Prévia do material em texto
CENTRO UNIVERSITÁRIO JORGE AMADO BACHARELADO EM SERVIÇO SOCIAL VERÔNICA COSTA SANTOS Controle social e Fiscalização no âmbito do SUAS SALVADOR/BA 2021 O assistente social tem sido requisitado majoritariamente pelo Estado, para exercer suas atribuições, vinculadas as políticas públicas e sociais, no enfrentamento das expressões da “questão social”, especialmente aquelas que impactam no desenvolvimento econômico e social no capitalismo. De acordo com Torres, (2017, p. 03), o trabalho do assistente social, assim como o dos demais trabalhadores, é historicamente determinado, subordinado ao sistema capitalista, a reprodução e domínio material e político do capitalista. Por meio de um conjunto de saberes decorrentes do seu processo formativo, o assistente social constrói respostas profissionais direcionadas as demandas apresentadas pela população usuária, evidenciando a condição social desta população. Compreender a consolidação da profissão envolve considerar o assistente social como um trabalhador assalariado, o que possibilita a reflexão sobre a relação de compra e venda desta força de trabalho aos empregadores na esfera pública e privada, fatores que interferem diretamente no trabalho e na autonomia deste profissional. A Política de Assistência Social se constitui como um dos âmbitos privilegiados de atuação profissional e um dos temas de destaque no Serviço Social brasileiro recente. Enquanto política pública de Proteção Social, a assistência social consiste-se em uma das propostas de enfrentamento às sequelas da questão social na atualidade, no mesmo momento em que, a profissão Serviço Social vem assumindo o protagonismo histórico na elaboração de subsídios que respaldam a assistência social no Brasil. As políticas sociais ressalta Netto (2011), são uma forma de enfrentamento as sequelas do capitalismo, e surgem de acordo com a pressão dos trabalhadores. Possuem o sentido de assegurar as condições adequadas ao desenvolvimento do capitalismo monopolista e atendem tanto às necessidades do capital quanto do trabalho, sendo que para muitos se trata uma questão de sobrevivência. [...] configura-se, no contexto da estagnação, como um terreno importante da luta de classes: da defesa de condições dignas de existência, face ao recrudescimento da ofensiva capitalista em termos do corte de recursos públicos para a reprodução da força de trabalho. (BEHRING, 2009, p. 24) Historicamente, existe a relação entre a profissão de Serviço Social e a execução de políticas sociais geridas pelo Estado, e atualmente este é o grande responsável pela ampliação do mercado de trabalho profissional, amplo e diversificado. O assistente social é o profissional habilitado para propor, elaborar e executar políticas, programas e serviços. Por isso, ele é o profissional que tanto está “na ponta”, executando políticas sociais, quanto está no planejamento e gestão destas. Cabe ressaltar que, as transformações contemporâneas que afetam o mundo do trabalho, seus processos e sujeitos provocam redefinições profundas no Estado e nas políticas sociais, desencadeando novas requisições, demandas e possibilidades ao trabalho do assistente social no âmbito das políticas sociais. Ao referenciarmos a política de assistência social como política de proteção social não contributiva no Brasil como forma de enfrentamento dos efeitos da questão social, podese afirmar que ela se constitui num campo de atuação profissional dos assistentes sociais. Dessa maneira, a atuação dos assistentes sociais na política de assistência social possui relevância pública na produção de impactos imateriais na vida da população atendida. Historicamente a política de assistência social esteve ligada à ajuda, a filantropia, e a caridade, contudo, com as conquistas da Constituição Federal de 1988, Lei Orgânica de Assistência Social - LOAS, a PNAS, o SUAS, e outras regulações recentes, este cenário vem se modificando, o que implica em novos desafios que necessitam ser compreendidos e desvendados. Ressalta-se que as mudanças ocorridas a partir de 2004, com a regulamentação da PNAS por meio da configuração de um Sistema de Proteção - SUAS que prevê a articulação de serviços, programas, projetos e benefícios socioassistenciais, hierarquizados por níveis de gestão de acordo com a complexidade da proteção a ser garantida e do porte de cada município da federação, esse processo exigiu também novos