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FIGURA 20 – CONCEITO DE MAIS-VALIA
FONTE: Disponível em: <http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/08/259982.shtml>. 
Acesso em: 2 fev. 2010.
TÓPICO 4 | IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
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LEITURA COMPLEMENTAR
Partindo do pressuposto que a “má ideologia” se faz presente em todos 
os espaços, nosso próximo passo será ter acesso a um texto que busca pensar 
a relação entre televisão e ideologia, ou mais especificamente, entre novela e 
ideologia, o que permite que de forma mais prática consigamos perceber como 
a ideologia está presente entre nós.
NOVELA E IDEOLOGIA
M. L. Aranha
M. H. P. Martins
Embora a escolha de um ou outro tema dependa do momento histórico, 
uma vez que é a importância de um assunto em determinado momento que 
vai possibilitar o envolvimento do espectador (resultando em bom índice 
de audiência que, por sua vez, eleva o preço da publicidade inserida naquele 
horário), os valores propostos não são muito diferentes ao longo do tempo. E isto 
se dá porque o discurso da telenovela é um discurso altamente ideológico.
O que isso quer dizer? Que a telenovela universaliza os valores de uma 
determinada classe, fazendo com que pareçam ser válidos para todos. Ao proceder 
assim, faz desaparecer os confrontos de valores das diversas classes, bem como os 
conflitos de interesses, apresentando uma visão homogênea da sociedade.
Considerando-se a diversidade cultural da população, a diversidade de 
interesses e de valores existentes no Brasil, a telenovela, ao propor os valores da classe 
média alta do Rio de Janeiro e de São Paulo para todo o país, está fazendo, nada mais, 
nada menos, propaganda ideológica, numa tentativa de construir a “massa” homogênea 
nacional, de gosto médio, para a qual é produzida. Vejamos alguns exemplos.
Apesar de retratar o cotidiano dos personagens, o trabalho, que em nossas 
vidas ocupa pelo menos metade do tempo em que estamos acordados, quase 
não aparece. Presidentes de firmas e altos funcionários são mostrados em umas 
poucas reuniões-chave, nas quais há sempre disputa de poder, assinando alguns 
papéis ou dando ordens a subalternos. Talvez seja por isso que garotos de vinte 
anos, que jamais trabalharam antes nem completaram sua educação, possam 
assumir as companhias herdadas e ter enorme sucesso. As secretárias, por sua 
vez, limitam-se a atender telefonemas, a evitar que pessoas indesejadas visitem 
seus chefes e que passem informações secretas aos inimigos. Além de muita 
fofoca, é claro. As empregadas domésticas servem para atender à campainha ou 
passar pela sala, de uniforme engomado, com um espanador na mão. Às vezes, 
são confidentes da patroa. Perguntamos: de onde vem o dinheiro? Como os 
personagens mantêm o padrão de vida mostrado pelas roupas, pelo tamanho 
das casas, pelos móveis e objetos de decoração? Mesmo quando, teoricamente, a 
casa é de um personagem pobre, não faltam a cristaleira, o sofá da moda coberto 
de tecido, adornos variados. O próprio padrão da casa é o mesmo da classe 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
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dominante: quartos individuais, banheiro, sala, cozinha, cada cômodo com sua 
finalidade específica. Isso se estende, também, aos hábitos: até o café da manhã 
é tomado sentado, com a mesa posta segundo padrões da classe média alta. 
Ninguém toma café no copo de geleia!
Desse modo, a pobreza, na televisão, é saneada, limpa, esterelizada. Ficamos 
com a pobreza idealizada que não faz ninguém perder o sono, embora saibamos da 
desigualdade da distribuição de renda no Brasil, onde 50% da população precisa 
sobreviver com apenas 10% da renda nacional. Não precisamos pensar no que seria 
preciso para que todos os brasileiros levassem uma vida digna.
