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Autora: Profa. Tais Masotti Lorenzetti Fortes Colaboradoras: Profa. Raquel Machado Coutinho Profa. Renata Guzzo Belinelo Profa. Laura Cristina da Cruz Dominciano Enfermagem do Idoso Professora conteudista: Tais Masotti Lorenzetti Fortes Formou-se em Enfermagem em 1986, trabalhou como enfermeira em unidade de clínica médica, clínica de doenças infectocontagiosas e no controle de infecções hospitalares enquanto terminava a especialização em Enfermagem Médico-Cirúrgica. Iniciou a carreira docente em 1994, ministrando disciplinas de saúde do adulto e doenças transmissíveis. Acreditando no papel da Enfermagem de apresentar as possibilidades terapêuticas e estimular o paciente à participação em seu tratamento, cursou pós-graduação em Marketing. Devido à prática constante na atenção de idosos, realizou mestrado em Gerontologia Social. As mudanças pedagógicas a levaram a estudar metodologias participativas, as quais levassem em consideração a vivência anterior do aluno; assim, fez outra especialização em Métodos de Aprendizagem Participativa. Estudou o doutorado na área de Patologia Clínica, examinando o processo de envelhecimento da pele e propondo métodos de prevenção de lesões pertinentes ao processo de alterações cutâneas. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) F738e Fortes, Taís Masotti Lorenzetti. Enfermagem do idoso. / Taís Masotti Lorenzetti Fortes. – São Paulo: Editora Sol, 2020. 148 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Enfermagem do idoso. 2. Fisiologia do envelhecimento. 3. Enfermidades. I. Título. CDU 616-083 U507.27 – 20 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcello Vannini Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Fernanda Pereira Juliana Mendes Sumário Enfermagem do Idoso APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................7 Unidade I 1 ASPECTOS DEMOGRÁFICOS E SOCIAIS DOS PROCESSOS DE ADOECIMENTO E ENVELHECIMENTO .................................................................................................................................................9 1.1 O conceito de idoso ao longo da história .................................................................................. 12 1.2 Teorias do envelhecimento ............................................................................................................... 12 1.2.1 Teorias biológicas do envelhecimento ........................................................................................... 12 1.2.2 Teoria da ligação cruzada .................................................................................................................... 13 1.2.3 Teoria dos radicais livres e da lipofucina ....................................................................................... 13 1.2.4 Teoria neuroendócrina e neuroquímica......................................................................................... 14 1.2.5 Teorias do uso e desgaste .................................................................................................................... 15 1.2.6 Teorias estocásticas .............................................................................................................................. 15 1.2.7 Teoria das mutações somáticas ....................................................................................................... 16 1.2.8 Teoria da reparação do DNA ............................................................................................................... 16 1.2.9 Teoria genética do erro-catástrofe .................................................................................................. 17 1.2.10 Teoria da glicosilação avançada/nutricionais ........................................................................... 17 1.2.11 Teoria da quebra de ligações ............................................................................................................ 17 1.2.12 Teoria do estresse oxidativo ............................................................................................................ 18 1.2.13 Teorias psicossociais ............................................................................................................................ 18 1.2.14 Teoria do desengajamento ............................................................................................................... 19 1.2.15 Teoria da atividade .............................................................................................................................. 19 1.2.16 Teoria da continuidade ...................................................................................................................... 19 2 CONCEITOS IMPORTANTES .......................................................................................................................... 19 2.1 O fenômeno do envelhecimento ................................................................................................... 19 2.2 Termos e denominações ao idoso ................................................................................................ 20 3 FISIOLOGIA DO ENVELHECIMENTO ........................................................................................................... 22 3.1 Sistema cardíaco ................................................................................................................................... 22 3.2 Sistema respiratório ............................................................................................................................ 24 3.3 Sistema musculoesquelético .......................................................................................................... 25 3.4 Sistema nervoso .................................................................................................................................... 27 3.5 Sistema digestório ............................................................................................................................... 29 3.5.1 Índice de massa corporal (IMC) ......................................................................................................... 31 3.6 Sistema renal e vias urinárias .......................................................................................................... 32 3.7 Sistema cutâneo mucoso .................................................................................................................. 33 3.8 Sistema dos órgãos dos sentidos: visão e audição ................................................................. 35 3.9 Sistema imunológico ..........................................................................................................................36 4 CONCEITOS DE AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA ............................................................................... 37 4.1 Avaliação funcional ............................................................................................................................. 40 4.1.1 Avaliação de acuidade visual – Jaeger ........................................................................................... 42 4.1.2 Acuidade auditiva – Teste do sussurro........................................................................................... 42 4.1.3 Avaliação de mobilidade ..................................................................................................................... 43 4.1.4 Teste de Tinetti ......................................................................................................................................... 49 4.1.5 Teste de marcha....................................................................................................................................... 52 4.1.6 Teste Timed Up and Go (TUG) ............................................................................................................ 54 4.1.7 Avaliação cognitiva: miniexame do estado mental (Meem) ou Teste de Folstein ....... 54 4.1.8 Avaliação de humor (escala de depressão geriátrica) .............................................................. 56 4.2 Incontinência esfincteriana ............................................................................................................. 58 4.2.1 Avaliação de vida diária (AVD) .......................................................................................................... 58 4.2.2 Avaliação das atividades de vida diária (AVD). ........................................................................... 67 4.2.3 Avaliação das atividades de vida diária (AVD) – Índice de Katz .......................................... 68 4.2.4 Avaliação das atividades de vida diária – Índice de Barthel ................................................ 68 4.2.5 Atividades avançadas de vida diária (AAVD) ............................................................................... 73 4.3 Grandes síndromes geriátricas ........................................................................................................ 74 Unidade II 5 FARMACOLOGIA: POLIPATOLOGIA E POLIFARMÁCIA ........................................................................ 78 5.1 Doenças cognitivas e neurológicas no idoso ............................................................................ 82 5.2 Alteração cognitiva leve (ACL) ........................................................................................................ 83 5.3 Doença de Alzheimer (DA) ................................................................................................................ 84 5.4 Demência vascular (DV) ..................................................................................................................... 89 5.5 Demência dos corpos de Lewy (DCL) ............................................................................................ 90 5.6 Demência frontotemporal (DFT) ..................................................................................................... 90 5.7 Outros fatores que podem levar à perda cognitiva................................................................ 91 5.7.1 Parkinson .................................................................................................................................................... 92 6 ENFERMIDADES E DOENÇAS CRÔNICAS NO IDOSO ......................................................................... 96 6.1 Doenças cardíacas ................................................................................................................................ 98 6.2 Dor .............................................................................................................................................................. 98 6.3 Diabetes mellitus (DM) .....................................................................................................................100 7 REDE DE APOIO SOCIAL ..............................................................................................................................101 7.1 Políticas e legislação .........................................................................................................................101 7.1.1 O processo de institucionalização, assistência domiciliária e identificação de cuidadores .....................................................................................................................................................111 7.2 Assistência domiciliar (AD) .............................................................................................................113 8 PROGRAMAS DE ACOMPANHAMENTO E CUIDADOS AO IDOSO ...............................................115 8.1 Programa Acompanhante de Idosos (PAI) ...............................................................................115 8.2 Instituições de longa permanência para idosos (Ilpi) ..........................................................116 8.3 Cuidadores ............................................................................................................................................119 7 APRESENTAÇÃO A enfermagem do idoso é objeto de estudo e pesquisa cada vez mais comum em virtude da grande população mundial de pessoas idosas. Vários são os fatores que levaram ao aumento do número de indivíduos nessa faixa da população, como: mais acesso a informações, infraestrutura e melhora geral na qualidade de vida. Independentemente da região e das suas carências, há maior expectativa de vida. Todos os profissionais de saúde, independentemente da área de atuação, irão se deparar com o cuidado do idoso direta ou indiretamente. Os ambulatórios, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os prontos-socorros estão cheios de idosos, bem como enfermarias e centros de reabilitação. Se a opção for por cuidar de crianças, como pediatria ou neonatologia, a presença e a participação dos avós têm um espaço garantido. Conhecer as questões relacionadas ao processo de envelhecimento, reconhecer a diferença entre as alterações fisiológicas e as patológicas podem auxiliar nos cuidados e intervenções para tal população. Apresentamos aqui um material que traz as reflexões sobre o envelhecimento e a introdução aos aspectos epidemiológicos, fisiológicos, patológicos, sociais, éticos, legais e políticos relativos ao processo de tornar-se idoso. INTRODUÇÃO A busca de métodos que retardem o envelhecimento ou prolonguem a vida é uma aspiração de muitas sociedades. O problema está em se agregar qualidade aos anos adicionais de vida. Assim, qualquer política destinada à população idosa deve levar em conta a capacidade funcional, a necessidade de autonomia, de participação, de cuidado e de satisfação desse público. Além disso, incentivar, fundamentalmente, a prevenção, o cuidado e a atenção integral à saúde. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) considera o envelhecer como um processo sequencial, individual, cumulativo, irreversível, universal, não patológico de deterioração de um organismo maduro, próprio de todos os membros de uma espécie, de maneira que o tempo o torne menos producente diante do estresse do meio ambiente e, portanto, aumente sua possibilidade de morte. Ainda para a OMS, o limite de idade entre o indivíduo adulto e o idoso é 65 anos em nações desenvolvidas e 60 anos nos países emergentes (BRASIL, 2005). A esperança de vida do brasileiro vem crescendo muito; entre 1940 e 2015, o índice teve crescimento de 30 anos e passou de 45,5 para 75,5 anos. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2015 revela que a expectativa de vida do brasileiro nascido neste ano cresceu e passou a ser de 75,5 anos. Em 2014, era de 75,2 anos (IBGE, 2016). O aumentoda esperança de vida se deve ao maior acesso a informações, incluindo prevenção de doenças, hábitos saudáveis e cuidados precoces. Há também a melhoria no serviço de saneamento e infraestrutura somada ao acesso aos serviços de saúde. 8 A consequência deste aumento dos anos de vida representa um grande leque que se abre cada dia mais, ou seja, idosos mais ativos demandam atividades de lazer, cultura e entretenimento que atendam às características desta população. Requerem, ainda, suporte financeiro para aposentados que usufruirão por mais tempo do benefício e despenderão gastos elevados com remédios; destaca-se o fato de conviverem com doenças crônicas como diabetes e hipertensão por mais tempo, aumentando o risco de lesões próprias dessas doenças; além do aparecimento de doenças como infecções sexualmente transmissíveis e câncer para essa faixa etária. Com a expansão da demanda da população idosa em todos os serviços, seja de lazer, saúde ou consumo, é preciso estar preparado para atender adequadamente a esse público. Conhecer as características, especificidades e necessidades dos idosos é uma exigência atual para todos os profissionais. Apresentamos aqui algumas informações gerais e outras específicas a respeito da enfermagem aplicada à saúde do idoso para instrumentalizar a prática dessa profissão. 9 ENFERMAGEM DO IDOSO Unidade I 1 ASPECTOS DEMOGRÁFICOS E SOCIAIS DOS PROCESSOS DE ADOECIMENTO E ENVELHECIMENTO O Brasil hoje é um jovem país de cabelos brancos. A cada ano, 650 mil novos idosos são incorporados à população brasileira, a maior parte com doenças crônicas, e alguns com limitações funcionais. Em menos de 40 anos, o Brasil passou de um cenário de mortalidade próprio de uma população jovem para um quadro de enfermidades complexas e onerosas, típica dos países longevos, caracterizado por doenças crônicas e múltiplas que perduram por anos, com exigência de cuidados constantes, medicação contínua e exames periódicos (VERAS, 2009). Cabe aqui o estudo epidemiológico do envelhecimento para o possível desenvolvimento de ações preventivas de saúde e a consequente redução das limitações causadas pela complicação de doenças crônicas. Estima-se que em 2020 o Brasil terá a sexta maior população idosa do mundo, com cerca de 32 milhões de pessoas, similar à encontrada hoje em países desenvolvidos (MATOS; GIATTI; LIMA-COSTA, 2004) e que tiveram um processo de envelhecimento lento, possibilitando a adaptação para esta população (FURTADO et al., 2012). Ao passo que são evidentes as mudanças na pirâmide populacional, são observados, por conseguinte, os grandes desafios lançados aos sistemas de saúde pública (WONG; CARVALHO, 2006). Com essas alterações, as doenças próprias da população senil ganharam maior prevalência no conjunto da sociedade. Esse fato caracteriza um novo problema para as políticas públicas de saúde, uma vez que a demanda por serviços nesse campo passou a não corresponder à necessidade do idoso (LIMA-COSTA; VERAS, 2003; VERAS, 2007). Isso acontece devido aos elevados custos da assistência médica para a população geronte, o que implica mais investimentos em recursos à área de saúde por parte do poder público (CLEMENTE; LOYOLA FILHO; FIRMO, 2011). Quando traduzimos os dados de uma população para conhecer seu perfil, utilizamos a estrutura por idade e sexo de uma população. Num dado momento, obtém-se o resultado de sua dinâmica durante um longo período, isto é, do comportamento dos nascimentos, das mortes e das migrações nos últimos cem anos, por exemplo. O que determina esse crescimento são a fecundidade e a mortalidade que, por sua vez, estão diretamente relacionadas à idade e ao sexo (BERQUÓ, 1991). As mudanças da população brasileira fizeram que o país passasse de um regime demográfico de alta natalidade e alta mortalidade para outro: primeiramente com baixa mortalidade e, em seguida, baixa fecundidade. Isso levou ao envelhecimento da população. O acesso a informações e a possibilidade de um planejamento familiar mudaram as características das famílias com muitos filhos para famílias com três, dois, um ou nenhum filho (LEBRA, 2009). 10 Unidade I Chama-se transição demográfica a passagem de um regime demográfico de alta natalidade e alta mortalidade para outro com baixa natalidade e baixa mortalidade, como o que estamos vivendo no Brasil. Por volta de 1960, esse fenômeno se estabeleceu realmente, devido à queda da fecundidade, passando de 6,2 filhos por mulher em 1940 para 2,01 em 2007 (DATASUS, 2007). Se atentarmos para o fato de que 2,1 filhos por mulher é o valor de reposição da população, em breve teremos uma população ainda mais envelhecida. O que significa mais idosos que jovens; mais dependentes que pessoas financeiramente produtivas. O gráfico a seguir reproduz o número da população brasileira dividida por sexo: a masculina à esquerda e a feminina à direita; e também por faixa etária. Quando avaliamos a situação em 2013 identificamos a maior parte da população de faixa etária entre 10 e 36 anos: uma base da pirâmide deixando de ser larga, apontando para diminuição da taxa de nascimento e a um grande volume da população economicamente ativa. O ápice da pirâmide, que representa a população idosa, era estreito, especialmente para gerontes entre 85 a 90 anos. Na avaliação da pirâmide referente à projeção para 2040, observamos a redução contínua de nascimentos, bem como da população entre 10 e 35 anos e o aumento da população entre 40 e 65 anos. Ainda é possível identificar o crescimento no índice de idosos, o que é ainda mais significativo para o grupo das mulheres entre 75 e 90 anos. Para 2060, a projeção aponta para a inversão da pirâmide, com base mais estreita e ápice mais largo. A faixa etária de maior número da população passa a ser a de 60 a 65 anos, a população senil, entre 86 a 90, será de cerca de 6 milhões de pessoas. Comparando as três pirâmides, observamos que em 2013 a faixa etária de maior número de pessoas era a de 25 a 29 anos com cerca de 16 milhões de pessoas; em 2040 é a faixa de 40 a 45 anos, com praticamente a mesma quantidade; e em 2060 passamos para cerca de 14 milhões na faixa entre 55 e 59 anos. Aproximadamente um terço da população será composta de idosos nesse período. 10 8 86 64 42 2 Mais de 90 85 a 89 80 a 84 75 a 79 70 a 74 65 a 69 60 a 64 55 a 59 50 a 54 45 a 49 40 a 44 35 a 39 30 a 34 25 a 29 20 a 24 15 a 19 10 a 14 5 a 9 1 a 4 0 a 1 10 10 108 86 64 42 2 10 108 86 64 42 2 Pirâmides etárias absolutas Homens Mulheres 2013 2040 2060 Figura 1 – Pessoas com mais de 65 anos serão mais de um quarto dos brasileiros em 2060, segundo projeção do IBGE. O percentual desse grupo representava 7,4% do total de pessoas que viviam no país em 2013 11 ENFERMAGEM DO IDOSO Saiba mais No site do IBGE é possível fazer relações entre o país e cidades ou estados, e há um aplicativo para a pirâmide ser dinâmica, mudando gradativamente de acordo com a escolha do ano de referência. Leia: IBGE. Projeção da população do Brasil e das Unidades da Federação. População do Brasil. