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Maria Tereza Trindade Teixeira - Medicina Fisiologia -------------------Fil���ção g����ru��� � flux� ���s�áti�� re���------------------- > Introdução O primeiro passo na formação da urina é a filtração de grandes quantidades de líquido através dos capilares glomerulares para a cápsula de Bowman – quase 180 ℓ/dia. A alta taxa de filtração glomerular depende de um alto fluxo sanguíneo renal, assim como de propriedades especiais das membranas dos capilares glomerulares. > Composição do filtrado Os capilares do glomérulo são relativamente impermeáveis às proteínas, de forma que o líquido filtrado é, em essência, livre de proteínas e elementos celulares, incluindo hemácias. As concentrações dos demais constituintes do filtrado glomerular, incluindo a maioria dos sais e moléculas orgânicas, assemelham-se às suas concentrações plasmáticas. > Taxa de filtração glomerular Os capilares glomerulares filtram líquido em uma taxa determinada pelos seguintes fatores: ● equilíbrio entre as forças hidrostáticas e coloidosmóticas que atuam através da membrana capilar. ● coeficiente de filtração capilar (Kf), produto da permeabilidade e área de superfície de filtração dos capilares. ! Os capilares glomerulares têm taxa de filtração muito mais alta do que a maioria dos capilares em virtude da alta pressão hidrostática glomerular e do alto Kf. > Membrana glomerular A membrana capilar glomerular apresenta três (em vez de duas) camadas principais: ● o endotélio dos capilares; ● uma membrana basal; ● uma camada de células epiteliais (podócitos) que circundam a superfície externa da membrana basal do capilar Essas camadas perfazem a barreira de filtração. 1 Maria Tereza Trindade Teixeira - Medicina Fisiologia O endotélio capilar é perfurado por milhares de pequenos orifícios denominados fenestras. Porém, as proteínas celulares endoteliais são ricamente carregadas com carga negativa, o que dificulta a passagem de proteínas plasmáticas. Ao redor do endotélio há a membrana basal, que consiste em uma rede de colágeno e fibrilas de proteoglicanos com amplos espaços. A membrana basal dificulta muito a filtração de proteínas plasmáticas, em parte pelas fortes cargas negativas associadas aos proteoglicanos. A porção final da membrana glomerular consiste em uma camada de células epiteliais (podócitos) que revestem a superfície externa do glomérulo. Esses podócitos não são contínuos, eles têm longos processos que lembram pés (pódos) que circulam a superfície externa dos capilares. Os processos podais dessa membrana são separados por espaços denominados poros em fenda, através dos quais flui o filtrado glomerular. As células epiteliais, que possuem em sua estrutura proteínas cuja carga também é negativa, fornecem restrição adicional à filtração de proteínas plasmáticas. Filtrabilidade dos solutos inversamente proporcional ao seu tamanho: A membrana do capilar glomerular é mais espessa do que a da maioria dos capilares, porém também mais porosa, filtrando líquidos em taxa mais alta. Apesar da alta taxa de filtração, a barreira de filtração glomerular é seletiva na determinação de quais moléculas serão filtradas, com base em seu tamanho e carga elétrica. Moléculas grandes com carga negativa são filtradas com menos facilidade que moléculas de carga positiva com igual tamanho: O diâmetro molecular da proteína plasmática albumina é de apenas cerca de 6 nanômetros, ao passo que os poros da membrana glomerular têm cerca de 8 nanômetros. Contudo, a albumina tem filtração restrita em razão da sua carga negativa e da repulsão eletrostática exercida pelas cargas negativas dos proteoglicanos da parede capilar glomerular. > Determinantes da taxa de filtração glomerular: TFG = Kf × Pressão resultante de filtração 2 Maria Tereza Trindade Teixeira - Medicina Fisiologia A pressão resultante de filtração representa a soma das forças hidrostáticas e coloidosmóticas que favorecem ou se opõem à filtração através dos capilares glomerulares ● pressão hidrostática dentro dos capilares glomerulares (pressão hidrostática glomerular, PG), que favorece a filtração. ● pressão hidrostática da cápsula de Bowman (PB), fora dos capilares, que se opõe à filtração. ● pressão