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1 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO GESTÃO FINANCEIRA 2 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO A Faculdade Multivix está presente de norte a sul do Estado do Espírito Santo, com unidades em Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica, Castelo, Nova Venécia, São Mateus, Serra, Vila Velha e Vitória. Desde 1999 atua no mercado capixaba, des- tacando-se pela oferta de cursos de gradua- ção, técnico, pós-graduação e extensão, com qualidade nas quatro áreas do conhecimen- to: Agrárias, Exatas, Humanas e Saúde, sem- pre primando pela qualidade de seu ensino e pela formação de profissionais com cons- ciência cidadã para o mercado de trabalho. Atualmente, a Multivix está entre o seleto grupo de Instituições de Ensino Superior que possuem conceito de excelência junto ao Ministério da Educação (MEC). Das 2109 institui- ções avaliadas no Brasil, apenas 15% conquistaram notas 4 e 5, que são consideradas conceitos de excelência em ensino. Estes resultados acadêmicos colocam todas as unidades da Multivix entre as melhores do Estado do Espírito Santo e entre as 50 melhores do país. Missão Formar profissionais com consciência cida- dã para o mercado de trabalho, com ele- vado padrão de qualidade, sempre mantendo a credibilidade, segurança e modernidade, visando à satisfação dos clientes e colaboradores. Visão Ser uma Instituição de Ensino Superior reconheci- da nacionalmente como referência em qualidade educacional. GRUPO MULTIVIX 3 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO BiBLioteca MULtiViX (Dados de publicação na fonte) As imagens e ilustrações utilizadas nesta apostila foram obtidas no site: http://br.freepik.com de Almeida, José Tadeu. Gestão Financeira / José Tadeu de Almeida. – Serra: Multivix, 2019. FacULDaDe caPiXaBa Da serra • MULtiViX eDitoriaL Catalogação: Biblioteca Central Anisio Teixeira – Multivix Serra 2019 • Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei. Diretor executivo Tadeu Antônio de Oliveira Penina Diretora acadêmica Eliene Maria Gava Ferrão Penina Diretor administrativo Financeiro Fernando Bom Costalonga Diretor Geral Helber Barcellos da Costa Diretor da educação a Distância Flávio Janones coordenadora acadêmica da eaD Carina Sabadim Veloso conselho editorial Eliene Maria Gava Ferrão Penina (presidente do Conselho Editorial) Kessya Penitente Fabiano Costalonga Carina Sabadim Veloso Patrícia de Oliveira Penina Roberta Caldas Simões revisão de Língua Portuguesa Leandro Siqueira Lima revisão técnica Alexandra Oliveira Alessandro Ventorin Graziela Vieira Carneiro Design editorial e controle de Produção de conteúdo Carina Sabadim Veloso Maico Pagani Roncatto Ednilson José Roncatto Aline Ximenes Fragoso Genivaldo Félix Soares Multivix educação a Distância Gestão Acadêmica - Coord. Didático Pedagógico Gestão Acadêmica - Coord. Didático Semipresencial Gestão de Materiais Pedagógicos e Metodologia Direção EaD Coordenação Acadêmica EaD 4 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Aluno (a) Multivix, Estamos muito felizes por você agora fazer parte do maior grupo educacional de Ensino Superior do Espírito Santo e principalmente por ter escolhido a Multivix para fazer parte da sua trajetória profissional. A Faculdade Multivix possui unidades em Cachoei- ro de Itapemirim, Cariacica, Castelo, Nova Venécia, São Mateus, Serra, Vila Velha e Vitória. Desde 1999, no mercado capixaba, destaca-se pela oferta de cursos de graduação, pós-graduação e extensão de qualidade nas quatro áreas do conhecimento: Agrárias, Exatas, Humanas e Saúde, tanto na mo- dalidade presencial quanto a distância. Além da qualidade de ensino já comprova- da pelo MEC, que coloca todas as unidades do Grupo Multivix como parte do seleto grupo das Instituições de Ensino Superior de excelência no Brasil, contando com sete unidades do Grupo en- tre as 100 melhores do País, a Multivix preocupa- -se bastante com o contexto da realidade local e com o desenvolvimento do país. E para isso, pro- cura fazer a sua parte, investindo em projetos so- ciais, ambientais e na promoção de oportunida- des para os que sonham em fazer uma faculdade de qualidade mas que precisam superar alguns obstáculos. Buscamos a cada dia cumprir nossa missão que é: “Formar profissionais com consciência cidadã para o mercado de trabalho, com elevado padrão de quali- dade, sempre mantendo a credibilidade, segurança e modernidade, visando à satisfação dos clientes e colaboradores.” Entendemos que a educação de qualidade sempre foi a melhor resposta para um país crescer. Para a Multivix, educar é mais que ensinar. É transformar o mundo à sua volta. Seja bem-vindo! APRESENTAÇÃO DA DIREÇÃO EXECUTIVA Prof. Tadeu Antônio de Oliveira Penina Diretor executivo do Grupo Multivix 5 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Lista De FiGUras > FIGURA 1 - Investimentos e retornos esperados a médio e longo prazos 28 > FIGURA 2 - Representação esquemática de um ciclo operacional nas empresas 43 > FIGURA 3 - Mapa mental relativo à estrutura do Ativo Circulante nas organizações 45 > FIGURA 4 - Mapa mental relativo à estrutura do Passivo Circulante nas organizações 47 > FIGURA 5 - Mapa mental relativo ao funcionamento do capital de giro nas organizações 49 > FIGURA 6 - Concepção esquemática de um ciclo operacional (com valores reais) 50 > FIGURA 7 - Mapa mental relativo à dinâmica da liquidez na estrutura contábil de uma organização empresarial 52 > FIGURA 8 - Síntese de um ciclo operacional 68 > FIGURA 9 - Elementos componentes do caixa e disponibilidades de capital 69 > FIGURA 10 - Itens componentes de um estoque em indústrias e empresas de comércio 70 > FIGURA 11 - Fatores componentes de um lote econômico de compras 72 > FIGURA 12 - Ciclo operacional padronizado (compra-venda-recebimento) 84 > FIGURA 13 - Ciclo operacional e ciclo de caixa 84 > FIGURA 14 - Ciclo operacional e ciclo de caixa ampliado 85 > FIGURA 15 - Instrumentos de administração de caixa a partir de prazos de pagamentos e recebimentos 86 > FIGURA 16 - Fatores de demanda por títulos negociáveis em uma organização empresarial 91 6 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO > FIGURA 17 - Etapas de elaboração de um Orçamento de Capital 100 > FIGURA 18 - Fatores motivadores de decisões de investimento 101 > FIGURA 19 - Fluxos de caixa associados ao modelo Payback simples 103 > FIGURA 20 - Cálculo do VPL e decisões de investimento 105 > FIGURA 21 - Fluxos de caixa mediante uma decisão de investimento 106 > FIGURA 22 - Cálculo da TIR a partir de fluxos de caixa 107 > FIGURA 23 - Cálculo da TIR em função da TMA nas decisões de investir 111 > FIGURA 24 - Estrutura de capital em uma empresa 128 > FIGURA 25 - Expressões do risco e retorno associados ao capital de terceiros 130 > FIGURA 26 - Fatores motivadores à contratação de capital de terceiros 130 > FIGURA 27 - Efeitos diretos de taxas de juros elevadas sobre o investimento 138 > FIGURA 28 - Perfil das operações ativas 151 > FIGURA 29 - Estratégias de obtenção de capital a curto prazo 152 > FIGURA 30 - Desconto de duplicata e operações escalonadas 154 > FIGURA 31 - Operação de empréstimo em demonstrativos contábeis 156 > FIGURA 32 - Amortização de empréstimo a juros compostos 158 > FIGURA33 - Ação de stakeholders sobre a empresa 165 > FIGURA 34 - Conceitos de montante e jusante 169 > FIGURA 35 - Modalidades dos processos de integração entre empresas 171 > FIGURA 36 - Objetivos dos processos de fusão e aquisição 173 > FIGURA 37 - Tipologia dos trustes 175 > FIGURA 38 - Relações de alienação de investimentos 179 > FIGURA 39 - Expressões da globalização 190 Lista De FiGUras 7 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Lista De GrÁFicos > GRÁFICO 1 - Fluxo de saldos de caixa, conforme o modelo de Baumol 32 > GRÁFICO 2 - Taxa Selic, datas selecionadas (% a.a.) 113 8 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Lista De taBeLas > TABELA 1 - Balanço Patrimonial simplificado 41 > TABELA 2 - Demonstrativo de aplicação de gestão de estoques mediante o indicador LEC 76 > TABELA 3 - Demonstrativo de resultados (seleção) 78 > TABELA 4 - Demonstrativo de resultados (dados selecionados) 80 > TABELA 5 - Demonstrativo de resultados (dados selecionados sobre receitas de venda) 81 > TABELA 6 - Estoques e custo de mercadorias 82 > TABELA 7 - Período de Payback Descontado mediante uma TMA 115 > TABELA 8 - Payback Descontado mediante alteração na TMA 115 > TABELA 9 - Período de Payback Descontado mediante uma dada TMA 116 > TABELA 10 - Dados de operação de duas empresas selecionadas (em R$ mil) 143 > TABELA 11 - Atualização de valores mediante aumento em vendas (em R$ mil) 144 > TABELA 12 - Efeitos da alteração de custos fixos sobre os resultados gerais 145 > TABELA 13 - Demonstrativo de resultados 147 > TABELA 14 - Operação de redesconto de duplicata 153 > TABELA 15 - Juros e saldos devedores em recebimento de duplicata 154 > TABELA 16 - Fluxos de capital de um empréstimo de pagamento final 156 > TABELA 17 - Fluxos de pagamento de empréstimo pré-fixado 159 sUMÁrio 9 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO sUMÁrio 1 PLaneJaMento Financeiro – orÇaMento De caiXa 18 1.1 ORÇAMENTO DE CAIXA 18 1.2 MOVIMENTOS DE SAÍDA E ENTRADA DE RECURSOS EM CAIXA 20 1.2.1 FLUXOS DE CURTO PRAZO 23 1.3 FLUXOS DE MÉDIO PRAZO 27 1.4 GESTÃO DE UM ORÇAMENTO DE CAIXA E SEUS ASPECTOS ECONÔMICOS 28 1.4.1 DETERMINAÇÃO DO CAIXA ÓTIMO 30 concLUsão 36 2 caPitaL circULante LÍQUiDo (ccL) e FinanciaMento De cUrto PraZo 38 introDUÇão 38 2.1 BALANÇO PATRIMONIAL: RECUPERANDO CONCEITOS 39 2.1.1 ATIVO CIRCULANTE 43 2.1.2 PASSIVO CIRCULANTE 46 2.2 CAPITAL DE GIRO, CAPITAL CIRCULANTE LÍQUIDO (CCL) E SUA OPERACIONALIZAÇÃO 48 2.3 INDICADORES DE LIQUIDEZ 51 2.4 NECESSIDADES DE FINANCIAMENTO DE CAPITAL DE GIRO 57 concLUsão 62 BiBLioGraFia coMentaDa 64 UNIDADE 1 UNIDADE 2 10 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO UNIDADE 3 3 Gestão De estoQUe e tÍtULos neGociÁVeis 67 introDUÇão 67 3.1 ADMINISTRAÇÃO DE ESTOQUES 68 3.1.1 DECISÕES DE COMPRAS 71 3.1.2 LOTE ECONÔMICO DE COMPRAS (LEC) 71 3.2 OPERACIONALIZAÇÃO DE ESTOQUES E ÍNDICES DE PRAZOS MÉDIOS 76 3.2.1 GIRO DE ESTOQUES E PRAZO MÉDIO DE ESTOCAGEM 77 3.2.2 GIRO DAS CONTAS A RECEBER (GCR) E PRAZO MÉDIO DE RECEBIMENTO DE VENDAS (PMRV) 79 3.2.3 PRAZO MÉDIO DE PAGAMENTO DE FORNECEDORES (PMPF) 81 3.2.4 RELAÇÕES ENTRE ÍNDICES DE PRAZOS MÉDIOS 83 3.3 ADMINISTRAÇÃO DE CAIXA E TÍTULOS NEGOCIÁVEIS 85 3.3.1 EFICIÊNCIA NA ADMINISTRAÇÃO DE CAIXA 86 3.3.2 TÍTULOS NEGOCIÁVEIS 90 concLUsão 93 BiBLioGraFia coMentaDa 94 4 orÇaMento De caPitaL e aVaLiaÇão De inVestiMentos 96 introDUÇão 96 4.1 PLANEJAMENTO FINANCEIRO E FERRAMENTAS DE CONTROLE 97 4.1.1 ORÇAMENTO DE CAPITAL 97 4.1.2 CÁLCULO DO PAYBACK SIMPLES 102 4.1.3 VALOR PRESENTE LÍQUIDO (VPL) 103 4.1.3.1 TAXA INTERNA DE RETORNO (TIR) 106 4.1.3.2 TAXA MÍNIMA DE ATRATIVIDADE (TMA) 109 4.1.3.3 VANTAGENS E LIMITAÇÕES DO MÉTODO VPL 112 4.1.4 MÉTODO DE PAYBACK DESCONTADO 113 sUMÁrio UNIDADE 4 sUMÁrio UNIDADE 5 11 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 4.2 RISCO E RETORNO 117 4.3 ORÇAMENTO DE CAPITAL, INFLAÇÃO E TAXA DE CÂMBIO 118 4.3.1 INFLAÇÃO 119 4.3.2 TAXA DE CÂMBIO 121 BiBLioGraFia coMentaDa 123 concLUsão 124 5 cUsto De caPitaL: conceitos e aPLicaÇÕes 126 introDUÇão 126 5.1 ESTRUTURA E CUSTO DE CAPITAL 127 5.1.1 ESTRUTURA DE CAPITAL 129 5.1.2 CUSTO DE CAPITAL 133 5.1.2.1 CUSTO DE CAPITAL DE TERCEIROS 136 5.1.2.2 CUSTO DE CAPITAL PRÓPRIO 139 5.2 ALAVANCAGEM OPERACIONAL E FINANCEIRA 141 5.2.1 ALAVANCAGEM OPERACIONAL 142 5.2.2 ALAVANCAGEM FINANCEIRA 146 5.3 GERÊNCIA DE OPERAÇÕES PASSIVAS 150 5.3.1 OPERAÇÕES COM RECURSOS PRÓPRIOS 151 5.3.2 OPERAÇÕES COM RECURSOS DE TERCEIROS 155 5.3.2.1 EMPRÉSTIMOS PRÉ-FIXADOS COM PAGAMENTO FINAL 155 5.3.2.2 EMPRÉSTIMOS PRÉ-FIXADOS COM PAGAMENTO PARCELADO 157 BiBLioGraFia coMentaDa 160 concLUsão 161 sUMÁrio UNIDADE 5 12 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO sUMÁrio 6 o aMBiente eXterno e asPectos De aDMinistraÇão Financeira internacionaL 163 introDUÇão 163 6.1 O AMBIENTE EXTERNO 164 6.1.1 FUSÕES E AQUISIÇÕES 166 6.1.1.1 MOTIVAÇÕES E MODALIDADES DOS PROCESSOS DE FUSÃO E AQUISIÇÃO 167 6.1.2 PARCERIAS E JOINT-VENTURES 174 6.1.3 DEFESA DA CONCORRÊNCIA 174 6.1.4 PROCESSOS DE ALIENAÇÃO DE INVESTIMENTOS 178 6.1.5 INSOLVÊNCIA E FALÊNCIA 179 6.1.5.1 INDICADORES DE INSOLVÊNCIA 182 6.2 NOTAS SOBRE ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA INTERNACIONAL 188 6.2.1 OBSERVAÇÕES SOBRE A ECONOMIA INTERNACIONAL NO PÓS-GUERRA (1945 – 2000) 188 6.2.2 TAXA DE CÂMBIO E INVESTIMENTO ESTRANGEIRO DIRETO (IED) 190 6.2.3 CUSTO GLOBAL DE CAPITAL 193 BiBLioGraFia coMentaDa 194 concLUsão 195 reFerÊncias 197 iconoGraFia UNIDADE 6 13 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO iconoGraFia ATENÇÃO PARA SABER SAIBA MAIS ONDE PESQUISAR DICAS LEITURA COMPLEMENTAR GLOSSÁRIO ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM CURIOSIDADES QUESTÕES ÁUDIOSMÍDIAS INTEGRADAS ANOTAÇÕES EXEMPLOS CITAÇÕES DOWNLOADS 14 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO BIODATA DO AUTOR José tadeu de almeida Pós-doutorando em Ciência da Religião pelo Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (ICH-UFJF). Doutor em História Econômica pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFLCH- -USP). Mestre em Desenvolvimento Econômico e graduado em Ciências Econômicas pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-UNICAMP). Pós-graduando (lato sensu) em Design Instrucional para Ensino a Distância (EAD) pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste). Autor de livros didáticos nas áreas de ciências humanas, ciências exatas e ciências sociais aplicadas. JUSTIFICATIVA A gestão financeira consiste, como mencionado, na integração de temas de admi- nistração, finanças e ciências econômicas, de modo a estruturar um instrumental analítico que permitirá que você recomende ações e posturas a serem adotadas por uma instituição ou uma organização empresarial, a fim de viabilizar seu crescimento e sobrevivência em um cenário de concorrência e possibilidade de eventos adver- sos, como crises econômicas. Assim sendo, não se pode desconsiderar a importância desse tema para a sua vida profissional, e mesmo pessoal, ao garantir meios para a manutenção da reprodução material das organizações em que você trabalhe ou com quem venha a trabalhar por meio de parceriase consultorias especializadas. 15 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO ENGAJAMENTO Antes de iniciar a disciplina, reflita e, se preferir, tome nota das suas ideias: • Você já foi consultado por um empresário ou um agente empresarial, com um pedido de ajuda em relação à situação financeira de uma empresa? • Você imagina, ou compreende, as formas pelas quais uma empresa pode ser avaliada no tocante à sua dimensão financeira? • Você acredita que o pagamento imediato de obrigações e dívidas é sempre melhor que uma negociação de médio e longo prazo? • Nestas perguntas, embutem-se apenas alguns itens de relevância na área da gestão financeira, que podem contribuir decisivamente, na forma de conhe- cimento, para a sua vida profissional. Como você pôde perceber, este estudo configura-se, essencialmente, sob uma perspectiva holística, uma vez que a organização empresarial deverá ser pensada em seus múltiplos aspectos, em sua totalidade, considerando não apenas os aspectos de seu funcionamento interno, mas também as suas iterações com o ambiente externo a partir da reali- dade da economia nacional e do mercado em que a empresa venha a atuar. APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA Prezado aluno, seja bem-vindo à disciplina Gestão Financeira. Nesta disciplina, em uma visão geral, você operacionalizará diferentes instrumentos analíticos utilizados no cotidiano de praticamente todas as organizações empresariais, independente- mente de seu porte e estrutura, bem como em diversas áreas do setor público. O objetivo deste estudo, portanto, reside em fornecer meios para possibilitar uma análise das condições estruturais de uma empresa no tocante a diferentes dimen- sões de natureza administrativa, expressos por meio de esquemas contábeis impor- tantes, como o balanço patrimonial, o demonstrativo de resultados e outras demons- trações financeiras. 16 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Ao longo das seis unidades que compõem esta disciplina, serão discutidos temas e subtemas relacionados à administração financeira e ao universo das finanças como um todo, estruturando condições para avaliar criticamente processos comuns às instituições empresariais, como fusões e incorporações. Tópicos, como orçamento de capital e de caixa, estrutura e custo de capital e alavancagem operacional, são expres- sões que caracterizam os instrumentos de administração financeira que constituem o núcleo desta disciplina. Trata-se, portanto, de um material fundamental para que você, aluno, aprimore, por meio de sua formação acadêmica, a sua capacidade de inserção no mercado de trabalho, contribuindo positivamente para o crescimento de uma organização empresarial a partir do ferramental analítico disponível ao longo destas unidades de estudo. No entanto, esse conhecimento é construído socialmente; a sua participação e inte- gração com os demais colegas e tutores, nos fóruns de discussão, exercícios e leituras complementares, é uma tarefa fundamental. Bons estudos! OBJETIVOS DA DISCIPLINA Ao final desta disciplina, esperamos que você seja capaz de: • Esquematizar uma abordagem integrada para a avaliação das organizações empresariais em relação à sua dimensão financeira. • Articular conteúdos programáticos de disciplinas de economia, administração e finanças, a fim de realizar uma síntese interpretativa. • Analisar indicadores de gestão para discutir aspectos sobre o lucro, desempe- nho e sustentabilidade das operações de uma empresa. • Apreciar discussões que permitam discernir a capacidade de gestão de uma empresa a partir de indicadores financeiros e contábeis. 17 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: > Analisar as diferentes identidades contábeis que performam a existência do fluxo de caixa e suas características. > Articular indicadores de desempenho para discutir a importância da gestão de caixa nas organizações. > Compor uma abordagem sobre os fluxos de entrada e saída de recursos a curto e médio prazos. UNIDADE 1 18 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 1 PLANEJAMENTO FINANCEIRO – ORÇAMENTO DE CAIXA No que consiste o caixa de uma empresa? Quando se menciona esse termo, uma pessoa leiga no assunto pode remeter o raciocínio às caixas registradoras comuns em estabelecimentos comerciais. Ou pode-se pensar, ainda, em um pequeno montante de recursos que um pequeno empreendedor mantém para fazer frente a pequenas despesas do dia a dia da sua organização. Ou, em um enfoque mais amplo, o caixa corresponde às eventuais diferenças de saldos de entradas e saídas em um certo período de tempo. Na verdade, como você terá a oportunidade de verificar, o fluxo de caixa é um assunto mais amplo que os exemplos propostos. Efetivamente, uma gestão de caixa eficien- te é uma dimensão profundamente importante para a sustentação das atividades de qualquer empresa, uma vez que permite que as organizações efetuem previsões mais eficientes a respeito dos movimentos de entrada e saída de recursos a médio e curto prazo, de acordo com os modelos de orçamento de caixa e projeção de vendas, fomentando, assim, possíveis decisões de investimento que podem incrementar positivamente o seu crescimento. O estudo dos fluxos de caixa, portanto, é possível de ser aplicado no seu dia a dia profissional, na medida em que permite uma aloca- ção mais eficiente dos recursos que uma empresa obtém com suas atividades, bem como uma reação rápida a circunstâncias inesperadas que gerem quebras nos fluxos esperados. 1.1 ORÇAMENTO DE CAIXA O orçamento de caixa é o método pelo qual as organizações empresariais têm condi- ção de fazer uma estimação das possíveis oscilações e flutuações da entrada e saída de seus recursos, organizando-se dessa forma para viabilizar melhor controle sobre suas ferramentas de gestão financeira. Tais ferramentas, portanto, são fundamentais para garantir a existência da empresa em diferentes horizontes temporais (SILVA, 2018). 19 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Assim sendo, nesta unidade os processos geradores de movimentos de saída e entra- da de capitais de uma organização serão discutidos, de modo a evidenciar a impor- tância do planejamento de caixa e seus orçamentos, especialmente, a curto prazo e a médio prazos. Uma organização que mantém um regime de planejamento de caixa tem a possi- bilidade de controlar seu fluxo de recursos em moeda corrente ou em aplicações de curto prazo (como Letras do Tesouro Nacional) (HOJI, 2017). Ativos financeiros, portanto, são movimentados no caixa da organização, que deve ser regulado de acor- do com o volume de vendas realizadas e os diferentes prazos de pagamento. O conceito de liquidez serve para lembrar a ideia de que um ativo é mais líquido quanto mais rápido ele puder se converter em dinheiro vivo. No Brasil, os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) podem ser resgatados em um dia após a aplicação, por exemplo. Já títulos do Tesouro a serem resgatados em 2045, por sua vez, têm menor grau de liquidez. Atualmente, há várias aplicações com alto grau de liquidez, que permitem que as empresas inves- tam sem correr o risco de perder sua capacidade de poder de compra no curto prazo (ASSAF NETO; LIMA, 2014). De acordo com Hoji (2017), o planejamento de caixa apresenta três objetivos primor- diais: • a garantia de disponibilidade de recursos financeiros para que ospagamentos que a empresa necessita realizar sejam efetivamente cumpridos; • a verificação constante das condições da empresa, de modo a vislumbrar a possibilidade de falta de recursos, especialmente a curto prazo, viabilizando planos de recuperação rápida, demandando capitais de outras fontes, tais como empréstimos e liquidação de ativos; 20 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Há diferentes formas pelas quais as empresas são atingidas por imprevis- tos: clientes e/ou fornecedores podem “quebrar”, apresentando pedidos de falência; processos judiciais podem ser instaurados; desastres ambientais podem ocorrer, bem como crises econômicas e sociais graves. • a checagem de eventuais excessos de caixa (e lucros) que estejam sendo mantidos estéreis, sem que haja um rendimento possível sobre esses recursos, aplicando-os mediante a sua disponibilidade. 1.2 MOVIMENTOS DE SAÍDA E ENTRADA DE RECURSOS EM CAIXA Quando uma empresa efetua a venda dos bens e serviços que ela produz, ela aufere receitas, que são naturalmente geradoras de um ingresso de recursos, afetando posi- tivamente o caixa da organização. As compras realizadas pela empresa, por sua vez, motivam a saída de recursos financeiros para cobrir custos de produção e garantir a execução dos produtos disponibilizados pelo portfólio da empresa (MATARAZZO, 2010). Desse modo, o caixa de uma empresa apresenta dois fluxos, em uma via de mão dupla: os mesmos esboçam processos de entrada e saída de recursos financeiros. Os fluxos de entrada elevam a disponibilidade de recursos da organização (ou seja, o estoque de recursos). Tais fluxos são formados essencialmente pelos seguintes lança- mentos: • receitas de vendas realizadas à vista, com recebimento imediato; • recebimento de vendas efetuadas a prazo (parcelas); • cobrança de valores eventualmente pendentes; • outros recebimentos e receitas geradas por atividades correlatas ao funciona- mento da organização (tais como aluguéis, dividendos, acordos judiciais e/ou extrajudiciais favoráveis, direitos autorais, entre outras possibilidades). 21 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Para uma empresa determinar se um investimento produtivo (a compra de máquinas, equipamentos ou outros ativos que ampliarão a capacidade de produção) é mais vantajoso que um investimento financeiro, o elemento- -chave é a taxa de juros. Se a empresa espera obter um retorno maior com a aquisição de um ativo do que com a aplicação dos recursos no mercado financeiro, por exemplo, o investimento produtivo seguramente será a opção escolhida. Os fluxos de saída, por sua vez, correspondem a desembolsos a serem efetuados pela empresa, comprometendo seu estoque de recursos. Tais fluxos são formados principalmente por estas categorias: • pagamentos de remuneração (salários, encargos e outros lançamentos acor- dados) aos funcionários; • desembolsos para pagamento de empresas terceirizadas que atuem em parceria; • impostos, taxas, contribuições sociais e outros encargos impostos pela União, estados e municípios; • remuneração aos sócios da empresa (pró-labore); • seguros; • outras despesas correntes de caráter diverso (HOJI, 2017). Vale destacar que a venda de um ativo fixo que a empresa possua, tais como um imóvel ou um bem de capital (maquinários, implementos gerais, etc.), gerará recursos para a organização a serem dispostos no fluxo de entrada. No entanto, caso a empre- sa realize a compra desses mesmos ativos, deverá naturalmente pagá-los, mediante juros e amortizações da operação de compra que estarão descritos como fluxos de saída. 22 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO As mudanças na estrutura de capital também geram movimentos importantes de caixa: a contratação de empréstimos, a remuneração de aplicações financeiras e/ou dividendos recebidos pela participação acionária em outras empresas. Há um fluxo de entradas, contribuindo para a geração de saldos positivos em caixa. Por sua vez, tem-se a saída de recursos quando há a necessidade de remunerar os acionistas e sócios, para o pagamento de comissões e juros de empréstimos contraídos (ASSAF NETO; LIMA, 2014). Por meio de um exemplo, você poderá operacionalizar a dinâmica de um fluxo de saída de recursos: Se uma empresa contrata, no ano 20X5, um empréstimo no valor de R$ 500.000,00, que deverão ser pagos em quatro parcelas, uma a cada ano, a juros fixos anuais de 5%, observa-se que os juros totais a pagar serão iguais a 20% do capital recebido. Mediante a fórmula J=C*i*t, onde J = juros pagos, C = Capital, i = taxa de juros e t = tempo, tem-se o seguinte: J=C*i*t=500000*0,05*4=500000*0,2=R$ 100.000,00 Como o montante final a pagar (M) é formado pelo Capital + Juros, tem-se que o total de desembolsos é dado por: M=C+J=500000+100000=R$ 600.000,00 Portanto, observe que todas as transações que envolvem os produtos da empresa ou a sua estrutura de capital apresentam uma articulação importante com o setor de caixa, de modo que o gestor, o responsável pelo planejamento financeiro, deve garantir a efetividade e a eficiência no acompanhamento das operações planejadas/ realizadas pela empresa no seu dia a dia. A partir desse dado, impõe-se a necessidade de um exame de cada um desses fluxos, de acordo com o seu perfil e prazo a serem percebidos pela empresa, em horizontes temporais de curto prazo e médio prazos, como será analisado nos próximos subtó- picos. Acompanhe. 23 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 1.2.1 FLUXOS DE CURTO PRAZO O orçamento de caixa tem por consequência natural ao gestor a possibilidade de organizar os prazos de pagamento de operações realizadas com credores externos e de recebimento de procedimentos de venda de seus produtos que tenham sido realizados a prazo dilatado. Dentro de um ano contábil, organizam-se os fluxos de curto prazo, em média, a perío- dos mensais, em que a gestão do caixa da empresa deverá ser realizada por meio de cronogramas de entrada e saída de recursos. Segundo Hoji (2017), a disposição dos movimentos de caixa em um horizonte de curto prazo deve ser estabelecida como se segue: • Saldos anteriores (+ ou -): disponibilizados no caixa da empresa ou com insti- tuições bancárias. • Entradas (+): somatório do ingresso de recursos. • Saídas (-): desembolso de recursos a serem destinados ao pagamento de fato- res de produção. • Recebimento de operações (+): corresponde à entrada de recursos relativos a títulos e investimentos que a empresa possui ou mediante resgate dessas mesmas operações, tornando-se poder de compra. • Saldo disponível no dia: realiza a equiparação de saldos anteriores e agrega entradas, recebimentos e saídas. Fatores de produção são recursos produtivos necessários à elaboração dos bens e serviços produzidos por uma organização, como mão de obra, terra/ recursos minerais, maquinário, tecnologia, entre outros. A partir do momento que o gestor financeiro identifica um fluxo negativo que afetará o caixa (também conhecido como “quebra de caixa”), a empresa deverá obter recursos 24 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO que equilibrem os fluxos de pagamento e recebimento, como créditos de emprésti- mo com bancos ou outros agentes. Nesse caso, os juros a serem pagos correspondem a saídas de recursos (SILVA, 2018). No entanto, caso os fluxos de entrada sejam positivos e gerem saldos adicionais no caixa da empresa, para além de suas necessidadescotidianas, tais recursos deverão ser investidos de modo a gerar outros lançamentos positivos em caixa na forma de juros e dividendos de capital (MATARAZZO, 2010). Veja um exemplo a seguir. Suponha que certa empresa ABC efetuou transações de venda ao longo do tempo, sendo que essas transações foram iguais a R$ 15.000,00 em abril de 20X0; em maio do mesmo ano, as vendas atingiram o montante de R$ 18.000,00. Nesses mesmos meses, respectivamente, o montante dispendido na forma de saídas de caixa foi igual a R$ 10.200,00 e R$ 12.300,00. Considere ainda que, em 1° de abril, os saldos disponíveis em caixa eram iguais a R$ 3.000,00. Essa organização empresarial tem o interesse de manter apenas um limite mínimo de caixa, suficiente para suas atividades cotidianas, no valor de R$ 1.500,00. Assim sendo, os valores que ultrapas- sem esse montante serão caracterizados pela empresa como excessos de caixa ou sobras. Assim, ao final de abril, a composição do saldo de caixa pode ser expressa por esta equação: Saldo de caixa=Saldo inicial+Entradas-Saídas Portanto, Saldo de caixa (abril)=3000+15000-10200=R$ 7.800,00. Assim, ao final de abril, essa empresa está apresentando um quadro de excesso de caixa, que se repete durante maio: Saldo de caixa (maio)=7800+18000-12300=R$ 13.500,00. 25 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Considere, agora, que as vendas que essa empresa espera realizar ao longo de junho, julho e agosto de 20X0 atingiram, respectivamente, os valores de R$ 10.000,00, R$ 11.000,00 e R$ 10.500,00. As saídas de caixa esperadas para esses mesmos meses, em sequência, foram iguais a R$ 14.000,00, R$ 10.000,00 e R$ 11.000,00. Assim, para junho, observa-se: Saldo de caixa (junho)=13500+10000-14000=R$ 9.500,00 Se, em 30 de junho, a empresa ABC conseguiu uma condição privilegiada para efetuar um investimento de seu excesso de caixa (igual a 9500 – 1500 = R$ 8.000,00), para financiar a empresa DEF, uma fornecedora que estava enfrentando uma descapitalização grave. A organização ABC cobrou 5% de juros pela transação, a ser liquidada em 30 dias (um mês). Assim sendo, o saldo de caixa para 1° de julho é igual a R$ 1.500,00, pois os outros R$ 8.000,00 foram emprestados para a empresa DEF. Desse modo, os juros J recebidos pelo empréstimo ao final de julho são expressos por: J=8000*0,05=R$ 400,00 Os saldos de caixa em julho, por sua vez, são dados pela equação que se segue: Saldo de caixa (julho)=Saldo inicial+Juros a receber+Entra- das-Saídas=1500+400+11000-10000=R$ 2.900,00 Em agosto, as vendas da empresa ABC corresponderam ao esperado, ou seja, o fluxo de entradas foi igual a R$ 10.500,00 e as saídas foram iguais a R$ 11.000,00 (o excesso de saídas correspondeu ao pagamento de uma taxa de localização municipal no valor de R$ 600,00). 26 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO A empresa obteve o resgate da operação de empréstimo e a empresa DEF devolveu os R$ 8.000,00 originais. No entanto, a empresa ABC foi prejudica- da por uma despesa inesperada: um ciclone extratropical varreu a região em que ela está instalada e destelhou parte das instalações. O prejuízo foi de R$ 14.000,00 com manutenções emergenciais, a serem pagas à vista. Há, nessa situação, uma visível quebra de caixa para agosto: Saldo de caixa (agosto)= Saldo inicial+Entradas+Recebimentos-Saídas -Despesas extras=2900+10500+8000-11000-14000 =- R$ 3.600,00 Essa situação de quebra de caixa deve ser coberta mediante operações de recomposição, que sejam suficientes para suprir o saldo negativo (R$ 3.600,00) e recuperar o limite mínimo de caixa definido pela empresa (R$ 1.500,00). O valor total do crédito a assumir, portanto, é igual a R$ 5.100,00. Suponha que esse crédito apresenta juros totais de 10% e deve ser pago para a empresa DEF (que agora está recapitalizada) em três parcelas de igual valor. Assim, o montante total a pagar é igual a: 5100+(5100*10%)=5100+510=R$ 5.610,00. Supondo que esse crédito será pago em três prestações, cada parcela será igual a R$ 1.870,00, a qual deverá ser contabilizada como saída de caixa/ desembolso, ao longo de setembro, outubro e novembro de 20X0. Torna-se patente, portanto, a importância de um planejamento de caixa e lucros a curto prazo, a fim de que a organização tome precauções contra quebras de caixa e negocie condições para a cobertura dessa situação, com os menores juros e encargos possíveis. 27 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 1.3 FLUXOS DE MÉDIO PRAZO O gestor financeiro organiza o orçamento de caixa da organização dentro do horizon- te de médio prazo (períodos de pagamento e amortização geralmente superiores a um mês, no entanto, inferiores a um ano), no qual a empresa estrutura o seu orça- mento anual e as suas operações previstas para esse período em termos de vendas esperadas e recursos a serem consumidos, como custos diretos e indiretos (HOJI, 2017). Assim sendo, alguns elementos em especial têm a necessidade de serem acompa- nhados de forma eficiente na gestão do caixa em horizontes de médio prazo: • o montante de transações esperadas de compra e venda de produtos ao longo da execução do orçamento; • a composição do mix de produtos que a empresa transaciona no mercado, ou seja, o seu portfólio; • as políticas de marketing, comunicação (interna e externa) e divulgação do portfólio, que podem afetar as condições da demanda e ensejar aumento no consumo; • o detalhamento adequado dos períodos de pagamento de compra e venda, na forma de amortizações, parcelamentos e outros encargos; • os prazos necessários para a produção efetiva dos bens e serviços transaciona- dos por essa organização empresarial; • as políticas correntes de armazenagem e estocagem de matérias-primas, insu- mos da produção e produtos já preparados e prontos para venda e consumo dos agentes; • práticas de otimização de outras despesas operacionais. Portanto, perceba que as práticas de gestão do planejamento de caixa a médio prazo geram as condições propícias para as estratégias de crescimento a longo prazo, defi- nidas pela organização, que viabilizam investimentos e ampliação da capacidade produtiva. 28 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO FIGURA 1 - INVESTIMENTOS E RETORNOS ESPERADOS A MÉDIO E LONGO PRAZOS Fonte: SHUTTERSTOCK, 2019. O planejamento de caixa, portanto, permite estimar e alocar a quantidade ideal de recursos para que a empresa atinja as metas planejadas pelos seus gestores (MATA- RAZZO, 2010). 