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/apps/ populacao/projecao/>. Acesso em: 16 fev. 2017. Para fins de padronização universal, aceita-se que idoso é todo ser humano com 65 anos ou mais para países ricos e com 60 anos ou mais para países em desenvolvimento, que é o caso do Brasil. Como esta faixa etária apresenta mudanças bastante significativas entre um geronte de 60 anos e um de 80 anos, dividiu-se em 60 a 80 anos idosos jovens; 81 a 90 anos são idosos; e com mais de 90 anos idosos idosos. Para os autores Schaie e Willis (1996), os idosos jovens correspondem a pessoas senis situadas na faixa etária de 60 a 80 anos. Estes idosos continuam ativos (mesmo que aposentados) e possuem semelhanças com os adultos na meia-idade. Já aqueles com 80 a 90 anos denotam maior fragilidade física, embora muitos destes, em razão do suporte pessoal e ambiental, continuem levando uma vida normal. Já os idosos idosossão aqueles acima da faixa etária de 90 anos e geralmente apresentam alguma desvantagem física ou mental, necessitando de maior apoio emocional e físico (FECHINE; TROMPIERI, 2012). A Política Nacional do Idoso (PNI), Lei n. 8.842, de 4 de janeiro de 1994, e o Estatuto do Idoso, n. 10.741, de 1º de outubro de 2003, definem idoso como pessoas com 60 anos ou mais. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2002) define essa população a partir da idade cronológica, portanto idosa é aquela pessoa com 60 anos ou mais em países em desenvolvimento e com 65 anos ou mais em países desenvolvidos. É importante reconhecer que a idade cronológica não é um marcador preciso para as mudanças que acompanham o envelhecimento. Existem diferenças significativas relacionadas ao estado de saúde, à participação e aos níveis de independência entre pessoas que possuem a mesma idade (Brasil, 2005). Projetando os números divididos por faixas etárias de idosos, teremos a perspectiva para os próximos anos. Se levarmos em consideração as necessidades e características de idosos idosos, perceberemos a importância de nos prepararmos para atender a esta população, que representará cerca de 3 milhões de pessoas no ano de 2050, ou seja, em aproximadamente 20 anos, os gerontes que têm 70 anos hoje em dia estarão nessa situação. Em virtude de tais perspectivas, foram desenvolvidas políticas, planos e projetos específicos para a população idosa. Em cada proposta há intervenções sociais, de saúde, financeiras, de lazer e de socialização. 12 Unidade I Lembrete A aposentadoria pode não ser suficiente para a manutenção da independência do idoso. Os fundos financeiros devem ter caixa que atenda a toda população senil que se aposentará, lembrando que haverá redução do número de pessoas financeiramente ativas. 1.1 O conceito de idoso ao longo da história Historicamente, as sociedades percebiam os anciões de formas diferentes. Na época de Confúcio, havia uma correlação direta entre a idade de um indivíduo e o grau de respeito merecido. Os chineses acreditavam que chegar à velhice era um evento maravilhoso que merecia a maior honra (...). Os egípcios temiam envelhecer, tentaram várias poções e outras providências para manter a juventude. Os gregos retrataram lutas entre idosos e jovens enquanto Platão promoveu os idosos como os melhores líderes da sociedade, enquanto Aristóteles lhes negava qualquer papel em assuntos governamentais (ELIOPOULOS, 2011, p. 30). Os romanos não demostravam muito respeito pelos senis, pois após as conquistas de territórios os doentes e os mais velhos eram os primeiros a serem sacrificados. “No século XVII, a Inglaterra criou as Leis dos Pobres, que oferecia atendimento aos carentes e dava aos idosos sem recursos familiares a possibilidade de criar uma rede de segurança” (ELIOPOULOS, 2011, p. 30). Nos séculos seguintes, muitos ganhos foram perdidos durante a Revolução Industrial, que exigia fisicamente dos gerontes o que eles não tinham condições de oferecer, tornando-os dependentes de familiares ou de esmolas. Somente a partir de 1960 tiveram início as práticas humanizadas e especializadas para cuidados de idosos, além do início de publicações e estudos específicos. 1.2 Teorias do envelhecimento 1.2.1 Teorias biológicas do envelhecimento A constatação de que o envelhecimento é um processo contínuo e inevitável deu origem ao desenvolvimento de inúmeras definições de envelhecimento biológico, que, apesar de divergirem na orientação teórica, compartilham a noção de perda de funcionalidade progressiva com a idade, com o consequente aumento da suscetibilidade e incidência de doenças, elevando, enfim, a probabilidade de morte. Da interação entre o genoma e os fatores estocásticos resulta a maior ou menor velocidade de senilização do organismo. Se a capacidade de adaptação do organismo for reduzida e/ou se a ação 13 ENFERMAGEM DO IDOSO dos fatores estocásticos for exagerada, o resultado poderá ser um desequilíbrio excessivo, que reforçará a suscetibilidade para acumular lesões e défices celulares, manifestando-se no fenômeno de envelhecimento celular, tecidual e orgânico. A compreensão do fenômeno da senilidade passa pelo conhecimento dos mecanismos biológicos específicos posteriores a estes desequilíbrios (MOTA; FIGUEIREDO; DUARTE, 2004). As teorias biológicas do envelhecimento examinam o assunto sob a ótica do declínio e da degeneração da função e estrutura dos sistemas orgânicos e das células. O processo de envelhecimento é definido no contexto de um conjunto de variáveis mensuráveis, como a aptidão física ou eventos mórbidos (DAVIDSON, 1991). Sem negar a importância das influências ambientais na longevidade, os biogerontologistas salientam a participação determinante dos genes neste fenômeno. 1.2.2 Teoria da ligação cruzada Uma das teorias mais conhecidas, dentre as que se baseiam na possibilidade de danos moleculares progressivos, é a Teoria das ligações cruzadas (cross-linkage theory). Considera-se que certas moléculas sejam altamente reativas, podendo ligar-se à molécula de DNA no núcleo da célula. Quando isso acontece, como defesa, a célula descarta a porção corrompida do DNA. Uma vez que o DNA consiste em uma proteína com formato de hélice (como se fosse um barbante torcido), a célula procura reparar a região perdida utilizando como modelo a parte restante do “barbante”. Se esse processo for muito lento, ou se o agente reativo ligar-se às duas metades da hélice proteica, tende a perder as duas partes, o que impede o reparo da porção comprometida em função de ausência de espelho adequado. Nesse caso, o prejuízo não pode ser sanado. Eternizando-se a ligação cruzada entre as porções moleculares restantes, confundem-se as informações mediadas pelo núcleo da célula. Já que as ligações cruzadas afetam diretamente o DNA, pequenas lesões podem acarretar grandes alterações na função das células, desde a síntese proteica até a reprodução, passando pela indução de enzimas-chaves, com óbvias consequências sobre o funcionamento dos sistemas corporais em geral (MAGNANI, 1990). 1.2.3 Teoria dos radicais livres e da lipofucina Muitos dos agentes reativos associados ao processo de ligação cruzada do DNA são moléculas produzidas no metabolismo oxidativo, denominadas radicais livres de oxigênio (SWARTZ; MÄDER, 1995). Quanto maiores as taxas metabólicas ou a exposição a radiações externas (como os raios ultravioleta), maior a formação de radicais livres. Os radicais livres recebem esse nome devido ao fato de possuírem um par de elétrons independentes (não pareados) que orbitam em torno do 14 Unidade I núcleo do átomo, com muita energia livre. Isso permite que reajam com moléculas adjacentes, fazendo que tenham grande capacidade de ligação aos tecidos. Os radicais livres oxidam os componentes celulares, provocando alterações e disfunções que se acumulam, até o ponto em que a própria célula morre. Com a idade, isso tende a acontecer em um número cada vez maior de células, por efeito de acumulação. Um dos efeitos dos radicais livres é o aumento das taxas de peroxidação lipídica, danificando enzimas mitocondriais e a membrana plasmática (DEL ROSO, 1990). As reações de peroxidação aumentam, igualmente, a predisposição para a produção de substâncias como os malonaldeídos, que participam diretamente do processo de ligações cruzadas em moléculas como o colágeno, a elastina e o DNA. A formação de radicais livres pode, em princípio, ser diminuída pela ingestão de substâncias antioxidantes, como as vitaminas E ou C, ou pelo incremento da atividade de enzimas que freiam a oxidação celular. De fato, alguns experimentos têm sugerido que o consumo de altas doses dessas vitaminas pode diminuir o nível de oxidação celular em humanos (REZNICK, 1992). Outra substância que vem sendo apontada como agente catalisador de ligações cruzadas é o alumínio, metal cuja presença é rica no meio ambiente, fazendo parte da composição de um sem-númerode produtos comerciais (latas, utensílios domésticos etc.). 1.2.4 Teoria neuroendócrina e neuroquímica O sistema neuroendócrino influencia as atividades de órgãos, tecidos e células, no sentido de adaptar o corpo a modificações ambientais, como variações na temperatura, trabalho físico ou estresse emocional. Um dos pilares dessa cadeia regulatória é o chamado eixo hipotalâmico-pituitário: a secreção de hormônios hipotalâmicos no cérebro controla a função da glândula pituitária. A glândula pituitária, por sua vez, exerce influências sobre toda uma série de funções hormonais, como a secreção do hormônio do crescimento, dos hormônios tireoidianos, de hormônios adrenais, de hormônios sexuais (estrogênio e testosterona) e de glicocorticoides, responsáveis pela regulação das taxas metabólicas, síntese proteica e mineralização óssea, entre outras funções. O eixo hipotalâmico-pituitário tem sido um dos principais focos das teorias de desequilíbrio gradual – sugere-se que uma espécie de “relógio biológico” estaria situada no hipotálamo, controlando a velocidade do envelhecimento. Assim, na carência de alguns dos hormônios cuja secreção depende do bom funcionamento do eixo, o processo de envelhecimento acelerar-se-ia. Por exemplo, a tireoide potencializa a atuação do hormônio do crescimento, da cortisona e do estrogênio. Quando sua produção é insuficiente, os sintomas do envelhecimento aumentam, enquanto a administração terapêutica de doses suplementares tende a reverter essa situação (FARINATTI, 2002). 15 ENFERMAGEM DO IDOSO 1.2.5 Teorias do uso e desgaste A diminuição da atividade enzimática não é apenas fruto de problemas de transcrição, mas também pode advir de desequilíbrios homeostáticos do meio interno (pH, concentração iônica, temperatura, hidratação etc.). No entanto, os achados quanto à atividade das enzimas de diversos tecidos durante a senescência são por demais inconstantes para que se possam extrair conclusões definitivas. Por exemplo, no fígado, a atividade de 50% das enzimas parece não se alterar, enquanto os outros 50% dividem-se entre aumento e diminuição de atividade (TIMIRAS, 1988). Na musculatura esquelética, é extremamente difícil isolar os efeitos da diminuição real do potencial enzimático das alterações de composição miotipológica que ocorrem com o envelhecimento: sabe-se, por exemplo, que há uma perda seletiva de fibras do tipo II, de potencial anaeróbio elevado. Em revisão da literatura, Aoyagi e Shephard (1992) demonstraram que o poder enzimático aeróbio muscular pouco se modifica com a idade, mesmo quando corrigido para o aumento relativo da proporção das fibras do tipo I. Da mesma forma, os relatórios sobre a enzima lactato desidrogenase variam, indicando uma manutenção da atividade de sua forma aeróbia (LDHH) e declínio da atividade de sua forma anaeróbia (LDH-M). O declínio dessa última, todavia, parece ser equivalente à diminuição da quantidade de fibras musculares do tipo II. Em relação às reações autoimunes, destacamos: A deterioração de vários aspectos da função imunológica também poderia estar associada a maior ou menor aceleração do envelhecimento biológico. Inicialmente, dada a relação entre os sistemas endócrino e imunológico, parece claro que a deficiência do segundo pode decorrer de problemas funcionais no primeiro. Em outra abordagem sugere-se que a desnaturação da síntese proteica (em razão de agressões externas) pode, por exemplo, transformar um tecido, que ele passa a ser considerado um “corpo estranho”. Com isso se provoca reações autoimunes que contribuem para acelerar o processo de senescência (COMFORT, 1979). Há argumentos contra e a favor dessa hipótese. O idoso, de fato, torna-se cada vez mais suscetível a problemas autoimunes, como a artrite reumatoide. No entanto, é duvidoso que a quantidade de proteína modificada pelas agressões químicas e ambientais mais comuns possa acarretar modificações teciduais tão dramáticas, a ponto de provocar reações desse tipo (MILLER, 1999). 1.2.6 Teorias estocásticas Estas teorias sugerem que a perda de funcionalidade que acompanha o fenômeno do envelhecimento seja causada pela acumulação aleatória de lesões, associadas à ação ambiental, em moléculas vitais, que provocam um declínio fisiológico progressivo. Várias teorias estão incluídas neste grupo, entre as quais se destacam a teoria das mutações somáticas, a teoria do erro catástrofe, a teoria da reparação do DNA, a teoria da quebra de ligações, a teoria da glicosilação avançada e a teoria do estresse oxidativo. 16 Unidade I 1.2.7 Teoria das mutações somáticas Foi uma das primeiras tentativas de compreensão do fenômeno de senilização em nível molecular. Esta teoria surgiu da constatação de que doses de radiações subletais são frequentemente acompanhadas por uma diminuição do tempo de vida. A atrofia, a modificação da cor dos pelos e a diminuição do tempo de vida de ratos submetidos a radiações parecia dar suporte a esta teoria. Os efeitos das radiações ionizantes no encurtamento do tempo de vida orientaram a investigação para o estudo das alterações no DNA relacionadas com a idade. Os dados provêm de estudos que avaliaram a ocorrência de mutações espontâneas determinadas indiretamente pela substituição de aminoácidos, erros na síntese de DNA e resistência às purinas citotóxicas (FINCH, 1994). Os efeitos das radiações e a forma de o organismo reage à sua agressão são objetos de estudo de outras teorias, como a teoria da reparação do DNA e a teoria do estresse oxidativo. Neste sentido, parte da investigação que utiliza as radiações ionizantes como agente estressor tem estado associada ao estudo do cancro da pele, mediante a alteração de proteínas específicas que controlam o ciclo celular, como a p53, e à diminuição da capacidade de reparação das lesões do DNA ao longo do fenômeno de envelhecimento. O aumento das lesões oxidativas do DNA nas células expostas a radiações ionizantes tem também sido utilizado para explicar a influência do estresse oxidativo no fenômeno de senescência. 1.2.8 Teoria da reparação do DNA Hart e Setlow (1974) desenvolveram a teoria da reparação do DNA. Acreditavam que a ação do DNA determinasse o tempo de vida de indivíduos de espécies diferentes e entre indivíduos da mesma espécie. Estas conclusões foram confirmadas com base na constatação de diferentes velocidades de reparação de fibroblastos em cultura, expostos à luz ultravioleta, de sete espécies de mamíferos. No entanto, estes resultados não foram confirmados em estudos posteriores realizados com outras espécies de mamíferos (WOODHEAD; SETLOW; GRIST, 1980). Para testar as diferenças entre seres da mesma espécie, os investigadores colocaram a hipótese de a capacidade e a eficiência de reparação, nas células em cultura próximas do seu tempo de vida limite, serem consideravelmente menores do que nos primeiros dias em cultura. Diversos estudos constataram uma perda progressiva da capacidade de reparação do DNA lesado pelas radiações ionizantes, com a idade, acompanhada por uma diminuição da velocidade de remoção dos produtos da lesão do DNA e dos níveis de proteína p53 com a idade. Estes autores sugerem que o fenômeno de envelhecimento seja acompanhado por uma diminuição da sensibilidade da proteína p53 ao DNA lesado, aumentando a suscetibilidade de as células desenvolverem fenótipos cancerosos. A maioria dos estudos que testou a alteração da capacidade de reparação do DNA ao longo do envelhecimento utilizou células mitóticas em cultura. Estes resultados revelam que a capacidade de reparação não é igual em todas as células e tecidos do mesmo organismo, motivo pelo qual a explicação do fenômeno de senilização com base nestes mecanismos deverá ser considerada com algumas reservas. Ou seja, é provável que a diminuição da capacidade de reparação do DNA com a idade seja uma consequência do fenômeno 17 ENFERMAGEM DO IDOSO de envelhecimento, e não uma causa dele, uma vez que a sua importânciase resume apenas em um determinado tipo de células. 1.2.9 Teoria genética do erro‑catástrofe Uma das teorias genéticas mais antigas sugere que o envelhecimento celular tenha lugar a partir do momento em que, naturalmente, começam a ocorrer erros em processos como a transcrição e transporte de material genético, ou mutações somáticas. Esses erros trariam consequências negativas à renovação celular, gerando células “defeituosas” ou empobrecendo sua população, repercutindo em longo prazo na função de sistemas orgânicos inteiros. A ideia central, originalmente proposta por Orgel (1963), é de que os erros na transcrição do DNA ou na translação do RNA tenderiam a uma autoamplificação, através de mecanismos biológicos de feedback. Nesse contexto, uma pequena frequência de erros de transcrição-translação produziria defeitos nas enzimas responsáveis pela reprodutibilidade e fidelidade desses processos. Uma vez os erros dando-se em proteínas ribossomiais mantenedoras da acurácia translacional, por exemplo, as sínteses proteicas subsequentes provavelmente tivessem uma taxa de erros ainda maior, até o completo colapso do sistema. Uma variação da teoria do acúmulo de erros foi mais recentemente proposta por Miguel (1991): as mutações ocorreriam sobretudo no DNA da mitocôndria, dificultando a produção de energia e diminuindo o ciclo de vida da célula. 1.2.10 Teoria da glicosilação avançada/nutricionais Uma hipótese associada à restrição calórica diz respeito aos efeitos dela sobre a modulação da glicemia e da insulinemia. Objetivamente a relação de níveis aumentados de glicose e insulina sanguínea com o envelhecimento advém da ação mitogênica da segunda e do potencial da primeira em induzir processos de glicação e glicoxidação, com maior risco de formação de ligações cruzadas, proteínas modificadas e macromoléculas que, acumulando-se, predispõem à disfunção dos sistemas orgânicos (MILLER, 1999). Apesar de essas proposições oferecerem campo amplo de investigação, o fato é que sua validade carece de investigações. Poucos são os estudos sobre o tema, sugere-se que, para tanto, deveriam ser conduzidos estudos estabelecendo o quanto a redução em longo prazo da glicemia e insulinemia, em níveis abaixo do esperado em indivíduos normoglicêmicos e normoinsulinêmicos, teria impacto sobre processos fisiológicos típicos do processo de envelhecimento (FARINATTI, 2002). 1.2.11 Teoria da quebra de ligações O pressuposto de que o acúmulo de proteínas modificadas possa levar à incapacidade funcional da célula normal foi defendido pela teoria da quebra de ligações (CRISTOFALO; GERHARD; PIGNOLO, 1994). Esta teoria teve origem na constatação de um aumento da quebra de ligações em macromoléculas como o DNA, o colágeno e a elastina, devido ao avanço da idade, sempre associado ao declínio dos processos fisiológicos. A quebra de ligações das proteínas pela glicosilação pode ser uma das causas do fenômeno de envelhecimento celular. 18 Unidade I 1.2.12 Teoria do estresse oxidativo A hipótese da hormese é definida como “[...] ação(ões) benéfica(s) resultante(s) da resposta do organismo a um estressor de baixa intensidade” (MASORO, 2000). A hormese estaria na base da ação antienvelhecimento e seria induzida pela restrição calórica. Partindo da definição apresentada, o primeiro ponto a ser discutido é o quanto a restrição calórica caracterizaria um estressor de intensidade reduzida, cuja ação permaneceria a médio e longo prazo. Outro aspecto a ser analisado diz respeito ao quanto a restrição calórica, constituindo um estresse leve, induziria a reações orgânicas positivas que pudessem indicar ação antienvelhecimento. De acordo com Masoro (2000), existiria atualmente um conjunto significativo de evidências enunciando que a capacidade de adaptação de animais (roedores, nematodos, drosófilas etc.) a estressores agudos e crônicos – dentre eles agentes inflamatórios, temperatura ambiente, tóxicos, radiações e estresse oxidativo – tenderia a desenvolver-se como resultado de restrição calórica. Os mecanismos através dos quais isso se daria, porém, permanecem obscuros. Há uma tendência a considerar que a atividade de genes específicos estaria envolvida. No entanto, a integração hormonal também pode estar envolvida, sugerem que a restrição calórica pode afetar o eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenocortical. Miller (1999), em revisão de literatura, ainda aponta o que chama de hipótese glicocorticoide como uma possível explicação para o efeito da restrição calórica sobre o envelhecimento celular. O autor ainda vai além, fazendo uma interface entre essa possibilidade e as teorias de desequilíbrio gradual. A influência metabólica na longevidade poderá ser, parcialmente, explicada pelo aumento da produção de espécies reativas de oxigênio (ERO), nos animais metabolicamente mais ativos. De qualquer forma, muitas pesquisas devem ser realizadas antes que uma das hipóteses tenha força para impor-se sobre as outras, assim como a extensão em que sua ação se dá de forma separada ou conjunta. O papel do exercício no contexto das teorias com base em restrição calórica permanece indefinido. Pode-se especular, uma vez considerando seu potencial de auxílio no controle da glicemia e da insulinemia, na modulação da atividade glicocorticoide e mesmo na atividade do eixo hipotálamo-hipófise, que a hipótese da restrição calórica como fator de retardo do envelhecimento celular seria, ao menos teoricamente, favorecida (FARINATTI, 2002). 