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AN02FREV001/REV 4.0 1 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA Portal Educação CURSO DE FISIOTERAPIA APLICADA À GERIATRIA E GERONTOLOGIA Aluno: EaD - Educação a Distância Portal Educação AN02FREV001/REV 4.0 2 CURSO DE FISIOTERAPIA APLICADA À GERIATRIA E GERONTOLOGIA MÓDULO I Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este Programa de Educação Continuada. É proibida qualquer forma de comercialização ou distribuição do mesmo sem a autorização expressa do Portal Educação. Os créditos do conteúdo aqui contido são dados aos seus respectivos autores descritos nas Referências Bibliográficas. AN02FREV001/REV 4.0 3 SUMÁRIO MÓDULO I INTRODUÇÃO 1 HISTÓRICO 2 GERONTOLOGIA COMO DISCIPLINA E CIÊNCIA DO ENVELHECIMENTO 3 DIVISÕES DA CIÊNCIA DO ENVELHECIMENTO 4 DEFINIÇÃO DE ENVELHECIMENTO 5 TEORIAS BIOLÓGICAS DO ENVELHECIMENTO 5.1 TEORIAS ESTOCÁSTICAS 5.2 TEORIAS DE USO E DESGASTE 5.3 PROTEÍNAS ALTERADAS 5.4 MUTAÇÕES SOMÁTICAS 5.5 ERRO CATASTRÓFICO 5.6 DESDIFERENCIAÇÃO 5.7 DANOS OXIDATIVOS E RADICAIS LIVRES 5.8 MUDANÇAS PÓS-TRADUÇÃO EM PROTEÍNAS 5.9 TEORIAS METABÓLICAS 5.10 TEORIAS GENÉTICAS 5.11 OUTRAS TEORIAS 6 PREVENÇÃO: GERIATRIA PREVENTIVA 6.1 PRIMÁRIA 6.2 SECUNDÁRIA 6.3 TERCIÁRIA 6.4 PLANEJAMENTO E ADAPTAÇÃO DE AMBIENTES PARA IDOSOS 6.5 IMPORTÂNCIA DA PREVENÇÃO MÓDULO II 7 EPIDEMIOLOGIA AN02FREV001/REV 4.0 4 7.1 EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA 7.2 CAUSAS DO ENVELHECIMENTO 7.3 OS EFEITOS DA EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA 7.4 A EXPECTATIVA DE VIDA AO NASCER 7.5 TRANSIÇÃO EPIDEMIOLÓGICA 7.6 QUALIDADE DE VIDA 7.6.1 Instrumentos de Avaliação de Qualidade de Vida na Velhice 7.7 AVALIAÇÃO DO IDOSO 7.7.1 Anamnese 7.7.2 Exame Físico MÓDULO III 8 FISIOPATOLOGIA DO ENVELHECIMENTO 8.1 SISTEMA NERVOSO 8.2 SISTEMA CARDIOVASCULAR 8.2.1 Alterações Morfológicas 8.2.1.1 Pericárdio 8.2.1.2 Endocárdio 8.2.1.3 Miocárdio 8.2.2 Alterações das Valvas 8.2.3 Alterações do Sistema de Condução ou Específico 8.2.4 Alterações da Aorta 8.2.5 Alterações das Artérias Coronárias 8.3 SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO 8.4 SISTEMA RESPIRATÓRIO 8.4.1 Alterações Estruturais do Sistema Respiratório 8.4.1.1 Pulmão 8.4.1.2 Parede torácica 8.4.1.3 Músculos respiratórios 8.4.1.4 Alterações da função pulmonar 8.5 SISTEMA DIGESTÓRIO 8.6 SISTEMA ENDÓCRINO AN02FREV001/REV 4.0 5 8.7 SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO 8.8 SISTEMA URINÁRIO 8.8.1 Envelhecimento da Bexiga 8.9 ENVELHECIMENTO CUTÂNEO MÓDULO IV 9 PATOLOGIAS E TRATAMENTO FISIOTERÁPICO 9.1 IDOSOS PORTADORES DE DOENÇAS REUMÁTICAS 9.1.1 Osteoartrose 9.1.2 Tratamento Fisioterápico 9.2 OSTEOPOROSE 9.2.1 Sintomas 9.2.2 Tratamento Fisioterápico 9.3 SARCOPENIA 9.3.1 Tratamento Fisioterápico 9.4 DISFUNÇÕES NEUROLÓGICAS 9.4.1 Demências 9.4.1.1 Tratamento fisioterápico 9.4.2 Doença de Alzheimer 9.4.3 Delirium 9.4.4 Depressão no Idoso 9.4.5 Acidente Vascular Encefálico (AVE) 9.4.6 Doença de Parkinson (DP) 9.4.6.1 Tratamento fisioterápico 9.5 DISFUNÇÕES CARDIOCIRCULATÓRIAS 9.5.1 Principais Doenças da Artéria Coronária 9.5.2 Infarto Agudo do Miocárdio 9.5.3 Hipertensão 9.5.4 Programa de Exercícios 9.6 DISFUNÇÕES RESPIRATÓRIAS 9.6.1 Doenças Pulmonares que mais Acometem o Idoso 9.6.1.1 Infecções AN02FREV001/REV 4.0 6 9.6.1.2 DPOC 9.6.2 Tratamento Ambulatorial e Reabilitação Pulmonar 9.7 DISFUNÇÕES URINÁRIAS E SEXUAIS 9.7.1 Técnicas Fisioterapêuticas para Revitalização Geriátrica GLOSSÁRIO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AN02FREV001/REV 4.0 7 MÓDULO I INTRODUÇÃO O processo de envelhecimento e sua consequência natural, a velhice, é uma das preocupações da humanidade desde o início da civilização. A história demonstra que as ideias sobre a velhice são tão antigas quanto à origem da humanidade. Feitas essas ressalvas, é preciso deixar claro que realmente o século XX marcou grandes avanços na ciência do envelhecimento, graças aos conhecimentos adquiridos por meio dos estudos que se desenvolveram desde que os pioneiros Metchhnickoff e Nascher, em 1903 e 1909, respectivamente, estabeleceram os fundamentos da gerontologia e geriatria. 1 HISTÓRICO O século XX marcou a importância do estudo da velhice, fruto, de um lado, da natural tendência de crescimento do interesse em pesquisar o processo de envelhecimento, que já se anunciava nos séculos anteriores. Por outro lado, o aumento do número de pessoas idosas de todo o mundo exerceu pressão passiva sobre os desenvolvimentos desse campo. (NETTO, 1996). Foi no início desse século, mais precisamente em 1903, que Elie Metchnikoff, sucessor de Pasteur, defendeu a ideia da criação de uma nova especialidade, a gerontologia, denominação obtida a partir das expressões gero (velhice) e logia (estudo). Esse autor previa que esta área de estudo seria um dos ramos mais importantes da ciência, em virtude das modificações que ocorrem no curso do último período da vida humana. Em vez de aceitar a inevitabilidade da decadência e da degeneração do ser humano com o avançar dos anos, Metchnikoff pensava que algum dia uma velhice fisiológica normal poderia ser alcançada pelos homens. Em 1909, a especialidade passou a ser denominada geriatria, ou o estudo clínico da velhice, como propôs AN02FREV001/REV 4.0 8 Ignatz L. Nascher, médico vienense radicado nos EUA. Esse estudioso, que estimulou pesquisas sociais e biológicas dentro do envelhecimento e que, por esse motivo, foi considerado pai da geriatria, fundou a sociedade de geriatria de Nova Iorque em 1912. Desde essa época, até 1930, a gerontologia ficou praticamente restrita aos aspectos biológicos do envelhecimento e da velhice. Em 1930, Warren delineou os primórdios da avaliação multidimensional e a importância da interdisciplinaridade. Entre 1969 e 1979, a pesquisa na área aumentou 270%. Entre 1980 e 1990, abriram-se novas áreas de interesse geradas pelas necessidades sociais associadas ao envelhecimento populacional e à longevidade, como, por exemplo, o apoio a familiares que cuidam de idosos dependentes, os custos dos sistemas de saúde e previdenciário, a necessidade de formação dos recursos humanos, a necessidade de ofertas educacionais e ocupacionais para idosos e pessoas de meia-idade. (NÉRI, 2001). Existem razões para a lentidão do processo, principalmente com relação a pesquisas na área. E nos países em desenvolvimento a política que domina a sociedade industrializada e urbanizada sempre teve mais interesse na assistência materno-infantil e dirigida aos jovens. Além disso, os idosos constituem um grupo bastante frágil e sem representatividade política. Hoje, cresce o número de gerontologistas, mesmo porque a população idosa está crescendo proporcionalmente. (PAPALEO NETTO e PONTE, 1996). No Brasil, o impacto social é com alguma frequência mais importante que o biológico. Paralelamente às mudanças demográficas que estão ocorrendo, cresce também a necessidade de profundas modificações socioeconômicas do país do Terceiro Mundo, que, além de ser política e economicamente dependente de outras nações, possui uma estrutura socioeconômica antiga, que privilegia alguns em detrimento da maioria. O quadro atual, de crescimento da população idosa acompanhado de falta de disponibilidade de riqueza, ou, o que é mais comum, de sua perversa distribuição de renda, contrasta, por exemplo, com o que existe na Inglaterra, onde o envelhecimento da população já se evidenciava após o início da Revolução Industrial, quando o estado e a sociedade puderam dispor de recursos para suprir a demanda que a população idosa exigia.AN02FREV001/REV 4.0 9 À precária condição socioeconômica associam-se múltiplas afecções concomitantes, perdas não raras da autonomia e independência e dificuldade de adaptação do idoso a exigências do mundo moderno que, em conjunto, levam o velho ao isolamento social. A sociedade moderna encontra-se hoje diante de uma situação contraditória. De um lado, defronta-se com o crescimento acelerado da população de idosos, e de outro, omite-se perante a velhice ou adota atitudes preconceituosas contra a pessoa idosa, retardando a implementação de ações que buscam minorar o pesado fardo dos que ingressaram na terceira idade. A Revolução Industrial mudou o conceito de valorização intelectual que o idoso tinha antigamente, ou seja, passou a ser rejeitado pela incapacidade. Outro aspecto que constitui a história da velhice no Brasil foi o rápido processo migratório e de urbanização. Hoje, três quartos da população brasileira vivem em áreas urbanas, o que acarreta problemas sociais ainda mais graves para os idosos e para toda população. Outro aspecto que tem sido motivo de interesse é o estudo da velhice relacionado ao sexo. Segundo o mesmo autor, o aspecto econômico tem levado a uma crescente participação da mulher na força de trabalho, a fim de contribuir financeiramente no orçamento doméstico, ocasionando a ausência, na família, de alguém que cuide do idoso em caso de doença e ou incapacidade física. Por outro lado, em razão da maior duração de vida da mulher em relação ao homem, ela está exposta por períodos mais longos a doenças crônicas degenerativas, à viuvez e à solidão. Acrescenta-se que as mulheres idosas têm tido, em nossa experiência, uma participação qualitativa e quantitativamente maior nas atividades relacionadas a políticas de saúde ao idoso, como fóruns de gerontologia, conselhos municipais e estaduais de idosos, e também nos cursos e universidade da terceira idade. Em 1961, foi fundada a Sociedade Brasileira de Geriatria, que teve como primeiro presidente Roberto Segadas. O processo interdisciplinar acentuou-se nitidamente na década de 90, principalmente na Região Sudeste em cursos de pós- graduação. AN02FREV001/REV 4.0 10 FIGURA 1 – NÚMERO DE TRABALHOS NA ÁRE DE CIÊNCIAS DO ENVELHECIMENTO APRESENTADOS EM CONGRESSOS NO BRASIL E NO EXTERIOR FONTE: FREITAS et al., 2006. Para finalizar esse resumo histórico, é importante ressaltar que as ciências do envelhecimento, apesar da sua curta existência, ou seja, menos de um século, têm hoje produção científica invejável. 2 GERONTOLOGIA COMO DISCIPLINA E CIÊNCIA DO ENVELHECIMENTO Antes de definir o campo de atuação da gerontologia, devemos relembrar o significado do termo disciplina e se a mesma pode ser considerada como tal. O Dicionário Aurélio define disciplina como: “qualquer ramo do conhecimento artístico, científico, histórico, etc.; matéria de ensino; conjunto de conhecimentos que se processam em cada cadeira de um estabelecimento de ensino”. Apesar de os significados serem por si mesmos bastante expressivos, justificando-se a inclusão da gerontologia nos currículos acadêmicos, o assunto é motivo de questionamentos. Ou seja, não há necessidade de se criar uma nova área de investimento, pelo fato de o assunto ser ministrado em outras disciplinas. AN02FREV001/REV 4.0 11 A própria definição da especialidade finaliza os questionamentos. Assim, gerontologia define-se como disciplina científica multi e interdisciplinar, cujas finalidades são o estudo das pessoas idosas, as características da velhice enquanto fase final do ciclo de vida, o processo de envelhecimento e seus determinantes biopsicossociais. 3 DIVISÕES DA CIÊNCIA DO ENVELHECIMENTO - Gerontologia Social: que se detêm aos aspectos orgânicos antropológicos psicológicos, legais, sociais, ambientais, econômicos, éticos e políticos de saúde. - Geriatria: a geriatria tem sob seus domínios os aspectos curativos e preventivos da atenção à saúde e, para realizar este mister, tem uma relação estreita com disciplinas da área médica, como neurologia, cardiologia, psiquiatria, pneumologia, entre outras, que deram origem à criação de subespecialidades, como a neurogeriatria, a psicogeriatria, a cardiogeriatria e a neuropsicogeriatria, entre outras. Além disso, mantém íntima conexão com disciplinas não pertencentes ao currículo médico, embora profundamente relacionadas, como nutrição e enfermagem. - Fisioterapia: terapia ocupacional, fonoaudiologia, odontologia e assistência ocupacional. - Gerontologia biomédica: tem como eixo principal o estudo do envelhecimento, do ponto de vista molecular e celular, enveredando pelos caminhos de estudos populacionais e de prevenção de doenças associadas; ou seja, sobre uma base genética atuariam fatores extrínsecos (ambiente e estilo de vida) e intrínsecos como as alterações celulares e moleculares, que acarretaria a diminuição da capacidade de manutenção do equilíbrio de homeostase e predispõe a doenças. AN02FREV001/REV 4.0 12 4 DEFINIÇÃO DE ENVELHECIMENTO O envelhecimento pode ser definido como: Processo dinâmico e progressivo, no qual há modificações morfológicas, funcionais, bioquímicas e psicológicas que determinam a perda da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente, ocasionando maior vulnerabilidade e maior incidência de processos patológicos que terminam por levá-lo à morte. (PAPALÉO NETTO, 1996, p3). A distinção entre senescência ou senectude, que resulta do somatório de alterações orgânicas, funcionais e psicológicas próprias do envelhecimento normal, e a senilidade, que é caracterizada por modificações determinadas por afecções que frequentemente acometem a pessoa idosa, é, por vezes, extremamente difícil. O exato limite entre estes dois estados não é preciso e caracteristicamente apresenta zonas de transição frequentes, o que dificulta discriminar cada um deles. Autonomia define-se como a capacidade de decisão, de comando; e independência como a capacidade de realizar algo com seus próprios meios. Por exemplo: uma senhora com fratura de fêmur, que, estando acamada, e dependente, ainda assim pode exercer sua autonomia. O que se procura é a manutenção da autonomia e o máximo de independência possível. 5 TEORIAS BIOLÓGICAS DO ENVELHECIMENTO Durante séculos, o estudo da longevidade e do envelhecimento foi relegado a um papel acessório nas diferentes disciplinas da biologia. No século XX, esse papel iria mudar, principalmente porque nunca, em toda a história da humanidade, populações apresentaram expectativas de vida tão altas, fruto principalmente, da implantação de políticas de saúde pública e medicina AN02FREV001/REV 4.0 13 preventiva, tais como vacinação de diversas moléstias infectocontagiosas e planejamento e controle sanitário. Esses foram os principais fatores que impulsionaram o desenvolvimento da assim chamada biologia do envelhecimento. Essa abordagem deu-se primeiramente sob o ponto de vista fisiológico, e mais tarde bioquímico. Ou seja, com o avanço do conhecimento genético, cresceu também a busca por padrões de hereditariedade da longevidade. O envelhecimento não é somente a soma de patologias juntas e de danos induzidos por doenças. Inversamente, nem todas as alterações na estrutura e função dependentes da idade podem ser consideradas como mudanças fundamentais ligadas à idade por si só. Em um esforço para incorporar esse rigor dentro de uma definição, foi proposto que as mudanças fundamentais relacionadas com a idade devem obedecer a essas condições: Devem ser deletérias, ou seja, devem diminuir a funcionalidade. Devem ser progressivas, isto é, devem concretizar-se gradualmente. Devem ser intrínsecas, isto é, não devem resultar de um componente ambiental modificável.Cabe ressaltar, aqui, que o ambiente tem forte influência sobre o aparecimento e velocidade dessas mudanças, apesar de não ser a causa. Devem ser universais: todos os membros de uma espécie devem mostrar tais alterações graduais com o avanço da idade. 5.1 TEORIAS ESTOCÁSTICAS Parece improvável que um processo tão ordenado como o envelhecimento se deva a fatores aleatórios ou estocásticos. Contudo, essa ideia é a base das teorias que postulam ser a deterioração associada à idade avançada em razão da acumulação de danos moleculares que ocorrem ao acaso. Tais macromoléculas defeituosas poderiam se acumular por meio de diferentes mecanismos: falha em reparar danos ou erros causados AN02FREV001/REV 4.0 14 aleatoriamente na síntese de macromoléculas. Em ambos os casos, haveria perda de função e de informações vitais para as células. A quantidade dessas macromoléculas incorretas alcançaria um nível em que algumas ou todas as células de um ser vivo estariam tão deficientes, metabolicamente, a ponto de causarem a morte do próprio organismo. Porém, é necessário estabelecer quais células, tecidos ou organismos possuiriam tipos específicos de moléculas que são particularmente sensíveis a certos tipos de dano; e é necessário assumir que espécies de vida longa são mais capazes de tolerar tais danos, que espécies de vida curta. 5.2 TEORIAS DE USO E DESGASTE As teorias classificadas como “uso e desgaste” são, provavelmente, as mais antigas precursoras do conceito de falha de reparo. O acúmulo de agressões ambientais no dia a dia levaria ao decréscimo gradual da eficiência do organismo e, por fim, à morte. Todos os organismos são constantemente expostos a infecções, ferimentos e agressões que causam danos leves às células, aos tecidos e aos órgãos. Uma fratura pode sarar, mas o osso não voltará a ser tão resistente quanto antes de o ferimento ocorrer. Atualmente, motivos lógicos contribuem para o descrédito dessas teorias. Primeiro animais criados em ambientes livres de patógenos ou de ferimentos não apenas envelhecem como também não apresentam qualquer aumento em sua longevidade máxima; muitos danos menores postulados pela teoria do uso e desgaste são mudanças dependentes do tempo, que provocam aumento na probabilidade de morte, mas não servem como mecanismos causais para o processo de envelhecimento. Por exemplo, a perda de dentes em elefantes pode levar à morte por inanição, sem que estes apresentem, contudo, mudanças significativas em estrutura e função de outros órgãos e tecidos no mesmo período. Os avanços atuais em biologias celulares e moleculares reformularam o conceito de “uso e AN02FREV001/REV 4.0 15 desgaste”, mostrando que ele não constitui uma teoria, mas sim o componente de outra. 5.3 PROTEÍNAS ALTERADAS Essa teoria esclarece que mudanças que ocorrem em moléculas proteicas após a tradução, e que são dependentes do tempo, provocariam mudanças conformacionais e alterariam a atividade enzimática, comprometendo a eficiência da célula. Possivelmente, as enzimas que foram mudadas são moléculas de longa vida, isto é, com baixa taxa de turnover, e situam na célula por um tempo longo o bastante para sofrerem uma desnaturação sutil no ambiente citoplasmático. Estima-se que entre 30 e 50% do total de proteína em um animal idoso pode ser composto de proteína oxidada. 5.4 MUTAÇÕES SOMÁTICAS O acúmulo de mutações somáticas no decorrer da vida alteraria a informação genética e reduziria a eficiência da célula até um nível incompatível com a vida. A literatura mostra um aumento de certas anormalidades cromossômicas em células somáticas ao longo da vida, principalmente em resposta à radiação ou a mutagênicos, mas não há evidências de que tais alterações tenham efeitos funcionais. Ao se considerar o envelhecimento como um todo, há pouco suporte experimental para a teoria da mutação somática. 5.5 ERRO CATASTRÓFICO Processos incorretos de transcrição e/ou de tradução dos ácidos nucleicos reduziriam a eficiência celular a um nível incompatível com a vida. Mesmo que o genoma não contenha mutação somática ou dano no DNA, erros poderiam acontecer durante o processo de tradução. Um erro catastrófico AN02FREV001/REV 4.0 16 deveria acontecer quando a frequência de erros alcançasse um valor em que um ou mais processos vitais para a célula assumissem uma ineficiência letal. Se morrerem células em número suficiente para causar esse efeito, o resultado seria o decréscimo na capacidade funcional que formaliza o envelhecimento. 5.6 DESDIFERENCIAÇÃO Essa abordagem sugere que o envelhecimento normal de um organismo resultaria do fato de as células que o compõem se desviarem de seu estado apropriado de diferenciação. A teoria da desdiferenciação supõe que mudanças estocásticas que ocorrem no aparato de regulação gênica resultariam em mudanças na expressão gênica. Dados experimentais obtidos com células cultivadas indicam que os mecanismos de controle genético não parecem relaxar com a idade. A despeito da ausência de comprovação experimental, essa hipótese ainda permanece sob investigação, em razão da possibilidade de testes em nível molecular. 