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1 
 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 3 
UNIDADE 1 - COMPORTAMENTO NO TRÂNSITO E SUAS ALTERAÇÕES........... 5 
1.1 Behaviorismo: o estudo do comportamento .......................................................... 5 
1.2 Comportamento e trânsito ..................................................................................... 8 
UNIDADE 2 - OS RISCOS DAS PSICOPATOLOGIAS E DE DETERMINADOS 
COMPORTAMENTOS DO MOTORISTA PARA A SOCIEDADE ............................ 13 
2.1 O papel do psicólogo ........................................................................................... 16 
UNIDADE 3 - PSICOPATOLOGIA ........................................................................... 19 
UNIDADE 4 - TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO 
DECORRENTES DO USO DE SUBSTÂNCIA PSICOATIVA (F10-F19) .................. 27 
4.1 Definições e conceitos básicos ........................................................................... 27 
4.2 Os efeitos das substâncias psicoativas ............................................................... 31 
4.3 Os riscos do uso, abuso e dependência de substâncias para a condução de 
veículos ..................................................................................................................... 34 
4.4 Álcool e trânsito ................................................................................................... 41 
4.5 Detecção e fiscalização do uso de álcool e outras drogas por motoristas .......... 44 
UNIDADE 5 - TRANSTORNOS DO HUMOR (AFETIVOS) – F30-F39 ..................... 48 
5.1 Transtornos depressivos (F32 Episódios depressivos / F33 Transtorno 
depressivo recorrente) .............................................................................................. 48 
5.2 Transtorno afetivo bipolar (F31) .......................................................................... 52 
UNIDADE 6 - TRANSTORNOS NEURÓTICOS, TRANSTORNOS RELACIONADOS 
AO STRESS E TRANSTORNOS SOMATOFORMES (F40-F48) ............................. 55 
6.1 Transtornos fóbico-ansiosos (F40) ...................................................................... 55 
6.2 Reações ao stress grave e transtornos de adaptação (F43) ............................... 57 
UNIDADE 7 - ESQUIZOFRENIA, TRANSTORNOS ESQUIZOTÍPICOS E 
TRANSTORNOS DELIRANTES (F20-F29) .............................................................. 59 
UNIDADE 8 - TRANSTORNOS DA PERSONALIDADE E DO COMPORTAMENTO 
DO ADULTO (F60-F69) ............................................................................................ 62 
UNIDADE 9 - TRANSTORNOS EMOCIONAIS E DE COMPORTAMENTO COM 
INÍCIO USUALMENTE OCORRENDO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA (F90-
F98) ........................................................................................................................... 66 
2 
 
Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de 
direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios 
eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e 
recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 
UNIDADE 10 - TRANSTORNOS MENTAIS ORGÂNICOS, INCLUINDO 
SINTOMÁTICOS (F00-F09) ...................................................................................... 68 
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 70 
 
3 
 
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INTRODUÇÃO 
 
O trânsito é um sistema dinâmico que promove a mobilidade, ou seja, 
permite que as pessoas se aproximem ou se afastem. Trânsito é definido como 
 
o conjunto de deslocamentos de pessoas e veículos nas vias públicas, 
dentro de um sistema convencional de normas, que têm por fim assegurar a 
integridade de seus participantes (ROZESTRATEN, 2015, p.4). 
 
O sistema de trânsito é constituído pelo indivíduo, as vias, os veículos e as 
normas, sendo o indivíduo considerado o elemento principal nesse sistema 
complexo e dinâmico. Ele é o mediador entre a via, o veículo e as normas, o que 
acaba por depositar no indivíduo uma grande responsabilidade, pois o que torna o 
trânsito mais ou menos violento é a forma como cada pessoa age e se coloca nesse 
espaço (SCHMITZ et al., 2014). 
 
A ação humana no trânsito é influenciada pela sua capacidade cognitiva de 
entender as informações recebidas, pelas suas habilidades em saber o que 
fazer com as informações, pela gestão de suas emoções, como também 
pelas características de personalidade (SCHMITZ et al., 2014, p. 20). 
 
Ao se estudar o trânsito e, especificamente, os acidentes de trânsito, 
observa-se que estes podem ocorrer devido a falhas mecânicas, problemas na 
sinalização, ou, principalmente, estão diretamente relacionados à figura do homem. 
Seja como condutor de um veículo ou como pedestre, o indivíduo é um grande 
responsável pelos acidentes no trânsito devido aos seus comportamentos ou devido 
a certas doenças ou deficiências físicas ou mentais que podem interferir em sua 
habilidade de dirigir um veículo automotor. 
No parágrafo anterior falamos de deficiências e doenças físicas e mentais, 
entretanto, nesta apostila, voltaremos nosso foco apenas às condições mentais que 
podem interferir negativamente – ou até mesmo impossibilitar a condução de um 
veículo. Espera-se que o psicólogo do trânsito, durante a avaliação psicológica para 
o trânsito, esteja apto para, ao analisar os instrumentos aplicados, identificar os 
candidatos que não se encontram aptos para conduzir um veículo automotor, 
entretanto, algumas doenças ou condições incapacitantes podem surgir 
posteriormente à avaliação psicológica, por isso, é preciso levar em conta que, em 
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qualquer momento de sua vida, um condutor pode desenvolver determinado quadro 
patológico (ou tornar-se deficiente) e, por isso, não mais ter condições de conduzir 
seu veículo de forma segura para si mesmo e para as demais pessoas que 
interagem no sistema de trânsito. 
Partindo-se do normal para o patológico, inicialmente recorreremos ao 
estudo do comportamento de forma a refletir como este pode ser um fator protetor 
ou de risco para o trânsito como um todo. Analisaremos alguns fatores de risco e a 
responsabilidade do psicólogo nesse contexto. A seguir, apresentaremos o conceito 
de Psicopatologia e detalharemos, de forma sintética, algumas doenças, síndromes 
ou condições que podem interferir negativamente na capacidade do indivíduo 
conduzir um veículo. 
Os principais materiais abordados foram livros, como Gazzaninga e 
Heatherton (2005), Sternberg (2010), Dalgalarrondo (2010), manuais, como CID-10 
(1991, 2008), Mariuza e Garcia (2010), Pechansky, Duarte e De Boni (2010), dentre 
outros materiais devidamente citados ao longo da apostila e referenciados ao final 
da mesma. 
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recuperaçãode dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 
UNIDADE 1 – COMPORTAMENTO NO TRÂNSITO E SUAS 
ALTERAÇÕES 
 
O estudo do comportamento é essencial para a Psicologia do Trânsito. O 
trânsito é um sistema constituído de vários subsistemas, sendo os três desses 
principais o homem, a via e o veículo. Dentre os três, o homem é o subsistema mais 
complexo, por isso o homem tem maior probabilidade de desorganizar o sistema 
trânsito como um todo (ROZESTRATEN, 2015). 
A partir de seus comportamentos, o condutor pode contribuir para o 
funcionamento desse sistema, assim como o mesmo pode apresentar certos 
comportamentos que desestabilizam o trânsito, o que resulta em situação de risco 
para o próprio condutor, seus passageiros, os pedestres, outros condutores e 
passageiros de outros veículos. 
Tendo em vista o papel do comportamento como fator de proteção ou de 
risco para o funcionamento do trânsito, o psicólogo do trânsito precisa compreender 
o que é comportamento, assim como relacionar os comportamentos positivos ou 
nocivos à variável trânsito para, assim, buscar atuar de forma a prevenir 
comportamentos de risco por parte dos condutores. Ressalta-se que: 
 
Comportamento é o objeto de estudo da Psicologia e trânsito a 
especificidade da Psicologia do Trânsito. Ao longo dos anos, a Psicologia 
do Trânsito cresceu, principalmente na direção de se constituir, 
mundialmente, como área de pesquisa e aplicação para compreensão de 
comportamentos e prevenção de acidentes (BIANCHI, 2016, p. 46). 
 
1.1 Behaviorismo: o estudo do comportamento 
Para estudarmos o comportamento, inicialmente recorremos a uma 
importante escola psicológica – o behaviorismo (ou comportamentalismo) – que deu 
a ênfase necessária a este aspecto. 
O behaviorismo ou comportamentalismo preconiza uma abordagem mais 
científica da Psicologia e, em linhas gerais, enfatiza o papel das forças ambientais 
no comportamento humano (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005), mas, o que é 
comportamento? 
 
6 
 
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O comportamento se refere às ações observáveis: movimentos corporais, 
ações intencionais como comer ou beber e expressões faciais como sorrir. 
O termo comportamento é empregado para descrever uma ampla variedade 
de ações físicas, sutis ou complexas, que ocorrem nos organismos, das 
formigas aos humanos (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p. 40). 
 
Segundo Papalia, Olds e Feldman (2006), segundo o comportamentalismo, 
o indivíduo mostra-se passivo perante seu desenvolvimento, já que o ambiente 
desempenha um papel principal, ou seja, as pessoas são reativas e o ambiente 
controla o comportamento. Os comportamentos (e a aprendizagem) ocorrem a partir 
de situações do ambiente, ou seja, cada estímulo ambiental desencadeia, no 
indivíduo, determinada resposta. “O esquema do comportamento e suas causas se 
resumem ao paradigma S-R, no qual S é o estímulo e R, a resposta, a sensação ou 
o comportamento. Essa é a visão de Watson e Skinner” (ROZESTRATEN, 2015, 
p.3). 
Para o behaviorismo há dois tipos de comportamento que merecem 
destaque para nós: o respondente e o operante. Segundo Schultz e Schultz (1992), 
no comportamento respondente “a resposta comportamental é suscitada por um 
estímulo observável específico” (p. 281), enquanto que no condicionamento 
operante “a resposta do organismo é aparentemente espontânea – no sentido de 
não estar relacionada com nenhum estímulo observável” (p. 281). 
O estudo do comportamento é essencial não apenas no contexto da 
Psicologia do Trânsito, mas em todas as situações nas quais se lida com o ser 
humano e se torne necessário, dentro de certos limites, prever certos tipos de 
comportamento. A questão é abrangente, pois atualmente há estudos que apontam 
íntima relação entre determinados comportamentos, saúde e doença. 
 
É difícil imaginar uma atividade ou um comportamento que não influenciem 
a saúde de alguma forma – para melhor ou pior, direta ou indiretamente, de 
imediato ou a longo prazo. Os comportamentos de saúde são 
comportamentos das pessoas para melhorar ou manter sua saúde. 
Exercitar-se com regularidade, usar protetor solar, seguir uma dieta com 
baixo teor de gordura, dormir bem, praticar sexo seguro e usar o cinto de 
segurança são comportamentos que ajudam a ‘imunizar’ você contra 
doenças e ferimentos (STRAUB, 2014, p. 145). 
 
Dentre esses comportamentos de riscos – muitos dos quais são adotados 
desde a juventude – os citados abaixo podem ocasionar risco de morte prematura, 
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deficiência e doenças crônicas. Alguns desses fatores interferem na saúde de modo 
imediato, outros em longo prazo e, ainda, há outros que prejudicam o indivíduo tanto 
no presente quanto no futuro: 
1. Fumar e outras formas de abuso de tabaco. 
2. Comer alimentos com alto teor de gorduras e baixo de fibras. 
3. Não fazer atividades físicas suficientes. 
4. Abusar de álcool e outras substâncias (incluindo as de prescrição). 
5. Não usar métodos comprovados para prevenir ou diagnosticar doenças 
precocemente (exemplos: vacinas para gripe, decisões saudáveis 
relacionadas com o sexo, papanicolau, colonoscopias, mamografias). 
6. Participar de comportamento violento ou que possa causar lesões 
involuntariamente (exemplo: dirigir intoxicado) (CENTER FOR 
DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2010 apud STRAUB, 2014, 
p. 146). 
 
Este último item merece destaque para nossos estudos: observa-se que 
comportamentos de risco no trânsito interferem negativamente na saúde e no risco 
de morte. Entretanto, devemos ressaltar que, diferente de outras situações 
elencadas nos demais itens da citação anterior, o comportamento violento é uma 
situação muito delicada, pois pode causar danos à saúde não apenas do condutor, 
mas de todas as pessoas envolvidas no contexto do trânsito em determinado 
momento. Assim, reforça-se a gravidade de determinados comportamentos de risco 
adotados pelo condutor, já que pode ocasionar em consequências muito sérias, até 
mesmo fatais, do próprio condutor, seus passageiros, pedestres, outros condutores 
e passageiros que podem se relacionar diretamente com a situação. 
Os comportamentos podem ser reforçados de modo positivo, negativo, ou 
serem punidos. Essas respostas ao comportamento podem desencadear diferentes 
reações no indivíduo, inclusive o aumento da probabilidade de ocorrência de 
determinado comportamento, ou mesmo a extinção do mesmo. 
Entende-se como reforço qualquer estímulo que possibilite o aumento da 
probabilidade de resposta, podendo os reforços ser positivos ou negativos (MAIA, 
2008). Os reforços são mais eficazes quando seguem um comportamento 
imediatamente. 
 
O reforço positivo consiste em dar uma recompensa, como comida, troféu, 
dinheiro, elogio – ou brincar com um bebê. O reforço negativo consiste em 
tirar alguma coisa que o indivíduo não gosta (conhecido como evento 
aversivo), como, por exemplo, um ruído intenso (PAPALIA; OLDS; 
FELDMAN, 2006, p. 73). 
 
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Importante não confundir os conceitos de reforço negativo e punição. 
Enquanto o reforço negativo consiste em retirar do indivíduo algo que ele não goste 
(o que faz com que ele se sinta beneficiado com isso), a punição é definida como um 
estímulo experimentado após um comportamento (bater numa criança ou aplicar um 
choque elétrico num animal) ou retirar um evento positivo (não permitir assistir 
televisão ou ir ao recreio). 
No contexto do trânsito, um exemplo de reforço positivo seria um pai dar um 
automóvel de presente ao filho que completou dezoito anos há poucos meses e que, 
nesse período, já foi aprovado no ENEM e conseguiu sua permissão para dirigir. Por 
outro lado, um reforço negativo seria retirar desse mesmo rapaz a obrigação de 
buscar e levar, em seu próprio carro, diariamente, seus três irmãos mais novos à 
escola (tarefa que ele não gostava de desempenhar habitualmente). 
Voltando ao nosso jovem especificamente, a punição seria o ato de o pai 
retirar o carro do rapaz após saber que o mesmo havia dirigido embriagado (apenas 
retirar o veículo, sem nenhum tipo de intervenção educativa que visasse 
conscientizar o mesmo sobre a legislação de trânsito, a proibição de se dirigir 
embriagado e suas devidas penalidades) e, principalmente, os riscos desse 
comportamento de risco para o jovem motorista e a sociedade em geral. De forma 
mais ampla, as penalidades acarretadas aos condutores que cometem alguma 
infração (tais como o pagamento de multa e a perda de pontos na CNH) seriam 
exemplos das punições regulamentadas pelo Código de Trânsito Brasileiro. 
Dependendo do tipo de reforço empregado, um comportamento pode se 
repetir ou se extinguir. A partir dessa lógica geral, certos comportamentos podem ser 
condicionados. Papalia, Olds e Feldman (2006) sintetizam a definição de 
comportamento operante ao afirmar que nesse tipo de aprendizagem a pessoa 
repete o comportamento que foi reforçado e cessa o comportamento que foi punido. 
 
1.2 Comportamento e trânsito 
Como mostra a definição, a Psicologia do Trânsito estuda o comportamento 
de diversos personagens envolvidos no trânsito: 
 
A Psicologia no Trânsito, portanto, engloba o estudo do comportamento do 
indivíduo no seu deslocamento, seja ele o pedestre, o condutor, o ciclista, o 
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motorista profissional, o motociclista ou o passageiro, e suas 
consequências, ou seja, o comportamento de todos os usuários das 
rodovias e das redes viárias urbanas (SCHMITZ et al., 2014, p.19). 
 
Inicialmente, para se falar de comportamentos, especificamente em relação 
ao trânsito, torna-se necessário recorrer à legislação brasileira. Segundo o Código 
de Trânsito Brasileiro, para que determinado comportamento seja realizado, é 
necessário conhecimento sobre o comportamento correto esperado, condições 
físicas e psíquicas para executá-lo, além de habilidade técnica para executá-lo 
(BRASIL, 1997 apud BIANCHI, 2006). 
Para se avaliar os conhecimentos dos candidatos a condutores, os Detrans 
elaboram uma prova de conhecimentos, a qual inclui conteúdos do Código Nacional 
do Trânsito, direção defensiva e noções de primeiros socorros (DETRAN/PR, 2015 
apud BIANCHI, 2016). 
A avaliação das condições físicas dos candidatos fica a cargo dos médicos 
peritos em trânsito e, finalmente, cabe aos psicólogos peritos em trânsito avaliar os 
processos psicológicos e os comportamentos de risco associados à mortalidade no 
trânsito (BIANCHI, 2016). 
Um comportamento adequado no trânsito depende de um ambiente em que 
se possa ter o controle sobre as decisões tomadas, ou seja, deve haver um 
equilíbrio entre o ambiente, o estado de saúde do condutor e as condições do 
automóvel (SCHMITZ et al., 2014). Além disso, 
 
Para que se produzam comportamentos adequados no trânsito, são 
necessárias pelo menos três condições: 
- a presença de estímulos ou de situações que possam ser observadas e 
percebidas; quanto mais clara e menos ambígua a situação ou estímulo, 
melhor poderá ser a adaptação comportamental em relação a ela; 
- um organismo em condições de perceber e de reagir adequadamente aos 
estímulos percebidos; portanto, um organismo se deficiências sensoriais 
mentais ou motoras que prejudicariam sua reação; 
- uma aprendizagem prévia dos sinais e das normas que devem ser 
seguidas para que este organismo saiba se comportar adequadamente no 
sistema complicado do trânsito (ROZESTRATEN, 2015, p. 17). 
 
Segundo a Resolução 425/12 (CONTRAN, 2012), um dos aspectos que 
deve ser avaliado por métodos e técnicas psicológicas é o comportamento. O 
psicólogo deverá observar, no candidato à CNH e avaliar: 
 
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4.1. Comportamentos adequados às situações que deverão incluir tempo de 
reação simples e complexo, coordenação viso e audiomotora, coordenação 
em quadros motores complexos, aprendizagem e memória motora. 
4.2. Capacidade para perceber quando suas ações no trânsito 
correspondem ou não ao que pretendia fazer (CONATRAN, 2012, p. 23). 
 
