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Curitiba 2020 Libras e temas contemporâneos em educação Faculdade Educacional da Lapa (Org.) FAEL Direção Acadêmica Fabio Heinzen Fonseca Coordenação Editorial Angela Krainski Dallabona Edição Aline CabralMariela Castro Projeto Gráfico Sandro Niemicz Arte-Final Evelyn Caroline Betim Araujo Sumário 1. Políticas públicas para a inclusão | 5 2. Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem | 19 3. Sujeitos surdos e a educação bilíngue | 43 4. Deficiência visual | 73 5. Libras como linguagem | 91 6. Multiculturalismo | 107 7. Cultura e diversidade | 125 8. Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade | 147 9. O trabalho como princípio educativo | 177 10. Educação e cidadania | 197 11. Educação como direito da criança | 213 Referências | 225 1 Políticas públicas para a inclusão A educação é um direito universal, garantido por lei para todos os cidadãos. No entanto, é preciso garantir que esse direito seja alcançado efetivamente e isso vai muito além de oferecer escolas gratuitas. Vivemos em uma sociedade de grandes desigualdades eco- nômicas e sociais. A educação tem a função de proporcionar um meio de amenizar esse cenário, mas precisa ser realizada dentro dos princípios de igualdade e, consequentemente, de inclusão de minorias. Antes de mais nada, é preciso entender o que é minoria. Minorias são grupos em situação de desvantagem social, que sofrem algum tipo de opressão e são estigmatizados por outros grupos dominantes (AMARAL, et al, 2017). Note que o termo não se refere a quantidade de pessoas, mas sim à sua situação na sociedade. Mulheres são metade da Libras e temas contemporâneos em educação – 6 – população e, ainda assim, uma minoria. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, ao final de 2019, 56,1% dos 210 milhões de brasileiros eram negros ou pardos; ou seja, uma maioria numérica, mas uma minoria social. O que se busca em uma sociedade ética é o respeito à diversidade de maneira não-discriminatória. O que isso significa? Que é preciso reconhe- cer que grupos minoritários têm características particulares e que isso não precisa ser mudado ou apontado, mas sim reconhecido e apoiado. Na prática, isso pode acontecer por meio de ações, políticas públicas e leis que entendam esse contexto e supram as necessidades identificadas. Ou seja, tratar a todos de maneira igual significa oferecer os meios neces- sários para que a condição de igualdade seja alcançada. Além disso, a inclusão precisa considerar os processos históricos que levam à discriminação das minorias. Esse processo é essencial para enten- der a configuração atual da sociedade e perceber as áreas que apresentam as maiores necessidades de atuação. Em outras palavras, é preciso identificar momentos da história em que houve a negação dos direitos humanos de cer- tos grupos para tentar minimizar os efeitos que isso ainda tem no presente. Na educação, a maior prática que visa essa igualdade é a inclusão. Ela se caracteriza por oferecer aos alunos as condições necessárias para que seu acesso, permanência e aproveitamento no ambiente educacional seja o mesmo que de alunos de grupos não-minoritários. Veremos, a seguir, algumas medidas que representam passos impor- tantes para a conquista da inclusão e para a garantia de direitos igualitários. 1.1 Legislação: apoio oficial à educação especial Constituição Federal (1988) Ao afirmar que a legislação brasileira pretende “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (art.3º inciso IV), a Constituição de 1988 oferece as bases necessárias para a inclusão. – 7 – Políticas públicas para a inclusão Isso significa que a lei brasileira garante de modo geral que todas as pessoas devem ter acesso adequado aos seus direitos. A Constituição também aponta para a obrigatoriedade do Estado em oferecer atendimento educacional especializado (AEE) gratuito e prefe- rencialmente na rede regular de ensino. Isso implica na necessidade de trazer alunos com deficiências ou difi- culdades de aprendizado para a sala de aula regular. Em 1994, a Portaria MEC nº 1.793 estabeleceu que aspectos éticos, políticos e educacionais da integração da pessoa com deficiência deveriam fazer parte do currículo de cursos de Pedagogia, Psicologia e Licenciaturas em geral. Ou seja, inicia- -se um processo de preparação do professor para lidar com alunos com necessidades educacionais especiais. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (2001) Em 2001, o Ministério da Educação emitiu a Resolução MEC CNE/ CEB 2, que determinava as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. O documento assegura o atendimento ao aluno com necessidades especiais desde creches e pré-escolas, oferecendo o acompanhamento adequado em todo o seu percurso escolar. Outro ponto importante da resolução é a própria definição de educa- ção especial, apresentada em seu artigo 3°: Por educação especial, modalidade da educação escolar, entende-se um processo educacional definido por uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especiais, organizados ins- titucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialida- des dos educandos que apresentam necessidades educacionais espe- ciais, em todas as etapas e modalidades da educação básica. Perceba que a inserção do aluno no ensino regular é priorizada, assim como é reforçada a obrigação da escola em oferecer o que for necessário para o aluno - e não o contrário. Libras e temas contemporâneos em educação – 8 – Logo em seguida, foi emitido o Parecer CNE/CEB 17, que dispunha também sobre as diretrizes, mas estendia suas orientações para além da educação básica. No mesmo ano, saiu ainda o Parecer CNE/CP 9, que apontava as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de gradu- ação plena. Ou seja, a inclusão passava agora para a necessidade da capacitação dos professores para atender aos alunos de maneira ade- quada e eficiente. Decreto nº 6.214 (2007) Em 2007, o Decreto nº 6.214 aprovou o Regulamento do Benefício de Prestação Continuada. Esse benefício tem um caráter de assistência social, que integra a Proteção Social Básica no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), e para acessá-lo não é necessário ter contri- buído com a Previdência Social. Ele determina a concessão de um benefício no valor de um salário mínimo a pessoas com deficiência (física, mental, intelectual ou sensorial) e idosos acima de 65 anos que encontrem dificuldades em exercer ativi- dade profissional. Em 2011, o Decreto n. 7.617 alterou o regulamento e flexibilizou algumas medidas, como cálculo da renda per capita, o que ampliou o acesso ao benefício. Plano de Desenvolvimento da Educação (2007) O Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), publicado em 2007 pelo Ministério da Educação e pelo governo federal, é outra conquista na luta por direitos das pessoas com deficiência. Visando o fortalecimento da inclusão, ele determina uma série de medidas que devem ser executadas para que isso aconteça na prática. São elas: 2 Programa de Formação Continuada de Professores na Educa- ção Especial; 2 Programa de Implantação de Salas de Recursos Multifuncionais; – 9 – Políticas públicas para a inclusão 2 Programa de Acompanhamento e Monitoramento do Acesso e Permanência na Escola das Pessoas com Deficiência Beneficiá- rias do Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social; 2 Programa Incluir: Acessibilidade na Educação Superior; 2 Programa de Ações Afirmativas para a População Negra nas Ins- tituições Públicas de Educação Superior; 2 Programa de Formação Superior e Licenciaturas Indígenas; 2 ProgramaNacional de Informática na Educação do Campo (Proinfo Campo); 2 Projovem Campo – Saberes da Terra e Programa Dinheiro Direto na Escola do Campo (PDDE Campo), entre outros. Política Nacional de Educação Inclusiva (2008) Em 2008, a Educação Especial é oficialmente deslocada da escola especial para o campo da educação regular, configurando-se como educa- ção inclusiva. A Educação Especial é uma modalidade de ensino que perpassa todos os níveis, etapas e modalidades, realiza o atendimento educacional espe- cializado, disponibiliza os recursos e serviços e orienta quanto à sua utili- zação no processo de ensino e aprendizagem nas turmas comuns do ensino regular (BRASIL, 2008). A ideia de Educação Especial como uma proposta pedagógica dá lugar à ideia de disponibilização de recursos e serviços, como eviden- ciado na redação do Decreto 6.571/2008. Nele, a expressão “educação especial” foi substituída por “atendimento educacional especializado”. As funções de apoiar e substituir foram retiradas da definição de educação especial, assumindo a ideia de que ela é um complemento e um suple- mento à escola comum. O Decreto 6.571 foi posteriormente revogado em 2011, pelo Decreto 7.611. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educa- ção Inclusiva tem como objetivo assegurar a inclusão escolar de alunos Libras e temas contemporâneos em educação – 10 – com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilida- des/superdotação, orientando os sistemas de ensino para garantir: a) acesso, com participação e aprendizagem, no ensino comum; b) oferta do atendimento educacional especializado; c) continuidade de estudos e acesso aos níveis mais elevados de ensino; d) promoção da acessibilidade universal; e) formação continuada de professores para o atendimento educa- cional especializado; f) formação dos profissionais da educação e comunidade escolar; g) transversalidade da modalidade de ensino especial desde a edu- cação infantil até a educação superior; h) articulação intersetorial na implementação das políticas públicas (BRASIL, 2008). Decreto n. 7.612 (2011) Em 2011, um grande avanço na legislação de inclusão foi a institui- ção do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limite. O plano aponta as condições necessárias para a equidade dos direitos das pessoas com deficiência. São determinadas as ações, políticas públicas e medidas que devem ser realizadas para que isso aconteça. Um diferencial desse documento é o fato de que ele não foca somente na educação. Seu texto destaca que a equidade real só pode ser obtida se combinarmos quatro eixos: educação, saúde, inclusão social e acessibilidade. O plano estabelece ainda a responsabilidade do governo fede- ral, em parceria com estados e municípios, de viabilizar todos esses atendimentos. Além disso, todas as contas e verbas poderiam ser fis- calizadas pelo CONADE (Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência). – 11 – Políticas públicas para a inclusão Diretrizes do Plano Viver Sem Limites: 2 garantia de um sistema educacional inclusivo; 2 garantia de que os equipamentos públicos de educação sejam acessíveis para as pessoas com deficiência, inclusive por meio de transporte adequado; 2 ampliação da participação das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, mediante sua capacitação e qualifica- ção profissional; 2 ampliação do acesso das pessoas com deficiência às políti- cas de assistência social e de combate à extrema pobreza; 2 prevenção das causas de deficiência; 2 ampliação e qualificação da rede de atenção à saúde da pes- soa com deficiência, em especial os serviços de habilitação e reabilitação; 2 ampliação do acesso das pessoas com deficiência à habita- ção adaptável e com recursos de acessibilidade; e 2 promoção do acesso, do desenvolvimento e da inovação em Tecnologia Assistiva (BRASIL, 2011). Lei n. 12.764 – Lei do Autismo (2012) O Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem características bas- tante particulares, já que apresenta diagnóstico mais complexo e não é tão conhecido pela sociedade. Por isso, é notável a importância da Lei do Autismo, criada em 2012 e que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. No novo texto, define-se que uma pessoa com TEA é a que apre- senta dificuldades de comunicação verbal e não verbal e de interação Libras e temas contemporâneos em educação – 12 – social; ausência de reciprocidade social no seu nível de desenvolvi- mento; padrões restritivos e repetitivos de comportamentos, interesses e atividades, manifestados por comportamentos motores ou verbais estereotipados ou por comportamentos sensoriais incomuns; excessiva aderência a rotinas e padrões de comportamento ritualizados; interesses restritos e fixos. Resoluções 7 e 11 (2012) As resoluções 7 e 11, divulgadas em 2012, criaram o centro-dia, uni- dades do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) dedicadas a atendi- mento para pessoas com deficiência e familiares. A ideia do projeto é criar ambientes de suporte e acolhimento a esses grupos, facilitando as rotinas diárias ao mesmo tempo em que favorecem a criação de vínculos sociais e grupos de apoio. Nesse serviço também são prestados orientação e apoio, inclusive no domicílio, aos cuidadores familiares, incentivando a autonomia da pessoa com deficiência e de seu cuidador familiar e, ainda, sua inclusão social. Lei 12.796 – Diretrizes e Bases da Educação Nacional (2013) Em 2013, uma atualização da Lei de Diretrizes e Bases da Educação original, que havia sido publicada em 1996, trouxe outra abordagem à educação especial. Ela retomou um caráter preferencial de uma educa- ção inclusiva mas não obrigatória. Ou seja, na prática, isso representa um direito de escolha para os pais: se preferem matricular o filho na rede regular de ensino ou em escolas especiais. Essa perspectiva é bem diferente, por exemplo, da que víamos no Decreto 6.571, de 2008, que valorizava a inclusão no ensino regular, pra- ticamente implicando no fechamento das escolas especiais. Programa Escola Acessível (2013) A preocupação com a estrutura física da escola para atender aos alu- nos com necessidades especiais ganhou fôlego em 2013, com a implan- tação do Programa Escola Acessível. A partir daí as escolas poderiam – 13 – Políticas públicas para a inclusão utilizar recursos