1.4 GESTÃO DE UM ORÇAMENTO DE CAIXA E SEUS ASPECTOS ECONÔMICOS A partir desta seção, serão discutidas as formas que uma empresa dispõe para geren- ciar os seus saldos de caixa, podendo assim definir o chamado “volume ideal” de recursos financeiros que a organização deve manter a fim de sustentar suas ativi- dades de natureza cotidiana, evitando, portanto, a sua descapitalização, que pode demandar operações de liquidação de patrimônio, ativos ou mesmo o encerramento das atividades da organização (HOJI, 2017). Da mesma forma, quando as receitas geradas superam o montante de saídas e desembolsos de recursos, obrigatoriamente gerados pela aquisição e remuneração de fatores de produção e outros encargos, a empresa registrará um saldo positivo em caixa, que pode, inclusive, ser maior do que as suas efetivas necessidades cotidianas. 29 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Tais sobras correspondem a um excedente, que deve ser utilizado pela empresaa fim de garantir a sua posição no mercado, ampliando o leque de suas aplicações financei- ras. Portanto, as chamadas sobras de caixa devem ser sistematicamente separadas do volume de recursos para as transações diárias, a fim de aumentar as receitas e a estru- tura de ativos da organização por meio de investimentos apropriados (SILVA, 2018). Existem diferentes formas que uma empresa pode aplicar seus recursos provenientes de uma sobra/excesso de caixa, para além da conta corrente. A empresa pode aplicar em poupança (que tem liquidez imediata) ou em outros títulos de rápido resgate. O critério de ação, no entanto, é sempre o prazo de remuneração e os encargos para a recuperação antecipada desses recursos, de acordo com o grau de liquidez dessas opções de investimento. A aplicação das sobras de caixa, portanto, é estratégica para o crescimento da organi- zação, uma vez que a aplicação dessas sobras em um investimento de longo prazo – por exemplo, títulos da dívida pública para remuneração em algumas décadas, como Letras do Tesouro Nacional – que necessite de um resgate prévio e inesperado, poderá gerar uma perda importante de capital (ASSAF NETO; LIMA, 2014). O artigo de Daniel Pignaton Morellato e Edson Roberto do Nascimento, deno- minado “Fluxo de caixa e sua utilização para auxílio na gestão financeira das micro e pequenas empresas”, realiza uma síntese teórica sobre os processos de elaboração do orçamento de caixa. Os autores ressaltam a importância de um administrador financeiro no interior das organizações, especialmente as de menor porte, a fim de garantir a “saúde financeira” dessas empresas e a sua sustentação. 30 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Na mesma linha de raciocínio, na eventual existência de saldos positivos em caixa em um volume excessivo, ou seja, quando mantém valores em caixa que vão além de suas reais necessidades, sem utilização e aplicação, a empresa passa a assumir perdas conhecidas como custos de oportunidade, que consistem em recursos finan- ceiros/valores que deixa de perceber ao manter seu capital esterilizado, isto é, sem ser aplicado de forma eficiente a fim de gerar novas receitas (SILVA, 2018). Uma organização empresarial apresenta necessidade média mensal de caixa em um montante igual a R$ 18.000,00. Contudo, por uma decisão de seu proprietário, a empresa mantém constantemente um nível de caixa igual a R$ 30.000,00. Considerando que o juro da poupança (a aplicação financeira com um dos maiores graus de liquidez) seja igual a 0,5% ao mês, esse excesso de caixa, com valor de R$ 12.000,00, poderia ser aplicado na poupança com essa remuneração na forma de juros, gerando R$ 60,00 de retorno nos primeiros 30 dias. Isso significa que, no primeiro mês, o custo de oportunidade que é derivado da opção do proprietário da empresa em não investir o montante relaciona- do ao excesso de caixa será igual a R$ 60,00. 1.4.1 DETERMINAÇÃO DO CAIXA ÓTIMO A partir do momento em que o gestor financeiro decide definir um volume de recur- sos em caixa que considera ideal para o andamento das atividades da empresa, é preciso ter em conta os princípios básicos do planejamento de caixa: a disponibilida- de de capital para transações diárias; a aplicação das sobras e excessos de caixa; e a previsão de eventuais faltas de recursos que levem a quebras de caixa, demandando compensações apropriadas. 31 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO No entanto, tal previsão de recursos é feita “a olho”, baseada na média das transações diárias? Ou é realizada aleatoriamente? Na verdade, a maioria das empresas estabelece seu caixa de modo aleatório, no entanto há modelos de planejamento de caixa que permitem identificar, a partir dos fluxos de entrada e saída de recursos, o montante “ideal” de valores que a organiza- ção deve manter em seu caixa a fim de ser usado em prazo imediato. Tal volume é conhecido como caixa ótimo, pois minimiza a ocorrência de quebras de caixa e previ- ne a utilização inadequada de excessos de caixa que levem a custos de oportunidade, conforme mencionamos na seção anterior desta unidade (SILVA, 2018). O volume de caixa ótimo é definido a partir de alguns modelos explicativos, entre eles, o modelo de Baumol, que, para funcionar adequadamente, assume algumas características principais: • a disponibilidade de recursos em caixa, na forma de entradas e saídas, se esta- belece em um ritmo fixo e constante ao longo do tempo; • os recursos que permanecem em caixa são estéreis do ponto de vista financei- ro, ou seja, não geram receitas de juros; • a partir do momento em que a organização possa demandar recursos extras para recompor o caixa, mediante empréstimos e créditos de terceiros, tem-se que a taxa de juros dessas aplicações é constante no tempo (MATARAZZO, 2010). A dinâmica da composição dos saldos de caixa, de acordo com o modelo de Baumol, é expressa pelo gráfico a seguir: 32 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO GRÁFICO 1 - FLUXO DE SALDOS DE CAIXA, CONFORME O MODELO DE BAUMOL Volume de recursos ($) Cmáx Cmed 0 Tempo Fonte: Elaborado pelo autor. O gráfico demonstra a forma pela qual as empresas usam seu caixa (C) ao longo do tempo, de acordo com o modelo de Baumol. As saídas se processam de forma cons- tante, a partir de um nível máximo de recursos denominado Cmáx. A partir desse ponto, a organização efetua saques de seu caixa até zerá-lo, passando por um ponto médio (Cmed). Desse modo, é possível fazer a estimação de um volume médio de caixa, com nota- ção C , que corresponde a um ponto ideal que a empresa deve manter para evitar a descapitalização e comprometer o seu orçamento de caixa (MATARAZZO, 2010). 33 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Considere que o volume médio Cmed para o caixa de uma certa empresa representativa é igual a R$ 230.000,00. De acordo com o modelo de Baumol, se esse valor é o caixa médio, a posição intermediária entre zero e Cmáx, observa-se que o limite ideal, definido por Cmáx, é dado por: Se a empresa apresenta um volume de saídas de caixa que exceda as entra- das em R$ 115.000,00 por semana, pode-se depreender que, ao encerrar-se a quarta semana, o saldo de caixa chegará a zero. Nesse caso, a empresa deverá buscar uma reorganização, que levará a custos inevitáveis, como resgate de ativos e investimentos, renegociação de dívidas e dilatação de prazos de pagamento, alienação e/ou venda de patrimônio e outros ativos, etc. É necessário ter em mente que a operação de recomposição do caixa de uma empre- sa embute custos de oportunidade que não podem ser desprezados. Se a empresa ABC necessita recompor o seu caixa após uma “quebra”, há alguns custos, diretos e indiretos, que deverão ser assumidos: o resgate de um investimento financeiro, por exemplo, implica em custos de desloca- mento, perda de horas de trabalho, ligações telefônicas, impostos (como o IOF), perdas líquidas com o fim dos juros a receber, entre outros. Observe, portanto, que esses custos são inerentes a quaisquer operações de recompo- sição de caixa e podem ser maiores à medida que as necessidades de caixa também se elevam. 34 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Para reduzir a incidência de custos de oportunidade, que são recorrentes a transa- ções de recomposição de caixa, é fundamental que a empresa conheça adequada- mente o nível ótimo para o saldo de caixa (SILVA, 2018). Essenível é definido por meio de um conjunto de equações. Em primeiro lugar, é preciso apresentar a equação que demonstra os custos ineren- tes a uma operação de recomposição de caixa: Onde: CT = Custos totais da operação. = Saldo médio de caixa. K = Custo de oportunidade (participação em % em relação ao total das operações). T/C = Número de transações de recomposição necessárias ao longo de um certo período (a razão entre as receitas geradas pela organização, expressas por T, e o volu- me de caixa, com notação C). F = Custo fixo relativo a cada uma das transações de recomposição, seja por meio de resgate de ativos, seja pela obtenção de empréstimos. O saldo ótimo de caixa, expresso pela notação C*, é dado pela seguinte equação: 35 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Considere que uma certa empresa, que efetua serviços de venda e manu- tenção de aquecedores elétricos residenciais, deve desembolsar R$ 45,00 a cada operação de recomposição de seu caixa. Suas receitas geradas ao longo de um ano são iguais a R$ 260.000,00, o que corresponde a R$ 5.000,00 semanais. Considere, ainda, que K = 8% = 0,08. Desse modo, observe: Esse valor corresponde ao caixa ótimo, ou seja, se a empresa efetuar reti- radas em um volume superior às entradas e o caixa se aproximar de zero, será preciso obter R$ 17.102,63 para que a empresa recomponha seu caixa. A forma pela qual ela efetuará essa operação depende de suas condições estruturais – empréstimos, alienações, etc. Dentro deste quadro geral, é possível avaliar também o número de vezes que a empresa poderá realizar operações de recomposição de caixa ao longo de um ano. Para isso, iguala-se o caixa da empresa ao seu caixa ótimo: Em outras palavras, essa empresa realizará aproximadamente 16 transações em um ano para recompor o seu caixa, cujo volume do caixa médio, Cmed, é dado por 17.102,63/2 = R$ 8.551,32. 36 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Assim sendo, é possível verificar que o modelo de Baumol viabiliza a determinação do montante de recursos que são necessários e suficientes à continuidade das ativi- dades da organização empresarial. Trata-se da determinação de um volume ótimo, o qual não seja alto, a ponto de causar perdas com falta de aplicação de recursos, ou baixo, a ponto de descapitalizar a empresa em situações de eventual necessidade (MATARAZZO, 2010). CONCLUSÃO O planejamento de caixa é uma das ferramentas mais básicas na área da gestão financeira, pois é um processo que conecta a organização empresarial ao ambiente externo, por meio de seus clientes, fornecedores e outras instituições, bem como ao Estado, pela dinâmica da tributação. Tal assunto, portanto, é fundamental à sua vida profissional, uma vez que consiste em uma das ferramentas mais utilizadas nas orga- nizações empresariais, sendo um fértil campo de atuação, sobretudo em consultorias especializadas. Como você pôde analisar ao longo deste texto, gerir um caixa é algo mais do que apenas administrar a entrada e saída de recursos mais imediatos (como faziam as antigas caixas registradoras, ainda utilizadas em supermercados e outros estabeleci- mentos comerciais). Na verdade, a expressão “caixa” assume, hoje, um caráter quase simbólico, uma vez que a maior parte das transações financeiras na atualidade é realizada mediante operações eletrônicas de crédito e débito. De todo modo, a gestão de caixa permite que a empresa avalie seu potencial de crescimento e sustentação de suas atividades, mesmo a longo prazo, uma vez que é a partir do caixa que se agrupam os recursos financeiros indispensáveis ao finan- ciamento dessas operações, que podem envolver investimentos em bens de capital, imóveis e outras melhorias para a empresa. Fica evidente, portanto, o fato de o caixa de uma organização apresentar uma dinâmica intertemporal, uma vez que a dinâ- mica de médio prazo da empresa – recebimentos de recursos e pagamento a prazo de operações assumidas e outros financiamentos – e também a de longo prazo estão conectadas aos fluxos que a empresa recebe e dispensa como desembolsos a curto prazo e mesmo no tempo presente. 37 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: > Analisar a construção do Capital Circulante Líquido (CCL) e suas aplicações para o estudo da estrutura organizacional. > Reunir conceitos relativos à formação do Balanço Patrimonial (BP), do Ativo Circulante e do Passivo Circulante de uma empresa, a fim de aplicá-los para a área de Gestão Financeira. > Articular uma síntese explicativa sobre as estratégias de financiamento de um CCL negativo e recomposição do capital de giro de uma organização empresarial. UNIDADE 2 38 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 2 CAPITAL CIRCULANTE LÍQUIDO (CCL) E FINANCIAMENTO DE CURTO PRAZO Esta unidade de estudo investiga as formas pelas quais a empresa pode melhorar as suas posições no mercado, mediante a aplicação de eventuais recursos excedentes que sejam gerados pela reprodução de suas atividades cotidianas e suas rotinas de transação de compra e venda de produtos. Através do estudo do Capital Circulante Líquido (CCL), portanto, podem ser entendidos os métodos e instrumentos que uma organização empresarial utiliza para maximizar o uso de seus recursos financeiros em curto prazo. Esse estudo não abrange, no entanto, apenas os horizontes de curto prazo que envol- vem resultados positivos na contabilidade e no Balanço Patrimonial da organização. A existência de um Capital Circulante Líquido negativo também será elucidada, de modo que você possa avaliar processos de financiamento e reconstrução da estrutura de capital de giro. Esta unidade, portanto, resgata objetos de conhecimento relati- vos às Ciências Contábeis, a serem devidamente abordados sob o prisma da Gestão Financeira, propondo soluções e melhorias para a estrutura de uma empresa e a preservação de suas condições de reprodução material, que se traduzem em políti- cas de crescimento de longo prazo. INTRODUÇÃO Toda organização empresarial deseja maximizar seu crescimento e seu potencial de geração de lucro; este é um dos axiomas fundamentais da Economia moderna. Com efeito, uma das linhas mestras de estudo nas Ciências Econômicas, a teoria neoclás- sica, apresentava a empresa como um agente econômico representativo, o qual fixa suas políticas de preço e oferta de produtos não apenas a partir das condições de mercado, mas também a partir de sua estrutura de custos e encargos diretos, de modo 39 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO a construir um preço final de venda que permita à organização gerar um quociente de lucro. A geração de resultados, portanto, consistiria na chave interpretativa para a compreensão efetiva da inserção de uma empresa em seu nicho de mercado. Esses conceitos podem, a seu tempo, serem reproduzidos no estudo de Gestão Finan- ceira. Uma vez que resumem instrumentos usados no dia a dia das organizações empresariais, esse estudo cria um elo importante entre teoria e prática, podendo ser utilizado na sua rotina profissional. Vale dizer, a aplicação efetiva de um Planejamen- to Financeiro, realizado com eficiência e critério, é um processo que apresenta impor- tância fundamental para a continuidade das operações de uma empresa, especial- mente no cenário macroeconômico brasileiro. 2.1 BALANÇO PATRIMONIAL: RECUPERANDO CONCEITOSEsta seção irá recuperar alguns conceitos ligados às Ciências Contábeis, a fim de viabilizar a operacionalização dos instrumentos analíticos que serão apresentados no texto desta unidade temática. Através dos diferentes demonstrativos que confor- mam a estrutura contábil de uma empresa, é possível realizar abordagens de gestão e viabilizar meios para um Planejamento Financeiro eficiente, que conecte horizontes de curto e longo prazos, bem como os ambientes interno e externo que compõem a estrutura organizacional. O ambiente interno remete à realidade da organização como um todo, nos seus componentes: colaboradores, acionistas, recursos de capital, ativos, etc. O ambiente externo, por sua vez, conecta a empresa à realidade do merca- do; é no ambiente externo que estão os fornecedores, clientes, concorrentes, entre outros agentes. 40 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Através dos demonstrativos de patrimônio e de resultados, um gestor financeiro tem condições objetivas para decidir sobre políticas de investimento, sobre custeio de operações e rotinas produtivas, sobre alocação de recursos financeiros, enfim, sobre todos os dispositivos econômicos e administrativos que compõem o funcionamento de uma organização empresarial (MATARAZZO, 2010). Nesta seção, serão recuperados os tópicos ligados ao Balanço Patrimonial. Naturalmente, não pretendemos esgotar o tema das estruturas contábeis de uma empresa ao longo desta seção – na Bibliografia Comentada, você terá condições de encontrar referências sobre alguns manuais bastante precisos e concisos a respeito deste assunto. A Lei de Sociedades por Ações, promulgada no ano de 1976, obriga as empresas instaladas no Brasil a realizarem a divulgação periódica de alguns demonstrativos financeiros mais importantes, tais como o Balanço Patrimonial (BP) e o Demonstra- tivo de Resultados do Exercício (DRE). Tais instrumentos permitem que consulto- res independentes, acionistas e outros stakeholders possam tomar conhecimento da situação geral da empresa, sobretudo em relação ao horizonte de longo prazo (HOJI, 2017). Stakeholders são ‘partes interessadas’. Ou seja, são agentes que podem, de alguma forma, manter algum vínculo de interesse com a organização empresarial, tais como concorrentes diretos, empresas que desejam firmar parcerias, sindicatos, etc. 41 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO O Balanço Patrimonial é uma radiografia, um panorama da organização em um certo momento no tempo, descrevendo sua situação financeira e contábil de forma abran- gente, porém sintetizada em alguns lançamentos mais importantes. O Balanço Patrimonial apresenta as estruturas do Ativo (ou seja, os recursos que estão sendo alocados na forma de bens à disposição da empresa) e do Passivo (formado por uma série de recursos que pertencem, ou devem ser direcionados, a terceiros, acionistas, fornecedores, etc.) (SILVA, 2018). Através do artigo de Simone Wanke Vasques e Érico Eleutério da Luz deno- minado “Uma análise da estrutura conceitual da contabilidade brasileira após a convergência às normas internacionais de contabilidade, com ênfa- se na transparência e qualidade das informações contábeis para os usuá- rios externos”, é possível realizar uma ‘incursão histórica’ pelos processos e legislações que viabilizaram as práticas contábeis modernas na economia brasileira, demonstrando as mudanças mais importantes ocorridas desde a década de 1970. Através da tabela a seguir, pode-se observar um exemplo bastante rápido de um Balanço Patrimonial que contém as identidades contábeis e lançamentos mais rele- vantes a serem alocados nesse demonstrativo contábil, de uso comum nas empresas brasileiras: TABELA 1 - BALANÇO PATRIMONIAL SIMPLIFICADO ATIVO PASSIVO circulante 19.200,00 circulante 21.900,00 Caixa 8.000,00 Fornecedores 9.300,00 Estoques 1.500,00 Empréstimos e financiamentos 3.000,00 42 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Recebíveis comerciais 6.600,00 Obrigações fiscais 3.000,00 Ativos financeiros Ativos classificados e manti- dos para venda 2.100,00 1.000,00 Provisões Outras obrigações 3.400,00 2.000,00 não circulante 66.000,00 não circulante 1.200,00 Imobilizado 25.500,00 Dívidas de longo prazo 1.200,00 Intangível 19.500,00 Investimentos de longo prazo 16.500,00 Patrimônio Líquido 63.300,00 Demais ativos de longo prazo 4.500,00 Capital social 21.000,00 Lucros acumulados 26.700,00 Reservas de capital 15.600,00 total 85.200,00 total 85.200,00 Fonte: Elaborada pelo autor. Os bens e direitos que a empresa detém ou irá obter ao longo de um período contá- bil através de suas atividades compõem o Ativo da organização. As obrigações que ela deve honrar, através de desembolsos, conformam o Passivo. A diferença existente entre o Ativo e o Passivo corresponde ao Patrimônio Líquido, que representa, por sua vez, o montante de capital que está investido na empre- sa, seja pelos seus proprietários e acionistas, seja pela imobilização de capital gera- do pelas suas transações comerciais, ou também, a partir de recursos obtidos no ambiente externo (ASSAF NETO; LIMA, 2014). Muitas empresas de grande porte e capital fechado (ou seja, pertencente a um grupo limitado de indivíduos) se capitalizam no mercado, obtendo recur- sos externos, através de uma oferta de ações em Bolsa de Valores, em uma operação denominada IPO (Inicial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial) 43 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO O Balanço Patrimonial, portanto, torna-se fundamental para que o gestor tenha condições de avaliar a disponibilidade de recursos para que as metas da organiza- ção sejam cumpridas, ou os meios para obter estes recursos através do capital de terceiros, ou da reformulação de alguma estrutura do ativo da própria organização (SILVA, 2017). 2.1.1 ATIVO CIRCULANTE O montante de bens e direitos que a empresa tem condições de converter e/ou recu- perar, tornando-se dinheiro em curto prazo, é catalogado em um Balanço Patrimo- nial como correspondendo ao seu Ativo Circulante (HOJI, 2017). Esse prazo estende-se até o fim do próximo exercício contábil da empresa, fracio- nado ao longo de diferentes ciclos operacionais, sendo que um ciclo operacional consiste na série de etapas que condicionam a criação de um produto no interior da empresa: compra de recursos para a produção / produção / armazenagem / venda do produto / recebimento das receitas de venda (ASSAF NETO; LIMA, 2014). FIGURA 2 - REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DE UM CICLO OPERACIONAL NAS EMPRESAS Compra de matérias-primas e pagamento a fornecedores Processamento e elaboração do produto final Recebimento de receitas de venda Disponibilização para venda Operação de venda Fonte: Elaborada pelo autor. 44 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Há diferentes identidades contábeis principais que conformam a estrutura do Ativo Circulante; veja aqui, os lançamentos mais comuns na rotina das organizações (SILVA, 2018): • caixa e equivalentes de caixa: corresponde ao montante de recursos que têm condição efetiva de serem utilizados pela empresa em prazo imediato, de forma irrestrita. No caixa, encontram-se os recursos na forma de numerário (moeda corrente), ou depósitos à vista, como saldos em conta-corrente, por exemplo. Outros fundos de curtíssimo prazo, como Certificados de Depósito Bancário (CDBs) também fazem parte dessa identidade contábil, comodispo- nibilidades. • recebíveis comerciais e outros tipos de recebíveis: dizem respeito ao montan- te de recursos que se encontram aptos para resgate e conversão em dinheiro no prazo de um ano, ou seja, ao longo do próximo exercício contábil, e que derivam das atividades correntes da empresa, tais como duplicatas a receber, impostos a recuperar, precatórios e outras deduções e compensações. • estoques: correspondem ao valor dos bens mantidos pela organização para a manutenção de sua reprodução material, ou seja, de suas transações cotidia- nas, e podem ser exemplificados através de mercadorias prontas para revenda, insumos e matérias-primas, valores alocados para importação de mercadorias, produtos em fase de elaboração e outros itens de consumo geral. • ativos financeiros: correspondem aos recursos que podem ser resgatados no prazo de um ano e que derivam das atividades do setor financeiro da organi- zação, como aplicações em títulos de dívida privada (debêntures) de outras empresas, títulos da dívida pública, CDBs indexados ou pré-fixados, fundos de investimento, entre outros. • ativos classificados e mantidos para venda: correspondem ao valor de itens do Ativo Não Circulante (imóveis e veículos, por exemplo) que são redireciona- dos para o Ativo Circulante mediante decisões de venda. 45 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO FIGURA 3 - MAPA MENTAL RELATIVO À ESTRUTURA DO ATIVO CIRCULANTE NAS ORGANIZAÇÕES ATIVO CIRCULANTE Caixa Recebíveis EstoquesAtivos classificados Ativos financeiros Fonte: Elaborada pelo autor. Verifique, portanto, que há uma grande quantidade de direitos, de diferentes tipos e dimensões, que podem ser elencados no Ativo Circulante de uma empresa. Considere que uma microempresa que presta serviços para o setor calçadis- ta apresenta a seguinte estrutura, relativa ao seu Ativo Circulante: Caixa: R$ 2.300,00. Estoques: R$ 12.500,00. Recebíveis: R$ 8.500,00. Ativos financeiros: R$ 26.301,25. Ativos classificados e mantidos para venda: R$ 500,00. Logo, o seu Ativo Circulante é igual à soma das identidades contábeis supra- citadas, o que perfaz um montante igual a R$ 50.101,25. O gestor financeiro deve, portanto, analisar e agrupar esses bens e direitos da empre- sa sempre que necessário, a fim de estruturar as políticas de crescimento da organi- zação (MATARAZZO, 2010). 46 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 2.1.2 PASSIVO CIRCULANTE No Passivo Circulante, incluem-se as obrigações que são exigíveis em curto prazo, ou seja, que têm o seu vencimento até o fim do próximo ciclo operacional da empresa, conforme demonstrado em seu Balanço Patrimonial. Há cinco grandes grupos que compõem o Passivo Circulante de uma organização, quais sejam (SILVA, 2018): • empréstimos e financiamentos: são relativos aos desembolsos a serem reali- zados em função de financiamentos bancários contraídos pela empresa no prazo de um mesmo exercício contábil, títulos de dívida (debêntures) a serem pagos, encargos financeiros, parcelamentos de empréstimos tomados em curto e médio prazo e outros créditos contraídos. As contas e faturas que devem ser pagas no exercício fiscal corrente (no mesmo ano de publicação do Balanço, ou no mesmo semestre, para algu- mas instituições como bancos) ficam alocadas no Passivo Circulante. Os valo- res que devem ser pagos em prazo maior (como financiamentos de longo prazo) correspondem ao Passivo Não Circulante (SILVA, 2018). Fornecedores: correspondem ao pagamento de compras realizadas no mercado nacional e internacional (mediante mecanismos de importação), e que são realizadas por meio de transações à vista ou a prazo (duplicatas). Para o caso de importações de produtos, normalmente contratam-se fornecedores estrangeiros, que são remunera- dos em moeda estrangeira (neste caso, é preciso considerar a taxa de câmbio). 47 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO A política cambial diz respeito às ações do Estado em relação ao mercado de câmbio, que define a relação de preços entre moedas estrangeiras e a moeda nacional. Se o governo não interfere nesta relação, ‘deixando-a’ para o mercado, a taxa de câmbio é denominada flexível. Se o governo define o valor desta taxa, e atua no mercado comprando ou vendendo moeda para ‘segurar’ o preço da moeda nacional, define-se esta política como sendo de taxas de câmbio fixas (BLANCHARD, 2004). • obrigações fiscais: dizem respeito aos impostos e encargos a serem recolhi- dos pelas empresas nas diferentes esferas (federal, estadual, municipal), tais como Imposto de Renda, IOF, IPI, ISS, ICMS, PIS, Cofins, CSLL, CIDE, INSS, FGTS, ITR/IPTU, IPVA, FUST, FUNTEL, entre outros. • outras obrigações: agrupam diferentes tipos de lançamentos, como salários e ordenados, encargos sociais, adiantamentos de clientes, e outras compras e contribuições a serem efetuadas em um horizonte de curto prazo. • Provisões: denotam encargos e itens de despesa cujo prazo de pagamento não é definido, ou cujos valores não são expressos com precisão, pois depen- dem de outras instâncias para a sua definição, comportando apenas estima- tivas. Neste subgrupo, são incluídas provisões para pagamento de processos trabalhistas, garantias, franquias de seguros, multas diversas, entre outras. FIGURA 4 - MAPA MENTAL RELATIVO À ESTRUTURA DO PASSIVO CIRCULANTE NAS ORGANIZAÇÕES PASSIVO CIRCULANTE Fornecedores Outras obrigações Obrigações fiscaisEmpréstimos Provisões Fonte: Elaborada pelo autor. 48 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Portanto, as obrigações da empresa que são passíveis de cálculo, e são descritas como parte de um mesmo ciclo operacional, compõem o Passivo Circulante (ASSAF NETO; LIMA, 2014). Esta identidade contábil é uma das estruturas formadoras do Capital Circulante Líquido, como será discutido na próxima seção. 2.2 CAPITAL DE GIRO, CAPITAL CIRCULANTE LÍQUIDO (CCL) E SUA OPERACIONALIZAÇÃO Quando uma empresa aloca uma certa quantia de recursos produtivos no seu Ativo Circulante, ela espera obter uma transformação desses recursos em produtos que, ao serem vendidos, irão trazer receitas que ampliarão a estrutura de seu ativo. Em outras palavras, a empresa aplica dinheiro adquirindo matérias-primas, que são convertidas em produtos, os quais, sendo transacionados no mercado, geram dinheiro em um volume maior do que o valor inicialmente aplicado, gerando lucros (HOJI, 2017). Karl Marx (1818 – 1883) enfatizou a importância da dinâmica de circulação de capital e mercadorias na economia através de um esquema sintético: D – M – D’. Nesse exemplo, o capital-dinheiro (D) é convertido em mercadorias (M) que são colocadas em circulação. No entanto, o empresário capitalista espera sempre obter um retorno adicional que compense o risco da opera- ção comercial, logo, espera que a mercadoria seja transacionada a um valor aumentado, D’. Logo, espera-se que D < D’. Esse capital aplicado na produção, portanto, permanece ‘girando’ no interior da empresa durante as etapas do ciclo operacional. É, portanto, denominado capital de giro. Esse capital deve retornar ampliado à empresa ao final do ciclo, para que a mesma tenha condições de realizar a recuperação das despesas e custos (diretos e indiretos) do processo produtivo (PADOVEZE, 2016). 49 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO A Figura a seguir demonstra uma aplicação prática desse conceito: FIGURA 5 - MAPA MENTAL RELATIVO AO FUNCIONAMENTODO CAPITAL DE GIRO NAS ORGANIZAÇÕES Caixa Fornecedores Estoques Clientes Fonte: Elaborada pelo autor. Observe um exemplo de formação de capital de giro: Considere que a empresa ZXC fabrica peças para usinas hidroelétricas sob medida, logo produz apenas um item a cada ciclo operacional. No início do processo de produção do bem que ela fabrica (Momento 1), sua dispo- nibilidade em caixa (Ativo Circulante) era igual a R$ 300.000,00, que foram consumidos para a compra de insumos da produção (matérias-primas, salários, etc.). Outros custos operacionais (luz, água, contador) somaram R$ 80.000,00. Logo, o estoque do produto acabado (Momento 3) tem valor igual a R$ 380.000,00. No processo de venda, são adicionados R$ 10.000,00 de despesas na forma de comissões, e o lucro esperado é igual a R$ 45.000,00, que é um valor embutido no preço final de venda. Assim, ao final da venda, a concessionária hidrelétrica compradora emite uma duplicata no valor de R$ 435.000,00 (Momento 4). 50 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Entretanto, é incorreto dizer que a empresa gerou um acréscimo de caixa no valor de R$ 135.000,00. São esperados o pagamento de comissões e lucros, no total de R$ 55.000,00. Assim, ao pagar estas despesas, o caixa será igual a R$ 380.000,00. Essa diferença (R$ 80.000,00) corresponde ao supe- rávit de caixa ao fim do ciclo operacional. FIGURA 6 - CONCEPÇÃO ESQUEMÁTICA DE UM CICLO OPERACIONAL (COM VALORES REAIS) Caixa (300.000) Despesas (80.000) Estoques (380.000) Outros desembolsos (55.000) Clientes (435.000) Pagamentos (-55000) Caixa Ampliado (380.000) Fonte: Elaborada pelo autor. A partir dos conceitos de Ativo Circulante e Passivo Circulante, podemos definir a existência do Capital Circulante Líquido (CCL), também conhecido por Capital de Giro Líquido (CGL). O CCL é formado pela diferença entre o Ativo Circulante (AC) e o Passivo Circulante (PC): CGL=AC-PC 51 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Deduzindo os elementos da fórmula, observamos que o CGL é positivo quando o Ativo Circulante supera o montante do Passivo Circulante. Caso se manifeste a situa- ção oposta, o CCL é negativo, ou seja, toda a estrutura de ativos da empresa é insufi- ciente para que ela possa honrar com os passivos acumulados. O CCL é entendido por Silva (2018), portanto, como uma espécie de ‘folga financeira’ da organização empresarial, denotando a forma pela qual esta organização sustenta suas atividades, seja através do uso do Ativo Circulante (CCL positivo) ou se refinan- ciando e endividando-se (CCL negativo). Na rotina do gestor financeiro de uma empresa, é preciso manter uma atenção cons- tante com a questão do crédito a curto prazo, a fim de manter a estrutura de capital de giro sem comprometer o funcionamento do ciclo operacional. Itens como o caixa da empresa e a disponibilidade de recursos no Ativo Circulante devem ser monito- rados a fim de evitar quebras no ciclo operacional, perda de liquidez e insolvência, como examinaremos na próxima seção. 2.3 INDICADORES DE LIQUIDEZ O conceito de liquidez, para a Gestão Financeira, tem uma dupla interpretação. A primeira delas é de natureza econômica, na qual a liquidez pode ser compreendi- da como a capacidade de um ativo qualquer converter-se em dinheiro; nesta linha, um ativo é mais líquido conforme possa tornar-se poder de compra de forma rápida ou imediata (BLANCHARD, 2004). Dentro do conceito econômico de liquidez, a moeda é o ativo líquido por excelência, pois ela representa o poder de compra em si, e de forma imedia- ta; dinheiro pode adquirir qualquer bem ou serviço disponível no mercado. Segundo economistas como John Maynard Keynes, o que irá definir se os agentes irão manter moeda consigo, ou irão investir, é a remuneração espe- rada de seu capital através da taxa de juros (BLANCHARD, 2004). 52 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Sob o ponto de vista administrativo/contábil, a questão da liquidez diz respeito à firma, no tocante à sua situação financeira: trata-se da capacidade que a empresa deve possuir no sentido de honrar seus compromissos financeiros e fazer frente às suas dívidas, pagando-as no tempo oportuno conforme os prazos e perfis de contra- tação (SILVA, 2018). FIGURA 7 - MAPA MENTAL RELATIVO À DINÂMICA DA LIQUIDEZ NA ESTRUTURA CONTÁBIL DE UMA ORGANIZAÇÃO EMPRESARIAL Alta liquidez: Moeda em espécie; Depósitos em conta-corrente (saldos); Poupança / títulos com resgate imediato (CDBs, p.ex); Recursos em caixa. Baixa liquidez: Títulos pré-fixados de longo prazo; Veículos; Imóveis; Bens de capital. Fonte: Elaborada pelo autor. De uma certa forma, trata-se de uma interpretação paralela ao sentido econômico da liquidez, uma vez que, para honrar esses compromissos, a firma deverá obter recursos monetários que devem, tanto quanto possível, estarem disponíveis no Ativo Circulante. Dessa forma, um indicador de liquidez permite avaliar a dimensão do Ativo Circu- lante em relação à estrutura de endividamento da empresa. Quando esta apresen- ta índices de liquidez adequados (e que serão estudados na sequência), pode-se perceber que a organização tem capacidade de pagar as suas dívidas. Uma mudan- ça que afete esses indicadores, e denote endividamento excessivo, permite avaliar que a empresa tem risco de insolvência, ou seja, a falta de condições de honrar seus compromissos (MATARAZZO, 2010). 