Ou seja, desde a avaliação psicológica dos candidatos a condutores de 
veículos, o psicólogo perito deve buscar instrumentos que permitam a análise do 
comportamento do candidato. Já nesse momento, o profissional deve buscar 
detectar comportamentos adequados, mas também tentar identificar determinados 
comportamentos que poderiam ser fatores de risco quando este candidato estiver 
conduzindo um veículo. 
Conforme foi mencionado na subseção anterior, cada estímulo desencadeia 
uma resposta (comportamento). No trânsito, o condutor fica exposto a uma série de 
estímulos, os quais são provenientes do ambiente geral (são percebidos, mas não 
têm influência direta sobre o comportamento, como, por exemplo, as árvores e a 
paisagem em geral), do ambiente de trânsito (o condutor precisa escolher, dentre 
esses, quais os mais importantes, por exemplo, ele acaba por prestar mais atenção 
aos estímulos à frente do veículo do que aqueles atrás do veículo), do próprio carro 
(ruídos, indicadores do painel, imagens nos retrovisores) e, finalmente, os estímulos 
provenientes do próprio organismo do condutor (fadiga, informações cinestésicas, 
sede, dores). Esses estímulos são captados pelos órgãos dos sentidos, são 
transformados em estímulos nervosos e, em nível cerebral, são convertidos em 
percepção, ou ativam os centros motores cerebrais provocando os comportamentos 
– as respostas aos estímulos (ROZESTRATEN, 2016). 
Segundo o mesmo autor, a partir dos estímulos do ambiente geral, do 
trânsito, do carro e de seu próprio corpo, o motorista pode apresentar variados 
comportamentos gerais (que não se relacionam diretamente com o trânsito, como 
olhar fora do trânsito e ligar rádio), de trânsito (englobam as ações diretas e indiretas 
relacionadas à atuação do motorista no trânsito, como direção, velocidade, atenção 
dirigida, frear) e individuais (possuem alguma finalidade, mas não ligada ao trânsito, 
como colocar óculos, conversar). 
O Relatório Global Status Report On Road Safety 2015, da OMS (2015), 
elucidou áreas nas quais se faz necessário intervir visando à diminuição da 
mortalidade no trânsito, as quais são velocidade, bebida, uso de equipamentos de 
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segurança, não uso de equipamentos de retenção infantil – comportamentos esses 
previstos na legislação de trânsito brasileiro como infrações. Todas essas áreas 
relacionam-se diretamente a comportamentos do condutor, dos quais é possível 
depreender que a Psicologia possui papel de destaque na adoção de medidas que 
visem à segurança viária. Outros autores também endossam esses dados, conforme 
é apresentado nos parágrafos a seguir. 
 
• Limites de velocidade 
Ultrapassar o limite de velocidade permitido na via, além de ser um 
comportamento de risco associado à direção insegura, também pode associar-se ao 
cometimento de outras infrações (STANOJEVIC et al., 2013 apud SCHMITZ; 
SANTOS; VON DIEMEN; GONÇALVES, 2014). 
 
• Uso de álcool 
Bebida e direção é uma combinação perigosa e, por isso, passível de 
penalidades no Brasil. Dirigir sob efeito de bebida alcoólica é um comportamento de 
risco do condutor, porém, em certas situações, mais que um comportamento de 
risco, o uso, abuso e a dependência do álcool (ou de outras substâncias psicoativas) 
pode se caracterizar como patologia (tema que será enfatizado nas próximas 
seções). 
 
Dirigir sob o efeito de álcool e outras substâncias psicoativas é um 
comportamento de risco, visto que estas alteram o entendimento das 
situações cotidianas e a percepção do que acontece ao redor do condutor 
(DE BONI, 2007; THIELEN, HARTMANN; SOARES, 2008 apud 
PECHANSKY et al., 2010, p. 54). 
 
“Um comportamento imprudente, negligente ou desatento no trânsito, muitas 
vezes potencializado com o uso de substâncias psicoativas, coloca em risco não 
somente a própria pessoa, como também terceiros” (SCHMITZ et al., 2014, p. 24). 
Estudos mostram, também, que para os condutores jovens o limite de 
alcoolemia deve ser menor, já que estes podem ter o dobro de chances de 
provocarem acidentes se comparados com condutores mais experientes (SCHMITZ; 
SANTOS; VON DIEMEN; GONÇALVES, 2014). 
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Numa pesquisa que visou observar se há diferenças entre os padrões de 
consumo de álcool em motoristas profissionais e privados, Pechansky et al. (2010) 
puderam verificar que os motoristas privados apresentavam uma maior variação nas 
opções de consumo de substâncias psicoativas; se comparados com os motoristas 
profissionais, o primeiro grupo demonstrou proporções mais baixas de abuso de 
substâncias. 
 
• Outros comportamentos de risco 
Outros autores elucidam mais fatores que podem reduzir a concentração do 
condutor, tais como usar o telefone ao dirigir, assistir a equipamentos de vídeo 
enquanto dirige, usar equipamentos de som em volume alto, transportar animais 
soltos no veículo, transportar na cabine objetos que possam se deslocar durante o 
percurso (SEST/SENAT, 2009). 
É possível realizar uma análise desses comportamentos de risco. Exceder o 
limite de velocidade da via ou conduzir um veículo após ingerir bebida alcoólica são 
comportamentos classificados como orientados ao espaço externo do veículo, pois 
colocam em risco não apenas os ocupantes do veículo, mas também pessoas que 
não possuem nenhum tipo de relação direta com ele, mas se encontram no trânsito. 
Já comportamentos como não usar cinto de segurança ou capacete são orientados 
para o espaço interno do veículo, ou seja, inicialmente o condutor é a pessoa 
diretamente prejudicada por sua ação – excetuando-se situações em que os 
passageiros não utilizam o cinto de segurança. O comportamento de não utilizar 
equipamento de retenção infantil é uma questão a parte, pois, um menor é 
judicialmente incapaz e, portanto, depende de um responsável para que o 
comportamento adequado seja realizado (BIANCHI, 2016). 
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UNIDADE 2 – OS RISCOS DAS PSICOPATOLOGIAS E DE 
DETERMINADOS COMPORTAMENTOS DO MOTORISTA 
PARA A SOCIEDADE 
 
Na seção anterior elucidamos a relação entre comportamentos de risco do 
condutor – excesso de velocidade, uso de bebidas alcoólicas, ausência de 
equipamento de proteção do condutor, passageiros e de proteção infantil, dentre 
outros – e a diminuição da segurança no trânsito, inclusive, propiciando a ocorrência 
de acidentes que podem colocar em risco a vida do condutor e de outras pessoas 
que se encontram no trânsito. 
O acidente é o maior exemplo do fracasso do comportamento do condutor 
no trânsito – nos casos em que esse evento foi decorrente de uma falha no fator 
humano (ROZESTRATEN, 2016): 
 
Dentre as falhas humanas, destacam-se as causas físicas e psíquicas, a 
busca intencional de risco e de emoções intensas, as condutas interferentes 
e as distrações, a falta ou excesso de experiência e estados psicofísicos 
transitórios decorrentes, por exemplo, do uso de substâncias psicoativas 
(SPAs) (SCHMITZ et al., 2014, p. 19-20). 
 
Da citação anterior depreende-se que, quando causados por falhas 
humanas, os acidentes podem ser fruto de comportamentos inapropriados e de risco 
por parte do condutor, dos quais se inclui o uso de substâncias psicoativas. Porém, 
os comportamentos não são os únicos fatores humanos responsáveis pelos 
acidentes, estes podem ser ocasionados devido a transtornos mentais – incluindo o 
uso, abuso e dependência de substância psicoativa como o álcool. 
Inicialmente, considera-se que, em relação aos comportamentos de risco no 
trânsito, todo motorista está suscetível a cometer erros e violações, que são formas 
inadequadas de conduta, ou seja, infrações (ABERG; RIMMÖ, 1998; 
KONTOGIANNIS, KOSSIAVELOU et al., 2002 apud FALLER et al., 2010). 
Erros e infrações são duas situações diferentes, no primeiro caso não há 
intenção, já no segundo caso sim, conforme mostra a citação: 
 
o erro significa um ato involuntário relacionado com o processamento 
cognitivo do indivíduo, enquanto a violação envolve intencionalidade, 
14 
 
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estando relacionada a fatores motivacionais e sociais (FALLER et al., 2010, 
p. 64). 
 
Ou seja, de forma involuntária ou intencional todo motorista está sujeito a 
adotar um comportamento de risco. Os erros podem decorrer de distração ou 
mesmo do desconhecimento da legislação, por isso estratégias educativas são 
bastante eficazes (além de, em certas situações, a avaliação psicológica dos 
processos cognitivos ser essencial para se descartar possíveis condições que 
poderiam contribuir para a ocorrência de um erro devido à distração, por exemplo). 
Nas situações em que ocorre infração, ou seja, quando há intencionalidade nesse 
comportamento, as estratégias preventivas, educativas e de reabilitação são de 
suma importânciapara se evitar o cometimento de outras infrações (além de se 
cumprir a legislação de trânsito no que diz respeito às penalidades). 
O uso de substâncias psicoativas pode facilitar a ocorrência de erros (as 
mesmas atuam diretamente sobre o sistema nervoso central, interferindo nos 
processos cognitivos) e de infrações (a ação dessas drogas pode provocar reações 
como impulsividade, agressividade, sensação de ser invencível, dentre outras). 
Características da personalidade como impulsividade, agressividade, 
necessidade de autoafirmação, competitividade, por si só não são considerados 
transtornos mentais, mas, em determinadas situações, podem ser responsáveis por 
comportamentos de risco no trânsito. O psicólogo deve investigar se essas 
características são eventos isolados e que surgem em apenas determinadas 
situações, ou se, em conjunto, não representam a sintomatologia que caracteriza 
determinada condição psicopatológica. 
Nos parágrafos anteriores nos referimos a comportamentos de risco que 
podem inclusive provocar um acidente, mas há também outros comportamentos que 
podem não causar um acidente inicialmente, mas demonstram falta de cidadania e 
respeito com as outras pessoas que estão no trânsito, ou, ainda, mesmo que de 
forma indireta, podem se associar à ocorrência de acidentes, conforme mostra a 
citação a seguir: 
 
O trânsito é um fenômeno que engloba aspectos individuais, mas também 
reflete um comportamento social. No trânsito, quando uma pessoa 
apresenta comportamento alterado, aumenta consideravelmente o risco de 
promover prejuízo a todo um grupo. O sistema de trânsito é o espaço social 
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no qual a falta de senso comunitário mais se evidencia. Todo dia flagramos 
exemplos disso: condutores jogam lixo pela janela dos carros ou de 
coletivos, ultrapassam perigosamente sem necessidade, faltam com 
respeito ao pedestre, avançam sinal vermelho ou passam por uma poça 
d’água propositalmente para atingir alguém. Tais comportamentos refletem 
a falta de senso de coletividade, pois conviver e ter consciência social 
pressupõe considerar a outra pessoa, seus desejos, direitos, ter 
solidariedade e respeito, entre tantos outros valores, saber limitar os 
interesses pessoais e considerar também o coletivo e, assim, buscar o bem 
comum (SCHMITZ et al., 2014, p. 22-23). 
 
Entretanto, ainda direcionando nosso foco ao condutor, além dos 
comportamentos de risco há condições psicopatológicas associadas que tornam 
ainda maior o risco de acidentes, como elucida a citação a seguir: 
 
A influência do álcool e de outras substâncias psicoativas no dirigir, 
associada à alta prevalência de transtornos psiquiátricos, como Transtornos 
do Humor, Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) e Transtorno de 
Personalidade Antissocial, é relatada em vários estudos como um fator 
determinante para o aumento do risco de Acidentes de Trânsito (ATs) (MC-
MILLEN, PANG et al., 1991; SUTTON, 1994; LAPHAM, SMITH et al., 2001; 
LAPHAM, C’DE BACA et al., 2006; MCMILLAN, TIMKEN et al., 2008). 
 
Conforme o National Comorbidity Survey – NCS, realizado em 2001 
(LAPHAM, SMITH et al., 2001), 91% dos motoristas infratores apresentaram 
transtornos relacionados ao álcool pelo menos uma vez na vida, contra 44% da 
população geral norte-americana (KESSLER, MCGONAGLE et al., 1994). 
Entre esses motoristas, 50% das mulheres e 33% dos homens foram 
diagnosticados com ao menos uma comorbidade psiquiátrica além de abuso ou 
dependência de drogas, mais frequentemente Transtorno Depressivo Maior e TEPT 
(FALLER et al., 2010). 
Assim, como é possível observar na citação, dados consistentes de 
pesquisas internacionais mostram claramente a íntima relação entre os acidentes de 
trânsito e a associação perigosa entre transtornos psiquiátricos e uso de álcool e 
outras substâncias psicoativas. 
Resumindo, os acidentes e outras situações relacionadas a uma direção 
ofensiva e imprudente podem ser determinados pelo próprio condutor. Seus 
comportamentos de risco, a presença de alguma Psicopatologia – dos quais se inclui 
o uso e abuso de substâncias psicoativas – são os fatores que precisam ser bem 
conhecidos pelo psicólogo na busca de estratégias preventivas. 
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2.1 O papel do psicólogo 
Quando se pensa em avaliação psicológica para o trânsito, o psicólogo é 
levado a refletir sobre sua responsabilidade pelo processo, o qual inclui diferentes 
instrumentos de avaliação, a análise dos dados coletados e a emissão de um lado 
psicológico. Além de ter domínio sobre o processo de avaliação e conhecer bem os 
instrumentos utilizados, o psicólogo precisa estar ciente de que sua avaliação será 
responsável por permitir a um candidato conduzir um veículo – o que exige grande 
responsabilidade e equilíbrio emocional. 
A responsabilidade profissional e ética do psicólogo perito de trânsito nesta 
realidade precisa ser levada em consideração, pois cabe a ele avaliar e julgar o 
candidato à CNH como apto ou inapto. Por isso, o psicólogo precisa ter uma conduta 
ética muito rígida, seguindo à risca os padrões técnicos, já que o contrário poderia 
resultar em interferências no resultado, o qual precisa ser objetivo (CRP-SP, 2006). 
O resultado da avaliação – seja este positivo ou negativo – pode acarretar 
em consequências para o candidato, fator que o psicólogo deve sempre levar em 
consideração. Aprovar um candidato que, na realidade, não se encontra apto à 
condução de um veículo devido a possíveis desajustes emocionais pode colocar ele 
mesmo e terceiros em sério risco, ao passo que reprovar o mesmo, 
inadvertidamente, pode contribuir para que o candidato reforce o estigma da 
incapacidade psicológica ou motora (CRP-SP, 2006). 
Na avaliação psicológica para o trânsito é necessário aferir os processos de 
tomada da informação, processamento de informação, tomada de decisão, 
comportamento e traços de personalidade. Dentre esses, a tomada de decisão 
merece destaque por estar implicada na execução de todos os comportamentos. Em 
sua tomada de decisão, o condutor deve avaliar – mesmo se sofrer pressão de 
outras pessoas para que tome decisões de risco – seus comportamentos, visando 
sempre à avaliação da situação e à escolha pelo comportamento mais seguro 
(BIANCHI, 2016). 
Modificar comportamentos de risco no trânsito não é tarefa simples, para 
que haja uma real modificação desses comportamentos de risco, estudos apontam a 
necessidade de se promover ações nas áreas da Engenharia, Educação e esforço 
legal (SOUZA, 2014). 
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Conforme Faller et al. (2010, p.64) “[...] dentre os estudos publicados, a 
maioria ratifica a possibilidade de que características pessoais e patologias 
psiquiátricas influenciem e sejam influenciadas por ATs e consumo de SPAs” (sendo 
AT a sigla para acidentes de trânsito e SPA a sigla de substâncias psicoativas). A 
partir dessa citação contesta-sea importância de um diagnóstico psiquiátrico ou a 
identificação de possíveis marcadores de risco para algumas dessas condições 
psicopatológicas que aparecem como fatores de risco para os condutores. A partir 
da identificação de alguma doença, transtorno, ou mesmo de indícios de que alguma 
delas possa surgir, é possível pensar em estratégias que visem à reabilitação ou ao 
tratamento dos motoristas. 
Em alguns países, os condutores que são flagrados dirigindo sob influência 
de substâncias psicoativas são encaminhados para tratamento. Essas intervenções 
junto ao motorista que já apresentou algum comportamento de risco visam a reduzir 
recaídas e o cometimento de outras infrações no trânsito. Entretanto, uma falha nas 
intervenções acontece num primeiro momento, na avaliação médica e psicológica, 
quando muitas condições clínicas e patológicas são subnotificadas, o que é muito 
grave quando se sabe que o abuso de substâncias psicoativas e a presença de 
comorbidades psiquiátricas contribuem para o aumento dos acidentes de trânsito 
(PALMER et al., 2007; MCMILLAN, TIMKEN et al., 2008; MCMILLAN, 2008 apud 
FALLER et al., 2010). 
Alguns desses transtornos podem ser detectados na avaliação médica e 
psicológica e, nesses casos, o candidato pode ser declarado inapto ou inapto 
temporariamente para a condução de um veículo – nessa segunda opção, incluem-
se os transtornos mentais situacionais, ou seja, aqueles que podem desaparecer 
com o passar do tempo e com o tratamento adequado. Porém, existem também 
situações em que o candidato não apresentava nenhum transtorno na ocasião da 
avaliação, mas, devido a alguns fatores, passou a sofrer de um transtorno mental 
capaz de interferir negativamente em sua capacidade de conduzir um veículo de 
maneira responsável. Na seção a seguir, apresentaremos alguns desses 
transtornos. 
Os comportamentos de risco no trânsito e transtornos psiquiátricos 
influenciam e são influenciados pela prática de beber e dirigir. Tento em vista a 
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importância dos transtornos psiquiátricos nesse contexto, reforça-se a necessidade 
de que condutores com esse perfil sejam avaliados e submetidos a intervenções 
específicas direcionadas aos transtornos psiquiátricos, ao invés de se buscar 
apenas avaliar a ocorrência de problemas relacionados ao álcool e substâncias 
psicoativas e intervir diretamente nessas situações (FALLER et al., 2010). Então, 
estratégias eficazes nesse sentido, precisam conhecer o perfil dos condutores, 
avaliar e propor intervenções específicas. 
 
[...] o conhecimento da realidade dos motoristas brasileiros é o primeiro 
passo para a elaboração e o planejamento de políticas públicas como o 
delineamento de intervenções, programas de tratamento e realização de 
avaliações psiquiátricas adequadas para que danos decorrentes do 
problema sejam evitados ou, pelo menos, minimizados (FALLER et al., 
2010, p. 69). 
 
