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1 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 3 UNIDADE 1 - COMPORTAMENTO NO TRÂNSITO E SUAS ALTERAÇÕES........... 5 1.1 Behaviorismo: o estudo do comportamento .......................................................... 5 1.2 Comportamento e trânsito ..................................................................................... 8 UNIDADE 2 - OS RISCOS DAS PSICOPATOLOGIAS E DE DETERMINADOS COMPORTAMENTOS DO MOTORISTA PARA A SOCIEDADE ............................ 13 2.1 O papel do psicólogo ........................................................................................... 16 UNIDADE 3 - PSICOPATOLOGIA ........................................................................... 19 UNIDADE 4 - TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO DECORRENTES DO USO DE SUBSTÂNCIA PSICOATIVA (F10-F19) .................. 27 4.1 Definições e conceitos básicos ........................................................................... 27 4.2 Os efeitos das substâncias psicoativas ............................................................... 31 4.3 Os riscos do uso, abuso e dependência de substâncias para a condução de veículos ..................................................................................................................... 34 4.4 Álcool e trânsito ................................................................................................... 41 4.5 Detecção e fiscalização do uso de álcool e outras drogas por motoristas .......... 44 UNIDADE 5 - TRANSTORNOS DO HUMOR (AFETIVOS) – F30-F39 ..................... 48 5.1 Transtornos depressivos (F32 Episódios depressivos / F33 Transtorno depressivo recorrente) .............................................................................................. 48 5.2 Transtorno afetivo bipolar (F31) .......................................................................... 52 UNIDADE 6 - TRANSTORNOS NEURÓTICOS, TRANSTORNOS RELACIONADOS AO STRESS E TRANSTORNOS SOMATOFORMES (F40-F48) ............................. 55 6.1 Transtornos fóbico-ansiosos (F40) ...................................................................... 55 6.2 Reações ao stress grave e transtornos de adaptação (F43) ............................... 57 UNIDADE 7 - ESQUIZOFRENIA, TRANSTORNOS ESQUIZOTÍPICOS E TRANSTORNOS DELIRANTES (F20-F29) .............................................................. 59 UNIDADE 8 - TRANSTORNOS DA PERSONALIDADE E DO COMPORTAMENTO DO ADULTO (F60-F69) ............................................................................................ 62 UNIDADE 9 - TRANSTORNOS EMOCIONAIS E DE COMPORTAMENTO COM INÍCIO USUALMENTE OCORRENDO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA (F90- F98) ........................................................................................................................... 66 2 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 10 - TRANSTORNOS MENTAIS ORGÂNICOS, INCLUINDO SINTOMÁTICOS (F00-F09) ...................................................................................... 68 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 70 3 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. INTRODUÇÃO O trânsito é um sistema dinâmico que promove a mobilidade, ou seja, permite que as pessoas se aproximem ou se afastem. Trânsito é definido como o conjunto de deslocamentos de pessoas e veículos nas vias públicas, dentro de um sistema convencional de normas, que têm por fim assegurar a integridade de seus participantes (ROZESTRATEN, 2015, p.4). O sistema de trânsito é constituído pelo indivíduo, as vias, os veículos e as normas, sendo o indivíduo considerado o elemento principal nesse sistema complexo e dinâmico. Ele é o mediador entre a via, o veículo e as normas, o que acaba por depositar no indivíduo uma grande responsabilidade, pois o que torna o trânsito mais ou menos violento é a forma como cada pessoa age e se coloca nesse espaço (SCHMITZ et al., 2014). A ação humana no trânsito é influenciada pela sua capacidade cognitiva de entender as informações recebidas, pelas suas habilidades em saber o que fazer com as informações, pela gestão de suas emoções, como também pelas características de personalidade (SCHMITZ et al., 2014, p. 20). Ao se estudar o trânsito e, especificamente, os acidentes de trânsito, observa-se que estes podem ocorrer devido a falhas mecânicas, problemas na sinalização, ou, principalmente, estão diretamente relacionados à figura do homem. Seja como condutor de um veículo ou como pedestre, o indivíduo é um grande responsável pelos acidentes no trânsito devido aos seus comportamentos ou devido a certas doenças ou deficiências físicas ou mentais que podem interferir em sua habilidade de dirigir um veículo automotor. No parágrafo anterior falamos de deficiências e doenças físicas e mentais, entretanto, nesta apostila, voltaremos nosso foco apenas às condições mentais que podem interferir negativamente – ou até mesmo impossibilitar a condução de um veículo. Espera-se que o psicólogo do trânsito, durante a avaliação psicológica para o trânsito, esteja apto para, ao analisar os instrumentos aplicados, identificar os candidatos que não se encontram aptos para conduzir um veículo automotor, entretanto, algumas doenças ou condições incapacitantes podem surgir posteriormente à avaliação psicológica, por isso, é preciso levar em conta que, em 4 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. qualquer momento de sua vida, um condutor pode desenvolver determinado quadro patológico (ou tornar-se deficiente) e, por isso, não mais ter condições de conduzir seu veículo de forma segura para si mesmo e para as demais pessoas que interagem no sistema de trânsito. Partindo-se do normal para o patológico, inicialmente recorreremos ao estudo do comportamento de forma a refletir como este pode ser um fator protetor ou de risco para o trânsito como um todo. Analisaremos alguns fatores de risco e a responsabilidade do psicólogo nesse contexto. A seguir, apresentaremos o conceito de Psicopatologia e detalharemos, de forma sintética, algumas doenças, síndromes ou condições que podem interferir negativamente na capacidade do indivíduo conduzir um veículo. Os principais materiais abordados foram livros, como Gazzaninga e Heatherton (2005), Sternberg (2010), Dalgalarrondo (2010), manuais, como CID-10 (1991, 2008), Mariuza e Garcia (2010), Pechansky, Duarte e De Boni (2010), dentre outros materiais devidamente citados ao longo da apostila e referenciados ao final da mesma. 5 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperaçãode dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 1 – COMPORTAMENTO NO TRÂNSITO E SUAS ALTERAÇÕES O estudo do comportamento é essencial para a Psicologia do Trânsito. O trânsito é um sistema constituído de vários subsistemas, sendo os três desses principais o homem, a via e o veículo. Dentre os três, o homem é o subsistema mais complexo, por isso o homem tem maior probabilidade de desorganizar o sistema trânsito como um todo (ROZESTRATEN, 2015). A partir de seus comportamentos, o condutor pode contribuir para o funcionamento desse sistema, assim como o mesmo pode apresentar certos comportamentos que desestabilizam o trânsito, o que resulta em situação de risco para o próprio condutor, seus passageiros, os pedestres, outros condutores e passageiros de outros veículos. Tendo em vista o papel do comportamento como fator de proteção ou de risco para o funcionamento do trânsito, o psicólogo do trânsito precisa compreender o que é comportamento, assim como relacionar os comportamentos positivos ou nocivos à variável trânsito para, assim, buscar atuar de forma a prevenir comportamentos de risco por parte dos condutores. Ressalta-se que: Comportamento é o objeto de estudo da Psicologia e trânsito a especificidade da Psicologia do Trânsito. Ao longo dos anos, a Psicologia do Trânsito cresceu, principalmente na direção de se constituir, mundialmente, como área de pesquisa e aplicação para compreensão de comportamentos e prevenção de acidentes (BIANCHI, 2016, p. 46). 1.1 Behaviorismo: o estudo do comportamento Para estudarmos o comportamento, inicialmente recorremos a uma importante escola psicológica – o behaviorismo (ou comportamentalismo) – que deu a ênfase necessária a este aspecto. O behaviorismo ou comportamentalismo preconiza uma abordagem mais científica da Psicologia e, em linhas gerais, enfatiza o papel das forças ambientais no comportamento humano (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005), mas, o que é comportamento? 6 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. O comportamento se refere às ações observáveis: movimentos corporais, ações intencionais como comer ou beber e expressões faciais como sorrir. O termo comportamento é empregado para descrever uma ampla variedade de ações físicas, sutis ou complexas, que ocorrem nos organismos, das formigas aos humanos (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p. 40). Segundo Papalia, Olds e Feldman (2006), segundo o comportamentalismo, o indivíduo mostra-se passivo perante seu desenvolvimento, já que o ambiente desempenha um papel principal, ou seja, as pessoas são reativas e o ambiente controla o comportamento. Os comportamentos (e a aprendizagem) ocorrem a partir de situações do ambiente, ou seja, cada estímulo ambiental desencadeia, no indivíduo, determinada resposta. “O esquema do comportamento e suas causas se resumem ao paradigma S-R, no qual S é o estímulo e R, a resposta, a sensação ou o comportamento. Essa é a visão de Watson e Skinner” (ROZESTRATEN, 2015, p.3). Para o behaviorismo há dois tipos de comportamento que merecem destaque para nós: o respondente e o operante. Segundo Schultz e Schultz (1992), no comportamento respondente “a resposta comportamental é suscitada por um estímulo observável específico” (p. 281), enquanto que no condicionamento operante “a resposta do organismo é aparentemente espontânea – no sentido de não estar relacionada com nenhum estímulo observável” (p. 281). O estudo do comportamento é essencial não apenas no contexto da Psicologia do Trânsito, mas em todas as situações nas quais se lida com o ser humano e se torne necessário, dentro de certos limites, prever certos tipos de comportamento. A questão é abrangente, pois atualmente há estudos que apontam íntima relação entre determinados comportamentos, saúde e doença. É difícil imaginar uma atividade ou um comportamento que não influenciem a saúde de alguma forma – para melhor ou pior, direta ou indiretamente, de imediato ou a longo prazo. Os comportamentos de saúde são comportamentos das pessoas para melhorar ou manter sua saúde. Exercitar-se com regularidade, usar protetor solar, seguir uma dieta com baixo teor de gordura, dormir bem, praticar sexo seguro e usar o cinto de segurança são comportamentos que ajudam a ‘imunizar’ você contra doenças e ferimentos (STRAUB, 2014, p. 145). Dentre esses comportamentos de riscos – muitos dos quais são adotados desde a juventude – os citados abaixo podem ocasionar risco de morte prematura, 7 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. deficiência e doenças crônicas. Alguns desses fatores interferem na saúde de modo imediato, outros em longo prazo e, ainda, há outros que prejudicam o indivíduo tanto no presente quanto no futuro: 1. Fumar e outras formas de abuso de tabaco. 2. Comer alimentos com alto teor de gorduras e baixo de fibras. 3. Não fazer atividades físicas suficientes. 4. Abusar de álcool e outras substâncias (incluindo as de prescrição). 5. Não usar métodos comprovados para prevenir ou diagnosticar doenças precocemente (exemplos: vacinas para gripe, decisões saudáveis relacionadas com o sexo, papanicolau, colonoscopias, mamografias). 6. Participar de comportamento violento ou que possa causar lesões involuntariamente (exemplo: dirigir intoxicado) (CENTER FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2010 apud STRAUB, 2014, p. 146). Este último item merece destaque para nossos estudos: observa-se que comportamentos de risco no trânsito interferem negativamente na saúde e no risco de morte. Entretanto, devemos ressaltar que, diferente de outras situações elencadas nos demais itens da citação anterior, o comportamento violento é uma situação muito delicada, pois pode causar danos à saúde não apenas do condutor, mas de todas as pessoas envolvidas no contexto do trânsito em determinado momento. Assim, reforça-se a gravidade de determinados comportamentos de risco adotados pelo condutor, já que pode ocasionar em consequências muito sérias, até mesmo fatais, do próprio condutor, seus passageiros, pedestres, outros condutores e passageiros que podem se relacionar diretamente com a situação. Os comportamentos podem ser reforçados de modo positivo, negativo, ou serem punidos. Essas respostas ao comportamento podem desencadear diferentes reações no indivíduo, inclusive o aumento da probabilidade de ocorrência de determinado comportamento, ou mesmo a extinção do mesmo. Entende-se como reforço qualquer estímulo que possibilite o aumento da probabilidade de resposta, podendo os reforços ser positivos ou negativos (MAIA, 2008). Os reforços são mais eficazes quando seguem um comportamento imediatamente. O reforço positivo consiste em dar uma recompensa, como comida, troféu, dinheiro, elogio – ou brincar com um bebê. O reforço negativo consiste em tirar alguma coisa que o indivíduo não gosta (conhecido como evento aversivo), como, por exemplo, um ruído intenso (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006, p. 73). 8 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação dedados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Importante não confundir os conceitos de reforço negativo e punição. Enquanto o reforço negativo consiste em retirar do indivíduo algo que ele não goste (o que faz com que ele se sinta beneficiado com isso), a punição é definida como um estímulo experimentado após um comportamento (bater numa criança ou aplicar um choque elétrico num animal) ou retirar um evento positivo (não permitir assistir televisão ou ir ao recreio). No contexto do trânsito, um exemplo de reforço positivo seria um pai dar um automóvel de presente ao filho que completou dezoito anos há poucos meses e que, nesse período, já foi aprovado no ENEM e conseguiu sua permissão para dirigir. Por outro lado, um reforço negativo seria retirar desse mesmo rapaz a obrigação de buscar e levar, em seu próprio carro, diariamente, seus três irmãos mais novos à escola (tarefa que ele não gostava de desempenhar habitualmente). Voltando ao nosso jovem especificamente, a punição seria o ato de o pai retirar o carro do rapaz após saber que o mesmo havia dirigido embriagado (apenas retirar o veículo, sem nenhum tipo de intervenção educativa que visasse conscientizar o mesmo sobre a legislação de trânsito, a proibição de se dirigir embriagado e suas devidas penalidades) e, principalmente, os riscos desse comportamento de risco para o jovem motorista e a sociedade em geral. De forma mais ampla, as penalidades acarretadas aos condutores que cometem alguma infração (tais como o pagamento de multa e a perda de pontos na CNH) seriam exemplos das punições regulamentadas pelo Código de Trânsito Brasileiro. Dependendo do tipo de reforço empregado, um comportamento pode se repetir ou se extinguir. A partir dessa lógica geral, certos comportamentos podem ser condicionados. Papalia, Olds e Feldman (2006) sintetizam a definição de comportamento operante ao afirmar que nesse tipo de aprendizagem a pessoa repete o comportamento que foi reforçado e cessa o comportamento que foi punido. 1.2 Comportamento e trânsito Como mostra a definição, a Psicologia do Trânsito estuda o comportamento de diversos personagens envolvidos no trânsito: A Psicologia no Trânsito, portanto, engloba o estudo do comportamento do indivíduo no seu deslocamento, seja ele o pedestre, o condutor, o ciclista, o 9 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. motorista profissional, o motociclista ou o passageiro, e suas consequências, ou seja, o comportamento de todos os usuários das rodovias e das redes viárias urbanas (SCHMITZ et al., 2014, p.19). Inicialmente, para se falar de comportamentos, especificamente em relação ao trânsito, torna-se necessário recorrer à legislação brasileira. Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, para que determinado comportamento seja realizado, é necessário conhecimento sobre o comportamento correto esperado, condições físicas e psíquicas para executá-lo, além de habilidade técnica para executá-lo (BRASIL, 1997 apud BIANCHI, 2006). Para se avaliar os conhecimentos dos candidatos a condutores, os Detrans elaboram uma prova de conhecimentos, a qual inclui conteúdos do Código Nacional do Trânsito, direção defensiva e noções de primeiros socorros (DETRAN/PR, 2015 apud BIANCHI, 2016). A avaliação das condições físicas dos candidatos fica a cargo dos médicos peritos em trânsito e, finalmente, cabe aos psicólogos peritos em trânsito avaliar os processos psicológicos e os comportamentos de risco associados à mortalidade no trânsito (BIANCHI, 2016). Um comportamento adequado no trânsito depende de um ambiente em que se possa ter o controle sobre as decisões tomadas, ou seja, deve haver um equilíbrio entre o ambiente, o estado de saúde do condutor e as condições do automóvel (SCHMITZ et al., 2014). Além disso, Para que se produzam comportamentos adequados no trânsito, são necessárias pelo menos três condições: - a presença de estímulos ou de situações que possam ser observadas e percebidas; quanto mais clara e menos ambígua a situação ou estímulo, melhor poderá ser a adaptação comportamental em relação a ela; - um organismo em condições de perceber e de reagir adequadamente aos estímulos percebidos; portanto, um organismo se deficiências sensoriais mentais ou motoras que prejudicariam sua reação; - uma aprendizagem prévia dos sinais e das normas que devem ser seguidas para que este organismo saiba se comportar adequadamente no sistema complicado do trânsito (ROZESTRATEN, 2015, p. 17). Segundo a Resolução 425/12 (CONTRAN, 2012), um dos aspectos que deve ser avaliado por métodos e técnicas psicológicas é o comportamento. O psicólogo deverá observar, no candidato à CNH e avaliar: 10 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 4.1. Comportamentos adequados às situações que deverão incluir tempo de reação simples e complexo, coordenação viso e audiomotora, coordenação em quadros motores complexos, aprendizagem e memória motora. 