53 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO É necessário ter em conta que o fato de uma empresa ter condições de honrar os compromissos não quer dizer necessariamente que ela irá fazê-lo no prazo contratado. Essa operação pode ser adiantada ou postergada, e depende de outros fatores, como prazos envolvidos, possibilidade de rola- gem, condições de gerenciamento de ativos, etc. A partir de agora, serão estudados quatro indicadores de liquidez comumente utili- zados na análise financeira das empresas, a saber: o indicador de Liquidez Imediata (LI), Liquidez Geral (LG), Liquidez Corrente (LC) e Liquidez Seca (LS). Para estes indica- dores, a ‘regra de ouro’ é ‘quanto maior, melhor’; ou seja, quanto mais longe de zero encontrar-se cada um desses índices, melhor a firma estará estruturada em termos de honrar seus compromissos financeiros e pagar suas dívidas (desse modo, preferen- cialmente, os valores devem ser iguais ou superiores a 1) (MATARAZZO, 2010). O indicador de Liquidez Geral é descrito de acordo com a seguinte fórmula: LG Ativo�Circulante Ativo�Não�circulante Passivo�Circulante = + ++Passivo�não�circulante Este indicador apresenta o montante de recursos financeiros (expressos na forma de Ativo Circulante e de Ativo Não Circulante, de prazo maior) que a firma possui para cada unidade monetária (R$ 1, por exemplo) de dívida total (SILVA, 2018). 54 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Se a companhia de seguros UIA apresenta os seguintes valores para as suas identidades contábeis gerais, relativas ao Balanço Patrimonial: Ativo Circulante: R$ 1.600.000,00 Não Circulante: R$ 5.400.000,00 Passivo Circulante: R$ 3.200.000,00 Não Circulante: R$ 1.250.000,00 Seu capital circulante líquido é dado por CCL = 1.600.000 – 3.200.000 = - R$ 1.600.000,00. Observa-se que o índice de Liquidez Geral é calculado da seguinte forma: LG Ativo�Circulante Ativo�Não�circulante Passivo�Circulante = + ++ = + + = Passivo�não�circulante 1600000 5400000 3200000 1250000 700000004450000 1 573≅ , Assim, essa empresa dispõe de R$ 1,573 em ativos, em relação a cada R$ 1,00 acumu- lado no Passivo. Esse indicador, embora de uso comum, possui algumas nuances. Entre elas, o fato de incluir no cálculo recursos de Ativo e Passivo que pertencem ao longo prazo, cuja amortização se dará em horizontes temporais maiores. Esses resultados podem, portanto, dar origem a interpretações equivocadas, pois, embora as operações de longo prazo sejam importantes para definir a saúde finan- ceira da empresa, as suas receitas gerais para operação são, em sua maioria, obtidas no curto prazo (SILVA, 2018). 55 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO O índice de Liquidez corrente permite avaliar a disponibilidade de Ativo Circulante em relação ao montante imobilizado na forma de Passivo Circulante (MATARAZZO, 2010): LC Ativo�Circulante Passivo�Circulante = A companhia UIA, cujos dados de Balanço Patrimonial foram apresentados no exercício anterior, tem o seu índice de Liquidez Corrente expresso pelo seguinte cálculo: LC Ativo�Circulante Passivo�Circulante = = = 1600000 3200000 0 5, Pelo resultado obtido (LC = 0,5), tem-se que a companhia possui apenas R$ 0,50 em ativos de curto prazo para honrar cada R$ 1,00 de passivos acumula- dos de longo prazo. Desse modo, há um risco importante de inadimplência e insolvência em curto prazo, demandando soluções apropriadas (que serão discutidas na próxima seção). O indicador de Liquidez seca demonstra o volume de recursos (na forma de ativos de alta liquidez no sentido econômico, como caixa, ativos financeiros, duplicatas a receber, ativos reservados para venda, exceto estoques) que podem ser mobilizados de forma rápida ou imediata pela empresa, em relação ao volume de Passivo Circu- lante (SILVA, 2018): LS Ativo�Circulante estoques Passivo�Circulante = − 56 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Suponha que a companhia UIA, estudada no exemplo de Liquidez Geral, apresenta apenas R$ 100.000,00 em estoques de produtos. Logo, o índice de Liquidez Seca é expresso por: LS Ativo�Circulante estoques Passivo�Circulante = − = −1600000 1000000 3200000 0 47≅ , Logo, a disponibilidade de Ativo Circulante em bens de alta liquidez, a cada R$ 1,00 de Passivo que a companhia UIA apresenta, é igual a R$ 0,47. Por fim, o indicador de Liquidez imediata é o de estimação mais conservadora, uma vez que considera apenas os valores do Ativo efetivamente disponíveis em curto prazo, como caixa, saldos em conta, poupança, e outros ativos de conversão imedia- ta ou de curto prazo. Recebíveis de prazo maior, estoques e outros ativos de menor conversibilidade não são considerados (SILVA, 2018): LI Disponível Passivo�Circulante = A Companhia UIA, que vem sendo estudada nos últimos exemplos, apresen- ta um montante de recursos de disponibilidade imediata (poupança, caixa e conta-corrente) igual a R$ 800.000,00. Logo, perante um Passivo Circulante de R$ 3.200.000,00, tem-se: 57 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO LI Disponível Passivo�Circulante = = = 800000 3200000 0 25, Portanto, a cada R$ 1,00 de Passivo Circulante acumulado, a companhia UIA apresenta apenas R$ 0,25 em recursos de conversão imediata em espécie. A partir desses índices e de suas características, observa-se que os mesmos são parte de um arsenal de instrumentos a serviço dos planejadores e gestores financeiros de uma empresa, ou que atuem junto a uma organização, contribuindo para a definição de estratégias para o seu crescimento em longo prazo. 2.4 NECESSIDADES DE FINANCIAMENTO DE CAPITAL DE GIRO Nas seções anteriores, você pôde avaliar que o capital de giro tem a função de circular no interior da empresa, modificando-se à medida que o ciclo operacional se comple- ta. Espera-se, assim, que o capital imobilizado na produção seja menor do que o montante de recursos recebido pela empresa na forma de receitas, na etapa final do ciclo (LEMES JR. et al., 2002). Mesmo quando o Ativo Circulante supera o volume do Passivo Circulante, há momen- tos em que a empresa pode ter dificuldades de honrar com seus compromissos e pagamentos a serem realizados em prazo imediato. Tal situação ocorre a partir do momento em que as dívidas têm prazo de liquidação inferior ao momento em que se processarão as entradas de receita. Ocorre, assim, uma situação na qual a estrutura do capital de giro está comprometida, e demanda intervenção do planejador financeiro para ser financiado, a fim de garan- tir a continuidade dos ciclos operacionais da empresa e a sua solvência no mercado (ASSAF NETO; LIMA, 2014). 58 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Nesse caso, a empresa recorre a soluções externas, desde o uso de capital de seus proprietários/acionistas até o capital de terceiros, mediante créditos e/ou antecipa- ção de recebíveis. Há diferentes fatores que contribuem para que uma empresa apresente problemas e instabilidade em relação ao seu capital de giro. Dentre estes fatores é importante destacar (SILVA, 2018): • Redução de vendas (e receitas esperadas), que pode ocorrer em função de mudanças na preferência dos consumidores ou por alguma oscilação macroe- conômica. • Crescimento na inadimplência, comum em situações de recessão e crise econômica, na qual ocorre a combinação entre desemprego e juros altos. • Aumento das despesas financeiras, que pode ocorrer em função de taxas bancárias, pagamento de seguros, amortização de dívidas, pagamento de títulos/debêntures, etc. • Aumento de custos gerais, associados à atividade produtiva, a partir de custos diretos (matéria-prima, salários, impostos e encargos), ou custos indiretos (mão-de-obra indireta, prestadores de serviços, materiais auxiliares, manuten- ção de almoxarifado, etc.). • Desperdícios de natureza operacional, que ocorrem nas diferentes etapas do processo produtivo e ensejam reduções apropriadas. O gestor financeiro deve apresentar autocontrole e capacidade de planeja- mento e organização para poder enfrentar conjunturas adversas em uma empresa que apresente risco de insolvência. Uma decisão precipitada de obter capital pode fazer a empresa refém de financeiras e empresas de facto- ring, que cobram juros altos para oferecer capitais a empresas com proble- mas financeiros; este risco é ainda maior para o caso de agentes de negócios escusos, como agiotas. 59 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO As necessidades de capital de giro (NCGs) acompanham a dinâmica do ciclo de caixa na empresa, ou seja, a dinâmica de embolsos e desembolsos de receitas/custos. Quando o ciclo de caixa é longo, há mais necessidade de capital de giro para susten- tar as atividades do ciclo. Portanto, um dos objetivos de um gestor financeiro eficiente é reduzir, tanto quanto possível, o ciclo de caixa, recebendo mais cedo e pagando mais tarde. Tal redução pode ocorrer através da redução dos prazos e dimensões de produtos estocados, do tempo de produção, através de otimização de esforços de venda, entre outros (HOJI, 2017). O método de gestão conhecido como toyotismo (pois foi criado na indústria automobilística japonesa) é um modelo de gestão de fluxos de mercadorias no interior das indústrias e empresas que se baseia em uma organização eficiente de estoques, reduzindo custos de armazenagem e atendendo de forma rápida (just-in-time) os pedidos e demandas dos clientes. Uma NCG é calculada da seguinte forma:NCG= Ativo Cíclico-Passivo Cíclico Cada situação relativa às NCGs define a estratégia que a empresa deverá adotar em sua gestão (SILVA, 2018): • Se NCG for positiva, ou seja, se o ativo cíclico (recursos aplicados no ciclo opera- cional na forma de estoques e duplicatas a receber) superar o montante do passivo cíclico (pagamentos a serem honrados no curto prazo, como salários, fornecedores e impostos), tem-se que a empresa apresenta um superávit no seu capital de giro; logo, ações de financiamento não são necessárias. 60 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO • Se o passivo cíclico é maior que o ativo cíclico, há uma NCG negativa. Ou seja, o resultado do ciclo financeiro como um todo é negativo – as empresas nessa situação, geralmente, recebem antes de desembolsar para a produção, e os recursos são drenados para outras áreas. Microempreendedores e agentes autônomos (como empreiteiros de obra, mecânicos, eletricistas e serralheiros, por exemplo) podem, por falta de uma política de gestão de suas atividades e desconhecimento das condições do mercado, incorrer de modo constante em problemas de capital de giro; é muito comum que esses profissionais recebam parte das receitas antecipa- damente, para compra de insumos e peças; no entanto, acabam por redire- cionar esses recursos para o pagamento de outras obrigações e sofrem com o fluxo de caixa na hora de realizarem os serviços contratados. Se o Capital de Giro líquido (igual ao CCL) for negativo, a estrutura do capital de giro da empresa é deficitária, de modo que a empresa está operando com recursos de terceiros, que por si são onerosos (implicam no pagamento de juros, encargos e outras taxações, além da amortização), o que implica no risco de insolvência em prazo futuro (SILVA, 2018). Nessa circunstância, a empresa deve compactuar sua NCG ao tipo de recurso a ser utilizado como capital de terceiros. Deve-se, por exemplo, procurar formas não onero- sas de financiar a NCG, tais como renegociações dos prazos de pagamento junto aos fornecedores, de modo a possibilitar o giro dos estoques e receber receitas antes dos pagamentos serem desembolsados, recuperando o capital de giro (HOJI, 2017). Se tal situação não é possível por alguma razão, deve-se recorrer a fontes onerosas de financiamento da NCG, tais como: 61 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO • Capital circulante próprio (resgate de investimentos e aplicações financeiras). • Emissão de debêntures. • Desconto antecipado de duplicatas. • Empréstimos bancários de curto prazo para amortização. • Créditos e financiamentos bancários de longo prazo. As ações de longo prazo para obtenção de capital envolvem, geralmente, a alienação de recursos pertencentes ao Patrimônio Líquido da empresa, tais como maquinário e imóveis, que ficam depositados em nome dos credores para a garantia dos empréstimos contratados (SILVA, 2018). Pode-se calcular a dinâmica da NCG em uma empresa através de um exemplo práti- co: Suponha que a empresa QWE apresenta as seguintes identidades contábeis: Ativo Cíclico Estoque = R$ 1.450.000,00 Clientes (a receber): R$ 2.250.000,00 Passivo Cíclico 62 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Salários: R$ 1.050.000,00 Fornecedores: R$ 1.750.000,00 A NCG será dada por: NCG �Ativo�Cíclico Passivo�Cíclico= − = + −1450000 2250000 1050000−− =1750000 900 000 00R$� . , A abordagem da NCG permite, portanto, avaliar se uma organização apresenta uma operação com boas margens de rentabilidade, suficientes para fazer frente às suas obrigações e manter o capital de giro operando de forma eficiente no curto prazo, mantendo ‘folga financeira’ na reprodução cotidiana de suas atividades (SILVA, 2018). CONCLUSÃO Na área de estudos da Gestão Financeira, o planejamento das operações e adminis- tração dos fluxos de capital de giro são temas fundamentais. Como você pôde anali- sar nesta unidade, todas as empresas modernas necessitam estabelecer um volume de capitais considerado ideal para o financiamento de suas operações cotidianas. Na verdade, a definição de uma necessidade de capital de giro é algo bastante parti- cular, e que é, por sua vez, inerente à realidade de cada empresa, ao relacionamento da mesma com seus clientes e fornecedores e, em especial, depende da sua capaci- dade de fazer pagamentos e honrar compromissos, em horizontes de curto, médio e longo prazos. O desenvolvimento de um ciclo operacional não é tarefa simples de ser compreendi- da por um gestor inexperiente, uma vez que envolve desembolsos contínuos de recur- sos, ao longo de toda a cadeia produtiva e, mesmo além, como parte de um suporte pós-venda que garanta o recebimento efetivo das receitas dos clientes, mediante o pagamento de duplicatas e outros recebíveis. 63 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO De todo modo, é importante ressaltar a importância de uma análise integrada entre diferentes áreas do conhecimento para a compreensão dos temas de Gestão Finan- ceira. O estudo do Planejamento Financeiro envolve conhecimentos de Administra- ção, Economia, Ciências Contábeis e alguns pontos de Estatística e elaboração de fórmulas de cálculo. Este conteúdo, portanto, poderá ser bastante utilizado por você, ao longo de sua vida profissional e sua carreira, mediante operações de consultoria e atuação junto ao setor financeiro das organizações empresariais. 64 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO BIBLIOGRAFIA COMENTADA Veja a seguir algumas indicações de obras que complementarão seu conhecimento sobre os assuntos abordados na disciplina. • SILVA, Edson Cordeiro. como administrar o fluxo de caixa das empresas: guia de sobrevivência empresarial. São Paulo: Atlas, 2018. Esse livro contém uma extensa descrição analítica dos processos modernos de forma- ção de um orçamento de caixa. Apresenta detalhamentos importantes a respeito de processos, como aplicação de sobras e formação de custos de oportunidade. Verifi- que, especialmente, o tópico 4.3, “Objetivos de um fluxo de caixa”. • HOJI, Masakazu. administração financeira e orçamentária: matemática finan- ceira aplicada, estratégias financeiras, orçamento empresarial. São Paulo: Atlas, 2017. Essa obra, uma das mais consagradas no gênero, com várias edições publicadas, discute aspectos ligados à gestão financeira como um todo, constituindo-se em leitu- ra obrigatória e manual de estudo no tocante a essas questões temáticas. Discute o planejamento financeiro como chave para o crescimento da organização empresa- rial. Consulte, em especial, o tópico 6.2, denominado “Administração de disponibili- dades”, que discute com maior profundidade os elementos formadores de um fluxo de caixa. • HUBBARD, R. Glenn; O’BRIEN, Patrick. introdução à economia. 2. ed. Tradu- ção de Christiane de Brito Andrei, Cristina Bazán, e Rodrigo Sardenberg. Porto Alegre: Bookman, 2010. Esta obra realiza uma ponte muito interessante entre temas econômicos de Admi- nistração e de Ciências Contábeis, recuperando conceitos de forma didática e intuiti- va. Para os que se interessarem pelo tema dos demonstrativos contábeis e suas carac- terísticas, pode-se especialmente verificar a Parte III deste livro, no tópico ‘O Balanço Patrimonial. 65 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO • ASSAF NETO, Alexandre; SILVA, César Augusto Tibúrcio. administraçãodo capital de giro. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2012. Neste livro, os autores aprofundam os estudos a respeito do capital de giro das empresas, inserindo elementos importantes, como a Administração de Estoques, a aplicação de saldos disponíveis e a administração e controle de valores a receber. Recomenda-se a leitura do tópico 1.2 Ciclo Operacional e 1.7 Indicadores de liquidez. 66 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: UNIDADE 3 > Formular o uso e aplicação de indicadores de análise de balanço para a operacionalização de estoques e caixa nas empresas. > Aplicar mecanismos de administração financeira para a negociação de títulos de alta liquidez. > Calcular índices de prazos médios, avaliando as suas características. 67 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 3 GESTÃO DE ESTOQUE E TÍTULOS NEGOCIÁVEIS Esta unidade realiza um enfoque sobre os instrumentos de gestão de estoques e prazos a pagar dentro do ciclo operacional de uma empresa. De modo geral, todas as organi- zações empresariais que realizam algum tipo de atividade de transformação apresen- tam ciclos operacionais de diferentes prazos e dimensões e que envolvem a aplicação de recursos financeiros para o seu andamento, ou seja, para a remuneração de fornece- dores e outros parceiros e pagamento de colaboradores. Ao fim do ciclo, as mercado- rias vendidas são convertidas em dinheiro através do pagamento de duplicatas. A partir do ciclo operacional, a empresa necessita efetuar uma gestão coerente de seus prazos de pagamento de mercadorias e matérias-primas, bem como para o recebimento das receitas de venda, a fim de evitar quebras de caixa e sucessivas descapitalizações que podem afetar a sua saúde financeira e demandar ajustes na forma de empréstimos e outras operações igualmente onerosas. Assim, esta unidade apresentará alguns indicadores úteis, que são comumente utilizados na área admi- nistrativa das organizações, a fim de que você possa conceber adequadamente os elementos que compõem a gestão de estoque e de ativos financeiros. INTRODUÇÃO A partir do momento em que um gestor financeiro assume o controle das operações de uma organização empresarial, é fundamental que ele possua um conhecimento adequado sobre as diferentes etapas e prazos que compõem o seu ciclo operacional. Tal dinâmica é importante, uma vez que, durante essas etapas, faz-se necessária a aplicação de recursos financeiros da empresa, de modo a garantir a produção de seus bens e serviços, que posteriormente se tornarão fonte de receita para a organização. Assim, o cálculo preciso dos indicadores relativos ao ciclo operacional, tais como o prazo de recebimento de duplicatas, de pagamento de fornecedores e de formação de estoques, impõe-se como uma aplicação prática da análise de balanços em seu 68 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO dia a dia profissional. O estudo desses indicadores de prazos permite avaliar e deter- minar estratégias empresariais, nas áreas comercial e financeira, que condicionam diretamente as oportunidades de sucesso e fracasso no funcionamento da organiza- ção. Com esses indicadores, um gestor financeiro pode aplicar os recursos da empre- sa com maior eficiência e maximizar os seus lucros. 3.1 ADMINISTRAÇÃO DE ESTOQUES A partir das demonstrações financeiras de uma organização empresarial, é possí- vel avaliar de que forma essa empresa está gerenciando o seu ciclo operacional – a sucessão de etapas de dispêndio/desembolso, produção, venda e recebimento de receitas que caracterizam a elaboração do portfólio de bens elaborados pela referida organização (ASSAF NETO; LIMA, 2014). FIGURA 8 - SÍNTESE DE UM CICLO OPERACIONAL Compra de materiais Produção Vendas Recebimento Fonte: Elaborada pelo autor. 69 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Para viabilizar essa avaliação, é tarefa primária considerar a questão dos estoques. Toda empresa mantém um estoque, de maiores ou menores dimensões, para garan- tir o andamento de suas atividades (matérias-primas) e viabilizar as operações de venda (estoques de produtos acabados). A disponibilidade de estoques, portanto, é uma dimensão que transcende a realida- de de almoxarifado e de operações logísticas; consiste, na verdade, em uma conta que faz parte do ciclo operacional e interfere diretamente no caixa da organização, juntamente com as contas a receber (a partir das duplicatas emitidas pelos clientes) e as contas a pagar (na forma de duplicatas emitidas em favor dos credores e forne- cedores da empresa) (HOJI, 2017). FIGURA 9 - ELEMENTOS COMPONENTES DO CAIXA E DISPONIBILIDADES DE CAPITAL Ca ix a Contas a pagar Duplicatas emitidas Impostos Outras despesas Duplicatas emitidas Juros de investimentos Outras receitas Contas a receber Estoques Fonte: Elaborada pelo autor. Se o estoque for comprado à vista junto aos fornecedores, o impacto junto ao caixa se realiza de forma imediata; caso seja adquirido a prazo determinado, o impacto ocorrerá no momento do pagamento da duplicata ou da parcela de aquisição, caso se trate de uma venda parcelada ou financiada em médio e longo prazos. As necessidades de capital, portanto, estão intrinsecamente ligadas à gestão dos estoques globais da empresa, em insumos, materiais diversos de consumo e produ- tos acabados, de modo que, quanto mais elevado for o volume de estoques que a empresa decidir manter, também será maior a sua necessidade de capital (SILVA, 2018). 70 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO FIGURA 10 - ITENS COMPONENTES DE UM ESTOQUE EM INDÚSTRIAS E EMPRESAS DE COMÉRCIO Indústria • Matérias-primas • Produtos em elaboração • Materiais de embalagem • Materiais de consumo • Produtos acabados Empresas de serviços / comércio • Materiais de consumo • Itens de almoxarifado (mercadorias prontas para venda) Fonte: Elaborada pelo autor. Essa manutenção de capital em estoques embute um custo, uma vez que a sua operacionalização gera custos diretos (logística, infraestrutura de armazenamento, despesas prediais) e custos de oportunidade, que são recursos que a empresa deixa de perceber ao decidir uma alocação alternativa de seu capital. Em países com altas taxas de juros como o Brasil, esse custo de capital não pode ser desprezado (ANTU- NES JR. et al., 2008). Em fevereiro de 2018, a taxa Selic, que regula os financiamentos e investimen- tos de curto e médio prazo no Brasil, estava cotada em 6,75% a.a. Descontada a inflação prevista em 12 meses, um investidor poderia, naquele momento, espe- rar uma remuneração real de seus ativos na ordem de 2,89% ao ano. Aparentemente pequena, essa taxa mantinha o Brasil como o quinto país com as maiores taxas de juros do mundo naquele momento. Como comparativo, a taxa real dos Estados Unidos era de - 0,81%; a média dos países cotados no mesmo período era igual a 0,00% (CALEIRO, 2018). 71 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 3.1.1 DECISÕES DE COMPRAS Uma administração eficiente de estoques não é necessariamente realizada através da compra de lotes massivos de materiais diversos, de modo a obter descontos razoá- veis e/ou redução de preços; ou, pelo lado dos produtos disponíveis para venda, não se trata de manter grande volume de bens para atender imediatamente aos clientese/ou reagir rapidamente a uma oscilação do perfil de demanda. Na verdade, a gestão moderna de estoques preza pela manutenção de níveis baixos de produtos em almoxarifado/armazenamento sem que as atividades costumeiras da empresa sejam abaladas, de modo, como vimos, a baixar os custos de imobiliza- ção de capital (ASSAF NETO; LIMA, 2014). Um dos jargões muito utilizados no mundo empresarial é o just in time (JIT). Esse conceito resume-se às práticas de gestão de ativos que prezam pela manu- tenção de estoques reduzidos e atendimento imediato às demandas dos clien- tes da organização (SILVA, 2018). 3.1.2 LOTE ECONÔMICO DE COMPRAS (LEC) Sabendo-se que os estoques e sua manutenção embutem diferentes modalidades de custo, cabe realizar um questionamento: qual o critério a ser adotado para definir a quantidade ótima de um item de estoque a ser adquirido junto a fornecedores? Através do cálculo do lote econômico de compras (LEC), é possível deduzir a quan- tidade ideal sem comprometer a estrutura de capital da empresa a partir de seus custos de produção (HOJI, 2017). 72 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Dentro do indicador LEC, são embutidas três modalidades de custos, a saber: • Custo efetivo da mercadoria que está sendo adquirida (estando aí embutidos impostos e outros encargos). • Custo de emissão de pedidos, que são despesas administrativas relativas ao ato de emitir um pedido e receber os produtos, tais como horas de traba- lho do pessoal de estoque, requisições, cotações, inspeção de qualidade, entre outros. • Custo de manutenção dos estoques, relativo à permanência das mercadorias em estoque, como custos de estocagem, seguros, fator de obsolescência e custos de oportunidade. FIGURA 11 - FATORES COMPONENTES DE UM LOTE ECONÔMICO DE COMPRAS LEC Custo do produto Custo do pedidoCusto do Estoque Fonte: Elaborada pelo autor. O LEC pode ser calculado da seguinte forma: LEC S O C S O C = = ( * * ) ( * * )/2 21 2 2 73 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO No qual: • S = demanda por produtos a serem encomendados em certo período (em unidades). • O = custo de emissão de um pedido. • C = custo unitário de manutenção de estoque. O indicador C pode ser calculado da seguinte forma (HOJI, 2017): C = (Custos*Custo de oportunidade) = (% Custos*% Custo de oportunidade) Veja um exemplo para viabilizar a compreensão desse indicador. Suponha que uma empresa que fabrica velas demanda adquirir, regularmente, bobinas de fios de algodão, sendo que cada pedido apresenta um custo unitá- rio de R$ 1.000,00. A empresa adquire 20.000 unidades desse item no período de um mês, e o custo médio de emissão de cada pedido é de R$ 18,00. Os custos de manuten- ção de estoques são de 1,2% ao ano (a serem financiados), e a taxa de juros do mercado (para o custo de oportunidade) é igual a 30% a.a. Temos então o seguinte: S = 20.000; O = 18. A partir de outros dados, podemos calcular o custo unitário de manutenção de estoque: Canual = (Custos * Custo de oportunidade) = (% Custos * juros de mercado) = (1,012 * 1,3) ≅ 1,315 = 31,5% O custo unitário em um mês é obtido através da radiciação desse indicador anual, para o período de um mês (1/12 de um ano): 74 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Cmensal = (Canual) 1/12 = 12√Canual Portanto: Cmensal = (1,315) 1/12 = 12√1,315 ≅ 1,0231 = 2,31% Sobre um custo unitário de R$ 1.000,00 por pedido, tem-se que o custo unitário de manutenção de estoque é igual a: R$ 1.000,00 * 2,31% = R$ 23,10 Aplicando, por fim, a fórmula do LEC, tem-se: LEC S O C S O C = = = = ( * * ) ( * * ) ( * * ) , , /2 2 2 20000 18 23 10 31168 8 1 2 2 2 33 1772 ≅ Ou seja, mesmo que a empresa consuma 20.000 bobinas ao mês, é recomendá- vel que ela adquira 177 unidades desse item a cada pedido para minimizar seus custos de manutenção de estoques. A partir do indicador LEC, caso o número de pedidos atenda exatamente à deman- da periódica da empresa pelo item de estoque – ou seja, se não se formam estoques excessivos nem faltam produtos –, é possível expressar o custo total de um pedido (CTP) da seguinte forma: CTP = O * s/Q No qual Q corresponde ao número de pedidos, em unidades. Caso o estoque do produto seja escoado no ciclo operacional a uma taxa constante, pode-se calcular o estoque médio como a divisão entre a quantidade de pedidos por 2: Estoque médio = Q/2 O custo total de manutenção de estoque (CTM), por sua vez, é dado por: CTM = C * Q/2 75 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO No qual C, como você viu anteriormente, corresponde ao custo unitário de manuten- ção de estoque. E o custo total geral (CTG) é dado por: CTG = CTM + CTP Essa série de cálculos permite avaliar que, mediante a quantidade de produtos a serem adquiridos conforme o lote econômico de compras (LEC), a empresa minimi- zará os seus custos operacionais relativos ao estoque (HOJI, 2017). Resgatando os dados do exemplo anterior, no qual LEC = 177, S = 20.000, C = R$ 23,10 e O = R$ 18,00, temos que a quantidade ideal de pedidos em um mês (Q) é igual a: Q S LEC = = ≅ 20000 177 113 Processando 113 pedidos mensais de 177 bobinas, podemos sintetizar: • Quantidade por pedido (Q) = LEC = 177 • Número de pedidos (S/Q) = 113 • Estoque médio (Q/2) = 177/2 = 88,5 • CTP = O * s/Q = 18 * 113 = R$ 2.034,00 • CTM = C * Q/2 = 23,10 * 88,5 = R$ 2.044,35 • CTG = CTP + CTM = 2034 + 2044,35 = R$ 4.078,35 Ora, sabendo-se que o ideal é que a empresa realize 113 pedidos mensais de 177 bobinas cada um para atender a uma demanda mensal de 20.000 unida- des desse produto e que o CTG correspondente a essa operação corresponde a R$ 4.078,35, pode-se fazer um comparativo a fim de avaliar se um número maior ou menor de pedidos pode gerar custos menores em termos de estoque. 76 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Para isso, é preciso manter o número de unidades do produto demandadas (S), alterando apenas a quantidade de pedidos (Q): TABELA 2 - DEMONSTRATIVO DE APLICAÇÃO DE GESTÃO DE ESTOQUES MEDIANTE O INDICADOR LEC PEDIDO < LEC LEC PEDIDO > LEC Quantidade por pedido (Q) 100 177 200 número de pedidos (s/Q) 200 113 100 estoque médio (Q/2) 50 88,5 100 ctP = o *(s/Q) R$ 3.600,00 R$ 2.034,00 R$ 1.800,00 ctM = c * (Q/2) R$ 1.155,00 R$ 2.044,35 R$ 2.310,00 CTG = CTP + CTM r$ 4.755,00 r$ 4.078,35 r$ 4.110,00 Fonte: Elaborada pelo autor. Observa-se, portanto, que no momento em que a empresa realiza pedidos compatí- veis com o lote econômico de compras (LEC), ela minimiza custos relativos à gestão de seu estoque (SILVA, 2018). 3.2 OPERACIONALIZAÇÃO DE ESTOQUES E ÍNDICES DE PRAZOS MÉDIOS Os índices de prazos médios permitem verificar o período em que, em média, uma empresa deve aguardar para receber suas duplicatas, para pagar suas compras e para renovação do seu estoque. Esses índices são também conhecidos como índices de rotação, pois avaliam as rotações (giros) dos ativos dentro de um ciclo operacional, permitindo definir medidas de financiamento de compras, pagamentos e estoca- gem de produtos (MATARAZZO, 2010). 77 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 3.2.1 GIRO DE ESTOQUES E PRAZO MÉDIO DE ESTOCAGEM O indicador de giro de estoques (GE) demonstra o número de vezes que um estoque de produtos é renovado em uma empresa ao longo de certo período,como um mês ou um ano, por exemplo: GE Custodasmercadorias vendidas Saldomédiodeestoques Custo da = = ssmercadorias vendidas Saldo inicial Saldo final( ) /+ 2 Para o cálculo desses indicadores de prazo médio, supõe-se que o escoamento dos estoques é constante, ou seja, os mesmos são transacionados de maneira uniforme durante o período analisado. Como consequência natural do indicador GE, o indicador de prazo médio de estoca- gem (PME) demonstra a dimensão do período em que ocorre a renovação do esto- que – ou seja, que o giro de estoques ocorre, desde o instante da compra até a saída/ venda do produto – durante um intervalo de tempo N (HOJI, 2017). PME Saldomédiodeestoques Custos dasmercadorias vendidas N GE = =* 1 **N 78 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO O intervalo de tempo N pode ser cotado em anos; neste caso, é preciso consi- derar a hipótese de ser um ano contábil (12 meses de 30 dias = 360 dias) ou um ano civil (365 ou 366 dias, com suas respectivas divisões em meses). Caso você opte por realizar os cálculos com o indicador N cotado em dias, você usará a quantidade de dias correspondente ao que o problema solicita. Caso N seja expresso em anos, os resultados podem ser fracionados – por exemplo, para um ano de 360 dias, 0,1 ano corresponde a 10% de um ano = 36 dias). Através de um exemplo, pode-se entender a aplicação desses índices. Suponha que a empresa IOP apresenta parte de seu demonstrativo de resulta- dos para o ano 20X2 disposto na forma que se segue: TABELA 3 - DEMONSTRATIVO DE RESULTADOS (SELEÇÃO) VENDA DE PRODUTOS (RECEITA BRUTA) 800.000 Devoluções e abatimentos (-) 40.000 impostos (-) 80.000 receita líquida 680.000 custo das mercadorias vendidas 440.000 LUcro BrUto 240.000 Fonte: Elaborada pelo autor. No ativo circulante, constam os seguintes lançamentos: • Estoques (20X1) = 100.000,00 • Estoques (20X2) = 120.000,00 79 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Desse modo, tem-se o seguinte: GE Custodasmercadorias vendidas Saldomédiodeestoques = = 440000 (1100000 120000 2 440000 110000 4 + = = ) / Ou seja, os estoques foram integralmente rotacionados (“girados”, renovados) por quatro vezes ao longo do exercício contábil de 20X2. O PME é dado por: PME Saldomédiodeestoques Custodasmercadorias vendidas N GE = =* *1 NN = = =110000 440000 1 1 4 0 25* , Ou seja, o prazo médio de renovação dos estoques é igual a 0,25 ano. Caso seja um ano contábil de 360 dias, ocorre renovação a cada noventa dias. Para uma empresa, o ideal é que o giro de estoques seja rápido, uma vez que o lucro tende a aumentar à medida que os produtos sejam rapidamente escoados e vendi- dos, caso o aumento do giro de estoques não implique em custos extras para a orga- nização (SILVA, 2018). 