Os autores anteriormente citados abordam especificamente a avaliação 
psiquiátrica, mas é evidente que o psicólogo é um profissional imprescindível na 
realização da avaliação psicológica (não apenas aquela direcionada para a 
aquisição da permissão para dirigir e mudança de categoria de CNH) em busca de 
se encontrar indícios de problemas com álcool, drogas e outras comorbidades 
psiquiátricas. O psicólogo também é um profissional de grande valia junto à equipe 
multiprofissional no delineamento de estratégias de prevenção primária, secundária 
e terciária para se tentar minimizar os comportamentos de risco associados ao 
trânsito. No tratamento de problemas relacionados ao alcoolismo e demais 
transtornos mentais, a Psicoterapia pode ser uma estratégia indicada e de suma 
importância para se produzir uma real mudança dos comportamentos de risco e 
minimizar os sintomas das psicopatologias que interferem negativamente na postura 
do motorista. 
É possível promover a mudança de comportamentos de risco do condutor, 
certas psicopatologias são passíveis de tratamentos que podem garantir que o 
motorista tenha condições de dirigir, entretanto, para alguns quadros 
psicopatológicos, a validade dos tratamentos é questionável, como no caso dos 
transtornos da personalidade, os quais não são doenças, mas condições da 
estrutura do paciente que podem oferecer grande risco caso um motorista apresente 
tais transtornos. 
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UNIDADE 3 – PSICOPATOLOGIA 
 
Alguns comportamentos do motorista – como beber e dirigir, exceder o limite 
de velocidade da via e não usar equipamentos de segurança – são responsáveis por 
diminuir sua segurança no trânsito e, inclusive, podem provocar a ocorrência de 
acidentes de trânsito. Entretanto, além desses comportamentos de risco, há alguns 
transtornos mentais que, associados ou não ao uso e abuso de álcool e outras 
substâncias psicoativas, podem agravar ainda mais a situação de risco do motorista 
no trânsito. Pesquisas recentes, como a de Faller e colaboradores (2010), 
apresentam dados que endossam a perigosa relação entre certas patologias, uso de 
substâncias psicoativas e a ocorrência de acidentes e comportamentos de risco do 
motorista. 
Segundo Dalgalarrondo (2008), a semiologia psicopatológica é o estudo dos 
sinais e sintomas dos transtornos mentais. Segundo o mesmo autor, compreende-se 
Psicopatologia como: 
 
 [...] o conjunto de conhecimentos referentes ao adoecimento mental do ser 
humano. [...] O campo da Psicopatologia inclui um grande número de 
fenômenos humanos especiais, associados ao que se denominou 
historicamente de doença mental. São vivências, estados mentais e 
padrões comportamentais que apresentam, por um lado, uma 
especificidade psicológica (as vivências dos doentes mentais possuem 
dimensão própria, genuína, não sendo apenas ‘exageros’ do normal) e, por 
outro, conexões complexas com a Psicologia do normal (o mundo da 
doença mental não é um mundo totalmente estranho ao mundo das 
experiências psicológicas ‘normais’) (p. 27). 
 
São múltiplas as causas para os transtornos mentais, tais como fatores 
psicológicos, fatores cognitivo-comportamentais, fatores biológicos, sendo que a 
melhor maneira de se pensar nas causas da doença mental consiste na interação 
entre múltiplos fatores (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). 
É relativamente fácil considerar determinados sinais e sintomas como 
indícios de transtorno mental, como, por exemplo, presença de alucinações, ideação 
suicida, dentre outras reações que expressam claramente que há algo de errado 
com aquela pessoa, mas há outros sinais e sintomas característicos de transtorno 
mental que são bastante sutis, muitos dos quais se passam despercebidos pela 
maioria das pessoas. 
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Nesses últimos casos, a fronteira entre o normal e o patológico é tão tênue 
que se torna difícil estabelecer essa diferenciação. Uma característica geral da 
doença mental é causar sofrimento para aqueleque sofre do problema e para 
aqueles que com ele convivem. 
 
Uma vez que a linha entre o normal e o anormal é difícil de traçar, há uma 
tendência crescente de definir a Psicopatologia como os pensamentos e 
comportamentos que são desadaptativos, em vez de desviantes. Lavar as 
mãos toda hora pode ser desviante, mas adaptativo – afinal de contas, é a 
melhor maneira de evitar doenças contagiosas. O mesmo comportamento, 
entretanto, pode ser desadaptativo quando as pessoas não conseguem 
parar de lavar as mãos até deixá-las em carne viva. Os critérios 
diagnósticos para as categorias de transtornos maiores precisam interferir 
em pelo menos um aspecto na vida da pessoa, como o trabalho, as 
relações sociais ou o autocuidado. Esse é um componente crítico para 
determinar se um dado comportamento ou conjunto de comportamentos 
representa um transtorno mental ou é simplesmente incomum 
(GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.501). 
 
Para se estudar a Psicopatologia, faz-se necessário recorrer a critérios de 
diagnóstico de doenças, tais como a Classificação Internacional de Doenças da CID-
10, que elucida todas as doenças, ou o Manual Diagnóstico e Estatístico de 
Transtornos Mentais – DSM-V –, voltado especificamente para uma descrição 
detalhada dos transtornos mentais, como o próprio nome diz. 
É importante estabelecer diagnósticos não para rotular o paciente como 
portador de determinado transtorno, doença ou síndrome, mas, segundo 
Gazzaninga e Heatherton (2005), para se obter um ponto de partida para a terapia, 
visto que determinados tratamentos são específicos para determinados transtornos. 
Além disso, a partir de um diagnóstico, é possível estabelecer o prognóstico (curso e 
provável resultado), o que pode auxiliar o paciente e seus familiares na 
compreensão de como será o futuro. 
No contexto de trânsito, o psicólogo não é o profissional encarregado pela 
terapia, mas sim pelo diagnóstico desses transtornos no momento da avaliação 
psicológica. 
Autores que abordam a Psicopatologia, normalmente se referem ao paciente 
ou cliente, visto que a questão das doenças (seu diagnóstico e seu tratamento) é 
diretamente relacionada à medicina e aos demais profissionais que compõem a 
equipe multiprofissional em saúde, dentre eles o psicólogo. Entretanto, na Psicologia 
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do trânsito, o psicólogo não irá lidar com o seu paciente, mas com o candidato a 
condutor ou o próprio condutor. Essa mudança de contexto não é apenas conceitual. 
O psicólogo de trânsito exerce a função de perito, de avaliador, portanto, 
diferente do psicólogo clínico, sua intervenção não tem fins psicoterapêuticos. Caso 
na avaliação psicológica sejam detectados sinais e sintomas de determinada 
condição psicopatológica, não cabe a ele conduzir o tratamento, apenas avaliar se 
os achados em questão interferem ou não em sua habilidade de conduzir um 
veículo. A partir dos resultados da avaliação, o profissional elabora seu laudo – o 
qual pode ser apto, inapto, ou inapto temporariamente – ou seja, teoricamente, sua 
função junto ao candidato se encerra aqui. Dependendo dos achados encontrados, o 
psicólogo pode encaminhar o candidato para outros profissionais (psicólogo ou 
médico), os quais serão responsáveis por conduzir um possível tratamento. 
Já em outros contextos ainda relacionados ao trânsito, o psicólogo pode 
participar de intervenções educativas ou que visem à modificação de 
comportamentos de risco dos motoristas, lembrando-se de que em situações nas 
quais há diagnóstico de quadros psicopatológicos, o motorista em questão deve ser 
também encaminhado para realizar o tratamento de sua patologia, o que poderá 
resultar em resultado positivo em relação aos seus comportamentos de risco. 
Algumas condições psicopatológicas podem ser acompanhadas de outros 
transtornos, o que é denominado comorbidade. 
 
Comorbidade pode ser definida como a coocorrência de duas ou mais 
enfermidades ou transtornos, em uma mesma pessoa, num determinado 
período de tempo (ou por tempo indeterminado) (KESSLER; PECHANSKY; 
BALDISSEROTTO, 2016, p. 96). 
 
Por exemplo, um condutor se envolveu num acidente de trânsito e os policiais 
responsáveis pela ocorrência detectaram níveis etílicos consideráveis no teste do 
bafômetro. Uma avaliação multiprofissional mais detalhada do indivíduo revelou que 
o mesmo apresenta transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso do 
álcool e da cocaína associados a um transtorno depressivo grave – presença de 
comorbidades que são situações de risco para o condutor. 
Optamos por, ao longo desta apostila, apresentar descrições dos Manuais 
CID-10 e DSM-5. O capítulo V da CID-10 (2008) aborda as síndromes mentais e 
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comportamentais (F00 a F99), algumas das quais serão abordadas ao longo deste 
material. Há também um volume da CID-10 destinado exclusivamente a esses tipos 
de transtornos, intitulado “Classificação de Transtornos Mentais e de 
Comportamento da CID-10 (1993)”. 
 
Agrupamento Transtornos 
F00-F09 
Transtornos 
mentais orgânicos, 
inclusive os 
sintomáticos 
 
F00* Demência na doença de Alzheimer (G30.-†). 
F01 Demência vascular. 
F02* Demência em outras doenças classificadas em outra parte. 
F03 Demência não especificada. 
F04 Síndrome amnésica orgânica não induzida pelo álcool ou por 
outras substâncias psicoativas. 
F05 Delirium não induzido pelo álcool ou por outras substâncias 
psicoativas. 
F06 Outros transtornos mentais devidos à lesão e à disfunção cerebral 
e à doença física. 
F07 Transtornos de personalidade e do comportamento devidos à 
doença, à lesão e à disfunção cerebral. 
F09 Transtorno mental orgânico ou sintomático não especificado. 
F10-F19 
Transtornos mentais e 
comportamentais 
devidos ao uso de 
substância psicoativa 
 
F10 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool. 
F11 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de 
opiáceos. 
F12 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de 
canabinoides. 
F13 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de 
sedativos e hipnóticos. 
F14 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso da 
cocaína. 
F15 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de outros 
estimulantes, inclusive a cafeína. 
F16 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de 
alucinógenos. 
F17 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de fumo. 
F18 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de 
solventes voláteis. 
F19 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de 
múltiplas drogas e ao uso de outras substâncias 
psicoativas. 
F20-F29 
Esquizofrenia, 
transtornos 
esquizotípicos e 
transtornos delirantes 
 
F20 Esquizofrenia. 
F21 Transtorno esquizotípico. 
F22 Transtornos delirantes persistentes. 
F23 Transtornos psicóticos agudos e transitórios. 
F24 Transtorno delirante induzido. 
F25 Transtornos esquizoafetivos. 
F28 Outros transtornos psicóticos não orgânicos. 
F29 Psicose não orgânica não especificada. 
F30-F39 
Transtornos do humor 
[afetivos] 
 
F30 Episódio maníaco. 
F31 Transtorno afetivo bipolar. 
F32 Episódios depressivos. 
F33 Transtorno depressivo recorrente. 
F34 Transtornos de humor [afetivos] persistentes. 
F38 Outros transtornos do humor[afetivos]. 
F39 Transtorno do humor [afetivo] não especificado. 
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F40-F48 
Transtornos 
neuróticos, 
transtornos 
relacionados com o 
“stress” e transtornos 
somatoformes 
F40 Transtornos fóbico-ansiosos. 
F41 Outros transtornos ansiosos. 
F42 Transtorno obsessivo-compulsivo. 
F43 Reações ao “stress” grave e transtornos de adaptação. 
F44 Transtornos dissociativos [de conversão]. 
F45 Transtornos somatoformes. 
F48 Outros transtornos neuróticos. 
 
F50-F59 
Síndromes 
comportamentais 
associadas a 
disfunções 
fisiológicas e a fatores 
físicos 
 
F50 Transtornos da alimentação. 
F51 Transtornos não orgânicos do sono devidos a fatores emocionais. 
F52 Disfunção sexual, não causada por transtorno ou doença 
orgânica. 
F53 Transtornos mentais e comportamentais associados ao puerpério, 
não classificados em outra parte. 
F54 Fatores psicológicos ou comportamentais associados à doença ou 
a transtornos classificados em outra parte. 
F55 Abuso de substâncias que não produzem dependência. 
F59 Síndromes comportamentais associados a transtornos das 
funções fisiológicas e a fatores físicos, não especificadas. 
F60-F69 Transtornos da personalidade e do comportamento do adulto. 
F60 Transtornos específicos da personalidade. 
F61 Transtornos mistos da personalidade e outros transtornos da 
personalidade. 
F62 Modificações duradouras da personalidade não atribuíveis à lesão 
ou à doença cerebral. 
F63 Transtornos dos hábitos e dos impulsos. 
F64 Transtornos da identidade sexual. 
F65 Transtornos da preferência sexual. 
F66 Transtornos psicológicos e comportamentais associados ao 
desenvolvimento sexual e à sua orientação. 
F68 Outros transtornos da personalidade e do comportamento do 
adulto. 
F69 Transtorno da personalidade e do comportamento do adulto, não 
especificado. 
F70-F79 
Retardo mental 
 
F70 Retardo mental leve. 
F71 Retardo mental moderado. 
F72 Retardo mental grave. 
F73 Retardo mental profundo. 
F78 Outro retardo mental. 
F79 Retardo mental não especificado. 
F80-F89 
Transtornos do 
desenvolvimento 
psicológico 
 
F80 Transtornos específicos do desenvolvimento da fala e da 
linguagem. 
F81 Transtornos específicos do desenvolvimento das habilidades 
escolares. 
F82 Transtorno específico do desenvolvimento motor. 
F83 Transtornos específicos misto do desenvolvimento. 
F84 Transtornos globais do desenvolvimento. 
F88 Outros transtornos do desenvolvimento psicológico. 
F89 Transtorno do desenvolvimento psicológico não especificado. 
F90-F98 
Transtornos do 
comportamento e 
transtornos 
emocionais que 
aparecem 
habitualmente durante 
a infância ou a 
F90 Transtornos hipercinéticos. 
F91 Distúrbios de conduta. 
F92 Transtornos mistos de conduta e das emoções. 
F93 Transtornos emocionais com início especificamente na infância. 
F94 Transtornos do funcionamento social com início especificamente 
durante a infância ou a adolescência. 
F95 Tiques. 
F98 Outros transtornos comportamentais e emocionais com início 
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adolescência habitualmente durante a infância ou a adolescência. 
F99 
Transtorno mental 
não especificado 
F99 Transtorno mental não especificado em outra parte. 
 
Tabela 1: Agrupamentos de transtornos mentais da CID-10. 
Fonte: CID-10 (2008). 
 
Dentre todos esses transtornos mentais e comportamentais enumerados na 
Classificação Internacional das Doenças da CID-10, nem todos são condições que 
oferecem risco real para o condutor e o trânsito em geral. Alguns desses 
transtornos, por si só, poderiam não oferecer risco potencial, mas os tratamentos 
medicamentosos podem causar reações adversas que incluem risco ao conduzir 
automóveis e operar máquinas, o que também seria um sério risco. Cabe ao médico 
e ao psicólogo grande atenção na avaliação médica e psicológica, pois, cientes 
desses riscos, muitos candidatos e condutores tendem a omitir diagnósticos 
pregressos, assim como medicação ou outras drogas das quais se faz uso. Em caso 
de detectar algum sinal ou comportamento suspeito na avaliação, o perito pode 
declarar o candidato inapto temporariamente e encaminhá-lo para tratamento 
adequado, ou, em outras situações, pode solicitar o parecer do médico especialista 
responsável pelo paciente em busca de maiores subsídios para a realização de uma 
avaliação segura, além de buscar mais dados documentais que possam ser 
anexados junto aos materiais do paciente e fornecer maior segurança ao profissional 
que irá responder por aquele processo avaliativo. 
Já outros transtornos, isolados, podem não oferecer mais problemas, porém, 
quando aparecem associados a outras comorbidades, oferecem riscos. Pesquisas 
apontam que são condições associadas a comportamentos de risco e acidentes de 
trânsito o uso, abuso e a dependência de substâncias psicoativas (PECHANSKY et 
al., 2010), Transtornos do Humor, Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) e 
Transtorno de Personalidade Antissocial (MCMILLEN, PANG et al., 1991; SUTTON, 
1994; LAPHAM, SMITH et al., 2001; LAPHAM, C’DE BACA et al., 2006; MCMILLAN, 
TIMKEN et al., 2008 apud FALLER et al., 2010), transtorno depressivo maior 
(LAPHAM, SMITH et al., 2001 apud FALLER et al., 2010), transtorno bipolar, 
transtorno obsessivo-compulsivo (MCMILLAN, TIMKEN et al., 2008 apud FALLER et 
al., 2010). 
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recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 
Por outro lado, outras pesquisas não encontraram diferenças significativas 
entre o cometimento de determinadas infrações de trânsito (e a ocorrência de 
acidentes) entre grupos de motoristas com transtornos psiquiátricos e outros 
considerados “normais”, conforme citação a seguir: 
 
 
Em estudo retrospectivo, (...) motoristas com diagnósticos psiquiátricos 
(como transtorno depressivo maior, psicose reativa breve, transtorno de 
personalidade bordeline, transtorno conversivo, transtorno misto de 
personalidade, transtorno de personalidade passivo-dependente, fobia 
social e transtorno de ajustamento) não eram diferentes dos controles 
quanto às taxas de batidas em objeto fixo, velocidade insegura, infrações ou 
menos uso de cinto de segurança (CUSHMAN et al., 1990 apud ARAÚJO; 
MALLOY-DINIZ; ROCHA, 2009, p.61). 
 
É importante ter acesso a pesquisas que verificam todas essas 
possibilidades, mas, mesmo de posse de dados como os obtidos no estudo de 
Cushman et al. (1990 apud ARAÚJO; MALLOY-DINIZ; ROCHA, 2009), reforça-se 
que o psicólogo do trânsito, principalmente devido à sua função de perito, deve 
conhecer bem as psicopatologias, inclusive estudos que associam alguns 
transtornos com a ocorrência de acidentes, e atentar-se a essas possibilidades. 
Assim, o psicólogo do trânsito precisa se conscientizar da necessidade de se 
conhecer a fundo a Psicopatologia, os sinais e sintomas desses transtornos, 
especialmente os que podem ser detectados durante a avaliação psicológica – seja 
na entrevista, em dinâmicas ou por via dos testes psicológicos, como mostra a 
citação abaixo: 
 
‘O candidatopode ser considerado inapto temporário se apresentar sinais 
de agressividade, agitação, instabilidade emocional, cansaço e exaustão. 
A emissão da CNH só será feita após nova avaliação. Para isso, a pessoa 
terá de passar por tratamento para solucionar esses diagnósticos, afirmou 
Raquel Almqvist, especialista em Psicologia de Tráfego’. Se a pessoa 
apresentar características de agressividade, impulsividade e depressão 
acentuadas e psicopatologias como esquizofrenia, que engloba distúrbios 
bipolares, fobias, síndrome do pânico e paranóia, ela será considerada 
inapta a dirigir um veículo, disse Raquel (G1, 2008, s.p.). 
 
Dirigir pode ser uma atividade extremamente perigosa para os portadores de 
determinados transtornos, o psicólogo, junto com o médico, são os profissionais 
responsáveis por detectar essas condições e, através de seus laudos, impedirem a 
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concessão da permissão para dirigir para pessoas portadoras de determinados 
quadros clínicos psicopatológicos: 
 
Sabendo-se da importância de um acompanhamento psiquiátrico, em vários 
países, os indivíduos infratores por dirigir sob influência de substâncias são 
encaminhados para tratamento. Porém, estudos têm mostrado que esses 
pacientes são subdiagnosticados no que compete a tais transtornos, mesmo 
se sabendo que, além do uso de álcool e SPA, comorbidades também 
contribuem para o aumento do risco de AT (MCMILLAN, TIMKEN et al., 
2008; McMILLAN, 2008 apud FALLER et al., 2010, p. 64). 
 