4.2. Capacidade para perceber quando suas ações no trânsito correspondem ou não ao que pretendia fazer (CONATRAN, 2012, p. 23). Ou seja, desde a avaliação psicológica dos candidatos a condutores de veículos, o psicólogo perito deve buscar instrumentos que permitam a análise do comportamento do candidato. Já nesse momento, o profissional deve buscar detectar comportamentos adequados, mas também tentar identificar determinados comportamentos que poderiam ser fatores de risco quando este candidato estiver conduzindo um veículo. Conforme foi mencionado na subseção anterior, cada estímulo desencadeia uma resposta (comportamento). No trânsito, o condutor fica exposto a uma série de estímulos, os quais são provenientes do ambiente geral (são percebidos, mas não têm influência direta sobre o comportamento, como, por exemplo, as árvores e a paisagem em geral), do ambiente de trânsito (o condutor precisa escolher, dentre esses, quais os mais importantes, por exemplo, ele acaba por prestar mais atenção aos estímulos à frente do veículo do que aqueles atrás do veículo), do próprio carro (ruídos, indicadores do painel, imagens nos retrovisores) e, finalmente, os estímulos provenientes do próprio organismo do condutor (fadiga, informações cinestésicas, sede, dores). Esses estímulos são captados pelos órgãos dos sentidos, são transformados em estímulos nervosos e, em nível cerebral, são convertidos em percepção, ou ativam os centros motores cerebrais provocando os comportamentos – as respostas aos estímulos (ROZESTRATEN, 2016). Segundo o mesmo autor, a partir dos estímulos do ambiente geral, do trânsito, do carro e de seu próprio corpo, o motorista pode apresentar variados comportamentos gerais (que não se relacionam diretamente com o trânsito, como olhar fora do trânsito e ligar rádio), de trânsito (englobam as ações diretas e indiretas relacionadas à atuação do motorista no trânsito, como direção, velocidade, atenção dirigida, frear) e individuais (possuem alguma finalidade, mas não ligada ao trânsito, como colocar óculos, conversar). O Relatório Global Status Report On Road Safety 2015, da OMS (2015), elucidou áreas nas quais se faz necessário intervir visando à diminuição da mortalidade no trânsito, as quais são velocidade, bebida, uso de equipamentos de 11Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. segurança, não uso de equipamentos de retenção infantil – comportamentos esses previstos na legislação de trânsito brasileiro como infrações. Todas essas áreas relacionam-se diretamente a comportamentos do condutor, dos quais é possível depreender que a Psicologia possui papel de destaque na adoção de medidas que visem à segurança viária. Outros autores também endossam esses dados, conforme é apresentado nos parágrafos a seguir. • Limites de velocidade Ultrapassar o limite de velocidade permitido na via, além de ser um comportamento de risco associado à direção insegura, também pode associar-se ao cometimento de outras infrações (STANOJEVIC et al., 2013 apud SCHMITZ; SANTOS; VON DIEMEN; GONÇALVES, 2014). • Uso de álcool Bebida e direção é uma combinação perigosa e, por isso, passível de penalidades no Brasil. Dirigir sob efeito de bebida alcoólica é um comportamento de risco do condutor, porém, em certas situações, mais que um comportamento de risco, o uso, abuso e a dependência do álcool (ou de outras substâncias psicoativas) pode se caracterizar como patologia (tema que será enfatizado nas próximas seções). Dirigir sob o efeito de álcool e outras substâncias psicoativas é um comportamento de risco, visto que estas alteram o entendimento das situações cotidianas e a percepção do que acontece ao redor do condutor (DE BONI, 2007; THIELEN, HARTMANN; SOARES, 2008 apud PECHANSKY et al., 2010, p. 54). “Um comportamento imprudente, negligente ou desatento no trânsito, muitas vezes potencializado com o uso de substâncias psicoativas, coloca em risco não somente a própria pessoa, como também terceiros” (SCHMITZ et al., 2014, p. 24). Estudos mostram, também, que para os condutores jovens o limite de alcoolemia deve ser menor, já que estes podem ter o dobro de chances de provocarem acidentes se comparados com condutores mais experientes (SCHMITZ; SANTOS; VON DIEMEN; GONÇALVES, 2014). 12 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Numa pesquisa que visou observar se há diferenças entre os padrões de consumo de álcool em motoristas profissionais e privados, Pechansky et al. (2010) puderam verificar que os motoristas privados apresentavam uma maior variação nas opções de consumo de substâncias psicoativas; se comparados com os motoristas profissionais, o primeiro grupo demonstrou proporções mais baixas de abuso de substâncias. • Outros comportamentos de risco Outros autores elucidam mais fatores que podem reduzir a concentração do condutor, tais como usar o telefone ao dirigir, assistir a equipamentos de vídeo enquanto dirige, usar equipamentos de som em volume alto, transportar animais soltos no veículo, transportar na cabine objetos que possam se deslocar durante o percurso (SEST/SENAT, 2009). É possível realizar uma análise desses comportamentos de risco. Exceder o limite de velocidade da via ou conduzir um veículo após ingerir bebida alcoólica são comportamentos classificados como orientados ao espaço externo do veículo, pois colocam em risco não apenas os ocupantes do veículo, mas também pessoas que não possuem nenhum tipo de relação direta com ele, mas se encontram no trânsito. Já comportamentos como não usar cinto de segurança ou capacete são orientados para o espaço interno do veículo, ou seja, inicialmente o condutor é a pessoa diretamente prejudicada por sua ação – excetuando-se situações em que os passageiros não utilizam o cinto de segurança. O comportamento de não utilizar equipamento de retenção infantil é uma questão a parte, pois, um menor é judicialmente incapaz e, portanto, depende de um responsável para que o comportamento adequado seja realizado (BIANCHI, 2016). 13 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 2 – OS RISCOS DAS PSICOPATOLOGIAS E DE DETERMINADOS COMPORTAMENTOS DO MOTORISTA PARA A SOCIEDADE Na seção anterior elucidamos a relação entre comportamentos de risco do condutor – excesso de velocidade, uso de bebidas alcoólicas, ausência de equipamento de proteção do condutor, passageiros e de proteção infantil, dentre outros – e a diminuição da segurança no trânsito, inclusive, propiciando a ocorrência de acidentes que podem colocar em risco a vida do condutor e de outras pessoas que se encontram no trânsito. O acidente é o maior exemplo do fracasso do comportamento do condutor no trânsito – nos casos em que esse evento foi decorrente de uma falha no fator humano (ROZESTRATEN, 2016): Dentre as falhas humanas, destacam-se as causas físicas e psíquicas, a busca intencional de risco e de emoções intensas, as condutas interferentes e as distrações, a falta ou excesso de experiência e estados psicofísicos transitórios decorrentes, por exemplo, do uso de substâncias psicoativas (SPAs) (SCHMITZ et al., 2014, p. 19-20). Da citação anterior depreende-se que, quando causados por falhas humanas, os acidentes podem ser fruto de comportamentos inapropriados e de risco por parte do condutor, dos quais se inclui o uso de substâncias psicoativas. Porém, os comportamentos não são os únicos fatores humanos responsáveis pelos acidentes, estes podem ser ocasionados devido a transtornos mentais – incluindo o uso, abuso e dependência de substância psicoativa como o álcool. Inicialmente, considera-se que, em relação aos comportamentos de risco no trânsito, todo motorista está suscetível a cometer erros e violações, que são formas inadequadas de conduta, ou seja, infrações (ABERG; RIMMÖ, 1998; KONTOGIANNIS, KOSSIAVELOU et al., 2002 apud FALLER et al., 2010). Erros e infrações são duas situações diferentes, no primeiro caso não há intenção, já no segundo caso sim, conforme mostra a citação: o erro significa um ato involuntário relacionado com o processamento cognitivo do indivíduo, enquanto a violação envolve intencionalidade, 14 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. estando relacionada a fatores motivacionais e sociais (FALLER et al., 2010, p. 64). Ou seja, de forma involuntária ou intencional todo motorista está sujeito a adotar um comportamento de risco. Os erros podem decorrer de distração ou mesmo do desconhecimento da legislação, por isso estratégias educativas são bastante eficazes (além de, em certas situações, a avaliação psicológica dos processos cognitivos ser essencial para se descartar possíveis condições que poderiam contribuir para a ocorrência de um erro devido à distração, por exemplo). Nas situações em que ocorre infração, ou seja, quando há intencionalidade nesse comportamento, as estratégias preventivas, educativas e de reabilitação são de suma importânciapara se evitar o cometimento de outras infrações (além de se cumprir a legislação de trânsito no que diz respeito às penalidades). O uso de substâncias psicoativas pode facilitar a ocorrência de erros (as mesmas atuam diretamente sobre o sistema nervoso central, interferindo nos processos cognitivos) e de infrações (a ação dessas drogas pode provocar reações como impulsividade, agressividade, sensação de ser invencível, dentre outras). Características da personalidade como impulsividade, agressividade, necessidade de autoafirmação, competitividade, por si só não são considerados transtornos mentais, mas, em determinadas situações, podem ser responsáveis por comportamentos de risco no trânsito. O psicólogo deve investigar se essas características são eventos isolados e que surgem em apenas determinadas situações, ou se, em conjunto, não representam a sintomatologia que caracteriza determinada condição psicopatológica. Nos parágrafos anteriores nos referimos a comportamentos de risco que podem inclusive provocar um acidente, mas há também outros comportamentos que podem não causar um acidente inicialmente, mas demonstram falta de cidadania e respeito com as outras pessoas que estão no trânsito, ou, ainda, mesmo que de forma indireta, podem se associar à ocorrência de acidentes, conforme mostra a citação a seguir: O trânsito é um fenômeno que engloba aspectos individuais, mas também reflete um comportamento social. No trânsito, quando uma pessoa apresenta comportamento alterado, aumenta consideravelmente o risco de promover prejuízo a todo um grupo. O sistema de trânsito é o espaço social 15 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. no qual a falta de senso comunitário mais se evidencia. Todo dia flagramos exemplos disso: condutores jogam lixo pela janela dos carros ou de coletivos, ultrapassam perigosamente sem necessidade, faltam com respeito ao pedestre, avançam sinal vermelho ou passam por uma poça d’água propositalmente para atingir alguém. Tais comportamentos refletem a falta de senso de coletividade, pois conviver e ter consciência social pressupõe considerar a outra pessoa, seus desejos, direitos, ter solidariedade e respeito, entre tantos outros valores, saber limitar os interesses pessoais e considerar também o coletivo e, assim, buscar o bem comum (SCHMITZ et al., 2014, p. 22-23). Entretanto, ainda direcionando nosso foco ao condutor, além dos comportamentos de risco há condições psicopatológicas associadas que tornam ainda maior o risco de acidentes, como elucida a citação a seguir: A influência do álcool e de outras substâncias psicoativas no dirigir, associada à alta prevalência de transtornos psiquiátricos, como Transtornos do Humor, Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) e Transtorno de Personalidade Antissocial, é relatada em vários estudos como um fator determinante para o aumento do risco de Acidentes de Trânsito (ATs) (MC- MILLEN, PANG et al., 1991; SUTTON, 1994; LAPHAM, SMITH et al., 2001; LAPHAM, C’DE BACA et al., 2006; MCMILLAN, TIMKEN et al., 2008). Conforme o National Comorbidity Survey – NCS, realizado em 2001 (LAPHAM, SMITH et al., 2001), 91% dos motoristas infratores apresentaram transtornos relacionados ao álcool pelo menos uma vez na vida, contra 44% da população geral norte-americana (KESSLER, MCGONAGLE et al., 1994). Entre esses motoristas, 50% das mulheres e 33% dos homens foram diagnosticados com ao menos uma comorbidade psiquiátrica além de abuso ou dependência de drogas, mais frequentemente Transtorno Depressivo Maior e TEPT (FALLER et al., 2010). Assim, como é possível observar na citação, dados consistentes de pesquisas internacionais mostram claramente a íntima relação entre os acidentes de trânsito e a associação perigosa entre transtornos psiquiátricos e uso de álcool e outras substâncias psicoativas. Resumindo, os acidentes e outras situações relacionadas a uma direção ofensiva e imprudente podem ser determinados pelo próprio condutor. Seus comportamentos de risco, a presença de alguma Psicopatologia – dos quais se inclui o uso e abuso de substâncias psicoativas – são os fatores que precisam ser bem conhecidos pelo psicólogo na busca de estratégias preventivas. 16 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 2.1 O papel do psicólogo Quando se pensa em avaliação psicológica para o trânsito, o psicólogo é levado a refletir sobre sua responsabilidade pelo processo, o qual inclui diferentes instrumentos de avaliação, a análise dos dados coletados e a emissão de um lado psicológico. Além de ter domínio sobre o processo de avaliação e conhecer bem os instrumentos utilizados, o psicólogo precisa estar ciente de que sua avaliação será responsável por permitir a um candidato conduzir um veículo – o que exige grande responsabilidade e equilíbrio emocional. A responsabilidade profissional e ética do psicólogo perito de trânsito nesta realidade precisa ser levada em consideração, pois cabe a ele avaliar e julgar o candidato à CNH como apto ou inapto. Por isso, o psicólogo precisa ter uma conduta ética muito rígida, seguindo à risca os padrões técnicos, já que o contrário poderia resultar em interferências no resultado, o qual precisa ser objetivo (CRP-SP, 2006). O resultado da avaliação – seja este positivo ou negativo – pode acarretar em consequências para o candidato, fator que o psicólogo deve sempre levar em consideração. Aprovar um candidato que, na realidade, não se encontra apto à condução de um veículo devido a possíveis desajustes emocionais pode colocar ele mesmo e terceiros em sério risco, ao passo que reprovar o mesmo, inadvertidamente, pode contribuir para que o candidato reforce o estigma da incapacidade psicológica ou motora (CRP-SP, 2006). Na avaliação psicológica para o trânsito é necessário aferir os processos de tomada da informação, processamento de informação, tomada de decisão, comportamento e traços de personalidade. Dentre esses, a tomada de decisão merece destaque por estar implicada na execução de todos os comportamentos. Em sua tomada de decisão, o condutor deve avaliar – mesmo se sofrer pressão de outras pessoas para que tome decisões de risco – seus comportamentos, visando sempre à avaliação da situação e à escolha pelo comportamento mais seguro (BIANCHI, 2016). Modificar comportamentos de risco no trânsito não é tarefa simples, para que haja uma real modificação desses comportamentos de risco, estudos apontam a necessidade de se promover ações nas áreas da Engenharia, Educação e esforço legal (SOUZA, 2014). 17 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Conforme Faller et al. (2010, p.64) “[...] dentre os estudos publicados, a maioria ratifica a possibilidade de que características pessoais e patologias psiquiátricas influenciem e sejam influenciadas por ATs e consumo de SPAs” (sendo AT a sigla para acidentes de trânsito e SPA a sigla de substâncias psicoativas). A partir dessa citação contesta-sea importância de um diagnóstico psiquiátrico ou a identificação de possíveis marcadores de risco para algumas dessas condições psicopatológicas que aparecem como fatores de risco para os condutores. A partir da identificação de alguma doença, transtorno, ou mesmo de indícios de que alguma delas possa surgir, é possível pensar em estratégias que visem à reabilitação ou ao tratamento dos motoristas. Em alguns países, os condutores que são flagrados dirigindo sob influência de substâncias psicoativas são encaminhados para tratamento. Essas intervenções junto ao motorista que já apresentou algum comportamento de risco visam a reduzir recaídas e o cometimento de outras infrações no trânsito. Entretanto, uma falha nas intervenções acontece num primeiro momento, na avaliação médica e psicológica, quando muitas condições clínicas e patológicas são subnotificadas, o que é muito grave quando se sabe que o abuso de substâncias psicoativas e a presença de comorbidades psiquiátricas contribuem para o aumento dos acidentes de trânsito (PALMER et al., 2007; MCMILLAN, TIMKEN et al., 2008; MCMILLAN, 2008 apud FALLER et al., 2010). Alguns desses transtornos podem ser detectados na avaliação médica e psicológica e, nesses casos, o candidato pode ser declarado inapto ou inapto temporariamente para a condução de um veículo – nessa segunda opção, incluem- se os transtornos mentais situacionais, ou seja, aqueles que podem desaparecer com o passar do tempo e com o tratamento adequado. Porém, existem também situações em que o candidato não apresentava nenhum transtorno na ocasião da avaliação, mas, devido a alguns fatores, passou a sofrer de um transtorno mental capaz de interferir negativamente em sua capacidade de conduzir um veículo de maneira responsável. Na seção a seguir, apresentaremos alguns desses transtornos. Os comportamentos de risco no trânsito e transtornos psiquiátricos influenciam e são influenciados pela prática de beber e dirigir. Tento em vista a 18 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. importância dos transtornos psiquiátricos nesse contexto, reforça-se a necessidade de que condutores com esse perfil sejam avaliados e submetidos a intervenções específicas direcionadas aos transtornos psiquiátricos, ao invés de se buscar apenas avaliar a ocorrência de problemas relacionados ao álcool e substâncias psicoativas e intervir diretamente nessas situações (FALLER et al., 2010). Então, estratégias eficazes nesse sentido, precisam conhecer o perfil dos condutores, avaliar e propor intervenções específicas. [...] o conhecimento da realidade dos motoristas brasileiros é o primeiro passo para a elaboração e o planejamento de políticas públicas como o delineamento de intervenções, programas de tratamento e realização de avaliações psiquiátricas adequadas para que danos decorrentes do problema sejam evitados ou, pelo menos, minimizados (FALLER et al., 2010, p. 69). Os autores anteriormente citados abordam especificamente a avaliação psiquiátrica, mas é evidente que o psicólogo é um profissional imprescindível na realização da avaliação psicológica (não apenas aquela direcionada para a aquisição da permissão para dirigir e mudança de categoria de CNH) em busca de se encontrar indícios de problemas com álcool, drogas e outras comorbidades psiquiátricas. O psicólogo também é um profissional de grande valia junto à equipe multiprofissional no delineamento de estratégias de prevenção primária, secundária e terciária para se tentar minimizar os comportamentos de risco associados ao trânsito. No tratamento de problemas relacionados ao alcoolismo e demais transtornos mentais, a Psicoterapia pode ser uma estratégia indicada e de suma importância para se produzir uma real mudança dos comportamentos de risco e minimizar os sintomas das psicopatologias que interferem negativamente na postura do motorista. É possível promover a mudança de comportamentos de risco do condutor, certas psicopatologias são passíveis de tratamentos que podem garantir que o motorista tenha condições de dirigir, entretanto, para alguns quadros psicopatológicos, a validade dos tratamentos é questionável, como no caso dos transtornos da personalidade, os quais não são doenças, mas condições da estrutura do paciente que podem oferecer grande risco caso um motorista apresente tais transtornos. 