5.7 DANOS OXIDATIVOS E RADICAIS LIVRES A teoria do dano oxidativo postula que todas as deficiências fisiológicas características de mudanças realmente relacionadas com a idade, ou a maioria delas, podem ser atribuídas aos danos intracelulares produzidos pelos radicais livres. Apesar de plausível, esse conceito não pode ser claramente provado ou negado por um único experimento. Diversos tipos de evidências têm sido buscados para testar essa teoria, mas ainda existem muitas controvérsias. Apesar disso, a composição entre oxidação, substâncias antioxidantes e envelhecimento, mesmo sem comprovação definitiva, têm servido de suporte para justificar o uso de suplementações e a prática de terapias supostamente “antienvelhecimento”. AN02FREV001/REV 4.0 17 Lipofuscina é o acúmulo de detritos em sua forma mais simples. A teoria dos detritos propõe que o envelhecimento da célula é causado pelo acúmulo intracelular de produtos do metabolismo que não podem ser destruídos, exceto pelo processo de divisão celular. Acredita-se que Iipofuscinas geralmente surgem como resultado de auto-oxidação, induzida por radicais livres em componentes celulares, principalmente estruturas de membrana que contenham lipídios insaturados. Entretanto, nenhuma evidência sugere que a Iipofuscina em si seja danosa. Mas produtos de metabolismo podem provocar substâncias que podem ser danosas, prejudicando pelo espaço tomado, a função da célula. 5.8 MUDANÇAS PÓS-TRADUÇÃO EM PROTEÍNAS Modificações dependentes de processos químicos do tempo, ocorrendo em macromoléculas importantes (como o colágeno e a elastina) comprometeriam as funções dos tecidos e diminuiriam a eficiência celular, culminando na morte. Já que um terço do conteúdo total de proteínas de um mamífero é composto por colágeno, as mudanças nessa molécula, à medida que o indivíduo envelhece, têm repercussões importantes em praticamente todos os aspectos morfológicos e fisiológicos do organismo. 5.9 TEORIAS METABÓLICAS Sabe-se, de longo tempo, que animais maiores apresentam longevidade maior do que a de seus parentes taxonômicos de tamanho menor, e que sua taxa metabólica seria inversamente proporcional ao peso do seu corpo. A ligação entre esses dois fatos leva à ideia de que a longevidade e o metabolismo estariam juntos em uma relação causal. Em alguns organismos, mudanças da taxa metabólica induzidas por temperatura e/ou dieta produziriam alterações correspondentes na AN02FREV001/REV 4.0 18 longevidade. Além disso, há dados fortes mostrando que a taxa metabólica tende a diminuir coma idade avançada. Essas e outras observações iguais levaram à hipótese segundo a qual a longevidade pode ser mais bem entendida como função do declínio metabólico. (PACHECO et al., 2009). 5.10 TEORIAS GENÉTICAS As teorias desse grupo sugerem que mudanças na expressão gênica causariam modificações senescentes nas células. As mudanças poderiam ser gerais ou específicas, podendo atuar em nível intra ou extracelular. A interpretação mais realista desse cenário seria a de que, dentro do contexto de um dado genótipo com uma longevidade particular, alterações na atividade desses poucos genes seriam o suficiente para deslocar o equilíbrio das funções genômicas para uma longevidade. Contudo, a avaliação experimental é lenta em razão do imenso número de variáveis e da limitação das técnicas de exploração disponíveis. 5.11 OUTRAS TEORIAS Apoptose (morte celular induzida por sinais extracelulares), fagocitose (destruição de células por outras), neuroendócrinas (falência progressiva de células que levaria ao colapso da homeostasia corporal, à senescência e à morte), imunológicas (reduções qualitativas e quantitativas na resposta imune seria direta ou indiretamente em razão da involução inicial e ao envelhecimento do timo), também são teorias que poderiam explicar o início do envelhecimento, mas sempre apresentam restrições em alguma parte do estudo. AN02FREV001/REV 4.0 19 6 PREVENÇÃO: GERIATRIA PREVENTIVA 6.1 PRIMÁRIA Dentro da geriatria preventiva primária, encontram-se todas as ações voltadas a diminuir ou retardar o aparecimento de disfunções e morbidades crônico- degenerativas associadas à idade. A questão associada seria quando, então, começa a geriatria preventiva? Desde a infância seria a resposta mais correta. Ela engloba o controle e adequação de variáveis relacionadas ao estilo de vida do indivíduo e da população. Consta de nutrição saudável, atividade física, evitar a obesidade, afastar o estresse e evitar o cigarro. O tempo de repouso também é fundamental, ou seja, dormir de sete a oito horas por dia e fazer trinta minutos de “sesta”. 6.2 SECUNDÁRIA A ação principal para fazermos geriatria preventiva secundária é o estabelecimento de revisões periódicas que contribuem para a detecção precoce de doenças crônico-degenerativas. Esses programas são de mais baixo custo quando comparados com o custo de tratamento daquele em que a doença já se instalou. Estima-se ser em torno de 10%. 6.3 TERCIÁRIA Na parcela da população afetada por doenças crônico-degenerativas e/ou disfunções associadas também há necessidade de fazermos geriatria preventiva. Deste modo, para indivíduos afetados por doenças como neoplasias ou coronariopatias, o médico e o sistema de saúde precisam adotar programas de reeducação de estilo de vida e de prevenção que garantam a estabilização da saúde do paciente. AN02FREV001/REV 4.0 20 6.4 PLANEJAMENTO E ADAPTAÇÃO DE AMBIENTES PARA IDOSOS Com o envelhecimento crescente da população, torna-se cada vez mais urgente o planejamento e a adequação dos ambientes para pessoas idosas. As pessoas que envelhecem fazem parte de uma minoria, mas também devem ser atendidos em suas necessidades de conforto, segurança e atividade. Os idosos exprimem o desejo de viver em ambientes seguros, nos quais possam exercer controle personificado. Querem que esses locais propiciem autonomia, mas com certo grau de cuidado e de especificidade, o que traz a necessidade de adaptação dos espaços a capacidades físicas e sensoriais diminuídas. Espaços planejados para receber idosos portadores de incapacidades físicas, psicocognitivas e sensoriais determinam o aumento da independência funcional, diminuição de estados de apatia, restrição no número de queixas de saúde. 6.5 IMPORTÂNCIA DA PREVENÇÃO Segundo Williamson (2008), existem quatro aspectos importantes na prevenção primária: A imunização e alguns tipos de vacinas para o idoso, para evitar determinadas doenças como a gripe em epidemias, em grupos confinados a instituições, etc. A manutenção e promoção de saúde na velhice. Cuidados básicos contra a obesidade, tabagismo, alcoolismo, sedentarismo, prevenção das doenças do trabalho e acidentes caseiros, etc. Esclarecimento de fatores de risco precursores de doenças, principalmente em indivíduos assintomáticos, para as doenças familiares, bem como estar atento para as possíveis características do idoso para as múltiplas patologias. AN02FREV001/REV 4.0 21 Esclarecimento da hipertensão arterial na velhice. A prevenção secundária inclui o diagnóstico precoce das condições reversíveis, ou em estágios iniciais, ou nos pacientes mais jovens. A manifestação de sintomas é, muitas vezes, inespecífica e atípica. Assim, no idoso, quedas, estados confusionais, incontinências, entre outros, devem ser avaliados em profundidade. Ainda segundo Williamson é muito importante o treinamento dos médicos e profissionais de saúde, para saberem separar os acontecimentos decorrentes de doenças, daqueles oriundos do processo do envelhecimento propriamente dito. E a prevenção terciária implica a detecção das doenças crônicas e incapacitantes estabelecidas no idoso. Oferecendo a chance de tratamento mais precoce e mais efetivo possível. Determinados eventos são comuns na velhice. Besdine (2008) relacionou por ordem de importância, os seguintes acontecimentos: - Quedas; - Fraturas de quadril; - Incontinência urinária; - Incontinência fecal; - Escaras de decúbito; - Diminuição das acuidades visual e auditiva; - Acidentes vasculares cerebrais; - Síndrome da demência; - Parkinsonismo; - Hidrocefalia de pressão normal; - Polimialgia reumática/artrite células de gigantes (art. temporal); - Osteoporose; - Osteoartrite; - Doença de Paget; - Síndrome do túnel do carpo; - Estenose do canal medular; - Coma diabético hiperosmolar não etótico; - Secreção inadequada de hormônio antidiurético; - Hipotermia acidental; AN02FREV001/REV 4.0 22 - Leucemia linfática crônica; - Carcinoma de células basais; - Linfo adenopatia imunoblástica; - Tumores sólidos; - Tuberculose; - Herpes zoster; - Arteriosclerose; - Amiloidose; - Angiodisplasia de cólon; - Hipertensão sistólica; - Hipotensão postural. Doenças cujo principal fator de risco continua sendo a própria idade tende a assumir dimensões epidêmicas com o envelhecimento populacional. Um exemplo ilustrativo é a Doença de Alzheimer (DA). Pode-se dizer que a prevalência de demência quase dobra a cada cinco anos após os 65 anos, e quase 50% dos casos de demências são de Alzheimer. Por ser uma doença evolutiva, extremamente incapacitante e sem medidas terapêuticas eficazes, ainda que paliativas, pode ser considerada um dos grandes problemas de saúde pública no mundo. Existem evidências de que o grau de desenvolvimento intelectual possa ser um fator de risco para perdas cognitivas. Em um país com uma enorme massa de analfabetos, a preocupação é muito grande, prevendo-se o boom que está por vir. Na verdade, o que está em jogo na velhice é sua autonomia. Qualquer pessoa que chegue aos oitenta anos capaz de gerar sua própria vida e determinar quando, onde e como se darão suas atividades de lazer, convívio social e trabalho (produção em qualquer nível), certamente pode ser considerada saudável. AN02FREV001/REV 4.0 23 FIM DO MÓDULO I AN02FREV001/REV 4.0 25 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA Portal Educação CURSO DE FISIOTERAPIA APLICADA À GERIATRIA E GERONTOLOGIA Aluno: EaD - Educação a Distância Portal Educação AN02FREV001/REV 4.0 26CURSO DE FISIOTERAPIA APLICADA À GERIATRIA E GERONTOLOGIA MÓDULO II Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este Programa de Educação Continuada. É proibida qualquer forma de comercialização ou distribuição do mesmo sem a autorização expressa do Portal Educação. Os créditos do conteúdo aqui contido são dados aos seus respectivos autores descritos nas Referências Bibliográficas. AN02FREV001/REV 4.0 27 MÓDULO II 7 EPIDEMIOLOGIA “Todas as coisas têm o seu tempo e todas elas passam debaixo do céu segundo o tempo que a cada um foi prescrito. Há tempo de nascer e há tempo de morrer”. (ECLESIASTES, cap. III, v. 1 e 2). 7.1 EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA Os seres vivos são regidos por um determinismo biológico: todos nascem, crescem, amadurecem, envelhecem, declinam e morrem. O tempo e a forma que se processam essas fases dependem de cada indivíduo, da programação genética de sua espécie e de fatores ambientais (habitat, modus vivendi e de agressões que tenha sofrido no decorrer de sua existência). O que tem aumentado significativamente é a esperança de vida ao nascer, que hoje, em alguns países, já está na nona década de vida. Atualmente, vive-se mais, ocorrendo menos óbitos em grupos etários mais baixos e após os 60 anos. Consequentemente, ao se analisar o crescimento demográfico por grupos etários, o grupo que apresenta, proporcionalmente, maior crescimento, é o de 60 anos ou mais. A cada década acima, o crescimento tem-se mostrado maior. Deve-se destacar a importância crescente que vem sendo dada à “quarta idade”, ou a dos “velhos muito velhos”, que é uma parcela muito significativa da população idosa nos países desenvolvidos, formada por indivíduos de 80 anos ou mais. Esse aumento do número de anos de vida do homem, entretanto, nem sempre AN02FREV001/REV 4.0 28 está acompanhado pela melhoria ou manutenção da sua qualidade. É aqui que se encontra um dos grandes desafios da Gerontologia. 7.2 CAUSAS DO ENVELHECIMENTO Para Thomas (2008), a causa do envelhecimento demográfico da população é complexa, ressaltando alguns fatores: Qualquer declínio significativo e constante na fertilidade produz o envelhecimento da população; Redução da taxa de mortalidade na segunda metade da vida; A migração dos jovens pode resultar em um envelhecimento ainda maior de populações de determinadas regiões. A transição de uma população jovem para uma envelhecida deu-se originariamente na Europa, onde a fecundidade declinou marcadamente, muito antes de qualquer método anticoncepcional científico estar disponível. Fruto do desenvolvimento social gerado pela Revolução Industrial houve uma queda gradual na mortalidade, que, em longo prazo, levou a uma queda na fecundidade, e, consequentemente ao envelhecimento da população. Atualmente, países como a Alemanha, por exemplo, têm taxas de fecundidade abaixo do limite de reposição, ou seja, menos de dois filhos em média por casal, uma situação em que as mortes passam a exceder os nascimentos e a população começa a diminuir. Em geral, os países da Europa iniciam o século em curso com mais de um quarto da população na faixa dos 65 anos ou mais. AN02FREV001/REV 4.0 29 FIGURA 3 – ESTRUTURA ETÁRIA DA POPULAÇÃO TOTAL POR FAIXA ETÁRIA E SEXO FONTE: Guccione, 2002. 7.3 OS EFEITOS DA EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA Na América Latina, o processo vem sendo desenvolvido de uma maneira mais drástica, pois não é resultado de desenvolvimento social e sim de um processo maciço de urbanização desordenado. Alteram-se, com isso, as estruturas de trabalho da família, com a mulher sendo progressivamente incorporada à força de trabalho e sendo obrigada a delegar funções de cuidados da casa a familiares, sem que haja uma estrutura de apoio. Na verdade, a expectativa aumentou mais por causa de redução das doenças infecciosas, mas as condições de alimentação e estruturas fazem com que o latino tenha que cuidar das doenças que passam a ser degenerativas. Se a população mundial vem crescendo, também vem envelhecendo progressivamente. AN02FREV001/REV 4.0 30 Assim, em apenas 60 anos, a população mundial crescera duas vezes e meia, enquanto a população acima de 65 anos quatro vezes e a com mais de 80 anos crescera um pouco mais de cinco vezes. Em 1950, o Brasil ocupava o 16º lugar entre os países de maior população geriátrica, devendo ser o sexto em 2025. 7.4 A EXPECTATIVA DE VIDA AO NASCER No Brasil, mostra-se um significativo aumento nos anos de vida. O que era em torno de 33,7 anos em 1900, passou para 50,99 em 1950/55 e deverá ser de 72,08 em 2020/25. Estudos demonstram que as mulheres vivem mais que os homens. Em 1950/55 viviam 3,43 anos mais que os homens, em 1990/95 viviam 5,56 anos mais e em 2020/25 viverão 6,21 anos mais. Entretanto, essas expectativas são avaliações e projeções em um determinado período e contexto, pois se considerarmos as pessoas que nasceram no início do século e sobrevivem até hoje, seguramente já viveram muito mais que os anos previstos na época de seu nascimento. Contudo, o número de pessoas idosas inválidas nos países em desenvolvimento é maior que o número dos países desenvolvidos, em consequência da má nutrição, más condutas assistenciais, más condições de trabalho e de doenças no decorrer da vida. (CANÇADO, 1994). Portanto, a invalidez na velhice tem como substrato importante os efeitos cumulativos dos acidentes, das doenças crônico-degenerativas, das doenças agudas e das carências. Assim, uma atuação preventiva na área de saúde reduziria as consequências desastrosas de diversas doenças desde a morbidade até a mortalidade, diminuindo o número de incapacitações e invalidez e contribuindo para a melhoria do padrão de qualidade de vida do indivíduo em geral. São números impressionantes que mostram a necessidade urgente de um planejamento de assistência à população idosa, sem entrar no aspecto do planejamento familiar, melhor distribuição de rendas e outros. O baixo nível de vida, o desemprego, o analfabetismo, os salários e as aposentadorias defasados e insuficientes para manter um nível de vida digno vêm corroendo mais ainda o padrão AN02FREV001/REV 4.0 31 de vida do brasileiro. Tanto a Previdência quanto o Sistema de Saúde no Brasil estão falidos. Se hoje temos apenas um contribuinte (30.649.419, dos quais três porcento com 60 anos ou mais) para cada não contribuinte (29.967.836, dos quais sete porcento são de 60 anos ou mais) a tendência é a situação se agravar. No período de 1950 a 1980, houve, também, um significativo decréscimo no percentual de pessoas idosas economicamente ativas em relação ao total da população, especialmente entre a população masculina. Em 1998, houve uma melhora na condição dos rendimentos do idoso, desde os últimos 10 anos. (CAMARANO e EL GHAOURI, 1999). Essa melhoria foi resultado da Universalização da Previdência Social, da ampliação da cobertura rural e da legislação da assistência social estabelecidas pela Constituição de 1988, que garante aos idosos carentes maiores de 70 anos um salário mínimo mensal. Com isso, os idosos passaram a ser chefes de família, reduzindo o risco de proceder a demências (às vezes, eles abrigam filhos separados, desempregados e com gravidez precoce). Na sucessão de fatos, qualquer mudança previdenciária vai surtir efeito numa parcela importante de famílias brasileiras. 7.5 TRANSIÇÃO EPIDEMIOLÓGICA Assim, esse século se caracterizou por uma queda significativa nas taxas de mortalidade em todo o mundo. Nos países desenvolvidos, essa diminuição é consequência principalmente das melhorias nas condições básicas de vida, como higiene, saneamento, urbanização adequada,vacinas, nutrição, melhoria das condições no trabalho, moradia, etc. A descoberta da cura de doenças agudas e infecciosas, na metade do século, teve pequena importância no aspecto geral do processo, pois uma queda drástica já vinha acontecendo há vários anos. Segundo Soldo e Manton (2000), depois de diminuído o risco de morte por doenças agudas e infecciosas nos Estados Unidos, a expectativa de vida naquele país passou por um período de estabilidade. A partir da década de 70, novamente se notou um significativo aumento da expectativa de vida em virtude, principalmente, da diminuição dos riscos de morte AN02FREV001/REV 4.0 32 por doenças crônicas. É comprovado que três quartos de todos os idosos morrem em razão de três tipos de doenças crônicas: cardiovasculares, cerebrovasculares e neoplasias. A doença cardiovascular é responsável pela morte de 50% de todos os indivíduos com mais de 65 anos. Merece destaque o significativo aumento de vida para ambos os sexos, tanto em pacientes que sofrem de doença cardíaca quanto de câncer, pelo adiamento do impacto mortal da doença crônica. No Brasil, está acontecendo uma mudança nas causas de mortalidade, se considerarmos as principais causas de morte nas capitais brasileiras entre 1930 e 1980. Em 1930, as causas principais de morte eram as doenças infecciosas, parasitárias, cardiovasculares, respiratórias, as causas de origem perinatal, as neoplasias e as causas externas. Em 1980, passam a ser as cardiovasculares, as infecciosas e parasitárias, as neoplasias, as respiratórias, as causas externas e as causas de origem perinatal, respectivamente, na ordem de montante. Já nos países desenvolvidos, em geral, as principais causas de morte são as doenças cardiovasculares (coração e cerebrovascular), as neoplasias e as causas externas. Proporcionalmente, merece destaque o fato de que após os 80 anos as neoplasias cedem lugar às doenças do aparelho respiratório, provocadas por broncopneumonias, pneumonias, enfisema pulmonar, outras obstruções crônicas causadas pelo tipo de vida e condições ambientais em que viveu o indivíduo e pela diminuição progressiva de sua defesa imunológica. Para os idosos, entre as causas externas, nota-se a importância crescente das fraturas. Muitos fatores de risco agem ocasionando as fraturas, como as doenças: osteoporose, AVC, hipotensão e instabilidade postural, diminuição de acuidade visual e auditiva. As fraturas podem também ser causadas pelas condições inadequadas nas cidades: veículos com degraus altos ou estacionados erroneamente, atropelamentos, assaltos e agressões, calçadas esburacadas e escorregadias, etc. Outra causa externa importante para fraturas são as condições inadequadas dos domicílios: assoalhos encerados, tapetes, sapatos, degraus, banheiros, etc. Para se ter uma noção do custo de assistência correta à população idosa, tem-se que recorrer a dados estrangeiros, uma vez que no Brasil quase nada se faz por AN02FREV001/REV 4.0 33 essa faixa etária da população, dadas as prioridades de um país em desenvolvimento, com graves problemas na área da infância, adolescência, etc. Nos Estados Unidos, por exemplo, embora os idosos representem 11% da população, ocupam 33% dos leitos hospitalares destinados a agudos, compram 25% de todas as prescrições medicamentosas e consomem 30% do orçamento de saúde (de um fabuloso montante de mais de 300 bilhões de dólares). Ainda nos Estados Unidos, entre os cidadãos com mais de 65 anos, cerca de um quarto está sujeito a passar algum tempo de suas vidas em algum tipo de instituição social antes de morrer. E dos que ultrapassarem os 80 anos, a metade morrerá num asilo, cujo número de leitos já ultrapassa os leitos de casos agudos existentes. Neste mesmo país, 25% dos idosos que vivem em comunidade não têm parentes vivos, ficando sós. O organismo, além de ser consequência da sua programação genética, sofre, também, as sequelas dos impactos, hábitos e do meio ambiente a que foi submetido. 