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Semin.09.Estadão-Sarney

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outro, prosseguisse bem e amplamente 
informando aos seus leitores sobre o andamento e demais fatos que envolvem tais operações, exceto 
e a todo rigor quanto à indevida divulgação dos dados obtidos de comunicação telefônica objeto da 
quebra de sigilo judicial – que não lhe compete, nem a ninguém – eis que inerem ao próprio Estado, 
através dos seus órgãos próprios e oficiais de apuração criminal.
Cuida-se, pois, pura e simplesmente de tutela inibitória in limine deferida, quando ali restou vedada 
a utilização dos dados ilicitamente extraídos das medidas excepcionais de interceptação telefônica, 
que se encontram sob o pálio da inviolabilidade de modo a que se fizesse cessar a nefasta 
perpetuação desta ilicitude que, a um só tempo, em seu iter continuado, seguia em franca violação a 
pilares fundamentais da investigação criminal, do maior interesse público: o próprio instituto do 
segredo de justiça e o da presunção de inocência de quem se encontre sujeito à persecutio criminis, 
derivações do devido processo legal e do postulado maior da dignidade da pessoa humana, 
baldados, ainda mais, em caso de eventual continuidade com esta moldura de uma conduta delitiva, 
cujos efeitos civis impunha, a meu sentir, de logo cessar mediante o comando judicial liminar 
impugnado.
Agir em contrário, ou omitir a este respeito, traria o significado, na firme convicção deste julgador, 
de restar outorgado ao então agravado verdadeiro "salvo-conduto" ou "liberação geral" para 
prosseguir neste ilícito proceder, utilizando-se livremente de um produto de crime, o que deverá 
estar sendo devidamente apurado em sede própria, onde ocorrida sua origem.
E tal não se deu ao argumento de arbítrio teratológico ou de "pressão psíquica" como declinado em 
demérito a este magistrado na peça inaugural ou desafiada – que se reveste no seu conteúdo de um 
"arremedo eufêmico", no engenho e arte de seu ousado traçado – eis que convencido de suas razões 
em firmes propósitos, com base em eloquentes e fortes precedentes notadamente da Corte 
Constitucional de Justiça – o Supremo Tribunal Federal – que ao enfrentamento deste ainda bem 
atual e atraente tema traz precisas, firmes e fortes incursões neste sentido.
O confessado interesse do poderio midiático formado em nosso país, mostrando-se em desalinho e 
atônito na persecução de seu desiderato, aqui divorciado do vero direito de informação ou de 
expressão, leva em conta premissas hoje equivocadas, permissa venia, que se perdem no torvelinho 
de suas fontes comprometidas nesta senda.
Tem, por conseguinte, a Excelsa Corte firmes pronunciamentos bem atuais que deram norte à 
decisão guerreada, a exemplo dos julgados suso transcritos.
Impende considerar, neste vórtice, a busca de uma harmoniosa convivência das liberdades e 
adjacentes responsabilidades indeclináveis da imprensa em nosso país, no afã da boa, sem descurar 
– por inexpugnável – dos lídimos direitos fundamentais da personalidade, a tornar bastante 
oportuno o seguinte excerto do voto proferido pelo e. Ministro Cezar Peluso, ao asseverar, neste 
propósito, verbis:
"Observe-se que à mesmíssima conclusão se chega de outro ângulo, o dos limites imanentes ao 
âmbito material das normas, o qual no fundo se reduz ao problema da configuração ou extensão 
objetiva dos direitos, ou, o que dá no mesmo, dos modos de seu exercício. Tal perspectiva 
metodológica ajusta-se à hipótese em que, a rigor, não há conflito ou colisão de direitos, 
simplesmente porque um deles não existe nos termos ou na amplitude em que é pensado dentro da 
situação supostamente conflitiva, onde não pode, pois, ser invocado a título de objeto de idêntica 
proteção constitucional.
