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CONCEPÇÕES DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO Textos de Referência TEXTO 2 – Caderno 1º Ano - Concepções de alfabetização: o que ensinar no ciclo de alfabetização? Eliana Borges Correia de Albuquerque TEXTO 2 - Caderno 2º Ano - A complexidade da aprendizagem do Sistema de Escrita Alfabética: ampliação do tempo para a consolidação da leitura e da escrita pela criança Magna do Carmo Silva Cruz, Eliana Borges Correia de Albuquerque TEXTO 2 – Caderno 3º Ano - Alfabetização: o que ensinar no terceiro ano do ensino fundamental - Telma Ferraz Leal, Ana Lúcia Guedes-Pinto TEXTO 2 - Caderno Educação do Campo - Alfabetização e letramento no campo: desafios e perspectivas - Carolina Figueiredo de Sá, Rui G. M. Mesquita Métodos e Concepções de Alfabetização “Professora, é que não me dou pro estudo, minha cabeça é que é muito dura pra aprender. Sei as letras todas, sei juntar algumas assim, uma com outra, mas quando aparece tudo junto na palavra aí esqueço!” (Aluísio, 47 anos, camponês, Palmares/PE) (Caderno Educação do Campo, p.17) Como analisar as Dificuldades de Seu Aluísio? As dificuldades de Seu Aluísio podem estar relacionadas ao como se deu o processo de sua alfabetização, às estratégias utilizadas para ensinar, ao ensino do Sistema de Escrita Alfabética (SEA), geralmente concebido como um código. Seu Aluísio memorizou letras e sílabas, mas não compreende o sistema de escrita alfabética. Como ocorre o ensino nas metodologias tradicionais? 1- As letras são apresentadas fora de um contexto significativo. 2- Os estudantes precisam decorar todas as letras para poderem avançar na alfabetização.. 3- As crianças são levadas a uma exaustiva atividade de memorização dos nomes das letras, dos sons, das variações gráficas. 4- O trabalho com as “famílias” também ocorre de forma abstrata e mecânica, desligada de um contexto significativo. Métodos Tradicionais de Alfabetização Métodos Sintéticos Partem do estudo das unidades menores da língua (letras, fonemas ou sílabas), para só então iniciarem o estudo das unidades maiores da língua (palavras, frases ou textos). Métodos Analíticos Surgem em fins do século XVIII, no esforço de motivar as crianças para o estudo da língua. Partem do estudo de unidades significativas da língua (palavras, frases ou textos), para depois analisar suas partes menores (sílabas, letras, fonemas). Palavras ou pequenas sentenças são apresentadas às crianças, para que as memorizem e as leiam globalmente. Métodos Analítico-sintéticos Iniciam o estudo da língua com as unidades maiores e concentram-se logo depois na análise silábica das palavras para, em seguida, formar novas palavras com as famílias silábicos estudadas. O estudo limitado às palavras ou frases compostas pelas famílias silábicas já conhecidas pelos alunos deram origem a sentenças e textos artificiais (ex: “Ivo viu a uva”), desligados da realidade concreta dos alunos e sem as características de textos reais. Resultados da Alfabetização com Metodologias Tradicionais Na década de 1980, as práticas de alfabetização baseadas em métodos sintéticos e analíticos culminaram na reprovação de parcela significativa da população. À luz de teorias construtivistas e interacionistas de ensino essas metodologias passaram a ser criticadas. Os trabalhos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, sobre a Psicogênese da Língua Escrita, influenciaram o desenvolvimento de novas práticas de alfabetização. Escrita como Sistema de Representação Ferreiro e Teberosky demonstraram que a escrita alfabética não é um código, que se aprende por meio de atividades de repetição e memorização. As autoras propuseram uma concepção de língua escrita como um sistema de notação, sendo que, no processo de apropriação do Sistema de Escrita Alfabética, os alunos precisam entender como esse sistema funciona, compreender o que a escrita nota (ou “representa”, “grafa”) e como a escrita cria essas notações (ou “representações”). Ou