7.6 QUALIDADE DE VIDA A longevidade cada vez maior do ser humano acarreta uma situação ambígua, o desejo de viver cada vez mais e, ao mesmo tempo, o temor de viver em meio a incapacidades e dependência. Wood-Dauphinee (1999) relata que o termo qualidade de vida foi mencionado pela primeira vez em 1920, por Pigou, em um livro sobre economia e bem-estar material. Com a evolução, parecia necessário avaliar a qualidade de vida percebida pelas pessoas e o quanto estavam satisfeitas ou insatisfeitas com a situação e qualidade de suas vidas. O conceito estendeu-se para os campos das artes, do lazer, do emprego, dos transportes, da moradia, da conservação e da preservação do meio ambiente e da educação. Além disso, determinantes históricos e culturais definem a relatividade da noção desta qualidade de vida. Os padrões e concepções de bem-estar são estratificados, pois em sociedades em que as desigualdades são muito importantes, AN02FREV001/REV 4.0 34 a qualidade de vida está relacionada ao bem-estar dos estratos superiores e a passagem de um estrato a outro. O grupo de especialistas em qualidade de vida da Organização Mundial da Saúde (OMS) que elaborou um instrumento genérico de avaliação de qualidade de vida, usando um enfoque transcultural (The WHOQOL Group, 1995), considera que, embora não haja definição consensual de qualidade de vida, há concordância considerável entre os pesquisadores acerca de algumas características do construto. A definição de qualidade de vida apresentada pelo The WHOQOL é a seguinte: “Qualidade de vida é a percepção do indivíduo acerca de sua posição na vida, de acordo com o contexto cultural e sistema de valor com os quais convive e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. Segundo Nery (2001), com relação à qualidade de vida na idade mais avançada, na velhice, pode ser designada como a avaliação multidimensional referenciada a critérios socionormativos e intrapessoais, a respeito das relações atuais, passadas e prospectivas entre o indivíduo idoso e o seu ambiente. Estereótipos em relação à velhice comprometem a possibilidade de uma qualidade de vida melhor. Em nosso meio, a velhice é comumente associada a perdas, incapacidade, dependência, impotência, decrepitude, doença, desajuste social, baixos rendimentos, solidão, viuvez, cidadania de segunda classe, e assim por diante. O idoso é chato, rabugento, implicante, triste, demente e oneroso. Generalizam-se as características de algumas pessoas idosas para todo o universo. Essa visão estereotipada, junto à dificuldade de distinguir entre envelhecimento normal e patológico, senescência e senilidade, leva à negação daquilo que ocorre, ou à negligência de suas necessidades, vontades. Talvez por esses motivos, os idosos tendem a ignorar sintomas como a tristeza, a dor ou o cansaço. Profissionais tentam explicar os sintomas ou as queixas trazidos pelos idosos como fazendo parte do processo natural do envelhecimento, o que se traduz em omissão e em negligência, impedindo o tratamento e a reabilitação. (ORY & COX, 1994). Em razão disso, muitas idosas não se queixam de incontinência urinária por vergonha ou por acharem normal. Algumas se acostumam, apesar de ser uma causa de isolamento social e secundariamente de depressão. AN02FREV001/REV 4.0 35 7.6.1 Instrumentos de Avaliação de Qualidade de Vida na Velhice Existem relativamente poucos instrumentos específicos de avaliação da qualidade de vida de pessoas idosas. Entre eles podem ser citados os seguintes: Life Satisfection Index - LSI (NEUGARTEN, HAVIGHURST, 1960). KATZEL at al., 1963. Multilevel Assessment Instrument - MAI (LAWTON et al., 1982). Philadelphia geriatric Center Morale Scale - Morale ScaIe (LAWTON e BRODY, 1969). OARS Multidimensional Functional Assesment Questionnaire– OMFAQ (Older Americans Resourses and Services of Duke University) (FILLEMBAUM e SMYER, 1981). Memorial University of Newfoundland Scale of Happiness – MUNSH (Multilevel Assesment Instrument, KOZMA e STONES, 1980). Geriatric Quality of Life Quetionaire, desenhado para o idoso fragilizado (GUYATT et al., 1993). 7.7 AVALIAÇÃO DO IDOSO 7.7.1 Anamnese A abordagem da história clínica e do exame físico precisa ser modificada na avaliação de pacientes idosos e fragilizada. Normalmente, grande parte deles apresenta problemas múltiplos de saúde, o que requer uma equipe para avaliação completa. Para os pacientes que apresentam necessidades médicas, fisioterápicas, psicológicas e sociais complexas, as equipes são mais eficientes para avaliar o quadro e estabelecer um plano de tratamento que profissionais atuando de modo isolado. Estabelecer objetivos comuns e cotejar funções e responsabilidades são a melhor maneira de se obter os resultados esperados para um trabalho em equipe com profissionais de diversas áreas do conhecimento fisioterápico e de outras áreas AN02FREV001/REV 4.0 36 afins. O processo de tomada de decisões clínicas envolvendo idosos deve apresentar como objetivo principal a melhoria na sua qualidade de vida. O fisioterapeuta deve realizar a anamnese com o paciente e com o acompanhante separadamente. O exame físico deve ser realizado em horários diferentes, principalmente em virtude da fadiga que o paciente pode sentir, não se descartando também a necessidade de mais de uma sessão para o exame físico. Deficiências sensoriais (alterações auditivas ou visuais) são muito comuns em idosos e podem interferir no processo de avaliação. Além disso, os idosos podem não relatar sintomas durante a anamnese (crises dispneicas, perda de visão ou audição, problemas com a memória, incontinência urinária, tonturas, quedas, etc.), os quais são considerados normais por esses pacientes. Nesse aspecto, é importante lembrar que nenhum sintoma deve ser considerado normal para o paciente idoso. Em virtude da disfunção cognitiva, os idosos podem apresentar dificuldades para lembrar-se de todas as doenças passadas, as hospitalizações, as cirurgias e o uso de medicamentos, sendo que esses dados devem ser obtidos pelo fisioterapeuta por meio de outras fontes alternativas (membros da família, enfermeira domiciliar, registros médicos). Entretanto, a queixa principal do paciente pode diferir muito do ponto de vista da família em relação ao foco principal do problema. AN02FREV001/REV 4.0 37 FIGURA 4 – REVISÃO DE REGIÕES E SISTEMAS CORPÓREOS FONTE: Rebelatto, 2007. A compreensão da avaliação do status funcional em geriatria deve pautar-se na revisão da maior parte das habilidades funcionais, aqui divididas em duas categorias: as atividades de vida diária (AVDs) e as atividades instrumentais de vida diária (AIVDs). O conceito de atividades de vida diária é talvez um dos únicos conceitos em que há consenso geral. Existem muitas revisões sobre o conceito de AVDs e suas medidas, mas o mecanismo de medida das AVDs melhor padronizado e mais utilizado mundialmente é o Barthel ADL Index. Como a avaliação e o tratamento de pacientes idosos não deve apenas concentrar-se nas atividades de vida diária, é importante considerar outros aspectos das deficiências, como a comunicação, a interação social, as atividades domésticas, AN02FREV001/REV 4.0 38 o trabalho, o lazer e as atividades cotidianas. Esses outros mecanismos de avaliação podem ser chamados de atividades instrumentais de vida diária (AIVDs) ou de extensão das atividades de vida diária (EAVDs). Um instrumento eficiente e confiável para avaliar as AIVDs é a escala de Lawton para AIVDs. FIGURA 5 – ÍNDICE DE BARTHEL PARA AVDS FONTE: Rebelatto, 2007. AN02FREV001/REV 4.0 39 FIGURA 6 – ÍNDICE DE BARTHEL E ESCALA DE LAWTON FONTE: Rebelatto, 2007. AN02FREV001/REV 4.0 40 FIGURA 7 – FORMULÁRIO DO ESTADO MINIMENTAL ADOTADO FONTE: Rebelatto, 2007. A história familiar dever ser focalizada para doenças típicas de idosos com padrões hereditários (doença de Alzheimer, câncer, diabetes). A idade de início dessas doenças nos familiares deve ser anotada. Inicialmente a história social do AN02FREV001/REV 4.0 41 paciente inclui a avaliação do padrão da habitação deste indivíduo. Devemos observar o número de quartos, presença ou não de água encanada, esgoto, casa térrea ou sobrado, presença ou não de escadas, elevadores, aquecedores, ar- condicionado, etc. A ergonomia da casa deve ser analisada, principalmente em relação aos objetos que podem provocar quedas. Problemas com a arquitetura e as condições ergonômicas da casa devem ser identificados para que alterações sejam sugeridas como parte do protocolo de tratamento. A descrição de um dia normal, incluindo atividades como leitura, trabalho, exercícios, televisão, interação com outras pessoas, proporciona valiosas informações. O paciente deve ser questionado sobre a frequência e a natureza de seus contatos sociais (amigos, grupos da terceira idade), visita de familiares, participação religiosa ou espiritual. O grau de independência do paciente em realizar essas atividades deve ser checado. O tipo de relacionamento conjugal (solteiro, casado, divorciado, amasiado) também deve ser observado. Nesse aspecto do comportamento social, o padrão sexual do paciente deve ser questionado com bastante tato e sensibilidade, mas as informações que podem ser obtidas podem auxiliar na observação do comportamento psicológico (grau de satisfação pessoal, por exemplo) e avaliação de possíveis doenças sexualmente transmissíveis. É necessária a avaliação da dor em idosos que relatam dor frequentemente, pois apresentam múltiplos problemas de saúde e fontes potenciais de dores variadas, tornando o diagnóstico e o tratamento da dor mais dificultoso. A comunicação da dor pelo idoso aos familiares e aos profissionais que o assistem pode estar prejudicada por disfunções cognitivas. Dor envolve consciência, abstração seletiva, interpretação e aprendizado. É um processo perceptual que integra a modulação de um grande número de fenômenos. 7.7.2 Exame Físico Todas as informações obtidas no exame físico devem ser direcionadas para definir o perfil funcional da intervenção geriátrica, ou seja, o exame físico com AN02FREV001/REV 4.0 42 pacientes idosos deve ser direcionado para se descobrir potencialidades que permitam colaborar para melhorar o grau de morbidade e independência dos mesmos. Portanto, o exame, tanto no nível dos impedimentos físicos (exame da força muscular) como no nível funcional (deambulação) é o aspecto mais importante no processo de tomada de decisão clínica em fisioterapia geriátrica. Exame do Sistema Musculoesquelético O exame físico em geriatria tem como objetivo principal detalhar achados que possibilitem um mapeamento dos sistemas musculoesquelético e neurológico periférico. Deve-se detalhar na busca de informações clínicas objetivas que possibilitem identificar impedimentos físicos (primários ou secundários) que estejam envolvidos no processo de formação do distúrbio funcional. Sinais Vitais Como medida obrigatória para a avaliação de pacientes idosos, deve-se verificar a frequência cardíaca, a pressão sanguínea, a frequência respiratória e a temperatura. A frequência cardíaca (FC) e a pressão arterial (PA) devem ser verificadas em ambos os braços. Como vários fatores podem interferir na pressão arterial, diversas verificações devem ser realizadas na condição de repouso. A pressão arterial pode estar superestimada em pacientes idosos principalmente pela rigidez arterial muito comum nesse tipo de paciente. Essa condição de pseudo-hipertensãoarterial deve ser checada quando o paciente apresentar tanto a pressão sistólica como a diastólica elevada. Hipotensão ortostática pode ser muito comum entre pacientes idosos que não são hipertensivos. Todos os pacientes devem ser checados nesse tipo de comportamento da pressão arterial. Após a PA ser verificada com o paciente em supino, o paciente deve ser observado por aproximadamente três minutos em posição ortostática; o resultado é positivo quando a PA sistólica tem uma queda igual ou maior que 20 mmHg. A frequência respiratória normal para pacientes idosos deve estar entre 16 e 25 respirações por minuto. Uma frequência maior que 25 respirações por minuto pode AN02FREV001/REV 4.0 43 ser um sinal de infecção do trato respiratório inferior, insuficiência cardíaca congestiva ou algum distúrbio que será seguido por outros sinais e sintomas. Estado Mental A avaliação do estado mental torna-se importante para o avaliador determinar a confiabilidade das informações obtidas, mesmo as relativas aos exames objetivos. Deve-se, portanto, avaliar a orientação temporal, espacial e pessoal do paciente. Observação: verificar tabela Minimental citada acima. Inspeção Constituem-se aspectos relevantes na inspeção do paciente idoso: avaliação postural normal (triplanar); observação de possíveis posturas antálgicas; observação da face; medidas de circunferências (membros superiores e inferiores, pescoço, ombros, quadris, etc.); observação de edemas de tecidos moles; efusões articulares; estado da pele; estado das unhas e espasmos musculares. Palpação Deve ser realizada de forma sutil e precisa, para que não se mascare ou se reproduza um sintoma já preestabelecido. A palpação tem por objetivo: Avaliar a sensibilidade, a flexibilidade e a densidade do tecido mole; Determinar a localização exata do sintoma doloroso; Determinar áreas de espasmos musculares adjacentes ao processo doloroso que possam contribuir para a manutenção do mesmo; Encontrar pontos de edema ou efusão articular; Verificar a temperatura da pele na região afetada (sempre com o dorso da mão). Amplitude de Movimento A amplitude de movimento (ADM) ativa e passiva deve ser avaliada para se AN02FREV001/REV 4.0 44 observar a contribuição da articulação no impedimento primário ou secundário do movimento. A unidade funcional do sistema musculoesquelético é a articulação e suas estruturas associadas, membrana sinovial e cápsula, ligamentos e músculos que cruzam a articulação. Por isso, a ADM tem um papel fundamental na compreensão dos problemas relacionados com o sistema musculoesquelético. Além de se quantificar a ADM, deve-se observar: Presença de padrões capsulares versus não capsulares de restrição dos movimentos; Sensação terminal e resposta à dor durante a ADM passiva ao aplicar superpressão; Movimentos articulares acessórios, sua sensação terminal e a resposta à dor. Força Muscular A avaliação da força muscular, por meio dos testes manuais, é um instrumento importante do diagnóstico, do prognóstico e do tratamento dos distúrbios do sistema musculoesquelético, contribuindo decisivamente para a seleção dos testes funcionais. Existem vários sistemas de graduação dos testes de força muscular disponíveis na literatura especializada. Adotaremos o sistema proposto por Stolove Hays (2000), que se baseia na habilidade do músculo de mover, contra a força da gravidade, a parte onde ele está ligado: Grau 5: Força normal. O músculo move a articulação que ele cruza na amplitude total do movimento contra a gravidade e contra a “resistência completa” aplicada pelo examinador. Grau 4: Força boa. O músculo move a articulação que ele cruza na amplitude total de movimento contra a gravidade apenas com “resistência moderada” aplicada pelo examinador. Grau 3: Força regular. O músculo move a articulação que ele cruza na amplitude total do movimento apenas contra a gravidade. AN02FREV001/REV 4.0 45 Grau 2: Força mínima. O músculo move a articulação que ele cruza na amplitude total do movimento se o membro estiver posicionado de modo que a força da gravidade não esteja resistindo ao movimento. Grau 1: Traço de força. A contração muscular pode ser vista ou palpada, mas a força é insuficiente para produzir movimento mesmo com a eliminação da gravidade. Grau 0: Força zero. Paralisia completa. Sem contração visível ou palpável. Exame do Sistema Neurológico O exame neurológico de um paciente idoso, similar a qualquer exame de um adulto, avalia os nervos cranianos, os nervos periféricos, a função motora, a função sensorial e o status mental. Nervos cranianos: a avaliação pode ser complexa. Os idosos normalmente apresentam pupilas diminuídas; o reflexo das pupilas à ação da luz pode estar mais lento e a resposta mitótica pupilar para a visão próxima pode estar diminuída. Os desvios do olhar para cima, a uma distância pequena, e para baixo podem estar levemente limitados. O movimento dos olhos, quando seguem o dedo do fisioterapeuta durante a avaliação do campo visual, pode apresentar-se irregular e com solavancos. Os idosos apresentam frequentemente uma diminuição no olfato, principalmente pelos inúmeros casos de infecção respiratória que ocorrem nesse período. O paladar também pode estar alterado devido à diminuição do olfato, ou também pelo uso constante de medicamentos, alguns dos quais diminuem a salivação. A audição pode estar diminuída pelas dificuldades normais com os órgãos finais. Função motora: a avaliação inclui a força, a coordenação, o andar e os reflexos. Os idosos normalmente podem parecer fracos durante os testes de rotina, por isso, durante o exame físico, o fisioterapeuta pode facilmente sobrepor uma força para a contração sustentada das extremidades. Tanto o tônus muscular, mensurado por meio dos reflexos tendinosos profundos, como o volume de massa muscular podem estar diminuídos, o que é comum, mas não quando acompanha uma perda significativa da função motora. Com a idade, o tempo de reação motora AN02FREV001/REV 4.0 46 aumenta, particularmente em virtude da condução mais lenta nos nervos periféricos. A coordenação motora também diminui em razão de mecanismos centrais, mas, normalmente, essa diminuição ocorre subitamente e não causa deficiência. Também com a idade, os reflexos posturais podem estar prejudicados, tornando-se uma das causas das quedas. Função sensorial: as formas básicas de sensação avaliadas rotineiramente em pacientes idosos são sensação tátil superficial (toque leve), dor superficial, temperatura e vibração. Essas sensações normalmente estão comprometidas nos idosos, podendo prejudicar a função motora. Apresentamos a seguir testes válidos e confiáveis para a aplicação clínica em consultórios, ambulatórios, centros de reabilitação e hospitais, que podem direcionar o processo de avaliação física do paciente idoso, tornando, dessa forma, mais exato e confiável todo o processo de tomada de decisões clínicas envolvendo o idoso. As dimensões avaliadas são as funções motoras fina e grossa do membro superior, o equilíbrio, a mobilidade, a coordenação e a resistência. As AVDs específicas incluem: comer, transferir-se e vestir-se. Em adição, os testes também mensuram as capacidades necessárias para outras AIVDs que são difíceis de avaliar nos consultórios; por exemplo, a força muscular do membro superior é necessária para avaliar a performance do ato de lavar roupa; subir escadas é essencial para o uso do transporte público. Teste de equilíbrio de Berg - BBT (BERG et aI., 1989) Foi desenvolvido para ser uma medida de avaliação do equilíbrio destinada aos pacientes idosos com o objetivo de ser aplicada de forma segura, simples e, principalmente, replicável. Constitui-se em 14 tarefasrelacionadas com as atividades básicas e instrumentais de vida diária que necessitam de equilíbrio para serem realizadas: transferir-se, sentar-se, levantar-se, manter-se em pé, inclinar-se para frente, girar 360 graus, sustentar-se em apenas uma perna, caminhar passo a passo. As tarefas são pontuadas numa escala de cinco pontos (O a 4), considerando 4 como “performance normal” e O como “tarefa não realizada”; a AN02FREV001/REV 4.0 47 pontuação total varia de O (equilíbrio prejudicado severamente) a 56 (excelente equilíbrio). Os idosos institucionalizados e os idosos que vivem em comunidades são o público-alvo desse teste. O teste é utilizado para monitorar o status funcional referente ao equilíbrio, para avaliar o curso da doença e a resposta ao tratamento, e para predizer o