do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), para esse objetivo. Com isso, foram realizados projetos de adequação arquitetônica (rampas, sanitários, vias de acesso, instalação de corrimão e de sinaliza- ção visual, tátil e sonora), e aquisição de cadeiras de rodas, recursos de Tecnologia Assistiva, bebedouros e mobiliários acessíveis. Lei n. 13.004 – Plano Nacional da Educação (2014) Com vigência de dez anos, o Plano Nacional da Educação (PNE) foi criado em 2014 e traz metas a serem cumpridas pela educação brasileira durante uma década. Ao todo, são vinte metas, que falam sobre aspec- tos diversos do sistema educacional e das perspectivas e necessidades a longo prazo. A meta quatro está relacionada à Educação Especial e visa: Universalizar, para a população de 4 a 17 anos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/super- dotação, o acesso à Educação Básica e ao atendimento educacional especializado (AEE), preferencialmente na rede regular de ensino, com a garantia de sistema educacional inclusivo, de salas de recur- sos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados. Note que o texto fala ainda sobre alunos com altas habilidades/super- dotação, ou seja, capacidade de aprendizado acima da média. O atendi- mento a estudantes que se encaixem nessa categoria tornou-se, assim, também gratuito e obrigatório. Lei n. 13.146 – Lei Brasileira da Inclusão (2015) A Lei Brasileira da Inclusão, também conhecida como Estatuto da Pes- soa com Deficiência,foi criada em 2015 e assegura os direitos de maneira bastante ampla. Ela dispõe sobre os critérios para a associação das deficiên- cias com os indivíduos e a maneira como a avaliação será realizada. Em relação à educação, ela reitera a necessidade de escolas inclusi- vas (assim como aulas e materiais), apoio individual aos alunos e o uso de tecnologias que possam facilitar o processo de aprendizagem. Libras e temas contemporâneos em educação – 14 – Você sabia? A Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Defici- ência (SNPD) é um órgão integrante da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e coordena políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência. Atua nas áreas de coordenação e supervisão de programas, trabalho, acessibilidade, inclusão, formulação de legis- lações, pareceres técnicos e atos normativos, consultas públicas, convê- nios e parcerias, estudos e pesquisas, entre outros. 1.2 Concepções teóricas: olhares sobre a deficiência A inclusão não se baseia na extinção das diferenças, mas sim no res- peito a elas e na criação de medidas que permitam o acesso a todos os seus direitos. Mas nem sempre foi assim. 1.2.1 Institucionalização (modelo biomédico) Quando se pensa no histórico do tratamento de pessoas com deficiên- cia, a institucionalização foi vista como a resposta durante séculos. A criação de casas de internação, “manicômios” e escolas especiais foi uma prática adotada durante muito tempo. Basicamente, tinham a mesma visão: a de que pessoas com deficiência deveriam ser afastadas do convívio social e agrupadas com seus “semelhantes”. Ou seja, em “insti- tuições” que se ocupariam delas, longe da sociedade. O Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, é um dos exem- plos mais conhecidos dessas instituições. Fundado em 1903, o hospital tornou-se um reduto para o qual era enviadas pessoas com transtornos psicológicos, alcoólatras, viciados em drogas, homossexuais e diversas outras pessoas que tinham comportamentos divergentes com o “normal”. Não havia um critério adequado de diagnóstico e muitas pessoas passa- vam a vida inteira nas dependências do hospital. – 15 – Políticas públicas para a inclusão O caso de Barbacena é conhecido pelos maus-tratos aos internos e pela morte de cerca de 60 mil pessoas devido aos “tratamentos” baseados em choques, violência e tortura. Contudo, independentemente da situação de maus-tratos, a institucionali- zação passou a ser combatida por seu caráter discriminatório e finalista. Não se trata de negar a importância de unidades de tratamento integral, mas elas devem ter um caráter de reabilitação e reintegração à sociedade, e não de permanência. 18/5 – Dia Nacional da Luta Antimanicomial O Movimento da Luta Antimanicomial se caracteriza pela defesa dos direitos das pessoas com sofrimento mental. Dentro desta luta está o combate à ideia de que se deve isolar a pessoa com sofrimento mental em nome de pretensos tratamentos, ideia baseada apenas nos preconceitos que cercam a doença mental. O Movimento da Luta Antimanicomial faz lembrar que, como todo cidadão, essas pessoas têm o direito fundamental à liberdade, o direito a viver em sociedade, além do direto a receber cuidado e tratamento sem que para isso tenham que abrir mão de seu lugar de cidadãos. Extraído de: http://bvsms.saude.gov.br/ultimas- -noticias/2721-18-5-dia-nacional-da-luta-antimanicomial-2 1.2.2 Normalização e integração As críticas ao processo de institucionalização, que segregava as pes- soas, resultaram na defesa da normalização, isto é, de uma tentativa de fazer com que todos seguissem as mesmas normas de maneira padroni- zada, exigindo a adaptação da pessoa à sociedade. A isso se deu o nome de integração. Ela se baseava na culpabilização da pessoa com deficiência por não “acompanhar” aquilo que era feito pelos outros. Imagine uma pessoa com miopia, que usa óculos de grau, e que fre- quenta a escola. Oferecer óculos, livros com letras maiores e pensar em um bom lugar para ela se sentar na sala de aula são medidas de inclusão. Solicitar que ela estude com pessoas que possam ler o material, oferecer os mesmos materiais e negar a relevância da dificuldade de visão seriam medidas de integração. Libras e temas contemporâneos em educação – 16 – A integração pregava uma ideia de que todos deveriam se sentir nor- mais, mas negava espaços de manifestação e fazia com que a deficiência fosse motivo de vergonha. A pessoa com deficiência deveria esconder suas necessidades específicas e encontrar, por si mesma, maneiras de realizar atividades diversas - o que é, muitas vezes, praticamente impossível. A ideia de integração está apoiada no princípio da autonomia e da liberdade individual, que inspiram o liberalismo. Nessa filosofia, cada pessoa é responsabilizada pelo lugar que ocupa, pelas propriedades que possui, pelo poder que exerce, ou pelo conhecimento que domina. Ou seja, para se integrar, a pessoa com deficiência teria que se modi- ficar até apresentar as mesmas atitudes e comportamentos “desejáveis” em seu grupo social. A educação, na perspectiva integradora, reproduzia a exclusão social, recusando-se a modificar sua estrutura de organização e suas normas de atenção, de acordo com as diferenças e capacidades das pessoas com deficiência. Dica cultural O filme italiano Vermelho como o céu, de 2007, narra a história de Mirco, um menino da região da Toscana (Itália) que perde a visão após um aci- dente na infância. De acordo com a legislação da época, crianças cegas deveriam estudar em internatos específicos e é para uma dessas escolas que Mirco é enviado. Lá, ele faz amizade com seus colegas e utiliza todos os elementos disponíveis para ensinar aos colegas como é a vida das pessoas que não podem ver. 1.3 Dois paradigmas para lidar com o diferente 1.3.1 Paradigma de serviços Como vimos, a integração era baseada na adaptação das pessoas à norma social. Ou seja, a sociedade e o governo eram isentados de suas obrigações para com grupos minoritários e cabia a cada pessoa buscar sua – 17 – Políticas públicas para a inclusão adaptação. Essa perspectiva ia ao lado de um paradigma de serviços, que era organizado em três etapas. 2 Primeira: a avaliação, que visava identificar o que deveria ser modi- ficado na pessoa para que ela se tornasse “próxima ao normal”. 2 Segunda: a intervenção, que se tratava da oferta da atenção sis- tematizada de acordo com as necessidades de normalização da pessoa. Por exemplo: o estudante com deficiência visual deveria acompanhar o ritmo de aprendizagem dos demais, sem esperar nenhum tipo de adequação, além do uso do sistema Braille para a realização das provas. O serviço oferecido era o professor itinerante, que frequentava a escola da Educação Básica, onde estava matriculado o estudante, para transcrever em Braille as provas e, posteriormente, transcrever em tinta. 2 Terceira: o encaminhamento, que se tratava da indicação da pes- soa para a busca individual dos programas de qualificação pro- fissional existentes na comunidade. Outro exemplo de serviço era a organização de programas de formação profissional, nos quais as pessoas com deficiência eram cadastradas e treinadas a realizar tarefas ou funções de caráter prático. 1.3.2 Paradigma de suporte: inclusão social A contraposição do paradigma de serviços é o paradigma de suporte. Ele se baseia na oferta das condições necessárias para que cada indivíduo alcance seus direitos e a igualdade social. O caminho básico para isso é o reconhecimento das diferenças. Não como problemas ou como dificuldades, mas somente como diferenças. As diferenças devem ser respeitadas e é preciso que as esferas sociais e insti- tucionais entendam isso e cumpram seu papel para a garantia dos direitos das minorias. A pessoa com deficiência não precisa isolar-se, ter vergonha da defi- ciência. A pessoa cega não precisa esconder sua bengala, aparentando não ter nenhumadeficiência. Quando forjamos exageradamente a aparência, encobrimos o que somos. Ao revelarmos nossos próprios limites, anuncia- Libras e temas contemporâneos em educação – 18 – mos ao outro que podemos demonstrar o que somos, mesmo que venha- mos a errar. Assim, podemos perguntar, solicitar ajuda, dizer que não entendemos o que nos foi explicado, avisar que não conseguimos fazer o que nos foi ensinado. 2 Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem Reflexão A metáfora da escola dos animais Havia uma escola para animais onde, por algum motivo, todos os ani- mais estavam indo mal. O pato era a estrela da classe de natação, porém, não conseguia subir nas árvores. O macaco era excelente subindo em árvores, mas era reprovado na natação. Os frangos se destacavam nos estudos sobre os grãos, mas desorganizavam tanto a aula de subir em árvores que sempre acabavam na sala do diretor. Os coelhos eram sen- sacionais nas corridas, mas precisavam de aulas particulares em nata- ção. O mais triste de tudo era ver as tartarugas, que, depois de vários exames e testes, foram diagnosticados como tendo “atraso de desen- volvimento”. De fato, foram enviadas para classe de Educação Especial numa distante toca de esquilos. Libras e temas contemporâneos em educação – 20 – 2.1 Como a deficiência intelectual é percebida no contexto social? A pessoa com deficiência intelectual é capaz de desenvolver a per- cepção de si mesma, da realidade que a cerca, logo, pode tomar decisões. Já a pessoa com a doença mental apresenta discernimento comprometido, devido à lesão de outras áreas cerebrais. Até 1992, a deficiência intelectual era caracterizada pela Quantidade de Inteligência (QI) (AAIDD, 2011): 2 leve – QI entre 50-70 2 moderada – QI entre 35-49 2 severa – QI entre 20-30 2 profunda – QI menor que 20 Após 1992, inicia-se um novo sistema de conceituação baseado na intensidade dos apoios necessários. A deficiência intelectual passa a ser relacionada ao contexto social em que vive a pessoa. Já conhecemos vários relatos, segundo os quais a mudança do contexto de vida determi- nou a afronta com barreiras sociais, novas exigências que não existiam no contexto anterior. As mães relatam que, antes de frequentar a escola, o filho era con- siderado uma criança única e singular. Era amada e valorizada. Os com- portamentos de ecolalia, os movimentos repetitivos e o isolamento social eram tomados como parte do processo do desenvolvimento. Quando a família foi obrigada a matricular a criança na escola, as dificuldades e as queixas passaram a preocupar. Quando chegaram os cálculos matemáti- cos, ela não conseguia mais acompanhar os outros colegas. Situação idêntica ocorre quando uma família vive e trabalha na zona rural. As atividades relacionadas ao trabalho de natureza física ocultam as barreiras de natureza intelectual, como a necessidade de abstração, gene- ralização, comparação, etc. O trabalho físico pode ser democrático para as pessoas que apresentam condições orgânicas que permitem o desempenho da tarefa. No contexto escolar, porém, os instrumentos do trabalho social e intelectual são a língua, a simbolização, a atenção, a comunicação, a inter- – 21 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem pretação, a memória e outras capacidades. Assim, a deficiência intelectual aparece nos contextos determinados, exigindo adequações instrumentais que ampliem as condições de participação da pessoa. 2.1.1 Como identificar a pessoa com deficiência intelectual? Diante de circunstâncias sociais, ela apresenta limitações no funcio- namento intelectual e no comportamento adaptativo, que se manifestam nas habilidades adaptativas conceituais, sociais e práticas. Essa condição manifesta-se antes dos 18 anos. 1. Funcionamento cognitivo ou intelectual: é a capacidade do cérebro da pessoa para aprender, resolver problemas, encontrar um sentido da vida e compreender a funcionalidade das coisas do cotidiano. 2. Comportamento adaptativo ou funcionamento adaptativo: a competência necessária para viver com autonomia e indepen- dência na comunidade em que se insere. Enquanto o diagnóstico do funcionamento cognitivo é realizado por profissionais (psi- cólogos, neurologistas, fonoaudiólogos, psiquiatras), o funcio- namento adaptativo deve ser objeto de observação por parte da família, dos pais e dos educadores que convivem com a criança, para compor a avaliação. 