PORTUGAL E BRASIL NO SÉCULO XVIII

Disciplina:História do Direito Brasileiro2.251 materiais100.318 seguidores
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suplícios (açoites, tenazes ardentes) que podiam ser facilmente combinados conforme o juízo feito sobre a condição do criminoso, a natureza de seu crime e a condição da vítima.
Assim, podia-se ter a morte cruel (com suplícios) e a morte atroz (seguida de confisco dos bens, proscrição da memória, queima do cadáver etc).

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Dentre os casos que o Livro V das Ordenações Filipinas fixava como crimes e determinava que o processo devia ser recebido, podemos citar: os que praticassem crime de Lesa Majestade, os que assaltassem em estradas, os que cometessem incesto, os que fossem sodomitas (ou sodomitigos), alcoviteiros, falsários, os que ferissem pai e mãe, os que fossem bígamos, os que vivessem em barregice (viver maritalmente sem ser casado) e fossem casados, os que fossem rufiões, os que sendo degredados não cumprissem o degredo, quem tivesse praticado cárcere privado, quem tivesse moeda falsa ou tivesse cerceado a circulação de moeda verdadeira, quem levasse coisas defesas (objetos que, por lei, estavam defendidos, protegidos) para as terras dos Infiéis, quem resistisse ou desobedecesse à Justiça, quem fosse sorteiro, feiticeiro e advinhador, quem praticasse o aborto (o aborto era um crime contra a vida e aquela que o praticasse poderia ser açoitada e considerada em pecado mortal) ...

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A famosa execução de Tiradentes (Joaquim José da Silva Xavier), único acusado de participação na Inconfidência Mineira do final do século XVIII a ser condenado à pena de morte, sem o indulto da Coroa Portuguesa, se deu sob a égide das Ordenações Filipinas. Estabelecendo-se uma comparação entre a legislação penal à época do período colonial brasileiro e o ordenamento constitucional e penal vigente no Brasil contemporâneo, seria possível a aplicação deste tipo de pena? O artigo 5º da CF, em seu inciso XLVII prevê a impossibilidade da aplicação da pena de morte (a não ser nas condições previstas pelo artigo 84, inciso XIX) e também de penas cruéis. Além disso, o inciso XLIX, do mesmo artigo 5º, garante a integridade física e moral dos presos. Por fim, pela afirmação do PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA presente no inciso III, do artigo 1º da CF, torna-se impossível a aplicação do tipo de pena imposta a Tiradentes no final do século XVIII.

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A TRANSMIGRAÇÃO DA CORTE PORTUGUESA PARA O BRASIL
Pela manhã de 07 de março de 1808, a população da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro foi alertada da entrada de navios da esquadra real portuguesa pelas fortalezas que defendiam a Baía de Guanabara. Estes navios traziam a rainha Da Maria I e o príncipe regente D. João. Uma tempestade ocorrida durante a viagem de Lisboa para o Brasil dividiu a frota em dois grupos: uma parte da frota veio para o Rio de Janeiro, tendo adentrado a Baía de Guanabara em 17 de Janeiro de 1808, enquanto a outra parte da esquadra que conduzia a rainha e o príncipe regente aportou em Salvador em 21 de Janeiro, onde ficou por mais de um mês.

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A transferência da Corte portuguesa para sua colônia sul-americana não significou simplesmente a vinda da família real para o Brasil. Esta transferência, na verdade, representou:
A instalação do governo do Império Português no Brasil (mais precisamente, no Rio de Janeiro).
O fim do período colonial brasileiro.
Concebida desde o século XVII, como solução emergencial para períodos de crise, a transferência da Corte para o Brasil começou a ganhar contornos mais definidos nos primeiros anos do século XIX, quando as conquistas napoleônicas no continente europeu e o confronto do imperador francês com a Inglaterra tornaram insustentável a permanência da Casa de Bragança (a qual pertenciam Da Maria I e o regente, seu filho, D. João) no comando do Império Português a partir de Lisboa.

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Com a instalação da Corte no Rio de Janeiro, o príncipe regente D. João tratou de, através de uma série de atos administrativos, adequar a cidade à condição de sede da monarquia, promovendo a construção dos “pilares institucionais” do governo;
Além disso, a própria cidade do Rio de Janeiro se transformou em um espaço de um “processo civilizatório” e de difusão dos “modos civilizados” da Europa ilustrada para todo o território da antiga colônia.

