Anotação das aulas
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Anotação das aulas

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dos seres humanos são muitos variáveis e susceptíveis de mudança.
A memória, a capacidade de fazer novas combinações, o dom da comunicação oral tornaram possíveis os desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas obras científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica a forma como, num determinado sentido, o homem pode influenciar sua vida através de sua própria conduta, e como neste processo o pensamento e a vontade consciente podem desempenhar um papel.
AULA 2 – OBJETO E MÉTODO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Ciências Naturais e ciências sociais: objeto e método
As Ciências Naturais estudam fatos simples, eventos que presumivelmente têm causas simples e são facilmente isoláveis, recorrentes e sincrônicos. Tais fatos podem ser vistos, isolados e reproduzidos dentro de condições de controle razoáveis, num laboratório.
Assim, nas Ciências Naturais há uma distância irremediável entre o cientista e seu objeto de pesquisa, o que torna o método objetivo o mais apropriado para a investigação de fenômenos dessa ordem.
Ao contrário de outras ciências, as Ciências Sociais lidam não apenas com o que se chama de realidade, com fatos exteriores aos homens, mas igualmente com as interpretações que são feitas sobre a realidade.
As Ciências Sociais estudam fenômenos complexos. Seu objeto de investigação é o homem nas relações intersubjetivas, os fenômenos sociais, ou seja, eventos com determinações complicadas e que podem ocorrer em ambientes diferenciados, fazendo com que toda análise de fenômenos dessa natureza seja parcial, subjetiva.

Por que como um bolo?
- Posso comer bolo porque tenho fome.
- Posso comer por solidariedade a alguém que faz aniversário.
- Posso comer o bolo para agradar a minha mãe.
OBS: No âmbito das Ciências Sociais torna-se difícil desenvolver uma teoria capaz de transmitir com PRECISÃO uma causa única ou motivação exclusiva.

Indaga-se:
- É possível reproduzir determinados acontecimentos?
- Podemos reproduzir a época dos Descobrimentos? Da Revolução Francesa?

Podemos reunir os mesmos personagens, músicas, comidas, vestes, mobiliário, animais... Não será possível reproduzir o clima daquele momento, a atmosfera da época. Estaremos criando outro significado.

Resumindo:
Nas ciências naturais
- Os fenômenos podem ser percebidos, divididos, classificados e explicados dentro de condições de relativo controle em condições de laboratório.
- Alcança-se a objetividade científica.
- As descobertas possibilitam o desenvolvimento de novas tecnologias.
Nas ciências humanas e sociais
- Os fenômenos são complexos.
- As percepções são variadas, porquanto históricas.
- O resultado prático é visto em livros, romances, arte, teatro, novelas, onde tais ideias podem ser aplicadas para produzir modificações no comportamento das pessoas – nos sistemas de valores.
- Os fatos sociais são irreproduzíveis em condições controladas e, por isso, quase sempre faze parte do passado.
- São eventos a rigor históricos e apresentados de modo descritivo e narrativo, nunca na forma de uma experiência.

Como estudar fenômenos sociais?
Ao observar os fenômenos sociais somos levados enfrentar nossa própria posição, nossos valores, nossa visão de mundo que interfere na nossa pesquisa. Nossa fala, nossos gestos, nossa modo de ser e de agir revelam o tipo de socialização que tivemos e influencia em nossa visão de mundo.

Dessa forma, trabalhamos com fenômenos que estão bem perto de nós, temos a interação complexa entre o investigador e o investigado, pois ambos compartilham de um mesmo universo de experiências humanas.

 “Nasce, daí, um debate inovador, numa relação dialética entre investigador e investigado”.
(DA MATTA, Roberto in Relativizando: uma introdução à antropologia social).

REFLEXÃO: As teorias descobertas poderão ser usadas para alterar a vida das baleias, mas nunca usadas diretamente pelas baleias. Por isso são considerados conhecimentos objetivos, externos, independentes de baleias, aves e investigadores.

Nas Ciências Sociais temos a interação complexas entre o investigador e o investigado. Ambos compartilham de um mesmo universo de experiências humanas.
Podemos assimilar um costume diferente do nosso, ou até mesmo, perceber o melhor de nossas tradições quando estamos em contato com outras culturas. Neste âmbito, percebemos que podemos adotar costumes de outros povos, aprender seus credos, modificar nossas leis.
“Cada sociedade humana conhecida é um espelho onde nossa própria existência se reflete”.
(DA MATTA, Roberto in Relativizando: uma introdução à antropologia social).

AULA 3 – A ANÁLISE ANTROPOLÓGICA DA CULTURA

O conceito de cultura
O conceito de cultura é uma preocupação intensa atualmente em diversos áreas do pensamento humano, no entanto a Antropologia é a área por excelência de debate sobre esta questão.
O primeiro antropólogo a sistematizar o conceito de cultura foi Edward Tylor que, em Primitive Culture, formulou a seguinte definição:
“cultura é todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral. Lei, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem na condição de membro da sociedade”.

Desde sempre os homens se preocuparam em entender por que outros homens possuíam hábitos alimentares, formas de se vestir, de formarem famílias, acessarem o sagrado de maneiras diferentes das suas. A essa multiplicidade de formas de vida dá-se o nome de diversidade cultural.
Contudo, foi a partir da descoberta do “Novo Mundo”, nos séculos XV e XVI, que os europeus se depararam com modos de vida completamente distintos dos seus, e passaram a elaborar mais intensamente interpretações sobre esses povos e seus costumes. É fundamental lembrarmos que o impacto e a estranheza se deram dos dois lados. Os grupos não europeus se espantavam com o ser diferente que chegava até eles desembarcando em suas praias e tomando posse de seu território.
Existem relatos de povos que após a morte de um europeu em combate, colocavam seu corpo dentro de um rio e esperavam sua decomposição para ver se eram pessoas como eles. A diferença é que não temos contato com esses relatos dos povos não europeus para conhecermos a visão que eles tinham dos brancos.

O olhar eurocêntrico sobre a cultura
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A prática etnográfica
Na segunda metade do século XIX esta “metodologia” é questionada afinal, como falar sobre uma cultura que nunca se viu? Como descrever eventos que nunca se vivenciou? Assim cunha-se a prática etnográfica que é a metodologia característica da antropologia até os dias de hoje: o próprio antropólogo vai ao campo, entra no grupo, vivencia esta cultura diferente, deixa-se fazer parte deste dia a dia, registra esta vivência, retorna para sua própria cultura e finaliza seu trabalho de escrita que é o registro final desta experiência. Segundo François Laplantine, em Aprender Antropologia, a prática etnográfica consiste em “impregnar-se dos temas de uma sociedade, de seus ideais, de suas angústias. O etnógrafo é aquele que deve ser capaz de viver nele mesmo a tendência principal da cultura que estuda”.

No entanto, não é nada fácil vivenciar uma outra cultura diferente de nossa. Por que? Não sentimos nossa cultura como uma construção específica de hábitos e costumes: pensamos que nossos hábitos e nossa forma de ver o mundo devem ser os mesmos para todos!
Naturalizamos nossos costumes e achamos o do outro “diferente”. Diferente de quê? Qual é o padrão “normal” segundo o qual analisamos o “diferente”?

Geralmente estabelecemos a nossa cultura como padrão, a norma. Assim tudo que é diferente é concebido como estranho, e mesmo errado. Tal postura é o que denominamos etnocentrismo.

Etnocentrismo
Segundo Everardo Rocha, em O que é Etnocentrismo, trata-se da “visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentido através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência. No plano intelectual,