2.1.2 O que são as funções cognitivas superiores? São relacionadas à capacidade de aprender e compreender. As fun- ções superiores envolvem as capacidades de linguagem, aquisição da informação, percepção, memória, raciocínio, pensamento, etc. Demons- tramos essas capacidades nas tarefas de leitura, escrita, cálculos, planeja- mento, classificação, comparação, conceituação, sequência de movimen- tos e ações, problematização, percepção do ponto de vista do outro, dentre outras (AAIDD, 2011; MALLOY-DINIZ et al., 2010). Assim, a característica fundamental da deficiência intelectual é o significativo prejuízo cognitivo. A Associação Americana de Deficiência Libras e temas contemporâneos em educação – 22 – Intelectual e do Desenvolvimento (AAIDD, 2011) define tal deficiência como um funcionamento intelectual (QI) inferior à média, havendo limita- ções significativas das competências práticas, sociais e emocionais, além de limitações adaptativas em pelo menos duas habilidades. Como vimos, são três critérios básicos para conhecer parcialmente a pessoa com deficiência intelectual: a condição intelectual, as dificuldades adaptativas e o tempo de vida. Quais são as habilidades adaptativas? A pessoa apresentaria dificul- dades ao menos em duas destas áreas: comunicação, autocuidado, vida no lar, interação social, saúde e segurança, uso de recursos da comunidade, autodeterminação, funções acadêmicas, lazer e trabalho. Outro critério para sua identificação é a manifestação antes dos 18 anos de vida. Nota-se que a definição “abaixo da média”, implicitamente, sugere com- paração, inferiorização, estigmatização, padronização, o que justifica a ela- boração de práticas baseadas no modelo padrão e homogeneizado da cultura. A deficiência intelectual não significa uma incapacidade fixa. Há que considerar tanto as diferenças entre as pessoas, quanto as diferenças dos contextos educativos. Considera-se que a deficiência intelectual pode até ser estrutural, mas não pode ser agravada pela falta de estimulação ade- quada, pois toda pessoa é capaz de aprender. Apesar da mudança semântica de deficiência mental para deficiên- cia intelectual, as noções de incapacidade e anormalidade, que advêm do modelo médico, refletem uma sintomatologia fixa. A pedagogia não pode se render a essa noção de incapacidade. A incapacidade do sujeito é apenas uma condição, cabendo à peda- gogia criar situações de enriquecimento dos recursos de comunicação e de percepção de si e do cotidiano. Trata-se de ampliar as capacidades adap- tativas, dirigindo-se para a funcionalidade de cada tarefa, inundando o sujeito de sentido afetivo particular para o que realiza. 2.1.3 Quais são os sinais identificadores? Somos contrários a toda forma de rotulação e de generalização. Conhecer, respeitar e amar cada pessoa é o mínimo que podemos fazer. – 23 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem O quadro da deficiência intelectual é marcado por uma inteligência geral comprometida. A condição cognitiva apresenta: restrito raciocínio lógico, restrita capacidade de planejamento, solução de problemas deficitária, fraco pen- samento abstrato, baixa fluidez da aprendizagem, memorização restrita, baixa coordenação visual espacial e lateralidade, esquema corporal difi- cultado, limitada atenção, limitada generalização, prejuízo da capacidade expressiva (principalmente a verbal), deficitária capacidade de percepção, ausência de autodirecionamento, etc. Essa condição resulta em dificuldades nas habilidades sociais,pes- soais e ocupacionais. São observadas restrições e comprometimentos dos seguintes aspectos: responsabilidade, autonomia, observância das regras sociais, iniciativa ocupacional, interdependência, segurança pessoal (pre- sença de ingenuidade), controle emocional (manifestado tanto com agres- sividade quanto com passividade), desenvolvimento neuropsicomotor, assumência de papeis sociais (heteronomia social: dependente de direcio- namentos externos), interação interpessoal, autocuidado referente à saúde e higiene, estruturação da experiência (AAIDD, 2011; MALLOY-DINIZ et al., 2010). 2.2 Dimensões para avaliação da deficiência intelectual A Associação Americana de Retardo Mental define cinco dimensões relacionadas à deficiência intelectual. 1. Habilidades intelectuais: capacidade em planejar, raciocinar, solucionar problemas, exercer pensamento abstrato, compreen- der ideias complexas, rapidez de aprendizagem. 2. Comportamento adaptativo: habilidades práticas, sociais, auto- nomia de vida diária, responsabilidade, autoestima, observância de regras e leis, relação interpessoal e conceituais, aspectos aca- dêmicos, cognitivos e de comunicação. 3. Participação na vida comunitária: interações sociais. Libras e temas contemporâneos em educação – 24 – 4. Condições da saúde física e mental. 5. Contextos: ambiente sociocultural e o funcionamento dos sujei- tos nos ambientes social imediato (micro), a comunidade, as organizações educacionais (meso) e os grupos populacionais distintos (macro) (CARVALHO E MACIEL, 2003; PLETSCH E GLAT, 2007). 2.3 Pressupostos da aprendizagem Não é a condição inata, mas são os apoios e mediações para estabe- lecer trocas comunicativas, cooperação, empatia e interesse por ativida- des comuns a outras pessoas que melhor explicam quem é o sujeito ou o que poderá tornar-se. Esse funcionamento em contextos e nas outras dimensões pode indicar o planejamento para a aprendizagem no plano potencial do aluno. O desenvolvimento da pessoa nos contextos das relações que estabelece e os apoios que recebe nas cinco dimensões descritas são fundamentais, em vez dos critérios quantitativos pautados no QI. Para Feuerstein (1980) algumas funções cognitivas ficam prejudica- das quando não há provimento de mediação social comunicativa e intera- ção. O autor classifica as seguintes fases: 2 fase de assimilação – exploração impulsiva e desordenada de um dado problema. Pouca necessidade de exatidão na conside- ração dos dados do problema. Dificuldade para a consideração simultânea de duas ou mais fontes de informação. 2 fase de análise – dificuldade para distinguir entre informações relevantes e irrelevantes. Compreensão episódica ou desconexa das dimensões espaço-temporais. Precariedade de trabalho lógico (conexões de pensamento em uma linha indutiva “se – então”. Reflexão deficitária dos próprios processos de pensamento. 2 fase da resposta – forma egocêntrica de se comunicar. Conduta do tipo “ensaio e erro”. Impulsividade. – 25 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem Na escola regular, a metodologia de ensino exige alternativas peda- gógicas por meio das quais os alunos com deficiência intelectual sejam membros participativos e atuantes no processo educacional, além da defi- nição da documentação sobre as necessidades específicas do aluno rela- cionadas com: conteúdos e objetivos, procedimentos de ensino, avaliação e níveis de apoio pedagógico. Não aprendemos porque repetimos exaus- tivamente uma ação, mas porque nos apropriamos do significado social de algo. A escola deve aproximar a pessoa com deficiência intelectual dos demais e não a afastar. Vygotsky (1997), em seu livro Fundamentos de defectologia, cita que [...] as crianças mentalmente atrasadas devem estudar o mesmo que as demais crianças, receber a mesma preparação para a vida futura, para que depois participem dela em certa medida, junto com as demais... [Entretanto] [...] a criança atrasada domina com enorme dificuldade o pensamento abstrato, por isso, a escola exclui de seu material tudo que exige esforço de pensamento abstrato e funda- menta o ensino no caráter concreto e na visualização [...]. A memória não deve ser exercitada mecanicamente nos estudantes com deficiência intelectual. São importantes as intervenções que envolvam a reten- ção e as capacidades para a lembrança e a reconstituição de fatos e objetos, elaborando narrativas com palavras, histórias, ilustrações e significados. Em sala de aula, “o desenvolvimento de habilidades intelectuais alter- nativas e a mediação para estimular o funcionamento mental no meio esco- lar acontecem quando os alunos estão inseridos em um meio escolar livre de imposições e de tensões sociais, afetivas e intelectuais” (MANTOAN, 2006). O professor mediador não domina apenas o conhecimento objetivo, mas os processos de pensamento, a historicidade, as linguagens e implica- ções do conhecimento, no presente e no futuro de diferentes pessoas. A linguagem e o pensamento são funções primordiais para o desen- volvimento do pensamento abstrato da criança com deficiência intelec- tual, para a compensação da sua deficiência. Incluir é levar à inserção cultural, significar suas atitudes, sua fala, seu desenho, suas produções e sua aprendizagem. Não é ler e escrever como no mundo letrado, mas o sentido que isso pode ter para a pessoa. Libras e temas contemporâneos em educação – 26 – 2.4 A educação das pessoas com deficiência intelectual Na pedagogia tradicional, o método de aprendizagem ocorre por meio da repetição de conteúdos de forma mecânica, o que não faz sentido para os alunos. Nessa pedagogia, não se valorizam as experiências vividas pelos alunos, no desenvolvimento do raciocínio. Os professores utilizam esse método de ensino com alunos com deficiência intelectual justificando suas dificuldades de aprendizagem, antecipando seu fracasso, por não acreditarem em sua capacidade de aprender. Gomes (2010) identifica procedimentos do professor na “peda- gogia da negação”: 2 deixa de ensinar conteúdo ao aluno, por receio de não aprender, gerando desmotivação; 2 quando o professor aprova o trabalho do aluno, sem que este tenha se esforçado para se dedicar aos estudos; 2 quando o professor resolve o problema no lugar do aluno logo que ele apresenta dificuldades; 2 quando o professor não desafia o aluno, provocando dúvida, contrapondo ideias; 2 coloca na mochila do aluno o material necessário para os deve- res e para as lições de casa. Portanto, a pessoa com deficiência intelectual tem uma maneira própria de lidar com o saber que não corresponde aos ideais da escola. Em outra perspectiva, a aquisição do saber trata-se de uma conquista individual, não padronizada. Ou seja, se um aluno com deficiência intelectual se desenvolve no campo socioafetivo, por exemplo, representa uma grande conquista, mesmo que não alcance o mesmo desenvolvimento no campo educacional. A superproteção da pessoa com deficiência representa obstáculo ao seu desenvolvimento, configurando-se em uma forma de discriminação, pois é tomada como incapaz. Assim, pais e professores podem acreditar no potencial do aluno. Mesmo que não ocorra aprendizagem de todos os conteúdos, progressos são sempre possíveis. – 27 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem Algumas evidências sobre problemas de comportamento de crian- ças com transtorno ou deficiência intelectual indicam a permissividade e até a indiferença de professores e pais em relação aos comportamen- tos considerados socialmente inadequados (BANACO, 1997; SMITH; STRICK, 2008). Na perspectiva histórico cultural, a educação escolar tem por funda- mento atender a todos, considerando as diferenças, as singularidades, e há necessidade de promover adequações das práticas pedagógicas e avaliativas, de modo que as crianças e jovens, em sua singularidade, tenham a possibi- lidade de desenvolver tanto suas capacidades cognitivas quanto as sociais. A perspectivada inclusão escolar não se restringe à superação das dificuldades do aluno ou à socialização, mas tem como proposta favorecer a emancipação intelectual por meio da incorporação de novos conheci- mentos, de acordo com a possibilidade de ampliar o que já se conhece e de favorecer o desenvolvimento geral (BRASIL, 2006). Se a aprendizagem determina o desenvolvimento, então, o trabalho do professor não pode se limitar à transmissão de conteúdos formais. Nenhum conhecimento é aprendido se não for aplicado em uma situação que possa ser manifestada, compartilhada, sentida, que produza alegria e sentimento de potência naquele que aprende. Por exploração ou por asso- ciação, o saber só permanece quando fica um símbolo, uma marca cogni- tiva ou afetiva, nascendo um novo sujeito e um novo olhar social sobre ele. O critério para escolher o que ensinar é a possibilidade da manifesta- ção, da representação e a simbolização no cotidiano do aluno. 2.5 Aspectos da avaliação dos sujeitos no contexto escolar e social No início do processo de escolarização, é necessária a avaliação do aluno para conhecer sua trajetória de vida, os aspectos sociais, linguís- ticos, comunicativos, emocionais e motores importantes no desenvolvi- mento da percepção, da cognição, da afetividade. Com a articulação do Atendimento Educacional Especializado (AEE) e o corpo da escola, tem- -se a avaliação diagnóstica. O professor poderá organizar o plano de tra- Libras e temas contemporâneos em educação – 28 – balho movido pelos princípios da equidade, da flexibilidade, procedendo revisões e alterações continuadamente. É necessário observar o aluno em diversos ambientes, em diferentes situações, como: atividades motoras, brincadeiras, jogos, comunicação verbal, corporal, visual, relações com os colegas, o autocuidado, dentre outros aspectos essenciais para o professor propor as mediações adequadas. Familiares e professores promovem diálogos e trocas recíprocas No processo de ensino-aprendizagem, o professor deve abordar con- ceitos a partir de situações vivenciadas em seu cotidiano, que estimulem o raciocínio para resolvê-las. É fundamental explorar o contexto social do estudante e os saberes prévios, para traçar objetivos de aprendizagem. Valorizar os interesses, as preferências do aluno elevam sua autoestima, sua motivação para participar nas atividades, contribuindo na formação do vínculo com o professor. A exploração do concreto não se restringe à dimensão física. As his- tórias, as problematizações a partir de ilustrações podem formar conceitos sociais válidos. Para oportunizar a compreensão consistente, permanente e as generalizações, são necessárias as repetições, valendo-se de linguagem falada e de outras linguagens. Mas a repetição resulta significativa sempre que for acompanhada de valor afetivo e emocional. A repetição não pode ser verbalização isolada do professor. O aluno irá sentir-se estimulado sempre que for desafiado a realizar exploração ativa e for valorizado com a fala, o afeto do professor. A oportunidade de demonstrar, manifestar suas conquistas, confere-lhe empoderamento e autoconfiança. 