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Fadiga, perda de peso e anemia
Prob 4 – “Mais uma chance”
DIFERENCIAR USO, ABUSO, DEPENDENCIA,
ABSTINENCIA E TOLERANCIA A DROGAS
Uso = É a autoadministração de qualquer quantidade de
substância psicoativa. É considerado o consumo em geral
de forma experimental, esporádica ou episódica, também
conhecido como uso social.
Abuso = Pode ser entendido como um padrão de uso que
aumenta o risco de consequências
prejudiciais para o usuário. Segundo a Classificação
Internacional de Doenças (CID), o termo “uso nocivo” é
aquele que resulta em dano físico ou mental, enquanto no
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais
(DSM) “abuso” engloba também consequências sociais.
Refere-se a um padrão mal-adaptativo ou excessivo do uso
de substâncias psicoativas, manifestando por consequências
clínicas adversas recorrentes e significativas relacionadas ao
uso das substâncias.
Dependência = Conjunto de sintomas cognitivos,
comportamentais e fisiológicos que indicam o uso
compulsivo da droga, mesmo conhecendo os problemas
relacionados a esse comportamento, podendo desenvolver
tolerância e/ou abstinência.
Dependência é o impulso que leva a pessoa a usar uma droga
de forma contínua (sempre) ou periódica (freqüentemente)
para obter prazer. Alguns indivíduos podem também fazer
uso constante de uma droga para aliviar tensões,
ansiedades, medos, sensações físicas desagradáveis, etc. O
dependente caracteriza-se por não conseguir controlar o
consumo de drogas, agindo de forma impulsiva e repetitiva.
É compreendida como o consumo sem controle e associado
ao desenvolvimento de problemas mais graves para o
indivíduo em diferentes áreas (física, psicológica e social) de
sua vida.
Abstinência = Abstinência é uma síndrome que ocorre
quando as concentrações de uma substância no sangue ou
nos tecidos diminuem em um indivíduo que manteve uso
intenso prolongado. Após desenvolver sintomas de
abstinência, o indivíduo tende a consumir a substância para
aliviá-los. Os sintomas de abstinência apresentam grande
variação de uma classe de substâncias para outra, e
conjuntos distintos de critérios para abstinência são
fornecidos para as classes de drogas.
Tolerância = A tolerância é sinalizada quando uma dose
acentuadamente maior da substância é necessária para
obter o efeito desejado ou quando um efeito
acentuadamente reduzido é obtido após o consumo da dose
habitual. O grau em que a tolerância se desenvolve
apresenta grande variação de um indivíduo para outro,
assim como de uma substância para outra, e pode envolver
uma variedade de efeitos sobre o sistema nervoso central.
Por exemplo, tolerância a depressão respiratória e tolerância
a sedação e coordenação motora podem se desenvolver em
ritmos diferentes, dependendo da substância.
CONHECER A FISIOPATOLOGIA, QUADRO
CLINICO, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA
INTOXICAÇÃO POR ÁLCOOL, MACONHA,
COCAÍNA, ALUCINÓGENOS (LSD, MDMA) E
CRACK
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o
consumo de baixo risco corresponde até uma dose por dia,
para a mulher e para o indivíduo com idade superior a 65
anos, e até duas doses por dia para o homem,
considerando-se 180 ml de vinho, 360 ml de cerveja ou 45
ml de bebidas destiladas como uma dose padrão contendo
cerca de 12 gramas de álcool. O consumo prejudicial ou de
alto risco corresponde, no homem, a mais de 14 doses por
semana ou mais de quatro doses por ocasião, e, na mulher,
a mais de sete doses por semana ou mais de três doses por
ocasião.
INTOXICAÇÃO POR ALCOOL
A intoxicação alcoólica aguda é uma condição clínica
transitória decorrente da ingestão de bebidas alcoólicas
acima do nível tolerado pelo indivíduo, o que produz
alterações psíquicas e físicas suficientes para interferir em
seu funcionamento normal. Seus estágios variam de
embriaguez leve a anestesia, coma, depressão respiratória e,
mais raramente, morte.
Fisiopatologia
1. Depressão do SNC por potencialização da ação do
ácido gamaaminobutírico (GABA)
2. Bloqueio do receptor n-metil-d-aspartato (NMDA)
do glutamato.
O álcool etílico exerce o seu efeito tóxico através de vários
mecanismos farmacológicos/toxicológicos, afetando
particularmente áreas do cérebro envolvidas na formação
da memória, decisão, controlo de impulsos, alterando o
balanço que existe entre as vias inibitórias e excitatórias.
O etanol induz alteração da composição e fluidez das
membranas, provocando aumento da concentração de
fosfoglicerídeos, o que conduz a uma maior fluidez,
tornando a membrana particularmente sensível. Em
consequência, ocorrem alterações funcionais nas
membranas, tomando este efeito especial importância nas
células do sistema nervoso central (SNC), nomeadamente no
sistema ativador reticular. A depressão que o etanol provoca
neste sistema é responsável pela inibição de várias funções
de controle, observando-se alterações comportamentais,
caraterísticas da intoxicação alcoólica aguda.
A ação toxicológica do álcool etílico envolve também a
atuação a nível dos neurotransmissores e seus receptores.
Provoca a potenciação dos efeitos inibitórios do Gamma
Amynobutiric-Acid (GABA) nos receptores GABA, que se
encontram associados a canais de cloro, formando um
complexo funcional. A estimulação deste sistema de canais
contribui para os sintomas de sonolência e relaxamento
muscular associados à ingestão aguda de etanol.
Por outro lado, o etanol induz bloqueio dos receptores de
glutamato (neurotransmissor excitatório), nomeadamente
do N-metil-D-aspartato (NMDA), causando assim efeito
depressor no SNC. De acordo com estudos feitos em
animais, este bloqueio deve-se à inibição competitiva da
ligação das glicinas à subunidade Glu-N1, no recetor NMDA,
conduzindo a um bloqueio na neurotransmissão do
glutamato. Do bloqueio do receptor NMDA resulta uma
diminuição no influxo de cálcio pelos neurónios. Estes
efeitos, resultantes do excessivo consumo de etanol, ajudam
a compreender a perda de memória a curto prazo e,
também a deterioração da função motora.
Para além dos mecanismos supracitados, o receptor
nicotínico da acetilcolina (ACh) também é sensível aos
efeitos do etanol, pois a ingestão aguda de etanol aumenta
a quantidade de ACh na área tegmentar ventral, com
aumento subsequente da concentração de dopamina no
núcleo acumbente, desempenhando um papel importante
nas sensações de euforia e gratificação, efeitos resultante
do consumo excessivo de etanol. A atividade dopaminérgica
do núcleo acumbente também pode ser afetada por vários
tipos de receptores opióides e tendo em consideração que a
ingestão aguda de etanol provoca a libertação de péptidos
opiáceos endógenos, a ativação destes receptores (do
tegmento ventral e do núcleo acumbente) provoca
libertação de dopamina, o que contribui para o caraterístico
estado de euforia, como havia sido referido anteriormente
Absorção
A grande maioria das intoxicações pelo etanol ocorrem pela
via digestiva, com absorção através das mucosas da boca,
esófago, estômago e cólon. A maior parte ocorre a nível da
porção proximal do intestino delgado, sendo que pode
também ocorrer absorção pelas vias pulmonar e cutânea
numa percentagem muito menor. Por via pulmonar, o etanol
é facilmente absorvido por difusão, atravessando a
membrana alvéolo-capilar. A absorção cutânea, ainda que
pouco comum como anteriormente referido, permite
compreender a facilidade do etanol em atravessar
membranas biológicas.
No sistema gastrointestinal, a absorção do álcool etílico é
efetuada no estômago em cerca de 20 a 30%, sendo a
restante efetuada no intestino delgado, principalmente no
duodeno, pela sua elevada área de superfície e eficiente
mecanismo das microvilosidades. A absorção do álcool
etílico é extremamente rápida, iniciando-se 5 a 10 minutos
após a ingestão do mesmo, e cerca dos15 minutos metade
da quantidade ingerida já está absorvida. A concentração
máxima sérica de álcool etílico é atingida em cerca de 30
minutos a uma hora, sendo que a absorção do etanol é total,
não se encontrando vestígios do mesmo nas fezes. Duas a
três horas depois da ingestão, a absorção é completa.
A absorção é afetada por diversos fatores, sendo que um
deles é a quantidade de alimentos no sistema digestivo. Em
jejum, a absorção duodenal é ainda mais rápida. Uma vez
que a absorção ao nível do intestino delgado é mais rápida
que ao nível gástrico, a velocidade de esvaziamento no
estômago influencia a absorção na mucosa gástrica. Assim,
fatores como a presença de alimentos ou de alguns
fármacos como o ácido acetilsalicílico, doença gástrica ou
tempo entre o início e o fim da ingestão de bebidas
alcoólicas podem contribuir para o atraso na absorção. Estes
fatores podem fazer com que a absorção se atrase até 6h.
De notar que no intestino os alimentos não têm qualquer
influencia na absorção do etanol. A concentração de etanol
é também um dos fatores que influencia o processo de
absorção. As bebidas moderadamente alcoólicas (20% v/v)
são as mais rapidamente absorvidas.
Distribuição
A distribuição do etanol pelos tecidos corporais é efetuada
através do processo de difusão, que é maioritariamente
regulado por dois fatores principais: a concentração da água
no sangue e a concentração do álcool etílico no sangue.
Estes fatores determinam que, por exemplo, a concentração
de álcool no sangue possa ser diferente caso se trate de
sangue venoso ou arterial, dependendo da quantidade de
água de cada um. A concentração do álcool nos diferentes
tecidos depende, assim, da quantidade de água presente
nesses mesmos tecidos. Assim, dado que com o aumento da
idade ocorre diminuição da água corporal, espera-se maior
concentração de etanol no sangue nos indivíduos mais
velhos. O mesmo ocorre para as mulheres em relação aos
homens, que possuem menor percentagem de água corporal
(com maior percentagem de tecido adiposo).
No caso específico da gravidez, aquando da ingestão de
bebidas alcoólicas, o álcool etílico atravessa com celeridade
a placenta, atingindo concentrações no feto semelhantes às
apresentadas pela mãe. Em órgãos com abundante irrigação
sanguínea, como o encéfalo, em que a velocidade de
acumulação é determinada pelo fluxo sanguíneo, a
distribuição do etanol processa-se muito rapidamente e este
atinge com rapidez concentrações significativas para lá da
barreira hematoencefálica.
Metabolismo
A quase totalidade do álcool etílico ingerido,
aproximadamente 90 a 95%, é metabolizado por um
processo de oxidação em duas etapas, que ocorre nos
hepatócitos. A primeira etapa desta oxidação é a passagem
do etanol a acetaldeído e tem lugar no citoplasma celular.
Esta reação pode ocorrer através de três mecanismos
diferentes dependentes de três enzimas distintas.
1. A principal via de oxidação do etanol é a da álcool-
desidrogenase (ADH), que até há poucos anos era
a única via conhecida para esta degradação. O
etanol é transformado em acetaldeído por ação
desta enzima tendo como cofator a
nicotinamidaadenina-dinucleótido (NAD), que é
reduzida a NADH. A ADH tem elevada incidência nos
hepatócitos do fígado, mas também nas células do
estômago. Esta reação é catalisada pela NAD que se
consome muito rapidamente em todo o processo.