Enfim, existem muitos transtornos mentais, comportamentais e neurológicos 
que podem comprometer a segurança do motorista e do trânsito em geral, outras 
condições podem deixar o motorista inapto temporariamente ou permanentemente a 
conduzir um veículo automotor. Não haveria espaço nesse material para 
abordarmos todos esses transtornos e condições especiais, por isso selecionamos 
apenas alguns desses. 
Nas próximas sessões apresentaremos brevemente alguns transtornos 
mentais e comportamentais da CID-10, seus principais sintomas, de forma a 
relacionar como os mesmos podem, isolados ou associados a comorbidades, 
oferecer riscos à condução segura do veículo. Selecionamos os transtornos que, 
segundo pesquisas, podem aumentar as chances de se causar um acidente de 
trânsito, tais como Transtornos do Humor (depressão e transtorno bipolar), 
Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT), Transtorno de Personalidade 
Antissocial, Transtorno da personalidade borderline, fobias, além de transtornos 
ansiosos, demência (que podem impossibilitar o motorista idoso a dirigir, gerando 
uma série de problemas familiares), direcionando atenção especial aos transtornos 
mentais e comportamentais devidos ao uso de substâncias psicoativas (daremos 
ênfase especial ao álcool devido às implicações da legislação brasileira nesse 
sentido). 
A apresentação dos transtornos que possuem maior implicação direta com o 
contexto do trânsito não seguirá a ordem da categorização da CID-10. 
 
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UNIDADE 4 – TRANSTORNOS MENTAIS E DE 
COMPORTAMENTO DECORRENTES DO USO DE 
SUBSTÂNCIA PSICOATIVA (F10-F19) 
 
4.1 Definições e conceitos básicos 
Iniciaremos nossa explanação por este problema responsável por um 
comportamento de risco – em especial, beber e dirigir – responsável por muitos 
acidentes de trânsito, segundo elucidam autores como Faller et al. (2010); 
Pechansky et al. (2010); Schmitz et al. (2014); Bianchi (2016), dentre outros. 
Partimos da seguinte questão: O que são drogas e substâncias psicoativas? 
 
Atualmente, a Organização Mundial de Saúde define DROGA como sendo 
qualquer substância que altera o funcionamento do organismo e que não é 
produzida por ele. Portanto, a palavra droga se refere a qualquer substância 
capaz de produzir um efeito biológico no organismo, seja ela medicinal ou 
nociva. 
As drogas capazes de alterar o funcionamento cerebral ou psíquico são 
denominadas DROGAS PSICOTRÓPICAS ou SUBSTÂNCIAS 
PSICOATIVAS (SPA). Desse modo, atuam sobre o nosso cérebro, 
alterando nossa maneira de sentir, de pensar e, muitas vezes, de agir. As 
alterações mentais não são iguais para todas as substâncias, uma vez que 
cada uma delas é capaz de causar diferentes reações. Uma parte das 
substâncias psicoativas é capaz de causar dependência e graves prejuízos, 
sendo, nesses casos, denominadas drogas de abuso, uma vez que o 
consumo descontrolado é observado com frequência entre os seus 
usuários. Substâncias com potencial de abuso são aquelas que podem 
desencadear no indivíduo a autoadministração repetida, que geralmente 
resulta em tolerância, abstinência e comportamento compulsivo de consumo 
(LORDI; SORDI; GONÇALVES, 2014, p. 36). 
 
Segundo a CID-10 (2008), incluem-se nesse agrupamento (F10 – F19), 
todos os transtornos que são atribuídos ao uso de uma ou várias substâncias 
psicoativas, sejam elas prescritas ou não pelo médico. A identificação da substância 
psicoativa deve ser realizada a partir de todas as fontes de informação possível, tais 
como informações fornecidas pelo próprio paciente ou por terceiros (por exemplo: 
familiares), análise de sangue e outros fluidos corporais, sinais, sintomas e 
comportamentos típicos, drogas encontradas com o paciente, dentre outros meios. 
O uso de substâncias, conforme citado por Straub (2014), está relacionado à 
ingestão de substâncias, independente da quantidade ou do efeito obtido por tal 
ingestão. Já o abuso de substâncias é o “uso de qualquer agente químico em um 
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nível que atrapalhe o bem-estar do usuário em qualquer domínio da saúde: 
biológico, psicológico ou social” (p.215). 
Praticamente todas as pessoas fazem uso de alguma substância psicoativa 
ao longo de suas vidas, sejam elas lícitas – como o álcool, o cigarro, os 
medicamentos – ou ilícitas – como a maconha, a cocaína, o LSD – porém há 
diferentes padrões de uso, ou seja, nem todos apresentam problemas decorrentes 
desse uso. Os critérios do DSM-V para que o profissional da saúde possa realizar 
diagnóstico de transtorno decorrente do uso de substância são: 
 
Quadro 01: Critérios diagnósticos para presença de transtorno por uso de 
substâncias 
 
Fonte: DSM-V apud Lopes, Sordi e Gonçalves (2014). 
 
A partir dos critérios enumerados no quadro anterior, considera-se transtorno 
leve na presença de 2 a 3 desses critérios, moderado quando o indivíduo apresenta 
de 4 a 5 critérios e grave quando é possível caracterizar mais de 6 critérios. Quando 
o uso segue padrões abusivos ou se caracteriza por comportamentos de 
dependência alguns autores falam em adicção, que pode ser definida como: 
 
Adicção [...] padrão comportamental caracterizado pelo envolvimento 
irresistível no uso de uma substância, uma preocupação com seu 
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fornecimento e uma grande probabilidade de recaída se ela for interrompida 
[...] (STRAUB, 2014, p.218). 
 
A adicção é caracterizada pelo desenvolvimento de dependência física (sinais 
e sintomas físicos adversos provocados pela abstinência de uma droga) e 
possivelmente psicológica (uso habitual e compulsivo da substância, mesmo quando 
o usuário está ciente das consequências do uso e abuso), assim como também o 
surgimento de tolerância (redução da resposta da droga depois de administrações 
repetidas) (STRAUB, 2014). 
Devido aos mecanismos de dependência física e psicológica, compreende-
se porque um indivíduo dependente de determinada substância não consegue 
simplesmente deixar de usar a substância de abuso quando ciente das 
consequências danosas que a mesma pode causar nele mesmo e nas pessoas 
direta ou indiretamente relacionadas a ele. Isso explica porque a problemática da 
dependência química é tão complexa e difícil de se resolver com estratégias 
simplistas, ao contrário do que os leigos costumam acreditar. 
Quando um indivíduo dependente de determinada substância psicoativa, 
cessa o uso da mesma, ele pode apresentar sintomas de abstinência: “Sintomas 
físicos e psicológicos desagradáveis que ocorrem quando a pessoa para de usar 
determinada substância de forma abrupta” (STRAUB, 2014, p. 218). 
Os efeitos da abstinência, os quais variam de acordo com a substância, 
costumam ser opostos aos efeitos principais daquela substância. Por exemplo, as 
anfetaminas e outros estimulantes ocasionam sensação inicial de euforia, já a 
abstinência das anfetaminas desencadeia depressão (oposto da euforia) e outros 
sintomas, como náusea, vômito, perturbação do sono, ansiedade e até mesmo 
morte (STRAUB, 2014). 
Para fins de avaliação médica e psicológica do paciente, em geral é normal 
que o paciente, seus familiares e o próprio profissional da saúde só destinem a 
atenção necessária ao problema quando já se é possível verificar sinais de 
comportamento abusivo e de dependência de determinada substância psicoativa, 
entretanto, para fins de trânsito, é importante destacar que o uso ocasional de álcool 
pode ser o suficiente para causar sérios problemas para o condutor. 
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Entretanto, direcionando nosso foco especificamente para a Psicologia do 
Trânsito, é necessário redobrar nossa atenção nesse sentido, já que atualmente a 
legislação brasileira prevê tolerância zero para os condutores que dirigem sob o 
efeito de álcool, ou seja, se o motorista fizer uso de pequenas quantidades de 
cerveja antes de dirigir e for flagrado pelo bafômetro, ele terá problemas com a lei, 
mesmo que o mesmo faça apenas uso ocasional de álcool e não apresente nenhum 
tipo de problema relacionado ao uso dessa substância. Daremos a ênfase 
necessária à legislação ainda nessa seção e já elucidamos também que o uso de 
outras substâncias psicoativas pode provocar graves consequências para o 
motorista e para o trânsito em geral. Por exemplo, além dos riscos decorrentes dos 
efeitos de substâncias psicoativas que causam diminuição dos reflexos ou mesmo 
alucinações, o simples fato de fumar enquanto dirige pode fazer com que, devido a 
uma situação de susto, o motorista se queime e, por reflexo à queimadura, acabe 
provocando um acidente. 
O conceito de transtorno por uso de substâncias é descritivo e baseado na 
presença de sinais e sintomas. Os critérios diagnósticos são claros e sinalizam 
diferentes graus de gravidade (conforme o quadro a seguir), ou seja, os padrões 
individuais de consumo variam de intensidade dentro de um padrão de consumo 
contínuo e, muitas vezes, gradativo (LORDI; SORDI; GONÇALVES, 2016). 
Ao se identificar – seja por meio do relato do paciente ou de terceiros, pelos 
sinais e sintomas apresentados pelo mesmo ou a partir do resultado de exames 
toxicológicos – o profissional responsável pela detecção e pelo diagnóstico do 
transtorno decorrente do uso de substância psicoativa deve se orientar a partir da 
categorização da CID-10. A classificação inclui o tipo de droga, assim como também 
é possível categorizar o padrão de uso da substância e os sintomas de acordo com 
a tabela a seguir: 
 
Código Classificação Principais características 
0 Intoxicação aguda Estado consequente ao uso de uma substância psicoativa e 
compreendendo perturbações da consciência, das faculdades 
cognitivas, da percepção, do afeto ou do comportamento, ou de 
outras funções e respostas psicofisiológicas. As perturbações 
estão na relação direta dos efeitos farmacológicos agudos da 
substância consumida e desaparecem com o tempo, com cura 
completa, salvo nos casos nos quais surgiram lesões orgânicas 
ou outras complicações. 
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1 Uso nocivo para a 
saúde 
Modo de consumo de uma substância psicoativa que é 
prejudicial à saúde, com complicações físicas ou psíquicas. 
2 Síndrome de 
dependência 
Conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e 
fisiológicos que se desenvolvem após repetido consumo de uma 
substância psicoativa, tipicamente associado ao desejo 
poderoso de tomar a droga, à dificuldade de controlar o 
consumo, à utilização persistente apesar das suas 
consequências nefastas, a uma maior prioridade dada ao uso da 
droga em detrimento de outras atividades e obrigações, a um 
aumento da tolerância pela droga e, por vezes, a um estado de 
abstinência física. 
3 Síndrome (estado) 
de abstinência 
Conjunto de sintomas que se agrupam de diversas maneiras e 
cuja gravidade é variável, ocorrem quando de uma abstinência 
absoluta ou relativa de uma substância psicoativa consumida de 
modo prolongado. 
4 Síndrome de 
abstinência com 
delirium 
Estado em que a abstinência se complica com delirium, 
podendo também ocorrer convulsões. 
5 Transtorno 
psicótico 
Conjunto de fenômenos psicóticos (alucinações, distorções da 
percepção, ideias delirantes, entre outros) que ocorrem durante 
ou imediatamente após o consumo de uma substância 
psicoativa, mas que não podem ser explicados inteiramente com 
base numa intoxicação aguda e que não participam também do 
quadro de uma síndrome de abstinência. 
6 Síndrome 
amnésica 
Síndrome dominada pela presença de transtornos crônicos 
importantes da memória (fatos recentes e antigos). 
7 Transtorno 
psicótico residual 
ou de instalação 
tardia 
Transtorno no qual as modificações, induzidas pelo álcool ou por 
substâncias psicoativas, da cognição, do afeto, da 
personalidade, ou do comportamento persistem além do período 
durante o qual podem ser considerados como um efeito direto 
da substância. A ocorrência da perturbação deve estar 
diretamente ligada ao consumo de uma substância psicoativa. 
Tabela 02: Subdivisões do quarto caractere da CID-10. 
Fonte: CID-10 (2008). 
 
4.2 Os efeitos das substâncias psicoativas 
Diferentes substâncias psicoativas, sejam elas lícitas ou ilícitas, possuem 
mecanismos de ação diferentes e, por isso, acarretam diferentes sinais e sintomas 
naquele que faz o uso das mesmas. 
Drogas como morfina, heroína, álcool, barbitúricos, alucinógenos e maconhapodem causar sensação de euforia, bem-estar e relaxamento dependendo da dose 
utilizada e das circunstâncias das quais a mesma foi utilizada. Além disso, drogas 
podem reduzir a ansiedade, aliviar o sofrimento e o medo, aumentar a 
autoconfiança, além de fazer sentimentos desagradáveis desaparecerem. Esses 
efeitos podem parecer bastante agradáveis para indivíduos neuróticos, que 
apresentem desvios de personalidade, angustiados, os quais podem recorrer aos 
efeitos das substâncias psicoativas com frequência e acabarem se tornando 
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dependentes. Entretanto, a dependência não é exclusiva das pessoas com 
transtornos psíquicos, há pessoas que fazem uso frequente de substâncias por 
longos anos e experimentam um estilo de vida produtivo e socialmente equilibrado, 
porém, é comum, após um período, a vida pessoal do indivíduo deteriorar devido à 
dependência, a qual modifica o estado de vida do indivíduo (RAMOS; RAMOS, 
2006). 
A tabela a seguir enumera as principais drogas e os sintomas da intoxicação 
por determinadas substâncias de abuso. 
 
Características 
gerais das drogas 
Tipos de 
substâncias 
Principais sintomas / efeitos da intoxicação e 
abstinência 
Drogas 
predominantemente 
psicoestimulantes 
• Cocaína • Logo após o pós o uso: euforia, aceleração do 
pensamento, inquietação psicomotora, aumento 
do estado de alerta, inibição do apetite e 
labilidade de humor. 
• Na abstinência: bradicardia, sonolência e fadiga, 
disforia e anedonia (incapacidade de sentir 
prazer) – sintomas opostos à euforia inicial. 
• Anfetamina e 
análogos 
(anfetamina, 
dexanfetamina, 
metanfetamina, 
fenmetrazina) 
• O ecstasy é uma droga ilícita derivada das 
anfetaminas, muito difundida em festas e 
“raves”. Os sintomas que aparecem após o seu 
uso incluem ansiedade, alterações da 
percepção, fadiga, sensação de bem-estar e 
outros sintomas físicos e psicológicos. 
• Anfetaminas são medicamentos usados para o 
tratamento da obesidade, pois reduzem a 
ingestão alimentar e provocam perda de peso. 
Um de seus representantes, a sibutramina, pode 
ocasionar insônia, transtornos de humor e 
aumento das ideias suicidas. 
• Álcool etílico • Inicialmente: efeito estimulante – sensação de 
euforia, desinibição, sociabilidade, prazer e 
alegria. 
• Após a euforia: efeito depressor – prejuízo na 
coordenação motora, diminuição da autocrítica e 
da avaliação de possíveis situações de risco, 
lentificação psicomotora, redução dos reflexos, 
sonolência e prejuízos na capacidade de 
raciocínio e concentração. 
• Uso constante e prolongado pode resultar em 
lesão cerebral. 
Drogas 
predominantemente 
depressoras do 
SNC 
• Hipnóticos 
(barbitúricos, 
não barbitúricos, 
ansiolíticos, 
analgésicos 
opioides) 
• Hipnóticos-sedativos (barbitúricos, 
benzodiazepínicos): barbitúricos são utilizados 
para o bloqueio da dor durante a cirurgia. Os 
benzodiazepínicos são utilizados como 
tratamento em curto prazo da ansiedade, 
promovem relaxamento e sonolência, sendo 
drogas passíveis de causar dependência. 
Quando associados a outras substâncias os 
barbitúricos oferecem risco: associação com 
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álcool (supressão dos centros nervosos do 
cérebro), associação com estimulantes (“rebate” 
o efeito). Efeitos da dependência: lentidão 
psicomotora, prejuízos na memória, déficit de 
atenção. Na abstinência: insônia, ansiedade, 
delírios, convulsões, alucinações, agitação. 
• Analgésicos opioides: medicamentos 
utilizados no controle da dor moderada e intensa 
(morfina). Provocam intensa dependência, que 
pode ser aguda (sedação, humor normal 
tendendo à euforia), crônica (sensação de 
euforia e bem-estar profundo, supressão das 
preocupações, lentidão geral e sonolência), 
overdose (inconsciência, convulsões, coma), 
abstinência (agitação, cansaço, sono 
intermitente, dores, dentre outros sintomas 
físicos, podendo evoluir para a morte). A heroína 
é uma droga de abuso da classe dos opioides. 
• Canabinoides 
(maconha) 
• Alterações do humor, da percepção, da 
motivação, “barato” e “entorpecimento”. 
• Redução das funções cognitivas, da percepção, 
do tempo de reação, da aprendizagem e da 
memória. 
• Aumento da fome, pânico, alucinações e psicose 
aguda podem ocorrer. 
Drogas que atuam 
predominantemente 
sobre a percepção 
• Alucinógenos • O LSD é uma droga ilícita de efeito alucinógeno, 
causa efeitos como despersonalização, 
alterações na percepção de espaço e tempo, 
ansiedade, pânico, comportamentos 
antissociais, ideação suicida, dentre outros 
sintomas físicos e psíquicos. 
• Os efeitos podem perdurar no organismo por até 
10 horas. 
• Nicotina 
 
• Ações estimulantes e depressoras. O fumante 
sente-se vivaz, embora haja algum relaxamento 
muscular. 
• Gases inalantes 
/ solventes 
• 1ª fase: excitação. 
• 2ª fase: depressão inicial do SNC: confusão 
mental, desorientação. 
• 3ª fase: depressão média do SNC: redução 
acentuada do estado de alerta, perda de 
reflexos. 
• 4ª fase: inconsciência, convulsões, podendo 
evoluir para óbito. 
Tabela 03: Drogas que causam dependência. 
Fonte: Adaptado de Ramos e Ramos (2006); Gazzaninga e Heatherton (2005), Formigoni, Galduróz, 
De Micheli e Carneiro, 2016; O’Brien (2005); Catterall e Mackie (2005); Swift e Lewis (2009); Rang et 
al. (2012); Straub (2014); Lacerda e Noto (2016); Lacerda, Lacerda e Gaduróz (2016). 
 
A seguir pretendemos relacionar alguns efeitos de determinados tipos de 
substâncias psicoativas à condução do veículo. 
 