3.2.2 GIRO DAS CONTAS A RECEBER (GCR) E PRAZO MÉDIO DE RECEBIMENTO DE VENDAS (PMRV) O indicador GCR demonstra o número de vezes em que a empresa percebe a entra- da de receitas de vendas ao longo de um período. Esse indicador é construído a partir da razão existente entre a receita bruta (e suas deduções) e o saldo médio de contas a receber, do seguinte modo: GCR ceitabruta Devoluções eabatimentos Saldomédiodecontas a = −Re rreceber ceitabruta Devoluções eabatimentos Saldo inicial = − + Re ( SSaldo final) / 2 Em decorrência, o prazo médio de recebimento de vendas (PMRV) demonstra o período médio em que tais receitas são depositadas no caixa da organização empre- sarial (HOJI, 2017): PMRV Saldomédiodecontas a receber ceitabruta Devoluções eaba = −Re ttimentos N GCR N* *= 1 80 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Vamos resgatar parte dos dados do exercício anterior para um ano 20X2 qual- quer na empresa IOP: TABELA 4 - DEMONSTRATIVO DE RESULTADOS (DADOS SELECIONADOS) Venda de produtos (receita bruta) 800.000 Devoluções e abatimentos (-) 40.000 impostos (-) 80.000 receita líquida 680.000 custo das mercadorias vendidas 440.000 LUcro BrUto 240.000 Fonte: Elaborada pelo autor. Considere que o saldo de contas a receber em 20X1 era de R$ 32.000,00 e, em 20X2, esse mesmo saldo era igual a R$ 44.000,00, totalizando R$ 76.000,00 em saldo médio de contas a receber. Logo, para um ano de 360 dias – ou seja, para N = 360 –, tem-se: GCR ceitabruta Devoluções eabatimentos Saldomédiodecontas a = −Re rreceber PMRV GCR N = − = = = = 800000 400000 76000 2 760000 38000 20 1 1 2 / * 00 360 18* = A empresa processa 20 giros de contas a receber em um ano, o que permite avaliar que as duplicatas são recebidas a cada dezoito dias (para um ano contá- bil de 360 dias). Se você considerar N = 1 (relativo a um ano), tem-se: PMRV GCR N= = =1 1 20 1 0 05* * , O resultado é o mesmo, ou seja, as duplicatas são recebidas a cada 0,05 ano (ou dezoito dias, sabendo-se que o ano corresponde a 360 dias) 81 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO É importante enfatizar que o valor desses indicadores pode alterar, para mais ou para menos, de acordo com a situação financeira dos clientes, a eficiência dos sistemas de cobrança da empresa, entre outros fatores. 3.2.3 PRAZO MÉDIO DE PAGAMENTO DE FORNECEDORES (PMPF) Esse indicador apresenta o período no qual a empresa realiza os pagamentos junto a credores e fornecedores ao longo de certo exercício contábil (MATARAZZO, 2010). Tal indicador é expresso da seguinte forma: PMPF Saldomédiode fornecedores Comprasbrutas N= * As compras brutas correspondem ao resultado da seguinte fórmula: Estoque final = Estoque inicial + Compras - Custo das mercadorias vendidas→ Compras = Estoque final - Estoque Inicial + Custo das mercadorias vendidas Vamos retomar o modelo da empresa de serviços IOP quanto aos seus demons- trativos do ano 20X2: TABELA 5 - DEMONSTRATIVO DE RESULTADOS (DADOS SELECIONADOS SOBRE RECEITAS DE VENDA) VENDA DE PRODUTOS (RECEITA BRUTA) 800.000 Devoluções e abatimentos (-) 40.000 impostos (-) 80.000 receita líquida 680.000 custo das mercadorias vendidas 440.000 LUcro BrUto 240.000 Fonte: Elaborada pelo autor. 82 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO • Estoques (20X1) = 100.000,00 • Estoques (20X2) = 120.000,00 Vamos incluir agora os seguintes dados sobre o passivo circulante: • Fornecedores (20X1) = R$ 170.000,00 • Fornecedores (20X2) = R$ 190.000,00 Para o ano 20X2, com 360 dias, tem-se: TABELA 6 - ESTOQUES E CUSTO DE MERCADORIAS CUSTO DAS MERCADORIAS VENDIDAS R$ 440.000,00 (+) estoque final R$ 120.000,00 (-) estoque inicial -R$ 100.000,00 (=) custo de produção/compras R$ 460.000,00 Fonte: Elaborada pelo autor. Portanto, para N = 1 (um ano de 360 dias), tem-se: PMPF Saldomédiode fornecedores Comprasbrutas N= = +* (170000 1900000 2 460000 180000 460000 0 39) / ,= ≅ Ou seja, a firma realiza pagamentos, em média, a cada 0,39 ano (140 dias) aos seus fornecedores, emitindo duplicatas. O cálculo desse indicador pode ser efetuado para empresas do setor de serviços, por exemplo, que não realizam atividades de transformação – nesse caso, é necessário incluir o custo da mão de obra direta, o custo de materiais e os custos indiretos de fabricação (HOJI, 2017). 83 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 3.2.4 RELAÇÕES ENTRE ÍNDICES DE PRAZOS MÉDIOS Os indicadores apresentados são úteis para avaliar a rotatividade das mercadorias e pagamentos efetuados e realizados; no entanto, conforme destacado nas seçõesanteriores, eles são mais relevantes quando analisados em conjunto (MATARAZZO, 2010). Uma comparação importante pode ser realizada entre os indicadores PMPF e PMRV. Recuperando os indicativos da empresa IOP, que está sendo estudada, obte- mos o seguinte: • PMRV = 18 • PMPF = 140 Ou seja, a política da empresa é a de comprar (e pagar seus fornecedores) a cada 140 dias, em média, e de vender (e receber) a cada 18 dias. O indicador PME representa o tempo médio de estocagem de uma mercadoria para o caso de uma empresa comercial (que não produz bens, apenas os transaciona). Após o instante da venda, “começa a correr” o prazo de recebimento dessa venda, expressa pelo índice PMRV. Desse modo, em uma empresa comercial, a soma entre PME e PMRV corresponde ao ciclo operacional, como descrito pela figura a seguir: 84 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO FIGURA 12 - CICLO OPERACIONAL PADRONIZADO (COMPRA-VENDA-RECEBIMENTO) PME PMRV Venda Recebimento Ciclo operacional Compra Fonte: Elaborada pelo autor. Em conjunto com o ciclo operacional, pode também ocorrer o chamado ciclo de caixa ou ciclo financeiro. Ora, normalmente, uma operação de compra dispara um prazo para seu pagamento ao fornecedor (PMPF), e toda venda dispara um prazo para recebimento da receita (PMRV). No intervalo entre a compra junto ao fornecedor e a venda do produto, há um giro de estoque (PME), de acordo com a descrição do ciclo operacional. Quando o PMPF é maior que o PME, significa que a empresa está girando seu esto- que – e realizando vendas – antes de fazer o pagamento dos fornecedores. Estes, portanto, estão financiando uma parte das vendas da empresa, pois há um intervalo de tempo entre o instante de pagar o fornecedor e o instante de receber as receitas de venda. Esse intervalo é chamado de ciclo de caixa (SILVA, 2018). Se o pagamento aos fornecedores é posterior à venda dos produtos, o ciclo de caixa deve financiar o período PMRV, como você pode observar pela figura a seguir: FIGURA 13 - CICLO OPERACIONAL E CICLO DE CAIXA Ciclo Operacional PME PMPF Ciclo de Caixa PMRV Compra Pagamento RecebimentoVenda Fonte: Elaborada pelo autor. 85 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO No entanto, se a empresa paga os fornecedores antes de efetuar a venda, o ciclo de caixa deve também financiar a formação dos estoques pré-venda: FIGURA 14 - CICLO OPERACIONAL E CICLO DE CAIXA AMPLIADO Ciclo Operacional PME PMPF Ciclo de Caixa PMRV Compra Pagamento RecebimentoVenda Fonte: Elaborada pelo autor. O ciclo de caixa (CC), portanto, é descrito pela fórmula: CC = PME + PMRV - PMPF Assim sendo, pode-se concluir com a ideia de que o alongamento de um ciclo finan- ceiro é danoso à empresa, pois ela demanda mais tempo de financiamento de suas compras, incorrendo em custos mais elevados (MATARAZZO, 2010). O ideal é que ela postergue os pagamentos e adiante seus recebimentos tanto quanto possível, como será discutido na próxima seção. 3.3 ADMINISTRAÇÃO DE CAIXA E TÍTULOS NEGOCIÁVEIS Uma boa administração de caixa permite que os prazos inerentes às atividades operacionais da empresa sejam manipulados de forma eficiente, reduzindo custos e ampliando as margens de lucro (HOJI, 2017). A empresa pode, ainda, negociar seus títulos (notas do tesouro, ativos financeiros, duplicatas a receber) no mercado financeiro para reforçar seu caixa (disponibilidade imediata de recursos). Esses conceitos serão mais bem discutidos neste tópico da unidade. 86 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 3.3.1 EFICIÊNCIA NA ADMINISTRAÇÃO DE CAIXA Há três estratégias básicas que podem ser tentadas pela empresa a fim de maximizar os retornos decorrentes de suas atividades dentro de um ciclo operacional (MATARA- ZZO, 2010): • Retardar o prazo de pagamento de suas duplicatas – em equilíbrio com o conceito da firma no mercado, evitando protestos e negativações –, aprovei- tando descontos para pagamento em prazo menor, caso existam. • Girar os estoques o mais rápido possível, mantendo-os sempre em um nível mínimo, que não comprometa a linha de produção, nem o atendimento aos clientes da empresa. • Receber as duplicatas de venda a prazos menores que os contratados – sem perder vendas por isso –, contratando empresas de antecipação de recebíveis e factorings, caso os descontos a serem feitos (e os juros de tais práticas) se mostrem viáveis. FIGURA 15 - INSTRUMENTOS DE ADMINISTRAÇÃO DE CAIXA A PARTIR DE PRAZOS DE PAGAMENTOS E RECEBIMENTOS $ p/ Caixa Antecipar duplicatas e recebíveis Postergar dispêndios Girar estoques mais rápido Fonte: Elaborada pelo autor. 87 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Veja um exemplo para viabilizar essa análise. Considere que a empresa comercial ZXC, que intermedia a venda de sacas de café, efetua compras desses produtos a prazo e vende os mesmos produtos também a prazo. A política da empresa é quitar a compra das sacas em vinte dias e receber os produtos vendidos em quarenta dias. Contudo, de acordo com as informações fornecidas pelo setor de compras, tem-se que o PMPF é de 22 dias, e o PMRV, igual a 47 dias, em função de algu- mas dificuldades de mercado (falhas de cobrança, inadimplência, prazo de compensação de cheques etc.). O PME é calculado em 65 dias. Portanto, o ciclo de caixa é expresso por: CC = PME + PMRV - PMPF = 65 + 47 - 22 = 90 dias O giro de caixa (GC) demonstra o número de vezes que o caixa da empresa é rotacio- nado em um ano, com N = dias em um ano: GC = n/cc Para o caso da empresa ZXC, do exemplo anterior, o giro de caixa é igual a: GC = n/cc = 360/90 = 4 88 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO A partir do conceito de giro de caixa, é possível questionar: qual montante mínimo a empresa deve manter para quitar suas faturas mediante um volume determinado de vendas? Esse montante é chamado caixa mínimo operacional (CMO) e representa o valor necessário para a empresa articular seu(s) ciclo(s) operacional(is) ao longo de um ano e não enfrentar falta de liquidez e/ou descapitalização (HOJI, 2017). É importante relembrar que o modelo CMO é uma das estratégias de adminis- tração de caixa. Outros modelos, como o modelo de Baumol e o modelo Miller- -Orr, também podem ser utilizados para definir o montante ideal de recursos a serem mantidos como disponibilidades pela organização. O indicador CMO é expresso pela razão entre os desembolsos totais anuais (DTA) (soma da movimentação de entrada e saída de recursos) e o giro de caixa: CMO = Dta/Gc Considere que a empresa ZXC, estudada anteriormente, tem um DTA igual a R$ 1.600.000,00. Se GC = 4, tem-se: CMO = Dta/Gc = 1600000/4 = R$ 400.000,00 Ou seja, se a empresa ZXC iniciar o ano com R$ 400.000,00 em disponibilidades, não deverá apresentar problemas de liquidez ou descapitalização. Se o custo de oportunidade relativo à manutenção do CMP é igual a 12% ao ano, tem-se que o mesmo é igual a: 400.000,00 * 0,12 = r$ 48.000,00 89 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Diante do exposto, é importante recapitular: estratégias como redução de prazos de recebimento, dilatação de prazos de pagamento e antecipação de recebimentos e duplicatas podem ser interessantes para reforçar o caixa da organização e reduzir custos de oportunidade (MATARAZZO, 2010). Usando ainda os dados da empresaZXC, suponha que ela consegue reduzir o PME em seis dias, reduzir o PMRV em seis dias e aumentar o PMPF em seis dias. Nesse caso, o ciclo de caixa, expresso por (2), ocorreria 18 dias mais rápido: CC (1) = PME + PMRV - PMPF = 65 + 47 - 22 = 90 dias CC (2) = PME + PMRV - PMPF = 59 + 41 - 28 = 72 dias Neste caso, observe: GC N CC GC N CC ( ) ( ) ( ) ( ) 1 1 360 90 4 2 2 360 72 5= = = = = = Neste caso, sabemos que CMO (1) é igual a R$ 400.000,00. No caso (2), mantendo-se DTA, vem: CMO DTA GC R( ) ( ) $ ,2 2 1600000 5 320000 00= = = Perante o mesmo custo de oportunidade (12% a.a.), tem-se: 320.000,00 * 0,12 = R$ 38.400,00 A possibilidade de alterar para menos o ciclo de caixa, gerando mais um ciclo anual, representa, portanto, uma redução de R$ 9.600,00 (ou seja, 48000 – 38400) nos custos de oportunidade de manutenção do caixa ótimo. 90 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO A administração dos ativos e prazos da empresa permite que ela se mantenha adequa- damente capitalizada para pagar seus credores e receber as receitas de vendas ao longo de seu ciclo operacional (SILVA, 2018). 3.3.2 TÍTULOS NEGOCIÁVEIS Quando uma empresa publica seus demonstrativos contábeis, sua estrutura de ativo circulante menciona as suas disponibilidades em caixa (na forma dinheiro) e outros ativos de rápido resgate. Nesse sentido, os chamados títulos negociáveis podem ser entendidos como investimentos de curto prazo e baixo risco, que podem ser facil- mente transacionados no mercado financeiro, convertendo-se rapidamente em dinheiro (ASSAF NETO; LIMA, 2014). Configuram-se, portanto, como ativos de alta liquidez, uma vez que têm capacida- de de se tornarem poder de compra (moeda) no curto prazo e podem ainda gerar rendimentos à empresa na forma de juros sobre o capital investido (BERK; DEMAR- ZO, 2010). De modo geral, há três fatores principais que induzem os gestores financeiros das empresas a manter títulos negociáveis na sua estrutura de ativo circulante, a saber (GITMAN, 1997): • Motivo transacional: títulos próximos ao prazo de recebimento são mantidos a fim de gerar capital para pagar duplicatas emitidas pela empresa para as suas compras em prazo determinado, ou seja, esses títulos negociáveis ajudam a sustentar as operações cotidianas da empresa. • Motivo precaucional: os títulos são mantidos de modo a cobrir despesas ines- peradas e emergenciais. • Motivo especulativo: manifesta-se quando há títulos que rendem juros favorá- veis à empresa – mais favoráveis, do ponto de vista do retorno gerado, do que a aplicação do capital no ciclo operacional da organização. 91 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO FIGURA 16 - FATORES DE DEMANDA POR TÍTULOS NEGOCIÁVEIS EM UMA ORGANIZAÇÃO EMPRESARIAL Demanda por títulos Transação PrecauçãoEspeculação Fonte: Elaborada pelo autor. As duplicatas a receber consistem em títulos negociáveis, pois podem ser transaciona- das, ainda que os retornos esperados sejam inferiores aos que seriam obtidos com a sua liquidação no prazo pré-determinado. Pode ocorrer, portanto, um deságio ao se realizar a antecipação desses recebíveis a fim de reforçar o caixa da empresa (HOJI, 2017). Se um investidor possui R$ 1.000.000,00 para investir na ampliação de sua fábrica, o mesmo deve avaliar a rentabilidade esperada com esse investimento produtivo e a possibilidade de investir no mercado financeiro. Suponha que a taxa de juros real é de 2,89% ao ano. Assim, para o montante mencionado, há uma expectativa de remuneração real no valor de R$ 28.900,00. Se o investimento produtivo remunera o agente com 2,74% líquidos, a expecta- tiva de ganho é de R$ 27.400,00. Diante dessa diferença (R$ 1.500,00), o investi- mento financeiro se mostraria mais vantajoso. O fator taxa de juros, portanto, é fundamental para definir o motivo especulação na demanda por títulos negociáveis. 92 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Há títulos pré-fixados, cuja rentabilidade é determinada no instante da contratação, como certificados de depósito bancário (CDBs), debêntures, fundos de renda fixa e títulos previdenciários. Outros títulos, por sua vez, são pós-fixados e acompanham a evolução de outros indicadores, como a taxa de juros de longo prazo (TJLP) ou a infla- ção, para determinar o valor da remuneração, tais como os fundos multimercados lastreados em ações negociáveis em bolsa de valores, os fundos DI, letras do tesouro nacional (LTNs), entre outros (SILVA, 2018). A discussão sobre os motivos de demanda por ativos financeiros foi realizada na década de 1930 pelo economista britânico John Maynard Keynes. Em sua obra teoria geral do emprego, do juro e da moeda, Keynes enfatiza que os agen- tes econômicos demandam moeda corrente pelos três motivos apresentados nesta seção. Assim, a moeda não é um ativo neutro, cuja função é limitada a ser um referencial de troca. A moeda, segundo Keynes, é uma reserva de valor e, por isso, sua demanda é justificada. Nessa linha, caso queira saber um pouco mais, o artigo de Adriana Moreira Amado, denominado Limites monetários ao crescimento: Keynes e a não-neu- tralidade da moeda, discute essas questões na ótica econômica do século XX. Esses títulos constituem-se, portanto, em opções de investimento dos ativos finan- ceiros excedentes da empresa e devem ser aplicados para gerar rendimentos e redu- zir os custos de oportunidade decorrentes de sua manutenção no interior do ciclo operacional. 93 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO CONCLUSÃO Toda empresa tem o interesse natural de realizar a maximização de suas taxas de lucro; para isso, apenas reduzir custos e/ou buscar ampliar as receitas de vendas podem ser estratégias necessárias, porém não suficientes. Todo gestor financeiro que foca apenas as estruturas de custos diretos e indiretos da organização comete um erro grave e, em circunstâncias de concorrência acirrada, potencialmente fatal: o erro de não considerar hipóteses alternativas de alocação de recursos e direcionamento dos ativos financeiros da empresa. Como você pôde estudar ao longo desta unidade, a gestão dos estoques de produtos em uma empresa – realize ela atividades de transformação de bens ou não – é um fator de extrema importância na vida profissional de um gestor financeiro. Há indica- dores que permitem avaliar de que modo a empresa está processando os seus prazos de pagamento de mercadorias adquiridas e produtos/serviços vendidos; dessa forma, é possível estabelecer as dimensões de um ciclo operacional e entender se as dispo- nibilidades financeiras da empresa são suficientes para financiar as diferentes etapas do referido ciclo. Trata-se, portanto, de uma questão que apresenta uma dimensão econômica funda- mental: à medida que a empresa tem necessidade de alocar mais recursos para sustentar o ciclo operacional, ela está percebendo custos de oportunidade impor- tantes, ou seja, deixando de receber ganhos que poderia auferir se alocasse recursos em uma atividade com maior potencial de rentabilidade. Mais que isso, os erros de gestão do ciclo operacional podem redundar em excessos de custos e problemas constantes de fluxo de caixa, que demandam financiamentos externos e comprome- tem a saúde financeira da empresa de forma efetiva. Desse modo, na linha da gestão financeira e das finanças das empresas, os temas propostos nesta unidade ajudarão em sua vida profissional ao viabilizar estudos mais aprofundados a respeito das condições financeiras das empresas, indo além de indi- cadoresprojetados em demonstrativos de resultados. Embora úteis, esses demons- trativos podem (e devem) ser desdobrados em outros índices, que, inseridos em uma perspectiva conjunta, demonstram de que forma a empresa sustenta, como apresen- tamos, o seu ciclo operacional. 94 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO BIBLIOGRAFIA COMENTADA Veja a seguir algumas indicações de obras que complementarão seu conhecimento sobre os assuntos abordados na disciplina. • BERK, Jonathan; DEMARZO, Peter. Finanças empresariais – essencial. Trad. Christiane de Brito Andrei. Porto Alegre: Bookman, 2010. Esse livro discute de forma bastante particular as conexões existentes entre a gestão financeira e as ciências econômicas, através de referenciais das finanças das empre- sas. Os autores resgatam os principais conceitos das ciências contábeis e demonstra- tivos de resultados para demonstrar as formas como as organizações efetuam suas decisões de investimento. Recomenda-se particularmente a leitura do capítulo 5, taxas de juros. • BAYE, Michael R. economia de empresas e estratégias de negócios. Trad. André Fernandes Lima, Joaquim Carlos Racy, Marcel Guedes Leite, Márcia Flai- re Pedroza. Porto Alegre: AMGH, 2010. Essa obra é um compêndio de discussões a respeito da economia de empresas, apre- sentando as diferentes fórmulas de gestão das organizações em ambientes competi- tivos, de oligopólio (poucos concorrentes) e monopólio. O conteúdo do texto integra, portanto, referenciais da microeconomia e da estatística para discutir estratégias de administração. O capítulo 6, denominado a organização da empresa, é de maior interesse para as discussões propostas nesta unidade de estudo. 95 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: UNIDADE 4 > Demonstrar a importância das decisões de investimento para a Gestão Financeira, através de indicadores apropriados. > Distinguir processos de elaboração de um Orçamento de Capital. > Articular uma síntese sobre a relação entre o Orçamento de Capital e a análise de risco e retorno. > Comparar indicadores para avaliação de investimentos, como o Valor Presente Líquido (VPL) e a Taxa Interna de Retorno (TIR). 96 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 4 ORÇAMENTO DE CAPITAL E AVALIAÇÃO DE INVESTIMENTOS Através desta unidade de estudo, será realizada uma incursão pelas modernas técnicas de Gestão Orçamentária, que são bastante utilizadas pelas organizações empresariais para estabelecer parâmetros de decisão para políticas de investimento, mediante cálculos apropriados de risco e retorno. Como você irá analisar ao longo deste texto, nenhuma decisão de investimento é (ou ao menos não deveria ser) reali- zada aleatoriamente. Na verdade, múltiplos indicadores são analisados pelas empre- sas para avaliar o potencial de retorno de um investimento, ou seja, a quantidade de receita que ele será capaz de gerar ao longo de um certo período. A partir destes indicadores, a empresa estabelece um orçamento de capital, no qual se estudam os fluxos de caixa que serão gerados pela ampliação da produção, os riscos inerentes a esta atividade e os custos diretos e indiretos que estejam ligados à decisão de investir. Neste material didático, você irá analisar alguns destes indicado- res e fórmulas de cálculo, como a técnica de Payback e o cálculo do Valor Presente Líquido, e verá que é possível antecipar as receitas potencialmente geradas por uma decisão de investimento e de que forma estes investimentos podem afetar positiva- mente as finanças da empresa em um horizonte de longo prazo, ao longo de diversos ciclos operacionais. INTRODUÇÃO A literatura econômica dedica uma atenção especial à dinâmica do Investimento e à sua importância para a determinação da capacidade produtiva de um país, além da geração de emprego e renda. Esta variável está intrinsecamente associada à geração de lucros e resultados para as empresas, mediante a aplicação de capital em proje- tos produtivos, destinados a aumentar a capacidade da oferta da empresa e/ou criar capacidade para que a organização consiga acomodar um aumento na demanda a curto e médio prazo. 97 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Deste modo, é possível realizar uma transposição deste tema, analisando-o em para- lelo com a dinâmica da Gestão Financeira: quais são os indicadores que uma empre- sa utiliza para definir uma política de investimento? No cenário econômico brasileiro, investir na produção é mais rentável do que aplicar fundos no mercado financeiro? Quais são as vantagens e desvantagens para uma empresa trabalhar com capital de agentes externos? Estas questões serão discutidas ao longo desta unidade, com um viés específico: vamos verificar de que modo a definição de políticas de investimento e Orçamento de Capital permite que você, enquanto gestor financeiro, possa reco- mendar projetos para uma empresa, de modo a viabilizar seu crescimento e inserção no mercado. 4.1 PLANEJAMENTO FINANCEIRO E FERRAMENTAS DE CONTROLE Uma empresa que tenha por objetivo ampliar seus lucros e sua participação no mercado, através de incrementos de oferta que levem a organização a apresentar vantagens competitivas importantes, deve estruturar-se de acordo com políticas de planejamento financeiro, a fim de avaliar corretamente algumas variáveis, como receitas de vendas, receitas decorrentes de aplicações financeiras, lucros esperados, prazos de maturação de um investimento, entre outras (ANTONIK, 2012). Observa-se, portanto, que há algumas relações, de natureza econômica, que preci- sam ser observadas para que uma decisão de investimento seja eficiente, ou seja, que as etapas do projeto permitam alcançar os fins desejados, mediante os recursos disponíveis. Para isto, é preciso considerar os riscos desta operação e os seus retornos potenciais. 4.1.1 ORÇAMENTO DE CAPITAL Através de um Orçamento de Capital, uma empresa pode definir o montante de recursos financeiros que deve alocar em um projeto produtivo, de modo a ampliar os seus fluxos de caixa e a capacidade de geração de receitas, em prazos determinados (HOJI, 2017). 98 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO O Orçamento de Capital não diz respeito necessariamente ao capital financeiro, ou seja, aos recursos em espécie que a empresa dispõe; na verdade, tratam-se especialmente de bens de capital, ou seja, bens que são destinados à fabricação de outros bens – tais como maquinários ou implementos industriais, por exemplo. Antes de passar ao estudo dos indicadores, é preciso demonstrar as etapas que condi- cionam a formação e desenvolvimento de um Orçamento de Capital, quais sejam (GITMAN, 2004): 1. Elaboração inicial, na qual os membros da organização, em diferentes setores, expressam expectativas e projetos relativos à produção destes setores. Estes projetos são selecionados pelo administrador financeiro, de acordo com estu- dos de viabilidade. 2. Estimação dos fluxos de caixa que poderão ser gerados pelos projetos selecio- nados, uma vez que uma decisão de investir mobiliza capitais que, em algu- mas situações, não poderão ser recuperados através de projetos e decisões alternativas. No estudo da Gestão de Custos, uma área importante nas Ciências Econômicas, menciona-se o conceito de custos irrecuperáveis, ou sunk costs (custos afunda- dos, em tradução livre): tratam-se de desembolsos quea empresa realiza e que jamais terão condições de ser recuperados, tais como multas, projetos com alto grau de exclusividade (e custos altos), compra de itens com tecnologia obsoleta, etc. 99 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 3. Avaliação de riscos. Nesta etapa, o gestor orçamentário avalia os riscos ineren- tes a um projeto de investimento, tais como variáveis macroeconômicas (infla- ção, tributos, políticas públicas de incentivo à exportação e importação, etc.), e microeconômicas (mudanças no perfil dos clientes e consumidores, altera- ções na concorrência como fusões e aquisições, etc.). Caso uma eventual “mudança de curso” nas condições do ambiente externo possa ser muito danosa ao funcionamento da organização, o gestor orçamentário tem o dever de repensar a viabilidade de uma decisão de investir. Muitas empresas efetuam decisões de investimento a partir de expectativas a respeito de mudanças na legislação ou nas condições do mercado, sendo que estas mudanças podem eventualmente não acontecer. Após efetuarem desem- bolsos grandes para sustentar estes investimentos, tais empresas acabam por falir. Este é o caso da Transbrasil, uma empresa aérea nacional que faliu ao inves- tir pesadamente em aeronaves de grande porte para atender rotas internacio- nais, cujo funcionamento não foi autorizado pelo governo brasileiro. O canal de Lito Sousa, Aviões e Músicas, trata deste assunto no vídeo “Transbrasil, a que nasceu de paixão”. 4. Tomada de decisão pelo gestor financeiro – se necessário, em conjunto com acionistas e demais proprietários da organização. 5. Implementação dos projetos de alocação de capital e execução das operações previstas. 6. Ações de acompanhamento dos resultados iniciais, tomados em uma pers- pectiva de curto prazo, com processos de auditoria e avaliação. Caso os retor- nos que estiverem sendo gerados estejam sendo inferiores aos esperados para aquele momento, ações de correção ainda podem ser implementadas a fim de conduzir o investimento aos fins desejados em termos de geração de caixa e retorno. 100 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO FIGURA 17 - ETAPAS DE ELABORAÇÃO DE UM ORÇAMENTO DE CAPITAL Elaboração inicial Estimação de fluxos de caixa Avaliação de riscos Tomada de decisão Implementação de projetos Ações de acompanhamento Fonte: Elaborada pelo autor. O objetivo de um orçamento de capital, em linhas gerais, reside em responder a questionamentos relativamente simples, tais como: o projeto tem capacidade de “se pagar”, ou seja, de gerar retornos que compensem a aplicação? Os resultados obtidos irão aumentar os rendimentos da empresa e dos seus acionistas? Há oportunidades alternativas com menor risco e com retornos iguais ou maiores do que o apresenta- do? Como você pode perceber, a análise de um projeto de investimento envolve plane- jamento, pois demanda a alocação de montantes significativos de capital em prazos estendidos (superiores a um ano, ou mesmo décadas) (ASSAF NETO; LIMA, 2014). A siderurgia é um setor onde os prazos de maturação de um investimento, ou seja, a recuperação do capital aplicado na forma de receitas, é realizado apenas a longo prazo. A implementação de um alto-forno pode custar centenas de milhões de dólares, e estes equipamentos devem ter produção programada, uma vez que, se desligados, o custo de uma religação pode ser altíssimo. 101 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Normalmente, os investimentos descritos em um Orçamento de Capital consistem em recursos alocados em projetos que têm um caráter permanente, ou seja, são volta- dos para o longo prazo e ampliam a capacidade produtiva da empresa (MAYO, 2009). Dentre estes projetos, é possível mencionar: • Compra de empresas concorrentes e/ou prestadoras de serviço. • Compra de participações em empresas. • Aquisição de terrenos e edifícios. • Pesquisa e Desenvolvimento de novos produtos e processos (P&D). • Criação e registro de marcas e patentes, como parte do capital intelectual da empresa. • Aquisição de máquinas e equipamentos. FIGURA 18 - FATORES MOTIVADORES DE DECISÕES DE INVESTIMENTO Investimento Compra de empresas Aquisição de equipamentos Compra de participações Aquisição de espaços Pesquisa e Desenvolvimento Criação de marcas e patentes Fonte: Elaborada pelo autor. Apesar de todos os elementos, objetivos e subjetivos, que devem ser avaliados pelo gestor orçamentário, há sempre uma margem de incerteza ao realizar um Orçamen- to de Capital, uma vez que há múltiplos cenários econômicos imprevisíveis e que são alheios à organização (COVA, 2012) 102 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 4.1.2 CÁLCULO DO PAYBACK SIMPLES Uma das técnicas mais conhecidas de avaliar um orçamento de capital, no tocante aos retornos esperados de uma decisão de investimento, é conhecida como Payback simples e demonstra, por sua vez, o período que é minimamente necessário para que os capitais alocados em um investimento sejam recuperados mediante fluxos de entrada de caixa (GITMAN, 2004), de acordo com a fórmula que se segue: Suponha que uma empresa que realiza o envasamento de água mineral, coleta- da em um poço artesiano, deseja adquirir uma nova máquina para este trabalho. Este equipamento tem um preço de venda estimado em R$ 800.000, no entan- to, espera-se que ele possa gerar retornos anuais à empresa em um montante igual a 160 mil reais. Assim sendo, o período de Payback é dado por: O método do Payback simples pode ser entabulado em uma espécie linha do tempo, na qual o prazo de maturação é descrito em função dos movimentos de caixa esperados: 103 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO FIGURA 19 - FLUXOS DE CAIXA ASSOCIADOS AO MODELO PAYBACK SIMPLES 800.000 0 1 2 3 4 5 160.000 160.000 160.000 160.000 160.000 Fonte: Elaborada pelo autor. Você pode verificar, portanto, que o método de Payback simples é bastante rudimen- tar, uma vez que é baseado em expectativas fixas a respeito do comportamento do fluxo de caixa e pelo fato de não considerar eventuais mudanças de preços de bens e matérias-primas. Apesar de sua aparente imprecisão, este indicador é, no entanto, bastante usado por microempresas e agentes individuais para rapidamente avaliar os retornos esperados por uma decisão de investir (GITMAN, 2004). 4.1.3 VALOR PRESENTE LÍQUIDO (VPL) Uma fórmula para determinar a viabilidade de um investimento é dada pelo concei- to de Valor Presente Líquido (VPL). É uma fórmula igualmente simples, porém práti- ca, uma vez que permite atualizar o valor futuro de um investimento, e avaliar se ele será efetivamente rentável para a organização (CAMARGOS, 2013). O método VPL considera variáveis que vão além do fluxo de caixa, como o método de Payback. Neste modelo, são avaliados o valor do investimento inicial, o prazo de maturação (o período de tempo em que este investimento irá gerar fluxo de caixa) e os retornos esperados durante este prazo, na forma de receitas. O objetivo de se calcular um VPL é calcular o valor do dinheiro no tempo. Ou seja, somente o ato de somar e subtrair fluxos de caixa ao longo de vários períodos pode ser insuficiente para definir se um investimento é, ou não, viável. Há elementos, como a taxa de juros, a inflação, a taxa de câmbio, que são variáveis econômicas que interferem diretamente no valor da moeda e suas características (BLANCHARD, 2011). 104 Gestão Financeira FACULDADECAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Assim, o método VPL permite avaliar se, no futuro, um projeto de investimento se mostraria suficientemente rentável, ou não (ANTONIK, 2012). A fórmula de cálculo para o VPL é expressa da seguinte forma: De modo que: • VPL = Valor Presente Líquido relativo a um fluxo de caixa. • FCt = Fluxo de caixa em um período t, em termos líquidos (ou seja, o fato de serem fluxos de entrada ou saída é indiferente). • I = Investimento inicial. • n = período em que se visualiza um fluxo de caixa qualquer. • t = último período para a ocorrência de um fluxo de caixa (período final). • K = taxa de desconto do fluxo de caixa (uma taxa de juros que remunera o fluxo de caixa ao longo do tempo e que é referência para as decisões de inves- timento). Se o cálculo do Valor Presente Líquido for positivo, o investimento é viável e deve ser realizado; caso o indicador VPL seja negativo, é desaconselhada a opção de investir em um projeto que irá trazer prejuízos ao longo do tempo, pois as receitas líquidas serão insuficientes para remunerar o investimento (ASSAF NETO; LIMA, 2014). A receita líquida é um indicador contábil formado pela diferença entre as recei- tas brutas (geradas com as vendas), a soma dos valores perdidos com trocas e devoluções, e os impostos sobre vendas. E, por fim, se o VPL for nulo (igual a zero), é indiferente à empresa realizar o investi- mento, ou aplicar o seu capital em uma finalidade alternativa que possa gerar exata- mente as mesmas receitas. 