19 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 3 – PSICOPATOLOGIA Alguns comportamentos do motorista – como beber e dirigir, exceder o limite de velocidade da via e não usar equipamentos de segurança – são responsáveis por diminuir sua segurança no trânsito e, inclusive, podem provocar a ocorrência de acidentes de trânsito. Entretanto, além desses comportamentos de risco, há alguns transtornos mentais que, associados ou não ao uso e abuso de álcool e outras substâncias psicoativas, podem agravar ainda mais a situação de risco do motorista no trânsito. Pesquisas recentes, como a de Faller e colaboradores (2010), apresentam dados que endossam a perigosa relação entre certas patologias, uso de substâncias psicoativas e a ocorrência de acidentes e comportamentos de risco do motorista. Segundo Dalgalarrondo (2008), a semiologia psicopatológica é o estudo dos sinais e sintomas dos transtornos mentais. Segundo o mesmo autor, compreende-se Psicopatologia como: [...] o conjunto de conhecimentos referentes ao adoecimento mental do ser humano. [...] O campo da Psicopatologia inclui um grande número de fenômenos humanos especiais, associados ao que se denominou historicamente de doença mental. São vivências, estados mentais e padrões comportamentais que apresentam, por um lado, uma especificidade psicológica (as vivências dos doentes mentais possuem dimensão própria, genuína, não sendo apenas ‘exageros’ do normal) e, por outro, conexões complexas com a Psicologia do normal (o mundo da doença mental não é um mundo totalmente estranho ao mundo das experiências psicológicas ‘normais’) (p. 27). São múltiplas as causas para os transtornos mentais, tais como fatores psicológicos, fatores cognitivo-comportamentais, fatores biológicos, sendo que a melhor maneira de se pensar nas causas da doença mental consiste na interação entre múltiplos fatores (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). É relativamente fácil considerar determinados sinais e sintomas como indícios de transtorno mental, como, por exemplo, presença de alucinações, ideação suicida, dentre outras reações que expressam claramente que há algo de errado com aquela pessoa, mas há outros sinais e sintomas característicos de transtorno mental que são bastante sutis, muitos dos quais se passam despercebidos pela maioria das pessoas. 20 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Nesses últimos casos, a fronteira entre o normal e o patológico é tão tênue que se torna difícil estabelecer essa diferenciação. Uma característica geral da doença mental é causar sofrimento para aqueleque sofre do problema e para aqueles que com ele convivem. Uma vez que a linha entre o normal e o anormal é difícil de traçar, há uma tendência crescente de definir a Psicopatologia como os pensamentos e comportamentos que são desadaptativos, em vez de desviantes. Lavar as mãos toda hora pode ser desviante, mas adaptativo – afinal de contas, é a melhor maneira de evitar doenças contagiosas. O mesmo comportamento, entretanto, pode ser desadaptativo quando as pessoas não conseguem parar de lavar as mãos até deixá-las em carne viva. Os critérios diagnósticos para as categorias de transtornos maiores precisam interferir em pelo menos um aspecto na vida da pessoa, como o trabalho, as relações sociais ou o autocuidado. Esse é um componente crítico para determinar se um dado comportamento ou conjunto de comportamentos representa um transtorno mental ou é simplesmente incomum (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.501). Para se estudar a Psicopatologia, faz-se necessário recorrer a critérios de diagnóstico de doenças, tais como a Classificação Internacional de Doenças da CID- 10, que elucida todas as doenças, ou o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V –, voltado especificamente para uma descrição detalhada dos transtornos mentais, como o próprio nome diz. É importante estabelecer diagnósticos não para rotular o paciente como portador de determinado transtorno, doença ou síndrome, mas, segundo Gazzaninga e Heatherton (2005), para se obter um ponto de partida para a terapia, visto que determinados tratamentos são específicos para determinados transtornos. Além disso, a partir de um diagnóstico, é possível estabelecer o prognóstico (curso e provável resultado), o que pode auxiliar o paciente e seus familiares na compreensão de como será o futuro. No contexto de trânsito, o psicólogo não é o profissional encarregado pela terapia, mas sim pelo diagnóstico desses transtornos no momento da avaliação psicológica. Autores que abordam a Psicopatologia, normalmente se referem ao paciente ou cliente, visto que a questão das doenças (seu diagnóstico e seu tratamento) é diretamente relacionada à medicina e aos demais profissionais que compõem a equipe multiprofissional em saúde, dentre eles o psicólogo. Entretanto, na Psicologia 21 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. do trânsito, o psicólogo não irá lidar com o seu paciente, mas com o candidato a condutor ou o próprio condutor. Essa mudança de contexto não é apenas conceitual. O psicólogo de trânsito exerce a função de perito, de avaliador, portanto, diferente do psicólogo clínico, sua intervenção não tem fins psicoterapêuticos. Caso na avaliação psicológica sejam detectados sinais e sintomas de determinada condição psicopatológica, não cabe a ele conduzir o tratamento, apenas avaliar se os achados em questão interferem ou não em sua habilidade de conduzir um veículo. A partir dos resultados da avaliação, o profissional elabora seu laudo – o qual pode ser apto, inapto, ou inapto temporariamente – ou seja, teoricamente, sua função junto ao candidato se encerra aqui. Dependendo dos achados encontrados, o psicólogo pode encaminhar o candidato para outros profissionais (psicólogo ou médico), os quais serão responsáveis por conduzir um possível tratamento. Já em outros contextos ainda relacionados ao trânsito, o psicólogo pode participar de intervenções educativas ou que visem à modificação de comportamentos de risco dos motoristas, lembrando-se de que em situações nas quais há diagnóstico de quadros psicopatológicos, o motorista em questão deve ser também encaminhado para realizar o tratamento de sua patologia, o que poderá resultar em resultado positivo em relação aos seus comportamentos de risco. Algumas condições psicopatológicas podem ser acompanhadas de outros transtornos, o que é denominado comorbidade. Comorbidade pode ser definida como a coocorrência de duas ou mais enfermidades ou transtornos, em uma mesma pessoa, num determinado período de tempo (ou por tempo indeterminado) (KESSLER; PECHANSKY; BALDISSEROTTO, 2016, p. 96). Por exemplo, um condutor se envolveu num acidente de trânsito e os policiais responsáveis pela ocorrência detectaram níveis etílicos consideráveis no teste do bafômetro. Uma avaliação multiprofissional mais detalhada do indivíduo revelou que o mesmo apresenta transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso do álcool e da cocaína associados a um transtorno depressivo grave – presença de comorbidades que são situações de risco para o condutor. Optamos por, ao longo desta apostila, apresentar descrições dos Manuais CID-10 e DSM-5. O capítulo V da CID-10 (2008) aborda as síndromes mentais e 22 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. comportamentais (F00 a F99), algumas das quais serão abordadas ao longo deste material. Há também um volume da CID-10 destinado exclusivamente a esses tipos de transtornos, intitulado “Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (1993)”. Agrupamento Transtornos F00-F09 Transtornos mentais orgânicos, inclusive os sintomáticos F00* Demência na doença de Alzheimer (G30.-†). F01 Demência vascular. F02* Demência em outras doenças classificadas em outra parte. F03 Demência não especificada. F04 Síndrome amnésica orgânica não induzida pelo álcool ou por outras substâncias psicoativas. F05 Delirium não induzido pelo álcool ou por outras substâncias psicoativas. F06 Outros transtornos mentais devidos à lesão e à disfunção cerebral e à doença física. F07 Transtornos de personalidade e do comportamento devidos à doença, à lesão e à disfunção cerebral. F09 Transtorno mental orgânico ou sintomático não especificado. F10-F19 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de substância psicoativa F10 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool. F11 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de opiáceos. F12 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de canabinoides. F13 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de sedativos e hipnóticos. F14 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso da cocaína. F15 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de outros estimulantes, inclusive a cafeína. F16 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de alucinógenos. F17 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de fumo. F18 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de solventes voláteis. F19 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de múltiplas drogas e ao uso de outras substâncias psicoativas. F20-F29 Esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e transtornos delirantes F20 Esquizofrenia. F21 Transtorno esquizotípico. F22 Transtornos delirantes persistentes. F23 Transtornos psicóticos agudos e transitórios. F24 Transtorno delirante induzido. F25 Transtornos esquizoafetivos. F28 Outros transtornos psicóticos não orgânicos. F29 Psicose não orgânica não especificada. F30-F39 Transtornos do humor [afetivos] F30 Episódio maníaco. F31 Transtorno afetivo bipolar. F32 Episódios depressivos. F33 Transtorno depressivo recorrente. F34 Transtornos de humor [afetivos] persistentes. F38 Outros transtornos do humor[afetivos]. F39 Transtorno do humor [afetivo] não especificado. 23 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. F40-F48 Transtornos neuróticos, transtornos relacionados com o “stress” e transtornos somatoformes F40 Transtornos fóbico-ansiosos. F41 Outros transtornos ansiosos. F42 Transtorno obsessivo-compulsivo. F43 Reações ao “stress” grave e transtornos de adaptação. F44 Transtornos dissociativos [de conversão]. F45 Transtornos somatoformes. F48 Outros transtornos neuróticos. F50-F59 Síndromes comportamentais associadas a disfunções fisiológicas e a fatores físicos F50 Transtornos da alimentação. F51 Transtornos não orgânicos do sono devidos a fatores emocionais. F52 Disfunção sexual, não causada por transtorno ou doença orgânica. F53 Transtornos mentais e comportamentais associados ao puerpério, não classificados em outra parte. F54 Fatores psicológicos ou comportamentais associados à doença ou a transtornos classificados em outra parte. F55 Abuso de substâncias que não produzem dependência. F59 Síndromes comportamentais associados a transtornos das funções fisiológicas e a fatores físicos, não especificadas. F60-F69 Transtornos da personalidade e do comportamento do adulto. F60 Transtornos específicos da personalidade. F61 Transtornos mistos da personalidade e outros transtornos da personalidade. F62 Modificações duradouras da personalidade não atribuíveis à lesão ou à doença cerebral. F63 Transtornos dos hábitos e dos impulsos. F64 Transtornos da identidade sexual. F65 Transtornos da preferência sexual. F66 Transtornos psicológicos e comportamentais associados ao desenvolvimento sexual e à sua orientação. F68 Outros transtornos da personalidade e do comportamento do adulto. F69 Transtorno da personalidade e do comportamento do adulto, não especificado. F70-F79 Retardo mental F70 Retardo mental leve. F71 Retardo mental moderado. F72 Retardo mental grave. F73 Retardo mental profundo. F78 Outro retardo mental. F79 Retardo mental não especificado. F80-F89 Transtornos do desenvolvimento psicológico F80 Transtornos específicos do desenvolvimento da fala e da linguagem. F81 Transtornos específicos do desenvolvimento das habilidades escolares. F82 Transtorno específico do desenvolvimento motor. F83 Transtornos específicos misto do desenvolvimento. F84 Transtornos globais do desenvolvimento. F88 Outros transtornos do desenvolvimento psicológico. F89 Transtorno do desenvolvimento psicológico não especificado. F90-F98 Transtornos do comportamento e transtornos emocionais que aparecem habitualmente durante a infância ou a F90 Transtornos hipercinéticos. F91 Distúrbios de conduta. F92 Transtornos mistos de conduta e das emoções. F93 Transtornos emocionais com início especificamente na infância. F94 Transtornos do funcionamento social com início especificamente durante a infância ou a adolescência. F95 Tiques. F98 Outros transtornos comportamentais e emocionais com início 24 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. adolescência habitualmente durante a infância ou a adolescência. F99 Transtorno mental não especificado F99 Transtorno mental não especificado em outra parte. Tabela 1: Agrupamentos de transtornos mentais da CID-10. Fonte: CID-10 (2008). Dentre todos esses transtornos mentais e comportamentais enumerados na Classificação Internacional das Doenças da CID-10, nem todos são condições que oferecem risco real para o condutor e o trânsito em geral. Alguns desses transtornos, por si só, poderiam não oferecer risco potencial, mas os tratamentos medicamentosos podem causar reações adversas que incluem risco ao conduzir automóveis e operar máquinas, o que também seria um sério risco. Cabe ao médico e ao psicólogo grande atenção na avaliação médica e psicológica, pois, cientes desses riscos, muitos candidatos e condutores tendem a omitir diagnósticos pregressos, assim como medicação ou outras drogas das quais se faz uso. Em caso de detectar algum sinal ou comportamento suspeito na avaliação, o perito pode declarar o candidato inapto temporariamente e encaminhá-lo para tratamento adequado, ou, em outras situações, pode solicitar o parecer do médico especialista responsável pelo paciente em busca de maiores subsídios para a realização de uma avaliação segura, além de buscar mais dados documentais que possam ser anexados junto aos materiais do paciente e fornecer maior segurança ao profissional que irá responder por aquele processo avaliativo. Já outros transtornos, isolados, podem não oferecer mais problemas, porém, quando aparecem associados a outras comorbidades, oferecem riscos. Pesquisas apontam que são condições associadas a comportamentos de risco e acidentes de trânsito o uso, abuso e a dependência de substâncias psicoativas (PECHANSKY et al., 2010), Transtornos do Humor, Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) e Transtorno de Personalidade Antissocial (MCMILLEN, PANG et al., 1991; SUTTON, 1994; LAPHAM, SMITH et al., 2001; LAPHAM, C’DE BACA et al., 2006; MCMILLAN, TIMKEN et al., 2008 apud FALLER et al., 2010), transtorno depressivo maior (LAPHAM, SMITH et al., 2001 apud FALLER et al., 2010), transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo (MCMILLAN, TIMKEN et al., 2008 apud FALLER et al., 2010). 25 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Por outro lado, outras pesquisas não encontraram diferenças significativas entre o cometimento de determinadas infrações de trânsito (e a ocorrência de acidentes) entre grupos de motoristas com transtornos psiquiátricos e outros considerados “normais”, conforme citação a seguir: Em estudo retrospectivo, (...) motoristas com diagnósticos psiquiátricos (como transtorno depressivo maior, psicose reativa breve, transtorno de personalidade bordeline, transtorno conversivo, transtorno misto de personalidade, transtorno de personalidade passivo-dependente, fobia social e transtorno de ajustamento) não eram diferentes dos controles quanto às taxas de batidas em objeto fixo, velocidade insegura, infrações ou menos uso de cinto de segurança (CUSHMAN et al., 1990 apud ARAÚJO; MALLOY-DINIZ; ROCHA, 2009, p.61). É importante ter acesso a pesquisas que verificam todas essas possibilidades, mas, mesmo de posse de dados como os obtidos no estudo de Cushman et al. (1990 apud ARAÚJO; MALLOY-DINIZ; ROCHA, 2009), reforça-se que o psicólogo do trânsito, principalmente devido à sua função de perito, deve conhecer bem as psicopatologias, inclusive estudos que associam alguns transtornos com a ocorrência de acidentes, e atentar-se a essas possibilidades. Assim, o psicólogo do trânsito precisa se conscientizar da necessidade de se conhecer a fundo a Psicopatologia, os sinais e sintomas desses transtornos, especialmente os que podem ser detectados durante a avaliação psicológica – seja na entrevista, em dinâmicas ou por via dos testes psicológicos, como mostra a citação abaixo: ‘O candidatopode ser considerado inapto temporário se apresentar sinais de agressividade, agitação, instabilidade emocional, cansaço e exaustão. A emissão da CNH só será feita após nova avaliação. Para isso, a pessoa terá de passar por tratamento para solucionar esses diagnósticos, afirmou Raquel Almqvist, especialista em Psicologia de Tráfego’. Se a pessoa apresentar características de agressividade, impulsividade e depressão acentuadas e psicopatologias como esquizofrenia, que engloba distúrbios bipolares, fobias, síndrome do pânico e paranóia, ela será considerada inapta a dirigir um veículo, disse Raquel (G1, 2008, s.p.). Dirigir pode ser uma atividade extremamente perigosa para os portadores de determinados transtornos, o psicólogo, junto com o médico, são os profissionais responsáveis por detectar essas condições e, através de seus laudos, impedirem a 26 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. concessão da permissão para dirigir para pessoas portadoras de determinados quadros clínicos psicopatológicos: Sabendo-se da importância de um acompanhamento psiquiátrico, em vários países, os indivíduos infratores por dirigir sob influência de substâncias são encaminhados para tratamento. Porém, estudos têm mostrado que esses pacientes são subdiagnosticados no que compete a tais transtornos, mesmo se sabendo que, além do uso de álcool e SPA, comorbidades também contribuem para o aumento do risco de AT (MCMILLAN, TIMKEN et al., 2008; McMILLAN, 2008 apud FALLER et al., 2010, p. 64). Enfim, existem muitos transtornos mentais, comportamentais e neurológicos que podem comprometer a segurança do motorista e do trânsito em geral, outras condições podem deixar o motorista inapto temporariamente ou permanentemente a conduzir um veículo automotor. Não haveria espaço nesse material para abordarmos todos esses transtornos e condições especiais, por isso selecionamos apenas alguns desses. Nas próximas sessões apresentaremos brevemente alguns transtornos mentais e comportamentais da CID-10, seus principais sintomas, de forma a relacionar como os mesmos podem, isolados ou associados a comorbidades, oferecer riscos à condução segura do veículo. Selecionamos os transtornos que, segundo pesquisas, podem aumentar as chances de se causar um acidente de trânsito, tais como Transtornos do Humor (depressão e transtorno bipolar), Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT), Transtorno de Personalidade Antissocial, Transtorno da personalidade borderline, fobias, além de transtornos ansiosos, demência (que podem impossibilitar o motorista idoso a dirigir, gerando uma série de problemas familiares), direcionando atenção especial aos transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de substâncias psicoativas (daremos ênfase especial ao álcool devido às implicações da legislação brasileira nesse sentido). A apresentação dos transtornos que possuem maior implicação direta com o contexto do trânsito não seguirá a ordem da categorização da CID-10. 