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4.3 Os riscos do uso, abuso e dependência de substâncias para a condução de 
veículos 
Certas substâncias psicoativas produzem efeitos significativos na 
intoxicação aguda, crônica (dependência) e na abstinência, sendo esses efeitos 
variáveis. Entretanto, como todas as substâncias psicoativas têm efeito sobre o 
SNC, os efeitos relacionados ao estado mental podem variar entre a depressão do 
SNC e a estimulação intensa, o que altera o estado geral do indivíduo, podendo 
ocasionar sérios problemas caso o usuário conduza um veículo sob o efeito dessas 
substâncias. 
“Embora muitos acidentes estejam relacionados ao uso de substâncias 
psicoativas, não são elas que causam os acidentes, mas, sim, o comportamento dos 
usuários quando as combinam com a direção” (SCHMITZ; BROLESE; VON 
DIEMEN, 2014, p. 59). Ou seja, as substâncias psicoativas realmente podem causar 
reações que comprometem a ação do motorista, entretanto, a maior causa de 
acidentes não reside apenas nos efeitos dessas substâncias, mas na decisão do 
motorista de conduzir seu veículo após fazer uso das mesmas, ciente dos riscos aos 
quais ele e as pessoas ao seu redor se encontram submetidos devido ao seu 
comportamento de risco. 
Inicialmente vamos pensar sobre os perigos de se dirigir com sono e as 
drogas que se costumam recorrer para minimizar esses sintomas. O sono é uma 
reação fisiológica normal do organismo que precisa descansarpara repor suas 
energias e recomeçar, mas, atualmente, as pessoas, devido a uma série de motivos, 
inclusive a maior produtividade, buscam meios para dormirem menos, mesmo 
sabendo que isso pode ser prejudicial à saúde. 
 
Uma pessoa cansada e com sono não tem condições de dirigir. O cansaço 
e o sono, muitas vezes, são mais fortes do que a vontade de permanecer 
acordado e a pessoa adormece sem perceber. Assim, é importante 
descansar nos momentos de folga, para poder dirigir com mais tranquilidade 
durante a jornada de trabalho (SEST/SENAT, 2009, p.50). 
 
Estudos apontam que a sonolência no trânsito é um importante fator de risco 
para acidentes, e ocorre principalmente em viagens em condições monótonas. 
Associado a isso, outro dado aparece para tornar a situação ainda mais séria: as 
cargas horárias dos motoristas profissionais costumam ser muito extensas, podendo 
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alcançar 16 horas por dia, incluindo viagens em período noturno. Os horários de 
sono dos motoristas apresentam-se muito restritos, sendo que alguns dormem em 
média 5 horas por noite. Há também outras condições que podem potencializar a 
sonolência, como fatores de restrição e privação de sono, alterações circadianas 
(ciclo sono vigília), as quais aparecem principalmente nos motoristas que não têm 
uma escala fixa de trabalho. A sonolência é extremamente perigosa para o 
motorista, pois este estado alterado da consciência diminui a capacidade de 
processamento sensorial e a eficácia das respostas ao ambiente (LOPES; SORDI; 
KESSLER, 2014). 
O motorista que dorme pouco se vê envolvido em dois sérios problemas: ser 
vencido pelo cansaço – e dormir enquanto dirige sem nem se dar conta disso – ou 
fazer uso de substâncias que prometem aumentar seu estado de alerta e diminuir o 
sono. Entretanto, não dormir e as consequências do uso de drogas que prometem 
esses resultados são duas alternativas muito sérias à saúde do condutor e ao 
trânsito em geral. 
Os estimulantes – como as anfetaminas e análogos – representam um sério 
problema para os motoristas profissionais. Devido às cargas horárias intensas e à 
necessidade de constante estado de alerta necessário para se conduzir um veículo, 
muitos profissionais acabam fazendo uso de certos medicamentos e outras 
substâncias com efeito estimulantes (cafeína, energéticos, cocaína) para conseguir 
driblar os efeitos do sono e dirigir por mais horas, entretanto, os efeitos adversos das 
drogas são bastante sérios. 
Os motoristas que mais fazem uso das anfetaminas são os profissionais. O 
“rebite” ou a “bolinha” são drogas ilícitas da família das anfetaminas que agem 
diretamente no sistema nervoso central e fazem com que as capacidades físicas e 
psíquicas fiquem mais rápidas por um determinado tempo. As reações adversas e 
efeitos dessas drogas em longo prazo são bastante sérias, incluindo a dependência. 
Com o passar dos tempos, o indivíduo passa a precisar de maior quantidade da 
droga para se alcançar os efeitos iniciais e, com isso, faz uso progressivo das 
substâncias, podendo resultar em dor de cabeça, ansiedade, confusão mental, 
perda de peso, dentre outras reações físicas e somáticas. Quando já se instalou 
dependência ocorre sensação de pânico, depressão, paranóia, irritabilidade, dentre 
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outros sintomas significativos. Além disso, o uso de rebites está associado à 
ocorrência de acidentes, já que a droga age no SNC, prejudicando os reflexos do 
motorista. Ou seja, o uso de rebite pelos motoristas é um sério problema, já que 
seus efeitos interferem negativamente em sua habilidade de conduzir o veículo 
(PSYCHEMEDICS BRASIL, 2017). 
A pessoa que faz uso de anfetaminas consegue executar qualquer atividade 
por mais tempo e sentindo menos cansaço, pois essas drogas fazem com que o 
organismo reaja acima de suas capacidades normais, exercendo esforços 
excessivos, o que é um grande risco à saúde. Após cessar o efeito da droga, a 
sonolência aumenta rapidamente, por isso a pessoa costuma repetir a dosagem, 
assim a energia é recobrada, porém com menos intensidade. Quando para de fazer 
uso de anfetaminas a pessoa sente grande falta de energia, dificultando a execução 
de tarefas anteriormente realizadas sem maiores esforços (LOPES; SORDI; 
KESSLER, 2014). 
 
Em motoristas usuários de anfetaminas, o risco de acidentes aumenta, pois 
as pupilas dilatadas aumentam a sensibilidade à luz, e à noite ficam mais 
ofuscadas pelos faróis dos carros em direção contrária. Ainda, o efeito 
rebote (apagão), após repetidas doses ingeridas é responsável por diversos 
acidentes de trânsito. Ao parar de tomar o motorista sente uma grande falta 
de energia (astenia), ficando bastante deprimido, o que também é 
prejudicial, pois não consegue nem realizar as tarefas que normalmente 
fazia antes do uso dessas drogas (LOPES; SORDI; KESSLER, 2014, p. 87). 
 
A situação torna-se ainda mais séria quando se associam outras drogas 
para tentar driblar os efeitos das primeiras. Devido ao efeito estimulante dessas 
drogas, as pessoas podem apresentar dificuldades para dormir nos horários de folga 
e, por saberem que dirigir com sono é extremamente arriscado, acabam fazendo uso 
de medicamentos para dormir, como os benzodiazepínicos, que também produzem 
dependência. Conforme expresso na tabela 03, a associação dos benzodiazepínicos 
com outras drogas estimulantes que prometem o “efeito rebote” é muito perigoso. Os 
motoristas acabam desenvolvendo dependência dos dois tipos de drogas, ficando 
expostos não apenas aos riscos relacionados ao uso das mesmas, mas, inclusive, 
decorrentes da associação entre as mesmas. 
Como pretendemos mostrar na tabela 03, existem drogas lícitas – que a 
legislação brasileira permite seu comércio e seu uso – e as ilícitas – cujo uso e 
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comercialização são impedidos pela legislação brasileira. Dentre as drogas lícitas 
existem vários medicamentos de uso controlado que só podem ser vendidos com 
prescrição médica e retenção da receita. Entretanto, mesmo com esse controle, no 
Brasil há grande tendência à automedicação e muitas pessoas conseguem receitas 
médicas para comprar esses medicamentos, ou mesmo compram os mesmos de 
forma clandestina, o que torna o problema ainda mais sério – como no caso do 
motorista que pode associar outras substâncias lícitas e livremente comercializadas 
(álcool, energéticos, cafeína) para potencializar ou rebater os efeitos das outras 
drogas. 
 
A automedicação é uma prática prejudicial à saúde, pois pode acarretar 
sérias consequências ao organismo. Alguns remédios também podem 
atrapalhar o ato de dirigir. Por isso, não se deve tomar medicamentos sem 
prescrição médica. Já as drogas, especialmente as ilícitas, são substâncias 
de origem natural ou sintética que alteram o comportamento das pessoas 
quando são consumidas (SEST/SENAT, 2009, p. 50-51). 
 
Alguns medicamentoscom finalidade anestésica, ansiolítica, hipnótica, 
analgésica, antihistamínica, para relaxamento muscular, dentre outras finalidades 
também atuam no sistema nervoso central, provocando reações adversas como 
sonolência, lentidão psicomotora, aumento do tempo de reação e diminuição dos 
reflexos, por isso, na bula dos mesmos vem expressa a recomendação de não dirigir 
veículos ou operar máquinas perigosas enquanto se faz uso dos mesmos, 
entretanto, muitos motoristas e operadores de máquinas desconsideram essas 
recomendações e acabam sofrendo graves acidentes. 
Especificamente em relação ao uso do álcool, sabe-se que “a ingestão de 
qualquer quantidade de álcool afeta as habilidades cognitivas e emocionais 
necessárias para dirigir em segurança” (SCHMITZ; SANTOS; SCHUCH, 2014, p. 
15). 
Além das alterações nos processos psíquicos (estimulação ou depressão do 
SNC), as drogas também causam alterações na percepção e no comportamento do 
motorista, o que também representa sérios fatores de risco a uma condução segura. 
O mecanismo de ação de algumas drogas, como os alucinógenos e os inalantes, por 
exemplo, atua diretamente sobre a percepção, por isso, os usuários das mesmas – 
independente de ser uso ocasional ou crônico – apresentam alucinações, confusão 
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mental, dentre outras reações perturbadoras da percepção que poderiam significar 
um grande risco caso ocorressem num motorista enquanto está dirigindo. Outras 
drogas, como a maconha, o álcool e as anfetaminas também podem ocasionar 
esses tipos de reações. Em relação aos opioides, tem-se que: 
 
Entre os efeitos adversos por uso de opioides, os mais comuns são tontura, 
sonolência, fraqueza e alterações visuais. Estudos têm comprovado uma 
probabilidade 2,2 vezes maior de envolvimento em acidentes com 
motoristas que utilizam algum analgésico opioide, quando comparado aos 
motoristas que não utilizam. Foi verificada redução na capacidade 
psicomotora, especialmente em doses agudas e em indivíduos que 
começaram a fazer uso recentemente. De fato, alguns autores acreditam 
que pacientes que estejam já estabilizados com o uso de opioides podem 
conduzir veículos sem maiores problemas, durante o dia e em boas 
condições de visibilidade. É importante ressaltar que qualquer interação 
medicamentosa compromete esta avaliação. Desse modo, a recomendação 
é de que se evite dirigir veículos por quatro a cinco dias após início do 
tratamento ou quando houver alguma alteração na dose do opioide 
(LOCCOCO apud REMY; KREISCHE; SORDI, 2014, p. 73). 
 
O problema é que, na prática, alguns motoristas fazem uso de drogas 
enquanto dirigem e lançam mão de justificativas como “a cocaína me deixa alerta”, 
“a maconha me deixa mais relaxado e com isso eu não brigo no trânsito”, porém 
esses argumentos não são válidos, visto que qualquer substância psicoativa que 
interfere nos processos cognitivos pode ser um sério perigo. 
 
O THC afeta funções como a atenção, a percepção de tempo e velocidade 
e a memória, dificultando a capacidade dos motoristas de reagir a situações 
complexas e imprevisíveis. Estudos mostram que 300 mg de THC/kg-K têm 
o mesmo efeito no organismo que 0,5 mg/L de etanol e que, em 
quantidades elevadas, a maconha pode ocasionar alucinações 
((DRUMMER et al., 2004 apud ALDAF et al., 2003). 
 
A maconha altera também funções afetivas, interferindo diretamente no 
estado de alerta, de vigilância, de coordenação e, por consequência, na capacidade 
de dirigir um veículo adequadamente (ADMINISTRATION NHTS, 2000). 
Adolescentes e adultos jovens que dirigem sob efeito da maconha 
(frequentemente combinada com álcool) possuem risco duas vezes maior de sofrer 
acidentes com potencial de morte ou lesões (GREYDANUS et al., 2013 apud 
SILVESTRIN; REMY; SORDI, VON DIEMEN, 2014, p.101). 
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A partir de tudo que foi apresentado nesta subseção, é possível verificar que 
o uso, abuso e dependência de substâncias psicoativas é um sério fator de risco 
para os motoristas, entretanto, em muitos países, como no Brasil, a legislação é 
mais específica em relação ao álcool, conforme aponta a citação a seguir: 
 
Apesar do conhecimento do potencial letal dessas drogas associadas ao 
trânsito, a legislação em diferentes países fica limitada ao uso de álcool. 
Isso acontece, em parte, pelas limitações na tecnologia atual em detectar o 
uso de drogas de forma rápida e eficiente, mas também porque os exames 
rápidos são classificados como positivos ou negativos, e fica difícil 
estabelecer um ponto de corte como há para o álcool. Diante das mudanças 
legais, reforça-se a importância do agente fiscalizador do trânsito conhecer 
e identificar os efeitos e sinais do uso de bebida alcoólica no cidadão 
(SCHMITZ; SANTOS; SCHUCH, 2014, p. 15). 
 
Assim, verifica-se a importância não apenas de se conhecer os efeitos das 
drogas e suas implicações para o motorista e a conscientização da população em 
geral sobre esses riscos, mas também de se pensar em estratégias e instrumentos 
de detecção das substâncias. A citação aponta a importância do agente fiscalizador 
de trânsito trabalhar nesse sentido, mas reforça-se também a importância do médico 
perito em trânsito e do psicólogo perito em trânsito estarem atentos para detectar o 
uso abusivo de substâncias nas entrevistas e exames clínicos dos candidatos à 
permissão para dirigir ou na mudança de categoria. 
Também não se pode deixar de destacar que inicialmente nos atentamos 
apenas aos efeitos agudos do uso do álcool e das outras drogas no trânsito, mas 
atualmente já se sabe que as drogas afetam a capacidade do indivíduo conduzir o 
veículo não apenas no momento em que este faz uso de tais substâncias, pois as 
mesmas produzem efeitos residuais. A ressaca do álcool afeta os reflexos do 
condutor e o efeito rebote das anfetaminas – como a depressão, o sono, a fadiga e a 
degeneração dos neurônios responsáveis pela produção de serotonina – também 
interfere negativamente no ato de conduzir um veículo (PECHANSKY et al., 2010). 
A seguir, apresentaremos algumas considerações especificamente voltadas 
para o álcool, droga lícita amplamente vendida e utilizada por pessoas de diversas 
faixas etárias, mas cuja legislação brasileira proíbe o uso da mesma quando se vai 
conduzir veículos. 
 
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Álcool: características gerais 
O álcool é um depressor do sistema nervoso central, produzindo, dessa 
forma, sedação e sono, assemelhando-se a benzodiazepínicos (medicamentos 
como o bromazepam e o clonazepam) ou anestésicos voláteis (como os derivados 
de éter e clorofórmio). Todavia, em doses iniciais ocorre a supressão dos sistemas 
inibitórios, resultando em uma possível euforia inicial antes do quadro de depressão 
citado anteriormente. 
Os efeitos do álcool em curto prazo (intoxicação) dependem da dose 
consumida, como mostra a tabela a seguir: 
 
Dosagem de álcool no sangueEfeitos 
0,01 a 0,05 g% Sensação de relaxamento e leve euforia. 
Aumento para 0,10 g% Prejuízo na memória e na concentração, 
diminuição no tempo de reação e 
funcionamento motor. 
De 0,10 a 0,15 g% Dificuldade para caminhar e utilizar habilidades 
motoras finas. 
De 0,20 a 0,25 g% Visão obscura, fala confusa, torna-se 
praticamente impossível caminhar sem 
cambalear, rico de perda da consciência. 
Maior que 0,35 g% Risco de morte. 
Tabela 04: Efeitos do uso do álcool em curto prazo. 
Fonte: Adaptado de Straub (2014). 
 
A maneira mais eficaz de se lidar com a intoxicação alcoólica é o tempo, já 
que o álcool leva determinado período para ser metabolizado. Por isso, recomenda-
se deixar a pessoa em lugar tranquilo e isolado até que a substância seja eliminada 
do organismo. Ressalta-se a importância de conscientizar as pessoas a não 
dirigirem ou operarem máquinas enquanto estão alcoolizadas, pois o risco de 
acidentes é bem grande (FORMIGONI; GALDURÓZ; DE MICHELI; CARNEIRO, 
2016). 
Além dos efeitos físicos e comportamentais da intoxicação do álcool, o uso 
crônico dessa substância também acarreta em uma série de efeitos para o 
organismo, podendo levar a lesões neurológicas irreversíveis e a outras lesões em 
órgãos vitais, como o fígado, com a possibilidade de se evoluir para óbito. A 
abstinência do álcool também ocasiona em uma série de sinais e sintomas na 
pessoa que se encontra dependente dessa substância. Entretanto, não focaremos 
nessa questão para não fugir de nosso foco principal. 
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Os números mostram que o abuso e a dependência do álcool são bastante 
significativos na realidade brasileira, conforme ilustra o gráfico a seguir: 
 
Gráfico 01: Porcentagens de doses consumidas de cada tipo de bebida, em adultos, 
por gênero 
 
Fonte: I Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira, 
2007 (apud DUARTE; STEMPLIUK; BARROSO, 2009, p.16). 
 
Considera-se que, dentre essas pessoas representadas no gráfico anterior, 
muitas irão dirigir após fazer uso de álcool. Como mencionado anteriormente, certo 
tempo após sua ingestão, o álcool é metabolizado e devidamente eliminado do 
organismo, mas a questão é: as pessoas estão conscientes de que não podem 
dirigir após beber ou sabem qual tempo certo precisam esperar para dirigir após 
ingerirem bebidas alcoólicas? 
 
4.4 Álcool e trânsito 
O álcool é uma substância psicoativa de acesso muito liberado. A legislação 
proíbe a venda de bebidas alcoólicas para menores de dezoito anos, mas, 
excetuando-se essa restrição, pessoas na maioridade podem comprar a substância 
em supermercados, bares, restaurantes, mercearias e outros estabelecimentos 
comerciais. Além das bebidas alcoólicas propriamente ditas, o álcool é uma 
substância que pode ser encontrada em alimentos, bombons, medicamentos, 
desodorantes, perfumes, enxaguatórios bucais, dentre outros produtos, o que faz 
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com que, ocasionalmente, a pessoa, mesmo sem se dar conta, pode ingerir 
determinada quantidade de álcool. 
Devido a essa facilidade de acesso à substância e à cultura que associa o 
álcool a atividades de fins recreativos, de confraternização e até mesmo religiosas, o 
problema do álcool torna-se sério quando se considera que essa substância é 
passível de causar dependência, além dos problemas que o uso da mesma pode 
acarretar no trânsito. 
 
Estudos demonstram que a presença de substâncias psicoativas (SPA) 
eleva significativamente o risco do envolvimento do condutor em acidentes 
fatais no trânsito. Entre as SPA utilizadas na condução do veículo, o uso de 
álcool é apontado como um dos principais fatores de risco, principalmente 
devido ao envolvimento em acidentes, gravidade dos ferimentos e 
mortalidade no trânsito, aumentando as chances de óbito entre os que o 
usam (CHENG et al., 1996; AHLM et al., 2009 apud SCHMITZ; SANTOS; 
SCHUCH, 2014, p. 15). 
 