modos de organização, processamento, produção e gestão do trabalho na assistência social. No que se refere à gestão do trabalho, temos aprovação da Norma Operacional Básica de Recursos Humanos - NOB-RH, em 2006 que se constituiu em um relevante instrumento político normativo, pois define diretrizes e parâmetros gerais para a organização e gestão do trabalho profissional na assistência social, reconhecendo a especificidade desse campo de atuação. No entanto, destaca-se que a concretização da NOB/RH/2006 ainda é um desafio (RAICHELIS, 2011) Podemos identificar diversos avanços no que se refere a construção da política de assistência social no Brasil. Verifica-se que após se passarem uma década de aprovação da PNAS/2004, atualmente a assistência social conta com uma ampla rede de proteção social em todo o país, constituída por mais de oito mil Centro de Referência da Assistência Social - CRAS e mais de dois mil Centro de Referência Especializado da Assistência Social – CREAS e também possui um número expressivo de trabalhadores e trabalhadoras responsáveis em operacionalizar a política de assistência social (MDS, 2011). Cabe ressaltar que, ao mesmo tempo em que, se colocam conquistas para essa política, identifica-se também dificuldades para a sua operacionalização, explica Raichelis (2011) a política de assistência social tem marcas profundas pelo seu histórico de desprofissionalização, com estruturas improvisadas e descontínuas, baseadas em uma cultura autoritária e assistencialista. E ainda, a maioria dos municípios brasileiros são de pequenos portes e possuem fragilidades em relação as estruturas institucionais, rotinas técnicas e administrativas incipientes e recursos humanos reduzidos e pouco qualificados. Ressaltamos que especificamente, com a implantação do SUAS, ampliou-se consideravelmente o mercado de trabalho para os assistentes sociais e demais profissionais atuantes nessa área. Embora a política de assistência social seja um campo de trabalho multiprofissional e interdisciplinar, composto por diversas áreas de atuação, ela se constitui historicamente como uma das principais mediações do exercício profissional dos assistentes sociais, sendo reconhecidos socialmente (e se autorreconhecendo) como os profissionais de referência desta política. (RAICHELIS, 2009). Segundo pesquisa realizada pelo CFESS (2005), sobre o perfil dos assistentes sociais, identificou-se que majoritariamente os assistentes sociais são funcionários públicose que atuam predominantemente na formulação e execução de políticas sociais com destaques para a saúde e assistência social (IAMOMOTO, 2009). A política de assistência social tem sido alvo de discussões, principalmente após a implantação da gestão do SUAS. Assim, é importante tratar questões que envolvem a implementação desse sistema e o trabalho dos profissionais que atuam na gestão e operacionalização da política em questão. Nesse momento, destaca-se o trabalho do assistente social. Após uma década da PNAS e do SUAS, percebe-se na política de assistência social grandes avanços no que se refere a organização e capilaridade dos serviços em todo território nacional, mas, cabe ressaltar que é um processo em movimento e possui suas contradições. Contudo, mesmo diante dos desafios, entendemos que a atuação do assistente social na política de assistência social orientado pelo conjunto de saberes específicos da profissão, composto essencialmente pelo desenvolvimento de três dimensões: a dimensão teórico-metodológico, dimensão ético-política e adimensão técnicooperativa, proporcionam ao profissional a superação das abordagens tradicionais conservadoras da assistência social e os capacitam para a implementação de ações que parem de uma análise crítica sobre a particularidade da questão social e fortaleça a assistência social como política pública de ampliação de proteção social. A Constituição Federal de 1988 prevê a participação da população, por meio de organizações representativas, no controle das ações de Estado. O objeto do controle social abrange a elaboração e execução orçamentária dos recursos arrecadados, a fiscalização e a prestação de contas de sua utilização, sob a ótica não apenas da legalidade ou regularidade formal dos atos, mas, também, da legitimidade, economicidade, oportunidade e adequação ao propósito de assegurar o alcance do bem comum e do interesse público. Na área da assistência social, foram