1.2.13 Teorias psicossociais Estas teorias tentam explicar a senectude em com base na função cognitiva de uma pessoa, como a inteligência, a memória e as emoções. Ela é vista como uma interação entre a pessoa e sua função mental e o ambiente físico (ROACH, 2003). 19 ENFERMAGEM DO IDOSO 1.2.14 Teoria do desengajamento Compreende a senescência como um processo de afastamento da vida. Há o afastamento social do idoso, e a pessoa isola-se da sociedade. À medida que a pessoa idosa se afasta da vida social, os mais jovens assumem maiores responsabilidades e exercem papéis de liderança. Esta teoria é controversa, e a crítica aponta que muitos idosos não se desengajam da vida. Estes permanecem ativos, são membros produtivos da sociedade. Pessoas que se distanciam parecem fazê-lo por falta de opção, mas não como parte do processo de envelhecimento (CUMMINGS; HENRY, 1961). 1.2.15 Teoria da atividade A teoria da atividade afirma que a sociedade deve ter as mesmas expectativas em relação ao idoso que tem para com os adultos de meia-idade. Na ocorrência de perdas associadas ao envelhecimento, elas devem ser substituídas por novos e diferentes papéis, interesses ou pessoas. Mais e mais idosos estão se recusando a aceitar estereótipos de que agem de acordo com a velhice. Eles têm uma vida ativa, produtiva e alegre (HAVIGHURST; ALBRECHT, 1953). 1.2.16 Teoria da continuidade A teoria da continuidade é também conhecida como a teoria de desenvolvimento do envelhecimento porque lida com os padrões de desenvolvimento do indivíduo ao longo da vida. De acordo com esta teoria, o sucesso da senectude depende da capacidade de cada um para manter-se e continuar os padrões de comportamento anteriores. A personalidade e os padrões de comportamento básicos permanecem inalterados com o progresso dessa fase (NEUGARTEN, 1969). Observação No atendimento a um idoso é possível serem avaliados, dentro de uma teoria, quais tipos de alterações o indivíduo vem apresentando, especialmente nas teorias psicossociais, a fim de se planejar uma intervenção. 2 CONCEITOS IMPORTANTES 2.1 O fenômeno do envelhecimento O envelhecimento é um episódio que atingirá a todos os seres humanos, invariavelmente. É caracterizado como um processo dinâmico, progressivo e irreversível, associado intimamente a fatores biológicos, psíquicos e sociais (BRITO; LITVOC, 2004). Para Birren e Schroots (1996), o envelhecimento primário, também conhecido como envelhecimento normal ou senescência, atingetodos os humanos pós-reprodutivos, pois esta é uma definição genética típica da espécie. Este tipo de senilização atinge de forma gradual e progressiva o organismo, possuindo efeito cumulativo. O indivíduo nesse momento está sujeito à 20 Unidade I influência de vários fatores determinantes para o envelhecimento, como exercícios, dieta, estilo de vida, exposição a evento, educação e posição social. Ainda segundo os referidos autores, o envelhecimento secundário ou patológico refere-se a doenças que não se confundem com o processo normal do avanço da idade, chamado senilidade. Estas enfermidades variam desde lesões cardiovasculares, cerebrais, até alguns tipos de cancro (este último podendo ser oriundo do estilo de vida do sujeito, dos fatores ambientais que o rodeiam, como também de mecanismos genéticos). O envelhecimento secundário é referente a sintomas clínicos, nos quais estão incluídos os efeitos das doenças e do ambiente (SPIRDUSO, 2005 apud BIRREN; SCHROOTS, 1996). Ele é resultante das interações das influências externas e é variável entre indivíduos em meios diferentes; tem como característica o fato de decorrer de fatores culturais, geográficos e cronológicos (NETTO, 2002). Já o envelhecimento terciário ou terminal é, para Birren e Schroots (1996), o período caracterizado por profundas perdas físicas e cognitivas, ocasionadas por acúmulo dos efeitos do avançar da idade, como também por patologias dependentes da idade. A idade cronológica (kronos) ordena as pessoas de acordo com sua data de nascimento, enquanto a idade biológica é demonstrada pelo organismo, com base nas condições teciduais deste, quando comparadas a valores normativos. A idade psicológica é evidenciada por aspectos como desempenho, maturação mental e soma de experiências. Já a idade social (kayros) é indicada pelas estruturas organizadas de cada sociedade; cada ser humano pode variar de jovem a velho em diferentes sociedades (NETTO, 2002). Para Motta (2004), o envelhecimento cronológico é iniciado na infância e facilmente mensurável, enquanto as mudanças biológicas associadas à idade são de aferição difícil. Netto (2002) assinala que, entre o indivíduo adulto e o idoso, o limite de idade é de 60 anos para países em desenvolvimento e 65 anos para nações desenvolvidas, sendo estes parâmetros de medição critérios utilizados pela maioria das instituições que visa assistir os idosos em atenção à saúde psicológica, social e física. A idade psicológica para esse autor é a relação entre a idade cronológica e as capacidades de memória, aprendizagem e percepção. Este tipo de idade relaciona o senso de subjetividade da idade de um sujeito em comparação com outros indivíduos, tendo como parâmetro a presença de marcadores biológicos, sociais e psicológicos próprios da senilização. Portanto, a idade social é a capacidade que uma pessoa tem de se adequar a certos papéis e comportamentos referentes a um dado contexto histórico da sociedade. 2.2 Termos e denominações ao idoso Entre os termos mais comuns para designar o idoso estão: terceira idade, melhor idade, adulto maduro, idoso, velho, meia-idade, maturidade, idade maior e idade madura (NERI; FREIRE, 2000). Segundo Ferreira (2000), a palavra “velho” significa muito idoso, antigo, gasto pelo tempo, experimentado, veterano, que há muito tempo exerce uma profissão ou tem certa qualidade, 21 ENFERMAGEM DO IDOSO desusado, obsoleto. Nesta breve definição, percebem-se os vários sentidos negativos da palavra “velho” como algo já ultrapassado, descartado e fora de moda. Para Gibson (2000), a mesma palavra não significa decrepitude, desgaste, fora de moda, mas simplesmente se refere ao número de anos que a pessoa viveu. A expressão “terceira idade” teve sua origem na França, na década de 1960, e era utilizada para descrever a idade em que a pessoa se aposentava. A primeira idade seria a infância, que traduziria uma ideia de improdutividade, mas com possibilidade de crescimento. Já a segunda idade seria a vida adulta, etapa produtiva. Na época em que a expressão terceira idade foi criada, procurou-se garantir a atividade das pessoas depois da aposentadoria, que ocorria na França por volta dos 45 anos. Com o avanço contínuo da esperança de vida, a referida expressão passou a designar a faixa etária intermediária, entre a vida adulta e a velhice (NERI; FREIRE, 2000). Dessa forma, o uso do termo terceira idade torna-se inadequado para descrever o grupo de indivíduos com 60 anos ou mais, e traz ainda uma conotação negativa ao termo velhice, porque se compreende que quem está na terceira idade não é produtivo (ARAÚJO; CARVALHO, 2005). Para Prado (2002), terceira idade é uma criação recente no mundo ocidental. “O fenômeno do envelhecimento populacional, marcante no século XX, empurrou a velhice para idades mais avançadas” (PRADO, 2002). Os termos “amadurecer” e “idade madura” também são muito utilizados e expressam a sucessão de mudanças ocorridas no organismo e a conquista de papéis sociais e de comportamentos considerados próprios do adulto mais velho (NERI; FREIRE, 2000). “A preferência por termos como terceira idade ou idade madura pode parecer um eufemismo, palavra de origem grega que significa soar bem” (PRADO, 2002). O uso de tantos termos e expressões tem por objetivo “soar bem, mascarando o preconceito e negando a realidade. Se não houvesse preconceito, não seria necessário disfarçar nada por meio de palavras” (PRADO, 2002). Segundo as mesmas autoras, as pessoas que viveram mais tempo devem ser chamadas simplesmente de velhas ou idosas. As palavras, na maioria das vezes, trazem consigo uma forte associação, de cunho positivo ou negativo. O termo “velho” está em desuso para aplicação em humanos, denota desgaste, desuso e inutilidade ou potencial para ser descartável, não se aplicando a pessoas. Utiliza-se idoso, e ser idoso é ter idade, pois não se pode deter a passagem do tempo. Há o avançar do tempo, o que não justifica uma eventual perda da alegria de viver ou da capacidade de produção do indivíduo. Saiba mais Para mais informações sobre os processos envolvidos no envelhecimento, acesse o site da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Disponível em: <http://sbgg.org.br/>. Acesso em: 16 fev. 2017. 22 Unidade I 3 FISIOLOGIA DO ENVELHECIMENTO Na velhice, como em qualquer outra idade, há pessoas sãs e doentes. A verdade é que muitas das enfermidades, supostamente próprias da velhice, e que já existiam antes da chegada desta faixa etária, apenas se manifestavam com menor intensidade, porém agora aceleram o seu curso. Isto não exclui o fato de que, com o passar dos anos, são processadas no organismo mudanças naturais que constituem uma velhice sã e normal (NETTO, 2004). Com o avanço da idade, as alterações anatômicas são principalmente as mais visíveis e se manifestam em primeiro lugar: a pele resseca, tornando-se mais quebradiça e pálida, perdendo o brilho natural da juventude. Os cabelos embranquecem e caem com maior frequência e não são mais naturalmente substituídos. O enfraquecimento do tônus muscular e da constituição óssea leva a mudanças na postura do tronco e das pernas, acentuando ainda mais as curvaturas da coluna torácica e lombar. As articulações tornam-se mais endurecidas, reduzindo assim a extensão dos movimentos e produzindo alterações no equilíbrio e na marcha (NETTO, 2004). Nas vísceras, produz-se uma alteração causada pelos elementos glandulares do tecido conjuntivo e certa atrofia secundária, como a perda de peso. Quanto ao sistema cardiovascular, são próprios das fases adiantadas da velhice a dilatação aórtica e a hipertrofia e dilatação do ventrículo esquerdo do coração, associados a um ligeiro aumento da pressão arterial. Na parte fisiológica, as alterações, na maioria das vezes, podem ser observadas pela lentidão do pulso, do ritmo respiratório, da digestão e assimilação dos alimentos. O próprio indivíduo sente a decadência de sua capacidadede satisfação sexual. O orgasmo torna-se cada vez mais difícil para ambos os sexos, contudo a atividade sexual não desaparece, somente se torna menos intensa e frequente. Uma das facetas do problema biológico é o medo da morte. Todos nós, uns mais outros menos, tememos a enfermidade e a invalidez. Esse medo não se justifica apenas pelo agravamento dos sistemas funcionais, mas pela perspectiva de que este seja o prenúncio do mal que leva à morte. Buscamos a independência pessoal e financeira, aguardamos pelos 18 anos de idade como um marco legal de independência, ansiando pela formação profissional e pela remuneração, que são conquistas para o caminho de tal liberdade. No envelhecimento, o medo de doenças limitantes física e intelectualmente acena como a possibilidade definitiva de perda da liberdade e principalmente autonomia conquistados ao longo da vida. 3.1 Sistema cardíaco Indivíduos saudáveis e com idade avançada sofrem uma série de alterações fisiológicas no coração, especialmente estruturais e funcionais, fundamentais para melhor adaptação às necessidades inerentes ao processo de senilização. O coração é constituído por células musculares, os cardiomiócitos, e moléculas 23 ENFERMAGEM DO IDOSO de matriz extracelular, destacando-se o colágeno e células intersticiais cardíacas, tais como fibroblastos e células endoteliais. Por tratar-se de células terminalmente diferenciadas, a identificação recente de células-tronco residentes no coração revelou que os cardiomiócitos são repostos, mas não na proporção ideal para recuperação de função alterada consequente a eventuais perdas (BERGMANN et al., 2009). Com o processo da senectude, observa-se frequentemente uma dilatação na espessura da parede ventricular, caracterizada por um decréscimo no número de cardiomiócitos, que se tornam hipertróficos e, ainda, pela ampliação do conteúdo de colágeno. O metabolismo mitocondrial das espécies reativas de oxigênio altera-se, contribuindo para maior secreção de colágeno e indução de apoptose (morte) das células musculares lisas da parede arterial, o que leva ao avanço da rigidez aórtica (ZHOU et al., 2012). A alteração da elasticidade aórtica colabora para hipertrofia do ventrículo esquerdo, disfunção diastólica e insuficiência cardíaca congestiva. A maior massa ventricular esquerda faz que o peso do coração se expanda de 1 a 1,5g por ano (OLIVETTI, 1991). Essa perda de elasticidade nas paredes arteriais representa comumente uma condição descrita como arteriosclerose. Esta, por sua vez, é causada por um aumento nas calcificações das artérias e pelo surgimento de colágeno (GALLAHUE; OZMUN, 2005). Nos estágios mais avançados da vida, a arteriosclerose pode provocar ataque cardíaco, angina e acidente vascular cerebral (HAYFLICK, 1997). Apesar das conhecidas alterações na função diastólica que normalmente acompanham o envelhecimento, existe controvérsia em relação à função sistólica. A maioria dos estudos, feitos com indivíduos saudáveis, aponta para manutenção da função sistólica e estreita correlação entre disfunção diastólica e idade avançada (CHAUDHARY; EL-SIKHRY; SEUBERT, 2011). Com o avanço da idade, é comum a redução da habilidade em alterar a frequência cardíaca de maneira adequada em resposta a situações de estresse, provavelmente devido à menor resposta dos receptores beta-adrenérgicos (DE MEERSMAN, 1993). Ocorre ainda redução na resposta autonômica ao estresse, o que torna habitual a variação da pressão arterial com mudanças posturais, contribuindo assim para a elevada ocorrência de quedas em idosos. As propriedades eletrofisiológicas do coração também se alteram na senescência e levam à maior ocorrência de arritmias, observando-se intensificação na prevalência (tanto de taquiarritmias como de bradiarritmias) após os 60 anos de idade. Nesta população são comuns as disfunções sinusais e os bloqueios atrioventriculares, elevando a incidência de implantação de marca-passos. A ocorrência de focos ectópicos ventriculares e supraventriculares e as alterações das propriedades dos canais iônicos cardíacos contribuem para a maior ocorrência das arritmias, assim como para a variação dos parâmetros farmacodinâmicos e farmacocinéticos dos medicamentos antiarrítmicos habitualmente utilizados (LEE; HUANG; SHEN, 2011). Na perspectiva de Shephard (2003), a atividade física moderada e regular atua significativamente na prevenção de algumas doenças cardiovasculares, como doença cardíaca isquêmica, AVC, hipertensão e doença vascular periférica. Caso, entretanto, tais doenças já estejam manifestas nos indivíduos, os 24 Unidade I casos de morbidade e de mortalidade serão influenciados de uma forma favorável por um treinamento progressivo moderado. O mesmo autor relata que um programa de exercício leve pode melhorar tanto a qualidade de vida quanto o prognóstico daqueles que possuem insuficiência cardíaca. Lembrete A hipertensão é uma das principais alterações cardiovasculares nos idosos. O controle dos índices pressóricos depende da adesão a atividades físicas, de dieta e medicações, além das competências emocionais conhecidas nessa faixa da população. Somadas às alterações fisiológicas são frequentes as alterações cardiovasculares que acompanham o envelhecimento, sendo comum o uso de diversos medicamentos, por exemplo, diuréticos, anti-hipertensivos, antiarrítmicos e vasodilatadores. Paradoxalmente, o tratamento medicamentoso contribui para a elevada ocorrência de quedas nos idosos, e não é rara a suspensão do seu uso (WETZEL, 2009). Segundo o Ministério da Saúde do Brasil, cerca da metade dos idosos que faz uso de anti-hipertensivos e diuréticos sofre uma ou mais quedas no prazo de um ano (ESQUENAZI; SILVA, 2014). 3.2 Sistema respiratório Nos homens, a redução da função pulmonar é fator de risco preponderante para incidência de doença coronária. Esta função pulmonar se expande durante a adolescência, estabiliza-se até o período dos 30 anos e, depois disso, começa a declinar (GALLAHUE; OZMUN, 2005). Aumento na rigidez da caixa torácica, perda de retração elástica dos pulmões e diminuição significativa da força dos músculos respiratórios levam a uma redução progressiva da função pulmonar em indivíduos idosos. Entre as principais alterações observadas, podem-se citar: redução progressiva da capacidade vital (CV) e da capacidade inspiratória (CI); avanço do volume residual (VR); redução do volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1) e fluxo expiratório forçado de 25% a 75% (FEF 25-75) da manobra de capacidade vital forçada (CVF). As alterações observadas em decorrência da senilidade podem ser significativamente ampliadas em decorrência do histórico de tabagismo ou exposição ambiental (RUIVO, 2009; BELLÓ-KLEIN, 2002). Shephard (2003) afirma que “o envelhecimento mostra uma caixa torácica enrijecida, com diminuição na elasticidade pulmonar. A capacidade vital decresce enquanto o volume residual aumenta. Porém a capacidade pulmonar total apresenta poucas alterações” (FECHINE, 2012, p. 53). As alterações fisiológicas no pulmão durante a senescência podem ser ocasionadas pela combinação entre alterações anatômicas e reorientações das fibras elásticas. Essas alterações fisiológicas são definidas pela diminuição da elasticidade pulmonar, redução da capacidade da difusão do oxigênio, redução dos fluxos expiratórios, elevação da complacência pulmonar (GORZONI; RUSSO apud FECHINE, 2012, p. 54). 25 ENFERMAGEM DO IDOSO Entre as alterações respiratórias que acometem idosos saudáveis em decorrência do processo natural de senilização, encontramos: redução da complacência da parede torácica, redução da força dos músculos respiratórios, da pressão de oxigênio, do fluxo respiratório, da difusão pulmonar de CO2, da sensibilidade respiratória à hipóxia. Como consequência, aumentam a resistência pulmonar e os volumes residuais; exacerbam o gradiente artério-alveolar de oxigênio e mantêm a capacidade pulmonar total (GORZONI;RUSSO, 2002 apud FECHINE, 2012, p. 54). As atividades físicas podem modificar alguns processos fisiológicos que diminuem com o avançar da idade, melhorando a eficiência cardíaca, a função pulmonar e os níveis de cálcio. É fato que a capacidade aeróbia máxima se reduz em muitos casos devido à senectude. No entanto, idosos fisicamente ativos possuem capacidade aeróbia melhor do que pessoas inativas com a mesma idade ou jovens sedentários; pessoas idosas fisicamente ativas têm a capacidade semelhante à de jovens ativos (HAYFLICK apud FECHINE, 2012, p. 55). Assim, o “pior desempenho físico do idoso e sua menor capacidade de adaptações ao exercício provêm da combinação entre necessidade de gasto energético, consumo de O² e redução do débito cardíaco” (GORZONI; RUSSO apud FECHINE, 2012, p. 55). 3.3 Sistema musculoesquelético No ser humano, o sistema muscular alcança sua maturação plena entre 20 e 30 anos de idade. Sabe-se que a partir dos 30 anos de vida a densidade muscular diminui, ocorre perda gradual e seletiva das fibras esqueléticas, que dão lugar ao tecido adiposo e colágeno, e tais alterações são comumente encontradas em idosos que manifestam queixas quanto à diminuição do tônus e da massa muscular. Algumas variações são consideradas naturais, como é o caso da cartilagem articular, que, “associada às alterações biomecânicas adquiridas ou não, provocam ao longo da vida degenerações diversas que podem levar à diminuição da função locomotora e da flexibilidade, acarretando maior risco de lesões por entorses e quedas” (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p. 14). Com o avanço da idade, a perda muscular é progressiva, porém não apresenta um comportamento linear por causa do tempo, sendo mais pronunciada no sexo feminino do que no masculino, provavelmente por interferência hormonal, estimando-se uma perda de aproximadamente 5% por década até os 50 anos, e a partir daí, 10% por década até os 80 anos. Nos idosos, há uma importante diminuição na proporção de fibras musculares anaeróbicas de contração rápida em comparação com as fibras aeróbicas de contração lenta, o que explica as alterações cardíacas mais comuns no envelhecimento. Prejudicado pela fraqueza muscular progressiva, o idoso tende a posturas irregulares e compensatórias, mas que impõem um agravamento crescente às estruturas do aparelho locomotor, levando à lentificação da marcha e à perda de equilíbrio, fatores esses que induzem a uma maior tendência a quedas e fraturas (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p.15). Na opinião de Matsudo, Matsudo e Neto (2000), o aumento da gordura corporal total e a diminuição do tecido muscular podem ocorrer principalmente devido à diminuição da taxa de metabolismo basal e do nível de atividade física. 