O padrão de uso de álcool que mais se associa a problemas no trânsito é o 
denominado tipo binge – aquele em que há uso agudo de quatro ou mais doses em 
curto período de tempo em uma mesma ocasião – principalmente quando envolve 
motoristas adolescentes (SCHMITZ et al., 2013 apud SCHMITZ; BROLESE; VON 
DIEMEN, 2014). 
Esse padrão é o observado, por exemplo, em reuniões sociais, bares e 
boates, quando as pessoas bebem várias doses num curto período de tempo, 
muitas vezes sem nem intercalar com alimentos ou outros líquidos e, muitas vezes, 
após minutos sem ingerir bebida alcoólica, o motorista pensa estar em condições de 
conduzir seu veículo. Normalmente, ele percebe que estava alcoolizado quando é 
parado numa fiscalização de trânsito e o etilômetro detecta alcoolemia. 
Os efeitos do álcool para a direção estão sintetizados na tabela a seguir, na 
qual é possível concluir porque a ingestão dessa substância é um grande fator de 
risco relacionado a muitos acidentes de trânsito no Brasil e em todo o mundo, a 
despeito de legislações que tendem a proibir (ou restringir dentro de certos limites 
tidos como aceitáveis) esse tipo de prática: 
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Tabela 05: Efeitos do álcool no organismo e possíveis consequências para o trânsito. 
Fonte: SCHMITZ; BROLESE; VON DIEMEN (2014, p.58). 
 
Cientes dos efeitos do álcool para o organismo e de suas consequências 
para o trânsito, em 2008, foi promulgada a Lei 11.705, popularmente conhecida 
como “Lei Seca”. Esse dispositivo legal alterou alguns artigos do Código de Trânsito 
Brasileiro (Lei nº 9.503/1997), impondo penalidades mais severas para o condutor 
que dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que 
determine dependência. Em 2012, com a promulgação da Lei 12.760, o cerco foi 
ainda mais fechado, pois houve a alteração no Código de Trânsito Brasileiro, 
tornando as medidas administrativas e as penalidades mais severas, com ampliação 
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da possibilidade de responsabilização penal. Além disso, a lei possibilitou enquadrar 
e punir criminalmente os condutores que se recusarem a fazer o teste com o 
etilômetro (bafômetro) (OBID, s.d.). 
 
A promulgação de leis [...] que preveem multas e penalidades para 
condutores com taxa de alcoolemia maior que zero, o estabelecimento de 
crime para o condutor embriagado acima de 0,33 mg/L de ar expirado e a lei 
que ampliou a relação dos meios de prova para contestação da embriaguez 
demarcam a crescente preocupação dos legisladores quanto ao uso de 
álcool e outras SPA associadas ao ato de dirigir SCHMITZ; BROLESE; VON 
DIEMEN, 2014, p. 60).4.5 Detecção e fiscalização do uso de álcool e outras drogas por motoristas 
Tendo em vista os riscos de acidentes potencializados com a ingestão de 
álcool e outras substâncias psicoativas por parte de motoristas, reforça-se a 
necessidade de se identificar o uso da substância, promover estratégias educativas 
com vistas a conscientizar os cidadãos em geral, fiscalizar os motoristas e aplicar as 
devidas penalidades àqueles que infringirem as legislações. 
Ao longo desta seção, temos reforçado a necessidade de os psicólogos e 
médicos peritos em trânsito conhecerem a fundo os critérios diagnósticos de 
dependência de substâncias psicoativas, além dos sinais e sintomas da intoxicação 
por uso ocasional dessas substâncias com vistas a realizar uma verdadeira triagem 
na avaliação médica e psicológica dos candidatos a motoristas e junto àqueles que 
desejam a inclusão de novas categorias. A condução de um veículo por pessoa que 
usa, abusa ou é dependente de álcool e outras drogas é um sério fator de risco, 
assim, a responsabilidade por esse problema não é apenas do condutor, mas 
também dos profissionais peritos que realizaram avaliação médica e psicológica 
previamente. 
Como nem sempre a pessoa já apresentava problemas com as substâncias 
psicoativas no momento da avaliação, a educação no trânsito é de extrema 
importância, pois, uma vez conscientizados dos riscos que o álcool e as demais 
drogas podem oferecer ao condutor e ao trânsito em geral, espera-se que os 
motoristas adotem comportamentos mais seguros e não façam uso dessas 
substâncias, especialmente antes de conduzir seus veículos (lembrando-se de que, 
conforme já mencionado, o uso crônico de determinadas substâncias pode trazer 
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prejuízos que interferem na capacidade de dirigir, mesmo quando não fazem uso da 
substância antes de dirigir). 
Entretanto, nem sempre o diagnóstico e as estratégias educativas são 
suficientes. Devido ao comportamento do motorista ou a possíveis traços de sua 
personalidade e condições psicopatológicas, a legislação pode funcionar 
efetivamente apenas com intensa fiscalização e consequente aplicação das 
penalidades previstas no Código de Trânsito Brasileiro. Os policiais e agentes de 
trânsito são importantes protagonistas nesse processo. 
A fiscalização é uma ação prevista pelo CTB e consiste no: 
 
Ato de controlar o cumprimento das normas estabelecidas na legislação de 
trânsito, por meio do poder de polícia administrativa de trânsito, no âmbito 
de circunscrição dos órgãos e entidades executivos de trânsito e de acordo 
com as competências estabelecidas no Código (Lei 9.503/97, anexo, apud 
PAULUS, 2010, p. 146). 
 
A fiscalização nas rodovias influencia diretamente na segurança e na fluidez 
do trânsito. Esse tipo de ação contribui para a mudança de comportamento dos 
usuários da via, em especial do motorista infrator, pois a imposição de sanções 
possibilita o cumprimento das leis. A fiscalização é eficaz quando funciona 
conjuntamente com as operações de trânsito, de engenharia de tráfego e de 
educação no trânsito (PAULUS, 2010). 
Para que a fiscalização seja eficaz, a autoridade responsável pelo processo 
precisa utilizar técnicas e instrumentos adequados para se investigar o que é 
pretendido naquele momento: 
 
A abordagem de condutores de trânsito feita por policiais se enquadra no 
campo da Toxicologia Forense e segue o preconizado pelas guias forenses 
internacionais [...] Tal abordagem em larga escala requer o emprego de 
técnicas de fácil execução e que apresentem respostas rápidas, tais como 
os testes de triagem, seguidos de etapa confirmatória, a qual deve ser 
realizada por uma técnica mais específica e baseada em um princípio de 
detecção diferente (LIMBERGER et al., 2014, p. 40). 
 
Um ponto forte do processo de fiscalização é verificar, nos condutores, o uso 
de substância psicoativa. A legislação brasileira, por meio do Código Nacional de 
Trânsito, postula que conduzir um veículo sob influência de álcool ou de qualquer 
outra substância psicoativa passível de causar dependência é infração gravíssima 
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sujeita à multa, suspensão do direito de dirigir por doze meses, retenção do veículo 
até a apresentação de condutor habilitado e recolhimento do documento de 
habilitação. Porém, o etilômetro (ou bafômetro) é o único instrumento disponível 
para se realizar avaliação in loco do teor estimado de etanol em condutores 
suspeitos de estarem sob o uso de substância psicoativa (LIMBERGUER et al., 
2014). 
Cientes de que o uso de álcool e de outras drogas pode aumentar a 
ocorrência de acidentes, inclusive com óbitos, são necessárias medidas de 
fiscalização que visem detectar essas substâncias nos condutores. Dentre diversas 
políticas de fiscalização comprovadamente mais efetivas para reduzir os riscos de 
acidentes no trânsito destacam-se, segundo apresentado por Sousa e Pasa (2010): 
• redução do limite legal de ingestão de álcool para condutores; 
• redução do limite legal de ingestão de álcool para condutores jovens; 
• checkpoints de sobriedade; 
• teste aleatório com etilômetro (bafômetro); 
• tratamento obrigatório dos condutores infratores e que apresentaram 
recidivas; 
• suspensão da habilitação; 
• alcohol ignition interlocks (dispositivos instalados no veículo que 
detectam a presença de álcool no ar expirado e bloqueiam a ignição 
quando for detectado álcool acima dos padrões previstos por lei no 
hálito do condutor); 
• programas do tipo “carona segura” ou “motorista da vez”. 
Ressalta-se que os tipos de programas apresentados nos itens anteriores 
apresentaram evidências de efetividade da intervenção em diferentes países. 
A fiscalização realmente mostra-se importante na detecção do uso de álcool 
por parte de condutores no Brasil, entretanto, ressalta-se a necessidade de se 
disponibilizar estratégias para a detecção de outras substâncias além do álcool – 
visto que, conforme apresentado nessa subseção, há também outras substâncias 
lícitas e ilícitas capazes de interferir na condução segura do veículo. 
Na ausência de outros instrumentos, a exemplo do etilômetro, a ação dos 
agentes fiscalizadores fica focada na análise dos sinais e sintomas característicos 
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de intoxicação por substância psicoativa, por isso, estes também precisam conhecer 
bem as drogas, seus mecanismos de ação, sinais e sintomas da intoxicação, do uso 
crônico e da abstinência, além de se precaverem para garantir sua própria 
integridade física – além, é claro, do condutor que está sendo fiscalizado – visto que 
muitas reações decorrentes do uso das substâncias psicoativas podem ser de 
agressividade e impulsividade. 
Em alguns países já se fazem uso de diversas metodologias para a 
detecção de diferentes substâncias psicoativas em motoristas. Há técnicas de 
triagem rápidas, porém pouco específicas, mas, frente a resultadosprontamente 
positivos para determinadas drogas, é possível realizar outras técnicas que 
garantam resultados bastante específicos. No Brasil, dentre os desafios a serem 
superados no intuito de se considerar o monitoramento uma abordagem de rotina 
para os agentes de fiscalização de trânsito destacam-se padronização de técnicas 
analíticas, disponibilidade de equipamentos e SQR, credenciamento e acreditação 
de laboratórios de referência e prospecção de profissionais qualificados 
(LIMBERGER et al., 2014). 
 
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UNIDADE 5 – TRANSTORNOS DO HUMOR (AFETIVOS) – 
F30-F39 
 
Agrupamento de transtornos que se caracterizam por uma alteração no 
humor ou afeto, usualmente para depressão (com ou sem ansiedade associada) ou 
elação do humor. Além da alteração do humor o indivíduo experimenta também uma 
alteração no nível global de atividade (CID-10, 1993). 
No trânsito é necessário ficar atento a pacientes com esses diagnósticos, 
pois, numa alteração de humor grave – como um episódio depressivo – o condutor 
pode fazer do veículo sua chance de concretizar seu desejo pelo autoextermínio; já 
num episódio maníaco, a elação do humor, associada ao aumento do seu nível 
global de atividade, podem tornar o motorista mais agressivo e imprudente, 
oferecendo riscos para ele mesmo e para o trânsito em geral. Além disso, os 
medicamentos utilizados para o tratamento desses transtornos – alguns dos quais 
crônicos – podem comprometer a capacidade do condutor dirigir em segurança. 
Assim, fica evidente porque o psicólogo e o médico peritos em trânsito devem se 
atentar aos sinais e sintomas desses transtornos, além dos possíveis tratamentos 
aos quais o candidato esteja submetido. 
Dentre esses transtornos, apresentaremos aqui o transtorno afetivo bipolar 
(F31) e transtornos depressivos (F32-F33). 
 
5.1 Transtornos depressivos (F32 Episódios depressivos / F33 Transtorno 
depressivo recorrente) 
Assim como o transtorno bipolar, que será apresentado na próxima seção, a 
depressão é um transtorno de humor (conforme categorizado na CID-10 e no DSM-
5). Todas as pessoas apresentam oscilações de humor ao longo do dia e de suas 
vidas, porém no caso desses transtornos, a oscilação é mais abrupta que nos 
padrões considerados normais. Esses transtornos perturbam a capacidade da 
pessoa funcionar por períodos de tempo significativos, além de estarem 
acompanhados por vários elementos psicológicos e fisiológicos que serão 
apresentados ao longo desta seção (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). 
 
 
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recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 
Segundo levantamento da OMS, a depressão maior unipolar é considerada 
a primeira causa de incapacidade entre todos os problemas de saúde 
(incapacidade definida como uma variável composta por duração do 
transtorno, e uma série de 22 indicadores de disfunção e sofrimento) 
(MURRAY; LOPEZ, 1996 apud DALGALARRONDO, 2008, p.307). 
 
Dalgalarrondo (2008) elucida que a depressão pode ser causada por 
diversos fatores biológicos, genéticos, neuroquímicos e psicológicos (por exemplo, 
após perdas significativas). 
A duração dos sintomas depressivos é variável, podendo durar de poucas 
semanas a muitos anos. Em média, a duração dos episódios depressivos é de 
aproximadamente seis meses, sendo que pode acontecer de determinados 
episódios se resolverem sem nenhum tipo de intervenção ou tratamento. “Embora 
90% dos pacientes se recuperem da depressão, eles têm uma chance de 50% de 
experienciar outro episódio depressivo no futuro” (GAZZANINGA; HEATHERTON, 
2005, p. 512). 
A tabela a seguir sintetiza os critérios diagnósticos da CID-10 para os 
transtornos depressivos: 
 
Categorização Características principais Tipos de transtornos 
F32 Episódios 
depressivos 
Rebaixamento do humor, redução da 
energia e diminuição da atividade, 
alteração da capacidade de experimentar 
o prazer, perda de interesse, diminuição 
da capacidade de concentração, fadiga, 
problemas do sono e diminuição do 
apetite diminuição da autoestima e da 
autoconfiança, ideias de culpabilidade e 
ou de indignidade. Presença de sintomas 
somáticos como lentidão psicomotora 
importante, agitação, perda de apetite, 
perda de peso e perda da libido. 
F32.0 Episódio depressivo 
leve: presença de dois ou três 
sintomas (características 
principais). 
F32.1 Episódio depressivo 
moderado: presença de quatro 
ou mais sintomas 
(características principais). 
F32.2 Episódio depressivo 
grave sem sintomas 
psicóticos: vários dos sintomas 
são marcantes e angustiantes; 
pode ocorrer ideação ou atos 
suicidas, além de vários 
sintomas somáticos. 
F32.3 Episódio depressivo 
grave com sintomas 
psicóticos: além dos sintomas 
descritos em F32.2 acrescenta-
se alucinações, ideias 
delirantes, de uma lentidão 
psicomotora ou de estupor de 
uma gravidade tal que todas as 
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atividades sociais normais 
tornam-se impossíveis; pode 
existir o risco de morrer por 
suicídio, de desidratação ou de 
desnutrição. 
F33 Transtorno 
depressivo 
recorrente 
Ocorrência repetida de episódios 
depressivos (descritos em F32) e sem a 
presença de episódios de mania (que 
serão apresentados na seção a seguir). O 
transtorno pode, contudo, comportar 
breves episódios caracterizados por um 
ligeiro aumento de humor e da atividade 
(hipomania), sucedendo imediatamente a 
um episódio depressivo. O primeiro 
episódio pode ocorrer em qualquer idade, 
da infância à senilidade, sendo que o 
início pode ser agudo ou insidioso e a 
duração variável de algumas semanas a 
alguns meses. 
F33.0 Transtorno depressivo 
recorrente, episódio atual 
leve: ocorrência repetida de 
episódios depressivos, sendo o 
episódio atual leve, ausência de 
episódio de mania. 
F33.1 Transtorno depressivo 
recorrente, episódio atual 
moderado: ocorrência repetida 
de episódios depressivos, sendo 
o episódio atual moderado, 
ausência de episódio de mania. 
F33.2 Transtorno depressivo 
recorrente, episódio atual 
grave sem sintomas 
psicóticos: ocorrência repetida 
de episódios depressivos, sendo 
o episódio atual grave, sem 
sintomas psicóticos, ausência de 
episódio de mania. 
F33.3 Transtorno depressivo 
recorrente, episódio atual 
grave com sintomas 
psicóticos: ocorrência repetida 
de episódios depressivos, sendo 
o episódio atual grave, com 
sintomas psicóticos, ausência de 
episódio de mania (depressão 
endógena). 
F33.4 Transtorno depressivo 
recorrente, atualmente em 
remissão: O paciente teve no 
passado dois ou mais 
transtornos depressivos como 
descritos anteriormente, mas 
atualmente não apresenta 
sintomatologia depressiva há 
meses (depressão endógena 
com sintomas psicóticos). 
Tabela 06: Transtornos depressivos. 
Fonte: CID-10 (2008). 
 
Com vistas a facilitar o estabelecimento de um diagnóstico, Del Pino (2003 
apud DALGALARRONDO, 2008) elucida que, do ponto de vista psicopatológico, os 
sintomas mais evidentes e comuns às síndromes depressivas são o humor triste e o 
desânimo.Entretanto, Dalgalarrondo (2008) afirma que associado a essa 
sintomatologia base, acrescentam-se também diversificados sintomas afetivos, 
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instintivos, neurovegetativos, ideativos, cognitivos, relativos à autovaloração, à 
vontade e à psicomotricidade. Nos casos mais graves, destacam-se a possibilidade 
de ocorrência de sintomas psicóticos, marcante alteração psicomotora e fenômenos 
biológicos associados. 
De acordo com a categorização da CID-10 (2008), a depressão pode ser 
uma doença crônica, de intensidade variável, podendo interferir, em diversos graus, 
nas atividades de vida diária do paciente. 
Daí é possível inferir que alguns pacientes depressivos têm condições de 
realizar diversas atividades, dentre elas dirigir, porém, em casos mais graves, pode 
ocorrer um comprometimento em sua capacidade devido a alguns sintomas, como 
diminuição da capacidade de concentração, problemas de sono, alucinações e 
ideação suicida. 
Estudos mostram que a situação é mais séria quando a depressão é uma 
comorbidade associada ao uso e abuso de álcool e outras drogas: conforme o 
National Comorbidity Survey – NCS, realizado em 2001 (LAPHAM, SMITH et al., 
2001), 91% dos motoristas infratores apresentaram transtornos relacionados ao 
álcool pelo menos uma vez na vida, contra 44% da população geral norte-americana 
(KESSLER, MCGONAGLE et al., 1994). 
 
Entre esses motoristas, 50% das mulheres e 33% dos homens foram 
diagnosticados com ao menos uma comorbidade psiquiátrica, além de 
abuso ou dependência de drogas, mais frequentemente Transtorno 
Depressivo Maior e TEPT (FALLER et al, 2010, p.64). 
 