2.5.1 Avaliação A avaliação inicial do aluno terá acompanhamento contínuo, para reorganizar as ações pedagógicas, de acordo com as observações realiza- das, articulando informações de familiares, professores da sala comum e professores do AEE. Caso as estratégias de aprendizado não alcancem as expectativas esperadas, devem ser reorganizadas durante o processo. Como lidar com alunos com deficiência intelectual na escola? Promovendo trocas simbólicas para a formação da sua identidade e a – 29 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem tomada de consciência sobre suas capacidades. Caberá ao professor ela- borar e organizar materiais levando em conta as especificidades de cada aluno. No desenvolvimento físico, a pessoa pode apresentar falta de equilíbrio e coordenação motora, dificuldade em locomoção e manipu- lação de objetos. 2.5.2 Motivação Na área emocional, o aluno pode evitar situações de dificuldades, não conseguir controlar a ansiedade e manter o autocontrole. A qua- lidade das relações sociais, as interações sociais negativas, a expec- tativa de fracasso, a dependência dos outros e a baixa autoestima são fatores importantes. O professor deve: 2 Levar o aluno a sentir-se apoiado e seguro, livre de tensão, estresse, medo, irritabilidade e ansiedade. 2 Organização da rotina: falar para o aluno, previamente, o que será necessário para realizar determinada tarefa e quais etapas devem ser seguidas. 2 Analisar o envolvimento do aluno com a atividade proposta. 2 Respeitar o interesse do aluno, o tempo, estabelecendo alternati- vas de forma positiva. 2 Oferecer períodos de descanso, silêncio, contato com objetos favoritos, conexão com uma pessoa estimada, um jogo prefe- rido, como presentes pelo trabalho. 2 Focar vagarosamente em uma atividade de cada vez. 2 O aluno aumentará seu poder de atenção e de concentração, con- dição essencial para dominar as funções cognitivas superiores. A avaliação será realizada por meio de atividades lúdicas, para o aluno apresentar sua livre expressão. O brincar propicia a formação de vínculos, liberando a espontaneidade e o bem-estar psíquico-emocional. O brincar provoca as interações, o pensar e a conexão com a realidade. Libras e temas contemporâneos em educação – 30 – 2.5.3 Aspectos a serem considerados na avaliação do desenvolvimento intelectual 1. Considerar três dimensões: 2 o aluno é um sujeito epistêmico (sujeito do conhecimento, capaz de aprender). 2 o aluno é uma pessoa contextualizada, resultado das rela- ções sociais. 2 o aluno atribui significado ao meio físico e social (sujeito de percepção e de identidade). 2. Diversificar as formas de exposição, produção e manifestação do conteúdo. 3. Flexibilizar o tempo para a realização das atividades. 4. Usar estratégias de aprendizagem cooperativa, o que contribui para a socialização do aluno. 5. Reconhecer o esforço do aluno. 6. Acompanhar o aluno em seu percurso de resolução de problema quando ele apresenta dificuldade. 7. Propor problemas adequados (Zona de Desenvolvimento Proximal). 8. Verbalizar e demonstrar para o aluno suas capacidades. 9. Solicitar que faça narrativas sobre o modo como faz o que faz, estimulando a metacognição. 2.5.4 Expressão oral É avaliada no que diz respeito à compreensão de mensagens (reca- dos) e expressão de ideias de modo coerente com o contexto em questão e utilizando vocabulário diversificado, mesmo quando o aluno não é capaz de falar. O professor pode avaliar solicitando que o aluno crie histórias escritas e, caso apresente dificuldades, ele pode se expressar por meio de desenhos, modelagens e jogos simbólicos. Pode, ainda, apontar materiais e expressões corporais em gestos afirmativos e negativos. – 31 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem A linguagem é o principal instrumento de transferência do social para o individual. Com a posse da fala, aprendemos a pensar, escolher, atribuir significado aos fatos, ao vivido, aos relatos, etc. O trabalho do professor deverá estimular a internalização da palavra como signo que lhe confere capacidades de perceber a si, os significados das ações e objetos, e ante- cipar mentalmente as tarefas a realizar. As dificuldades no uso da língua para elaborar o pensamento produzem prejuízos nas interações sociais. O professor pode enfatizar a construção de frases curtas e o modo como essa formulação é percebida por outro colega. A tomada de consciência do sentido de cada construção favorece a diferenciação entre as percepções das pessoas. Praticar as capacidades expressiva e receptiva pode ampliar os benefícios das interações sociais diárias. Todo relato, seja oral ou gestual, precisa ser valorizado e reiterativo, acrescentando-se elementos verbais que expressem aquele significado. O aluno precisa ser provocado a relataro que aprende, valendo-se de imagens, ilustrações, figuras e apoio de um colega ou do professor. Sua narrativa lhe permite pensar e entender o sentido para si. O raciocínio lógico é possível desde que o aluno seja estimulado para tal. O trabalho principal localiza-se sobre as capacidades expressivas orais, que ampliam o repertório verbal, a possibilidade de pensar, interpretar, orga- nizar lembranças, sequências de fatos e ideias, por meio de apresentação de relatos subjetivos, contação de histórias, apresentação de perguntas durante a aula, descrição de imagens, uso de linguagem variadas. O professor pode avaliar seu trabalho e o aluno, observando os seguintes aspectos: 2 aquisição dos conteúdos que foram selecionados no planejamento; 2 o desenvolvimento atual; 2 a forma como o aluno se manifesta e se relaciona; 2 como o aluno usa os recursos nas situações de aprendizagem; 2 o que ele é capaz de fazer mesmo com a mediação de terceiros (a autonomia); 2 a relação grupal (interdependência). Libras e temas contemporâneos em educação – 32 – 2.5.5 A aquisição da língua escrita É avaliada no que se refere ao aluno escrever o próprio nome, tanto manualmente quanto com o alfabeto móvel, com a sequência de letras que o formem. Deve ser avaliado se o aluno consegue escrever seu nome com a ajuda do professor, se ele reconhece seu nome escrito, mesmo quando falta uma das letras ou com a ordem alterada. A produção espontânea é avaliada ao solicitar que o aluno escreva um grupo de palavras do mesmo campo semântico, em que pode ser avaliado o nível de compreensão do aluno. Outro tipo de avaliação é solicitar ao discente que encontre no texto palavras indicadas pelo professor, observando-se se o aluno encontra as palavras por meio da memória ou da leitura. Recursos frequentes para o incentivo e a evolução da escrita são, por exemplo, canetas coloridas, folhas de papel reduzidas gradativamente de tamanho, pinceis durante as atividades de pintura, etc. O treino da escrita, ainda, deve ser organizado de tal modo que a atividade seja reconhecida como necessária para a vida diária, que estabeleça instruções diretas sobre comportamentos considerados adequados no ambiente escolar e social, possibilitando a aprendizagem de regras comuns para o convívio coletivo (por exemplo, conservação de objetos e do ambiente; silêncio em ativida- des comuns que o requerem). Atenção! Observa-se dificuldade em orientar a atenção para aquilo que interessa. Compromete o desenvolvimento do aluno: no ritmo de aprendizagem; na resolução de problemas; na transferência de informações no interior de um procedimento. No plano pedagógico, é fundamental: 1. dar orientações breves e precisas aos alunos. 2. solicitar ao aluno que explore e descreva o material sobre o qual ele irá trabalhar. 3. explicar para o aluno exatamente o que está sendo solicitado dele (compreensão do problema); – 33 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem 4. propor atividades de aprendizagem significativas e de interesse do aluno; 5. orientar o aluno a verificar suas respostas. 2.5.6 Memória As dificuldades de memória têm relação com ausência de estratégias cognitivas de reagrupamento, de repetição interna, metacognição, significado. No plano pedagógico: 1. solicitar que o aluno formule com suas próprias palavras a demanda do professor; 2. perguntar ao aluno se ele já realizou aprendizagens ou proble- mas semelhantes; 3. Interrogar frequentemente o aluno sobre as orientações para a realização da tarefa; 4. solicitar ao aluno que verifique se ele respeitou as orientações para a realização da tarefa; 5. pedir ao aluno que organize as informações, reagrupando-as de maneira que possibilite a conservação da informação; 6. ajudar o aluno a dar sentido ao seu percurso; 7. estabelecer relações com a família de maneira que as aprendiza- gens feitas na escola possam ser aplicadas também em situações da vida cotidiana e vice-versa; 8. planejar com o aluno a aplicação de seus novos saberes e o saber fazer em diferentes contextos. 2.5.7 Metacognição Dificuldades em definir com clareza a natureza do problema a resol- ver, estabelecer relações com outros problemas semelhantes e selecionar Libras e temas contemporâneos em educação – 34 – estratégias úteis para solucioná-los são comuns em pessoas com deficiên- cia intelectual. Mediar as estratégias metacognitivas, tais como: 2 antecipar a natureza e as implicações do problema; 2 comparar e selecionar as estratégias de execução significa pen- sar sobre o próprio pensamento. 2.5.8 O que considerar na prática pedagógica? 1. Considerar as narrativas, as produções, a percepção das identi- dades e das diferenças. 2. Análise dos objetivos relacionados ao ensino voltado para as diferenças. 3. Identificação das estratégias de ensino que desenvolve em sala de aula. 4. Partir de um planejamento que envolva a organização da rotina, o clima social da aula, as estratégias e os recursos pedagógicos. 5. Ajudar os alunos a atribuírem significado pessoal à aprendizagem. 6. Explorar as ideias prévias antes de iniciar nova aprendizagem. 7. Adotar uma variedade de estratégias e possibilidades de escolha. 8. Utilizar estratégias de aprendizagem cooperativa. 9. Dar oportunidade para que os alunos pratiquem e apliquem com autonomia o que foi aprendido. 10. Preparar e organizar os materiais e recursos de aprendizagem. 11. Monitorar permanentemente o processo de aprendizagem dos alunos para ajustar o ensino. 12. Fortalecer as interações entre professor-aluno e dos alunos entre si; 13. Estabelecer expectativas positivas. 14. Fortalecer os saberes dos professores (curriculares, experien- ciais, etc.); – 35 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem 15. Pautar-se pela colaboração entre os profissionais (trabalho simultâneo, cooperativo e participativo); 16. Instaurar a reflexão pelo professor sobre a prática que realiza. 17. Desenvolver diferentes atividades ao mesmo tempo na sala de aula, o que implica organização da classe e cooperação entre os professores no planejamento. 2.5.9 As aprendizagens escolares Na sala de aula, é avaliado se o aluno manifesta dependência ou autonomia, quais são os recursos, equipamentos e materiais necessários para a acessibilidade. O professor precisa propor experiências sensoriais, interações, relatos verbais e ilustrados, para propiciar a manifestação de cada aluno singular. Diante do que o aluno manifesta, o professor passa a enxergar e reiterar verbalmente o que ele já sabe. O conhecimento potencial é sempre apoiado no conhecimento real e na mediação do professor. Desse modo, é possível gerar con- dições para que o aluno acerte mais do que erre, receba mais reforço imediato e feedback. Assim, promove-se a tomada de consciência da capacidade individual. Assim, o aluno reúne autoconfiança e vínculo afetivo que lhe conferem segurança emocional para dar atenção à tarefa que lhe é solicitada; 2.5.10 O desenvolvimento afetivo- social e as interações sociais Pode ser uma dificuldade para o aluno construir uma imagem de si mesmo. O aluno pode sofrer preconceito, exclusão social. As atividades que não executam com êxito em seu cotidiano podem representar desmo- tivação e baixa autoestima A memória associativa é recurso fundamental. São utilizados elementos do contexto familiar, aspectos afetivos e emocio- nais, objetos de apego, etc. O trabalho de evocação, isto é, recuperação de algo memorizado, oferecendo estímulos novos, é prática comum com os alunos com deficiência intelectual. Libras e temas contemporâneos em educação – 36 – 2.5.11 Os comportamentos e atitudes em situação de aprendizagem Como o aluno interpreta e manifesta o conhecimento? Como ele faz narrativas sobre o aprendizado, sobre o vivido? Quais são suas contribui- ções dentro de um grupo? Faz perguntas ao colega? Relata seus hábitos, suas preferências, suashabilidades e suas dificuldades? Compartilha oral- mente ou com fotos seu cotidiano? Demonstra esforço, motivação, para entender o que se passa no entorno? Oferece ajuda ao colega, às pessoas da casa em que vive? Conhecendo aspectos da percepção, da cognição e das trocas sociais do aluno, o professor pode organizar desafios sobre a dimensão potencial, verbalizando o que ele está aprendendo. Com os novos objetivos, as prá- ticas do aluno e a mediação do professor, o aluno apropria-se de novos saberes. Situações de exploração são internalizadas quando produzimos relatos e somos valorizados, perguntados e demandados. O professor organiza situações-problema para o aluno levantar hipóteses, mediante seus conhecimentos prévios. Ele irá pensar em uma ideia em várias situações diferentes, semelhantes e contrárias. Esse exer- cício lhe permitirá dominar as funções superiores, como a de abstração e de generalização. 