Assim, a velocidade desta reação será determinada
pela reoxidação da NADH, que pode ocorrer por
diversas vias, nomeadamente pela redução do
piruvato em lactato, por ação da lactato
desidrogenase (LDH).
2. A segunda via de metabolização do álcool etílico
em acetaldeído envolve o sistema microssomal de
oxidação do etanol, que se encontra no retículo
endoplasmático. Neste são oxidados cerca de 10%
do etanol, desde que se apresente em
concentrações elevadas no sangue e ocorre
principalmente em situações de consumo crónico
de álcool etílico. A principal enzima envolvida nesta
via é a isoforma do citocromo P-450, a CYP2E1. Esta
reação tem como cofator o NADPH, sendo reduzido
a NADP no decorrer da oxidação do etanol. Este
sistema não é específico do etanol, como não é
nenhuma das vias de oxidação desta molécula, pelo
que pode ser um importante local de interação do
álcool etílico com outros fármacos devido à
competição para o mesmo sistema de oxidação. Por
essa razão, o consumo agudo de etanol pode
diminuir a metabolização de diversos fármacos
como antidepressivos tricíclicos, neurolépticos ou
benzodiazepinas, potenciando assim o seu efeito a
nível do SNC.
3. A terceira via de metabolização do etanol em
acetaldeído ocorre por ação da enzima catalase
que está presente na maioria dos tecidos, com
especial incidência nos microssomas hepáticos.
Esta via oxidativa tem uma importância menor na
degradação do etanol uma vez que utiliza peróxido
de hidrogénio, composto que está presente em
pouca quantidade nos hepatócitos.
A segunda etapa da oxidação do etanol é a oxidação do
acetaldeído previamente formado em ácido acético. Esta
reação é catalisada pela enzima aldeído desidrogenase
(ALDH) e ocorre na mitocôndria, utilizando também o NAD
como cofactor. Se a regeneração deste cofator for
insuficiente, esta via de metabolização torna-se saturada.
O acetaldeído é bastante tóxico e é responsável por
sintomas típicos da intoxicação por etanol, nomeadamente
rubor facial, hipotensão, náuseas ou vómitos. Esta situação
toma particular importância em situações de déficit genético
de ALDH, como acontece nos povos orientais e originários do
Anel do Pacífico. O ácido acético é finalmente oxidado em
dióxido de carbono e água numa última etapa que envolve o
ciclo de Krebs.
Excreção
Como já descrito anteriormente, a grande maioria do etanol
ingerido é eliminado metabolicamente no fígado através de
oxidações enzimáticas (cerca de 90 a 95%), sendo que a
restante quantidade é excretada sem alterações pelos rins,
pulmões e pele (através do suor). Há ainda uma ínfima
quantidade que pode ser excretada pela saliva ou pelo leite
em mães lactantes.
Quadro clinico
Fases da intoxicação aguda por álcool
• Euforia (NAS = 0.03 a 0.12 %). Perda da autocrítica
e excesso de autoconfiança, perda da concentração
e atenção, rubor facial e dificuldade de movimentos
finos, como escrever ou assinar seu nome;
• Excitação (NAS = 0.09 a 0.25 %). Sonolência,
dificuldade para entender e lembrar fatos (mesmo
os mais recentes), reações lentas, movimentos
incoordenados, perda fácil do equilíbrio, visão turva
e perda de audição, paladar, sensibilidade, etc.
• Confusão (NAS = 0.18 a 0.30 %). Profunda confusão
não sabendo onde se encontra e o que está
fazendo, vertigens e quedas, agressividade, valentia
e violência, fala, visão e percepção prejudicas,
incoordenação, pouca resposta a estímulos
dolorosos, náuseas e vômitos freqüentes.
• Estupor (NAS = 0.25 a 0.4 %). Movimentos muito
prejudicados, lapsos de consciência, e sonolência
até o coma.
• Coma (NAS = 0.35 a 0.50 %). Inconsciência, abolição
dos reflexos pupilares, respiração lenta e superficial
e ritmo cardíaco irregular, podendo evoluir para
óbito.
• Morte (NAS > 0.50 %). Falência do Sistema Nervoso
Central resultando em morte.
Apresenta um conjunto de sinais e sintomas relacionados
com a ação direta do etanol sobre o SNC, exercendo o seu
efeito depressor, após absorção, ao atingir as formações
corticais e à medida que a concentração vai aumentando,
alcança as funções vegetativas. Os sintomas são
dependentes de vários fatores, nomeadamente da
concentração de etanol no sangue. Portanto, apresenta um
efeito dose dependente.
As alterações de comportamento decorrentes da
intoxicação alcoólica aguda incluem exposição moral,
comportamento sexual de risco, agressividade, labilidade
de humor,diminuição do julgamento crítico,
funcionamento social e ocupacional prejudicados. Mais
especificamente, a intoxicação pode provocar alterações
variáveis no afeto (excitação, alegria, irritabilidade), na fala
(fala pastosa ou arrastada), no comportamento
(impulsividade, agressividade, diminuição do desempenho
motor e ataxia) e no pensamento (pensamento lento,
redução da capacidade de raciocínio e juízo crítico), além de
hálito etílico, conjuntivas hiperemiadas e marcha ébria.
Considerando a sintomatologia apresentada pelo doente
intoxicado e, correlacionando a mesma com as
concentrações de etanol no sangue, a intoxicação alcoólica
aguda pode classificar-se em vários graus. Na intoxicação
moderada, considerando concentrações entre 20 e 60
mg/dL), o indivíduo começa por exibir euforia, relaxamento,
diminuição da preocupação e rubor facial. À medida que as
concentrações de etanol aumentam pode ocorrer ataxia,
discurso arrastado, aumento do tempo de reação,
taquicardia, redução gradual da acuidade visual, nistagmo
e diaforese. Para níveis acima de 130 mg/dL, começa a surgir
disforia, em detrimento da euforia, e podem surgir náuseas,
vómitos e desequilíbrio.
Em intoxicação profunda produz-se sedação que progride
para um estado de inconsciência, coma, depressão
respiratória e pode ocorrer aspiração pulmonar. Os
indivíduos podem também apresentar temperatura
corporal, pressão sanguínea, e pulso baixos. Estes sintomas
podem levar à morte, sendo que a linha entre os efeitos
anestésicos do etanol e os letais é muito ténue. A
concentração a que estes efeitos se manifestam é variável
estando dependentes de fatores a seguir explicados.
Contudo, é provável que para níveis iguais ou superiores a
300 mg/dL a maioria dos indivíduos (com consumo não
crónico de álcool) se encontre em estado de coma. Os
sintomas referidos são potenciados quando administrados
em concomitância com fármacos depressores do SNC, como
sejam as benzodiazepinas
Diagnostico
A intoxicação aguda por álcool é um diagnóstico de
exclusão. Antes de assumir que o comportamento de um
paciente é causado apenas pelo álcool, outras condições
devem ser consideradas, particularmente coingestantes,
traumatismo craniano e infecção. Hipoglicemia, hipóxia,
narcose por dióxido de carbono, overdose por mistura de
álcool e drogas, intoxicação por etilenoglicol, intoxicação por
isopropanol ou metanol, encefalopatia hepática, psicose,
vertigem severa, estado pós-ictal e crises psicomotoras
podem se manifestar de forma semelhante à da intoxicação
por etanol.
A determinação do nível de álcool no sangue não é
rotineiramente necessária para cuidar do paciente
intoxicado quando há provas claras da ingestão de álcool,
como a confirmação pelo paciente.
Quando o estado mental está suficientemente alterado, um
bom histórico não pode ser obtido, há evidências de
traumatismo craniano, ou o paciente não consegue
melhorar (desintoxicar) conforme o esperado, determinar o
nível de álcool sérico ou medir o nível de álcool por meio
do bafômetro podem ser medidas úteis.
Se o grau de obnubilação não for proporcional ao nível
mensurado, e outros resultados de testes laboratoriais (p.
ex., triagem toxicológica e níveis de eletrólitos) não explicam
o estado mental alterado, é indicada uma tomografia
computadorizada de crânio.
Um histórico adequado do serviço pré-hospitalar, pacientes
e familiares, bem como a realização de exames físicos em
série (especialmente do estado mental) e testes no leito,
como o nível de glicose e oximetria, podem ajudar a
esclarecer a situação clínica e orientar o teste.
Os exames de sangue podem ser úteis se o histórico estiver
em dúvida e também ajudar os pacientes a reconhecer que
o álcool afetou negativamente sua saúde. Os testes de
função hepática que medem os níveis de AST e ALT podem
identificar bebedores crônicos e alcoólatras com
sensibilidades de 25% a 45% e especificidades elevadas,
chegando a 90%.
• Uma proporção de AST para ALT superior a 2,
especialmente se as concentrações dessas enzimas
não excederem 400 unidades/L, sugere hepatite
alcoólica.
No paciente aparentemente intoxicado com estado mental
alterado, o nível de glicose sérica, geralmente como um
teste de ponto de cuidado, deve ser medido para avaliar a
hipoglicemia.
No paciente alcoólatra, os níveis de eletrólitos devem ser
determinados a procura de hipomagnesemia,
hipofosfatemia, hiponatremia e acidemia. Deve ser obtida
uma contagem sanguínea completa para avaliação de
anemia, leucopenia e trombocitopenia, e deve-se obter o
nível de lipase sérica para avaliar pancreatite se o paciente
estiver com dor ou uma sensibilidade abdominal grave,
especialmente se acompanhada de vômitos. Um
eletrocardiograma (ECG) é indicado para taquiarritmias ou
dor torácica (p. ex., Síndrome do coração pós feriado
(Holiday Heart), isquemia aguda). Uma tomografia
computadorizada do crânio ou da coluna cervical pode ser
indicada se traumatismo craniano ou convulsões forem
suspeitados ou confirmados, ou ainda se o estado mental
do paciente não estiver claro. Uma radiografia do tórax
pode ser obtida na suspeita de cardiomiopatia ou
pneumonia infecciosa.
Com o objetivo de auxiliar na determinação do uso nocivo
de álcool e outras drogas, propõe-se a utilização
complementar de instrumentos de rastreamento ou
triagem, que podem ser usados com o mínimo de
treinamento, contribuem na realização de uma avaliação
breve e são úteis na rotina profissional, por serem de fácil e
rápida aplicação. Esses instrumentos oferecem pontuação
clara que indica a probabilidade de problemas relacionados
ao álcool e outras drogas, apesar de não serem
instrumentos de diagnóstico. Recomenda-se sua aplicação
na atenção básica em saúde porque os serviços muitas vezes
estão sobrecarregados, diante de diferentes tipos de
problemas que devem ser abordados, e, por essa razão,
determinados procedimentos precisam ser realizados de
forma rápida e confiável.
A triagem deve ser feita em adolescentes, adultos e idosos,
após quadros de intoxicação aguda ou no caso de
sintomatologia devido ao uso de álcool ou tabaco; em
exames de saúde de rotina; e antes de prescrever
medicamentos. O uso problemático ou abuso de álcool deve
ser extensivamente investigado principalmente naqueles
pacientes com queixas e diagnósticos gastrointestinal,
cardiovascular, acidente vascular cerebral, câncer,
impotência, suspeita de síndrome alcoólica fetal e em
eventos traumatológicos ou violentos.