Outro estudo encontrou resultados parecidos. Investigaram uma amostra de 
motoristas norte-americanos com repetidas infrações por beber e dirigir entre os 
anos de 2001 e 2003. Foi possível perceber, a partir dos resultados, que 65% dos 
homens e 79,7% das mulheres tiveram pelo menos uma comorbidade psiquiátrica, 
além do abuso e dependência de álcool, sendo o Transtorno Depressivo Maior 
(30,9%), o transtorno psiquiátrico mais prevalente (FALLER et al., 2010). 
Uma outra pesquisa pretendia investigar se há relação entre o 
comportamento imprudente de motoboys e a presença de comorbidades 
psiquiátricas. Em relação à prevalência na vida de doença psiquiátrica, 75% dos 
participantes tinham ao menos um diagnóstico e 54% de entrevistados 
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recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 
apresentaram dois ou mais diagnósticos, sendo os mais prevalentes abuso de 
substância e transtornos de humor (depressão maior e distimia) (SORDI et al., 
2010). 
Segundo Raquel Almqvist (G1, 2008), especialista em Psicologia de Tráfego, 
a depressão grave é um distúrbio que precisa ser detectado na avaliação psicológica 
e pode caracterizar o candidato a condutor como inapto temporário – indicando a 
necessidade de se buscar um tratamento adequado – ou inapto permanente. 
 
5.2 Transtorno afetivo bipolar (F31) 
Assim como a depressão, o transtorno afetivo bipolar é um transtorno de 
humor, no qual é observada uma intensa variação no humor do paciente, que ora 
encontra-se rebaixado, ora encontra-se excitado. Caracteriza-se pela alternância 
entre episódios depressivos (apresentados na seção anterior) e episódios de mania, 
os quais apresentaremos nesta seção. Anteriormente, este transtorno já recebeu a 
nomenclatura de psicose maníaco-depressiva (PMD), psicose afetiva, ou depressão 
maníaca. Segundo o DSM-5 (2014), essa modificação da nomenclatura ocorreu, 
pois não há, nos casos de transtorno bipolar, necessariamente, exigência de psicose 
ou de ocorrência de episódio depressivo maior. 
Todas as pessoas apresentam pequenas flutuações de humor, porém 
naquelas com diagnóstico de transtorno bipolar as oscilações entre a tristeza e a 
exuberância são extremamente acentuadas, o que difere das demais pessoas 
(GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). 
Os transtornos bipolares caracterizam-se por seu caráter fásico, episódico, 
semelhante ao de outros transtornos mentais e neurológicos (POST; SILBERSTEIN, 
1994). 
 
Os episódios de mania e depressão ocorrem de modo relativamente 
delimitado no tempo e, com frequência, há períodos de remissão, em que o 
humor do paciente encontra-se eutímico e as alterações psicopatológicas 
mais intensas regridem (DALGALARRONDO, 2008, p. 316). 
 
Os episódios de mania ou hipomania são caracterizados por uma elevação 
do humor, da energia e da atividade, sendo mais intensos e desproporcionais nos 
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casos de mania. Esses episódios podem ser acompanhados de sintomas psicóticos, 
tais como alucinações e delírios de grandeza (CID-10, 2008). 
Além dos sintomas apresentados na tabela anterior, nos episódios maníacos 
também é possível perceber elação (sentimento de expansão e engrandecimento do 
eu), insônia, logorreia (produção verbal rápida, fluente e persistente), irritabilidade, 
arrogância, heteroagressividade (desorganizada e sem objetos precisos), 
desinibição social e sexual, tendência exagerada a comprar objetos ou a dar seus 
pertences indiscriminadamente, ideias de importância social, de grandeza, de poder 
(DALGALARRONDO, 2008). 
Nos episódios de mania, a pessoa apresenta níveis aumentados de 
atividade e euforia, o que pode resultar em envolvimento excessivo do paciente em 
situações prazerosas, porém tolas, as quais podem acarretar em problemas 
posteriores para esse indivíduo – indiscrição sexual, compulsão por compras, 
aventuras comerciais arriscadas – sendo que, normalmente, a própria pessoa se 
lamenta de suas atitudes após passar o episódio maníaco. Já os episódios 
hipomaníacos costumam ser caracterizados por criatividade e produtividade 
aumentada, os quais podem ser muito prazerosos e gratificantes (GAZZANINGA; 
HEATHERTON, 2005). 
Pelo fato de o transtorno bipolar ser um transtorno de humor, o psicólogo 
deve estar atento aos riscos elucidados na subseção anterior, referentes ao 
transtorno depressivo, pois no episódio depressivo, os sintomas são os mesmos. 
Por outro lado, no episódio maníaco, características como elevação do humor, 
agitação psicomotora e impulsividade precisam ser analisadas com critério, pois 
poderiam deixar o motorista mais propenso a se envolver em situações arriscadas 
ao dirigir ou mesmo brigas de trânsito. 
Segundo Raquel Almqvist (G1, 2008), especialista em Psicologia de Tráfego, 
o transtorno bipolar é um distúrbio que precisa ser detectado na avaliação 
psicológica e pode caracterizar o candidato a condutor como inapto temporário – 
indicando a necessidade de se buscar um tratamento adequado – ou inapto 
permanente – dependendo da evolução dessa doença crônica, que pode ser 
incapacitante. 
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eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópiasou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e 
recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 
Com o objetivo de estimar a prevalência de transtornos psiquiátricos durante 
a vida e nos últimos 12 meses em uma amostra de motoristas com repetidas 
infrações por beber e dirigir, investigaram uma amostra de motoristas norte-
americanos entre os anos de 2001 e 2003. Dentre essa amostra, 233 foram triados 
para transtornos psiquiátricos, nos quais identificaram que 97,2% dos casos de 
transtorno bipolar não foram adequadamente diagnosticados durante o tratamento. 
Esse dado representa uma perda de oportunidade de incremento nos resultados da 
intervenção (MCMILLAN; TIMKEN et al., 2008 apud FALLER et al., 2010). 
 
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UNIDADE 6 – TRANSTORNOS NEURÓTICOS, 
TRANSTORNOS RELACIONADOS AO STRESS E 
TRANSTORNOS SOMATOFORMES (F40-F48) 
 
Esse agrupamento inclui os transtornos fóbicos-ansiosos; outros transtornos 
de ansiedade; transtorno obsessivo-compulsivo; reação a estresse grave e 
transtornos de ajustamento; transtornos dissociativos (ou conversivos); transtornos 
somatoformes e outros transtornos neuróticos. Todos esses transtornos 
compartilham associação histórica ao conceito de neurose, além de serem 
associados a questões psicológicas. A mistura entre os sintomas são comuns, em 
especial a associação entre depressão e ansiedade (CID-10, 1993). A seguir, 
enfocaremos apenas dois transtornos desse agrupamento, ressaltando-se a sua 
relação com a temática Psicologia do Trânsito. 
 
6.1 Transtornos fóbico-ansiosos (F40) 
Uma ansiedade é desencadeada por situações nitidamente determinadas 
que não apresentam atualmente nenhum perigo real. Essas situações são evitadas 
ou suportadas com temor. As preocupações do sujeito podem estar centradas sobre 
sintomas individuais, medo de morrer, perda do autocontrole ou de ficar louco, 
podendo se associar à depressão. Podem ser de diversos tipos, como a agorafobia, 
as fobias sociais e as fobias específicas (CID-10, 2008) – sendo essas últimas nosso 
objeto de atenção. 
Fobias específicas podem ser definidas como fobias limitadas a situações 
muito específicas (animais, altura, avião, sangue, entre outras), em que a situação 
desencadeante pode ser inofensiva, entretanto, o contato com a mesma pode 
ocasionar estado de pânico (CID-10, 2008). 
O paciente com fobia específica, diante da situação temida, apresenta uma 
série de sintomas físicos que acarretam um extremo desconforto – sudorese 
excessiva, tremores, falta de ar, taquicardia – sendo que muitas vezes esses 
sintomas surgem só do paciente se imaginar dentro de determinada situação. É uma 
situação bastante séria, pois pode acarretar prejuízos significativos, expor o 
indivíduo ao ridículo, destruir sua autoestima e projetos de vida (SILVA, 2011). 
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eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e 
recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 
Importante apresentar as diferenças entre os estados de medo e de 
ansiedade, conforme bem explicado na citação a seguir: 
 
Os transtornos de ansiedade incluem transtornos que compartilham 
características de medo e ansiedade excessivos e perturbações 
comportamentais relacionados. Medo é a resposta emocional a ameaça 
iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça 
futura. Obviamente, esses dois estados se sobrepõem, mas também se 
diferenciam, com o medo sendo com mais frequência associado a períodos 
de excitabilidade autonômica aumentada, necessária para luta ou fuga, 
pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga, e a ansiedade 
sendo mais frequentemente associada à tensão muscular e à vigilância em 
preparação para perigo futuro e comportamentos de cautela ou esquiva. Às 
vezes, o nível de medo ou ansiedade é reduzido por comportamentos 
constantes de esquiva (DSM-5, 2014, p. 189). 
 
Algumas pessoas apresentam medo de dirigir, o qual pode ser decorrente de 
experiências traumáticas anteriores relacionadas ao trânsito ou mesmo um medo 
generalizado relacionado às situações de controle do veículo e do trânsito em geral. 
O medo normalmente é atenuado com as primeiras aulas práticas no veículo, 
quando o aluno sente segurança pela figura do instrutor, principalmente sabendo 
que o mesmo também tem acesso aos principais comandos do veículo e pode agir 
em caso de necessidade. Entretanto, em algumas situações não se trata de um 
receio natural diante de uma situação nova e potencialmente arriscada, mas de fobia 
de dirigir. 
 
A fobia de dirigir pode se apresentar sozinha ou fazer parte de um quadro 
mais amplo de agorafobia (medo de estar distante de sua ‘área de 
segurança’). Muitos autores consideram essa fobia uma forma leve de 
agorafobia, com sintomas de pânico frequentes, o que faz com que a 
pessoa se esquive do ato de dirigir (SILVA, 2011, p.101). 
 
Amaxofobia é o nome designado à fobia de dirigir. Barp e Mahl (2013) 
realizaram uma pesquisa para investigar os motivos pelos quais algumas pessoas 
que já têm CNH não dirigem, além de investigar fatores que poderiam ser 
facilitadores para que os mesmos voltassem a conduzir seus veículos. Para isso, 
entrevistaram oito mulheres de idade entre 19 e 58 anos, que possuem CNH entre 1 
e 15 anos e que não dirigem entre 1 e 11 anos. A partir da técnica de análise do 
discurso dos resultados, foi possível concluir que o público feminino é o que mais 
sofre com a amaxofobia por vários motivos, dentre eles, ter sofrido um acidente 
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traumático, acomodação por não precisar dirigir, pressão social de familiares ou 
mesmo a falta de paciência do instrutor. Admitir que necessita de ajuda para o 
problema é o primeiro passo para a busca por reabilitação e a amostra entrevistada 
demonstrou ter essa consciência, além de vontade de voltar a dirigir para se 
sentirem mais independentes. Como forma de alternativas para superar a fobia, elas 
mencionaram acreditar mais em si mesmas, buscar ajuda psicoterápica e aulas de 
direção para pessoas habilitadas com instrutores calmos e pacientes. 
Segundo Raquel Almqvist (G1, 2008), especialista em Psicologia de Tráfego, 
a fobia é um distúrbio que precisa ser detectado na avaliação psicológica e pode 
caracterizar o candidato a condutor como inapto temporário ou inapto permanente. 
 
6.2 Reações ao stress grave e transtornos de adaptação (F43) 
Característica do mundo moderno, o estresse está presente em nosso dia a 
dia, em especial nas grandes cidades. Certo nível de estresse é natural e serve 
como uma espécie de motivação para que o indivíduo saia de sua zona de conforto, 
entretanto, quando em altos níveis, o estresse pode provocar distúrbios psicológicos 
e contribuir para o aparecimento (ou o agravamento) de determinadas doenças 
orgânicas. 
A categoria F43 da CID-10 agrupa os transtornos que ocorrem em 
decorrência de situação de estresse (situações marcantes e estressantes), 
acarretando em consequências desagradáveis e duradourasque levam a um 
transtorno de adaptação. Para nosso estudo, merece destaque o Estado de 
Estresse Pós-Traumático (F43.1) ou Transtorno de Estresse Pós-Traumático 
(TEPT): 
 
Este transtorno constitui uma resposta retardada ou protraída a uma 
situação ou evento estressante (de curta ou longa duração), de natureza 
excepcionalmente ameaçadora ou catastrófica, e que provocaria sintomas 
evidentes de perturbação na maioria dos indivíduos. Fatores 
predisponentes, tais como certos traços de personalidade (por exemplo, 
compulsiva, astênica) ou antecedentes do tipo neurótico, podem diminuir o 
limiar para a ocorrência da síndrome ou agravar sua evolução; tais fatores, 
contudo, não são necessários ou suficientes para explicar a ocorrência da 
síndrome. Os sintomas típicos incluem a revivescência repetida do evento 
traumático sob a forma de lembranças invasivas (flashbacks), de sonhos ou 
de pesadelos; ocorrem num contexto durável de ‘anestesia psíquica’ e de 
embotamento emocional, de retraimento com relação aos outros, 
insensibilidade ao ambiente, anedonia, e de evitação de atividades ou de 
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recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 
situações que possam despertar a lembrança do traumatismo. Os sintomas 
precedentes se acompanham habitualmente de uma hiperatividade 
neurovegetativa, com hipervigilância, estado de alerta e insônia, associadas 
frequentemente a uma ansiedade, depressão ou ideação suicida. O período 
que separa a ocorrência do traumatismo do transtorno pode variar de 
algumas semanas a alguns meses. A evolução é flutuante, mas se faz para 
a cura na maioria dos casos. Em uma pequena proporção de casos, o 
transtorno pode apresentar uma evolução crônica durante numerosos anos 
e levar a uma alteração duradoura da personalidade (CID-10, 2008). 
 
A fobia de dirigir pode ser, na realidade, reflexo de algum acontecimento 
sério e estressante em relação ao trânsito ocorrido no passado, o que caracteriza 
um quadro de estresse pós-traumático. 
Estudos como o de Faller e colaboradores (2014) apontam relação entre 
dirigir sob influência de substâncias psicoativas e a presença de comorbidades 
psiquiátricas, dentre elas o TEPT, conforme mostra a citação a seguir: 
 
[...] os transtornos de ansiedade, como o TEPT, apresentam vieses em 
processos como atenção e percepção, podendo tornar o motorista hiper-
reativo a estímulos como buzinas e manobras bruscas de outros 
condutores, facilitando acidentes (FALLER et al., 2014, p.69). 
 
Ou seja, um motorista que sofre de transtorno de estresse pós-traumático 
pode apresentar reação exagerada frente a barulhos como buzinas, apitos, ou diante 
da reação inesperada de outros motoristas e pedestres. Essa reação de ansiedade 
pode acabar por provocar algum tipo de acidente. 
 
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UNIDADE 7 – ESQUIZOFRENIA, TRANSTORNOS 
ESQUIZOTÍPICOS E TRANSTORNOS DELIRANTES (F20-
F29) 
 
Esse agrupamento inclui a esquizofrenia; o transtorno esquizotípico; os 
transtornos delirantes persistentes; os transtornos psicóticos agudos e transitórios; o 
transtorno delirante induzido; os transtornos esquizoafetivos; outros transtornos 
psicóticos não orgânicos e a psicose não orgânica não especificada (CID-10, 1993). 
Optamos por abordar apenas o transtorno mais comum e mais conhecido, a 
esquizofrenia (F20). 
A esquizofrenia é um tipo de transtorno psicótico. Em linhas gerais, as 
síndromes psicóticas caracterizam-se por sintomas como alucinações, delírios, 
pensamento desorganizado e comportamento bizarro, caracterizado, por exemplo, 
por fala e riso sem nenhuma motivação que justificasse tal comportamento 
(JANZARIK, 2003 apud DALGALARRONDO, 2008). 
Uma característica bastante proeminente é a perda do contato com a 
realidade e a fraca percepção de sua própria doença e dos sintomas da mesma 
(DALGALARRONDO, 2008). 
Segundo o DSM-5 (2014), os transtornos do espectro da esquizofrenia e 
outros transtornos psicóticos são definidos por anormalidades em um ou mais 
desses domínios: delírios, alucinações, pensamento (discurso) desorganizado, 
comportamento motor grosseiramente desorganizado ou anormal (incluindo 
catatonia) e sintomas negativos. 
Os sintomas negativos caracterizam-se pela perda de certas funções 
psíquicas e pelo empobrecimento global nas esferas cognitiva, afetiva e social. São 
exemplos dos sintomas negativos: distanciamento afetivo; retração social; 
empobrecimento da linguagem; diminuição da fluência verbal; diminuição da 
vontade; negligência quanto a si mesmo; lentificação e empobrecimento psicomotor. 
Por outro lado, os sintomas positivos são manifestações novas e produtivas do 
processo esquizofrênico, como alucinações; ideias delirantes; comportamento 
bizarro; agitação psicomotora e ideias bizarras (GAZZANINGA; HEATHERTON, 
2005; DALGALARRONDO, 2008). 
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Os tipos de esquizofrenia encontram-se compilados na tabela abaixo: 
 
Categorização Tipos de transtornos 
F20 Esquizofrenia F20.0 Esquizofrenia paranoide: presença de ideias delirantes 
relativamente estáveis, frequentemente de perseguição, em geral 
acompanhadas de alucinações, particularmente auditivas e de 
perturbações das percepções. 
F20.1 Esquizofrenia hebefrênica: presença proeminente de uma 
perturbação dos afetos; ideias delirantes, alucinações fugazes e 
fragmentárias; comportamento irresponsável e imprevisível; presença de 
maneirismos; afeto superficial e inapropriado; pensamento desorganizado 
e discurso incoerente. Tendência ao isolamento social, tipo de 
esquizofrenia diagnosticado em jovens. 
F20.2 Esquizofrenia catatônica: distúrbios psicomotores proeminentes 
que podem alternar entre extremos, tais como hipercinesia e estupor, ou 
entre a obediência automática e o negativismo. 
F20.3 Esquizofrenia indiferenciada: afecções psicóticas que preenchem 
os critérios diagnósticos gerais de esquizofrenia, mas não se enquadram 
especificamente em nenhum desses subtipos. 
F20.4 Depressão pós-esquizofrênica: episódio depressivo eventualmente 
prolongado que ocorre ao fim de uma afecção esquizofrênica; há maior 
risco de suicídio. 
F20.5 Esquizofrenia residual: estádio crônico da evolução de uma doença 
esquizofrênica, com uma progressão nítida de um estádio precoce para um 
estádio tardio, o qual se caracteriza pela presença persistente de sintomas 
“negativos” embora não forçosamente irreversíveis. 
F20.6 Esquizofrenia simples: ocorrência insidiosa e progressiva de 
excentricidade de comportamento, incapacidade de responder às 
exigências da sociedade, e um declínio global do desempenho. 
Tabela 07: Categorização da CID de esquizofrenia. 
Fonte: Adaptado de CID-10 (2008). 
 