26 Unidade I “A sarcopenia, perda de massa muscular esquelética e de força associada ao envelhecimento, acarreta morbidade e mortalidade significativas” (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p. 15). “A partir dos 75 anos, o grau de sarcopenia é um dos indicadores da chance de sobrevivência do indivíduo” (LARSSON apud ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014). Esta perda contribui para outras alterações relacionadas com a idade, destacando-se a diminuição da densidade óssea e da sensibilidade à insulina, menor capacidade aeróbia, menor taxa de metabolismo basal e força muscular, bem como menores níveis de atividades físicas diárias (ROSSI; SADER, 2002). As causas para a sarcopenia são múltiplas, e as principais são: disfunção mitocondrial, alterações endócrinas, distúrbios nutricionais, imobilidade, inatividade física e doenças neurodegenerativas. Quanto aos mecanismos hormonais associados à sarcopenia, podemos citar a ativação do sistema renina-angiotensina e o consequente aumento dos níveis de angiotensina II, implicados na atrofia muscular por levarem à elevação dos níveis da E3 ligase atrogina e, assim, à proteólise. A resistência à insulina, que progride com o envelhecimento, é mais um dos fatores de propensão à sarcopenia, sendo esta diretamente proporcional ao conteúdo de gordura intracelular. (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014). “Ao lado dos tecidos muscular e cartilaginoso, o tecido ósseo, em constante processo de remodelação (formação pelos osteoblastos e reabsorção pelos osteoclastos), sofre alterações consideráveis ao longo do envelhecimento, levando à osteopenia fisiológica” (CARVALHO-FILHO, 2002 apud ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014). Entre as principais funções do esqueleto, observamos: sustentação para o sistema musculoesquelético; proteção de órgãos internos vitais e reservatório metabólico para a hematopoiese e a homeostase do cálcio. “Cerca de 90% da massa óssea é alcançada na segunda década de vida e o pico de massa óssea ocorre em torno dos 35 anos de idade” (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014). Muitos indivíduos denotam um encurtamento na estatura. Este encolhimento pode ser atribuído a uma ou mais causas. À proporção que o envelhecimento avança, os discos que separam as vértebras principalmente da coluna dorsal passam por várias alterações. Em um estado saudável, os discos intervertebrais possuem núcleos similares à gelatina. As alterações associadas principalmente à diminuição da densidade mineral e à perda óssea iniciam em torno da quarta década de vida. A atrofia óssea causada pelo envelhecimento até os 50 anos de idade apresenta-se pela perda, sobretudo, do osso trabecular, gerando uma osteopenia reversível. Após essa idade, perde-se, em especial, osso cortical, e a perda óssea é irreversível (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014). Outro aspecto que influencia bastante o metabolismo ósseo são as mudanças dos níveis hormonais, que ocorrem essencialmente nas mulheres durante e após o climatério. O fato de vivenciarem esse período, o que acarreta maior perda de massa óssea se comparado com os homens, pode expor as mulheres a situações de maior vulnerabilidade. Com isso, os fatores nutricionais e a atividade física na juventude e ao longo do envelhecimento podem contribuir fortemente para que elas apresentem mudanças no esqueleto de forma gradual, favorecendo a melhoria da qualidade de vida. Sem dúvida, a osteopenia é um fator de risco para fraturas em idosos, mas não é patognomônica da osteoporose. Nos homens, o osso trabecular se torna progressivamente mais fino com a idade, não havendo a perda de contato entre as porções de osso trabecular, como ocorre nas mulheres após a menopausa (MATSUDO apud ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p. 16). 27 ENFERMAGEM DO IDOSO A perda de massa óssea está relacionada não somente ao envelhecimento, mas também a características genéticas, aos hábitos nutricionais e ao nível de sedentarismo da pessoa idosa. Como anteriormente mencionado, “uma característica do envelhecimento é a diminuição na estatura, com perda média aproximada de 2 cm por década, a partir dos 60 anos, independentemente do gênero” (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p. 16). Estas alterações não são determinantes, pois são influenciadas por alguns fatores que podem ser ou não remediados pelo indivíduo. Tais mudanças se manifestam de forma mais acentuada na coluna vertebral do que nos membros e decorrem principalmente de modificações do tecido conjuntivo dos discos intervertebrais, que perdem a capacidade de absorver água, assim como os demais tecidos corporais, tornando os ligamentos de elastina menos distensíveis e mais propensos a sofrer fragmentações sucessivas. A queixa de dor lombar ou restrição de movimentos é comum e pode ser reduzida com atividades físicas adequadas e supervisionadas ou tratamento especializado (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p. 16). Igualmente, ao longo da senilização, observam-se a tendência de ganho de peso pelo acréscimo do tecido adiposo e de perda de massa muscular e óssea. A distribuição da gordura corporal se acentua no tronco e menos nos membros. Dessa forma, a gordura abdominal eleva o risco para doenças metabólicas, sarcopenia e declínio de funções (HUGHES et al.,2004). Segundo Reeves et al. (2003), a força muscular dos idosos é comprometida pelo enrijecimento dos seus tendões, pois prejudica a desaceleração da massa corpórea, interferindo assim na prevenção de quedas. Desta maneira, torções e luxações são causadas por perdas na elasticidade nos tendões e ligamentos (SHEPHARD, 2003 apud FECHINE; TROMPIERI, 2012, p. 119). Segundo Rossi e Sader (2002), ocorrem modificações anatômicas na coluna vertebral que causam não apenas a redução na estatura, mas também o início da atrofia óssea a partir dos 50 anos, ou seja, a perda de massa óssea, a qual poderá levar a fraturas. A cartilagem articular torna-se menos resistente e menos estável, sofrendo um processo degenerativo. Ocorre diminuição lenta e progressiva da massa muscular, sendo o tecido gradativamente substituído por colágeno e gordura. As alterações no sistema osteoarticular geram a piora do equilíbrio corporal do idoso, reduzindo a amplitude dos movimentos e modificando a marcha. Além disso, o envelhecimento modifica a atividade celular na medula óssea, ocasionando reabastecimento inadequado de osteoclastos e osteoblastos, e expressa desequilíbrio no processo de reabsorção e formação óssea, resultando em perda óssea. 3.4 Sistema nervoso “Diversas modificações fisiológicas e estruturais ocorrem no cérebro ao longo da vida. São alterações multifatoriais, muitas das quais contribuem para a perda da força e desequilíbrio em pessoas idosas e são potencializadas quando associadas a processos patológicos” (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p. 17). O córtex cerebral é uma complexa região formada por bilhões de células nervosas agrupadas em giros específicos. Estas células estão relacionadas a funções complexas como motricidade, sensibilidade e todos os mecanismos cognitivos correlatos – memórias incidental, imediata e tardia, linguagem, aprendizagem, consciência, entre outros. Aos dois anos de idade, o cérebro atinge 80% do seu tamanho 28 Unidade I adulto, porém o volume e o peso do cérebro declinam a uma taxa aproximada de 5% por década após os 40 anos, observando-se uma acentuação nesse declínio a partir da sétima década de vida. “Estruturas afetadas pelo processo de envelhecimento cerebral desempenham importante função na dinâmica corporal, consequentemente sua perda causa déficits sobre o sistema mantenedor do equilíbrio humano” (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p. 17). Com o envelhecimento, o sistema nervoso apresenta alterações como redução no número de neurônios, redução na velocidade de condução nervosa e redução da intensidade dos reflexos, bem como restrição das respostas motoras, do poder de reações e da capacidade de coordenações (DE VITTA, 2000). “O sistema nervoso periférico (SNP) também desempenha importante função sensório-motora sobre o sistema mantenedor do equilíbrio por meio de impulsos nervosos para a periferia, especialmente para os músculos esqueléticos” (SHANKAR apud ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p. 18), e sua ação refere-se ao ato de interligar os comandos proprioceptivos periféricos (conscientes e inconscientes) ao encéfalo. “As constituições histológicas, anatômicas e morfofuncionais dos SNC e SNP diferem de forma significativa. Porém, tais estruturas compartilham um processo fisiológico comum: o envelhecimento neuronal” (SHANKAR apud ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p. 18). A motricidade humana como resposta aos distúrbios de equilíbrio no envelhecimento depende da ação de reflexos, dos movimentos rítmicos automatizados e dos movimentos voluntários. Dentre as mudanças morfológicas provocadas pelo processo de senilização no sistema nervoso, as alterações em dendritos e sinapses tornam-se relevantes em virtude de sua importância no processo de formação e manutenção da memória e na chegada de informação aos neurônios (BORGE; HERNÁNDEZ; EGEA, 1999). A diminuição progressiva da árvore dendrítica e, em consequência, das sinapses, é uma das causas da atrofia cerebral. Essa diminuição parece ocorrer de forma heterogênea (MORA; PORRAS, 1998). Contudo, paralelamente à morte neuronal, há um crescimento da árvore dendrítica. Este aumento dendrítico é um mecanismo compensador conhecido como plasticidade neural e, atua de forma mais eficaz até a sétima década de vida diminuindo nas décadas seguintes (MORA; PORRAS, 1998; CANÇADO; HORTA, 2002). A plasticidade neural é a outra propriedade que o cérebro tem para amenizar a passagem do tempo, sendo um mecanismo compensador. Esta é a capacidade adaptativa das estruturas e funções do sistema nervoso em razão das interações com o ambiente externo e/ou interno, e ainda como resultado de lesões (FERRARI, 2001). A plasticidade atua para contrabalançar a degeneração neural (SCHALLERT; WOODLEE, 2003). Hayflick (1997) afirma que a plasticidade permite aos neurônios criar novas conexões, desenvolver-se e criar novas sinapses, restaurando ou compensando, assim, circuitos reduzidos ou rompidos (CANÇADO; HORTA, 2002). O alcance da plasticidade cerebral não parece ser influenciado pela idade, podendo assim, ser estimulado inclusive em idosos (CARDOSO et al., 2007, p.34). Uma das “marcas” do envelhecimento na célula nervosa é a presença do pigmento lipofucsina, que também é observado em células cardíacas, do fígado e do músculo estriado em extremidades paralisadas ou imobilizadas. Resulta da perioxidação dos lipídios poli-insaturados das membranas biológicas (MORA; PORRAS, 1998). São grânulos intracitoplasmáticos e acumulam-se nos neurônios, 29 ENFERMAGEM DO IDOSO células da glia e no endotélio capilar. Ainda não está claro o efeito do acúmulo de lipofucsina sobre a função neural (HAYFLICK, 1997; CANÇADO; HORTA, 2002), se esta pode produzir dano ou se é resultado deles (MORA; PORRAS, 1998). Para Cançado e Horta (2002), o que preocupa no envelhecimento é o fato de que o SNC não possui capacidade reparadora. Esses autores expressam que esse sistema é definido como unidades morfofuncionais pós-mitóticas, e estas não possuem possibilidades reprodutoras. O SNC fica sujeito ao envelhecimento decorrente de fatores intrínsecos (genética, sexo, sistema circulatório e metabólico, radicais livres etc.) e extrínsecos (ambiente, sedentarismo, tabagismo, drogas, radiações etc.). O comprometimento da regulação da homeostase do cálcio e do mecanismo de proteção antioxidante são duas causas importantes da degeneração neuronal observadas durante o envelhecimento normal e na neurodegeneração. Na verdade, qualquer alteração no transporte ou no armazenamento do cálcio, independentemente de seu grau, acarreta consequências significativas com o avanço da idade, e seu aumento excessivo causa lipólise, proteólise, mudanças na fosforilação proteica, perda da integridade citoesquelética e morte celular. As principais patologias que acometem o sistema nervoso em indivíduos idosos são: o acidente vascular cerebral, as demências e as doenças degenerativas de Alzheimer e Parkinson. No sistema nervoso periférico as neuropatias ou neurites são as moléstias mais comuns, todas elas afetando os processos de formação e manutenção da memória. Ainda algumas doenças sistêmicas possuem efeito negativo, como é o caso da diabetes mellitus (hiperglicemia e dano oxidativo), das alterações endócrinas (perda do efeito neutrófico de vários hormônios), da hipertensão arterial – dano vascular (BERNHARDI, 2005) e quadros hipoglicêmicos graves – podendo gerar alterações na função cerebral (LEHNINGER, 1990). “Nos distúrbios neurodegenerativos progressivos, como nas doenças de Parkinson (DP) e Alzheimer (DA), a lesão neuronal pode ser causada por pequenas alterações da homeostase do cálcio mantidas durante longos períodos de tempo” (ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014). Alterações fisiopatológicas características de algumas doenças neurodegenerativas como a DP também são responsáveis por quedas na população idosa, uma vez que alteram a postura e a cadência ao caminhar. Esses pacientes apresentam distúrbios motoresfrequentes, como tremor e rigidez, levando a dificuldades no equilíbrio. Diferente da DP, que consiste em um distúrbio, sobretudo motor, a DA é caracterizada por alterações cognitivas inerentes à atrofia cerebral e à formação de placas amiloides e emaranhados neurofibrilares. Nos pacientes com DA, as alterações nas reações de equilíbrio e mesmo a ocorrência de quedas são comuns nos estágios avançados da doença, embora em menor frequência do que nos indivíduos parkinsonianos (DOHERTY et al. apud ESQUENAZI; SILVA; GUIMARÃES, 2014, p. 18). 3.5 Sistema digestório As funções do aparelho digestório sofrem uma série de alterações fisiológicas com o decorrer da idade. Isto é normal na motilidade e nas secreções que diminuem, mas se surgirem patologias como úlceras, divertículos ou neoplasias, essas funções se deteriorarão mais rapidamente, reduzindo a qualidade de vida dos idosos. 30 Unidade I No paladar há uma diminuição da capacidade de perceber os sabores doces e salgados. Também a perda dentária dificulta o consumo de alguns alimentos, portanto a OMS tem a meta de que os idosos possam conservar de 20 a 22 dentes nessa etapa da vida. No sistema digestório, a começar pela cavidade bucal, ocorre compressão da gengiva, redução das papilas gustativas e da salivação, além de diminuição da ação das enzimas e menor quantidade de ácido clorídrico no estômago (ALMEIDA et al., 2009). Cerca de 10% dos octogenários perdem a coordenação dos músculos esofágicos, e a debilidade do diafragma torna mais frequente a existência de hérnias hiatais (ESPÍNOLA, 2000). Encontramos alterações de motilidade desde o esôfago, onde há redução do plexo de Auerbach, produzindo contrações não peristálticas, de menor amplitude, que não relaxa o esfíncter inferior após a deglutição, e o tempo de enchimento esofágico aumenta. O esôfago, com as alterações já descritas, aumenta a incidência de hérnia hiatal – 60%, acima dos 60 anos. Embora o esfíncter inferior não relaxe após a deglutição, tem reduzida sua pressão de repouso, o que pode causar refluxo gastroesofágico. Isto pode causar disfagias, espasmos, além de esclerodermia, divertículos, tumores ou outras patologias (CORDEIRO, 2015). As alterações na mucosa gástrica e nas glândulas digestivas provocam diminuição da capacidade funcional digestiva e diminuição na produção de ácido clorídrico, dificultando o processo de digestão. Estas mudanças ainda podem elevar o tempo de esvaziamento gástrico, especialmente para líquidos; desencadear menor resistência da mucosa gástrica a agressões externas; e diminuir o fluxo sanguíneo para tal mucosa, aumentando o risco de úlceras e a prevalência da bactéria H. pylori. A menor flexibilidade do fundo gástrico leva à saciedade com menor quantidade de comida que no adulto, o que é um alerta para a perda de peso e o déficit nutricional. A diminuição da motilidade intestinal, da superfície intestinal útil para absorção, da capacidade de transporte de nutrientes e a redução do fluxo sanguíneo entre a célula mucosa e a veia porta alteram a capacidade global de digestão e absorção, levando à constipação intestinal, causa comum de queixas dos idosos. “A significativa atrofia do músculo propulsor e as mudanças nas células secretoras de muco provocam alterações estruturais (diverticulose) e funcionais (estreitamento) do cólon” (PALLAS, 2002 apud FORNARI, [s.d.]). As alterações na capacidade mastigatória do idoso estão comumente correlacionadas ao frequente aparecimento de lesões de cárie, às próteses totais ou parciais mal-adaptadas, inclusive por processos de emagrecimento comuns, somado ao estado de conservação de higiene precário e à ausência de dentes. Esses fatores interferem no comportamento inicial do processo digestivo, favorecendo sua inadequação tanto no aspecto enzimático como no mecânico. O decréscimo da produção salivar com a idade pode ser pelo uso de diferentes fármacos ou polifármacos. Há uma dificuldade de formação e deglutição do bolo alimentar devido à atrofia da língua, o que ocasiona redução do tamanho do bolo, bem como da mucosa oral, que sofre transformações como a perda de elasticidade. A redução da sensibilidade por sabores primários, como o doce, o amargo e o ácido, apresenta considerável importância na diminuição do consumo alimentar por inapetência. O estômago, por sua vez, exibe diminuição de resposta aos períodos de digestão e de contração indicativa de apetência. Ele teria seu esvaziamento retardado pela gastrite atrófica do idoso, as glândulas 31 ENFERMAGEM DO IDOSO gástricas diminuem em número e função, perdem as células parietais, e isso reduz a reabsorção de Fe2+ e vitamina B12, podendo resultar em uma anemia perniciosa. Reduz-se também a secreção basal de HCI, chegando a casos de acloridria, depois dos 50 anos. Isto leva à digestão incompleta dos carboidratos. Durante a vida, o intestino está em constante alteração, as células epiteliais são repostas a cada 24-48 horas, a absorção e a secreção são quase constantes e as atividades mioelétrica e motora são contínuas. Nos idosos, as agressões sofridas ao longo da vida, como estresse, ingesta de alimentos gordurosos ou ácidos e consumo de polifármacos, podem levar a uma série de distúrbios gastrointestinais funcionais. Há prejuízo na capacidade de indivíduos, mesmo sadios, por exemplo, na absorção de proteínas, que é reduzida, gerando balanço nitrogenado negativo. Portanto, o idoso precisa ingerir um pouco mais de proteína, que tem como fonte os derivados de carne animal, leite e ovos, comumente descartados da dieta do idoso por questões de mastigação e fermentação. Temos alterações da flora intestinal com redução dos lactobacilos e aumento dos coliformes e dos fungos. A incidência de constipação aumenta devido ao menor tônus muscular e à diminuição da função motora do cólon. O fígado reduz de tamanho a partir dos 60 anos, e o número de hepatócitos e de suas mitocôndrias declina com a idade (D’OTTAVIANO apud CORDEIRO et al., 2015, p. 3). Devido à limitação de ingesta e absorção hídrica, aumentam as ocorrências de colelitíase no idoso. A absorção de glicose, galactose ou xilose se torna mais lenta à medida que a idade avança. Estes efeitos são sentidos prontamente pelo idoso que opta por refeições mais leves, menos gordurosas e em pequenas porções. A nutrição é um fator importante na conservação e na prevenção da saúde, pois pode evitar distúrbios gastrointestinais. Já a ingesta de líquidos pode auxiliar em processos de hidratação, formação de bolo fecal e manutenção do hábito intestinal. A alimentação pode ser analisada como um dos fatores comportamentais que mais influencia a qualidade de vida das pessoas. É uma ação natural e consciente, influenciada por fatores culturais, econômicos e psicológicos, mediante os quais cada indivíduo consome determinados produtos naturais ou artificiais para atender às suas necessidades biológicas de nutrientes, a partir do meio externo (ALMEIDA et al. apud CORDEIRO et al., 2015, p. 4). Sabe-se também que as refeições são momentos de socialização e confraternização, auxiliando nos processos cognitivos. 