Prévia do material em texto
@danie�eferreira._ Bases Fisiológicas do Comportamento Ciclos Comportamentais Geralmente ciclos comportamentais têm duas explicações: I. relógio endógeno - algum mecanismo interno que controla o ciclo II. estímulo ambiental - algum sinal ambiental estimula a ocorrência do ciclo As duas explicações não são mutuamente exclusivas, ambas ocorrem na natureza de forma interativa. Aqui tem um trabalho simples e muito interessante sobre o ciclo de canto dos grilos. Como saber se eles seguem apenas um estímulo ambiental ou se há algo interno que regula o ciclo? Nesse experimento, alguns indivíduos foram colocados sob um regime de luz constante e outros foram colocados sob regime de 12h de luz e 12h de escuridão. Os pontinhos pretos na imagem ao lado são os momentos em que eles cantaram. Os indivíduos que estavam no regime de 12h de luz e 12h de escuridão cantavam no período da noite. Porém, os animais que estavam em luz constante também mantiveram um ciclo de canto, só que não coincidia com a noite e nem durava 24h. Então os pesquisadores concluíram que esses animais possuem um relógio interno que é calibrado pela ausência de luz (noite). Se não houvesse um relógio interno, esses animais cantariam de forma desregulada e bagunçada, sem manter nenhum padrão ou ficariam cantando o tempo todo. No caso de animais de cativeiro criados em locais diferentes do seu local nativo, pode acontecer deles não conseguirem acompanhar o regime de luz do novo local, então eles não conseguem regular o relógio interno (pode fazer com que não consigam se reproduzir). Experimento com borboleta-monarca Os pesquisadores colocaram algumas borboletas em ambiente em que a luz era ligada às 7:00 e outras borboletas foram colocadas em ambiente que a luz ligava às 13:00. Eles perceberam que as borboletas do ambiente que a luz ligava às 7:00 tentavam voar para o sudoeste e as borboletas do ambiente que a luz ligava às 13:00 começavam a voar pro sudeste. Portanto, o horário de luz, juntamente com o relógio endógeno é o que regula a direção de migração. O que “segura” as borboletas, para que elas não migrem o tempo todo, são mecanismos neurais inibitórios que respondem a ciclos de 24 horas. Polimorfismo: variação dentro da espécie que tem base genética Polifenismo: variação dentro da espécie sem base genética Às vezes tem-se diferenças comportamentais que são consideradas como polimorfismos. As fêmeas de asa curta são geneticamente diferentes das fêmeas de asa longa e elas têm comportamento diário diferentes. As fêmeas de asa longa ficam mais ativas à noite e saem para procurar parceiros, então elas conseguem se reproduzir mais. As fêmeas de asa curta ficam quietas a noite e por isso elas são menos predadas, mas em contrapartida se reproduzem menos. As fêmeas de asas curtas não voam e as fêmeas de asas longas voam e isso faz com que as de asa curta produzam mais ovos que as de asas longas, pois as de asa longa gastam muita energia voando, devido ao gasto energético dos músculos. É dessa forma que as duas variedades conseguem se manter e se perpetuar na natureza (há um equilíbrio entre as vantagens e as desvantagens). Como o dia ou a noite interfere no comportamento? Explicação tomando o grilo como exemplo, mas isso é válido para inúmeros outros animais. Entre o olho e o cérebro existe uma área pré-ocular que vai mediar a informação do olho para as regiões específicas do cérebro. Se o lobo ótico estiver desconectado, o ciclo não segue 24h (ou seja, perde a calibração ambiental do relógio interno). Se o lobo ótico for desconectado do cérebro, há perda total do ritmo circadiano. Então, propõe-se que na região pré-ocular (lobo ótico nos grilos) há um relógio endógeno. O mesmo mecanismo ocorre nos seres humanos. Existe o gene PER, que produz a proteína PER, que por sua vez regula o relógio endócrino. Esse mecanismo é igual em todos os animais. Quando há muita proteína PER dentro da célula, principalmente no núcleo, ativa o funcionamento do gene TAU, que começa a produzir sua própria proteína e essa proteína é uma enzima que degrada a proteína PER. Com pouco PER, o gene TAU para de produzir sua proteína e aí a proteína PER começa a aumentar novamente ➞ esse é o mecanismo de controle do ciclo, que dura 24h. Qualquer pequena alteração em qualquer um dos pares de base do gene PER causa mudanças drásticas no comportamento, o que pode acarretar em grandes problemas para o animal (dificuldade de interação social, maior predação, etc) que diminuem as chances de reprodução (por isso o gene alterado não vai muito adiante na população). O gene PER é uma herança antiga, de pelo menos 550 milhões de anos, sem sofrer nenhuma alteração. Nos mamíferos, esse gene interfere no ciclo regulado pela melatonina, que é produzida pela glândula pineal. Mas nem tudo é proteína PER… Experimento feito com ratos submetidos