O questionário Cage (Cut down, Annoyed by criticism, Guilty
and Eye-opener), apresentado no quadro 8, é um dos mais
utilizados para detectar o uso nocivo de álcool. Também
indica prováveis casos de dependência, apresentando boa
sensibilidade e especificidade a partir de duas respostas
positivas entre as quatro apresentadas, podendo ser
acrescentadas ainda as duas questões seguintes:
• Você já teve problemas relacionados ao uso de
álcool?
• Você bebeu nas últimas 24 horas?
Após a avaliação do padrão de consumo de substâncias
psicoativas e dos possíveis problemas associados, o paciente
pode estar fazendo o uso:
• Sem apresentar problemas, porém deve saber que
não existe uso seguro de SPAs;
• Apresentando problemas, mas não é dependente,
sendo necessário, porém, reduzir o consumo e
tornar-se responsável pela mudança;
• Apresentando dependência, e, nesse caso, uma
investigação mais aprofundada deve ser feita
focando a presença de tolerância e síndrome de
abstinência.
Para a formulação do diagnóstico empregam-se os critérios
de classificação para uso nocivo ou dependência de
substâncias psicoativas da Classificação Internacional de
Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde (OMS),
apresentados nos quadros 10 e 11.
Uso nocivo é o termo empregado naCID-10, sendo
equivalente a abuso ou uso problemático, utilizados em
outros textos. Em outro sistema classificatório, o Manual
Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM-IV),
da Associação Psiquiátrica Americana (APA), menos usado
na atenção básica, o termo abuso é adotado integralmente.
Em situações de intoxicação aguda:
• Verificar a atividade e a aparência dos pacientes,
nível de consciência e his- tória (entrevistar amigos
e parentes se necessário)
• Averiguar quais foram as substâncias ingeridas,
inaladas ou injetadas; esti- mar doses usadas e há
quanto tempo (entrevistar pessoas próximas). Caso
tenha passado de 6 a 8 horas desde a última dose é
preciso o diagnóstico diferencial para a síndrome de
abstinência.
• Determinar se foi a primeira experiência com a
droga, se há uso eventual ou se o paciente é usuário
crônico (pois este poderá desenvolver uma
síndrome de abstinência após o quadro de
intoxicação).
Tendo estabelecido o diagnóstico do paciente, é necessário
informar-lhe do seu resultado, a fim de envolvê-lo no
planejamento do seu cuidado. Nesse sentido, alguns
princípios gerais de devolutiva devem ser levados em
consideração e devidamente esclarecidos ao usuário:
• Ter em mente os critérios de uso nocivo e
dependência;
• Explicar o método de avaliação utilizado;
• Afirmar que o usuário não é culpado do problema;
• Afirmar que o usuário será responsável pela
mudança seguinte;
• Explicar o plano de tratamento mínimo ou
encaminhamento;
• Sugerir participação de familiar ou amigo (no caso
de adolescente, um responsável);
• Planejar o retorno.
Tratamento
O tratamento é sintomático dos sinais e sintomas da
intoxicação aguda: depressão do sistema nervoso central,
depressão respiratória, acidose respiratória, hipoglicemia,
hipotensão e vômitos com aspiração. Para os casos mais
leves, como o uso de hidratação e glicose 50% endovenosa e
de lavagem gástrica com antagonista opioide como naloxona
em casos de coma.
Não medicamentoso
A intoxicação aguda por álcool é autolimitada. Muitas vezes,
o simples ato de assegurar a interrupção da ingesta de
álcool, posicionar o paciente em decúbito lateral, evitando
a broncoaspiração do vômito, e proporcionar um ambiente
seguro e livre de estímulos pode ser uma medida bastante
eficazes.
Em certas ocasiões, entretanto, o paciente pode se
apresentar heteroagressivo. Nesse caso, é importante que a
equipe de segurança seja acionada para a proteção do
próprio paciente e da equipe de saúde, e, não raro, o
paciente necessita ser medicado e contido no leito.
O exame físico deve ser realizado o quanto antes na
admissão a fim de detectar sinais de complicações (p. ex.,
crises hipertensivas e traumatismos craniencefálicos), de
comorbidades ou cronicidade da patologia (p. ex.,
hepatomegalia e desnutrição) e de hipoglicemia mediante
glicemia capilar. Sempre que possível, exames laboratoriais
devem ser indicados (p. ex., hemograma, função hepática,
função renal e raio X de tórax) e, quando pertinentes à clínica
apresentada, exames complementares também devem ser
solicitados.
Medicamentoso
Para o tratamento da intoxicação alcoólica aguda não existe
um antídoto específico, ao contrário do que acontece para
outros tóxicos.
Deste modo, na intoxicação alcoólica aguda o tratamento a
realizar é de suporte, sendo os principais objetivos o de
acelerar a eliminação do etanol e neutralizar os seus efeitos
depressores sobre o SNC, permitindo a estabilização da
condição clínica do doente. O tipo de intervenção a realizar
para a sua estabilização estará necessariamente dependente
da apresentação clínica do intoxicado.
• Desobstruir vias aéreas e administrar oxigênio
suplementar quando necessário;
• Monitorizar sinais vitais;
• Manter acesso venoso calibroso;
• Hidratação adequada.
O tratamento deve assegurar uma função respiratória
adequada, sendo que a observação da respiração deve ser
feita e, se necessário proceder à proteção das vias aéreas
para prevenir aspiração. A intubação e ventilação assistida
são realizadas quando o doente se encontra extremamente
intoxicado ou já em estado comatoso.
A administração de fluidos por via intravenosa, quando
clinicamente indicada, tem como objetivo a reidratação do
doente e simultaneamente correção do desequilíbrio
eletrolítico, assim como da hipoglicemia e eventuais
hipovitaminoses. São administrados por esta via glicose,
tiamina (vit.B1) e cloreto de sódio. A tiamina é administrada
em simultâneo com a glicose para evitar a diminuição
induzida por esta última, impedindo que ocorra uma
encefalopatia de Wernicke, particularmente em alcoólicos.
Em doentes com demarcada agitação e, até violência,
poderão ser administrados fármacos com propriedades
farmacológicas sedativas, nomeadamente benzodiazepinas
ou mesmo neurolépticos (habitualmente tiaprida ou
haloperidol). Deve-se preferir o haloperidol por menor
possibilidade de interação com o álcool. Os
benzodiazepínicos possuem os menores efeitos
respiratórios e depressivos cardíacos de todos os
depressores do SNC, e podem ser administrados por via
parenteral ao paciente não cooperativo. Ao interagir com os
receptores ligados ao canal de íons cloreto associado ao
GABA, os benzodiazepínicos substituem a retirada do efeito
potencializador do GABA do álcool e diminuem os sinais e
sintomas da abstinência. Além disso, a desintoxicação com
benzodiazepínicos reduz a convulsão por abstinência
alcoólica e deve ser iniciada precocemente, porque a
maioria das convulsões ocorre nas primeiras 24 horas após a
retirada do álcool. Uma dose inicial de 2 mg de lorazepam ou
5 mg de diazepam pode ser administrada IV. Essas doses
frequentemente precisam ser repetidas. Contudo, é de
salientar a possibilidade de ocorrência de interações dos
fármacos referidos com o álcool, pelo efeito aditivo de
ambos, o que pode conduzir a um quadro de depressão
respiratória.
O uso de tiamina 300mg intramuscular (IM) é indicado a
todos os pacientes, como profilaxia da síndrome de
Wernicke–Korsakoff, sempre 30 minutos antes da aplicação
de glicose hipertônica intravenosa, no caso desta ser
indicada.
É importante lembrar que a conduta de instalação de soro
fisiológico e glicose hipertônica intravenosa somente deve
ser utilizada se o paciente se apresentar desidratado ou
hipoglicêmico, respectivamente. Não se recomenda essa
prática como modo de abreviar o tempo de permanência do
paciente no pronto-socorro ou de interrupção da
intoxicação.
Cabe ressaltar que medicações que apresentam efeito
cruzado com o álcool devem ser evitadas, incluindo os
benzodiazepínicos e histamínicos (prometazina). Em casos
de agitação psicomotora e heteroagressividade,
recomenda-se dar preferência aos antipsicóticos de alta
potência, como o haloperidol 5mg IM, com intervalos de 30
minutos até a sedação.
Em pacientes com intoxicação severa, o carvão ativado e a
lavagem gástrica geralmente não são úteis devido a rápida
taxa de absorção de etanol pelo trato gastrointestinal, a
não ser que se suspeite da ingestão concomitante de outro
tóxico, ou ainda se se tratar da ingestão massiva de etanol,
e, no máximo, deve ser feita após os primeiros 30 a 45
minutos que se sucedem à ingestão.
Pacientes com intoxicação grave que requerem cuidados de
suporte agressivos podem ser mantidos no departamento de
emergência em uma unidade de observação ou internados
no hospital. A maioria dos pacientes que apresentam coma
ou outras complicações significativas da intoxicação por
etanol necessita de internação para acompanhamento
rigoroso até que a sobriedade seja alcançada.
De um modo geral, o tratamento de suporte é suficiente
para estabilizar o doente intoxicado. Todavia,em situações
de graves intoxicações que resultam em depressão
respiratória ou coma, pode ser necessário acelerar o
processo de eliminação do etanol recorrendo à
hemodiálise.
A maioria dos intoxicados após o tratamento de suporte
recupera num período de 4 a 6h.
INTOXICAÇÃO POR MACONHA
A maconha é uma substância derivada da planta Cannabis
sativa, cultivada em diversas partes do mundo. Uma resina
espessa, secretada em abundância pelas formas femininas
planta, recobre seus brotos e folhas e contém os princípios
psicoativos da maconha. A canábis contém mais de 60
componentes canabinóides, mas o constituinte ativo
primário é o delta-9- tetrahidrocanabinol ( -9-THC).
Fisiopatologia (mecanismo de ação)
A ação da maconha era entendida como decorrente apenas
da sua solubilização inespecífica em membranas celulares,
instabilizando-as. A descoberta de receptores e
canabinóides endógenos no SNC deram a maconha uma
distinção especial dentro das substâncias psicoativas. O THC
e outros canabinóides agem através de receptores
específicos no SNC e na periferia, embora nem todos os
efeitos sejam receptor-mediados.
Existem dois subtipos de receptores canabinoides (CB1 e
CB2) identificados no sistema nervoso central (SNC). O
receptor CB1 pode ser encontrado em altas concentrações
no hipocampo, córtex pré-frontal, cerebelo e gânglios
basais, o que estaria relacionado com os efeitos do THC na
memória e na cognição.
O CB1 é encontrado no sistema nervoso central, incluindo
os gânglios da base, substância negra, cerebelo, hipocampo
e córtex cerebral. Ele age pré-sinapticamente e inibe a
liberação de vários neurotransmissores, incluindo
acetilcolina, L-glutamato, ácido gama amino-butírico
(GABA), noradrenalina, dopamina e 5-hidroxitriptamina;
por isso, o uso de cannabis diminui o tempo de reação e
prejudica a atenção, concentração, memória de curto prazo
e avaliação de risco.