27 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 4 – TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO DECORRENTES DO USO DE SUBSTÂNCIA PSICOATIVA (F10-F19) 4.1 Definições e conceitos básicos Iniciaremos nossa explanação por este problema responsável por um comportamento de risco – em especial, beber e dirigir – responsável por muitos acidentes de trânsito, segundo elucidam autores como Faller et al. (2010); Pechansky et al. (2010); Schmitz et al. (2014); Bianchi (2016), dentre outros. Partimos da seguinte questão: O que são drogas e substâncias psicoativas? Atualmente, a Organização Mundial de Saúde define DROGA como sendo qualquer substância que altera o funcionamento do organismo e que não é produzida por ele. Portanto, a palavra droga se refere a qualquer substância capaz de produzir um efeito biológico no organismo, seja ela medicinal ou nociva. As drogas capazes de alterar o funcionamento cerebral ou psíquico são denominadas DROGAS PSICOTRÓPICAS ou SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS (SPA). Desse modo, atuam sobre o nosso cérebro, alterando nossa maneira de sentir, de pensar e, muitas vezes, de agir. As alterações mentais não são iguais para todas as substâncias, uma vez que cada uma delas é capaz de causar diferentes reações. Uma parte das substâncias psicoativas é capaz de causar dependência e graves prejuízos, sendo, nesses casos, denominadas drogas de abuso, uma vez que o consumo descontrolado é observado com frequência entre os seus usuários. Substâncias com potencial de abuso são aquelas que podem desencadear no indivíduo a autoadministração repetida, que geralmente resulta em tolerância, abstinência e comportamento compulsivo de consumo (LORDI; SORDI; GONÇALVES, 2014, p. 36). Segundo a CID-10 (2008), incluem-se nesse agrupamento (F10 – F19), todos os transtornos que são atribuídos ao uso de uma ou várias substâncias psicoativas, sejam elas prescritas ou não pelo médico. A identificação da substância psicoativa deve ser realizada a partir de todas as fontes de informação possível, tais como informações fornecidas pelo próprio paciente ou por terceiros (por exemplo: familiares), análise de sangue e outros fluidos corporais, sinais, sintomas e comportamentos típicos, drogas encontradas com o paciente, dentre outros meios. O uso de substâncias, conforme citado por Straub (2014), está relacionado à ingestão de substâncias, independente da quantidade ou do efeito obtido por tal ingestão. Já o abuso de substâncias é o “uso de qualquer agente químico em um 28 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. nível que atrapalhe o bem-estar do usuário em qualquer domínio da saúde: biológico, psicológico ou social” (p.215). Praticamente todas as pessoas fazem uso de alguma substância psicoativa ao longo de suas vidas, sejam elas lícitas – como o álcool, o cigarro, os medicamentos – ou ilícitas – como a maconha, a cocaína, o LSD – porém há diferentes padrões de uso, ou seja, nem todos apresentam problemas decorrentes desse uso. Os critérios do DSM-V para que o profissional da saúde possa realizar diagnóstico de transtorno decorrente do uso de substância são: Quadro 01: Critérios diagnósticos para presença de transtorno por uso de substâncias Fonte: DSM-V apud Lopes, Sordi e Gonçalves (2014). A partir dos critérios enumerados no quadro anterior, considera-se transtorno leve na presença de 2 a 3 desses critérios, moderado quando o indivíduo apresenta de 4 a 5 critérios e grave quando é possível caracterizar mais de 6 critérios. Quando o uso segue padrões abusivos ou se caracteriza por comportamentos de dependência alguns autores falam em adicção, que pode ser definida como: Adicção [...] padrão comportamental caracterizado pelo envolvimento irresistível no uso de uma substância, uma preocupação com seu 29 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzidaou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. fornecimento e uma grande probabilidade de recaída se ela for interrompida [...] (STRAUB, 2014, p.218). A adicção é caracterizada pelo desenvolvimento de dependência física (sinais e sintomas físicos adversos provocados pela abstinência de uma droga) e possivelmente psicológica (uso habitual e compulsivo da substância, mesmo quando o usuário está ciente das consequências do uso e abuso), assim como também o surgimento de tolerância (redução da resposta da droga depois de administrações repetidas) (STRAUB, 2014). Devido aos mecanismos de dependência física e psicológica, compreende- se porque um indivíduo dependente de determinada substância não consegue simplesmente deixar de usar a substância de abuso quando ciente das consequências danosas que a mesma pode causar nele mesmo e nas pessoas direta ou indiretamente relacionadas a ele. Isso explica porque a problemática da dependência química é tão complexa e difícil de se resolver com estratégias simplistas, ao contrário do que os leigos costumam acreditar. Quando um indivíduo dependente de determinada substância psicoativa, cessa o uso da mesma, ele pode apresentar sintomas de abstinência: “Sintomas físicos e psicológicos desagradáveis que ocorrem quando a pessoa para de usar determinada substância de forma abrupta” (STRAUB, 2014, p. 218). Os efeitos da abstinência, os quais variam de acordo com a substância, costumam ser opostos aos efeitos principais daquela substância. Por exemplo, as anfetaminas e outros estimulantes ocasionam sensação inicial de euforia, já a abstinência das anfetaminas desencadeia depressão (oposto da euforia) e outros sintomas, como náusea, vômito, perturbação do sono, ansiedade e até mesmo morte (STRAUB, 2014). Para fins de avaliação médica e psicológica do paciente, em geral é normal que o paciente, seus familiares e o próprio profissional da saúde só destinem a atenção necessária ao problema quando já se é possível verificar sinais de comportamento abusivo e de dependência de determinada substância psicoativa, entretanto, para fins de trânsito, é importante destacar que o uso ocasional de álcool pode ser o suficiente para causar sérios problemas para o condutor. 30 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Entretanto, direcionando nosso foco especificamente para a Psicologia do Trânsito, é necessário redobrar nossa atenção nesse sentido, já que atualmente a legislação brasileira prevê tolerância zero para os condutores que dirigem sob o efeito de álcool, ou seja, se o motorista fizer uso de pequenas quantidades de cerveja antes de dirigir e for flagrado pelo bafômetro, ele terá problemas com a lei, mesmo que o mesmo faça apenas uso ocasional de álcool e não apresente nenhum tipo de problema relacionado ao uso dessa substância. Daremos a ênfase necessária à legislação ainda nessa seção e já elucidamos também que o uso de outras substâncias psicoativas pode provocar graves consequências para o motorista e para o trânsito em geral. Por exemplo, além dos riscos decorrentes dos efeitos de substâncias psicoativas que causam diminuição dos reflexos ou mesmo alucinações, o simples fato de fumar enquanto dirige pode fazer com que, devido a uma situação de susto, o motorista se queime e, por reflexo à queimadura, acabe provocando um acidente. O conceito de transtorno por uso de substâncias é descritivo e baseado na presença de sinais e sintomas. Os critérios diagnósticos são claros e sinalizam diferentes graus de gravidade (conforme o quadro a seguir), ou seja, os padrões individuais de consumo variam de intensidade dentro de um padrão de consumo contínuo e, muitas vezes, gradativo (LORDI; SORDI; GONÇALVES, 2016). Ao se identificar – seja por meio do relato do paciente ou de terceiros, pelos sinais e sintomas apresentados pelo mesmo ou a partir do resultado de exames toxicológicos – o profissional responsável pela detecção e pelo diagnóstico do transtorno decorrente do uso de substância psicoativa deve se orientar a partir da categorização da CID-10. A classificação inclui o tipo de droga, assim como também é possível categorizar o padrão de uso da substância e os sintomas de acordo com a tabela a seguir: Código Classificação Principais características 0 Intoxicação aguda Estado consequente ao uso de uma substância psicoativa e compreendendo perturbações da consciência, das faculdades cognitivas, da percepção, do afeto ou do comportamento, ou de outras funções e respostas psicofisiológicas. As perturbações estão na relação direta dos efeitos farmacológicos agudos da substância consumida e desaparecem com o tempo, com cura completa, salvo nos casos nos quais surgiram lesões orgânicas ou outras complicações. 31 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 1 Uso nocivo para a saúde Modo de consumo de uma substância psicoativa que é prejudicial à saúde, com complicações físicas ou psíquicas. 2 Síndrome de dependência Conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se desenvolvem após repetido consumo de uma substância psicoativa, tipicamente associado ao desejo poderoso de tomar a droga, à dificuldade de controlar o consumo, à utilização persistente apesar das suas consequências nefastas, a uma maior prioridade dada ao uso da droga em detrimento de outras atividades e obrigações, a um aumento da tolerância pela droga e, por vezes, a um estado de abstinência física. 3 Síndrome (estado) de abstinência Conjunto de sintomas que se agrupam de diversas maneiras e cuja gravidade é variável, ocorrem quando de uma abstinência absoluta ou relativa de uma substância psicoativa consumida de modo prolongado. 4 Síndrome de abstinência com delirium Estado em que a abstinência se complica com delirium, podendo também ocorrer convulsões. 5 Transtorno psicótico Conjunto de fenômenos psicóticos (alucinações, distorções da percepção, ideias delirantes, entre outros) que ocorrem durante ou imediatamente após o consumo de uma substância psicoativa, mas que não podem ser explicados inteiramente com base numa intoxicação aguda e que não participam também do quadro de uma síndrome de abstinência. 6 Síndrome amnésica Síndrome dominada pela presença de transtornos crônicos importantes da memória (fatos recentes e antigos). 7 Transtorno psicótico residual ou de instalação tardia Transtorno no qual as modificações, induzidas pelo álcool ou por substâncias psicoativas, da cognição, do afeto, da personalidade, ou do comportamento persistem além do período durante o qual podem ser considerados como um efeito direto da substância. A ocorrência da perturbação deve estar diretamente ligada ao consumo de uma substância psicoativa. Tabela 02: Subdivisões do quarto caractere da CID-10. Fonte: CID-10 (2008). 4.2 Os efeitos das substâncias psicoativas Diferentes substâncias psicoativas, sejam elas lícitas ou ilícitas, possuem mecanismos de ação diferentes e, por isso, acarretam diferentes sinais e sintomas naquele que faz o uso das mesmas. Drogas como morfina, heroína, álcool, barbitúricos, alucinógenos e maconhapodem causar sensação de euforia, bem-estar e relaxamento dependendo da dose utilizada e das circunstâncias das quais a mesma foi utilizada. Além disso, drogas podem reduzir a ansiedade, aliviar o sofrimento e o medo, aumentar a autoconfiança, além de fazer sentimentos desagradáveis desaparecerem. Esses efeitos podem parecer bastante agradáveis para indivíduos neuróticos, que apresentem desvios de personalidade, angustiados, os quais podem recorrer aos efeitos das substâncias psicoativas com frequência e acabarem se tornando 32 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. dependentes. Entretanto, a dependência não é exclusiva das pessoas com transtornos psíquicos, há pessoas que fazem uso frequente de substâncias por longos anos e experimentam um estilo de vida produtivo e socialmente equilibrado, porém, é comum, após um período, a vida pessoal do indivíduo deteriorar devido à dependência, a qual modifica o estado de vida do indivíduo (RAMOS; RAMOS, 2006). A tabela a seguir enumera as principais drogas e os sintomas da intoxicação por determinadas substâncias de abuso. Características gerais das drogas Tipos de substâncias Principais sintomas / efeitos da intoxicação e abstinência Drogas predominantemente psicoestimulantes • Cocaína • Logo após o pós o uso: euforia, aceleração do pensamento, inquietação psicomotora, aumento do estado de alerta, inibição do apetite e labilidade de humor. • Na abstinência: bradicardia, sonolência e fadiga, disforia e anedonia (incapacidade de sentir prazer) – sintomas opostos à euforia inicial. • Anfetamina e análogos (anfetamina, dexanfetamina, metanfetamina, fenmetrazina) • O ecstasy é uma droga ilícita derivada das anfetaminas, muito difundida em festas e “raves”. Os sintomas que aparecem após o seu uso incluem ansiedade, alterações da percepção, fadiga, sensação de bem-estar e outros sintomas físicos e psicológicos. • Anfetaminas são medicamentos usados para o tratamento da obesidade, pois reduzem a ingestão alimentar e provocam perda de peso. Um de seus representantes, a sibutramina, pode ocasionar insônia, transtornos de humor e aumento das ideias suicidas. • Álcool etílico • Inicialmente: efeito estimulante – sensação de euforia, desinibição, sociabilidade, prazer e alegria. • Após a euforia: efeito depressor – prejuízo na coordenação motora, diminuição da autocrítica e da avaliação de possíveis situações de risco, lentificação psicomotora, redução dos reflexos, sonolência e prejuízos na capacidade de raciocínio e concentração. • Uso constante e prolongado pode resultar em lesão cerebral. Drogas predominantemente depressoras do SNC • Hipnóticos (barbitúricos, não barbitúricos, ansiolíticos, analgésicos opioides) • Hipnóticos-sedativos (barbitúricos, benzodiazepínicos): barbitúricos são utilizados para o bloqueio da dor durante a cirurgia. Os benzodiazepínicos são utilizados como tratamento em curto prazo da ansiedade, promovem relaxamento e sonolência, sendo drogas passíveis de causar dependência. Quando associados a outras substâncias os barbitúricos oferecem risco: associação com 33 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. álcool (supressão dos centros nervosos do cérebro), associação com estimulantes (“rebate” o efeito). Efeitos da dependência: lentidão psicomotora, prejuízos na memória, déficit de atenção. Na abstinência: insônia, ansiedade, delírios, convulsões, alucinações, agitação. • Analgésicos opioides: medicamentos utilizados no controle da dor moderada e intensa (morfina). Provocam intensa dependência, que pode ser aguda (sedação, humor normal tendendo à euforia), crônica (sensação de euforia e bem-estar profundo, supressão das preocupações, lentidão geral e sonolência), overdose (inconsciência, convulsões, coma), abstinência (agitação, cansaço, sono intermitente, dores, dentre outros sintomas físicos, podendo evoluir para a morte). A heroína é uma droga de abuso da classe dos opioides. • Canabinoides (maconha) • Alterações do humor, da percepção, da motivação, “barato” e “entorpecimento”. • Redução das funções cognitivas, da percepção, do tempo de reação, da aprendizagem e da memória. • Aumento da fome, pânico, alucinações e psicose aguda podem ocorrer. Drogas que atuam predominantemente sobre a percepção • Alucinógenos • O LSD é uma droga ilícita de efeito alucinógeno, causa efeitos como despersonalização, alterações na percepção de espaço e tempo, ansiedade, pânico, comportamentos antissociais, ideação suicida, dentre outros sintomas físicos e psíquicos. • Os efeitos podem perdurar no organismo por até 10 horas. • Nicotina • Ações estimulantes e depressoras. O fumante sente-se vivaz, embora haja algum relaxamento muscular. • Gases inalantes / solventes • 1ª fase: excitação. • 2ª fase: depressão inicial do SNC: confusão mental, desorientação. • 3ª fase: depressão média do SNC: redução acentuada do estado de alerta, perda de reflexos. • 4ª fase: inconsciência, convulsões, podendo evoluir para óbito. Tabela 03: Drogas que causam dependência. Fonte: Adaptado de Ramos e Ramos (2006); Gazzaninga e Heatherton (2005), Formigoni, Galduróz, De Micheli e Carneiro, 2016; O’Brien (2005); Catterall e Mackie (2005); Swift e Lewis (2009); Rang et al. (2012); Straub (2014); Lacerda e Noto (2016); Lacerda, Lacerda e Gaduróz (2016). A seguir pretendemos relacionar alguns efeitos de determinados tipos de substâncias psicoativas à condução do veículo. 