105 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO FIGURA 20 - CÁLCULO DO VPL E DECISÕES DE INVESTIMENTO VPL > 0 • Os custos serão recuperados • O investimento é viável • Os desembolsos a valor presente são iguais aos fluxos de caixa atualizados • A decisão de investir é indiferente do ponto de vista do retorno • Os investimentos não irão ser recuperados através de receitas • O investimento é desaconselhável VPL = 0 VPL < 0 Fonte: Elaborada pelo autor. Perceba que, pelo cálculo do VPL, é possível atualizar os valores relativos a um ganho de capital que será gerado em tempos futuros, através de fluxos de caixa desencadeados a partir de um investimento realizado em um primeiro momento. Veja um exemplo para reforçar a compreensão do conceito: Suponha que a empresa IUY deseja adquirir um torno com o valor de R$ 350.000,00. De acordo com os encarregados de operação, a utilização deste equipamento é estimada em cinco anos, e durante este período espera-se obter, a cada ano, receitas líquidas estimadas em, respectivamente, R$ 80.000, R$ 76.000, R$ 112.000, R$ 95.000 e R$ 65.000. Ao fim do quinto ano, a máquina poderá ser revendida por R$ 40.000,00, pois já estará com a vida útil fortemen- te comprometida. A taxa de retorno é estimada em 12% ao ano. Qual o Valor Presente Líquido deste investimento? Podemos, de acordo com os dados, realizar um esquema explicativo, através da figura a seguir: 106 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO FIGURA 21 - FLUXOS DE CAIXA MEDIANTE UMA DECISÃO DE INVESTIMENTO 80.000 350.000 0 1 2 3 4 5 76.000 112.000 95.000 105.000 Fonte: Elaborada pelo autor. Aparentemente, trata-se de um investimento interessante: pela soma das recei- tas, o retorno estimado é igual a R$ 468.000,00. Perceba que, no quinto ano, o valor do fluxo de caixa é igual a R$ 105.000, uma vez que estão sendo contabilizados a receita líquida e o valor obtido com a venda do equipamento. Para a taxa de 12% anuais, vamos obter o Valor Presente Líquido desta decisão de investimento: Como se observa, o VPL deste investimento é negativo, ou seja, a empresa esta- ria obtendo prejuízos no futuro caso decida optar pela compra deste equipa- mento, mediante as receitas líquidas esperadas. Quando a taxa de retorno supera um dado patamar, o investimento se torna vanta- joso, pois o VPL se torna positivo, permitindo perceber que a empresa obterá lucros com esta decisão de investir (CAMARGOS, 2013). 4.1.3.1 TAXA INTERNA DE RETORNO (TIR) Podemos definir a Taxa Interna de Retorno (TIR) como uma taxa de desconto (uma taxa de juro) que neutraliza o VPL de um projeto, tornando-o igual a zero (ANTONIK, 2012). 107 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Em outras palavras, a TIR demonstra a taxa pela qual o valor dos desembolsos rela- tivos a um projeto, atualizados ao valor presente, será igual aos retornos esperados deste projeto, também a valor presente. A TIR é um indicador que permite avaliar, portanto, o potencial de retorno (em %) decorrente de uma decisão de investir. A Taxa Interna de Retorno é calculada a partir da fórmula do VPL, da seguinte forma: Deste modo, você pode verificar que a TIR expressa uma taxa de desconto que um fluxo de caixa deve apresentar a fim de que o VPL seja igual a zero, tornando o inves- timento minimamente atrativo (ANTONIK, 2012). Qual a Taxa Interna de Retorno que corresponde a uma operação de emprésti- mo no valor de R$ 4.000, a serem pagos em três parcelas mensais, com valores iguais a R$ 1.600, R$ 1.500 e R$ 1.300? Através do cálculo do VPL, pode-se obter a Taxa Interna de Retorno. Os fluxos de caixa estão descritos na figura a seguir: FIGURA 22 - CÁLCULO DA TIR A PARTIR DE FLUXOS DE CAIXA 4.000 0 1 2 3 1.600 1.500 1.300 Fonte: Elaborada pelo autor. 108 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO O cálculo da TIR é expresso, portanto, como se segue: Este cálculo pode ser realizado de duas formas: através de equipamentos como softwares (MS Excel, por exemplo), e calculadoras financeiras; ou pelo método manual, que envolve “tentativa e erro”. Através de algumas sondagens, pode-se ir aproximando da taxa que realmente corresponda a TIR. Vejamos se a taxa de 3% é adequada para o cálculo da TIR: Se o VPL é positivo (e, portanto, diferente de zero), a TIR é mais alta, pois o VPL precisa ser zerado. Vamos calcular, em uma segunda tentativa, uma taxa de 6%: Observa-se que o VPL se tornou negativo, de sorte que a TIR está compreendida em um intervalo entre 3 a 6%. A partir do momento em que temos duas taxas de referência, podemos deduzir um valor de uma taxa X, próximo a TIR, a partir de uma regra de três simples: (156,98-(-64,07)):(3%-6%) (00,00-(-64,07)):(X-6%) Onde X é a nossa TIR. A partir desta regra de três, calculamos o seguinte: Verificando o VPL para esta taxa de 5,13%, tem-se: 109 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Ainda que 5,13% não seja a taxa exata que zera o VPL e, portanto, corresponda a TIR, é coerente aceitá-la como tal, uma vez que a sobra da operação (-2,07) corresponde a 0,05% do capital obtido com o empréstimo. Vale dizer, caso você deseje obter a taxa precisa pelo método manual, deverá prosseguir com outras regras de três até que o VPL seja nulo. 4.1.3.2 TAXA MÍNIMA DE ATRATIVIDADE (TMA) A Taxa Mínima de Atratividade é um referencial de mercado que a empresa utiliza para calcular o valor do dinheiro no tempo; ou seja, através da TMA, é possível avaliar se outras formas de investimento e/ou alocação de capital podem ser mais ou menos rentáveis; trata-se, portanto, de uma taxa de juros que demonstra o valor mínimo a ser alcançado por um investimento em períodos sucessivos (ANTONIK, 2012). A TMA é importante pelo fato de permitir uma avaliação precisa do valor do dinheiro no tempo: esta expressão demonstra a ideia de que o capital/dinheiro recebidono futuro tem um valor real diferente do que o mesmo montante, no tempo presente; uma soma aplicada hoje irá gerar retornos no futuro, e é este retorno futuro que é “trazido” a valor presente pelo cálculo do VPL. O valor nominal de um recurso financeiro é aquele que está expresso pelas suas próprias dimensões: por exemplo, o valor nominal de uma nota de 50 reais é exatamente 50 reais. O valor real, no entanto, considera alguns fatores, como a variação da inflação ao longo do tempo, conforme você irá estudar nas seções posteriores. Assim sendo, o cálculo do VPL permite descobrir a quantia de recursos, na forma de receita, que um projeto precisa viabilizar em um determinado prazo, para que seja viável; através da TMA, o investidor avalia a possibilidade de alocação de recursos em projetos alternativos com maior grau de segurança, como um título da dívida pública, 110 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO por exemplo (ASSAF NETO; LIMA, 2014). Para o cálculo do VPL mediante uma certa TMA, utiliza-se a seguinte fórmula: Onde: FC0 = Fluxo de caixa no momento zero, ou seja, o valor do investimento inicial, que corresponde a uma saída de caixa e, portanto, é contabilizado com sinal negativo na fórmula. FCn = Valor do fluxo de caixa em um determinado período n (FC1 corresponde ao perío- do 1, FC2 ao período 2, e assim por diante), sendo estes períodos determinados a crité- rio, como meses ou anos, por exemplo. TMA = Taxa Mínima de Atratividade. Perceba que a fórmula é a mesma para a apuração do Valor Presente Líquido, no entanto, pode-se pensar no investimento como uma operação de desembolso de capital e que, portanto, gera uma saída negativa no fluxo de caixa. Portanto, se I = FC0 , temos: Considere que você deseja averiguar o Valor Presente (VP) de um fluxo de caixa equivalente a R$ 450.000,00, que será recebido em cinco anos. Sua TMA é equi- valente a 6,5% ao ano. Deste modo, tem-se: 111 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Há uma “regra de ouro” que deve ser observada. A TIR deve ser comparada, para avaliar o retorno esperado de um projeto, com a Taxa Mínima de Atratividade (TMA). Se a TIR for maior que a TMA, o investimento é viável, e mesmo recomendável, pois irá gerar retornos positivos à empresa. Quando a TIR se iguala a TMA, o retorno gerado é nulo, ou seja, é indiferente à empre- sa realizar o investimento, ou não, pois os retornos irão apenas cobrir as despesas previstas (CAMARGOS, 2013). Por outro lado, se a TIR for inferior a TMA, o investimento não irá remunerar a si próprio, gerando desembolsos superiores às receitas, portanto, tal investimento não é finan- ceiramente viável. FIGURA 23 - CÁLCULO DA TIR EM FUNÇÃO DA TMA NAS DECISÕES DE INVESTIR TIR > TMA Retornos positivos ao longo do tempo, em termos de valores atualizados O investimento é recomendável TIR = TMA Os desembolsos a valor presente são iguais aos fluxos de caixa atualizados A decisão de investir é indiferente do ponto de vista do retorno TIR < TMA Os investimentos não irão ser recuperados através de receitas O investimento é desaconselhável Fonte: Elaborada pelo autor. 112 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Embora ao longo do texto as citações relativas às decisões de investir sejam rela- cionadas às empresas, é preciso lembrar que as mesmas técnicas são aplicáveis também a projetos que envolvem outros agentes econômicos, como o Estado, instituições do terceiro setor e pessoas físicas – a decisão de comprar um carro ou um imóvel, por exemplo, deve envolver as mesmas técnicas de Gestão Financeira. O agente econômico pode definir sua Taxa Mínima de Atratividade a partir da remu- neração que ele obteria a partir de uma aplicação no sistema financeiro, cujo risco seja o mais baixo possível; uma possibilidade, para o caso brasileiro, seria aplicar estes recursos em títulos da dívida pública indexados à Taxa Selic, que remunera os títulos do governo em horizontes de curto prazo (VIEIRA SOBRINHO, 2012). 4.1.3.3 VANTAGENS E LIMITAÇÕES DO MÉTODO VPL As vantagens do método VPL residem no fato de este método considerar variáveis, como o valor do dinheiro no tempo, como mencionamos, e o custo de capital (a taxa de juros), que por si é um custo de oportunidade. No entanto, o método é limitado pelo fato de considerar uma TMA igual para todos os períodos, sendo que, na realidade, há vários fatores que alteram esta taxa, de acor- do com as condições do mercado e da economia como um todo, aspectos estes que vão, portanto, além dos limites da organização (PADOVEZE, 2016). A própria taxa Selic, que é a taxa de referência para diferentes investimentos financei- ros no Brasil, apresenta uma trajetória de queda nos últimos anos, como você pode acompanhar pelo gráfico a seguir: 113 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO GRÁFICO 2 - TAXA SELIC, DATAS SELECIONADAS (% A.A.) Fonte: Adaptado de BRASIL, 2019. Outra limitação importante é o fato de a empresa contar com previsões de fluxo de caixa que podem não ser os esperados, sobretudo, em horizontes de prazo amplia- do (anos ou décadas); deste modo, é necessário ter um conhecimento aprofundado das atividades da empresa e das condições gerais do mercado, o que nem sempre é possível, sobretudo para investidores que estejam ingressando nestes negócios (SILVA, 2017). De todo modo, apesar das limitações apresentadas, o método VPL permanece sendo bastante eficiente como uma ferramenta de avaliação de Orçamentos de Capital. 4.1.4 MÉTODO DE PAYBACK DESCONTADO Conforme o que foi discutido nas seções anteriores, o método de Payback apresenta o prazo necessário para que um investimento “se pague”, ou seja, para que seja remu- nerado mediante a geração de fluxos de caixa adicionais, que cubram os desem- bolsos efetuados no momento zero. O método de Payback simples, neste sentido, é calculado quando estes retornos são somados ao longo do tempo, sem que o seu valor presente seja de fato atualizado. 114 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Esta atualização é feita pelo método de Payback Descontado, o qual atualiza (descon- ta) o valor dos fluxos de caixa recebidos pelo agente no futuro através de uma certa taxa de desconto – por exemplo, a TMA (VIEIRA SOBRINHO, 2012). Através do Payback Descontado, portanto, é possível obter o valor presente (VP) de um fluxo de caixa que será gerado em um momento futuro. A fórmula genérica do Valor Presente de um fluxo de caixa em um momento futuro t, de acordo com a TMA definida pelo agente, é igual a: Pelo cálculo do Payback descontado, você deverá atualizar a Valor Presente os fluxos de caixa em sua totalidade: uma vez que o investimento consiste em um desembol- so, e a atualização das receitas líquidas permite investigar se este investimento será efetivamente remunerado no futuro (CAMARGOS, 2013). A partir desta atualização, você deve computar os diferentes resultados de VP em uma sequência de valores acumulados. Suponha que você precisa verificar a viabilidade de um investimento – a compra de um equipamento industrial com valor igual a R$ 1.800.000,00. Esta máquina tem vida útil estimada em cinco anos e deve gerar os seguintes retornos duran- te esse período: R$ 650.000; R$ 620.000; R$ 580.000; R$ 520.000; R$ 450.000,00. Após o quinto ano, a máquina será doada para uma escola técnica. A Taxa Míni- ma de Atratividade é definida em 6,5%. Assim, é possível calcular o Valor Presen- tee o Valor Presente Acumulado, a cada ano, de acordo com a tabela a seguir: 115 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO TABELA 7 - PERÍODO DE PAYBACK DESCONTADO MEDIANTE UMA TMA PERÍODO FC VP VP ACUMULADO 0 -R$ 1.800.000 -R$ 1.800.000 -R$ 1.800.000 1 R$ 650.000 R$ 610.329 -R$ 1.189.671 2 R$ 620.000 R$ 546.629 -R$ 643.043 3 R$ 580.000 R$ 480.152 -R$ 162.890 4 R$ 520.000 R$ 404.208 R$ 241.318 5 R$ 450.000 R$ 328.446 R$ 569.764 Fonte: Elaborada pelo autor. Perceba que o VP acumulado é negativo até o ano 4 (na verdade, no ano 3 o VP é negativo, e somente se torna positivo entre o ano 3 e o ano 4). Logo, apesar de o VP acumulado ter um valor final positivo (o que torna o inves- timento recomendável), não será remunerado antes de três anos. Se a taxa TMA triplicar, indo para 19,5%, o valor do Payback descontado, manti- dos constantes os fluxos de caixa, seria alterado da seguinte forma: TABELA 8 - PAYBACK DESCONTADO MEDIANTE ALTERAÇÃO NA TMA PERÍODO FC VP VP ACUMULADO 0 -R$ 1.800.000 -R$ 1.800.000 -R$ 1.800.000 1 R$ 650.000 R$ 543.933 -R$ 1.256.067 2 R$ 620.000 R$ 434.166 -R$ 821.901 3 R$ 580.000 R$ 339.879 -R$ 482.022 4 R$ 520.000 R$ 254.995 -R$ 227.027 5 R$ 450.000 R$ 184.660 -R$ 42.367 Fonte: Elaborada pelo autor. Nestas circunstâncias, o VP acumulado será sempre negativo, e o investimento é incapaz de remunerar a si próprio: deve, portanto, ser descartado. 116 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Para apurar o instante exato no qual o Payback será evidenciado, ou seja, onde os fluxos de VP acumulado deixam de ser negativos, pode-se recorrer à seguinte fórmula: No cálculo do instante de Payback, é usado o valor em módulo: utiliza-se assim o valor absoluto de cada fluxo, desconsiderando a presença de sinal positivo ou negativo. A evolução do método de Payback simples demonstra, portanto, o momento em que um investimento será recuperado, facilitando a decisão do agente econômico de acordo com suas expectativas e prazos envolvidos (ASSAF NETO; LIMA, 2014). Vamos recuperar a tabela relativa a um fluxo de caixa decorrente de um investi- mento de R$ 1,8 milhão, mediante uma TMA de 6,5%: TABELA 9 - PERÍODO DE PAYBACK DESCONTADO MEDIANTE UMA DADA TMA PERÍODO FC VP VP ACUMULADO 0 -R$ 1.800.000 -R$ 1.800.000 -R$ 1.800.000 1 R$ 650.000 R$ 610.329 -R$ 1.189.671 2 R$ 620.000 R$ 546.629 -R$ 643.043 3 R$ 580.000 R$ 480.152 -R$ 162.890 4 R$ 520.000 R$ 404.208 R$ 241.318 5 R$ 450.000 R$ 328.446 R$ 569.764 Fonte: Elaborada pelo autor. 117 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Sabe-se que o investimento estará recuperado entre os períodos 3 e 4, havendo, portanto, um período de Payback. Usando a fórmula, encontraremos o instante em que este período estará evidenciado: Assim, sabendo-se que o Payback ocorre entre os períodos 3 e 4, observa-se que ele ocorre de fato no instante 3 + 0,403 = 3,403. Ou seja, se cada período corresponde a um ano, o investimento será recuperado em 3,403 anos. E, se cada ano contém 365 dias, o Payback ocorrerá, portanto a partir de três anos e 147 dias do desembolso inicial. 4.2 RISCO E RETORNO Há uma expressão em inglês – no pain, no gain – que demonstra a ideia de que sem dor, não existe ganho, enfatizando que um resultado positivo acaba por embutir algum tipo de custo, ou esforço, para ser obtido. Na dinâmica da Gestão Financeira, esta relação entre custo e resultado é comum, e vai além de uma questão que envolva apenas valores financeiros: um planejamento financeiro é eficiente apenas no momento em que os riscos são avaliados com preci- são (HOJI, 2017). As ações decorrentes do planejamento, portanto, devem levar em conta não apenas os resultados previstos (na forma de redução de custos e/ou aumento de receitas), mas também, os resultados imprevistos, que podem ser positivos (as vendas podem, por exemplo, superar as expectativas), negativos (resultados inferiores ao esperado), ou mesmo, desastrosos. A avaliação de um projeto de investimento precisa considerar, portanto, o seu prazo de maturação, o momento de recuperação dos desembolsos (Payback) e as diferen- tes circunstâncias que envolvem o funcionamento do mercado. 118 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Estes fatores, tomados em conjunto, fazem com que o agente se exponha mais, ou menos, ao risco, sendo que em geral, os projetos cujo risco de fracasso é maior também são associados a retornos mais expressivos (CAMARGOS, 2013). É importante que o gestor financeiro seja coerente no momento de definir sua TMA, em relação à realidade do mercado: o risco é uma variável importante, dado que altas taxas de juros são seguidas de alto risco de calote: uma TMA que esteja lastreada sobre taxas de empréstimo para negativados (20% ao mês) é praticamente irreal, haja visto que neste mercado de crédito a inadimplência é muito alta. 4.3 ORÇAMENTO DE CAPITAL, INFLAÇÃO E TAXA DE CÂMBIO O processo de avaliação de risco nas políticas de investimento de uma empresa também deve considerar as variáveis monetárias e cambiais. Estas variáveis têm uma origem na Macroeconomia e estão associadas às condições estruturais da política econômica dos países e às formas como elas repercutem nas organizações empresa- riais (BLANCHARD, 2011). Há três vertentes principais na política econômica, a saber: a Política Fiscal (que regula os gastos do governo e os tributos pagos pelos agentes econômicos), a Política Monetária (que controla a oferta de moeda na economia para conter a subida dos preços) e a Política Cambial (que atua, ou não, sobre o mercado de moedas, definindo relações de preços entre bens importados e nacionais). 119 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Assim sendo, fatores como a moeda, a inflação, o mercado externo e a taxa de câmbio também precisam ser considerados em detalhe nos processos de mensuração de um investimento. 4.3.1 INFLAÇÃO A inflação consiste, em linhas genéricas, como um processo em que ocorre uma alta contínua dos preços dos bens e serviços disponíveis em uma economia ao longo de um certo período. Estes preços, embora possam ser avaliados individualmente, são geralmente tomados na forma de um nível geral de preços, de modo a avaliar tendências gerais do mercado e suas características (BLANCHARD, 2011). O noticiário econômico por vezes menciona altas importantes nos preços de determinados produtos, como tomate e feijão, por exemplo, em função de estiagens ou inundações. No entanto, o fato da elevação do tomate ser igual a 200% não significa que a inflação num determinado momento é de 200%. Na verdade, o custo do tomate é colocado em uma cesta de bens, cuja variação de preços é medida de acordo com uma média ponderada. Por exemplo, se um índice de preços ao consumidor calcula que uma família gasta 0,5% do seu rendimento mensal com tomate, e este aumentar 200% em preço, o impacto no índice de preços será igual a 0,5% * 200% = 1%. A inflação distorce a relação entre preços, de modo que, em situações em que esta alta é persistente, o risco de prejuízos aumenta de forma considerável; assim, a infla- ção gera efeitos (negativos) sobre todo o processo de Gestão Orçamentária, sobretu- do, no tocante aos lucros esperados pela empresa (MAYO, 2009). 120 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Considere que uma empresa realizou uma avaliaçãodos custos de aquisição de matéria-prima ao longo de seis meses, em um montante igual a R$ 150.000. Esta matéria-prima teve, porém, o seu preço aumentado em 7% no período entre a avaliação e a assinatura do contrato, em função da variação inflacionária. Assim, o preço real desta matéria-prima será igual a 150.000 + (7% * 150.000) = 150.000 + 10.500 = R$ 160.500. Se esta empresa consegue fabricar mil unidades do produto com que atua, com estas quantidades de matéria-prima, devemos observar que a variação de custos, no montante de R$ 10.500, deve ser absorvida pelo preço de venda, que acaba, portanto, majorado em um montante igual a 10.500 / 1000 = R$ 10,50 (mantidas constantes as demais variáveis). Quando a taxa de inflação persiste em um viés de alta – ou seja, quando o nível de preços aumenta a taxas crescentes – a economia pode entrar em um circuito de hipe- rinflação, no qual os preços dos bens passam a ser reajustados com mais frequência (até mesmo diariamente) para que as empresas evitem perdas e prejuízos com a perda de valor da moeda. Nestas circunstâncias, qualquer planejamento financeiro torna-se praticamente inviável (BLANCHARD, 2011). 121 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO No Brasil, este contexto de hiperinflação ocorreu no final da década de 1980 e no início da década de 1990, quando a inflação chegou a 2.200% ao ano – muito abaixo da Venezuela, cuja expectativa de inflação para o ano de 2019 era de estratosféricos 10.000.000%. Nestas situações, o dinheiro praticamente perde sua capacidade de expressar valor, e as pessoas passam a realizar o comércio a partir de moedas fortes (como o dólar), ou a partir de trocas (escambo). Torna-se evidente, portanto, a importância do controle da inflação não apenas para as autoridades monetárias de um país, mas também para as empresas, a fim de viabi- lizar políticas de investimento e garantir o crescimento da economia como um todo. 4.3.2 TAXA DE CÂMBIO Os bens e serviços que são comercializados por uma empresa, além de serem preci- ficados em moeda nacional, também podem sê-lo em termos de moedas estrangei- ras, uma vez que mercadorias são sistematicamente transacionadas entre países. A relação entre estas moedas é expressa em termos da taxa de câmbio, que pode ser caracterizada por uma razão entre a moeda nacional e a moeda estrangeira, ou seja, a taxa de câmbio define, com precisão, a quantidade de moeda nacional que é necessária para a aquisição de uma unidade de moeda estrangeira (BLANCHARD, 2011). 122 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO No dia 10 de junho de 2019, a taxa de câmbio Real/Dólar era igual a 3,89; ou seja, eram necessários R$ 3,89 para que fosse possível “comprar” uma quantia em dólares equivalente a US$ 1. No dia 31 de maio do mesmo ano, a mesma taxa era igual a 3,94. Assim, caso uma empresa compre diariamente matérias-primas importadas, pagando o preço de câmbio do dia, os gastos com a compra em 31/5 serão maiores, em termos nominais (e em reais), do que os gastos no dia 10/6. Se a empresa adquire diariamente US$ 1.000 em produtos, ela irá gastar R$ 3.944 em 31/5, e R$ 3.890 em 10/6. Nestas circunstâncias, o fato de menos reais serem necessários para adquirir um dólar permite avaliar que a moeda nacional sofreu uma valorização cambial, também conhecida como apreciação cambial. Com base no exposto, pode-se perceber que a moeda é um item fundamental em decisões de investimento: sabendo-se que tais decisões envolvem, em muitas situa- ções, a compra de ativos no exterior (como maquinários e outros equipamentos), a taxa de câmbio deve ser sempre considerada para o planejamento orçamentário, uma vez que a oscilação cambial pode encarecer intensamente os preços de um produto em termos da moeda nacional (GITMAN, 2004). 123 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO BIBLIOGRAFIA COMENTADA Veja a seguir algumas indicações de obras que complementarão seu conhecimento sobre os assuntos abordados na disciplina. REGO, José Márcio; MARQUES, Rosa Maria. (Orgs.). economia brasileira. 6. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. Nesta obra, os autores fazem uma “viagem metodológica” pela história econômi- ca brasileira, apresentando os avanços, as resistências e os projetos implementados desde o período colonial para a exploração do espaço desta nação. Este livro é parti- cularmente importante para que você conheça melhor a respeito dos parâmetros econômicos da década de 1980 no Brasil, a chamada “década perdida”, marcada por retração da atividade econômica e por altos índices de inflação – para saber sobre o processo de alta de preços, recomenda-se especialmente o capítulo 13, denominado “Teoria da inflação inercial e políticas de estabilização”. CHIAVENATO, Idalberto. Gestão Financeira: uma abordagem introdutória. 3. ed. Barueri: Manole, 2014. Neste livro, o autor oferece uma visão ampla e abrangente a respeito dos temas que compõem a Gestão Financeira, fazendo uso de ferramentas analíticas que integram a Contabilidade, a Economia e a Administração de Empresas. Neste texto – no qual reco- menda-se a leitura do Capítulo 1, denominado “Gestão Financeira” – o autor procura apresentar conceitos principais relativos a esta área temática, tais como o conceito de Orçamento de Capital, e as estruturas que compõem um modelo de Gestão. São, ainda, apresentados alguns exercícios e questões para fixação do conteúdo. 124 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO CONCLUSÃO Esta unidade temática pode se encerrar com um questionamento: qual é a forma ideal de se avaliar a viabilidade relativa a um investimento, sobretudo em horizontes de médio e longo prazo? Na verdade, cada método apresentado neste texto possui vantagens e desvantagens inerentes, em função das características de cada mode- lo, por exemplo, o seu grau de simplicidade ou complexidade, e a viabilidade para a avaliação de pequenos projetos. Outros elementos, como o grau de inserção de empresa nos mercados internacionais (como compradora e/ou vendedora de produ- tos), bem como as condições da economia e do mercado na qual esta empresa está inserida, também são cruciais para determinar uma política de investimentos voltada para o crescimento da organização e a ampliação de suas margens de lucro. De todo modo, todos os modelos apresentados convergem para uma realidade: a ideia de que um movimento de fluxos de caixa deve ser previsível ao longo do tempo, a fim de possibilitar a determinação de prazos de maturação e rendimento decorren- tes de uma decisão de investir. Esta situação, no entanto, precisa ser cuidadosamente avaliada pelo gestor financeiro: as circunstâncias e processos na economia podem mudar drasticamente em pouquíssimo tempo, mediante a ocorrência de crises financeiras, quebra e falência de empresas, golpes de Estado, mudanças na expec- tativa de investidores e consumidores, entre outros inúmeros fatores. Naturalmente, as Ciências Econômicas e a Gestão Financeira não estão baseadas na adivinhação, ou na “tentativa e erro”. No entanto, há variáveis que não são integralmente controla- das pelas autoridades monetárias de um país ou pelo gestor de uma empresa; esta realidade deve estar sempre presente nas rotinas que determinam uma decisão de investimento no século XXI. 125 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: UNIDADE 5 > Identificarelementos relativos à gestão de capital próprio e capital de terceiros em uma empresa. > Interpretar os indicadores de alavancagem operacional e financeira. > Calcular o grau de endividamento de uma empresa de acordo com as suas demonstrações contábeis. > Avaliar o potencial de geração de resultados e lucros a partir da contratação de capitais externos ao ambiente da organização. 126 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 5 CUSTO DE CAPITAL: CONCEITOS E APLICAÇÕES Esta unidade apresentará e aprofundará alguns conceitos relacionados à operação de capitais de diferentes origens no ambiente externo de uma empresa, a saber, o capital obtido com fontes próprias (acionistas e/ou proprietários), bem como o capi- tal obtido junto a terceiros (bancos, instituições financeiras, pessoas físicas e outros agentes econômicos em geral). Essa operação de capitais pode viabilizar o cresci- mento da empresa, mediante a centralização de recursos para a realização de inves- timentos, para o financiamento do capital de giro, enfim, para a criação de políticas que tenham por objetivo maximizar os resultados da organização e gerar retornos para os seus acionistas. Com base nessas premissas, o gestor financeiro de uma empresa necessita avaliar, com prudência e precisão, se a possibilidade de operar capital de terceiros – ou seja, a possibilidade de endividar a empresa – não redundará em um comprometimento de suas atividades, gerando perdas, prejuízos e custos elevados na forma de juros e amortizações de empréstimos. A partir desse horizonte teórico e prático, você anali- sará e aplicará diferentes indicadores e processos, comuns à realidade das empresas brasileiras na medição de sua exposição ao risco e ao endividamento, tais como os indicadores de alavancagem operacional e financeira, os índices de retorno sobre patrimônio líquido e sobre o ativo, bem como os processos de gestão de operações passivas. INTRODUÇÃO Toda empresa, em um cenário concorrencial, deseja maximizar as suas atividades, gerando retornos e margens de lucro atrativas para os seus proprietários e/ou acio- nistas (caso operem com capital aberto). No entanto, para viabilizar essa situação, as empresas necessitam de recursos, em outras palavras, precisam de dinheiro. E todo dinheiro contratado, seja na forma de investimentos dos proprietários (capital próprio), seja através de créditos externos (capital de terceiros), embute um custo 127 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO para ser obtido. Os agentes credores desejam obter resultados, na forma de juros a receber; os proprietários e acionistas, por sua vez, querem que a empresa gere lucros para que o seu capital aplicado seja remunerado de forma eficiente. Dessa forma, o custo do dinheiro é uma variável-chave nos estudos de gestão finan- ceira. A partir desse conceito, é possível questionar: uma empresa deve procurar operar apenas com seus próprios capitais ou endividar-se pode ser atrativo, de algu- ma forma? Há algum valor exato, algum indicador, que permita avaliar se o uso de capitais de terceiros contribui efetivamente para a ampliação das margens de lucro? De que modo a exposição ao risco (na forma de prejuízos ou mesmo de quebra da empresa) pode viabilizar a geração de retornos extraordinários? Tais questões serão apresentadas e discutidas neste texto, gerando conhecimentos que você aplicará em sua vida profissional, ao recomendar e analisar, por exemplo, a viabilidade de deci- sões de investimento mediante empréstimos e financiamentos em uma organização empresarial. 5.1 ESTRUTURA E CUSTO DE CAPITAL Em linhas gerais, o capital contido em uma empresa corresponde a um conjunto de recursos, na forma de valores monetários, bens ou créditos, que está disponível ao uso da empresa em seu ambiente interno e tem o objetivo de viabilizar resultados econômicos a mesma, em horizontes de curto a longo prazos (HOJI, 2017). No entanto, quais são as partes desse capital que a empresa realmente tem condi- ções de operacionalizar para garantir a continuidade de suas operações? Na verda- de, embora o capital esteja contido no ativo da empresa, nem sempre esse capital é próprio, isto é, pertence integralmente aos seus proprietários e/ou acionistas – ou seja, pode haver presença de capital fornecido por terceiros, como bancos, instituições financeiras, sociedades de crédito, etc. 128 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO As cooperativas de crédito (surgidas no início do século XX) vêm ganhando expressão cada vez maior no cenário financeiro brasileiro. Essas instituições, a rigor, operam como bancos (coletando depósitos e realizando investimentos), no entanto mantêm políticas de distribuição de resultados para seus associados e oferecem condições mais favoráveis para a contratação de créditos. O capital próprio é lançado no balanço patrimonial da empresa como parte do patri- mônio líquido. Desse modo, denota a soma de recursos investidos pelos acionistas da organização, que são utilizados pela empresa por tempo indeterminado. O capital de terceiros, por sua vez, representa um endividamento, ou seja, a contrata- ção de capital externo mediante o pagamento de juros, o que eleva, naturalmente, o grau de exposição da empresa e o risco de haver dificuldades na sua operação coti- diana (ASSAF NETO; LIMA, 2014). FIGURA 24 - ESTRUTURA DE CAPITAL EM UMA EMPRESA PASSIVO CIRCULANTE PASSIVO NÃO-CIRCULANTE PATRIMÔNIO LÍQUIDO ATIVO Capital de Terceiros Capital próprio Capital de Curto prazo Capital permanente e de longo prazo Fonte: Adaptada de HOJI, 2017. A situação ideal é que a empresa mantenha uma estrutura de capital na qual os custos de contratação de créditos sejam mínimos, e o retorno dos acionistas, em decorrência da expansão das vendas, o maior possível. Ao longo desta unidade, você conhecerá alguns mecanismos que ajudam a viabilizar essa situação. 129 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 5.1.1 ESTRUTURA DE CAPITAL A estrutura de capital denota diretamente a composição do endividamento da empresa, ou seja, o comprometimento das suas operações – e das receitas geradas por elas – em relação ao capital de terceiros, que demanda pagamentos de juros e amortizações ao longo do tempo. Assim sendo, é possível compreender a estrutura de capital de uma empresa como a relação existente entre o capital de terceiros (que corresponde ao seu endividamento efetivo) e o seu capital próprio, expresso pelo patrimônio líquido (ASSAF NETO; LIMA, 2014): Estrutura de capital Capital de terceiros Capital próprio = Desse modo, um aumento da participação do capital de terceiros na estrutura de capital da empresa aumentará o seu risco financeiro direto. Considere que uma empresa, que possuía um patrimônio líquido de R$ 1 milhão em 2017, decide acrescentar o investimento de um sócio externo para financiar seu capital de giro em um montante igual a R$ 400.000,00. A estrutura de capital poderá ser medida da seguinte forma: Estrutura de capital Capital de terceiros Capital próprio = = 4000000 1000000 40= % Ou seja, a cada unidade de capital próprio (disponível no patrimônio líquido), essa empresa apresenta 0,40 unidade de capital de terceiros. 130 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Vale destacar que a empresa tem o direito de adotar o método que desejar para o financiamento de suas atividades, como contar com capital próprioou de terceiros. No entanto, essa decisão tem efeitos diretos sobre o futuro da empresa, como visto, na forma de um risco financeiro assumido. FIGURA 25 - EXPRESSÕES DO RISCO E RETORNO ASSOCIADOS AO CAPITAL DE TERCEIROS Uso de capital de terceiros: Aumento de capacidade de vendas Aumento da margem de lucro Retorno ampliado aos acionistas Uso de capital de terceiros: Maior exposição ao risco Perdas expressivas em cenários de crise Endividamento Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. Dentro das teorias contábeis sobre o capital e o endividamento, uma empresa pode se beneficiar da contratação do capital de terceiros, pois o seu custo de operacionali- zação é mais baixo, por duas razões (ASSAF NETO; LIMA, 2014): a. o risco de operação do credor é inferior ao do acionista, pois o credor recebe juros e garantias de pagamento; além disso, a disponibilidade de capital do credor, normalmente, é maior que a do acionista, de modo que a remuneração do credor pode ser menos expressiva; b. as despesas financeiras para pagamento de juros podem ser dedutíveis no imposto de renda, reduzindo os custos financeiros diretos. FIGURA 26 - FATORES MOTIVADORES À CONTRATAÇÃO DE CAPITAL DE TERCEIROS Menor risco do credor Despesas dedutíveis de IR Menor custo de operação Contratação de capital de terceiros Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. 