criados os conselhos de assistência social – incumbidos de exercer a orientação e controle dos fundos de assistência social, bem como inscrever e fiscalizar as entidades e organizações de assistência social; os conselhos do idoso – com competências para exercer a supervisão, o acompanhamento, a fiscalização e a avaliação da política nacional do idoso, no âmbito das respectivas instâncias político-administrativas; e as instâncias de controle social do Programa Bolsa Família – encarregadas de acompanhar, avaliar e subsidiar a fiscalização e monitorar, nos municípios, o processo de cadastramento, da seleção dos beneficiários, da concessão e manutenção dos benefícios, do controle do cumprimento das condicionalidades, da articulação de ações complementares para os beneficiários do programa e da gestão do programa como um todo O controle social é a efetiva participação do cidadão na gestão pública na fiscalização, no monitoramento e no controle das ações da Administração Pública, como mecanismo combater a corrupção e fortalecer a cidadania. Desta forma a necessidade de implantar uma Administração Pública Gerencial, isto é, a ideia que o Estado se transformando em um Estado social, descentralizando e desburocratizado mediante autonomia da Administração indireta, no qual a eficiência tornou-se essencial através de uma maior flexibilidade da administração (PEREIRA,1996). Assim a implantação do modelo gerencial provoca mudanças nas formas de controle onde se passou a utilizar a expressão controle social na Administração Pública. Neste processo a Assistência social surge como política social não contributiva dedicada a garantia do atendimento as necessidades sociais básicas que conforme (PEREIRA,2007,P.36) " as necessidades humanas básicas estão na base da concretização de direitos fundamentais por meio das políticas sociais" concretizadas através do Sistema Único de Assistência Social - SUAS. O SUAS transforma a práxis dos direitos sociais antes compreendida como caridade, filantropia e assistência cidadão e atualmente é instituído pela constituição Federal de 1988- a Assistência Social é um direito e dever do Estado. assistência social começará a ser inscrita como direito social, produzido por uma participação ativa da população com um Poder Executivo responsável e permeado por um controle social que definirá os caminhos a ser percorridos pela política. Os instrumentos que devem romper com a cultura assistencialista devem ser perseguidos por todos queles que lutam, na sociedade brasileira, pela justiça social, Apesar de herdeiros de herdeiros de um passado crivado de preconceitos e de instrumentos autoritários na área social, também é possível identificar movimentos de rebeldia e de contraposição a esse passado, o que credencia a sociedade brasileira a tornar a assistência social uma equação possível com o direito social." (COUTO,2006,p.187). Assistência Social é uma política não contributiva, ou seja, deve atender a todos cidadãos que dela necessitam. Desta forma realizar ações integradas entre as iniciativas públicas , privadas e da sociedade civil, tendo como objetivo garantir a proteção social a família a infância a adolescência e velhice amparo a criança e adolescentes carentes a promoção da integração ao mercado de trabalho e a reabilitação e promoção de integração ao mercado de trabalho e a reabilitação e promoção de integração a comunidade para as pessoas com deficiência e o pagamento de benefícios aos idosos e as pessoas com deficiência (BRASIL,1993). Em 2005, é instituído o Sistema Único de Assistência Social- SUAS - descentralizado e participativo que tem por função a gestão de conteúdo específico da Assistência Social no campo da proteção social brasileira. Consolida o modo de gestão compartilhada, o condicionamento e a cooperação técnica entre os três entes federativos que de modo articulado e complementar operam a proteção não contributiva de seguridade social no campo da assistência social. Desta forma os conselhos contribuem no fortalecimento e nas decisões do direcionamento da Política Pública do SUAS, como instrumento de concretização e democracia. Entretanto, a ampliação dessa democracia vai depender de vários fatores relacionados a sua forma de representação e funcionamento. No entanto, há uma necessidade de garantir a participação destes enquanto sujeitos de direitos e não mais sub-representações pelas secretarias e/ou Entidades