34 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 4.3 Os riscos do uso, abuso e dependência de substâncias para a condução de veículos Certas substâncias psicoativas produzem efeitos significativos na intoxicação aguda, crônica (dependência) e na abstinência, sendo esses efeitos variáveis. Entretanto, como todas as substâncias psicoativas têm efeito sobre o SNC, os efeitos relacionados ao estado mental podem variar entre a depressão do SNC e a estimulação intensa, o que altera o estado geral do indivíduo, podendo ocasionar sérios problemas caso o usuário conduza um veículo sob o efeito dessas substâncias. “Embora muitos acidentes estejam relacionados ao uso de substâncias psicoativas, não são elas que causam os acidentes, mas, sim, o comportamento dos usuários quando as combinam com a direção” (SCHMITZ; BROLESE; VON DIEMEN, 2014, p. 59). Ou seja, as substâncias psicoativas realmente podem causar reações que comprometem a ação do motorista, entretanto, a maior causa de acidentes não reside apenas nos efeitos dessas substâncias, mas na decisão do motorista de conduzir seu veículo após fazer uso das mesmas, ciente dos riscos aos quais ele e as pessoas ao seu redor se encontram submetidos devido ao seu comportamento de risco. Inicialmente vamos pensar sobre os perigos de se dirigir com sono e as drogas que se costumam recorrer para minimizar esses sintomas. O sono é uma reação fisiológica normal do organismo que precisa descansarpara repor suas energias e recomeçar, mas, atualmente, as pessoas, devido a uma série de motivos, inclusive a maior produtividade, buscam meios para dormirem menos, mesmo sabendo que isso pode ser prejudicial à saúde. Uma pessoa cansada e com sono não tem condições de dirigir. O cansaço e o sono, muitas vezes, são mais fortes do que a vontade de permanecer acordado e a pessoa adormece sem perceber. Assim, é importante descansar nos momentos de folga, para poder dirigir com mais tranquilidade durante a jornada de trabalho (SEST/SENAT, 2009, p.50). Estudos apontam que a sonolência no trânsito é um importante fator de risco para acidentes, e ocorre principalmente em viagens em condições monótonas. Associado a isso, outro dado aparece para tornar a situação ainda mais séria: as cargas horárias dos motoristas profissionais costumam ser muito extensas, podendo 35 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. alcançar 16 horas por dia, incluindo viagens em período noturno. Os horários de sono dos motoristas apresentam-se muito restritos, sendo que alguns dormem em média 5 horas por noite. Há também outras condições que podem potencializar a sonolência, como fatores de restrição e privação de sono, alterações circadianas (ciclo sono vigília), as quais aparecem principalmente nos motoristas que não têm uma escala fixa de trabalho. A sonolência é extremamente perigosa para o motorista, pois este estado alterado da consciência diminui a capacidade de processamento sensorial e a eficácia das respostas ao ambiente (LOPES; SORDI; KESSLER, 2014). O motorista que dorme pouco se vê envolvido em dois sérios problemas: ser vencido pelo cansaço – e dormir enquanto dirige sem nem se dar conta disso – ou fazer uso de substâncias que prometem aumentar seu estado de alerta e diminuir o sono. Entretanto, não dormir e as consequências do uso de drogas que prometem esses resultados são duas alternativas muito sérias à saúde do condutor e ao trânsito em geral. Os estimulantes – como as anfetaminas e análogos – representam um sério problema para os motoristas profissionais. Devido às cargas horárias intensas e à necessidade de constante estado de alerta necessário para se conduzir um veículo, muitos profissionais acabam fazendo uso de certos medicamentos e outras substâncias com efeito estimulantes (cafeína, energéticos, cocaína) para conseguir driblar os efeitos do sono e dirigir por mais horas, entretanto, os efeitos adversos das drogas são bastante sérios. Os motoristas que mais fazem uso das anfetaminas são os profissionais. O “rebite” ou a “bolinha” são drogas ilícitas da família das anfetaminas que agem diretamente no sistema nervoso central e fazem com que as capacidades físicas e psíquicas fiquem mais rápidas por um determinado tempo. As reações adversas e efeitos dessas drogas em longo prazo são bastante sérias, incluindo a dependência. Com o passar dos tempos, o indivíduo passa a precisar de maior quantidade da droga para se alcançar os efeitos iniciais e, com isso, faz uso progressivo das substâncias, podendo resultar em dor de cabeça, ansiedade, confusão mental, perda de peso, dentre outras reações físicas e somáticas. Quando já se instalou dependência ocorre sensação de pânico, depressão, paranóia, irritabilidade, dentre 36 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. outros sintomas significativos. Além disso, o uso de rebites está associado à ocorrência de acidentes, já que a droga age no SNC, prejudicando os reflexos do motorista. Ou seja, o uso de rebite pelos motoristas é um sério problema, já que seus efeitos interferem negativamente em sua habilidade de conduzir o veículo (PSYCHEMEDICS BRASIL, 2017). A pessoa que faz uso de anfetaminas consegue executar qualquer atividade por mais tempo e sentindo menos cansaço, pois essas drogas fazem com que o organismo reaja acima de suas capacidades normais, exercendo esforços excessivos, o que é um grande risco à saúde. Após cessar o efeito da droga, a sonolência aumenta rapidamente, por isso a pessoa costuma repetir a dosagem, assim a energia é recobrada, porém com menos intensidade. Quando para de fazer uso de anfetaminas a pessoa sente grande falta de energia, dificultando a execução de tarefas anteriormente realizadas sem maiores esforços (LOPES; SORDI; KESSLER, 2014). Em motoristas usuários de anfetaminas, o risco de acidentes aumenta, pois as pupilas dilatadas aumentam a sensibilidade à luz, e à noite ficam mais ofuscadas pelos faróis dos carros em direção contrária. Ainda, o efeito rebote (apagão), após repetidas doses ingeridas é responsável por diversos acidentes de trânsito. Ao parar de tomar o motorista sente uma grande falta de energia (astenia), ficando bastante deprimido, o que também é prejudicial, pois não consegue nem realizar as tarefas que normalmente fazia antes do uso dessas drogas (LOPES; SORDI; KESSLER, 2014, p. 87). A situação torna-se ainda mais séria quando se associam outras drogas para tentar driblar os efeitos das primeiras. Devido ao efeito estimulante dessas drogas, as pessoas podem apresentar dificuldades para dormir nos horários de folga e, por saberem que dirigir com sono é extremamente arriscado, acabam fazendo uso de medicamentos para dormir, como os benzodiazepínicos, que também produzem dependência. Conforme expresso na tabela 03, a associação dos benzodiazepínicos com outras drogas estimulantes que prometem o “efeito rebote” é muito perigoso. Os motoristas acabam desenvolvendo dependência dos dois tipos de drogas, ficando expostos não apenas aos riscos relacionados ao uso das mesmas, mas, inclusive, decorrentes da associação entre as mesmas. Como pretendemos mostrar na tabela 03, existem drogas lícitas – que a legislação brasileira permite seu comércio e seu uso – e as ilícitas – cujo uso e 37 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. comercialização são impedidos pela legislação brasileira. Dentre as drogas lícitas existem vários medicamentos de uso controlado que só podem ser vendidos com prescrição médica e retenção da receita. Entretanto, mesmo com esse controle, no Brasil há grande tendência à automedicação e muitas pessoas conseguem receitas médicas para comprar esses medicamentos, ou mesmo compram os mesmos de forma clandestina, o que torna o problema ainda mais sério – como no caso do motorista que pode associar outras substâncias lícitas e livremente comercializadas (álcool, energéticos, cafeína) para potencializar ou rebater os efeitos das outras drogas. A automedicação é uma prática prejudicial à saúde, pois pode acarretar sérias consequências ao organismo. Alguns remédios também podem atrapalhar o ato de dirigir. Por isso, não se deve tomar medicamentos sem prescrição médica. Já as drogas, especialmente as ilícitas, são substâncias de origem natural ou sintética que alteram o comportamento das pessoas quando são consumidas (SEST/SENAT, 2009, p. 50-51). Alguns medicamentoscom finalidade anestésica, ansiolítica, hipnótica, analgésica, antihistamínica, para relaxamento muscular, dentre outras finalidades também atuam no sistema nervoso central, provocando reações adversas como sonolência, lentidão psicomotora, aumento do tempo de reação e diminuição dos reflexos, por isso, na bula dos mesmos vem expressa a recomendação de não dirigir veículos ou operar máquinas perigosas enquanto se faz uso dos mesmos, entretanto, muitos motoristas e operadores de máquinas desconsideram essas recomendações e acabam sofrendo graves acidentes. Especificamente em relação ao uso do álcool, sabe-se que “a ingestão de qualquer quantidade de álcool afeta as habilidades cognitivas e emocionais necessárias para dirigir em segurança” (SCHMITZ; SANTOS; SCHUCH, 2014, p. 15). Além das alterações nos processos psíquicos (estimulação ou depressão do SNC), as drogas também causam alterações na percepção e no comportamento do motorista, o que também representa sérios fatores de risco a uma condução segura. O mecanismo de ação de algumas drogas, como os alucinógenos e os inalantes, por exemplo, atua diretamente sobre a percepção, por isso, os usuários das mesmas – independente de ser uso ocasional ou crônico – apresentam alucinações, confusão 38 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. mental, dentre outras reações perturbadoras da percepção que poderiam significar um grande risco caso ocorressem num motorista enquanto está dirigindo. Outras drogas, como a maconha, o álcool e as anfetaminas também podem ocasionar esses tipos de reações. Em relação aos opioides, tem-se que: Entre os efeitos adversos por uso de opioides, os mais comuns são tontura, sonolência, fraqueza e alterações visuais. Estudos têm comprovado uma probabilidade 2,2 vezes maior de envolvimento em acidentes com motoristas que utilizam algum analgésico opioide, quando comparado aos motoristas que não utilizam. Foi verificada redução na capacidade psicomotora, especialmente em doses agudas e em indivíduos que começaram a fazer uso recentemente. De fato, alguns autores acreditam que pacientes que estejam já estabilizados com o uso de opioides podem conduzir veículos sem maiores problemas, durante o dia e em boas condições de visibilidade. É importante ressaltar que qualquer interação medicamentosa compromete esta avaliação. Desse modo, a recomendação é de que se evite dirigir veículos por quatro a cinco dias após início do tratamento ou quando houver alguma alteração na dose do opioide (LOCCOCO apud REMY; KREISCHE; SORDI, 2014, p. 73). O problema é que, na prática, alguns motoristas fazem uso de drogas enquanto dirigem e lançam mão de justificativas como “a cocaína me deixa alerta”, “a maconha me deixa mais relaxado e com isso eu não brigo no trânsito”, porém esses argumentos não são válidos, visto que qualquer substância psicoativa que interfere nos processos cognitivos pode ser um sério perigo. O THC afeta funções como a atenção, a percepção de tempo e velocidade e a memória, dificultando a capacidade dos motoristas de reagir a situações complexas e imprevisíveis. Estudos mostram que 300 mg de THC/kg-K têm o mesmo efeito no organismo que 0,5 mg/L de etanol e que, em quantidades elevadas, a maconha pode ocasionar alucinações ((DRUMMER et al., 2004 apud ALDAF et al., 2003). A maconha altera também funções afetivas, interferindo diretamente no estado de alerta, de vigilância, de coordenação e, por consequência, na capacidade de dirigir um veículo adequadamente (ADMINISTRATION NHTS, 2000). Adolescentes e adultos jovens que dirigem sob efeito da maconha (frequentemente combinada com álcool) possuem risco duas vezes maior de sofrer acidentes com potencial de morte ou lesões (GREYDANUS et al., 2013 apud SILVESTRIN; REMY; SORDI, VON DIEMEN, 2014, p.101). 39 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. A partir de tudo que foi apresentado nesta subseção, é possível verificar que o uso, abuso e dependência de substâncias psicoativas é um sério fator de risco para os motoristas, entretanto, em muitos países, como no Brasil, a legislação é mais específica em relação ao álcool, conforme aponta a citação a seguir: Apesar do conhecimento do potencial letal dessas drogas associadas ao trânsito, a legislação em diferentes países fica limitada ao uso de álcool. Isso acontece, em parte, pelas limitações na tecnologia atual em detectar o uso de drogas de forma rápida e eficiente, mas também porque os exames rápidos são classificados como positivos ou negativos, e fica difícil estabelecer um ponto de corte como há para o álcool. Diante das mudanças legais, reforça-se a importância do agente fiscalizador do trânsito conhecer e identificar os efeitos e sinais do uso de bebida alcoólica no cidadão (SCHMITZ; SANTOS; SCHUCH, 2014, p. 15). Assim, verifica-se a importância não apenas de se conhecer os efeitos das drogas e suas implicações para o motorista e a conscientização da população em geral sobre esses riscos, mas também de se pensar em estratégias e instrumentos de detecção das substâncias. A citação aponta a importância do agente fiscalizador de trânsito trabalhar nesse sentido, mas reforça-se também a importância do médico perito em trânsito e do psicólogo perito em trânsito estarem atentos para detectar o uso abusivo de substâncias nas entrevistas e exames clínicos dos candidatos à permissão para dirigir ou na mudança de categoria. Também não se pode deixar de destacar que inicialmente nos atentamos apenas aos efeitos agudos do uso do álcool e das outras drogas no trânsito, mas atualmente já se sabe que as drogas afetam a capacidade do indivíduo conduzir o veículo não apenas no momento em que este faz uso de tais substâncias, pois as mesmas produzem efeitos residuais. A ressaca do álcool afeta os reflexos do condutor e o efeito rebote das anfetaminas – como a depressão, o sono, a fadiga e a degeneração dos neurônios responsáveis pela produção de serotonina – também interfere negativamente no ato de conduzir um veículo (PECHANSKY et al., 2010). A seguir, apresentaremos algumas considerações especificamente voltadas para o álcool, droga lícita amplamente vendida e utilizada por pessoas de diversas faixas etárias, mas cuja legislação brasileira proíbe o uso da mesma quando se vai conduzir veículos. 40 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Álcool: características gerais O álcool é um depressor do sistema nervoso central, produzindo, dessa forma, sedação e sono, assemelhando-se a benzodiazepínicos (medicamentos como o bromazepam e o clonazepam) ou anestésicos voláteis (como os derivados de éter e clorofórmio). Todavia, em doses iniciais ocorre a supressão dos sistemas inibitórios, resultando em uma possível euforia inicial antes do quadro de depressão citado anteriormente. Os efeitos do álcool em curto prazo (intoxicação) dependem da dose consumida, como mostra a tabela a seguir: Dosagem de álcool no sangueEfeitos 0,01 a 0,05 g% Sensação de relaxamento e leve euforia. Aumento para 0,10 g% Prejuízo na memória e na concentração, diminuição no tempo de reação e funcionamento motor. De 0,10 a 0,15 g% Dificuldade para caminhar e utilizar habilidades motoras finas. De 0,20 a 0,25 g% Visão obscura, fala confusa, torna-se praticamente impossível caminhar sem cambalear, rico de perda da consciência. Maior que 0,35 g% Risco de morte. Tabela 04: Efeitos do uso do álcool em curto prazo. Fonte: Adaptado de Straub (2014). A maneira mais eficaz de se lidar com a intoxicação alcoólica é o tempo, já que o álcool leva determinado período para ser metabolizado. Por isso, recomenda- se deixar a pessoa em lugar tranquilo e isolado até que a substância seja eliminada do organismo. Ressalta-se a importância de conscientizar as pessoas a não dirigirem ou operarem máquinas enquanto estão alcoolizadas, pois o risco de acidentes é bem grande (FORMIGONI; GALDURÓZ; DE MICHELI; CARNEIRO, 2016). Além dos efeitos físicos e comportamentais da intoxicação do álcool, o uso crônico dessa substância também acarreta em uma série de efeitos para o organismo, podendo levar a lesões neurológicas irreversíveis e a outras lesões em órgãos vitais, como o fígado, com a possibilidade de se evoluir para óbito. A abstinência do álcool também ocasiona em uma série de sinais e sintomas na pessoa que se encontra dependente dessa substância. Entretanto, não focaremos nessa questão para não fugir de nosso foco principal. 41 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Os números mostram que o abuso e a dependência do álcool são bastante significativos na realidade brasileira, conforme ilustra o gráfico a seguir: Gráfico 01: Porcentagens de doses consumidas de cada tipo de bebida, em adultos, por gênero Fonte: I Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira, 2007 (apud DUARTE; STEMPLIUK; BARROSO, 2009, p.16). Considera-se que, dentre essas pessoas representadas no gráfico anterior, muitas irão dirigir após fazer uso de álcool. Como mencionado anteriormente, certo tempo após sua ingestão, o álcool é metabolizado e devidamente eliminado do organismo, mas a questão é: as pessoas estão conscientes de que não podem dirigir após beber ou sabem qual tempo certo precisam esperar para dirigir após ingerirem bebidas alcoólicas? 