Visão cartesiana da realidade

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O Pensamento cartsiano da realidade

Universidade Estácio de Sá
Pedagogia
PPE II
Prof. Mario Danner

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O Pensamento cartsiano da realidade
No século XVII, René Descartes, brilhante matemático, considerado fundador da filosofia moderna, resolveu construir uma ciência completa da natureza cujos princípios fundamentais dispensariam a demonstração. Ele tinha convicção no conhecimento científico. Para ele “toda ciência é conhecimento certo e evidente”.  O método de Descartes é analítico, o que consiste em decompor pensamentos e problemas em suas partes componentes e em dispô-las em uma ordem lógica. Esse método analítico de raciocínio é a maior contribuição de Descartes ao pensamento científico moderno e provou ser extremamente útil no desenvolvimento de teorias científicas e na concretização de complexos projetos tecnológicos. O problema é que ele também levou à fragmentação característica do nosso pensamento em geral e das nossas disciplinas acadêmicas e ,sobretudo, levou-nos a acreditar que todos os aspectos dos fenômenos complexos podem ser compreendidos se reduzidos às suas partes constituintes.

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O Pensamento cartsiano da realidade
Na imensa maioria de nossas escolas o ensino ainda se apóia em :
- um conhecimento dividido por disciplinas estanques;
- um conteúdo dividido segundo sua complexidade: primeiro o mais simples, depois o mais complexo (ensino da escrita/leitura = letras-sílabas-palavras-frases-textos);
Outra conseqüência do cartesiasismo foi a devastadora destruição do meio ambiente, percebida de forma aguda  nos dias atuais. Isso foi possível porque a natureza era entendida como um sistema mecânico – uma máquina - que deveria ser dominada e controlada pela ciência.
Mas Descartes não pode fazer mais do que esboçar as linhas gerais de sua teoria dos fenômenos naturais e quem completou o seu sonho foi Isaac Newton. Newton desenvolveu uma completa formulação matemática da concepção mecanicista da natureza realizando uma síntese das obras de Copérnico e Kepler, Bacon, Galileu e Descartes.

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O Pensamento cartsiano da realidade
A física newtoniana forneceu um sólido alicerce do pensamento científico até boa parte do século XX. Na obra Os princípios matemáticos de filosofia natural compreendem um sistema de definições, proposições e provas que os cientistas consideraram a descrição correta da natureza por mais de duzentos anos. Os princípios da mecânica newtoniana foram aplicadas inclusive nas ciências da sociedade humana, a base para o sistema de valores do Iluminismo e tiveram uma forte influência sobre o desenvolvimento do moderno pensamento econômico e político. Individualismo, direito de propriedade, mercados livres e governo representativo são ideais que podem ser atribuídos a Locke.

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No entanto, Capra nos conta em seu livro O Ponto de Mutação que “ (...) Duas descobertas no campo da física, culminando na teoria da relatividade e na teoria quântica, pulverizaram todos os principais conceitos de visão de mundo cartesiana e da mecânica newtoniana. A noção de espaço e tempo absolutos, as partículas sólidas elementares, a substância material fundamental, a natureza estritamente causal dos fenômenos físicos e a descrição objetiva da natureza  - nenhum desses conceitos pôde ser estendido aos novos domínios em que a física agora penetrava.” (Capra,2001, pg.69)
O início da física moderna foi marcada por Albert Einstein. Ele introduziu duas tendências revolucionárias no pensamento científico: uma foi a teoria especial da relatividade; a outra, um novo modo de considerar a radiação eletromagnética, que se tornaria característico da teoria quântica, a teoria dos fenômenos atômicos.

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O pensamento cartesiano da realidade
Mas o surpreendente foram as conclusões que chegaram os cientistas a partir dessa teoria:
“a descoberta do aspecto dual da matéria e do papel fundamental da probabilidade demoliu a noção clássica de objetos sólidos. A nível subatômico, os objetos materiais sólidos da física clássica dissolvem-se em padrões ondulatórios de probabilidades. Esse padrões, além disso, não representam probabilidades de coisas, mas probabilidades de interconexões. (...) Portanto, as partículas subatômicas não são ‘coisas’ mas interconexões entre ‘coisas’, e essas ‘coisas’, por sua vez, são interconexões entre outras ‘coisas’, e assim por diante.” (Capra,2001,pg.75)
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O pensamento cartesiano da realidade
As conclusões acima descritas permitem-nos analisar a nossa própria vida cotidiana. Embora possa ser a das mais comuns, é uma vida em relação entre vidas. Só fazemos sentido em relação a alguém, a uma situação, a um contexto. Sozinhos não somos coisa nenhuma, portanto, não existimos. Nesse sentido, a vida individual é uma particularidade da vida social, e mesmo assim, continuará sendo sempre uma vida social.
Poderíamos dizer que a vida social é uma teia dinâmica de eventos inter-relacionados. Nenhuma das vidas individuais de qualquer parte dessa teia é fundamental; todas elas decorrem da vida individual das outras partes do todo, e a coerência total de suas inter-relações determina a estrutura da teia.

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O pensamento cartesiano a realidade
Muito antes, Karl Marx em seus Manuscritos Econômicos-Filosóficos disse, de outra forma, o mesmo: “o indivíduo é o ser social. A exteriorização da sua vida – ainda que não apareça na forma imediata de uma exteriorização de vida coletiva, cumprida em união e ao mesmo tempo com outros – é, pois, uma exteriorização e confirmação da vida social. A vida individual e a vida genérica do homem não são distintas, por mais que, necessariamente, o modo de existência da vida individual seja um modo mais particular ou mais geral da vida genérica ,ou quanto mais a vida genérica seja uma vida individual mais particular ou geral.” (Marx, 1974,pg.76)
É preciso compreender que interconexões, multiplicidade, complexidade, teia dinâmica de relações e probabilidades  ,  são conceitos que começam a compor  discussões, pesquisas, colóquios de diversas áreas do conhecimento.

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O pensamento cartesiano da realidade
Assim como a percepção de mundo da Idade Média deu lugar a da Idade Clássica e esta cedeu passagem para a Modernidade - como  nos contou Foucault em seu livro As palavras e as Coisas - estamos diante de algo novo, ainda embrionário, que corrói nossas certezas a cada dia porque um novo modo de organizar o saber está sendo engendrado, daí minhas boas-vindas a possibilidade de se pensar em uma  pedagogia que ando chamando  de ecológica.
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Capra, F. O Ponto de Mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. 22a edição.São Paulo: Cultrix, 2001.
Foucault,M. As Palavras e as Coisas. 7a edição.São Paulo: Martins Fontes,1995.
Marx,K. Manuscritos Econômicos e Filosóficos.In: Os Pensadores. São Paulo:  Abril,1974.