Prévia do material em texto
Módulo XIV- Abdomen Isadora Scheer – 5P – 2021 Abdome Agudo Obstrutivo Doenças do Aparelho Digestivo – UNASUS Tratado de Gastroenterologia Medcurso Síndrome caracterizada por presença de obstáculo mecânico ou funcional que leve a interrupção da progressão do conteúdo intestinal; Classificado segundo: o Altura do obstáculo: alto (delgado proximal) ou baixo (delgado distal ou cólon); o Fatores desencadeantes: intraluminais e extraluminais funcional ou mecânica; o Grau de oclusão: total ou parcial; o Tempo de instalação: agudo ou crônico; o Situação de irrigação e vitalidade de alças: simples ou estrangulada; o Forma de obstrução: alça aberta (obstrução apenas distal) ou fechada (obstáculo em dois níveis); - - - - - - - - - - - - - - - - - Estado Geral: alteração do estado geral, com desidratação, hipotensão arterial. A febre pode ocorrer quando há complicação do quadro. Dor abdominal: tipo cólica, início brusco, evolui em salvas, de localização variável, dependendo da etiologia. Quando há mudança do padrão da dor para continuada, pode- se suspeitar de comprometimento vascular. o Dores em região superior de abdome indicam obstrução intestinal alta (estenose pilórica, tumores duodenais, tumores periampulares). o Dores em região periumbilical demonstram a ocorrência de obstrução de intestino delgado (bridas e aderências, hérnias encarceradas, bolo de áscaris, estenoses inflamatórias, tumores e carcinomatose). o Dores em hipogástrio sugere obstrução de intestino grosso (hérnias encarceradas, corpo estranho, intussuscepção, volvo de cólon, fecaloma, tumores de cólon e reto). Náuseas e vômitos: surgem precocemente nas obstruções altas, eliminando material estagnado e de aspecto biliar. Nos quadros onde há obstrução baixa, pode não haver vômitos com conteúdo entérico. Parada de eliminação de fezes e gases: estes são sintomas tardios e demonstram a completa obstrução do intestino. Quando há suboclusão intestinal, o paciente pode continuar a eliminar gases. Distensão abdominal simétrica ou assimétrica: surge após poucas horas da instalação do quadro, sendo discreta ou inexistente nos quadros de obstrução alta. MECÂNICAS FUNCIONAIS Manifestações Clínicas Delgado Cólon Íleo Paralítico Dor abdominal em cólica na região média e reincidente diminuem com a progressão da distensão, em virtude do comprometimento da motilidade Dor abdominal e distenção abdominal - Náuseas, vômitos, distensão abdominal - Dor imprecisa e não tipo cólica - Ruídos hidroaéreos diminuídos desde o início Borborigmo audível Como a neoplasia é a causa mais comum, observa-se perda de peso, sangramento retal, alteração de hábitos intestinais Pseudo-Obstrução Intestinal Vômitos precoces com bile e muco quando obstrução alta fecaloides (cor e odor) quando obstrução baixa Vômitos são tardios ou nem ocorrem - Crônicos (+3 m) - Distensão e dor ebdominal - Graves com náuseas e vômitos Soluços, constipação, não eliminação de gases diarreia paradoxal quando obstrução parcial Constipação, falta de eliminação de gases de caráter progressivo Exame Físico Apresenta-se defesa de parede à palpação, presença de massas; Ruídos hidroaéreos altos, agudos e metálicos durante as cólicas; o Mas podem se ausentar com a evolução do quadro; Com a evolução ocorre desidratação e aumento da distensão abdominal; Taquicardia, hipotensão e desidratação; Febre sugere estrangulamento; Observar a presença de cicatrizes prévias; Toque retal para pesquisa de massas intraluminais ampola retal totalmente livre de fezes (sinal de Hochemberg) aumenta as suspeitas de obstrução sangue suspeita-se de carcinoma ou intussuscepção; - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 1. Mecânicas a. Localização Obstrução da Luz intestinal (intraluminal) Íleo biliar e meconial; Impactação por bolo de áscaris, bário ou bezoar; Pólipos e corpos estranhos; Neoplasia de adenocarcinoma de cólon: Doenças da Parede Intestinal Congênitas: atresias e estenoses, divertículo de Meckel; Traumáticas; Inflamatórias: doença de Crohn, diverticulites; Neoplasias; Endometriose Intussuscepção intestinal; Doenças Extrínsecas (extraintestinal) Aderências e bridas; Massas: pâncreas anular, vasos anômalos, abscessos, hematomas, neoplasia, volvo; Hérnias; 2. Funcional Alterações de motilidade do int. delgado Íleo paralítico, com várias causas: pós- laparotomia, distúrbios eletrolíticos, fármacos, processos inflamatórios, hemorragias, isquemias, sepse ou processos torácicos; Íleo espástico; Oclusão vascular; Pseudo-obstrução: dismotilidade de todo TGI: por distúrbios neuromusculares, diabetes, Parkinson ou AVE; Síndrome de Ogilvie: pseudo-obstrução com distensão colônica – ascendente e transverso- por disautonomia nervosa; - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Etiologia Quadros de obstrução intestinal são responsáveis por 20% das internações hospitalares; Mortalidade é <10%; 80% são no intestino delgado; Incidência