente, necessária para que se convertam. Mas a vontade humana é a única razão pela qual a graça suficiente se transforma ou não em graça eficaz. Intrinsecamente não há diferença entre elas. Os amigos de Baio conseguiram fossem censuradas, pelas universidades de Lovaina e de Douai, trinta e quatro proposições de Léssio. Este apresentou, no entanto, uma apologia da sua doutrina em Roma. Xisto V instituiu uma comissão para tratar da questão, mas não pronunciou uma sentença definitiva, proibindo tão somente às duas partes censurarem-se mutuamente. Muito mais acalorada se tornou a controvérsia que sobre o mesmo assunto se moveu na Espanha entre os jesuítas e os dominicanos. Estes, chefiados por Domingos Banez (1528-1604), baseando-se em santo Tomaz de Aquino, estabeleceram a chamada praemotio (natura prius) ou praedeterminatio physica da vontade humana para, por meio dela, explicar a eficácia infalível da graça. As teses principais de Bariez são as seguintes: 1) Deus é a causa prima de todo o ser e de todo o agir. E’ ele quem determina todas as causas secundárias. 2) Deus determina a vontade humana por sua graça (infusa) de tal maneira que esta é eficaz por si mesma (gratia efficax est ex se efficax et physice voluntatem determinans). 3) Não se nega a liberdade humana. Esta é determinada intrinsecamente pela graça. Mas tal determinação se realiza conforme a natureza da vontade que é livre. 4) A predestinação depende unicamente da vontade absoluta de Deus que, como causa principal, não pode ser determinada por outra causa alguma. O jesuíta português Pedro Fonseca (m. 1599) julgou ter achado um meio de harmonizar a eficácia da graça com a liberdade humana na teoria da scientia media ou scientia conditionate futurorum. E' esta uma ciência que se julga estar no meio entre as duas formas do conhecimento divino admitidas pelos escolásticos, scientia visionis, ou seja, conhecimento das coisas reais e scientia simplicis intelligentiae, ou seja, conhecimento das coisas puramente possíveis. Esta teoria teve grande aceitação, quando o jesuíta espanhol Luiz Molina (1535-1600), discípulo de Fonseca e lente em Évora, publicou a sua obra principal: Liberi arbitriiciini pratiae donis... concórdia (Ulissiponae 1588). Como Lessio, assim também Molina afirma que Deus concede a todos a graça suficiente. Mas, para que a graça suficiente passe a ser eficaz, devem cooperar graça e vontade humana. Não existe uma diferença real entre a graça suficiente e a graça eficaz (efficacia gratiae ab extrinseco sive per accilens). Molina não reconhece, portanto, a causalidade divina ia forma banezista, mas ensina a teoria do concursus divinus dmultaneus. O problema da predestinação, Molina pretende resolvê-lo por meio da ciência média. Deus não predetermina, mas sabe ab aeterno o que o homem faria, se estivesse em determinadas condições. Aos que prevê cooperariam com a graça concede a graça eficaz, aos outros só lhes infunde uma graça suficiente (aliis parcius, aliis abundantius, omnibus tamen sufficienter ad saltitem). Esta doutrina foi aceita por muitos e é hoje ainda, no essencial, a doutrina dos jesuitas, na forma do congruíssimo, formado por Suarez e Belarmino e prescrita à companhia de Jesus pelo geral Aquaviva (1613). Os dominicanos, pelo contrário, julgavam ver nela, como na doutrina de Léssio, uma espécie de semipelagianismo, que exaltava a liberdade humana à custa da graça divina, e um desprezo da autoridade de Agostinho e de Tomaz de Aquino. E logo se agitaram de tal modo os espíritos opostos, que Clemente VIII se viu obrigado a intervir, reservando-se a solução da disputa. Em 1598, instituiu o papa uma comissão, a chamada Congregatio de auxiliis divinae gratiae, cuja primeira decisão foi favorável a Baitez. Como, porém, não faltassem votos em favor de Molina, o papa não consentiu na condenação deste. Dispôs, pelo contrário, se fizessem conferências entre ambas as partes. For influência de Belarmino foi-se avigorando, cada vez mais, á opinião favorável a Molina. Para proceder com segurança, Clemente VIU resolveu fazer examinar o problema em sua presença (1602). Mas o exame não teve resultado. Paulo V pôs termo, finalmente, ao processo (1607), proibindo aos dois partidos de censurar como herética a opinião oposta, com o que deu liberdade de se professarem ambas as teorias (DB 1090). HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE V I. O JANSENISMO. Mestre Janson, um professor da Universidade de Louvain, continuou a difundir secretamente as ideias de Baio, querendo combater os jesuítas (especialmente Lessio), que pareciam dar preponderância as forças humanas na conquista da salvação eterna. Mestre Janson encontrou dois discípulos famosos: o holandês Cornélio Jansenius e o francês Duvergier de Hauranne. O primeiro se tornou professor de Teologia na Universidade de Louvain (1617) e morreu como bispo de Ypres (1638). Hauranne foi nomeado abade comendatário de Saint-Cyran e procurava influenciar o público pela direção de consciência e a publicação de escritos anônimos e pseudônimos. Ao morrer, Jansenius deixou seu livro “Augustinus” inédito, que saiu em edição póstuma em 1640, sem a autorização de Roma e à revelia dos jesuítas. Era uma reafirmação dos erros, de Baio sob o manto de S. Agostinho; o autor lera trinta vezes todos os escritos de Agostinho contra os pelagianos e trabalhara vinte anos na redação respectiva; professava logo no início do livro submissão à Santa Sé e a infalibilidade do Papa. O Augustinus. Desde que tomou contato com S. Agostinhoe a sua doutrina sobre a graça (muito marcada pela polêmica contra o pelagianismo), Jansenius pensou em escrever uma obra onde expusesse e defendesse com clareza a doutrina do grande Doutor. Durante anos ocupou-se da composição desta obra, que nunca cessou de rever e corrigir, ao longo dos anos, inclusive enquanto bispo de Ypres. Esta obra, intensamente burilada, foi entregue, após a morte do seu autor, pelos seus amigos, para ser publicada. Apesar da oposição dos jesuítas, a obra foi efetivamente publicada na Holanda, em 1640, propagando-se com rapidez para a Alemanha e para outros países. Alcançou bastante sucesso e foi louvada inclusivamente pelos calvinistas, de tal modo que alguns chegaram a ver nesta obra a base duma união entre calvinismo e catolicismo. A obra de Cornelius Jansenius tem por título completo Augustinus, seu doctrina Sancti Augustini de humanae naturae, sanitate, aegritudine, medicina adversus Pelagianos et Massilienses, e divide-se em três tomos. Apresentava um total de cerca de 1300 páginas, em duas colunas de letra pequena. No primeiro tomo, constituído por oito livros, expõe-se a história do pelagianismo e do semipelagianismo, refutando cuidadosamente, com minúcia, todos os seus pontos (e fazendo sub-repticiamente um paralelo entre os semipelagianos e os jesuítas). Nos nove livros do tomo II, após analisar as relações entre a filosofia e a teologia e criticar com dureza os escolásticos e a filosofia aristotélica exaltando a autoridade de S. Agostinho, peça fundamental do seu método teológico, o autor descreve o estado de graça e a liberdade do homem original, assim como a essência do pecado original e as suas consequências, nomeadamente a concupiscência e a diminuição do livre arbítrio. De seguida, nega a possibilidade do estado de natureza pura e declara a impossibilidade de o homem poder amar a Deus naturalmente. O tomo III, nos seus dez livros, contém a parte principal da obra. Jansen reflete agora sobre o modo de sanar a natureza humana e de ela recuperar a liberdade através da redenção de Cristo. A este propósito, a tese de Jansen é a de que a graça é ativa e eficaz de modo infalível, sem que isso destrua, porém, a liberdade do homem. Nega ainda à vontade salvífica universal e a possibilidade de observar certos mandamentos. Ocupa-se também do livre arbítrio, da conciliação entre liberdade e graça, da predestinação e das diferenças entre a doutrina de S. Agostinho e a de Calvino. Termina com uma síntese dos erros de vários teólogos modernos, particularmente jesuítas, estabelecendo um paralelo entre estes e os hereges massilienses. A Condenação do Jansenismo. Em 1642 Urbano VIII proibiu a leitura dessa obra. os amigos de Jansenius tomaram isto como um ataque à doutrina de S. Agostinho. Saint-Cyran procurou ganhar para a sua causa os círculos influentes: conseguiu a adesão do famoso teólogo Antonius Arnauld (t 1694) e das monjas cistercienses de Port-Royal (perto de Paris), das quais Saint-Cyran era confessor e cuja abadessa, Angélica, era irmã de Antonius Arnauld. Formou-se aos poucos um partido jansenista, que tinha seus principais adversários entre os jesuítas: estes eram tidos como semipelagianos e laxistas pelos adeptos de Jansenius. Visando a defender sua causa, A. Arnauld publicou em 1643 um livrinho “Sobre a Comunhão Frequente”, em que combatia a recepção amiudada dos sacramentos recomendada pelos jesuítas; estabelecia condições rigorosas para que alguém pudesse receber a Eucaristia ou mesmo a absolvição dos pecados (a comunhão seria prêmio da virtude praticada pelo cristão); o autor julgava estar assim restaurando a disciplina da antiga Igreja. Teve grande sucesso; o Parlamento de Paris colocou-se ao lado dos jansenistas. A situação foi levada ao conhecimento da Santa Sé com o pedido de intervenção. Depois de longas deliberações, o Papa Inocêncio X, na Bula Cum occasione de 31/05/1653, condenava como heréticas as cinco proposições seguintes, tiradas do “Augustinus”: 1. Alguns preceitos de Deus são impraticáveis mesmo para os homens justos e de boa vontade, que tentem cumpri-los segundo suas forças. Falta a esses homens a graça que tome os mandamentos exequíveis. 2. Nas condições da natureza decaída, nunca alguém pode resistir à graça Interior. 3. Para merecer e desmerecer no estado da natureza decaída, não é necessária liberdade interior, mas basta a isenção de coação extrínseca. 4. O homem nunca pode resistir à graça de Deus. 5. Cristo não morreu por todos os homens. Esta condenação não pôs termo aos debates. Arnauld e seus amigos reconheceram o caráter herético das sentenças condenadas, mas negaram que elas fossem à doutrina de Jansenius; o Papa as teria entendido em sentido calvinista, que não era o sentido de Jansenius. o Papa, porém, declarou que quisera condenar a doutrina de Jansenius como tal. os jansenistas replicaram, distinguindo “questão de direito” e “questão de fato”: a Igreja, diziam, é infalível ao decidir se uma doutrina em si é herética ou não, mas não é infalível ao julgar um mero fato histórico, isto é, se um teólogo proferiu esta ou aquela doutrina; neste último caso, a Igreja não poderia exigir um assentimento interior ao juízo que ela profere, mas apenas um “silêncio obsequioso” (com discordância interior). Esta distinção deu novo alimento à luta. Depois de discussões acesas, a Sorbona (Universidade de Paris fundada em 1253 por Roberto de Sorbon) expulsou em 1656 Arnauld e sessenta outros mestres. Entrementes entrou em cena o famoso filósofo e matemático Blaise Pascal. Irmão da monja Jacqueline, de Port-Royal, agregou- se em 1654 ao grupo dos Solitários, perto de. Paris: estes eram homens austeros, que, mesmo sem votos religiosos, oravam, trabalhavam e se mortificavam, mantendo o oficio Divino à noite e períodos de silêncio; hospedavam visitantes que com eles quisessem passar alguns dias de retiro o que muito impressionava o público de Paris. Pascal resolveu dedicar sua atenção aos problemas religiosos que fervilhavam no ambiente; assimilou as doutrinas apregoadas por Arnauld e seus adeptos, e colocou sua pena mordaz a serviço dos jansenistas contra os seus adversários, principalmente os jesuítas. Usando o pseudônimo Louis de Montalde, escreveu as suas famosas “Cartas Provinciais” (1656/7), dirigidas contra a imoralidade da sociedade de Paris e a Companhia de Jesus, tida como laxista em Moral. As sátiras de Pascal foram traduzidas para outras línguas e causaram enorme mal é Companhia, que não merecia tal tratamento. A partir de 1660, o rei Luís XIV da França, por motivos políticos, pôs-se a combater o jansenismo, o que agravou a situação. Em 1665 apareceu uma Carta Pastoral de quatro bispos franceses, que recomendavam apenas o silêncio obsequioso. O Papa Alexandre VII condenou os quatro bispos e instituiu uma comissão de nove bispos para julgá-los; os quatro prelados protestaram em nome das “liberdades galicanas”, segundo as quais o Papa não tinha o direito de julgar os bispos do reino. Assim o jansenismo e o nacionalismo francês (galicanismo) se associaram no combate a Roma. Mas, sob o sucessor de Alexandre VII, inesperadamente os quatro bispos assinaram um formulário de sujeição a Santa Sé; ao mesmo tempo, porém, professaram a sua convicção jansenista num protocolo que devia ficar secreto (1668). O Papa deu-se por satisfeito com o gesto público dos quatro prelados e em 1669 concedeu a reconciliação a todos os jansenistas; era a Paz Clementina, que os rebeldes receberam em atitude de triunfo; o Papa Clemente XI teria anulado os atos de seus predecessores e aprovado o silêncio obsequioso. Nos decênios seguintes, o jansenismo as ocultas continuou a se difundir. Mas no início do século XVIII reabriu-se a luta pública e calorosa. Começou-se a discutir de novo a questão: pode ser absolvido em confissão quem observa apenas um silêncio obsequioso? Quarenta doutores da Sorbona responderam afirmativamente. Diversos bispos e o próprio Papa Clemente XI rejeitaram essa sentença em 1703. Em 1705o Pontífice publicou a Bula Vineam Domini, em que mais uma vez declarava insuficiente o silêncio obsequioso e exigia a condenação das cinco sentenças do livro “Augustinus” de boca e de coração. A Bula não teve o efeito desejado. O clero francês, impregnado de nacionalismo separatista, na assembleia geral de 1705 declarou que as instruções papais só obrigam os fiéis quando reconhecidas e confirmadas pelos bispos locais. O Papa protestou contra esta atitude, mas com pouco sucesso. Também as monjas de Port-Royal, “puras como os anjos, mas orgulhosas como os demônios”, resistiram ao Papa; então o Governo Francês em 1705, com a aprovação do Pontífice, mandou fechar o Mosteiro, destruir o respectivo edifício e a igreja. A esta altura, novo foco se acendeu para alimentar a discussão jansenista. O Padre oratoriano Pascásio Quesnel (? 1719) publicou o livro “Reflexões morais sobre o Novo Testamento”, tendo a aprovação do bispo Luís Antonio de Noailles. Era obra imbuída de jansenismo, que encontrou larga aceitação. Os jesuítas conseguiram que Clemente XI censurasse o livro em 1708 e proibisse, sob pena de excomunhão, a sua leitura. Diante da resistência a ordem do Papa, Clemente XI mandou reexaminar o livro e condenou 101 sentenças do mesmo mediante a Bula Unigenitus de 1713. Recomeçou então o jogo dialético: já que muitas sentenças extraídas do seu contexto pareciam ter sentido ortodoxo, o Cardeal de Paris e sete bispos recusaram-se a aceitar a decisão papal; a corrente destes contestatórios foi-se avolumando e apelou para um Concílio Ecumênico. Assim dividiu-se a França em partido dos “Aceitantes” e partido dos “Apelantes” ou “Anticonstitucionalistas”; aqueles usavam faixas de seda castanha e branca, e estes, faixas pretas e vermelhas. A situação foi se agravando até o perigo de um cisma. Em 1718 Clemente XI excomungou os Apelantes. Muitos deles rejeitaram a decisão papal. O acirramento das posições chamou a atenção do novo rei Luís XV, pois o fanatismo dos jansenistas constituía uma ameaça não só a Igreja, mas também a nação. o poder civil adotou medidas repressivas, que chegaram a reduzir o Cardeal Noailles, de Paris, à submissão; a maioria dos outros Apelantes seguiu lhe o exemplo. Os obstinados apelaram então para sinais do céu em favor da sua causa: um diácono jansenista, Francisco de Paris, morreu em 1727 e foi sepultado no cemitério de S. Medardo; ora os devotos que iam rezar junto ao túmulo, afirmavam que lá se produziam milagres, visões e êxtases; as curas eram obtidas por meio de convulsões em torno do túmulo, enquanto se recitavam imprecações contra o Papa, a Bula e os Bispos. O apelo a esses critérios extraordinários não conseguiu deter o desmoronamento do jansenismo. Em 1732 o rei mandou fechar o cemitério e um humorista escreveu no portão: “Por ordem do rei, Deus está proibido de fazer milagres neste lugar”. II. O GALICANISMO. O absolutismo dos reis da França começou a se afirmar com Filipe IV o Belo (1285-1314); e manifestou-se fortemente no Exílio de Avinhão e no Grande Cisma do ocidente (séculos XIV/XV); cristalizou-se na Pragmática Sansão de Bourges sob Carlos VII em 1438, tendendo sempre a subtrair ao Papado a Igreja na França e professando implicitamente a teoria conciliarista. Tal estado de coisas chegou ao seu auge no reinado de Luís XIV (1643-1715), o Rei-Sol, que dizia: “L’Etat c’est moi! – O Estado sou eu”. Luís XIV era católico, sob a condição de dominar tudo, mesmo a Igreja e o Papado, ao qual ele não poupou humilhações. Interessa-nos considerar como o nacionalismo eclesiástico se desenvolveu sob esse rei. Em 1680 as Religiosas de S. Pedro Fourier (subúrbio de Paris) estavam para eleger legitimamente a sua Superiora. Luís XIV, porém, quis impor-lhes uma Superiora de outra ordem. As Irmãs apelaram para Inocêncio XI, que mandou proceder à eleição; todavia a Bula papal foi rejeitada pelo Parlamento francês. – O rei resolveu então recorrer a uma assembleia geral do clero francês, que se reuniu em Paris de 1681 a 1682. Alguns prelados e o rei mostraram-se irritados pela “intromissão” do Papa na Igreja da França… intervenção que eles julgavam contrária a uma concordata de 1516, firmada com o Papa Leão X. Por isto o bispo jacques – Bénigne Bossuet (1627-1704), encarregado pela assembleia, redigiu quatro artigos que definiam os limites do poder papal na França. Tais artigos, aprovados pelos presentes, constituem a “Declaração do Clero Galicano”, que tomou o vigor de lei: 1. O Papa recebeu de Deus um poder meramente espiritual. Os reis, em questões temporais, não estão sujeitos, nem direta nem indiretamente, a alguma autoridade eclesiástica; por isto não podem ser depostos em nome do poder das chaves, nem os seus súditos desligados do juramento de fidelidade. 2. Os decretos do Concílio de Constança que estabeleceram a supremacia do Concílio sobre o Papa tem vigor de lei perene. 3. O exercício da autoridade papal e regrado pelos cânones da Igreja Universal, pelos princípios e os usos que, desde época remota, se observam na Igreja Galicana. 4. Em decisões de fé o Papa tem voz preponderante, mas só irreformável após obter o consentimento da Igreja inteira. Bossuet, que redigiu estes artigos, era, de resto, um bispo zeloso, promotor da união de católicos e protestantes e grande orador sacro. Todavia nutria profunda admiração pelo poder absoluto de Luís XIV, que ele apresentava nos seguintes termos: “Todo poder reside inteiramente na pessoa do rei, não podendo existir outra autoridade além da sua. Poder tão grande não emana dos homens, mas sim de Deus, que estabeleceu os reis para governar o mundo em seu nome, os quais a mais ninguém senão a Ele devem prestar contas dos seus atos. os súditos devem ao rei obediência e respeito, toda desobediência é grave falta cometida contra ele.” Ao tomar conhecimentos da promulgação dos artigos galicanos, o Papa Inocêncio XI protestou, mas não impôs aos franceses alguma censura eclesiástica para evitar a iminente ruptura de relações. Aliás, o próprio Luís XIV não queria separar-se da Igreja Católica, pois sabia que isto lhe tiraria muito do seu prestígio; também as suas convicções religiosas eram assaz firmes para não lhe permitir que fosse tão longe ao seu absolutismo. Diz-se mesmo que declarou a galicanos que impeliam a novas violências: “Se eu quisesse seguir essas ideias, deveria pôr o turbante sobre a cabeça (isto é, eu me faria turco muçulmano)”. Em resposta ao rei, o Papa Inocêncio XI recusou confirmar dois candidatos a bispo que o rei lhe apresentou e que haviam participado da assembleia galicana. o rei declarou que isto era uma violação da Concordata e proibiu aos bispos que ele nomeava, fossem buscar a sua Bula de confirmação em Roma. A consequência deste litígio é que, durante seis anos, os titulares de trinta e cinco dioceses francesas não possuíram a ordenação episcopal (ou não eram bispos). Ainda que o rei nomeasse bispos, somente o Papa podia autorizar a ordenação episcopal desses candidatos. O Jansenismo, suscitando atitude de indiferença e frieza nos cristãos, criava clima próprio ao Galicanismo, como também o Galicanismo favoreceu o Jansenismo, pois ambos lutavam contra Roma. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE VI 1. FEBRONIANISMO Da França o Galicanismo passou para a Alemanha, onde Lutero tinha denunciado os vexames da nação alemã, queixosa das intervenções de Roma na nomeação de prelados, no arrecadamento de taxas, no cerceamento de liberdades, das quais gozavam a França e a Espanha. No século XVIII o descontentamento se fez ouvir de novo modo. Um dos principais transmissores dos erros franceses foi um professor de Direito Canônico em Louvain, Bernardo van Espen (? 1728), que por seus escritos e discípulos exerceu grande influxo na Alemanha; as suas obras foram postas repetidas vezes no Index a partir de 1704. Propagava entre os prelados alemães uma onda de episcopalismo, tendência que queria restringir, em favor dos bispos, os direitos do Papa e de seu representante, oNúncio. Essa onde era fomentada por uma antipatia contra a Cúria Romana suscitada pela Concordata de Viena (1448). As ideias de van Espen foram desenvolvidas na Alemanha por um discípulo deste mestre em Louvain, doutor em Direito Canônico e bispo auxiliar de Tráviris: João Nicolau de Hontheim (1701-1790). Empreendeu estudar a situação da Igreja na Alemanha do ponto de vista jurídico. Como fruto de suas reflexões, publicou em 1763. “Justini Febronii de Statu Ecclesiae et Legitima Potestate Romani Pontificis liber singularis ad reuniendos dissidentes in religione Christiana compositus. – Livro singular de Justino Febrônio a respeito do estado da Igreja e do legítimo poder do Pontífice Romano, redigido para reunir os cristãos dissidentes na religião”. o autor usou de pseudônimo: Justina era o nome de sua sobrinha, que no mosteiro era chamada Febrônia. Propunha os princípios galicanos de 1682 reforçados por teses de canonistas de Louvain, como se pode ver a seguir. Para restabelecer a unidade entre os cristãos, dizia Febrônio, é preciso reproduzir a constituição da Igreja nascente. Isto implica restituir aos bispos e aos Concílios os seus direitos e limitar os poderes do Papa. Este não é monarca absoluto nem infalível. o poder na Igreja toca, primeiramente, ao conjunto dos bispos ou ao Concílio Ecumênico. As decisões papais só tem vigor quando aprovadas pela Igreja inteira e introduzidas em cada uma das dioceses pelo respectivo bispo. Ao sucessor de Pedro, portanto, só compete um primado de honra em relação aos outros bispos. os únicos direitos que lhe assistem, são os direitos necessários ao exercício da sua tarefa, que é: vigiar pela observância dos cânones, conservar a fé e a unidade da Igreja. Confirmação e deposição de bispos, preenchimento de cargos eclesiásticos, concessão de dispensas, reservas são falsificações do Direito devidas à evolução errônea. Por conseguinte, os bispos deveriam arrebatar para si essas funções. Como meios aptos para obter a emancipação dos bispos, eram recomendados: propaganda no grande público, convocação de Concílio Ecumênico livre, Sínodos provinciais, união dos bispos com os príncipes seculares; a estes tocaria o direito de sancionar ou não as leis do Papa e de receber as apelações em Tribunal. A obra de Hontheim se difundiu rapidamente e em varias traduções, provocando grave crise na Alemanha. obteve os aplausos dos príncipes civis e dos inimigos da Igreja, principalmente na Áustria, cujo Imperador José II a aprovou três vezes, as normas de Febrônio foram introduzidas nos manuais de Direito Eclesiástico. Clemente XIII pôs o livro no Index e exortou os bispos alemães a combatê-lo – o que só encontrou execução parcial e hesitante. Em dezembro de 1769 os arcebispos de Tréviris, Mogúncia e Colônia mandaram elaborar um documento em 31 artigos (Avisamenta) sob a presidência de Hontheim, que tinha sabor febroniano. Todavia em 1778, depois de haver triunfado, Hontheim, instado pela Cúria Romana e pelo Arcebispo de Tréviris, declarou que se retratava. Em 1781, porém, publicou o “Comentário à Retratação”, que discretamente manifestava os mesmos princípios de Febrônio: usando de estilo atormentado e cheio de restrições, Hontheim não queria nem ofender a verdade nem retratar abertamente uma obra que ele julgava ser a glória de sua carreira. Poucos anos mais tarde, o febronianismo produziu seus efeitos mais nocivos. Em 1785, Pio VI, a pedido do príncipe Carlos Teodoro da Baviera, erigiu uma Nunciatura 64 em Munique. Isto muito inquietou os citados arcebispos de Tréviris, Mogúncia e Colônia, assim como o príncipe-bispo de Salzburgo, que temiam uma restrição de sua jurisdição. Mediante delegados seus, elaboraram a “Pontuação de Ems” (1786), que eram 23 artigos de Febronianismo exaltado: exigiam a revogação da jurisdição dos Núncios, o beneplácito dos bispos para as Bulas papais, além de reformas na liturgia, na vida conventual e na pastoral em geral. O documento terminava solicitando ao Imperador José II que dentro de dois anos reunisse um Concílio nacional para abolir os “vexames” da nação alemã. Em breve evidenciou-se a impossibilidade de executar tais postulados. Quando os arcebispos citados quiseram autonomamente conceder certas dispensas, opôs-se lhes o Núncio Pacca, de Colônia, hábil defensor das funções papais, que escreveu uma carta aos párocos; os bispos sufragâneos 65 se associaram ao Núncio, pois queriam defender seus interesses ameaçados pela preponderância dos arcebispos. Estes então tiveram que retroceder; ainda pleitearam um acordo a respeito da Nunciatura em Munique – o que o Papa rejeitou energicamente (1789). O febronianismo teve sua aplicação concreta mais rigorosa na Áustria sob Maria Teresa a Católica (1740-1780) e principalmente sob D. José II (1780-90), que Frederico II da Prússia chamava “Meu Irmão o Sacristão” ou “o Arqui-sacristão do Império Romano”. Este monarca teria levado a Áustria a um cisma, se não o tivesse dissuadido o embaixador espanhol Azara. o Papa Pio VI foi a Viena para entender-se com o monarca; foi muito aclamado pelas populações durante a viagem; teve brilhante recepção na corte imperial, mas, após quatro semanas de permanência, teve que regressar sem ter conseguido demover o monarca de seus propósitos febronianos e de outras medidas drásticas (redução do número de Seminários a cinco ou seis, nos quais só ensinariam professores da confiança do Imperador; supressão das ordens contemplativas e de conventos de outras ordens; proibição, aos bispos, de contato direto com Roma…). 2. Do Regalismo O despotismo. No século XVIII as monarquias católicas pretenderam o controle da vida eclesiástica, movimento que ficou conhecido como "Regalismo", o que fez com que o Pontificado Romano perdesse parte de seu poder político. Isto não só pela perda de territórios para nações protestantes. Pretenderam fazer da Igreja um serviço público subordinado ao rei e integrante da administração do Estado. Este comportamento era característico do Despotismo Ilustrado. Catolicismo como única religião oficial do Estado e sob intervenção do monarca e desconfiança em relação a Roma, seria a marca desta fase. Esta tendência anti-romana teve como alvo preferido a Companhia de Jesus, principal força de que dispunha o Papado. Os jesuítas foram expulsos de Portugal, da Espanha, de Nápoles e da França e finalmente foram dissolvidos por Clemente XIV. Na França este intervencionismo clerical de Luiz XIV ficou conhecido como "Galicanismo", nas terras germânicas surgiu o Febronianismo, de Febrônio, pseudônimo de João Nicolau de Hontheim, bispo auxiliar do bispo eleitor de Tréveris que defendia a subordinação da Igreja aos príncipes. Na Áustria surgiu o "Josefismo" de igual tendência, o mesmo se deu com Pedro, o Grande na Rússia, que suprimiu o Patriarcado da Igreja russa. Os episcopados das monarquias regalistas se transformaram em patrimônio da aristocracia, tornaram-se dóceis ao poder, e nos finais do Antigo Regime a vida cristã tanto da hierarquia como do povo aparentava languidez e opacidade. 3. ILUMINISMO (XVII e XVIII). Foi um movimento de ordem cultural idealizado por uma elite intelectual europeia no final do século XVII. Este movimento surgido na França (XVII) obteve o seu esplendor no século XVIII com a Revolução Francesa. Tal movimento questionava o sistema Absolutista que predominava na organização política da maioria dos países europeus (chamados Estados Modernos) durante o Antigo Regime (Idade Moderna). O Iluminismo questionava também a influência exercida pela Igreja Católica sobre a sociedade europeia daquele período. O Iluminismo defendia o uso da razão como melhor caminho para o desenvolvimento do homem e para que ela alcance sua liberdade, autonomia e sua emancipação. Ideais Iluministas: O pensamento iluminista é fruto do movimento renascentista do século XIV e também das importantes consequências causadas pelo movimento de Reforma Protestante, ambas os processos históricos contribuíram para o enfraquecimento do poder exercido pelaIgreja durante a Idade Média. Segundo os pensadores iluministas, o uso do pensamento racional deveria ser levado adiante substituindo as crenças religiosas e o misticismo, pois segundo eles, esta forma de pensamento bloqueava a evolução do homem. As Raízes do Iluminismo: Podemos dizer que as raízes do movimento iluminista começaram a crescer ainda no século XVII, através dos trabalhos do francês René Descartes, que lançou as bases do racionalismo como a única fonte de conhecimento. Em sua obra “Discurso do método”, ele recomenda, para se chegar à verdade, que se duvide de tudo, mesmo das coisas aparentemente verdadeiras. A partir da dúvida racional pode-se alcançar a compreensão do mundo. Sua teoria passou a ser resumida na célebre frase: "Penso, logo existo". Século das Luzes: O apogeu do movimento iluminista ocorreu no século XVIII, e este passou a ser conhecido como o “Século das Luzes”. Tal denominação metafórica tinha como objetivo principal, promover um entendimento a cerca da “luz” no sentido de “iluminar” as “trevas” em que vivia a sociedade europeia daquele período (Idade Média). O movimento iluminista foi mais intenso na França, onde influenciou com seus ideais de liberdade, igualdade e justiça a Revolução Francesa. Iluminismo na França: Foi na França do século XVIII, o palco mais expressivo dos ideais iluministas, que colocaram em cheque os privilégios do Clero e da Nobreza em relação ao povo. A insatisfação popular com o governo estava com seus dias contados, as lutas sociais, a ascensão da burguesia e de seus negócios, e a crença na racionalidade chegaram ao auge na propagação com a propagação dos ideais iluministas, estes foram levados pela onda da revolução (mudança). Os ideais iluministas ajudaram a por fim às práticas feudais existentes naquele país e estimularam a queda do regime absolutista na França e em outras partes da Europa. Teoria Iluminista: Para os filósofos iluministas, o homem nasce naturalmente bom, porém se torna corrompido pela sociedade com o passar do tempo. Os iluministas lutavam para a construção de uma sociedade mais justa e com direito iguais estendidos a todos, independente da classe social. Por esta razão, eram contra as imposições religiosas, ao sistema Absolutista e dos privilégios concebidos a Nobreza e o Clero, que excluía a maioria da população formada pelo povo, que não tinha participação política efetiva nos governos absolutistas, entretanto, sustentavam toda a sociedade com seu trabalho e pagamento de impostos. Características do Iluminismo: • Racionalismo: consiste na ênfase dada ao uso da razão, considerada o mais importante instrumento para se alcançar o conhecimento; • Naturalismo: crença na perfeição da natureza. Da mesma forma que os fenômenos da Natureza são regidos por leis naturais determinadas, as relações entre os homens deveriam ser reguladas por normas naturais; • Liberalismo: é o reconhecimento da liberdade como um direito natural do homem. Essa liberdade seria nos níveis econômico, político e intelectual; • Igualdade dos homens perante a lei: Dentro desse raciocínio, a lei não poderia privilegiar alguém com base em seu nascimento ou condição social; • Anticlericalismo: Os iluministas eram contrários a Igreja, pois ela apoiava o absolutismo e também se colocava acima da razão. Burguesia e Iluminismo: A classe Burguesa (pertencente ao povo) apoiava os ideais iluministas, este segmento social em ascensão, apesar do dinheiro que possuíam, não tinham participação política ativa nos governos deste período, além de gozarem de pouca liberdade econômica. Organização Social: Clero (membros da Igreja), Nobreza (Rei, família real e nobres) e o Povo (Burgueses Artesãos e Camponeses). Teocentrismo X Antropocentrismo: Ao romper com os paradigmas defendidos pela Igreja Católica, o antropocentrismo com sua origem ainda no renascimento, representou a ascensão dos ideais burgueses sobre o pensamento e a cultura medieval. Este tipo de mentalidade rompeu com a visão de mundo onde a religião ocupava o centro de todas as questões (teocentrismo). Para os iluministas, o centro de toda e qualquer pesquisa deveria ser o próprio ser humano (antropocentrismo) e não a religião, como acontecia anteriormente. Como resultado imediato disso, a Igreja deixou de ser vista como aquela que tinha as respostas para todos os problemas da vida e da sociedade. Com suas estruturas ideológicas abaladas, a Igreja Católica perdeu muito de seu poder político e, por incrível que possa parecer, também perdeu muito de seu prestígio no meio religioso, pois novas interpretações, principalmente humanistas, sobre a religião passaram a surgir, principalmente após a Reforma Protestante. Em suma, o Iluminismo defendia o avanço da ciência e da razão, o racionalismo, colocando o homem no centro, justamente o inverso do teocentrismo, dessa forma, pode-se dizer que o iluminismo defendia o antropocentrismo. Ao colocar o homem no centro das coisas, a visão antropocêntrica se apresentou como uma resposta contrária aos modos de agir e pensar da Idade Média. Prosseguindo nesse tipo de argumentação, o comportamento subordinado e místico do religioso homem medieval, seria trocado pela figura de um novo homem interessado em falar de seus problemas e das demais coisas terrenas. Esquema: • Iluminismo > visão antropocêntrica > homem no centro de todas as coisas; • Igreja Católica > visão teocêntrica > Deus no centro de todas as coisas. Filósofos Iluministas: • John Locke (1632-1704): posicionou-se frontalmente contra o absolutismo, defendendo a ideia de que o governo deve representar os cidadãos (entendidos como os membros das classes dominantes). Foi ele o primeiro pensador moderno a afirmar serem os indivíduos possuidores de certos direitos naturais, que o Estado tem obrigação de respeitar. • Voltaire (1694-1778): foi um dos mais destacados representantes do iluminismo, graças a seus dotes literários, que lhe granjearam grande prestígio entre os leitores. Voltaire foi um feroz adversário da Igreja, defendia a liberdade de pensamento e não poupava crítica à intolerância religiosa; • Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): foi um partidário ardoroso da democracia. Em seu livro O contrato social, afirmava ser o Estado o representante da vontade geral, isto é, da maioria dos cidadãos. Portanto, o poder político repousaria sobre o povo, que, em última análise, seria a autoridade suprema. Em suma defendia a ideia de existência de um estado democrático que garantiria igualdade para todos; • Montesquieu (1689-1755): Sua grande contribuição para as ideias políticas foi à teoria da tripartição de poderes, segundo a qual o governo deve ser dividido em Executivo, Legislativo e Judiciário. O equilíbrio entre os poderes impediria a tirania e garantiria os direitos e liberdades dos cidadãos. • Denis Diderot (1713-1784) e Jean Le Rond d´Alembert (1717- 1783): Juntos elaboraram a “Enciclopédia”, obra monumental, que contou com cerca de 150 colaboradores, procurou abarcar todos os conhecimentos da época e, ao mesmo tempo, difundir as concepções iluministas. O governo francês chegou a proibir sua divulgação em duas ocasiões, mas em vão. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE VII I. A Revolução Francesa e a Igreja Católica. A Revolução Francesa marcou para Igreja Católica um dos períodos mais difíceis de sua história. Isto porque a Revolução não só propagou os ideais iluministas que incluíam um sentimento anticlerical e antirreligioso, como também exerceu na prática esses ideais, muitas vezes de forma violenta. A França sempre teve uma posição de destaque na cristandade, desde os séculos medievais, da conversão dos francos ao catolicismo até a época em que a cidade francesa de Avignon abrigou a sede do papado. Foi também a França um dos maiores pontos de conflito entre católicos e protestantes. Tais fatos levaram a França a ser considerada por muitos papas como a “filha predileta da Igreja”. Às vésperas da Revolução, o paísmostrava um quadro onde o catolicismo vivia o seu auge: a população participava dos ritos religiosos e o clero paroquial cuidava da vida religiosa da sociedade. Exercia grande influencia na vida política, pois o poder absoluto do rei era garantido pelo direito divino, e o próprio clero possuía status de Estado. A religião católica influenciava também o tempo, com o calendário gregoriano que possuía festas e feriados cristãos. Por fim, era papel de o clero presidir as atividades civis como os casamentos e os registros de nascimento e óbito. Era esse quadro que a revolução viria a mudar radicalmente. A Revolução Francesa, em sua tentativa de acabar com as estruturas feudais ainda vigentes, colocou a Igreja Católica em uma difícil situação. Desde os primeiros passos da Assembleia Constituinte até a Constituição Civil do Clero, foram tomadas medidas capazes de levantar suspeitas de que a revolução era hostil ao clero. Uma das primeiras medidas dos revolucionários foi à supressão do dizimo e o confisco dos bens do clero, para saldar o déficit nacional. Essas medidas, a principio, não causaram um conflito direto entre a Igreja e a Revolução. O conflito só viria com a Constituição Civil do Clero e o juramento dos padres. Tal medida dividiu o clero francês: o clero constitucional, fiel à constituição, e o clero refratário, fiel ao papa. Este repudiava cada medida dos revolucionários, pois, além de perder o controle sobre o clero francês também perdeu suas possessões territoriais francesas na cidade de Avignon. É possível afirmar que a Constituição Civil do Clero foi o divisor de águas nas relações entre a Religião Católica e o Estado revolucionário francês. Foi o juramento dos padres que estimulou a contrarrevolução na Vendéia e a guerrilha camponesa dos Chouans – a Chouannerie, da qual participaram o clero refratário e a aristocracia. Foi também a questão do juramento que desencadeou um movimento violento de ataques aos padres e aos templos. Além disso, subordinava o clero ao Estado rompendo os seus vínculos com o papa. A Igreja ainda viria a perder suas áreas de influência na vida política e social. O rei Luís XVI, antes de ser decapitado, é obrigado a renunciar o seu “poder divino”, tornando-se um cidadão como outro qualquer. O clero deixa de presidir as atividades da vida civil como o casamento e os registros de certidões de nascimento e de óbito. É importante ressaltar que na tentativa de enterrar de vez a influência católica, o governo aboliu o calendário gregoriano acabando com os dias da semana, e consequentemente, eliminando as festas e feriados religiosos, inclusive o domingo, conhecido como “Dia do Senhor”. Para substituí-lo criou um novo calendário, conhecido como Calendário Republicano Francês, que marcaria o inicio da nova era da Republica Francesa dando uma nova nomenclatura aos meses e semanas de acordo com as estações do ano. O período do Terror marca o inicio do movimento violento que se deu contra a Igreja Católica. Igrejas são apedrejadas, padres são forçados a abdicar, imagens religiosas são destruídas e o culto religioso passa a ser proibido. Podemos ainda citar as tentativas de substituir o culto religioso por um culto revolucionário, como o culto à razão e ao Ser Supremo. Esses cultos exaltavam a vitória da razão e da consciência sobre a dominação da Igreja. Sobre o culto ao Ser Supremo, Robespierre aparece como pontífice da religião do Estado na tentativa promover a união entre o sentimento revolucionário e o sentimento religioso. Passado o período violento do Terror, com a queda de Robespierre, seguiu-se uma fase confusa para a religião. Os homens que o derrubaram eram anticlericais que participaram dessas perseguições. Contudo, a política da Convenção Termidoriana seguia a lógica do retorno da liberdade que o período do Terror havia negligenciado. A essa lógica de liberdade estava ligada à questão da liberdade de culto. No período que vai de 1795 a 1799, as Assembleias do Diretório agiam ora permitindo o retorno ao culto, ora regressando a uma política de perseguição. Esse quadro só seria resolvido com Napoleão Bonaparte. No período do Consulado, Napoleão e o Papa Pio VII assinam uma Concordata que redefine as relações entre a Igreja e o Estado. Por essa Concordata a Igreja Católica era reconhecida na sua unidade e estatuto, a liberdade de culto era garantida e o catolicismo era aceito como a religião da maioria dos franceses. Contudo a Igreja ficava subordinada ao Estado, uma vez que a nomeação de bispos era feita pelo Consulado. Os territórios da Igreja, como Avignon, e seus bens também não são restituídos. O ultimo pilar do movimento de ataque à religião católica, o Calendário Republicano, foi extinto por Napoleão no Império, em 1805. Cronologia: • 04/08/1789 – Abolição dos direitos feudais e supressão do dizimo. • 02/11/1789 – Confisco dos bens do clero para saldar déficit nacional. • 12/07/1790 – Aprovada a Constituição Civil do Clero. • 26/11/1790 – Decreto fixando o prazo de dois meses para o juramento dos padres em exercício à Constituição. • 03/1793 à 03/1796 – Revolta da Vendéia e guerrilha camponesa dos Chouans • 07/11/1793 (17 de Brumário do ano II) – Abjuração do bispo de Paris marca o inicio da descristianização. • 21/11/1793 (1 de Frimário do ano II) – Intervenção de Robespierre, refreando a descristianização violenta. • 24/11/1793 (4 de Frimário do ano II) – Convenção Nacional adota o Calendário Republicano, determinando a data de 22/09/1792 como inicio do ano I da Republica. • 07/05/1794 (18 de Floreal do ano II) – Relatório da Convenção que define as relações entre Estado e Igreja. • 27/07/1794 (09 de Termidor do ano II) – Queda de Robespierre , sucedido por anticlericais que haviam participado da descristianização violenta. • 18/08/1797 à 17/09/1797 (Frutidor do ano V) – Inicio da política de perseguição religiosa. • 07/1801 – Concordata assinada entre Napoleão e o Papa Pio VII. • 31/12/1805 – Abolição do Calendário Republicano por Napoleão. II. Revolução Francesa: por que, exatamente, ela perseguiu os católicos? Afirmar que a Revolução Francesa perseguiu a religião não é de todo correto. Muitos que fazem essa afirmação supõem ou tentam fazer pensar que os revolucionários tinham os nobres planos de construir uma sociedade laica na qual os segmentos religiosos não tivessem privilégios nem fossem relevantes na vida pública. Não é esta a verdade objetiva. O que os revolucionários realmente tentaram foi substituir as religiões históricas por uma “religião de Estado”, com suas próprias pretensões teológicas, funcionários, elites e privilégios, visando assegurar que os cidadãos se submetessem à lei não apenas no comportamento externo, mas inclusive na consciência e no coração. A lei é que seria “deus”. Os Estados Gerais convocados por Luís XVI em 1789 se dividiam em três ordens: o clero, a nobreza e o “terceiro estado”. Os dois primeiros tinham 561 representantes em total (291 e 270, respectivamente), enquanto o terceiro estado, cujos representantes eram eleitos pelos franceses do sexo masculino, maiores de 25 anos e que pagassem impostos, contava com 578. O número não era tão importante, em tese, porque o rei desejava manter o voto por segmento e não por indivíduo. O objetivo da convocação era ajudar a monarquia a realizar reformas que melhorassem a situação geral do país, afundado na pobreza. O clero não era um obstáculo para a política inicial de reformas. Os padres apoiavam as medidas propostas pelo terceiro estado para implantar a separação de poderes, a reunião frequente dos Estados Gerais, a sua supremacia na determinação dos impostos, o reconhecimento das liberdades individuais etc. Mas esse apoio às reformas não era mediante ações radicais: só um quarto dos membros do clero queria a ruptura da ordem vigente e a revolução democrática, enquanto a maioria dos padres defendia uma reforma paulatina e sem ruptura traumática. Apesar dessa atitude de moderação, a tomada da Bastilha em 14 de julho em 1789 e a posterior aboliçãodos privilégios feudais não foram fatos particularmente alarmantes para os bispos e sacerdotes, que estavam mais preocupados com os resultados da reforma constitucional iniciada por uma nova assembleia. A “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” promulgou a liberdade religiosa, reservando ao Estado o poder de determinar quando as opiniões em matéria de credo eram incompatíveis com a lei. Esta liberdade teórica, no entanto, teve escassa duração real. Em 12 de julho de 1790, estabeleceu-se a chamada “Igreja constitucional”, que, na prática, imposta por um rápido processo de fundamentalismo estatista, se tornou o único “credo” aceito pelas autoridades. Essa “igreja” tinha organização e funcionamento próprio, decidido pelo Estado. Os sacerdotes católicos foram pressionados a jurar fidelidade às novas normas estatais em matéria de religião e a se desligarem da obediência ao seu bispo e a Roma. Apesar da determinação do Papa Pio VI e da rebelião dos bispos perante a pressão estatal (só quatro cederam à nova ordem), muitos presbíteros, em especial no centro do país, se uniram à “igreja laica” e viraram comissários políticos do Estado em matéria religiosa. A criação desta “igreja” foi celebrada no Campo de Marte, com os oficiantes ataviados em vestes tricolores francesas. A perseguição contra os católicos que não aceitaram esta situação foi brutal. Os sacerdotes que se mantiveram católicos foram perseguidos, impedidos de celebrar sacramentos e de pregar e, a partir de 18 de março de 1793, se fossem presos em solo francês, deviam ser executados em menos de 24 horas. Muitos tiveram a pena de morte comutada por um destino tão pavoroso quanto, nas infectas e tristemente célebres prisões da Guiana Francesa. Ao mesmo tempo, foi cortada a comunicação entre os católicos franceses e o Papa, cujas cartas e documentos não podiam ser divulgados no país sem a aprovação prévia dos órgãos legislativos. A Igreja católica sofreu uma das piores perseguições da história. As crianças não podiam receber o batismo, nem a comunidade podia celebrar a Eucaristia. Só se conseguia oficiar algum sacramento na clandestinidade. Na Bretanha, região que registrou o maior número de sacerdotes contrários à nova “igreja” cismática, os fiéis se reuniam em barcas, longe da costa, ou no interior dos bosques. Aqueles que participavam dessas “reuniões ilegais” corriam o risco ser condenados à morte como inimigos do Estado. Na região bretã foram assassinados cerca de 120.000 católicos por motivos estritamente religiosos: tratava-se de mais de 15% da população. Enquanto isso, as autoridades revolucionárias determinavam por decreto, sob os impulsos de Robespierre, a existência do “Ser Supremo” e a imortalidade da alma, instaurando a celebração de “festivais do Ser Supremo” a partir de 1794. Antes disso já tinham sido criados templos à “deusa Razão”, usando-se para tanto as igrejas e sinagogas. Em todo momento, o povo era induzido a ligar a sua consciência a uma série de normas políticas e morais ao gosto do poder – um gosto altamente variável e volúvel, diga-se de passagem. Não foi o caso, portanto, de tentar eliminar a religião pura e simplesmente, nem de desbaratar os privilégios que de fato existiam para alguns setores do clero (e que de fato chegavam a ser extravagantes em certos casos). Foi o caso, isto sim, de um esforço estatal impositivo para transformar o Estado não apenas no máximo ditador da consciência individual, mas em objeto, ele próprio, de devoção pública. Ainda hoje essas tentativas persistem, com outras estratégias e formatos – e é de extrema importância reconhecer as tentativas do Estado de ocupar o lugar da religião sob o disfarce abstrato e obscuro de uma indeterminada “cidadania” que se intromete no âmbito das consciências. III. Pio VII e Napoleão Bonaparte. Quando Pio VI morreu aos 29/08/1799 em Valença (França), para onde tinham deportado o “cidadão Papa”, a Igreja se via em situação crítica tal como nunca antes. Com efeito, a França, a “filha primogênita”, caíra na incredulidade; a Itália estava invadida e convulsionada; a Alemanha, contaminada pelo Iluminismo (Aufklarung); a Bélgica, incorporada à República Francesa revolucionária; a Polônia, retalhada por três potências vizinhas; a Espanha e Portugal eram governados por Ministros hostis a Igreja; na Inglaterra e nos Países Baixos, os católicos eram minorias flutuantes. O Catolicismo parecia em agonia; dir-se-ia que Pio VI fora o último Papa. Oradores irônicos faziam a oração fúnebre da Igreja com frases blasfematórias. Como eleger novo Pontífice em ambiente tão agitado e rebelde? Os Cardeais estavam ou prisioneiros ou deportados ou dispersos em liberdade. Apesar de tudo, o Conclave reuniu-se. Não em Roma ocupada pelos franceses, mas em Veneza, território que os austríacos e russos haviam conquistado aos franceses. Após três meses e meio saiu eleito o Cardeal Barnabé Chiaramonti, monge beneditino, que tomou o nome de Pio VII (1800-23). Assim quase simultaneamente subiam ao centro europeu duas figuras importantes: Pio VII e Napoleão Bonaparte. O novo Papa era homem profundamente religioso, ao serviço de Deus e da Igreja. Quando bispo de Imola, dizia aos seus diocesanos: “A forma de governo democrático por vós adotada não se opõe em absoluto ao Evangelho; exige, ao contrário, todas as virtudes sublimes que só se aprendem na escola de Jesus Cristo… Sede bons cristãos, e sereis bons democratas”. Tinha boa formação teológica e por toda a vida quis ser o pobre monge Chiaramonti. Quanto a Napoleão, não queria ser um ateu, mas um deísta (isto é, alguém que segue a religião natural); na Córsega recebera de sua mãe educação católica, que o tornava sensível aos valores religiosos. Podia ter uma capela no palácio, como os reis de outrora, e aí assistir a missa, mas só por conveniência ou por respeito às tradições. Como quer que seja, queria um entendimento com a Santa Sé. Percebia que, para fortalecer sua posição na França, precisava do apoio dos católicos, que continuavam a ser uma força no país. Quando a religião fora de novo permitida pelos revolucionários, o júbilo do povo fora imenso, de modo que a Polícia chegava a denunciar em 1798 o “fanatismo” que fizera progressos na sombra. Os austríacos e napolitanos em breve conseguiram expulsar os franceses da maior parte da Itália – o que permitiu a Pio VII voltar a Roma. Acordos e conflitos. Em breve Napoleão fez saber ao Papa que queria entrar em negociações. Estas se realizaram, mas com grandes dificuldades por causa das tendências galicanas dos franceses. Finalmente a Cúria Romana fez concessões, e foi assinada uma Concordata em Paris aos 15/07/1801: em 17 artigos atribuía grandes poderes ao Estado sobre a Igreja; entre outros, é de notar que todos os bispos, juramentados ou não, seriam pelo Papa obrigados a renunciar; Napoleão nomearia todos os novos diocesanos e o Papa daria a estes apenas a instituição canônica, isto é, a ordem sagrada. Aos 18/04/1802 Napoleão mandou promulgar essa Concordata acrescida de 77 artigos, ditos “orgânicos”, impregnados de Galicanismo ainda mais avançado (os professores dos Seminários eram obrigados a ensinar os quatro artigos galicanos). Pio VII protestou, mas sem êxito. Napoleão os apresentava como frutos das conversações com a Santa Sé – o que era evidentemente falso: tais artigos exigiam o beneplácito do Governo para a publicação, na França, de qualquer decreto do Papa ou de Sínodo realizado no estrangeiro; proibia os Bispos de usar outro título a não ser o de “cidadão” ou “senhor” (citoyen, monsieur); Sínodos e Legados papais na França não poderiam agir sem a autorização do Governo. Na execução da Concordata, 38 dos 81 bispos católicos não juramentados recusaram-se a resignar às suas dioceses. Não obstante, o Papa os depôs – o que era acontecimento inédito na história da Igreja! Partes das dioceses de Lyon e Poitiers não quis reconhecer a Concordata, contando com o apoio de bispos enérgicos; isto deu origem ao cisma da Petite Eglise (Pequena Igreja),alimentado por teorias jansenistas; desde 1847, porém, o cisma carecia de sacerdotes e os seus membros voltaram quase todos a comunhão da Igreja. A ambição de Napoleão levou-o a novos conflitos com a Santa Sé. Com efeito; em maio de 1804, o monarca, por plebiscito, foi aclamado Imperador dos franceses. Convidou Pio VII para sagrá- lo e coroá-lo em Paris. o Papa, após hesitar, acabou aceitando: na Catedral de Notre-Dame, aos 02/12/1804 sagrou o Imperador, mas, a coroa, foi este mesmo quem a colocou sobre a sua cabeça (não queria que se dissesse que recebera do Papa o poder imperial). Tal procedimento contrariava o Cerimonial e era grave afronta ao Pontífice. Este aturou o gesto, esperando receber alguma compensação ou a retratação de artigos galicanistas. Iludia-se, porém: Napoleão apenas restaurou algumas Congregações Religiosas (Irmãs de Caridade, Lazaristas) e aboliu o Calendário Republicano. Quis deter o Papa na França, afim de melhor utilizá-lo como seu instrumento; mas Pio VII, prevendo o golpe, fora prudente: antes de deixar Roma, havia assinado a sua renúncia ao Papado, válida para o caso de não voltar à Cidade Eterna dentro de um ano. Assim em abril de 1805 regressou a sua sede, um tanto humilhado pelo tratamento que Napoleão lhe impusera. Novos conflitos surgiram. Napoleão quis que o Pontífice dissolvesse o casamento de seu irmão Jerônimo Bonaparte. Diante da recusa do Papa, mandou invadir o Estado Pontifício, inclusive a cidade de Roma. Aos 17/05/1809 o Estado da Igreja era incorporado ao Império francês “para sempre”. Napoleão sentia-se como o sucessor de Carlos Magno, Imperador Romano. Pio VII respondeu lançando a excomunhão contra os usurpadores, a partir de Napoleão até o último executor das ordens imperiais. o monarca se inquietou com o fato, mas quis mostrar-se intrépido: na noite de 5 a 6 de julho de 1809 o Papa foi preso e levado a Savona (Itália do Norte); os Cardeais também foram presos, e vinte e seis deles foram transportados para Paris, a fim de ser mais rigorosamente controlados. Nova animosidade surgiu quando Napoleão quis separar-se de sua esposa Josefina, estéril; alegava a nulidade do matrimônio por falta da forma canônica e do consentimento devido. Para julgar o caso, recorreu a tribunais franceses, que lhe deram razão. O caso, porém, era de competência papal exclusiva (os casos de matrimônio de famílias reais são exclusivamente da alçada do Pontífice para se evitarem maquinações desonestas). Na base desse parecer inválido, Napoleão contraiu novas núpcias com Maria Luísa da Áustria aos 02/04/1810; treze dos Cardeais residentes em Paris recusaram-se a comparecer, pelo que Napoleão os “descardinalizou”, obrigando-os a vestir-se de preto e espalhar-se pela França. Novas lutas e desfecho. Em Savona, o Papa continuava detido, sofrendo vexames por parte do Imperador excomungado. Foi indignamente maltratado, pois lhe tiraram livros, pena, tinta e anel. Como houvesse muitas dioceses sem bispo na França (visto que o Papa não queria aceitar as nomeações feitas pelo Imperador), o monarca reuniu em Paris um Concílio nacional de 104 bispos (1811) sob a presidência do Cardeal Fesch, tio do Imperador. O Concílio começou por jurar fidelidade ao Papa. Foi então dissolvido e de novo convocado; cedeu a pressão, decretando que aos metropolitas caberia o direito de confirmar os candidatos episcopais, caso o Papa não o quisesse fazer dentro de seis meses. Pio VII acabou aceitando esta resolução e publicando-a em seu próprio nome (1811). Napoleão não se deu por satisfeito com o fato de que o Papa não aprovara apenas, mas usara de sua autoridade publicando o decreto em seu próprio nome. Declarou então a Concordata de 1801 e dissolveu o Concílio. Tinha em vista várias outras reivindicações, inclusive a de que 2/3 dos Cardeais fossem nomeados pelos reis e a de fazer o Papa residir na França. Tais reivindicações, ele as proclamaria quando voltasse vitorioso da Rússia (como esperava!). Entrementes Napoleão mandou que o Pontífice fosse levado de Savona para Fontainebleau perto de Paris (junho de 1812), alegando que os cruzadores ingleses poderiam levar embora o Papa residente no litoral da Itália. Na verdade, Napoleão queria entrar em novas negociações com o Pontífice. Estas ocorreram realmente, mas em termos mais fáceis do que as anteriores, porque o Imperador fora infeliz na sua campanha militar da Rússia. Em janeiro de 1813 Napoleão e Pio VII definiram onze artigos preliminares de nova Concordata: o Papa renunciaria ao poder temporal e residiria na França ou na Itália com uma renda de dois milhões de francos anuais. As nomeações de Bispos seriam feitas pelo Imperador; os Metropolitas lhes dariam a validade canônica, sem a intervenção do Papa. o Imperador tinha outras pretensões, que Pio VII rejeitou; já concedera muita coisa, porque estava fisicamente muito abatido. Napoleão aos 13/02/1813 publicou esse projeto de Concordata como se fosse algo de definitivo (a Concordata de Fontainebleau), mandando que se celebrasse a reconciliação em todas as igrejas da França com o canto do Te Deum. Os Cardeais “negros”, tendo podido aproximar-se novamente do Papa, fizeram- lhe ver que tão exorbitantes concessões não podiam ser mantidas (principalmente a renúncia ao Estado Pontifício). Diante disto, Pio VII, inquieto, aos 23/03/1813 escreveu uma carta em que retirava as concessões e convidava o Imperador para novas negociações. Napoleão irritou-se furiosamente, mas teve que se conter porque a situação política lhe era desfavorável: os aliados inimigos já se tinham apoderado de quase toda a Itália e possuíam parte da França. Viu-se assim obrigado a dar liberdade ao Papa aos 10/03/1814. Neste dia o Pontífice pôs-se a caminho de Roma, onde entrou aos 24 de maio, tendo passado por Savona. Ao deixar esta cidade, depositou uma coroa de ouro sobre uma imagem de Nossa Senhora; e mais tarde instituiu a festa de Nossa Senhora Auxiliadora a ser celebrada aos 24/05, dia do seu regresso a Roma. Enquanto os romanos preparavam uma oração ao Pontífice na Cidade Eterna, Napoleão no mesmo castelo de Fontainebleau, testemunha das dores do Papa, era obrigado a abdicar (11/04/1814), recebendo em compensação a Ilha de Elba com o título de Imperador. – No ano seguinte, Napoleão escapou de Elba e reassumiu o governo da França por cem dias. Nessa ocasião o Papa se transferiu para Gênova, temendo a invasão de Roma por Joaquim Murat, rei de Nápoles e aliado de Napoleão. Todavia este foi definitivamente vencido em Waterloo (18/06/1815) e relegado para a ilha de Santa Helena. Nos restantes seis anos de vida do monarca, o Papa empenhou-se nobremente por aliviar a sorte do exilado, hospedando os familiares deste; venceu moralmente o herói do seu século, adquirindo grande prestígio junto aos seus contemporâneos. Uma vez livre das pressões napoleônicas, Pio VII aplicou-se a organização do Estado Pontifício, depredado pela guerra e a pilhagem dos franceses. Não conseguiu, porém, restituir completa tranquilidade a Itália. O regime pontifício tradicional era tido como um obstáculo à unificação da península, que os italianos almejavam especialmente por inspiração das campanhas napoleônicas. Surgiu então à sociedade secreta dos Carbonari, aos quais se opunham os Sanfedistas, defensores da Santa Fé. Para apoiar a Igreja, Pio VII, aos 07/08/1814, restaurou a Companhia de Jesus na Igreja Universal, convencido de que ela tinha sua missão a cumprir no século XIX. Com a França e outros países da Europa as relações da Santa Sé melhoraram; foram assinadas diversas Concordatas que regeriam a situação da Igreja neste ou naquele país. Estes acordos testemunhavam o prestígio do Papa, que de novo era acatado como centro inabalável do governo da Igreja. Aliás, é de notar que o Congresso de Viena realizado em 1815 entre as potências europeias quis restaurar o Estado Pontifício quase na íntegra e reconheceu aos Núncios Apostólicos o direito de precedência em relação aos demais embaixadores. Pio VII morreu em 1823 com 81 anos de idade,após um pontificado de mais de 23 anos. O seu governo ressentiu-se da falta de energia, que teria sido absolutamente necessária, mas assinala- se pela grande caridade do Pontífice para com seu adversário Napoleão. A história desse Papa é mais uma vez o testemunho de quanto infeliz foi, para a Igreja, a união com o Estado; em vez de colaborar com os grandes projetos pastorais do Papa, os regimes monárquicos procuraram aproveitar-se da Igreja para realizar seus planos políticos. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE VIII LIBERALISMO e IGREJA. Conforme certos filólogos, a palavra «Liberalismo» vem do adjetivo espanhol «liberal», que na Europa do século' passado se difundiu em oposição ao adjetivo «servil» durante os movimentos políticos subsequentes ao governo de Napoleão Bonaparte. O liberalismo veio então a ser uma corrente de pensamento que afirma o valor da liberdade humana de modo tal que a cada cidadão toca o direito de conceber a Verdade, o Bem e a religião segundo o seu próprio alvitre, independentemente de qualquer tutela ou autoridade. 1. Histórico do liberalismo Foi no setor da sociologia e da política que o Liberalismo surgiu. Deve-se, com efeito, a uma reação dos povos contra os sistemas de governo monárquicos absolutistas que tiveram voga na Europa dos séculos XVII e XVIII (o poder executivo, representado pelo rei, quase absorvia os poderes legislativo e judiciário, gozando de faculdades praticamente ilimitadas). O berço da reação foi à França, onde a Revolução de 1789 (preparada pela filosofia racionalista e naturalista dos enciclopedistas Voltaire, Diderot, d’AIembert) desencadeou o ideal da «emancipação» dos cidadãos e do povo em todos os setores. Esse ideal encontrou em breve um dos seus maiores representantes na pessoa do sacerdote Félicité Robert de Lamennais. Imbuído de amor à causa cristã, esse varão concebeu a ideia de que a S. Igreja muito se beneficiaria se sacudisse os encargos decorrentes da sua união com o Estado; a partir de 1829, começou, pois, a propugnar uma só tese: liberdade ... liberdade em tudo e para todos; o governo civil procuraria promover o bem comum sem levar em conta os direitos da Igreja, criando um bem-estar natural, emancipado do sobrenatural; a S. Igreja, por sua vez, dispensaria a colaboração das autoridades civis, colaboração que em muitos casos equivalia à sufocação; a Igreja, dizia Lamennais, se desenvolveria melhor, pois Ela possui o poder da Verdade e do Amor, o poder mesmo de Deus. Lamennais comparava o sistema antigo à tutela exercida pelos genitores sobre os filhos, tutela que deve cessar quando estes chegam à maior idade; assim o povo teria estado sob o patrocínio da Igreja e do Governo unidos até o séc. XVIII. Doravante, porém, tendo chegado à plenitude dos tempos, o povo se devia libertar de qualquer tutela profana ou religiosa, estabelecendo uma ordem de coisas neutra em matéria de filosofia e religião; o Estado e a Igreja se separariam, reconhecendo que sua união fora mera preparação evangélica, a qual já se achava ultrapassada. O novo regime era chamado «democracia» (como se vê, este termo, em si muito belo, foi então forjado para designar uma ordem civil tida como leiga e indiferente, mas, em última análise, naturalista, racionalista e anticristã). Eis como Lamennais se exprimia : «O Estado deve considerar-se como colocado fora de todas as comunhões religiosas, sem autoridade sobre alguma delas, mas também sem outra obrigação para com elas que não a de lhes assegurar a liberdade. Isto supõe que o Estado, destituído de Religião ou, se quisermos, ateu, professe a liberdade de cultos e a de consciência e que a Igreja aceite praticamente estas duas coisas» (L'Avenir, t. I pág. 29s, artigo «De la Séparation de 1'Église et de l'État»). O ardoroso sacerdote reuniu em torno de si um grupo de jovens inteligentes e generosos, tais como Lacordaire, Montalembert, Gerbet, Rohrbacher, que constituíram a sociedade dita «Agence Générale pour la Défense de la Liberté religieuse». O movimento fundou o jornal «L'Avenir», com o lema «Dieu et Liberté», mas de duração muito efêmera (de 16/X/1830 a 15/XI/1831). Compreende-se que as ideias de Lamennais, ousadas como eram, tenham provocado receios e oposição, da parte tanto de bispos como de simples fiéis. Diante da situação, o Papa Gregório XVI em 1832 publicou a encíclica «Mirari vos», condenando as ideias de Lamennais (ideias que naquela época acarretavam perigos e males que hoje já não se verificariam). Quase todos os discípulos do mencionado sacerdote inclinaram-se diante da sentença da Santa Sé, ficando Lamennais a sós na sua residência de Chênaie, donde continuou a disseminar ideias cada vez mais liberais. Embora estivesse dissolvido, o grupo de discípulos de Lamennais não abandonou o ideal de conciliar com os princípios do Cristianismo a sede de emancipação dos homens do século passado. Foi o que suscitou novas iniciativas e prolongadas discussões nos decênios subsequentes. Em 1848 o Pe. Lacordaire fundou o jornal «Ère nouvelle», inspirado por liberalismo assaz acentuado e arauto de reivindicações sociais inovadoras; cora ele se achavam o Pe. Maret e o leigo Frederico Ozanam. Na oposição encontravam-se Louis Veuillot e Melchior Dulac, com o seu jornal. «L'UnÍvers». A situação se tornou cada vez mais confusa na França, onde se originaram dois partidos bem característicos: um, liberal, ao qual aderiram igualmente Montalembert, De Falloux, De Broglie, Augustin Cochin, Mons. Dupanloup, bispo de Orleães; e o antiliberal, que contou com o apoio de Mons. Fie, bispo de Poitiers. O estado de coisas era tão complexo que até os mais fervorosos católicos encontravam dificuldade para distinguir com clareza o que havia de oportuno e o que havia de errôneo nas ideias então propaladas. Tais circunstâncias exigiam novo pronunciamento da Santa Sé. Este, de fato, se deu aos 8 de dezembro de 1864, quando o S. Padre Pio IX publicou a encíclica «Quanta cura» acompanhada do Sílabo (ou Sumário de erros do pensamento da época) ; nesses documentos o Pontífice denunciava tudo que havia de condenável nas teses dos católicos liberais. Os anos seguintes foram anos de controvérsias. Menos de um mês após a publicação da encíclica, Mons. Dupanloup, notável por seus talentos e seu prestígio, divulgou um opúsculo intitulado «La Convention du 15 Septembre et TEncyclique du 8 décembre 1864», em que ainda procurava tornar simpática e aceitável à posição do Liberalismo. Em vista disto, distinguia entre doutrina e prática: no tocante à doutrina, asseverava, Pio IX nada condenara além do que já havia sido condenado em documentos anteriores; positivamente, apenas reiterara o pensamento da Igreja com relação à família, à sociedade e à política. No tocante à prática, porém, Mons. Dupanloup julgava que Pio IX deixara margem à conciliação com a vida moderna; seria possível, sim, abrir mão de algumas exigências práticas da verdade ou da doutrina da Igreja, caso o cumprimento de tais exigências aparecesse como algo de muito difícil ou impossível na sociedade do séc. XIX. Esta distinção entre doutrina e aplicação prática é, em linguagem de escola, designada pela fórmula “tese-hipótese” (a hipótese leva em conta os casos concretos ou a vida cotidiana, permitindo abrandamento de conclusões decorrentes da tese ou doutrina). A situação política da Itália favorecia as discussões: os patriotas tentavam unificar a península, abolindo o poder temporal do Papado; à sua frente, estava o Conde de Cavour, que pretendia apaziguar os ânimos, apregoando a fórmula de Montalembert: «A Igreja livre no Estado livre! (L'Église libre dans l'État libre!)»; o que queria dizer que nada haveria a temer para a Igreja caso viesse a perder o território do Vaticano, pois o Estado italiano leigo ou neutro (liberal) não entravaria as liberdades religiosas. Sobreveio a figura de Leão XIII. Este Pontífice, pacificador como era, quis esclarecer melhor a posição da Igreja na controvérsia, publicando a 1 de novembro de 1885 e a 20de junho de 1888 as encíclicas «Immortale Dei» e «Libertas», respectivamente. Tais documentos reafirmavam em primeiro lugar a doutrina das encíclicas «Mirari vos», «Quanta cura» e do Sílabo: asseveravam, sim, que todas as formas de governo são compatíveis com a doutrina católica, mas que a nenhum governo é lícito atribuir ao erro os mesmos direitos que à verdade ou colocar os diversos cultos no mesmo plano legal que a verdadeira Religião. «É necessário que a sociedade civil, como sociedade civil, reconheça Deus como seu princípio e seu fim ... que ela respeite e honre o poder e a soberania de Deus. A justiça e a razão proíbem que o Estado professe o ateísmo ou — o que equivaleria ao ateísmo — que ele mostre as mesmas disposições para com cada uma das diversas religiões... e indistintamente conceda a todas os mesmos direitos. Já que a profissão pública de uma só Religião é dever do Estado, faz-se mister que o Estado professe aquela Religião que é a única verdadeira, Religião que não é difícil reconhecer, principalmente nos países católicos, pois as características da verdade brilham nela por meio de sinais que a distinguem entre todas. Essa Religião, os chefes de governo tratem de conservá-la, de protegê-la, se querem prover, de maneira prudente e útil, como estão obrigados, ao bem comum dos cidadãos» (Leão XIII, enc. «Libertas»). Esta tese pode, à primeira vista, parecer rígida demais e, por conseguinte, utópica. Leão XIII tinha consciência de que seria praticamente inexequível nas circunstâncias da vida moderna. Por isto, não hesitou em explicar com precisão como na prática a doutrina (tese) poderia ser abrandada; sua posição resume-se nos três seguintes itens da enc. «Immortale Dei»: «Ninguém tem motivo para acusar a Igreja de rejeitar concessões e acomodações razoáveis ou de ser inimiga de sadia e legítima liberdade. — Com efeito; se a Igreja julga que não é lícito colocar os diversos cultos no mesmo pé legal que a verdadeira Religião, Ela nem por isto condena os chefes de governo que, visando alcançar determinado bem ou impedir certo mal, toleram na prática que esses diversos cultos tenham cada qual seu lugar no Estado. — É, aliás, costume da Igreja cuidar com todo o zelo, para que ninguém seja constrangido a abraçar a fé católica contra a sua vontade, pois, como observa S. Agostinho, a fé só pode existir onde haja espontaneidade» (Denzinger, Enchiridion 1873-1875). A fim de ilustrar melhor o pensamento do Pontífice, transcrevemos mais as seguintes passagens da encíclica «Libertas» “Em sua consideração materna, a Igreja leva em conta o peso acabrunhador da fraqueza humana: Ela não ignora a onda (libertina) que, em nossa época, arrasta os espíritos e as coisas. Por isto, embora só reconheça direitos ao que é verídico e honesto, Ela não se opõe à tolerância de que os poderes públicos dão provas frente a certas instituições contrárias à verdade e à justiça, tendo em vista evitar maiores males ou obter e conservar maiores bens. Deus mesmo, em sua Providência, embora infinitamente bom e todo-poderoso, permite, não obstante, a existência de certos males no mundo, ora para não impedir bens maiores, ora para evitar mais vultosos males. No regime das nações, convém que os governantes imitem Aquele que governa o mundo. Mais ainda: não podendo impedir todos os males particulares, a autoridade dos homens está obrigada a permitir e deixar impunes muitas coisas que, a justo titulo, cairão sob o juízo da Providência Divina. Observe-se, porém, o seguinte: se, em vista do bem comum, as leis dos homens podem e mesmo devem tolerar o mal, nunca o podem ou devem aprovar e desejar em si mesmo. Com efeito, o mal é a privação do bem; por conseguinte, ele se opõe ao bem comum, que o legislador está obrigado a desejar e defender do melhor modo possível. Neste ponto também as leis humanas devem procurar imitar a Deus... Uma coisa ficará sempre de pé, a saber: a liberdade concedida indiferentemente a todos e em favor de todos não é, como já muitas vezes dissemos, desejável em si mesma, pois repugna à razão que o erro e a verdade gozem dos mesmos direitos; no que se refere à tolerância, é estranho ver até que ponto se afastam da equidade e da prudência da Igreja aqueles que professam o Liberalismo”. Após tais declarações da Santa Sé, foram-se apaziguando os ânimos; o Liberalismo como tal deixou aos poucos de ser objeto de discussão. As controvérsias, porém, imprimiram suas marcas na mentalidade dos povos em geral até o dia de hoje. Pode-se dizer que numerosas correntes de filosofia, sociologia, política, assim como vários movimentos religiosos de nossos dias são, em última análise, expressões concretas da mentalidade liberal que tanto agitou os pensadores do século passado. Vejamos, pois, mais precisamente como se caracteriza essa mentalidade. Em que consiste o liberalismo? Como se depreende de quanto foi dito atrás, o Liberalismo constitui uma tendência ou uma atmosfera muito mais do que um sistema ou uma escola de pensamento. Essa tendência se distingue primariamente pela intenção de desligar a liberdade humana de qualquer lei ou autoridade que não seja puramente humana ou até... que não seja a do próprio sujeito. Atribui, pois, à razão a capacidade de discutir todos os valores, remover o que ela julgar inaceitável e erguer o que ela considerar oportuno. Em particular, o Liberalismo não reconhece autoridade religiosa sobrenatural, como a afirma o catolicismo :... autoridade que mereça acato e respeito independentemente dos valores humanos (virtude e sabedoria) de seus representantes. Aliás, esta premissa é essencial para que possa existir Liberalismo: tudo é humano, e meramente humano. Por isto, tudo é relativo, tudo é imperfeito. Nada, por conseguinte, nem mesmo a Religião, merece a adesão incondicional do homem. Daí se compreende que o Liberalismo acarrete indiferentismo, ora mais, ora menos acentuado; implantando-se numa sociedade, cedo ou tarde solapa as energias coletivas e o heroísmo das atitudes. Tal mentalidade toma facetas bem definidas quando aplicada às expressões da cultura. Eis um rápido catálogo dessas facetas: 1) Liberalismo filosófico. É a tendência a rejeitar no campo filosófico (ou na maneira geral de encarar o mundo e a vida) qualquer tutela que não seja a própria razão humana. Na Idade Média, os estudiosos talvez tenham abusado da autoridade do filósofo grego Aristóteles; Descartes (+1650) iniciou a reação contra essa docilidade, reação que aos poucos foi tomando proporções exageradas. A razão humana, em consequência, negou qualquer limite no exercício da reflexão, pretendendo julgar tudo, até mesmo as verdades religiosas. A possibilidade de dogmas de origem sobrenatural, não derivados da razão, foi, de antemão, negada: o homem bastaria a si mesmo (autossuficiência do pensamento humano). As correntes filosóficas contemporâneas não cristãs, por mais contrárias que sejam entre si, supõem todas tal ponto de partida: assim o criticismo, o idealismo, o positivismo, etc. Bons críticos modernos observam que nessa posição filosófica está latente certa contradição: o Liberalismo, que rejeita o dogma, de antemão admite um dogma — o dogma de que não pode haver autoridade ou tutela que transcenda a razão humana. Sem provas e gratuitamente, o pensador liberal se vincula a este pressuposto, cerceando a sua liberdade dentro do seu imanentismo ou da sua autossuficiência. Liberalismo religioso. Lutero proclamou o livre exame da Bíblia, ou seja, a recusa de qualquer autoridade visível que orientasse a leitura das Escrituras Sagradas; cada crente deveria perceber dentro de si, pelo testemunho meramente interno do Espírito Santo, o sentido da Palavra de Deus. Com isto Lutero deu início a uma nova mentalidade dentro do setor religioso — mentalidade subjetivista e individualista. Eis, porém, que, quando a fé no testemunho interno se atenuou (como no protestantismo do séc. XVIII), cada indivíduo ficou com a liberdade de julgar os valores da Religião sem controle superiorà sua própria razão; dai dizer-se que tanto faz abraçar esta como aquela religião ou mesmo recusar qualquer religião. Em última análise, todas as Religiões seriam boas; dir-se-ia que é o homem quem as faz, quem as julga, quem as condena, em vez de ser condenado pela Religião. Tais ideias repercutiram em certas correntes bíblicas dos séc. XVIII/XIX, favorecendo exageros na crítica dos livros sagrados. Em consequência, notáveis autores dedicados ao estudo das Escrituras chegaram a negar a Divindade de Cristo. Tal estado de coisas provocou entre os anglicanos o benfazejo «Movimento de Oxford», encabeçado por Newman, o qual denunciou e impugnou o liberalismo religioso, primeiramente como anglicano, depois como católico. Pio IX, no Silabo, condenou a proposição no 4, conforme a qual a razão seria a soberana norma para se julgar qualquer tipo de verdade (cf. Denzinger, 1704). Aplicado ao setor das relações da Igreja com o Estado, o Liberalismo religioso propugna um Estado leigo (que praticamente é Estado ateu), dissimulado sob o nome de Estado «tolerante»: Religião não seria valor necessário a um programa de bom governo; em matéria de Religião, não haveria propriamente nem verdade nem erro, nada enfim que merecesse o empenho do Estado. A Igreja, na impossibilidade de conseguir melhor solução, aceita esse agnosticismo, contanto que não degenere em perseguição religiosa. Liberalismo político. Caracteriza-se, no seu âmago, pelas ideias que acabam de ser expostas no tocante à Filosofia e à Religião. A política é uma das aplicações da Filosofia e da atitude religiosa do cidadão. Liberalismo econômico. No setor econômico, o Liberalismo ensina que a livre concorrência é lei providencial, a qual estimula a produção dos bens e a prosperidade dos povos; o interesse pessoal dos cidadãos, isento de qualquer intervenção do Estado, seria o grande propulsor das atividades econômicas. Essas ideias foram apregoadas de maneira sistemática na Escola de Manchester, orientada por Adam Smith (+1790). «Deixar fazer, deixar passar», tal era o lema desse tipo de Liberalismo; nenhuma autoridade teria o direito de exercer controle sobre as iniciativas dos indivíduos, que destarte facilmente cediam ao egoísmo e à ganância, estabelecendo a opressão dos pobres por parte dos ricos, reduzindo o trabalho à categoria de mercadoria sujeita às leis da oferta e da procura; tais males foram agravados pelo fato de que os economistas liberais do séc. XVIII professavam a total separação entre economia, de um lado, e moral (consciência), do outro lado. Foi o liberalismo econômico que provocou a concentração de grandes capitais em mãos de poucos proprietários, com detrimento para a massa da população entregue à miséria (donde o chamado «capitalismo»). Liberalismo artístico. Propala a separação entre às regras da arte e as normas da consciência ou da moral. Ao artista seria lícito produzir toda e qualquer obra de arte, sem levar em conta os ditames da ética. Em conclusão: o Liberalismo resumiria todas as suas expressões no seguinte princípio: Todo homem responsável por seus atos tem o direito de fazer o que lhe agrade, «certo ou errado», desde que os atos de tal indivíduo não prejudiquem a sociedade. As categorias de «certo» e «errado», conforme esta apreciação, são muito variáveis, de modo que ninguém pode pretender possuir a certeza ou a verdade. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE IX 1. PIO IX: O MAIS LONGO PONTIFICADO DA HISTÓRIA DA IGREJA. Beatificado em 2000, o papa Pio IX foi acusado de antissemitismo e teve papel fundamental em meio ao processo de unificação italiana. Pio IX foi o papa de número 255 na história da Igreja Católica, entre 1846 e 1878. Após a morte do Papa Gregório XVI -cuja eleição levará mais de dois meses de Conclave cardinalicío – os cardeais demoraram apenas 15 dias para elegerem um Cardeal italiano, Giovanni Conti Mastai-Ferretti, que tomou o nome de Pio IX. O seu pontificado prolongou-se por 31 anos e 8 meses, entre 1846 e 1848 o mais longo da história da Igreja Católica. Nascido no dia 13 de maio de 1792, Giovanni Maria Mastai- Ferreti nasceu na cidade italiana de Senigallia e estudou em Roma. Tentou seguir carreira militar, mas, por sofrer de epilepsia, não conseguiu ingressar na carreira e optou pela teologia. Sua ordenação como sacerdote se deu em 1819 e, então, foi para o Chile, onde exerceu seus primeiros anos de sacerdócio. Voltou à Itália em 1825 e, dois anos depois, foi nomeado arcebispo de Spoleto. Chegou ao posto de cardeal em 1840. Com o falecimento do papa Gregório XVI, um conclave foi convocado para escolher o novo Supremo Pontífice. Houve uma divisão entre os reformadores e os conservadores da época e Giovanni Mastai-Ferreti era identificado como um candidato liberal. Sagrando-se como vencedor no dia 16 de junho de 1846, assumiu o nome de Pio IX para homenagear seu antigo benfeitor Pio VIII. Pio IX desenvolveu um pontificado condenando o que chamava de falso liberalismo, condenava o panteísmo, o naturalismo, o racionalismo, o socialismo, o comunismo, a franco- maçonaria, o judaísmo e várias outras manifestações tidas como contrárias às diretrizes católicas. Insistia que a única teologia e a única filosofia que deveria ser seguida era a de São Tomás de Aquino. Como devoto da Virgem Maria, promoveu o dogma da Imaculada Conceição e também a devoção ao Sagrado Coração. Foi responsável também por um elevado número de beatificações e canonizações, sem precedentes para a época, e por reformas monásticas e litúrgicas. Convocou o concílio Vaticano I que determinou a infalibilidade papal como dogma da fé. Pio IX teve uma relação tensa com o judaísmo. Mesmo abolindo leis que determinavam condições opressoras aos judeus, condenou o judaísmo em uma de suas encíclicas. Por sinal, publicou mais de 75 encíclicas. De início, esperava-se que Pio IX seria um homem de abertura. Os católicos liberais, bem como os republicanos italianos, depositavam nele suas esperanças, talvez exageradas, e ficaram desencantados após o fracasso dos levantes revolucionários de 1848. Eleito papa pelo conclave de cardeais, tornou-se além de guia espiritual do mundo católico, soberano temporal dos Estados Pontifícios na Itália Central, em torno de Ravena. A origem desses Estados remonta a uma doação de Pepino, o Breve, ao papa de sua época, mais de mil anos antes. Era destinada a assegurar a autonomia da Santa Sé face às pressões dos soberanos temporais. O papado de Pio IX é traz a marca da caridade: ele começa a introduzir a democracia no governo de seus Estados; libera militantes da unidade nacional e instaura duas Câmaras para a votação de leis. Além disso, faz ingressar laicos nas comissões governamentais, dá início à construção de uma estrada de ferro, a renovação da iluminação pública, desobriga os judeus de Roma de residir num gueto e manda destruir o muro que cercava esse antigo bairro. Numerosos italianos viam nele um possível chefe de uma federação italiana. O abade piemontês Vincenzo Gioberti preconizava uma federação em torno do papa. Em setembro de 1847, o agitador republicano Giuseppe Mazzini lança um apelo ao papa para que lidere o movimento italiano de libertação. As revoluções de 1848 iriam pôr termo a essas veleidades liberais. Milão se subleva contra o absolutismo do imperador da Áustria, que reinava sobre a Lombardia e Veneza após o Congresso de Viena, de 1815. O rei do Piemonte, Charles-Albert, apela aos príncipes da península para que se juntassem a ele na guerra contra a Áustria, a fim de libertar a Lombardia e Veneza. Pio IX envia tropas pontifícias mas logo recua e renuncia à guerra. Em meio à confusão, republicanos comandados por Mazzini tomam a Santa Sé e proclamam a república em 9 de fevereiro de 1849. O papa teve de se refugiar na cidadela de Gaete, sul de Roma, de onde aguardou o desenrolar dos acontecimentos. Os italianos, comandados pelo rei de Piemonte-Sardenha são impiedosamente batidos pelos austríacos em Novara. Pio IX apela à França e à II Repúblicae envia o socorro de tropas francesas que entram em Rome em 2 de julho de 1849 após esmagar os voluntários de Giuseppe Garibaldi, vindos para defender a efêmera república romana. Pio IX impõe aos judeus de Roma uma contribuição especial para financiar seu retorno ao Vaticano. Repudiando o liberalismo e o engajamento político, confere total primazia à questão espiritual. Em 8 de dezembro de 1854, pronuncia o dogma da Imaculada Conceição a propósito da Virgem Maria. Em 1858 eclode o Caso Mortara. A polícia pontifical sequestra uma criança, Edgardo Mortara, de uma família judaica de Bolonha, sob pretexto que havia sido batizada por uma serviçal. A criança seria colocada sob a proteção do papa a fim de ser educada para o sacerdócio. A polêmica em torno do Caso Mortara surge como a primeira manifestação de antissemitismo moderna. O antissemitismo tradicional cede lugar a um antissemitismo ideológico ligado aos judeus cosmopolitas da burguesia, acusados de oprimir os trabalhadores. São acusados também de negar os valores universais da Europa das Luzes. Em resposta a esse antissemitismo nascente, os judeus ocidentais criam a Aliança Israelita Universal. Em 8 de dezembro de 1864, anexado à encíclica, Pio IX publica um documento catalogando tudo o que ele, enquanto papa, acreditava ser os erros do pensamento moderno. O documento testemunhava sua apreensão ante os Estados cada vez mais presentes que "tendiam a limitar a liberdade dos indivíduos". Contudo, o tom sarcástico e o excesso de linguagem do texto suscitou a ira dos católicos liberais. Era a época do ‘ultramontanismo’. Nos grandes países católicos, o clero e os fiéis manifestavam um crescente apoio ao papa ‘de outros montes’. A ação das tropas do rei de Piemonte-Sardenha e de Garibaldi, que tomaram os Estados Pontifícios, com a única exceção da Cidade Eterna, só fez crescer a simpatia dos católicos ao soberano pontífice. Em 1869 o papa convoca o Concílio Vaticano I com o fim de consolidar sua autoridade, baseada no dogma da infalibilidade pontifical. Em 20 de setembro de 1870, as tropas do rei da Itália ocupam Roma. Era o fim dos Estados Pontifícios. Pio IX se considera prisioneiro no Vaticano. Uma situação que perduraria até os Acordos de Latrão, em 1929, com o ‘duce’ Mussolini, e a criação do Estado soberano do Vaticano. O final do pontificado de Pio IX seria dedicado a combater o crescimento do anticlericalismo e as ideologias laicas na Europa Ocidental. O papa e seus sucessores fariam o possível para afirmar a autoridade da Santa Sé sobre os católicos do mundo inteiro, em detrimento das instituições intermediárias: associações culturais, ordens monásticas e ações associativas de laicos. Seu pontificado durou 31 anos, o segundo maior da história, só perdendo para São Pedro. Ocupando o cargo de Supremo Pontífice, foi um conservador. Condenava todas as novas ideologias e os movimentos que faziam parte do mundo moderno. Pio IX faleceu no dia sete de fevereiro de 1878 e foi sucedido por Leão XIII. Seu túmulo está na igreja de San Lorenzo Fuori le Mura. Sua beatificação foi controversa, mas o resultado foi dado no ano 2000. 2. Concílio do Vaticano I . O Concílio do Vaticano I foi o acontecimento de maior relevo na História da Igreja do século XIX. Considerado pela Igreja Católica de Roma seu vigésimo concílio ecumênico, celebrou-se na Basílica de São Pedro, em Roma, de 8 de dezembro de 1869 a 18 de julho de 1870. Foi convocado e presidido pelo Papa Pio IX, que “desejava remediar com um meio extraordinário os males extraordinários que afligem a Igreja” (Bula Aeterni Patris, 1868). 2.1.Os preparativos Mais de trezentos anos haviam decorrido após a última Assembleia do Concílio de Trento (3-4/12/1563), quando Pio IX, em dezembro de 1864, comunicou secretamente aos cardeais a sua intenção de reunir novo Concílio Ecumênico: os tempos, ingratos como eram, o exigiam; era preciso deliberar sobre os remédios a oferecer-lhes - o que se faria por excelência num Concílio68. A Bula de convocação saiu aos 29/06/1868, convidando também os protestantes e os ortodoxos separados; estes, porém, não compareceram. a notícia de um próximo Concílio suscitou entusiasmo e também apreensões; o público só sabia que seriam condenados erros contemporâneos, reafirmada a doutrina da Igreja, revistas à disciplina, a obra missionária, a formação dos seminaristas Mas na Cúria Romana reinava certo mistério sobre os intensos preparativos do Concílio. A agitação pública aumentou quando em fevereiro de 1869 a revista jesuíta La Civilta Cattolica anunciou que o Concílio estava para definir a infalibilidade papal. o mundo não católico imbuído de liberalismo proclamava-se defensor da liberdade dos simples fiéis católicos, ¨subjugados pelo domínio obscuro e obscurantista dos eclesiásticos¨. Na Alemanha, o historiador Pe. lnácio Dollinger (1799-1890) colocou-se a frente do movimento antiinfalibilista, com diversos escritos contrários a definição. o Presidente de Ministros da Baviera, Clodoveu de Hohenhole, procurou suscitar uma intervenção dos Governos europeus contra os pretensos perigos do Concílio. Os bispos alemães reunidos em Fulda (setembro de 1869) enviaram um escrito ao Papa em que declaravam não julgar oportuna a definição, embora não se opusessem a doutrina; temiam as reações dos Governos e cisões entre os próprios católicos. Em verdade, a definição desse dogma podia parecer ousadia numa época em que se respirava o liberalismo. 2.2. O decorrer do Concílio O Concílio foi aberto aos 08/12/1869 na basílica de São Pedro, com a presença de 764 prelados. - No mesmo dia e na mesma hora, abria-se em Nápoles, sob a presidência de Ricciardi, um anticoncílio, do qual participaram 700 delegados maçônicos do mundo inteiro; a Indignação dispersou esse conciliábulo após poucos dias, tal era a indignação popular provocada por blasfêmias contra Cristo e sua Mãe Imaculada. Quatro foram às sessões públicas do Concílio. A terceira, aos 24/04/1870, promulgou uma Constituição Dogmática Dei Filius, unanimemente aprovada: o cap. 1º afirma a existência de um Deus pessoal, livre, Criador de todas as coisas e independente do mundo criado (contra o materialismo e o panteísmo); o capítulo 2º ensina que certas verdades religiosas, como a existência de Deus, ¨podem ser conhecidas com certeza pela luz natural da razão humana¨ (contra o ateísmo e contra o fideísmo69 num século em que a fé cristã era escarnecida pelo racionalismo, o Concílio defendia a razão!); o texto desse 2º capítulo acrescenta que houve uma Revelação Divina, a qual chega até nós mediante tradições orais e Escrituras Sagradas. O capítulo 3º proclama que a fé é uma adesão livre do homem a Deus, que surge um dom da graça divina. O capítulo 4º define os setores próprios da razão e da fé e lembra que qualquer aparente desacordo entre razão e fé Sé pode vir de falsa compreensão das proposições da fé ou das conclusões da razão. A quarta sessão do Concílio, aos 18/07/1870, definiu a infalibilidade do Papa e seu primado de jurisdição sobre a lgreja inteira. O texto proposto à discussão dos padres conciliares foi debatido de março a julho; a assembleia se dividiu em dois campos: a grande maioria julgava a definição oportuna e necessária (eram apoiados por uma corrente de leigos franceses, encabeçados por Louis Veuillot, que, repudiando os resquícios de galicanismo, eram ditos ultramontanos, pois ultrapassavam a cordilheira dos Alpes para aderir a Roma); os demais eram contrários à definição; destes, poucos se opunham ao dogma como tal; outros apenas negavam a oportunidade de proclamá-lo, por causa das reações que isto poderia provocar. Entre os adversários da definição, citam-se o bispo Strossmayer de Djakovar (Eslavônia), que, depois da definição, aceitou fielmente a sentença do Concílio; e a bispo Hetele, que aduzia o caso do Papa Honório contra a infalibilidade. Este caso já foi abordado no capítulo 1º: sabe-se que Honório I (625-38), homem pouco especulativo, foi solicitado pelo Patriarca Sérgio de Constantinoplapara aderir ao monenergismo e ao monotelitismo70; Honório parece ter dado razão a Sérgio em suas cartas, ordenando que não se falasse mais nem de uma nem de duas energias (atividades) em Cristo; o Concílio Ecumênico de Constantinopla III em 681 condenou, por isto, o Papa Honório I. Ora deve-se dizer que Honório não tencionou pronunciar definições dogmáticas no caso; além disto, depreende-se do contexto mesmo das duas famosas cartas que, quando Honório fala de uma Sé vontade em Cristo, ele se refere ao plano moral e não ao plano físico (a vontade humana e a vontade divina em Jesus queriam sempre a mesma coisa). O mal de Honório não foi ter aderido ao erro, mas foi permitir, por descuido, que este se propagasse. Os argumentos da oposição foram sendo desfeitos. Quando viram a causa perdida, 56 dos oposicionistas se retiraram de Roma, tendo pedido e obtido a licença do Papa, aos 17/07/1870; deixaram, porém, uma carta ao Santo Padre, em que afirmavam seu propósito de conservar sempre fidelidade e submissão a Santa Sé. No dia seguinte, 18/07, 533 padres conciliares deram voto favorável à Constituição Pastor Aeternus; dois apenas se manifestaram contrários, mas logo se anexaram a sentença positiva. Pio IV promulgou logo a Constituição, o que provocou calorosa aclamação em toda a basílica de São Pedro. A Constituição assim aprovada consta de quatro capítulos, que afirmam o fundamento bíblico e patrístico, a duração perpétua, o valor e a essência do primado romano Assim como a infalibilidade do magistério papal. A autoridade do Papa foi definida como sendo sumo e imediato poder de jurisdição sobre toda a lgreja, ficando assim condenados o galicanismo e o febronianismo (cap. 3º). O capítulo 4º define, como dogma revelado por Deus, que as definições do Romano Pontífice proferidas ex cathedra, isto é, na qualidade de Mestre da lgreja inteira, em questões de fé e de Moral, gozam de especial assistência do Espírito Santo; são, pois, infalíveis e irreformáveis por si mesmas, sem necessitar da aprovação da igreja. Após esta memorável sessão, o Concílio ainda estava no início das suas atividades. Dos 51 projetos de decreto, Sé tinha estudado e publicado dois; das questões disciplinares, Sé quatro haviam sido discutidas, mas não definidas. Não obstante, o Concílio teve que ser interrompido abruptamente, pois no dia seguinte, 19/07, estourou a guerra franco-alemã, que obrigou muitos prelados a regressar a pátria. Sobreveio a ocupação de Roma aos 20/09/1870, que tornou praticamente impossível a continuação dos trabalhos. Em consequência, aos 20/10/1870 o Papa suspendeu o Concílio, que deveria voltar a reunir-se em época mais apropriada, mas na verdade nunca foi reaberto; o Concílio do Vaticano II (1962- 65) havia de completar os seus trabalhos. A importância do Concílio do Vaticano I é enorme para a Igreja. A definição da infalibilidade papal era a conclusão lógica de premissas contidas na própria Escritura (Mt 16,16-19; Lc 22,31; Jo 21, 15-17) e desenvolvidas através dos tempos; principalmente por ocasião dos litígios que afetavam a lgreja, foi emergindo na consciência dos cristãos a preeminência do magistério dos sucessores de Pedro. Precisamente as tendências galicanas e febronianas dos séculos XVII/XVIII serviram para aguçar essa tomada de consciência de modo mais vivo; humanamente falando, os católicos podiam ter optado pelo nacionalismo eclesial, mas o desenrolar dos embates e a ação do Espírito Santo levaram a lgreja como tal a reafirmar a antiga verdade do primado papal tanto em matéria de jurisdição quanto em matéria de doutrina. Numa época de descrença, a fé se afirmava de maneira corajosa. A própria lgreja aparecia como algo de transcendente ou como um Sacramento, que o homem recebe de Deus, a diferença de outras sociedades e instituições. A centralização explicitada pelo Concílio do Vaticano I teve expressões sempre mais perceptíveis durante os pontificados seguintes. Era preciso que ocorresse o Concílio do Vaticano II (1962-65) para terminar a obra que o anterior deixara inacabada. O Vaticano I Sé pôde abordar a função do Romano Pontífice, dentro do exíguo espaço de sua duração; o Vaticano II abordou também o papel dos bispos e dos presbíteros na Igreja, pondo em relevo o conceito de colegialidade que, sem apagar o primado de Pedro, enriquece a estrutura da Igreja. Claro está que a agitação pública que precedeu e acompanhou o Vaticano I, não se apaziguou logo. - Os bispos da minoria oposicionista submeteram-se pouco depois, inclusive Hefele de Rottenburg à 10/04/1871). Também a maior parte dos teólogos reconheceram a definição. - No cenário político, a definição do Vaticano I não foi tão focalizada e discutida como o teria sido se não fora a guerra franco-alemã; todavia alguns Estados e Estadistas tomariam atitude de suspeita diante da Igreja; a Prússia e alguns cantões da Suíça adotaram fortes medidas contra os católicos, que levaram ao Kulturkampf (secularização de bens eclesiásticos). Estas consequências desagradáveis, que culminaram no cisma dos Velhos-Católicos, não chegam a extinguir as vantagens que da definição resultaram para a lgreja. 2.3. Os Velhos-Católicos O Sacerdote Inácio Döllinger, já mencionado como adversário da definição, desde cedo se mostrara favorável ao sistema febroniano. Era famoso historiador e teólogo de Munique, que professava ideias liberais em matéria de doutrina e certo relativismo ou historicismo. Após a definição da infalibilidade, continuou a manifestar-se hostil ao Papado, que ele julgava desnecessário. A sua posição professada publicamente valeu Ihe a excomunhão da parte do arcebispo de Munique em 1871 - censura este que em 1872 atingiu outros professores de Faculdades alemãs, por se terem agregado a Döllinger. Aos poucos esses adeptos do mestre, a revelia do próprio mestre, resolveram fundar uma lgreja própria, cujo chefe era o professor João Frederico von Schulte, de Praga. A partir de 1872 foram sendo criadas paróquias de ¨Velho-Católicos¨. Esta designação se deve ao fato seguinte: quando o arcebispo de Munique voltou de Roma, após o Concílio, convidou Inácio Döllinger a ¨trabalhar Para a Santa lgreja¨; este respondeu secamente: ¨Sim, Para a antiga lgreja! - Há uma Sé lgreja, replicou o arcebispo, não existe nova nem antiga Igreja! - Mas fizeram uma nova!¨, retrucou o professor. Por conseguinte, Döllinger pertencia a Velha Igreja; resolveram também instituir um bispo Para si em 1873 na pessoa do professor de Teologia Joseph Hubert Reinkens, que foi receber a ordenação episcopal das mãos do arcebispo jansenista de Utrecht na Holanda. Em Pentecostes de 1874 um Sínodo em Bonn aprovou a constituição eclesiástica traçada por Schulte: cada povo tem sua Igreja nacional autônoma; as Igrejas nacionais estão ligadas pela ¨Conferência¨ de seus bispos. A autoridade suprema é o Sínodo, do qual fazem parte todos os eclesiásticos e os deputados dos leigos de cada paróquia; o Sínodo promulga leis e examina a administração. Na paróquia a autoridade suprema toca à assembleia dos fiéis, que elege o seu pároco; a este assiste o Conselho Paroquial. Os Velhos-Católicos aos poucos foram sendo penetrados por teses protestantes, que Ihes pareciam corresponder à disciplina da Igreja dos oito primeiros séculos (donde o nome ¨Velho-Católicos¨): rejeitaram, portanto, além do primado do Papa, o celibato sacerdotal, a confissão auricular, as indulgências, o culto dos santos, as procissões e peregrinações, a Imaculada Conceição. Introduziram a língua alemã na liturgia da Missa. Estas inovações causaram descontentamento dentro da própria comunhão cismática: dos Velhos-Católicos faziam-se Neo-protestantes. O próprio Inácio Döllinger abandonou publicamente a facção que ele inspirara. Aliás, a figura de Döllinger ficou sendo misteriosa. Ele não teria levado suas ideias a tais consequências práticas; não queria o cisma formal. Conservou-se sempre fiel aos votos do seu sacerdócio; absteve-se de celebrar a S. Missa após a excomunhão. Sempre levou vida muito modesta, de severasobriedade e muito trabalho. Parece que no fim da vida sentia saudades da lgreja de sua juventude. Desaconselhou mesmo a um de seus discípulos, Blennerhasset, que o seguisse no caminho tomado após o Vaticano I. O fato é que morreu em 1890 sem se ter reconciliado com a Igreja. Em 1889, os Velhos-Católicos e os jansenistas se aliaram na chamada ¨União de Utrecht¨. As tendências liberais se fizeram sentir muito especialmente na Suíça, onde os Velhos-Católicos são chamados ¨Igreja Cristã Católica¨, dirigida por leigos e não por teólogos, como na Alemanha, porque as razões da oposição ao Vaticano I eram mais políticas do que teológicas. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE X 1. História da Igreja: De Leão XIII a Pio XI (1878-1939). A queda do Estado Pontifício permitiu mais livre exercício das funções do Papado. Os sucessores de Pio IX até hoje têm sido grandes vultos, respeitados internacionalmente. Estudaremos, neste capítulo, os quatro primeiros: Leão XIII (1878-1903), Pio X (1903-14), Bento XV (1914-1922), Pio XI (1922-39). 1.1. Leão XIII (1878-1903) Após a morte de Pio IX, o conclave durou dois dias apenas em circunstâncias tranquilas, apesar das apreensões de vários Cardeais, receosos de que o Governo da Itália ou outra potência quisesse intervir na eleição do novo Papa. O rei da Itália fez questão de mostrar ao mundo que observava a “lei das Garantias”, que a Cúria papal havia rejeitado. O Colégio Cardinalício quis manter-se forte e independente de qualquer tutela estranha. Elegeu o Cardeal Joaquim Pecci, que já tinha 68 anos de idade e devia governar durante 25 anos com o nome de Leão XIII. Era homem de sólida formação teológica e humanista, que se dedicava ao estudo de S. Tomás de Aquino e a literatura latina. Passava por “moderado”; na verdade, Leão XIII foi firme na defesa da verdade e do direito; mas soube também ser ponderado e conciliador, de modo que se tornou uma das mais brilhantes figuras de sua época, como se poderá depreender do que será dito adiante; o mundo dava ouvidos a esse Papa tão prestigiado. Frente ao Estado italiano, reafirmou a sentença de Pio IX logo na sua primeira encíclica (21/04/1879): “O Estado da Igreja é uma instituição indispensável da Providência Divina para assegurar o livre exercício da autoridade eclesiástica”. Os “conciliadores” procuravam a aproximação do Estado italiano e do Vaticano; em vão, porém, pois a Maçonaria movia aquele e não cessava de hostilizar a Santa Sé. A partir de 1890, as relações entre o Quirinal e o Vaticano esfriaram mais ainda: este ignorou oficialmente a morte do rei Humberto e o governo italiano ignorou as bodas de ouro (1887) de sacerdócio do Papa. Na Alemanha Leão XIII teve que enfrentar o Kulturkampf (política antieclesial); comportou-se tão sabiamente em relação ao Primeiro-Ministro Bismarck que este recuou e até convidou o Pontífice para arbitrar um litígio da Alemanha com a Espanha a respeito das ilhas Carolinas; a sentença de Leão XIII (1885) foi acatada por ambas as partes. Por duas vezes (1888 e 1903) recebeu a visita do Imperador protestante Guilherme II no Vaticano, ao passo que aos príncipes e estadistas católicos a visita de Roma em forma oficial estava proibida desde 1870. Em 1888 Leão XIII recebeu a visita do rei da Inglaterra. Em 1895 foi criada a Embaixada da Rússia junto a Santa Sé. Por ocasião das bodas de ouro e diamante do Pontífice, quase todos os soberanos do mundo lhe mandaram felicitações e belos presentes (abstiveram-se, porém, a Itália e a Suécia). Apesar de tudo, a Holanda não convidou a Santa Sé para a Conferência Internacional de Haia em 1899, pois o Governo italiano exigiu que assim fosse. Na última sessão da Conferência, foi lida uma carta do Papa à rainha Guilhermina a respeito da missão pacificadora que o Papado sempre exerceu na história e sobre o modo como “ele sabe inclinar a concórdia tantos povos de gênio diverso”; a mensagem foi acolhida com deferência, mas, não obstante, as conversações de Haia sobre a paz e a guerra não puderam ter a assinatura do Pontífice. No regime interno da Igreja, Leão XIll revelou-se grande pastor e mestre: em 1879 escreveu a encíclica Aeterni Patris, que recomendava São Tomás de Aquino aos estudantes de Filosofia e Teologia, numa época de certo desatino filosófico, que prejudicava a própria teologia (o racionalismo, o fideísmo, o existencialismo… prejudicavam a penetração mesma das verdades da fé). Em 1891, deu início a serie de encíclicas papais referentes à questão social, escrevendo a Rerum Novarum, depois que vários eclesiásticos e leigos (Joseph de Maistre, Montalembert, Lacordaire, Ozanam, Veuillot, Ketteler…) haviam abordado o problema. Em 1902 criou a Pontifícia Comissão Bíblica para acompanhar as novas pesquisas exegéticas empreendidas por pensadores de diversas correntes! Em 1883 abriu aos estudiosos do mundo inteiro o Arquivo e a Biblioteca do Vaticano, querendo significar que a Igreja não teme a publicação de sua história. Em 1891 renovou e ampliou o Observatório do Vaticano, para onde ele se retirava com prazer a fim de trabalhar e repousar. Leão XIII faleceu com 93 anos de idade, ainda lúcido e enérgico. Fizera do Papado uma potência moral universal, com a qual deviam contar os estadistas. Já em 1883 Windthorst no Parlamento prussiano afirmava: “A autoridade moral da Santa Sé nunca foi maior em período algum da história”. Leão XIII fez aumentar essa herança. 1.2. Pio X (1903-14) e Bento XV (1914-22) 1.2.1. Pio X As probabilidades de eleição, no conclave seguinte, recaiam sobre o Cardeal Rampolla, Secretário de Estado de Leão XIII. Todavia o Governo austríaco, restaurando um antigo abuso, vetou essa candidatura, intimidando alguns Cardeais. Os eleitores então se voltaram para a figura de um pastor muito estimado pela sua grei e alheio à diplomacia: era o Cardeal José Sarto, que tomou o nome de Pio X e se tornou um Santo Pontífice. Logo no início do seu pontificado anunciou o seu lema: Instaurare omnia in Christo (instaurar tudo em Cristo). Propunha a si mesmo três tarefas: 1) conservar em estado puro a doutrina da fé, preservando-a de qualquer contaminação; 2) estimular a ação social dos católicos, continuando a obra de Leão XIII; 3) intensificar e reorganizar a espiritualidade e a pastoral da Igreja. Na política externa seria também o firme defensor dos direitos de Deus e da Igreja. Logo no início do seu pontificado, publicou normas referentes à eleição do Sumo Pontífice, a fim de evitar que se repetisse a atitude assumida anteriormente pela Áustria. Deu início ao trabalho de codificação do Direito da Igreja, cujas leis se achavam esparsas em diversas coletâneas e que precisava ser compilado de maneira orgânica e sistemática. Em 1904 foi nomeada para este fim uma Comissão, presidida por Mons. Pedro Gasparri, a qual trabalhou até 1917, quando Bento XV promulgou o novo Código de Direito Canônico (hoje substituído pelo Código de 1983). Foi muito importante à ação de Pio X nos setores da Liturgia e da piedade. Até a época do seu pontificado, perduravam entre os fiéis resquícios de Jansenismo e Galicanismo, que afastavam dos sacramentos e dificultavam o “sentir com a igreja” ou ter um senão eclesial apurado. Consciente disto, Pio X empreendeu a reforma do Missal e da Liturgia das horas canônicas (Breviário), impregnando estes livros do espírito de “volta às fontes” (S. Escritura, escritos dos antigos Padres da Igreja e documentos da Tradição). Incentivou também a Comunhão Eucarística frequente ou mesmo cotidiana; determinou que a Primeira Comunhão fosse ministrada às crianças desde o uso da razão. Estas medidas públicas e numerosas cartas particulares deste Papa atestam quanto estimava a vida espiritual e a procura dos meios de santificação. No setor doutrinário, o Pontífice teve que enfrentar o Modernismo, que reinterpretava toda a mensagem da fé, dando aos seus clássicos vocábulos sentido totalmente novo; as fórmulas dogmáticas seriam meros e mutáveis símbolos da verdade religiosa,que, como tal, não poderia ser conhecida. Refutando tais erros, Pio X publicou a encíclica Pascendi (1907), que caracterizava claramente as exigências da autêntica fé católica. Na Questão Romana, o Papa manteve a atitude firme de seus antecessores; permitiu, porém, que os católicos tomassem parte nas eleições italianas, ab-rogando um veto emanado de Pio IX. Ainda conheceu o início da guerra mundial de 1914-18, que o entristeceu profundamente. Veio a falecer aos 20/08/1914. Cativara a todos por sua simplicidade, piedade e meiguice. Foi canonizado em 1954. 1.2.2. Bento XV Em plena guerra mundial, foi eleito Papa aos 03/09/1914 o Cardeal Giácomo della Chiesa, com o nome de Bento XV, escolhido, em grande parte, por causa da sua experiência nos setores da diplomacia internacional. Parecia ser o homem indicado para governar a Igreja nas circunstâncias do conflito mundial. Era de pequena estatura, mas piedoso e prudente como também dotado de grande capacidade de trabalho, de perseverança férrea e notável eloquência. Conseguiu melhorar a sorte de populações e prisioneiros de guerra, sem distinção de confissão religiosa ou nacionalidade. Protestou contra meios bélicos desumanos. A 19/08/1917 dirigiu a todos os beligerantes concretas propostas de paz, procurando aproximar as nações entre si. Após a guerra, colaborou para que, debaixo da paz das armas, se realizasse a paz das mentes. Estes esforços muito aumentaram o prestígio da Santa Sé; o número de representações diplomáticas junto a esta subiu de 14 a 25; entre as novas, estava a da França, que sob Pio X separara a Igreja e o Estado e rompera as relações diplomáticas. A tensão entre a Itália e o Vaticano foi muito aliviada após a guerra mundial; o Estado italiano, vendo-se a braços com agitações internas, recebeu certo apoio do Papa, que concedeu aos católicos liberdade de atividade política. Em janeiro de 1919 formou- se, com o consentimento tácito da Santa Sé, o Partito Popolare italiano sob a direção do Sacerdote D. Luigi Sturzo, que em breve conseguiu numerosas cadeiras no Parlamento. Aliás, o conflito de 1914-18, embora tenha causado dolorosas devastações humanas no plano temporal, ocasionou alvissareiro florescimento da vida católica (renovação bíblica, litúrgica, teológica, Ação Católica…) Bento XV fica na memória dos homens como o intrépido Apóstolo da paz de Cristo durante a primeira guerra mundial. 1.3. Pio XI e o Tratado do Latrão Aos 06/02/1922 foi eleito Papa o Cardeal Aquiles Ratti, de Milão, com o nome de Pio XI. Era bem versado em Bibliotecas, em estudos de história e na diplomacia. Reunia em si as qualidades da prudência, da energia com a confiança em Deus e o otimismo. O mais vultoso acontecimento eclesiástico-político do seu pontificado foi à solução da prolongada Questão Romana; esta se deve a iniciativa pessoal e à grande coragem de Pio XI. Foi possibilitada também pela mudança do Governo italiano: em outubro de 1922 deu-se o advento do Fascismo, que tomou posição favorável à Igreja: o ensino da religião tornou-se de novo obrigatório nas escolas, os clérigos foram dispensados do serviço militar, foi oferecida assistência religiosa as Forças Armadas, os crucifixos foram recolocados nas escolas, nos hospitais e tribunais; igrejas e mosteiros profanados foram, em parte, restituídos, os dias santos católicos reconhecidos… Benito Mussolini, o chefe do Governo, percebeu a grande conveniência política de conciliar a Itália com o Vaticano. As negociações levaram dois anos e meio, terminando com a assinatura do Tratado do Latrão aos 11/02/1929, que encerrava sessenta anos de querela entre o Vaticano e o Quirinal. Este Tratado reconhecia a absoluta soberania do Papa sobre a pequena Cidade do Vaticano, que é o menor de todos os Estados independentes: 0, 44 km2, quando a República de San Marino tem 61 km2 e a de Andorra 465 km2 Ao Vaticano tocaria o direito de representação diplomática ativa e passiva. O Papa, de seu lado, reconhecia o reino da Itália sob a dinastia de Savoia e com a capital em Roma (reconhecia, portanto, a secularização dos antigos territórios pontifícios). Além da Cidade do Vaticano, o Pontífice dispõe de “lugares extraterritoriais”, como as principais basílicas de Roma, edifícios da cúria, a Vila de Castel Gandolfo… Num acordo separado, o Estado italiano se comprometia à pagar a Santa Sé a quantia de 1.750 milhões de liras a título de indenização. O Papa Pio XI, por ocasião do Tratado do Latrão, quis explicar o porquê da insistência de cinco Pontífices em não aceitar simplesmente a perda do Estado da Igreja: “Podemos dizer que não há uma linha, uma expressão do Tratado (do Latrão) que não tenham sido, ao menos durante uns trinta meses, objeto particular de nossos estudos, de nossas meditações e, mais ainda, de nossas orações, que pedimos igualmente a grande número de almas santas e mais amadas por Deus. Quanto a nós, sabíamos de antemão que não conseguiríamos contentar a todos, coisa que geralmente nem o próprio Deus consegue… …Alguns talvez achem exíguo demais o território temporal. Podemos responder, sem entrar em pormenores e precisões pouco oportunas, que é realmente pouco, muito pouco; foi deliberadamente que pedimos o menos possível nessa matéria, depois de ter refletido, meditado e orado bastante. E isso, por vários motivos, que nos parecem válidos e sérios. Antes do mais, quisemos mostrar que somos sempre o Pai que trata com seus filhos; em outros termos: quisemos manifestar nossa intenção de não tornar as coisas mais complicadas e, sim, mais simples e mais fáceis. Além disto, queríamos acalmar e dissipar toda espécie de inquietação; queríamos tornar totalmente injusta, absolutamente infundada, qualquer recriminação levantada em nome de… iríamos dizer: uma superstição de integridade territorial do país (Itália). Em terceiro lugar, quisemos demonstrar de modo peremptório que espécie nenhuma de ambição terrestre inspira o Vigário de Jesus Cristo, mas unicamente a consciência de que não é possível não pedir, pois certa soberania territorial é a condição universal reconhecida como indispensável a todo autêntico poder de jurisdição. Por conseguinte, um mínimo de território que baste para o exercício da jurisdição, o território sem o qual não poderia subsistir… Parece-nos, em suma, ver as coisas tais como elas se realizavam na pessoa de São Francisco: este tinha apenas o corpo estritamente necessário para poder deter a alma unida a si. O mesmo se deu com outros santos: seu corpo estava reduzido ao estrito necessário para servir à alma, para continuar a vida humana e, com a vida, sua atividade benfazeja. Tornar-se-á claro a todos, esperamo-lo, que o Sumo Pontífice não possui como território material senão o que Ihe é indispensável para o exercício de um poder espiritual confiado a homens em proveito de homens. Não hesitamos em dizer que nos comprazemos neste estado de coisas; comprazemo-nos por ver o domínio material reduzido a limites tão restritos que… os homens o devem considerar como que espiritualizado pela missão espiritual imensa, sublime e realmente divina que ele é destinado a sustentar e favorecer” (trecho da alocução publicada por L’Osservatore Romano de 13 de fevereiro de 1929). As palavras acima definem bem a mente da Igreja a respeito do poder temporal. Em última análise, vê-se que o Papa considera a sua soberania territorial como o corpo imprescindível ao exercício das atividades de uma alma ou como condição indispensável para o cumprimento de sua missão; assim como a alma neste mundo não age normalmente sem corpo, assim a tarefa espiritual da Igreja seria impedida, caso lhe faltasse tal suporte temporal. 2. O Papa Pio XII. (1939 – 1958) O Papa Pio XII foi o 260º soberano da Igreja Católica. Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli nasceu em Roma no dia 2 de março de 1876. Proveniente de uma família da nobreza italiana, era neto de Marcantonio Pacelli, que fora subsecretário do Ministério das Finanças Papais e fundador do jornal oficial do Vaticano sob o pontificadode Pio IX. Seu pai e seu irmão também eram extremamente ligados às questões religiosas. Pacelli estudou no Liceu Visconti e, em 1884, ingressou na Universidade Gregoriana para os estudos de Teologia. Chegou a cursar um ano de Filosofia também na Universidade La Sapienza. Mais tarde, em 1899, passou a estudar na Pontifícia Universidade Lataranense e obteve licença em Teologia, Direito Civil e Direito Canônico. O início dos trabalhos apostólicos de Pacelli aconteceu na igreja de Santa Maria Vallicella, onde integrava um grupo de jovens. Sua ordenação como sacerdote finalmente se realizou no dia 2 de abril de 1899. Já em 1991, ingressou na Congregação dos Assuntos Eclesiásticos Extraordinários e se tornou responsável pelas relações internacionais do Vaticano. Assistiu ao conclave de 1903 e presenciou o veto do imperador austríaco Francisco José I que impediu o cardeal Rampolla ser nomeado papa. Pacelli tinha respeito e a confiança dos altos escalões da Igreja. Prova disso foi sua nomeação de “Camareiro” do papa. Como intelectual, publicou algumas obras, mas recusou ser professor em cadeiras de Direito Canônico até aceitar lecionar na Pontifícia Academia Eclesiástica, importante formadora da Cúria Romana. Foi o representante do Vaticano no Congresso Eucarístico Internacional e representou a Santa Sé em várias ocasiões públicas nas quais esteve em contato direto com grandes líderes de Estado. Durante a Primeira Guerra Mundial, Pacelli assume a responsabilidade de promover a política papal durante o conflito. Tenta, especialmente, evitar a entrada da Itália na guerra, mas não obtém êxito. Ainda durante o conflito, é nomeado, em 1917, como Núncio Apostólico na Baviera e arcebispo de Sardes. É responsável por uma intensa atividade diplomática da Igreja Católica. Após sua nunciatura na Alemanha, Pacelli foi nomeado cardeal no dia 16 de dezembro de 1922 pelo papa Pio XI e tornou- se, no ano seguinte, Secretário de Estado. Foi fiel colaborador do papa Pio XI e condenou os totalitarismos. Chegou a Cardeal Camerlengo em 1935 e viajou pela Europa e pela América em missões diplomáticas. Ainda no mesmo ano de 1935, tornou-se membro da Ordem Terceira de São Domingos, o que o fez receber o hábito de dominicano. Com o falecimento do papa Pio XI, teve início o conclave de 1939 para escolher o novo soberano da Igreja Católica. No dia do aniversário de Pacelli, 2 de março, ele foi eleito para assumir o cargo de Supremo Pontífice, adotando, então, o nome de Papa Pio XII. O Papa Pio XII assumiu a liderança da Igreja em um momento crítico para a humanidade, o ambiente era de extrema tensão e já se previa o início de um novo confronto entre os países europeus. Não tardou para que, no mesmo ano, começasse a Segunda Guerra Mundial. Com uma longa carreira diplomática, procurou de todas as formas evitar o combate, porém sem sucesso. Passou os anos do conflito tentando alcançar a paz e condenou a perseguição aos judeus. Quando os nazistas invadiram Roma, abriu a Santa Sé para os refugiados e concedeu cidadania a quase 1.500.000 de pessoas. O ativo posicionamento de Pio XII contra o que acontecia na Europa fez com que Hitler ameaçasse raptá-lo. O líder nazista tinha receio da influência e do poder do papa e preocupou-se em garantir os arquivos e os tesouros artísticos do Vaticano e transferir a Cúria para um lugar neutro para que pudesse ter influência na eleição do novo papa. Com todas as adversidades, o Papa Pio XII superou a Segunda Guerra Mundial com um esforço notório pela paz, muito embora seja alvo de polêmicas discussões. Depois do conflito, condena a União Soviética pelos males contra povos do Leste Europeu e contra a repressão religiosa. Foi também um crítico dos males da Guerra Fria e rejeitou a doutrina do comunismo. O Papa Pio XII faleceu no dia 9 de outubro de 1958. Seu corpo foi embalsamado de maneira equivocada, o que ficou notório durante seu velório. O odor e a decomposição aconteceram de forma intensa. Seus restos mortais foram removidos secretamente no dia 12 de outubro para finalmente receber um tratamento correto. Foi sucedido pelo papa João XXIII. Em 2007, a Congregação para a Causa dos Santos reconheceu as virtudes de Pio XII e passou ao papa Bento XVI a decisão de torna-lo Venerável, último passo antes de ser beatificado. A proclamação de Venerável aconteceu em 2009 e, agora, aguarda-se a confirmação de um milagre intercedido por Pio XII para que seja declarado beato. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE XI 1. O PAPA JOÃO XXIII. (1881-1963) João XXIII, foi cardeal de Veneza na Itália, eleito papa em 28 de outubro de 1958; aos 77 anos de idade; foi o Papa que convocou ao Concílio Vaticano II e sentou as bases para a reforma da Igreja. João Paulo II disse que o Vaticano II foi “a primavera da Igreja”. Ao ser eleito, já idoso, dizia-se que o Patriarca de Veneza (Cardeal Angelo Giuseppe Roncalli), seria um “Papa de transição”. Sua grande obra foi o Concílio Vaticano II, anunciado em 25/1/1959 (festa da conversão de São Paulo) e aberto quase 4 anos depois de preparação: o mais importante evento da Igreja no século XX. O Concílio reuniu por três anos (1963-65) cerca de 2600 bispos do mundo todo em Roma. João XXII faleceu no meio do Concílio, em 3 de junho de 1963, substituído por Paulo VI. Por seus gestos e palavras extraordinariamente populares se converteu no “Papa bom”. A bondade e a santidade de João XXIII foram consenso. Era um papa simples, alegre e brincalhão. Um dia, visitando uma paróquia de Roma, ouviu uma senhora dizer: “Nossa, como ele é gordo!”; simplesmente lhe respondeu: “Minha senhora, o conclave não é um concurso de beleza”. João XXIII conviveu com a modernidade sem a temer. Esforçava-se por contatar com todos os homens seus contemporâneos. O Vaticano passou a ser a “casa paterna”. Um dia ele escreveu: “Nada há de heroico em tudo o que me aconteceu e em tudo o que julguei que tinha de fazer. Uma vez que se renunciei a tudo, (…) qualquer audácia resulta a coisa mais simples e natural do mundo”. Por ocasião do falecimento de Pio XII escreveu no seu Diário: “Estamos na Terra não para guardar um museu, mas para cultivar um jardim cheio de vida e destinado a um futuro glorioso”. Como Papa (1958-1963), João XXIII valorizou o ministério de bispo de Roma. Na Itália, procurou a autonomia da Igreja. A decisão de colocar o Evangelho acima dos partidos políticos explica o respeito com que foi acolhida a sua atuação durante a séria crise dos mísseis de Cuba, em outubro de 1962. Para João XXIII a mudança e a novidade do mundo exigiam a realização de um concílio, um novo Pentecostes capaz de reanimar a riqueza interior da Igreja. Daqui o perfil do Concílio Vaticano II (1962-1965). Na oração de abertura ele pediu a Deus “um novo Pentecostes para a Igreja”; e isto aconteceu. Através das suas oito encíclicas, João XXIII dirigiu-se a todos os “homens de boa vontade”. Sobre o Concílio Vaticano II, ele disse: “A ideia do Concílio não amadureceu como fruto de prolongada consideração, mas como o florir espontâneo de uma inesperada primavera”. (Alocução de 09/8/1959) “Consideramos inspiração do Altíssimo a ideia de convocar um Concílio Ecumênico, que desde o início de nosso pontificado se apresentou à nossa mente como o florir de uma inesperada primavera”. (Alocução de 05/6/60). “A ideia mal surgiu em nossa mente e logo a comunicamos com fraternal confiança aos senhores cardeais, lá na Basílica Ostiense de São Paulo Fora dos Muros, junto ao sepulcro do Apóstolo dos Gentios, na festa comemorativa de sua conversão, a 25 de janeiro de 1959”. (Alocução de 20/6/62). No dia 13 de setembro de 1960 ele explicou em linhas gerais qual deveria ser o objetivo do Concílio Ecumênico. Disse então João XXIII: “A obra do Concílio Ecumênico é verdadeiramente concebida para restituir ao semblante da Igreja de Cristo todo o esplendor dos seus traços mais simples e mais puros das suas origens, a fim de apresentá-la tal como o seu divino fundador a criou”. 2. ConstituiçãoApostólica do Papa João XXIII. Humanae Salutis Convocação do Concílio Ecumênico Vaticano II 1. O divino Redentor Jesus Cristo que, antes de subir ao céu, dera aos Apóstolos o mandato de pregar o evangelho a todos os povos, para sustento e garantia de sua missão, fez-lhes a consoladora promessa: “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos séculos” (Mt 28,20). 2. Esta divina presença, sempre viva e operante na Igreja, é sentida sobretudo nos períodos mais graves da humanidade. É então que a esposa de Cristo se mostra em todo o seu esplendor de mestra da verdade e ministradora de salvação; e é então que, também, exerce todo o poder da caridade, da oração, do sacrifício e do sofrimento: meios espirituais invencíveis, usados por seu divino Fundador que em hora solene de sua vida declarou: “Tende confiança: Eu venci o mundo” (Jo 16,33). Averiguações dolorosas 3. A Igreja assiste, hoje, à grave crise da sociedade. Enquanto para a humanidade surge uma era nova, obrigações de uma gravidade e amplitude imensas pesam sobre a Igreja, como nas épocas mais trágicas da sua história. Trata-se, na verdade, de pôr em contato com as energias vivificadoras e perenes do evangelho o mundo moderno: mundo que se exalta por suas conquistas no campo da técnica e da ciência, mas que carrega também as consequências de uma ordem temporal que alguns quiseram reorganizar prescindindo de Deus. Por isso, a sociedade moderna se caracteriza por um grande progresso material a que não corresponde igual progresso no campo moral. Daí, enfraquecer-se o anseio pelos valores do espírito e crescer o impulso para a procura quase exclusiva dos gozos terrenos, que o avanço da técnica põe, com tanta facilidade, ao alcance de todos; e mais ainda – um fato inteiramente novo e desconcertante – a existência do ateísmo militante, operando em plano mundial. Motivos de confiança 4. Estas dolorosas averiguações conclamam ao dever da vigilância e despertam o senso da responsabilidade. Almas sem confiança veem apenas trevas tomando conta da face da terra. Nós, porém, preferimos rearmar toda a nossa confiança em nosso Salvador, que não se afastou do mundo, por ele remido. Antes, mesmo, apropriando-nos da recomendação de Jesus, de saber distinguir “os sinais do tempo” (Mt 16,3), pareceu-nos vislumbrar, no meio de tanta treva, não poucos indícios que dão sólida esperança de tempos melhores para a Igreja e a humanidade. Pois mesmo as guerras sangrentas que se seguiram em nossos tempos, as ruínas espirituais causadas por tantas ideologias e os frutos de experiências tão amargas, não se processaram sem deixar úteis ensinamentos. E o progresso científico, que deu ao homem a possibilidade de criar instrumentos catastróficos para a sua destruição, fez com que se levantassem interrogações angustiosas: obrigou os seres humanos a se tornarem mais ponderados, mais conscientes dos próprios limites, mais desejosos de paz, atentos à importância dos valores do espírito; acelerou o processo de mais estreita colaboração e mútua integração entre os indivíduos, classes e nações, à qual, embora entre mil incertezas, parece já encaminhada a família humana. Tudo isto facilita, sem dúvida, o apostolado da Igreja, pois muitos que ontem não percebiam a importância de sua missão, hoje, ensinados pela experiência, estão mais dispostos a acolher suas advertências. Hodierna vitalidade da Igreja 5. Se voltarmos a atenção para a Igreja, vemos que ela não permaneceu inerte espectadora em face destes acontecimentos, mas seguiu, passo a passo, a evolução dos povos, o progresso científico, as revoluções sociais; opôs-se, decididamente, às ideologias materialistas e negadoras da fé; viu, enfim, brotarem de seu seio e desprenderem-se imensas energias de apostolado, de oração, de ação em todos os campos, por parte, primeiramente, do clero sempre mais à altura de sua missão pela doutrina e virtude e, depois, por parte do laicato, que se tornou sempre mais consciente de suas responsabilidades no seio da Igreja e, de modo particular, de seu dever de colaborar com a hierarquia eclesiástica. A isto se acrescentam os imensos sofrimentos de cristandades inteiras, onde uma multidão de pastores, de sacerdotes e de leigos, pela invicta firmeza da própria fé, sofrem perseguições de todo gênero e revelam heroísmo certamente não inferior aos dos períodos mais gloriosos da Igreja. Assim, se o mundo aparece profundamente mudado, também a comunidade cristã está em grande parte transformada e renovada: isto é, socialmente fortalecida na unidade, intelectualmente revigorada, interiormente purificada, pronta, desta forma, a enfrentar todos os combates da fé. O concílio ecumênico Vaticano II 6. Diante deste duplo espetáculo: um mundo que revela um grave estado de indigência espiritual e a Igreja de Cristo, tão vibrante de vitalidade, nós, desde quando subimos ao supremo pontificado, não obstante nossa indignidade e por um desígnio da Providência, sentimos logo o urgente dever de conclamar os nossos filhos para dar à Igreja a possibilidade de contribuir mais eficazmente na solução dos problemas da idade moderna. Por este motivo, acolhendo como vinda do alto uma voz íntima de nosso espírito, julgamos estar maduro o tempo para oferecermos à Igreja católica e ao mundo o dom de um novo concílio ecumênico, em acréscimo e continuação à série dos vinte grandes concílios, realizados ao longo dos séculos, como uma verdadeira providência celestial para incremento da graça na alma dos fiéis e para o progresso cristão. A jubilosa repercussão que teve seu anúncio, seguida da participação orante de toda a Igreja e do fervor nos trabalhos de preparação, verdadeiramente encorajador, como também o vivo interesse ou, pelo menos, a atenção respeitosa por parte de não católicos e até de não-cristãos demonstraram, da maneira mais eloquente, como não escapou a ninguém a importância histórica do acontecimento. 7. O próximo concílio reúne-se, felizmente, no momento em que a Igreja percebe, de modo mais vivo, o desejo de fortificar a sua fé e de espelhar-se na própria e maravilhosa unidade; como, também, percebe melhor o dever urgente de dar maior eficiência à sua robusta vitalidade, e de promover a santificação de seus membros, a difusão da verdade revelada, a consolidação de suas estruturas. Será esta uma demonstração da Igreja, sempre viva e sempre jovem, que sente o ritmo do tempo e que, em cada século, se orna de um novo esplendor, irradia novas luzes, realiza novas conquistas, permanecendo, contudo, sempre idêntica a si mesma, fiel à imagem divina impressa em sua face pelo esposo que a ama e protege, Jesus Cristo. 8. No instante, pois, de generosos e crescentes esforços que de várias partes são feitos com o fim de reconstituir aquela unidade visível de todos os cristãos e que corresponda aos desejos do divino Redentor, é muito natural que o próximo concílio ilustre mais abundantemente aqueles capítulos de doutrina, mostre aqueles exemplos de caridade fraterna que tornarão ainda mais vivo nos irmãos separados o desejo de auspicioso retorno à unidade e lhes prepararão o caminho para consegui-la. 9.Ao mundo, enfim, perplexo, confuso, ansioso sob a contínua ameaça de novos e assustadores conflitos, o próximo concílio é chamado a oferecer uma possibilidade de suscitar, em todos os homens de boa vontade, pensamentos e propósitos de paz: paz que pode e deve vir sobretudo das realidades espirituais e sobrenaturais da inteligência e da consciência humana, iluminadas e guiadas por Deus, criador e redentor da humanidade. Programa de trabalho do concílio 10. Estes frutos do concílio, por nós tão esperados e sobre os quais tão frequentemente temos falado, supõem um vasto programa de trabalho, que ora se está preparando. Isto diz respeito aos programas doutrinais e práticos mais consentâneos com as exigências da perfeita conformidade à doutrina cristã, à edificação e ao serviço do corpo místico e da sua missão sobrenatural, isto é, o Livro sagrado, a veneranda Tradição,os sacramentos, a oração, a disciplina eclesiástica, as atividades caritativas e assistenciais, o apostolado dos leigos, os horizontes missionários. 11. Esta ordem sobrenatural deve refletir, porém, toda a sua eficácia também sobre a outra, a temporal, que, infelizmente, vem a ser por tantas vezes a única que ocupa e preocupa o homem. Também neste campo, a Igreja demonstrou querer ser mãe e mestra, segundo a expressão do nosso longínquo e glorioso antecessor Inocêncio III, pronunciada por ocasião do concílio Lateranense IV Embora não tendo finalidade diretamente terrestre, ela, contudo, não pode desinteressar-se, no seu caminho, dos problemas e dos trabalhos de cá de baixo. Sabe quanto aproveitam ao bem da alma aqueles meios que são aptos a tornar mais humana a vida de cada homem, que deve ser salvo; sabe que, vivificando a ordem temporal, com a luz de Cristo, revela também os homens a si mesmos, o próprio ser, a própria dignidade e a própria finalidade. Daí a presença viva da Igreja, estendida, hoje, de direito e de fato, às organizações internacionais, e daí a elaboração da sua doutrina social referente à família, à escola, ao trabalho, à sociedade civil, e a todos os problemas conexos, que elevam a um altíssimo prestígio o seu magistério, como a voz mais autorizada, intérprete e propugnadora da ordem moral, reivindicadora dos direitos e dos deveres de todos os seres humanos e de todas as comunidades políticas. 12. A influência benéfica das deliberações conciliares, como vivamente o esperamos, deverá impor-se a ponto de revestir de luz cristã e penetrar de fervorosa energia espiritual não só o íntimo das almas mas o conjunto das atividades humanas. Convocação do concílio 13. O primeiro anúncio do concílio por nós dado, no dia 25 de janeiro de 1959, foi como a pequena semente que depusemos com ânimo e mãos trêmulas. Sustentado pela ajuda celestial, nos limitamos ao complexo e delicado trabalho de preparação. Três anos já se passaram, nos quais, dia a dia, vimos desenvolver-se a pequena semente e tornar-se, com a bênção de Deus, uma grande árvore. Ao rever o longo e cansativo caminho percorrido, eleva-se de nossa mente um hino de agradecimento ao Senhor, por ser-nos ele pródigo em auxílios, de tal modo que tudo se desenrolou convenientemente e harmonicamente. 14. Antes de determinar os assuntos a estudar, com vistas ao futuro concílio, quisemos, Antes de determinar os assuntos a estudar, com vistas ao futuro concítudo, conhecer o sábio e ilustrado parecer do colégio cardinalício, do episcopado de todo o mundo, dos sagrados dicastérios da cúria romana, dos superiores das ordens e das congregações religiosas, das universidades e das faculdades eclesiásticas. No transcurso de um ano terminou-se este ingente trabalho de consultas, de cujo exame brotaram claros os pontos a serem submetidos a um profundo estudo. 15. Constituímos, então, os diversos organismos preparatórios, aos quais comamos a árdua tarefa de elaborar os esquemas doutrinários e disciplinares, de onde escolheremos aqueles que pretendemos submeter à assembleia conciliar. 16. Temos, finalmente, a alegria de comunicar que este imenso trabalho de estudo, ao qual deram sua contribuição valiosa os cardeais, bispos, prelados, teólogos, canonistas, técnicos de todas as partes do mundo, alcança já o seu termo. 17. Comando, pois, no auxílio do divino Redentor, princípio e fim de todas as coisas, de sua Mãe e de são José, a quem, desde o início, entregamos um tão grande acontecimento, parece-nos chegada a hora de convocar o concílio ecumênico Vaticano II. 18. Portanto, depois de ouvir o parecer de nossos irmãos os cardeais da santa Igreja romana, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos santos apóstolos Pedro e Paulo e com a nossa, anunciamos, indicamos e convocamos para o próximo ano de 1962, o ecumênico e geral concílio, que se celebrará na Basílica Vaticana, nos dias que serão fixados segundo a oportunidade que a boa Providência quiser nos oferecer. 19. Queremos em consequência, e ordenamos, que a este concílio ecumênico, por nós indicado, venham de toda parte todos os nossos diletos filhos cardeais, os veneráveis irmãos patriarcas, primazes, arcebispos e bispos tanto residenciais como apenas titulares e ademais todos os que têm direito e dever de intervir no concílio. Convite à oração 20. E agora pedimos a cada um dos féis e a todo o povo cristão o prosseguimento da participação e da oração mais viva que acompanhe, vivifique e adorne a preparação próxima ao grande acontecimento. Seja esta oração inspirada pela fé ardente e perseverante; seja acompanhada por aquela penitência cristã que a torna mais aceita e mais eficaz; seja valorizada pelo esforço de vida cristã, qual penhor antecipado da disposição decidida de cada fiel em aplicar os ensinamentos e as diretrizes práticas que emanarem do próprio concílio. 21. Ao venerável clero, tanto secular como regular, esparso por todo o mundo; a todas as categorias de fiéis, dirigimos o nosso apelo. Mas, de modo especial, confiamos o seu êxito às preces das crianças, sabendo muito bem o quanto seja poderosa junto a Deus a voz da inocência; e aos enfermos e sofredores, porque seus sofrimentos e sua vida de imolação, em virtude da cruz de Cristo, se transformam e se erguem em prece, em redenção, em fonte de vida para a Igreja. 22. A este coro de orações convidamos também os cristãos das Igrejas separadas de Roma, pois também a eles o concílio trará frutos. Sabemos que muitos destes filhos estão ansiosos por um retorno à unidade e à paz, segundo o ensinamento e a prece de Cristo ao Pai. Sabemos, também, que o anúncio do concílio não só foi por eles acolhido com alegria, mas não poucos já prometeram oferecer suas orações para seu feliz êxito, e esperam enviar representantes de suas comunidades para seguirem de perto os trabalhos. Tudo isto é para nós motivo de grande conforto e de esperança, e, precisamente, para favorecer estes contatos, instituímos, com este fim, já há tempos, um secretariado. 23. Repita-se deste modo, na família cristã, o espetáculo dos apóstolos em Jerusalém, depois da ascensão de Jesus aos céus, quando a Igreja nascente se viu toda unida em comunhão de pensamento e de preces com Pedro e ao redor de Pedro, pastor dos cordeiros e das ovelhas. E digne-se o divino Espírito ouvir da maneira mais consoladora a oração que todos os dias sobe de todos os recantos da terra: “Renova em nossa época os prodígios, como em novo Pentecostes; e concede que a Igreja santa, reunida em unânime e instante oração junto a Maria, Mãe de Jesus, e guiada por Pedro, difunda o reino do divino Salvador, que é reino da verdade, de justiça, de amor e de paz. Assim seja” (cf. AAS 51 [1959], p. 832). Dada em Roma, junto a São Pedro, aos 25 de dezembro, festa do nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo, de 1961, quarto do nosso Pontificado. *** Eu, João, Bispo da Igreja Católica HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE XII 1. O Concílio Vaticano II. O XXI Concílio Ecumênico da Igreja Católica, foi convocado no dia 25 de Dezembro de 1961, através da bula papal "Humanae salutis", pelo Papa João XXIII. Este mesmo Papa inaugurou-o, a ritmo extraordinário, no dia 11 de outubro de 1962. O Concílio, realizado em 4 sessões, só terminou no dia 8 de dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI. Nestas quatro sessões, mais de 2 000 Prelados convocados de todo o planeta discutiram e regulamentaram vários temas da Igreja Católica. As suas decisões estão expressas nas 4 constituições, 9 decretos e 3 declarações elaboradas e aprovadas pelo Concílio. Os concílios, que são reuniões de dignidades eclesiásticas e de teólogos, são um esforço comum da Igreja, ou parte da Igreja, para a sua própria preservação e defesa, ou guarda e clareza da Fé e da doutrina. No caso do Concílio Vaticano II, a necessidade de defesa se fez de modo universal, porque as situações contemporâneas de proporções globais abalaram a Igreja. Isto fez com que a autoridadeuniversal da Igreja, na pessoa do Papa, se encontrasse persuadida a convocar um concílio universal ou ecumênico. A força do Concílio não reside nos bispos ou em outros eclesiásticos, mas sim no Papa, como pastor universal que declara algo como sendo próprio das Verdades reveladas (e, por isso, implica a obediência dos católicos). Fora disso, o Concílio tem apenas poder sinodal. Porém, quando o concílio está em comunhão com o Papa, e se o Papa falasse solenemente (ex cathedra) de matérias relacionadas com a fé e a moral, o episcopado plenamente reunido torna-se também infalível. 2. Documentos. Constituições: Dei Verbum: Revelação divina e Tradição Lumen Gentium: Igreja Gaudium et Spes: Pastoral e a relação da Igreja com o mundo moderno Sacrosanctum Concilium: Liturgia Decretos: Ad Gentes: actividade missionária Apostolicam Actuositatem: apostolado dos leigos Christus Dominus: Bispos Inter Mirifica: comunicação social Optatam Totius: formação sacerdotal Orientalium Ecclesiarum: Igrejas orientais católicas Perfectæ Caritatis: renovação da vida consagrada Presbyterorum Ordinis: vida dos presbíteros Unitatis Redintegratio: ecumenismo Declarações: Dignitatis Humanæ: liberdade religiosa Gravissimum Educationis: educação cristã e digna Nostra Ætate: relação com os não cristãos. 3. Objetivos do Concílio Vaticano II. O objetivo do Concílio é discutir a ação da Igreja nos tempos atuais, ou seja, a sua finalidade é "promover o incremento da fé católica e uma saudável renovação dos costumes do povo cristão, e adaptar a disciplina eclesiástica às condições do nosso tempo" e do mundo moderno. Por outras palavras, o Concílio pretende o aggiornamento (atualização e abertura) da Igreja. O Papa João XXIII "imaginava o Concílio como um «novo Pentecostes» [...]; uma grande experiência espiritual que reconstituiria a Igreja Católica" não apenas como instituição, mas sim "como um movimento evangélico dinâmico [...]; e uma conversa aberta entre os bispos de todo o mundo sobre como renovar o Catolicismo como estilo de vida inevitável e vital". Por esta razão, ao contrário dos concílios ecuménicos anteriores, preocupados mais em condenar heresias e em definir verdades de fé e de moral, o Concílio Vaticano II "teve como orientação fundamental a procura de um papel mais participativo para a fé católica na sociedade, com atenção para os problemas sociais e econômicos". Aliás, o próprio Papa João XXIII teve o cuidado de mencionar a diferença e a especificidade deste Concílio: "a Igreja sempre se opôs a [...] erros; muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações". Logo, o Concílio não visava a condenar heresias nem proclamar nenhum dogma novo. O Concílio apenas queria dar uma nova orientação pastoral à Igreja e uma nova forma de apresentar e explicar os dogmas católicos ao mundo moderno, mas sempre fiel à Tradição. O próprio Papa João XXIII afirmou que "o que mais importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz". Para satisfazer esta sua intenção, o Papa queria ardentemente que a Igreja mudasse de mentalidade, para poder melhor enfrentar e acompanhar as transformações do mundo moderno. Pelas palavras da constituição Sacrosanctum Concilium, o "Concílio propõe-se a fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições suscetíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja". 4. Vaticinou II, o 21º concílio da Igreja. O 21º Concílio Ecumênico, chamado Vaticano II, terminou no dia 8 de dezembro de 1965. Durante três anos, um mês e vinte e nove dias (de 11 de outubro de 1962 até 8 de dezembro de 1965) viveu a Igreja Católica em estado de Concílio. Neste tempo, cerca de 2.200 bispos do mundo inteiro (incluídos os Superiores Maiores das Ordens e Congregações) encontraram-se quatro vezes em Roma, vivendo, rezando e trabalhando juntos durante 281 dias: 59 na primeira sessão (de 11 de outubro até 8 de dezembro de 1962); 67 na segunda sessão (de 29 de setembro até 4 de dezembro de 1963); 69 na terceira sessão (de 14 de setembro até 21 de novembro de 1964); e 86 na quarta sessão (de 14 de setembro até 8 de dezembro de 1965). Trabalharam em 168 Congregações Gerais (36 na primeira, 43 na segunda, 48 na terceira e 41 na quarta sessão). E assistiram a 10 sessões solenes. Nestes dias pronunciaram 2.217 discursos (600 na primeira, 618 na segunda, 666 na terceira e 333 na quarta sessão) e entregaram 4.361 intervenções escritas não pronunciadas. Ouviram 147 relatórios e fizeram 544 votações, nas quais foram utilizadas 1.360.000 fichas para sufrágios individuais. Morreram neste período 253 bispos (6 do Brasil). O Concílio, com seus teólogos e peritos, preparou, discutiu, emendou, votou e promulgou 16 documentos: duas Constituições dogmáticas, uma Constituição pastoral, uma Constituição litúrgica, nove Decretos e três Declarações. E assim no dia 8 de dezembro de 1965 estava tudo preparado para encerrar formal e solenemente o 21º Concílio Ecumênico. A cerimônia foi realizada na Praça de São Pedro, em frente da Basílica Vaticana. Durante a Santa Missa, celebrada pelo papa, Paulo VI pronunciou sua comovente homilia de despedida. Depois anunciou as mensagens do Concílio aos governantes, aos intelectuais (com o abraço a Jacques Maritain e o aplauso dos bispos), aos trabalhadores, aos artistas, às mulheres, aos jovens, aos sofredores. Mons. Felici, Secretário Geral do Concílio, leu o Breve de Encerramento. Então todos juntos cantaram as aclamações finais e as orações por todos quantos trabalharam no Concílio. Tudo terminou com a Bênção Apostólica, à qual Sua Santidade aditou as seguintes palavras: “Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo: Ide em paz!” Ao que a assembleia respondeu: “Demos graças a Deus!”. O relógio marcava 13h25. À noite deste mesmo dia já estavam os bispos do Brasil no avião, para retornar, cada um à sua diocese. E tentar viver no espírito do Concílio Vaticano II. (Dom Frei Boaventura Kloppenburg, O.F.M). HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE XIII PAPA PAULO VI 1963-1978 (Pontificado) Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini nasceu em 26 de setembro de 1897 em Concesio (Lombardia) de uma família rica da classe alta. O seu pai era um advogado não praticante que se tornou editor e promotor corajoso de ação social. Giovanni era uma criança frágil, mas inteligente, que recebeu a sua primeira educação dos jesuítas perto de sua casa em Brescia. Mesmo depois de entrar no seminário (1916) foi autorizado a viver em casa por causa da sua saúde. Depois da sua ordenação, em 1920, foi enviado a Roma para estudar na Universidade Gregoriana e da Universidade de Roma, mas em 1922 transferiu-se para a Accademia dei Nobili Ecclesiastici para estudar diplomacia e continuar os seus estudos de Direito Canónico na Universidade Gregoriana. Em 1923, foi enviado a Varsóvia como adido da nunciatura, mas foi chamado de volta a Roma (1924), por causa do efeito dos invernos poloneses graves sobre a sua saúde, e afeto ao escritório da Secretaria de Estado, onde permaneceu durante 30 anos. Além de lecionar na Accademia dei Nobili Ecclesiastici foi nomeado capelão da Federação de Estudantes da Universidade Católica Italiana (FUCI), uma atribuição que irá ter um efeito decisivo sobre as suas relações com os fundadores do Partido Democrata Cristão do pós-guerra. Em 1937, foi nomeado substituto para os assuntos comuns sob o Cardeal Pacelli, o secretário de Estado, e ele acompanhou-o a Budapeste (1938) para o Congresso Eucarístico Internacional. Na eleição de Pacelli como Papa Pio XII em 1939, Montini foi reconfirmado no cargo sob o novo secretáriode Estado, o cardeal Luigi Maglione. Quando este último morreu em 1944. Montini continuou a cumprir o seu dever diretamente sob as ordens do Papa. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi o responsável pela organização do extenso trabalho de assistência e os cuidados de refugiados políticos. No consistório secreto de 1952 o Papa Pio XII anunciou que tinha a intenção de elevar Montini e Domenico Tardini para o Sacro Colégio, mas que ambos haviam pedido para serem dispensados de aceitar. Ao contrário, o Papa conferiu-os com o título de pro secretários de Estado. No ano seguinte, Montini foi nomeado arcebispo de Milão, mas ainda sem o titulo de cardeal. Tomou posse da sua nova diocese em 5 de janeiro de 1955 e rapidamente ficou conhecido como o "arcebispo dos trabalhadores." Revitalizou toda a diocese, pregou a mensagem social do Evangelho, trabalhou para reconquistar a classe trabalhadora, promoveu a educação católica em todos os níveis, com o apoio da imprensa católica. O seu impacto sobre a cidade nesta altura era tão grande que atraiu a atenção mundial. No conclave de 1958 o seu nome foi frequentemente mencionado, e no início do consistório do Papa João, em dezembro do mesmo ano, ele foi um dos 23 prelados elevados ao cardinalato com o seu nome no topo da lista. A sua resposta ao chamamento para um Conselho foi imediato e mesmo antes de conhecermos, ele foi identificado como um forte defensor do princípio da colegialidade. Foi nomeado para a Comissão Central Preparatória do Concílio Vaticano II e também à Comissão Técnico- Organizacional. Com a morte do Papa João XXIII, Montini foi eleito 21 de junho de 1963 para sucedê-lo. Na sua primeira mensagem para o mundo, ele comprometeu-se com a continuação do trabalho iniciado por João XXIII. Ao longo do seu pontificado a tensão entre o primado do papa e a colegialidade do episcopado foi uma fonte de conflito. Em 14 de setembro de 1965, anunciou a criação do Sínodo dos Bispos pedido pelos Padres conciliares, mas algumas questões que pareciam adequados para discussão pelo sínodo foram reservados para si mesmo. O celibato, removido do debate da quarta sessão do Conselho, foi objeto de uma encíclica, 24 de junho de 1967; a regulação dos nascimentos foi tratado na Humanae vitae, em 24 de julho de 1968. As controvérsias sobre estes dois pronunciamentos tendem a ofuscar os últimos anos do seu pontificado. Paulo VI teve uma inexplicável má imprensa e a sua imagem pública sofreu em comparação com o seu antecessor, extrovertido e jovial. Aqueles que o conheciam melhor, no entanto, descrevem-no como um homem brilhante, profundamente espiritual, humilde, reservado e gentil, um homem de "infinita cortesia." Ele foi um dos papas que mais viajou na história e o primeiro a visitar os cinco continentes. A Sua notável capacidade de pensamento pode ser encontrado em muitos dos seus endereços e cartas, bem como nos seus principais pronunciamentos. A sua conclusão bem-sucedida do Vaticano II deixou marca na história da Igreja, mas a história também irá gravar a sua rigorosa reforma da Cúria Romana, o seu discurso bem recebido na ONU, em 1965, a sua encíclica Populorum progressio (1967), a sua segunda carta Octogesima adveniens (1971), um dos primeiros a mostrar uma consciência de muitos problemas que só recentemente foram trazidos à luz e sua exortação apostólica Evangelii nuntiandi, seu último grande pronunciamento que também tocou na questão central da concessão apenas de libertação e salvação. O Papa Paulo VI, o papa peregrino, morreu em 6 de agosto de 1978, na festa da Transfiguração. Ele pediu que o seu funeral fosse simples, sem aparato e nenhum monumento sobre o seu túmulo. Paulo VI foi o papa de número 262 da história da Igreja Católica, entre 1963 e 1978. Nascido no dia 26 de setembro de 1897, Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini era proveniente da cidade italiana de Concesio. Desde cedo, sua vida foi muito envolvida com religião. Entrou para o seminário com o objetivo de se tornar um sacerdote no ano de 1916. Depois de ser ordenado em 1920, estudou ainda na Universidade Gregoriana, na Universidade de Roma e na Pontifícia Academia Eclesiástica. Giovanni Montini tinha um talento notável para a vida religiosa, foi o que o levou rapidamente a desenvolver uma carreira na Cúria Romana. Na administração do Vaticano, ocupou cargos importantes dentro da Igreja Católica, desenvolvendo funções muito próximas e de confiança dos papas Pio XI e Pio XII. Já em 1944, Giovanni Montini trabalhava diretamente com o papa Pio XII. A nomeação de Giovanni Montini para o cargo de Arcebispo de Milão parecia ser um método para afastá-lo do papado. Porém acredita-se mais que tal medida foi tomada por Pio XII para permitir que Giovanni tivesse mais experiência pastoral. De qualquer forma, mesmo sem ser cardeal da Igreja, durante o conclave de 1958 que elegeria o novo papa, Giovanni Montini recebeu vários votos. O sucessor de Pio XII acabou sendo João XXIII, que, no mesmo ano, elevou Giovanni à condição de cardeal. João XXIII exerceu pouco tempo o cargo de Supremo Pontífice. Já em 1963 foi realizado um novo conclave para eleger seu sucessor. Desta vez, Giovanni Montini foi eleito papa, no dia 21 de junho. Para exercer o cargo máximo da Igreja Católica, escolheu o nome de Paulo VI, indicando que tinha uma missão mundial de propagar a mensagem de Cristo. Inicialmente, determinou a reabertura do Concílio Vaticano e lhe atribui prioridade e direção. Promoveu grandes reformas no cristianismo que foram significativas para afetar toda a Igreja. Paulo VI era devoto de Maria, publicou três encíclicas marianas, discursou várias vezes para congressistas marianos e participou de várias reuniões. Mas também promoveu importantes diálogos com o mundo, sem distinções de religiosidade. Ao mesmo tempo, seguia a linha tradicional da Igreja Católica e era contrário à regulação da natalidade. Paulo VI foi o primeiro papa a viajar de avião e o primeiro a visitar os cinco continentes. Chegou até a sofrer uma tentativa de assassinato nas Filipinas. Sua postura aberta ao diálogo foi fundamental durante seu papado, pois viveu uma fase de grandes acontecimentos na história da segunda metade do século XX. Aberto ao diálogo, foi o primeiro papa a conversar com o líder da Igreja Anglicana e o primeiro, depois de muitos séculos, a conversar com dirigentes das diversas Igrejas Ortodoxas do Oriente. Apesar disso tudo, alguns críticos ainda caracterizam Paulo VI como um papa distante, indeciso e sem carisma. Acusavam-no também de ter pouca propensão para abordar assuntos mais delicados. No entanto, Paulo VI publicou a encíclica Humanae Vitae versando sobre o controle da natalidade, documento que se tornou de referência para a Igreja Católica nas questões sobre aborto, esterilização e métodos contraceptivos. Paulo VI ocupou o posto de Supremo Pontífice por 15 anos. Faleceu no dia seis de agosto de 1978 e foi sucedido por João Paulo I. 1.1 Humanae Vitae”: 50 anos No dia 25 de julho de 2018, a encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, completou 50 anos de publicação. Como qualquer outro documento magisterial, também esse, que originalmente trata da “reta propagação da vida humana” (do original latino: de propagatione humanae prolis recte ordinanda), precisa ser lido à luz da doutrina católica, e deve ser aceito por todos os católicos. Em linhas gerais, a encíclica não se limita ao tema da regulação da natalidade, como se pode entender pelas traduções do seu título em língua vernácula, mas repete aquilo que outro documento da Igreja já havia proclamado anos antes: que a natureza dos atos conjugais está primeiramente ordenada à geração da prole. A limitação do