131 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Essa afirmação sobre a vantagem da contratação de capital de terceiros pode ser verificada por meio do cálculo de um indicador, o Retorno sobre o Patrimônio Líqui- do (ROE – Return on Equity): ROE LL PL = Onde: LL = Lucro Líquido (Receitas – Custos – Despesas Operacionais – Imposto de Renda) PL = Patrimônio Líquido. Veja um exemplo para visualizar melhor a dinâmica proposta. Suponha que a empresa DXZ apresenta a seguinte estrutura patrimonial, que é 100% financiada por capital próprio: ATIVO (em R$) Circulante: 200.000 Permanente: 800.000 Total: 1.000.000 PASSIVO (em R$) Patrimônio líquido: 1.000.000 Total: 1.000.000 A Demonstração de Resultados do Exercício (DRE), para esse mesmo ano, e de acordo com uma alíquota de imposto de renda de 40%, é descrita da seguinte forma: 132 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO DRE (em R$) Receita de vendas: 400.000 (-) Custo dos produtos vendidos: (200.000) (=) Lucro bruto: 200.000 (-) Despesas operacionais: (60.000) (=) Lucro Antes de Juros e Imposto de Renda (LAJIR): 140.000 (-) Imposto de Renda (40%): (56.000) Lucro líquido: 84.000 O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) é calculado como se segue: ROE LL PL a a= = =84000 1000000 8 4, % . Caso a empresa tenha criado o seu ativo a partir de uma participação de capital de terceiros no montante de 40% – através de um empréstimo bancário com juros anuais de 10% – e a participação de capital próprio é igual a 60%, há uma modificação no passivo da empresa: PASSIVO (em R$) Financiamentos: 400.000 Patrimônio líquido: 600.000 Total: 1.000.000 No tocante ao Demonstrativo de Resultados do Exercício, tem-se: DRE (em R$) Receita de vendas: 400.000 (-) Custo dos produtos vendidos: (200.000) (=) Lucro bruto: 200.000 (-) Despesas operacionais: (60.000) (=) Lucro Antes de Juros e Imposto de Renda (LAJIR): 140.000 (-) Despesas financeiras: (40.000) (=) Lucro Antes do Imposto de Renda (LAIR): 100.000 (-) Imposto de Renda (40%): (40.000) Lucro líquido: 60.000 133 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Nessas circunstâncias, o indicador ROE é dado por: ROE LL PL a a= = =60000 600000 10 0, % . O exemplo permite avaliar que uma empresa pode, ao menos na teoria, obter ganho no seu ROE ao optar pela operação com o capital de terceiros; bastaria que ela fizesse uma “sintonia fina” (fine tuning) para obter eficiência nas suas práticas de endividamen- to e incorrer nos menores custos possíveis para o uso desse capital externo (HOJI, 2017). A expressão “sintonia fina” (fine tuning) era utilizada no século XX como o proces- so de ajuste de frequência para a captação de um sinal de rádio ou televisão; na administração, esse conceito exemplifica as tentativas minuciosas da empresa para atingir um nível ótimo em alguma variável – no caso, o endividamento externo. No entanto, a aplicação prática desse conceito não é tão simples. Como você pode- rá perceber, há diferentes variáveis que condicionam diretamente a capacidade de operacionalização de recursos da empresa e a sua exposição ao risco. A primeira dessas variáveis é o próprio custo de capital. 5.1.2 CUSTO DE CAPITAL O crescimento de uma empresa está ligado à sua política de investimentos, ou seja, às medidas de aplicação de capital a fim de viabilizar o aumento na capacidade de geração de receita (CAMARGOS, 2013). 134 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Quando se menciona a identidade existente entre investimento e aumento na produção, não necessariamente se quer dizer que a produção sempre aumenta- rá quando a empresa investe – essas condições somente são viáveis (embora não necessariamente totais) quando há apenas uma empresa produzindo (mono- pólio). O investimento, portanto, representa um aumento real na capacidade de produzir; as condições de venda vão depender de outros fatores e variáveis. A partir da definição da necessidade de investir, a empresa deve avaliar alguns indi- cadores, como o Valor Presente Líquido (VPL) gerado com as receitas potenciais, mediante uma Taxa Interna de Retorno (TIR). Além disso, a empresa precisa definir uma taxa de referência, ou seja, uma taxa mínima sobre o capital que for investi- do; essa taxa é denominada custo de capital, ou seja, é uma expectativa mínima de retorno exigida pelos financiadores do projeto (acionistas/capital próprio, ou credo- res/capital de terceiros). Recuperando a formulação do VPL, é preciso relembrar que a condição ideal é que o mesmo seja positivo, de modo que os retornos apurados sejam superiores ao custo de capital. Se o VPL é nulo, os retornos são iguais aos custos; e, se o indicador for menor que zero, o investimento não remunera os donos do capital aplicado, gerando uma “destruição” de parte (ou do total) dos valores investidos (ASSAF NETO; LIMA, 2014). A literatura administrativa demonstra que, quando há um VPL nulo, a decisão de investir é opcional, uma vez que os retornos serão iguais aos custos. Entre- tanto, há tantas variáveis econômicas envolvidas na rotina das empresas e da economia, que a postura mais sensata, em um contexto de incerteza, seria desa- conselhar o investimento. 135 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO O custo de capital é uma função direta do risco, ou seja, das possibilidades de realiza- ção do investimento na forma de receita: custo de capital = taxa livre de risco + Prêmio pelo risco Considerando que a taxa Selic, de 6,5% a.a., corresponde à taxa livre de risco no Brasil, a empresa BWO decidiu contratar um crédito em uma instituição bancá- ria, para melhorar as condições de seu capital de giro. A instituição bancária arbitrou um prêmio de risco igual a 15% a.a. Portanto, o custo de capital será dado por 6,5 + 15 = 21,5% a.a. Desse modo, a BWO deve considerar que os juros do empréstimo (o custo de capital) que o banco cobrará devem ser iguais à soma entre uma taxa de livre de risco (a taxa de remuneração dos títulos públi- cos, a taxa Selic) e o prêmio que o banco cobra ao assumir o risco de ceder seu capital na forma de um empréstimo.Caso o investimento seja muito arriscado, o custo de capital aumentará; perceba, portanto, que é o risco que determina esse custo, e não a forma pela qual o investi- mento é financiado (ANTONIK, 2012). Normalmente, as instituições financeiras procuram cercar-se de garantias para viabilizar um crédito, na forma de alienação de bens e/ou investimentos, parcelas descontadas em folha de pagamento (para empréstimos consignados), consul- tas em órgãos de crédito e realização de contratos. No entanto, o risco de inadim- plência permanece: mais de 62 milhões de brasileiros permanecem “negativa- dos”, ou seja, apresentam contas em atraso com prazo superior a três meses. 136 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Para financiar seus investimentos, as empresas normalmente optam por um mix entre o uso de capital próprio e o capital de terceiros, para definir o menor custo de capital possível para essas operações, ou seja, a menor remuneração possível que será exigida pelos acionistas e/ou pelos credores externos a partir da decisão de investi- mento (HOJI, 2017). Nas próximas subseções, você operacionalizará indicadores relativos a essas opções. 5.1.2.1 CUSTO DE CAPITAL DE TERCEIROS O custo de capital de terceiros (ou seja, pelos credores externos à organização) corres- ponde a uma remuneração exigida por esses agentes, a fim de obter financiamentos no mercado; esse custo é, normalmente, dedutível de Imposto de Renda (IR). Esse custo, denominado por Ki, é expresso pela seguinte equação: Ki (após IR) = Ki (antes IR) * (1 - IR) Considere que uma empresa contratou um crédito equivalente a R$ 250.000, a uma taxa igual a 15% ao ano; a alíquota de Imposto de Renda equivale a 22,5%. Desse modo, tem-se os seguintes resultados iniciais: Ki (após IR) = Ki (antes IR) * (1 - IR) = 15% * (77,5%) = 11,62% a.a. Ou seja, o custo de capital de terceiros é igual a 11,62% ao ano. Essa taxa pode ser conferida do seguinte modo: Despesas financeiras brutas: 250.000 * 15% = R$ 37.500,00. Economia de Imposto de Renda (parcela a deduzir) = 37.500 * 22,5% = R$ 8.437,50. 137 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Despesas financeiras líquidas = 37.500 – 8.437,50 = R$ 29.062,50. Fazendo a relação entre essas despesas e o crédito contratado, obtém-se o custo líquido de captação do crédito: Ki = = 29062 50 250000 11 62, , % Um fator crucial para o estabelecimento do custo de capital de terceiros reside na taxa de juros, ou seja, no prêmio obtido pelo investimento em ativos financeiros. Trata- -se, efetivamente, do custo do dinheiro, pois define a diferença entre a realização de um investimento produtivo e a aplicação em outras áreas, como títulos do Tesouro, por exemplo (ASSAF NETO; LIMA, 2014). Os títulos da dívida pública (como as Letras do Tesouro Nacional, por exem- plo) são ativos com rentabilidade definida (pré-fixados), fornecidos pelo governo para financiar as suas operações. Ou seja, o governo brasileiro toma emprestado os recursos dos agentes econômicos, emitindo esses títulos a serem amortiza- dos em diferentes prazos de pagamento. Uma vez que, historicamente, as taxas de juros no Brasil mostraram-se elevadas, de modo a conter os efeitos de crises financeiras e fugas de capital, essas taxas geravam retornos superiores ao que se obtinha em investimentos produtivos. Essa situação gera dois efeitos diretos: o primeiro é reduzir a disponibilidade de capital para investi- mentos, contribuindo para uma progressiva desindustrialização da economia (REGO; MARQUES, 2018). 138 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO A partir do momento em que investimentos financeiros tornam-se mais atra- tivos que investimentos produtivos, a participação da indústria na geração de produto na economia passa a se reduzir; esse fenômeno é conhecido como “desindustrialização” e pode ser evidenciado em perspectivas de longo prazo, ao longo de anos ou décadas. Há um debate importante no Brasil a respeito da existência (ou não) de desin- dustrialização. Nesse sentido, o artigo de Wallace Pereira e Silvio Cario, denomi- nado “Indústria, desenvolvimento econômico e desindustrialização: sistemati- zando o debate no Brasil”, que você pode identificar na Internet, sintetiza, por meio de uma revisão bibliográfica, essas reflexões. O segundo efeito é a redução na propensão à busca por capital de terceiros a juros elevados, reduzindo a disponibilidade de recursos nas empresas e, por consequência, afetando sua capacidade de investir e manter as suas condições de competitividade. FIGURA 27 - EFEITOS DIRETOS DE TAXAS DE JUROS ELEVADAS SOBRE O INVESTIMENTO Taxas de juros elevadas Redução de capital de terceiros Cai disp. Capital p/ Invest. Prod. Capacidade de investimento reduzida Queda de competitividade Desindustrialização Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. Quando tomados em conjunto, esses efeitos geram impactos não somente no 139 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO ambiente empresarial, mas na economia e, por consequência, em toda a socieda- de: taxas de juros elevadas contribuem para posturas conservadoras das empresas em relação à contratação de capital externo, bem como a uma tendência maior por investimentos financeiros, reduzindo investimentos produtivos e gerando perda de capacidade de competição e concorrência, especialmente no comércio exterior (ASSAF NETO; LIMA, 2014). 5.1.2.2 CUSTO DE CAPITAL PRÓPRIO O custo do capital próprio Ke corresponde ao menor retorno possível que os acionis- tas da empresa exigem em relação ao capital aplicado na organização (ASSAF NETO; LIMA, 2014). Caso a empresa seja de capital fechado, o custo de capital diz respeito apenas ao capital investido por seus proprietários; se a empresa é de capital aberto, com ações negociadas em Bolsa de Valores, o retorno mínimo, em termos de custo de capital, deve remunerar os acionistas e manter o preço de mercado de suas ações. Para se obter o custo do capital próprio, é possível recorrer a um modelo de precifica- ção de ativos, que avalia o risco da empresa ao realizar um investimento, e os retornos esperados, de modo que o retorno exigido pelos acionistas é maior à medida que se eleva o risco de investimento, de acordo com a seguinte fórmula: Ke = RF + β(RM - RF) Onde: Ke = custo de capital próprio (taxa mínima exigida pelos proprietários/acionistas); RF = taxa de retorno de ativos livres de risco; β = coeficiente beta, relativo ao risco (inclinação da reta de regressão) RM = rentabilidade da carteira de mercado (índice do mercado de ações). 140 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Os índices RF , beta e RM são índices de referência, que enfatizam a realidade do mercado. Em primeiro lugar, o índice RF apresenta a rentabilidade de um ativo isento de risco (como a poupança ou os títulos da dívida pública, no caso brasileiro). O coeficiente beta, por sua vez, denota o grau de risco associado ao mercado em que a firma está operando (quanto maior que um for β , maior o risco do mercado). Por fim, o índice RM pode ser tomado, por exemplo, a partir da variação do índice Bovespa, que denota as variações ocorridas em todas as ações transacionadas ao longo de um certo período. Cabe destacar que a diferença entre os indicadores RM e RF , ou seja, entre o retorno da carteira de mercado e o retorno de ativos livres de risco, corresponde ao prêmio de risco de mercado, pois essa diferença apresenta o valor que o mercadoestá pagan- do como valor extra, em relação a ativos que um agente pode investir sem risco de incorrer em perdas: Custo de cap.próp. = Ret.de ativos s/ risco + β(Prêmio de risco de mercado) A partir do momento em que esse prêmio é ajustado pelo indicador beta, é possível avaliar o risco de mercado relacionado diretamente à decisão de investimento da empresa (ASSAF NETO; LIMA, 2014). 141 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Considere que uma empresa deseja obter o custo de capital próprio inerente a uma decisão de investir. Sabe-se, nesse sentido, que o coeficiente beta relativo ao seu mercado é igual a 1,3, e a estrutura de capital da empresa é formada por uma participação de 35% de recursos de terceiros em relação ao total. Sabe-se ainda que a taxa livre de risco é igual a 6,5% a.a. e que o prêmio de risco é igual a 12%. Assim, o custo de capital próprio Ke é dado por: Ke = RF + β(RM - RF ) = 0,065 + 1,3(0,12-0,065) = 0,065 + 0,0715 = 0,1365 = 13,65% a.a. A partir desse valor, os gestores da empresa devem avaliar se o investimento é viável: para isso, é preciso observar que, se eles aplicarem o capital da empresa em ativos sem risco de perda, o retorno será igual a 6,5%; se decidirem ir em frente com o investimento, o custo de capital vai embutir o risco, logo os juros serão maiores, de 13,65% a.a. Se as receitas geradas com o investimento forem maiores que os juros, a empresa deve investir; se inexiste a certeza, é convenien- te que a empresa aplique o capital em outras opções com risco menor. Se a empresa verifica taxas de retorno superiores ao custo de capital próprio, há uma janela de valorização de seus negócios, que permite que os acionistas agreguem capital. Por outro lado, se esse retorno for inferior ao custo de oportunidade – ou seja, ao custo de aplicação em operações alternativas com remuneração garantida –, a empresa está perdendo valor e o investimento se prova inviável (CHIAVENATO, 2014). 5.2 ALAVANCAGEM OPERACIONAL E FINANCEIRA A exposição ao risco, relativa à decisão de investir e utilizar capital (próprio e/ou de terceiros), determina as condições de operação da empresa mediante um certo grau de endividamento. Dessa forma, pode-se deduzir que toda prática de uso de recur- sos para viabilizar o aumento das receitas implica em alguma forma de custo, como pagamento de juros, amortizações e/ou imobilização de capital. 142 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Assim sendo, é possível estabelecer uma ligação entre o custo de capital e a geração de resultados: se uma empresa investe usando capitais próprios ou de terceiros, ela deve ter ciência que está abrindo mão de investimentos alternativos (e livres de risco) e arcando com custos de oportunidade. Essa postura de ação pode fazer com que a empresa fique muito exposta a oscilações negativas e aumento de juros, ao usar recursos de terceiros que precisam ser adequa- damente remunerados. Uma vez que esses recursos aplicados têm o objetivo de impulsionar a atividade da empresa e a geração de receitas, eles funcionam como alavancas, ou seja, são fatores que multiplicam forças para a geração de resultados (HOJI, 2017). Uma alavanca é um instrumento que potencializa, a partir de um ponto fixo, a força mecânica a ser aplicada sobre um objeto. Assim, pode-se definir a alavancagem como uma função direta do uso de recursos operacionais e financeiros, a um certo custo fixo, que tem o objetivo de maximizar a geração de resultados (receitas/lucros) para a organização empresarial (ASSAF NETO; LIMA, 2014). 5.2.1 ALAVANCAGEM OPERACIONAL A alavancagem operacional demonstra a proporção na qual uma alteração no volu- me de atividades (vendas) interfere no resultado operacional da empresa, na forma de variações efetivas sobre o lucro (HOJI, 2017). Desse modo, o indicador Grau de Alavancagem Operacional (GAO) é expresso de acordo com a seguinte equação: 143 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO GAO Lucro Atividades Variação do Lucro Variação de a = = ∆ ∆ % % (%) ttividades (%) É importante mencionar que, sabendo-se que o indicador GAO depende da variação no lucro, esse indicador é sensível à estrutura de custos da organização. Dessa forma, pode-se deduzir que a empresa que apresentar maiores custos fixos em relação aos custos totais tem mais condição de alavancar seus lucros, uma vez que o aumento no volume de vendas acaba por diluir esses custos fixos em relação à produção total. No entanto, uma vez que o grau de alavancagem também determina o grau de expo- sição a riscos, é necessário ter em conta que as empresas que têm uma estrutura elevada de custos fixos acabam por apresentar maior risco de investimento, de acor- do com a variação dos seus resultados operacionais (ASSAF NETO; LIMA, 2014). Suponha que as empresas X e Y possuem igualdade em todas as suas opera- ções, exceto na sua estrutura de custos e despesas. A empresa Y apresenta uma relação de custos fixos/custos totais menor, por ser menos automatizada. Na tabela seguinte, são apresentados os resultados relativos ao ano de 2017: TABELA 10 - DADOS DE OPERAÇÃO DE DUAS EMPRESAS SELECIONADAS (EM R$ MIL) EMPRESA X EMPRESA Y Receitas de vendas (A) 800 100% 800 100% Custos variáveis (B) -240 30% -560 30% Margem de contribuição (A - B) 560 70% 240 70% Custos Fixos (CF) -480 60% -160 60% Resultado operacional (A - B - CF) 80 10% 80 10% Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. 144 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Admita que, em 2018, ocorreu um aumento de vendas na ordem de 20% para ambas as empresas. Desse modo, a atualização de valores gera a tabela a seguir: TABELA 11 - ATUALIZAÇÃO DE VALORES MEDIANTE AUMENTO EM VENDAS (EM R$ MIL) EMPRESA X EMPRESA Y Receitas de vendas (A) 960 100% 960 100% Custos variáveis (B) -312 30% -672 30% Margem de contribuição (A - B) 648 70% 288 70% Custos Fixos (CF) -480 60% -160 60% Resultado operacional (A - B - CF) 168 10% 128 10% Variação do lucro operacional (168/80)-1 110% (128/80)-1 60% Variação sobre vendas 20% 20% Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. O Grau de Alavancagem Operacional dessas duas empresas, desse modo, é expresso por: GAO X GAO Y ( ) % % , ( ) % % = = = = 110 20 5 5 60 20 3 Por meio dos dados apresentados, percebe-se que, de acordo com um aumen- to de 20% no volume de vendas, ou lucro operacional de X, se elevou 5,5 vezes mais (ou seja, 110% em relação ao momento anterior). A cada 1% de aumento nas vendas, a empresa X capitaliza 5,5% de aumen- to em seus resultados operacionais. Essa variação, para a empresa Y, é menor: apenas 3% de aumento dos resultados em relação a cada aumento de 1% nas suas atividades. Essa situação ocorre em função da diluição dos custos fixos em relação ao total da produção. Pela alavancagem operacional, portanto, é possível perceber o grau de “sensibilidade” da empresa à geração de lucros mediante alterações no volume de produção. Porém, essa mesma “sensibilidade” aplica-se também ao potencial de geração de prejuízos e perdas à organização (ASSAF NETO; LIMA, 2014). 145 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Resgatando os dados da tabela de dados de operação de duas empresas sele- cionadas (em R$ mil), relativos às empresas X e Y, incluindo porém um aumento de 20% sobre os custos fixos, tem-se a tabela a seguir, na qual os custos fixos de X passam de R$ 480 para R$ 576, e os custos fixos de Y, de R$ 160 paraR$ 192: TABELA 12 - EFEITOS DA ALTERAÇÃO DE CUSTOS FIXOS SOBRE OS RESULTADOS GERAIS EMPRESA X EMPRESA Y Receitas de vendas (A) 800 100% 800 100% Custos variáveis (B) -240 30% -560 30% Margem de contribuição (A - B) 560 70% 240 70% Custos Fixos (CF) -576 72% -192 24% Resultado operacional (A - B - CF) -16 -2% 48 6% Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. Você pode observar que, em relação aos resultados da primeira tabela, o aumen- to de custos redundou em um prejuízo mais significativo para a empresa X, de acordo com a sua estrutura de custos fixos. Assim, a empresa X está mais propensa a incorrer em perdas em função de alterações positivas nesses custos. Perceba, portanto, que o conceito de alavancagem operacional é uma “via de mão dupla”: quando o indicador GAO é alto (acima de 1,0), a empresa começa a aumentar seus resultados de vendas, surgindo lucros mais que proporcionais à medida que o montante de vendas se eleva. Por outro lado, se as vendas diminuírem, os resultados da empresa também cairão de modo acentuado, podendo inclusive inviabilizar as suas operações (HOJI, 2017). 146 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 5.2.2 ALAVANCAGEM FINANCEIRA O conceito de alavancagem financeira diz respeito aos processos de contratação de créditos exteriores à organização e o consequente pagamento de juros e despesas de capital: trata-se, portanto, do efeito de obter capital de terceiros a uma certa taxa de juros, aplicando-os na produção (como ativos), gerando uma segunda taxa de retor- no. Essa diferença é absorvida pela empresa, alterando seu retorno sobre o patrimô- nio líquido, de modo mais ou menos proporcional a uma decisão de investimento realizada com capitais 100% próprios (ASSAF NETO; LIMA, 2014). O Grau de Alavancagem Financeira (GAF), portanto, é descrito pela relação entre os indicadores Retorno sobre Patrimônio Líquido (ROE) e Retorno sobre o Ativo (ROA), como se segue: GAF ROE ROA Lucro Operacional Patrimônio Líquido Lucro Líquido= AAtivo Total O lucro operacional é formado pelas seguintes deduções da receita bruta: Receita bruta - Impostos sobre vendas = Receita líquida - Custos dos produtos e serviços = Lucro bruto - Despesas administrativas, comerciais e operacionais (comissões sobre vendas, encargos, etc.) = Lucro operacional 147 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO O lucro líquido é formado após os seguintes lançamentos: Lucro operacional - Despesas financeiras (seguros, IOF, CPMF, ...) + Receitas financeiras (aluguéis, rendas bancárias, contas remuneradas...) = Lucro Antes de Imposto de Renda (LAIR) - Imposto de Renda = Lucro líquido Veja um exemplo para melhor compreensão do conceito. Suponha que a empresa CQI foi criada com um investimento de R$ 100 milhões, dos quais somente 50%, ou seja, R$ 50 milhões, correspondem ao capital dos acionistas; a segunda metade dos ativos foi obtido através de uma operação de financiamento, contratado a uma taxa anual equivalente a 12% a.a. O capital próprio foi direcionado para o ativo imobilizado, e o capital financiado, para o ativo circulante (capital de giro). Assim sendo, a estrutura patrimonial da empresa CQI pode ser descrita da seguinte forma: TABELA 13 - DEMONSTRATIVO DE RESULTADOS ATIVO (R$ MIL) PASSIVO (R$ MIL) Ativo circulante 50.000 Financiamento 50.000 Ativo permanente 50.000 Patrimônio líquido 50.000 totaL 100.000 100.000 Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. 148 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Considere que essa empresa tem um lucro operacional igual a R$ 16 milhões. As despesas financeiras são equivalentes a 10% do lucro operacional, e o impos- to de renda é de 20%. Assim, o lucro líquido é dado por: Lucro operacional = R$ 16 milhões. - Despesas financeiras = 10% * R$ 16 milhões = R$ 1,6 milhão. = Lucro Antes de Imposto de Renda (LAIR) = 16 milhões – 1,6 milhão = R$ 14,4 milhões. - Imposto de Renda = 20% * 14,4 milhões = R$ 2,88 milhões. = Lucro líquido = 14,40 milhões – 2,88 milhões = R$ 11,52 milhões. A partir desses indicadores de lucro, os indicadores de retorno ROA e ROE são descritos da seguinte forma: ROE Lucro Operacional Patrimônio Líquido = = = 16000000 50000000 0,, % .32 32 11520000 100000000 = = = = a a ROA Lucro Líquido Ativo Total 00 1152 11 52, , % .= a a O Grau de Alavancagem Financeira, portanto, é expresso por: GAF ROE ROA = = = 0 32 0 1152 2 77, , , Pelo indicador GAF, você pode perceber que no momento em que os acionistas passam a ganhar (ROE) proporcionalmente mais do que os ativos estão gerando retorno (ROA), há um grau elevado de alavancagem financeira, uma vez que a eleva- ção do endividamento redundou em aumento do retorno gerado aos acionistas. Vale dizer, se GAF é maior que 1,0, o capital dos acionistas está sendo melhor remu- nerado que o capital de terceiros que esteja aplicado na organização naquele mesmo momento (HOJI, 2017). 149 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO O resultado do exemplo anterior, onde GAF = 2,77, indica que os ativos da empre- sa estão produzindo retorno de 11,52% ao ano. No entanto, os acionistas estão recolhendo resultados iguais a 32% ao ano. Portanto, se GAF é igual a 2,77, a empresa tem um alto grau de alavancagem financeira, operando com recursos de terceiros. Esse resultado indica, ainda, que o retorno dos acionistas aumentou (alavancou- -se) em 177% a partir do momento em que ela acumulou capital de terceiros: a cada R$ 1,00 de créditos tomados no ambiente externo, os acionistas recebe- ram R$ 2,77 como resultados. À primeira vista, e diante das referências apresentadas, poderia parecer justo que uma empresa optasse sempre pelo endividamento, uma vez que o capital de tercei- ros pode ser menos remunerado que o capital dos acionistas, por exemplo (conforme o indicador GAF). Em última análise, o endividamento seria razoável, pois os agentes externos estariam sempre ganhando menos ou perdendo e os acionistas ganhando mais, uma vez que uma alavancagem baixa gera riscos de perda para ambos os lados (GITMAN, 2004). No entanto, a realidade mostra a diferença entre teoria e prática: em primeiro lugar, as operações de crédito envolvem não apenas o pagamento de juros, mas também uma amortização progressiva, que representa um custo adicional a ser incorporado nos indicadores de alavancagem. O segundo fator é a incerteza, que faz com que os resultados de vendas esperados após um investimento possa não se materializar, o que leva a empresa a renegociar prazos e juros (normalmente maiores do que os anteriores). O gestor financeiro deve, portanto, estar atento a estas e outras dinâmicas para avaliar se a decisão de contratar créditos externos é, ou não, viável (ASSAF NETO; LIMA, 2014). 150 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 5.3 GERÊNCIA DE OPERAÇÕES PASSIVAS Toda operação em uma empresa envolve recursos, que são consumidos para garantir o seu funcionamento, na geração de produtos e bens a serem disponibilizados para venda; se a empresa não dispõe de recursos produtivos próprios para “bancar” o seu ciclo de produção, deverá buscar o capital de terceiros, aumentando, portanto, a sua alavancagem financeira. Vale destacar que, entre esses recursos produtivos, o capital (dinheiro e recursos em espécie) é o mais utilizado, pois o mesmo é repassado a fornecedores e credores na forma de pagamentos e recebido na forma de despesas de venda. Assim, as opera- çõesem uma empresa são, em síntese, operações financeiras (PADOVEZE, 2016). As operações entre agentes que não envolvem o uso de recursos financeiros são evidenciadas apenas quando há escambo, ou seja, a troca direta de produtos ou serviços sem a presença de dinheiro. Essas operações costumam ocorrer em duas situações: quando a estrutura econômica, ou das operações, é bastante simplificada (em regiões rurais, florestas, etc.); ou quando há um contexto de hiperinflação e o dinheiro deixa de representar um equivalente de valor – como no caso recente da Venezuela. Há dois tipos de operações financeiras, quais sejam, as operações ativas e as opera- ções passivas. As operações financeiras ativas são aplicadas quando uma empresa apresenta excesso de disponibilidade de capitais, frente às suas necessidades de desembolsos imedia- tos (pagamentos de fornecedores, salários, encargos, etc.). Esses recursos, disponíveis no caixa, podem ser redirecionados ao mercado financeiro, de modo a viabilizar o pagamento de juros mediante um determinado prazo de liquidação (GITMAN, 2004). 151 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO FIGURA 28 - PERFIL DAS OPERAÇÕES ATIVAS • Diferentes prazos de aplicação • Diferentes perfis de remuneração • Pagamentos a dadas taxas de juros • Operações de resgate delimitado no tempo • Certificados de Depósito Bancário (CDBs) • Fundos de Renda Fixa • Fundos de Depósito Interbancário (DI) • Fundos de Ações • Poupança, etc. Características Exemplos Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. No entanto, de acordo com a proposta desta unidade, são as operações financei- ras passivas que demandam maior foco e interesse. Tais operações ocorrem a partir do momento que a empresa precisa obter recursos para financiar os seus projetos e operações, sejam eles de curto prazo (capital de giro) ou de médio a longo prazo (investimentos). Esses recursos, conforme você poderá analisar nas próximas subseções, podem ser gerados a partir de fontes internas (disponibilidades próprias) ou mediante o uso do capital de terceiros, de acordo com o pagamento de uma taxa de desconto frente a um determinado prazo de amortização. 5.3.1 OPERAÇÕES COM RECURSOS PRÓPRIOS Como uma empresa pode obter “recursos internos” para se financiar? Uma resposta possível seria “vender equipamentos próprios”. De fato, a liquidação de equipamentos e bens de capital poderia ser uma opção; no entanto, não é ideal, pois redunda em perda de produtividade e redução na capacidade de geração de receita. Outra opção seria “maior aplicação de recursos dos acionistas”; no entanto, estes também podem estar com margens comprometidas e dificuldade de inserir mais capital para financiar o funcionamento da empresa (como você viu anteriormente, o custo de capital dos acionistas é maior do que o custo de capital de terceiros). 152 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Uma terceira opção envolve, ainda, a emissão de ações e/ou títulos de dívida (debên- tures). Esse recurso é bastante utilizado por grandes empresas para obter capitaliza- ção, no entanto, pelas dificuldades burocráticas e pelo porte de mercado, tal recurso é praticamente inviável para empresas de menores dimensões. FIGURA 29 - ESTRATÉGIAS DE OBTENÇÃO DE CAPITAL A CURTO PRAZO Capital a curto prazo Desconto de duplicatas Aporte de $ de proprietários / acionistas Venda de ativos (máquinas, equipamentos) Emissão de ações / debêntures Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. Há, no entanto, uma opção com maior grau de viabilidade: a realização de operações de desconto antecipado de faturas e duplicatas emitidas a prazo definido. Nesse caso, a empresa negocia, com uma empresa de factoring (uma financeira que adquire direitos de crédito, como duplicatas, de terceiros) ou um banco, o direito de receber, imediata- mente, o capital a ser assimilado em momentos posteriores (ANTONIK, 2012). Quando a empesa efetua o desconto de duplicatas com instituições financei- ras, ela assume a responsabilidade pela liquidação dessas duplicatas no prazo inicialmente concordado, de modo que uma duplicata cujo pagamento não foi efetuado será cobrada em relação à empresa que efetuou o seu desconto – a empresa é responsável pela inadimplência de seus clientes. 153 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Através de uma operação de desconto, portanto, a empresa pode obter liquidez imediata pela antecipação de seus recebimentos. Considere que a empresa TQW realizou, em 01 de janeiro, um desconto de duplicata em uma empresa de factoring, mediante as seguintes condições: • Valor do título: R$ 25.000. • Juros contratados: 6,5% a.m, simples. • Prazo de vencimento: 90 dias (30/março). • Despesas iniciais (abertura de crédito, etc.) = 0,4% do valor do título. Assim sendo, a contratação dessa operação passiva pode ser descrita da seguin- te forma: TABELA 14 - OPERAÇÃO DE REDESCONTO DE DUPLICATA Valor inicial R$ 25.000 Desconto (6,5% * 3 * 25000) -R$ 4.875 Despesas iniciais -R$ 100 Valor Líquido Recebido R$ 20.025 Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. A empresa TQW recebe R$ 20.025; no entanto, essa operação embute juros para a empresa de factoring e para a TQW; nesse caso, usa-se a fórmula do juro composto para descobrir qual a taxa embutida nessa operação: M = C * (1 + i)t Onde M = Montante = R$ 25.000 C = Capital = R$ 20.025 i = taxa de juros da operação (mensal) t = período de tempo = 3 154 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Logo, 25000 = 20025 * (1 + i)3 → (1+i)3 = 25000/20025 → (1 + i)3 = 1,248 → 1 + i = 1,07677 → i = 0,07677 = 7,677% a.m Por exemplo, os juros no primeiro mês serão iguais a 7,677% * 20.025 = R$ 1.537,30: esse valor corresponde ao montante de juros que a empresa efetiva- mente vai pagar na primeira parcela. Portanto, os valores dos juros a pagar em cada mês e os correspondentes saldos da dívida são descritos na tabela a seguir: TABELA 15 - JUROS E SALDOS DEVEDORES EM RECEBIMENTO DE DUPLICATA DATA JUROS SALDO DEVEDOR 01/jan. 0 R$ 20.025,00 01/fev. R$ 1.537,30 R$ 21.562,30 01/mar. R$ 1.655,31 R$ 23.217,61 30/mar. R$ 1.782,39 R$ 25.000,00 Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. Em 30 de março, a duplicata será descontada pela empresa de factoring. No entanto, dentro dos demonstrativos contábeis, essa operação, como um todo, ficará descrita como se segue: FIGURA 30 - DESCONTO DE DUPLICATA E OPERAÇÕES ESCALONADAS Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. 155 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Assim, o valor “cheio” da duplicata descontada foi também inserido na conta de passivo, pois, até a sua liquidação, representam uma dívida que a empresa TQW terá de pagar em caso de inadimplência. É preciso observar, portanto, que os recursos gerados com o resgate antecipado são inseridos na conta de ativo, e o valor dos juros apropriados e duplicatas descontadas, na conta de passivo (ASSAF NETO; LIMA, 2014). 