risco de quedas e a expectativa de vida (ou a probabilidade de morte). Teste cronometrado de levantar-se e ir - TUG Mensura o tempo que o indivíduo consome para levantar-se de uma cadeira com braços, caminhar três metros, virar-se de frente para a cadeira (giro de 180 graus), voltar para a cadeira e sentar-se novamente. A mensuração do teste ocorre em razão do tempo percorrido (normalmente em segundos) para completar a tarefa. Esse teste é aplicado em idosos institucionalizados e idosos que vivem em comunidades, tendo como finalidade monitorar a habilidade de mobilidade funcional de idosos, avaliar o nível de equilíbrio e predizer o risco de quedas. Teste de caminhada de seis minutos - 6MW É uma modificação do teste originalmente desenvolvido por Cooper, um teste de campo para determinar o consumo máximo de oxigênio (VO2 máx). É um teste submáximo de medida da capacidade aeróbia. De fácil administração, o teste consiste em mensurar a distância máxima percorrida pelo indivíduo em seis minutos. Deve ser aplicado em idosos institucionalizados e idosos que vivem em comunidades, saudáveis ou portadores de distúrbios cardiovasculares e respiratórios. O teste tem como objetivo avaliar e monitorar o nível de resistência aeróbia de idosos saudáveis e predizer o grau de morbidade e mortalidade de pacientes que apresentam distúrbios cardiovasculares e respiratórios (como as disfunções ventriculares, as insuficiências cardíacas avançadas e as doenças pulmonares obstrutivas crônicas). AN02FREV001/REV 4.0 48 FIM DO MÓDULO II AN02FREV001/REV 4.0 49 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA Portal Educação CURSO DE FISIOTERAPIA APLICADA À GERIATRIA E GERONTOLOGIA Aluno: EaD - Educação a Distância Portal Educação AN02FREV001/REV 4.0 50 CURSO DE FISIOTERAPIA APLICADA À GERIATRIA E GERONTOLOGIA MÓDULO III Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este Programa de Educação Continuada. É proibida qualquer forma de comercialização ou distribuição do mesmo sem a autorização expressa do Portal Educação. Os créditos do conteúdo aqui contido são dados aos seus respectivos autores descritos nas Referências Bibliográficas. AN02FREV001/REV 4.0 51 MÓDULO III 8 FISIOPATOLOGIA DO ENVELHECIMENTO 8.1 SISTEMA NERVOSO FIGURA 8 - FONTE: Disponível em: <http://bluesnake49.blogspot.com.br/2011/02/o-que-e-perfeicao.html> Acesso em: 18 Maio. 2012. O processo de envelhecimento na vida dos indivíduos permanece, ainda, como um dos pontos mais complexos, obscuros e críticos para a ciência, apesar dos grandes esforços que vêm sendo feitos, especialmente desde a segunda metade do século XX. Sendo esse processo inevitável e silencioso no início, mas progressivo e inexorável, não se descobriu, até o presente momento, como ele se desenvolve e evolui nos diferentes órgãos, tecidos e células do organismo como um todo, especialmente, quais os mecanismos que o desencadeiam ou o que possam retardar, já que o processo não se faz de uma maneira uniforme. Existem evidências de que o processo do envelhecimento seja, em sua essência, de natureza multifatorial, dependente da programação genética e das AN02FREV001/REV 4.0 52 alterações que vão ocorrendo em nível celular e molecular, que resultarão em sua aceleração ou desaceleração, com redução de massa celular ativa, diminuição da capacidade funcional das áreas afetadas e sobrecarga, em menor ou maior grau, dos mecanismos de controle homeostático. (FREITAS et al., 2006). Como é um fenômeno biológico normal na vida de todos os seres vivos, não deve ser considerado como doença. Apesar de as doenças crônico-degenerativas, que podem acometer os indivíduos ao longo de suas vidas, estarem paralelamente associadas ao processo do envelhecimento, não seguem a mesma linha de inexorabilidade. Do envelhecimento ninguém escapa até o presente momento, mas isso não significa que todo idoso venha a ter uma ou várias doenças crônico- degenerativas. O sistema nervoso central (SNC) é o sistema biológico mais comprometido com o processo do envelhecimento, pois é o responsável pela vida de relação (sensações, movimentos, funções psíquicas, entre outros) e pela vida vegetativa (funções biológicas internas). Sua perda é fundamental para o desequilíbrio da senescência. O comprometimento do SNC é preocupante pelo fato de não dispor de capacidade reparadora. São unidades morfofuncionais pós-mitóticas, sem possibilidade reprodutora, ficando sujeitas ao processo do envelhecimento por meio de fatores intrínsecos (genético, sexo, circulatório, metabólico, radicais livres, etc.) e extrínsecos (ambiente, sedentarismo, tabagismo, drogas, radiações, etc.), que não deixam de exercer uma ação deletéria com o decorrer do tempo. Sintomas psicológicos podem também ser reações de uma perturbação física. Deve-se ter em mente que, com o envelhecimento populacional, a prevalência de inúmeras doenças crônicas aumentará com a idade; e, também, que o idoso poderia ser, muitas vezes, portador de várias dessas doenças crônicas (diabetes, artrite reumatoide, câncer, doenças cárdio e cerebrovasculares, pneumopatias, entre outras). Assim, ele estará mais susceptível a perturbações mentais, por apresentar mais sintomas depressivos, mais ansiedade, menor autoestima e menor capacidade de controle emocional. AN02FREV001/REV 4.0 53 FIGURA 9 – CÉREBRO HUMANO FONTE: Disponível em: <www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/filo-corda> Acesso em: 27 out. 2009. Nos últimos 100 anos tem havido um aumento da altura média da população e, consequentemente, do peso médio do cérebro (efeito secular), de acordo com dados de populações de diferentes épocas. Por outro lado, se analisarmos o cérebro, ao longo da vida dos indivíduos, a estimativa do volume cranioencefálico nos mostra uma diferença de volume, com o envelhecimento. O peso do cérebro é constituído por células gliais (astrócitos, oligodendroglia e epêndima), mielina, vasos sanguíneos e um número astronômico de neurônios, estimado cautelosamente em 20 bilhões. O cérebro pesa 1,350 kg, atingido na metade da segunda década de vida. A partir dessa etapa, inicia-se um declínio ponderal discreto e lentamente progressivo, em torno de 1,4 a 1,7% por década. Nas mulheres, o declínio é mais precoce que nos homens. Acima dessa idade, o peso do cérebro diminui em relação ao peso corporal. Por outro lado, o volume cerebral, quando comparado com a caixa craniana, permanece constante até a meia-idade (60 anos), em torno de 93%. Nessa época ocorre um decréscimo discreto, que se acentua entre as décadas de 70 e 90 anos, quando pode chegar a 80%. AN02FREV001/REV 4.0 54 Na fase terminal da vida pode haver congestão e edema cerebral, e, também, a fixaçãoem formol pode aumentar o peso em torno de 10%. Alterações morfológicas da substância branca e corpo caloso resultam em perda de grandes e pequenos neurônios e/ou retração dos grandes neurônios corticais que são observados a partir dos 65 anos. O RNA citoplasmático reduz regularmente com a idade, nos neurônios do córtex frontal, giro hipocampal, células piramidais do hipocampo e células de Purkinje do cerebelo, entre outros; associado à redução da substância de NISSL e mais o acúmulo de lipofucsina, resulta em atrofia neuronal simples ou pigmentar, observada em maior grau no córtex cerebral, principalmente nas células piramidais. Os eventos do desenvolvimento embrionário são acompanhados por morte programada de células neuronais e refletem a transitoriedade premeditada de unidades biológicas dentro do organismo. Portanto, neurônios defeituosos e supérfluos são perdidos mesmo durante esse intervalo inicial de vida. Esse conceito tem validade, pois os neurônios não podem reproduzir-se; células oligodendrogliais não podem remielinizar-se, e os vasos sanguíneos cerebrais têm capacidade limitada para reparação estrutural. Sabe-se que o SNC humano tem um processo de reparação denominado plasticidade, que sugere que os neurônios maduros têm uma capacidade de desenvolver-se e formar novas sinapses. Daí a formação de novos circuitos sinápticos, significando a capacidade de aprender e adquirir novos conhecimentos, de lembrar novos fatos e a flexibilidade de desenvolver novas habilidades. A demência pode ocorrer em pacientes que apresentem espaços ventriculares normais para sua idade. Outras mudanças que ocorrem no cérebro incluem: depósito de lipofucsina nas células nervosas, depósito amiloide nos vasos sanguíneos e células, aparecimento de placas senis e, menos frequentemente, emaranhados neurofibrilares. Embora as placas e emaranhados sejam característicos de doença de Alzheimer (DA), eles podem aparecer em cérebros de idosos em evidência de demência. Mudanças nos sistemas de neurotransmissores, particularmente os dopaminérgicos, ocorrem com a idade. Por exemplo, níveis de acetilcolina, receptores colinérgicos, ácido gama-aminobutírico, serotonina e catecolaminas são baixos. Embora o significado dessa diminuição não esteja completamente entendido, AN02FREV001/REV 4.0 55 existe uma correlação com mudanças funcionais, como por exemplo, baixa de colina acetiltransferase na doença de Alzheimer, e de dopamina em doença de Parkinson. Por outro lado, ocorre um aumento de atividade de outras enzimas, como a monoaminoxidase. No envelhecimento normal cerebral a redução moderada da atividade colinérgica resulta em uma redução discreta da atenção e da capacidade de aprendizado. Mudanças cognitivas no envelhecimento e queixas de declínio de memória são sintomas muito frequentes no relato de pessoas entre os 60 e 70 anos e, às vezes, mesmo em indivíduos mais jovens. Segundo o senso comum, o esquecimento é uma característica da velhice, sendo parte inexorável e inevitável do processo de envelhecimento. Embora exista um fundo de verdade nessas crenças, nem todo esquecimento é normal ou inevitável nos idosos, principalmente naqueles de boa saúde física e mental. A síndrome do declínio mental relacionado com a idade indica que pacientes podem sofrer distúrbios subjetivos e objetivos, manifestados mais tipicamente por: Disfunção intelectual ou cognitiva: ausências, distúrbios de memória e, na evolução, alteração na orientação temporoespacial e dificuldade de linguagem; Alteração de humor e sensação de bem-estar, falta de interesse, grosseria no tratamento, ansiedade, labilidade de humor e tendência a depressão; Comportamento: apatia, irritabilidade e agressividade. A característica clínica essencial da doença degenerativa primária é a deterioração intelectual progressiva, lenta e gradual, que evolui tipicamente por meio dos seguintes estágios: Dano de memória e distúrbios de orientação; Distúrbios da fala (afasia), da capacidade de reconhecer objetos (agnosia) e incapacidade de executar movimentos dirigidos, gestos ou manipular objetos (apraxia) nos anos subsequentes; AN02FREV001/REV 4.0 56 Incontinências e imobilidade total (em caso de acamamento) na sua fase terminal. Dentre as situações, devem-se observar aquelas que são reversíveis como: depressão, hipo ou hipertireoidismo, e outros quadros endócrinos; má nutrição e deficiências vitamínicas, anemia, desidratação e distúrbios eletrolíticos, medicações infecções, embolias, insuficiências metabólicas, mas que podem provocar quadros confusionais agudos (delirium), que podem ser confundidos com demência. Mesmo que o paciente saia do estado de confusão, pode ficar algum dano cerebral que deve ser avaliado se é reversível ou não. 8.2 SISTEMA CARDIOVASCULAR FIGURA 10 – CORAÇÃO HUMANO Fonte: Disponível em: < http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Corpo/Circulacao.php> Acesso: 18 de Maio 2012. http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Corpo/Circulacao.php AN02FREV001/REV 4.0 57 Após o desenvolvimento neonatal, o número de células miocárdicas não aumenta. Estudos realizados demonstraram que há modificações bioquímicas e anatômicas que acompanham o envelhecimento, mas é importante avaliar a importância fisiológica desses dados, pois nem sempre uma alteração bioquímica pode estar relacionada com a idade, levando a uma reação global. Portanto, as alterações na função cardiovascular que acompanham o envelhecimento podem ser decorrentes de alterações de padrões de doença, variáveis do estilo de vida ou resultantes simplesmente do próprio envelhecimento, sendo este o fator de maior dificuldade de definição. O sistema cardiovascular sofre significativa redução de sua capacidade funcional com o envelhecimento. Em repouso, contudo, o idoso não apresenta redução importante do débito cardíaco, mas em situações de maior demanda, tanto fisiológicas (esforço físico) como patológicas (doença arterial coronariana), os mecanismos para a sua manutenção não podem falhar, resultando em processos isquêmicos. Com o avanço da idade, o coração e os vasos sanguíneos apresentam alterações morfológicas e teciduais, mesmo na ausência de qualquer doença, sendo que, ao conjunto dessas alterações, convencionou-se o nome de “coração senil” ou presbicardia. 8.2.1 Alterações Morfológicas Em razão da elevada incidência de doenças cardíacas e vasculares no idoso, há uma dificuldade de reconhecimento das alterações decorrentes especificamente do processo de envelhecimento. 8.2.1.1 Pericárdio AN02FREV001/REV 4.0 58 Na maioria das vezes, as alterações do pericárdio são discretas, em geral decorrentes do desgaste progressivo, sob forma de espessamento difuso, particularmente nas cavidades esquerdas do coração, sendo comum o aparecimento do aumento da taxa de gordura epicárdica, não havendo alterações degenerativas ligadas diretamente à idade. 8.2.1.2 Endocárdio As alterações encontradas no endocárdio são o espessamento e a opacidade, em especial no coração esquerdo, com proliferação das fibras colágenas e elásticas, fragmentação e desorganização destas com perda da disposição uniforme habitual, em virtude do resultado de hiperplasia irritativa resultante da longa turbulência sanguínea. 8.2.1.3 Miocárdio As alterações do miocárdio são as mais expressivas, embora em determinadas necrópsias, mesmo de indivíduos idosos, não se destacam por sua intensidade. No miocárdio há acúmulo de gordura principalmente nos átrios e no septo interventricular, mas pode também ocupar as paredes dos ventrículos. Na maioria dos casos não apresenta expressão clínica, sendo que em algumas situações parece favorecer o aparecimento de arritmias atriais. Observa-se tambémmoderada degeneração muscular com substituição das células miocárdicas por tecido fibroso, sem correlação com lesões de artérias coronárias. Portanto, estas alterações podem ser indistinguíveis das resultantes de isquemia crônica. O aumento da resistência vascular periférica pode ocasionar uma moderada hipertrofia miocárdica concêntrica principalmente da câmara ventricular esquerda. A presença de depósitos amiloides está relacionada frequentemente com a maior AN02FREV001/REV 4.0 59 incidência de insuficiência cardíaca independente da presença ou não de outra causa. O depósito amiloide pode ocupar áreas do nódulo sinoatrial e/ou do nódulo de Tawara, podendo acarretar complicações de natureza funcional, como arritmias atriais, disfunção atrial e até bloqueio atrioventricular. FIGURA 11 – CORTE LONGITUDINAL DO CORAÇÃO FONTE: Rebelatto, 2007. 8.2.2 Alterações das Valvas O tecido valvar, composto predominantemente por colágeno, está sujeito a grandes pressões. Com o envelhecimento, observa-se degeneração e espessamento dessas estruturas, sendo que, histologicamente, as valvas de quase todos os indivíduos idosos apresentam algum grau dessas alterações, mas somente uma pequena proporção irá desenvolver anormalidades em grau suficiente para desencadear manifestações clínicas. Dentre os processos de degeneração, está a calcificação das valvas, mas também com pouca complicação e sintomatologia. AN02FREV001/REV 4.0 60 8.2.3 Alterações do Sistema de Condução ou Específico Processos degenerativos e/ou depósitos de substâncias podem ocorrer desde o nódulo sinusal aos ramos do feixe de His. O envelhecimento se acompanha de uma acentuada redução das células do nó sinusal, podendo comprometer o nó atrioventricular e o feixe de His. A infiltração gordurosa separando o nó sinusal da musculatura subjacente contribui para o aparecimento de arritmia sinusal, sendo a mais frequente nesta faixa etária a fibrilação atrial. Essas alterações se instalam de forma lenta e gradual após os 60 anos e não estão, geralmente, relacionadas à doença coronariana, sendo que os distúrbios do ritmo relacionados a esse processo variam de arritmias benignas até bloqueios de ramos que evoluem para bloqueios atrioventriculares, podendo levar até a crise de Stokes-Adams. A crise de Stokes-Adams é um modelo exemplar de síncope por diminuição do débito cardíaco. A hipóxia cerebral depende de uma queda do fluxo sanguíneo encefálico, apresentando a estes doentes uma alteração da condução atrioventricular com pulso lento permanente. O quadro clínico pode se exteriorizar apenas por tontura transitória, por síncope e, nos acessos mais prolongados, por crise convulsiva. 8.2.4 Alterações da Aorta A modificação principal que ocorre, sem considerar a arteriosclerose, seria a alteração na textura do tecido elástico e aumento do colágeno. Os processos ocorrem na camada média, sob a forma de atrofia, de descontinuidade e de desorganização das fibras elásticas, aumento de libras colágenas e eventual deposição de cálcio. A formação de fibras colágenas não distensíveis predomina sobre as responsáveis pela elasticidade intrínseca que caracteriza a aorta jovem, resultando, portanto, em redução da elasticidade, maior rigidez da parede e aumento do calibre. AN02FREV001/REV 4.0 61 Normalmente, as implicações clínicas das modificações da parede e do diâmetro da aorta são pouco acentuadas e observa-se, ocasionalmente, aumento da pressão sistólica e da pressão de pulso, com moderadas repercussões sobre o trabalho cardíaco. 8.2.5 Alterações das Artérias Coronárias As alterações das artérias coronárias não são, em geral, expressivas quando não é considerada a arteriosclerose vascular podendo ser encontradas, como condição habitual de envelhecimento, perdas de tecido elástico e aumento do colágeno acumulando-se em trechos proximais das artérias. Eventualmente, ocorre depósito de lípides com espessamento da túnica média. É comum a presença de vasos epicárdicos tortuosos, ocorrendo mesmo quando não há diminuição dos ventrículos. No coração a coronária esquerda altera-se antes da direita. Estas alterações são diferentes da arteriosclerose; outra situação discutida seria a de artérias coronárias dilatadas, que não encontrou apoio em verificações de necropsia antigas. Outra alteração significativa é a calcificação das artérias coronárias epicárdicas, observada com frequência em indivíduos muito idosos, muito comum nesta população, podendo atingir o tronco coronário e as três grandes artérias, ocupando geralmente o terço proximal desses vasos. Em alguns casos, podemos ter a amiloidose das artérias coronárias. 