número de filhos foi um tema discutido pela Igreja Anglicana na Conferência de Lambeth, em 1930. Nesse encontro, os bispos anglicanos aprovaram, pela primeira vez na história do cristianismo, o uso de métodos artificiais para a contracepção. Prevendo o alcance de uma decisão como aquela, o Papa Pio XI não demorou a reagir, e logomandou publicar a encíclica Casti Connubii, de cujas linhas Paulo VI tomaria notas, quatro décadas depois, para redigir a Humanae Vitae. Ambos os textos defendem a moral católica sobre o matrimônio, advertindo os fiéis contra a mentalidade anticristã. Todavia, a força de seus argumentos não procede só da luz sobrenatural da fé, mas apela à razão natural, à lei natural inscrita no coração de todos os homens. Ninguém precisa de um documento papal para entender que a finalidade primária da alimentação é a nutrição. É verdade que, em nossas refeições, preparamos um ambiente celebrativo, onde podemos partilhar amigavelmente nossas experiências enquanto nos saciamos com os alimentos, cujos sabores agradáveis nos causam prazer e satisfação. Tudo isso faz parte desse momento que, aliás, nos distingue profundamente dos demais animais: um cachorro não partilha sua ração com nenhum outro animal, ao passo que os homens podem viver a fraternidade, dividindo a carne e outros alimentos sobre a mesa. Mas a nutrição é o elã das refeições. Se se perdesse essa finalidade primária, e os homens começassem a comer apenas por diversão, a humanidade estaria fadada à morte. A mesma lei está na sexualidade. O sexo possui finalidades secundárias, até espirituais, mas o seu propósito mais radical é, sem dúvida, a procriação. Se a humanidade parar de se reproduzir, a espécie humana desaparecerá. É o que está acontecendo com a Europa, especialmente em países como a Alemanha, onde a taxa de natalidade é baixíssima. Em poucos anos, os alemães terão desaparecido do mapa, a não ser que haja alguma intervenção divina. E o mesmo pode acontecer com o Brasil se nosso país continuar incentivando uma agenda cultural antinatalista. A cultura moderna inventou o “direito ao orgasmo”. As pessoas querem fazer sexo apenas por prazer, como se a união entre os órgãos sexuais masculino e feminino não estivesse perfeitamente ordenada à procriação. Para isso, homens e mulheres não se envergonham de recorrer à castração, comportando-se como verdadeiros animais. O falso alarmismo da bomba populacional transformou a geração de filhos em uma ameaça e o sexo em um parque de diversões. O resultado disso se expressa pela desmoralização total da sociedade, que já não se sacrifica pelas crianças. Trata-se de uma sociedade perversa, que está caminhando para a morte demográfica e espiritual. Na encíclica Humanae Vitae, o Papa Paulo VI advertiu claramente para três consequências da pílula anticoncepcional: 1º) a infidelidade; 2º) a desvalorização da mulher; e 3º) a imposição estatal do controle de natalidade. Basta uma vista sobre a sociedade para admitir que Paulo VI estava correto. O número de traições e divórcios aumentou pelo “caminho amplo e fácil que tais métodos” abriram “à infidelidade conjugal e à degradação da moralidade” (Humanae Vitae, n. 17). As mulheres marcham na rua pelo direito de serem “vadias” e, perdoem-nos a expressão, “depósito de esperma” para os homens que, habituados à contracepção, acabam perdendo o respeito pela mulher e as consideram “como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada” (Id.). E, no fim das contas, o Estado castra os civis pela força das leis, do lobby e das ideologias. A pílula anticoncepcional é, de fato, a pedra que rolou da montanha, causando a grande avalanche de imoralidades e perversões a que assistimos atualmente. Já se fala até em aceitação da pedofilia. Se a sociedade não aprender a virtude e voltar-se para a verdade o quanto antes, terminará soterrada por essa avalanche que ela mesma provocou ao apartar-se de Cristo. O Papa João Paulo I (Albino Luciani) O Papa João Paulo I, título com o qual seria consagrado posteriormente, nasceu no dia 17 de outubro de 1912, na cidade de Forno de Canale, em Belluno, na Itália. Ele foi batizado com o nome de Albino Luciani, no mesmo dia em que nasceu, pois seus pais receavam que ele não fosse viver. Procedente de uma família pobre, ele era filho de Giovanni Luciani, socialista, operário que trabalhava em uma fábrica de vidros, muitas vezes obrigado a procurar emprego em países vizinhos; e da católica devota Bertola, que lhe inspirou o desejo de seguir a vida eclesiástica. Assim, enveredando por este caminho, Albino tornou-se padre em 1935, após realizar sua formação em um seminário gregoriano. Sua ordenação se deu na Igreja de São Pedro de Belluno; logo depois assumiu a paróquia de Canale d’Agordo, mas logo a deixou para ensinar religião no Instituto Técnico para Mineiros, onde já se observavam seu carisma e sua popularidade, nascidos principalmente de seu sorriso cativante. Em 1937 ele se torna vice-reitor do Seminário em que estudara, posto no qual permanece até 1947. Neste mesmo ano, no dia 27 de fevereiro, ele se torna doutor em Teologia Sagrada pela Universidade Gregoriana, em Roma, defendendo a tese intitulada A origem da alma humana de acordo com o Antonio Rosmini. Muito humilde e devotado à ideia de salvar a Humanidade, ele não tinha maiores pretensões; mesmo assim foi transformado em bispo por João XXIII, em 15 de dezembro de 1958; e nomeado Patriarca de Veneza por Paulo VI em 15 de dezembro de 1969, tentando se manter distante de discussões políticas internas no Vaticano. Albino participou também do Concílio Vaticano II, realizado em 1962 pelo Papa João XXIII para discutir a adaptação da Igreja à modernidade. No dia 5 de março de 1973 ele recebeu nova promoção, desta vez para Cardeal, a convite de Paulo VI. Aos 65 anos ele se surpreende ao ser eleito o novo Papa, derrotando o ultraconservador cardeal Giuseppe Siri, considerado até então pela mídia o mais provável ocupante do trono de São Pedro, por 99 votos a 11. Tão surpreso ficou Albino, que sua primeira reação teria sido recusar o cargo, mas o cardeal holandês Johan Willebrands, a seu lado na Capela, teria convencido o novo Papa do contrário. Eleito, Luciani adota o nome de João Paulo I, primeiro Papa a escolher um título composto, para homenagear os que lhe antecederam, João XXIII e Paulo VI. Sua doçura, a extrema afabilidade e o incansável sorriso terno lhe valeram o apelido de ‘Papa Sorriso’. O pouco tempo em que permaneceu no pontificado indicava uma intensa humildade, um desconforto com o luxo do Vaticano – ele chegou a recusar a coroação papal, que era opcional, e o transporte em liteiras, ponto em que ele foi obrigado a ceder -, e a intenção de realizar reformas profundas na Igreja, a começar da própria sede do papado. Ele morreu antes de qualquer tentativa, na madrugada do dia 28 de setembro de 1978, entre 23h30 e 4h30 da manhã, em seus aposentos, no Palácio Apostólico do Vaticano. Sua permanência por tão pouco tempo no Vaticano suscitou inúmeras teses sobre a verdadeira causa de sua morte, até hoje não oficialmente determinada. A proibição de se realizar autópsia no corpo de um papa morto impediu o esclarecimento total dos reais motivos do falecimento de João Paulo I. O mistério é reforçado pela rapidez com que se embalsamou o corpo, sem empenho na busca de maiores detalhes, contrastando com a precisão dos registros sobre a morte de Paulo VI. Assim, é difícil não pensar em uma morte suspeita, talvez por envenenamento, já que o Papa parecia desagradar a Cúria Romana, mais preocupada em contrapor-se aos ideais socialistas, então crescentes entre o clero em diversas partes do globo. A escolha de João Paulo II como seu sucessor parece dar ainda mais vazão a esta tese, pois este membro conservador da Igreja caminhava na contramão de seu antecessor, tanto na política quanto em questões como o aborto, o uso de anticoncepcionais, entre outras. Luciani vinha mantendo contato com diversos especialistas na reprodução humana, com pensadores e adeptos das mais diferentes religiões, tentando assim repensar as convencionais posturas da Igreja Católica. O controvertido jornalista investigativo David Yallop, no seu livro Em Nome de Deus, afirma reunir provas e fontes que lhe autorizam a considerar a morte de João Paulo I não natural, ou seja,fruto de um assassinato bem urdido, do qual teriam participado, entre outros, o cardeal Jean Villot, o membro da máfia siciliana Michele Sindona, o cardeal americano John Cody, então líder da arquidiocese de Chicago, e o presidente do Banco do Vaticano daquela época, o bispo Paul Marcinkus, além de adeptos da loja maçônica . Infelizmente, de uma forma ou de outra, a personalidade humilde e inovadora do ‘candidato de Deus’, como foi chamado por um dos cardeais, não lhe permitiu ser aceito pelo governo da Santa Sé, mas o perfil de autêntico discípulo de Jesus, somado a seu sorriso ímpar, deixaram sua imagem gravada eternamente na memória popular. Talvez a Humanidade, ou pelo menos a poderosa elite que rege o Planeta, ainda não estivesse preparada para receber um ser detentor de tão alta espiritualidade. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE XIV 1. Papa João Paulo II O Papa João Paulo II nasceu Karol Józef Wojtyla, em 18 de maio de 1920, em Wadowice, na Polônia. Ele foi ordenado em 1946, e se tornou o bispo de Ombi, em 1958, e arcebispo da Cracóvia, em 1964. Ele se tornou cardeal em 1967 pelo Papa Paulo VI e, em 1978, foi o primeiro papa não italiano em mais de 400 anos. Ele foi defensor dos direitos humanos e utilizou sua influência para realizar mudanças políticas. João Paulo II morreu em 2 de abril de 2005, na Cidade do Vaticano. Em 2014, ele se tornou santo. Primeiros anos Peço perdão, em nome de todos os católicos, por todas as injustiças contra os não católicos no decorrer da história. Nascido Karol Józef Wojtyla, em 18 de maio de 1920, em Wadowice, Polônia, a infância de João Paulo II foi marcada por grandes perdas. Sua mãe faleceu quando ele tinha 9 anos de idade e seu irmão mais velho, Edmund, morreu quando ele tinha 12 anos. Na adolescência, era atlético e gostava de esquiar e nadar. Entrou em 1938 na Universidade Jagiellonian, demonstrando interesse por teatro e poesia, mas ela foi fechada pelos nazistas no ano seguinte. João Paulo começou a estudar em um seminário secreto mantido pelo arcebispo da Cracóvia. Quando a Segunda Guerra acabou, ele terminou seus estudos e foi ordenado em 1946. A Igreja A Igreja não tem necessidade de recorrer a sistemas e ideologias. João Paulo passou dois anos em Roma, onde finalizou seu doutorado em teologia. Ele retornou à Polônia em 1948 e serviu em muitas paróquias na Cracóvia. Em 1951, se tornou bispo de Ombi e, seis anos depois, arcebispo da Cracóvia. Considerado um dos grandes pensadores da Igreja Católica, ele participou do Concílio Vaticano II, que iniciou a revisão da doutrina da Igreja, em 1962. Aclamado por suas contribuições à instituição, João Paulo foi nomeado cardeal em 1967, pelo Papa Paulo VI. O papado Em 1978, João Paulo fez história ao se tornar o primeiro papa não italiano em mais 400 anos. Como o líder da Igreja Católica, ele viajou pelo mundo, visitando mais de 100 países para divulgar sua mensagem de fé e paz. Mas ele estava próximo de casa quando enfrentou uma grande ameaça à sua vida. Em 1981, um assassino atirou duas vezes no papa, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Felizmente, ele se recuperou do ataque e depois perdoou o autor dos disparos. Legado O homem não pode viver sem amor. Sem amor, torna-se um ser incompreensível para si mesmo. Um grande defensor dos direitos humanos, João Paulo falava muito sobre sofrimento no mundo. Ele sustentou posições fortes em diversos assuntos, incluindo sua oposição à pena de morte. Com personalidade carismática, ele usou sua influência para promover mudanças políticas e é creditado pela queda do comunismo na Polônia. Porém, muitos dizem que ele era severo com quem ia contra suas posições e em alguns assuntos ele não intervinha, como a contracepção. Em seus últimos anos, João Paulo II estava muito debilitado. Em suas aparições públicas, se movia lentamente e era notável que tinha tremores. Um de seus médicos disse, em 2001, que o papa estava com Parkinson, mas nenhum anúncio oficial foi realizado. João Paulo morreu em 2 de abril de 2005, aos 84 anos, em sua residência na Cidade do Vaticano. Mais de três milhões de pessoas foram dizer adeus ao papa antes do seu funeral, em 8 de abril. Em 5 de julho de 2013, após o período usual de cinco anos, o Vaticano anunciou a santificação do Papa João Paulo II, e que a cerimônia aconteceria dentro de 16 meses. O anúncio veio após o Vaticano revelar dois milagres atribuídos ao papa: após a freira francesa à beira da morte Irmã Marie Simon-Pierre Normand orar para o papa pela cura de seu Parkinson, ela foi curada. O outro milagre se trata de uma mulher de 50 anos, que diz que após uma fotografia do papa falar com ela, lhe foi concedida a cura de um aneurisma cerebral. A cerimônia oficial aconteceu em 27 de abril de 2014. 2. João Paulo II, um pouco de seu pontificado O Papa João Paulo II, agora São João Paulo II, foi o papa com o terceiro maior pontificado da história da Igreja, com 26 anos à frente do governo da Barca de Pedro. Em todo esse tempo ele conquistou o carinho dos fiéis e do mundo inteiro pelo seu carisma, pela sua bondade e pela sensibilidade com os mais necessitados. Nos seus longos anos de pontificado, muitas coisas aconteceram e seria impossível catalogar todas elas em um só texto. A seguir vamos ver alguns fatos que marcaram o tempo de São João Paulo II, mas talvez a palavra “Santo”, seja a que melhor resume o que ele fez de mais importante: Alcançar a conformação com Jesus, o Senhor. Diálogo Inter-Religioso No dia 27 de Outubro de 1986, em Assis, na Itália, o Papa João Paulo II se reuniu com vários líderes religiosos em um dia de jejum e oração. Buscar a verdade e a unidade foi sempre uma preocupação para João Paulo II. Proximidade com os jovens O Papa João Paulo II foi especialmente próximo dos jovens. Talvez o feito mais marcante nesse sentido tenha sido a criação da Jornada Mundial da Juventude, em 1984, que teve sua ultima edição justamente aqui no Brasil e que, como sabemos, continua dando muitos frutos de conversão e de um renovado ardor na fé dos jovens do mundo inteiro. A próxima jornada será na Cracóvia, cidade onde esse Papa foi arcebispo durante 14 anos. Viagens João Paulo II também entrou para a história como o papa das viagens. Durante seu pontificado (lembrando que foi um longo pontificado) ele realizou viagens à 130 países do mundo. Em suas viagens demonstrava sua proximidade com as pessoas de cada região. Em sua terra natal, a Polônia, serviu para elevar o espírito da nação, ajudando na formação do “Movimento Solidariedade”, que conseguiu de volta a liberdade e os direitos humanos para o país. Ele veio ao Brasil em quatro oportunidades. Em 1997, participou do segundo encontro mundial com as famílias, realizado no Rio de Janeiro. Na missa de canonização de João Paulo II, o Papa Francisco afirmou que ele foi também o Papa das famílias, que assim gostaria de ser lembrado. Realmente ele se preocupou por defender a família e seus direitos. beijo no chão "João Paulo II também entrou para a história como o papa das viagens. Durante seu pontificado realizou viagens à 130 países do mundo". Tentativa de assassinato Esse fato também é muito conhecido do mundo inteiro. No dia 13 de Maio de 1981, quando entrava para discursar na Praça de São Pedro, foi baleado por um atirador Turco. Foi levado em seguida a um hospital público onde passou por várias horas de cirurgia. Depois do ocorrido, perdoou o atirador. Ele é um papa que marcou também por saber viver a experiência da dor sempre com esperança. Em uma carta apostólica chamada Salvifiti Doloris, ele expõe como a dor do cristão é redentora quando unida as dores de Nosso Senhor Jesus Cristo. Reconciliação Esse não é um fato propriamente dito, mas um tema muito importante no pontificado de João Paulo II. Ele, colocando-se “em escuta do grito do homem e vendo como se manifesta nas circunstâncias da vida uma nostalgia de unidade com Deus, consigo mesmo e com o próximo” quis “pela graça e inspiração do Senhor,propor com força esse dom original da Igreja que é a reconciliação.” (A Eucaristia, fonte de reconciliação, Téramo, 30/06/1985, 6). "Ele quis e promoveu durante seu pontificado a reconciliação do homem com Deus, sabendo que nessa relação está a felicidade do ser humano que muitas vezes se encontra perdido porque está longe do seu criador". Ele quis e promoveu durante seu pontificado a reconciliação do homem com Deus, sabendo que nessa relação está a felicidade do ser humano que muitas vezes se encontra perdido porque está longe do seu criador. Muitas outras coisas se poderiam dizer do pontificado desse homem que é para os fiéis um exemplo concreto da vitória de Cristo na vida de uma pessoa. Nós somos todos chamados a viver uma vida na qual resplandeça Cristo vivo, assim como João Paulo II. Já no fim da sua vida, depois de passar uma vida entregada a Deus e ao próximo, ele disse: “Eu sou feliz, sejam felizes também vocês.” Para entender melhor o que ele queria dizer com ser feliz, podemos ler sua mensagem aos jovens em uma das Jornadas mundiais da juventude: "Queridos jovens, só Jesus conhece vosso coração, vossos desejos mais profundos. Só Ele, quem os amou até a morte, (Jn 13,1), é capaz de saciar vossas aspirações. Suas palavras de vida eterna dão sentido à vida. Ninguém fora de Cristo poderá dar-vos a verdadeira felicidade." 3. CURIOSIDADES SOBRE A VIDA DE JOÃO PAULO II. 1 – Quando adolescente, João Paulo II era apaixonado por teatro e, mesmo quando não participava de algumas peças, fazia questão de acompanhar os ensaios. Em uma ocasião, quando um dos atores desistiu de uma apresentação em cima da hora, o jovem Karol se ofereceu para substituí-lo, afinal já sabia todas as falas. Assim, salvou um grupo inteiro do fiasco que a apresentação poderia ter sido. 2 – Quando era pároco na Polônia e, inclusive, quando já era cardeal, João Paulo II fazia questão de passar tempo ao lado dos jovens de sua comunidade, participando de viagens e retiros ao lado dos mais novos. Quando esses encontros foram proibidos por líderes políticos, João Paulo II encontrou maneiras mais discretas de realizar suas reuniões, e muitas missas e discussões aconteciam em meio a caminhadas, acampamentos e até ao redor da fogueira, à noite. Além das leituras religiosas, João Paulo II também lia literatura para seus seguidores, especialmente o livro The Screwtape Letters, traduzido como “Cartas de um diabo ao seu Aprendiz”, de C. S. Lewis, autor também de “As Crônicas de Nárnia”. 3 – Ainda que o governo comunista tivesse sérias restrições com a Igreja Católica na Polônia, João Paulo II foi considerado pelos comunistas a pessoa ideal para ser o arcebispo de Cracóvia. 4 – Quando os comunistas tiraram os nazistas do poder na Polônia, João Paulo II e outros líderes religiosos voltaram ao seminário onde viviam anteriormente. O local estava abandonado e as tubulações de esgoto estavam congeladas. Sem pensar duas vezes, João Paulo II e seus amigos resolveram o problema com as próprias mãos e desentupiram as tubulações de esgoto que estavam cheias de cocô congelado. 5 – João Paulo II sempre gostou de esquiar, e continuou praticando o esporte até quando já tinha 73 anos de idade. 6 – Conhecido em todo o planeta, é normal que João Paulo II tenha viajado muito durante sua vida. Só para você ter ideia, estima-se que ele tenha percorrido mais de 1,2 milhão de km ao longo dos anos. É basicamente o mesmo que ir e voltar da Lua três vezes! 7 – Uma vez, durante uma entrevista, João Paulo II falou sobre o dia mais feliz da sua vida: foi quando canonizou a irmã Faustina como a primeira santa do novo milênio. 8 – Quando a Polônia estava ocupada por nazistas, Karol trabalhava em uma pedreira, em condições péssimas, com temperaturas negativas que não facilitavam seu trabalho noturno. Em uma das madrugadas nas quais trabalhava, presenciou a morte de um colega, vítima de uma explosão de dinamites. Sobre o ocorrido, João Paulo II escreveu um poema. Nos versos, falava sobre a perda da família do amigo e terminou dizendo: “quanto maior a raiva, maior a explosão de amor”. 9 – Durante o governo comunista, a vida de Karol era monitorada pelo governo, e ele sabia disso. Esperto, conseguia escapar da fiscalização e tinha até meios de interromper as escutas telefônicas que haviam sido instaladas em sua residência. Ele tinha até mesmo uma forma de enganar os espiões quando precisava participar de alguma reunião secreta. 10 – Conhecido pela bondade e pela doação não apenas de seu tempo como de seus bens materiais, João Paulo II usou boa parte do dinheiro arrecadado com a venda do seu livro “Cruzando o Limiar da Esperança” para reconstruir igrejas que haviam sido destruídas na Iugoslávia. 11 – Dedicado, chegava a trabalhar por até 16 horas por dia, e já foi descrito como um “vulcão de energia”. Quem conhecia João Paulo II de perto, dizia que ele tinha uma capacidade incrível de realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo. Era o tipo de pessoa capaz de conversar enquanto lia um livro. 12 – Ainda sobre o hábito de leitura do antigo papa, sabe-se que ele leu toda a obra de Marx e, inclusive, falava sobre ela com os outros religiosos. 13 – Quando voltou à Polônia, já como papa, em 1979, João Paulo II levou até a Praça da Vitória 300 mil fiéis que o saudaram com uma sessão de aplausos ininterrupta que durou 14 minutos. 14 – Se tudo o que foi escrito por Karol fosse reunido em volumes, teríamos o equivalente a 20 bíblias. Durante seu pontificado, escreveu em média 3 mil páginas por ano. 15 – Seu amor pela humanidade ia além das barreiras religiosas de cada povo e, por isso, foi o primeiro Papa a pisar em uma mesquita. 16 – Como sentia falta de sua privacidade e liberdade, João Paulo II costumava enganar os próprios seguranças do Vaticano e, coberto por uma capa preta, fugia para esquiar ou fazer caminhadas. 17 – Divertido, costumava fazer piadas a respeito de si mesmo, especialmente sobre sua voz quando precisava cantar. 18 – Dono de uma memória impecável, Karol tinha um mapa com todas as dioceses do mundo devidamente anotadas. Ele era conhecido também por se lembrar dos nomes de guardas, seminaristas e conhecidos aleatórios. 19 – Foi a pessoa mais vista da história da humanidade – estima-se que pelo menos 500 milhões de pessoas já tenham visto João Paulo II de pertinho. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE XV 1. O que é a Teologia da Libertação? Em face da condenação de um livro de Jon Sobrinho, um dos teólogos líderes da teologia da libertação, pela Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, do Vaticano, a discussão sobre esta teologia voltou a campo. Um grupo de teólogos desta linha acaba de publicar um livro contestando a ação do Vaticano e do Papa. São eles: Marcelo Barros, Leonardo Boff, Teófilo Cabestrero, Oscar Campana, Víctor Codina, José Comblin , Confer de Nicaragua, Lee Cormie, Eduardo de la Serna, José Estermann, Benedito Ferraro, Eduardo Frades, Luis Arturo Garcia Dávalos, Ivone Gebara, Eduardo Hoornaert, Diego IrarrázavaI, Jung Mo Sung, Paul Kmitter, João Batista Libânio, María y José Ignacio López Vigil, Carlos Mesters, Ricardo Renshaw, Jean Richard, Pablo Richard, Luis Rivera Págan, José Sánchez, Stefan Silber, Ezequiel Silva, Afonso Mª Ligório Soares, José Sols, Paulo Suess, Luiz Carlos Susin, Faustino Teixeira, Tissa Balasuriya, e José María Vigil. A Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo publicou o livro “Bajar de la cruz a los pobres: cristología de la liberación”. Muitos perguntam, o que é afinal, esta teologia da libertação? Vou responder esta pergunta com a resposta que deu a ela a autoridade da Igreja Católica; o Cardeal Joseph Ratzinguer, escolhido pelo Papa João Paulo II, em 1981, para ser o Prefeito da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé; aquela que está encarregada de cuidar da “sã doutrina” (1Tm1,10; 4,6; Tt1,9; 2,1;2,7; 2Tm4,3), que com tanta ênfase São Paulo recomendava a Timóteo e a Tito. Hoje o então Cardeal Ratzinger é oPapa Bento XVI. A teologia da libertação surgiu, mais especificamente, na América Latina, na década de 60, e ganhou adeptos principalmente nas Comunidades Eclesiais de Base. A partir dos anos 80 pudemos sentir mais de perto a sua ação. Foi então que o Cardeal Ratzinger, escreveu um importante artigo intitulado “Eu vos explico a teologia da libertação” (Revista PR,n. 276, set-out, 1984, pp354-365), onde deixou claro todo o seu perigo. Analisando este artigo, D.Estevão Bettencourt, afirma: “O autor mostra que a teologia da libertação não trata apenas de desenvolver a ética social cristã em vista da situação socioeconômica da América Latina, mas revolve todas as concepções do Cristianismo: doutrina da fé, constituição da Igreja, Liturgia, catequese, opções morais, etc. Entre as afirmações, o então Cardeal Prefeito diz: “A gravidade da teologia da libertação não é avaliada de modo suficiente; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente; é a subversão radical do Cristianismo, que torna urgente o problema do que se possa e se deva fazer frente a ela”. “A teologia da libertação é uma nova versão do Cristianismo, segundo o racionalismo do teólogo protestante Rudolf Bultmann, e do marxismo, usando “a seu modo”, uma linguagem teológica e até dogmática, pertencente ao patrimônio da igreja, revestindo-se até de uma certa mística, para disfarçar os seus erros”. O então Cardeal foi muito claro ao afirmar o perigo: “Com a análise do fenômeno da teologia da libertação torna- se manifesto um perigo fundamental para a fé da Igreja. Sem dúvida, é preciso ter presente que um erro não pode existir se não contém um núcleo de verdade. De fato, um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do núcleo de verdade assumida”. E o Cardeal vai explicando esta teologia “nova”: “Essa teologia não pretende constituir-se como um novo tratado teológico ao lado dos outros já existentes; não pretende, por exemplo, elaborar novos aspectos da ética social da Igreja. Ela se concebe, antes, como uma nova hermenêutica da fé cristã, quer dizer, como nova forma de compreensão do Cristianismo na sua totalidade. Por isso mesmo muda todas as formas da vida eclesial; a constituição eclesiástica, a Liturgia, a catequese, as opções morais…” “A teologia da libertação pretende dar nova interpretação global do Cristianismo; explica o Cristianismo como uma práxis de libertação e pretende constituir-se, ela mesma, um guia para tal práxis. Mas, assim como, segundo essa teologia, toda realidade é política, também a libertação é um conceito político e o guia rumo à libertação deve ser um guia para a ação política”. A libertação, para a teologia da libertação, é conquistada pela via política, e não pela Redenção de Jesus, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo1,29). Jesus veio para “salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21), e disse a Pilatos que “o seu Reino não é deste mundo”. O pecado, para a teologia da libertação, se resume quase que só no “pecado social”, mas este, não será “arrancado” com a conversão e com os Sacramentos da Igreja, mas com a “libertação” do povo, pela luta política. Daí o fato de haver um laxismo moral e espiritual em muitos adeptos dessa teologia. Muitos não valorizam a celebração da Missa, a não ser como uma “celebração de mobilização política” do povo oprimido. Não se valoriza suficientemente a oração, a Confissão, a Eucaristia, o santo Rosário, a adoração ao Santíssimo Sacramento, e a todas as práticas de espiritualidade tradicionais, que são, então, consideradas superadas e até alienantes. Conheço vários jovens sacerdotes que se formaram em seminários fortemente influenciados pela teologia da libertação, e que hoje deixaram o sacerdócio, ficaram esvaziados espiritualmente… Noto que nem se realizaram no campo social e nem no campo religioso. O então Cardeal Ratzinguer mostrou que é difícil enfrentar esse perigo, pois, como afirma: “Os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da linguagem ascética e dogmática da Igreja em chave nova, de tal modo que aqueles que leem e escutam, partindo de outra visão, podem ter a impressão de reencontrar o patrimônio antigo com o acréscimo apenas de algumas afirmações um pouco estranhas…” O então Cardeal mostrou a inversão que se faz no papel da comunidade, povo e história, para a vida da Igreja: “A comunidade ‘interpreta’, com a sua ‘experiência’ os acontecimentos e encontra assim a sua práxis”. ‘Povo’ torna-se assim um conceito oposto ao de ‘hierarquia’ e antítese a todas as instituições indicadas como forças da opressão. Afinal, é ‘povo’, quem participa da ‘luta de classes’; a ‘ igreja popular’, acontece em oposição à Igreja hierárquica. Por fim, o conceito de ‘história’, torna-se instância hermenêutica decisiva,…a história é a autêntica revelação e, portanto, a verdadeira instância hermenêutica da interpretação bíblica…Pode-se dizer que o conceito de história absorve o conceito de Deus e de revelação”. Em seguida, o então Cardeal mostra a deturpação também naquilo que é essencial: o Reino de Deus. “Esse conceito encontra-se também no centro das teologias da libertação, lido porém no contexto da hermenêutica marxista. Segundo Jon Sobrino, o reino não deve ser compreendido espiritualmente, nem universalmente, no sentido de uma reserva escatologicamente abstrata. Deve ser compreendido de forma partidária e voltado para a práxis”. Aqui se entende porque os adeptos da TL militam nos partidos políticos que visam a “libertação do povo”. O Papa Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi, explicou o que é a verdadeira libertação: “Acerca da libertação que a evangelização anuncia e se esforça por atuar, é necessário dizer antes o seguinte: ela não pode ser limitada à simples e restrita dimensão econômica, política, social e cultural; mas deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as suas dimensões, incluindo a sua abertura para o absoluto, mesmo o absoluto de Deus… Mais ainda: a Igreja tem a firme convicção de que toda a libertação temporal, toda a libertação política, mesmo que ela porventura se esforçasse por encontrar numa ou noutra página do Antigo ou do Novo Testamento a própria justificação, … encerra em si mesma o gérmen da sua própria negação e desvia-se do ideal que se propõe, por isso mesmo que as suas motivações profundas não são as da justiça na caridade, e porque o impulso que a arrasta não tem dimensão verdadeiramente espiritual e a sua última finalidade não é a salvação e a beatitude em Deus.” “A libertação que a evangelização proclama e prepara é aquela mesma que o próprio Jesus Cristo anunciou e proporcionou aos homens pelo seu sacrifício.” (n.33) Os adeptos da teologia da libertação têm a enganosa mania de pensar que quem não aceita esta teologia não trabalha pelos pobres e oprimidos e não se preocupa com eles; se acham os únicos defensores dos excluídos; é um grande erro. A Igreja em seus 2000 anos de vida sempre socorreu os desvalidos e ainda o faz, mas nunca precisou lançar mão de ideologias estranhas para isso; sempre agiu pelo puro amor a Jesus Cristo que sofre no doente, no preso, no faminto, etc. A Igreja não precisa que novos teólogos a ensinem a fazer caridade; ela a faz desde os Apóstolos, ela é “perita em humanidade”, como disse Paulo VI. Hoje 25% das instituições que tratam dos aidéticos são da Igreja; em toda a História da Igreja os santos e santas viveram a verdadeira caridade; só para citar alguns: Santa Isabel da Hungria, S. Vicente de Paulo, S. Francisco de Assis, S. Camilo de Lelis, S. João Bosco, Madre Teresa de Calcutá, Ira. Dulce, e milhares de outros que nunca precisaram reinterpretar o Evangelho e politizar a fé com métodos marxistas de luta de classes, invasão de propriedades alheias fora, da lei, etc., para promover os pobres. São os verdadeiros bons samaritanos do Evangelho. O Papa João Paulo II ao menos por duas vezes, falando aos bispos do Brasil, condenou as invasões de terras: 1 – Ao segundo grupo de Bispos do Brasil, do Regional Sul l daCNBB, em visita “ad limina Apostolorum” de 13 a 28 de Março de 1996, o Papa disse: “… mas recordo, igualmente, as palavras do meu predecessor Leão XIII quando ensina que “nem a justiça, nem o bem comum consentem danificar alguém ou invadir a sua propriedade sob nenhum pretexto” (RN, 55). A Igreja não pode estimular, inspirar ou apoiar as iniciativas ou movimentos de ocupação de terras, quer por invasões pelo uso da força, quer pela penetração sorrateira das propriedades agrícolas.” 2 – Em discurso em 26/nov/2002 aos bispos do Brasil, ele voltou a dizer: “Para alcançar a justiça social se requer muito mais do que a simples aplicação de esquemas ideológicos originados pela luta de classes como, por exemplo, através da invasão de terras – já reprovada na minha viagem pastoral em 1991 – e de edifícios públicos e privados, ou por não citar outros, a adoção de medidas técnicas extremas, que podem ter consequências bem mais graves do que a injustiça do que pretendiam resolver”. Não podemos nos fazer de surdos a essas palavras. Concluo com as sábias palavras de D. Estevão: “O cristão não pode ser de forma alguma, insensível à miséria dos povos do Terceiro Mundo. Todavia para acudir cristãmente a tal situação, não lhe é necessário adotar um sistema de pensamento que é anticristão como a Teologia da Libertação; existe a doutrina social da Igreja, desenvolvida pelos Papas desde Leão XIII até João Paulo II de maneira cada vez mais incisiva e penetrante. Se fosse posta em prática, eliminaria graves males de que sofrem os homens, sem disseminar o ódio e a luta de classes”. 