3.5.1 Índice de massa corporal (IMC) A nutrição é a capacidade de utilização, transformação e assimilação de nutrientes para realizar as funções celulares vitais, e o alimento é toda substância introduzida no organismo, a qual é transformada e aproveitada como energia para o corpo. Ademais, fornece matéria para o crescimento e a reparação dos tecidos, calor e energia para o trabalho diário. O estado nutricional é o resultado do equilíbrio entre a oferta e a demanda de nutrientes, indo muito além da simples ingestão de alimentos. Não existe um método único e eficiente para estabelecer o 32 Unidade I estado nutricional, principalmente em idosos. Na triagem nutricional, recomenda-se a avaliação antropométrica e aplicação da miniavaliação nutricional (MAN) (MORAES, 2012). O índice de massa corporal (IMC) pode ser obtido dividindo-se o pesocorporal (kg) pela altura (m). É um método simples e rápido, que se correlaciona muito bem com outros métodos da avaliação nutricional. Tanto o baixo peso quanto o sobrepeso têm efeitos deletérios conhecidos para a saúde geral. Na população idosa, conservar o peso adequado caracteriza uma das medidas básicas na prevenção de fraturas e na manutenção da independência e da qualidade de vida. Os valores do IMC aumentam com o passar da idade, uma vez que a adiposidade aumenta, mesmo com o peso estável. Consequentemente, para os idosos, sugerem-se diretrizes de idade-específica para o IMC, que compreende o intervalo entre 22 e 27 kg/ m2 (MORAES apud MORAES, 2012, p. 38). O questionário da MAN é composto de perguntas objetivas sobre medidas antropométricas (peso, altura e, se for o caso, perda de peso), informações dietéticas (número de refeições, ingestão de alimentos e líquidos e capacidade de autoalimentação, considerando-se o método de preparo), avaliação global (estilo de vida, medicação, estado funcional) e autoavaliação (autopercepção da saúde e nutrição). Estas perguntas devem ser respondidas em menos de dez minutos (COELHO; FAUSTO, 2002 apud MORAES, 2012, p. 39). 3.6 Sistema renal e vias urinárias Os rins sofrem importantes alterações com o envelhecimento, embora a grande reserva funcional dos órgãos não destaque essas modificações. Cerca de 50% dos néfrons desaparecem entre os 30 e 70 anos, e a taxa de filtração glomerular decai 8ml/min a cada 10 anos. É provável que a diminuição do fluxo renal seja de 10% por década nos adultos e que a maior permeabilidade da membrana glomerular, a menor superfície disponível de filtração e o aumento do uso de medicamentos nefrotóxicos em decorrência da idade expliquem a diminuição da função renal. As vias urinárias são afetadas por uma maior tendência à produção de cálculos (ESPÍNOLA, 2000). Além das alterações decorrentes da senilidade dos tecidos, diminuição de função renal, atrofia da uretra, enfraquecimento da musculatura pélvica associada à perda de elasticidade uretral e de colo vesical, doenças próprias do indivíduo idoso também contribuem para o desenvolvimento de incontinência urinária (SOUZA, 2002; CARDOSO, 2009). Devemos ponderar quanto à vinculação do envelhecimento masculino à hiperplasia prostática benigna, que está presente em aproximadamente 50% dos homens com 50 anos de idade, em metade dos quais causa obstrução do fluxo urinário e acarreta alterações significativas do trato urinário inferior, como a instabilidade do músculo detrusor. A incontinência urinária ou a redução da força do jato urinário são fatores sociais bastante significativos para os homens (REIS et al., 2003). A experiência da maternidade traz algumas mudanças no organismo da mulher não somente durante a gestação, mas também ao longo de toda a sua vida. Alguns exemplos dessas modificações dizem 33 ENFERMAGEM DO IDOSO respeito à abertura do assoalho pélvico, região de passagem da cabeça fetal: “[...] a cabeça empurra o assoalho pélvico para baixo até que tenha dilatado o suficiente para passar por ela. As alterações do assoalho pélvico após o parto vaginal podem ser um dos causadores de incontinência urinária nas mulheres (BARBOSA et al., 2005). Há relatos de mulheres que não passaram por gravidez ou parto vaginal e que apresentam incontinência urinária em graus variados. Estes casos estão relacionados à obesidade. Estima-se que a incontinência urinária em mulheres ocorra em torno de 58,8%; nos homens, em 39,2%. “As mulheres são ao longo de sua vida mais suscetíveis a infecções do trato urinário o que possivelmente justifica as diferenças” (SANTOS; BIANCHI, 2014, p. 10). A prevalência de incontinência urinária varia conforme a faixa etária, que é de 26,5% em indivíduos com até 65 anos, e de 73,7% em pessoas com 95 anos ou mais (SANTOS; BIANCHI, 2014, p. 10). 3.7 Sistema cutâneo mucoso O envelhecimento cutâneo é uma ocorrência biológica complexa. Como a pele é o órgão humano mais exposto às intempéries, os efeitos do envelhecimento são percebidos primeiramente. Influem no envelhecimento da pele: senescência celular, a hipótese telomérica, o estresse oxidativo, o fotoenvelhecimento, a alteração no conteúdo de água e a influência hormonal (LINS, 2002). Mais do que efeitos estéticos, as alterações de pele causam desconfortos como prurido, descamações e fissuras. Estudos mostram que a elastina, responsável pela elasticidade cutânea, perde a sua qualidade elástica com o avanço da idade. O colágeno também diminui com o passar do tempo. O motivo dessa transformação são as alterações decorrentes do envelhecimento intrínseco e extrínseco da pele (LINS, 2002). Tais causadores são os processos de hidratação e hemostasia, bem como a exposição a agentes agressores como poluição, sol e produtos químicos. O envelhecimento intrínseco ocorre devido ao desgaste natural do organismo, causado pelo passar dos anos, sem a interferência de agentes externos, e equivale ao envelhecimento de todos os órgãos, inclusive a pele. No envelhecimento pela idade, a textura da pele é fina, lisa, homogênea e suave, com atrofia da epiderme e da derme, menor número de manchas e discreta formação de rugas. O envelhecimento causado pela idade é mais suave, lento e gradual, causando danos estéticos muito pequenos. O envelhecimento extrínseco ou fotoenvelhecimento é decorrente do efeito da radiação ultravioleta do sol sobre a pele durante toda a vida e apresenta-se como uma intensificação do envelhecimento cronológico e do aparecimento de características diferentes do envelhecimento comum (ACCURSIO, 2001). O desgaste natural do organismo, com o passar dos anos, resulta no envelhecimento intrínseco, que ocorre sem a inferência de agentes externos, isto é, diz respeito à senilização de todos os órgãos, 34 Unidade I inclusive a derme. Este processo também se verifica por conta do estilo de vida adotado pelo indivíduo, e já sabemos que fatores como alimentação, hidratação e atividade física interferem diretamente no processo de envelhecimento precoce do organismo. No envelhecimento pela idade, a textura da pele é fina, lisa, homogênea e suave, com atrofia da epiderme e derme, menor número de manchas e discreta formação de rugas. O envelhecimento extrínseco, ou fotoenvelhecimento, é decorrente do efeito da radiação ultravioleta do sol sobre a pele durante toda a vida e apresenta-se como uma intensificação do envelhecimento cronológico e do aparecimento de características diferentes do envelhecimento comum (ACCURSIO, 2001). Atualmente existem diversos recursos estéticos que auxiliam na redução dos efeitos do envelhecimento extrínseco ou, ao menos, minimizam tais sequelas. As alterações na pele do idoso são os efeitos de envelhecimento mais evidentes. Por outro lado, as condições da pele neste momento também podem ter influência sobre a saúde. Alguns problemas que envolvem outros sistemas, que não o tegumentar, podem ser decorrentes de alterações tegumentares não tratadas (FORTES, 2014, p. 99). É possível observar estes problemas em afecções como erisipelas ou infecções fúngicas cutâneas prevalentes em idosos. A menor atividade de várias funções, como renovação celular, resposta a traumas (evidente na demora de reparação a agressões externas), percepção sensorial (especialmente na região plantar), proteção mecânica (pela diminuição da espessura e consequente amortecimento), resposta imune e vascular (aumento de infecções cutâneas e de processos isquêmicos), termorregulação (pela diminuição da espessura da pele), produção de suor e de vitamina D constituem, entre outras, situações extremamente favoráveis ao desenvolvimento de dermatoses (DINATO, 2008). “Xerose é de ocorrência frequente na pele dos idosos, particularmente nas pernas, pois nesta idade há diminuição da atividade das glândulas sebáceas e sudoríparas e o ressecamento característicos[,] levando a prurido e desconforto” (FORTES, 2014, p. 99). Esteprurido é a manifestação nos idosos, com ou sem rush, e a xerose sua causa mais comum, no entanto “é obrigatório o diagnóstico diferencial com o prurido de causa medicamentosa. A dermatite atópica é muito menos frequente em idosos quando comparado às crianças e adultos” (FORTES, 2014, p. 100). Quanto à unha e aos cabelos, há uma diminuição na taxa de crescimento de unha, que chega a ser de 0,5% por ano de idade, de 15 a 90 anos; e uma variedade de fatores pode afetar o ciclo de crescimento do cabelo e causar sua queda temporária ou permanente (alopecia), além do aspecto hormonal (ACCURSIO, 2001). 35 ENFERMAGEM DO IDOSO A influência de medicações, radiação, quimioterapia, exposição química, fatores hormonais e nutricionais, desequilíbrios da tireoide, do sistema imune, doença de pele generalizada ou local, queimaduras, formação de cicatriz, estresse fisiológico, psicológico, entre outros, podem ser indicados como fatores desencadeantes para redução do crescimento de cabelos e unhas. Nos indivíduos de meia-idade, começam a surgir sulcos longitudinais, distrofia lamelar, que são traduzidos por unhas fracas e quebradiças e com a borda final dividida em camadas, queixa muito frequente entre as mulheres. Surgem também mudanças na pigmentação, que podem ser confundidas com sinais secundários de outras doenças sistêmicas, a exemplo das doenças vasculares. Há uma grande incidência de unhas esbranquiçadas e opacas (unhas de Terry). A onicodistrofia é frequente (mais nos dedos dos pés), podendo ser confundida com onicomicose, pois as alterações visíveis são muito semelhantes. Em geral as unhas das pessoas mais idosas são mais convexas e com a lâmina ungueal mais espessa, podendo haver uma hiperqueratose subungueal. Nos dedos dos pés, encontramos com bastante frequência a onicocriptose (popularmente conhecida como “unha encravada”) ou, ainda, uma unha hipertrofiada secundariamente a um trauma ou pressão crônica, podendo estar grossa, opaca e com alterações de coloração (ACCURSIO, 2001). Os cabelos diminuem, em número e volume, primeiro diminuem os corporais, seguidos dos pelos do púbis e das axilas. Acima dos 60 anos, grande parte das mulheres não tem pelos axilares e apresenta declínio acentuado dos pubianos. Igualmente nascem pelos terminais faciais, com aumento da espessura e do comprimento. Vale recordar que, além da idade cronológica, fatores hormonais e hereditários determinam essas modificações. 3.8 Sistema dos órgãos dos sentidos: visão e audição Com o avançar da idade, os olhos mudam. A córnea vai perdendo, progressivamente, a transparência, e o cristalino, uma lente intraocular, que é normalmente transparente na infância, vai amarelecendo (LIMA, 2007). A deterioração da visão acarreta, ainda: presbiopia – capacidade de acomodação “longe-perto” mais lenta, diminuição da acuidade visual, particularmente, à noite. Essas alterações fazem que uma pessoa com 60 anos necessite, para enxergar melhor, de quatro vezes mais luminosidade que aos 20 anos. Há maior sensibilidade ao ofuscamento, e podem ocorrem algumas etiologias, como catarata, glaucoma e degeneração macular relacionada à idade. De uma maneira geral, o envelhecimento desse órgão afeta a qualidade de vida do idoso, conforme a afirmativa de Papalia (2006, p. 677): “vários aspectos da função visual do idoso sofrem alterações com o passar dos anos”. No que se refere à acuidade auditiva, o autor considera que “a perda auditiva pode contribuir para a percepção [equivocada] de que as pessoas de idade são distraídas e irritáveis” (PAPALIA, 2006, destaque nosso). Há evidências de que o ouvido, à medida que envelhece, vai perdendo a sua capacidade de funcionar; esses sinais já aparecem aos 50 anos, dependendo do ritmo natural de envelhecimento. Para a pessoa em idade avançada, a perda ou diminuição da visão pode ser uma consequência do envelhecimento. As alterações visuais nesta faixa etária provocam “diminuição da reatividade pupilar, 36 Unidade I alterações na circunferência e rigidez do cristalino; frequentemente aparecem cataratas. A córnea perde transparência e depósitos de gorduras produzem o ‘arco senil’” (PRODIA, 2004). O aumento da pressão intraocular pode acarretar glaucoma, que reduz a visão periférica e compressão da retina. A degeneração da mácula, a área de visão central e onde a resolução visual é máxima, ocasiona um dano importante à visão do idoso. A órbita perde gordura e produz o efeito de olhos fundos. A presença de diabetes mellitus de longa evolução, ou evolução irregular com vários episódios de hiperglicemia, é a principal causa de cegueira nessa faixa etária (PRODIA, 2004). Quanto à audição, a pele que cobre o conduto auditivo externo atrofia-se e sofre uma descamação, e isso favorece a acumulação de cerume, portanto se indica a remoção constante dessa substância. “Na orelha interna é produzida a denominada presbiacusia, ou seja, a pessoa percebe ruídos molestos (acúfenos), diminui a capacidade de discriminar os sons (ouve, mas não entende) e há uma perda na percepção dos sons agudos” (GEIS, 2003), mudanças estas que levam à alteração de equilíbrio, uma vez que se confunde a origem do som. Cerca de uma a cada três pessoas tem perda auditiva que interfere na vida diária, sobretudo daquelas que atingiram os 65 a 74 anos, e cerca da metade daquelas que têm 85 anos ou mais. Também são frequentes os tampões de cera e a hipoacusia secundária (GEIS, 2003). 3.9 Sistema imunológico As alterações do sistema imune no envelhecimento são denominadas imunossenescências. Há evidências sobre a relação entre o sistema imunológico e diversas afecções que acometem a população idosa (TONET, 2008). Pacientes com mais de 65 anos apresentam algumas modificações no sistema imune, porém o fato de serem idosos não os classifica como imunodeficientes. Pessoas idosas são acometidas com mais frequência por doenças infecciosas, crônicas, neoplásicas, processos inflamatórios exacerbados e alterações de autoimunidade. “Embora seja necessário valorizar esse fato quando diante de certas comorbidades, principalmente diabetes, insuficiência renal, cardíaca, respiratória, hepática ou infecções” (DUARTE, 2003). Um grande número de fatores tem sido ligado ao declínio das funções das células T com o avançar da idade, porém parece que a atrofia crônica do timo induzida pela senilidade resulta numa diminuição na produção de células T, que é o fator mais significativo (PAWELEC, 2007). Na imunidade inata são observadas alterações na atividade fagocitária de neutrófilos, menor atividade quimiotática dos macrófagos, aumento na quantidade de células NK e maior produção de IL-6 pelas células dendríticas, por exemplo. Uma importante alteração relacionada com a senescência do sistema imunológico é a redução do número de células T virgens e aumento dos clones de memória, que se expandem, ou seja, as células T CD8+ e CD4+ virgens diminuem com o envelhecimento (VASTO; MALAVOLTA; PAWELEC, 2006). Na imunidade adaptativa reconhecemos a atrofia tímica, desequilíbrio entre o número de células T virgens e de memória, redução dos mecanismos efetores de imunidade celular, e também são afetadas as células B e seus produtos, como imunoglobulinas e anticorpos. Outro problema que está presente em uma grande parte da população idosa é a depressão. Os sintomas depressivos estão associados com componentes emocionais e biológicos: aflição, apatia, baixa autoestima, 37 ENFERMAGEM DO IDOSO perda da libido, distúrbio do sono, perda do apetite, entre outros. Contudo, a saúde mental é indispensável para o bem-estar geral do indivíduo, assim o diagnóstico de depressão e a correta terapia se tornam de extrema importância para os idosos (MICHELON; CORDEIRO; VALLADA, 2008). O mecanismo do sistema imunológico em relação à depressão tem sido uma área de pesquisa ao longo do tempo. Este estado emocional depressivo leva à redução da resposta imunológica, contribuindo com outras doenças mais frequentes noidoso. Atualmente há um grande interesse nos efeitos benéficos do suporte social e como o estresse ou certas características de personalidade podem afetar a longevidade (ZORRILLA, 2001). O monitoramento do estado nutricional do idoso também está relacionado com a resposta imune. Estudos mostraram que a suplementação com zinco promoveu melhor resposta humoral após vacinação contra o vírus influenza e menos infecção do trato respiratório. Há evidências que a vitamina E diminui a formação de radicais livres e sua deficiência pode causar prejuízo na função mediada por células T (DUCHATEAU, 2003). Os fatores relacionados com a diminuição da ingesta alimentar, desde os físicos – como perda dentária ou alterações gastrointestinais – até os fatores sociais – como o não cozinhar para si próprio ou não ter companhia na hora das refeições, comprovadamente interferem no equilíbrio orgânico. A intensidade das alterações fisiológicas causadas pelo envelhecimento depende significativamente de fatores ligados ao estilo de vida que a pessoa assume. Nesse sentido, Leite (2000) afirma que, apesar das perdas funcionais, orgânicas e mentais, um idoso que tenha hábitos de vida saudáveis pode vir a ser uma pessoa com autossuficiência para tarefas diárias e com capacidade adaptada para manter relações intelectuais e sociais com o meio que o rodeia. 4 CONCEITOS DE AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA Com o avançar da idade[,] ocorrem mudanças morfológicas, funcionais e bioquímicas que abrangem todo o organismo (GUIMARÃES, 2004) e determinam a perda progressiva da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente, ocasionando maior vulnerabilidade (CARVALHO-FILHO, 2002). Considerando o impacto do envelhecimento nas políticas públicas, o governo brasileiro tem autorizado leis voltadas para o envelhecimento ativo e saudável. Um exemplo foi a aprovação da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), que tem como um de seus objetivos a promoção da autonomia, independência, integração e participação efetiva da pessoa senil na sociedade, “com vistas ao exercício da cidadania e ao atendimento de suas necessidades específicas, nos diversos níveis de atenção do SUS” (BRASIL, 2006). A conquista da autonomia mobiliza o indivíduo jovem a ir em busca de suas aspirações, já para o geronte isso caracteriza mais integridade e qualidade à sua vida. “Assim, é necessário que qualquer política destinada à população idosa considere, entre outros aspectos, a necessidade de preservação da autonomia” (VERAS, 2009). Promover o envelhecimento ativo e saudável significa prevenir a perda da capacidade funcional da população idosa, que lhe permite a manutenção de atividades de vida diária 38 Unidade I por meio da preservação da sua independência física e psíquica, promovendo o bem-estar físico, mental e social, bem como garantir o acesso a instrumentos diagnósticos adequados, medicação e reabilitação funcional (BRASIL, 2006). Saiba mais Em 2006, o Ministério da Saúde produziu um caderno de saúde pública específico sobre cuidados de saúde com idosos, Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/publicacoes/ cadernos_ab/abcad19.pdf>. Acesso em: 23 fev. 2017. As quedas são responsáveis pela maior parte de danos não fatais nessa população, e suas complicações representam uma importante causa de morte em pessoas com mais de 65 anos. Investigar a funcionalidade dos membros inferiores é de grande valia para identificar pacientes com risco de quedas (SCHINEIDER, 2008). A manutenção da saúde na visão holística, que aborda aspectos físicos, morais e emocionais, requer acompanhamento, no Brasil, das Estratégias de Saúde da Família – ESF, como evidente papel de instrumento de reorganização e reestruturação do sistema público de saúde (VIANA; POZ, 2005). Nas ESF, a avaliação dos idosos deve incluir não só o diagnóstico das afecções, mas também uma compreensão quanto aos aspectos funcionais. Estes envolvem, além da saúde física e mental, as condições socioeconômicas e de capacidade de autocuidado, as quais irão revelar o grau de independência funcional do idoso. Consideram, ainda, o receio do idoso de perder sua independência e autonomia. A análise da capacidade funcional torna-se, portanto, essencial para a escolha do melhor tipo de intervenção e monitorização do estado clínico-funcional dos idosos (RICCI; KUBOTA; CORDEIRO, 2005). Capacidade funcional é o potencial que os idosos apresentam para decidir e atuar em suas vidas de forma independente no seu cotidiano (FIEDLER; PERES, 2008). Desse modo, a incapacidade funcional refere-se à dificuldade ou necessidade de ajuda para o indivíduo executar tarefas no seu dia a dia, podendo ser atividades básicas de vida diária (ABVD) e operações instrumentais de vida diária (AIVD). A divisão em ABVD e AIVD começou com os estudos de Mahoney e Barthel (1965) e Lawton e Brody (1969). São aceitas internacionalmente duas escalas de avaliação funcional que classificavam as atividades cotidianas de acordo com o seu nível de complexidade. Lawton e Brody elaboraram uma escala para avaliar AIVD com oito atividades: preparar refeições, fazer tarefas domésticas, lavar roupas, manusear dinheiro, usar o telefone, tomar medicações, fazer compras e utilizar os meios de transporte (BARBOSA et al., 2014). As atividades básicas de vida diária (ABVD) correspondem aos níveis mais graves de deficiência das aptidões físicas, relevantes, em sua maior parte, aos pacientes frágeis e/ou institucionalizados. As ABVDs examinam funções de sobrevivência, tais como se alimentar, banhar-se, fazer a higiene pessoal, vestir-se, transferir-se de um local a outro, e outras atividades básicas. 