a regimes de luz diferentes. Conclusão: o ciclo de produção da proteína PK2 se mantém independentemente do ciclo de luz. Essa proteína é produzida no NC e mantém esses ratos em ritmo circadiano independente de pistas ambientais num ciclo quase perfeito de 24 horas. O que faz com que o comportamento seja mais regulado pela proteína PER ou pela PK2 é a quantidade de receptores para cada proteína em áreas específicas do cérebro. Os pesquisadores também perceberam que, ao injetar PK2 no cérebro dos ratos, o comportamento é alterado. Rato-toupeira-pelado - exemplo de animal que não tem ciclo circadiano ● Os ratos-toupeira-pelado (Heterocephalus glaber) são roedores encontrados no leste da África, medem de 8 a 10 centímetro, pesam de 30 a 35 g (exceto as rainhas, que pesam de 50 a 80 g) e vivem até 32 anos, o que é um recorde entre os roedores. ● Essa espécie forma colônias do tipo “eussocial” onde há uma fêmea rainha que não permite que as outras fêmeas da colônia tenham filhotes. A rainha estressa as outras fêmeas diariamente para que elas não consigam ovular. Como esses animais não sentem dor, a dominância da rainha é feita de forma sentimental. Ela humilha as outras fêmeas e alguns machos através da agressão. ● Esses animais possuem olhos pequenos e são quase cegos ● São capazes de andar para frente e para trás com a mesma rapidez e destreza ● Conseguem sobreviver até 5h em atmosfera de 5% de O2, toleram 80% de CO2 + 20% de O2, sobrevivem até 18 minutos em 0% de O2 sem nenhum contratempo, mas morrem em 30 minutos de 0% de O2. Ninguém sabe como os músculos deles toleram a acidose lática. ● Entre esses animais há menor incidência de câncer pois possuem mecanismo genéticos que inibem tumores. Um experimento feito com esses animais mostrou que eles não possuem ritmo circadiano. Ciclos sazonais e anuais Alguns animais têm ciclo circa-anual (exemplo: esquilos da América do Norte). Há poucos estudos a respeito disso, principalmente pelo longo tempo que demandaria um estudo desse tipo. Fizeram um estudo de 4 anos com esquilos da América do Norte que foram cegados e mantidos em escuridão e temperatura constantes. Eles não apresentaram nenhuma alteração no ciclo. Conclusão: o ciclo é controlado apenas de forma endógena. Também há aves de ciclo anual. Nesse experimento, as aves foram retiradas do Quênia e levadas para Alemanha, onde foram mantidas em condições constantes. Mesmo mantidas em condições constantes e diferentes das condições que elas tinham no Quênia, o ciclo se manteve presente e praticamente inalterado, exceto por um pequeno deslocamento que sofria a cada ano. Ou seja, diferente dos esquilos da América do Norte, nessas aves há um ciclo anual, mas a alteração do estímulo ambiental fez com que o relógio endógeno sofresse uma pequena alteração. Sinais que Regulam Ciclos Comportamentais Há vários sinais que regulam os ciclos comportamentais. Tem ritmos circadianos e circa-anuais que utilizam sinais para a regulagem, mas esses sinais variam de acordo com a espécie, até mesmo entre espécies muito próximas. Pistas ambientais reiniciam ciclos (exemplos: aumento do dia na primavera, nascer e pôr do sol, inícioda estação chuvosa, etc). Às vezes essas pistas são mais previsíveis (no Hemisférios Norte: as temperaturas sazonais e hora de luz/dia são mais previsíveis) e às vezes as pistas são imprevisíveis (ex: no Hemisfério Sul). Pistas ambientais previsíveis Tem casos de animais que têm o ciclo de acordo com a época do ano e, em cada época do ano, ele interpreta ciclos mais curtos (ex: ciclo da lua) de uma forma diferente. No caso do animal do experimento da imagem ao lado, há relação entre o ciclo sazonal e o ciclo lunar. Em uma determinada época do ano, ele olha para a lua para decidir se vai sair em busca de alimento ou não (lua muito clara, ele fica quieto e lua mais escura ele fica mais ativo), e em outras épocas do ano ele simplesmente ignora a lua na tomada dessa decisão. Em laboratório, mesmo com disponibilidade constante de comida, ele mantém esse mesmo ciclo por meses, o que leva os pesquisadores a concluir que é um mecanismo de controle endógeno. Em alguns casos a regulação do ciclo é muito tênue e isso ocorre em várias espécies de aves. Foi descoberto que em aves existe um ciclo de fotossensibilidade. Tem um momento do ciclo em que o organismo delas fica fotossensível. Se, no momento fotossensível, estiver escuro, os testículos não crescem, mas, se o momento fotossensível coincidir com o horário do dia em que há luz, os testículos crescem. Em algumas aves esse ciclo é tão exato e a coincidência tem que ser tão alta que, se variar 17 minutos na relação entre claro e escuro do dia, elas não se reproduzem. Tem outros sinais ambientais que alteram fisiologicamente os animais. Na espécie do estudo ao lado, o desenvolvimento de duas regiões do cérebro (HVC e RA) estão