5.3.2 OPERAÇÕES COM RECURSOS DE TERCEIROS As operações passivas com o uso de capital de terceiros podem ser realizadas por meio de empréstimos e financiamentos. Normalmente, os empréstimos são contra- tados sem que uma destinação específica seja necessária, e sim, para finalidades mais genéricas (financiar capital de giro, fluxos de pagamento ou adquirir matéria-prima, por exemplo). Os empréstimos, em especial, podem ser remunerados de acordo com juros pré-fixados ou ainda corrigidos monetariamente de acordo com taxas de juros compostos (ANTONIK,2012). Os financiamentos, por sua vez, são direcionados a produtos específicos (tais como imóveis, máquinas e equipamentos, etc.). Ambos os movimentos de capital, por fim, podem ser processados através de moeda nacional ou estrangeira; nesta unidade, serão enfocadas as operações realizadas com moeda nacional. 5.3.2.1 EMPRÉSTIMOS PRÉ-FIXADOS COM PAGAMENTO FINAL Um empréstimo contratado a juros pré-fixados pode ser obtido em instituições finan- ceiras, bancos e órgãos do governo (na forma de bancos estatais de fomento, como o BNDES), para viabilizar alguma operação relativa ao funcionamento da empresa ou 156 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO mesmo para liquidar dívidas antigas com prazos de pagamento e/ou taxas de juros maiores (CAMARGOS, 2012). Na história econômica brasileira, o processo de refinanciamento de dívidas vem ocorrendo desde a emancipação política. Com efeito, em 1825, o Brasil contra- tou um empréstimo da Inglaterra para pagar as indenizações da independên- cia para Portugal. Em 1914, um refinanciamento de outros empréstimos gerou um empréstimo de amortização conhecido como funding loan, a ser pago em um prazo de 63 anos a partir de 1927, ou seja, o crédito assumido em 1914 somente terminaria de ser pago, conforme as condições do contrato, em...1990 (REGO; MARQUES, 2018). Essas operações de empréstimo devem, ainda, ser lançadas nas contas de ativo e passivo, bem como no Demonstrativo de Resultados. Considere que a empresa GHJ contratou um empréstimo em 01/06/2017, com as seguintes características: Valor: R$ 20.000,00. Prazo de liquidação: 60 dias (vencimento em 31/07/2017). Taxa de juros: 8% a.m., a juros simples. Pagamento: uma única parcela ao final do prazo. Portanto, de acordo com os valores de juros a pagar (8% * 20.000 = R$ 1.600 mensais), o saldo da dívida em cada mês é dado pela tabela que segue: TABELA 16 - FLUXOS DE CAPITAL DE UM EMPRÉSTIMO DE PAGAMENTO FINAL DATA JUROS SALDO DEVEDOR 01/jun. 0 R$ 20.000,00 01/jul. R$ 1.600,00 R$ 21.600,00 31/jul. R$ 1.600,00 R$ 23.200,00 Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. Nos demonstrativos contábeis, essa operação deve ser descrita de acordo com os dados da figura a seguir: FIGURA 31 - OPERAÇÃO DE EMPRÉSTIMO EM DEMONSTRATIVOS CONTÁBEIS Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. Assim, o empréstimo de R$ 20.000 gerou despesas de juros iguais a R$ 3.200,00. A amortização desses empréstimos, portanto, não ocorre de forma progressiva, e sim mediante a liquidação final do crédito contraído, acrescido de uma taxa de juros predeterminada. 157 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 5.3.2.2 EMPRÉSTIMOS PRÉ-FIXADOS COM PAGAMENTO PARCELADO As operações de empréstimo a pagamento parcelado envolvem, como regra geral, o uso de taxas de juros compostas, que remuneram o capital cedido pelos agentes externos (MAYO, 2009). Para obter o custo do capital (C), nessas circunstâncias, é preciso lançar mão de uma fórmula de cálculo, como se segue: C P i i i P i i i n n n n= + − + = − + + + * ( ) *( ) * ( ) *( ) 1 1 1 1 1 1 Onde: C = Valor do empréstimo N = Prazo do empréstimo P = Parcela a pagar I = taxa de juros do empréstimo Caso haja alguma despesa embutida na operação de tomada de crédito (como taxas de abertura de conta, despesas de arbitragem, consultas a órgãos de crédito, etc.), essa despesa deverá ser debitada do custo final do empréstimo: C Desp P i i i n n− = + − + . * ( ) *( ) 1 1 1 Onde “Desp.” corresponde ao valor das despesas administrativas a serem deduzidas. Observe como se processa esse cálculo através do exemplo que se segue: 158 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Suponha que a empresa MNB contratou um empréstimo em 01 de setembro de 2016, com as seguintes especificações: Valor: R$ 60.000,00. Prazo de pagamento: 3 meses. Taxa de juros: 4% ao mês, compostos. Forma de pagamento: 3 parcelas iguais. Despesas administrativas: 1% do valor do empréstimo. De acordo com as especificações, a parcela a ser paga pode ser obtida por meio da fórmula do custo de capital: C Desp P i i i P n n− = + − + → = + + . * ( ) *( ) * ( , ) , *( , ) 1 1 1 60000 1 0 04 0 04 1 0 04 3 3 →→ = → =60000 2 775 21 620 91P P* , $ . ,R É preciso, no entanto, obter o custo efetivo da operação (na forma de uma taxa de juros i): C Desp P i i i P n n− = + − + → = + + . * ( ) *( ) * ( , ) , *( , ) 1 1 1 60000 1 0 04 0 04 1 0 04 3 3 →→ = → = + − + →60000 2 775 21 620 91 1 1 1 2 7473 3 3P P i i i * , . , * ( ) *( ) , Pela fórmula do cubo da soma de dois termos, é possível encontrar a respos- ta. No entanto, será oferecida pronta: o custo efetivo é igual a 4,5313% a.m., compostos. FIGURA 32 - AMORTIZAÇÃO DE EMPRÉSTIMO A JUROS COMPOSTOS Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. 159 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Amortizando, a cada parcela, o valor dos encargos financeiros, é possível compor o saldo devedor em cada parcela, até que a dívida seja zerada, e o empréstimo, quitado, de acordo com a fórmula: Saldo devedor = Saldo anterior – Valor da parcela + Encargos Para a composição do saldo devedor relativo ao empréstimo estudado nesse exemplo, após sucessivas rodadas de pagamento, pode-se examinar a tabela a seguir: TABELA 17 - FLUXOS DE PAGAMENTO DE EMPRÉSTIMO PRÉ-FIXADO DATA ENCARGOS (4,531% A.M) PARCELA SALDO DEVEDOR 01/set. R$ 59.400,00 01/out. 2691,41 21620,91 R$ 40.470,50 01/nov. 1833,72 21620,91 R$ 20.683,31 30/nov. 937,16 21620,91 -R$ 0,44 Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. O valor residual de R$ 0,44 corresponde a um efeito do arredondamento do custo efetivo, no entanto sua dimensão é tão pequena em relação ao emprésti- mo (0,0007% do total) que se pode considerar como nulo. Os juros pré-fixados a pagamento parcelado, portanto, são gerados a cada período de pagamento, sendo que o valor pago tende a reduzir-se nos períodos finais para a liquidação do crédito assumido pela empresa (ASSAF NETO; LIMA, 2014). 160 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO BIBLIOGRAFIA COMENTADA Veja a seguir algumas indicações de obras que complementarão seu conhecimento sobre os assuntos abordados na disciplina. • SILVA, Raimundo Nonato Sousa; LINS, Luiz dos Santos. Gestão de custos: contabilidade, controle e análise. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2017. Nesse livro, os autores apresentam diferentes instrumentos utilizados para a gestão orçamentária de uma empresa, sob um enfoque dos custos, ou seja, das operações comuns de desembolso que são realizadas pela organização para a sustentação e financiamento de suas atividades. Para esta unidade, recomenda-se particularmen- te a leitura do tópico 5 do capítulo 8, “Relação custo, volume e lucro”, denominada “Alavancagem operacional”, com a disponibilidade de exemplos de aplicação que podem ser úteis para o reforço do aprendizado dos conceitos discutidos ao longo deste texto-base. • FISHLOW, Albert. Na esteira da grande recessão: guia para os perplexos. In: BACHA, Edmar Lisboa; BOLLE; Monica Baumgarten (Orgs.). novos dilemas da política econômica: ensaios em homenagem a Dionísio Dias Carneiro. Rio de Janeiro: LTC, 2011. Essa coletânea de artigos, organizada no período imediatamente posterior ao auge da crise financeira do subprime americano, entre 2007 e 2009, apresenta algumas interpretações muito interessantes a respeito da política econômica dos países e do comportamento das empresas nessa conjuntura de crise. O artigodestacado – na primeira parte da obra – ressalta aspectos práticos discutidos nesta unidade, como o conceito de alavancagem, tomado sob uma perspectiva real, qual seja, a exposição excessiva dos bancos e companhias de financiamento imobiliário dos Estados Unidos, que forneceram créditos a tomadores duvidosos e com alto risco de inadimplência. Alavancando-se excessivamente, essas empresas foram à bancarrota e, em alguns casos, precisaram ser “socorridas” pelo governo americano para evitar um compro- metimento ainda maior do mercado. 161 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO CONCLUSÃO O ato de investir é comum ao cotidiano de qualquer empresa que opera em um ambiente concorrencial e mesmo em ambientes de oligopólio e monopólio. Afinal, mesmo uma empresa que opere sozinha no mercado deseja reduzir custos e aumen- tar as margens de lucro, ampliando sua produtividade e eficiência em horizontes de curto, médio e longo prazos. Para cumprir esse objetivo, o caminho do endivida- mento é uma das formas naturais de obter o capital necessário para um projeto de investimento. Como você pôde avaliar ao longo do texto, a predisposição da empresa em contratar capitais externos embute um risco operacional, que é o de criar juros e parcelamentos altos demais para serem honrados pela empresa, gerando a possibili- dade de paralisar e/ou inviabilizar as suas atividades em função dos passivos acumu- lados. No plano teórico, espera-se (como você pôde discutir nos tópicos de estrutura de capital) que a empresa procure sempre minimizar seus custos de capital e maxi- mizar as margens de retorno dos seus proprietários. No entanto, a “regra de ouro” a ser assumida pelo gestor financeiro – no caso, por você, na aplicação prática desses conhecimentos na sua vida profissional – é a prudência. Por meio das reflexões propostas por esta unidade, há diferentes métodos para avaliar o grau de exposição de uma organização empresarial ao risco de contratar capitais de terceiros. Em um primeiro momento, a operação pode ser rentável, ou mesmo lucrativa, de modo que a atração de um “custo do dinheiro” relativamente baixo pode levar à contratação de novos capitais, para a ampliação da produção, a aquisição de empresas concorrentes ou fornecedores, a melhoria da infraestrutura logística, etc. No entanto, o “mercado” é uma entidade volátil; como afirmava Adam Smith, trata-se de uma “mão invisível” que comanda os processos de troca. Uma reversão nas condi- ções do mercado pode, nesse sentido, gerar queda nas vendas e um encarecimento efetivo dos encargos a pagar relativos aos capitais tomados por empréstimo. Essa falta de equilíbrio, infelizmente, leva muitas empresas a uma exposição desnecessá- ria e ao endividamento crescente; tal situação torna, portanto, evidente a necessida- de de um cuidado, por parte do gestor financeiro na operacionalização de recursos externos à organização. 162 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: UNIDADE 6 > Empregar indicadores de solvência para entender a dinâmica financeira de uma empresa. > Diferenciar os processos de integração entre empresas, tais como as fusões e aquisições. > Calcular o custo de capital para operações de tomada de créditos no exterior. > Compor uma síntese a respeito dos diferentes agentes que configuram o ambiente externo da organização empresarial. 163 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 6 O AMBIENTE EXTERNO E ASPECTOS DE ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA INTERNACIONAL Esta unidade tem por objetivo geral discutir alguns pontos a respeito das relações da empresa com o ambiente externo, especialmente com outras empresas, dentro de processos de fusão e aquisição. Como sabemos, uma empresa não é um ente isolado no espaço e no tempo; pelo contrário, seu objetivo reside na criação e promoção de negócios que viabilizem a geração de receitas e lucros para seus acionistas e proprie- tários – somente firmas inativas não procuram maximizar seus lucros e atividades no tempo. Tais negócios somente são viáveis na presença de um ambiente de negó- cios que reúne a empresa, fornecedores, clientes e consumidores, além de empresas concorrentes, parceiras comerciais, o Estado e seus agentes, sindicatos, associações de negócios e outras partes interessadas no funcionamento da organização. Da mesma forma, a velocidade da comunicação viabilizou uma escalada global dos negócios, permitindo que as empresas se internacionalizassem, obtendo capi- tal estrangeiro por meio de investimentos e créditos. O gestor financeiro deve, neste sentido, conhecer um pouco mais a respeito do cenário econômico internacional, a fim de identificar oportunidades de negócios e obtenção de créditos para o cresci- mento das atividades de sua empresa, valorizando, desse modo, suas oportunidades profissionais. INTRODUÇÃO A chamada internacionalização das operações empresariais constitui-se em um processo de migração e movimento de capitais produtivos e financeiros que se acele- rou a partir da segunda metade do século XX, na esteira da Terceira Revolução Indus- trial, que se caracterizou principalmente pela informatização da produção e pelo desenvolvimento das redes de telecomunicações. Vale dizer, atualmente já se discute 164 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO o conceito de ‘Quarta Revolução Industrial’, ou ‘Indústria 4.0’, cujas principais caracte- rísticas residem na inteligência artificial, na automação da produção e no processa- mento rápido de informações em escala global, através da internet. Desse modo, é imperativo que uma empresa conheça bem o ambiente em que ela está atuando; este ambiente não é apenas físico, ou formado pelos seus fornecedo- res e clientes diretos. Na verdade, a operação de uma empresa envolve uma grande quantidade de agentes espalhados ao redor do mundo, através da operação de ativi- dades financeiras e bancárias, da busca por matérias-primas e materiais importa- dos, e na atuação da concorrência em diferentes níveis. Por fim, vale destacar que a operação da livre concorrência é um dos pilares do capitalismo moderno, de modo que o poder público tem condições objetivas de interferir no mercado ao identificar processos de formação de preços que sejam lesivos ao público consumidor. Assim sendo, os elementos do ambiente externo, nas esferas nacional e internacional, serão objeto de estudo desta unidade. 6.1 O AMBIENTE EXTERNO Uma empresa não opera sozinha, como um organismo fechado em si próprio; ela se nutre do ambiente externo para obter receitas de venda, comprar (e pagar) maté- rias-primas e serviços de terceiros, garantir meios de transporte e logística para seus produtos etc. A partir desse fato, a análise da dimensão financeira de uma organização deve trans- cender o estudo de conceitos como o custo de operação ou a formação de preços de venda; é preciso estender um olhar sobre o ambiente externo da empresa e suas rela- ções com os demais agentes que compõem este ambiente: o Estado, os fornecedo- res, clientes, prestadores de serviços e outros stakeholders (ASSAF NETO, LIMA, 2014). 165 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Podemos definir um stakeholder como uma “parte interessada”, ou seja, um agente que, por alguma razão específica, tem interesses diretos no funciona- mento de uma empresa, seja do ponto de vista da arrecadação de tributos, da concorrência,da formação de novos negócios etc. O mercado é um ente segmentado; cada produto que uma empresa compra e vende compõe um nicho específico de mercado, de modo que um gestor financeiro deve estar atento às variações existentes em todos esses segmentos; as matérias-primas têm o seu mercado próprio, bem como os produtos acabados e colocados para a venda – que constituem a atividade-fim da organização. FIGURA 33 - AÇÃO DE STAKEHOLDERS SOBRE A EMPRESA Funcionários • Funcionários diretos e indiretos • Sindicatos Concorrência • Empresas ingressando no mercado • Empresas consolidadas Poder público • União, estados e municípios • Poder Judiciário Outras Instituições • Associações de classe • Etc. Clientes • Consumidor final • Outras empresas Fornecedores • Matéria-prima • Serviços de terceiros Proprietários • Acionistas • Investidores Fonte: Elaborada pelo autor. Desse modo, ao longo desta seção, discutiremos vários aspectos que compõem o cotidiano da relação das empresas com o ambiente externo em suas múltiplas dimensões, e de que modo essa relação pode determinar o futuro e a continuidade das operações da empresa. 166 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 6.1.1 FUSÕES E AQUISIÇÕES O noticiário econômico costuma apresentar dados relativos a processos de fusões e aquisições no cenário brasileiro. No entanto, há diferenças entre os dois conceitos que precisam ser adequadamente exploradas. Uma operação de fusão pode ser entendida como a união de duas empresas que apresentam, de modo geral, um porte semelhante e realizam um processo de permu- ta de ações, dando origem a uma outra empresa, com identidade própria e uma nova estrutura contábil. Uma aquisição, por sua vez, é o processo de compra direta, ou seja, a assimilação de uma empresa por outra, implicando uma absorção na qual a empresa compradora mantém a sua identidade, direitos e obrigações (ROSS; WESTERFIELD; JAFFE, 2015). A legislação brasileira é bastante clara no tocante aos processos de fusões e aquisi- ções, a fim de organizá-los e impedir a formação de mecanismos lesivos ao consumi- dor, como trustes e cartéis (os quais serão melhor discutidos mais adiante). De acordo com o artigo 228 da Lei de Sociedades por ações (Lei nº 6.404/1976), “A fusão é a operação pela qual se unem duas ou mais sociedades para formar socieda- de nova, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações”. Por sua vez, o artigo anterior, nº 227, trata das aquisições, denominando-as como incorporações, da seguinte forma: “A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações” (BRASIL, 1976). Esse mecanismo de sucessão de direitos e obrigações tem o intuito, em especial, de proteger os credores e demais partes interessadas de um processo de fusão fraudu- lenta, na qual os ativos de uma empresa são transferidos para uma outra sem que os direitos e compromissos assumidos junto a terceiros sejam efetivamente honrados. Há, por sua vez, situações em que as empresas interessadas em um processo de unifi- cação de atividades apresentam dimensões diferentes entre si, ou operam em países diferentes, ou são empresas de capital aberto (com ações negociadas em Bolsa de Valores). 167 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Entretanto, de acordo com seu porte, uma aquisição simples pode ser muito onerosa, ou pode ser vetada pelo poder público à medida que pode afetar as condições de concorrência. Nesse caso, a operação de fusão se coloca como a opção mais viável; a empresa que realiza a oferta de fusão é denominada empresa compradora, e a outra empresa (de menor porte), que por sua vez recebe a oferta de fusão, é chamada empresa-alvo (ROSS; WESTERFIELD; JAFFE, 2015). Para concretizar essa operação, a empresa compradora lança uma oferta sobre as ações da empresa-alvo – e a oferta constitui-se como um prêmio sobre o valor de mercado desta empresa, para viabilizar a fusão. A empresa compradora A está interessada em unificar seus negócios com a empresa-alvo B; esta empresa vem se destacando no mercado por suas práticas agressivas de negócio que viabilizaram lucros superiores à média dos concor- rentes. O valor total das ações da empresa é de R$ 450 milhões. A empresa A ofereceu um prêmio de 50% sobre o valor total das ações para convencer os acionistas a aprovar a fusão. Assim sendo, o valor da oferta de fusão foi igual a 450 milhões + 50% * 450 milhões = R$ 675 milhões. Como se pode perceber, a dinâmica das fusões e aquisições obedece a objetivos de curto, médio e longo prazo, visando solidificar operações e fluxos de caixa e resultado das empresas combinadas ao longo do tempo. 6.1.1.1 MOTIVAÇÕES E MODALIDADES DOS PROCESSOS DE FUSÃO E AQUISIÇÃO Podemos dividir os processos de fusão e aquisição de acordo com a sua modalidade, ou mesmo em relação aos seus objetivos. De acordo com Ross, Westerfield e Jaffe (2015), as fusões e aquisições se dividem em três modelos: 168 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO • Processo em conglomerado: ocorre quando empresas de ramos de ativida- de que não se articulam diretamente são unificados debaixo das operações de uma mesma organização. Nesse caso, a empresa compradora pode ter, como objetivo, diversificar investimentos ou aproveitar oportunidades futuras de crescimento. As startups são empresas criadas em setores pioneiros na economia, que ainda não estão suficientemente explorados, e têm uma estratégia agressiva de criação de receita e lucro, operando com custos baixos e mão de obra limitada, porém qualificada. Essas empresas, em muitos casos, são adquiridas a peso de ouro por organizações tradicionais, que estão diretamente interessadas nos métodos de gestão e inovação das empresas entrantes, modernizando suas atividades. • Processo horizontal (ou integração horizontal): é estabelecido entre duas empresas que atuem no mesmo nicho de mercado e tenham relações de concorrência direta entre si. • Processo vertical (ou de integração vertical): ocorre quando as empresas que se unificam fazem parte da mesma cadeia produtiva, porém, operam em seto- res diversos (matéria-prima e produção de bens finais, por exemplo). O processo de integração vertical se manifesta a partir do momento em que uma empresa objetiva formar um conglomerado empresarial, que abranja dife- rentes etapas da produção – ou todas elas. O intuito desse processo de controle da produção pode ser dado por razões táticas (queda de preço de venda, redu- ção de custos, aumento de receitas) ou estratégicas (concentração de mercado, poder de barganha com clientes e fornecedores, crescimento em longo prazo). 169 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO No caso da integração vertical, a unificação de empresas pode ser feita em relação a empresas-alvo que se encontrem na direção dos fornecedores, tais como empresas de matéria-prima, serviços de manutenção, transporte de material pesado etc. Nesse caso, diz-se que a integração ocorre “a montante” da empresa. Ou ainda, a integração pode ocorrer “a jusante”, ou seja, na direção dos distribuidores e de serviços diretos ao cliente. Os termos montante e jusante dizem respeito às seções de um rio, ou seja, ao segmento de reta que liga um observador à nascente desse rio (montante, ou rio acima), ou à sua foz (jusante, ou rio abaixo). FIGURA 34 - CONCEITOS DE MONTANTE E JUSANTE Fonte: Elaborada pelo autor. Esse processo de integração vertical pode ocorrer no caso de aquisição de empresasde logística, assistência técnica e serviços de atendimento (call centers), por exemplo. 170 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Para a realidade da integração vertical nas empresas brasileiras, um caso emblemá- tico é formado pelo Grupo Sílvio Santos, liderado pelo apresentador de televisão. Em 1958, Sílvio Santos (Senor Abravanel) era um apresentador de programas de rádio em ascensão profissional e assumiu o controle de uma empresa à beira da falência, o Baú da Felicidade, que operava uma modalidade financeira interme- diária entre o consórcio e o crediário: o Carnê do Baú, na qual as pessoas paga- vam antes de resgatar os produtos. O sucesso do Baú esteve ligado à figura de Sílvio, que estreou na televisão em 1961 e, no ano seguinte, criou o Programa Sílvio Santos, cujo principal anunciante era o próprio Baú. Iniciando o processo de integração, Sílvio criou a Publicidade Sílvio Santos Ltda. para operar os contratos de publicidade dos outros anunciantes do programa. Posteriormente, essa empresa tornou-se a Studios Silvio Santos Cinema e Tele- visão, que fazia a gravação dos programas do apresentador (ainda sem canal próprio, e adquirindo horários de emissoras) e operava serviços para outras empresas de comunicação. Com o crescimento do Baú, que operava sorteios de automóveis e realiza- va vendas de carnês de porta em porta em peruas Kombi que precisavam ser consertadas, Sílvio criou uma concessionária Volkswagen, a Vila Maria Veículos, conhecida como Vimave. A operação financeira do Carnê do Baú viabilizou a aquisição de outra empresa, a Liderança Capitalização S.A., que também opera outro produto importante do grupo, a Tele-Sena. Da mesma forma, as casas que Sílvio sorteava precisavam ser construídas com antecedência, o que deu origem à construtora do Grupo, a SISAN. Por fim, na década de 1970, Sílvio conquista seu primeiro canal de TV, o Canal 11 do Rio de Janeiro, que se tornaria o embrião da TV Studios Silvio Santos (TVS), formando posteriormente, com a operação do Canal 4 de São Paulo, o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) (SILVA, 2002). Atualmente, após uma importante reestruturação (motivada pelas falhas de gestão do Banco Panamericano, então controlado pelo Grupo), as empresas do Grupo Sílvio Santos estão concentradas em diferentes setores, das quais cabe destacar o segmento de comunicação (SBT e TV Alphaville), serviços financeiros (Liderança Capitalização), construção civil (SISAN Empreendimentos Imobiliá- rios), hotelaria (Sofitel Jequitimar) e cosméticos (Jequiti). 171 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO É preciso, assim, perceber que todos esses processos envolvem uma relação intrín- seca entre uma empresa compradora e uma empresa-alvo, de modo que a nova empresa apresente maior potencial de geração de caixa e lucro (ROSS; WESTER- FIELD; JAFFE, 2015). FIGURA 35 - MODALIDADES DOS PROCESSOS DE INTEGRAÇÃO ENTRE EMPRESAS Integração entre empresas Horizontal (Mesmo mercado) Vertical (Montante / jusante) Conglomerado (Setores diferentes) Fonte: Elaborada pelo autor. É possível, ainda, separar os processos de fusão e aquisição de acordo com os seus objetivos (GRINBLATT; TITMAN, 2005): • Processos estratégicos: envolvem a criação de sinergias operacionais, ou seja, a melhora das condições de competitividade de capacidade de geração de receitas e caixa, de modo que as empresas combinadas são capazes de gerar mais resultados do que quando tomadas individualmente (e em separado). Nesse caso, a ‘soma do todo’ se tornaria maior que a ‘soma das partes’. 172 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO A empresa ABC é consolidada no mercado e tem um lucro líquido anual na ordem de R$ 500 milhões. Essa empresa usa métodos administrativos e siste- mas operacionais defasados. A empresa DEF, por sua vez, é uma startup que foi comprada pela ABC. Sozinha, a DEF tinha um lucro anual de R$ 5 milhões, pois tem um porte menor que a ABC. No entanto, com a inclusão de métodos inovadores de gestão, a fusão ABC / DEF criou um conglomerado com um lucro líquido anual de R$ 606 milhões, ou seja, 20% superior ao lucro isolado das duas empresas. • Processos financeiros: ocorrem quando a empresa compradora realiza uma avaliação otimista sobre a empresa-alvo, que estaria operando com preços de ações inferiores ao valor de seus ativos, de modo que a fusão pode se tornar um processo lucrativo, seja através da reestruturação produtiva da empresa, ou através de uma mudança na gestão que possa trazer melhores expectati- vas de lucro e venda posterior. Os fundos de private equity são criados com a finalidade de adquirir empresas em situação de instabilidade, mas com potencial de valorização no mercado. Após a aquisição, essas empresas são modernizadas e, posteriormente, revendi- das, e o lucro do processo é revertido para o fundo. • Processos de diversificação: ocorrem à medida que a empresa compradora tem o interesse de formar um conglomerado, obtendo sinergias financeiras (viabilizando maiores margens de lucro), ainda que sinergias operacionais não necessariamente precisem ser identificadas. 173 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO FIGURA 36 - OBJETIVOS DOS PROCESSOS DE FUSÃO E AQUISIÇÃO Fusões e aquisições Estratégico DiversificaçãoFinanceiro Fonte: Elaborada pelo autor. Cabe, ainda, mencionar alguns métodos costumeiramente utilizados para a criação de processos de fusão e aquisição (CAMARGOS, 2013): • Compra de ações e/ou ativos negociáveis da empresa: • Com pagamento em dinheiro. • Com emissão de novos títulos. • Através de Bolsa de Valores. • Ofertas privadas aos administradores da empresa-alvo. • Oferta pública de compra aos acionistas da empresa-alvo, com o pagamento de prêmio sobre o valor de mercado. Esses processos podem ocorrer de forma hostil ou amigável ao board diretor da empresa-alvo. Na abordagem amigável, o controle da empresa-alvo é mantido nas mãos dos antigos gestores, apesar da mudança nos escalões superiores, da proprie- dade real da empresa. Nos processos hostis, há uma tomada de controle, ou seja, a substituição do board diretor da empresa-alvo (CAMARGOS, 2013). 174 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO 6.1.2 PARCERIAS E JOINT-VENTURES Há situações em que duas ou mais empresas desejam fazer crescer suas vendas, atra- vés do compartilhamento de projetos comuns, em torno de produtos e/ou serviços a serem lançados no mercado. Nesse caso, cada empresa coopera com capital e/ou outros recursos em torno desses objetivos comuns. Para isso, elas estabelecem uma associação formal, conhecida como joint-venture, com a finalidade de explorar esses projetos (BOTREL, 2017). A empresa GHJ tem um lucro líquido igual a R$ 200 milhões e deseja desenvol- ver um projeto de um produto, que está orçado em R$ 300 milhões; é sabido que, assim que implementado, esse projeto pode gerar um lucro extra à empre- sa na ordem de R$ 60 milhões. Como a empresa não tem capital suficiente para “bancar” o projeto, ela se une a outras duas empresas, com ambas injetando R$ 100 milhões no projeto. Assim que ele é implementado, o lucro gerado é dividido igualmente entre as empresas – cada empresa, portanto, recebe R$ 20 milhões anuais como retorno dos R$ 100 milhões investidos. As joint-ventures podem ser constituídas como sociedades em comum, com perso- nalidade jurídica específica (corporate joint-ventures), ou não personificadas (non-cor- poratejoint-ventures). 6.1.3 DEFESA DA CONCORRÊNCIA As economias abertas (que mantêm relações com o resto do mundo) prezam, em geral, pela manutenção da livre concorrência, ou seja, pela restrição à formação de comportamentos de abuso do poder de mercado das empresas, poder esse que possa eventualmente vir a prejudicar os cidadãos e o público consumidor. 175 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Dessa forma, a legislação desses países explicita mecanismos de controle das ativi- dades das empresas, especialmente, dos processos de fusão e aquisição, que podem gerar conglomerados cuja força econômica venha a prejudicar a concorrência e afetar a estabilidade do mercado. Há diferentes mecanismos usados pelas empresas para favorecer e aumentar seu poder de mercado de forma potencialmente abusiva aos interesses dos consumido- res. Dentre esses mecanismos, é possível destacar (KUPFER; HASENCLEVER, 2012): truste: é um processo de união de várias empresas, a fim de criar um monopólio que domine a oferta de um produto, criando uma organização empresarial de grande porte cujo poder de barganha se torne desigual em relação ao mercado e, em vários casos, ao próprio Estado. Há duas formas de truste: Horizontal: formado por empresas que comercializam o mesmo tipo de produto e/ ou serviço. Vertical: ocorre quando as empresas que se fundem acabam por dominar todas as etapas do processo de produção, desde a elaboração da matéria-prima até o produto final. FIGURA 37 - TIPOLOGIA DOS TRUSTES • Criação de monopólios do mesmo produto/serviçoTruste horizontal • Controle de todas as fases da produçãoTruste vertical Fonte: Elaborada pelo autor. 176 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO cartel: é um acordo realizado entre empresas que não se fundem e, no entanto, fixam preços, limites de produção ou clientes a atender, de modo a viabilizar, em uma ação coordenada, a geração de lucros extraordinários e eliminação da concorrência. Um setor constantemente marcado por denúncias de cartel é o dos postos de combustíveis, que por vezes fixam preços acima da média da cidade ou região em que estão inseridos; sabendo-se que a estocagem de combustível no Brasil é proibida por lei, donos de postos passam a controlar o preço de venda através de uma coordenação entre si, aproveitando-se ainda de períodos de oscilação da oferta para forçar a alta de preço – como na greve dos caminhoneiros no Brasil, em 2018. Dumping: trata-se de uma prática de concorrência desleal na qual uma empresa com melhores condições de mercado fixa preços muito abaixo do seu valor razoável para os seus produtos. Embora em princípio possa parecer absurdo (pois a empresa estaria se voluntariando a ter prejuízo), o intuito é o de eliminar os concorrentes que fabriquem produtos similares e que não conseguiriam sustentar um preço baixo por muito tempo. O setor de bebidas não alcoólicas é marcado por práticas agressivas de dumping no Brasil, especialmente no mercado de refrigerantes. Há diversas empresas regionais que fabricam refrigerantes a preços mais acessíveis (as conhecidas “tubaínas”); estas empresas enfrentam a concorrência de companhias multina- cionais estabelecidas que forçam a retirada dessas pequenas empresas median- te a venda de produtos a preço mais baixo. 177 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO risco moral: esse conceito pode ser mais associado a um comportamento das empresas do que uma medida prática. Ocorre risco moral quando o agente dispõe de uma informação assimétrica, ou seja, que não está sob o conhecimento geral, e usa dessa informação de forma inapropriada, para garantir os seus interesses até que a transação seja realizada; após esse momento, o eventual prejuízo fica por conta do contratante. O setor de revenda de carros usados é um dos exemplos mais comuns de apli- cação de risco moral no Brasil. Em várias situações, os proprietários dessas agên- cias compram veículos que apresentam algum tipo de defeito ou vício ocul- to; de posse dessa informação, eles efetuam a revenda sem informar ao novo proprietário, que acaba arcando com os prejuízos da transação. Nos Estados Unidos, esses produtos negociados com informação assimétrica, com prejuízo ao consumidor, são conhecidos como “limões”; no Brasil, são os populares “abacaxis”. A restrição a essas práticas, como vimos, ocorre através de legislações que versam sobre a chamada defesa da concorrência. No Brasil, esse controle é realizado por uma autarquia pública, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), que regulamenta os processos de fusão e aquisição, realizando recomendações e, por vezes, bloqueando alguns processos que podem gerar perdas econômicas importan- tes, como a redução de postos de trabalho e/ou a formação de conglomerados com poder assimétrico de mercado (KUPFER; HASENCLEVER, 2012). 