O CB2 é encontrado perifericamente nos tecidos do sistema
imunológico (por exemplo, macrófagos esplênicos e
linfócitos B), terminais nervosos periféricos e ducto
deferente. Postula-se que ele desempenha um papel na
regulação das respostas imunes e reações inflamatórias.
A falta de receptores canabinoides no tronco cerebral
explica a ausência de coma e depressão respiratória nas
intoxicações, uma vez que essa porção cerebral regula a
respiração e outras funções vitais.
A existência de um receptor canabinoide implica existência
de uma substância endógena semelhante ao THC, a qual foi
denominada anandamida. Uma vez acoplado ao seu
receptor, o THC desencadeia uma série de reações celulares,
estimulando essas áreas do cérebro e provocando as
sensações que os usuários qualificam como prazerosas.
Os canabinóides endógenos são conhecidos por
anandamidas (sânscrito = felicidade, prazer, êxtase). Em
comparação com o THC, são de 4 a 20 vezes menos potentes
e de duração mais curta. O chocolate também possui
substâncias relacionadas às anandamidas, capazes de
interagirem com o sistema canabinóide, provável causa da
vontade de consumi-los.
Os receptores canabinóides distribuem-se pelo córtex,
hipocampo, hipotálamo, cerebelo, complexo amidalóide
giro do cíngulo anterior e gânglios da base, principalmente
da substância nigra pós-reticulada e globo pálido.
A presença do THC no SNC hiperesimula o funcionamento
do sistema canabinóide desencadeando alterações
cognitivas (afrouxamento das associações, fragmentação do
pensamento, confusão, alterações na memória de fixação),
prejuízos da atenção, alterações do humor, exacerbação do
apetite e incoordenação motora, em vários graus.
A maconha tem efeitos brandos sobre o aparelho
cardiorespiratório e seus efeitos euforizantes não são
mediados pelo sistema de gratificação dopaminérgico,
como ocorre com a cocaína e heroína.
Após a inalação da fumaça da maconha, o aparecimento de
efeitos psicoativos ocorre rapidamente, com efeitos
máximos sentidos em 15 a 30 minutos e com duração de até
quatro horas. Quando comparada à inalação, a ingestão de
cannabis tem um início tardio de efeitos psicoativos que
varia de 30 minutos a três horas. A ingestão recreativa de
maconha para obter efeitos psicoativos geralmente pode
resultar em efeitos adversos, porque não há demarcação
clara entre doses que atingem os sintomas desejados pelo
usuário de maconha e efeitos nocivos.
Metabolização e eliminação
A ação da substância é de aproximadamente 2 a 4 horas,
dependendo da qualidade e da quantidade de substância
utilizada. Entretanto as alterações comportamentais e
psicomotoras podem durar umas horas a mais. Um cigarro
de maconha ("baseado") contém de 2,5 a 150mg de THC.
Normalmente, um pequena quantidade de THC (2-3mg) é
suficiente para desencadear um estado de bem-estar e
euforia num usuário. Estudos têm padronizado em baixa,
média e alta, dosagens de 10, 20 e 25mg de THC,
respectivamente. A meia-vida do THC é de 19-27 horas em
usuários recentes e de 50-57 horas em crônicos.
Quadro clinico
O quadro usual de intoxicação normalmente envolve os
seguintes efeitos:16 euforia, sensações prazerosas,
diminuição da ansiedade, da depressão e da atenção.
Alguns usuários mais ansiosos, psicologicamente vulneráveis
ou inexperientes com a droga podem apresentar aumento
da ansiedade, disforia e crises de pânico. São comuns
vasodilatação e vermelhidão das conjuntivas (um dos sinais
mais característicos do uso), podem ocorrer também
hipotensão postural e síncope. Em alguns casos há aumento
da pressão arterial, boca seca, aumento do apetite,
nistagmo e fala arrastada.16 Podem ocorrer mudanças na
sensopercepção: as cores se tornam mais claras e a música
mais vívida. A percepção de espaço, o tempo de reação, a
atenção, a concentração, a memória e a avaliação de risco
também são alterados. Esses últimos permanecem
alterados por muito mais tempo do que a sensação de
intoxicação subjetiva e tais efeitos podem permanecer por
até 12 a 24 horas após o uso.
A toxidade aguda da maconha é extremamente baixa e não
existe caso de morte por intoxicação confirmado na
literatura. Complicações agudas tampouco são relatadas
com freqüência. Sintomas desagradáveis que acompanham
o uso, tais como ansiedade e bad trips, muitas vezes com
sintomas de pânico, medo extremamente intenso e
disforia, além de reações depressivas, podem acompanhar
o uso. Sintomas paranóides transitórios também são
possíveis. A experiência subjetiva envolve a expectativa
prévia da experiência e a idiossincrasias do usuário, assim
como as condições ambientais durante o uso. A ingestão
acidental, sem o conhecimento do indivíduo, pode contribuir
para a exacerbação dos sintomas. Quadros psicóticos agudos
têm sido descritos tanto em usuários crônicos, como em
principiantes. Sinais e sintomas freqüentes são a
inquietação psicomotora, insônia, fuga de idéias,
alterações leves do pensamento. Pode haver, no entanto,
presença de sintomas de primeira ordem de Schineider, bem
como o desencadeamento de quadros de evolução crônica.
Os indivíduos acometidos normalmente apresentam
predisposição pessoal ou familiar. O prognóstico pode variar
de um quadro agudo, responsivo ao tratamento
medicamento, até quadros refratários de mal prognóstico.
Diagnostico
1. Uso recente de Cannabis.
2. Alterações comportamentais ou psicológicas
clinicamente significativas e problemáticas (p. ex.,
prejuízo na coordenação motora, euforia,
ansiedade, sensação de lentidão do tempo,
julgamento prejudicado, retraimento social)
desenvolvidas durante ou logo após o uso de
Cannabis.
3. Dois (ou mais) dos seguintes sinais ou sintomas,
desenvolvidos no período de 2 horas após o uso de
Cannabis:
a. Conjuntivas hiperemiadas.
b. Apetite aumentado.
c. Boca seca.
d. Taquicardia.
4. Os sinais ou sintomas não são atribuíveisa outra
condição médica nem são mais bem explicados por
outro transtorno mental, incluindo intoxicação por
outra substância.
A intoxicação desenvolve-se em minutos se a Cannabis for
fumada, mas pode levar algumas horas se for ingerida por
via oral. Os efeitos em geral duram de 3 a 4 horas, mas
podem ser mais prolongados quando a substância é
consumida por via oral. A magnitude das alterações
comportamentais e fisiológicas depende da dose, do método
de administração e das características do usuário, tais como
taxa de absorção, tolerância e sensibilidade a seus efeitos.
Uma vez que a maioria dos canabinoides, incluindo o delta-
9-tetraidrocanabinol (delta-9-THC), é lipossolúvel, os efeitos
da Cannabis ou do haxixe podem às vezes persistir ou
apresentar recorrência por um período de 12 a 24 horas,
devido a uma lenta liberação das substâncias psicoativas do
tecido adiposo ou para a circulação êntero-hepática.
Complementar
• Laboratorial especifico = Testes qualitativos em
urina: Testes imunocromatográficos utilizando fitas
reagentes mono ou multidrogas para triagem são
rápidos e eficientes.
• Laboratorial geral = eletrólitos e glicose
Tratamento
O manejo da intoxicação por canabinoides é
predominantemente de apoio. A maioria dos casos de
intoxicações leves resolve-se em poucas horas, podem ser
mais bem confortados ao se acomodarem os pacientes em
quartos com iluminação leve, poucos estímulos e, em casos
de muita agitação, podem ser usados benzodiazepínicos,
como diazepam na dose de 5 mg por via oral. Nos casos nos
quais há complicações cardíacas ou respiratórias, o manejo
da complicação deve ser feito de acordo com a etiologia
subjacente. Não é recomendado o uso de carvão ativado
para os casos de ingestão de maconha.20 Os casos que
apresentam psicose devem ser tratados com antipsicóticos,
preferencialmente os atípicos, pela menor incidência de
efeitos adversos.
Normalmente, a intoxicação aguda pela maconha não leva à
uma atenção profissional. O reasseguramento psicológico e
a orientação na realidade por familiares e amigos é
suficiente. Os benzodiazepínicos (p.e. diazepam 10mg VO,
repetindo se necessário) podem ser úteis nos quadros
ansiosos agudos, assim como nos psicóticos, associados a
algum neuroléptico (p.e. haloperidol 5mg VO ou IM, em caso
de alterações psicomotoras importantes).
Sugere-se que os pacientes que ingerem cannabis não
sofram descontaminação gastrointestinal com carvão
ativado (CA). Após a ingestão, a maioria dos sintomas é
adiada em até três horas, o que limita a eficácia do CA. Além
disso, os efeitos clínicos da ingestão de cannabis geralmente
são limitados e ocorrem bons resultados apenas com os
cuidados de suporte. Além disso, em crianças, a toxicidade
clínica pode incluir início rápido de estado mental alterado
ou vômito, o que pode aumentar o risco de aspiração se o
CA for administrado.
INTOXICAÇÃO POR COCAÍNA/CRACK
O quadro de intoxicação pelos estimulantes do sistema
nervoso central como a cocaína, inclusive fumada sob forma
de crack, é parecido com o da intoxicação pelas anfetaminas,
incluindo o ecstasy. A principal diferença dos quadros de
intoxicação pelos diferentes estimulantes é no tempo de
surgimento e de desaparecimento dos sinais e sintomas.
Assim, alguns desses estimulantes provocam um quadro de
início e término muito mais rápido do outros. É o caso da
comparação do quadro de intoxicação de diferentes formas
de administração de cocaína, em pó inalado, injetado ou
fumado sob forma de crack. As formas fumada (crack) e
injetada têm um início e término de ação muito mais rápidos
e intensos do que a forma inalada. O ecstasy tem uma
intoxicação de maior duração, que dura de 4 a 6 horas, e as
anfetaminas usadas para emagrecer (anfepramona,
fenproporex etc.) mais ainda, durando 12 horas ou mais.
São sinais de intoxicação por estimulantes:
• euforia, grandiosidade (sentir-se poderoso);
• hipervigilância, irritabilidade;
• insônia, aumento da energia, diminuição do
apetite;
• aceleração do pensamento e da fala;
• agitação psicomotora, prejuízo do julgamento;
• taquicardia;
• aumento da temperatura (hipertermia);
• sudorese, calafrios, dilatação das pupilas;
• alucinações ou ilusões visuais e táteis;
• ideias paranoides (sentir-se perseguido ou
prejudicado);
• convulsões;
• aumento da pressão arterial, arritmias cardíacas e
morte.
A cocaína, supostamente o estimulante mais potente de
origem natural, é extraída das folhas da planta de coca
(Erythroxylum coca).