2. A Teologia da Libertação e sua influência na Igreja. Dentro do pensamento marxista, mais especificamente do pensamento marxiano[1], a religião e a teologia fazem parte de uma superestrutura, de algo que não faz parte da infraestrutura que move a história, ou seja, a economia[2]. O pensamento revolucionário posterior a Marx, porém, começou a perceber a importância da cultura, da superestrutura[3]. Marx considerava a religião como ópio do povo. Na Rússia, o stalinismo/leninismo tentou abolir a religião, mas Gramsci e a escola de Frankfurt descobriram que a cultura é, de alguma forma, a religião exteriorizada. Todos parecem ter uma visão religiosa do mundo e a cultura seria a exteriorização desta visão de mundo. Feuerbach afirmava que toda a teologia é uma antropologia, pois dizia que tudo aquilo que se afirmava a respeito de Deus, que todas as afirmações religiosas podiam ser reduzidas a afirmações antropológicas. A religião parece, desta forma, ser uma projeção da humanidade na divindade. Feuerbach entende que a teologia é uma antropologia alienada. A Teologia da Libertação se esforça para seguir essa cartilha, pois é a imanentização[4] da religião cristã e de qualquer outra religião[5]. Tudo aquilo que se refere a Deus é relido em chave antropológica, mais especificamente em linguagem sociológica. Todo o conteúdo do sagrado e do transcendente é esvaziado na imanência humana. Assim, uma das características básicas da Teologia da libertação é a negação de uma esperança transcendente. Não se espera o reino de Deus na transcendência, mas sim na imanência deste mundo. Seu golpe, porém, se caracteriza pelo fato de se afirmar que a transcendência se encontra no futuro. Mas, o futuro também é imanente, pois pertence à realidade desse mundo. Essa afirmação do futuro como transcendente é própria do marxismo[6], ao se utilizar de um imanentismo fraco, afirmando que o sentido do hoje está no amanhã[7]. O marxista adia a crise de sentido diante de uma possibilidade de futuro. Mas, se o sentido do hoje é o amanhã, qual o sentido do amanhã? Qual o sentido da sociedade do futuro? Se a vida tem sentido, este sentido, necessária e logicamente, estará fora da vida. O único caminho para que a história tenha sentido é falar de uma meta-história, de algo transcendente. O Reino dos Céus, conteúdo da fé cristã, não é o reino do amanhã, mas é o reino do além, da eternidade, eternidade que irrompeu na história humana e se fez carne. O transcendente, o sentido de tudo, o logos se fez presente na história humana. Exatamente por isso tornou-se alcançável, tangível[8]. O esforço da teologia será o de mostrar que esta aparente contradição não trai a racionalidade, mas a aperfeiçoa. A verdadeira teologia é uma tentativa de reflexão que tenta conciliar os paradoxos e aparentes contradições da fé[9] com a racionalidade. Um "teólogo" da libertação não se move por esse mesmo caminho. Sua argumentação irá mudar quantas vezes forem necessárias até a realização do seu intento. Não existe nenhuma dificuldade em abandonar qualquer estereótipo. Tudo o que for necessário para favorecer a revolução será feito, pois qualquer argumento só tem validade enquanto convence. Se não convencer será descartado. É por isso que os teólogos tradicionais tem uma dificuldade imensa de compreender a forma de pensar de um teólogo da libertação, pois a lógica aristotélico-tomista, a todo o momento, percebe a falta de coerência lógica dos marxistas[10]. Na realidade, não seguem a lógica de Aristóteles, pois Gramsci já indicou o caminho: bom é aquilo que ajuda a revolução, mau é aquilo que atrapalha. Para se dialogar com um marxista é preciso inverter o caminho costumeiro da argumentação, já que ele parte do primado da práxis sobre a teoria, sabendo o que quer fazer e, num segundo momento, cria a teoria para justificar a sua práxis. E, nesse caminho, o grande adversário a ser combatido é o cristianismo, ópio do povo, pois aliena 'o povo' da luta pela implantação de uma sociedade justa e sem classes através da pregação do reino dos céus. Tudo o que faça com que o povo não lute, não serve e não deve existir. O povo deve ser engajado num processo de engenharia social e a religião deve ser metamorfoseada quantas vezes forem necessárias para ajudar nesse processo. O revolucionário não busca a verdade, pois não crê em sua existência. E uma vez que o marxismo viu que não conseguia destruir a Igreja a partir de fora (Revolução Russa, Gulags, Guerra Civil Espanhola) partiu para uma nova tática: infiltrar-se na Igreja, através da teologia da libertação, que se constituiu num projeto de engenharia social que, a partir da própria Igreja, buscou fazer com que a Igreja mudasse a sua própria natureza, constituindo-se numa força para ajudar a concretizar a revolução social. A tentativa: fazer com que o cristianismo deixe de ser visto como é, um acontecimento e passe a ser visto como uma realidade mental HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE XVI 1. PAPA BENTO XVI (2005 – 2013). O 265º Sumo Pontífice renunciou à Cátedra de Pedro. No dia 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI apresentou, durante uma reunião com as Cardeais da Cúria Romana, sua renúncia. Decisão que trouxe um novo olhar sobre a figura do Papa alemão. Um fato que revelou um Papa surpreendente. O Cardeal Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, nasceu em Marktl am Inn, diocese de Passau (Alemanha), no dia 16 de Abril de 1927 (Sábado Santo), e foi baptizado no mesmo dia. O seu pai, comissário da polícia, provinha duma antiga família de agricultores da Baixa Baviera, de modestas condições económicas. A sua mãe era filha de artesãos de Rimsting, no lago de Chiem, e antes de casar trabalhara como cozinheira em vários hotéis. Passou a sua infância e adolescência em Traunstein, uma pequena localidade perto da fronteira com a Áustria, a trinta quilómetros de Salisburgo. Foi neste ambiente, por ele próprio definido «mozarteano», que recebeu a sua formação cristã, humana e cultural. O período da sua juventude não foi fácil. A fé e a educação da sua família prepararam-no para enfrentar a dura experiência daqueles tempos, em que o regime nazista mantinha um clima de grande hostilidade contra a Igreja Católica. O jovem Joseph viu os nazistas açoitarem o pároco antes da celebração da Santa Missa. Precisamente nesta complexa situação, descobriu a beleza e a verdade da fé em Cristo; fundamental para ele foi a conduta dasua família, que sempre deu um claro testemunho de bondade e esperança, radicada numa conscienciosa pertença à Igreja. Até o mês de Setembro de 1944 esteve arrolado nos serviços auxiliares antiaéreos. Recebeu a Ordenação Sacerdotal em 29 de Junho de 1951. Um ano depois, começou a sua actividade de professor na Escola Superior de Freising. No ano de 1953, doutorou-se em teologia com a tese «Povo e Casa de Deus na doutrina da Igreja de Santo Agostinho». Passados quatro anos, sob a direção do conhecido professor de teologia fundamental Gottlieb Söhngen, conseguiu a habilitação para a docência com uma dissertação sobre «A teologia da história em São Boaventura». Depois de desempenhar o cargo de professor de teologia dogmática e fundamental na Escola Superior de Filosofia e Teologia de Freising, continuou a docência em Bonn, de 1959 a 1963; em Münster, de 1963 a 1966; e em Tubinga, de 1966 a 1969. A partir deste ano de 1969, passou a ser catedrático de dogmática e história do dogma na Universidade de Ratisbona, onde ocupou também o cargo de Vice-Reitor da Universidade. De 1962 a 1965, prestou um notável contributo ao Concílio Vaticano II como «perito»; viera como consultor teológico do Cardeal Joseph Frings, Arcebispo de Colónia. A sua intensa atividade científica levou-o a desempenhar importantes cargos ao serviço da Conferência Episcopal Alemã e na Comissão Teológica Internacional. Em 25 de Março de 1977, o Papa Paulo VI nomeou-o Arcebispo de München e Freising. A 28 de Maio seguinte, recebeu a sagração episcopal. Foi o primeiro sacerdote diocesano, depois de oitenta anos, que assumiu o governo pastoral da grande arquidiocese bávara. Escolheu como lema episcopal: «Colaborador da verdade»; assim o explicou ele mesmo: «Parecia-me, por um lado, encontrar nele a ligação entre a tarefa anterior de professor e a minha nova missão; o que estava em jogo, e continua a estar – embora com modalidades diferentes –, é seguir a verdade, estar ao seu serviço. E, por outro, escolhi este lema porque, no mundo atual, omite-se quase totalmente o tema da verdade, parecendo algo demasiado grande para o homem; e, todavia, tudo se desmorona se falta a verdade». Paulo VI criou-o Cardeal, do título presbiteral de “Santa Maria da Consolação no Tiburtino”, no Consistório de 27 de Junho desse mesmo ano. Em 1978, participou no Conclave, celebrado de 25 a 26 de Agosto, que elegeu João Paulo I; este o nomeou seu Enviado especial ao III Congresso Mariológico Internacional que teve lugar em Guayaquil (Equador) de 16 a 24 de Setembro. No mês de Outubro desse mesmo ano, participou também no Conclave que elegeu João Paulo II. Foi Relator na V Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos realizada em 1980, que tinha como tema «Missão da família cristã no mundo contemporâneo», e Presidente Delegado da VI Assembleia Geral Ordinária, celebrada em 1983, sobre «A reconciliação e a penitência na missão da Igreja». João Paulo II nomeou-o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional, em 25 de Novembro de 1981. No dia 15 de Fevereiro de 1982, renunciou ao governo pastoral da arquidiocese de München e Freising. O Papa elevou-o à Ordem dos Bispos, atribuindo-lhe a sede suburbicária de Velletri-Segni, em 5 de Abril de 1993. Foi Presidente da Comissão encarregada da preparação do Catecismo da Igreja Católica, a qual, após seis anos de trabalho (1986-1992), apresentou ao Santo Padre o novo Catecismo. A 6 de Novembro de 1998, o Santo Padre aprovou a eleição do Cardeal Ratzinger para Vice Decano do Colégio Cardinalício, realizada pelos Cardeais da Ordem dos Bispos. E, no dia 30 de Novembro de 2002, aprovou a sua eleição para Decano; com este cargo, foi-lhe atribuída também a sede suburbicária de Óstia. Em 1999, foi como Enviado especial do Papa às celebrações pelo XII centenário da criação da diocese de Paderborn, Alemanha, que tiveram lugar a 3 de Janeiro. Desde 13 de Novembro de 2000, era Membro honorário da Academia Pontifícia das Ciências. Na Cúria Romana, foi Membro do Conselho da Secretaria de Estado para as Relações com os Estados; das Congregações para as Igrejas Orientais, para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, para os Bispos, para a Evangelização dos Povos, para a Educação Católica, para o Clero, e para as Causas dos Santos; dos Conselhos Pontifícios para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e para a Cultura; do Tribunal Supremo da Signatura Apostólica; e das Comissões Pontifícias para a América Latina, «Ecclesia Dei», para a Interpretação Autêntica do Código de Direito Canónico, e para a revisão do Código de Direito Canónico Oriental. Entre as suas numerosas publicações, ocupam lugar de destaque o livro «Introdução ao Cristianismo», uma compilação de lições universitárias publicadas em 1968 sobre a profissão de fé apostólica, e o livro «Dogma e Revelação» (1973), uma antologia de ensaios, homilias e meditações, dedicadas à pastoral. Grande ressonância teve a conferência que pronunciou perante a Academia Católica Bávara sobre o tema «Por que continuo ainda na Igreja?»; com a sua habitual clareza, afirmou então: «Só na Igreja é possível ser cristão, não ao lado da Igreja». No decurso dos anos, continuou abundante a série das suas publicações, constituindo um ponto de referência para muitas pessoas, especialmente para os que queriam entrar em profundidade no estudo da teologia. Em 1985 publicou o livro- entrevista «Informe sobre a Fé» e, em 1996, «O sal da terra». E, por ocasião do seu septuagésimo aniversário, publicou o livro «Na escola da verdade», onde aparecem ilustrados vários aspectos da sua personalidade e da sua obra por diversos autores. Recebeu numerosos doutoramentos «honoris causa»: pelo College of St. Thomas em St. Paul (Minnesota, Estados Unidos), em 1984; pela Universidade Católica de Eichstätt, em 1987; pela Universidade Católica de Lima, em 1986; pela Universidade Católica de Lublin, em 1988; pela Universidade de Navarra (Pamplona, Espanha), em 1998; pela Livre Universidade Maria Santíssima Assunta (LUMSA, Roma), em 1999; pela Faculdade de Teologia da Universidade de Wroclaw (Polónia) no ano 2000. Contribuições do Papa Bento XVI para a Igreja, tanto antes como durante o Pontificado POR PE. GELSON LUIZ MIKUSZKA, C.SS.R. EM SANTO PADRE 28 FEV 2013 - 00H00 Contribuições do Papa Bento XVI para a Igreja, tanto antes como durante o Pontificado Joseph Ratzinger é um brilhante teólogo. Mas, na sua trajetória de Papa Bento XVI, sofreu o impacto de diversos acometimentos – missão, saúde, idade avançada – que naturalmente acabaram minando o vigor indispensável para conduzir assuntos contemporâneos e polêmicos da nossa fé, os quais não podem deixar de figurar na agenda de um pontífice. Uma situação que dele exigiu humildade e coragem para tomar a difícil decisão de abdicar da sua função pontifical. Bento XVI Para alguns, sua renúncia foi como abandonar a cruz, a exemplo da ‘Última Tentação de Cristo’, constante no livro de Nikos Kazantzakis. Para outros, representou um ato corajoso e compreensível, que surpreendeu o mundo. Como já havia renunciado a tantas outras coisas, tais como casamento, filhos, tempo, posses, baladas, etc., ele renuncia de modo tranquilo. Sua mais expressiva renúncia implica, sem dúvida, a escolha para morrer na simplicidade, sem honras ou homenagens dedicadas a um pontífice. Estipulando suas contribuições à Igreja, reportamo-nos às fases marcantes de sua vida eclesial, a saber: teólogo-professor, teólogo- cardeal e teólogo-papa. Teólogo-Professor Um ano após a ordenação presbiteral, em 1952, iniciou sua atividade docente na Escola Superior de Filosofia e Teologia de Freising, na Alemanha. Lecionou teologia dogmática e fundamental. Em 1953, concluiu doutorado em teologia, quando defendeu a tese: ‘Povo e Casa de Deus na doutrina da Igreja de Santo Agostinho’. Atuando como professor, mostrou-se homem inteligente, porém simples, gentil, amigo dos estudantes; eruditoe de fácil acesso. Herança de sua família pobre, uma vez que era filho de pai policial e de mãe cozinheira. Foi colega do teólogo suíço Hans Küng, mas mantinha certa visão conservadora em oposição às tendências marxistas dos movimentos estudantis dos anos de 1960. Participou do Concílio Vaticano II, na qualidade de especialista em teologia. Juntamente com outros teólogos, fundou em 1972 a revista Communio, refletindo a Igreja e a crise teológica e cultural do pós-Concílio. Teólogo-Cardeal Em março de 1977, ao ser nomeado bispo na Alemanha, escolheu como lema de seu episcopado a ‘Verdade’. Elevado a cardeal, poucos meses depois, participou da eleição do Papa João Paulo II. Em 1981, tornou-se prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e um juiz de teólogos. Nessa função, passou a assumir posições duras e atitudes conservadoras, condenando alguns teólogos da libertação, que focalizavam a Igreja num contexto de América Latina. Considerava a Teologia da Libertação correta, quanto ao carisma profético e bíblico de justiça; mas não a aceitava, por acreditar que o marxismo constituía a ferramenta de sua reflexão. Nos anos seguintes, ao menos omitiu atitudes de padres e bispos que agiam de modo nada cristão, em relação à pedofilia, demonstrando um “pulso firme” na defesa da ortodoxia. Teólogo-Papa Eleito papa em 2005, deu continuidade à sua linha intelectual, editando encíclicas e livros sobre importantes temas cristãos: amor, esperança, fé, Jesus Cristo. Documentos de tal organização teológica que possibilitam ser ele chamado de “intelectual da fé”. No livro-entrevista, intitulado ‘Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos’, baseado em vinte horas de entrevista conduzida pelo jornalista alemão Peter Seewald, revelou-se desencantado pelo que considerou exageros da Igreja em abrir-se de modo indiscriminado ao mundo; não apreciava interpretações demasiadamente positivas de um mundo sem fé. Como alternativa, sugere restaurar o equilíbrio de valores no interior do catolicismo, confirmando sua defesa à ortodoxia, indo contra o pensamento de reforma eclesial do Concílio Vaticano II. A primeira encíclica, ‘Deus Caritas Est’, publicada em dezembro de 2005, mostra um papa preocupado em esclarecer os conceitos de amor do pensamento ocidental, tão relativizados no mundo atual: o ‘eros’, que é o amor erótico; o ‘ágape’, que é o amor incondicional, e o ‘philia’, que é a amizade. Quando surgiram os escândalos de pedofilia na Igreja, ele dirigiu uma carta aos bispos da Irlanda, em 2006, onde reconheceu os fatos como “crimes hediondos”. Assumiu que cabia à Igreja solucionar eficazmente esse problema, mostrando a importância em estabelecer a verdade e o respeito, dando os passos necessários para que não voltasse a acontecer o que ocorrera no passado. Propôs que os princípios da justiça fossem assegurados às vítimas. Dentre tantos países visitados, Bento XVI esteve no Brasil, entre os dias 09 e 13 de maio de 2007. O objetivo principal de sua presença foi a Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, realizado no Santuário de Aparecida. Nessa ocasião, canonizou Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, em cerimônia realizada no dia 11 de maio de 2007, em São Paulo. A segunda encíclica: “Spe Salvi”, publicada em novembro de 2007, fala do entendimento cristão sobre a esperança. Para ele, a vida do cristão deve ser cheia de esperança, sentimento que traz sentido à existência, de vez que Jesus mudou a história porque trouxe à humanidade a esperança de encontro com Deus, e não uma mensagem política qualquer. Em 2008, recolocou no missal romano a oração pela conversão dos judeus, que era rezada antes do Vaticano II, mas havia sido retirada, por causar polêmica com os judeus. Ainda em 2008, fez uma viagem aos EUA, onde se posicionou contra os casos de pedofilia, afirmando que os pedófilos seriam excluídos do ministério sagrado, em vista do comportamento incompatível com o sacerdócio. As vítimas têm necessidade de cura, de ajuda, de assistência, de reconciliação, cabendo à Igreja o dever de assumir isso como um grande compromisso pastoral. Sobre esse mesmo tema, em 2010, respondendo a jornalistas, afirmou que “o perdão não substitui a justiça; esta tem de ser real e prática”. A terceira encíclica, ‘Caritas in Veritate’, ou ‘Amor à verdade’, publicada em Julho de 2009, aborda questões econômicas, esclarecendo que não cabe à Igreja oferecer soluções técnicas para os problemas econômicos, mas que ela pode apontar prioridades e valores. Menciona vários pontos pertinentes à doutrina social da Igreja, tais como a fome, ecologia, problemas relacionados às migrações, bioética e demografia. As “janelas do Vaticano” devem tê-lo ajudado a perceber a crise econômica em que a Europa está mergulhada e que compromete a fé. Neste mês de fevereiro, Bento XVI sentiu diminuir sua resistência para lutar fisicamente contra a crise e declarou sua renúncia, dando um passo além do Papa João Paulo II. Nesse ato de renunciar ao papado, retoma o perfil do gentil e simples teólogo- professor; reconhece sua limitação humana e toma uma atitude nada conservadora, quebrando uma tradição de quase seis séculos. Ao dar a notícia de que renunciaria ao pontificado, exatamente no Dia do Enfermo, assume os limites humanos necessários para bem exercer o ministério que lhe fora confiado. Um gesto que, certamente, não o deixará esquecido na história. Ele nos abriu as portas para pensar novas possibilidades na Igreja. Pode ser que Bento XVI tenha descido da cruz, mas não deixou de ser crucificado por alguns. Condenado ou absolvido, ele continua filho de Deus. E sua renúncia mostra a necessidade da Igreja rever seus conceitos e sua posição no mundo, cada vez mais resistente para quem está pensando como ela. Respostas novas diante do relativismo, fundamentalismo, ateísmo e tantos outros pensamentos precisam vir do novo papa a ser eleito. Já não são condizentes as respostas carregadas de dogmatismo, ortodoxia ou de chavões de tempos passados. A ferramenta da Igreja não pode ser a sua própria verdade, mas a verdade do Cristo: a Boa Nova. Novos tempos, novas respostas. Para o término do seu pontificado, Bento XVI escolheu o dia de São Romão, um dos primeiros monges franceses. Romão achava que as regras do mosteiro eram muito brandas e foi viver nas montanhas desertas entre a França e a Suíça, levando apenas uma bíblia, que considerava indispensável para viver. Alguns anos depois, foi localizado por seu irmão Lupicino, em completa oração e solidão. Coincidência ou não, Bento XVI pretende isolar-se entre os muros do Vaticano e ali empreender uma forte vida de oração pelo mundo, num exemplo de pensador que reza e busca cada vez mais os mistérios de Cristo, a exemplo de São Tomás de Aquino, que no fim da sua vida, no meio de uma missa, teve uma forte revelação e passou a considerar palha tudo o que havia escrito. Reze em paz, Bento XVI. Reze por nós, reze pela verdade… e que a vida lhe seja longa! HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE XVII CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB) Associação civil católica criada em 16 de outubro de 1952 no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, por iniciativa de dom Hélder Câmara, bispo auxiliar do cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime de Barros Câmara, com o objetivo de “coordenar e subsidiar as atividades de orientação religiosa, de beneficência, de filantropia e assistência social” em todo o território nacional. Representando uma tentativa de centralizar o poder da Igreja, que se encontrava fracionado em dezenas de dioceses espalhadas pelo país, a CNBB se caracterizou no decorrer dos anos menos por uma atividade assistencialista do que por uma presença ativa no campo social. A sede da CNBB foi transferida para Brasília em outubro de 1977, sendo oficialmente inaugurada na nova capital federal no mês de novembro seguinte. Origens e implantação da CNBB Nomeado cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro em 1930, dom Sebastião Leme da SilveiraCintra empreendeu a tarefa de centralizar o episcopado brasileiro e de organizar o movimento católico leigo na tentativa de fortalecer a Igreja e sua relação com o Estado. No ano de 1942 dom Leme faleceu, sendo nomeado para a arquidiocese do Rio de Janeiro no ano seguinte o cardeal dom Jaime de Barros Câmara. Devido à incapacidade de dom Jaime de exercer a mesma liderança de seu antecessor sobre o episcopado, o poder eclesiástico tendeu a refluir para as dioceses. A partir de 1949, entretanto, ao mesmo tempo em que as dioceses entravam em rápida expansão, começou a se realizar, com o apoio do núncio apostólico no Brasil, dom Carlo Chiari, uma série de encontros de prelados e bispos visando à formação de um órgão centralizador de todo o episcopado brasileiro. Dom Hélder Câmara, assistente nacional da Ação Católica Brasileira (ACB) — associação criada em 1935 para organizar o laicato católico — e um dos mais importantes articuladores desses encontros, acreditava que os laços entre o episcopado deviam ser fortalecidos, visando a uma melhor administração da Igreja. A ideia ganhou força durante o Congresso Mundial dos Leigos, realizado em Roma em 1950, quando foram elaboradas várias teses — na verdade, um esboço dos estatutos da futura organização — posteriormente entregues ao papa Pio XII. Monsenhor Giovani Montini, secretário de Estado do Vaticano e futuro papa Paulo VI, exerceu uma grande influência junto ao papa Pio XII para que a organização fosse aprovada, demonstrando assim a preocupação do Vaticano em promover a criação de uma instituição capaz de alargar o raio de influência da Igreja no Brasil. Em outubro de 1952, finalmente, com a permissão da Santa Sé, foi criada a CNBB, na época a terceira conferência episcopal do mundo. Além de dom Jaime, participaram da fundação da entidade bispos representantes de diversas tendências no interior da Igreja, entre os quais dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, dom Carlos Coelho, dom Eugênio Sales, dom Fernando Gomes, dom Hélder Câmara, dom José Maria Pires, dom José Távora e dom Luís Mousinho. A reunião de instalação da CNBB realizou-se no palácio São Joaquim, com a presença, entre outros, dos cardeais dom Jaime Câmara e dom Carlos Mora, do núncio apostólico dom Chiari, além de vários arcebispos como dom Vicente Scherer, de Porto Alegre. Realizada a eleição para a comissão permanente encarregada de dirigir a entidade, foram escolhidos dom Scherer, dom Mário de Miranda Vilas Boas e dom Antônio Morais de Almeida Júnior, sendo dom Hélder Câmara designado secretário-geral. Para a presidência, a comissão escolheu o cardeal dom Carlos Carmelo Mota, arcebispo de São Paulo. Foram ainda aprovadas as finalidades gerais do secretariado geral e seu desdobramento em seis secretariados nacionais — de educação, de ação social, de ensino de religião, dos seminários e vocações sacerdotais, do apostolado do leigo e da Liga Eleitoral Católica. Satisfazendo a uma necessidade de organização geralmente reconhecida pelos bispos, a CNBB em pouco tempo conquistou uma posição fundamental na Igreja brasileira, assumindo o papel de porta-voz da hierarquia eclesiástica. Por outro lado, a entidade procurou manter um bom relacionamento com o governo de Getúlio Vargas. Em visita ao presidente da República logo após a fundação da CNBB, dom Carlos Carmelo Mota enalteceu as realizações que considerava dignas do apoio da Igreja durante as duas fases da administração de Vargas, predominantemente as de cunho social. Vargas agradeceu e manifestou sua intenção de contribuir para o bom entendimento entre a Igreja e o Estado. De certo modo, a CNBB brotou da ACB, pois, na qualidade de assistente dessa organização, dom Hélder dela se utilizou para convocar os dois primeiros encontros da hierarquia eclesiástica. Além disso, vários integrantes da CNBB haviam trabalhado na ACB como assistentes, e ainda permaneciam em contato com a entidade. Graças a essa ligação estreita com a CNBB, a ACB alterou também sua relação com a Igreja: em lugar de depender das diretrizes de cada bispo individualmente, passou a tratar com um órgão de representação nacional, o que lhe propiciou maior autonomia de ação e lhe abriu a possibilidade de se manifestar mais livremente sobre as questões temporais. Da fundação a 1964 Dois anos após a fundação da CNBB, a Santa Sé enviou ao Brasil um novo núncio papal, dom Armando Lombardi, que até morrer, em maio de 1964, desempenharia um papel fundamental na orientação e na sustentação da unidade da CNBB e de seu secretariado. Convicto da necessidade de uma renovação da Igreja no país que se poderia efetivar através da CNBB, dom Lombardi manteve encontros semanais com dom Hélder e assistiu a vários encontros da CNBB onde apoiou as declarações sociais mais avançadas. A partir de 1954, portanto, a CNBB se tornou o porta- voz mais autorizado da Igreja Católica no Brasil. Segundo Della Cava, a CNBB se teria tornado o verdadeiro sucessor do cardeal Leme — e não o cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime Câmara —, e dom Hélder Câmara emergiria assim como o “líder de fato” da Igreja brasileira. Em maio de 1956, sob os auspícios da CNBB e com a presença de vários ministros do governo de Juscelino Kubitschek, os bispos do Nordeste se reuniram em Campina Grande (PB) para discutir os problemas socioeconômicos da região. Durante o período de preparação da reunião, foram feitos contatos com técnicos — particularmente economistas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico como Celso Furtado e Rômulo de Almeida — com o objetivo de formular um modelo de desenvolvimento econômico que permitisse maior intervenção do Estado. O encontro de Campina Grande se distinguiu dos anteriores na medida em que preconizava a formulação de um plano geral para o desenvolvimento do Nordeste, visando a um controle das diversas instituições e organismos governamentais já existentes. Solidários com as camadas mais pobres da população e criticando as injustiças geradas pela estrutura socioeconômica do país, os bispos procuravam aumentar o raio de influência da Igreja através da elaboração de uma nova estratégia de ação. Já no mês seguinte, o presidente Juscelino Kubitschek lançaria a Operação Nordeste, assinando 20 decretos em boa parte baseados nas recomendações episcopais. A questão da justiça social tornava-se assim cada vez mais relevante nas declarações dos bispos, principalmente sob o papado de João XXIII, que teve início em 1958. No mês de novembro desse ano, João XXIII dirigiu uma carta aos bispos da América Latina enfatizando os problemas sociais da região, e manifestando-se favorável a uma mudança daquela situação. Enquanto isso, em maio de 1959, em novo encontro, os bispos do Nordeste pressionaram o Congresso para que votasse a favor da criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Criada finalmente pela Lei nº 3.692, de 15 de dezembro do mesmo ano, a Sudene veio concretizar os anseios daqueles bispos que reivindicavam a implantação de um órgão de planejamento regional. Assim, através da CNBB, a Igreja caminhava relativamente próxima do governo de Juscelino Kubitschek. A reunião dos bispos da Amazônia, realizada em Belém nos primeiros dias de novembro de 1959, contou com a presença do próprio presidente, demonstrando seu estreito contato com dom Hélder Câmara. Também ao final da década de 1950 e início da década de 1960 estabeleceu-se uma aproximação entre alguns setores da Igreja — basicamente o grupo progressista do episcopado, juntamente com a ACB e seus setores jovens — e aqueles segmentos sociais em luta pela transformação da sociedade. As inovações do pensamento social da Igreja universal e a presença de uma crítica crescente aos desequilíbrios estruturais contribuíram para esse engajamento, que se fez dentro da Igreja através de dois grupos: o grupo renovador, influenciado pela ideologia modernizante do desenvolvimento, e o grupo progressista, autor de uma crítica mais radical à sociedade, que constituiria a própria origem da “teologia da libertação”.Num quadro mais amplo, o caminho seguido pela CNBB estabeleceria portanto uma divisão no interior da hierarquia eclesiástica na medida em que passava a marginalizar seus setores mais conservadores. Em defesa destes, em 1960 era fundada a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), contrária ao catolicismo com engajamento social e inimiga do socialismo e do comunismo. Em concordância com a ACB, a facção mais engajada da CNBB era apoiada pelo núncio dom Lombardi. Apesar das condições favoráveis para sua atuação, a CNBB, em 1961, foi bastante criticada por um grupo de bispos e leigos conservadores contrários à política de reforma agrária defendida pela organização. Em 21 de março do mesmo ano, o presidente Jânio Quadros assinou o Decreto nº 50.370 criando o Movimento de Educação de Base (MEB) como um departamento da CNBB visando à organização de “escolas radiofônicas” nas áreas pouco desenvolvidas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país. Ainda em 1961, foi grande o impacto da encíclica Mater et magistra do papa João XXIII, de forte conteúdo social. No mês de outubro desse mesmo ano, após uma reunião extraordinária da comissão central da CNBB, foi publicado um documento avançado sobre as mudanças necessárias na sociedade rural e na estrutura política do país, ficando a cargo do MEB, da ACB e dos sindicatos rurais o trabalho de transformação social. Esse documento foi considerado importante, pois diferia dos pronunciamentos anteriores da CNBB, todos eles feitos unicamente em nível regional. No mês seguinte, em carta à hierarquia eclesiástica da América Latina, o papa enfatizou o papel da Igreja nas questões sociais, pedindo que cada país estabelecesse um plano pastoral com o objetivo de revigorar a vida sacramental, de demonstrar a urgência de uma reforma das estruturas sociais e o necessário auxílio da Igreja no cumprimento dessa tarefa. Em consequência desse apelo, na V Assembleia Geral da CNBB, de 5 de abril de 1962, foi aprovado um Plano de Emergência para a Igreja no Brasil. Adotado até o ano de 1965, quando foi substituído pelo Plano Pastoral de Conjunto, o Plano de Emergência tratava da renovação das paróquias, do clero e das escolas católicas, além de sugerir reformas sociais. O plano reestruturava a CNBB, criando os secretariados nacionais e regionais e decidindo a fundação do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS). No interior dos novos órgãos deveria ser elaborada uma estratégia alternativa para a Igreja, tendo em vista algumas das novas orientações para a ação social em favor das camadas menos favorecidas da sociedade. Segundo Márcio Moreira Alves, o plano teve importantes consequências políticas que marcariam “uma nova etapa do papel da Igreja na vida brasileira”. Em outubro de 1962, no entanto, a comissão central da CNBB reuniu-se para discutir o rumo que tomava a Juventude Universitária Católica (JUC), um dos setores jovens da ACB, cada vez mais envolvido na luta pela transformação radical da sociedade. As diretrizes então adotadas visavam pôr limites à ação dos militantes, o que levou a crescentes tensões entre os jucistas mais engajados e a hierarquia eclesiástica. Além disso, nesse mesmo ano, dom Hélder foi substituído no cargo de assistente nacional da ACB por dom Cândido Padim, o que significou à primeira vista uma tentativa de alijamento de uma linha renovadora dentro da Igreja. Entretanto, o próprio dom Padim, influenciado pelo trabalho da JUC, que acompanhou de perto, foi-se alinhando na mesma opção renovadora. A encíclica Pacem in terris publicada em abril de 1963 reforçou os postulados da Mater et magistra, acentuando ainda mais a preocupação com o engajamento social. Aproveitando a ocasião, a comissão central da CNBB publicou uma declaração sobre a situação do país, considerada a declaração mais avançada e mais decisiva até então proclamada pela Igreja no Brasil, obtendo ainda o apoio da Santa Sé. O documento procurava refletir sobre a realidade brasileira, afirmando que “se de um lado, rápidos progressos se operam em escalas cada vez mais amplas, de outro lado, grandes entraves a condicionam nas características, ainda mercantes, de um país subdesenvolvido, em que as massas populares não participam do processo brasileiro, onde subsistem a miséria e a mortalidade prematura em números clamorosos, no qual o impacto das realidades rural e urbana gera consequências gravíssimas de despersonalização”. Ao mesmo tempo em que criticava os grupos “fascinados pelo progresso material da ordem capitalista”, o documento opunha-se às “soluções marxistas” que viriam atentar contra os direitos do homem. Manifestava-se então favorável a uma transformação urgente da estrutura social, clamando por reformas da estrutura rural, empresarial, tributária, administrativa, eleitoral e educacional. Apesar de o documento incentivar a organização do laicato, a comissão central da CNBB, em face da chamada radicalização do meio estudantil, distribuiu à imprensa, em dezembro, uma carta pastoral dirigida a dom Cândido Padim, assistente geral da ACB e assistente eclesiástico da JUC. Redigido durante a segunda fase do Concílio Ecumênico, encerrado em inícios do mesmo mês, o documento afirmava, entre outras coisas, que a Ação Popular (AP) — organização política criada em 1962 em boa parte por membros da JUC e da Juventude Estudantil Católica (JEC), que atuavam independentemente da hierarquia em luta pela transformação radical da sociedade brasileira — não representava o “autêntico pensamento cristão”, além de pôr condicionamentos à participação de membros da JUC e da JEC na AP. Era somente aceita a participação de jucistas na AP, desde que comprometidos em enquadrá-la numa linha genuinamente cristã. O documento condenava ainda a disposição das organizações católicas em fazer aliança com movimentos de ideologia marxista. Nos três primeiros meses do ano de 1964, o país viveu um momento de intensa polarização política. No dia 19 de março, na cidade de São Paulo, alguns setores do clero e entidades femininas organizaram uma marcha conhecida como Marcha da Família com Deus pela Liberdade, na tentativa de sensibilizar a opinião pública contra as medidas que vinham sendo adotadas pelo governo Goulart. Os setores que se opunham ao governo de João Goulart denunciavam constantemente todos aqueles que, em algum momento, privavam da companhia do presidente. Nesse sentido, serviu-lhes a foto de dom Hélder e dom Carmelo Mota em almoço com Goulart em meados do mês de março, para que divulgassem amplamente os contatos entre os líderes da CNBB e o presidente. As relações entre dom Hélder e a hierarquia eclesiástica mostravam-se cada vez mais tensas, sendo dom Hélder atacado por “fazer o trabalho dos comunistas”. O MEB e os setores jovens da ACB também vinham sendo severamente atacados por Carlos Lacerda, governador da Guanabara. A vitória do movimento político-militar que derrubou o presidente Goulart em 31 de março de 1964 provocou uma alteração significativa na orientação até então vigente na CNBB. Os partidários de dom Hélder foram severamente atacados pela imprensa e, já no mês de abril, dom Hélder deixava a CNBB e assumia o arcebispado de Olinda e Recife — para onde fora nomeado alguns meses antes —, enquanto dom Carmelo Mota era transferido da arquidiocese de São Paulo para a de Aparecida. Durante a posse de dom Hélder em Recife, foi divulgada uma declaração de descontentamento com o movimento de março assinada por um grupo de bispos ali reunidos, identificados com uma posição de crítica ao novo regime. Já a declaração conjunta de maio, assinada por 26 dos bispos e arcebispos mais importantes do país, constituiu a primeira declaração pública de apoio ao movimento político-militar de março. Seus signatários saudavam a vitória dos militares sob a alegação de que a nação estava agora salva daquele “abismo iminente”. Mesmo reconhecendo que tivessem ocorrido “facilidades e abusos” em alguns movimentos de orientação católica, os bispos confirmavam osinúmeros esforços no sentido de advertir e corrigir os culpados em geral. Por essa razão, não concordavam “com a atitude de certos elementos, que têm promovido mesquinhas hostilidades à Igreja, na pessoa de bispos, sacerdotes, militantes, leigos e fiéis”, além de recusar as alegações de que o MEB e a ACB fossem comunistas. Esperavam assim que os “responsáveis pelos destinos temporais do Brasil” aceitassem e cumprissem o Evangelho e a doutrina social cristã considerada “a base fora da qual não há nem poderá haver ordem social, segurança, estabilidade e verdadeiro progresso”. A declaração de maio, endossada por uma grande parcela da hierarquia eclesiástica, afinava-se com a orientação geral dada à sociedade. A CNBB passou assim a enfocar prioritariamente questões de caráter organizacional. Apesar disso, no mês de junho, 23 bispos e dois cardeais da CNBB favoráveis ao movimento de 31 de março manifestaram-se em favor do direito de defesa dos acusados e contra o uso da força que contra eles podia ser empregada. Com a realização da VI Assembleia Geral da CNBB, em meados de 1964, a estrutura da entidade foi radicalmente mudada. O núcleo institucional da comissão central foi aumentado de sete para 37 membros, na tentativa de ampliar o órgão central para uma melhor representação da hierarquia como um todo. O espírito desse plano diferia no entanto do projeto de descentralização proposto em 1962 por um grupo liderado por dom Hélder, cujo objetivo era alargar as bases da instituição. Também nessa assembleia a CNBB passava a vincular-se mais diretamente à hierarquia eclesiástica, já que se encontrava até então separada das estruturas diocesanas tradicionais da Igreja e com certa autonomia de ação e iniciativa. Ainda em meados de 1964, foram realizadas em Roma eleições para todos os cargos na CNBB. Enquanto o grupo da situação esperava reeleger dom Hélder para a Secretaria Geral, o bispo conservador de Pouso Alegre (MG), dom José D’Ângelo Neto, organizou a oposição, congregando os bispos conservadores e os moderados preocupados com o radicalismo. Dom Hélder foi derrotado, juntamente com dom Fernando Gomes, candidato à presidência. Foram eleitos finalmente, para secretário-geral, o bispo dom José Gonçalves, auxiliar do cardeal dom Jaime Câmara, e, para presidente, o arcebispo de Ribeirão Preto, dom Agnelo Rossi, adepto da linha conservadora mas sem nenhuma orientação particular. Para primeiro e segundo-vice-presidentes os candidatos de dom Fernando Gomes foram igualmente derrotados, sendo eleitos dom Avelar Brandão e dom Penedo. Alijados da cúpula do órgão, os bispos renovadores preencheram cargos menos importantes dos secretariados nacionais. Enquanto dom Hélder e dom Padim foram eleitos respectivamente para a direção da Ação Social e do Departamento de Educação, dom Fernando Gomes passaria a dirigir a Pastoral Especializada. Apesar disso, como dom José Gonçalves encarregava-se sobretudo dos problemas administrativos, esses bispos desenvolveram um trabalho, assessorados por sacerdotes e leigos, que veio a ser consolidado em 1965 no Plano Pastoral de Conjunto. No regime militar Em meados de 1965, realizou-se a VII Assembleia Geral da CNBB, quando foi convocada uma reunião para tratar especificamente da ACB. Ao final das discussões, os grupos conservadores fizeram prevalecer suas posições e, preocupados com o “radicalismo” da ACB, subordinaram a organização aos bispos diocesanos, mantidos sob o controle da hierarquia. Além disso, enquanto o projeto de expansão da jurisdição das conferências episcopais nacionais era consagrado pelo Concílio Vaticano II — cujos trabalhos, iniciados em 1962, chegaram ao fim em 1965 —, a CNBB passava a enfatizar a direção do órgão por regiões, em detrimento de uma organização central e de uma autonomia de ação. Na Igreja brasileira, na verdade, procurava-se desarticular o trabalho desenvolvido até março de 1964 pelas associações católicas, entre as quais a CNBB. Paradoxalmente, foi aprovado no mesmo ano em substituição ao Plano de Emergência o Plano Pastoral de Conjunto, com o objetivo de coordenar a Igreja em todo o país visando à criação dos meios e das condições “para que a Igreja no Brasil se ajuste, o mais rápido e plenamente possível, à imagem da Igreja do Vaticano II”. O Plano Pastoral prescrevia entre outras coisas a divisão do país em 13 regiões e estipulava um extenso programa de pesquisa através do CERIS, com o objetivo de tomar conhecimento dos problemas sociais e religiosos. Segundo Thomas Bruneau, “o PPC é basicamente uma resposta à solicitação do papa João XXIII, uma continuação lógica do Plano de Emergência e uma declaração de intenção otimista: não é de forma alguma um planejamento”. Nos meses de junho e julho de 1966, a comissão central da CNBB procurou defender-se das várias acusações proferidas contra as associações católicas, afirmando que o grupo católico reunido na TFP não representava o pensamento da comissão. Nesse mesmo ano, houve alguns desentendimentos entre o governo e setores da Igreja identificados com uma posição crítica ao novo regime. O general Itiberê Gouveia do Amaral, comandante da 10ª Região Militar, sediada em Fortaleza, divulgou nota culpando dom Hélder pela “desagregação do rebanho católico em consequência de suas atitudes” e proibindo a divulgação de um documento assinado por 15 bispos do Nordeste. Esse incidente provocou a indignação de vários setores da Igreja, além de um encontro entre dom Hélder e o presidente Castelo Branco. No início do ano de 1967, realizou-se um encontro regional de secretariados da CNBB. Os participantes revelaram-se preocupados com o atual estágio “imutável” da Igreja, além de exigirem profundas modificações nas estruturas paroquiais e diocesanas. No mês de maio, na cidade de Aparecida, realizou-se a VIII Assembleia Geral da CNBB, com a presença de mais de duzentos bispos. Já sob as determinações da encíclica Populorum progressio, a reunião restringiu-se a questões de doutrina e administração interna da