Para diagnosticar um paciente com esquizofrenia, o profissional responsável 
deve investigar a presença de pelo menos dois dos sintomas a seguir – delírios, 
alucinação, discurso desorganizado, comportamento desorganizado e catatônico e 
sintomas negativos – em período de aproximadamente um mês. Além disso,os 
sintomas devem comprometer o funcionamento do paciente (dinâmica pessoal, 
laboral, social), há sintomas de perturbações persistentes por aproximadamente seis 
meses e, finalmente, a exclusão de outros possíveis diagnósticos (DSM-5, 2014). 
O DSM-5 (2014) ressalta que a esquizofrenia está associada à significativa 
disfunção social e profissional, já que, mesmo quando as habilidades cognitivas 
mostram-se intactas, outros sintomas do transtorno impactam negativamente a 
execução de algumas tarefas e o relacionamento interpessoal. 
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Tendo em vista os sinais e sintomas da esquizofrenia, em especial a 
ocorrência de delírios, alucinações, o embotamento afetivo e a agressividade, é 
bastante delicado para um paciente esquizofrênico dirigir um veículo. A doença é 
crônica, sob tratamento ou em períodos de remissão dos sintomas a pessoa pode 
apresentar desempenho social e laboral satisfatório, entretanto, nas ocasiões de 
surto, dirigir um veículo pode impor sério risco para si mesmo e para a sociedade. 
Além disso, também é necessário levar em consideração que os antipsicóticos e 
demais tratamentos medicamentosos utilizados podem interferir nos reflexos, no 
nível de consciência e na rapidez para a execução de tarefas, o que também 
apresentaria um risco para o motorista esquizofrênico. 
A citação a seguir, extraída de uma notícia veiculada no site G1 ilustra 
claramente que transtornos mentais como esquizofrenia e depressão podem ser 
impedimento para a obtenção da CNH. O médico e o psicólogo têm importante papel 
na detecção desses transtornos e na emissão de laudo desfavorável ao candidato a 
motorista. Elucidam, inclusive, que certas condições, como a esquizofrenia, podem 
tornar os portadores mais propensos a se envolver em brigas de trânsito, outro 
problema bastante sério: 
 
Doenças psicológicas como depressão e esquizofrenia tornam as pessoas 
inaptas para dirigir veículos, segundo a Associação Brasileira de Medicina 
de Tráfego (Abramet). Os laudos emitidos pelo médico e pelo psicólogo 
podem impedir a emissão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). O 
documento segue a Resolução 267 do Conselho Nacional de Trânsito 
(Contran), que dispõe sobre os exames de aptidão física e psicológica para 
motoristas (G1, 2008, s.p.). 
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UNIDADE 8 – TRANSTORNOS DA PERSONALIDADE E DO 
COMPORTAMENTO DO ADULTO (F60-F69) 
 
Diferentes linhas teóricas estudam a personalidade, por isso, é impossível 
fornecer uma definição unificada. É suficiente compreender que “a personalidade é a 
maneira única de cada pessoa responder ao ambiente”. Ou seja, é o estilo pessoal 
de cada um. Sabe-se que as pessoas apresentam mudanças relativas com o passar 
dos tempos, entretanto, sua essência, sua personalidade, mantém-se relativamente 
estável desde o final da adolescência. Os transtornos da personalidade são 
“marcados por uma maneira inflexível e desadaptativa de interagir com o mundo”; 
são de longa duração e causam problemas para o indivíduo no âmbito do trabalho e 
nas suas interações sociais (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p. 520). Ou, 
ainda: 
 
Um transtorno da personalidade é um padrão persistente de experiência 
interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas 
da cultura do indivíduo, é difuso e inflexível, começa na adolescência ou no 
início da fase adulta, é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento ou 
prejuízo (DSM-5, 2014, p.645). 
 
Os transtornos da personalidade podem ser agrupados em três grupos: 
comportamento estranho e excêntrico (transtorno da personalidade paranoide, 
esquizoide e esquizotípica); comportamento dramático, emocional ou errático 
(transtorno da personalidade antissocial, borderline, histriônica e narcisista) e, 
finalmente, comportamento ansioso ou temeroso (transtorno da personalidade 
evitativa, dependente e obsessivo-compulsiva) (GAZZANINGA; HEATHERTON, 
2005; DALGALARRONDO, 2008; DSM-5, 2014). 
Focaremos nossa atenção apenas nos transtornos específicos da 
personalidade, detalhando apenas dois transtornos que merecem a nossa atenção: 
o transtorno de personalidade antissocial e o transtorno de personalidade borderline. 
 
Categorização Tipos de transtornos 
F60 Transtornos 
Específicos da 
Personalidade 
F60.0 Personalidade paranoica. 
F60.1 Personalidade esquizoide. 
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F60.2 Personalidade dissocial (antissocial, psicopática ou sociopática): 
desprezo das obrigações sociais, falta de empatia para com os outros. O 
comportamento não é facilmente modificado pelas experiências adversas, 
inclusive pelas punições. Existe uma baixa tolerância à frustração e um baixo 
limiar de descarga da agressividade, inclusive da violência. Tendência a culpar 
os outros ou a fornecer racionalizações plausíveis para explicar um 
comportamento que leva o sujeito a entrar em conflito com a sociedade. 
F60.3 Transtorno de personalidade com instabilidade emocional 
(borderline): tendência a agir de modo imprevisível sem consideração pelas 
consequências; humor imprevisível; tendência a acessos de cólera; 
impulsividade tendência a entrar em conflito com os outros, particularmente 
quando os atos impulsivos são contrariados ou censurados. 
 Dois tipos podem ser distintos: o tipo impulsivo (instabilidade emocional e falta 
de controle dos impulsos); e o tipo borderline (além das características 
anteriores manifesta perturbações da autoimagem, do estabelecimento de 
projetos e das preferências pessoais, sensação crônica de vacuidade, relações 
interpessoais intensas e instáveis, tendência a adotar um comportamento 
autodestrutivo). 
F60.4 Personalidade histriônica. 
F60.5 Personalidade anancástica. 
F60.6 Personalidade ansiosa (esquiva). 
F60.7 Personalidade dependente (obsessivo-compulsiva). 
Tabela 08: Categorização da CID-10 de transtornos da personalidade. 
Fonte: CID-10 (2008). 
 
Os transtornos da personalidade normalmente duram por toda a vida, sem 
nenhuma expectativa de mudança significativa. São condições que permanecem 
controversas na prática clínica devido a alguns motivos. Apresentam-se como 
versões extremas ou exageradas da personalidade normal; as pessoas 
diagnosticadas com determinado transtorno podem apresentar outros sintomas que 
condizem com os critérios diagnósticos de outro transtorno da personalidade. 
Apesar de as pessoas com transtornos da personalidade não apresentarem 
alucinações ou alterações bruscas de humor, a maneira de elas interagirem com o 
mundo pode acarretar em sérias consequências, em especial no caso do transtorno 
da personalidade borderline e do transtorno da personalidade antissocial 
(GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). 
Conduzir um veículo pode ser um grande risco para um condutor com 
transtorno de personalidade antissocial ou borderline. Segundo Silva (2008), 
indivíduos com transtorno de personalidade antissocial – psicopatas ou sociopatas, 
dependendo da nomenclatura– são pessoas que não apresentam empatia ou 
sentimento de culpa. Agem de modo premeditado, visando benéficos pessoais, 
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demonstrando-se extremamente inteligentes para colocar seus planos em prática. 
Os serial killer são os maiores exemplos de psicopatas que matam de modo 
sistemático, abusando de requintes de crueldade, mas há também pessoas com 
esse transtorno em graus mais leves, as quais também cometem delitos e agem em 
função de si mesmos, desconsiderando as outras pessoas. Além disso, segundo 
Dalgalarrondo (2008), são irresponsáveis, inconsequentes, agressivos e não 
aprendem com a experiência. 
Já os indivíduos borderline encontram-se literalmente “na borda”, ou seja, 
ocupam um estado limítrofe entre as neuroses e as psicoses. Segundo 
Dalgalarrondo (2008), são pessoas que tentem à impulsividade e à manipulação. 
Suas relações interpessoais e seu humor são muito instáveis, cometem atos 
autolesivos repetitivos. Ou seja, os psicopatas não lidam bem com as normas, por 
isso, seriam candidatos a violarem as leis de trânsito constantemente. Devido às 
suas características gerais, provavelmente não adotariam uma estratégia de direção 
defensiva, colocando eles mesmos e as outras pessoas do trânsito em risco, além 
de tenderem a apresentar discussões no trânsito. Caso fossem direcionados para 
programas que visem à reabilitação ou reciclagem de motoristas (comuns em outros 
países), provavelmente não haveria sucesso, visto que o uso de estratégias de 
mudanças de comportamento não surtiria efeitos nessas pessoas, as quais não 
aprendem com a experiência. Já os borderline, devido à grande impulsividade, 
provavelmente seriam sérios candidatos a acidentes, discussões no trânsito e 
direção ofensiva. 
Caso esses transtornos sejam detectados na avaliação psicológica, eles 
podem levar o candidato a ser declarado inapto temporariamente. Em entrevista, a 
psicóloga Almqvist (G1, 2008) não mencionou diretamente os transtornos da 
personalidade como condição que incapacita um candidato de conduzir um veículo, 
mas apontou características como agressividade e impulsividade como 
impedimentos e, conforme apresentamos, esses sinais são marcantes nos pacientes 
com transtorno da personalidade antissocial e borderline. 
A impulsividade – não apenas como sinal de um transtorno da personalidade 
específico, mas como um traço geral de personalidade, independente de traços 
psicopatológicos – é uma variável que necessita ser investigada em busca de 
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conclusões mais precisas sobre a influência desse fator nos acidentes de trânsito: 
Cremona (1986) relatou que pacientes com transtornos da personalidade 
apresentavam até seis vezes mais probabilidades de se envolver em acidentes de 
veículos. Os traços que poderiam estar associados à direção perigosa foram: 
irresponsabilidade, agressividade, egocentrismo, impulsividade e intolerância à 
frustração. 
 
Em estudo retrospectivo, informaram que motoristas com diagnósticos 
psiquiátricos (como [...] transtorno de personalidade bordeline [...]) não eram 
diferentes dos controles quanto às taxas de batidas em objeto fixo, 
velocidade insegura, infrações ou menos uso de cinto de segurança. [...] A 
impulsividade é um dos traços que tem sido frequentemente associado 
tanto a comportamentos de risco em geral quanto a violações das leis de 
trânsito e acidentes automobilísticos. No entanto, os resultados de estudos 
sobre a relação entre a impulsividade e os acidentes de trânsito ainda são 
contraditórios, havendo resultados que ressaltam associações positivas e 
outros, a ausência de relação (CUSHMAN et al., 1990 apud ARAÚJO; 
MALLOY-DINIZ; ROCHA, 2009, p. 61). 
 
Num estudo realizado com motoboys que já haviam sofrido algum tipo de 
acidente de trânsito, Sordi e colaboradores (2014) buscaram avaliar a prevalência de 
transtornos psiquiátricos nos mesmos. Os resultados sinalizavam que, na amostra 
investigada, 13,9% apresentavam transtorno de personalidade antissocial (TPAS), o 
que é bastante preocupante. Como o TPAS está diretamente associado à 
criminalidade, o grupo de motoboys com esse transtorno pode estar sujeito a se 
envolver com acidentes, inclusive causar acidentes com vítimas, fator diretamente 
relacionado à violência no trânsito. Entretanto, os dados também abrem espaço para 
outro questionamento: a marginalização dessas pessoas que apresentam 
dificuldades para seguir regras e adaptar-se a outros tipos de trabalho e acabou 
sendo direcionada a trabalhar como motoboys. Muito ainda se precisa investigar a 
este respeito, mas os dados obtidos a partir dessa pesquisa merecem a atenção do 
psicólogo do trânsito. 
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UNIDADE 9 – TRANSTORNOS EMOCIONAIS E DE 
COMPORTAMENTO COM INÍCIO USUALMENTE 
OCORRENDO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA (F90-
F98) 
 
Transtornos emocionais e de comportamento com início usualmente 
ocorrendo na infância e na adolescência (F90-F98) é caracterizado por: 
 
início precoce; uma combinação de um comportamento hiperativo e 
pobremente modulado com desatenção marcante e falta de envolvimento 
persistente nas tarefas e conduta invasiva nas situações e persistência no 
tempo dessas características de comportamento (CID-10, 1991, p. 256). 
 
Um transtorno hipercinético que merece nossa atenção é o TDAH – 
Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. 
 
As pessoas que sofrem do Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade 
(TDAH) têm dificuldade em prestar atenção de modo que lhes permita se 
adaptar – da melhor maneira possível – a seu ambiente (STERNBERG, 
2010, p. 146-147). 
 
Em linhas gerais, há dificuldade em prestar atenção a estímulos externos e 
internos, pois o paciente apresenta capacidade prejudicada em organizar e 
completar tarefas, assim como relutância em controlar seus comportamentos e 
impulsos (DALGALARRONDO, 2008). 
O TDAH tem como características básicas a falta de atenção, a 
hiperatividade e a impulsividade. Pode ser de três tipos: predominantemente 
desatento, predominantemente hiperativo-impulsivo ou misto (mescla desatenção 
com hiperatividade-impulsividade) (STERNBERG, 2010). 
A dificuldade em focalizar a atenção associada à impulsividade são fatores 
bastante delicados quando se pensa em conduzir um veículo. Como dirigir é uma 
atividade que requer atenção focalizada e dividida por todo o tempo, uma pessoa 
com esse tipo de transtorno pode se distrair com facilidade e, assim, envolver-se em 
situações de risco, como não perceber que o veículo da frente freou e colidir na 
traseira, não se ater às cores do semáforo ou se distrair com a música no carro e 
não perceber o pedestre que atravessa fora da faixa. Associando-se a atenção à 
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impulsividade, o problema torna-se ainda mais grave, pois, como apresentamos na 
seção anterior, essa característica é um fator de risco à violência no trânsito e ao 
cometimento de infrações. 
Dois fatores relacionados ao homem são apontados como significativas 
causas de acidentes no trânsito: a falta de atenção e o uso de substâncias 
psicoativas. Ambas as situações podem ser sinais e sintomas de dois transtornos, 
os quais precisam ser devidamente diagnosticados: a desatenção pode ser 
associada ao TDAH e o uso e abuso de substâncias ao transtorno de uso de 
substâncias (TUS) (SORDI et al., 2014). 
 
A ocorrência de comorbidade com Transtorno de Déficit de Atenção e 
Hiperatividade (TDAH) e transtorno de conduta, que apresenta elevada 
incidência entre adolescentes dependentes químicos, é maior entre 
adolescentes do sexo masculino do que do sexo feminino. Adultos com 
TDAH têm maiores chances de apresentarem transtornos do uso de 
substâncias psicoativas: aproximadamente 33% dos adultos com TDAH 
apresentam antecedentes de abuso ou dependência de álcool, e 20% deles 
têm história de abuso ou dependência de outras substâncias psicoativas. O 
uso de álcool é o mais frequente entre adultos com TDAH, seguido pela 
maconha, estimulantes e cocaína (KESSLER; PECHANSKY; 
BALDISSEROTTO, 2016, p. 98). 
 
Estudos apontaram que 60% dos jovens usuários de álcool e outras drogas 
apresentavam comorbidades, sendo o transtorno de conduta e o transtorno 
desafiador de oposição os mais comuns, seguidos pela depressão (KESSLER; 
PECHANSKY; BALDISSEROTTO, 2016). 
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UNIDADE 10 – TRANSTORNOS MENTAIS ORGÂNICOS, 
INCLUINDO SINTOMÁTICOS (F00-F09) 
 
Esse agrupamento inclui a demência na Doença de Alzheimer; demência 
vascular; demência em outras doenças classificadas em outros locais; demência não 
especificada; síndrome amnésica orgânica, não induzida por álcool e outras 
substâncias psicoativas; delirium, não induzido por álcool e outras substâncias 
psicoativas; outros transtornos mentais decorrentes de lesão e disfunções cerebrais 
e de doença física; transtornos de personalidade e de comportamento decorrentes 
de doença, lesão e disfunção cerebrais; transtorno mental orgânico sintomático e 
não especificado (CID-10, 1991). 
Em linhas gerais, as síndromes demenciais caracterizam-se pelas perdas de 
múltiplas habilidades cognitivas e funcionais, tais como perda da memória, perda de 
múltiplas funções cognitivas, alterações das funções executivas, alterações da 
personalidade, curso progressivo, presença de alterações difusas nos tecidos 
cerebrais, podendo manifestar também outros sintomas psiquiátricos associados, 
como ideias paranoides, depressão, ansiedade, alucinações, delírios e 
heteroagressividade (DALGALARRONDO, 2008). 
Um quadro demencial ocasiona perda da capacidade da realização de 
tarefas, das mais complexas às mais simples. Um paciente com demência perde, 
gradativamente, sua capacidade de dirigir e, devido ao curso progressivo da doença, 
essas habilidades não mais serão recuperadas. Muitas vezes o indivíduo com 
demência não percebe os sintomas iniciais e, por isso, as falhas cognitivas podem 
ser responsáveis por distrações e “apagões” no trânsito, o que pode ocasionar 
acidentes. 
Por se tratar de condições neurológicas, na avaliação médica e na avaliação 
psicológica, os profissionais peritos devem se atentar para esses sinais e sintomas, 
os quais podem impedir que um candidato seja declarado apto a dirigir. A avaliação 
psicológica é periódica nos motoristas profissionais, nos condutores de veículos de 
passeio apenas a avaliação médica ocorre periodicamente. Como muitos processos 
demenciais, como a Doença de Alzheimer, são diretamente associados ao avanço 
da idade, é importante que o motorista idoso seja avaliado pelo médico perito de 
trânsito com mais frequência. 
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A citação a seguir diz respeito a recomendações aos médicos que realizam 
a avaliação neurológica do candidato a condutor ou do condutor, mas traz 
informações importantes também para o psicólogo perito em trânsito: 
 
Não havendo nenhum marcador único que irá funcionar como fator 
determinante de aptidão para conduzir um veículo automotor, muitas vezes, 
poderá ser extremamente difícil determinar-se a aptidão nas fases iniciais 
destas condições. Estudos recentes mostram que até 76% dos pacientes 
com demência leve ainda são capazes de serem aprovados na prova 
prática de direção veicular (ABRAMET, s.d., s.p.). 
 
Além disso, segundo o material supracitado, as evidências apresentadas no 
62º Encontro Anual da Academia Americana de Neurologia para a condução de 
pessoas com doença de Alzheimer apoiam recomendações aos médicos que 
realizam a avaliação neurológica (inclusive para o trânsito), os quais devem informar 
ao paciente e aos seus familiares nos casos em que foi detectada alteração em seu 
desempenho nos processos avaliativos. Dependendo da gravidade do caso, pode 
representar aumento significativo de segurança de trânsito, se comparados a outros 
motoristas, o que pode acarretar em reavaliações médicas mais frequentes (a cada 
seis meses), avaliação do desempenho da condução do veículo por examinador 
qualificado e, nos casos mais graves, cessação definitiva da permissão para dirigir. 
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