4.4 Álcool e trânsito O álcool é uma substância psicoativa de acesso muito liberado. A legislação proíbe a venda de bebidas alcoólicas para menores de dezoito anos, mas, excetuando-se essa restrição, pessoas na maioridade podem comprar a substância em supermercados, bares, restaurantes, mercearias e outros estabelecimentos comerciais. Além das bebidas alcoólicas propriamente ditas, o álcool é uma substância que pode ser encontrada em alimentos, bombons, medicamentos, desodorantes, perfumes, enxaguatórios bucais, dentre outros produtos, o que faz 42 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. com que, ocasionalmente, a pessoa, mesmo sem se dar conta, pode ingerir determinada quantidade de álcool. Devido a essa facilidade de acesso à substância e à cultura que associa o álcool a atividades de fins recreativos, de confraternização e até mesmo religiosas, o problema do álcool torna-se sério quando se considera que essa substância é passível de causar dependência, além dos problemas que o uso da mesma pode acarretar no trânsito. Estudos demonstram que a presença de substâncias psicoativas (SPA) eleva significativamente o risco do envolvimento do condutor em acidentes fatais no trânsito. Entre as SPA utilizadas na condução do veículo, o uso de álcool é apontado como um dos principais fatores de risco, principalmente devido ao envolvimento em acidentes, gravidade dos ferimentos e mortalidade no trânsito, aumentando as chances de óbito entre os que o usam (CHENG et al., 1996; AHLM et al., 2009 apud SCHMITZ; SANTOS; SCHUCH, 2014, p. 15). O padrão de uso de álcool que mais se associa a problemas no trânsito é o denominado tipo binge – aquele em que há uso agudo de quatro ou mais doses em curto período de tempo em uma mesma ocasião – principalmente quando envolve motoristas adolescentes (SCHMITZ et al., 2013 apud SCHMITZ; BROLESE; VON DIEMEN, 2014). Esse padrão é o observado, por exemplo, em reuniões sociais, bares e boates, quando as pessoas bebem várias doses num curto período de tempo, muitas vezes sem nem intercalar com alimentos ou outros líquidos e, muitas vezes, após minutos sem ingerir bebida alcoólica, o motorista pensa estar em condições de conduzir seu veículo. Normalmente, ele percebe que estava alcoolizado quando é parado numa fiscalização de trânsito e o etilômetro detecta alcoolemia. Os efeitos do álcool para a direção estão sintetizados na tabela a seguir, na qual é possível concluir porque a ingestão dessa substância é um grande fator de risco relacionado a muitos acidentes de trânsito no Brasil e em todo o mundo, a despeito de legislações que tendem a proibir (ou restringir dentro de certos limites tidos como aceitáveis) esse tipo de prática: 43 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Tabela 05: Efeitos do álcool no organismo e possíveis consequências para o trânsito. Fonte: SCHMITZ; BROLESE; VON DIEMEN (2014, p.58). Cientes dos efeitos do álcool para o organismo e de suas consequências para o trânsito, em 2008, foi promulgada a Lei 11.705, popularmente conhecida como “Lei Seca”. Esse dispositivo legal alterou alguns artigos do Código de Trânsito Brasileiro (Lei nº 9.503/1997), impondo penalidades mais severas para o condutor que dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência. Em 2012, com a promulgação da Lei 12.760, o cerco foi ainda mais fechado, pois houve a alteração no Código de Trânsito Brasileiro, tornando as medidas administrativas e as penalidades mais severas, com ampliação 44 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. da possibilidade de responsabilização penal. Além disso, a lei possibilitou enquadrar e punir criminalmente os condutores que se recusarem a fazer o teste com o etilômetro (bafômetro) (OBID, s.d.). A promulgação de leis [...] que preveem multas e penalidades para condutores com taxa de alcoolemia maior que zero, o estabelecimento de crime para o condutor embriagado acima de 0,33 mg/L de ar expirado e a lei que ampliou a relação dos meios de prova para contestação da embriaguez demarcam a crescente preocupação dos legisladores quanto ao uso de álcool e outras SPA associadas ao ato de dirigir SCHMITZ; BROLESE; VON DIEMEN, 2014, p. 60).4.5 Detecção e fiscalização do uso de álcool e outras drogas por motoristas Tendo em vista os riscos de acidentes potencializados com a ingestão de álcool e outras substâncias psicoativas por parte de motoristas, reforça-se a necessidade de se identificar o uso da substância, promover estratégias educativas com vistas a conscientizar os cidadãos em geral, fiscalizar os motoristas e aplicar as devidas penalidades àqueles que infringirem as legislações. Ao longo desta seção, temos reforçado a necessidade de os psicólogos e médicos peritos em trânsito conhecerem a fundo os critérios diagnósticos de dependência de substâncias psicoativas, além dos sinais e sintomas da intoxicação por uso ocasional dessas substâncias com vistas a realizar uma verdadeira triagem na avaliação médica e psicológica dos candidatos a motoristas e junto àqueles que desejam a inclusão de novas categorias. A condução de um veículo por pessoa que usa, abusa ou é dependente de álcool e outras drogas é um sério fator de risco, assim, a responsabilidade por esse problema não é apenas do condutor, mas também dos profissionais peritos que realizaram avaliação médica e psicológica previamente. Como nem sempre a pessoa já apresentava problemas com as substâncias psicoativas no momento da avaliação, a educação no trânsito é de extrema importância, pois, uma vez conscientizados dos riscos que o álcool e as demais drogas podem oferecer ao condutor e ao trânsito em geral, espera-se que os motoristas adotem comportamentos mais seguros e não façam uso dessas substâncias, especialmente antes de conduzir seus veículos (lembrando-se de que, conforme já mencionado, o uso crônico de determinadas substâncias pode trazer 45 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. prejuízos que interferem na capacidade de dirigir, mesmo quando não fazem uso da substância antes de dirigir). Entretanto, nem sempre o diagnóstico e as estratégias educativas são suficientes. Devido ao comportamento do motorista ou a possíveis traços de sua personalidade e condições psicopatológicas, a legislação pode funcionar efetivamente apenas com intensa fiscalização e consequente aplicação das penalidades previstas no Código de Trânsito Brasileiro. Os policiais e agentes de trânsito são importantes protagonistas nesse processo. A fiscalização é uma ação prevista pelo CTB e consiste no: Ato de controlar o cumprimento das normas estabelecidas na legislação de trânsito, por meio do poder de polícia administrativa de trânsito, no âmbito de circunscrição dos órgãos e entidades executivos de trânsito e de acordo com as competências estabelecidas no Código (Lei 9.503/97, anexo, apud PAULUS, 2010, p. 146). A fiscalização nas rodovias influencia diretamente na segurança e na fluidez do trânsito. Esse tipo de ação contribui para a mudança de comportamento dos usuários da via, em especial do motorista infrator, pois a imposição de sanções possibilita o cumprimento das leis. A fiscalização é eficaz quando funciona conjuntamente com as operações de trânsito, de engenharia de tráfego e de educação no trânsito (PAULUS, 2010). Para que a fiscalização seja eficaz, a autoridade responsável pelo processo precisa utilizar técnicas e instrumentos adequados para se investigar o que é pretendido naquele momento: A abordagem de condutores de trânsito feita por policiais se enquadra no campo da Toxicologia Forense e segue o preconizado pelas guias forenses internacionais [...] Tal abordagem em larga escala requer o emprego de técnicas de fácil execução e que apresentem respostas rápidas, tais como os testes de triagem, seguidos de etapa confirmatória, a qual deve ser realizada por uma técnica mais específica e baseada em um princípio de detecção diferente (LIMBERGER et al., 2014, p. 40). Um ponto forte do processo de fiscalização é verificar, nos condutores, o uso de substância psicoativa. A legislação brasileira, por meio do Código Nacional de Trânsito, postula que conduzir um veículo sob influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa passível de causar dependência é infração gravíssima 46 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. sujeita à multa, suspensão do direito de dirigir por doze meses, retenção do veículo até a apresentação de condutor habilitado e recolhimento do documento de habilitação. Porém, o etilômetro (ou bafômetro) é o único instrumento disponível para se realizar avaliação in loco do teor estimado de etanol em condutores suspeitos de estarem sob o uso de substância psicoativa (LIMBERGUER et al., 2014). Cientes de que o uso de álcool e de outras drogas pode aumentar a ocorrência de acidentes, inclusive com óbitos, são necessárias medidas de fiscalização que visem detectar essas substâncias nos condutores. Dentre diversas políticas de fiscalização comprovadamente mais efetivas para reduzir os riscos de acidentes no trânsito destacam-se, segundo apresentado por Sousa e Pasa (2010): • redução do limite legal de ingestão de álcool para condutores; • redução do limite legal de ingestão de álcool para condutores jovens; • checkpoints de sobriedade; • teste aleatório com etilômetro (bafômetro); • tratamento obrigatório dos condutores infratores e que apresentaram recidivas; • suspensão da habilitação; • alcohol ignition interlocks (dispositivos instalados no veículo que detectam a presença de álcool no ar expirado e bloqueiam a ignição quando for detectado álcool acima dos padrões previstos por lei no hálito do condutor); • programas do tipo “carona segura” ou “motorista da vez”. Ressalta-se que os tipos de programas apresentados nos itens anteriores apresentaram evidências de efetividade da intervenção em diferentes países. A fiscalização realmente mostra-se importante na detecção do uso de álcool por parte de condutores no Brasil, entretanto, ressalta-se a necessidade de se disponibilizar estratégias para a detecção de outras substâncias além do álcool – visto que, conforme apresentado nessa subseção, há também outras substâncias lícitas e ilícitas capazes de interferir na condução segura do veículo. Na ausência de outros instrumentos, a exemplo do etilômetro, a ação dos agentes fiscalizadores fica focada na análise dos sinais e sintomas característicos 47 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. de intoxicação por substância psicoativa, por isso, estes também precisam conhecer bem as drogas, seus mecanismos de ação, sinais e sintomas da intoxicação, do uso crônico e da abstinência, além de se precaverem para garantir sua própria integridade física – além, é claro, do condutor que está sendo fiscalizado – visto que muitas reações decorrentes do uso das substâncias psicoativas podem ser de agressividade e impulsividade. Em alguns países já se fazem uso de diversas metodologias para a detecção de diferentes substâncias psicoativas em motoristas. Há técnicas de triagem rápidas, porém pouco específicas, mas, frente a resultadosprontamente positivos para determinadas drogas, é possível realizar outras técnicas que garantam resultados bastante específicos. No Brasil, dentre os desafios a serem superados no intuito de se considerar o monitoramento uma abordagem de rotina para os agentes de fiscalização de trânsito destacam-se padronização de técnicas analíticas, disponibilidade de equipamentos e SQR, credenciamento e acreditação de laboratórios de referência e prospecção de profissionais qualificados (LIMBERGER et al., 2014). 48 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 5 – TRANSTORNOS DO HUMOR (AFETIVOS) – F30-F39 Agrupamento de transtornos que se caracterizam por uma alteração no humor ou afeto, usualmente para depressão (com ou sem ansiedade associada) ou elação do humor. Além da alteração do humor o indivíduo experimenta também uma alteração no nível global de atividade (CID-10, 1993). No trânsito é necessário ficar atento a pacientes com esses diagnósticos, pois, numa alteração de humor grave – como um episódio depressivo – o condutor pode fazer do veículo sua chance de concretizar seu desejo pelo autoextermínio; já num episódio maníaco, a elação do humor, associada ao aumento do seu nível global de atividade, podem tornar o motorista mais agressivo e imprudente, oferecendo riscos para ele mesmo e para o trânsito em geral. Além disso, os medicamentos utilizados para o tratamento desses transtornos – alguns dos quais crônicos – podem comprometer a capacidade do condutor dirigir em segurança. Assim, fica evidente porque o psicólogo e o médico peritos em trânsito devem se atentar aos sinais e sintomas desses transtornos, além dos possíveis tratamentos aos quais o candidato esteja submetido. Dentre esses transtornos, apresentaremos aqui o transtorno afetivo bipolar (F31) e transtornos depressivos (F32-F33). 5.1 Transtornos depressivos (F32 Episódios depressivos / F33 Transtorno depressivo recorrente) Assim como o transtorno bipolar, que será apresentado na próxima seção, a depressão é um transtorno de humor (conforme categorizado na CID-10 e no DSM- 5). Todas as pessoas apresentam oscilações de humor ao longo do dia e de suas vidas, porém no caso desses transtornos, a oscilação é mais abrupta que nos padrões considerados normais. Esses transtornos perturbam a capacidade da pessoa funcionar por períodos de tempo significativos, além de estarem acompanhados por vários elementos psicológicos e fisiológicos que serão apresentados ao longo desta seção (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). 49 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Segundo levantamento da OMS, a depressão maior unipolar é considerada a primeira causa de incapacidade entre todos os problemas de saúde (incapacidade definida como uma variável composta por duração do transtorno, e uma série de 22 indicadores de disfunção e sofrimento) (MURRAY; LOPEZ, 1996 apud DALGALARRONDO, 2008, p.307). Dalgalarrondo (2008) elucida que a depressão pode ser causada por diversos fatores biológicos, genéticos, neuroquímicos e psicológicos (por exemplo, após perdas significativas). A duração dos sintomas depressivos é variável, podendo durar de poucas semanas a muitos anos. Em média, a duração dos episódios depressivos é de aproximadamente seis meses, sendo que pode acontecer de determinados episódios se resolverem sem nenhum tipo de intervenção ou tratamento. “Embora 90% dos pacientes se recuperem da depressão, eles têm uma chance de 50% de experienciar outro episódio depressivo no futuro” (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p. 512). A tabela a seguir sintetiza os critérios diagnósticos da CID-10 para os transtornos depressivos: Categorização Características principais Tipos de transtornos F32 Episódios depressivos Rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade, alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, fadiga, problemas do sono e diminuição do apetite diminuição da autoestima e da autoconfiança, ideias de culpabilidade e ou de indignidade. Presença de sintomas somáticos como lentidão psicomotora importante, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. F32.0 Episódio depressivo leve: presença de dois ou três sintomas (características principais). F32.1 Episódio depressivo moderado: presença de quatro ou mais sintomas (características principais). F32.2 Episódio depressivo grave sem sintomas psicóticos: vários dos sintomas são marcantes e angustiantes; pode ocorrer ideação ou atos suicidas, além de vários sintomas somáticos. F32.3 Episódio depressivo grave com sintomas psicóticos: além dos sintomas descritos em F32.2 acrescenta- se alucinações, ideias delirantes, de uma lentidão psicomotora ou de estupor de uma gravidade tal que todas as 50 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. atividades sociais normais tornam-se impossíveis; pode existir o risco de morrer por suicídio, de desidratação ou de desnutrição. F33 Transtorno depressivo recorrente Ocorrência repetida de episódios depressivos (descritos em F32) e sem a presença de episódios de mania (que serão apresentados na seção a seguir). O transtorno pode, contudo, comportar breves episódios caracterizados por um ligeiro aumento de humor e da atividade (hipomania), sucedendo imediatamente a um episódio depressivo. O primeiro episódio pode ocorrer em qualquer idade, da infância à senilidade, sendo que o início pode ser agudo ou insidioso e a duração variável de algumas semanas a alguns meses. F33.0 Transtorno depressivo recorrente, episódio atual leve: ocorrência repetida de episódios depressivos, sendo o episódio atual leve, ausência de episódio de mania. F33.1 Transtorno depressivo recorrente, episódio atual moderado: ocorrência repetida de episódios depressivos, sendo o episódio atual moderado, ausência de episódio de mania. F33.2 Transtorno depressivo recorrente, episódio atual grave sem sintomas psicóticos: ocorrência repetida de episódios depressivos, sendo o episódio atual grave, sem sintomas psicóticos, ausência de episódio de mania. F33.3 Transtorno depressivo recorrente, episódio atual grave com sintomas psicóticos: ocorrência repetida de episódios depressivos, sendo o episódio atual grave, com sintomas psicóticos, ausência de episódio de mania (depressão endógena). F33.4 Transtorno depressivo recorrente, atualmente em remissão: O paciente teve no passado dois ou mais transtornos depressivos como descritos anteriormente, mas atualmente não apresenta sintomatologia depressiva há meses (depressão endógena com sintomas psicóticos). Tabela 06: Transtornos depressivos. Fonte: CID-10 (2008). Com vistas a facilitar o estabelecimento de um diagnóstico, Del Pino (2003 apud DALGALARRONDO, 2008) elucida que, do ponto de vista psicopatológico, os sintomas mais evidentes e comuns às síndromes depressivas são o humor triste e o desânimo.Entretanto, Dalgalarrondo (2008) afirma que associado a essa sintomatologia base, acrescentam-se também diversificados sintomas afetivos, 51 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. instintivos, neurovegetativos, ideativos, cognitivos, relativos à autovaloração, à vontade e à psicomotricidade. Nos casos mais graves, destacam-se a possibilidade de ocorrência de sintomas psicóticos, marcante alteração psicomotora e fenômenos biológicos associados. De acordo com a categorização da CID-10 (2008), a depressão pode ser uma doença crônica, de intensidade variável, podendo interferir, em diversos graus, nas atividades de vida diária do paciente. Daí é possível inferir que alguns pacientes depressivos têm condições de realizar diversas atividades, dentre elas dirigir, porém, em casos mais graves, pode ocorrer um comprometimento em sua capacidade devido a alguns sintomas, como diminuição da capacidade de concentração, problemas de sono, alucinações e ideação suicida. Estudos mostram que a situação é mais séria quando a depressão é uma comorbidade associada ao uso e abuso de álcool e outras drogas: conforme o National Comorbidity Survey – NCS, realizado em 2001 (LAPHAM, SMITH et al., 2001), 91% dos motoristas infratores apresentaram transtornos relacionados ao álcool pelo menos uma vez na vida, contra 44% da população geral norte-americana (KESSLER, MCGONAGLE et al., 1994). Entre esses motoristas, 50% das mulheres e 33% dos homens foram diagnosticados com ao menos uma comorbidade psiquiátrica, além de abuso ou dependência de drogas, mais frequentemente Transtorno Depressivo Maior e TEPT (FALLER et al, 2010, p.64). Outro estudo encontrou resultados parecidos. Investigaram uma amostra de motoristas norte-americanos com repetidas infrações por beber e dirigir entre os anos de 2001 e 2003. Foi possível perceber, a partir dos resultados, que 65% dos homens e 79,7% das mulheres tiveram pelo menos uma comorbidade psiquiátrica, além do abuso e dependência de álcool, sendo o Transtorno Depressivo Maior (30,9%), o transtorno psiquiátrico mais prevalente (FALLER et al., 2010). Uma outra pesquisa pretendia investigar se há relação entre o comportamento imprudente de motoboys e a presença de comorbidades psiquiátricas. Em relação à prevalência na vida de doença psiquiátrica, 75% dos participantes tinham ao menos um diagnóstico e 54% de entrevistados 52 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. apresentaram dois ou mais diagnósticos, sendo os mais prevalentes abuso de substância e transtornos de humor (depressão maior e distimia) (SORDI et al., 2010). Segundo Raquel Almqvist (G1, 2008), especialista em Psicologia de Tráfego, a depressão grave é um distúrbio que precisa ser detectado na avaliação psicológica e pode caracterizar o candidato a condutor como inapto temporário – indicando a necessidade de se buscar um tratamento adequado – ou inapto permanente. 