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Produzido por Ana Gabriela Vasconcelos Cavalcante Licencianda em História pela UFRPE Resumo da obra: História da Civilização. A Idade da Fé. cap 1 a 3 Autor: Will Durant Esse fragmento da obra de Will Durant é bastante instigante, pois apesar de ser um pouco denso, por se tratar de uma conjuntura histórica marcada por muitas rupturas e acontecimentos, ainda assim, o autor conduz sua narrativa com tamanha riqueza de detalhes que permite que sejamos na imaginação transportados para aquele cenário. E, nesse sentido, atendo-se à nomeação do fragmento ‘A Idade da Fé’, é evidenciado que o debate proposto circunda o legado deixado por Constantino, o primeiro imperador cristão, bem como as implicações de sua conversão na estruturação da sociedade romana. Durant inicia sua escrita explicitando que apesar de Constantino ter objetivado durante seu governo, restaurar a monarquia e unificar a fé cristã no Império dedicando-se a isto, contudo, aproximando-se de sua morte decidiu fragmentar o império entre seus filhos e sobrinhos, a fim de evitar a instauração de uma guerra civil, o que, entretanto, não foi possível já que o conflito incidirá. Nesse contexto, sendo os demais assassinados restaram apenas Constâncio, filho de Constantino, Galo- que encontrava-se já bastante enfermo - e Juliano que era apenas uma criança. Assim, Constancio assumiu o poder, centralizando-o novamente. Dedicando-se a contextualizar a fundação de Constantinopla enquanto capital do Império, sendo este um importante legado deixado por Constantino, Will Durant inicia suas considerações pontuando que por ter sido antes nomeada como Bizâncio, a cultura e a civilização da capital continuaram sendo simbolicamente marcadas como Bizantinas. Dada a sua importância e localização geográfica, representava um centro de comunicação entre o Ocidente e o Oriente, sendo apenas conquistada durante um milênio no período das cruzadas pelos cristãos. Tendo sido fundada com o intuito de pensar uma arquitetura que reverenciava a cristandade, pois após sua conversão ao cristianismo Constantino rompeu oficialmente com o paganismo e necessitava contemplar em seu governo sua nova fé e os demais cristãos, já que Roma cada vez mais se cristianizava. E assim, com as obras públicas e intervenções urbanísticas, Constantinopla passou a ser considerada, segundo o autor, a capital mais bela, mais próspera e mais civilizada do mundo. Quando destrincha a estruturação e organização das classes que compunham a sociedade romana, é deveras interessante a abordagem feita pelo autor acerca da grande massa de trabalhadores livres, os quais, afligidos pelas excessivas cobranças de tributos e submetidos pelo estado à condições, por vezes de miserabilidade social, encontravam nas festividades nacionais realizadas nos hipódromos uma oportunidade para expressarem suas revoltas e sua força política, já que eram privados do direito ao voto e de outras formas de participação na organização política do império, porém, como forma de legitimação da autoridade governamental, eram comumente reprimidos ou através da força militar ou mesmo pela manutenção da fome e negligência das autoridades para saná-la. Durant destaca ao longo de sua escrita que dependendo da religião para afirmar sua imponência, o governo imperial viu-se em diversos contextos obrigado a intervir nas divergências dos ministérios teológicos, apesar de já ter sido, nesse contexto, decretado o Concílio de Niceia. Contudo, apesar de divergirem em praticamente todos os aspectos de doutrina e crença, as facções cristãs convergiam apenas quando a questão era o ataque e vingança aos pagãos. E, diferente de seu pai Constantino, Constâncio proibiu os ritos pagãos decretando o fechamento de seus templos e colocando-o na ilegalidade. Entretanto, quando Juliano assume o poder a conjuntura se modifica. Pois, apesar de ter recebido uma educação fortemente cristã, quando se deparou com os escândalos e com o dogmatismo do cristianismo, tornou-se um apóstata. Migrando, assim, para a dedicação aos estudos da filosofia e secretamente do paganismo. Porém, tornando-se imperador, assume publicamente seu paganismo e suas críticas à religião cristã, concretizando o seu antigo objetivo de restaurar a religião pagã nos cultos do império, decreta o restabelecimento e reconstrução de seus templos. Assim, após muitos anos tendo governadores cristãos, Roma volta a ser governada por um pagão. Todavia, o restabelecer o paganismo, o imperador vigente não esperava que fossem seus ritos tão impregnados de uma essência mítica quanto o era o