8.3 SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO Há uma grande influência do sistema nervoso autônomo sobre o desempenho cardiovascular. As consequências funcionais da diminuição da influência simpática sobre o coração e vasos do idoso são observadas AN02FREV001/REV 4.0 62 principalmente durante o exercício; portanto, à medida que o idoso envelhece o aumento do débito cardíaco durante o esforço se obtém com o maior uso da lei de Frank-Starling, com dilatação cardíaca, aumentando o volume sistólico para compensar a resposta atenuada da frequência cardíaca. O envelhecimento determina modificações estruturais que levam à diminuição da reserva funcional, limitando a performance durante a atividade física, bem como reduzindo a capacidade de tolerância em várias situações de grande demanda, principalmente nas doenças cardiovasculares. O débito cardíaco pode diminuir em repouso, principalmente durante o esforço, tendo uma influência importante do envelhecimento por meio de várias determinantes: Diminuição da resposta de elevação de frequência cardíaca ao esforço ou outro estímulo. Com o envelhecimento, temos diminuição da complacência do ventrículo esquerdo, mesmo na ausência de hipertrofia miocárdica, com retardo no relaxamento do ventrículo, com elevação da pressão diastólica desta cavidade, levando à disfunção diastólica no idoso, muito comum, e que se deve principalmente pela dependência da contração atrial para manter o enchimento ventricular e o débito cardíaco. Ocorre diminuição da complacência arterial, com aumento da resistência periférica e consequente aumento da pressão sistólica, com aumento da pós-carga dificultando a ejeção ventricular em razão das alterações estruturais na vasculatura. Diminuição da resposta cronotrópica e inotrópica às catecolaminas, mesmo com a função contrátil do ventrículo esquerdo preservada. Diminuição do consumo máximo de oxigênio (VO2 máx.) pela redução da massa ventricular encontrada no envelhecimento. Diminuição da resposta vascular ao reflexo barorreceptor, com maior suscetibilidade do idoso à hipotensão. Presença de diminuição da atividade da renina plasmática, sendo que nos hipertensos poderemos encontrar níveis de aldosterona plasmática normais, com diminuição da resposta ao peptídeo natriurético atrial, embora a sua concentração plasmática esteja aumentada. AN02FREV001/REV 4.0 63 No idoso, teremos maior prevalência de hipertensão sistólica isolada, mais frequente do que a sistodiastólica acima dos setenta anos, estando associada a um maior risco de doenças cárdio e cerebrovasculares. AN02FREV001/REV 4.0 64 8.4 SISTEMA RESPIRATÓRIO FIGURA 12 FONTE: Disponível em: < http://revistaescola.abril.com.br/ensino-medio/funcionamento-sistema- respiratorio-552993.shtml> Acesso em : 18 Maio de 2012. O aparelho respiratório pode sofrer alterações anatômicas e funcionais, que variam de amplitude, porém são inerentes ao processo normal e natural do envelhecimento, não devendo ser avaliadas como fator isolado. Vários fatores podem afetar a função pulmonar,sendo, frequentemente, agravantes do processo de envelhecimento, tais como o tabagismo, poluição ambiental, exposição profissional, doenças pregressas pulmonares ou não, diferenças socioeconômicas, constitucionais e raciais. A frequente associação com outras enfermidades, principalmente as de caráter crônico-degenerativas, faz com que os idosos apresentem maior comprometimento da função pulmonar. A redução dos parâmetros funcionais do idoso sadio, de acordo com vários autores, é da grandeza de aproximadamente 20%. (CASSOL, 2004). http://revistaescola.abril.com.br/ensino-medio/funcionamento-sistema-respiratorio-552993.shtml%3e%20%20Acesso http://revistaescola.abril.com.br/ensino-medio/funcionamento-sistema-respiratorio-552993.shtml%3e%20%20Acesso http://revistaescola.abril.com.br/ensino-medio/funcionamento-sistema-respiratorio-552993.shtml%3e%20%20Acesso AN02FREV001/REV 4.0 65 8.4.1 Alterações Estruturais do Sistema Respiratório Entre as principais alterações fisiológicas do aparelho respiratório destacam- se: Perda das propriedades de retração elástica do pulmão; Enrijecimento da parede torácica; Diminuição da potência motora e muscular. Para Freitas et al. (2002), alterações da elasticidade, da complacência e dos volumes pulmonares, decorrentes das mudanças do tecido conectivo pulmonar, da redução de massa muscular e da acentuação da cifose fisiológica, são descritas como fatores limitantes na terceira idade. Esses fatores podem frequentemente comprometer a reserva funcional dos idosos, tornando-os sintomáticos. As propriedades mecânicas do pulmão do idoso estão fisiologicamente alteradas quando comparadas com as do adulto jovem. FIGURA 13 – CURVA DE COMPLACÊNCIA DO PULMÃO AN02FREV001/REV 4.0 66 FONTE: Rebelatto, 2007. 8.4.1.1 Pulmão A maior alteração encontrada no pulmão senil é a diminuição do tamanho da via aérea, principalmente associada às alterações do tecido conectivo de suporte. O estreitamento de bronquíolos, o aumento dos ductos alveolares e o achatamento dos sacos alveolares são resultantes das alterações nas concentrações de elastina e colágeno observadas no envelhecimento. No interstício pulmonar, as fibras elásticas, o colágeno e a musculatura lisa desempenham importante papel na tensão elástica pulmonar, podendo também sofrer influências do volume sanguíneo pulmonar e do muco brônquico. No pulmão senil, o aumento do volume de ar nos ácinos decorre do aumento do volume de ar nos ductos alveolares, levando ao que chamamos de ductectasias, sendo considerada uma alteração fisiológica, não constituindo enfisema pulmonar propriamente dito. A redução do número e da atividade das células mucociliares, do epitélio de revestimento brônquico leva a maior dificuldade do clareamento das vias aéreas, predispondo a maior incidência de infecção nesse grupo. As alterações anatômicas, em combinação com a reorientação das fibras elásticas, podem ocasionar as AN02FREV001/REV 4.0 67 seguintes alterações fisiológicas na senescência: redução da elasticidade pulmonar, aumento da complacência pulmonar, redução da capacidade de difusão de oxigênio, fechamento prematuro de vias aéreas, fechamento de pequenas vias aéreas, redução dos fluxos expiratórios. FIGURA 14 – ALTERAÇÕES DAS VIAS AÉREAS INFERIORES FONTE: Rebelatto, 2007. 8.4.1.2 Parede torácica O enrijecimento do gradeado costal é a principal alteração fisiológica do envelhecimento associado à parede torácica, podendo ser atribuído ao processo de osteoporose e osteoartrose senil, caracterizado por descalcificação das costelas e vértebras, calcificação das cartilagens condroesternais e alterações nas articulações costovertebrais. A complacência total do aparelho respiratório no idoso está reduzida à custa, principalmente, do enrijecimento da parede torácica em contraposição aos AN02FREV001/REV 4.0 68 efeitos da redução da elasticidade pulmonar, ocasionando mudanças no formato do pulmão e na dinâmica respiratória. 8.4.1.3 Músculos respiratórios No envelhecimento fisiológico ocorre substituição de tecido muscular por tecido gorduroso, o que, associado aos elevados índices de inatividade e até imobilismo, compete para a redução da massa e da potência da musculatura esquelética, acarretando menor capacidade de sustentar o trabalho muscular (endurance). A redução da massa e da potência muscular é certamente fator de grande importância para o declínio da função pulmonar e que pode ser modificado por meio de programas de atividade física, fisioterapia motora e respiratória e suplementação nutricional. 8.4.1.4 Alterações da função pulmonar As alterações no tamanho da via aérea e da superfície alveolar contribuem para a redução do volume pulmonar útil para as trocas gasosas e para o aumento do espaço morto. As vias aéreas servem como conduto para gases inspirados e expirados (zona de condução), e, com o envelhecimento, tornam-se maiores, comprometendo a eficiência das trocas gasosas. O volume de ar inspirado contido no espaço morto aumenta de 1/3 para 1/2 do volume corrente em idosos. A redução da complacência torácica, o aumento da complacência pulmonar e a redução da força dos músculos respiratórios promovem a redução da capacidade vital (CV). A capacidade residual funcional (CRF), que corresponde ao volume de gás nos pulmões no final da expiração, e o volume residual (VR), que corresponde ao volume de gás nos pulmões após expiração forçada, aumentam com a idade, enquanto a capacidade pulmonar total (CPT) e o volume corrente (VC) pouco se alteram. AN02FREV001/REV 4.0 69 A capacidade vital forçada (CVF) e o volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEFl) reduzem com a idade, assim como a relação VEFI/CVF (índice de Tiffeneau). Tais alterações podem ser atribuídas à redução da pressão de recolhimento e consequente fechamento das vias aéreas em grandes volumes pulmonares. As desordens respiratórias do sono, a obstrução e apneias são, reconhecidamente, distúrbios comuns em idosos, os quais apresentam uma redução da qualidade e na estrutura do sono. 8.5 SISTEMA DIGESTÓRIO FIGURA 15 FONTE: Disponivel em http://www.auladeanatomia.com/digestorio/sistemadigestorio.htm Acesso em: 18 de Maio 2012. Para Ribeiro e Marin (2009), com o envelhecimento, o aparelho digestório apresenta alterações estruturais, de motilidade e da função secretória que variam em intensidade e natureza em cada segmento do mesmo. As consequências clínicas dessas alterações são, na maioria dos casos, pouco perceptíveis, mas, em seu conjunto, adquirem importância para a compreensão e o manuseio de sintomas e para a previsão de alterações na farmacocinética de diversas medicações. http://www.auladeanatomia.com/digestorio/sistemadigestorio.htm AN02FREV001/REV 4.0 70 Com o envelhecimento, a musculatura lisa do esôfago pouco se altera, porém ocorre importante e progressiva redução de sua inervação intrínseca. De maneira geral, reconhece-se diminuição da pressão de repouso e alterações da sincronia e magnitude do relaxamento do esfíncter superior do esôfago (que pode causar disfagia alta), aumento da incidência de contrações não peristálticas (síncronas e falhas) e manutenção da pressão de repouso do esfíncter inferior do esôfago. Mesmo em pessoas assintomáticas, implicações clínicas importantes, como a necessidade de se administrarem medicamentos, por via oral, na posição ortostática, acompanhados de razoável quantidade de líquido. Outra importante implicação consiste no fato de que materiais ácidos refluídos do estômago permanecem por mais tempo em contato com a mucosa esofágica, com maior potencial de lesão. A secreção de pepsina quer basal, quer estimulada, também se mostra reduzida como envelhecimento. Também tem sido demonstrada redução significativa da presença de prostaglandinas na mucosa gástrica, o que aumentaria sua susceptibilidade a fatores lesivos. O pâncreas sofre importantes alterações estruturais com o envelhecimento. O seu peso se reduz de uma média de 60 + ou - 20 gramas menos de 40 gramas na nona década de vida. Porém, a reserva funcional pancreática é elevada. Os estudos acerca dos efeitos do envelhecimento sobre as alterações estruturais do cólon são, da mesma forma que em relação ao delgado, escassos e controversos. Três fatos evidentemente idade-relacionados ocorrem, no que se refere ao cólon: - Aumento da prevalência de constipação; - Aumento da incidência de neoplasias; - Aumento da prevalência de doença diverticular. Alguns dados explicam parcialmente essas alterações e eles serão aqui discutidos. A ocorrência mais frequente de constipação entre os idosos pode ser explicada por uma série de fatores extrínsecos ao cólon, como o sedentarismo, a AN02FREV001/REV 4.0 71 redução na ingestão de fibras e líquidos e alterações hormonais. O tempo de trânsito colônico se mostrou aumentado em diversos estudos, mas inalterado em outros. Uma possível causa para distúrbios do trânsito seria a redução dos neurônios do plexo mioentérico associada ao envelhecimento. No entanto, pouco se conhece sobre a regulação do trânsito colônico em idosos e eventuais modificações desta em relação a faixas etárias mais jovens. A prevalência de incontinência fecal aumenta claramente com o envelhecimento, com consequências pessoais e sociais importantes. Diversos mecanismos extrínsecos contribuem para a ocorrência de incontinência, como déficit cognitivo, impactação fecal, acidentes vasculares cerebrais, neuropatia diabética. 8.6 SISTEMA ENDÓCRINO FIGURA 16 FONTE: Disponivel em : < http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Corpo/sistemaendocrino.php> Acesso em : 18 de Maio de 2012. Alterações no sistema endócrino (e imune) associadas à idade levariam à deterioração do organismo e ao processo do envelhecimento. A teoria http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Corpo/sistemaendocrino.php AN02FREV001/REV 4.0 72 neuroendócrina sugere a presença de um marca-passo central que levaria à falência do sistema endócrino. Essa teoria se baseia no fato de que muitos indivíduos jovens com doenças endócrinas (osteoporose, diminuição da secreção de hormônio de crescimento, hipogonadismo) apresentam alterações morfológicas, funcionais e bioquímicas (diminuição da massa óssea, diminuição da massa muscular, hipertensão arterial) que são encontradas em indivíduos idosos “sem doenças”. As secreções hormonais obedecem a um ritmo de 24 horas (maiores ou menores) e são influenciadas por fatores endógenos e exógenos. Vários estudos demonstram relação entre o ritmo de sono e o ritmo de secreção hormonal (por exemplo, secreção de hormônio de crescimento). No exemplo citado, deveríamos elucidar totalmente se a insônia do indivíduo idoso pode contribuir para a diminuição de secreção de hormônio do crescimento (GH) nesse grupo etário. A menopausa é definida como a falência total da função ovariana (produção de esteroides e ausência de ovulação), resultando em amenorreia permanente. Uma ausência de menstruação por um período de doze meses confirma o diagnóstico em mulheres idosas. Portanto, a menopausa é um diagnóstico retrospectivo. O climatério é uma terminologia usada para caracterizar as alterações fisiológicas e os sintomas que decorrem da transição do período reprodutivo para o não reprodutivo da mulher. Outra situação que apresenta relação com a deprivação hormonal é a osteoporose, que tem uma correlação fisiopatológica, preventiva e terapêutica com os níveis estrogênicos. A real incidência de sintomas precoces é muito discutida na literatura e sua prevalência em relação a diferentes faixas etárias promove controvérsias. Analisando uma população com idades entre 46 a 62 anos, observou-se que os sintomas vasomotores foram relatados em 57%, depressão/irritabilidade em 57,1%, distúrbios do sono em 52%, sintomas osteomusculares em 57%, perda de libido em 57% e secura vaginal em 21%. Como observado anteriormente, a relação entre esses sintomas e o estado de hipoestrogenismo possibilita, nos casos em que não existam contraindicações e haja desejo do paciente, que se inicie a terapia de reposição hormonal. A terapia hormonal apresenta, de acordo com resultados, 90% de resposta positiva. Como no sexo feminino, o homem apresenta, com o envelhecimento, alterações hormonais. A suspeita clínica de hipogonadismo deve ser feita quando o AN02FREV001/REV 4.0 73 indivíduo se apresenta com queixas de alteração de libido, vigor, potência sexual, fraqueza muscular e diminuição de massa muscular. Ocasionalmente, no idoso podem também vir ondas de calor. A questão é, então, a formulação, a dosagem e a monitoração da reposição com testosterona. Os resultados de reposição de testosterona em indivíduos idosos são muito conflitantes e não existem, no momento, trabalhos publicados referindo-se ao efeito em idosos com doenças crônicas. O número de pacientes é pequeno e a terapia é curta. Sabe-se que a terapêutica com testosterona tem que ser usada com cautela. 8.7 SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO FIGURA 17 FONTE: Arquivo Pessoal, ano. Segundo Edison Rossi (2008), a atrofia óssea com o envelhecimento não se faz de forma homogênea, pois, antes dos 50 anos, perde-se, sobretudo, osso trabecular e, após essa idade, principalmente osso cortical. AN02FREV001/REV 4.0 74 FIGURA 18 FONTE: Adaptado de Rebelatto, 2007. O envelhecimento cartilaginoso traz consigo um menor poder de agregação dos proteoglicanos (complexos de proteínas-mucopolissacarídeos) aliados a uma menor resistência mecânica da cartilagem; o colágeno adquire menor hidratação, maior resistência à colagenase e maior afinidade pelo cálcio. FIGURA 19 – ETAPAS DA LESÃO DEGENERATIVA DA CARTILAGEM ARTICULAR NA OSTEOARTROSE AN02FREV001/REV 4.0 75 FONTE: Adaptado de Rebelatto, 2007. Nos discos intervertebrais, a degeneração aumenta com o envelhecimento. A degeneração discal compreende rupturas estruturais grosseiras e alterações na composição da matriz; estudos recentes indicam que sobrecargas mecânicas moderadas e repetidas, sobretudo nos discos de indivíduos dos 50 aos 70 anos, podem ser a causa inicial do processo. Sabe-se que os condrócitos de idosos têm menor capacidade de proliferação e capacidade reduzida de formar tecido novo, o que explica, em parte, a associação entre idade e osteoartrite. Com o envelhecimento, há uma diminuição lenta e progressiva da massa muscular, sendo o tecido nobre paulatinamente substituído por colágeno e gordura. AN02FREV001/REV 4.0 76 O número de fibras musculares no velho é aproximadamente 20% menor que no adulto, sendo o declínio mais acentuado em fibras do tipo II. A sarcopenia contribui para outras alterações idade-associadas, como, por exemplo, menor densidade óssea, menor sensibilidade à insulina e menor capacidade aeróbica. Uma diminuída massa magra idade-dependente resulta, sobretudo da sarcopenia, o que traz consigo menor taxa de metabolismo basal, menor força muscular e menores níveis de atividades físicas diárias. Com o envelhecimento, diminui a velocidade de condução. Há um aumento no balanço postural, diminuição dos reflexos ortostáticos e um aumento do tempo de reação. O centro de gravidade das pessoas idosas muda para trás do quadril. Aumenta o número de fibras nervosas periféricas, que mostram alterações morfológicas (degeneração axonal; desmielinização segmentar). O maior estudo sobre dor já conduzido revelou uma redução da dor relacionada à idade em todas asIocalizações anatômicas, exceto nas articulações. A osteoartrite é, sem dúvida, o distúrbio doloroso mais comum no idoso. A dor neuropática, principalmente, a neuralgia do trigêmeo e a pós-herpética ocorrem com frequência, enquanto síndromes dolorosas crônicas não malignas comuns aparecem com mais frequência do que no adulto. FIGURA 20 – DIFERENÇAS ENTRE ADULTO E IDOSO AN02FREV001/REV 4.0 77 FONTE: Adaptado de Rebelatto, 2007. 8.8 SISTEMA URINÁRIO FIGURA 21 FONTE: Disponivel em :< http://educacao.uol.com.br/ciencias/sistema-excretor-rins-filtram-impurezas- e-as-eliminam-na-urina.jhtm> Acesso em: 18 de Maio de 2012. A partir da quarta década inicia-se o processo de envelhecimento renal, com diminuição do seu peso, que pode atingir cerca de 180 gramas, reduzindo a área de filtração glomerular e, consequentemente, das suas funções fisiológicas. Por ser intensamente vascularizado, o rim recebe aproximadamente 25% do débito cardíaco por minuto, que circula principalmente pelo córtex, para o processo de filtração glomerular, que é o ponto de partida da ação fisiológica renal, promovendo depuração sanguínea de substâncias originárias do metabolismo e manutenção da homeostase. A partir dos 40 anos todos os vasos renais sofrem progressiva esclerose, levando à diminuição da sua luz, com consequentes modificações no fluxo laminar do sangue, o que facilita a deposição lipídica na parede vascular, propiciando a http://educacao.uol.com.br/ciencias/sistema-excretor-rins-filtram-impurezas-e-as-eliminam-na-urina.jhtm http://educacao.uol.com.br/ciencias/sistema-excretor-rins-filtram-impurezas-e-as-eliminam-na-urina.jhtm AN02FREV001/REV 4.0 78 substituição e células musculares por depósitos de colágeno, o que leva à diminuição da sua elasticidade. O número de glomérulos mantém-se constante até a quarta década, quando se inicia o processo de envelhecimento renal, havendo uma progressiva redução dessas estruturas, atingindo na sétima década cerca de um terço do número de glomérulos iniciais. A principal consequência dessas alterações é a diminuição da área de filtração e da permeabilidade glomerulares, proporcionando, dessa forma, a diminuição do ritmo de filtração. Em decorrência das modificações estruturais observadas com o envelhecimento renal, teremos algumas modificações funcionais, as quais podem ser atribuídas ao denominado envelhecimento bem-sucedido, já que, apesar dessas perdas, são preservadas as funções de equilíbrio do meio interno, que é mantido dentro dos níveis de normalidade fisiológica, bem como as excretoras e endócrinas do rim. Desse equilíbrio resulta a preservação do metabolismo celular. Como citado anteriormente, as modificações funcionais são diretamente proporcionais à redução das medidas renais. No entanto, trabalhos longitudinais, como o estudo de Bronx, revelaram que essas perdas do envelhecimento não são homogêneas, classificando os idosos em três categorias: redução da filtração glomerular acentuada, intermediária e sem comprometimento. 