2.5.12 Desenvolvimento psicomotor É avaliado quanto a manipular objetos de diferentes texturas, formas e tamanho, segurar o lápis para pintar, desenhar e escrever. Caso o aluno apresente dificuldades, o professor pode utilizar uma grande folha de papel, como o pardo, e aos poucos ir diminuindo esse tamanho. A avaliação não precisa ser necessariamente escrita, mas pode ser realizada por meio do uso de indicadores de avaliação; além disso, é importante que as potencialidades do aluno sejam comparadas com seus próprios parâmetros, e não com os resultados dos demais alunos da turma. Os objetivos educacionais necessitam ser centrados nos processos for- mativos e no vínculo com o mundo do trabalho e com a prática social. Desse modo, a partir das considerações de Batista e Enumo (2004), Bra- – 37 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem sil (2006, 2007, 2010), Castro, Almeida e Ferreira (2010), Fletcher et al. (2009), Malloy-Diniz et al. (2010), Sánchez (2008), Smith e Strick (2008) e Vygotsky (1998), o currículo e o planejamento propostos ao aluno com deficiência intelectual devem gerar experiências em um ambiente: 2 possível de definir ou reforçar a identidade do aluno (quem ele é, seu valor pessoal, sua cultura); sem discriminações e que pro- mova segurança, relação interpessoal, contingências positivas e bem-estar pessoal; 2 que permita a acessibilidade ao ambiente físico e a acessibili- dade instrumental (materiais e recursos que minimizem as difi- culdades sensoriais e motoras); 2 assim como em relação aos demais alunos sem deficiência, as prá- ticas de ensino devem considerar as fases de desenvolvimento do aluno, as quais podem prolongar-se por um tempo maior; 2 com práticas motivadoras, alegres e afirmativas; com estratégias ricas em estimulação e diversificadas quando necessário (por exemplo, recursos audiovisuais, objetos de diferentes materiais, cores e texturas), conforme contribuições de Gomes, Poulin e Figueiredo (2010). O bom professor desdobra uma atividade em pequenas etapas. Ele ensina o aluno a realizar uma única atividade relacionada a cada instrução, aprendendo a focar a atenção e não a desviar. O aluno pratica iniciar e terminar uma atividade, percebendo o valor da capacidade demonstrada, a beleza do trabalho, o sentido afetivo para si e para o outro. O professor presta o apoio necessário, mas verbaliza a capacidade que o aluno demonstra, levando-o a perceber essa capacidade em si. A fala do professor o ajuda a internalizar as habilidades positivas que favorecem sua autonomia. A interação com colegas que já executam tarefas de leitura, escrita e organização de materiais pode favorecer o aluno com deficiência inte- lectual. Mas a fala do professor, referida a cada tarefa do aluno, além das oportunidades de manifestação oral, são decisivas para a aprendizagem e seu desenvolvimento. Libras e temas contemporâneos em educação – 38 – Os objetivos pedagógicos podem ser: 2 estimular o desenvolvimento dos processos mentais: atenção, percepção, memória, raciocínio, imaginação, criatividade, lin- guagem, entre outros; 2 fortalecer a autonomia dos alunos para decidir, opinar, escolher e tomar iniciativas, a partir de suas necessidades e motivações; 2 promover a saída de uma posição passiva e automatizada diante da aprendizagem para o acesso e apropriação ativa do próprio saber; 2 engajar o aluno em um processo particular de descoberta e o desenvolvimento de relacionamento recíproco entre a sua res- posta e o desafio apresentado pelo professor; 2 priorizar o desenvolvimento dos processos mentais dos alunos, oportunizando atividades que permitam a descoberta, inventivi- dade e criatividade; 2 a criança com deficiência intelectual precisa exercitar sua ati- vidade cognitiva, mediante comunicação e apoio prolongados. Segundo Ross (2004), o professor pode planejar sua aula inclusiva valendo-se menos do livro texto e mais de situações-problema, aprendi- zado cooperativo, complexo temático, pensamento crítico e estético, valo- rização autêntica das pessoas e de seus potenciais. Em uma aula do 4º ano do Ensino Fundamental, os alunos se organizam em equipes, com o critério de se manter a heterogeneidade. A partir do tema água, por exemplo, os desafios são propostos, um para cada equipe, a saber: elaborar problemas sobre volume em diferentes caixas redondas, quadradas, planas, inclinadas; leitura sobre o atual estado das águas próprias para o consumo humano; escrever uma carta reivindi- cando melhorias na estação de tratamento; compor uma paródia sobre a utilidade da água em nossa vida; demonstrar o relativismo dos conceitos de frio, morno e quente; planejar uma visita a um lago da cidade; planejar pesquisas cooperativas sobre o tema água; construir diagramas e murais sobre o consumo e economia de água. – 39 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem Esse trabalho interativo inclui leitura, escrita, dança, imaginação, canto, poesia, desenho, visitas, resolução de problemas, cálculos, decisões teóricas e práticas. Nessas atividades interativas e divertidas, os desafios são em diferentes áreas, disciplinas, linguagens, estágios, diferentes com- plexidades e graus de autonomia. O menino com deficiência intelectual pode, com ajuda, recortar ou desenhar e, ainda, colar a figura da nuvem ou demonstrá-la no momento da apresentação, com independência. Assim, enquanto um grupo está realizando entrevista e desenvol- vendo habilidade de ouvir, transcrever, parafrasear e fazer perguntas, outros estão moldando em um mural ou em maquete o curso de um dos rios da cidade, após terem feito observações, cálculos de escalas, cortes, colagens e moldagens de materiais. Nessa pedagogia, os estudantes traba- lham juntos e ensinam uns aos outros. São cogestores, planejam e vivem o que aprendem. 2.6 O aluno com deficiência intelectual, a escola e a família É importante o professor saber sobre o desempenho do aluno em atividades domiciliares, na questão da interação, e se o aluno é tratado com superproteção ou autonomia, assim como é importante os familiares terem conhecimento das aprendizagens do aluno no ambiente escolar. As manifestações orais sobre o vivido, estimuladas na escola, são práticas a serem lembradas no ambiente familiar. Esse aluno tende a não dirigir por conta própria seu comportamento. Ele quase não aprende pela observação. Eis porque ele precisa da fala externa do mediador e precisa verbalizar tudo o que faz, o que vai fazer e o que já terminou. Todo conflito de interesses necessita ser resolvido imediata e paci- ficamente. Há momentos em que a fala produz ruído demais. Diante de estresse e irritabilidade, é importante ensinar o aluno a respirar profun- damente por várias vezes e lembra-lo do seu valor para as pessoas que o amam. A impulsividade e a dificuldade de autocontrole emocional podem ser superadas com práticas diárias de reforço dos vínculos afetivos e tro- cas recíprocas de reconhecimento e de valorização do outro. Libras e temas contemporâneosem educação – 40 – As atividades escolares precisam carregar um valor afetivo. Por exemplo: “vou escrever minha rotina diária para demonstrar meu amor por minha mãe”. A baixa autoestima e o sentimento de incapacidade podem ser sempre vencidos com o apoio e o encorajamento da professora e das pessoas da família. Diante de situações de estresse, é necessário o apoio emocional, trans- mitindo sensação de segurança e de estabilidade, visando evitar comporta- mentos de agressividade, como gritos, arremessos de materiais e violência física. As pessoas da família podem solicitar que ele relate determinados fatos vividos no contexto social, devendo lembrar de repeti-lo em sala de aula, a fim de motivá-lo a aprender e participar das atividades curriculares. É importante oportunizar ao aluno diferentes explorações do mundo real, bem como a criação de histórias e desafios que estimulem a imaginação, a curiosidade, a descoberta e a busca de um objetivo que lhe proporcione alegria e sentimento de capacidade. A mediação da fala do professor representa a confirmação e a validação social do que o aluno realiza. Os relatos orais ou ilustrados sobre uma exploração realizada resultam na elevação do poder pessoal. O aluno percebe a atenção do outro. A atenção, a escuta, o olhar do meu semelhante são formas de afeto e de reconhecimento do valor do outro, de quem todos nós necessitamos, afinal, somos constituídos por ele. Somos seres relacionais e dialógicos. Necessitamos pertencer e participar socialmente e, do mesmo modo, necessitamos tomar posse de nossa própria individualidade. Diante da dificuldade de abstração, o professor promove mediações continuadas para atribuir sentido positivo, fortalecer o valor afetivo, o sen- timento de capacidade do aluno. Todo discente com deficiência intelectual precisa reconhecer, ilustrar e narrar suas rotinas escolares e pessoais. As mudanças são desejadas, mas precisam ser programadas com antecedên- cia, envolvendo afeto e a participação do aluno. Ele precisa sentir-se ator do que irá realizar. A improvisação pode gerar ansiedade e insegurança. 2.7 Atendimento Educacional Especializado (AEE) A Educação Especial, os serviços de apoio e o Atendimento Educa- cional Especializado são destinados ao aluno quando houver ao menos um – 41 – Deficiência intelectual: avaliação e aprendizagem dos seguintes prejuízos: no desenvolvimento cognitivo, na motricidade, na comunicação, na competência socioemocional, na aprendizagem, ou na capacidade adaptativa (BRASIL, 2006). O AEE deve envolver benefícios que vão além do acréscimo dos con- teúdos curriculares, tendo em vista: ganhos educacionais; a maximização do desenvolvimento; a redução do isolamento, do estresse e da frustração que podem ser vivenciados pelo aluno e pela família; a independência e a autonomia; a maior produtividade pessoal; e as competências permanen- tes que reduzam futuras necessidades relativas à Educação Especial, aos cuidados com a saúde e à reabilitação (BRASIL, 2006). No AEE, objetiva-se um aprendizado diferenciado dos conteúdos curriculares estabelecidos no ensino comum, procurando criar condições para o aluno ultrapassar as barreiras comunicativas e sociais. O conheci- mento faz o caminho da dimensão social para a individual, do objetivo ao subjetivo. Na sala de aula, o conhecimento retrata o conteúdo curricular. No AEE, o aluno irá expressar uma forma subjetiva, uma habilidade social e pessoal que podem ser compreendidas com a posse de recursos pedagógi- cos ou uma prática de demonstração do seu valor e de sua capacidade. A aquisição de habilidades sociais e pessoais, não o reforço escolar, é o que fundamenta o trabalho no AEE, que se baseia na perspectiva da constru- ção do conhecimento que se converta em mais autonomia pessoal e mais benefícios das interações sociais. 2.8 Tecnologias e Softwares Educativos A Tecnologia Assistiva (TA) e as Tecnologias de Informação e Comu- nicação (TICs) são estratégias de estimulação dos processos cognitivos que podem ser utilizadas na área da educação. Os recursos, equipamentos e serviços de TA são utilizados para ampliar as habilidades funcionais, o desempenho de tarefas das pessoas com deficiência e promover maior independência e pertencimento social. O uso de jogos favorece o raciocínio lógico, a função psicomotora, a concentração, o seguimento de regras, o levantamento de hipóteses, a curiosidade, os interesses, a noção temporal, oferecendo o reforço ime- Libras e temas contemporâneos em educação – 42 – diato dos acertos. Com a observação e o feedback rápido do próprio desempenho, o professor faz a mediação, verbalizando e demonstrando as etapas percorridas e as habilidades demonstradas. A prática com jogos estimula a memória, a capacidade perceptiva, a motivação, a solução de problemas, o seguimento do ritmo próprio na execução da atividade, o reconhecimento e o treino da intencionalidade, a consciência da ação, etc. O objetivo de terminar uma tarefa, vencer uma fase, atingir uma meta pode ensinar capacidades fundamentais, como as diferentes formas de persistência. O domínio das tecnologias e a prática de jogos contri- buem para o desenvolvimento das inteligências múltiplas nas áreas da comunicação, musical, lógico-matemática, espacial, sinestésica, inter- pessoal e intrapessoal. As tecnologias favorecem os progressos específicos em leitura, escrita, verbalização, coordenação motora fina. Os Softwares Educativos podem registrar os avanços do aluno, permitindo traçar novos objetivos. 