cristianismo, e percebe também que a mentalidade coletiva necessitava de um simbolismo sensorial para difundir os princípios morais e espirituais. Aceitando tal noção e constituindo na população a adoração ao Sol, que segundo ele corresponderia a um contrapeso religioso da adoração dos filósofos a razão e a luz. Nesse sentido é muito perspicaz e concisa a crítica feita por Will Durant a idéia de que Juliano seria, segundo suas palavras, “um livre pensador que procurasse substituir o mito pela razão” (p 15), haja vista as doutrinas ensinadas por ele possuírem um caráter tão sobrenatural quanto o de qualquer outra religiosidade, ademais praticava ele publicamente muitos sacrifícios de animais, resgatados de uma ritualística pagã mais antiga. Por fim, o autor enfatiza que a paixão desmedida de Juliano pelo paganismo levou seu governo ao fracasso, pois as crenças pagãs eram uma espiritualidade já morta entre a população, e muitos dos que se convertiam ou ofereciam sacrifícios o faziam a partir de interesses ou em cargos políticos ou em riquezas e privilégios sociais. É tanto que, após sua morte num combate com os persas, o seu exército acaba elegendo um cristão como novo imperador. De todos os capítulos o que mais me chamou atenção e cativou foi o segundo, que na minha percepção tem muito diálogo com o debate levantado pelo Alessandro Barbero no livro ‘O Dia dos Bárbaros’. Pois, Durant dedica-se a reconstruir o cenário histórico de invasão e domínio do ocidente pelos bárbaros, tecendo um diálogo crítico acerca da visão pejorativa consolidada acerca do conceito ‘bárbaro’. Associadas à brutalidade e falta de civilidade, sendo, porém imigrantes vitimados pela fome e por outras mazelas sociais que enxergavam no império uma esperança de viver em condições sociais e econômicas menos vulneráveis e melhores. É importante enfatizar que eram populações que dominavam a arte da arte, e devido a isto avançavam cada vez mais dominando e saqueando as províncias romanas, pois enfraquecido do ponto de vista militar, o império não se encontrava em condições de proteger suas fronteiras. Além disso, pensando na conjuntura italiana, as estruturais socioeconômicas encontravam- se em flagelos e como consequência desse declínio, começa a ser praticado o sistema de colonato, no qual muitos proprietários de terras, impossibilitados de pagar os altos impostos e defender suas terras, entregam-nas a proprietários mais ricos e mais prósperos, tornando-se seus colonos e lavradores, comprometendo-se a retribuir o amo com parte de seus lucros em troca da subsistência e proteção. É interessante, como o próprio autor pontua pensar a forma tal sistema vai alicerçando o que viria a se consolidar como Feudalismo. Com o avanço das incursões bárbaras e consequente fragilização interna de Roma, os hunos acabaram consolidando o que se tornara um verdadeiro império, o que marca uma conjuntura em que torna-se cada vez mais difícil para o Império Romano proteger-se e continuar enxergando a si como única superpotência mundial. Apesar de uma posterior dissolução do império dos hunos, ainda assim novas movimentações bárbaras tornam a acontecer, legitimando o domínio dos bárbaros. Durant pontua que o avanço e ascensão dos bárbaros ao poder implicaram em profundas mudanças nas estruturas sociopolíticas e econômicas daquela região. A economia passou a se configurar numa dinâmica rural, pois ainda não dominavam as habilidades comerciais que proporcionavaprosperidade as cidades, além disso, a forma de poder era monárquica, porém, baseada num sistema, que propunha um aumento da autoridade dos indivíduos, assegurando-lhes não fortemente em leis, o que acabou provocando um aumento do individualismo e da violência, assim o modo de vida foi modificando-se já que não havia mais a assistência dos governos. Por fim, o Império desaparece do Ocidente e nesse contexto foram surgindo o que seriam os Estados da Europa moderna. No último capítulo, Will Durant dedica-se a tecer um debate sobre como se constituiria e qual seria a função da Igreja cristã nesta nova ordem que se estabelecera, afirmando assim que a igreja seria a mãe dessa nova civilização, visando estabelecer uma ordem moral e espiritual e ‘desembrutecer’ da barbárie a população que se constituía. Exercendo importante função social, a Igreja Cristã surgiu como símbolo de esperança aos pobres e cansados, marginalizados pelas injustiças sociais, consolidando-se assim como uma instituição que servia de alimento espiritual para a população flagelada, em meio a um cenário de intensos conflitos sociais e muita violência. Desse modo, lutava para ter