diretamente ligadas às estações chuvosas. Antes da chuva, elas têm um volume significativamente menor que depois da chuva. Ou seja, quando chove, ocorre neurogênese dessas regiões cerebrais. O maior volume dessas áreas está relacionado com o canto, que ocorre mais na época chuvosa. Já nessa espécie, a pista ambiental é o consumo de comida. Se tem comida, elas entram em fase reprodutiva. Se não há comida, elas não se reproduzem. Essa espécie é da mesma família e gênero da citada anteriormente, mas mesmo tendo temperatura constante e comida disponível, elas dependem de um ciclo para que haja reprodução. Mecanismos Hormonais Os hormônios podem ter efeitos: ● ativatórios (na presença de determinado hormônio, o comportamento ocorre) - efeito imediato, mas temporário ● organizacionais (o hormônio afeta o desenvolvimento do comportamento) - efeito permanente Hormônios ativatórios Os camundongos machos de uma determinada espécie mudam de infanticidas para paternais 3 semanas após a cópula. 3 semanas é exatamente o tempo que demora a gestação da fêmea. O que ocorre então é que, logo após a cópula, o macho mata todos os filhotes que não são deles e, exatamente 3 semanas após, ele passa a ter comportamentos paternais pois os filhotes provavelmente são dele. Para entender melhor o que ocorre, fizeram um experimento com esses camundongos, colocando-os sob regimes de dias reais (24h), dias lentos (27h) e dias rápidos (22h). Eles perceberam que o gatilho para os machos é a alternância entre claro e escuro, independente de quantas horas durem. Após a cópula, o organismo conta 22 alternâncias entre claro e escuro e interrompe o comportamento infanticida. É um controle endógeno, eles não têm consciência de que os filhotes são ou não deles. A progesterona é a responsável por regular o comportamento infanticida, mas para que isso ocorra é necessário que os camundongos tenham receptores para esse hormônio. Na linhagem PRKO, os animais não têm receptores para progesterona, então eles não apresentam o comportamento infanticida. Na ninhada C57BL/6, os machos apresentam esse comportamento pois possuem receptores para progesterona. O macho de codorna japonesa, após a cópula, desenvolve uma fixação pela fêmea, e fica olhando fixamente para ela. Os pesquisadores descobriram que esse comportamento de paixão do macho é regulado pela testosterona, porém um pouco alterada. A testosterona, na presença de uma enzima aromatase, se converte a estradiol e há receptores de estradiol nas células, que levam ao comportamento de ficar olhando para a fêmea. E a produção de aromatase aumenta logo após a cópula. Implantando somente testosterona nos machos, o comportamento de olhar para a fêmea permanece. Esse comportamento só começa a diminuir nos machos que sofreram implante de inibidor de aromatase. Quando essa espécie de mosca copula, os machos liberam, junto com os espermatozóides, um peptídeo sexual que inibe a vontade da fêmea de copular com outros machos. Quando as fêmeas copulam com machos deficientes de peptídeo sexual, logo após a cópula elas se comportam igual às fêmeas virgens, indo copular com outros machos. Hormônios organizacionais No lagarto (Green anoles) a testosterona tem padrão associativo com a cópula, visto que induz a produção de gametas e a atividade sexual. Já no caso da serpente (Red-sided garter snake), o padrão é dissociativo, pois modula eventos pré e pós copulatórios, mas não induz a cópula em si. A testosterona não afeta a cópula em si, mas afeta a preparação para a fase reprodutiva. Então, a partir do ano dois, os machos castrados começaram a perder o interesse pela cópula pois houve dano no desenvolvimento do sistema neural No tico-tico coroado, a testosterona afeta na territorialidade (construção do ninho), mas não afeta na cópula, então é também um padrão dissociativo. Os hormônios não estão relacionados com um determinado sexo e sim com o comportamento. Nessa espécie (Prunella modularis), a baixa de testosterona faz com que a fêmea se torne monogâmica. Quando a testosterona está em alta, a fêmea se torna poliândrica e apresenta comportamentos de realizar disputas por machos com outras fêmeas. Algumas espécies de lagarto possuem o papo colorido e isso é determinado geneticamente. Existem machos de papo amarelo, azul ou laranja. A testosterona está relacionada a comportamentos agressivos e de defesa de território. Os machos de papo amarelo e de papo azul possuem menos testosterona, mas os de papo laranja possuem muita testosterona. E a causa disso é puramente bioquímica: a produção do pigmento laranja gera maior produção de testosterona, pois esse hormônio é um subproduto da produção. Porém, a taxa de sobrevivência dos machos de papo laranja é menor, pois como a concentração de testosterona é maior, eles se tornam mais agressivos e por isso brigam mais e, como consequência, morrem mais.