3 Sujeitos surdos e a educação bilíngue 3.1 Introdução Este capítulo tem por objetivo apresentar concepções da surdez, apontando possibilidades para as pessoas surdas cons- tituírem-se como sujeitos linguísticos por meio da Educação Bilíngue, desenvolvida no espaço escolar das classes comuns, no Atendimento Educacional Especializado e nas trocas sociais, formando identidade no contexto da cultura surda. Discutiremos as barreiras relacionadas à cultura ouvinte, ao processo de ora- lização e às possibilidades de acesso à educação, ao trabalho e à participação social, por meio da comunicação em Libras, da posse do conhecimento e da constituição da identidade surda. Libras e temas contemporâneos em educação – 44 – 3.2 Pressupostos da educação e do desenvolvimento Partimos do pressuposto de que nós não somos definidos apenas individualmente, nem apenas pelo que nos falta. A pessoa surda pode ser compreendida a partir das oportunidades sociocomunicativas, que lhe per- mitem estabelecer trocas e alianças, conferir significados, formar autocon- ceito, conhecer a realidade e participar socialmente. Essa historicidade de relações visuais/espaciais lhe confere singularidade e identidade não fixas, pois se reconstituem na medida em que os sujeitos interagem socialmente. A perda auditiva não a define, mas implica o acúmulo de experiências comunicativas de caráter visual, relacionadas ao tempo de vida de cada um, às barreiras e às interações sociais das quais participou e participa. Ao tomá-la na condição de criança, por exemplo, teremos de avaliar o contexto familiar e escolar, o processo de aquisição da Libras, as relações com os pais (se surdos ou ouvintes), a compreensão da Língua Portuguesa, os grupos sociais de que participa, etc. O tempo de vida e as experiências socioculturais produzem sua con- dição presente, cabendo ao professor ampliar as possibilidades de comu- nicação, de conhecimento e de participação social. As interações e as trocas simbólicas vão determinar suas capacidades de representação, de manifestação do conhecimento e de percepção de si e do outro. A criança com surdez necessita interagir socialmente para tomar posse da língua que lhe favoreça a manifestação espontânea do pensa- mento e a apropriação dos significados veiculados pela cultura. Eis porque a cultura, centrada apenas na oralidade, representa barreira ao desenvolvi- mento cognitivo, afetivo, linguístico,psíquico, social e cultural, afetando negativamente a formação de sua autoestima, identidade e a participação nas brincadeiras e outras trocas sociais. Na escola, alunos com surdez podem ser impedidos de se beneficiar das mediações fundamentais do professor que lhe permitam a compre- ensão das ideias e símbolos, a tomada de consciência dos significados socialmente atribuídos aos conteúdos culturais, a identificação das dife- renças e das semelhanças, implicando perdas no processo de abstração, na capacidade de compreensão e manifestação e partilha das suas criações. – 45 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue Não há conhecimento sem a posse e a reelaboração dos conceitos e significados da cultura. Nessa perspectiva, a identidade surda só seria pro- duzida em contextos de diversidade linguística, nos quais a Libras fosse não apenas um instrumento de manifestação individual da pessoa com surdez, mas um campo de trocas afetivas, políticas, disputas, resultando, em cada sujeito, no poder de reflexão, de criação, de conhecimento, de produção de narrativas, interpretações e a tomada de decisão. Sem Libras na escola, nos currículos e nas práticas pedagógicas, não haverá aprendi- zagem nem respeito à dignidade do estudante com surdez. Sem Libras, poderá haver exclusão radical do aluno surdo, oprimido pela dominação dos ouvintes e da força da cultura oralizada. A heterogeneidade pode ser enriquecedora do ser humano, desde que propaguemos a diversidade linguística. Que uma língua não seja instru- mento de opressão e de silenciamento do outro, mas a forma de manifes- tação das diferenças, provocando em cada sujeito a atitude de aprender, de admirar e de refletir: “o que o outro sabe e por que ele sabe o que eu não sei?”; “O que eu posso aprender com o outro?” Reiteramos o pressuposto, segundo o qual as diferenças não são dadas pela condição biológica, mas são constituídas dialeticamente nas trocas culturais e na percepção do que somos e do que podemos nos tor- nar. Não precisamos estabelecer a fronteira e a separação entre as pessoas com surdez e as ouvintes, em nome da condição linguística, mas temos de materializar o direito à construção da cultura surda, a identidade surda, tornando a pessoa um sujeito capaz de atuar na realidade social e modi- ficar os valores equivocados do imaginário social, relacionado à diversi- dade humana, fazendo-se singular nessas trocas interativas. 3.3 Aspectos históricos Conforme Goldfield (1997), até o século XV, o surdo era conce- bido como um ser primitivo, logo, permanecia a ideia de que não poderia ser educado. No século XVI, o médico Cardano declarou não ser crime educar e instruir a pessoa surda. A partir daí, iniciaram-se os estudos sobre as metodologias de educação de crianças com surdez. Surgiram estudos baseados na linguagem oral, ou seja, metodologia auditiva-oral baseada Libras e temas contemporâneos em educação – 46 – na língua falada em sua região. Outros estudos defenderam a Língua de Sinais, que se constitui em uma língua espaço-visual, desenvolvida pela comunicação natural, ao longo de gerações, pelos próprios surdos. Segundo Goldfield (1997), no século XVI, na Espanha, o monge benedi- tino Pedro Ponce de Leon (1520-1584) desenvolveu uma metodologia de educação para crianças com surdez que incluía datilologia (representação manual das letras do alfabeto), escrita e oralização. A metodologia do Alfabeto Manual de Ponce de Leon foi sistematizada, em 1620, na obra de Juan Martin Pablo Bonet. Em 1750, na França, Abade Charles Michel de L’Epée aprendeu com as pessoas surdas a Língua de Sinais, criando os Sinais Metódicos. Ele transformou sua casa em uma escola pública, assegurando aos surdos o direito à educação gratuita. Na Alemanha, no século XVIII, Samuel Heinick defendia a filosofia educacional oralista, em oposição à Língua de Sinais. Heinick fundou a primeira escola pública para crianças com surdez, baseada no oralismo. Em 1817, nos Estados Unidos, Thomas Hopkins Gallaudet e Laurent Clerc fundaram a primeira escola permanente para alunos surdos, utili- zando o francês sinalizado, adaptado para língua inglesa. A partir de 1821, as escolas públicas americanas passaram a trabalhar com a Língua de Sinais Americana (ASL). Em 1864, foi fundada a primeira universidade nacional para surdos, a Universidade Gallaudet (POKER, 2013). No Congresso Internacional de Educadores de Surdos, realizado em Milão, em 1880, foi escolhido o método oralista como obrigatório na edu- cação dos surdos. A Língua de Sinais foi proibida. No século XX, grande parte das escolas abandona a Língua de Sinais. A oralização passa a ser o objetivo da educação de surdos. Para aprenderem a falar, as crianças eram submetidas a treinamentos de oralização rígidos e prolongados. O estudo das disciplinas foi deixado em segundo plano, resultando na queda dos níveis de escolarização da pessoa surda. Focava-se na oralização, cau- sando sofrimento e negação da forma espontânea de comunicação da pes- soa surda. Nos anos 60, pesquisas de William Stokoe e outros autores demons- traram que a Língua de Sinais apresenta as características das línguas orais, propiciando a consciência de si, do outro, do senso de identidade, de pertencimento. Os próprios surdos expressaram a insatisfação com a – 47 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue abordagem oralista. Conforme Goldfield (1997), a filosofia bilíngue foi se disseminando por todos os países do mundo, tornando a Língua de Sinais a língua natural das pessoas surdas. No Brasil, em 1857, foi criada a primeira Escola Especial para Edu- cação de Surdos, pelo professor francês surdo Ernest Huet e com apoio do Imperador Dom Pedro II. Hoje, essa escola é o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Segundo Goldfield (1997), o INES, em 1911, passou a assumir a abordagem oralista, enfrentando a resistência dos alunos surdos, os quais continuavam a se comunicar com a Língua de Sinais, nos corredores e pátios da escola. O método oralista perdeu o caráter obrigatório com a chegada, no Brasil, na década de 70 do século XX, do Método da Comu- nicação Total. Na década seguinte, inicia-se o bilinguismo, impulsionado pelas pesquisas da professora linguista Lucinda Ferreira Brito, sobre a Língua Brasileira de Sinais. 3.4 Educação e desenvolvimento social da pessoa surda Quais os currículos de que necessitamos para construir essas diferen- ças? A criança, o jovem e o adulto surdo necessitam de ambientes fami- liares, escolares e sociais que lhes oportunizem conhecer, perceber-se e participar, recebendo o reconhecimento adequado sobre o valor social do que produzem e do que são. Família e escola, desde o nascimento da criança, da Educação Infantil ao Ensino Superior, podem propiciar as mediações que lhe permita não apenas comunicação visual corporal, por meio da Libras, mas a apropria- ção do conhecimento escolar e a participação social. Como o professor pode organizar o ensino para provocar o pensa- mento e a produção do aluno? Todo conhecimento curricular representa determinados significa- dos sociais, antes de ser internalizado, reelaborado e receber um sentido particular. Assim, o conhecimento necessita ser problematizado, recons- Libras e temas contemporâneos em educação – 48 – tituído histórica, social e individualmente. Todo conhecimento pode ser explorado por meio de aproximações empíricas, sensoriais, procedendo leituras, conversações, observações, assistindo a vídeos, identificando a presença humana na construção cultural. Essas aproximações necessitam ser elaboradas na forma de narrati- vas, fazendo nascer dentro de cada sujeito o chamado “desejo de apren- der”. Feitas as narrativas em Libras e em outras linguagens, conferidos atenção e afeto à tarefa, ao outro e a si, estabelecidas as interações com outros pares, recebidas as mediações do professor, estão criadas as possi- bilidades externas e internas para aprender. Quando a escola e as famíliasestabelecerem trocas e oportunidades para a percepção singular do sentido do que se faz e do que se aprende, teremos pessoas mais conscientes de suas capacidades e mais inteligentes. Quando crianças surdas e ouvintes forem demandadas a elaborar res- postas a problematizações e a estabelecer trocas comunicativas, poderão apropriar-se de recursos de abstração, de representação simbólica, de ante- cipação, de planejamento, de evocação, de análise e de síntese. Mas nem só de intelectualidade analítica é feito o sujeito humano. A escola deverá contribuir para que cada sujeito desenvolva a percepção de si, identifi- cando o que é e o que pode tornar-se, as diferenças e as semelhanças entre o eu e o outro, os laços que os aproximam e os distinguem. Assim, o processo de escolarização passa pelo aprendizado da Libras, pelas interações em Libras e pela leitura e escrita da Língua Portuguesa. O bilinguismo constitui-se parte da diversidade linguística, precondição para o acesso às formas mais elevadas do pensamento: o domínio dos princí- pios das ciências, a capacidade reflexiva e a participação social. As trocas sociais lhes permitem tomar consciência de sua identidade e singularidade, atribuir atenção ao outro, percebendo as etapas do traba- lho, as evidências e lacunas dos problemas propostos, as relações entre texto e contexto, os objetivos que necessita buscar e as barreiras que terá de transformar na realidade social. Estão, aqui, os pressupostos da educa- ção na diversidade, constituinte das subjetividades e das identidades. A educação exerce a função de formação da subjetividade, a fun- ção sociopolítica, desenvolvendo as capacidades de ler e interpretar as – 49 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue construções e representações científicas, de organizar o pensamento, de produzir reflexões, de aprender face às diferenças e de participar social- mente, sempre adequando-se ao seu potencial cognitivo, socioafetivo, linguístico e político-cultural e tendo perdas consideráveis no desenvol- vimento da aprendizagem. 3.5 Concepções da surdez Como notamos no Capítulo 2, as concepções da deficiência expres- sam as relações de poder, o respeito atribuído à diversidade e às ideias dominantes em cada época. A seguir, apresentaremos algumas concepções relacionadas à surdez. 3.5.1 Concepção médico-clínica Jean Itard foi um médico que ficou conhecido pelo caso do “Selva- gem de Aveyron”. Também dedicou estudos voltados à cura de pessoas com surdez. No século XIX, o surdo era visto como pessoa doente, logo, eram tomadas medidas para curá-lo. Jean Itard chegou ao extremo de apli- car cargas elétricas nos ouvidos de pessoas surdas, utilizar sanguessugas para provocar sangramentos, furar membranas timpânicas e fraturar o crâ- nio. Esses experimentos científicos levaram à morte muitas pessoas. 3.5.1.1 Classificação A deficiência auditiva é classificada de acordo com o tipo, grau e ori- gem. Essa classificação apresenta divergências segundo diferentes autores. Perda auditiva relacionada à localização anatômica 2 Perda auditiva condutiva: decorrente de causa física no ouvido externo ou médio. Exemplo: fratura no estribo. 2 Perda sensoneural: quando a causa da perda auditiva está rela- cionada ao ouvido interno ou ao nervo auditivo, que não trans- mite o som ao cérebro. 2 Perda mista: inclui componentes condutivos e sensoneurais. Libras e temas contemporâneos em educação – 50 – Classificação em graus de decibéis (dB) 2 Audição normal: perda de até 25 dB. 2 Deficiência leve: perda de 26 a 40 dB. 2 Deficiência moderada: perda de 41 a 55 dB. 2 Deficiência acentuada: perda de 56 a 70 dB. 2 Deficiência severa: perda de 71 a 90 dB. 2 Deficiência profunda: perda acima de 90 dB. 2 Anacusia: ausência total da audição. Classificação de acordo com a origem 2 Surdez Pré-Lingual: congênita (desde nascimento) ou anterior à aquisição da fala, não havendo memória auditiva. 