representação perante o Estado, e estando inicialmente subordinada a tal instituição, à medida que se fortalecia e ganhava mais adeptos da fé, a igreja passou a dominar o império que se cristianizava cada vez mais, tornando-se assim principal representante de poder. E, mesmo quando as estruturas do império fragilizavam-se, a Igreja mantinha suas riquezas e sua autoridade. E além de sua influência na Antiguidade e no Medievo, é importante considerar que certas concepções e noções de moral disseminadas pela igreja mantém-se presentes fortemente ainda no mundo contemporâneo. De forma bem perspicaz, a igreja agia buscando combater a fragmentação das doutrinas em heresias, isto é, as doutrinas contrárias às definições dos credos cristãos, tal como o estado reprimia as greves e rebeliões, deixando assim, em determinados contextos, de pregar a tolerância e complacência, mesmo porque ambas as instituições andavam lado a lado. Em vista disso, as heresias tornavam-se bandeiras ideológicas para os que desejavam fugir da dominação do império e a igreja mantinha-se buscando a unificação e centralização da fé e do domínio. Nesse sentido, o autor faz uma consideração que despertou dúvidas, é historicamente adequado quando na página 43 o autor denomina um grupo de revoltosos como ‘Comunistas’? Não seria anacrônico, já que o conceito de comunismo viria a surgir posteriormente na história? Por fim, a obra aborda a influência de Santo Agostinho na literatura medieval, ele proporcionou ao cristianismo uma base filosófica, bem como teve uma contribuição inegável para a Filosofia Ocidental, e muitos dos filósofos consagrados beberam nas fontes intelectuais de Agostinho. Considero importante destacar um ponto discrepante que analisei na narrativa. Durant dedica-se com certo afinco a descrever a figura de Juliano, quem ele fora, como ascendera ao poder e qual era sua relação com a filosofia e com o paganismo, bem como o abandono e consequentes críticas que fizera ao cristianismo, no qual fora educado durante a infância e adolescência, ao se deparar com os escândalos e contradições de tal credo. Enfatizando por fim, a representação que ele teve ao tentar reatar oficialmente com o paganismo como religião do império, após uma linhagem de imperadores cristãos no poder. Todavia, quando o autor cita a existência da filósofa Hipátia, não deixa explícito quem ela era nem o porquê havia sido brutalmente assassinada, apenas esclarecendo que foi por ordem de um monge, ao tecer o debate sobre a relação da Igreja com as heresias. Bem, felizmente tive a oportunidade de conhecer a história da filósofa Hipátia e foi através de um filme que assisti no curso de História- Alexandria (2009)-, o qual recomendo fortemente. E pude compreender que a figura de Hipátia representava, naquela conjuntura social, uma ameaça não apenas por ter sido uma filósofa que incitava a criticidade e o uso da razão, mas, sobretudo por se tratar de uma mulher, considerando que a estrutura da sociedade romana era patriarcal e as mulheres eram ainda privadas de acessar diversas esferas sociais. Nesse sentido, o autor na construção de sua narrativa poderia ter destacado de forma explícita tal ponto, servindo inclusive de oportunidade para reflexão historiográfica acerca de um debate tão importante que é o referente ao lugar social ocupado pela mulher ao longo da história, apesar de não ter sido esse o ponto principal que o autor se propôs a discutir. Enfim, a leitura deste fragmento da obra do Will Durant me foi muito proveitosa e me possibilitou refletir bastante sobre a influência e autoridade que a religião cristã permanece exercendo no tempo presente, autoridade essa digna inclusive de questionada e inspecionada. Além disso, é possível através da obra perceber que os bárbaros ao poder implicaram em profundas mudanças nas estruturas sociopolíticas e econômicas daquela região. A economia passou a se configurar numa dinâmica rural, pois ainda não dominavam as habilidades comerciais que proporcionava prosperidade as cidades, além disso, a forma de poder era monárquica, porém, baseada num sistema, que propunha um aumento da autoridade dos indivíduos, assegurando-lhes não fortemente em leis, o que acabou provocando um aumento do individualismo e da violência, assim o modo de vida foi modificando-se já que não havia mais a assistência dos governos. Por fim, o Império desaparece do Ocidente e nesse contexto foram surgindo o que seriam os Estados da Europa moderna. Referência Bibliográfica principal: DURANT, Will. História da civilização, vol. IV: A Idade da Fé. Rio de Janeiro: Record, s/d, caps. 1 a 3, pp. 3 a 71.