5.2 Transtorno afetivo bipolar (F31) Assim como a depressão, o transtorno afetivo bipolar é um transtorno de humor, no qual é observada uma intensa variação no humor do paciente, que ora encontra-se rebaixado, ora encontra-se excitado. Caracteriza-se pela alternância entre episódios depressivos (apresentados na seção anterior) e episódios de mania, os quais apresentaremos nesta seção. Anteriormente, este transtorno já recebeu a nomenclatura de psicose maníaco-depressiva (PMD), psicose afetiva, ou depressão maníaca. Segundo o DSM-5 (2014), essa modificação da nomenclatura ocorreu, pois não há, nos casos de transtorno bipolar, necessariamente, exigência de psicose ou de ocorrência de episódio depressivo maior. Todas as pessoas apresentam pequenas flutuações de humor, porém naquelas com diagnóstico de transtorno bipolar as oscilações entre a tristeza e a exuberância são extremamente acentuadas, o que difere das demais pessoas (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). Os transtornos bipolares caracterizam-se por seu caráter fásico, episódico, semelhante ao de outros transtornos mentais e neurológicos (POST; SILBERSTEIN, 1994). Os episódios de mania e depressão ocorrem de modo relativamente delimitado no tempo e, com frequência, há períodos de remissão, em que o humor do paciente encontra-se eutímico e as alterações psicopatológicas mais intensas regridem (DALGALARRONDO, 2008, p. 316). Os episódios de mania ou hipomania são caracterizados por uma elevação do humor, da energia e da atividade, sendo mais intensos e desproporcionais nos 53 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. casos de mania. Esses episódios podem ser acompanhados de sintomas psicóticos, tais como alucinações e delírios de grandeza (CID-10, 2008). Além dos sintomas apresentados na tabela anterior, nos episódios maníacos também é possível perceber elação (sentimento de expansão e engrandecimento do eu), insônia, logorreia (produção verbal rápida, fluente e persistente), irritabilidade, arrogância, heteroagressividade (desorganizada e sem objetos precisos), desinibição social e sexual, tendência exagerada a comprar objetos ou a dar seus pertences indiscriminadamente, ideias de importância social, de grandeza, de poder (DALGALARRONDO, 2008). Nos episódios de mania, a pessoa apresenta níveis aumentados de atividade e euforia, o que pode resultar em envolvimento excessivo do paciente em situações prazerosas, porém tolas, as quais podem acarretar em problemas posteriores para esse indivíduo – indiscrição sexual, compulsão por compras, aventuras comerciais arriscadas – sendo que, normalmente, a própria pessoa se lamenta de suas atitudes após passar o episódio maníaco. Já os episódios hipomaníacos costumam ser caracterizados por criatividade e produtividade aumentada, os quais podem ser muito prazerosos e gratificantes (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). Pelo fato de o transtorno bipolar ser um transtorno de humor, o psicólogo deve estar atento aos riscos elucidados na subseção anterior, referentes ao transtorno depressivo, pois no episódio depressivo, os sintomas são os mesmos. Por outro lado, no episódio maníaco, características como elevação do humor, agitação psicomotora e impulsividade precisam ser analisadas com critério, pois poderiam deixar o motorista mais propenso a se envolver em situações arriscadas ao dirigir ou mesmo brigas de trânsito. Segundo Raquel Almqvist (G1, 2008), especialista em Psicologia de Tráfego, o transtorno bipolar é um distúrbio que precisa ser detectado na avaliação psicológica e pode caracterizar o candidato a condutor como inapto temporário – indicando a necessidade de se buscar um tratamento adequado – ou inapto permanente – dependendo da evolução dessa doença crônica, que pode ser incapacitante. 54 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópiasou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Com o objetivo de estimar a prevalência de transtornos psiquiátricos durante a vida e nos últimos 12 meses em uma amostra de motoristas com repetidas infrações por beber e dirigir, investigaram uma amostra de motoristas norte- americanos entre os anos de 2001 e 2003. Dentre essa amostra, 233 foram triados para transtornos psiquiátricos, nos quais identificaram que 97,2% dos casos de transtorno bipolar não foram adequadamente diagnosticados durante o tratamento. Esse dado representa uma perda de oportunidade de incremento nos resultados da intervenção (MCMILLAN; TIMKEN et al., 2008 apud FALLER et al., 2010). 55 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 6 – TRANSTORNOS NEURÓTICOS, TRANSTORNOS RELACIONADOS AO STRESS E TRANSTORNOS SOMATOFORMES (F40-F48) Esse agrupamento inclui os transtornos fóbicos-ansiosos; outros transtornos de ansiedade; transtorno obsessivo-compulsivo; reação a estresse grave e transtornos de ajustamento; transtornos dissociativos (ou conversivos); transtornos somatoformes e outros transtornos neuróticos. Todos esses transtornos compartilham associação histórica ao conceito de neurose, além de serem associados a questões psicológicas. A mistura entre os sintomas são comuns, em especial a associação entre depressão e ansiedade (CID-10, 1993). A seguir, enfocaremos apenas dois transtornos desse agrupamento, ressaltando-se a sua relação com a temática Psicologia do Trânsito. 6.1 Transtornos fóbico-ansiosos (F40) Uma ansiedade é desencadeada por situações nitidamente determinadas que não apresentam atualmente nenhum perigo real. Essas situações são evitadas ou suportadas com temor. As preocupações do sujeito podem estar centradas sobre sintomas individuais, medo de morrer, perda do autocontrole ou de ficar louco, podendo se associar à depressão. Podem ser de diversos tipos, como a agorafobia, as fobias sociais e as fobias específicas (CID-10, 2008) – sendo essas últimas nosso objeto de atenção. Fobias específicas podem ser definidas como fobias limitadas a situações muito específicas (animais, altura, avião, sangue, entre outras), em que a situação desencadeante pode ser inofensiva, entretanto, o contato com a mesma pode ocasionar estado de pânico (CID-10, 2008). O paciente com fobia específica, diante da situação temida, apresenta uma série de sintomas físicos que acarretam um extremo desconforto – sudorese excessiva, tremores, falta de ar, taquicardia – sendo que muitas vezes esses sintomas surgem só do paciente se imaginar dentro de determinada situação. É uma situação bastante séria, pois pode acarretar prejuízos significativos, expor o indivíduo ao ridículo, destruir sua autoestima e projetos de vida (SILVA, 2011). 56 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Importante apresentar as diferenças entre os estados de medo e de ansiedade, conforme bem explicado na citação a seguir: Os transtornos de ansiedade incluem transtornos que compartilham características de medo e ansiedade excessivos e perturbações comportamentais relacionados. Medo é a resposta emocional a ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura. Obviamente, esses dois estados se sobrepõem, mas também se diferenciam, com o medo sendo com mais frequência associado a períodos de excitabilidade autonômica aumentada, necessária para luta ou fuga, pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga, e a ansiedade sendo mais frequentemente associada à tensão muscular e à vigilância em preparação para perigo futuro e comportamentos de cautela ou esquiva. Às vezes, o nível de medo ou ansiedade é reduzido por comportamentos constantes de esquiva (DSM-5, 2014, p. 189). Algumas pessoas apresentam medo de dirigir, o qual pode ser decorrente de experiências traumáticas anteriores relacionadas ao trânsito ou mesmo um medo generalizado relacionado às situações de controle do veículo e do trânsito em geral. O medo normalmente é atenuado com as primeiras aulas práticas no veículo, quando o aluno sente segurança pela figura do instrutor, principalmente sabendo que o mesmo também tem acesso aos principais comandos do veículo e pode agir em caso de necessidade. Entretanto, em algumas situações não se trata de um receio natural diante de uma situação nova e potencialmente arriscada, mas de fobia de dirigir. A fobia de dirigir pode se apresentar sozinha ou fazer parte de um quadro mais amplo de agorafobia (medo de estar distante de sua ‘área de segurança’). Muitos autores consideram essa fobia uma forma leve de agorafobia, com sintomas de pânico frequentes, o que faz com que a pessoa se esquive do ato de dirigir (SILVA, 2011, p.101). Amaxofobia é o nome designado à fobia de dirigir. Barp e Mahl (2013) realizaram uma pesquisa para investigar os motivos pelos quais algumas pessoas que já têm CNH não dirigem, além de investigar fatores que poderiam ser facilitadores para que os mesmos voltassem a conduzir seus veículos. Para isso, entrevistaram oito mulheres de idade entre 19 e 58 anos, que possuem CNH entre 1 e 15 anos e que não dirigem entre 1 e 11 anos. A partir da técnica de análise do discurso dos resultados, foi possível concluir que o público feminino é o que mais sofre com a amaxofobia por vários motivos, dentre eles, ter sofrido um acidente 57 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. traumático, acomodação por não precisar dirigir, pressão social de familiares ou mesmo a falta de paciência do instrutor. Admitir que necessita de ajuda para o problema é o primeiro passo para a busca por reabilitação e a amostra entrevistada demonstrou ter essa consciência, além de vontade de voltar a dirigir para se sentirem mais independentes. Como forma de alternativas para superar a fobia, elas mencionaram acreditar mais em si mesmas, buscar ajuda psicoterápica e aulas de direção para pessoas habilitadas com instrutores calmos e pacientes. Segundo Raquel Almqvist (G1, 2008), especialista em Psicologia de Tráfego, a fobia é um distúrbio que precisa ser detectado na avaliação psicológica e pode caracterizar o candidato a condutor como inapto temporário ou inapto permanente. 6.2 Reações ao stress grave e transtornos de adaptação (F43) Característica do mundo moderno, o estresse está presente em nosso dia a dia, em especial nas grandes cidades. Certo nível de estresse é natural e serve como uma espécie de motivação para que o indivíduo saia de sua zona de conforto, entretanto, quando em altos níveis, o estresse pode provocar distúrbios psicológicos e contribuir para o aparecimento (ou o agravamento) de determinadas doenças orgânicas. A categoria F43 da CID-10 agrupa os transtornos que ocorrem em decorrência de situação de estresse (situações marcantes e estressantes), acarretando em consequências desagradáveis e duradourasque levam a um transtorno de adaptação. Para nosso estudo, merece destaque o Estado de Estresse Pós-Traumático (F43.1) ou Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): Este transtorno constitui uma resposta retardada ou protraída a uma situação ou evento estressante (de curta ou longa duração), de natureza excepcionalmente ameaçadora ou catastrófica, e que provocaria sintomas evidentes de perturbação na maioria dos indivíduos. Fatores predisponentes, tais como certos traços de personalidade (por exemplo, compulsiva, astênica) ou antecedentes do tipo neurótico, podem diminuir o limiar para a ocorrência da síndrome ou agravar sua evolução; tais fatores, contudo, não são necessários ou suficientes para explicar a ocorrência da síndrome. Os sintomas típicos incluem a revivescência repetida do evento traumático sob a forma de lembranças invasivas (flashbacks), de sonhos ou de pesadelos; ocorrem num contexto durável de ‘anestesia psíquica’ e de embotamento emocional, de retraimento com relação aos outros, insensibilidade ao ambiente, anedonia, e de evitação de atividades ou de 58 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. situações que possam despertar a lembrança do traumatismo. Os sintomas precedentes se acompanham habitualmente de uma hiperatividade neurovegetativa, com hipervigilância, estado de alerta e insônia, associadas frequentemente a uma ansiedade, depressão ou ideação suicida. O período que separa a ocorrência do traumatismo do transtorno pode variar de algumas semanas a alguns meses. A evolução é flutuante, mas se faz para a cura na maioria dos casos. Em uma pequena proporção de casos, o transtorno pode apresentar uma evolução crônica durante numerosos anos e levar a uma alteração duradoura da personalidade (CID-10, 2008). A fobia de dirigir pode ser, na realidade, reflexo de algum acontecimento sério e estressante em relação ao trânsito ocorrido no passado, o que caracteriza um quadro de estresse pós-traumático. Estudos como o de Faller e colaboradores (2014) apontam relação entre dirigir sob influência de substâncias psicoativas e a presença de comorbidades psiquiátricas, dentre elas o TEPT, conforme mostra a citação a seguir: [...] os transtornos de ansiedade, como o TEPT, apresentam vieses em processos como atenção e percepção, podendo tornar o motorista hiper- reativo a estímulos como buzinas e manobras bruscas de outros condutores, facilitando acidentes (FALLER et al., 2014, p.69). Ou seja, um motorista que sofre de transtorno de estresse pós-traumático pode apresentar reação exagerada frente a barulhos como buzinas, apitos, ou diante da reação inesperada de outros motoristas e pedestres. Essa reação de ansiedade pode acabar por provocar algum tipo de acidente. 59 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 7 – ESQUIZOFRENIA, TRANSTORNOS ESQUIZOTÍPICOS E TRANSTORNOS DELIRANTES (F20- F29) Esse agrupamento inclui a esquizofrenia; o transtorno esquizotípico; os transtornos delirantes persistentes; os transtornos psicóticos agudos e transitórios; o transtorno delirante induzido; os transtornos esquizoafetivos; outros transtornos psicóticos não orgânicos e a psicose não orgânica não especificada (CID-10, 1993). Optamos por abordar apenas o transtorno mais comum e mais conhecido, a esquizofrenia (F20). A esquizofrenia é um tipo de transtorno psicótico. Em linhas gerais, as síndromes psicóticas caracterizam-se por sintomas como alucinações, delírios, pensamento desorganizado e comportamento bizarro, caracterizado, por exemplo, por fala e riso sem nenhuma motivação que justificasse tal comportamento (JANZARIK, 2003 apud DALGALARRONDO, 2008). Uma característica bastante proeminente é a perda do contato com a realidade e a fraca percepção de sua própria doença e dos sintomas da mesma (DALGALARRONDO, 2008). Segundo o DSM-5 (2014), os transtornos do espectro da esquizofrenia e outros transtornos psicóticos são definidos por anormalidades em um ou mais desses domínios: delírios, alucinações, pensamento (discurso) desorganizado, comportamento motor grosseiramente desorganizado ou anormal (incluindo catatonia) e sintomas negativos. Os sintomas negativos caracterizam-se pela perda de certas funções psíquicas e pelo empobrecimento global nas esferas cognitiva, afetiva e social. São exemplos dos sintomas negativos: distanciamento afetivo; retração social; empobrecimento da linguagem; diminuição da fluência verbal; diminuição da vontade; negligência quanto a si mesmo; lentificação e empobrecimento psicomotor. Por outro lado, os sintomas positivos são manifestações novas e produtivas do processo esquizofrênico, como alucinações; ideias delirantes; comportamento bizarro; agitação psicomotora e ideias bizarras (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005; DALGALARRONDO, 2008). 60 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Os tipos de esquizofrenia encontram-se compilados na tabela abaixo: Categorização Tipos de transtornos F20 Esquizofrenia F20.0 Esquizofrenia paranoide: presença de ideias delirantes relativamente estáveis, frequentemente de perseguição, em geral acompanhadas de alucinações, particularmente auditivas e de perturbações das percepções. F20.1 Esquizofrenia hebefrênica: presença proeminente de uma perturbação dos afetos; ideias delirantes, alucinações fugazes e fragmentárias; comportamento irresponsável e imprevisível; presença de maneirismos; afeto superficial e inapropriado; pensamento desorganizado e discurso incoerente. Tendência ao isolamento social, tipo de esquizofrenia diagnosticado em jovens. F20.2 Esquizofrenia catatônica: distúrbios psicomotores proeminentes que podem alternar entre extremos, tais como hipercinesia e estupor, ou entre a obediência automática e o negativismo. F20.3 Esquizofrenia indiferenciada: afecções psicóticas que preenchem os critérios diagnósticos gerais de esquizofrenia, mas não se enquadram especificamente em nenhum desses subtipos. F20.4 Depressão pós-esquizofrênica: episódio depressivo eventualmente prolongado que ocorre ao fim de uma afecção esquizofrênica; há maior risco de suicídio. F20.5 Esquizofrenia residual: estádio crônico da evolução de uma doença esquizofrênica, com uma progressão nítida de um estádio precoce para um estádio tardio, o qual se caracteriza pela presença persistente de sintomas “negativos” embora não forçosamente irreversíveis. F20.6 Esquizofrenia simples: ocorrência insidiosa e progressiva de excentricidade de comportamento, incapacidade de responder às exigências da sociedade, e um declínio global do desempenho. Tabela 07: Categorização da CID de esquizofrenia. Fonte: Adaptado de CID-10 (2008). Para diagnosticar um paciente com esquizofrenia, o profissional responsável deve investigar a presença de pelo menos dois dos sintomas a seguir – delírios, alucinação, discurso desorganizado, comportamento desorganizado e catatônico e sintomas negativos – em período de aproximadamente um mês. Além disso,os sintomas devem comprometer o funcionamento do paciente (dinâmica pessoal, laboral, social), há sintomas de perturbações persistentes por aproximadamente seis meses e, finalmente, a exclusão de outros possíveis diagnósticos (DSM-5, 2014). O DSM-5 (2014) ressalta que a esquizofrenia está associada à significativa disfunção social e profissional, já que, mesmo quando as habilidades cognitivas mostram-se intactas, outros sintomas do transtorno impactam negativamente a execução de algumas tarefas e o relacionamento interpessoal. 