Igreja. Dom Hélder chegou a apresentar uma declaração sobre a “Populorum progressio e o Brasil”, que no entanto foi pouco discutida, não obtendo repercussão pública. Era evidente que a Igreja recuara naquele momento em relação às questões sociais, recusando ainda qualquer atividade inovadora. Através de uma carta enviada aos bispos em outubro, o clero brasileiro mostrou-se no entanto apreensivo frente à realidade nacional, denunciando desde os índices de mortalidade infantil e as precárias condições de vida dos trabalhadores até o paternalismo e assistencialismo da Igreja expressos pelas inúmeras obras sociais e de caridade. No início do mês de novembro, foram presas quatro pessoas ligadas à JOC que, num automóvel da diocese de Volta Redonda, distribuíam panfletos com denúncias ao governo. Dom Valdir Calheiros — bispo da citada diocese que, na ocasião, hospedava duas das pessoas presas — declarou que não abandonaria aqueles rapazes. Em entrevista à imprensa após ter sua residência invadida por soldados armados, dom Valdir Calheiros criticou as condições de vida dos trabalhadores. A comissão central da CNBB manifestou- se posteriormente sobre o caso, solidarizando-se com os bispos, padres e leigos vitimados pela injustiça cometida, e insistindo também na necessidade de uma “ordem socialista”. Disposta a dialogar com o governo para minimizar as dificuldades e resolver os problemas futuros, a comissão procurava demonstrar a autonomia da CNBB em face do Estado, questão essa que veio a ser enfatizada nos anos seguintes. Os primeiros meses de 1968 foram marcados por uma intensa repressão policial às greves operárias e às manifestações estudantis de repúdio ao regime vigente, que contaram com a presença de padres e freiras. Em julho do mesmo ano, realizou-se a IX Assembleia Geral da CNBB, onde foi apresentado um manifesto de 350 padres dos estados da Guanabara, São Paulo, Paraná e do Rio de Janeiro, apontando para uma série de problemas, entre os quais o afastamento dos leigos mais conscientesda esfera da Igreja, as más condições de vida no interior dos seminários e o comportamento dos leigos que clamavam “por uma Igreja que assumisse seu papel no processo de liberação”. Além disso, propunham a formação de comunidades de base, sob a inspiração de uma nova concepção pastoral, posteriormente oficializada na Conferência de Medellín. Durante a assembleia, foi ainda apresentado um texto de dom Cândido Padim denominado “A doutrina da segurança nacional à luz da doutrina social da Igreja”. O trabalho consistia num estudo sobre a ideologia do regime instaurado a partir da Constituição de 1967, comparando os principais aspectos da nova doutrina de segurança nacional com a doutrina católica expressa nas últimas três encíclicas. Esse documento provocou a primeira ruptura pública entre o conjunto do episcopado e os bispos ultraconservadores, além de demonstrar o afastamento crescente entre alguns setores católicos e os militares. Também durante o encontro, dom Rossi foi reeleito para a presidência da CNBB e, para a secretaria geral, foi escolhido dom Aluísio Lorscheider, bispo de Santo Ângelo (RS). Este último, com o tempo, se tornaria responsável tanto pela reabertura da CNBB para os problemas sociais como pelo crescente distanciamento da Igreja do poder político. Dois dias após o encerramento da assembleia, 12 arcebispos e bispos publicaram uma carta dirigida ao presidente Artur da Costa e Silva, na qual mostravam sua incompatibilidade com as críticas feitas ao regime por alguns bispos, padres e leigos. O conselho nacional da TFP, por sua vez, promoveu uma campanha nacional de denúncia da “comunicação do clero no Brasil”. Entre 26 de agosto e 6 de setembro de 1968 realizou-se a II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Medellín (Colômbia). Em defesa dos “direitos dos pobres e dos oprimidos”, o encontro orientou-se no sentido de encorajar o povo a criar e desenvolver suas próprias organizações de base, denunciando a “violência institucionalizada” e enfatizando a ideia de “libertação”. Além disso, a conferência estabeleceu, entre suas reivindicações, a de maior autonomia da Igreja perante o poder central. A questão da autonomia veio a ser enfatizada pela comissão central da CNBB, reunida no Rio de Janeiro no mês de outubro do mesmo ano, que também recomendou aos membros da hierarquia que permanecessem mobilizados em favor da mudança social. A comissão decidiu ainda criar um órgão encarregado de manter contatos estreitos com o governo, com o objetivo de “reduzir, toda vez que se tornar necessário, as tensões políticas”. No início do mês de dezembro, a propósito da prisão dias antes em Belo Horizonte de três padres franceses e um diácono brasileiro, a CNBB publicou uma nota oficial assinada por dom Rossi e dom Lorscheider, na qual afirmava que nenhuma autoridade não- eclesiástica era competente para julgar sua forma de pregar o Evangelho. A promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) a 13 de dezembro de 1968 provocou o fortalecimento do Executivo e o agravamento da situação política nacional. A Igreja se deparava agora com uma conjuntura ainda mais problemática para intervir. Dada a dificuldade em organizar uma reunião da comissão central para a discussão dessas questões, dom Rossi empenhou-se pessoalmente na sua realização, o que ocorreu finalmente em fevereiro de 1969. Após algumas dúvidas sobre a oportunidade de ser lançada uma declaração sobre a situação política, foi aprovado ao final do encontro um texto a ser enviado ao presidente Costa e Silva. Acreditando até mesmo na possibilidade de que os poderes de emergência ajudassem na realização de reformas básicas, a nota alertava o governo sobre o perigo de violação dos direitos humanos, referindo-se à supressão do habeas-corpus, à instalação da censura e da tortura, esta última analisada de forma diferente entre os setores conservadores e progressistas. Levada pessoalmente a Costa e Silva pelo cardeal dom Jaime Câmara, a nota acabou sendo divulgada pela imprensa, revelando-se assim publicamente as preocupações e esperanças da Igreja em face da situação política brasileira da época. Os conflitos entre os setores conservadores e progressistas da Igreja se agravaram, na medida em que ambos procuravam exercer uma maior influência junto à hierarquia. E como o papel da Igreja naquele momento era decisivo, o governo procurava também dela aproximar-se. Durante a X Assembleia Geral de julho de 1969, o secretário- geral do episcopado discursou sobre a função sociocrítica da Igreja, além de protestar caso o Estado infringisse os princípios dos direitos humanos. Foram ainda tratadas outras questões como a reforma agrária e os atentados terroristas ocorridos, além das relações entre a Igreja e o Estado. Ao final do encontro, foi rejeitado por 135 votos contra 60 um documento básico sobre “a relação entre a Igreja e o Estado no Brasil”, que representou a vitória da ala conservadora aliada à ala moderada do episcopado. Não foi emitido um documento oficial sobre a assembleia, sendo somente distribuído à imprensa um comunicado sobre os problemas debatidos no tocante à dinâmica interna da organização. Em declaração dada no mês de setembro daquele ano, a comissão central da CNBB endossou a aceitação do regime temporário de emergência — atacavam as posições radicais dos movimentos terroristas de esquerda e de direita — desde que o Legislativo e o Judiciário voltassem a funcionar normalmente e que os direitos humanos fossem respeitados. Esses aspectos adquiriram no entanto pesos diferenciados segundo cada uma das orientações. O fato de que alguns membros progressistas da Igreja estivessem comprometidos com algumas organizações de esquerda veio a criar problemas para a relação entre a Igreja e o Estado, sobretudo em novembro, quando 11 frades dominicanos, dois padres seculares e um jesuíta foram presos sob a acusação de pertencerem à organização de esquerda pró-luta armada denominada Aliança Libertadora Nacional. Enquanto as autoridades eclesiásticas pediam que os acusados fossem levados aos tribunais com direito de defesa assegurado, a TFP pedia ao governo e ao Vaticano um expurgo nos meios católicos. A partir de 1970, o setor da Igreja identificado com uma posição de crítica ao regime passaria a exercer maior influência nas assembleias da CNBB. A CNBB foi ainda reestruturada, estabelecendo-se a junção do Plano Pastoral de Conjunto com a própria organização através de um corpo central de nove bispos, três dos quais cuidariam da administração e seis do plano. Durante a assembleia geral ocorrida em maio de 1970 em Brasília, foi apresentado um relatório — encomendado por dom Aluísio ao professor Cândido Mendes de Almeida, membro da Comissão Episcopal para a Justiça e a Paz — sobre as torturas cometidas contra presos políticos, sendo relatadas somente as denúncias assinadas pelas próprias vítimas ou por pessoas que as testemunharam. Presente à reunião, o ministro da Justiça Alfredo Buzaid procurou, em sua intervenção, afastar a hipótese de um conflito entre a Igreja e o Estado, afirmando que as torturas ocorreram ocasionalmente e que os padres não foram detidos por motivos religiosos. A reunião da comissão central da CNBB realizada em outubro do mesmo ano reiterou a independência dos bispos em relação ao governo, não permitindo que houvesse transferência das responsabilidades que lhes pertenciam “por vontade divina”. Frente à repressão que se abateu sobre a Juventude Operária Católica, a CNBB procurou diminuir as pressões, não podendo no entanto evitá-las. No final do ano, dom Agnelo Rossi foi transferido para Roma, realizando-se eleições na CNBB para presidente, secretário-geral e outros titulares. Para a presidência, venceu dom Aluísio Lorscheider, com 105 votos, derrotando o conservador dom Vicente Scherer, que obteve 65 votos. A secretaria geral coube ao primo de dom Aluísio, o bispo-auxiliar da arquidiocese de Porto Alegre, dom José Ivo Lorscheiter. A eleição dessa diretoria refletia assim o descontentamento dos bisposcom o regime vigente, além de revelar a tentativa destes de defender a autonomia da organização em relação ao Estado. No ano de 1971, a CNBB prosseguiu em sua luta contra as arbitrariedades do regime vigente, manifestando-se contra a pena de morte e contra as atividades do Esquadrão da Morte — grupo para policial responsável por várias execuções sumárias ocorridas principalmente na Baixada Fluminense. No mês de março do ano seguinte, a presidência da CNBB, juntamente com os bispos da região Centro-Oeste, repudiou a invasão de uma propriedade do bispado de São Félix do Araguaia (MT) ocorrida em represália ao bispo dom Pedro Casaldáliga. O religioso havia denunciado as grandes empresas de criação de gado que, com ajuda policial, tentaram expulsar os habitantes de um vilarejo localizado em terras que o governo concedera para a implantação de um projeto de desenvolvimento pecuário. E no mês de junho, em assembleia dos bispos da Região Sul II realizada na cidade de Brodósqui (SP), foi lançada a mais categórica declaração da Igreja sobre o problema da tortura no Brasil. No ano de 1973, os bispos do Nordeste e da região Centro- Oeste apresentaram os documentos Eu ouvi os clamores do meu povo e Marginalização de um povo respectivamente, denunciando a realidade local marcada pela “opressão, miséria e injustiça”, além de registrar o problema do alto nível de desemprego e subemprego, as más condições de vida da população e as condições históricas que determinaram essa situação. Demonstrando que a Igreja não podia ficar indiferente à situação socioeconômica, política e cultural do povo brasileiro, denunciavam a concentração de renda no país e o consequente rebaixamento do poder aquisitivo das massas assalariadas durante o período do chamado “milagre brasileiro”. No mês de outubro de 1976, após uma reunião dos bispos da comissão representativa da CNBB, foi lançado o “Comunicado pastoral ao povo de Deus”, que, por seu estilo direto, inovou diante das declarações mais solenes de textos anteriores. Essa declaração denunciava o assassinato dos padres Rodolfo Lunkenbein — ocorrido em meio a um conflito entre fazendeiros e índios no mês de julho em Mato Grosso — e João Bosco Penido Burnier — morto numa delegacia do povoado de Ribeirão Bonito, no município de Barra do Garças (MT), ao reclamar contra a prisão e a tortura sofrida por duas mulheres — e ainda o sequestro do bispo de Nova Iguaçu, dom Adriano Hipólito. O documento relatava ainda a coerção permanente que vinha atingindo a Igreja, como a censura às declarações de dom Hélder e a explosão de um carro estacionado em frente à sede da CNBB no Rio de Janeiro, além de atentados a outras instituições, como a Ordem dos Advogados do Brasil, a Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro, e o Centro Brasileiro de Análises e Pesquisas, em São Paulo. Mais uma vez, a nota repudiava as prisões políticas arbitrárias, que seguidamente incluíam torturas, desaparecimentos e mortes. A proposta dos bispos brasileiros à III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano que se realizaria em outubro de 1978 na cidade de Puebla (México) sofreu algumas emendas quando votada na assembleia geral extraordinária da CNBB, em Itaici. O grupo de bispos progressistas mostrou-se no entanto entusiasmado, na medida em que as modificações feitas não alteravam o conteúdo básico do documento, que reafirmava Medellín. Os delegados eleitos para representar o Brasil em Puebla resultavam no entanto de uma aliança entre conservadores e moderados, pouco representativa dos setores mais progressistas em ascensão. Na mesma assembleia, foi aprovado um texto de apelo às autoridades para que, “num esforço sincero de volta ao estado de direito e reconciliação nacional”, fosse concedida anistia àqueles envolvidos “em situações de desordem política e social de tal amplitude que não possam ser considerados como responsáveis únicos por elas”. A Igreja prosseguia assim sua luta contra o arbítrio e a violação dos direitos humanos, exigindo uma ordem jurídica estável. Considerando a aprovação do divórcio no país, foram reforçadas as orientações pastorais sobre o matrimônio em oposição ao divórcio. Realizadas novas eleições para a diretoria da CNBB em janeiro de 1979, dom Ivo Lorscheiter foi escolhido para a presidência, e dom Luciano Mendes de Almeida para o cargo de secretário-geral. No mês de setembro de 1979, a CNBB novamente requisitou ao governo uma urgente revisão da política econômica brasileira que prosseguia sem atender às necessidades básicas do povo. Essas questões foram também tratadas no documento Subsídios para uma política social entregue naquela época ao governo, destacando a necessidade de uma “revisão da política da terra e da estrutura fundiária” em prol daqueles que nela trabalhavam. No mês seguinte, dom Luciano Mendes de Almeida frisou que, apesar de não caber à Igreja a política partidária, todo cristão deveria atuar “em busca do bem comum” através da prática política. A instabilidade das relações entre a Igreja e o Estado acentuou-se no ano de 1980, quando seguidamente a CNBB se defendeu das acusações de que fazia política partidária. No mês de fevereiro, realizou-se a XVIII Assembleia Geral da CNBB em Itaici, sendo mais uma vez condenado o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro. Foram condenados ainda a campanha pela legalização do aborto, o controle da natalidade e a “escalada da permissividade” que se baseava na “mentalidade consumista que, erigindo o bem-estar em valor supremo, gerava a idolatria do dinheiro e do poder, causa da injustiça e infelicidade social”. O documento Igreja e problemas da terra, aprovado por ampla maioria por tratar da questão fundiária, foi no entanto o que mais despertou discussões entre as alas conservadora e progressista. Ainda na reunião, os cinco bispos da CNBB membros da regional do Araguaia-Tocantins entregaram aos presentes um documento — que não iria a plenário — sobre a atuação do Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins (GETAT). Segundo a nota, o GETAT, órgão recentemente criado pelo governo, não estaria resolvendo os problemas da terra dos posseiros e indígenas, e sim a segurança do governo e das empresas que deste recebiam incentivos fiscais. Além disso, considerando a catequese como ação prioritária da Igreja brasileira, a reunião da CNBB qualificou as comunidades eclesiais de base (CEBs) de “lugares privilegiados para a educação da fé, sobretudo entre os pobres e marginalizados”. Essa questão foi reforçada posteriormente pela Igreja brasileira durante o VI Sínodo dos Bispos, realizado em Roma, como sendo uma nova forma de socialização da sociedade. A propósito do documento final de Itaici, Jarbas Passarinho, líder do governo no Senado, condenou a “linguagem eminentemente marxista” que norteou o texto, além de demonstrar sua preocupação com o fato de a ala progressista da Igreja estar utilizando a CNBB para pregar o socialismo. Por ocasião da greve dos metalúrgicos das cidades do ABC paulista — Santo André, São Bernardo e São Caetano —, deflagrada no dia 1º de abril de 1980, foram intensas as acusações por parte do governo de que a Igreja e particularmente o cardeal- arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, estariam envolvidos com o movimento. Defendendo a mesma posição de outros eclesiásticos, o cardeal-arcebispo dom Aluísio Lorscheider declarou que dom Paulo Evaristo “não participou de greve, ele não infringiu nenhuma lei do país, ele apenas pediu que se ouvisse os operários e que se encontrasse uma fórmula para superar a crise”. Ademais, dom Aluísio considerava oportuna a atuação da Igreja em prol da justiça social. Afirmando, em nota à imprensa, que “a cada bispo em sua diocese cabia cumprir a tríplice e grave tarefa de ensinar e interpretar a verdade, presidir e promover a liturgia, discernir e coordenar as formas de presença e ação de sua Igreja particular” em nome do próprio Cristo, a CNBB esclarecia que cabia às igrejas locais de Santo André e São Paulo, em coerência com os princípiosde Puebla, “apoiar as justas aspirações dos trabalhadores e criar condições de concórdia social contribuindo para a atitude de dignidade e comedimento”. Dom Ivo chegou a ir a Brasília e encontrou-se com o chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, general Golberi do Couto e Silva, procurando levar a preocupação da CNBB com os acontecimentos — a essa altura, já havia 13 líderes sindicais presos — e com as críticas a ela endereçadas. Em encontro com o ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel, dom Ivo e dom Luciano criticaram a política social do governo e até mesmo sua ação policial. O ministro no entanto reagiu contra a tentativa da Igreja de exercer uma ação semelhante à de um partido de oposição. A reação contra os elementos mais progressistas do clero se manifestou através de pichações na sede da Ação Católica Operária em Pernambuco — onde funcionava o comitê de ajuda para o fundo de greve dos metalúrgicos paulistas — e na porta da casa de dom Hélder, no mesmo estado. Através de uma recomendação ao clero gaúcho para que não apoiasse a greve, dom Vicente Scherer condenou o movimento, no que foi cumprimentado por Teobaldo de Nigris, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. No mês de maio, dom Ivo afirmou que a CNBB não era um “tribunal de bispos”, sendo no entanto possível um posicionamento diferente entre eles no que se referia à estratégia de ação pastoral, mas nunca em relação aos pontos fundamentais. No mesmo mês, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) desafiou a CNBB através da divulgação das propriedades rurais da Igreja. Diante da acusação de que esta possuía milhares de hectares de terra ociosa em todo o país, dom Ivo pediu que o Ministério da Agricultura relacionasse as propriedades rurais da Igreja viáveis para a reforma agrária, reivindicando que, ao mesmo tempo, se procedesse à relação das propriedades improdutivas dos membros do governo e dos grandes empresários nacionais e estrangeiros, quantitativamente muito mais expressivas. Dom Ivo afirmou ainda que as terras da Igreja eram usadas para a sua sobrevivência, sendo essenciais para manter as paróquias, os colégios, os orfanatos e os seminários. Durante o mês de junho, foram intensos os depoimentos dos bispos acerca da importância da missão que o papa João Paulo II desempenharia no Brasil por ocasião de sua visita nos primeiros dias de julho. A imprensa noticiou fartamente as declarações dos vários setores da Igreja, conscientes da importância do acontecimento. A visita do papa foi ocasião de uma enorme mobilização popular em todo o país. Seus discursos e atitudes foram condicionados pelas diferentes pastorais das Igrejas locais, mas foi muito notado seu apoio a dom Paulo Evaristo Arns e a dom Hélder Câmara. Em discurso que proferiu à CNBB em Fortaleza em 10 de julho de 1980, João Paulo II declarou que não poderia “esquecer o caráter quase pioneiro desta Conferência”. E pouco antes indicava que “o episcopado de que fazeis parte assume um prestígio mas também uma responsabilidade que vão bem além das fronteiras de vossa diocese e da própria nação... responsabilidade perante a Igreja inteira”. E referiu-se “à imagem que vós, bispos brasileiros, projetais a toda a Igreja e no mundo inteiro: imagem de pobreza e simplicidade, de devotamente pleno, de proximidade ao vosso povo e plena inserção em sua vida e seus problemas”. No mês de agosto, dom Ivo protestou veementemente contra os atentados terroristas em curso no país, que incluíam desde a explosão de bancas de jornal que vendiam jornais da chamada imprensa alternativa, até o sequestro do advogado Dalmo Dallari, membro da Comissão de Justiça e Paz, no momento em que o papa se encontrava no país. Ainda no mesmo mês, foi bastante criticado por vários setores da sociedade e inclusive pela Igreja o recém- aprovado Estatuto dos Estrangeiros. Entre outras disposições, o estatuto delegava poderes ao governo para decidir sobre a entrada ou expulsão do país de missionários estrangeiros. A reação da Igreja contra o Estatuto dos Estrangeiros acentuou-se com o episódio de expulsão do padre italiano Vito Miracapillo, provocada por sua recusa em celebrar uma missa comemorativa do dia da independência do Brasil numa localidade da Zona da Mata pernambucana. O padre Miracapillo justificou sua atitude afirmando que não acreditava que o povo brasileiro fosse realmente independente. A expulsão teria assim um significado muito mais amplo, sentido por vários setores progressistas e moderados da Igreja como o de julgamento de sua ação pastoral. Tal fato provocou o aprofundamento da crise nas relações entre Igreja e Estado, dando lugar a uma série de conversações, nos últimos meses do ano, entre as autoridades governamentais e a cúpula da CNBB. Em abril de 1983, dom Ivo Lorscheiter e dom Luciano Mendes de Almeida foram reeleitos, respectivamente, presidente e secretário-geral da CNBB para mais um mandato de quatro anos, garantindo assim a manutenção da linha pastoral seguida pela Igreja no Brasil nos últimos 12 anos. Os limites da Igreja progressista No decorrer da década de 1980, a relativa autonomia do clero latino-americano para apresentar sua proposta de ação pastoral identificada com os pobres e excluídos e inspirada na teologia da libertação viu-se cada vez mais restringida por uma orientação centralizadora emanada do Vaticano. A experiência libertadora da Igreja Católica, envolvida com os problemas sociais e políticos do continente, encontrou assim um limite dentro da própria instituição. Da mesma forma que condenou a presença de religiosos no governo sandinista da Nicarágua, instalado naquele país após uma revolução armada liderada por guerrilheiros esquerdistas que derrubou o governo da família Somoza em julho de 1979, o Vaticano investiu contra o teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, um dos iniciadores da teologia da libertação, condenando sua obra por considerá-la resultado de um inadmissível recurso a pressupostos da teoria social de inclinação marxista. Enquanto isso, a linhagem progressista do clero brasileiro, que alcançara o predomínio na CNBB no momento em que a instituição decidiu enfrentar o regime militar e denunciar a violação dos direitos humanos praticada no país, começou a dividir espaços com representantes de outros segmentos da Igreja Católica, mais identificados com o neoconservadorismo que se projetava no pontificado de João Paulo II. Mesmo assim, houve um grande esforço por parte da CNBB para manter sua linha de ação pastoral, apesar das pressões da hierarquia romana, que investia decididamente contra as teses apregoadas pela Igreja latino-americana nos encontros de Medellín (1968) e de Puebla (1979). Exemplo disso foi a resistência da CNBB ao processo movido pelo Vaticano, a partir da condenação feita pela Comissão Episcopal de Doutrina da Arquidiocese do Rio de Janeiro, contra o livro do teólogo franciscano Leonardo Boff, Igreja: carisma e poder — ensaios de eclesiologia militante. Esse processo, como observam os analistas da história recente da Igreja Católica, não pode ser entendido como um fato isolado. Ao contrário, faria parte da conjuntura em que se inseriu a “Instrução sobre alguns aspectos da teologia da libertação”, de 6 de agosto de 1984. Apresentado à imprensa internacional pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger, prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé e o principal articulador da política disciplinadora que marcou a trajetória de João Paulo II nos anos 1880, esse documento apresentava uma visão geral das práticas eclesiais na América Latina e chamava a atenção para os desvios encontrados em “certas formas da teologia da libertação”, que estariam sacralizando a política e abusando da religiosidade popular em benefício de iniciativas revolucionárias. A defesa de Leonardo Boff, feita em primeiro lugar pelo presidente da Comissão Episcopal de Doutrina da CNBB, dom Aluísio Lorscheider, partiu da argumentação de que em nenhum momento o Vaticano havia dado direito de resposta ao réu, nemrespeitado o princípio da subsidiariedade, intervindo na questão antes que fossem esgotados todos os esforços da Igreja brasileira. Essa insatisfação foi apresentada ao papa João Paulo II, que autorizou um colóquio em Roma, no dia 7 de setembro de 1984, a fim de que o teólogo brasileiro pudesse ser ouvido perante os representantes da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, sob a presidência do cardeal Ratzinger. Em 11 de março de 1985, uma notificação da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé apresentou os resultados do colóquio e deixou claro que a questão ainda se encontrava em aberto para o Vaticano. Em 25 de abril, Leonardo Boff sofreu punições disciplinares, que consistiram em um período de “obsequioso silêncio” para que tivesse tempo de refletir sobre seus escritos teológicos. A medida causou protestos em todo o Brasil, em especial entre os católicos que militavam nas comunidade eclesiais de base, que escreveram milhares de cartas em solidariedade ao religioso. A Comissão de Justiça e Paz de Olinda e Recife caminhou na mesma direção e apresentou um manifesto comparando o desenvolvimento da ação movida contra Leonardo Boff aos métodos utilizados nos inquéritos policiais militares durante o regime militar de 1964. Lamentou ainda que a Igreja romana estivesse “punindo em frei Boff a Igreja pobre e solidária. A Igreja descalça que enterrou os pés na lama das favelas. A Igreja despojada que entrou nas fábricas para defender os operários”. Na tentativa de reverter a decisão tomada pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, o presidente da CNBB, dom Ivo Lorscheiter, viajou para Roma e em 11 de junho de 1985 obteve um encontro reservado com o papa João Paulo II. O diálogo não teve nenhum resultado no sentido da absolvição do teólogo franciscano, tendo João Paulo II afirmado na ocasião não poder aceitar que bispos e arcebispos brasileiros pudessem questionar a decisão anunciada pelo Vaticano, numa referência ao manifesto encabeçado pelo arcebispo de Goiânia, dom Fernando Gomes, contra a condenação de Leonardo Boff. No entanto, por decisão da própria Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, três representantes da presidência da CNBB, acompanhados de cinco membros da Comissão Episcopal de Doutrina, estiveram em Roma no mês seguinte e foram recebidos pelo papa, pelo cardeal Joseph Ratzinger e pelo cardeal Bernardin Gantin, prefeito da Congregação dos Bispos. Nesse encontro, o Vaticano voltou atrás e reconheceu o direito da Igreja brasileira de decidir soberanamente acerca de seus problemas doutrinais, quebrando a política que excluía a CNBB do controle sobre essas questões. Mesmo assim, as relações entre a Igreja brasileira e a Santa Sé ainda prosseguiriam tensas. Em janeiro de 1986, o cardeal Joseph Ratzinger obrigou a Editora Vozes a suspender a publicação da série Teologia e Libertação, composta de 54 volumes com os mais expressivos trabalhos de teólogos latino-americanos e voltada especialmente para a formação e orientação de agentes pastorais. Somente em março de 1986, durante uma conferência de cúpula extraordinária realizada em Roma, os bispos brasileiros tiveram a oportunidade de apresentar a sua defesa da teologia da libertação de uma forma mais ampla. Nesse encontro, que marcou a abertura de um diálogo acerca dos erros e acertos da Igreja brasileira nos últimos 20 anos, estiveram presentes os representantes de todas as tendências do clero nacional, evidenciando-se entretanto o contraste entre uma maioria progressista e uma minoria conservadora, liderada por dom Eugênio Sales, arcebispo do Rio de Janeiro, e dom Lucas Moreira Neves, secretário-geral da Congregação dos Bispos. Essa correlação de forças favorável aos progressistas contribuiu, em grande medida, para que após o encontro João Paulo II tomasse uma atitude mais liberal e tornasse conhecido um documento revisionista acerca da teologia da libertação, a Instrução sobre a liberdade cristã e a libertação. Nesse documento, João Paulo II reconhecia a importância dos trabalhos realizados pelos teólogos da libertação no contexto histórico da América Latina, mas estabelecia, por outro lado, uma determinada leitura da teologia da libertação que deveria ser seguida dali em diante como sua versão oficial. A instrução rompia com a vocação política da teologia da libertação, que evocava os pobres como o “povo de Deus”, e fazia da luta contra a exploração econômica e os demais “pecados sociais” a essência de sua atividade pastoral. Sendo assim, é de se notar que uma das expressões mais utilizadas pelos teólogos da libertação — “a opção preferencial pelos pobres” — passava a ser entendida não apenas como a opção por aqueles que possuem as piores condições materiais de existência, mas também como a luta contra a falta de espiritualidade na vida cotidiana. O desfecho da crise entre a CNBB e o Vaticano teve início durante a Páscoa de 1986. Nessa data, foi suspenso o “silêncio penitencial” imposto a Leonardo Boff. Na semana seguinte, João Paulo II enviou uma mensagem à CNBB exaltando a sua prática pastoral com as seguintes palavras: “Na medida em que se empenha por encontrar aquelas respostas justas — penetradas de compreensão para com a rica experiência da Igreja neste país, tão eficazes e construtivas quanto possível e ao mesmo tempo consoantes e coerentes com os ensinamentos do Evangelho, da tradição viva e do perene magistério da Igreja — estamos convencidos, nós e os senhores, de que a Teologia da Libertação é não só oportuna, mas útil e necessária.” Essa mensagem foi lida por dom Ivo Lorscheiter durante a XXIV Assembleia Geral da CNBB, realizada entre 9 e 18 de abril de 1986. Para a maioria dos presentes, o texto de João Paulo II foi um sinal definitivo de que o Vaticano havia retirado toda a suspeita de heresia ou de desvio da ortodoxia religiosa por parte da Igreja brasileira. Mesmo superando em grande parte as objeções mantidas pelo Vaticano, a presença da Igreja progressista na CNBB viu-se diminuída no momento em que se encerrava o regime militar. Segundo Scott Mainwaring, “a volta à democracia diminuía o incentivo que muitos bispos tinham em se envolver com a política”. Na prática, isso significou a quebra da unidade existente na CNBB em torno de sua participação como representante legítima dos anseios da sociedade civil, até então sufocados pelo autoritarismo. Nesse momento, ainda de acordo com Mainwaring, reduziu-se o apoio oferecido pelos bispos liberais às teses defendidas pela direção progressista da CNBB, que passou a contar apenas com o respaldo daqueles mais identificados com a chamada Igreja popular em sua crítica aos problemas socioeconômicos da democracia representativa. O líder conservador dom Eugênio Sales assim definiu a nova situação em que a Igreja brasileira se encontrava no momento da transição para a democracia: “A Igreja teve um papel muito ativo no momento em que o Brasil se tornava uma sociedade fechada. Ela era ‘a voz daqueles que não tinham voz’. Hoje, o parlamento, a imprensa e os partidos estão em total funcionamento. Eles deveriam falar e a Igreja deveria se ocupar de seus próprios assuntos.” A CNBB e a redemocratização A posse de dom Luciano Mendes de Almeida na presidência da CNBB, em abril de 1987, interrompeu um ciclo de 15 anos em que se sucederam no cargo representantes dos setores mais progressistas da Igreja. Embora não estivesse disposto a abrir mão do passado de reivindicações políticas e sociais que marcara a história recente da CNBB e se mostrasse comprometido com a prática da “evangelização libertadora”, dom Luciano não era o candidato preferido de seu antecessor, dom Ivo Lorscheiter, que o considerava “místico demais” para exercer o cargo. Mesmo assim, sua eleição — que contou com o apoio das bases da Igreja e com o voto de figuras preeminentes do clero progressista, como dom Pedro Casaldáliga — foi considerada uma vitória sobre os segmentos conservadores da Igreja, que escolheram como candidato o arcebispo de Belo Horizonte, dom Serafim Fernandes de Araújo. Duranteo mandato de dom Luciano Mendes a atuação política da CNBB não foi restringida, tendo-se manifestado sobretudo no decorrer dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988. As principais exigências políticas feitas pela CNBB durante a preparação da nova Constituição já haviam sido definidas em seu encontro anual de 1986. Daí resultara o documento Por uma nova ordem constitucional, que destacava a posição assumida pela Igreja Católica a favor da criação de instrumentos que permitissem a participação popular como forma de garantir a legitimidade do ordenamento jurídico que seria entregue à nação. Nessa conjuntura, a CNBB criou uma equipe executiva coordenada por dom Cândido Padim, bispo de Bauru (SP), para acompanhar o andamento dos trabalhos constituintes e manter informada a opinião pública. Com esse objetivo foi produzido o programa de rádio Café da manhã Constituinte, que consistia numa entrevista diária de cerca de 15 minutos com um parlamentar para a Rádio Medianeira, da cidade de Santa Maria (RS). Nesse programa cada entrevistado tratava da matéria que estava em debate naquele momento e do que esperava da participação popular a respeito. A entrevista era enviada através de um texto-telex para os demais pontos do país, chegando a atingir a marca de trezentas transmissões por dia. Outro veículo de divulgação utilizado pela CNBB foram os encartes de seu Boletim de Notícias, com 5.500 assinantes. A elaboração de emendas populares foi o principal instrumento utilizado pela CNBB na tentativa de inserir as suas propostas no texto constitucional. Essas emendas, que para serem colocadas em pauta necessitavam da assinatura de no mínimo 30 mil eleitores e do apoio de três associações representativas da sociedade civil, foram utilizadas pela CNBB para tratar de temas como família, aborto, educação, liberdade religiosa, demarcação de terras indígenas e reforma agrária. Em agosto de 1987, foi publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo uma série de reportagens sobre a participação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), órgão ligado à CNBB, em um movimento internacional a favor do reconhecimento da soberania dos povos indígenas, dando margem à criação de um “Estado pluriétnico” no Brasil. A maneira pela qual a notícia foi divulgada colocou a conferência episcopal como integrante de uma ação contrária aos interesses brasileiros, do momento em que esta defendia a proibição da exploração de riquezas minerais existentes nas terras das comunidades indígenas. Em virtude desses acontecimentos, dom Luciano Mendes de Almeida propôs a instalação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar as razões que levaram à publicação da matéria. Refutando as acusações de que a CNBB defendia a tese da “soberania restrita” sobre as terras indígenas, dom Luciano afirmou ser favorável ao monopólio da União sobre essas regiões, que em sua opinião só deveriam ser exploradas pelo Estado, no momento exigido pelos interesses nacionais, sem a interferência dos grupos econômicos que pressionavam por sua liberação imediata. Pouco antes do encerramento dos trabalhos constituintes, o conselho permanente da CNBB reuniu-se, entre 23 e 26 de agosto de 1988, para avaliar seus resultados. Nesse encontro foi preparado o documento Texto constitucional: valores e expectativas, em que a conferência episcopal exaltou como as maiores virtudes da nova Carta a participação da sociedade em sua elaboração, a afirmação dos ideais de cidadania e o repúdio à tortura e ao racismo. Por outro lado, o documento destacou como pontos negativos a definição de “entidade familiar” para os relacionamentos estáveis entre homens e mulheres, o não-reconhecimento do direito à vida desde a concepção e a omissão acerca da criação de mecanismos que acelerassem o processo de reforma agrária. Após a promulgação da nova Constituição, em 5 de outubro de 1988, o processo de redemocratização da sociedade brasileira seria complementado, um ano mais tarde, com a primeira eleição direta para presidente da República realizada no país depois de um intervalo de 29 anos. Nesse momento, os representantes da Igreja Católica se dividiram entre os principais candidatos. O clero progressista, com o apoio das CEBs e das pastorais sociais, engajou-se na campanha de Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), acreditando haver uma coincidência entre a utopia socialista e os ideais da Igreja. Enquanto isso, conservadores e moderados apoiavam, com muito mais discrição, Fernando Collor de Melo ou Mário Covas. A cúpula da CNBB, no entanto, não se manifestou por nenhum dos postulantes ao governo da República, buscando uma posição suprapartidária e a favor da liberdade eleitoral. Em seus pronunciamentos, limitou-se a traçar o perfil do candidato ideal como aquele que possuísse “uma vida séria e honesta, competência administrativa e profissional” e, além disso, fosse “contra o aborto e a favor da reforma agrária”. A radicalização política do