39 ENFERMAGEM DO IDOSO O conceito destacado é ampliado pelas atividades instrumentais de vida diária (AIVD), as quais contemplam problemas um pouco mais complexos da vida cotidiana de um indivíduo menos dependente. Oferecem indicadores de funções sociais que avultam os temas explorados pelas escalas AVDs, por exemplo, gerir o orçamento doméstico, utilizar o telefone, sair desacompanhado e fazer compras. As atividades avançadas de vida diária (AAVD), por sua vez, incluem também atividades voluntárias sociais, ocupacionais e de recreação. Dificuldades em participar dessas atividades podem não indicar perda funcional atual, mas risco de perdas futuras ainda mais importantes (PAIXÃO, 2005). As doenças que causam limitações na função cognitiva constituem um dos grandes problemas nos idosos, pois resultam em perda da autonomia e grande sobrecarga para os familiares e cuidadores (COSTA, 2001). As famílias relatam as dificuldades de organização e abalo das relações afetivas por acompanharem as perdas físicas e cognitivas dos gerontes. As perdas funcionais e psicossociais durante o envelhecimento podem, frequentemente, resultar em depressão, sobretudo quando a pessoa idosa se depara com sucessivas perdas tanto de aspectos físicos e de saúde quanto sociais e familiares. Quanto à incontinência urinária – também um elemento limitante da autonomia –, embora o problema atinja até 30% dos idosos não institucionalizados, muitas vezes ele não é identificado. Em geral os pacientes não relatam incontinência, a menos que sejam perguntados (SIRENA apud SCHNEIDER; MARCOLIN; DALACORTE, 2008, p. 2). O Índice de Katz é um dos instrumentos utilizados para avaliar as ABVD e foi criado por Sidney Katz, em 1963, para observar a capacidade funcional do indivíduo senil (KATZ, 1963). O estudioso determinou uma lista composta de seis itens, que são hierarquicamente relacionados e que denotam que a perda de funções começa pelas ações mais complexas, como se vestir e se banhar, até chegar às atividades de autorregulação, como se alimentar e realizar excreção. Desse modo, parte da premissa de que o declínio funcional e a perda da capacidade para executar as atividades da vida diária nos pacientes gerontes seguem um mesmo padrão evolutivo, ou seja, “perde-se primeiroa capacidade para banhar-se e, a seguir, para vestir-se, transferir-se da cadeira para a cama (e vice-versa) e alimentar-se” (BARBOSA et al., 2014). A recuperação, quando possível, dá-se na ordem inversa. A dimensão de estado funcional é central para a avaliação geriátrica (AGA). Os instrumentos que a qualificam são variados e com finalidades diversas. Podem ser utilizados como medidas de saúde geral ou específica; servirem como instrumentos de pesquisa, triagem ou análise clínica; medirem graus de dependência mais grave e até incapacidade para funções físicas e sociais. A escolha de um ou mais instrumentos depende do ambiente operacional e dos objetivos. Há instrumentos que tendem a uma avaliação funcional geral e curta, a qual utiliza uma série de outros instrumentos com o intuito de fazer um exame multidisciplinar de várias dimensões que afetam a pessoa idosa. Já os instrumentos longos tornam a AGA bastante extensa e pouco eficaz. De qualquer forma, deve ser enfatizado que a decisão do uso de um instrumento precisa estar embasada em evidências formais de validade e confiabilidade dos instrumentos. Autonomia é um dos princípios da Bioética utilizado para análises de dilemas e/ou conflitos de valores nos relacionamentos humanos, e os outros princípios são o da justiça, o da beneficência e o da 40 Unidade I não maleficência. O termo autonomia é derivado do grego autos (próprio, eu) e nomos (regra, domínio, governo, lei), o que exprime o poder de tomar decisões sobre si mesmo e assumir o controle de sua vida. Portanto, inclui noção de autogoverno, liberdade de direitos, escolha individual, agir segundo a própria pessoa (OLIVEIRA; ALVES, 2010). O respeito à autonomia pressupõe a oferta de informações e a obtenção do consentimento informado do idoso através da manifestação de sua vontade, sem ter sido submetido a coação, influência, indução ou intimidação (ALMEIDA; AGUIAR, 2011). Vale ressaltar que as pessoas mais velhas que se identificam como autônomos sentem-se mais valorizadas e com a dignidade preservada. Para elas, a falta de respeito à sua autonomia reflete diretamente em sua qualidade de vida. Mesmo que haja algum tipo de dependência, a autonomia pode ser vivenciada em seu cotidiano quando os profissionais consideram as suas escolhas e lhes dão liberdade para agir (FLORES, 2010). 4.1 Avaliação funcional A fim de observar a acuidade visual, a carta de Jaeger é um método simples. A visão do paciente é avaliada a partir de um teste de reconhecimento de nível, que varia de 20 a 40, a uma distância de 35 cm dos olhos. Este teste geralmente é rápido e muito fácil de ser aplicado. Primeiramente cada olho é analisado de modo separado e, em seguida, os dois olhos juntos. Caso o paciente já faça uso de óculos, deve usá-lo no momento do exame. O teste do sussurro foi validado em relação à audiometria. O examinador, a uma distância de 30 cm e fora do campo visual do paciente, sussurra uma questão breve e simples em cada ouvido, como: “Qual é o seu nome?”. Deve ser realizado sem que o paciente perceba que está sendo avaliado, portanto as questões devem ter um tom informal. Para o teste da função dos membros superiores, solicita-se que o paciente posicione as mãos na parte posterior do pescoço, observando a presença de dor e limitação durante a execução do teste. Por vezes, percebe-se o esforço, no entanto o que é computado é a tentativa com sucesso. Se o paciente é capaz de tocar a nuca com ambas as mãos, provavelmente tem uma adequada função proximal dos membros superiores. Postura e marcha podem ser facilmente avaliados ambulatorialmente, pedindo para o paciente levantar da cadeira sem o uso das mãos, caminhar três metros, virar-se e retornar ao local em que estava sentado em no máximo 20 segundos (Timed Up and Go Test) (REUBEN apud SCHNEIDER, 2008, p. 6). Já a queixa de perda de memória é bastante comum entre os gerontes e pode ser analisada através de testes. Em geral tais avaliações possuem um aspecto bastante simples, em que é solicitada a repetição de palavras comuns ao paciente (por exemplo, pente, rua e azul), e estas devem ser repetidas imediatamente e após um minuto. A incapacidade em executar tal função indica que este paciente deve ser avaliado com um exame do estado mental para avaliação de demência, 41 ENFERMAGEM DO IDOSO como o Miniexame do Estado Mental de Folstein ou deve ser encaminhado para avaliação mais detalhada por profissional geriatra (SCHENEIDER, 2008, p. 6). O exame de depressão é realizado por um teste denominado avaliação de humor, no qual é formulada a pergunta: “Você frequentemente se sente triste ou deprimido(a)?”; enfatiza-se a palavra “frequentemente”, pois esta serve como introdução para uma investigação mais detalhada. Este teste breve de rastreamento é capaz de detectar a maioria dos pacientes deprimidos. É possível ainda reconhecer estruturas familiares desajustadas segundo a percepção do idoso. Para observação de incontinência urinária, executa-se uma abordagem direta e neutra por meio de uma pergunta simples: “Você já perdeu urina ou sentiu-se molhado(a)?”. Na maioria das vezes, é eficiente e pode diagnosticar o problema, que comumente não é relatado na consulta sem uma abordagem direta. Vale ressaltar que a incontinência urinária pode causar exclusão social em razão do receio de constrangimento. O índice de massa corporal é um bom parâmetro para monitoração do estado nutricional do paciente senil, uma vez que uma das alterações corpóreas no envelhecimento é o aumento de gordura, bem como a mudança em sua distribuição, apesar de não serem incomuns casos de desnutrição. Pelo escore da Organização Mundial da Saúde, classificam-se os indivíduos com escore menor que 22 kg/m2 como desnutridos, entre 22 e 27 kg/m2, eutróficos, e acima de 27 kg/m2 como obesos. Para avaliação das AIVD, o paciente ou o cuidador é questionado sobre a capacidade da pessoa idosa que está sendo analisada em usar o telefone (acesso e conclusão das chamadas), ir a locais distantes de sua residência usando algum meio de transporte (aquele que tem o hábito de usar, por exemplo, carro, ônibus, metrô, trem ou táxi), fazer compras (quantidade e qualidade), tomar os remédios nas doses e nos horários corretos (mesmo com orientação), cuidar das finanças (que já fazia antes), preparar a própria refeição (se já o fazia), arrumar a casa (restrições físicas e cognitivas), lavar e passar a própria roupa e fazer trabalhos manuais domésticos ou pequenos reparos no dia a dia (SCHENEIDER, 2008). As últimas quatro questões podem ter variações de acordo com o gênero e podem ser adaptadas para atividades como subir escadas ou cuidar do jardim, uma vez que em nossa sociedade há tarefas mais atribuídas às mulheres e outras aos homens. Conforme a capacidade de realizá-las, é possível determinar se o indivíduo pode viver sozinho, se precisa de auxílio parcial ou integral. Cabe ressaltar que, no exame continuado dos pacientes, a análise das AIVD é utilizada para comparação evolutiva de cada paciente, não havendo classificação de escore. Para avaliação das AVD, pergunta-se ao paciente ou ao seu cuidador sobre a independência quanto à capacidade de tomar banho (preparar a roupa, ajustar a temperatura da água, realizar higiene corporal aceitável, desligar o chuveiro e enxugar o corpo), não recebendo ajuda ou tendo auxílio somente para lavar uma parte do corpo; sobre a habilidade de se vestir, verificando se o paciente é capaz de pegar as roupas e vestir-se sem qualquer amparo, exceto para amarrar os sapatos (incluindo o equilíbrio e a escolha de roupas adequadas à temperatura e ocasião); quanto à higiene pessoal, avaliando se consegue ir ao banheiro, usá-lo, vestir-se e retornar ao que estava fazendo sem qualquer ajuda, podendo usar 42 Unidade I andador ou bengala para isso (considerar a manutenção de higiene do banheiro); sobre a capacidade de transferência, averiguando a capacidade em deitar-se na cama, sentar-sena cadeira e levantar sem auxílio, podendo também usar andador ou bengala; sobre continência, ao verificar se o idoso controla completamente urina e fezes e, por fim, quanto à alimentação, indagando se ele é capaz de comer sem assistência, exceto para cortar carne ou passar manteiga no pão (SCHENEIDER, 2008). 4.1.1 Avaliação de acuidade visual – Jaeger O declínio da função visual, bem como a deficiência visual no envelhecer[,] é bem conhecido e constitui-se em causa de preocupação tanto para população idosa, quanto para os profissionais de saúde, visto que alguns estudos mostram uma associação entre função visual e mortalidade. A função visual é avaliada por meio da obtenção e da interpretação de vários parâmetros, como a medida da acuidade visual (AV), a percepção de cores, o campo visual (periférico e central), a sensibilidade à luz e o reflexo pupilar fotomotor. A avaliação da função visual é complexa pela relação que mantém com mecanismos aferentes, eferentes e cognitivos, bem como com fatores externos à pessoa examinada (BORGES; CINTRA, 2009, p. 161). Como anteriormente mencionado, pode-se quantificar se há alteração da visão do paciente através do uso do cartão de Jaeger. O cartão é colocado a uma distância de 35 cm da pessoa idosa, que, se possuir óculos, deverá mantê-los durante o exame. A visão deve ser testada em cada olho em separado e depois em conjunto. Os olhos devem ser vendados com as mãos em forma de concha. Será considerado um resultado normal se o idoso conseguir ler até o nível 20/40 dos itens que lhe são propostos. Em caso de alteração, deve-se encaminhar o idoso ao oftalmologista para uma análise mais detalhada. 4.1.2 Acuidade auditiva – Teste do sussurro Segundo Pinzan-Faria e Iorio (2004), a perda de audição resultante do envelhecimento é denominada presbiacusia, que é caracterizada “como uma lesão auditiva coclear, simétrica, progressiva com a idade e de grau e severidade variáveis” (PINZAN-FARIA; IORIO, 2004, p. 290). A sensibilidade auditiva de baixa frequência permanece próxima aos limites normais quando capacita o paciente a ouvir a voz de seu interlocutor em conversas em grupos, por exemplo. No entanto, a perda auditiva de alta frequência impede que o idoso ouça as consoantes necessárias para decodificar a mensagem. O indivíduo senil afirma frequentemente que ouve o que as pessoas dizem, mas não as entende, o que pode levar ao isolamento social. A perda de audição adquirida pelos idosos deve ser considerada como uma perda social e psicológica que afeta as interações interpessoais e de comunicação, privando o indivíduo de relações sociais, comprometendo as metas profissionais e a qualidade de vida às quais ele estava acostumado e que davam significado à vida. 43 ENFERMAGEM DO IDOSO No teste do sussurro, o examinador deve ficar fora do campo visual da pessoa idosa, a uma distância de aproximadamente 33 cm, e “sussurrar”, em cada ouvido, uma questão breve e simples, por exemplo: “Qual é o seu nome?”. A avaliação dos resultados desse teste continuará se a pessoa idosa não responder, e deve-se examinar seu conduto auditivo para afastar a possibilidade de cerume ser a causa da diminuição da acuidade auditiva. Caso não sejam identificados obstáculos nos condutos auditivos externos, recomenda-se solicitar audiometria em ambulatório especializado. Observação Quando identificamos que uma pessoa tem dificuldade auditiva em um dos ouvidos, procuramos abordá-la e nos comunicar no lado de melhor acuidade auditiva para que ela seja mais bem-compreendida. 4.1.3 Avaliação de mobilidade A mobilidade é fundamental para a execução das decisões tomadas e a fim de preservar a independência funcional, além de ser responsável pelo deslocamento do indivíduo e pela manipulação do meio. A capacidade de deslocamento é examinada por meio de postura, marcha e transferência. A capacidade de manipulação do meio depende dos membros superiores, responsáveis por alcance, preensão e pinça. A capacidade aeróbica fornece a energia necessária para o gasto energético inerente a toda atividade muscular, bem como a continência esfincteriana é decisiva para a independência do ser humano. A perda do controle esfincteriano se trata de uma importante causa de restrição da participação social, limitando a mobilidade e levando ao isolamento social do indivíduo. O desempenho em um teste relativamente simples como se sentar e se levantar da cadeira, analisando se para tal são usados apoios simples ou complexos ou se o indivíduo manifesta necessidade de auxílio devido a tonturas, pode ser indicador útil na prevenção da incapacidade em procedimentos de triagem das condições de saúde da população idosa. O conhecimento dos escores discriminadores da incapacidade funcional favorece aos gestores de saúde pública tomar decisões em relação às intervenções necessárias a integridade do estado funcional da pessoa idosa e mesmo intervir precocemente (SANTOS et al., 2013, p. 36). Exemplo de aplicação Escala de equilíbrio de Berg A escala de equilíbrio de Berg tem uma pontuação máxima equivalente a 56 pontos, dado que cada item possui uma escala ordinal de cinco alternativas que variam de 0 a 4 pontos. O teste é simples, fácil 44 Unidade I de administrar e seguro para a avaliação de pacientes idosos. Ele somente requer um cronômetro e uma régua como equipamentos, e a sua execução leva em torno de 15 minutos. 1) Posição sentada para posição em pé Instrução: por favor, levante-se. Tente não usar suas mãos para se apoiar. Pontuação: (4) capaz de levantar-se sem utilizar as mãos e estabilizar-se independentemente. (3) capaz de levantar-se independentemente utilizando as mãos. (2) capaz de levantar-se utilizando as mãos após diversas tentativas. (1) necessita de ajuda mínima para levantar-se ou estabilizar-se. (0) necessita de ajuda moderada ou máxima para levantar-se. 2) Permanecer em pé sem apoio Instrução: por favor, fique em pé por dois minutos sem se apoiar. Se o paciente for capaz de permanecer em pé por dois minutos sem apoio, dê o número total de pontos e passe ao item número 3. Pontuação: (4) capaz de permanecer em pé com segurança por dois minutos. (3) capaz de permanecer em pé por dois minutos com supervisão. (2) capaz de permanecer em pé por 30 segundos sem apoio. (1) necessita de várias tentativas para permanecer em pé por 30 segundos sem apoio. (0) incapaz de permanecer em pé por 30 segundos sem apoio. 3) Permanecer sentado sem apoio nas costas, mas com os pés apoiados no chão ou em um banco Instrução: por favor, fique sentado sem apoiar as costas com os braços cruzados por dois minutos. Pontuação: (4) capaz de permanecer sentado com segurança e com firmeza por dois minutos. 45 ENFERMAGEM DO IDOSO (3) capaz de permanecer sentado por dois minutos sob supervisão. (2) capaz de permanecer sentado por 30 segundos. (1) capaz de permanecer sentado por dez segundos. (0) incapaz de permanecer sentado sem apoio durante dez segundos. 4) Posição em pé para posição sentada Instrução: por favor, sente-se. Pontuação: (4) senta-se com segurança com o mínimo uso das mãos. (3) controla a descida utilizando as mãos. (2) utiliza a parte posterior das pernas contra a cadeira para controlar a descida. (1) senta-se sem auxílio, mas tem descida sem controle. (0) necessita de ajuda para sentar-se. 5) Transferências Instrução: arrume as cadeiras perpendicularmente ou uma de frente para a outra para uma transferência em pivô. Peça ao paciente para transferir-se de uma cadeira com apoio de braço para uma cadeira sem apoio de braço e vice-versa. Pontuação: (4) capaz de transferir-se com segurança com o mínimo uso das mãos. (3) capaz de transferir-se com segurança com o uso das mãos. (2) capaz de transferir-se seguindo orientações verbais e/ou supervisão. (1) necessita de uma pessoa para ajudar. (0) necessita de duas pessoas para ajudar ou supervisionar para realizar a tarefa com segurança. 6) Permanecer em pé semapoio com os olhos fechados Instrução: por favor, fique em pé e feche os olhos por dez segundos. 46 Unidade I Pontuação: (4) capaz de permanecer em pé por dez segundos com segurança. (3) capaz de permanecer em pé por dez segundos com supervisão. (2) capaz de permanecer em pé por três segundos. (1) incapaz de permanecer com os olhos fechados durante três segundos, mas mantém-se em pé. (0) necessita de ajuda para não cair. 7) Permanecer em pé sem apoio com os pés juntos Instrução: junte seus pés e fique em pé sem se apoiar. Pontuação: (4) capaz de posicionar os pés juntos independentemente e permanecer por um minuto com segurança. (3) capaz de posicionar os pés juntos independentemente e permanecer por um minuto com supervisão. (2) capaz de posicionar os pés juntos independentemente e permanecer por 30 segundos. (1) necessita de ajuda para posicionar-se, mas é capaz de permanecer com os pés juntos durante 15 segundos. (0) necessita de ajuda para posicionar-se e é incapaz de permanecer nessa posição por 15 segundos. 8) Alcançar a frente com o braço estendido permanecendo em pé Instrução: levante o braço a 90º. Estique os dedos e tente alcançar sua frente, o mais longe possível. Pontuação: (4) pode avançar à frente > 25 cm com segurança. (3) pode avançar à frente > 12,5 cm com segurança. (2) pode avançar à frente > 5 cm com segurança. (1) pode avançar à frente, mas necessita de supervisão. (0) perde o equilíbrio na tentativa, ou necessita de apoio externo. 47 ENFERMAGEM DO IDOSO 9) Apanhar um objeto do chão a partir da posição em pé Instruções: pegar um sapato/chinelo localizado à frente de seus pés.. Pontuação: (4) capaz de apanhar o chinelo facilmente e com segurança. (3) capaz de apanhar o chinelo, mas necessita de supervisão. (2) incapaz de apanhar o chinelo, mas alcança 2-5 cm (1-2 polegadas) do chinelo e mantém o equilíbrio de maneira independente. (1) incapaz de apanhar e necessita de supervisão enquanto tenta. (0) incapaz de tentar, necessita de assistência para evitar perda de equilíbrio ou queda. 10) Virar-se e olhar para trás por cima dos ombros direito e esquerdo enquanto permanece em pé Instrução: vire-se para olhar diretamente atrás de você por cima do seu ombro esquerdo sem tirar os pés do chão. Faça o mesmo por cima do ombro direito. Pontuação: (4) olha para trás de ambos os lados com uma boa distribuição do peso. (3) olha para trás somente de um lado, o lado contrário demonstra menor distribuição do peso. (2) vira somente para os lados, mas mantém o equilíbrio. (1) necessita de supervisão para virar. (0) necessita de ajuda para não perder o equilíbrio ou cair. 11) Girar 360º Instrução: gire-se completamente ao redor de si mesmo. Pausa. Gire-se completamente ao redor de si mesmo em sentido contrário. Pontuação: (4) capaz de girar 360º com segurança em quatro segundos ou menos. (3) capaz de girar 360º com segurança somente para um lado em quatro segundos ou menos. 