61 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Tendo em vista os sinais e sintomas da esquizofrenia, em especial a ocorrência de delírios, alucinações, o embotamento afetivo e a agressividade, é bastante delicado para um paciente esquizofrênico dirigir um veículo. A doença é crônica, sob tratamento ou em períodos de remissão dos sintomas a pessoa pode apresentar desempenho social e laboral satisfatório, entretanto, nas ocasiões de surto, dirigir um veículo pode impor sério risco para si mesmo e para a sociedade. Além disso, também é necessário levar em consideração que os antipsicóticos e demais tratamentos medicamentosos utilizados podem interferir nos reflexos, no nível de consciência e na rapidez para a execução de tarefas, o que também apresentaria um risco para o motorista esquizofrênico. A citação a seguir, extraída de uma notícia veiculada no site G1 ilustra claramente que transtornos mentais como esquizofrenia e depressão podem ser impedimento para a obtenção da CNH. O médico e o psicólogo têm importante papel na detecção desses transtornos e na emissão de laudo desfavorável ao candidato a motorista. Elucidam, inclusive, que certas condições, como a esquizofrenia, podem tornar os portadores mais propensos a se envolver em brigas de trânsito, outro problema bastante sério: Doenças psicológicas como depressão e esquizofrenia tornam as pessoas inaptas para dirigir veículos, segundo a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet). Os laudos emitidos pelo médico e pelo psicólogo podem impedir a emissão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). O documento segue a Resolução 267 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que dispõe sobre os exames de aptidão física e psicológica para motoristas (G1, 2008, s.p.). 62 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 8 – TRANSTORNOS DA PERSONALIDADE E DO COMPORTAMENTO DO ADULTO (F60-F69) Diferentes linhas teóricas estudam a personalidade, por isso, é impossível fornecer uma definição unificada. É suficiente compreender que “a personalidade é a maneira única de cada pessoa responder ao ambiente”. Ou seja, é o estilo pessoal de cada um. Sabe-se que as pessoas apresentam mudanças relativas com o passar dos tempos, entretanto, sua essência, sua personalidade, mantém-se relativamente estável desde o final da adolescência. Os transtornos da personalidade são “marcados por uma maneira inflexível e desadaptativa de interagir com o mundo”; são de longa duração e causam problemas para o indivíduo no âmbito do trabalho e nas suas interações sociais (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p. 520). Ou, ainda: Um transtorno da personalidade é um padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo, é difuso e inflexível, começa na adolescência ou no início da fase adulta, é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento ou prejuízo (DSM-5, 2014, p.645). Os transtornos da personalidade podem ser agrupados em três grupos: comportamento estranho e excêntrico (transtorno da personalidade paranoide, esquizoide e esquizotípica); comportamento dramático, emocional ou errático (transtorno da personalidade antissocial, borderline, histriônica e narcisista) e, finalmente, comportamento ansioso ou temeroso (transtorno da personalidade evitativa, dependente e obsessivo-compulsiva) (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005; DALGALARRONDO, 2008; DSM-5, 2014). Focaremos nossa atenção apenas nos transtornos específicos da personalidade, detalhando apenas dois transtornos que merecem a nossa atenção: o transtorno de personalidade antissocial e o transtorno de personalidade borderline. Categorização Tipos de transtornos F60 Transtornos Específicos da Personalidade F60.0 Personalidade paranoica. F60.1 Personalidade esquizoide. 63 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. F60.2 Personalidade dissocial (antissocial, psicopática ou sociopática): desprezo das obrigações sociais, falta de empatia para com os outros. O comportamento não é facilmente modificado pelas experiências adversas, inclusive pelas punições. Existe uma baixa tolerância à frustração e um baixo limiar de descarga da agressividade, inclusive da violência. Tendência a culpar os outros ou a fornecer racionalizações plausíveis para explicar um comportamento que leva o sujeito a entrar em conflito com a sociedade. F60.3 Transtorno de personalidade com instabilidade emocional (borderline): tendência a agir de modo imprevisível sem consideração pelas consequências; humor imprevisível; tendência a acessos de cólera; impulsividade tendência a entrar em conflito com os outros, particularmente quando os atos impulsivos são contrariados ou censurados. Dois tipos podem ser distintos: o tipo impulsivo (instabilidade emocional e falta de controle dos impulsos); e o tipo borderline (além das características anteriores manifesta perturbações da autoimagem, do estabelecimento de projetos e das preferências pessoais, sensação crônica de vacuidade, relações interpessoais intensas e instáveis, tendência a adotar um comportamento autodestrutivo). F60.4 Personalidade histriônica. F60.5 Personalidade anancástica. F60.6 Personalidade ansiosa (esquiva). F60.7 Personalidade dependente (obsessivo-compulsiva). Tabela 08: Categorização da CID-10 de transtornos da personalidade. Fonte: CID-10 (2008). Os transtornos da personalidade normalmente duram por toda a vida, sem nenhuma expectativa de mudança significativa. São condições que permanecem controversas na prática clínica devido a alguns motivos. Apresentam-se como versões extremas ou exageradas da personalidade normal; as pessoas diagnosticadas com determinado transtorno podem apresentar outros sintomas que condizem com os critérios diagnósticos de outro transtorno da personalidade. Apesar de as pessoas com transtornos da personalidade não apresentarem alucinações ou alterações bruscas de humor, a maneira de elas interagirem com o mundo pode acarretar em sérias consequências, em especial no caso do transtorno da personalidade borderline e do transtorno da personalidade antissocial (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). Conduzir um veículo pode ser um grande risco para um condutor com transtorno de personalidade antissocial ou borderline. Segundo Silva (2008), indivíduos com transtorno de personalidade antissocial – psicopatas ou sociopatas, dependendo da nomenclatura– são pessoas que não apresentam empatia ou sentimento de culpa. Agem de modo premeditado, visando benéficos pessoais, 64 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. demonstrando-se extremamente inteligentes para colocar seus planos em prática. Os serial killer são os maiores exemplos de psicopatas que matam de modo sistemático, abusando de requintes de crueldade, mas há também pessoas com esse transtorno em graus mais leves, as quais também cometem delitos e agem em função de si mesmos, desconsiderando as outras pessoas. Além disso, segundo Dalgalarrondo (2008), são irresponsáveis, inconsequentes, agressivos e não aprendem com a experiência. Já os indivíduos borderline encontram-se literalmente “na borda”, ou seja, ocupam um estado limítrofe entre as neuroses e as psicoses. Segundo Dalgalarrondo (2008), são pessoas que tentem à impulsividade e à manipulação. Suas relações interpessoais e seu humor são muito instáveis, cometem atos autolesivos repetitivos. Ou seja, os psicopatas não lidam bem com as normas, por isso, seriam candidatos a violarem as leis de trânsito constantemente. Devido às suas características gerais, provavelmente não adotariam uma estratégia de direção defensiva, colocando eles mesmos e as outras pessoas do trânsito em risco, além de tenderem a apresentar discussões no trânsito. Caso fossem direcionados para programas que visem à reabilitação ou reciclagem de motoristas (comuns em outros países), provavelmente não haveria sucesso, visto que o uso de estratégias de mudanças de comportamento não surtiria efeitos nessas pessoas, as quais não aprendem com a experiência. Já os borderline, devido à grande impulsividade, provavelmente seriam sérios candidatos a acidentes, discussões no trânsito e direção ofensiva. Caso esses transtornos sejam detectados na avaliação psicológica, eles podem levar o candidato a ser declarado inapto temporariamente. Em entrevista, a psicóloga Almqvist (G1, 2008) não mencionou diretamente os transtornos da personalidade como condição que incapacita um candidato de conduzir um veículo, mas apontou características como agressividade e impulsividade como impedimentos e, conforme apresentamos, esses sinais são marcantes nos pacientes com transtorno da personalidade antissocial e borderline. A impulsividade – não apenas como sinal de um transtorno da personalidade específico, mas como um traço geral de personalidade, independente de traços psicopatológicos – é uma variável que necessita ser investigada em busca de 65 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. conclusões mais precisas sobre a influência desse fator nos acidentes de trânsito: Cremona (1986) relatou que pacientes com transtornos da personalidade apresentavam até seis vezes mais probabilidades de se envolver em acidentes de veículos. Os traços que poderiam estar associados à direção perigosa foram: irresponsabilidade, agressividade, egocentrismo, impulsividade e intolerância à frustração. Em estudo retrospectivo, informaram que motoristas com diagnósticos psiquiátricos (como [...] transtorno de personalidade bordeline [...]) não eram diferentes dos controles quanto às taxas de batidas em objeto fixo, velocidade insegura, infrações ou menos uso de cinto de segurança. [...] A impulsividade é um dos traços que tem sido frequentemente associado tanto a comportamentos de risco em geral quanto a violações das leis de trânsito e acidentes automobilísticos. No entanto, os resultados de estudos sobre a relação entre a impulsividade e os acidentes de trânsito ainda são contraditórios, havendo resultados que ressaltam associações positivas e outros, a ausência de relação (CUSHMAN et al., 1990 apud ARAÚJO; MALLOY-DINIZ; ROCHA, 2009, p. 61). Num estudo realizado com motoboys que já haviam sofrido algum tipo de acidente de trânsito, Sordi e colaboradores (2014) buscaram avaliar a prevalência de transtornos psiquiátricos nos mesmos. Os resultados sinalizavam que, na amostra investigada, 13,9% apresentavam transtorno de personalidade antissocial (TPAS), o que é bastante preocupante. Como o TPAS está diretamente associado à criminalidade, o grupo de motoboys com esse transtorno pode estar sujeito a se envolver com acidentes, inclusive causar acidentes com vítimas, fator diretamente relacionado à violência no trânsito. Entretanto, os dados também abrem espaço para outro questionamento: a marginalização dessas pessoas que apresentam dificuldades para seguir regras e adaptar-se a outros tipos de trabalho e acabou sendo direcionada a trabalhar como motoboys. Muito ainda se precisa investigar a este respeito, mas os dados obtidos a partir dessa pesquisa merecem a atenção do psicólogo do trânsito. 66 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 9 – TRANSTORNOS EMOCIONAIS E DE COMPORTAMENTO COM INÍCIO USUALMENTE OCORRENDO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA (F90- F98) Transtornos emocionais e de comportamento com início usualmente ocorrendo na infância e na adolescência (F90-F98) é caracterizado por: início precoce; uma combinação de um comportamento hiperativo e pobremente modulado com desatenção marcante e falta de envolvimento persistente nas tarefas e conduta invasiva nas situações e persistência no tempo dessas características de comportamento (CID-10, 1991, p. 256). Um transtorno hipercinético que merece nossa atenção é o TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. As pessoas que sofrem do Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) têm dificuldade em prestar atenção de modo que lhes permita se adaptar – da melhor maneira possível – a seu ambiente (STERNBERG, 2010, p. 146-147). Em linhas gerais, há dificuldade em prestar atenção a estímulos externos e internos, pois o paciente apresenta capacidade prejudicada em organizar e completar tarefas, assim como relutância em controlar seus comportamentos e impulsos (DALGALARRONDO, 2008). O TDAH tem como características básicas a falta de atenção, a hiperatividade e a impulsividade. Pode ser de três tipos: predominantemente desatento, predominantemente hiperativo-impulsivo ou misto (mescla desatenção com hiperatividade-impulsividade) (STERNBERG, 2010). A dificuldade em focalizar a atenção associada à impulsividade são fatores bastante delicados quando se pensa em conduzir um veículo. Como dirigir é uma atividade que requer atenção focalizada e dividida por todo o tempo, uma pessoa com esse tipo de transtorno pode se distrair com facilidade e, assim, envolver-se em situações de risco, como não perceber que o veículo da frente freou e colidir na traseira, não se ater às cores do semáforo ou se distrair com a música no carro e não perceber o pedestre que atravessa fora da faixa. Associando-se a atenção à 67 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meioseletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. impulsividade, o problema torna-se ainda mais grave, pois, como apresentamos na seção anterior, essa característica é um fator de risco à violência no trânsito e ao cometimento de infrações. Dois fatores relacionados ao homem são apontados como significativas causas de acidentes no trânsito: a falta de atenção e o uso de substâncias psicoativas. Ambas as situações podem ser sinais e sintomas de dois transtornos, os quais precisam ser devidamente diagnosticados: a desatenção pode ser associada ao TDAH e o uso e abuso de substâncias ao transtorno de uso de substâncias (TUS) (SORDI et al., 2014). A ocorrência de comorbidade com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e transtorno de conduta, que apresenta elevada incidência entre adolescentes dependentes químicos, é maior entre adolescentes do sexo masculino do que do sexo feminino. Adultos com TDAH têm maiores chances de apresentarem transtornos do uso de substâncias psicoativas: aproximadamente 33% dos adultos com TDAH apresentam antecedentes de abuso ou dependência de álcool, e 20% deles têm história de abuso ou dependência de outras substâncias psicoativas. O uso de álcool é o mais frequente entre adultos com TDAH, seguido pela maconha, estimulantes e cocaína (KESSLER; PECHANSKY; BALDISSEROTTO, 2016, p. 98). Estudos apontaram que 60% dos jovens usuários de álcool e outras drogas apresentavam comorbidades, sendo o transtorno de conduta e o transtorno desafiador de oposição os mais comuns, seguidos pela depressão (KESSLER; PECHANSKY; BALDISSEROTTO, 2016). 68 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 10 – TRANSTORNOS MENTAIS ORGÂNICOS, INCLUINDO SINTOMÁTICOS (F00-F09) Esse agrupamento inclui a demência na Doença de Alzheimer; demência vascular; demência em outras doenças classificadas em outros locais; demência não especificada; síndrome amnésica orgânica, não induzida por álcool e outras substâncias psicoativas; delirium, não induzido por álcool e outras substâncias psicoativas; outros transtornos mentais decorrentes de lesão e disfunções cerebrais e de doença física; transtornos de personalidade e de comportamento decorrentes de doença, lesão e disfunção cerebrais; transtorno mental orgânico sintomático e não especificado (CID-10, 1991). Em linhas gerais, as síndromes demenciais caracterizam-se pelas perdas de múltiplas habilidades cognitivas e funcionais, tais como perda da memória, perda de múltiplas funções cognitivas, alterações das funções executivas, alterações da personalidade, curso progressivo, presença de alterações difusas nos tecidos cerebrais, podendo manifestar também outros sintomas psiquiátricos associados, como ideias paranoides, depressão, ansiedade, alucinações, delírios e heteroagressividade (DALGALARRONDO, 2008). Um quadro demencial ocasiona perda da capacidade da realização de tarefas, das mais complexas às mais simples. Um paciente com demência perde, gradativamente, sua capacidade de dirigir e, devido ao curso progressivo da doença, essas habilidades não mais serão recuperadas. Muitas vezes o indivíduo com demência não percebe os sintomas iniciais e, por isso, as falhas cognitivas podem ser responsáveis por distrações e “apagões” no trânsito, o que pode ocasionar acidentes. Por se tratar de condições neurológicas, na avaliação médica e na avaliação psicológica, os profissionais peritos devem se atentar para esses sinais e sintomas, os quais podem impedir que um candidato seja declarado apto a dirigir. A avaliação psicológica é periódica nos motoristas profissionais, nos condutores de veículos de passeio apenas a avaliação médica ocorre periodicamente. Como muitos processos demenciais, como a Doença de Alzheimer, são diretamente associados ao avanço da idade, é importante que o motorista idoso seja avaliado pelo médico perito de trânsito com mais frequência. 69 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. A citação a seguir diz respeito a recomendações aos médicos que realizam a avaliação neurológica do candidato a condutor ou do condutor, mas traz informações importantes também para o psicólogo perito em trânsito: Não havendo nenhum marcador único que irá funcionar como fator determinante de aptidão para conduzir um veículo automotor, muitas vezes, poderá ser extremamente difícil determinar-se a aptidão nas fases iniciais destas condições. Estudos recentes mostram que até 76% dos pacientes com demência leve ainda são capazes de serem aprovados na prova prática de direção veicular (ABRAMET, s.d., s.p.). Além disso, segundo o material supracitado, as evidências apresentadas no 62º Encontro Anual da Academia Americana de Neurologia para a condução de pessoas com doença de Alzheimer apoiam recomendações aos médicos que realizam a avaliação neurológica (inclusive para o trânsito), os quais devem informar ao paciente e aos seus familiares nos casos em que foi detectada alteração em seu desempenho nos processos avaliativos. Dependendo da gravidade do caso, pode representar aumento significativo de segurança de trânsito, se comparados a outros motoristas, o que pode acarretar em reavaliações médicas mais frequentes (a cada seis meses), avaliação do desempenho da condução do veículo por examinador qualificado e, nos casos mais graves, cessação definitiva da permissão para dirigir. 70 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. REFERÊNCIAS ABRAMET: Associação Brasileira de Medicina do Tráfego. Doenças neurológicas e condução veicular. Disponível em: http://www.abramet.com.br/conteudos/artigos/doencas_neurologicas_e_conducao_v eicular/ Acesso em 17 agosto 2017 APA. Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014. ARAÚJO, Marcus Maximilliano; MALLOY-DINIZ, Leandro Fernandes; ROCHA, Fabio Lopes. Impulsividade e acidentes de tráfego. Rev Psiq Clín., v. 36, n.2, 2009; p.60-8. BARP, Maristela; MAHL, Álvaro Cícero. Amaxofobia: um estudo sobre as causas do medo de dirigir. Unoesc & Ciência - ACBS, Joaçaba, v. 4, n. 1, p. 39-48, jan./jun. 2013. BIANCHI, Alessandra Sant’Anna. 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