da área de Assistência social, rompendo com a lógica da tutela tão presente na área. Para fomentar a participação destes nas instancias deliberativas, é imprescindível a criação de espaços onde eles possam discutir suas necessidades sem medos. Neste sentido a plena divulgação pelos órgãos dos direitos de seus usuários configura-se como instrumento fundamental de promoção do protagonismo dos mesmos espaços como conferência de assistência social são de suma importância uma vez que garante uma discussão prévia e organizada das ações e possibilita aos usuários participação na organização da política de assistência social. Enfim, o controle social é uma importante ferramenta do SUAS na garantia e nas defesas de uma política que vise os direitos básicos de todos os cidadãos em vulnerabilidade. Desta forma, o SUAS vem trazendo um novo paradigma de política social que busca a garantia dos direitos sociais básicas a uma população antes excluída do atendimento na ótica do direito. Pôde-se perceber a importância de se repensar e investir no trabalho de base com os usuários nos territórios onde estão instalados os equipamentos públicos CRAS e CREAS e onde são prestados os serviços socioassistenciais junto a população em situação de vulnerabilidade social. O protagonismo da população precisa ser estimulado por meio de processo pedagógico de experimentação de relações democráticas e participativas junto aos grupos de usuários dos serviços, programas, projetos e benefícios da assistência social, nas comissões de bairro nos conselhos locais nos fóruns e articulações com os diversos movimentos populares. Assim o controle social é uma ferramenta decisiva na qualidade e na eficiência do SUAS rompendo com práticas burocráticas e centralizadas para um novo paradigma de direitos sociais, isto é, participação, descentralização, fiscalização e controle de políticas sociais. Entende-se que democratizar o Estado é criar forma de públicas de controle popular sobre ação do Estado, para isso temos que ser consciente que essa democratização é uma construção um processo inacabado que incorpora diferentes atores em diferentes espaços. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS BATTINI, Odária; BAPTISTA, Myrian Veras. (Orgs). A Prática Profissional do Assistente Social: teoria, ação, construção do conhecimento. São Paulo: Ed. Veras, 2009. BEHRING, Elaine Rosseti. Política Social no contexto da crise capitalista. In: Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009. BRASIL, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Gestão do Trabalho no âmbito do SUAS: Uma contribuição necessária. Brasília: MDS; Secretaria Nacional de Assistência Social, 2011. COUTO, B ODireito Social e a Assistência social na Sociedade Brasileira: Uma equação possível? Ed, Cortez: São PAULO, 2006. Gestão do Trabalho no âmbito do SUAS: Uma contribuição necessária. Brasília: MDS; Secretaria Nacional de Assistência Social, 2011. IAMAMOTO, Marilda Villela. Renovação e Conservadorismo no Serviço Social: ensaios críticos. São Paulo: Cortez, 1992. IAMAMOTO, Marilda Villela. Os espaços sócio-ocupacionais do assistente social. In: Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009. IAMAMOTO, Marilda Villela; CARVALHO, Raul de. Relações Sociais e serviço social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 36 ed. São Paulo: Cortez, 2012. _______. Intervenção profissional do assistente social e as condições de trabalho no Suas In: Revista Serviço Social e Sociedade, n. 104. São Paulo: Cortez, 2010. NETTO, José Paulo. Capitalismo Monopolista e Serviço Social. 8 ed. São Paulo: Cortez, 2011. Orientações para Conselhos da Área de Assistência Social Brasília, 2007 _______. O Trabalho e os Trabalhadores do SUAS: O enfrentamento necessário na Assistência Social. In: BRASIL, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. _______. O significado sócio-histórico da profissão. In: Serviço Social: Direitos Sociais e Competências Profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009. PEREIRA, Da administração pública burocrática a gerencial. Revista do Serviço social Publica, 1996. PEREIRA, P. Necessidades humanas: Subsídios a crítica do mínimo sociais. Editora Cortez ;São Paulo, 4° ed. 2007. RAICHELIS, Raquel. O assistente social como trabalhador assalariado: desafios frente às violações de seus direitos. In: Revista Serviço Social e Sociedade, n. 107. São Paulo: Cortez, 2011.