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A questão da predestinação e do livre-arbítrio As doutrinas da graça e da predestinação de Agostinho suscitaram amplas controvérsias. “Os Donatistas criam no livre arbítrio e não admitiam a predestinação” (p.294). Mas a grande tensão sobre essa temática foi com Pelágio (Juliano de Eclano). Obras: De libero arbitrio (388-391), Contra Epístolas de Pelágio (420-421), De Gratia et libero arbitrio (426-427) e De correptione et gratia (426-427). 1 A questão da predestinação e do livre-arbítrio De praedestinatione sanctorum (428-429), De dono perseverantiae (428-429) e Contra secundum Juliani responsionem opus imperfectum (429-430). Artigo: CRISTIANISMO E PODER NO MUNDO TARDO ANTIGO: AGOSTINHO E A CONTROVÉRSIA COM JULIANO DE ECLANO file:///C:/Users/emman/AppData/Local/Packages/Microsoft.MicrosoftEdge_8wekyb3d8bbwe/TempState/Downloads/1288-3621-1-SM.pdf 2 A questão da predestinação e do livre-arbítrio Surgem os semi-pelagianos, cujo primeiro grande representante foi João Cassiano, fundador do Mosteiro de S. Vítor em Marselha (430-435). Outros nomes: Fauto de rieza (Provença – 500), Vincent de Lerins (séc. V). Vontade divina + vontade humana = cooperação. Predestinação = presciência. Por um tempo o semipelagianismo alcançou sucesso – Sínodo de Arles (473) – questão entre o bispo Fausto de Riez e o presbítero Lúcido (pp.123-125). 3 A questão da predestinação e do livre-arbítrio Contudo, o semipelagianismo nunca triunfou definitivamente. Os papas de Roma nunca estiveram muito interessados nos conflitos teológicos na Gália e deram seu apoio à posição de Agostinho. Fulgêncio de Ruspe (discípulo de Agostinho) escreveu Contra Faustum, e apoio a dupla predestinação. 4 Sínodo de Orange No Sínodo de Orange - França (529), Cesário de Arles, conseguiu que a posição semipelagiana fosse rejeitada e redigida uma confissão que tratava do pecado original, graça e predestinação e que a doutrina da graça de Agostinho fosse imposta. Tal posição foi confirmada no ano seguinte pelo papa Bonifácio II. 5 Sínodo de Orange Surgem 25 cânones, preparados por Próspero, onde sanciona a doutrina do pecado original. Com isso, até mesmo o livre-arbítrio ficou comprometido. “CÂNONE 22. Concernente àquelas coisas que pertencem ao homem. Nenhum homem tem qualquer coisa de si mesmo, senão a inverdade e o pecado. Porém, se um homem tem qualquer verdade ou justiça, esta é daquela fonte da qual devemos ter sede neste deserto, para que possamos ser refrescados dela como por gotas de água e não enfraqueçamos no caminho”. O mérito não precede a graça, contudo, as boas obras merecem recompensas. A dupla predestinação foi rejeitada. A graça é a fonte de todo o bem no homem. 6 A questão da predestinação e do livre-arbítrio Gregório Magno (540-604) aceitou a doutrina da Graça de Agostinho, em forma simplificada e a transmitiu à Idade Média. Ensinou que o amor e a graça de Deus precedem a ação do homem. O mérito não precede a graça, pois a graça preparatória transforma a vontade. Não se trata de presciência de Deus, afinal, aquilo que está por vir, é presente para Deus. 7 A questão da predestinação e do livre-arbítrio Na época de Carlos, o Calvo, falecido em 877, houve grande atividade teológica, com discussões sobre a predestinação e eucaristia. O monge alemão Godeslacus (Gottschalk) de Orbais (868) defendeu a doutrina agostiniana da predestinação. Não cria numa dupla predestinação, pois os ímpios receberão o castigo merecido e os justos a vida eterna. Em ambos os casos se faz justiça. 8 A questão da predestinação e do livre-arbítrio “Pois assim como o Deus imutável, antes da criação do mundo, por su graça livre e definitiva predestinou todos os seus eleitos à vida eterna, assim também este mesmo Deus imutável predestinou inapelavelmente todos os rejeitados, que serão condenados à moorte eterna por causa de suas más obras no dia do juízo segundo sua justiça, tal como eles merecem” - Migne, PL 121, 368A 9 A questão da predestinação e do livre-arbítrio Godeslacus apresentou suas crenças numa conferência teológica em Mogúncia onde encontrou como adversário Rabano Mauro, um dos influentes teológos da época. No Sínodo realizado em Chiersy em 849, o bispo Hincmaro de Reims, condenou Godeslacus a confinamento no mosteiro. Seus ensinamentos foram condenados, vivendo prisioneiro por 20 anos, sempre insistindo que sua posição era a correta. 10 Sínodo de Orange Roger Olson, em a História da Teologia Cristã, escreve o seguinte sobre Orange: “A controvérsia semipelagiana finalmente terminou em 529, quando houve uma reunião de bispos ocidentais, conhecida como Sínodo de Orange. Não consta dos concílios ecumênicos da igreja, nem pelo Oriente, nem pelo Ocidente. 11 Sínodo de Orange Em Orange, os bispos católicos condenaram os principais aspectos do semipelagianismo, endossaram o conceito que Agostinho tinha da necessidade e total suficiência da graça e condenaram a crença na predestinação divina para a perdição. Como Agostinho nunca chegou a afirmar especificamente que Deus predestina alguém ao pecado ou ao inferno, seus próprios ensinos passaram pelo Sínodo de Orange sem serem em nada criticados, mas também sem serem plenamente confirmados. 12 Sínodo de Orange O Sínodo não defendeu a predestinação de nenhuma forma. Entretanto, exigiu a crença que qualquer ato de bondade ou retidão dos seres humanos é resultado da graça de Deus que opera neles. A teologia católica ortodoxa, a partir de então, incluiria as ideias de que a graça de Deus é a única origem e causa de todos os atos de retidão humana e que os homens não são capazes de realizar obras merecedoras da salvação sem a graça auxiliadora. 13 Cânones de Trento Todavia, como o Sínodo de Orange deixou em aberto a questão da livre cooperação humana com a graça, a Igreja Católica passou a incluir e enfatizar um sistema de obras meritórias que são necessárias como credenciais de graça e isso se reverteu a favor de um tipo de sinergismo no qual o livre-arbítrio precisa cooperar com a graça para que a salvação chegue à consumação perfeita”. (Concílio Trento 1545-1563 – Salvação pela fé e pelas obras). Cânones sobre a Salvação – Trento – há um total de 33 cânones: “Cân. IX - Se alguém disser, que o pecador se salva somente com a fé entendendo que não é requerida qualquer outra coisa que coopere para conseguir a graça da salvação, e que de nenhum modo é necessário que se prepare e previna com o impulso de sua vontade, seja excomungado”. http://agnusdei.50webs.com/trento9.htm 14