coloidosmótica das proteínas plasmáticas do capilar glomerular (πG), que se opõe à filtração. ● pressão coloidosmótica das proteínas da cápsula de Bowman (πB), que favorecem a filtração. TFG = Kf × (PG – PB – πG + πB) Coeficiente de filtração capilar glomerular: O Kf é uma medida do produto entre a condutividade hidráulica e área de superfície dos capilares glomerulares. Não é possível mensurá-lo diretamente, porém é possível estimá-lo experimentalmente dividindo-se a TFG pela pressão resultante de filtração: Kf = TFG/Pressão resultante de filtração Embora o aumento do Kf eleve a TFG e sua diminuição também reduza a TFG, alterações do Kf provavelmente não proporcionam um mecanismo primário para a regulação diária normal da TFG. Pressão hidrostática da cápsula de Bowman: Em alguns estados patológicos associados à obstrução do trato urinário, a pressão da cápsula de Bowman pode aumentar significativamente, causando grave redução da TFG. Pressão Coloidosmótica: O aumento da PB diminui a TFG, ao passo que sua diminuição aumenta a TFG. Contudo, alterações da pressão da cápsula de Bowman normalmente não constituem meio primário de regulação da TFG. Dois fatores influenciam a pressão coloidosmótica do capilar glomerular: ● a pressão coloidosmótica plasmática arterial; ● a fração de plasma filtrada pelos capilares glomerulares (fração de filtração). O aumento da pressão coloidosmótica plasmática arterial aumenta a pressão coloidosmótica do capilar glomerular, o que tende a reduzir a TFG. O aumento da fração de filtração também concentra as proteínas plasmáticas e 3 Maria Tereza Trindade Teixeira - Medicina Fisiologia aumenta a pressão coloidosmótica glomerular. A fração de filtração define-se como TFG dividida pelo fluxo plasmático renal. ! O maior fluxo sanguíneo no glomérulo tende a aumentar a TFG e menor fluxo sanguíneo no glomérulo tende a diminuí-la. Pressão hidrostática do capilar glomerular: Alterações nesse valor constituem o principal meio de regulação fisiológica da TFG. Aumentos na pressão hidrostática glomerular elevam a TFG, ao passo que diminuições resultam em redução da TFG. A pressão hidrostática glomerular é determinada por três variáveis: ● pressão arterial; ● resistência arteriolar aferente; ● resistência arteriolar eferente. O aumento da pressão arterial tende a aumentar a pressão hidrostática glomerular e, por conseguinte, a TFG. O aumento da resistência das arteríolas aferentes diminui a pressão hidrostática glomerular e a TFG. A constrição das arteríolas eferentes aumenta a resistência ao fluxo de saída dos capilares glomerulares. Esse mecanismo eleva a pressão hidrostática glomerular e, contanto que o fluxo sanguíneo renal não seja muito reduzido pelo aumento da resistência eferente, a TFG sofre um ligeiro aumento. ! Todavia, como a vasoconstrição da arteríola eferente também diminui o fluxo sanguíneo renal, a fração de filtração e a pressão coloidosmótica glomerular aumenta conforme aumenta a resistência arteriolar eferente. Sendo assim, no caso de constrição grave da arteríola eferente a força resultante de filtração diminui, causando redução da TFG. Níveis moderados de constrição causam aumento discreto na TFG, já níveis graves provocam redução da TFG. > Fluxo sanguíneo renal O fluxo sanguíneo traz nutrientes e remove produtos de excreção dos rins. Todavia, o alto fluxo renal excede sobremaneira essa necessidade. O propósitodesse fluxo adicional é suprir plasma suficiente para as altas taxas de filtração glomerular necessárias à regulação precisa dos volumes e da concentração de solutos dos líquidos corporais. Fluxo sanguíneo e consumo de O2 renal: os rins normalmente consomem oxigênio a uma taxa equivalente ao dobro da taxa do encéfalo, porém seu fluxo 4 Maria Tereza Trindade Teixeira - Medicina Fisiologia sanguíneo é quase sete vezes maior que o fluxo do encéfalo. ! Os rins normalmente consomem oxigênio a uma taxa equivalente ao dobro da taxa do encéfalo, porém seu fluxo sanguíneo é quase sete vezes maior que o fluxo do encéfalo. Determinantes do fluxo sanguíneo renal: é determinado pelo gradiente de pressão através da vasculatura renal (diferença entre as pressões hidrostáticas da artéria renal e da veia renal) dividido pela resistência vascular