seja, entender que são registrados os sons das partes das palavras). Níveis de Escrita De acordo com Ferreiro e Teberosky, no processo de apropriação da escrita alfabética, as crianças ou adultos analfabetos passam por diferentes fases. Inicialmente, o aprendiz apresenta uma escrita pré-silábica, em que não há correspondência grafofônica, depois passariam pela escrita silábica e, posteriormente chega-se à escrita alfabética, na qual percebe a relação fonema-grafema. Mudanças oriundas da Psicogênese da Língua Escrita A difusão da Psicogênese da Língua Escrita fez nascer um forte discurso contrário ao uso dos tradicionais métodos de alfabetização. Passou-se a pregar a necessidade de as crianças se apropriarem do Sistema de Escrita Alfabética a partir da interação com diferentes textos escritos em atividades significativas de leitura e produção de textos, desde a Educação Infantil. Por outro lado, foi divulgada a crença de que a interação com textos garantiria que os alunos se apropriassem da escrita alfabética. No entanto, a alfabetização não acontece de forma espontânea, mas exige um trabalho de reflexão sobre as características do nosso sistema de escrita A Psicogênese e a Perda da Especificidade da Alfabetização Soares (2004) entende que os problemas da não alfabetização podem estar relacionados a uma perda de especificidade da alfabetização, chamado de “desinvenção da alfabetização” e destaca alguns equívocos surgidos com a transposição da psicogênese para a prática pedagógica: 1) o privilégio da faceta psicológica da alfabetização que obscureceu sua faceta linguística – fonética e fonológica; 2) a incompatibilidade entre o paradigma conceitual psicogenético e a proposta de métodos de alfabetização; 3) a disseminação do pressuposto de que apenas com o convívio intenso com o material escrito que circula nas práticas sociais a criança se alfabetizaria. É preciso reinventar a Alfabetização? Para “reinventar a alfabetização”, mais do que defender a volta dos antigos métodos (analíticos ou sintéticos) que priorizam o ensino de um "código" para depois os alunos poderem ler e escrever textos diversos, Soares (2004) defende o trabalho específico de ensino do Sistema de Escrita Alfabética inserido em práticas de letramento. O conceito de letramento foi disseminado, no Brasil, a partir da década de 1990, incorporando o discurso relativos aos usos e funções da escrita com base no desenvolvimento de atividades significativas de leitura e escrita. O conceito de Letramento No Brasil, o termo letramento não substituiu a palavra alfabetização, mas aparece associada a ela. Segundo Soares (1998), o termo letramento é a versão para o Português da palavra literacy, que significa o estado ou condição que assume aquele que aprende a ler e escrever. Para a autora, alfabetizar e letrar são duas ações distintas, mas indissociáveis. O ideal seria alfabetizar letrando, ou seja: ensinar a ler e escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, de modo que o indivíduo se tornasse, ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado (Soares, 1998, p. 47). Que práticas de ensino são necessárias na escola? É necessário um ensino que contemple os diferentes eixos do ensino da Língua Portuguesa, de modo a se garantir que, desde o 1º ano, as crianças vivenciem atividades que as façam avançar em relação ao processo de apropriação e consolidação da escrita alfabética, à leitura e produção de textos. Em relação à apropriação da escrita alfabética, espera-se que, no 1º ano, a criança construa a base alfabética e que, no 2º e 3º anos seja consolidada a aprendizagem das correspondências som-grafia. Em relação à leitura e à produção de textos, espera-se que os alunos vivenciem atividades envolvendo diferentes gêneros textuais, desde o 1º ano, e que no final do 3º ano possam ler e produzir textos diversos com autonomia. O que se espera da criança no 1º ano de Escolaridade? No 1º ano, espera-se que a criança seja sistematicamente inserida no processo de