Os conflitos que aparecem nas novelas se dão entre os representantes 
do Bem e os do Mal. Não há conflitos de classe ou de interesses sem que, 
necessariamente, alguém seja mau. Além disso, Bem e Mal são reduzidos 
à dimensão moral individual, jamais sendo levado em conta o social ou o 
político. Problemas sociais e políticos só são tratados em tom de farsa (como 
em “O Bem Amado”, “Roque Santeiro” ou “Que rei sou eu”?). As pessoas 
riem, reconhecem que é assim mesmo, mas acabam achando que o país não 
tem jeito, que nada pode ser feito. E, desse modo, jogando a culpa num 
passado histórico, o discurso ideológico mantém o mesmo estado de coisas, 
as mesmas pessoas ou classe de pessoas no poder, sem que sejam feitas 
mudanças sociais que beneficiem a maioria da população.
 
FONTE: Aranha; Martins (1998, p. 235-236).
Uma outra questão pertinente nesse momento é: qual a relação do conceito 
de ideologia com o de representação social? Em seu sentido positivo, ou seja, a 
“boa ideologia” tem relação direta com o conceito de representação social, ou 
seja, são praticamente sinônimos, embora a teoria das representações sociais faça 
questão de ressaltar que busca compreender como se constrói o pensamento 
social, representações socialmente compartilhadas. 
Em se tratando da ideologia no seu sentido negativo, ou da “má ideologia”, 
para Sawaia (1995) é inegável que a teoria das representações sociais é extremamente 
relevante e pertinente, no entanto, essa não se atém e não explica por que se tornam 
hegemônicos os conhecimentos que favorecem a servidão do ser humano. 
Nesse sentido, o conceito marxista de ideologia desmistifica a ingenuidade 
do processo cognitivo, colocando-o como mediação nas relações de dominação e 
exploração socioeconômica. Essa parece ser a maior diferença em relacão às duas 
teorias.
Para concluir mais essa etapa, é importante destacarmos a contribuição 
do conceito de ideologia ao estudo da consciência pelo viés da ética, do juízo de 
valor e criticidade. Essas preocupações denotam uma preocupacão e a esperança 
de emancipação dos seres humanos e na melhoria das condições de vida da 
maioria da população. O conceito de ideologia, essencialmente crítico, busca 
TÓPICO 4 | IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
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abrir os olhos dos que, como fala Platão, vivem no mundo das sombras: vivem 
em um mundo enganoso. Trazendo as pessoas para o mundo das ideias, esses 
conseguirão enxergar o mundo o mais próximo possível do que ele realmente 
é, assim estarão essas emancipadas, mais livres e aptas a fazerem suas escolhas.
DICAS
Filme que trata com primor o conceito de ideologia no seu sentido negativo é 
o documentário “Muito além do cidadão Kane”. Produzido pela BBC de Londres, em 1993, e 
proibido de ser vinculado no Brasil, revela a história de uma das principais, se não a principal 
emissora de televisão do Brasil, a Rede Globo, mostrando o quanto que em determinados 
momentos da história ela foi tendenciosa e contribuiu para ocultar informações e direcionar 
os telespectadores a comportamentos de seu interesse e/ou de grupos específicos. Esse 
documentário pode ser encontrado na rede mundial de computadores.
DICAS
m estudo abrangente e bastante completo a respeito do conceito e da teoria da 
ideologia pode ser encontrado no livro “Ideologia e cultura moderna” de John B. Thompson 
(Petrópolis: Vozes, 1995). Já para uma leitura mais simples e introdutória, uma boa leitura é o 
livro “O que é ideologia” de Marilena Chauí (São Paulo: Brasiliense, 1983).
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Ao nos referirmos aos conceitos de ideologia e alienação é importante 
termos claro que:
• Em se tratando de ideologia é importante a peculiaridade do termo. O mesmo 
apresenta dois sentidos, o que justifica falar-se em uma “boa” e uma “má” 
ideologia.
• No seu sentido positivo, ideologia significa o conjunto de ideias a respeito de algo. 
Em seu sentido negativo, trata-se do conhecimento utilizado interesseiramente 
e com a intenção de falsear a realidade. A maioria dos estudos em relação a 
esse tema se voltam à ideologia em seu sentido negativo.
• A ideologia, em seu sentido negativo, tem

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