renal total. A pressão da artéria renal é quase igual à pressão arterial sistêmica, ao passo que a pressão da veia renal se situa por volta de 3 a 4 mmHg na maioria das condições. A resistência vascular total através dos rins é determinada pela soma das resistências em segmentos vasculares individuais, incluindo as artérias, arteríolas, capilares e veias. A maior parte da resistência vascular renal reside em três segmentos principais – artérias interlobulares, arteríolas aferentes e arteríolas eferentes. A resistência desses vasos é controlada pelo sistema nervoso simpático, vários hormônios e mecanismos de controle renal interno locais. Um aumento na resistência de qualquer um dos segmentos vasculares dos rins tende a reduzir o fluxo sanguíneo renal, ao passo que uma diminuição na resistência vascular aumenta o fluxo sanguíneo renal, se as pressões da artéria e veia renal permanecerem constantes. ! Embora alterações na pressão arterial exerçam certa influência sobre o fluxo sanguíneo renal, os rins possuem mecanismos eficazes de manutenção do fluxo sanguíneo e TFG relativamente constantes dentro de uma faixa de pressão arterial de 80 a 170 mmHg. > Controle fisiológico da filtração glomerular e fluxo sanguíneo renal O determinante da TFG mais variável e suscetível ao controle fisiológico é a pressão hidrostática glomerular. Sistema nervoso simpático: todos os vasos sanguíneos renais são ricamente inervados por fibras nervosas simpáticas. A ativação intensa desses nervos pode causar vasoconstrição das arteríolas renais e diminuir o fluxo sanguíneo renal e a TFG. Controle hormonal parácrino: Diversos hormônios podem influenciar a TFG e o fluxo sanguíneo renal. 5 Maria Tereza Trindade Teixeira - Medicina Fisiologia A noradrenalina, a adrenalina e a endotelina causam constrição dos vasos sanguíneos renais e diminuem a taxa de filtração glomerular. A angiotensina II causa constrição preferencialmente das arteríolas eferentes na maioria das condições fisiológicas. O óxido nítrico derivado do endotélio reduz a resistência vascular renal e aumenta a taxa de filtração glomerular. As prostaglandinas e a bradicinina reduzem a resistência vascular renal e tendem a aumentar a taxa de filtração glomerular. > Autorregulação da taxa de filtração glomerular e fluxo sanguíneo renal Os mecanismos de feedback intrínsecos dos rins normalmente mantêm o fluxo sanguíneo renal e a TFG relativamente constantes, mesmo diante de alterações significativas da pressão arterial. A maior função da autorregulação nos rins é manter uma TFG relativamente constante e controlar, de maneira precisa, a excreção renal de água e solutos. A TFG normalmente se mantém relativamente constante, mesmo diante de flutuações consideráveis da pressão arterial que ocorrem durante as atividades diárias de uma pessoa. Na realidade, mudanças na pressão arterial geralmente exercem efeito muito menor sobre o volume de urina por duas razões: ● A autorregulação renal previne grandes alterações da TFG que poderiam ocorrer; e ● Há mecanismos adaptativos adicionais nos túbulos renais que os fariam aumentar sua taxa de reabsorção após um aumento da TFG, fenômeno denominado balanço glomerulotubular. Feedback tubuloglomerular: Os rins possuem um mecanismo especial de feedback que conecta mudanças na concentração de cloreto de sódio da mácula densa com o controle da resistência arteriolar renal e autorregulação da TFG. A diminuição do cloreto de sódio na mácula densa causa dilatação das arteríolas aferentes e aumento da liberação de renina. 6 Maria Tereza Trindade Teixeira - Medicina Fisiologia Autorregulação miogênica: Outro mecanismo que contribui com a manutenção de fluxo sanguíneo renal e TFG relativamente constantes é a capacidade individual dos vasos de resistir ao estiramento durante o aumento da pressão arterial, conhecida como mecanismo miogênico. O estiramento da parede vascular permite maior movimento de íons cálcio do líquido extracelular para dentro das células, causando sua contração. Essa contração previne estiramento excessivo do vaso, ao mesmo tempo que aumenta a resistência vascular, o que auxilia na prevenção de aumentos excessivos do fluxo sanguíneo renal e TFG durante momentos de pressão arterial elevada. 7