48 Unidade I (2) capaz de girar 360º com segurança, mas lentamente. (1) necessita de supervisão próxima ou orientações verbais. (0) necessita de ajuda enquanto gira. 12) Posicionar os pés alternadamente no degrau ou banco enquanto permanece em pé sem apoio Instrução: toque cada pé alternadamente no degrau/banco. Continue até que cada pé tenha tocado o degrau/banco quatro vezes. Pontuação: (4) capaz de permanecer em pé independentemente e com segurança, completando oito movimentos em 20 segundos. (3) capaz de permanecer em pé independentemente e completar oito movimentos em >20 segundos. (2) capaz de completar quatro movimentos sem ajuda. (1) capaz de completar > 2 movimentos com o mínimo de ajuda. (0) incapaz de tentar ou necessita de ajuda para não cair. 13) Permanecer em pé sem apoio com um pé à frente Instrução: coloque um pé diretamente à frente do outro na mesma linha; se você achar que não irá conseguir, coloque o pé um pouco mais à frente do outro e levemente para o lado. Pontuação: (4) capaz de colocar um pé imediatamente à frente do outro, independentemente, e permanecer por 30 segundos. (3) capaz de colocar um pé um pouco mais à frente do outro e levemente para o lado, independentemente, e permanecer por 30 segundos. (2) capaz de dar um pequeno passo, independentemente, e permanecer por 30 segundos. (1) necessita de ajuda para dar o passo, porém permanece por 15 segundos. (0) perde o equilíbrio ao tentar dar um passo ou ficar de pé. 49 ENFERMAGEM DO IDOSO 14) Permanecer em pé sobre uma perna Instrução: fique em pé sobre uma perna o máximo que você puder sem se segurar. Pontuação: (4) capaz de levantar uma perna independentemente e permanecer por >10 segundos. (3) capaz de levantar uma perna independentemente e permanecer por 5-10 segundos. (2) capaz de levantar uma perna independentemente e permanecer por ≥ 3 segundos. (1) tenta levantar uma perna, mas é incapaz de permanecer por três segundos, embora permaneça em pé independentemente. (0) incapaz de tentar ou necessita de ajuda para não cair. Escore total ______/56. Adaptado de: SILVA et al. (2007, p. 90). 4.1.4 Teste de Tinetti O Teste de Tinetti tem sido usado para avaliar o equilíbrio e as anormalidades de marcha. O teste consiste em 16 itens, em que nove são para o equilíbrio do corpo e sete para a marcha. Este teste classifica os aspectos da marcha como a velocidade, a distância do passo, a simetria e o equilíbrio em pé, o girar e também as mudanças com os olhos fechados. A contagem para cada exercício varia de 0 a 1 ou de 0 a 2, com uma contagem mais baixa que indica uma habilidade física mais pobre. A pontuação total é a soma da pontuação do equilíbrio do corpo e a da marcha. A pontuação máxima é de 12 pontos para a marcha, de 16 para o equilíbrio do corpo e de 28 para a total. Exemplo de aplicação. Teste de equilíbrio. (Instruções: sujeito sentado em uma cadeira rígida, sem braços). 1) Equilíbrio sentado Pontuação: (0) Inclina-se ou desliza na cadeira. (1) Estável, seguro. 50 Unidade I 2) Levanta-se da cadeira Pontuação: (0) Incapaz sem ajuda. (1) Capaz, usa membros superiores para auxiliar. (2) Capaz sem usar membros superiores. 3) Tentativas para se levantar Pontuação: (0) Incapaz sem ajuda. (1) Capaz, requer mais de uma tentativa. (2) Capaz de se levantar, uma tentativa. 4) Equilíbrio de pé imediato (primeiros 5 segundos) Pontuação: (0) Instável (cambaleia, move os pés, oscila o tronco). (1) Estável, mas usa dispositivo de auxílio à marcha. (2) Estável sem dispositivo de auxílio. 5) Equilíbrio de pé Pontuação: (0) Instável. (1) Instável, mas aumenta a base de suporte (entre os calcanhares >10 cm de afastamento) e usa dispositivo de auxílio. (2) Diminuição da base sem dispositivo de auxílio. 51 ENFERMAGEM DO IDOSO 6) Desequilíbrio no esterno (sujeito na posição de pé com os pés o mais próximo possível, o examinador empurra suavemente o sujeito na altura do esterno com a palma da mão três vezes seguidas Pontuação: (0) Começa a cair. (1) Cambaleia, se agarra e se segura em si mesmo. (2) Estável. 7) Olhos fechados Pontuação: (0) Instável. (1) Estável. 8) Girar 360° Pontuação: (0) Instabilidade (se agarra, cambaleia). (1) Passos descontinuados. (2) Continuidade. 9) Sentar-se Pontuação: (0) Inseguro (não avalia bem a distância, cai na cadeira). (1) Usa os braços ou não tem movimentos suaves. (2) Seguro, movimentos suaves. Escore de equilíbrio: ______/16. Fonte: SILVA et al. (2007, p. 91). 52 Unidade I 4.1.5 Teste de marcha Exemplo de aplicação Teste de marcha (Instruções: sujeito de pé com o examinador, caminha num corredor ou na sala, primeiro no seu ritmo usual e, em seguida, rápido, porém muito seguro, com os dispositivos de auxílio à marcha usuais.) 1) Iniciação da marcha Pontuação: (0) Imediato e após o comando “vai” (qualquer hesitação ou múltiplas tentativas para iniciar). (1) Sem hesitação. 2) Comprimento e altura do passo a) Perna D em balanceio. Pontuação: (0) Não passao membro E. (1) Passa o membro E. (0) Pé D não se afasta completamente do solo com o passo. (1) Pé D se afasta completamente do solo. b) Perna E em balanceio. Pontuação: (0) Não passa o membro D. (1) Passa o membro D. (0) Pé E não se afasta completamente do solo com o passo. (1) Pé E se afasta completamente do solo. 53 ENFERMAGEM DO IDOSO 3) Simetria do passo Pontuação: (0) Passos D e E desiguais. (1) Passos D e E parecem iguais. 4) Continuidade do passo Pontuação: (0) Parada ou descontinuidade entre os passos. (1) Passos parecem contínuos. 5) Desvio da linha reta (distância aproximada de 3 m X 30 cm) Pontuação: (0) Desvio marcado. (1) Desvio leve e moderado ou usa dispositivo de auxílio à marcha. (2) Caminha em linha reta sem dispositivo de auxílio. 6) Tronco Pontuação: (0) Oscilação marcada ou usa dispositivo de auxílio à marcha. (1) Sem oscilação, mas com flexão de joelhos ou dor lombar ou afasta os braços enquanto anda. (2) Sem oscilação, sem flexão, sem uso dos braços ou de dispositivo de auxílio à marcha. 7) Base de apoio Pontuação: (0) Calcanhares afastados. (1) Calcanhares quase se tocando durante a marcha. Escore de marcha: ______/12. Adaptado de: SILVA et al. (2007, p. 91). 54 Unidade I 4.1.6 Teste Timed Up and Go (TUG) Neste teste os pacientes ficam sentados em uma cadeira comum (45 cm de altura) com suas costas encostadas nela. São instruídos a ficar em pé; andar por 3 m em uma linha reta no chão tão rapidamente quanto possível e conforme se sintam seguros; retornar para a cadeira, sentando-se na posição inicial. O principal objetivo desta avaliação é verificar os riscos de queda, assim como expor o(a) paciente a situações que avaliem o seu equilíbrio, tais como caminhar, dar voltas, sentar-se e levantar-se. O TUG tem se mostrado bastante efetivo na análise da deambulação e do equilíbrio em pessoas idosas. 4.1.7 Avaliação cognitiva: miniexame do estado mental (Meem) ou Teste de Folstein Cognição é um conjunto de capacidades mentais que permitem ao indivíduo compreender e resolver os problemas de seu cotidiano. Ela é bastante complexa, pode ser dividida em memória (capacidade de armazenamento de informações), função executiva (aptidão para planejamento, antecipação, sequenciamento e monitoramento de tarefas complexas), linguagem (faculdade de compreensão e expressão da linguagem oral e escrita), praxia (propensão para executar um ato motor), gnosia/ percepção (habilidade de reconhecimento de estímulos visuais, auditivos e táteis) e função visuoespacial (aptidão de localização no espaço e percepção das relações dos objetos entre si). A capacidade cognitiva é fundamental para a manutenção da autonomia e ela é uma das primeiras afetadas em quadros de demências. O exame cognitivo comumente utilizado em indivíduos senis é o minimental. Exemplo de aplicação Orientações para aplicação do Meem Orientação temporal/espacial: questão 2.a até 2.j pontuando 1 para cada resposta correta, máximo de 10 pontos. Registros: questão 3.1 até 3.d pontuação máxima de 3 pontos. Atenção e cálculo: questão 4.1 até 4.f pontuação máxima 5 pontos. Lembrança ou memória de evocação: 5.a até 5.d pontuação máxima 3 pontos. Linguagem: questão 5 até questão 10, pontuação máxima 9 pontos. Identificação do paciente Nome:__________________________________________________________ Data de nascimento/idade: ______ Sexo:___________ Escolaridade: Analfabeto ( ) 0 a 3 anos ( ) 4 a 8 anos ( ) mais de 8 anos ( ) Avaliação em: ____/____/____ Avaliador: _______________. 55 ENFERMAGEM DO IDOSO Orientação temporal/espacial Qual é o dia da semana?_____ 1 Dia do mês?______ 1 Mês?_______ 1 Ano?______ 1 Hora aproximada?___ 1 Onde estamos? Local?______ 1 Instituição (casa, rua)?___ 1 Bairro?______ 1 Cidade?_______ 1 Estado?______ 1 Registros Mencione três palavras levando um segundo para cada uma. Peça ao paciente para repetir as três palavras que você mencionou. Estabeleça um ponto para cada resposta correta. Vaso, carro, tijolo ________ 3 Atenção e cálculo Sete seriado (100-7 = 93-7 = 86-7 = 79-7 = 72-7 = 65). Estabeleça um ponto para cada resposta correta. Interrompa a cada cinco respostas. Ou soletrar a palavra MUNDO de trás para frente. ________ 5 Lembranças (memória de evocação) Pergunte o nome das três palavras aprendidos na questão 2. Estabeleça um ponto para cada resposta correta. ________ 3 Linguagem Aponte para um lápis e um relógio. Faça o paciente dizer o nome desses objetos conforme você os aponta _______ 2 56 Unidade I Faça o paciente. Repetir “nem aqui, nem ali, nem lá”. ______ 1 Faça o paciente seguir o comando de 3 estágios. “Pegue o papel com a mão direita. Dobre o papel ao meio. Coloque o papel na mesa”. _____ 3 Faça o paciente ler e obedecer ao seguinte: FECHE OS OLHOS. ____ 1 Faça o paciente escrever uma frase de sua própria autoria. (A frase deve conter um sujeito e um objeto e fazer sentido). (Ignore erros de ortografia ao marcar o ponto.) _____ 1 Copie o desenho a seguir. Estabeleça um ponto se todos os lados e ângulos forem preservados e se os lados da interseção formarem um quadrilátero. Avaliação do escore obtido. Total de pontos obtidos ______ Fonte: Araújo (2015, p. 68). Pontos de corte – Meem (BRUCKI et al., 2003). • 20 pontos para analfabetos; • 25 pontos para idosos com um a quatro anos de estudo; • 26,5 pontos para idosos com cinco a oito anos de estudo; • 28 pontos para aqueles com 9 a 11 anos de estudo; • 29 pontos para aqueles com mais de 11 anos de estudo. 4.1.8 Avaliação de humor (escala de depressão geriátrica) O humor é uma função indispensável para a preservação da autonomia do indivíduo, essencial para a realização das atividades de vida diária. A presença de sintomas depressivos é frequente entre os idosos, variando de 8% a 16%, e, muitas vezes, é negligenciada. O espectro dos problemas associados ao rebaixamento do humor ou baixa motivação varia desde a tristeza isolada até a depressão maior. Os transtornos depressivos podem ser acompanhados de tristeza ou não. 57 ENFERMAGEM DO IDOSO A depressão refere-se a uma síndrome psiquiátrica caracterizada por humor deprimido, perda do interesse ou prazer, alterações do funcionamento biológico, com repercussões importantes na vida do paciente, e dura meses ou anos. Não se trata de uma consequência natural do envelhecimento. Em 2030, estima-se que o transtorno depressivo unipolar venha a assumir a segunda posição como fator de incapacidade em todo o mundo e a primeira causa nas nações de renda per capita elevada (GONZALEZ, 2010). Escala de depressão geriátrica – GDS (YESAVAGE, 1983) 1. Está satisfeito(a) com sua vida? (não = 1) (sim = 0) 2. Diminuiu a maior parte de suas atividades e interesses? (sim = 1) (não = 0) 3. Sente que a vida está vazia? (sim = 1) (não = 0) 4. Aborrece-se com frequência? (sim = 1) (não = 0) 5. Sente-se de bem com a vida na maior parte do tempo? (não = 1) (sim = 0) 6. Teme que algo ruim possa lhe acontecer? (sim = 1) (não = 0) 7. Sente-se feliz a maior parte do tempo? (não = 1) (sim = 0) 8. Sente-se frequentemente desamparado(a)? (sim = 1) (não = 0) 9. Prefere ficar em casa a sair e fazer coisas novas? (sim = 1) (não = 0) 10. Acha que tem mais problemas de memória que a maioria? (sim = 1) (não = 0) 11. Acha que é maravilhoso estar vivo agora? (não = 1) (sim = 0) 12. Vale a pena viver como vive agora? (não = 1) (sim = 0) 13. Sente-se cheio(a) de energia? (não = 1) (sim = 0) 14. Acha que sua situação tem solução? (não = 1) (sim = 0) 15. Acha que tem muita gente em situação melhor? (sim = 1) (não = 0) Avaliação: 0 = Quando a resposta for diferente do exemplo entre parênteses. 1= Quando a resposta for igual ao exemplo entre parênteses. Total > 5 = suspeita de depressão. 58 Unidade I 4.2 Incontinência esfincteriana A prevalência da incontinência urinária varia de 30% a 60%, dependendo da idade e do grau de fragilidadedo idoso. Não é considerada produto inevitável do envelhecimento fisiológico ou da senescência. Suas consequências são mais de ordem social, pois limita a convivência social. A presença de incontinência esfincteriana deve ser prontamente reconhecida, solicitando-se ao paciente a descrição da sua micção (volume, frequência, intervalo, aspecto etc.), dando-se ênfase na presença de urgência miccional e noctúria, sintomas comumente associados a esta condição. O diagnóstico de incontinência urinária deve ser seguido por uma ampla investigação das possíveis causas. Atualmente o tratamento é mais acessível, propondo-se exercícios e mudanças de hábitos de ingesta e posturais. A incontinência urinária (IU) pode ser de curta duração ou de longa duração. A IU de curta duração geralmente apresenta causas transitórias (constipação intestinal, infecção do trato urinário – ITU, fármacos), enquanto que a IU de longa duração pode ser de urgência, de esforço, de transbordamento ou mista, dependendo da causa subjacente (MORAES, 2012, p. 33). 4.2.1 Avaliação de vida diária (AVD) As tarefas do cotidiano necessárias para que o indivíduo cuide de si e de sua própria vida são denominadas atividades de vida diária (AVD). Podem ser classificadas, conforme o grau de complexidade, em básicas, instrumentais e avançadas. Quanto maior for a complexidade da AVD, mais solicitado o funcionamento adequado dos sistemas funcionais principais (cognição, humor, mobilidade e comunicação). As atividades de vida diária básicas são fundamentais para a autopreservação e sobrevivência do indivíduo, como o próprio nome determina, e referem-se às tarefas do cotidiano necessárias para o cuidado com o corpo, tais como tomar banho, vestir-se, higiene pessoal (uso do banheiro), transferência (cama, cadeira, vaso sanitário), continência esfincteriana e alimentar-se sozinho. As atividades relacionadas à higiene e ao asseio pessoal (banhar-se, vestir-se e uso do banheiro) são influenciadas pela cultura e também dependem da temperatura local e da ocasião para cada tipo de vestimenta, por exemplo; logo, elas são mais complexas. Ações como transferência, continência e alimentação são funções vegetativas simples, portanto mais difíceis de serem perdidas, ou são as últimas a serem perdidas na evolução de doenças degenerativas como o Alzheimer. O declínio funcional inicia-se por tarefas mais complexas, como o banhar-se, e progride hierarquicamente até chegar ao nível de dependência completa, quando o paciente necessita de ajuda inclusive durante as refeições. O comprometimento do controle esfincteriano, isoladamente, pode não refletir maior grau de dependência, por ser uma função, e não uma tarefa. A gravidade do declínio funcional nas AVD básicas pode ser classificada em: • Independência: são executadas todas as atividades básicas de vida diária de forma independente, o que sugere a possibilidade de a pessoa idosa viver sozinha. 59 ENFERMAGEM DO IDOSO • Semidependência: representa complicação, pelo menos, de uma das funções influenciadas pela cultura (banhar-se e/ou vestir-se e/ou o uso do banheiro), indicando a necessidade de auxílio nas tarefas comprometidas, o que também requer acompanhamento para realizá-las. • Dependência incompleta: dificuldade em efetuar uma das funções vegetativas simples (transferência e/ou continência), além de, obviamente, ser dependente para banhar-se, vestir-se e usar o banheiro. Este idoso não tem possibilidade de viver sozinho e depende de auxílio para muitas atividades básicas. • Dependência completa: não conseguir cumprir nenhuma das AVD, inclusive a alimentação. Traduz o grau máximo de dependência funcional. Neste caso deve haver supervisão profissional. Como já exposto, as AVD são as tarefas que uma pessoa precisa realizar para cuidar de si, como: tomar banho, vestir-se, ir ao banheiro, andar, comer, passar da cama para a cadeira, mover-se na cama e ter continências urinária e fecal. As AIVD são as habilidades do idoso para administrar o ambiente em que vive e incluem as seguintes ações: preparar refeições, fazer tarefas domésticas, lavar roupas, manusear dinheiro, usar o telefone, tomar medicações, fazer compras e utilizar os meios de transporte (COSTA; NAKATANI; BACHION, 2006). Há vários instrumentos para análise do estado funcional de idosos, e muitos são aplicados sem um estudo prévio de suas medidas psicométricas. A escolha adequada do dispositivo certamente depende do ambiente operacional e dos objetivos do estudo. Entretanto, a seleção correta pressupõe conhecer formalmente os resultados de validade e confiabilidade do método em questão. Apresentamos a seguir alguns instrumentos mais aplicados. Exemplo de aplicação Avaliações funcionais. Escala das atividades instrumentais da vida diária – AIVD. Paciente: ______________________________________ Idade: ___ Data de avaliação: ______. 1 – Cuidados pessoais A – Alimentação. 0 = normal. 1 = independente. 2 = necessita de ajuda para cortar ou servir, derruba com frequência. 3 = deve ser alimentado na maioria das refeições. 60 Unidade I B – Vestir-se. 0 = normal. 1 = independente, mas lento e desajeitado. 2 = sequência errada, esquece itens. 3 = necessita de ajuda para vestir-se. C – Banho. 0 = normal. 1 = banha-se sozinho, mas necessita ser lembrado. 2 = banha-se sozinho, com assistência. 3 = deve ser banhado por outros. D – Eliminações fisiológicas. 0 = vai ao banheiro independentemente. 1 = vai ao banheiro quando lembrado: alguns problemas. 2 = precisa de assistência para a atividade. 3 = não tem controle sobre fezes e urina. E – Medicação. 0 = lembra sem ajuda. 1 = lembra-se quando a medicação é deixada em local especial. 2 = necessita de lembretes escritos ou falados. 3 = deve receber a medicação de outros. F – Interesse na aparência pessoal. 0 = o mesmo de sempre. 61 ENFERMAGEM DO IDOSO 1 = interessa-se quando vai sair, mas não em casa. 2 = permite ser arrumado ou o faz quando solicitado. 3 = resiste para ser limpo e trocado por terceiros. 2 – Cuidados domésticos A – Preparação de comida, cozinhar. 0 = planeja e prepara comida sem dificuldades. 1 = cozinha, mas menos que o habitual ou com menos variedade. 2 = pega a comida somente se esta já estiver preparada. 3 = nada faz para preparar a comida. B – Arrumação da mesa. 0 = normal. 1 = independente, mas lento ou desajeitado. 2 = esquece-se de itens ou os coloca em local errado. 3 = não realiza mais esta atividade. C – Trabalhos domésticos. 0 = mantém a casa como de costume. 1 = faz apenas metade do seu trabalho. 2 = ocasionalmente varre a casa ou faz pequenos serviços. 3 = não cuida mais da casa. D – Reparos domésticos. 0 = realiza todos os reparos habituais. 1 = realiza ao menos metade dos reparos habituais. 62 Unidade I 2 = ocasionalmente faz reparos menores. 3 – não faz mais nenhum reparo. E - Lavar roupas. 0 = lava-as como de costume (rotina). 1 = lava com menor frequência. 2 = lava apenas se lembrado; esquece o sabão. 3 = não lava mais as roupas. 3 – Trabalho e recreação A – Trabalho. 0 = trabalha normalmente. 1 = problemas leves com responsabilidades de rotina. 2 = trabalha em atividade mais fácil ou meio período; medo de perder o emprego. 3 = não trabalha mais. B – Recreação. 0 = a mesma habitual. 1 = atividade recreacional menos frequente. 2 = perdeu certas habilidades necessárias para atividades recreativas, deve ser persuadido a participar das atividades. 3 = não possui mais atividades recreacionais. C – Organizações. 0 = comparece a encontros; mantém as responsabilidades como sempre. 1 = comparece menos frequentemente. 2 = comparece ocasionalmente, não tem maiores responsabilidades. 63 ENFERMAGEM DO IDOSO 3 = não comparece mais aos encontros. D – Viagens. 0 = o mesmo que o habitual. 1 = viaja se alguém mais dirigir. 2 = viaja em cadeira de rodas. 3 = limitado à casa ou ao hospital. 4 – Compras e dinheiro A - Compra de comidas. 0 = normal. 1= esquece de itens ou compra itens desnecessários. 2 = necessita ser acompanhado enquanto faz as compras. 3 = não mais faz as compras. B – uso de dinheiro. 0 = normal. 1 = tem dificuldade em pagar valores exatos, contar o dinheiro. 2 = perde ou coloca o dinheiro em local errado. 3 = não mais manipula o dinheiro. C – Administração das finanças. 0 = pagamento de contas e serviços bancários normais. 1 = paga contas atrasadas, dificuldade para preencher cheques. 2 = esquece de pagar as contas, problemas para administrar o saldo bancário; necessita ajuda de terceiros. 3 = não administra mais as finanças. 64 Unidade I 5 – Locomoção A – Transporte público. 0 = utiliza transporte público normalmente. 1 = utiliza transporte público menos frequentemente. 2 = perde-se utilizando transporte público. 3 = não usa mais transporte público. B – Condução de veículos. 0 = dirige normalmente. 1 = dirige mais cautelosamente. 2 = dirige menos cuidadosamente; perdeu-se enquanto dirigia. 3 = não dirige mais. C – Mobilidade pela vizinhança. 0 = normal. 1 = sai de casa menos frequentemente. 2 = perde-se nas proximidades de casa. 3 = não sai mais desacompanhado(a). D – Locomoção fora de locais familiares. 0 = normal. 1 = ocasionalmente fica desorientado em locais estranhos. 2 = fica muito desorientado, mas locomove-se se acompanhado. 3 = não é mais capaz de sair. 6 – Comunicação A – Uso do telefone. 0 = normal. 1 = liga apenas para alguns números familiares. 