A pasta de cocaína não purificada é convertida em formas
mais utilizáveis de cocaína. A base livre cristalizada do
alcaloide da cocaína é conhecida como crack, o qual é
inalado com o uso de um “cachimbo de crack”
especialmente projetado para tolerar a alta temperatura
necessária para volatilizar a cocaína pura. A alta solubilidade
lipídica e o transporte rápido dos pulmões para o cérebro
contribuem para o início rápido da ação do crack. Os sais
solúveis em água da cocaína (cloridrato e sulfato de cocaína)
estão disponíveis como um pó cristalino branco que é
utilizado pela via intranasal ou dissolvido e injetado por via
intravenosa. A administração oral é rara, exceto para os
pacientes que estão contrabandeando ou escondendo
drogas.
Crack = O crack é basicamente uma nova forma de
apresentação e administração da cocaína, uma vez que a
forma básica, obtida por adição de uma base, como sulfato
de amônio ou bicarbonato de sódio, à pasta -base ou à
cocaína na forma de cloridrato (pó em seu estado final de
refinamento), faculta seu uso por via fumada. Tal via leva a
uma disponibilidade plasmática da droga quase imediata – a
cocaína, nessa forma de administração, atinge o cérebro em
alguns segundos, sem o efeito de primeira passagem no
fígado, o que confere concentrações ainda maiores com uma
mesma dose da substância. Assim, se origina a um padrão de
consumo bastante intenso e compulsivo, em que o padrão
de binge é comum e recorrente. Muitos dependentes de
crack passam a noite ou mesmo dias seguidos consumindo a
droga até a completa exaustão, sem dormir e sem se
alimentar minimamente.
Fisiopatologia
1. Bloqueio da recaptura de catecolaminas
(dopamina, adrenalina e noradrenalina) no sistema
nervoso central (SNC) e no sistema nervoso
periférico (SNP), levando a agitação psicomotora e
estimulação dos receptores alfa, beta1 e beta2
adrenérgicos e com isto, taquicardia,
vasoconstrição e consequente hipertensão arterial;
2. Bloqueio da recaptura da serotonina, podendo
levar a alucinações, psicose, anorexia e
hipertermia;
3. Bloqueio dos canais de sódio, levando localmente a
anestesia das membranas axonais;
4. No coração, se utilizada em altas doses, pode levar
a uma ação quinidina-like com alargamento do QRS,
prolongamento do QT, bradicardia e hipotensão;
5. Aumento da concentração de aminoácidos
excitatórios do SNC (glutamato e aspartato)
levando a hiperatividade do SNC, convulsões e
hipertermia;
6. Aumento da produção de endotelina e diminuição
da produção de óxido nítrico, levando a
vasoconstrição, além de aumento da adesividade
plaquetária e da permeabilidade endotelial;
7. O uso crônico pode levar a focos de microfibrose
miocárdica e miocardite, independente da
presença ou não de lesão coronária prévia;
8. Podem ocorrer reações distônicas, acatisia e
pseudoparkinsonismo, pela depleção de receptores
dopamina-1.
A cocaína estimula o SNC através do bloqueio da
recaptação da dopamina, serotonina e noradrenalina nas
sinapses. Os neurotransmissores, então, estimulam seus
receptores pós-sinápticos de modo mais intenso e
prolongado. Através das vias dopaminérgicas e
noradrenérgicas, estimula o sistema nervoso simpático,
produzindo um quadro de hipervigilância e inquietação,
taquicardia e aumentoda pressão arterial, dilatação
pupilar, sudorese, anorexia, aumento do ritmo intestinal.
A cocaína é capaz de estimular o sistema de gratificação do
SNC, mediado principalmente através da via dopaminérgica
mesolímbicomesocortical, originária do nucleus accumbens
e área tegmental ventral. A atividade do sistema parece
contribuir para os comportamentos de busca compulsiva e
abuso da substância.
O uso agudo da cocaína causa liberação de dopamina,
epinefrina, norepinefrina e serotonina. Esses
neurotransmissores atuam em diferentes subtipos de
receptores, causando diversos efeitos, entretanto o mais
importante é a estimulação adrenérgica pela norepinefrina
e epinefrina. A norepinefrina causa vasoconstrição por
estimulação dos receptores alfa-adrenérgicos no músculo
liso vascular, enquanto a epinefrina aumenta a
contratilidade miocárdica e a frequência cardíaca mediante
a estimulação dos receptores beta1-adrenérgicos. Além da
liberação de catecolaminas, a recaptação desses
neurotransmissores estimulantes a partir da fenda
sináptica é inibida, alterando o equilíbrio normal entre os
tônus excitatório e inibitório no SNC. Uma estimulação
subsequente propaga a liberação de catecolaminas
periféricas. A recaptação da serotonina também é inibida de
forma semelhante e pode levar ao aumento da resposta
serotoninérgica.
O uso crônico leva o SNC a adaptar-se às alterações
produzidas pela cocaína. A tolerância para os efeitos
euforizantes desenvolve-se com alguma rapidez,
principalmente no uso compulsivo. Advém da
hipermetabolização da dopamina liberada na sinapse, do
aumento nos limiares de estimulação dos autoceptores e
da diminuição dos impulsos pré-sináticos. O resultado é
uma diminuição dos níveis de dopamina na fenda. Por outro
lado, há uma tolerância reversa (fenômeno conhecido por
sensibilização) para os sintomas motores, com piora dos
movimentos estereotipados, inquietação e dos níveis de
ansiedade. A causa parece estar no aumento, quantitativo e
qualitativo, dos receptores pós-sinápticos a fim de
compensar a diminuição da dopamina na fenda, processo
de sensibilização do SNC a partir de estímulos subliminares
intermitentes pelo componente anestésico da cocaína, está
relacionado ao aparecimento de convulsões em usuários da
substância e, postula-se, também de sintomas paranóides e
do craving.
Metabolização/excreção
A cocaína é metabolizada pelas enzimas monoaminoxidase
(MAO) e COMT. Pode ser hidrolizada e convertida em
benzoilecgonina ou ecgoninametil-éster ou desmetilada e
convertida em norcocaína. Na presença do álcool a cocaína
é transesterificada e convertida em cocaetileno. O
metabólito é ativo e tem meia-vida de duas horas, atravessa
a barreira hematoencefálica e é mais cardiotóxico que a
cocaína. Todos os metabólitos citados são eliminados pelo
sistema renal. A benzoylecgonina é o principal metabólito e
pode ser detectada em testes de urina até 36 horas após o
último uso.
Quadro clinico
A cocaína em diferentes estágios causa efeitos opostos no
sistema cardiovascular: inicialmente, tem efeito
estimulante, e, mais tardiamente, efeito inibitório. Os
efeitos potencializadores da cocaína sobre o sistema
cardiovascular são decorrentes de sua ação agonista central
sobre as monoaminas e também por uma sensibilização ao
efeito das mesmas, que resulta em: aumento da frequência
cardíaca e da pressão arterial, elevação da contratilidade
miocárdica, aumento do potencial de relaxamento cardíaco
e vasoconstricção coronariana. O poliuso de substâncias é
comum em usuários de crack e aumenta a probabilidade de
acidentes e complicações.
A ação inibitória compreende redução da contração
cardíaca e do potencial de relaxamento cardíaco, redução
da fração de ejeção e aumento da vasodilatação. As
principais complicações cardiovasculares são: isquemia
miocárdica e infarto agudo do miocárdio, cardiomiopatia
(dilatação e disfunção de ventrículo esquerdo) e miocardite,
arritmias, endocardite, disseção de aorta.
A depressão e a ansiedade são as comorbidades
psiquiátricas mais recorrentes do uso de cocaína e crack.
Transtornos de personalidade e esquizofreniforme também
são observados. O poliuso de substâncias é comum. O uso
de álcool durante o consumo de cocaína gera o cocaetileno,
um metabólito ativo que atua de modo mais intenso e
duradouro sobre o sistema de recompensa e possui
toxicidade superior à cocaína, em especial para o fígado e
para o coração.
Intoxicação leve a moderada: Agitação psicomotora,
apreensão, pseudoalucinações, inquietude, instabilidade
emocional, movimentos estereotipados, tiques, tremores
não intencionais de face e dedos das mãos, palidez,
hipertensão arterial, taquicardia, dor torácica, hipertermia,
diaforese, midríase, cefaleia, náuseas e vômitos, dor
abdominal; Lesões de mucosa e septo nasal podem estar
presentes no uso crônico;
Intoxicação grave: Além dos sintomas acima podem ocorrer
arritmias cardíacas, hipotensão arterial, dispneia, IAM,
convulsão e status epilepticus; Se não houver resposta à
medicação, poderá ocorrer insuficiência renal (por vasculite
e rabdomiólise), coma, fibrilação ventricular, insuficiência
respiratória e óbito.
Avaliação
A avaliação laboratorial de rotina no paciente
potencialmente envenenado deve incluir o seguinte:
• Glicemia capilar, para descartar a hipoglicemia
como causa de qualquer alteração no estado
mental.
• Níveis de salicilato e outras drogas, para descartar
essas condições comuns, se as circunstâncias
sugerirem danos pessoais.
• Eletrocardiograma (ECG), para descartar
envenenamento do sistema de condução por
drogas que afetam os intervalos QRS ou QT. Embora
a taquicardia sinusal seja o ritmo mais comum, a
fibrilação atrial e outras taquicardias
supraventriculares podem ocorrer como resultado
do aumento das catecolaminas. A Torsade de
pointes ou taquicardias de grande complexidade a
partir do bloqueio dos canais rápidos de sódio no
miocárdio, podem evoluir com má perfusão ou
mesmo deteriorar-se em ritmos ventriculares
fatais. As anormalidades da condução transitória
consistentes com um padrão do tipo Brugada estão
associadas à cocaína.
• Teste de gravidez em mulheres em idade fértil
• Testes específicos - A benzoilecgonina (BE), o
principal metabólito urinário da cocaína, é o analito
geralmente testado no sangue, urina, saliva, cabelo
e mecônio. A cocaína é rapidamente metabolizada
e detectável no sangue e na urina apenas várias
horas após o uso. O BE pode ser detectado na urina
por vários dias após o uso intermitente e até 10 dias
ou mais após o uso em excesso.
Diagnostico
Suspeitar de intoxicação por cocaína ou crack em adultos
jovens que desenvolvem síndrome adrenérgica. Lesões de
mucosa nasal ou restos de pó ao redor das narinas podem
ser achados em indivíduos que utilizaram a via intranasal.
Nos usuários de crack é comum encontrar queimaduras em
pontas dos dedos.
1. Uso recente de uma substância tipo anfetamina,
cocaína ou outro estimulante.
2. Alterações comportamentais ou psicológicas
clinicamente significativas e problemáticas (p. ex.,
euforia ou embotamento afetivo; alterações na
sociabilidade; hipervigilância; sensibilidade
interpessoal; ansiedade, tensão ou raiva;
comportamentos estereotipados; julgamento
prejudicado) desenvolvidas durante ou logo após o
uso de um estimulante.
3. Dois (ou mais) dos seguintes sinais ou sintomas,
desenvolvidos durante ou logo após o uso de
estimulantes.
a. Taquicardia ou bradicardia.
b. Dilatação pupilar.
c. Pressão arterial elevada ou diminuída.
d. Transpiração ou calafrios.
e. Náusea ou vômito.
f. Evidências de perda de peso.
g. Agitação ou retardo psicomotor.
h. Fraqueza muscular, depressão
respiratória, dor torácica ou arritmias
cardíacas.
i. Confusão, convulsões, discinesias,
distoniasou coma.