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A ABERTURA DOS PORTOS BRASILEIROS E OS TRATADOS DE 1810
Na carta régia de 28 de janeiro de 1808, o príncipe regente ordenava, EM CARÁTER PROVISÓRIO, que fossem admissíveis nas alfândegas do Brasil todos e quaisquer gêneros, fazendas ou mercadorias, transportadas ou em navios da real coroa ou em navios dos vassalos, pagando um imposto de importação de 24%.
Determinava também que, não somente os vassalos portugueses, mas também os estrangeiros pudessem exportar para quaisquer portos em benefício do comércio e da agricultura, excetuando-se o pau-brasil e outros produtos “estancados” (ou seja, sob monopólio do Estado).

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A abertura dos portos deve ser entendida como uma etapa fundamental do processo pelo qual o Brasil passou do antigo monopólio português para uma nova modalidade de inserção na economia mundial.
Ainda que Inglaterra tivesse sido a grande beneficiária da medida que determinou a abertura dos portos brasileiros, a reivindicação britânica, desde 1807, era de que um porto fosse aberto exclusivamente para o comércio inglês (o porto de Santa Catarina) – isto significa dizer que no início do século XIX a Inglaterra ainda não era a grande defensora de um “irrestrito livre comércio internacional”.

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Esta medida favoreceu também os proprietários rurais produtores de bens destinados à exportação (algodão, açúcar) que se livraram do monopólio comercial da Metrópole portuguesa.
A abertura dos portos contrariou, todavia, os interesses de grandes comerciantes provocando protestos no Rio de Janeiro e em Lisboa, o que levou o príncipe regente a fazer algumas concessões dentre as quais podemos destacar:
Por meio de um decreto de junho de 1808, o comércio livre ficou limitado aos portos de Belém, S. Luís, Recife, Salvador e Rio de Janeiro.
O comércio de cabotagem na costa brasileira ficou reservado a navios portugueses.
O imposto sobre produtos de importação que havia sido fixado em 24% “ad valorem”, foi reduzido para 16% quando se tratasse de importação feita em embarcações portuguesas.
Outra medida significativa que contribuiu para o fim do “estatuto colonial” do Brasil foi a determinação da abertura de fábricas e manufaturas no Brasil pelo alvará de 1º de maio de 1808.

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OS TRATADOS DE 1810:
Os tratados de 1810 representaram o ápice da preeminência britânica sobre o Império Português;
Diante das medidas tomadas pelo príncipe regente D. João no sentido de atenuar as vantagens e as ambições britânicas resultantes da abertura dos portos, intensas negociações se desenvolveram entre Londres e Rio de Janeiro visando a garantia do predomínio dos interesses britânicos sobre o mercado luso-brasileiro;
Depois de quase dois anos de negociações, os tratados foram assinados em 19 de fevereiro de 1810. Estes tratados foram o de ALIANÇA E AMIZADE (11 artigos públicos e dois decretos), o de COMÉRCIO E NAVEGAÇÃO (32 artigos) e uma CONVENÇÃO (13 artigos);

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ALGUMAS DISPOSIÇÕES DO TRATADO DE ALIANÇA E AMIZADE:
O tratado dispunha sobre questões de natureza política, estabelecendo-se a garantia da união perpétua entre os dois países e a obrigação de preservação da paz;
A Inglaterra comprometia-se a reconhecer como soberano de Portugal o legítimo herdeiro da casa de Bragança;
Pelo artigo 6º, os ingleses foram autorizados a cortar e comprar madeiras nos bosques e florestas brasileiros para a construção de navios de guerra, excetuando-se as florestas reais, cuja madeira destinava-se à marinha portuguesa – ao mesmo tempo, o príncipe regente se comprometia a não estender este privilégio a outras nações;
Pelos artigos 7º e 8º, as esquadras enviadas em socorro por qualquer dos reinos receberiam provisões da parte socorrida e os navios de guerra poderiam entrar livremente nos portos das nações aliadas;
Pelo artigo 9º, o príncipe regente se comprometia a não permitir o estabelecimento
KAREN GUERREIRO fez um comentário
  • Muito bom, ajudou bastante!
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