8.8.1 Envelhecimento da Bexiga Aspectos do envelhecimento diferenciado entre os sexos: A origem embriológica comum da bexiga, uretra, ureter e trato genital respondem, na mulher, ao estímulo estrogênico, cujo declínio de produção com que acompanha o climatério pode trazer consequências na sua fisiologia, participando como facilitador do aparecimento, por exemplo, de infecções urinárias. Nos homens, associados aos processos degenerativos próprios, a bexiga está vulnerável, principalmente, ao aumento prostático e consequente acentuação do prejuízo aos processos primários do seu envelhecimento. AN02FREV001/REV 4.0 79 8.9 ENVELHECIMENTO CUTÂNEO FIGURA 22 FONTE: Cobbis,. As alterações macroscópicas são: a pele torna-se lisa, fina, com a aparência de um papel, há palidez, diminuição da extensibilidade e elasticidade. O panículo adiposo pode estar reduzido em certas regiões: face, nádegas, mãos e pés. Os pelos são mais finos, rarefeitos, quebradiços e menos numerosos na cabeça, axila, púbis e membros, principalmente, nas pernas. Os cabelos brancos são explicados pela diminuição progressiva dos melanócitos dos folículos pilosos. As unhas se tornam mais frágeis, quebradiças, finas ou espessadas, com diminuição do brilho tornam-se opacas e apresentam estriações longitudinais, chegando, às vezes, a fissurar. A densidade do colágeno diminui significativamente. As fibras elásticas praticamente desaparecem a partir dos 30 anos de idade. AN02FREV001/REV 4.0 80 FIM DO MÓDULO III IA E GERONTOLOGIA FISIOTERAPIA APLGERONTO AN02FREV001/REV 4.0 79 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA Portal Educação CURSO DE FISIOTERAPIA APLICADA À GERIATRIA E GERONTOLOGIA Aluno: EaD - Educação a Distância Portal Educação AN02FREV001/REV 4.0 80 CURSO DE FISIOTERAPIA APLICADA À GERIATRIA E GERONTOLOGIA MÓDULO IV Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este Programa de Educação Continuada. É proibida qualquer forma de comercialização ou distribuição do mesmo sem a autorização expressa do Portal Educação. Os créditos do conteúdo aqui contido são dados aos seus respectivos autores descritos nas Referências Bibliográficas. AN02FREV001/REV 4.0 81 MÓDULO IV 9 PATOLOGIAS E TRATAMENTO FISIOTERÁPICO 9.1 IDOSOS PORTADORES DE DOENÇAS REUMÁTICAS FIGURA 23 FONTE: Cobbis, ano. A artrite reumatoide e a osteoartrose estão entre as doenças reumáticas articulares mais prevalentes na população que sofre de acometimentos crônicos, sendo comum em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, e em desenvolvimento, como o Brasil. De forma geral, as patologias reumáticas (musculares e ósseas) nos idosos acarretam comprometimento da função, diminuição do nível de dependência do paciente, diminuição da destreza para os movimentos, prejuízos na marcha e quedas recorrentes. AN02FREV001/REV 4.0 82 9.1.1 Osteoartrose FIGURA 24 FONTE: Cobbis, ano. A osteoartrose (OA) pode ser definida como o quadro clínico articular consequente às alterações bioquímicas, moleculares e histológicas que ocorrem na cartilagem articular e no osso subcondral quando, por diversos fatores, há uma falha dos condrócitos em sintetizar qualitativa ou quantitativamente a matriz extracelular. Em estágio inicial, trata-se de uma degeneração não inflamatória e sua evolução leva à formação de osso subcondral novo na superfície articular e nas margens articulares. O desenvolvimento da degeneração articular primária é fortemente relacionado com o envelhecimento. As articulações mais acometidas são as relacionadas com o suporte do peso corporal, como o joelho, a articulação intervertebral, o disco e a articulação coxofemoral, e as pequenas interfalangianas proximal e distal no membro superior. De forma geral, após os 30 e 35 anos, 50% das pessoas apresentarão alterações articulares degenerativas que predispõem à OA e, após a quinta década, praticamente essas mudanças estarão presentes em toda a população, sendo que as mulheres apresentam esses sinais mais precocemente que os homens. Giorgi (2001) afirma que a prevalência aumenta com a idade: é pouco notada antes dos 40 anos, mais frequente após os 70 e aos 75 anos ou mais, aproximadamente 85% dos indivíduos têm evidência da enfermidade. A perda da cartilagem determina modificações secundárias também nos ligamentos, nas cápsulas e nos músculos responsáveis pelos movimentos da articulação acometida. AN02FREV001/REV 4.0 83 Com a progressãode o processo inflamatório articular, os ligamentos e a cápsula tornam-se contraturados, e os músculos tornam-se fracos pelos repetidos períodos de desuso, contribuindo para rigidez e enfraquecimento associado à osteoartrose. Na fase inicial da doença, os pacientes experimentam dor articular localizada que piora com a atividade e diminui com o repouso, enquanto na fase avançada, nem mesmo o repouso é capaz de aliviar os sintomas dolorosos. O diagnóstico da OA deve ser acompanhado da história do paciente, relatado de sintomas, sinais clínicos, exames laboratoriais e achados radiológicos. 9.1.2 Tratamento Fisioterápico Uma vez que a OA é uma doença com características fisiopatológicas irreversíveis, especialmente em estágios avançados, e com progresso incapacitante, a fisioterapia é sempre uma medida conservadora no acompanhamento dos pacientes com essa doença. De forma geral, os objetivos do tratamento fisioterápico na OA são direcionados para: Redução ou alívio da dor e rigidez articulares; Redução da sensação parestésica; Aumento da funcionalidade; Manutenção e aumento da força muscular; Aumento da estabilidade articular; Proteção articular; Aumento da propriocepção e sensação cinestésica. O fisioterapeuta deve orientar o paciente sobre: O controle do peso corporal e sua implicação na progressão das lesões articulares; Mostrar as vantagens da prática de atividade física orientada; Recomendar e treinar o uso de órteses para reduzir a descarga de peso; Promover a melhora do alinhamento articular; AN02FREV001/REV 4.0 84 Reduzir as instabilidades articulares do paciente. Além do potencial de recuperação da cartilagem articular, como discutido no início deste capítulo, os exercícios exercem papel importante na recuperação de hipotonia ou atrofia muscular. Estudos de revisão mostram efeitos benéficos da cinesioterapia na reabilitação da atrofia muscular de pacientes com artrose de joelho e quadril. Um programa típico para combater a atrofia muscular, causada indiretamente pela artrose do joelho, por exemplo, envolveria inicialmente exercícios isométricos para a musculatura da coxa, como as séries de levantamento da perna estendida (straigth leg raise - SLR), seguidos por isotônicos conforme a evolução dos sinais inflamatórios, se presentes, e os sintomas. Alongamentos de quadríceps e de isquiotibiais, frequentemente encurtados em paciente com histórias de longa duração, são fundamentais para o funcionamento normal da articulação do joelho. Na reabilitação de pacientes portadores das patologias reumáticas do tecido muscular, em que a queixa principal é a dor muscular ou a poliartralgia, a TENS (Transcutaneous Electrical Neurologic Stimulation) é conhecida por promover alívio de dor nas atividades funcionais. FIGURA 25 FONTE: Disponível em: <www.usp.br>. Acesso em: dia/mês/ano. Diferentes tipos de inserções de eletrodo podem ser utilizados dependendo da região dolorosa. No caso das dores musculares mais abrangentes, como aquela destinada ao alívio da dor na musculatura proximal das cinturas escapular e pélvica AN02FREV001/REV 4.0 85 causadas pela polimiosite, às inserções sobre o ponto doloroso ou com eletrodos cruzados são as mais indicadas. 9.2 OSTEOPOROSE FIGURA 26 FONTE: Clinicaq, ano. Estima-se que em cerca de um terço de todas as mulheres na pós- menopausa, a diminuição da massa óssea atinja rapidamente os níveis do limiar de fratura. É notado que, em razão de sua natureza insidiosa, da falta de sintomas clínicos antes de ocorrer fraturas e da ausência de marcadores clínicos e laboratoriais específicos, o diagnóstico dessa doença é realmente impossível sem o auxílio das técnicas desenvolvidas nas últimas duas décadas. O desafio é, portanto, identificar precocemente as mulheres pertencentes a esse grupo de alto risco. A prevenção é a melhor forma de se evitar a instalação e as complicações da osteoporose, e inclui: A identificação de fatores de risco que levam ao desenvolvimento dessa doença; AN02FREV001/REV 4.0 86 O diagnóstico precoce do enfraquecimento dos ossos, medindo-se a densidade óssea. A densitometria óssea revolucionou, nos últimos 20 anos, a investigação diagnóstica da massa óssea. Trata-se de um método sensível e preciso. O baixo erro de precisão aliado à alta sensibilidade faz com que a densitometria seja útil tanto no diagnóstico como no acompanhamento da evolução do paciente com osteoporose. O osso trabecular é o tipo mais vulnerável à osteoporose. As mulheres têm um risco quatro vezes maior de desenvolver osteoporose que os homens, basicamente em função da diminuição de hormônios sexuais femininos após a menopausa. 9.2.1 Sintomas A osteoporose é uma doença silenciosa e progressiva, tendo como primeiro sinal, em geral, a ocorrência de fraturas, quando a doença já está instalada. As primeiras fraturas ocorrem de modo espontâneo nas vértebras, sem necessidade de uma ação traumática. O peso do tronco é suficiente para que os corpos vertebrais “desabem” progressivamente, resultando em deformidade dos mesmos, o que vai conferir à coluna vertebral a curvatura característica que tantas pessoas idosas apresentam. A estatura dessas pessoas vai sendo reduzida, podendo chegar a dez ou mais centímetros de perda. As fraturas mais comuns ocorrem no fêmur, no punho e no úmero (ossos com grande porcentagem de osso esponjoso). As dores, principalmente as na coluna, surgem depois da ocorrência das fraturas vertebrais, causando pinçamento dos nervos e acarretando dores no peito, nos braços e nas pernas. Algumas medidas práticas podem ser tomadas, tais como: Retirar tapetes soltos da casa; Usar corrimão ao subir ou descer escadas; Manter claridade no trajeto do quarto para o banheiro; Habituar-se a manter um copo d'água na mesa de cabeceira; AN02FREV001/REV 4.0 87 Usar tapete antiderrapante no banheiro; Usar sapato de salto baixo; Evitar curvar-se ou carregar peso. Muito do que se atribui ao envelhecimento natural ou às suas patologias pode ser dependente, em essência, da imobilidade a que o próprio ser humano se condenou durante esse longo e importante período de vida. 9.2.2 Tratamento Fisioterápico O exercício apresenta papel fundamental na manutenção e na possibilidade de aumentar o pico de massa óssea e, teoricamente, deve ser iniciado precocemente na vida de um indivíduo a fim de minimizar as chances de aparecimento da osteoporose. O nível de exercício deve ser mantido já que os benefícios são perdidos com a descontinuidade do programa. Para minimizar os riscos do desenvolvimento de lesões musculoesqueléticas por traumas repetitivos, a educação objetivando o uso apropriado do equipamento de exercício e a observação dos sinais de alerta às lesões por over use são essenciais. Exercitar seus pacientes excessivamente tem efeito deletério. O prazer de fazer alguma atividade é fundamental, em especial nos pacientes idosos. Uma vez escolhida, verifique se há necessidade de supervisão prévia e durante a realização da atividade. Alguns cuidados adicionais, porém, podem e devem ser levados em conta independente das situações: Os calçados devem ser macios, leves e com sola antiderrapante. Uma queda pode trazer sérias consequências. Incentive seu paciente a não se acanhar em usar tênis, mesmo que ele nunca tenha usado antes. Roupas leves e que permitem boa ventilação são próprias para o clima quente. No frio, recomende abrigos confortáveis, que não limitem os movimentos. AN02FREV001/REV 4.0 88 O piso deve ser regular e um pouco áspero para evitar tropeços ou escorregões. Quando for incluído exercício de solo, utilize toalha ou colchonete. A iluminação deve ser suficientepara o paciente perceber o piso, o instrutor e os companheiros. A ventilação deve ser adequada para manter o ambiente agradável. Evite o contraste abrupto de temperaturas. A descontração é fundamental para que todos os movimentos possam ser realizados no limite das possibilidades físicas do seu paciente, sem que haja uma censura. O movimento pode e deve ser utilizado não apenas para a locomoção, mas também como forma de prazer. O terapeuta deve ter um papel na prevenção de complicações mais sérias associadas à osteoporose, em geral, as fraturas. O programa de reabilitação destinado a aumentar a flexibilidade, o equilíbrio e o fortalecimento deve ajudar a prevenir quedas. Escolher a órtese mais adequada para o auxílio da marcha ensinando seu paciente a usá-Ia e também os cuidados apropriados para evitar lesões é papel do fisioterapeuta. Educar o paciente e a família com respeito aos riscos ambulatoriais e domiciliares, tais como escadas sem corrimão e sapatos de salto, também é muito importante. As intervenções medicamentosas para prevenção ou tratamento da osteoporose também têm implicações para o terapeuta. Por exemplo, a administração de estrógenos está associada ao aparecimento de êmbolos sanguíneos, acidente vascular cerebral, aumento da pressão arterial, súbitas alterações de coordenação, visão, respiração, entre outros. Entretanto, a terapia de reposição hormonal pode ser importante para o tratamento da perda da massa óssea. O objetivo da fisioterapia na osteoporose não é favorecer a aquisição de massa óssea e sim promover: • Melhora da força muscular; • Equilíbrio; • Condicionamento físico; • Coordenação; AN02FREV001/REV 4.0 89 • Amplitude de movimento; • Diminuição da dor. Devemos salientar sempre a prevenção de quedas e consequentemente o risco de fraturas. Os exercícios que podem ser realizados por indivíduos osteoporóticos são: • Caminhadas por 50 minutos, cinco vezes na semana; • Atividades para equilíbrio e coordenação; • Exercícios que envolvam situação de peso; • Atividades que envolvam a extensão da coluna. Alguns exercícios devem ser evitados como: • Aeróbica de alto impacto; • Corrida; • Salto. Esses exercícios devem ser evitados por aumentarem o risco de fraturas vertebrais por causa da fragilidade das vértebras e flexão da coluna. Ao realizar esta atividade, o paciente com osteoporose pode aumentar as forças de compressão na coluna e aumentar o risco de colapsos vertebrais. Devem ser evitadas as atividades que envolvam risco de quedas como: step, caminhada em terrenos irregulares, etc. Movimentos resistidos de fechamento e abertura de quadril também devem ser evitados, pois aumentam a chance de fraturas proximais do fêmur. AN02FREV001/REV 4.0 90 9.3 SARCOPENIA FIGURA 27 FONTE: Adam, ano. A sarcopenia nos idosos está associada a mudanças intrínsecas do tecido muscular caracterizadas por perda da massa muscular, da força e da qualidade de contração em esforço máximo. Essas alterações são causadas pela perda das proteínas musculares, pelas mudanças na proporção de tipos de fibras musculares, pela inervação, pela resistência à fadiga e pelo metabolismo para obtenção de energia. Com a diminuição da força e da potência muscular, declina também a habilidade de desenvolvimento de toques rápidos nas articulações, necessária para atividades rápidas que necessitam de força moderada, tais como recuperar o equilíbrio. As fraturas são também causas de piora no quadro de imobilização dos idosos. Próteses, principalmente de quadril por fratura fisiológica por osteoporose, são muito representativas nos idosos. Os exercícios preventivos deverão privilegiar os locais de maior risco de fraturas, tais como o quadril, a coluna e os punhos. AN02FREV001/REV 4.0 91 9.3.1 Tratamento Fisioterápico Ao programar o atendimento dos pacientes, é necessário avaliar se são portadores de osteoporose leve, moderada ou grave, se têm dores ou se apresentam fraturas. Pacientes portadores de osteopenia, constatada pelo exame de densitometria óssea, devem ser encorajados à prática de exercícios livres, musculação, modalidades esportivas, dança e exercícios posturais. A hidroterapia é uma alternativa válida para os idosos portadores de osteoporose, especialmente quando associada à osteoartrite. Exercícios de fortalecimento da musculatura extensora da coluna devem ser incentivados, assim como o alongamento dos músculos peitorais e os exercícios abdominais são importantes para a prevenção das deformidades. A postura defeituosa pode causar dor. Como a dor crônica desencadeia posturas antiálgicas, estabelece-se um círculo vicioso que deve ser avaliado e abordado adequadamente pelos fisioterapeutas. Pacientes com osteoporose moderada e grave devem ser atendidos individualmente, observando-se a presença de dores, fraturas instáveis e outras complicações. A fisioterapia dispõe de recursos eletroterápicos para o tratamento de processos dolorosos, tais como a eletroestimulação transcutânea (TENS), que podem proporcionar grande alívio nesses ou em outros casos. Para todos os pacientes portadores de osteoporose, a orientação e educação são fatores importantes da conduta fisioterapêutica. Evitar posturas em flexão; manter a coluna alinhada quando sentado, deitado e de pé; pegar objetos no chão, com os quadris e os joelhos flexionados; e evitar exercícios em posturas de flexão são providências úteis, que devem ser aconselhadas a portadores de osteoporose. Como demonstrado pela literatura, a não observância dessas orientações aumenta a incidência de fraturas vertebrais em pacientes portadores de osteoporose. A fratura do colo do fêmur é uma das complicações mais comuns da osteoporose. Nesses casos, o procedimento cirúrgico consiste em osteossínteses e AN02FREV001/REV 4.0 92 artroplastias parciais e totais, utilizadas em casos de fraturas muito instáveis ou em pacientes que já apresentam processos degenerativos da articulação do quadril. A abordagem da fisioterapia irá depender do tipo de fratura, do tratamento cirúrgico realizado e das características individuais do idoso que será submetido ao tratamento. Porém, alguns procedimentos são comuns e de grande importância na prevenção das complicações no pós-operatório imediato. A manutenção de uma boa ventilação pulmonar e a cinesioterapia de bombeamento vascular para a prevenção de tromboembolismos são condutas prioritárias com o idoso acamado. Na fase em que o paciente se encontra no leito, o incentivo às mudanças de decúbito e a proteção das áreas com proeminências ósseas (escápulas, trocânteres, calcâneos e região sacral) e de pouco tecido muscular são importantes para a prevenção de úlceras de pressão. Orientações devem ser feitas quanto ao posicionamento adequado do membro operado e às mudanças de decúbito e transferências do paciente para as cadeiras. A manutenção de um alinhamento articular contribuirá para o sucesso do procedimento cirúrgico e para prevenir deformidades futuras. Um trabalho cinesioterápico isométrico objetivando a manutenção do trofismo e da força muscular dos extensores e abdutores, bem como o fortalecimento geral da musculatura, permitirá uso de auxílios para a marcha e deambulação o mais rápido possível. Assentar o paciente o mais precocemente, em cadeiras com alturas adequadas, orientar o mesmo para a utilização de adaptadores mais altos em assentos sanitários e a realização de atividades funcionais de maneira adequada são condutas simples, mas de grande importância para a prevenção de complicações. O treino de marcha deverá ser feito dentro da individualidade do paciente. Na medida do necessário, devem ser usadas desde barras paralelas até a bengala convencional, passando por andadorese bengalas canadenses. É importante lembrar que o fortalecimento muscular geral e o treino respiratório e cardiovascular prévios contribuirão para uma marcha mais adequada, sem alterações do movimento ou desvios posturais compensatórios, ajudando, dessa maneira, a recuperar o desempenho funcional do paciente, similar àquele anterior à fratura. AN02FREV001/REV 4.0 93 A função do membro deverá ser preservada, mesmo nos casos em que não exista a possibilidade de deambulação. É frequente a instalação de um quadro de imobilidade e medo na impossibilidade da deambulação precoce, ocasionando um decréscimo no desempenho funcional, que pode conduzir a complicações e à dependência. Nesses casos, um círculo vicioso é instalado, denominado síndrome de imobilidade (imobilidade - declínio funcional geral, com descondicionamento, complicações cardiorrespiratórias, enfraquecimento muscular e prejuízo da coordenação motora e do equilíbrio - imobilidade). A síndrome de imobilidade é, então, definida como o desequilíbrio da relação normal entre o repouso e a atividade física, ocorrendo por um tempo prolongado, causando alterações fisiológicas e bioquímicas em praticamente todos os órgãos. Suas consequências podem levar a uma incapacidade maior do que a causada pela enfermidade inicial e seus comprometimentos irão depender da gravidade da doença, da duração do repouso no leito, da idade do paciente e da sua prévia capacidade física e funcional. Diversos problemas, doenças e complicações podem levar o idoso ao leito. Devemos pesquisar aquelas que são mais comuns e passíveis de intervenção terapêutica. Os déficits sensoriais, como: o prejuízo da visão; o medo de quedas; a inadequação ambiental; a falta de motivação; a superproteção familiar ou dos cuidadores; e, ainda, os quadros psiquiátricos, como depressão, ansiedade e angústia, são fatores que podem contribuir para o desenvolvimento dessa síndrome. O repouso no leito é uma indicação clínica de grande valia e deve ser utilizado em casos agudos de infecções, em períodos pós-operatórios e para o restabelecimento de quadros traumáticos e inflamatórios. Entretanto, essa indicação deve ser bem criteriosa, para que os efeitos negativos de uma imobilização prolongada não se sobreponham aos seus benefícios. A intervenção precoce da fisioterapia irá evitar a instalação desse círculo vicioso e de suas comorbidades. Melhor para a saúde e bem-estar do idoso é a prevenção, tanto a que ajuda a impedir doenças, fraturas, quedas, imobilidade e incapacidade, quanto a que diminui a chance de sua ocorrência durante um eventual tratamento. AN02FREV001/REV 4.0 94 9.4 DISFUNÇÕES NEUROLÓGICAS Autores como Jackson (2000) consideram que as demências constituirão um problema de saúde pública crescente nos próximos 30 anos. Essa estatística relaciona-se com o aumento da expectativa de vida, presumindo-se que não haja cura ou meios de prevenir suas causas comuns. Assim, as alterações comportamentais e mentais tornam-se frequentes no idoso. 