É o esquema teorético que convinha e convém à decisão do caso, em cujos contornos a liberdade de 
imprensa, vista como direito subjetivo, aparece na sua dimensão portadora de limitação imanente, 
expressa e específica, oriunda da reserva constitucional aos direitos à inviolabilidade moral: é a 
própria Constituição que, demarcando o espaço normativo de abrangência da mesma liberdade, pré-
exclui, por fórmulas inequívocas, mediante remissões textuais a outras normas suas, bem como 
imputação da responsabilidade civil e pressuposição da criminal, que seu exercício legítimo possa 
implicar lesão à honra, à reputação, à imagem, ou à intimidade alheias (art. 5º, IV, V, IX, X,XIII e 
XIV, e art. 220, `caput´ e § 1º).
Bastaria, aliás, a previsão constitucional da ilicitude civil de todo comportamento capaz de insultar 
esses valores da personalidade, objeto de tutela expressa, por concluir logo que, como ilícito, já 
transpõe as fronteiras normativas da liberdade de imprensa, coisa que se realça e confirma perante 
sua teórica e simultânea ilicitude penal, cujo reconhecimento está à raiz da idéia de abuso de 
direitos fundamentais, a que costuma recorrer a jurisprudência constitucional estrangeira, especial e 
`designadamente quando se considera que o exercício de um direito fundamental viola 
criminalmente um outro direito (direito à integridade pessoal, direito ao bom nome e reputação)´.
A interpretação unitária das regras constitucionais evidencia, dessarte, que tal limitação é inerente 
ao recorte da própria esfera normativa da garantia da liberdade de imprensa, no sentido de que esta 
só pode ser exercida em sintonia com a Constituição e, portanto, só existe como direito, quando não 
ofenda os valores da intimidade e da incolumidade moral. Toda atividade exercida em nome da 
liberdade de expressão, mas com ofensa à honra e à reputação alheia, não é tolerada pela 
Constituição da República, porque se põe numa dicção menos congestionada, não faz parte dos 
comportamentos facultados pelo direito fundamental correlato. Trata-se de comportamento ilícito, 
não do exercício de um direito.
Em síntese, por força de expressa e específica limitação imanente ao seu perfil normativo, segundo 
o diagrama que lhe traça a Constituição, a liberdade de imprensa não abrange poder jurídico de 
violentar o direito fundamental à honra, à boa fama e à intimidade das pessoas. É da sua condição 
de um dos direitos fundamentais mais complexos, dotado de múltiplas direções e dimensões, dentre 
as quais a que interessa ao caso: implicar direito de todos à informação, mas não a informação 
qualquer, senão à informação veraz e não privativa (fato da privacidade), só enquanto tal inocente à 
dignidade alheia. E não há aí, nenhuma novidade constitucional: `por isso mesmo que tal é a alta 
missão da imprensa, é claro que se não deve abusar dela e transformá-la em instrumento de calúnia 
ou injuria, de desmoralisação, de crime. Sua instituição tem por fim a verdade e o direito´. `Sem 
isso´, notava outro velho constitucionalista, `reinava a anarchia e o direito seria o apanágio do forte 
e o opprobrio do fraco (STF, 2ª Turma, RE 447.584-7, Rel. Min. Cezar Peluso, DJ de 16.03.2007)". 
(G.n).
Nesse mesmo julgado, é contundente o magistério do e. Ministro Eros Grau, ao enfatizar que "não 
resta a menor dúvida em relação à relevância da liberdade de imprensa, que, na verdade, não é da 
imprensa, é do povo. O direito de expressão não é do dono do jornal, nem do acionista, mas do 
povo, pertence a ele, que merece ser informado adequadamente. Entretanto, não tem cabimento 
nenhum abuso no exercício dessa liberdade. A imprensa não pode se transformar em um quarto 
poder, imune a qualquer tipo de controle".
E arremata o e. Ministro e atual Presidente do STF, Gilmar Mendes, nos precisos termos de seu 
voto, verbis: "Claro que a liberdade de imprensa tem um valor fundamental na democracia e deve 
ser preservada, todavia, não há de se fazer em detrimento de valores centrais como a própria 
expressão `da dignidade da pessoa humana´".
Essa orientação foi reafirmada pelo Supremo Tribunal Federal, por ocasião do recente julgamento 
da ADPF 130/DF, que acabou por declarar a não recepção da Lei nº 5.250/67 (L.I.), extirpando-a 
definitivamente do atual ordenamento jurídico-normativo, com acórdão de mérito ainda pendente

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