178 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Na década de 1990, a empresa Kolynos do Brasil (que fabricava o creme dental Kolynos, o mais popular do país, com mais de 50% do mercado) foi adquirida pela Colgate-Palmolive. Com essa transação, a Colgate iria deter 79% do merca- do, valor que foi considerado prejudicial à concorrência. O CADE condicionou a realização da transação a uma condição: que a marca Kolynos fosse retirada do mercado por quatro anos, para que as empresas concorrentes (especialmente a Gessy-Lever, fabricante do creme Close-up, e a Procter & Gamble, fabricante do creme Crest) pudessem ter igualdade de competição no mercado. A Colgate retirou a marca Kolynos e lançou o creme Sorriso; após os quatro anos determinados, a empresa considerou que deveria manter a marca que já estava consolidada entre os consumidores, e a Kolynos efetivamente desapareceu. É importante ressaltar, por fim, que a concentração de mercado (ou seja, a partici- pação elevada de um único grupo empresarial nas atividades de um setor) é um dos principais fatores analisados pelas autoridades de Defesa da Concorrência para a instauração de medidas de restrição ou bloqueio de processos de fusão e aquisição. 6.1.4 PROCESSOS DE ALIENAÇÃO DE INVESTIMENTOS Uma empresa que possua um ativo permanente bem estabelecido, na forma de imóveis, veículos, máquinas e outros equipamentos, ou, ainda, que disponha de reservas financeiras expressivas pode deliberadamente optar pela possibilidade de não as utilizar, e sim empregá-las como garantia de empréstimos para investimen- tos, recomposição do capital e giro, etc. Nesse caso, as taxas de juros associadas aos empréstimos costumam ser mais reduzidas, em função das garantias envolvidas, que são juridicamente estabelecidas. 179 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Nesse caso, em se tratando de ativos imobiliários e veículos, por exemplo, o credor tem a posse do bem, no entanto, não detém a sua propriedade, que fica estabelecida em nome da instituição financeira (OLIVEIRA, 2013). FIGURA 38 - RELAÇÕES DE ALIENAÇÃO DE INVESTIMENTOS Credor: • Mantém a propriedade do bem alienado • Não mantém a sua posse • Cede crédito Devedor: • Não mantém a propriedade do bem alienado • Mantém a sua posse • Recebe crédito Fonte: Elaborada pelo autor. Os investimentos financeiros, por sua vez, são mantidos em nome do devedor – porém, em investimentos cujo resgate somente poderá ser realizado ao fim do pagamento do crédito. 6.1.5 INSOLVÊNCIA E FALÊNCIA Uma empresa bem-intencionada deseja sempre ampliarsuas atividades e se manter no mercado, cumprindo seus compromissos e honrando seus contratos com a idonei- dade esperada. Em outras palavras, os gestores de uma empresa esperam sempre obter sucesso em suas atividades; no entanto, a possibilidade de um fracasso não pode ser descartada. Afinal, mudanças nas condições do mercado, nas condições de preferência dos consu- midores, gestão inadequada, alterações macroeconômicas e vários outros fatores 180 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO podem interferir no funcionamento da empresa e, em algum momento, inviabilizar o seu funcionamento. Nessas circunstâncias, antes de tratar do conceito de ‘falência’, é preciso discutir primeiro a questão da insolvência. Na legislação brasileira, entende-se a insolvência como a incapacidade de um agente quitar as suas dívidas de acordo com os seus bens passíveis de penhora, ou seja, a insolvência ocorre quando as dívidas suplantam os ativos que a pessoa dispõe; este conceito abrange mais as pessoas físicas (MAME- DE, 2017). Nesse caso, há dois tipos de insolvência: o primeiro caso é a insolvência presumida, na qual a pessoa não possui bens ou itens diversos que possam ser penhorados para o pagamento dos compromissos assumidos; o segundo caso é a insolvência real, quan- do a dívida excede, de fato, o montante total de bens disponíveis pelo agente deve- dor, conforme o artigo 955 do Código Civil (BRASIL, 2002). É importante que o credor tenha critérios objetivos para definir a capacidade de pagamento de um agente devedor, como nos casos mencionados de insolvên- cia; no entanto, é preciso ter bom senso, uma vez que muitos agentes (especial- mente pessoas físicas e microempresas) podem possuir um patrimônio líquido limitado, porém uma boa capacidade de geração de receita, o que viabiliza a realização de um contrato de crédito. No caso das empresas, recorre-se ao princípio da solvabilidade, que é a qualidade que uma pessoa jurídica possui de ter meios para o pagamento, voluntário ou força- do, dos compromissos assumidos com os seus devedores. Nesse caso, o exame da estrutura de ativo e passivo deve ser cuidadosamente realizado, pois há situações em que uma empresa pode apresentar uma grande estrutura de patrimônio líquido e não ter condições de honrar uma dívida que represente um valor baixo em relação a esse patrimônio (MAMEDE, 2017). 181 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Considere que a empresa CXZ possui um patrimônio líquido estimado em R$ 4 milhões; seu ativo é da ordem de R$ 1 milhão, e o passivo, igual a R$ 5 milhões, negativos. Essa empresa precisa financiar parte de sua dívida e para isso ela recorre a um crédito, alienando todo seu patrimônio para obter um crédito de R$ 2,4 milhões, a ser pago em 24 parcelas mensais e de igual valor – R$ 132.000,00. Esse exemplo é comum a muitas empresas mais antigas, que possuem um patrimônio importante (terrenos, imóveis, depósitos etc.) mas não têm capital de giro suficiente para financiar suas atividades (mantêm um ativo baixo perante as exigências do passivo). No momento em que um empresário ou uma organização empresarial apresente problemas de solvência, ela pode ser enquadrada na Lei nº 11.101/2005, conhecida como a Lei de Falência e Recuperação de Empresas. Na verdade, a falência consti- tui-se em uma execução, por medida judicial, da empresa que esteja insolvente no mercado, sendo que essa execução pode ser realizada pelos credores dessa empresa (BRASIL, 2005). No Brasil, a falência civil é bastante rara; os mecanismos de protesto e negati- vação de crédito a pessoas físicas substituem essa via judicial. Em países como Estados Unidos, o indivíduo pode pleitear sua falência na Justiça, como uma oportunidade de renegociar suas dívidas e manter uma estrutura mínima para sua sobrevivência (casa, carro) que não seja arrestada como parte do pagamento. Até o ano de 2005, era vigente no Brasil o mecanismo da concordata, no qual uma empresa insolvente solicitava por medida judicial um prolongamento do prazo de pagamento ou o perdão das dívidas contraídas, sem que os credores pudessem apre- sentar recursos; nesse caso, a ideia era evitar a falência da empresa, que é sempre um 182 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO procedimento extremo, caro e prolongado para credores, devedores, funcionários e Estado. A partir da Lei de Falências, instituiu-se o método da recuperação judicial, que abran- ge empresas de qualquer porte e funcionamento superior a dois anos. Nesse caso, a empresa que está “devendo na praça” apresenta os balanços financeiros à Justiça e pede a suspensão das cobranças (execuções e protestos) por um prazo de seis meses, no qual ela deve executar um plano de recuperação de suas atividades e negociação junto aos credores (MAMEDE, 2017). Se a negociação é infrutífera ou a empresa não consegue se recuperar, sobrevém a falência, que consiste no encerramento definitivo das operações da empresa e reco- lhimento dos ativos, que deverão ser vendidos e/ou leiloados para o pagamento das dívidas – ou ao menos uma parte delas. A VASP era uma companhia aérea brasileira que suspendeu atividades em 2005 e teve sua falência decretada em 2008. Seus débitos no mercado somam, hoje, cerca de R$ 5 bilhões. Nesse período, sucessivos leilões foram realizados para arrecadar uma parte, ainda que mínima, desse montante a pagar. Uma reporta- gem do Jornal da Gazeta, denominada “Leilão da Vasp” (disponível no YouTube) apresenta um desses leilões, realizado em 2012, onde aviões, motores, roupas, cadeiras e materiais de escritório foram postos à venda. Esses ativos passam a constituir a massa falida da organização, e são objeto de proces- sos que se prolongam na Justiça, para o pagamento de passivos trabalhistas, obriga- ções judiciais, multas, entre outros processos. 6.1.5.1 INDICADORES DE INSOLVÊNCIA Na atualidade, as empresas podem manter-se em zonas de segurança para evitar o risco de insolvência e manter a sua posição consolidada no mercado. Para isso, 183 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO diferentes estratégias podem ser buscadas, como a liquidação e venda de ativos, a renegociação de dívidas, a busca por outros parceiros e sócios de negócio, entre outras. Contudo, para verificar o risco existente em relação às suas capacidades de paga- mento, podem ser usados alguns indicadores, com maior ou menor grau de comple- xidade, para avaliar a estruturação dessas empresas nas suas ações em curto e longo prazos. Dentre esses indicadores, pode-se mencionar (BRESSAN et al., 2009): Índice dívida-patrimônio (iDP): é formado pela relação entre a dívida total da empre- sa e o patrimônio líquido dos acionistas: IDP Dívida Total PL dos Acionistas = Se o coeficiente for alto – próximo de 1 ou superior –, observa-se que a empresa endi- vidou-se intensamente para garantir a sua funcionalidade, tornando-se sensível a mudanças no mercado ou nas condições que envolvam os empréstimos, como altas na taxa de juros ou na inflação, por exemplo. Suponha que a empresa IXI apresenta uma dívida junto a credores em um montante igual a R$ 3,6 milhões. O patrimônio líquido de seus acionistas é avaliado em R$ 3 milhões. Desse modo, o IDP é dado por: IDP = =3600000 3000000 1 2, Através desse índice, observa-se que a IXI está endividada em um montante superior ao patrimônio – há R$ 1,20 em dívidas a cada R$ 1 de patrimônio dos acionistas, o que demanda ações corretivas importantes e imediatas. 184 Gestão FinanceiraFACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Índice de dívida e ativos (iDa): demonstra a relação existente entre os passivos (de curto e longo prazos) em relação ao patrimônio da empresa, ou seja, apresenta o risco envolvido em uma operação de empréstimo de bancos e financeiras a essa empresa: IDA Passivo Circulante Exigível a Longo azo PL dos Acioni = + Pr sstas Suponha que a empresa AGH possui um patrimônio líquido de acionistas igual a R$ 4 milhões. O passivo circulante é igual a 2 milhões, e o IDA é igual a 0,9. Portanto, o exigível em longo prazo é calculado da seguinte forma: 0 9 2000000 4000000 0 9 4000000 2000, Pr , *= + → =Exigível a Longo azo 0000 3600000 + → = Exigível a Longo azo Exigível a Longo azo Pr Pr −− =2000000 1600000 Ou seja, o exigível em longo prazo é igual a R$ 1,6 milhão. O IDA igual a 0,9 demonstra, por sua vez, que a empresa tem R$ 90 em passivos a cada R$ 100 de patrimônio líquido. Desse modo, os compromissos assumidos são quase iguais ao patrimônio, dando pouca margem para a empresa ampliar suas dívidas para financiar atividades e investimentos. Índice de cobertura de juros (icJ): apresenta as condições que uma empresa possui para efetuar os seus pagamentos, especialmente os pagamentos dos juros associa- dos a esta dívida: ICJ Lucro antes de Juros e postos LAJI Despesas com Jur = Im ( ) oos Se essa taxa de cobertura for inferior a 1,5 – ou seja, há 3 unidades monetárias de lucro para cada 2 unidades de despesas com juros ao longo de um certo período – as empresas já passam a ser consideradas com cautela por instituições de empréstimo, dado o seu risco de inadimplência – se o pagamento dos juros estiver consumindo 185 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO uma parte importante dos lucros operacionais, a amortização (pagamento do capi- tal) será ainda menos provável. Uma instituição bancária usa o índice ICJ igual a 1,5 para definir o limite para a cessão de empréstimos a empresas. Sabendo-se disso, a empresa UIA apresentou seus demonstrativos contábeis, que demonstraram que seu lucro antes de juros e impostos, em 2018, foi igual a R$ 100.000. Desse modo, é calculado o valor máximo de despesas com juros que essa empresa pode pagar: 1 5 100000 100000 1 5 , , = → = = Despesas com Juros Despesas com Juros RR$ . ,66 666 66 Ou seja, espera-se que a empresa possa pagar, ao máximo, R$ 66.666,66 com o juro de empréstimos ao longo de um exercício fiscal – nenhum empréstimo deve ser feito pelo banco em valores que ultrapassem essa medida. Por exemplo, se a UIA pede um crédito de R$ 200.000, que poderiam ser cota- dos a juros simples de 3,5% a.m. e pagamento em um ano, os juros totais a pagar seriam iguais a 3,5 *12 = 42%. Sobre o valor de R$ 200.000, os juros seriam iguais a: R$ 200.000 * 0,42 = R$ 84.000 O crédito pedido, portanto, seria negado. Por fim, é importante mencionar um último indicador, conhecido como Termômetro de Kanitz, em referência ao economista paulistano Stephen Kanitz (n. em 1946). Esse indicador é utilizado para avaliar a capacidade de solvência de empresas e a corres- pondente possibilidade de elas entrarem em falência. Trata-se de uma estimativa a partir de diferentes indicadores contábeis, que medem a rentabilidade da empresa, seu endividamento e disponibilidade de ativos (índices de liquidez) (KANITZ, 1978). 186 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO O indicador de Kanitz é descrito da seguinte forma: Y = (0,05 * RP) + (1,65 * LG) + (3,55 * LS) - (1,06 * LC) - (0,33 * GE) Onde: RP ntabilidade do Patrimônio Lucro Líquido Patrimônio Líq = =Re uuido LG Liquidez Geral Ativo Circulante Ativo Não Circulan= = + tte Passivo Circulante Passivo Não Circulante LS Liquidez Se + = cca Ativo Circulante Estoques Passivo Circulante LC Lucro Co = = - rrrente Ativo Circulante Passivo Circulante GE Grau de Endiv = = iidamento Passivo Circulante Passivo Não Circulante Patr = + iimônio Líquido Os valores numéricos fixados pelo Termômetro de Kanitz são justificados no estudo original do autor; segundo o mesmo, cada um desses indicadores contá- beis apresenta um peso diferente na determinação das condições de sobrevi- vência da empresa, com ênfase especial na liquidez geral e na liquidez seca. Stephen Kanitz estudou diferentes casos de falência de empresas brasileiras para avaliar o impacto desses indicadores e variáveis na composição financeira dessas organizações. Conforme a proposta do Termômetro de Kanitz, se o indicador Y estiver em um valor inferior a -3, demonstra-se que a situação da empresa é fortemente tendencial à falência. Resultados acima de zero são menos preocupantes na direção da solvência absoluta (Y = +7). Se o resultado estiver compreendido entre zero e -3, considera-se que a empresa está em uma “zona de penumbra”, ou seja, uma posição de alerta, pois a empresa poderá descer no ranking para a situação pré-falimentar (KANITZ, 1978). 187 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Suponha que a empresa QWE apresenta os seguintes resultados contábeis: Lucro líquido = R$ 1 milhão Patrimônio líquido = R$ 2 milhões Ativo circulante = R$ 1,2 milhão Ativo não circulante = R$ 1 milhão Passivo circulante = R$ 1,1 milhão Passivo não circulante = 1,1 milhão Estoques = R$ 100.000 Pode-se calcular, a partir desses resultados, os indicadores financeiros que se seguem: RP Lucro Líquido Patrimônio Líquido LG At = = = = 1000000 2000000 0 5, iivo Circulante Ativo Não Circulante Passivo Circulante Pas + + ssivo Não Circulante = + + = 1200000 1000000 1100000 1100000 22000000 2200000 1= = − =LS Ativo Circulante Estoques Passivo Circulante 11200000 1000000 1100000 1− = =LC Ativo Circulante Passivo Circul aante GE Passivo Circulante Passivo = = = + 1200000 1100000 1 09, NNão Circulante Patrimônio Líquido = + = 1100000 1100000 2000000 1,,1 O Termômetro de Kanitz para essa empresa será igual a Y = (0,05 * RP) + (1,65 * LG) + (3,55 * LS) - (1,06 * LC) - (0,33 * GE) = (0,05 * 0,5) + (1,65 * 1) + (3,55 * 1) - (1,06 * 1,09) - (0,33 * 1,1) = 0,025 + 1,65 + 3,55 - 1,16 - 0,36 = 3,7 Observa-se que a empresa está com uma boa capacidade de solvência em rela- ção às suas operações, de acordo com os indicadores analisados. 188 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Todos esses indicadores de solvência, embora importantes, também devem ser acom- panhados com a cautela necessária, uma vez que um avaliador externo dificilmente consegue obter informações referenciadas (salvo em caso de auditorias) a respeito da situação financeira de uma empresa, uma vez que essas informações são, em geral, sigilosas. 6.2 NOTAS SOBRE ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA INTERNACIONAL Esta seção será dedicada a um rápido panorama sobre os mecanismos de Adminis- tração Financeira realizadas no âmbito das empresas transacionais, ou seja, que reali- zam transações comerciais em diferentes países e, em decorrência dessa situação, necessitam remeter lucros e receitas ao exterior, pagando impostos nos países de origem e submetendo resultados às diferenças entre preços das moedas, expressos pela taxa de câmbio. 6.2.1 OBSERVAÇÕES SOBRE A ECONOMIA INTERNACIONAL NO PÓS-GUERRA (1945 – 2000) Se realizarmos uma breve recapitulação histórica das relações econômicas interna- cionais, podemos estabelecer um ponto de partida com o final da Segunda GuerraMundial, em 1945, pois é nesse momento que se delineiam os principais instrumen- tos e agências intergovernamentais destinadas a promover o comércio e o desenvol- vimento econômico das nações de forma integrada. Na verdade, ao tratar do assunto ‘Economia Internacional’, seria possível voltar aos primórdios da civilização, quando são criadas as primeiras moedas, na região da Lídia, na Ásia Menor, há cerca de quatro mil anos; mesmo antes disso, metais preciosos como o ouro já eram usados como referencial de riqueza e reserva de valor por parte dos agentes e comerciantes (ALMEIDA, 2015). Até a Segunda Guerra Mundial, o ouro serviu como indicador fiel da riqueza dos países, de modo que toda a riqueza de uma nação (na forma de dinheiro e moeda circulante) é expressa em termos dos seus estoques de ouro, prata e outros metais preciosos. 189 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Com o fim da guerra, o dólar desbancou o ouro puro e a libra esterlina (então a moeda mais respeitada no sistema econômico) como referencial de riqueza. Na verdade, os Estados Unidos saíram bastante fortalecidos do conflito armado e assumiram o papel de “investidor global” nos processos de reconstrução da Europa (Plano Marshall) e do Oriente (Plano Colombo). Nesse momento, surge o euromercado, um mercado de capitais (em dólar, cujo valor ainda era medido em ouro) impulsionado por empresas norte-americanas que se instalaram na Europa e passaram a criar riqueza naquele continente (EICHENGREEN, 2000). O fim do regime do dólar sob câmbio fixo (com seu valor determinado em ouro) ocor- reu no início da década de 1970, quando os Estados Unidos suspendem a conversi- bilidade plena do dólar em ouro (ou seja, adota-se o câmbio flutuante, e a moeda deixa de ter seu valor lastreado no estoque de metal). No mesmo momento, ocorre o primeiro choque do petróleo – um processo coordenado de alta de preços desse combustível pelos dirigentes dos países árabes organizados na OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, motivado em parte por uma retaliação política e econômica às guerras vencidas por Israel contra essas nações desde 1967 (MOFFITT, 1984). No final da década de 1970, o Banco Central norte-americano, o Fed (Federal Reserve) elevou fortemente as taxas de juros dos Estados Unidos, em um processo de valoriza- ção do dólar e atração massiva de capitais estrangeiros para esse país, o que acabou afetando outros países que apresentavam uma dívida externa expressiva, cotada em dólar (a valorização dessa moeda aumentava os encargos da dívida na moeda desses países, como ocorreu no caso brasileiro) (BELLUZZO, 2009). Nesse período, a chamada globalização encontrava-se a pleno vapor, impulsionada pelas inovações tecnológicas no setor de telecomunicações e pelo desenvolvimento do mercado internacional de capitais. Com isso, as empresas passaram a ampliar sua presença internacional, sobretudo, tendo a Ásia como epicentro – empresas ociden- tais instalaram-se naquele continente, e empresas orientais migraram para o Ociden- te, abrindo filiais e representações comerciais. A globalização, enquanto movimento econômico, tem duas facetas interligadas entre si, a saber: 190 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO • Globalização produtiva, formada pelo mencionado processo de migração de empresa e formação de mercados consumidores e plantas industriais em dife- rentes locais do mundo, em busca de novos mercados, valorização de recursos e redução de custos. • Globalização financeira, caracterizada pela migração de capitais, ou seja, pelo aproveitamento de diferenciais de juros entre países para a realização de inves- timentos financeiros – de acordo com o risco e o retorno esperado, países com maiores taxas de juros tornam-se mais atrativas para o capital internacional (BORGHI, 2011). FIGURA 39 - EXPRESSÕES DA GLOBALIZAÇÃO Globalização (Séculos XX – XXI) Produção Finanças Fonte: Elaborada pelo autor. 6.2.2 TAXA DE CÂMBIO E INVESTIMENTO ESTRANGEIRO DIRETO (IED) O investimento estrangeiro direto (IED) consiste na política adotada por países, insti- tuições financeiras, indústrias e outros agentes econômicos para a realização de investimentos em outros países: trata-se, portanto, da injeção de capital em outras economias com o intuito de obter uma valorização de ativos, mais especificamen- te, na esfera produtiva (geração de receitas com a produção) (EITEMAN; STONEHILL; MOFFITT, 2002). 191 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO Os mercados internacionais, desse modo, são altamente atrativos e importantes para as empresas, uma vez que, em muitas situações, o custo para a obtenção de capi- tal pode ser reduzido. Há, no entanto, algumas variáveis que devem ser observadas nesse caso: a taxa de câmbio (a relação entre preços de moedas), a taxa de juros e o custo geral de um endividamento realizado no exterior. Para entender essa relação, vamos recorrer a um exemplo. Considere que uma empresa sediada nos Estados Unidos toma emprestado EUR 1,5 milhão por um ano junto a um banco da Suíça, a juros iguais a 5%. No instante de tomada do empréstimo, a taxa de câmbio euro/dólar era igual a 1,50. No entanto, durante esse período de vigência do empréstimo, a taxa de câmbio deslocou-se para 1,44 (ou seja, houve uma apreciação da moeda euro- peia). Qual o custo, em dólares, dessa dívida? Em primeiro lugar, é preciso calcular o valor do empréstimo inicial, com a taxa de câmbio daquele momento: EUR milhão US 1 5 1 5 1 000 000, , $ . .= Ao final de um ano, a empresa norte-americana torna-se responsável pelo paga- mento do valor emprestado, equivalente a EUR 1.500.000, mais 5% de juros, que correspondem a EUR 75 mil, gerando um montante igual a EUR 1.575.000. No entanto, esse pagamento deve ser realizado pela taxa de câmbio final, igual a 1,44, da seguinte forma: 1500000 1 05 1 44 1 093 750* , , $ . .=US O custo real do dólar, para o pagamento desse crédito, não é igual a 5%, que corresponde aos juros pagos em euros, mas, sim, 9,375%: 192 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Custo = − =1093750 1000000 1 9 375, % Assim, o custo do dólar tornou-se mais alto do que o esperado, em função da apreciação da moeda europeia frente ao dólar. A expressão do custo de uma dívida em moeda interna (kint) é dada pela fórmula: kint = ((1 + kext ) * (1 + s)) - 1 Onde: kext = despesa com juros na moeda externa (em %); S Variação cambial Taxa inicial taxa final Taxa final = = − Usando os dados do exemplo anterior, temos que kext é igual a 5%. A variação cambial é dada por: Taxa inicial taxa final Taxa final − = − = = 1 50 1 44 1 44 4 167 0 0, , , , % , 44167 Assim, kint = ((1 + kext ) * (1 + s)) - 1 = ((1 + 0,05) * (1 + 0,04167)) - 1 = 0,09375 = 9,375% Percebe-se, desse modo, que as dívidas assumidas em moeda estrangeira são alta- mente sensíveis às variações na taxa de câmbio e a eventuais choques na relação de preços entre moedas. 193 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO 6.2.3 CUSTO GLOBAL DE CAPITAL Para que um acionista invista em uma empresa multinacional, é necessário obter as relações entre riscos e retornos. O cálculo de risco é relativamente conhecido na gestão financeira (e envolve uma relação entre ativos livres de risco e coeficientes de risco β relativos ao mercado). No entanto, em investimentos internacionais, é preciso também considerar os índices externosde mercado e da estrutura de ativos finan- ceiros relativos ao país onde o investimento será realizado (EITEMAN; STONEHILL; MOFFITT, 2002). A fórmula do custo de capital no exterior Ke é descrita do seguinte modo: Ke = KF + β (KM - KF) Onde: Ke = custo de capital no exterior (taxa mínima de retorno exigida pelos proprietários/ acionistas). KF = taxa de retorno de ativos livres de risco. β = coeficiente beta, relativo ao risco da empresa versus o risco de mercado. KM = rentabilidade da carteira de mercado. Percebe-se que a fórmula é uma tradução do modelo de precificação de ativos, que estima o custo de operação de capital próprio nas empresas. Na verdade, esse indica- dor demonstra o retorno esperado pelos acionistas que venham a investir na empre- sa, a partir de prêmios de risco e retorno. 194 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO Suponha que um investidor suíço deseja investir na TYC, uma empresa brasilei- ra. Para isso, ele precisa obter um retorno mínimo. Suas variáveis para decisão são as seguintes: Taxa de retorno livre de risco = 3,5% (valor pago por títulos da dívida suíça). Rentabilidade de mercado = 10% (índice da bolsa de valores suíça). Beta = 0,855. Seu retorno esperado é igual a Ke = KF +β(KM - KF) = 3,5% + 0,855*(10% - 3,5%) = 3,5% + 5,56% = 9,06% À medida que a globalização financeira avançou, tornou-se mais complexo avaliar com precisão o perfil de risco inerente a uma empresa multinacional, uma vez que ela pode transferir seus principais ativos e patrimônio para países com melhor dife- rencial de juros ou com melhores oportunidades de abertura de mercado, tornando necessário que o investidor acompanhe com clareza a situação macroeconômica dos países como um todo. BIBLIOGRAFIA COMENTADA Veja, a seguir, algumas indicações de obras que complementarão seu conhecimento sobre os assuntos abordados na disciplina. • DINIZ, Gustavo Saad. Grupos societários: da formação à falência. Rio de Janei- ro: Forense, 2016. Essa obra é particularmente interessante para esta unidade, em função das aborda- gens propostas para o tema da falência. Nesse livro, o autor utiliza-se de ferramentas 195 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO de Direito nacional e internacional para discutir a temática da insolvência e da falên- cia de empresas, especialmente no exterior – recomenda-se, assim, a leitura do capítu- lo VI, denominado “Falência de grupos multinacionais”, que explicita as dificuldades inerentes às legislações de diferentes países para a recuperação de ativos pertencen- tes à massa falida de empresas que passaram por processos de internacionalização de seus ativos. • OLIVEIRA JR., Moacir de Miranda et al. Multinacionais brasileiras: internacio- nalização, inovação e estratégia global. Porto Alegre: Bookman, 2010. Essa coletânea apresenta um debate importante a respeito das dificuldades encon- tradas pelas empresas brasileiras que se internacionalizaram a partir do século XX, em uma contribuição aos estudos de Administração Financeira Internacional. Os autores enfatizam que, de um modo geral, a atividade de exportar é restrita a gran- des empresas ou a agentes que disponham de mecanismos aduaneiros aprimora- dos, sendo que ainda poucas empresas conseguem concentrar a maior parte de suas vendas no mercado externo. Para a discussão proposta, recomenda-se em particular a leitura da parte II desse livro, denominada “Estratégias e desafios para as multina- cionais brasileiras”. CONCLUSÃO Esta unidade pode ser destacada pela sua interdisciplinaridade: de fato, ao enfatizar os aspectos das fusões e aquisições e das falências, o estudo dessa matéria transcen- de a Gestão Financeira, migrando para temas de Economia, Ciência Política e, em especial, do Direito. O diálogo com essas áreas, vale mencionar, é fundamental para que uma empresa possa manter padrões administrativos e contábeis coerentes com a realidade do mercado e com as legislações propostas para o Estado brasileiro. A Gestão Financeira mostra-se, de fato, uma disciplina multiforme, que exige um acom- panhamento constante das mudanças econômicas e sociais que possam afetar, de alguma forma, o cotidiano e as operações das empresas contemporâneas. O estudo aqui proposto mostra-se também importante para sua vida profissional, à medida que apresenta múltiplas possibilidades de negócios, a partir de um estudo mais aprofundado do ambiente externo: de fato, há inúmeros agentes envolvidos na 196 Gestão Financeira FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017SUMÁRIO rotina da empresa, nas esferas pública, privada e das instituições do terceiro setor, e todas estas partes interessadas, de alguma forma, interferem nas atividades da empresa, positiva ou negativamente, gerando encargos e receitas; e estes stakehol- ders justificam, de um certo modo, o funcionamento e os objetivos gerais da empresa, na direção da geração de receita e maximização de margens de lucro. Assim sendo, é importante lembrar que a internacionalização de uma empresa, ao mesmo tempo que pode constituir-se em uma fonte de lucros extraordinários a partir da abertura de novos mercados, também pode se tornar uma fonte importante de custos e encar- gos, em função da abertura de novas filiais, da adequação a legislações dos países de destino e dispositivos multilaterais, bem como em função da taxa de câmbio e da volatilidade do mercado. No entanto, o mundo não está fechado apenas aos gran- des players: todo agente que disponha de um produto ou serviço viável no mercado encontra, hoje, condições de extrapolar fronteiras e buscar áreas de valorização de seu negócio, dentro dos padrões de comunicação e de circulação de capitais que se viabilizaram no século XXI. 197 FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Gestão Financeira SUMÁRIO REFERÊNCIAS AMADO, Adriana Moreira. Limites monetários ao crescimento: Keynes e a não-neutralida- de da moeda. ensaios Fee, Porto Alegre, v. 21, n. 1, p. 44-81, 2000. Disponível em: <https:// revistas.fee.tche.br/index.php/ensaios/article/viewFile/1960/2339>. Acesso em: 16 maio 2019. ANTUNES JÚNIOR, J. A. V. et al. sistemas de produção: conceitos e práticas para projetos e gestão da produção enxuta. Porto Alegre: Bookman, 2008. ASSAF NETO, Alexandre; LIMA, F. G. curso de administração Financeira. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2014. ASSAF NETO, Alexandre; SILVA, César Augusto Tibúrcio. administração do capital de Giro. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2012. BAYE, Michael. economia de empresas e estratégias de negócios. Trad. André Fernan- des Lima, Joaquim Carlos Racy, Marcel Guedes Leite, Márcia Flaire Pedroza. Porto Alegre: AMGH, 2010. BERK, Johathan; DEMARZO, Peter. Finanças empresariais - essencial. Porto Alegre: Bookman, 2010. BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia 3ª edição. São Paulo: Pearson, 2004. CALEIRO, João Pedro. 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TABELA 1 - Balanço Patrimonial simplificado TABELA 2 - Demonstrativo de aplicação de gestão de estoques mediante o indicador LEC TABELA 3 - Demonstrativo de resultados (seleção) TABELA 4 - Demonstrativo de resultados (dados selecionados) TABELA 5 - Demonstrativo de resultados (dados selecionados sobre receitas de venda) TABELA 6 - Estoques e custo de mercadorias TABELA 7 - Período de Payback Descontado mediante uma TMA TABELA 8 - Payback Descontado mediante alteração na TMA TABELA 9 - Período de Payback Descontado mediante uma dada TMA TABELA 10 - Dados de operação de duas empresas selecionadas (em R$ mil) TABELA 11 - Atualização de valores mediante aumento em vendas (em R$ mil) TABELA 12 - Efeitos da alteração de custos fixos sobre os resultados gerais TABELA 13 - Demonstrativo de resultados TABELA 14 - Operação de redesconto de duplicata TABELA 15 - Juros e saldos devedores em recebimento de duplicata TABELA 16 - Fluxos de capital de um empréstimo de pagamento final TABELA 17 - Fluxos de pagamento de empréstimo pré-fixado 1 Planejamento Financeiro – Orçamento de Caixa 1.1 Orçamento de caixa 1.2 Movimentos de saída e entrada de recursos em caixa 1.2.1 Fluxos de curto prazo 1.3 Fluxos de médio prazo 1.4 Gestão de um orçamento de caixa e seus aspectos econômicos 1.4.1 Determinação do caixa ótimo Conclusão 2 Capital Circulante Líquido (CCL) e financiamentode curto prazo Introdução 2.1 BALANÇO PATRIMONIAL: RECUPERANDO CONCEITOS 2.1.1 Ativo Circulante 2.1.2 Passivo Circulante 2.2 CAPITAL DE GIRO, CAPITAL CIRCULANTE LÍQUIDO (CCL) E SUA OPERACIONALIZAÇÃO 2.3 INDICADORES DE LIQUIDEZ 2.4 NECESSIDADES DE FINANCIAMENTO DE CAPITAL DE GIRO Conclusão Bibliografia comentada 3 Gestão de Estoque e Títulos Negociáveis Introdução 3.1 Administração de estoques 3.1.1 Decisões de compras 3.1.2 Lote econômico de compras (LEC) 3.2 Operacionalização de estoques e índices de prazos médios 3.2.1 Giro de estoques e prazo médio de estocagem 3.2.2 Giro das contas a receber (GCR) e prazo médio de recebimento de vendas (PMRV) 3.2.3 Prazo médio de pagamento de fornecedores (PMPF) 3.2.4 Relações entre índices de prazos médios 3.3 Administração de caixa e títulos negociáveis 3.3.1 Eficiência na administração de caixa 3.3.2 Títulos negociáveis Conclusão BIBLIOGRAFIA COMENTADA 4 Orçamento de capital e avaliação de investimentos Introdução 4.1 Planejamento financeiro e ferramentas de controle 4.1.1 Orçamento de capital 4.1.2 Cálculo do Payback simples 4.1.3 Valor Presente Líquido (VPL) 4.1.3.1 Taxa Interna de Retorno (TIR) 4.1.3.2 Taxa Mínima de Atratividade (TMA) 4.1.3.3 Vantagens e limitações do método VPL 4.1.4 Método de Payback Descontado 4.2 Risco e retorno 4.3 Orçamento de capital, inflação e taxa de câmbio 4.3.1 Inflação 4.3.2 Taxa de câmbio BIBLIOGRAFIA COMENTADA Conclusão 5 Custo de Capital: Conceitos e Aplicações Introdução 5.1 Estrutura e custo de capital 5.1.1 Estrutura de capital 5.1.2 Custo de capital 5.1.2.1 Custo de capital de terceiros 5.1.2.2 Custo de capital próprio 5.2 Alavancagem operacional e financeira 5.2.1 Alavancagem operacional 5.2.2 Alavancagem financeira 5.3 Gerência de operações passivas 5.3.1 Operações com recursos próprios 5.3.2 Operações com recursos de terceiros 5.3.2.1 Empréstimos pré-fixados com pagamento final 5.3.2.2 Empréstimos pré-fixados com pagamento parcelado Bibliografia comentada Conclusão 6 O ambiente externo e aspectos de Administração Financeira Internacional Introdução 6.1 O AMBIENTE EXTERNO 6.1.1 Fusões e Aquisições 6.1.1.1 Motivações e modalidades dos processos de fusão e aquisição 6.1.2 Parcerias e Joint-ventures 6.1.3 Defesa da Concorrência 6.1.4 Processos de Alienação de Investimentos 6.1.5 Insolvência e Falência 6.1.5.1 Indicadores de insolvência 6.2 NOTAS SOBRE ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA INTERNACIONAL 6.2.1 Observações sobre a Economia Internacional no pós-Guerra (1945 – 2000) 6.2.2 Taxa de Câmbio e Investimento Estrangeiro Direto (IED) 6.2.3 Custo Global de Capital BIBLIOGRAFIA COMENTADA Conclusão REFERÊNCIAS