igual entre homens e mulheres; Principais causas: aderência > hérnia estrangulada > neoplasia intestinal; Obstruções em alça fechada são – frequentes, porém + mortais 35%; Adultos: aderências, hérnias e doença de Crohn; Idosos: neoplasias, diverticulites e fecalomas; Lactentes e crianças: intussuscepção, hérnias externas e “bolo’ de áscaris ATENÇÃO para o megacólon chagásico no Brasil - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Obstrução Mecânica Simples 1. Acúmulo de gases (ar engolido e gás da fermentação de bactérias) e líquido acima da área obstruída, com alteração da motilidade intestinal; 2. Perda de líquido e eletrólitos por vômito e sequestro na alça intestinal; 3. Acúmulo de líquidos e eletrólitos na luz intestinal diminuição da absorção e ↑ da secreção oligúria; 4. A grande secreção do sangue para a luz intestinal leva ao comprometimento das porções proximais à obstrução intestinal congestão venosa aumento de distensão de alças edema de parede; 5. O edema provoca perda de líquidos através da serosa para a cavidade peritoneal; 6. As perdas levam à hemoconcentração, hipovolemia, insuficiência renal, choque e morte; Inicialmente, a peristalse está ↑ na tentativa de propulsão do bolo fecal, intercalados com momentos de acalmia, variando conforme a altura da obstrução; o Variação de 3 a 4 minutos na alta; o E 10 a 15 minutos na baixa; Os peristaltismos podem agravar o edema de parede por traumatiza-la. Com o tempo ocorre fadiga da musculatura lisa com paralisia de movimentos intestinais ausência de ruídos hidroaéreos (RHA) Obstrução Intestinal com Estrangulamento Ocorre comprometimento do suprimento sanguíneo por compressão dos vasos mesentéricos isquemia tecidual necrose; Isquemia + acúmulo de líquido e gases = pequenos sangramentos na luz e paredes; Ocorre também liberação de substâncias tóxicas geradas pelo segmento necrosado; Obstrução em alça fechada Obstrução em extremidade proximal e distal simultaneamente; Progride rapidamente para estrangulamento; Translocação bacteriana através da parede intestinal para peritônio; Epidemiologia Fisiopatologia Comprometimento da válvula ileocecal (VIC), gerando obstrução e dilatação progressiva do cólon e comprometimento vascular; Íleo Paralítico Íleo adinâmico: alteração da resposta neuro- hormonal do intestino mais comum pós- cirurgias abdominais e extra-abdominais; Íleo espástico: devido hiperatividade; Íleo com oclusão vascular: incapacidade de coordenação da motilidade em função de isquemia; Distúrbios metabólicos: ex: hipocalemia, uremia ou diabetes descompensado; Síndromede Ogilvie: pseudo-obstrução com distensão colônica por disautonomia nervosa sofrimento vascular - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Laboratoriais Hemograma completo eritrócitos, hemoglobina, hematócrito, VCM, HCM, CHCM, RDW anemias; o Leucocitose com desvio à esquerda sugere estrangulamento, processo infeccioso ou perfuração; Glicemia: diabetes descompensado ocasionando obstrução funcional; Estudo de coagulação fatores de coagulação; Provas de função renal creatinina e ureia lesão renal; Dosagem sérica de eletrólitos Na+, K+, Cl- desidratação, hiponatremia, hipocalemia o Depleção de íons sódio e cloro são mais comuns nas obstruções do intestino delgado; o Deplação de potássio é vista em estágios mais avançados, geralmente por íleo metabólico; o Hipercalemia sugere comprometimento vascular; Gasometria arterial: acidose metabólica: aumento de lactato e diminuição de bicarbonato comprometimento vascular; o Alcalose: depende do grau de depleção do cloreto. Exames de Imagem Deve responder algumas questões: o Existe obstrução parcial ou total? Ausência de flatos e evacuações sugere total; ausência de flatos ou diarreia paradoxal com mais de 6-12 horas do início da dor sugere parcial; o Qual a localização? Observe a presença e grau de vômitos, distenção abdominal e distribuição de gases nas radiografias; o Qual a causa? o Há sinais de estrangulamento ou isquemia? sinais de diagnóstico diferencial; RX de abdome e TC possuem a mesma sensibilidade para quadros obstrutivos e não obstrutivos; Em casos de íleo paralítico, a laparotomia é padrão-ouro; Pode ser necessária a aplicação e contraste para diferenciação, principalmente em casos de obstrução proximal; Porém pode dificultar o diagnóstico em alguns casos, o paciente pode vomitar ou o contraste pode demorar chegar ás porções distais; Radiografia Simples Obstrução Gástrica: na radiografia observa-se deslocamento inferior do colon transverso por contorno com densidade de partes moles consequência da distensão gástrica por acúmulo de líquido e gases; o Local de maior frequência é na região antro-piloro-duodenal; Diagnóstico Obstrução de delgado: observada mudança súbita de calibre intestinal, com alças proximais à obstrução dilatadas e distais colabadas; o Tendência central o Também se apresenta níveis líquidos, padrão de empilhamento de