4. D. Os sinais ou sintomas não são atribuíveis a outra
condição médica nem são mais bem explicados por
outro transtorno mental, incluindo intoxicação por
outra substância
Complementar
• Laboratorial especifico
o Testes qualitativos em urina: Testes
imunocromatográficos utilizando fitas
reagentes mono ou multidrogas para
triagem são rápidos e eficientes;
o Cromatografia em camada delgada (CCD)
em urina. É positivo para cocaína não
metabolizada até 6 a 12 h do uso e para a
benzoilecgonina até 60 h da exposição
• Laboratorial geral = Monitorar eletrólitos, glicose,
função renal, RX tórax e abdome se dor torácica e
abdominal, gasometria, CPK, urina com pesquisa de
mioglobinúria na suspeita de rabdomiólise, ECG,
troponina na suspeita de isquemia miocárdica, TC
de crânio se os sintomas neurológicos persistentes.
Manejo inicial
Um paciente gravemente intoxicado pode estar combativo e
incapaz de cooperar na avaliação dos sinais vitais. As ações
tomadas durante estas primeiras etapas do atendimento são
cruciais:
• Garantir vias aéreas, saturação adequada e
estabilidade hemodinâmica;
• Avaliação rápida de sinais vitais, especialmente
temperatura central;
• Excluir hipoglicemia e hiponatremia, análise da
urina e creatinoquinase sérica (CPK).
• Sedação farmacológica com benzodiazepínicos
• Eletrocardiograma (ECG)
Como a etiologia da condição do paciente muitas vezes não
é clara, a prioridade inicial é reconhecer e tratar o delírio e
a agitação que ameaçam a vida. Os pacientes podem, de
modo transitório, exigir restrições físicas para que seja
possível a obtenção dos sinais vitais e do acesso intravenoso.
Na necessidade de contenção do tórax, recomenda-se a
utilização do colete de malha em vez do casaco para, deste
modo, limitar o desenvolvimento de hipertermia.
O paciente deve ser avaliado quanto aos níveis glicêmicos
tão logo chegue ao departamento de emergência. Pode ser
necessária sedação farmacológica imediata com
administração IM ou IV de benzodiazepínicos, que, em doses
adequadas, restauram o tônus inibitório do SNC e diminuem
o estímulo simpático nos tecidos periféricos. A sedação
também facilita a aferição de sinais vitais (particularmente a
temperatura central), o monitoramento eletrocardiográfico
contínuo e a conclusão do exame físico.
Tratamento
1. Desobstruir vias aéreas e administrar oxigênio
suplementar quando necessário;
2. Monitorizar sinais vitais;
3. Manter acesso venoso calibroso;
4. Hidratação adequada;
5. Medidas de resfriamento corporal, quando
indicadas.
Uma avaliação clinica completa é o primeiro passo. A rápida
obtenção da glicemia e da temperatura é fundamental para
se evitar futuras complicações decorrentes da hipoglicemia
e da hipertermia. A dor precordial costuma ser sintoma de
IAM em 3% dos casos. O paciente deve ser examinado,
avaliado com eletrocardiograma e observado. As funções
renal e hepática, um hemograma completo, eletrólitos e
glicemia devem ser solicitados. Outros exames como CK-MB
e tomografia computadorizada de crânio devem ser pedidos
quando há suspeitas clínicas que os justifiquem.
O tratamento é baseado no suporte cardiovascular,
mantendo o paciente bem hidratado e não fazendo uso de
medicações cardiovasculares de longa ação, pois após o
efeito da cocaína, em cerca de duas a quatro horas, costuma
haver hipotensão.
O manejo da hipertensão, vasoconstrição arterial, agitação
psicomotora, hipertermia severa, dispneia, dor no peito,
midríase, entre outros sinais e sintomas, pode incluir a
necessidade de intubação orotraqueal.
Os efeitos cardiovasculares, convulsões e outros efeitos
psicomotores podem ser controlados por
benzodiazepínicos, como o diazepam. Se estes não
solucionarem o quadro cardiovascular, uma alternativa é a
fentolamina ou betabloquadores, como o propranolol, com
monitoração dos sinais vitais e ECG. Utilizar antipsicótico,
como haloperidol, se houver delírio. O manejo da
hipertensão pode ser feito com nitroprossiato de sódio.
Administrar catártico e carvão ativado.
Não usar neurolépticos (haloperidol, clorpromazina) pelo
risco de convulsão, taquicardia, arritmias, piora da
hipertermia e indução de reações distônicas. Também deve-
se evitar medicamentos com ação anticolinérgica
importante como a prometazina;
Os benzodiazepínicos são o principal suporte do tratamento
da agitação induzida por cocaína. Diazepam, lorazepam e
midazolam foram utilizados com sucesso nesta
configuração. O oxigênio suplementar deve ser administrado
apenas quando necessário. Se a intubação traqueal de
sequência rápida for necessária, sugerimos que a
succinilcolina não seja usada. O diazepam pode ser
administrado IV em doses de 5 a 10 mg a cada 5 minutos em
adultos, até a sedação ser alcançada. O lorazepam, 1 a 2 mg
IV a cada 5 minutos, também é uma opção aceitável. Para
um paciente adulto em que o acesso IV não é possível devido
à agitação, 10 mg de midazolam IM podem ser
administrados para facilitar as intervenções subsequentes.
INTOXICAÇÃO POR ALUCINOGENOS (LSD) - doce
O LSD é um alucinógeno potente disponível em forma de
cápsula, comprimido e líquido. Como líquido, é
frequentemente adicionado ao papel absorvente em formas
coloridas, com cada forma individual normalmente
equivalente a uma dose. As doses recreativas típicas são de
25 a 80 mcg, mas podem variar até 250 mcg. Produzem
efeitos psicodélicos com duração de 6 a 12 horas.
É utilizado por via oral, em forma de tabletes de açúcares,
selos, comprimidos e cápsulas, e distribuído por todo o
corpo, sendo que apenas 1% atinge o sistema nervoso
central (SNC). O tempo de início dos efeitos é de
aproximadamente 30 minutos, e duram cerca de 6 a 12
horas. O LSD possui alta afinidade com receptores
serotonérgicos e dopaminérgico.
Fisiopatologia
O LSD é estruturalmente semelhante a serotonina, seu
provável elo alucinógeno. As drogas LSD-similares têm
grande afinidade pelos receptores 5HT1A, 5HT1B, 5HT1C E
5HT2. Embora o LSD se ligue a vários subtipos de receptores,
o 5HT2 é o mais importante em seu mecanismo de ação:
estão localizados no córtex cerebral, onde o alucinógeno
exerce alterações nas funções cognitivas e perceptuais.
Antagonistas 5HT2 são capazes de antagoniza-lo. A
tolerância para os efeitos do alucinógenos do LSD é rápida e
reversível. Isso talvez explique o uso esporádico e não aditivo
da substância.
A neurobiologia dos compostos alucinógenos é complexa e
envolve a interação de vários neurotransmissores, incluindo
serotonina (5-HT), dopamina e glutamato. O mecanismo
exato subjacente às alucinações não é conhecido, mas uma
propriedade comum à maioria dos fármacos desta classe é
sua capacidade de ligar receptores 5-HT2A, especialmente
aqueles expressos em células piramidais neocorticais. Essa
atividade envolvendo a serotonina pode causar a síndrome
serotoninérgica, que tem sido associada ao LSD e a vários
outros alucinógenos.
Quadro clinico
Os alucinógenos são usados pelos chamados efeitos
psicodélicos. Esses efeitos desejados envolvem aumento ou
distorção de estímulos sensoriais e aprimoramento de
sentimentos e introspecção. A maioria dos alucinógenos
produz efeitos simpatomiméticos, incluindo taquicardia,
hipertensão, midríase, hipertermia e diaforese, mas
geralmente são leves. Náuseas e vômitos são comuns e
geralmente precedem o aparecimento de efeitos
alucinógenos.
Seus efeitos ocorrem em três estágios: somático, sensorial e
psíquico, e têm relação direta com as doses utilizadas, que
costumam ser, em média, de 30 a 100 milionésimos de
grama. Doses menores promovem mais efeitos somáticos e
menos alucinações. Os primeiros efeitos afetam o sistema
nervoso autônomo, produzindo aumento da temperatura,
da pressão arterial, dos batimentos cardíacos e dos níveis
glicêmicos,além de dilatar as pupilas. Também ocorrem
vertigens, náuseas, sensações de frio e calor e, por fim,
alucinações. Estas podem ser intensificação de cores,
alterações da forma de objetos, mudanças na percepção do
som e com frequência quadros de sinestesia em que há um
“cruzamento dos sentidos”, como objetos passando a ser
audíveis e sons, coloridos. A percepção da velocidade do
tempo é alterada, e, por vezes, este parece parar. Em
seguida, podem ocorrer alucinações mais elaboradas, como
a visualização de objetos, pessoas e paisagens. Sentimentos
e sensações podem alternar, como isolamento e
proximidade social, euforia e ansiedade e aumento de
energia e relaxamento.
São sinais de intoxicação por perturbadores do Sistema
Nervoso Central:
• prejuízo do julgamento;
• alterações da percepção (da intensidade, ilusões,
alucinações);
• despersonalização, desrealização, ideias de
referência, ideias paranoides;
• aumento da intensidade das emoções, ansiedade,
depressão;
• dilatação das pupilas, visão turva, sudorese,
tremores;
• “flash back” (retorno passageiro do mesmo quadro
horas ou dias depois);
Diagnostico
1. Uso recente de alucinógeno (que não fenciclidina).
2. Alterações comportamentais ou psicológicas
clinicamente significativas e problemáticas (p. ex.,
ansiedade ou depressão acentuadas, ideias de
referência, medo de perder o juízo, ideação
paranoide, julgamento prejudicado) desenvolvidas
durante ou logo após o uso de alucinógenos.
3. Alterações da percepção ocorrendo em um estado
de plena vigília e alerta (p. ex., intensificação
subjetiva de percepções, despersonalização,
desrealização, ilusões, alucinações, sinestesias) que
se desenvolveram durante ou logo após o uso de
alucinógenos.
4. Dois (ou mais) dos seguintes sinais desenvolvidos
durante ou logo após o uso de alucinógenos:
a. Midríase.
b. Taquicardia.
c. Sudorese.
d. Palpitações.
e. Visão borrada.
f. Tremores.
g. Incoordenação.
5. Os sinais ou sintomas não são atribuíveis a outra
condição médica nem são mais bem explicados por
outro transtorno mental, incluindo intoxicação por
outra substância.
Os exames laboratoriais de rotina geralmente não são úteis
na avaliação ou tratamento de pacientes intoxicados com
alucinógenos, se eles não apresentam sintomas graves, uma
vez que podem fornecer um histórico de uso recreativo de
drogas, o que é prática pela maioria dos usuários.
Alucinógenos comuns não são detectados pelos testes
comuns de abuso de drogas. Nos casos em que não há
histórico claro do uso recreativo de alucinógenos, os testes
de diagnóstico são indicados dependendo do tipo e
gravidade dos sintomas.