9.4.1 Demências Como algumas doenças, as demências avançam lentamente, a sua detecção precoce é difícil porque a pessoa mantém as habilidades sociais e a capacidade de compensar quaisquer déficits. Nos Estados Unidos, apenas se estima a prevalência da demência por causa da falta de uma base de dados sólida e dos problemas com o diagnóstico correto. Fundamentando-se em estudos europeus, a prevalência da demência é de 10 a 20% entre os idosos, dependendo da amostra e dos critérios de definição da demência que foram utilizados. Embora os dados publicados para os Estados Unidos sejam mínimos, estima-se que aproximadamente 15% da população acima de 65 anos de idade apresentem comprometimento cognitivo. O risco de deterioração aumenta com o avançar da idade, variando de três porcento para aqueles entre 65 e 74 anos de idade; 18,7% para aqueles entre 75 e 84 anos de idade e mais de 47% para aqueles com 85 anos de idade ou mais. Estima-se que a prevalência nos residentes em casas geriátricas com mais de 65 anos de idade é tão elevada quanto 50%. Dos idosos com um transtorno mental orgânico, calcula-se que de 10 a 20% apresentam condições reversíveis ou parcialmente reversíveis. Descreve-se a demência como um grupo de transtornos caracterizados pelo desenvolvimento de múltiplos déficits cognitivos. Os fatores contribuintes podem ser os efeitos psicológicos de uma condição clínica ou os efeitos de uma substância. O AN02FREV001/REV 4.0 95 aspecto essencial da demência é o comprometimento da memória de curto e longo prazo, associado a uma diminuição no raciocínio abstrato, julgamento e outros distúrbios da função cortical superior. Esses fatores devem ser suficientemente graves para interferir de modo significativo no trabalho, nas atividades sociais ou no relacionamento com os outros. A memória é o aspecto mais clássico, com a retenção da capacidade de empreender novas tarefas, mostrando maior declínio que a lembrança de temas remotos. À medida que o caso progride, pode ser afetada a memória recente e remota, com a pessoa alcançando o estágio em que o reconhecimento de pessoas familiares se torna comprometido. A desorientação pode passar despercebida no início, porque o indivíduo tentará compensar a perda. O raciocínio desorganizado torna-se aparente com a incapacidade da pessoa de seguir as orientações ou de tolerar as alterações na rotina. 9.4.1.1 Tratamento fisioterápico Apesar de ser uma doença progressiva, a fisioterapia objetiva retardar o seu curso, preservando, ao máximo possível, as funções motoras. É importante orientar a família para que a estimulação das capacidades cognitivas remanescentes preserve as funções intelectuais pelo maior tempo possível. Usar sinais para a identificação de quartos e banheiros; fornecer orientação temporal, por meio de relógios e calendários visíveis; fornecer orientação espacial, mantendo uma lâmpada acesa durante a noite, não alterando a disposição dos móveis da casa, nem mexendo na rotina do paciente. Essas providências ajudam a controlar a ansiedade e a compensar os déficits cognitivos. A avaliação fisioterapêutica dependerá do comprometimento do paciente. Nas fases iniciais poderão ser avaliados todos os itens, tais como a amplitude articular, a força muscular, alterações posturais e capacidade respiratória. Entretanto, os itens relacionados à psicomotricidade deverão ser observados com maior cautela e prudência. AN02FREV001/REV 4.0 96 Coordenação, equilíbrio, lateralidade, marcha, autopercepção, imagem corporal e funções da vida diária devem ser valorizados. Nas fases mais tardias, em que o comprometimento é maior, às vezes, só é possível avaliar a mobilidade por meio de movimentos passivos; a avaliação pulmonar torna-se mais crítica, assim como histórico do paciente junto à família. Em qualquer fase, obter informações sobre a vida pregressa, como passatempos, onde nasceram, se têm filhos e netos, com o que trabalham e qual a formação escolar, é útil para estabelecer vínculo com o paciente e com sua família. O tratamento fisioterápico dependerá das necessidades do paciente, mas a criatividade do fisioterapeuta na escolha das atividades é muito importante. A cinesioterapia pode ser utilizada para manter ou melhorar a amplitude e a força muscular. Nas fases iniciais, um programa de alongamento, exercícios com carga e exercícios aeróbicos são necessários para prevenção de problemas osteomusculares e cardiovasculares. Um programa com exercícios respiratórios também é necessário para a manutenção da capacidade pulmonar. A psicomotricidade deverá ser estimulada com maior ênfase à lateralidade, à autoimagem, à percepção corporal, à coordenação e ao equilíbrio. Os recursos da massoterapia e da ginástica holística, com uso debolas, bastões e escovas, podem contribuir positivamente. Jogos e músicas são excelentes recursos que estimulam a concentração, os movimentos e os reflexos. Os recursos lúdicos facilitam a participação do paciente, mas o fisioterapeuta deverá posicionar- se na sua frente, usar comando de voz, orientar todas as fases dos movimentos e, se necessário, executar junto com ele. A orientação quanto ao tempo e espaço e a estimulação da memória e do raciocínio complementam a terapia. Pode-se, por exemplo, nomear os exercícios para tentar pedi-los pelo nome ao paciente. Alterações de humor e agressividade podem ser sinais de fadiga ou dor. O profissional deverá estar atento e sensível para captar as alterações que o paciente possa apresentar durante a terapia. Nas fases iniciais, trabalhar com grupos pode ser uma alternativa interessante para o trabalho fisioterápico, uma vez que o contato com outras pessoas pode estimular a participação do paciente. Com a evolução da doença, no entanto, pode ser necessário um tratamento individualizado, AN02FREV001/REV 4.0 97 e, algumas vezes, o atendimento domiciliar pode ser a única alternativa em razão das limitações. 9.4.2 Doença de Alzheimer A DA contribui com 60% dos casos de demência. Os episódios geralmente são herdados e caracterizados pelo início precoce, com sintomas iniciando em torno de 50 anos de idade. A complementação do diagnóstico só se fará mediante autópsia após a morte. Nos estágios finais apresentam apatia, dificuldade de linguagem, depressão e completa falta de conhecimento dos familiares. FIGURA 28 FONTE: Rebelatto, 2007. 9.4.3 Delirium AN02FREV001/REV 4.0 98 A palavra “delirium” deriva do latim delirare, que literalmente significa “fora dos trilhos”; em sentido figurado, quer designar “estar perturbado, desorientado”. É uma manifestação neuropsiquiátrica de doença orgânica, que acomete principalmente pacientes idosos, especialmente hospitalizados. É definido como uma “Síndrome cerebral orgânica sem etiologia específica”, caracterizada pela presença simultânea de perturbações da consciência e atenção, da percepção, do pensamento, da memória, do comportamento psicomotor, das emoções e do ritmo sono-vigília. A duração é variável e a gravidade varia de formas leves a muito graves. Qualquer condição que comprometa a função cerebral pode causar delirium. Entre as causas clínicas em idosos destacam-se os processos infecciosos, particularmente pneumonia e infecção do trato urinário, afecções cardiovasculares, cerebrovasculares, pulmonares que causam hipóxia, e distúrbios metabólicos. Vários grupos de fármacos também podem contribuir para o delirium, condições cirúrgicas também podem ser fatores etiológicos, bem como fatores psicossociais como estresse psicológico de hospitalização e ambiente não familiar. O principal diagnóstico diferencial é com a demência. A história é fundamental, pois informações sobre início agudo e curso flutuante dos sintomas. A depressão pode lembrar mais sintomas de delirium hipoativo, com comportamento apático, linguagem lentificada e distúrbios do sono, mas de maneira gradual (depressão). O tratamento envolve a correção da sua causa. TABELA 1 – CARACTERÍSTICAS DA DEPRESSÃO E DEMÊNCIA CARACTERÍSTICAS Depressão Demência PROGRESSÃO Rápida Lenta ATENDIMENTO MÉDICO Mais precoce Mas tarde VALOR QUEIXA Detalhada Ausente O QUE É VALORIZADO Fracassos Sucessos ESFORÇO E DISPOSIÇÃO Pouco Mantido SOCIABILIDADE Perdida Mantida AN02FREV001/REV 4.0 99 PIORA MANHÃ TARDE INÍCIO PRECISO INDETERMINADO FONTE: Guccione, 2002. 9.4.4 Depressão no Idoso Situações psicossociais tradicionalmente ligadas ao envelhecimento, como pobreza, viuvez, institucionalização e solidão, são relatadas como fatores de risco para o desenvolvimento de sintomas depressivos. No seu processo de envelhecimento, os indivíduos se defrontam com fortes mudanças no seu papel social, destacando-se, entre essas, a ocasionada pela aposentadoria. Tem-se observado que a maioria das pessoas aposenta-se sem preparar-se devidamente, sem um projeto definido, o que, frequentemente Ieva à diminuição da autoestima, do ritmo das atividades e do interesse pelo cotidiano. As perdas, especialmente a morte do cônjuge, de filhos ou de amigos próximos, muitas vezes, atuam como fatores desencadeantes de sintomas e transtornos depressivos ou de ansiedade. 9.4.5 Acidente Vascular Encefálico (AVE) FIGURA 29 FONTE: Gettyimagem. Disponível em: <www.gettyimages.pt/Brasil>. Acesso em: 06/10/2011. AN02FREV001/REV 4.0 100 Pode ser definido como qualquer alteração na qual uma área cerebral é, transitória ou definitivamente, afetada por isquemias ou sangramentos decorrentes de processos patológicos nos vasos cerebrais. Inicialmente os déficits neurológicos observados refletem a lesão decorrente da extensão do núcleo (região de necrose neuronal) e da zona de penumbra (região peri-infarto), caracterizada por neurônios em mínima atividade. 9.4.6 Doença de Parkinson (DP) FIGURA 30 FONTE: Arquivo Pessoal, ano. Está compreendida dentro da síndrome parkinsoniana, que pode apresentar diversas etiologias; porém a prevalência da doença de Parkinson, de origem idiopática, aumenta em cerca de 10 vezes na população acima de 60 anos. Essa doença caracteriza-se pela destruição de neurônios dopaminérgicos localizados na substância negra, provocando um quadro clínico constituído por acinesia, rigidez, tremor e instabilidade postural. O diagnóstico médico é determinado clinicamente por meio de exames de neuroimagem. AN02FREV001/REV 4.0 101 9.4.6.1 Tratamento fisioterápico Especificamente em relação à população idosa que apresenta sinais neurológicos decorrentes da presença ou não de doenças, o fisioterapeuta deve rever vantagens e desvantagens de cada intervenção. Enquanto a qualidade do movimento é importante para adequada funcionalidade, pode-se reconhecer que a restauração do movimento normal torna-se um objetivo inatingível. Deve haver um equilíbrio entre reeducação de padrões normais de movimento e aceitação da compensação desejada e necessária. É importante ressaltar que a intervenção fisioterápica no idoso tem como principal objetivo restaurar ou manter a funcionalidade. Assim, a avaliação descrita anteriormente torna-se um instrumento extremamente útil para o rastreamento dos fatores de risco, considerando que a maioria das informações pode ser obtida por anamnese ou observação do ambiente em que esse indivíduo permanece com maior frequência. Nesse sentido, tal instrumento será útil para fornecer um conjunto de orientações domiciliares e de atividades de vida diária. Porém, para a maioria dos indivíduos nessa faixa etária é necessário avaliar os fatores intrínsecos (inerentes ao organismo), especificamente os sistemas que atuam sobre o controle postural, possibilitando identificar quais os impedimentos para posteriormente intervir. Entender os fatores cognitivos é uma etapa importante no processo de avaliação, uma vez que déficits de alerta, atenção, memória ou julgamento podem afetar o desempenho do paciente durante a avaliação. A maioria dos aspectos da função cognitiva é avaliada subjetivamente com base em observações. Mesmo idosos sem doenças instaladas podem apresentar deficit de memória ou compreensão, requerendo do fisioterapeuta adoção de algumas estratégias como dar ordens simples certificando-se de que o paciente entendeu o objetivo da tarefa, aumentar a motivação incentivando de modo verbal o desempenho da tarefa, bem como organizar as tarefas em uma sequência crescente de dificuldade para melhorar o desempenhar e manter um nível adequado de alerta para o desenvolvimento do aprendizado,ou seja, diminuir estímulos externos para AN02FREV001/REV 4.0 102 pacientes agitados e aumentar a qualidade de estímulos para pacientes depressivos. A instabilidade pode resultar de alteração no sistema neuromuscular por incapacidade de gerar e coordenar adequadamente as forças necessárias para mover o centro de gravidade. Dessa forma, quedas de força decorrentes das alterações no recrutamento e do tempo de ativação das unidades motoras, além de alterações sensoriais e perceptuais, podem interferir no desempenho do controle postural e da tarefa decorrente de problemas relacionados com a execução e o planejamento motor. Apesar de a instabilidade estar diretamente relacionada com a perda de equilíbrio em idosos associado à diminuição da função nos sistemas musculoesquelético e neuromuscular, essa diminuição da função do controle postural (equilíbrio) pode ser revertida por meio de treinamento. Esse treinamento pode incluir exercícios aeróbios, de força muscular ou equilíbrio. Alguns estudos demonstram que a melhora do equilíbrio, ou seja, do controle postural, ocorre de forma mais significativa quando o treinamento enfatiza a utilização de diferentes aferências sensoriais, integrando essas aferências sob condições de redução ou alteração desses estímulos sensoriais. Assim, pode ser realizado tal treinamento instruindo o paciente a permanecer em pé sobre superfícies instáveis, por exemplo, pranchas de equilíbrio ou espumas de diferentes densidades associadas à restrição visual ou alteração visual (fechamento dos olhos ou utilização de lentes para alterar a informação visual, respectivamente). O treinamento do controle postural baseado em estímulo sensorial provoca melhor reeducação do equilíbrio por execução que estiver inadequada, decorrente de alteração da amplitude de movimento ou déficit de força, tal melhora não será observada, sendo necessário realizar exercícios para alongamento e fortalecimento muscular anteriormente ao treino de equilíbrio. Outro distúrbio que afeta o controle da postura e a coordenação dos movimentos de múltiplas articulações é a ataxia, termo geral para decomposição de movimentos, podendo ser decorrente de déficits nos sistemas sensorial, vestibular e cerebelar. AN02FREV001/REV 4.0 103 A ataxia é essencialmente um distúrbio decorrente da incapacidade do paciente em processar o estímulo sensorial, dessa forma o movimento será realizado a partir de estratégias compensatórias para manter a estabilidade e a orientação do corpo no espaço. Na maioria dos casos, o tratamento da ataxia tem como objetivo melhorar a função do sistema sensorial parcialmente afetado sem sobrecarga dos sistemas restantes. Essa abordagem considera que a repetição adequada dos estímulos e, consequentemente, da resposta motora gera aprendizado motor, mesmo em longo prazo, com a vantagem de treinar o sistema deficitário e não sobrecarregar os outros sistemas como o visual e o somato sensorial. Como nos casos de aplicação de pesos para aumentar a resistência ao movimento e, assim, transmitir mais estímulos sensoriais. FIGURA 31 - PACIENTE EM TREINAMENTO DE EQUILÍBRIO DE TRONCO FONTE: Rebelatto, 2007. FIGURA 32 - TREINO DE MARCHA AN02FREV001/REV 4.0 104 FONTE: Rebelatto, 2007. O treino de marcha vai depender de cada patologia e de cada caso. Dentro dos tratamentos foram colocados alguns aspectos que devem ser observados. 9.5 DISFUNÇÕES CARDIOCIRCULATÓRIAS FIGURA 33 Fonte: Getty Images. Disponível em: <www.gettyimages.pt/Brasil>. Acesso em: dia/mês/ano. Atualmente a doença da artéria coronária ou coronariopatias em idosos, é considerada um problema de saúde pública, pois vem atingindo proporções epidêmicas principalmente nos países industrializados. Nos Estados Unidos, as coronariopatias são as principais causas de morte, de incapacidade funcional e de perda de poder econômico. AN02FREV001/REV 4.0 105 9.5.1 Principais Doenças da Artéria Coronária A angina de peito ou angina pectoris é caracterizada por dor ou desconforto paroxístico no tórax, tem curta duração e é aliviada pelo repouso. A angina surge quando as necessidades metabólicas do miocárdio excedem a oferta de sangue oxigenado que flui pelas artérias coronárias. Isso ocorre em razão da obstrução do fluxo sanguíneo por placas de ateroma ou por vasoespasmo. 9.5.2 Infarto Agudo do Miocárdio É uma necrose do músculo miocárdio decorrente de um comprometimento da irrigação sanguínea causada pela oclusão da artéria coronária que irriga a área afetada; a oclusão ocorre normalmente em virtude da presença de placas ateroscleróticas e quantidades variadas de trombose superpostas. Quatro quintos dos infartos ocorrem em indivíduos com idade por volta dos 65 anos, porém, isso não descarta a possibilidade de ocorrência em indivíduos de meia-idade e idosos mais avançados. O paciente idoso deve ser avaliado de forma minuciosa, principalmente quando apresenta outras doenças que fazem parte dos fatores de risco para a doença coronariana. As próprias mudanças fisiológicas e morfológicas que ocorrem naturalmente com o processo de envelhecimento predispõem essa população às instabilidades cardiovasculares. Ocorre também em razão da existência de grande número de alterações cardiovasculares associadas a um histórico de vida, tais como: sedentarismo, alimentação inadequada, tabagismo, além da hipertensão arterial, diabetes, entre outras doenças que contribuem para maior incidência de IAM à medida que o adulto envelhece. AN02FREV001/REV 4.0 106 Na internação do paciente com IAM o papel do fisioterapeuta é fundamental, principalmente quando se trata de idosos que, em geral, evoluem com complicações pulmonares e vasculares periféricas relacionadas com o imobilismo, pois esse paciente permanecerá em repouso no leito por um período de 24 a 48 horas. Nesse momento, o fisioterapeuta deve saber avaliar muito bem o paciente e, embora nas primeiras horas pós-infarto não é aconselhado o submeter ao esforço físico, pode-se solicitar respirações profundas, tosse e acompanhar de perto a evolução desse paciente para evitar as complicações decorrentes do período do imobilismo. Após as primeiras 24 a 48 horas de permanência no leito hospitalar, os pacientes com IAM não complicados já poderão ser mobilizados, evitando assim os efeitos indesejáveis do imobilismo. Essa mobilização deverá ser feita de forma gradual, evitando exercícios isométricos para não aumentar a sobrecarga cardíaca. No primeiro dia após o período de repouso citado (24 a 48 horas), o paciente deverá ser incentivado a sentar-se com as pernas para fora do leito. Esse procedimento deverá ser realizado vagarosamente, pois poderá ocorrer episódio de hipotensão postural pela mudança do decúbito. Quando o paciente estiver habituado com a posição será possível levá-Io para a poltrona ao lado do leito, onde deverá permanecer por um período curto, aproximadamente o tempo de arrumação do quarto. No segundo dia, o paciente poderá estar utilizando a pia e permanecer sentado fora do leito por um período maior, desde que não apresente nenhum episódio de dor ou sintomas de IAM. No terceiro dia, poderá sair da cama e permanecer na poltrona durante dois períodos, sendo um pela manhã e outro à tarde. No quarto dia iniciaremos a deambulação pelo quarto que será estendida ao corredor nos dias que se seguirão caso o paciente se mantenha estável. 