segundo turno das eleições presidenciais de 1989 dividiu os vários setores da Igreja em relação aos dois candidatos — Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Melo — que disputariam as eleições de 17 de dezembro. A possibilidade de uma vitória da esquerda, coligada em torno de Lula na Frente Brasil Popular, levou o clero conservador a mover-se no sentido de uma intervenção mais direta no processo eleitoral. Conforme observou Zélia Seiblitz, o grupo liderado pelo arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales, apoiou Fernando Collor, “em uma verdadeira cruzada da civilização cristã contra o comunismo”. Diante desse quadro, o presidente da CNBB, dom Luciano Mendes de Almeida, procurou evitar que o conflito afastasse cada vez mais os diferentes segmentos de sua instituição. Em declaração ao Jornal do Brasil de 2 de dezembro de 1989, afirmou que “a unidade da Igreja não se expressa pela coincidência partidária mas pela seriedade no esforço de escolher de modo livre e consciente o próprio candidato, de respeitar a opção feita pelos outros e de zelar pelo processo eleitoral”. Após a eleição de Fernando Collor, a CNBB clamou por uma pacificação nos ânimos políticos, para que se evitasse qualquer atitude de ressentimento que levasse a uma oposição sistemática ao novo presidente. Como decorrência dos efeitos recessivos do plano de combate à inflação apresentado pela ministra da Economia Zélia Cardoso de Melo logo após a posse de Collor, em março de 1990, entretanto, a conferência episcopal criticou a política econômica do governo, que em nome da estabilidade da moeda estaria provocando o achatamento dos salários e aumentando o número de desempregados. No entendimento da CNBB, a “existência de milhares de empobrecidos” seria “a negação radical da ordem democrática”, o que significava que, de acordo com o seu ponto de vista, a intervenção do governo Collor no terreno econômico entrava em conflito com os princípios éticos cristãos. Em março de 1992, em virtude do acúmulo de denúncias sobre corrupção no governo Collor apresentadas pela imprensa, a CNBB iniciou uma campanha contra a impunidade para os chamados “crimes do colarinho branco”. Nos meses seguintes, após a publicação pela revista Veja (23/5/1992) de entrevista com o irmão do presidente, Pedro Collor, em que foi denunciado um esquema de corrupção e tráfico de influência montado no interior do governo sob a liderança do ex-tesoureiro da campanha presidencial Paulo César Farias, que estaria contando com a conivência de Fernando Collor, a CNBB destacou-se como uma das mais importantes entidades envolvidas na criação, em agosto de 1992, do Movimento Cívico contra a Impunidade e pela Ética na Política. Esse movimento, que contou também com a participação de outras associações civis, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), seria responsável por uma série de manifestações a favor do impeachment que se espalharam pelas principais capitais do país, e pelo pedidoformal de afastamento do presidente Collor, entregue pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho. No ano de 1992, a história da CNBB também seria marcada pelas repercussões da IV Conferência do Episcopado Latino- Americano (Celam), realizada em São Domingo entre 12 e 28 de outubro. Convocada por João Paulo II, a conferência se propôs a discutir a presença da Igreja Católica no continente americano quinhentos anos após a sua descoberta, bem como a linha de evangelização a ser praticada em toda a América Latina na virada para o terceiro milênio. O interesse político do Vaticano nesse evento manifestou-se na tentativa de inserir a questão do relacionamento entre as culturas no centro das reflexões teológicas, lugar até então ocupado pelas questões econômicas e políticas que orientavam a teologia da libertação. Essa reordenação não se completou por inteiro, em virtude da resistência do clero progressista, que fez com que o texto final do encontro previsse a “promoção humana” ao lado da chamada “inculturação” como meta da chamada “nova evangelização”. Por outro lado, promoveu-se uma redução do poder desse grupo na orientação da atividade pastoral, marcando uma descontinuidade em relação à linha traçada nos encontros de Medellín e Puebla. No primeiro ano do governo Itamar Franco a CNBB reuniu-se no seu 31º encontro anual, realizado em maio de 1993. Na ocasião preparou o documento Ética: pessoa e sociedade, no qual mais uma vez expôs suas preocupações com os assuntos relativos à moralidade pública. No esforço para oferecer uma resposta ao que os religiosos chamavam de “crise ética”, o texto representou uma tentativa de superação do mal-estar que se havia instalado na cena política brasileira após os escândalos de corrupção que marcaram o fim do governo Collor. Além de discutir sobre a necessidade dos valores éticos no fortalecimento da ordem democrática, o encontro criticou o “individualismo exacerbado” presente nas ideias neoliberais, considerado inaceitável para a Igreja, dado que estaria pronto para corroer todo e qualquer sentido de fraternidade e solidariedade existentes nas relações humanas. O documento condenou a revisão constitucional ampla, que segundo a CNBB traria “um retrocesso em relação aos direitos previstos na Constituição de 1988”, considerando-a inoportuna em face da pouca representatividade do Congresso Nacional no último ano da legislatura. O encontro nacional dos bispos propôs uma consulta ao Supremo Tribunal Federal (STF) para definir a amplitude das alterações constitucionais, no limite das necessidades colocadas pela vitória do presidencialismo no plebiscito de 21 de abril de 1993. Nesse encontro, a CNBB também criticou a “deterioração da mídia em geral e dos programas de televisão em particular”. Pediu a criação de um conselho de comunicação social, conforme determinava a Constituição de 1988, para ampliar a participação e o controle da sociedade sobre as atividades das empresas que atuam no setor. Atacou ainda os projetos de lei que tratavam da liberalização do aborto, classificando o ato como um “um gravíssimo pecado cometido contra a pessoa humana”. As eleições de 1994 e o governo Fernando Henrique Cardoso No decorrer da campanha presidencial de 1994, a CNBB se viu dividida entre o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva, e o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Fernando Henrique Cardoso. Essa divisão refletia sua própria política interna, marcada pela disputa entre progressistas e conservadores. Na cartilha Eleições 94: voto responsável, preparada durante o seu 32º encontro anual, “neoliberalismo”, “capitalismo organizado” e “democracia popular” foram apresentados como as principais propostas à disposição do eleitorado naquele momento. O candidato ideal para ocupar a presidência da República, segundo o documento, seria aquele identificado com “a pessoa humana como valor central da sociedade” e favorável a que “o povo se transforme em protagonista das mudanças que se fazem necessárias ao país”. Durante o 32º encontro anual da CNBB, o padre José Ernâni Pinheiro, responsável pelo setor de leigos, apresentou um documento criticando as políticas neoliberais e o que considerava a ambiguidade entre o discurso do Estado mínimo e a realidade do país, que deveria servir de base ao posicionamento oficial da conferência sobre as eleições. O texto desse documento, que espelhava as posições da ala progressista da Igreja, foi contundente ao dizer que: “As mesmas lideranças que sugaram o Estado estão hoje em defesa das privatizações sem critérios, pressionadas pelas exigências da nova ordem internacional e seus porta-vozes — o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).” A declaração oficial da CNBB limitou-se, entretanto, a orientar os católicos a darem seu voto àqueles candidatos que tivessem uma postura ética considerável, não se deixando envolver pela manipulação eleitoral dos meios de comunicação e pelo abuso do poder econômico. Em relação à aliança entre o PSDB e o Partido da Frente Liberal (PFL), para a sustentação da candidatura de Fernando Henrique Cardoso à presidência da República, o presidente da CNBB, dom Luciano Mendes de Almeida, declarou publicamente que, como cidadão, a considerava estranha. Essa opinião, manifestada a título pessoal durante o 32º encontro anual da CNBB, se justificava segundo o religioso porque “até então as posições defendidas pelos dois partidos não coincidem”. Em abril de 1995, a confirmação do nome do arcebispo de Salvador, dom Lucas Moreira Neves, para a presidência da CNBB — após ter derrotado o candidato progressista dom Jaime Chemello — trouxe a influência conservadora para o comando da conferência episcopal. Tendo sido assessor do papa João Paulo II, dom Lucas estava plenamente de acordo com a política de enquadramento promovida pelo Vaticano contra os excessos da teologia da libertação. Mesmo assim, o peso do clero progressista não diminuiu inteiramente, uma vez que seus representantes conseguiram eleger oito dos nove nomes que passaram a compor a Comissão Episcopal Pastoral (CEP), considerada o “ministério” da CNBB, cuja função é coordenar a execução das deliberações da assembleia-geral. No primeiro ano do governo Fernando Henrique Cardoso, logo após a eleição de dom Lucas para a presidência, a CNBB iria demonstrar que ainda carregava uma forte influência dos setores progressistas do clero, abrindo a Campanha da Fraternidade de 1995 com o tema dos excluídos. O texto-base da campanha procurou identificar as “causas mais profundas da exclusão social que predomina na sociedade brasileira”, apontando como seus fatores principais a cultura do consumismo e o modelo de desenvolvimento voltado apenas para uma pequena parcela da população. Neste documento a CNBB criticou as propostas neoliberais esboçadas pelo presidente da República, afirmando que estas não demonstravam a menor sensibilidade social e levariam ao aprofundamento da concentração de renda, terra e poder. No ano seguinte, a Campanha da Fraternidade iria caminhar em um sentido igualmente crítico, ao estabelecer como tema a importância da participação política entre os cristãos. Na sua cartilha de divulgação afirmava-se que “o objeto da atual disputa política” envolvia a concorrência entre dois modelos diferentes de sociedade. Um que, beneficiando apenas os já integrados na sociedade de consumo, estava decidido a acelerar a entrada do Brasil no mundo da globalização — o que significaria a remoção de todos os entraves à livre entrada e saída de capitais no país e o enfraquecimento das relações de trabalho em benefício do capital —, e outro que, beneficiando a maioria da população, buscava um projeto de desenvolvimento econômico nacionalmente sustentado — o que significaria a execução de reformas destinadas a promover uma maior distribuição de riqueza, fortalecer o mercado interno e gerar empregos. Rebatendo as críticas de que esse posicionamento da CNBB representaria uma visão de esquerda em relação à política econômica do governo, domLucas Moreira Neves preferiu não atacar a ala progressista, envolvida na redação do documento, defendendo a sua instituição ao afirmar que o texto da Campanha da Fraternidade de 1996 estaria acima de qualquer dicotomia política, espelhando apenas a doutrina social da Igreja. No 35º Encontro Nacional da CNBB, ocorrido em abril de 1997, seria apresentado um novo documento contendo críticas ao governo Fernando Henrique Cardoso, em especial ao processo que levou à aprovação da emenda constitucional que abriu a possibilidade da reeleição para os cargos executivos, por considerá- lo “uma prática evidente de corrupção ativa por parte do governo, que oferece bens em troca de votos”. Após a divulgação desse documento, a assessoria de imprensa da Presidência da República divulgou nota oficial criticando a postura da Igreja, que teria agido de “maneira desabonadora com o Congresso e insultuosa em relação ao governo”. Os representantes da CNBB buscaram amenizar a situação, afirmando que o texto em questão não era um pronunciamento oficial da instituição, mas um documento de trabalho elaborado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (Ibrades) para servir de subsídio às discussões a serem travadas no seu encontro anual. Pouco depois, a conferência episcopal lançou um documento contendo sua palavra oficial, no qual criticou a política econômica do governo sem entrar em detalhes quanto aos seus aspectos éticos. Em julho de 1998, dom Lucas Moreira Neves deixou a presidência da CNBB para ocupar o cargo de prefeito da Congregação dos Bispos no Vaticano. Seu substituto seria o bispo de Pelotas, dom Jaime Chemello, candidato derrotado na eleição anterior, quando foi apoiado pelos setores progressistas da Igreja. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE XVIII 1. PAPA FRANCISCO. Francisco é o 266º papa da história da Igreja Católica. Nascido em Buenos Aires, capital da Argentina, em 17 de dezembro de 1936, Jorge Mario Bergoglio estudou Farmácia em sua adolescência antes de despertar sua vocação para a vida religiosa. Cursou o seminário em Villa Devoto e entrou para a Companhia de Jesus aos 19 anos de idade. Estudou Teologia e Filosofia na Universidade de San Miguel simultaneamente à sua ordenação como padre. Jorge Mario Bergoglio dividiu seu tempo entre vida religiosa e acadêmica. Foi reitor da Faculdade de San Miguel por seis anos e recebeu o título de Doutor na Alemanha. Em 1992, foi nomeado bispo. Em 1997, foi elevado a arcebispo e passou a chefiar a arquidiocese de Buenos Aires. Seu trabalho foi reconhecido pelo Papa João Paulo II que o nomeou cardeal em 2001. O Cardeal Jorge Mario Bergoglio foi membro da Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos, membro da Congregação para o Clero e da Congregação para os Institutos da Vida Consagrada e das Sociedades da Vida Apostólica e foi membro também do Conselho Pontifício para a Família e da Comissão Pontifícia para a América Latina. A atuação religiosa de Jorge Mario Bergoglio em sua terra natal caracterizou-se por posicionamentos conservadores e radicais. Durante a ditadura militar argentina, a Igreja Católica foi criticada por não fazer oposição ao regime autoritário e não se manifestar sobre os sequestros e desaparecimentos de adversários políticos. Jorge Mario Bergoglio é processado desde 2005 pelo suposto envolvimento com o sequestro de dois missionários jesuítas e de uma criança em 1976. Mais tarde, durante o governo dos Kirchner, Bergoglio chegou a ser considerado o principal opositor. Em função das desavenças, ele e Nestor romperam definitivamente. Cristina Kirchner, por sua vez, tentou uma aproximação quando o marido faleceu, mas houve um grande desentendimento com Bergoglio em 2010, quando a Argentina se tornou o primeiro país da América Latina a legalizar o casamento entre homossexuais. Na ocasião, o cardeal declarou que a medida era um ataque destrutivo aos planos de Deus e que a adoção de crianças por casais homossexuais era uma maneira de discriminá-las. A presidente Cristina Kirchner retrucou dizendo que as lideranças religiosas ainda vivem na Idade Média. Jorge Mario Bergoglio é considerado um conservador ortodoxo em assuntos como aborto, sexualidade, casamento homossexual e uso de métodos contraceptivos. Por outro lado, é um intenso defensor de ajuda aos pobres e costuma apoiar programas sociais e contestar políticas de livre mercado. Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa pelo conclave no dia 13 de março de 2013 para ser o sucessor do Papa Bento XVI, que renunciou ao cargo no dia 28 de fevereiro. O cardeal argentino já era cotado para assumir o papado em 2005, no conclave que elegeu o cardeal Joseph Ratzinger, mas sua posse foi prorrogada. Em 2013, ele se tornou o primeiro papa latino-americano da história da Igreja Católica, assumindo o nome de Papa Francisco (será chamado de Francisco I apenas quando existir Francisco II, segundo o Vaticano). O Papa Francisco assume a Igreja Católica em meio a muitos escândalos de pedofilia e de administração do Vaticano. Seu maior desafio é reverter a queda no número de fieis ao catolicismo. O novo papa é natural do continente com maior número de católicos no mundo, que, no entanto, já registra também uma diminuição acentuada no número de fieis. Parece, contudo, que o Papa Francisco não oferecerá nenhuma mudança em relação às posturas mais conservadoras da Igreja Católica, motivo pelo qual alguns críticos a consideram uma instituição ultrapassada. Mas a devoção que apresenta por São Francisco de Assis deixa a esperança de que atue mais efetivamente no combate a pobreza. 2. A escolha do nome de pontificado. Cardeal Jorge Mario Bergoglio foi o primeiro Papa a escolher o nome Francisco por causa de São Francisco de Assis. O ano de 2013 foi dos Franciscos: do Papa e das crianças que receberam o nome em homenagem a ele. Somente no Estado de São Paulo, 30% das crianças registradas de março a dezembro receberam este nome. Francesco Sávio Vanderlei de Oliveira tem 10 meses e recebeu o primeiro nome em homenagem ao Pontífice argentino. A ideia foi do pai do garoto, Frederico Henrique de Oliveira, que estava na Praça São Pedro, no momento do Habemus Papam. A esposa, Edilma Oliveira, estava grávida de 8 meses. “Quando ele foi eleito, apareceu aos milhares de fiéis e falou com muita simplicidade, principalmente quando pediu que o povo rezasse por ele. Aquela foi uma experiência muito forte para mim. Eu fui às lágrimas, ali, na Praça de São Pedro, e me perguntava: que homem é esse?”, conta Frederico. Já para o Papa, a escolha foi para homenagear o Santo de Assis, e a decisão precisou ser quase imediata. O Cardeal Bergoglio teve apenas alguns minutos, após o fim da contagem dos votos dos cardeais, para escolher seu nome de pontificado. Ele mesmo conta como escolheu o nome ao receber uma “dica” de um amigo do Colégio Cardinalício. O cardeal brasileiro, Dom Cláudio Hummes, que estava sentado ao lado de Bergoglio durante o Conclave, ao perceber que as votações já haviam atingido os 2/3 necessários para eleger o Papa, cumprimentou-o. “Ele abraçou-me, beijou-me e disseme: ‘Não te esqueças dos pobres!’. E aquela palavra gravou sê-me na cabeça: os pobres, os pobres. Logo depois, associando com os pobres, pensei em Francisco de Assis. Em seguida, pensei nas guerras, enquanto continuava o escrutínio até contar todos os votos. Francisco é o homem da paz. E assim surgiu o nome no meu coração: Francisco de Assis”, contou o Papa na primeira audiência que teve com os jornalistas. O Santo Padre brinca ainda com as sugestões recebidas dos colegas cardeais. “Mas tu deverias chamar-te Adriano, porque Adriano VI foi o reformador, e é preciso reformar. Outro me disse: ‘Não! O teu nome deveria ser Clemente’. ‘Mas por quê?’. ‘Clemente XV! Assim, vingavas-te de Clemente XIV que suprimiu a Companhia de Jesus!’. São brincadeiras”, disse Francisco. Em um dos programas da TV Canção Nova, Dom Cláudio Hummes comentou o grande dom para Igreja que é o pontificado de Francisco. Destacouque a escolha do nome é um programa de vida, um programa de Igreja. Dom Hummes falou ainda que a experiência do Cardeal Bergoglio, em Buenos Aires, na Argentina, foi uma preparação para seu pontificado. Nome de pontificado O especialista em informação religiosa, Andrea Gagliarducci, conta que a escolha de Bergoglio tem como pano de fundo a devoção do próprio fundador dos jesuítas, ordem à qual pertence o Papa. Segundo a história, Inácio de Loyola tinha Francisco de Assis como modelo de vida e até desejou imitar o santo. “Tanto é que, no início, Inácio quis assumir a pobreza absoluta dos franciscanos, uma ideia que, mais tarde, tomou outros rumos, pois o objetivo da Companhia de Jesus era diferente da ordem franciscana”, explica Andrea. De acordo com o especialista, não há um motivo específico para que, até hoje, não tenha sido escolhido por nenhum Pontífice o nome Francisco, uma vez que o santo é tão querido e famoso em todo o mundo. “De modo geral, escolhia-se um nome com base na devoção, porém, com o tempo, os Papas começaram a escolher o nome com base em um programa de pontificado”, explica Andrea, reafirmando a opção do cardeal argentino. “Para mim, é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e preserva a criação; neste tempo, também a nossa relação com a criação não é muito boa, pois não? [Francisco] é o homem que nos dá este espírito de paz, o homem pobre… Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!”, conclui o Pontífice apontando de que modo irá caminhar. Na história da Igreja, a escolha de um novo nome para o Papa teve início no século VI com a eleição de Mercúrio como Pontífice. O nome, por lembrar um deus pagão, não era adequado a um Papa, surgiu, então, a ideia de mudar o nome dele para João. A partir daí, não como uma regra, os Papas começaram a optar pela mudança. Os mais utilizados foram João, Clemente e Pio. Curiosamente, o nome Pedro, do primeiro apóstolo, nunca foi escolhido, segundo o especialista, em respeito à grandeza do primeiro Papa. HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. PARTE XIX História da RCC nas origens Renovação Carismática surge da dimensão carismática da Igreja o que significa dizer que ele é um sopro do Espírito, ninguém planejou criar a RCC, ninguém desejou senão o próprio Espírito Santo. “A Renovação é uma oportunidade para toda a Igreja” (Paulo VI, 1973). A melhor maneira de falar de alguma coisa é dizer o que ela não é para evitar os equívocos. Sendo assim, para falar o que é a Renovação Carismática, talvez seja melhor começar falando o que ela NÃO é: Não é um movimento da Igreja que possa ser colocado ao lado dos outros movimentos (C.Suenens). Essa compreensão é unânime em todos aqueles que viveram esta experiência em seus primórdios e ainda hoje, com várias exceções. Ela não tem um fundador único ou um grupo de fundadores. Não tem um coordenador com poder de governo, mas de comunhão. Não tem lista de membros; Abriga uma grande variedade de indivíduos, grupos e atividades: comunidades de vida e aliança, grupo de oração, grupo de partilha, ministérios, paróquias renovadas. A Renovação é uma corrente de graça para toda a Igreja Católica, não é um movimento da Igreja, mas a própria Igreja em movimento (Suenens). A RCC surge do desejo do próprio Senhor Jesus que desde o final do século XIX vem inspirando os seus filhos. No ano de 1895 uma freirinha italiana, chamada Elena Guerra, vinha recebendo revelações de que Deus queria que a experiência do Espírito Santo voltasse a ser plena na Igreja. Ela escreveu várias cartas ao Papa Leão XIII, pedindo pela pregação permanente do Espírito Santo. Atendendo ao apelo de Deus através da freira o Papa Leão XIII publicou duas encíclicas incentivando uma maior devoção e abertura ao Espírito de Deus, porém os católicos não se deixaram tocar por essa mensagem. Em primeiro de Janeiro de 1901 (01/01/1901), o Papa Leão XIII faz a seguinte oração: “Veni, Creator Spiritus”, era uma profecia para o século que se iniciava. Porém o Espírito sopra onde quer e se dá aqueles que o desejam e o buscam. Diante de resistências dos cristãos católicos, pois a experiência católica ainda era muito conservadora, quem se abre a esta renovação são os irmãos de outras denominações cristãs. Nas igrejas evangélicas são vários os relatos de experiências de batismo no Espírito Santo. No ano de 1961 ocorre um fato transformador na Igreja, o Papa Alegre: João XXIII, convoca o Concílio Vaticano II, que renova toda a Igreja: a Missa passa a ser em língua local, não mais em latim; a Bíblia é estimulada para que todos a leiam e a possuam; os leigos adquirem maior espaço de participação e comunhão. A oração inicial que abre o Concílio, feita pelo próprio Papa foi: “renovai Senhor, nos dias de hoje as mesmas graças abundantes de pentecostes”. Durante o Concílio realizam-se diversos debates sobre a ação do Espírito Santo. Alguns Cardeais diziam que não viam necessidade desse debate, pois o que aconteceu naquele tempo era só para aquele primeiro momento do cristianismo, mas outros Cardeais, em especial o Cardeal Leon Suenens insistiu no debate e foi o grande defensor do Espírito Santo durante o concílio. O Concílio terminou no ano de 1965. Nos primeiros anos da década de 60 membros do movimento Cursilho de Cristandade começaram a experimentar coisas diferentes e estranhas, carismas, houve até quem orasse em línguas, algo inédito. Deste movimento duas pessoas se destacam, no sentido de que serão referências dentro da Renovação Carismática, são eles: Ralph Martin e Steve Clark. Eles leram dois livros de pastores evangélicos: A cruz e o punhal e eles falam outras línguas. Estes livros relatavam a experiência do pastor David Wilkerson com jovens viciados. Dois professores da Universidade de Duquesne, que também eram do cursilho e conheciam Ralph e Steve, também começaram a ler os livros do pastor Wilkerson. Estes dois professores perceberam que o Senhor os estava chamando para uma realidade fascinante e histórica, só não sabiam do que se tratava. Resolveram buscar conhecer e conversar com pessoas que viviam a experiência do Batismo no Espírito e os Carismas. Tomaram conhecimento de um grupo de mulheres de várias denominações evangélicas que se reuniam semanalmente para orarem e vivenciarem os carismas. Foram atrás do tal grupo, que era coordenado por uma santa e alegre senhora chamada de Flo. O senhor havia revelado ao grupo de mulheres, quando souberam da visita dos homens católicos, que elas se preparassem, jejuassem e orassem, pois algo grandioso Ele iria realizar a partir daquele encontro. A reunião transcorreu normalmente, no final quando Flo já ia terminar a oração um dos professores católicos levantou-se rapidamente, chegou junto à irmã Flo e disse: “Ó, não faça isso. Eu venho esperando há muito tempo por essa ocasião. Eu vim para receber o Batismo no Espírito Santo e não sairei daqui até que o tenha”. Elas deram-se as mãos e começaram a orar por aqueles irmãos católicos, e relatam que podiam sentir o Espírito Santo descendo sobre eles, era uma energia tão forte que cada um que ali estava recebeu uma partícula de Deus. Um mês após este encontro no grupo de Flo, uma sociedade de amigos da Universidade de Duquesne, da qual participavam os professores católicos e Ralph e Steve, faria um retiro que realizavam todos os anos naquele período. O tema do retiro para aquele ano era: O Sermão da Montanha. Mas nos últimos dias os professores mudaram o tema do retiro para: Os Atos dos Apóstolos. No primeiro dia do retiro, que aconteceu nos dias 17 a 19 de Fevereiro de 1967, eles leram os quatro primeiros capítulos dos Atos e a senhora Flo que coordenava o grupo evangélico foi quem pregou para eles, ela falou sobre a realeza de Cristo e o Batismo no Espírito Santo. No segundo dia à noite eles haviam programado uma festinha para os aniversariantes, porém algo estranho ocorreu: sem combinarem nada ou falarem, alguns, não todos, jovens sentiram o desejo de irem para a capela onde o Senhor estava presenteno Santíssimo Sacramento exposto e eles relatam que iam entrando e sendo tomados de todo por uma força que os compungia o coração e os impeliam a consagrar-se ao Senhor em toda a sua vida e eram batizados no Espírito Santo, era uma atmosfera profunda da presença do Espírito de Deus. Eles não sabiam, mas ali estava começando a grande novidade de Deus que renovaria a Igreja Católica. Duas semanas após, jovens de outra universidade, Notre Dame, tiveram a experiência do Batismo no Espírito Santo. E a partir daí o Senhor foi derramando seu Espírito de forma abundante em sua Amada Esposa, a Igreja. História da RCC no Brasil E a Renovação se espalhou por todo o mundo chegando ao Brasil em 1970, através do Pe. Haroldo Hahn e Pe. Sales, que realizaram vários retiros que ficaria conhecidos como Experiência de Oração. Hoje, praticamente todas as paróquias do Brasil têm grupos de oração da Renovação Carismática Católica. O Espírito chama a um despertar e lançar-se para águas mais profundas. No Brasil a Renovação Carismática teve origem na cidade de Campinas, SP, através dos padres Haroldo Joseph Rahm e Eduardo Dougherty. Em 1970 e 71 iniciou-se a Renovação em Telêmaco Borba, no Paraná, com Pe. Daniel Kiakarski, que a conhecera nos Estados Unidos também em 1969. Em 1972 e 1973 Pe. Eduardo, de novo no Brasil, deu vários retiros e iniciou grupos de oração. Assim foi, por exemplo, em Belo Horizonte, em 1972, com um grupo pequeno de 8 ou 9 pessoas. Em janeiro de 1973 o Pe. George Kosicki, CSB, que havia muito participava ativamente da Renovação nos Estados Unidos, veio a Goiânia para um retiro carismático de uma semana. A ele compareceram D. Matias Schmidt, atual bispo de Rui Barbosa, na Bahia, e vários padres e religiosas, que iriam iniciar grupos de oração em Anápolis, Brasília, Santarém, Jataí, etc. Em 1973, perto de Miranda, no Mato Grosso, um pequeno grupo começou a ler o livro Sereis Batizados no Espírito e a rezar pedindo o dom do Espírito. Um mês mais tarde veio a eles o Pe. Clemente Krug, redentorista, que conhecera a Renovação em Convent Station, New Jersey; orando com eles, receberam o denominado “batismo no Espírito” e o suposto dom de línguas. Em geral, pois, pode-se dizer que os grupos de oração surgidos em inúmeras cidades do Brasil tiveram sua origem seja nas “Experiências de Oração no Espírito Santo” do Pe. Haroldo Rahm, SJ, seja nos retiros dados pelos padres Eduardo Dougherty, SJ e George Kosicki, CSB. Em vista da extensão que tomava a Renovação no Brasil, o Pe. Eduardo Dougherty, sentindo a necessidade de uma melhor organização, preparou com o Pe. Haroldo Rahm e Irmã Juliette Schuckenbrock, CSC, um encontro de fim de semana em Campinas, que foi o I Congresso Nacional da Renovação Carismática no Brasil em meados de 1973, ao qual compareceram cerca de 50 líderes. Em janeiro de 1974 foi realizado o II Congresso Nacional da Renovação Carismática, comparecendo lideres de Mato Grosso, Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, dentre outros. Em outras regiões a Renovação Carismática começa a crescer, a partir de 1974: no Norte a diocese de Santarém com Frei Paulo, em Anápolis, no Centro Oeste, com Frei João Batista Vogel, no Sul de Minas, com Mons. Mauro Tommasini na Aquidiocese de Pouso Alegre. Também colaboram como divulgadores: Pe. Schuster, Dr. Jonas e Sra. Imaculada Petinnatti, Peter e Ingrid Orglmeister, D. Cipriano Chagas, Pe. Alírio Pedrini, Frei Antônio, Ir. Tarsila, Maria Lamego, Ir. Stelita. No início, a Renovação atingiu os líderes já engajados em movimentos como Cursilho, Encontros de Juventude, TLC, e foi se ampliando gradativamente como uma nova “onda” de doutrinação com identidade própria. Em 1972, Pe. Haroldo escreve o livro Sereis batizados no Espírito, onde explica o que vem a ser o “Pentecostalismo Católico”. Sendo uma das primeiras obras publicadas no país sobre o movimento, trazia orientações para a realização dos retiros de “Experiência de Oração no Espírito Santo”, que muito colaboraram para o surgimento de vários grupos de oração. CARACTERÍSTICAS E DOUTRINA Em termos de doutrina a RCC afirma seguir a Bíblia, o Catecismo da Igreja e todas as demais diretrizes da Igreja. Em suas reuniões de Oração utiliza músicas de louvor, adorações e pregações. Prega que o pecado – definido pela Igreja como um ato ou desejo contrário a vontade de seu Deus – é a fonte dos males vividos na sociedade atual. Ganância, egoísmo, soberba, vícios, mau uso da liberdade, etc., seriam consequências dos pecados do homem. Defende que Jesus tem o poder de libertar e perdoar os pecados e que, para isso, basta que o homem arrependa-se diante dele e se utilize da confissão. O bem maior que a RCC afirma possuir é a Eucaristia que é a celebração da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. No movimento é também presente a devoção à Santíssima Virgem Maria, mãe de Jesus, proclamando-a como bem-aventurada e pedindo sua intercessão e auxílio. RENOVAÇÃO CARISMÁTICA E ESPÍRITO SANTO Ênfase no Espírito Santo Segundo a RCC, o “Espírito Santo” habita dentro de cada cristão. Seria o desejo de praticar o bem. Ele é descrito como um ‘conselheiro’ ou ‘ajudante’ (paraclete em grego), o Espírito Santo paráclito (aquele que advoga) guiando-os no “caminho da verdade e da justiça”. A Renovação carismática coloca uma ênfase especial nas obras do “Espírito Santo”. Segundo a Palavra, na qual a RCC se detém, os ‘Frutos do Espírito’ (i.e. os resultados da sua influência) são “amor, gozo (ou alegria), paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança” (Gálatas 5,22). Ainda de acordo com a RCC, ele também concede dons (i.e. habilidades) aos Cristãos tais como os dons carismáticos de profecia, línguas, discernimento, sabedoria, cura, fé, milagres, e ciência. Embora alguns Cristãos acreditem que isto apenas aconteceu nos tempos do Novo Testamento, a RCC acredita que hoje estes dons estão novamente sendo concedidos. Desse modo, nos grupos de oração da RCC é muito comum o uso do “dom de línguas”. Também não é rara a manifestação de visões e profecias de origem sobrenatural que transmitiriam mensagens de Jesus, do Espírito Santo ou de Maria, como dons do Espírito Santo. Às vezes ocorrem pela mesma manifestação do Espírito Santo, através de dons, a realização de curas espirituais ou físicas e milagres. Efusão no Espírito Santo Segundo a RCC, a Efusão no Espírito Santo é uma experiência que normalmente decorre de um momento de oração e pela qual a pessoa adquire um novo e apurado senso de “valor espiritual”. A partir desse momento o “Espírito Santo” passaria a orientar a vida da pessoa, confirmando verdades interiores e até modificando posturas diante dos homens e do mundo. Como primeiro resultado deste ‘batismo’ verificar-se-ia o desejo pela oração e pela vida na Igreja. Segundo a teologia católica, toda pessoa recebe o Espírito Santo por ocasião do sacramento do Batismo. A Igreja não define a necessidade de um segundo batismo, conforme a profissão de fé do Credo Niceno: “Professo um só batismo para remissão dos pecados”. Sendo assim, o ‘Batismo no Espírito Santo’ como entendido pela RCC, não é um sacramento nem um requisito para a Salvação. Ele seria uma renovação do contato com Deus que fora adquirido originalmente pelo batismo, um auxílio para uma vivência da fé mais próxima da anunciada no evangelho e o catalisador uma vida de oração mais intensa. Entende-se que esse batismo no Espírito Santo não seja uma invenção da RCC, mas parte dos primórdios do nascimento da Igreja. APOIO DO MAGISTÉRIO Dentre vários documentos onde existe a manifestação clara e positiva da aceitação da Igreja, destacam-se algumas notas que dão ênfase e motivação à existência da RCC no Mundo: Papa Paulo VI – 1973, no I Encontro Internacional com Líderes da RCC em Roma: “Alegramo-nos convosco, queridos amigos pela renovação espiritual que se manifesta hoje em dia na Igreja, sob diferentes formas e em diversos ambientes. Certas notas comuns aparecem nesta renovação: O gostopor uma oração profunda, pessoal e comunitária a Deus; Um retorno à contemplação e uma ênfase no louvor a Deus; O desejo de entregar-se inteiramente a Cristo; Uma grande disponibilidade às inspirações do Espírito Santo; Uma leitura mais assídua da Bíblia; Um amor fraterno mais generoso. “A Renovação Carismática é a primavera da Igreja!” Papa João Paulo II – 2005, Roma: “Estou convencido de que este movimento é um sinal da ação do Espírito… um componente muito importante na renovação de toda a Igreja”. Papa Bento XVI – Quando ainda era Cardeal: “Eu tive a alegria e a graça de ver jovens cristãos tocados pelo poder do Espírito Santo… Num tempo de cansaço no qual se fala de um “inverno da Igreja”, o Espírito Santo criou uma Nova Primavera”. Prof. Felipe Aquino – 2008: A Renovação Carismática não é um movimento uniforme; mas, como dizia o cardeal Suenens e diz o padre Raniero Cantalamessa, “é uma corrente de graça para toda a Igreja católica.” Ela não é um simples movimento a mais da Igreja; é a própria Igreja em movimento pelo poder do Espírito Santo. “Todos os cristãos de todos os movimentos precisam ser renovados no Espírito Santo; e esta é a missão da RCC.” HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE I 1.O PERÍODO PRÉ - REFORMA 2.QUEM FOI MARTINHO LUTERO . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE II A REFORMA NA SUÍÇA : ULRICO ZUÍNGLIO . ( 1484 – 1531 ) OS 67 ARTIGOS DE ZUÍNGLIO JOÃO CALVINO ( Jehan Cauvin ) A SEGUNDA GERAÇÃO DA REFORMA . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE III Igreja Anglicana e a Reforma na Inglaterra O CONCÍLIO DE TRENTO ( A CONTRARREFORMA ) . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE IV CIÊNCIAS ECLESIÁSTICAS — CONTROVÉRSIAS TEOLÓGICAS HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE V I . O JANSENISMO . II . O GALICANISMO . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE VI 1 . FEBRONIANISMO 2 . Do Regalismo O despotismo . 3 . ILUMINISMO ( XVII e XVIII ) . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE VII I . A Revolução Francesa e a Igreja Católica . II . Revolução Francesa : por que , exatamente , ela perseguiu os católicos ? III . Pio VII e Napoleão Bonaparte . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE VIII LIBERALISMO e IGREJA . 1 . Histórico do liberalismo HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE IX 1 . PIO IX : O MAIS LONGO PONTIFICADO DA HISTÓRIA DA IGREJA . 2 . Concílio do Vaticano I . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE X 1 . História da Igreja : De Leão XIII a Pio XI ( 1878 - 1939 ) . 2 . O Papa Pio XII . ( 1939 – 1958 ) HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XI 1 . O PAPA JOÃO XXIII . ( 1881 - 1963 ) 2 . Constituição Apostólica do Papa João XXIII . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XII 1 . O Concílio Vaticano II . 2 . Documentos . 3 . Objetivos do Concílio Vaticano II . 4 . Vaticinou II , o 21º concílio da Igreja . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA PARTE XIII PAPA PAULO VI 1963 - 1978 ( Pontificado ) O Papa João Paulo I ( Albino Luciani ) HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XIV 1 . Papa João Paulo II 2 . João Paulo II , um pouco de seu pontificado 3 . CURIOSIDADES SOBRE A VIDA DE JOÃO PAULO II . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XV 1 . O que é a Teologia da Libertação ? 2 . A Teologia da Libertação e sua influência na Igreja . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XVI 1 . PAPA BENTO XVI ( 2005 – 2013 ) . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XVII CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL ( CNBB ) Origens e implantação da CNBB Da fundação a 1964 No regime militar Os limites da Igreja progressista A CNBB e a redemocratização As eleições de 1994 e o governo Fernando Henrique Cardoso HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XVIII 1 . PAPA FRANCISCO . 2 . A escolha do nome de pontificado . HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA E CONTEMPORÂNEA . PARTE XIX História da RCC nas origens História da RCC no Brasil CARACTERÍSTICAS E DOUTRINA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA E ESPÍRITO SANTO