alfabetização e que esteja alfabética aofinal dessa etapa. No entanto, em muitas salas de aula do 2º ano há uma quantidade significativa de crianças que iniciam esse ano sem o domínio do Sistema de Escrita Alfabética. Se as crianças concluem o primeiro ano do Ensino Fundamental compreendendo os princípios básicos do sistema de escrita, será muito mais provável que consigam consolidar a fluência de leitura e de produção de textos nos dois anos seguintes, que possam ganhar autonomia e lidar com os textos de modo mais seguro. Assim, no 3º ano, podemos nos dedicar a ajudar as crianças a ganhar ainda mais fluência de leitura e desenvoltura na escrita, além de inseri-las em situações de leitura e de produção de textos mais complexas. A Aquisição do Sistema de Escrita Alfabética Os conhecimentos e habilidades relativos à aprendizagem da base alfabética são de natureza diferente dos conhecimentos e habilidades relativos aos eixos de produção e compreensão de textos, pois podem ser aprendidos em um tempo relativamente curto. Algumas aprendizagens podem ser consolidadas logo no início do 1º ano: 1) Conhecer as letras o alfabeto; 2) Saber que as palavras são segmentadas em sílabas; 3) Perceber que existem relações entre o uso das unidades gráficas (letras) e unidades sonoras (fonemas); 4) Comparar palavras quanto às semelhanças sonoras e gráficas. Alfabetização e Motivação Estudo de Bernardin (2003) possibilitou identificar diferenças nos modos como as crianças encaravam o processo de alfabetização. 1- Algumas crianças destacavam-se como ativas pesquisadoras - agiam como se soubessem que a aprendizagem requer várias estratégias (prestar atenção nas palavras, analisar e perguntar), tinham consciência que não se aprende tudo de uma vez. Essas crianças eram capazes de nomear alguns objetos de saber (nome das letras, como elas se juntavam), nomeavam alguns suportes textuais que iriam estudar na escola (livros, revistas...). 2- Outras crianças tendiam a ser mais passivas receptoras - não conseguiam explicar o que tinham que fazer para aprender, achavam que tudo dependia do professor; tinham medo de errar, dificuldades de nomear objetos de aprendizagem e suportes textuais. Faltaria a tais estudantes a oportunidade de se interrogar sobre a escrita e sobre a própria lógica de funcionamento de seu sistema. Concluindo ... No processo pedagógico não se pode acreditar na ideia de que aprender a ler e a escrever signifique apenas adquirir um “instrumento” para futura “obtenção de conhecimentos”. A escolha dos textos e as situações vivenciadas em sala de aula pode ser feita de modo a considerar os temas que podem ajudar as crianças a desenvolverem atitudes críticas. A alfabetização, desse modo, pode possibilitar o engajamento das crianças em processos de interação variados em que elas sejam protagonistas e possam agir para transformação de suas próprias vidas. Concluindo ... Para que, de fato, as crianças estejam alfabetizadas aos oito anos de idade, necessitamos promover o ensino do sistema de escrita desde o primeiro ano do Ensino Fundamental e garantir que os conhecimentos relativos às correspondências grafofônicas sejam consolidados nos dois anos seguintes. Assim, é importante que, no planejamento didático , a atividades possibilitem a reflexão o sistema de escrita, situações de escrita e leitura autônoma pelos estudantes e situações de leitura compartilhada, em que os meninos e as meninas possam desenvolver estratégias de compreensão de textos. Concluindo ... Além de garantir as aprendizagens necessárias, consideramos que o processo de alfabetização pode ser também lúdico. Alfabetizar é uma tarefa complexa, mas é possível ensinar e aprender a ler e a escrever por meio de brincadeiras que estimulem a reflexão sobre o Sistema de Escrita Alfabética (SEA). Na alfabetização também se pode envolver as crianças em situações prazerosas, contextualizadas e significativas que explorem a compreensão e a produção de textos de variados gêneros orais e escritos.