65 ENFERMAGEM DO IDOSO 2 = apenas atende ao telefone. 3 = não usa mais o telefone. B – Conversas. 0 = normal. 1 = menos falante; dificuldade de lembrar-se de normas ou palavras. 2 = comete erros ocasionais de fala. 3 – fala quase ininteligível. C – Compreensão. 0 = compreende tudo o que lhe é dito. 1 = solicita que repitam. 2 = tem dificuldade em compreender conversações ou palavras específicas, ocasionalmente. 3 = não compreende o que as pessoas falam na maior parte do tempo. D – Leitura. 0 = normal. 1 = lê com menor frequência. 2 = tem dificuldade em compreender ou lembrar-se do que leu. 3 = não lê mais. E – Escrita. 0 = normal. 1 = escreve com menor frequência, erros ocasionais. 2 = apenas assina o nome. 3 = nunca escreve. 66 Unidade I 7 – Relações sociais (cônjuge) A – Relações familiares. 0 = normais. 1 = pequenos problemas matrimoniais. 2 = sérios problemas matrimoniais. 3 – divorciado, separado, sem mais relacionamentos. B – Relações familiares (crianças). 0 = normais. 1 = facilmente irritável, punições intempestivas. 2 = negligencia as necessidades físicas e emocionais dos filhos. 3 = incapacitado para cuidar das crianças. C – Amigos. 0 = encontra os amigos com a mesma frequência. 1 = encontra os amigos com menos frequência. 2 = aceita visitas, mas não procura companhia. 3 = recusa-se à vida social; insulta os visitantes. Pontuação total: /90. Adaptado de: Lawton; Brody (1969). 67 ENFERMAGEM DO IDOSO 4.2.2 Avaliação das atividades de vida diária (AVD) Outra proposta de avaliação é a indicada por Pfeffer (1982). Vejamos o exemplo a seguir: Exemplo de aplicação. 1. Ele (Ela) é capaz de preparar uma comida? 2. Ele (Ela) manuseia seu próprio dinheiro? 3. Ele (Ela) é capaz de manusear seus próprios remédios? 4. Ele (Ela) é capaz de comprar roupas, comida, coisas para casa sozinho(a)? 5. Ele (Ela) é capaz de esquentar a água para o café e apagar o fogo? 6. Ele (Ela) é capaz de manter-se em dia com as atualidades, com os acontecimentos da comunidade ou da vizinhança? 7. Ele (Ela) é capaz de prestar atenção, entender e discutir um programa de rádio ou televisão, um jornal ou uma revista? 8. Ele (Ela) é capaz de lembrar-se de compromissos, acontecimentos, familiares, feriados? 9. Ele (Ela) é capaz de passear pela vizinhança e encontrar o caminho de volta para casa? 10. Ele (Ela) pode ser deixado(a) em casa sozinho(a) de forma segura? Pontuação – escore. 0. Normal. 1. Faz, com dificuldade. 2. Necessita de ajuda. 3. Não é capaz. 0. Nunca o fez, mas poderia fazê-lo/ 1. Nunca o fez e agora teria dificuldade. Avaliação: para cada questão o idoso pode obter de 0 a 3 pontos, totalizando um máximo de 30 pontos. Uma pontuação maior ou igual a 5 pontos já caracteriza o idoso como dependente. Fonte: Pfeffer (1982). 68 Unidade I 4.2.3 Avaliação das atividades de vida diária (AVD) – Índice de Katz O Índice de Katz, embora tenha abrangência limitada, é útil e facilmente aplicável no consultório, por sua praticidade. Todos os testes sugeridos até agora, incluindo o das AVD, devem considerar próteses, problemas de coluna, articulações e mobilidade. Por vezes, o idoso tem acuidade auditiva reduzida e não executa uma ordem por não ouvi-la, e não por não ter competência. Exemplo de aplicação. Atividades básicas da vida diária (ABVD) – Índice de Katz (1963). Banho – sem ajuda ou apenas para uma parte do corpo – ( ) sim ( ) não. Vestir – sem ajuda ou apenas para amarrar o sapato – ( ) sim ( ) não. Toalete – arruma-se sem ajuda – ( ) sim ( ) não. Mobilidade – sai da cama ou da cadeira sem ajuda – ( ) sim ( ) não. Continência – controla a micção e a evacuação – raros acidentes – ( ) sim ( ) não. Alimentação – alimenta-se sem ajuda ou ajuda apenas para cortar a carne – ( ) sim ( ) não. Total de “sim”: ____________ Índice de Katz: _____________. Fonte: Pfeffer (1982). 4.2.4 Avaliação das atividades de vida diária – Índice de Barthel Exemplo de aplicação Alimentação 1. Dependente. Precisa ser alimentado. 2. Assistência ativa durante toda tarefa. 3. Supervisão na refeição e assistência para tarefas associadas (sal, manteiga, fazer o prato). 4. Independente, exceto para tarefas complexas como cortar a carne e abrir o leite. 69 ENFERMAGEM DO IDOSO 5. Independente. Come sozinho, quando a comida é colocada ao seu alcance. Deve ser capaz de fazer as ajudas técnicas quando necessário. Higiene pessoal 1. Dependente. Incapaz de encarregar-se da higiene pessoal. 2. Alguma assistência em todos os passos das tarefas. 3. Alguma assistência em um ou mais passos das tarefas. 4. Assistência mínima antes e/ou depois das tarefas. 5. Independente para todas as tarefas como lavar seu rosto e suas mãos, pentear-se, escovar os dentes e fazer a barba. Inclusive usar um barbeador elétrico ou de lâmina, colocar a lâmina ou ligar o barbeador, assim como alcançá-las do armário. As mulheres devem conseguir se maquiar e fazerem penteados, se for o caso. Uso do banheiro 1. Dependente. Incapaz de realizar esta tarefa. Não participa. 2. Assistência em todos os aspectos das tarefas. 3. Assistência em alguns aspectos como nas transferências, manuseio das roupas, limpar-se, lavar as mãos. 4. Independente com supervisão. Pode utilizar qualquer barra na parede ou qualquer suporte se o necessitar. Uso de urinol à noite, mas não é capaz de esvaziá-lo e limpá-lo. 5. Independente em todos os passos. Se for necessário o uso de urinol, deve ser capaz de colocá-lo, esvaziá-lo e limpá-lo. Banho 1. Dependente em todos os passos. Não participa. 2. Assistência em todos os aspectos. 3. Assistência em alguns passos como a transferência, para lavar ou enxugar ou para completar algumas tarefas. 4. Supervisão para segurança, ajustar temperatura ou na transferência. 70 Unidade I 5. Independente. Deve ser capaz de executar todos os passos necessários sem que nenhuma outra pessoa esteja presente. Continência do esfíncter anal 1. Incontinente. 2. Assistência para assumir a posição apropriada e para as técnicas facilitatórias de evacuação. 3. Assistência para uso das técnicas facilitatórias e para limpar-se. Frequentemente tem evacuações acidentais. 4. Supervisão ou ajuda para pôr o supositório ou enema. Tem algum acidente ocasional. 5. O paciente é capaz de controlar o esfíncter anal sem acidentes. Pode usar um supositório ou enemas quando for necessário. Continência do esfíncter vesical 1. Incontinente. Uso de caráter interno. 2.Incontinente, mas capaz de ajudar com um dispositivo interno ou externo. 3. Permanece seco durante o dia, mas não à noite, necessitando de assistência de dispositivos. 4. Tem apenas acidentes ocasionais. Necessita de ajuda para manusear o dispositivo interno ou externo (sonda ou cateter). 5. Capaz de controlar seu esfíncter de dia e de noite. Independente no manejo dos dispositivos internos e externos. Vestir-se 1. Incapaz de vestir-se sozinho. Não participa da tarefa. 2. Assistência em todos os aspectos, mas participa de alguma forma. 3. Assistência é requerida para colocar e/ou remover alguma roupa. 4. Assistência apenas para fechar botões, zíperes, amarrar sapatos, sutiã etc. 5. O paciente pode vestir-se, ajustar-se e abotoar toda a roupa e dar laço (inclui o uso de adaptações). Esta atividade inclui o colocar de órteses. Pode usar suspensórios, calçadeiras ou roupas abertas. 71 ENFERMAGEM DO IDOSO Transferências (cama e cadeira) 1. Dependente. Não participa da transferência. Necessita de ajuda (duas pessoas). 2. Participa da transferência, mas necessita de ajuda máxima em todos os aspectos da transferência. 3. Assistência em algum dos passos desta atividade. 4. Precisa ser supervisionado ou recordado de um ou mais passos. 5. Independente em todas as fases desta atividade. O paciente pode aproximar da cama (com sua cadeira de rodas), bloquear a cadeira, levantar os pedais, passar de forma segura para a cama, virar-se, sentar-se na cama, mudar de posição a cadeira de rodas, se for necessário para voltar e sentar-se nela e voltar à cadeira de rodas Subir e descer escadas 1. Incapaz de usar degraus. 2. Assistência em todos os aspectos. 3. Sobe e desce, mas precisa de assistência durante alguns passos desta tarefa. 4. Necessita de supervisão para segurança ou em situações de risco. 5. Capaz de subir e descer escadas de forma segura e sem supervisão. Pode usar corrimão, bengalas e muletas, se for necessário. Deve ser capaz de levar o auxílio tanto ao subir quanto ao descer. Deambulação 1. Dependente na deambulação. Não participa. 2. Assistência por uma ou mais pessoas durante toda a deambulação. 3. Assistência necessária para alcançar apoio e deambular. 4. Assistência mínima ou supervisão nas situações de risco ou período durante o percurso de 50 metros. 5. Independente. Pode caminhar ao menos 50 metros sem ajuda ou supervisão. Pode usar órtese, bengalas, andadores ou muletas. Deve ser capaz de bloquear e desbloquear as órteses, levantar-se e sentar-se utilizando as correspondentes ajudas técnicas e colocar os auxílios necessários na posição de uso. 72 Unidade I Manuseio da cadeira de rodas (alternativa para deambulação) 1. Dependente na deambulação em cadeira de rodas. 2. Propulsiona a cadeira por curtas distâncias, superfícies planas. Assistência em todo o manejo da cadeira. 3. Assistência para manipular a cadeira para a mesa, cama, banheiro... 4. Propulsiona em terrenos irregulares. Assistência mínima em subir e descer degraus, guias. 5. Independente no uso de cadeira de rodas. Faz as manobras necessárias para se deslocar e propulsiona a cadeira por pelo menos 50 m. Total avaliação: a pontuação adotada pelo Índice de Barthel Modificado e sua relação com o grau de assistência e independência é: 1. Dependente total ou incapacidade de realizar a tarefa. 2. Assistência em todos os aspectos. 3. Assistência em alguns passos da tarefa. 4. Assistência mínima ou supervisão na tarefa 5. Totalmente independente. Escore 10 – Dependência total. 11-30 – Dependência severa. 31-45 – Dependência moderada. 46-49 – Ligeira dependência. 50 – Independência total. Fonte: Minosso (2010). 73 ENFERMAGEM DO IDOSO Observação A escolha dos testes a serem aplicados, bem como a interpretação dos resultados, dependem do conhecimento teórico e da vivência do profissional. 4.2.5 Atividades avançadas de vida diária (AAVD) As AAVD constituem um conjunto de atividades de lazer, realizadas no tempo livre, independentes do trabalho, que incluem o voluntariado, as atividades educacionais e a participação social na comunidade, e estas dependem de motivação pessoal para serem efetuadas. São cada vez mais comuns, haja vista a população idosa permanecer ativa por muito tempo. Podem ser divididas em físicas e sociais, produtivas, físicas e de lazer, conforme a finalidade e a natureza das atividades. Todas representam um ganho social e cognitivo para o geronte envolvido. Na literatura gerontológica, elas podem indicar boa saúde física e mental, e a redução do engajamento nessas atividades pode sugerir início de declínio funcional, alterações cognitivas e fragilidade. Em vista disso, é preciso avaliar se a redução não se deve a limitações físicas como as dificuldades de caminhar até o local (OLIVEIRA, 2015). Na prática clínica, a análise das atividades avançadas de vida diária não é executada de forma sistemática e não foi incorporada à avaliação gerontológica. É mais recente, e poucos autores têm se dedicado ao estudo das AAVD no exame funcional do idoso, apesar da assumida importância da participação dos gerontes em atividades sociais, produtivas e de lazer na melhoria de suas condições de saúde e de qualidade de vida (DIAS et al., 2011). São exemplos para avaliar as AAVD: • atividades de lazer – assistir à TV, praticar atividades físicas, dirigir automóvel, preparar refeições para amigos e familiares, praticar esportes, fazer atividades manuais como crochê ou bordado, praticar jardinagem, ler jornais, livros ou revistas, realizar passatempos como palavras cruzadas, pescar, tocar instrumento musical, viajar, preencher formulários ou operar atividades intelectuais; • atividades sociais – participar de atividades políticas, manter contatos sociais diversos, fazer chamadas telefônicas, frequentar restaurantes, participar de eventos sociais, participar de grupos sociais ou religiosos, relacionar-se com amigos e familiares, visitar amigos ou parentes, utilizar redes sociais; • atividades produtivas – prestação de serviços comunitários, trabalhar, exercer voluntariado, praticar atividades religiosas solitárias ou mesmo ações profissionais remuneradas (DIAS et al., 2011). 74 Unidade I 4.3 Grandes síndromes geriátricas As AVD indicam o grau de autonomia e independência do indivíduo idoso. Entende-se por autonomia a capacidade individual de decisão e comando sobre as suas ações, estabelecendo e seguindo as próprias regras. Significa, ainda, aptidão para decidir e depende diretamente da cognição e do humor. A independência, por sua vez, refere-se à habilidade de realizar algo com os próprios meios. Significa execução e depende diretamente de mobilidade e comunicação. Portanto, a saúde do idoso é determinada pelo funcionamento de quatro domínios funcionais: cognição, humor, mobilidade e comunicação (HAMMERSCHMIDT, 2010; MORAES, 2010). A cognição e a capacidade mental de compreender e resolver os problemas do cotidiano são constituídas de um conjunto de funções formadas pela memória (capacidade de armazenamento de informações), função executiva (aptidão para planejamento, antecipação, sequenciamento e monitoramento de tarefas complexas), linguagem (faculdade de compreensão e expressão da linguagem oral e escrita), praxia (capacidade de executar um ato motor), gnosia (reconhecimento de estímulos visuais, auditivos e táteis) e função visuoespacial (consegue localizar-se no espaço e tem percepção das relações dos objetos entre si). O humor e a motivação necessários para os processos mentais de idosos, além da mobilidade e da capacidade de deslocamento do indivíduo, dependem da postura/marcha, da eficiência aeróbica e da continência esfincteriana. A comunicação e a habilidade de estabelecer relacionamento produtivo com o meio (competência para se comunicar) dependem de visão, audição e fala. “A perda dessas funções resulta nas grandes síndromes geriátricas: incapacidade cognitiva, instabilidadepostural, imobilidade e incapacidade comunicativa” (MORAES; MARINO; SANTOS, 2009). O desconhecimento das particularidades do processo de envelhecimento pode gerar intervenções capazes de piorar o estado de saúde da pessoa idosa – a iatrogenia, que representa todo o malefício causado por profissionais da área de saúde. A incontinência urinária também é reconhecida como uma das grandes síndromes geriátricas. Ela afeta a independência do paciente, comprometendo, indiretamente, a função de mobilidade. O idoso com incontinência esfincteriana sofre limitação de sua participação social em virtude da insegurança gerada pela perda do controle miccional. [A] família, por sua vez, é outro elemento fundamental para o bem-estar biopsicossocial e sua ausência é capaz de desencadear ou perpetuar a perda de autonomia e independência do idoso (insuficiência familiar) (MORAES; MARINO; SANTOS, 2009). Resumo Nesta unidade, Souza (2013, p. 17) destaca que “muitas pessoas idosas são acometidas por doenças e agravos crônicos não transmissíveis (Dant) – estados permanentes ou de longa permanência – que requerem acompanhamento constante, pois, em razão da sua natureza, não têm cura”. 75 ENFERMAGEM DO IDOSO Segundo o autor, ainda que não sejam fatais, essas condições geralmente tendem a comprometer de forma significativa a qualidade de vida dos idosos (SOUZA, 2013, p. 17). A diminuição das capacidades sensório-perceptivas, que ocorre no processo natural de senilização, pode afetar a comunicação e a socialização dos gerontes. Essa realidade interfere na qualidade de vida desses indivíduos, o que pode resultar em seu isolamento e na consequente somatização de problemas à sua saúde. Os idosos muitas vezes tardam em perceber, aceitar e tratar suas dificuldades, por isso acabam se afastando do convívio familiar e social para evitar situações constrangedoras. Expressões como “isso é coisa de velho”; “não tenho paciência com ele(a)”; “você está velho(a)”; você está ficando surdo(a)” etc. desestimulam o paciente senil, o que prejudica muitas vezes a busca, por parte deste(a), de um tratamento adequado à sua condição de saúde. A atenção à saúde do geronte por meio da avaliação da capacidade funcional tem demonstrado ser mais significativa nas intervenções preventivas do que apenas na presença ou ausência de doenças. O acompanhamento de sua saúde, portanto, é necessário antes e no decorrer do processo de envelhecimento, evitando-se, assim, o agravamento de afecções preveníveis e/ou tratáveis. Exercícios Questão 1. (UEPB, 2010) A estrutura etária da população tem reflexos importantes na economia de um país. Logo, a tendência dos grupos etários representados no gráfico nos leva à reflexão de que: % 40 35 30 25 20 15 10 5 0 1980 *Projeção 1990 2000 2010 2020* População entre 0 e 14 anos População acima dos 60 anos Figura 2 - Brasil: Mudanças na estrutura etária da população 76 Unidade I I – Em 1980, 38% da população tinham entre 0 a 14 anos de idade, em 2000 esse percentual cai para 29%, e, de acordo com as projeções do IBGE, em 2020 as crianças e jovens menores de 14 anos serão apenas 23% da população do país. II – A participação relativa de idosos na população total vem aumentando significativamente. Em 1980, as pessoas com mais de 60 anos de idade representavam apenas 6%; em 2000 já perfaziam 7% e em 2020 totalizarão 13%. III – As estatísticas oficiais afirmam que, em 2006, 97% da população entre 7 e 14 anos frequentavam a escola. Como a população, nessa faixa etária, tende a diminuir em termos relativos e a permanecer estável em termos absolutos, não será necessário ampliar o número de vagas já existentes nas escolas fundamentais e sim melhorar a universalização do ensino médio e a qualidade das escolas, em todos os níveis. IV – A projeção nos mostra que nas próximas décadas haverá um acelerado crescimento da população de idosos, resultante do aumento da expectativa de vida. Essas alterações no padrão demográfico brasileiro agravam a crise estrutural do sistema de previdência social no Brasil, mas, por outro lado, aumentam de maneira significativa a importância dos idosos no mercado de consumo (casas de repouso, atividades recreativas, educação continuada na área de informática, ensino de línguas estrangeiras e uma boa pedida para a indústria do turismo). É correto apenas o que se destaca nas afirmativas: A) II e III. B) I e II. C) Todas as afirmativas estão corretas. D) II e IV. E) I e IV. Resposta correta: alternativa C. Análise das afirmativas I) Afirmativa correta. Justificativa: a urbanização, a queda da fecundidade da mulher, o planejamento familiar, a utilização de métodos de prevenção à gravidez, a mudança ideológica da população são todos fatores que contribuem para a redução do crescimento populacional. 77 ENFERMAGEM DO IDOSO II) Afirmativa correta. Justificativa: apesar dessa queda brusca no crescimento vegetativo, a população brasileira não irá reduzir rapidamente, pois a expectativa de vida está aumentando, em virtude do desenvolvimento de novas tecnologias medicinais, além de cuidados e preocupação com a saúde, o que não ocorria com tanta frequência nas décadas anteriores. Ocorrerá, sim, o envelhecimento da população. III) Afirmativa correta. Justificativa: nos países subdesenvolvidos os jovens superam os adultos e os idosos, consequência do alto crescimento vegetativo e da baixa expectativa de vida. Essa situação coloca os países subdesenvolvidos numa situação de desvantagem, particularmente os pobres que possuem famílias mais numerosas: sustentar um número maior de filhos limita as possibilidades do Estado e da família em oferecer uma formação de boa qualidade, coloca a criança no mercado de trabalho e reproduz o círculo vicioso da pobreza e da miséria ao dificultar a possibilidade de ascensão social futura. IV) Afirmativa correta. Justificativa: nos países desenvolvidos, a estrutura etária é caracterizada pela presença marcante da população adulta e de uma porcentagem expressiva de idosos, consequência do baixo crescimento vegetativo e da elevada expectativa de vida. Essa situação tem levado a reformas sociais, particularmente, no sistema previdenciário em diversos países do mundo, já que o envelhecimento da população obriga o Estado a destinar boa parte de seus recursos econômicos para a aposentadoria. Questão 2. (CESPE, 2013) No que se refere à condição de saúde dos idosos brasileiros, assinale a alternativa correta. A) O combate à violência contra os idosos requer políticas específicas para as comunidades mais pobres, uma vez que é nesse estrato social que as agressões físicas são cometidas pelos próprios familiares. B) As políticas de saúde para a população idosa têm como meta ampliar a expectativa de vida, para mais de oitenta anos, em todos os estratos sociais da população brasileira. C) Na última década, foi notificado um decréscimo no número de casos de Aids/HIV na população brasileira, o que faz dos idosos uma população não vulnerável a essa doença. D) A elevada incidência de osteoporose e quedas em idosos brasileiros tem exigido a formulação de políticas de saúde para tratar dessa problemática. E) Envelhecimento ativo é um conceito polissêmico presente nas políticas públicas de saúde direcionadas ao idoso, que demanda uma abordagem multidimensional do indivíduo com sessenta anos de idade ou mais. Resolução desta questão na plataforma.