2 Surdez Peri-Lingual: ocorre quando a criança está iniciando a aprendizagem da linguagem oral, entre 3 a 6 anos. 2 Surdez Pós-Lingual: ocorre após aquisição da fala e da leitura, a partir dos 7 anos. Essa avaliação clínica relaciona-se ao conceito legal de surdez, apre- sentado no Decreto-Lei n. 5.626, de 22 de dezembro de 2005: Considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, com- preende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Bra- sileira de Sinais – Libras. Parágrafo único. Considera-se deficiência auditiva as perdas bila- terais, parciais ou totais, de 41 (dB) ou mais, aferida por audio- grama nas frequências de 500 Hz, 1.000 Hz, 2.000 Hz e 3.000 Hz. 3.5.2 Concepção socioantropológica Nas palavras de Skliar (1997), existe uma diferença crucial entre con- ceber a surdez como uma deficiência e conceber a subjetividade surda, inserida na diversidade cultural. Eis o primeiro critério a distinguir a con- cepção clínica da surdez e a concepção socioantropológica. A concepção – 51 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue clínica visa a medicalização, o tratamento, o implante coclear no surdo, adotando a oralização e a submissão aos modelos da cultura ouvinte. A concepção socioantropológica, porém, reconhece a surdez como uma experiência de comunicação visual espacial, conferindo-lhe singulari- dade, empoderamento em suas formas de participação social e política, nas práticas educativas, no exercício do trabalho e nas relações afetivas. Na concepção socioantropológica, a pessoa com surdez não necessita ser diagnosticada nem são realizadas intervenções com o objetivo de restau- rar-lhe a audição. As pessoas produzem e são produzidas pela cultura, cons- tituindo comunidades, relações, saberes, valores e hábitos interligados pela língua, elementos simbólicos e por laços que os identificam como sujeitos. A comunidade surda tem uma linguagem própria com traços carac- terísticos, reconhecida pela Lei n. 10.436 de 24 de abril de 2002 e regu- lamentada pelo Decreto n. 5.626/2005, sendo tomada oficialmente como segunda língua brasileira. Essa língua não é o português feito em gestos, mas tem regras gramaticais próprias. A Língua de Sinais, antes, era depre- ciada ao ser chamada de “mímicas” e “gestos”, e o seu reconhecimento foi uma grande conquista social. Isso significa que a pessoa surda tem o direito de exercer sua cida- dania, tomar decisões sobre a forma como irá interagir e se comunicar com a sociedade. Portanto, não se consideram pessoas com deficiência, mas valorizam sua história e se identificam com a cultura e a comunidade surdas. Por isso, os surdos não se identificam com pessoas com deficiência auditiva. Segundo Skliar, nessa perspectiva socioantropológica, a surdez é um modelo no qual o déficit auditivo não cumpre nenhum papel relevante, um modelo que se origine e se justifique nas interações normais e habituais dos surdos entre si, no qual a Língua de Sinais seja o traço fundamental de identificação sociocultural e no qual o modelo pedagógico não seja uma obsessão para corrigir o déficit, mas a continuação de um mecanismo de compensação que os pró- prios surdos, historicamente, já demonstraram utilizar (SKLIAR, 1997, p. 140). Nesse contexto, a diferença entre surdos e deficiente auditivos é que aqueles se comunicam por meio da Língua Brasileira de Sinais, no caso do Brasil, e estes utilizam prótese auditiva e apresentam alguma dificuldade Libras e temas contemporâneos em educação – 52 – na fala (BISOL E VALENTINI, 2011). A palavra “deficiência” sinaliza que há algo faltante, e o médico passa a suprir essa necessidade por meio de um aparelho auditivo. Segundo Carlos Skliar (1998, p. 68): o surdo é um ser sociolinguístico, pertencente a uma comunidade linguística caracterizada por compartilhar o uso da Língua de Sinais e valores culturais, hábitos e modos de socialização. A Lín- gua de Sinais é um elemento aglutinante e identificatório dos sur- dos, constituindoseu modo de apropriação com o mundo, o meio de construção de sua identidade, sendo através dela que o surdo põe em funcionamento a faculdade da linguagem, inerente à sua condição humana. Portanto, as pessoas surdas não aceitam ser chamadas de pessoas com deficiência, pois se orgulham de seus elementos culturais, linguís- ticos, políticos e sociais. Quase sempre estão vinculadas a movimentos sociais e políticos, em defesa de sua cultura e de uma educação bilíngue. 3.6 Cultura surda A cultura surda são os produtos das trocas sociais que nascem dos sujeitos linguísticos. São as leituras visuais, as compreensões, os signifi- cados transformados em sentidos singulares, as construções discursivas, os lugares ocupados, os papéis desempenhados. A cultura surda é enxer- gada no modo do surdo compreender os fatos, as funções, as intenciona- lidades, as relações de poder que o afetam. Os surdos desenvolvem um olhar singular sobre as especificidades humanas. Nas palavras de Perlin (2003), a cultura surda é o modo de o surdo compreender as coisas que o cercam, experienciar, modificar e conseguir adaptar para viver. A cultura surda é constituída por sujeitos surdos, pela resistência surda, pela ocupação dos lugares de partilha de poder e de saberes, valores e afetos, sem a subordinação à cultura ouvinte, mas com a liberdade da singularidade e dos sonhos que os movem para participar nos contextos em que se encontram. Na cultura surda, os sujeitos não são vítimas do fracasso escolar, atri- buído à condição da surdez. Na cultura surda, não ocorre a hegemonia da – 53 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue Língua Portuguesa, que os afasta dos benefícios das interações, colocando- -os como estrangeiros em sua própria casa. Na cultura surda, os surdos são sujeitos linguísticos, que constituem sua singularidade e sua identidade por meio das trocas sociais visuais, apropriando-se de marcas, significados e sentidos que se renovam, modificam-se no fluxo das relações. As políticas educacionais, cujos objetivos sejam apenas os de inclu- são escolar e que desconsiderem as especificidades da pessoa surda, repre- sentam formas de homogeneização da cultura, negando-lhe a formação de sua subjetividade, sua identidade, sua autoimagem, seu acesso ao conhe- cimento, deixando-a na marginalidade social. 3.7 Ouvintização e resistência surda Perlin (1998, p. 58) observa o processo de “ouvintização” presente nas “formas de alienação de pessoas surdas através de estereótipos de surdos reproduzidos na sociedade”. Os discursos ouvintistas são feitos de práticas discursivas marcadas por estereótipos. “[...] O discurso surdo inverte a ordem ouvintista, construindo processos de resistência. Rompe e contesta as práticas historicamente impostas pelo ouvintismo. O discurso surdo continua na busca de poder e autonomia” (PERLIN, 1998, p. 58). Alguns surdos chegam a identificar outros como ouvintizados por meio do sinal de “falante” no ponto de articulação do sinal de pensar, significando que tais surdos “pensam como ouvintes” (QUADROS, 2003). Segundo Lane (1992), falar e pensar como um ouvinte é conside- rado negativo na cultura dos surdos; o surdo que adota valores de ouvinte é menosprezado e considerado traidor, e o casamento com uma pessoa surda chega a ser desaprovado. Para Lane, a projeção de identidade do surdo encobre outras diferenças que seriam mais notáveis na sociedade dos ouvintes. Nesse sentido, observa-se nas associações de surdos que as diferenças de classe social, de idade, de sexo e de raça, de certa forma, são camufladas sob uma característica comum: a surdez. Em se tratando das representações que os ouvintes têm dos surdos, observa-se que são “ouvintizadas”. A representação de surdez está associada ao significado de deficiência, ou seja, incapacidade, incompetência, falta, falha, insuficiên- cia. As representações das pessoas surdas enquanto deficientes, mutilados, Libras e temas contemporâneos em educação – 54 – inferiores, incapazes, sem linguagem, etc. estão nas falas das pessoas, nos seus comentários, nas suas perguntas, nos seus comportamentos, enfim, nas suas mentes. Os surdos passam a perceber tais representações quando começam a interagir com os ouvintes. Eles sofrem e passam por crises de identidade, pois precisam entender as diferenças existentes entre ser surdo e ser ouvinte, entre ser surdo do ponto de vista surdo e do ponto de vista ouvinte com as suas representações de surdez (QUADROS, 2003). 3.8 Identidade surda Os surdos constituem sua identidade não porque são surdos, mas por- que são sujeitos linguísticos. Ao estabelecer trocas comunicativas, os sur- dos internalizam significados sociais, assumem posicionamentos e papéis situados no tempo e no curso de vida, modificando-se ante as relações e as possibilidades nascidas das diferenças. Assim afirmou uma menina surda em um depoimento: “quando eu passei a comunicar em Libras, compre- endi finalmente que eu era surda!” Claro, como sabemos, o outro propi- cia a percepção de nós mesmos, por meio das afinidades e das diferenças produzidas nas interações sociais. “Eu percebi a mim mesma, o que não acontecia antes.” Perlin (1998) classifica a identidade surda em cinco grupos: 1. identidade surda – aquela que cria um espaço cultural visual dentro de um espaço cultural diverso, ou seja, recria a cultura visual, reivindicando à história a alteridade surda; 2. identidades surdas híbridas – aquelas de surdos pós-locutivos, que nasceram ouvintes e se tornaram surdos; 3. identidades surdas de transição – formadas por surdos que viveram sob o domínio da cultura ouvinte (em geral, os sur- dos oralizados) e que posteriormente são inseridos na comu- nidade surda (processo de “des-ouvintização” da representa- ção da identidade); 4. identidade surda incompleta – aquela dos surdos que vivem sob o domínio da cultura ouvinte e negam a identidade surda; – 55 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue 5. identidades surdas flutuantes – formadas por sujeitos surdos que reconhecem ou não sua subjetividade, mas que desprezam a cul- tura surda, não se comprometendo com a comunidade. O surdo oralizado pode sofrer fraturas em sua identidade, face às bar- reiras no processo de comunicação, sendo impedido de constituir-se como sujeito em sua plenitude. 3.9 A criança surda e a família ouvinte Em um documentário intitulado “Sou surda e não sabia”, disponível no Youtube no link <https://www.youtube.com/watch?v=Vw364_Oi4xc>, Sandrine relata sua descoberta como uma pessoa surda. Ela relata que seus pais descobriram que ela era surda tardiamente, por volta de três anos de idade. Antes de descobrirem, eles interagiam com ela, conversando como se ela ouvisse. Apesar de Sandrine não ouvir, ela compreendia as emoções de seus pais pela expressão de sorriso, de tristeza, entre outras. Entretanto, quando seus pais descobriram que Sandrine não podia ouvir, pararam de se comunicar com ela. Assim, a garota se sentiu excluída dentro de sua própria família. Sandrine foi matriculada em uma escola para ouvintes, mas ainda não tinha consciência de que era surda. Ela pensava que as pessoas se comunicavam por meio da telepatia e tentava enviar mensagens através de pensamentos. Por não conseguir se comunicar, sempre se sentia triste e isolada, até que um dia seus pais decidiram matriculá-la em uma escola para surdos. Ela conta que nesse dia se deu conta de que era surda e pela primeira vez conseguiu se comunicar com pessoas e fazer amizades. Esse documentário demonstra a importância da família no pro- cesso de inclusão. Os pais devem aprender a Língua de Sinais para se comunicar com seus filhos e buscar uma orientação multiprofissional para saber a melhor forma de interagir e educar a criança. Segundo Logman (2007, p. 20), Os surdos, filhos de pais ouvintes, são os mais desfavorecidos pela cultura. Os pais ouvintes, na sua quase totalidade, não conhecem a cultura surda e não aceitam o fato de os filhospoderem utilizar Libras e temas contemporâneos em educação – 56 – uma outra língua, que não seja a da sua tradição, semelhança e cultura, tornando-se reféns dos modelos e políticas de reabilitação e normalização. Outro vídeo disponível no Youtube, no link https://www.youtube. com/watch?v=IP9P69UawDc, apresenta o relato da família Suzin Santos. A mãe de uma criança surda a proibia de comunicar-se por meio de sinais quando pequena. Em um relato, ela conta que, um dia, a criança estava olhando para o mapa-múndi e começou a chorar, dizia que queria encon- trar o seu país, onde ela pudesse se comunicar com outras pessoas, e foi só então que a mãe percebeu a importância da Língua de Sinais. Essa situação ainda é comum de ser encontrada, e há muitas pessoas surdas que não conseguem se comunicar com suas próprias famílias. San- tos e Silveira (2013) realizaram uma pesquisa com pessoas surdas e cons- tataram que há falta de comunicação nas famílias de quase todos os surdos pesquisados, uma vez que seus familiares não valorizam a importância da Libras para eles. Há relatos de surdos que reclamam por não conseguirem se comunicar em casa, e as mães vão à escola para relatar situações nas quais não conseguem compreender o que seus filhos comunicam. O processo de ensino-aprendizagem na aquisição de uma nova lin- guagem é muito mais efetivo se praticado todos os dias. Se a família inte- ragir a todo instante com a pessoa surda, formará laços afetivos, senso de identidade, a valorização das diferenças e das capacidades singulares de cada membro familiar. 3.10 Métodos na educação de surdos Os métodos de interação e comunicação das pessoas surdas baseiam- -se ou na substituição da audição perdida por um outro canal sensorial, como a visão, o tato, ou no aproveitamento da baixa audição existente, mas isso não pode ser padronizado. A criança com razoável acuidade auditiva poderá estabelecer interações valendo-se da fala. Logo, indica- -se o método oralista. Já a criança que apresente dificuldade de oraliza- ção poderá conectar-se com o outro por meio da Língua de Sinais. Os métodos de educação e comunicação dos surdos apresentam-se em três abordagens principais, que resultam em muitas formas de se trabalhar – 57 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue com o aluno surdo. São elas: comunicação oral, comunicação total e educação bilíngue. 