A avaliação laboratorial de rotina do paciente envenenado
deve incluir glicemia capilar, para descartar a hipoglicemia
como causa de qualquer alteração no estado mental;
eletrocardiograma (ECG), para descartar envenenamento
do sistema de condução por drogas que afetam os intervalos
QRS ou QT; e teste de gravidez em mulheres em idade fértil.
Tratamento
Quadros ansiosos e de pânico, com inquietação leve, por
qualquer tipo de alucinógeno podem ser controlados apenas
com reasseguramento e orientação voltada para a
realidade. Sintomas de maior intensidade podem ser
controlados com benzodiazepínicos (p.e. diazepam 10mg
VO, repetindo se necessário ou midazolam 15mg IM, nas
agitações) ou neurolépticos, de preferência haloperidol
5mg IM, nos quadros de agitação e psicose.
Comportamentos violentos e heteroagressivos podem
requerer contenção mecânica, a fim de assegura a
integridade física do paciente e de terceiros.
A lavagem gástrica e o carvão ativado (quadro 6) estão
indicados para intoxicações por anticolinérgicos via oral há
menos de 6 horas. Convulsões podem ser tratadas com
aporte de oxigênio e diazepam endovenoso. Quadros
refratários, com fenitoína. A curarização pode ser necessária
quando a hipertermia ou rabdomiólise complicam o quadro.
Hipertensão e taquicardia devem ser tratadas com beta e
alfa-bloqueadores respectivamente. A reidratação rápida
corrige o volume e a facilita a termorregulação pelo suor. A
hipertermia deve receber condutas agressivas de
resfriamento (banhos, cobertores hipotérmicos) e
administração de dantrolene (3mg/kg em 1 hora).
Na maioria dos casos, os cuidados de suporte são suficientes
para gerenciar pacientes com intoxicação aguda por
alucinógenos. Os sinais e sintomas de tais intoxicações são
autolimitados e geralmente não são graves. É preferível uma
abordagem conservadora, a menos que haja evidência de
toxicidade grave (por exemplo, hipertermia e agitação
grave). Os pacientes devem ser colocados em um ambiente
calmo e silencioso até que os sintomas de intoxicação
diminuam. A lógica para esta recomendação é que os
alucinógenos distorcem e aumentam a entrada sensorial,
sendo os sintomas minimizados pela limitação da entrada
sensorial. Essa abordagem não foi avaliada em estudos
prospectivos, mas tem sido usada com sucesso há décadas e
é amplamente recomendada. Pacientes com sinais vitais
normais na apresentação são monitorados com sinais vitais
em série e observação. É razoável medir inicialmente os
sinais vitais a cada 10 a 15 minutos e diminuir a frequência
conforme os sintomas diminuem. Pacientes taquicárdicos ou
hipertensos na apresentação devem ser observados mais de
perto, terem acesso IV estabelecido e serem colocados em
um monitor cardíaco. Se a agitação ou alterações dos sinais
vitais piorarem, benzodiazepínicos e fluidos intravenosos
(IV) devem ser administrados.
INTOXICAÇÃO POR MDMA (ecstasy)
É normalmente utilizado na forma de comprimidos ou
misturado a bebidas. Cada comprimido contém 50 a 200 mg
de MDMA; Muitas vezes chamados de "bala", os tipos de
ecstasy ganham apelidos conforme a cor e o desenho
impresso nos comprimidos; O poliabuso é frequente,
principalmente a associação com álcool, inalantes, maconha,
LSD, cocaína e sildenafila (Viagra®);
A adulteração é muito comum e se faz com LSD, efedrina,
pseudoefedrina, cafeína, paracetamol, cetamina,
dextrometorfano ou outras anfetaminas ou
metanfetaminas.
Fisiopatologia
Sendo um derivado anfetamínico, o ecstasy age estimulando
a liberação periférica de monoaminas biogênicas
(principalmente noradrenalina, dopamina e serotonina),
bloqueando a recaptação neuronal de monoaminas e
inibindo a ação da monoaminoxidase. O que difere o ecstasy
das anfetaminas tradicionais é a sua potente ação
serotoninérgica. A quantidade de ecstasy necessária para
estimular a liberação de serotonina é dez vezes menor do
que a requerida para o estímulo de noradrenalina e
dopamina. Porém, o uso em altas doses é responsável pelos
efeitos simpatomiméticos na intoxicação. Ocorre também
um aumento da liberação de ADH, que somado ao aumento
da ingestão de água e da perda de sódio em consequência
do aumento da atividade física, pode levar à importante
hiponatremia.
Quadro clinico
O quadro clínico é semelhante à outras síndromes
adrenérgicas (provocadas por cocaína e outras
anfetaminas), com taquicardia, hipertermia, agitação,
delírios, hipertensão arterial, sudorese profusa,
irritabilidade, midríase fotorreagente. Nos casos mais
graves, podem ocorrer convulsões, colite isquêmica, IAM,
AVC, síndrome serotoninérgica e rabdomiólise;
Existem algumas peculiaridades nos sintomas provocados
pelo uso de ecstasy, tais como aumento da energia do
indivíduo, da sociabilidade e da disposição sexual;
É descrita também a ocorrência de secreção inapropriada de
hormônio antidiurético nos casos de intoxicação, com
hemodiluição e hiponatremia, levando a convulsões e
edema cerebral.
Diagnostico
Clínico = Suspeitar de intoxicação por ecstasy quando há
história de uso e manifestações simpatomiméticas.
Complementar
• Laboratorial específico = CCD ou teste rápido para
drogasde abuso;
• Laboratorial geral = Monitorar eletrólitos, glicose,
função renal, função hepática, CPK, urina com
pesquisa de mioglobinúria (suspeita de
rabdomiólise), ECG, troponina (suspeita de IAM),
coagulograma.
Tratamento
Medidas de suporte
• Desobstruir vias aéreas e administrar oxigênio
suplementar quando necessário;
• Monitorizar sinais vitais; º Manter acesso venoso
calibroso;
• Medidas de resfriamento corporal.
• Descontaminação Realizar lavagem gástrica e
posterior administração de carvão ativado apenas
em casos de ingestão precoce de grande
quantidade.
Sintomáticos
• Os benzodiazepínicos são fundamentais para o
controle da agitação. A sedação adequada pode
evitar o desenvolvimento de rabdomiólise,
hipertermia, hipertensão e convulsões. Nos casos
graves, podem ser necessárias paralisia
neuromuscular, intubação orotraqueal e medidas
de resfriamento corporal.
o Utilizar 10 mg de diazepam IV até o
controle das manifestações; podem ser
utilizadas doses cumulativas de até 100
mg. Na impossibilidade de obtenção de
acesso venoso, pode-se utilizar midazolam
IM.
o Não utilizar haloperidol pelo risco de
convulsão e aumento da temperatura.
• Em hipertensão arterial grave não responsiva à
sedação com benzodiazepínicos, utilizar
nitroprussiato. Evitar antagonistas beta-
adrenérgicos, especialmente quando há coingestão
com cocaína;
• Deve-se ter cuidado na hidratação pois há risco de
hemodiluição e edema cerebral. Se houver
hiponatremia grave com sintomas neurológicos,
repor sódio lentamente;
• Se ocorrer síndrome serotoninérgica:
o Resfriamento corporal com medidas
físicas. Lembrar que antitérmicos não
surtem efeito pois o aumento da
temperatura está relacionado à
hiperatividade muscular;
o Se temperatura muito elevada (> 41ºC),
estão indicados sedação, paralisia e
intubação orotraqueal;
o Sedação: benzodiazepínicos (não usar
haloperidol);
o Nos casos refratários às medidas acima
administrar antagonista da serotonina:
Ciproeptadina – 12 mg inicialmente (VO ou
por sonda naso-enteral) e 4 mg por hora
por 3 a 4 doses
ESTUDAR O QUADRO CLINICO, DIAGNOSTICO,
TRATAMENTO E DIAGNOSTICO DIFERENCIAL DA
TUBERCULOSE PULMONAR
A TB pode ser causada por qualquer uma das sete espécies
que integram o complexo Mycobacterium tuberculosis: M.
tuberculosis, M. bovis, M. africanum, M. canetti, M. microti,
M. pinnipedi e M. caprae.
Em saúde pública, a espécie mais importante é a M.
tuberculosis, conhecida também como bacilo de Koch (BK).
O M. tuberculosis é fino, ligeiramente curvo e mede de 0,5 a
3 μm. É um bacilo álcool-ácido resistente (BAAR), aeróbio,
com parede celular rica em lipídios (ácidos micólicos e
arabinogalactano), o que lhe confere baixa permeabilidade,
reduz a efetividade da maioria dos antibióticos e facilita sua
sobrevida nos macrófagos.
Transmissão
O M. tuberculosis é transmitido por via aérea, de uma
pessoa com TB pulmonar ou laríngea, que elimina bacilos no
ambiente (caso fonte), a outra pessoa, por exalação de
aerossóis oriundos da tosse, fala ou espirro. O termo
“bacilífero” refere-se a pessoas com TB pulmonar ou
laríngea que tem baciloscopia positiva no escarro. Esses
casos têm maior capacidade de transmissão, entretanto
pessoas com outros exames bacteriológicos como cultura
e/ou Teste Rápido Molecular da Tuberculose (TRM-TB)
positivos também podem transmitir. A TB acomete,
prioritariamente, o pulmão que também é a porta de
entrada da maioria dos casos.
QUADRO CLINICO
Sintomático respiratório = Pessoa que, durante a estratégia
programática de busca ativa, apresenta tosse por 3 semanas
ou mais*. Essa pessoa deve ser investigada para tuberculose
através de exames bacteriológicos.
Os sinais, sintomas e as manifestações radiológicas
dependem do tipo de apresentação da TB. Classicamente, as
principais formas de apresentação são a forma primária, a
pós-primária (ou secundária) e a miliar. Os sintomas
clássicos, como tosse persistente seca ou produtiva, febre
vespertina, sudorese noturna e emagrecimento, podem
ocorrer em qualquer das três apresentações.
A TB pulmonar primária normalmente ocorre em seguida ao
primeiro contato do indivíduo com o bacilo e, por isso, é
mais comum em crianças. As manifestações clínicas podem
ser insidiosas, com o paciente apresentando-se irritadiço,
com febre baixa, sudorese noturna e inapetência. Nem
sempre a tosse está presente. O exame físico pode ser
inexpressivo.
A TB pulmonar pós-primária ou secundária pode ocorrer em
qualquer idade, mas é mais comum no adolescente e no
adulto jovem. Tem como característica principal a tosse seca
ou produtiva. Em locais com elevadas taxas de incidência de
TB, toda pessoa que procura a unidade de saúde devido à
tosse prolongada (busca passiva) deve ter a TB incluída na
sua investigação diagnóstica. Nos casos em que a tosse é
produtiva, a expectoração pode ser purulenta ou mucoide,
com ou sem sangue. A febre vespertina, sem calafrios, não
costuma ultrapassar os 38,5 ºC. A sudorese noturna e a
anorexia são comuns. O exame físico geralmente mostra
fácies de doença crônica e emagrecimento, embora
indivíduos com bom estado geral e sem perda do apetite
também possam ter TB pulmonar. A ausculta pulmonar
pode apresentar diminuição do murmúrio vesicular, sopro
anfórico ou mesmo ser normal.