9.5.3 Hipertensão AN02FREV001/REV 4.0 107 A hipertensão arterial é um dos principais fatores associados ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como aterosclerose coronariana e a insuficiência cardíaca, bem como de outras doenças como insuficiência renal e derrames cerebrais. Apesar de tantosmalefícios, a hipertensão arterial é ainda muito negligenciada por alguns pacientes. Vários fatores têm contribuído para esse descaso, por exemplo, o fato de a hipertensão quase sempre não apresentar qualquer sintoma, o que muitas vezes dificulta o diagnóstico e a adesão ao tratamento. A hipertensão arterial é a doença crônica degenerativa mais comum em nosso meio, estimando-se que sua prevalência na população adulta acima de 50 anos seja de 15%. Essa doença constitui um importante fator de risco coronário, estando relacionada com 40% dos óbitos por doenças cardiovasculares e com o aumento do risco de complicações, tais como acidente vascular cerebral (derrame), infarto do miocárdio e insuficiência cardíaca. Os dados epidemiológicos mostram aumento da incidência com o envelhecimento, sendo que entre os pacientes com idade superior a 75 anos mais da metade são hipertensos. O exercício físico, com duração mínima de 30 minutos por dia e intensidade adequada, auxilia substancialmente a reduzir a pressão arterial, além de promover o bem-estar daqueles que o realizam. É importante considerar os seguintes aspectos para a reabilitação cardíaca em idosos: • Ambiente e exercícios apropriados: a idade mais avançada, em geral, compromete o estilo de vida, já que o surgimento de artrite diminui a flexibilidade. Nesse caso, a atividade física cuidadosa pode ser benéfica, utilizando-se local de treinamento amplo, de preferência no mesmo plano e em superfície lisa. • Exercício e medicação: no indivíduo mais idoso, vale à pena salientar que a relação fisiológica e farmacológica é processada, às vezes, com diferentes peculiaridades na absorção, no metabolismo, na distribuição. Portanto, diante desses tipos de respostas do idoso recomendam-se cuidados especiais com a hipotensão arterial sistêmica, a arritmia em indivíduos que usam hipotensores e AN02FREV001/REV 4.0 108 diuréticos, os fármacos atuantes na função cognitiva (hipnótico, alfa agonista central e beta adrenérgico), os quais podem, eventualmente, precipitar isquemia cerebral. 9.5.4 Programa de Exercícios O programa de exercícios físicos tem o objetivo de levar o paciente a alcançar um condicionamento físico satisfatório, melhorar a eficiência dos batimentos cardíacos, proporcionar a vascularização colateral, além de fazer com que o paciente incorpore a atividade física nas suas atividades diárias. A cada sessão o paciente deverá iniciar suas atividades com exercícios leves de aquecimento, fazendo caminhadas, exercícios de membros superiores e inferiores, preparando-se para o período de atividade mais intensa em esteira ou em bicicleta ergométrica. A prescrição de protocolos individuais em rotina clínica deverá incluir um conjunto de dados para compor a linha de base, instruções para um aquecimento apropriado, descrições de exercícios de força e resistência para os membros e o tronco, e descrições de alongamentos e exercícios respiratórios para compor o desaquecimento. A fase pós-alta consiste na fase subaguda ou pós-hospitalar, com duração mínima de seis a oito semanas e máxima de 17 semanas. Tem como objetivos aumentar a capacidade aos esforços, trabalhar musculatura respiratória, assegurar continuidade ao programa, avaliar as cargas de trabalho leves a moderadas, informar sobre a monitorização, criar hábitos saudáveis no indivíduo e educar o paciente quanto ao controle dos fatores de risco. Mostram-se ainda outros objetivos com a RCV (reeducação cardiovascular), como: em longo prazo, estabilizar ou reverter o processo aterosclerótico; diminuir a morbimortalidade cardiovascular, melhorando a sintomatologia de angina de peito e as manifestações de disfunção ventricular esquerda; estimular a readaptação social, diminuindo ou eliminando a ansiedade e a depressão que podem acompanhar os idosos após um evento coronário; educar o paciente sobre sua doença, revelando as possíveis intercorrências e demonstrando-lhe a possibilidade da interferência favorável dessas medidas preventivas na sua evolução. AN02FREV001/REV 4.0 109 FIGURA 34 – TESTE ERGOMÉTRICO FONTE: Rebelatto, 2007. 9.6 DISFUNÇÕES RESPIRATÓRIAS O idoso é mais propenso a apresentar problemas respiratórios e a desenvolver quadros de insuficiência respiratória, podendo manifestar atelectasias, reter secreções e sofrer infecções respiratórias. Os sintomas respiratórios agudos estão entre as razões mais comuns de enfermidades respiratórias nos idosos e acabam por necessitar de atenção médica e fisioterápica. Além das manifestações clínicas das doenças respiratórias crônicas desempenharem um importante papel na função respiratória reduzida, hospitalizações agudas e taxa de mortalidade alta são observadas em indivíduos mais velhos. 9.6.1 Doenças Pulmonares que mais Acometem o Idoso AN02FREV001/REV 4.0 110 FIGURA 35 FONTE: Cobbis, ano. 9.6.1.1 Infecções As infecções têm valor importante no idoso, particularmente aqueles que são inválidos e institucionalizados. Muitas acontecem com mais frequência na idade avançada e determinam morbidez e taxas de mortalidade maiores no idoso que no jovem. Considerando que muitas dessas enfermidades são evitáveis ou curáveis, é importante uma boa compreensão do diagnóstico, do tratamento e da prevenção de infecções associadas ao processo de envelhecimento. Cerca de 40% das camas de hospital são ocupadas por pacientes geriátricos e cinco porcento dos pacientes com idade avançada residem em instituições de cuidado em longo prazo. Fatores como, baixa reserva fisiológica, presença de doenças crônicas subjacentes, demora no diagnóstico em razão de apresentações clínicas atípicas levam ao atraso no tratamento terapêutico, taxas mais altas de antibiótico adverso e outras interações de droga, e complicações resultantes de procedimento diagnóstico invasivo, acrescentando um quadro de morbidez e mortalidade nas doenças infecciosas no idoso. Apesar das técnicas sofisticadas de diagnóstico e das novas terapias, as infecções respiratórias continuam sendo preocupantes enfermidades entre os idosos. A pneumonia prossegue sendo o inimigo especial da velhice. AN02FREV001/REV 4.0 111 A infecção por vírus da gripe é talvez o exemplo mais dramático da importância da infecção respiratória nesses grupos de idosos. Apesar da importância clínica da infecção da gripe no meio de pessoas idosas e da disponibilidade de métodos de imunização segura e barata, a administração anual de vacina no meio de pessoas com mais de 65 anos na maioria das comunidades ainda é pequena. Sabe-se que a imunização da gripe reduz as taxas de hospitalização em 50% e as de mortalidade em 40 a 55%. A imunização anual de pessoas acima de 65 anos talvez seja a prática de menor custo que os médicos podem proporcionar como cuidados primários para pacientes idosos. 9.6.1.2 DPOC A DPOC é uma doença que causa grande impacto social, pois é incapacitante, necessita de alto investimento para que seja mantido o tratamento do paciente e leva à morte prematura de indivíduos que poderiam estar em plena atividade produtiva. A mortalidade por DPOC abaixo de 45 anos é baixa, aumentando com a idade. Os fatores de risco para o aparecimento e desenvolvimento da DPOC são: os ambientes que propiciam a inalação da fumaça do cigarro, da poeira e de substâncias químicas; a desnutrição; as infecções constantes na infância, entre outros. O estudo da oxigenação arterial é um dado importante e pode ser feito de forma não invasiva com o uso do oxímetro de dedo. Nele se analisa a saturação arterial da hemoglobina (SP02). É um exame prático, rápido, não expõe o paciente a riscos e é barato. A gasometria feita com o sangue arterial é um processo invasivo e doloroso para o paciente, por isso deverá ser colhida quandoa SP02 estiver abaixo de 88% ou a doença estiver em grau moderado para grave, nesses casos, com a finalidade de analisar o nível do gás carbônico e o grau de hipoxemia, para saber se o paciente tem ou não indicação de uso de oxigenoterapia. AN02FREV001/REV 4.0 112 9.6.2 Tratamento Ambulatorial e Reabilitação Pulmonar O uso das técnicas fisioterápicas terá o objetivo de promover a eliminação de secreção com o auxílio das manobras de higiene brônquicas, a reexpansão pulmonar, a reeducação respiratória e as atividades da vida diária. Além disso, devem ser realizados exercícios de fortalecimento muscular, alongamento e condicionamento físico, objetivando o aumento da mobilidade torácica e corporal, bem como maior eficiência do ato respiratório e da funcionalidade global. Dessa forma, o fisioterapeuta respiratório deve atuar na prevenção de recidivas do aparecimento de quadros infecciosos pulmonares nos pacientes crônicos, além de desempenhar função curativa, nos casos agudos, e educacional para todos os pacientes, familiares ou cuidadores. Para que haja sucesso no emprego da fisioterapia respiratória é necessário que o fisioterapeuta tenha conhecimento da fisiologia e da anatomia humana, da biomecânica da respiração, bem como dos mecanismos e dos agentes causadores das doenças pulmonares. Segundo a American Heart Association (AHA), para que haja sucesso no tratamento é importante que o paciente realize exercícios aeróbios, pelo menos três vezes por semana, com duração mínima de 20 a 30 minutos. Já o American College of Sports Medicine (ACSM) preconiza que a frequência utilizada deve ser de três a cinco dias por semana, com duração de 20 a 60 minutos por sessão, dependendo da intensidade. De qualquer forma, o importante é que o exercício seja capaz de promover algumas alterações, tais como: aumento da capilarização muscular, aumento das mitocôndrias e do metabolismo oxidativo, que levarão o paciente a melhorar o condicionamento físico. A dispneia nos pacientes com DPOC ocorre pelo desequilíbrio entre a necessidade ventilatória aumentada e a limitação da capacidade pulmonar. O aumento da necessidade ventilatória ocorre porque esses pacientes apresentam alteração da relação ventilação/perfusão, aumento na relação espaço morto/volume corrente, ocorrência de hipoxemia arterial e aumento do comando neural. AN02FREV001/REV 4.0 113 Por outro lado, a diminuição da capacidade pulmonar ocorre pela fadiga muscular respiratória, secundária ao aumento do trabalho ventilatório pela obstrução brônquica e pela desvantagem mecânica causada pela insuflação pulmonar, com inadequação da curva tensão versus comprimento. É importante avaliar inicialmente o estado físico respiratório do paciente, para estudo comparativo. A espirometria estará medindo os volumes e as capacidades pulmonares, além de fornecer dados como o volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1) e a relação entre capacidade vital forçada e volume expiratório forçado no primeiro segundo (CVF/VEF1), que provê o grau de obstrução e a gravidade do estado do paciente. Para potencializar a ação e os resultados dessas técnicas, alguns recursos são bastante utilizados, os quais estão descritos a seguir: Inaloterapia ou Aerossolterapia: tem a finalidade de umedecer a secreção brônquica, que pode encontrar-se muito espessa e aderida à parede do brônquio, dificultando sua eliminação. O uso da inaloterapia na forma de nebulização, usando NaCl a 0,9%, é feito antes ou durante a terapia dependendo da avaliação das condições do paciente, com o objetivo de aumentar o volume da secreção expectorada. Em alguns casos é possível associar a inaloterapia ao uso de broncodilatadores e às terapias de higiene brônquicas, aumentando a eficiência do medicamento e da própria higiene brônquica. FIGURA 36 - PACIENTE REALIZANDO INALOTERAPIA FONTE: Rebelatto, 2007. AN02FREV001/REV 4.0 114 Flutter: esse equipamento combina as técnicas de pressão positiva expiratória com oscilações de alta frequência na abertura da via aérea, com o objetivo de prevenir e tratar o colapso pulmonar por rolhas mucosas, além de aumentar a eliminação de secreções pulmonares. O flutter é um aparelho parecido com um cachimbo de haste curta e bocal. Na parte distal encontra-se um recipiente, em seu interior existe uma peça em forma de funil sobre a qual repousa uma bola pequena de aço estéril de alta densidade e o recipiente é envolvido por uma cobertura plástica perfurada. O paciente deverá colocá-lo entre os lábios e realizar expiração bucal. FIGURA 37 - PACIENTE UTILIZANDO O APARELHO FLUTTER FONTE: Rebelatto, 2007. Exercício respiratório com inspiração fracionada: a inspiração deverá ser nasal, suave, porém pequena e interrompida por períodos de apneia pós- inspiratória e programada em até seis tempos. As várias inspirações deverão ser realizadas dentro de um mesmo ciclo respiratório e a expiração deve ser pela boca. AN02FREV001/REV 4.0 115 Deve atingir níveis próximos ao volume de reserva expiratória. Essa técnica poderá melhorar a complacência pulmonar. (VELLOSO, 2008). Alguns equipamentos podem ser utilizados para auxiliar na terapia de reexpansão pulmonar, entre esses merecem destaque os que estão descritos a seguir: Inspirômetro de incentivo: é um equipamento utilizado há muitos anos como terapia respiratória profilática segura e bem aceita pelo paciente. O principal objetivo desse aparelho é incentivar uma inspiração profunda. Existem muitos aparelhos que proporcionam o incentivo de respirações profundas, entre eles encontram-se os incentivadores a volume e a fluxo, sendo os inspirômetros a fluxo os mais utilizados por causa do custo. Esse recurso terapêutico é indicado para pacientes com bom nível de consciência, que tenham condições de entender o uso do equipamento e que também colaborem com a execução do tratamento, pois eles deverão utilizá-Io mesmo quando o fisioterapeuta não estiver presente. FIGURA 38 - PACIENTE REALIZANDO TREINAMENTO DOS MEMBROS INFERIORES NA ESTEIRA ROLANTE MONITORADO COM OXÍMETRO DE PULSO FONTE: Rebelatto, 2007. AN02FREV001/REV 4.0 116 9.7 DISFUNÇÕES URINÁRIAS E SEXUAIS FIGURA 39 – SISTEMA URINÁRIO FONTE: Cobbis, ano. Segundo Reis (2003), a incontinência urinária tem prevalência no idoso de 8 a 34% segundo o critério ou método de avaliação. As causas mais importantes são: alterações dos tecidos da senilidade que acometem o trato urinário inferior e o assoalho pélvico, do sistema nervoso central e periférico, alterações hormonais como a menopausa, poliúria noturna, alterações psicológicas, hiperplasia prostática, doenças concomitantes, como câncer, e efeitos colaterais de medicamentos. A incontinência pode ser transitória ou permanente. Além da anamnese cuidadosa para caracterizar as perdas urinárias, a busca de causas associadas ou concomitantes e o diário miccional, indica-se com frequência os exames especializados como a urodinâmica. TABELA 2 – INCONTINÊNCIA URINÁRIA NO IDOSO AN02FREV001/REV 4.0 117 FONTE: Acta Cir. Bras., ano. Incontinência fecal é a perda involuntária de fezes ou gases via anal. É um problema de saúde que atinge aproximadamente 11% da população mundial acima dos 45 anos. No Brasil, 50,9% da população referem alguma disfunção sexual. Tem origem orgânica, psíquica e sociocultural. A fisioterapia irá atuar apenas nas disfunções de origem orgânica. A fisioterapia, nesses casos, utiliza técnicas preventivas (estimulação elétrica, biofeedback, cinesioterapia), de conscientização corporal, treinamento vesical e esfincteriano e fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico (períneo). 9.7.1 Técnicas Fisioterapêuticas para RevitalizaçãoGeriátrica É uma atividade realizada em grupos de até 20 pessoas, mas, em geral, dependerá do tamanho do local onde será desenvolvida. Normalmente, deve-se utilizar uma sala arejada e clara, com piso antiderrapante, com, no mínimo, 50 m2 de superfície e temperatura ambiente entre 18 e 20°. Cada sessão deve durar entre 50 e 55 minutos e devem ser realizadas pelo menos duas vezes por semana, sendo a quantidade ideal e aconselhável três vezes por semana. No início de cada sessão deverá ser verificada a presença dos inscritos AN02FREV001/REV 4.0 118 e aprovados e ser feita uma rápida inspeção da indumentária: roupa cômoda, larga, de tecido leve (algodão ou similar) e calçado esportivo (tênis) com sola antiderrapante. A sessão começa com um período curto (cinco a sete minutos) de aquecimento e alongamento dos principais grupos musculares. Em seguida, são trabalhados componentes de mobilidade e força, dedicando-se em todas as sessões aos distintos segmentos corporais e combinando exercícios de força e mobilidade, com duração aproximada de 15 minutos. Posteriormente, inicia-se uma marcha lenta que, pouco a pouco, converte em corrida (se os participantes estiveram aptos a correr; nos casos de impossibilidade, realiza-se a marcha com realização de gestos exagerados), finalizando com retorno gradual à marcha lenta. Esse período dura, aproximadamente, três minutos, com a corrida tendo duração de menos de um minuto. Nesse momento da sessão, descansa-se, procedendo à hidratação com um copo de água ou qualquer suco com componentes antioxidantes. Os 15 ou 20 minutos seguintes devem ser dedicados a exercícios de coordenação, agilidade e equilíbrio, utilizando-se materiais como bolas, pequenos alteres, massas, entre outros, combinados com jogos ou brincadeiras cooperativas. A sessão é finalizada com exercícios respiratórios e de relaxamento. É conveniente, em algumas sessões, controlar a frequência cardíaca para que todos os exercícios sejam realizados em um patamar de 70 a 80% da frequência cardíaca aeróbia máxima para a idade. Também é importante lembrar que exercícios em decúbito supino que demandem carga sobre a zona dorsal e movimentos exagerados de tronco ou pescoço estão contraindicados. À medida que ocorreram aumento da força muscular manual e manutenção de graus aceitáveis de flexibilidade corporal e de consumo máximo de oxigênio, é possível pressupor que tais aspectos também determinaram maior facilidade para a realização de atividades de vida diária (AVDs) e atividades instrumentais de vida diária (AIVDs). Em síntese, os graus de independência funcional tendem a ser maiores e, por decorrência, incrementam-se a satisfação geral e a qualidade de vida. AN02FREV001/REV 4.0 119 FIGURA 40 – EXERCÍCIOS INDICADOS A PESSOAS IDOSAS FONTE: Rebelatto, 2007. FIM DO MÓDULO IV AN02FREV001/REV 4.0 120 GLOSSÁRIO Ácido gama-aminobutírico: é o principal neurotransmissor inibidor no sistema nervoso central dos mamíferos. Catecolaminas: são compostos químicos derivados do aminoácido tirosina. Colina acetiltransferase: é uma enzima liberada pelos neurônios da placa motora. Deletérias: prejudiciais. Demográficas: referente a populações. Efusão: derramar ou entornar. Estereótipos: é a imagem preconcebida de determinada pessoa. Estocástica: está relacionado com o acaso. Expectativa de vida: é a média de anos que um indivíduo pode ainda viver. Gerontologia: ciência que estuda o envelhecimento. Homeostase: autorregulação. Inexorabilidade: austeridade, crueldade. Lipofucsina: é um pigmento tido como resto de membrana mitocondrial, que sofreu ação de radicais livres. É um material insolúvel que é fagocitado e se acumula nas células. Modus vivendi: modo de viver. Monoaminoxidase: presente em animais cuja ação é degradar. Morbidades: taxa de portadores de determinada doença. Mucopolissacarídeos: são compostos hidratados que fazem gel. Paroxístico: ataque repentino. Psicocognitivas: é a capacidade psicológica que temos de adaptação a diferentes situações. Senectude: velhice. Senescência: envelhecimento. Turnover: começar vida nova. AN02FREV001/REV 4.0 121 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREITAS, E. V.; PY, L.; CANÇADO, F. A. X.; DOLL, J.; GORZONI, M. L. Tratado de geriatria e gerontologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2006. GUCCIONE, A. A. Fisioterapia geriátrica. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara- Koogan, 2002. PAPALEO NETTO, M. Tratado de Gerontologia. 2. ed. rev. ampl. São Paulo: Ateneu, 2002. REBELATTO, J. R. Fisioterapia Geriátrica: a prática de assistência ao idoso. 2. ed. rev. ampl. Barueri, SP: Manole, 2007. FIM DO CURSO! TRIA E GERONTOLOGIA