moedas, afastamento de alças contíguas, distensão das alças... o Notamos também com clareza o desenho das válvulas coniventes que ocupam quase todo o diâmetro da alça. o As alças distais terão pobreza de gases obstrução completa o Causa mais comum são as bridas: tecido cicatricial após cirurgia ou inflamação abdominal pode unir diferentes órgãos ou partes do intestino entre si; Empilhamento em moedas Obstrução Colônica: apresenta-se dilatação gasosa de alças proximais à obstrução e diminuição de gases em cólon distal causada por adenocarcinomas primário de cólon, preferencialmente em sigmoide; o Tendência periférica; o Alça dilatada, sem haustrações em forma de U invertido causada por obstrução em volvos ou torção do intestino, principalmente em sigmoide sinal de “bico de pássaro” o Volvo de sigmoide identifica-se pela dilatação da alça associada ao megacólon, com impactação fecal “miolo de pão” Endoscopia Excelente para diagnosticar tumores baixos ou presença de volvo de sigmoide; Colonoscopia é melhor em casos mais baixos. Ultrassonografia Está sendo usado mais atualmente, com excelentes resultados. Tomografia Útil somente em 20% dos casos onde os estudos radiográficos não esclarecem as obstruções; Boa em estadiamento de lesões e localização de lesões; Vemos na imagem tomográfica uma alça dilatada em forma de U ou C, com a distribuição radial de vasos mesentéricos tracionados e convergentes em direção ao segmento que sofreu a torção. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Bastante complexo e multidisciplinar; Mas para médicos experientes no ramo é evidente pela história e exame clínico; Estrangulamento: taquicardia, taquipneia, alterações do nível da consciência, oligúria, febre, leucocitose - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 1. Analgesia 2. Descompressão Gastrointestinal 3. Reposição hidroeletrolítica 4. Terapêutica definitiva Medicamentoso Antibióticos de largo espectro devem ser utilizados profilaticamente com cobertura para bactérias gram-negativas e anaeróbicas; o Sobretudo na existência de sinais de estrangulamento; - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Não-medicamentoso Reposição de líquidos e eletrólitos cerca de 12 a 24 horas antes da operação; o Intravenosos: soluções de Ringer, Hartmann ou salina a 0,9% + 20 mmol/L de K+ nas duas últimas soluções; Jejum; Descompressão do trânsito intestinal por sonda nasogástrica; Sondagem vesical para monitorar débito urinário; Se não ocorrer melhora espontânea em 24 ou 48 horas, avalia-se a necessidade de cirurgia; Fecalomas são tratados primariamente com esvaziamento manual, solução glicerinada com soro morno pelo reto; Volvo de sigmoide: se não houver necrose, pode ser feita retossigmoidoscopia descompressiva; - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Diagnósticos Diferenciais Tratamento Cirúrgico Abdome agudo obstrutivo causados por hérnia estrangulada, volvo de sigmoide, intussuscepçao, neoplasia intestinal, e isquemia mesentérica devem receber tratamento cirúrgico com maior brevidade possível. Nas obstruções colônicas o primeiro passo é a descompressão, sendo necessária cirurgia na maioria das obstruções mecânicas. A lesão obstrutiva deve ser removida sempre que possível. Hemicolectomia direita seguida de ileotransversoanastomose é o procedimento de escolha na presença de lesões no cólon direito sempre que possível. Quando há contaminação grosseira e peritonite a anastomose primária deve ser evitada, sendo a realização de estoma temporário a melhor conduta. Nas obstruções do cólon esquerdo, sigmoide e reto, habitualmente por neoplasia, pode-se realizar colostomia derivativa, à Hartmann (terminal com seputamento do coto distal) ou prosseguir à ressecção com anastomose primária e irrigação do cólon o Na escolha pela anastomose primária, é prudente a realização de ileostomia protetora visando a reduzir complicações como deiscência de anastomose. Quando há estrangulamento, após liberação de aderências, o cirurgião deve avaliar a viabilidade da alça acometida o Sinais de viabilidade incluem: Integralidade da camada serosa, coloração rósea, peristaltismo visível, pulsação de vasos mesentéricos Nos casos de inviabilidade da alça – perda da serosa, cor roxa ou preta, odor, trombose de vasos mesentéricos, ausência de peristaltismo – deve-se proceder à ressecção do segmento com anastomose primária ou confecção de estoma dependendo da condição clínica do paciente. Adenocarcinoma: cirurgias agressivas, sendo as afecções direitas tratadas com ressecção primária e anastomose ileocólica; e as esquerdas levando em consideração cada caso particular; Fecaloma: em último caso, com ressecção do sigmoide, com ou sem anastomose primária; Volvo de sigmoide: sem necrose procede com retossigmoidoscopia; com necrose, necessita de ressecção da alça, fechamento da ampola retal e colostomia proximal terminal; Síndrome de Olgivie: colonoscopia para descompressão