A TB miliar refere-se a um aspecto radiológico pulmonar
específico, que pode ocorrer tanto na forma primária quanto
na forma secundária da TB. É uma forma grave da doença,
que é mais comum em pacientes imunocomprometidos,
como pessoas infectadas com HIV em fase avançada de
imunossupressão. A apresentação clínica pode ser aguda ou
subaguda, com maior frequência em crianças e em adultos
jovens. De uma forma mais incomum, a TB miliar apresenta-
se como doença crônica (idosos) ou mesmo febre de origem
obscura. Os sintomas como febre, astenia, emagrecimento
e tosse ocorrem em 80% dos casos. O exame físico pode
mostrar hepatomegalia (35% dos casos), alterações do
sistema nervoso central (30% dos casos) e alterações
cutâneas do tipo eritemato-máculo-pápulo-vesiculosas
(incomum).
DIAGNOSTICO
Diagnostico bacteriológico
Resultados bacteriológicos positivos confirmam a
tuberculose ativa em pacientes com quadro clínico sugestivo
de TB e em sintomáticos respiratórios identificados através
da busca ativa.
Exame microscópico direto – baciloscopia direta
A pesquisa do bacilo álcool-ácido resistente – BAAR, pelo
método de Ziehl-Nielsen, é a técnica mais utilizada em nosso
meio. A baciloscopia do escarro, desde que executada
corretamente em todas as suas fases, permite detectar de
60% a 80% dos casos de TB pulmonar em adultos.
A baciloscopia de escarro é indicada nas seguintes
condições:
• no sintomático respiratório, durante estratégia de
busca ativa;
• em caso de suspeita clínica e/ou radiológica de TB
pulmonar, independentemente do tempo de tosse;
• para acompanhamento e controle de cura em
casos pulmonares com confirmação laboratorial.
A baciloscopia de escarro deve ser realizada em duas
amostras: uma por ocasião do primeiro contato com a
pessoa que tosse e outra, independentemente do resultado
da primeira, no dia seguinte, com a coleta do material sendo
feita preferencialmente ao despertar. Nos casos em que
houver indícios clínicos e radiológicos de suspeita de TB e as
duas amostras de diagnóstico apresentarem resultado
negativo, podem ser solicitadas amostras adicionais.
Baciloscopia positiva e quadro clínico compatível com TB
fecham o diagnóstico e autorizam o início de tratamento da
TB. É importante lembrar, contudo, que outros
microrganismos podem ser evidenciados na baciloscopia
direta e essa possibilidade deve ser considerada na
interpretação de casos individualizados. Diagnóstico de
certeza bacteriológica sóé obtido com a cultura (que é o
padrão ouro) e/ou testes moleculares.
Teste rápido molecular para tuberculose (TRM-TB)
O TRM-TB está indicado, prioritariamente, para o
diagnóstico de tuberculose pulmonar e laríngea em adultos
e adolescentes.
O TRM-TB é um teste de amplificação de ácidos nucleicos
utilizado para detecção de DNA dos bacilos do complexo M.
tuberculosis e triagem de cepas resistentes à rifampicina
pela técnica de reação em cadeia da polimerase (PCR) em
tempo real (WHO, 2011). O teste apresenta o resultado em
aproximadamente duas horas em ambiente laboratorial,
sendo necessária somente uma amostra de escarro.
A sensibilidade do TRM-TB em amostras de escarro de
adultos é de cerca de 90% sendo superior à da baciloscopia.
O teste também detecta a resistência à rifampicina, com
uma sensibilidade de 95%.
O TRM-TB está indicado nas seguintes situações:
• Diagnóstico de casos novos de TB pulmonar e
laríngea em adultos e adolescentes
• diagnóstico de casos novos de TB pulmonar e
laríngea em adultos e adolescentes de populações
de maior vulnerabilidade
• diagnóstico de TB extrapulmonar nos materiais
biológicos já validados;
• triagem de resistência à rifampicina nos casos de
retratamento
• triagem de resistência à rifampicina nos casos com
suspeita de falência (ver capítulo Esquemas de
Tratamento para a Tuberculose) ao tratamento da
TB.
Como também pode detectar bacilos mortos ou inviáveis, o
TRM-TB não deve ser utilizado para diagnóstico nos casos
de retratamento (reingresso após abandono e recidivas).
Nesses casos, o diagnóstico da TB deve ser feito com
baciloscopia de escarro e cultura para micobactérias,
seguida do teste de sensibilidade antimicrobiano (TS) para
verificação de resistência aos fármacos, e o TRM-TB poderá
ser utilizado apenas para triagem da resistência à
rifampicina. Da mesma forma, o TRM-TB também pode ser
utilizado para triagem de resistência à rifampicina em
pacientes com suspeita de falência ao esquema básico.
Amostras recomendadas:
• escarro
• escarro induzido
• lavado broncoalveolar
• lavado gástrico
• liquor
• gânglios linfáticos e outros tecidos
Todos os exames (baciloscopia, TRM-TB ou cultura) deverão
ser realizados, preferencialmente, na mesma amostra de
escarro. Caso o volume seja insuficiente, deve-se coletar
uma segunda amostra.
Cultura
O resultado da cultura confirma o diagnóstico de
micobacteriose, sendo necessária a identificação de espécie
para caracterizar se é um caso de TB ou outra micobactéria.
Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda que seja
realizada cultura para micobactérias com teste de
sensibilidade antimicrobiano (TS) nas seguintes situações:
Locais COM acesso ao TRM-TB
• todo caso com diagnóstico de TB por meio de TRM-
TB deverá realizar cultura e TS,
independentemente de apresentar ou não
resistência à rifampicina;
• todo caso com suspeita de TB com TRM-TB
negativo, com persistência do quadro clínico,
deverá realizar cultura e TS.
Locais SEM acesso ao TRM-TB
• Nos locais onde não há a disponibilidade do TRM-
TB, o diagnóstico da doença será realizado por meio
da baciloscopia, ou seja, será necessária a coleta de
duas amostras de escarro, conforme já descrito.
• Além disso, a cultura deverá ser realizada
independentemente do resultado da baciloscopia
para todos os casos com suspeita de TB. A cultura
é realizada em apenas uma das amostras coletadas.
PPD*
Diagnóstico por imagem
Raio x
• Dentre os métodos de imagem, a radiografia do
tórax é o de escolha na avaliação inicial e no
acompanhamento da TB pulmonar. Nela podem ser
observados vários padrões radiológicos sugestivos
de atividade de doença, como cavidades, nódulos,
consolidações, massas, processo intersticial
(miliar), derrame pleural e alargamento de
mediastino
• A radiografia de tórax deve ser solicitada para
todo paciente com suspeita clínica de TB
pulmonar. Juntamente com as radiografias de
tórax, sempre devem ser realizados exames
laboratoriais (baciloscopias, cultura e/ou teste
rápido molecular) na tentativa de buscar o
diagnóstico bacteriológico. O exame radiológico em
pacientes com diagnóstico bacteriológico tem
como principais objetivos excluir outra doença
pulmonar associada, avaliar a extensão do
acometimento e sua evolução radiológica durante
o tratamento.
TC de tórax
• A tomografia computadorizada (TC) do tórax é mais
sensível para demonstrar alterações anatômicas
dos órgãos ou tecidos comprometidos e é indicada
na suspeita de TB pulmonar quando a radiografia
inicial é normal, e na diferenciação com outras
doenças torácicas, especialmente em pacientes
imunossuprimidos
Diagnostico histopatológico
A avaliação histológica de fragmento de tecido obtido por
biópsia é um método empregado na investigação das formas
pulmonares que se apresentam radiologicamente como
doença difusa e nas formas extrapulmonares (CONDE;
FITERMAN; LIMA, 2011). Assim, a identificação histológica
de granuloma com necrose de caseificação é compatível com
o diagnóstico de TB. A identificação de um granuloma sem
necrose de caseificação deve ser interpretada com cuidado
e à luz dos achados clínicos, visto que outras doenças
granulomatosas, como sarcoidose e silicose, podem ter essa
apresentação histológica. Além do granuloma, a análise
histológica pode também buscar bacilos no fragmento de
tecido. Embora a baciloscopia do tecido seja usualmente
negativa nos pacientes não imunossuprimidos, ela é positiva,
com frequência, nos pacientes com imunossupressão mais
avançada, onde a identificação de granuloma é incomum
Uma vez que o método diagnóstico de certeza de TB é a
cultura seguida da confirmação da espécie M. tuberculosis,
sempre que possível um ou dois fragmentos obtidos por
biopsia devem ser armazenados em água destilada ou em
soro fisiológico 0,9% e enviados para cultura em meio
específico.
DIAGNOSTICO DIFERENCIAL
A TB deve ser incluída no diagnóstico diferencial dos casos
de febre de origem indeterminada, síndrome consumptiva,
pneumonias de resolução lenta e em todo paciente com
tosse prolongada sem causa conhecida.
Na forma pulmonar, o diagnóstico diferencial deve ser feito
principalmente com silicose, infecções fúngicas, neoplasias,
infecções bacterianas, outras micobacterioses, doenças
autoimunes, embolia pulmonar, entre outras.
TRATAMENTO
Os medicamentos antiTB, em geral, interferem no sistema
enzimático do bacilo ou bloqueiam a síntese de algum
metabólito essencial para o seu crescimento (Figura 9). Os
fármacos só atuam quando há atividade metabólica, ou seja,
bacilos em estado de latência não são atingidos pelos
medicamentos, mas são destruídos pelo sistema
imunológico.
• Ter atividade bactericida precoce;
• ser capaz de prevenir a emergência de bacilos
resistentes;
• ter atividade esterilizante.
O esquema de tratamento da tuberculose é padronizado,
deve ser realizado de acordo com as recomendações do
Ministério da Saúde e compreende duas fases: a intensiva
(ou de ataque), e a de manutenção. A fase intensiva tem o
objetivo de reduzir rapidamente a população bacilar e a
eliminação dos bacilos com resistência natural a algum
medicamento. Uma consequência da redução rápida da
população bacilar é a diminuição da contagiosidade. Para
tal, são associados medicamentos com alto poder
bactericida. A fase de manutenção tem o objetivo de
eliminar os bacilos latentes ou persistentes e a redução da
possibilidade de recidiva da doença. Nessa fase, são
associados dois medicamentos com maior poder bactericida
e esterilizante, ou seja, com boa atuação em todas as
populações bacilares.
No Brasil, o esquema básico para tratamento da TB em
adultos e adolescentes é composto por quatro fármacos na
fase intensiva e dois na fase de manutenção.A
apresentação farmacológica dos medicamentos, atualmente
em uso, para o esquema básico é de comprimidos em doses
fixas combinadas com a apresentação tipo 4 em 1 (RHZE) ou
2 em 1 (RH).
• R = rifampicina
• H = isonazida
• Z = pirazinamina
• E = etambutol
DISCUTIR A IMPORTÂNCIA DA REDE DE APOIO
AOS DEPENDENTES QUÍMICOS EM SITUAÇÃO DE
VULNERABILIDADE SOCIAL E SUA RELAÇÃO COM
DOENÇAS INFECTOCONTAGIOSAS