3.10.1 Abordagem ou método oralista A filosofia oralista visa a integração da criança surda na comunidade de ouvintes por meio da comunicação oral. A surdez é concebida como uma deficiência a ser minimizada pela aquisição da língua oral, propi- ciando a aprendizagem e o desenvolvimento da identidade como a de alguém que ouve. A educação oral requer esforço continuado de especialista, como o fonoaudiólogo, aparelho de amplificação sonora individual, atendimento precoce e proibição da comunicação em Libras. A criança deverá desen- volver a linguagem oral por meio da leitura orofacial e amplificação sonora, enquanto se expressa por meio da fala. Algumas metodologias de oralização são: método acupédico, método Perdoncini, método verbo- tonal. O método de oralização Materno Reflexivo de Van Uden, apesar de considerado meramente clínico, mostra-se como oportunidade para a criança pequena, que poderá, mais tarde, apropriar-se de outros tipos de comunicação da comunidade surda. O critério de comunicação é a centralidade da oralização e a negação de toda forma de gestualização. No século XVIII, houve uma discussão epistemológica entre os ora- listas, os gestualistas e os bilinguistas. Segundo Goldfield (1997), os ora- listas defendiam que os surdos deveriam falar a linguagem dos ouvintes e se comportar como se não fossem surdos, comunicando-se pela voz e pela leitura labial. Essa corrente propunha um processo de reabilitação baseado em uma visão de naturalização biológica. Segundo Bernardino (2000, p. 29), [...] a aprendizagem da língua oral tem o objetivo de aproximar o surdo, o máximo possível, do modelo ouvinte, a fim de integrá-lo socialmente. A língua oral passa a ser tomada como objetivo tec- nicista, em vez de ser pensada como um instrumento de formação humana, isto é, comunicação, interação e aprendizado. A proposta oralista fundamenta-se na “recuperação” da pessoa surda, a qual é identificada como “deficiente auditivo”. Libras e temas contemporâneos em educação – 58 – Atualmente, grande parte das pessoas surdas repudia a concepção oralista, porque a considera homogeneizadora. A crítica ao oralismo rei- vindica assegurar-lhes intérpretes, oportunidades de educação bilíngue, espaços educativos para interação e comunicação em Libras, bem como a participação social, a produção da cultura surda e da identidade surda. As escolas, pautadas pela abordagem oralista, visam à capacitação da pessoa com surdez para que possa utilizar a língua da comunidade ouvinte na modalidade oral como única possibilidade linguística, de modo que seja possível o uso da voz e da leitura labial, tanto na vida social, quanto na escola (BRASIL, 2007). A comunicação oral pode representar método válido para pessoa com acuidade auditiva reduzida, dede que sejam valorizadas as diferenças nas- cidas das interações e da produção da subjetividade. A oralização não pode resultar de uma imposição homogeneizadora, anulando as diferenças e res- ponsabilizando apenas o aluno surdo pelo sucesso ou pelo fracasso escolar. 3.10.2 Comunicação Total A abordagem da Comunicação Total inclui recursos auditivos, manu- ais e orais, visando os processos comunicativos entre pessoas surdas e entre surdos e ouvintes. Visa o aprendizado da oralização, mas respeita os aspectos cognitivos, emocionais e sociais da pessoa surda. A Comuni- cação Total inclui os recursos espaço-visuais, como a Língua de Sinais, a datilologia, o português sinalizado, o alfabeto digital, a ampliação sonora, obedecendo à estrutura gramatical da língua oral, não se orientando pela estrutura própria da Língua de Sinais. Nessa abordagem, o surdo não é concebido como um indivíduo com uma patologia a ser eliminada, ele é respeitado como pessoa inteira. A sur- dez é tomada como uma condição sociolinguística e cultural, que impacta nas relações sociais e no desenvolvimento afetivo e cognitivo. A Comu- nicação Total proclama que o aprendizado da língua oral não assegura o pleno desenvolvimento da criança surda. Valoriza as interações múltiplas da criança surda com outras e com a família, que poderá compartilhar afe- tos, valores, conceitos, significados e estabilidade emocional. O objetivo é eliminar bloqueios na comunicação, o isolamento social (POKER, 2002). – 59 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue A crítica à Comunicação Total refere-se ao baixo desempenho acadêmico das crianças surdas nos processos de leitura e escrita. A corrente gestualista concebia a surdez como natural, propondo a comunicação, o ensino e a aprendizagem por meio de gestos. Entretanto, essa concepção não valorizava a Língua Brasileira de Sinais, portanto, con- tinuava segregando os alunos, como no oralismo. Essas duas correntes nega- ram a língua natural dos surdos, provocando processos de discriminação, problemas na formação de sua identidade e perdas sociais significativas. A língua necessita conferir à pessoa os signos e os símbolos para estabelecer comunicação e trocas cognitivas, afetivas e sociais entre fami- liares e professor e aluno, constituindo possibilidades de empoderamento, não um recurso de isolamento. Que o oralismo não seja uma estratégia de discriminação da Libras, da cultura surda nem das diferenças entre sujei- tos ouvintes, sujeitos que interagem por meio da comunicação visual cor- poral, a Libras, etc. 3.11 Libras: a língua natural dos surdos A língua oral não pode ser adquirida pela criança surda por meio do processo de aquisição da língua materna. A ausência da audição pode produzir na criança prejuízos na percepção de si, do outro, negando-lhe o acesso aos signos,significados e símbolos nascidos da comunicação com a mãe ou com seu cuidador. O acesso da criança surda à língua materna ou língua natural per- mite-lhe constituir-se como sujeito, tomando consciência de si e do outro. A Libras permite-lhe expressar escolhas e afetos, internalizando e reela- borando os elementos da cultura. A primeira língua, a natural, é aquela aprendida socialmente, sem barreiras sensoriais ou físicas. Para as pessoas ouvintes, basta estabelecer trocas comunicativas com outros falantes para aprender a língua oral auditiva. Nas palavras de Fernandes (2005), para as crianças surdas, esse canal está interrompido, impedindo a sua aquisição de forma natural. Já a Língua de Sinais possui modalidade gestual-visual, não oferecendo impedimentos para sua aprendizagem pelos surdos, basta que a criança esteja em contato com surdos adultos ou pessoas ouvintes que a utilizam que, naturalmente, ela vai incorporando seu conjunto de Libras e temas contemporâneos em educação – 60 – regras e suas palavras, tal como se dá com crianças ouvintes. As crianças surdas só aprenderão o português se participarem de um processo formal de aprendizagem, com metodologias específicas e professores especiali- zados para esse fim. Reconhecer os surdos como sujeitos linguísticos apresenta, nas pala- vras de Quadros (2003), estas implicações: a) a aquisição da linguagem; b) a língua enquanto meio e fim da interação social, cultural, polí- tica e científica; c) a língua como parte da constituição do sujeito, a significação de si e o reconhecimento da própria imagem diante das relações sociais no sentido de Vygotsky; d) a língua enquanto instrumento formal de ensino da língua nativa (ou seja, alfabetização, disciplinas de Língua de Sinais como parte do currículo da formação de pessoas surdas); e) a Língua Portuguesa como uma segunda língua: alfabetização e letramento. 3.12 Educação bilíngue Com a garantia do profissional intérprete na escola, a educação bilín- gue passa a possibilitar relações de trocas sociais e simbólicas, a formação de representações, bem como a leitura e a escrita na Língua Portuguesa. A Língua Brasileira de Sinais teve sua origem no Alfabeto Manual Francês, que chegou ao Brasil em 1856. O Decreto n. 5.626, de 5 de dezembro de 2005, assegura às pessoas surdas a escolarização em Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa na escola comum, na sala de aula comum e no AEE. A educação bilíngue visa capacitar a pessoa com surdez para a utili- zação de duas línguas no cotidiano escolar e na vida social, quais sejam: a Língua de Sinais e a língua da comunidade ouvinte, na modalidade escrita. A educação bilíngue parte do princípio de que o surdo irá adquirir a Língua de Sinais com a comunidade surda, tomando consciência de si, – 61 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue do outro, formando conceitos, significados, manifestando sentimentos e atitudes. A Língua de Sinais será utilizada, com autonomia, para organi- zar o pensamento e perceber o sentir, conectando o sujeito com o outro e consigo próprio. A Língua Portuguesa é ensinada como segunda língua, na modalidade escrita e, quando possível, na modalidade oral. Não privilegia a estrutura da língua oral sobre a Língua de Sinais. A educação bilíngue favorece não só as interações da criança surda, mas o desenvolvimento cognitivo, psíquico e social. Com cultura e língua próprias, os surdos formam uma comunidade, com formas peculiares de pensar e agir. Precocemente, a criança será inserida nas interações, mediadas pela a Língua de Sinais. Posteriormente, será inserida nas práticas da modalidade escrita da língua falada, considerada a segunda língua. A língua oral será descartada. A criança terá acesso no contexto esco- lar a duas línguas, com estruturas completas. O princípio da educação bilíngue é respeitar a experiência psicossocial e linguística da criança com surdez. O professor ouvinte poderá aprender a Língua de Sinais e comunicar-se com o aluno surdo, conferindo-lhe respeito à sua cultura e à dignidade da pessoa humana. Incorporar a Língua de Sinais nos cur- rículos significa a materialidade do respeito aos direitos humanos das pessoas surdas, tornando as escolas espaços de manifestações criativas, perceptivas, intelectuais, emocionais, garantindo as trocas simbólicas entre os indivíduos. 3.13 Modalidades do Atendimento Educacional Especializado (AEE) 3.13.1 Atendimento Educacional Especializado em Libras Esse é o primeiro momento didático-pedagógico para os alunos com surdez na escola. Possibilita a aprendizagem dos conceitos estudados, a participação dos alunos a interação com os colegas. Ocorre em horário oposto ao da escolarização, abordando os mesmos conteúdos trabalhados Libras e temas contemporâneos em educação – 62 – em sala de aula. Por isso, é necessária a articulação com o professor da sala de aula comum. As funções do professor do AEE são: acolhimento dos alunos, identifi- cação de suas habilidades e necessidades educacionais específicas, parceria com os professores da sala de aula comum e os estudos próprios da área do AEE, identificação, organização e produção de materiais didáticos e ava- liação constante da aprendizagem de acordo com o processo de aquisição da língua, para que sejam reelaboradas estratégias de ensino-aprendizagem. O professor com surdez oferece mais vantagens aos alunos que os professores ouvintes. As imagens são indispensáveis para a compreensão do conteúdo curricular. 3.13.2 Atendimento Educacional Especializado para o ensino de Libras É o segundo momento didático-pedagógico para os alunos com surdez. Ocorre em horário inverso ao das aulas, na sala de aula comum. É realizado também pelo professor ou instrutor em Libras. O conteúdo deve ser ministrado de acordo com o conhecimento de cada aluno a res- peito da Língua de Sinais. Portanto, é necessário, antes, realizar um diag- nóstico dos alunos, a fim de avaliar seu desenvolvimento e dificuldades (DAMÁZIO, 2007). Cada país possui sua própria Língua de Sinais. A Libras utiliza as mãos, expressões faciais e do corpo e possui estruturas gramaticais pró- prias, compostas de aspectos linguísticos: fonológico, morfológico, sintá- tico e semântico-pragmático. No Brasil, a Libras é reconhecida pela Lei n. 10.436/2002. A habilitação para o ensino da Libras ocorre pelo exame ProLibras promovido pelo MEC/INEP, ou pelo curso de Licenciatura de Letras/Libras. Brito (1995) apresenta os parâmetros da Libras: 2 Configuração das Mãos (CM) – são 63 posições dos dedos e das mãos, segundo o Instituto Nacional de Educação dos Sur- dos (INES). – 63 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue 2 Ponto de Articulação (PA) – é o espaço na frente do corpo em que as mãos se articulam, como, por exemplo, na frente do peito ou acima da cabeça. 2 Orientação – é a parte da mão que entra em contato com o corpo. 2 Direção – é a forma que a palma da mão assume durante o sinal. 2 Movimento (M) – a direção interna das mãos e dos pulsos. 2 Expressão facial e corporal ou Expressões Não Manuais (ENM) – são elementos não manuais que expressam sentimentos. 2 Termos técnicos científicos – existem alguns termos técnico- -científicos que ainda não têm a tradução para a Língua Brasi- leira de Sinais. Portanto, é necessário gerar novas convenções no dicionário de Libras. Segundo Damázio, O professor e/ou instrutor de Libras organiza o trabalho do Aten- dimento Educacional Especializado, respeitando as especificida- des dessa língua, principalmente o estudo dos termos científicos a serem introduzidos pelo conteúdo curricular. Eles procuram os sinais em Libras, investigando em livros e dicionários especializa- dos, internet ou mesmo entrevistando pessoas adultas com surdez [...] (DAMÁZIO, 2007, p. 32). Todos esses parâmetros são considerados pelo professor na avaliação do professor no ensino de Libras, sendo que deve haver referências visu- ais, para que o aluno associe a imagemao gesto, além de DVDs, livros, dicionários e outros materiais. 3.13.2.1 Momento didático-pedagógico: o AEE em Libras na escola comum O uso de imagens visuais e de outras referências pode contribuir para a compreensão dos significados dos conteúdos curriculares. Os materiais e recursos de acessibilidade são: projetor com acesso à internet, computador ou tablet individual, mural de avisos e notícias, biblioteca da sala, painéis de gravuras e fotos sobre temas de aula, roteiro de planejamento, fichas de atividades, etc. Libras e temas contemporâneos em educação – 64 – 3.13.3 Atendimento Educacional Especializado para o ensino de Língua Portuguesa O desenvolvimento da Língua Portuguesa de forma escrita permite a leitura e produção de textos, o conhecimento de suas normas e amplia seu desenvolvimento linguístico. O ensino deve ser ministrado por professo- res formados em Letras Português e ocorre em vários níveis. No primeiro, da alfabetização, ocorre no ensino fundamental, no segundo, utiliza-se textos com estrutura mais complexa para que o aluno compreenda a inter- pretação, no terceiro, há a produção de textos mais complexos. No momento do ensino da Língua Portuguesa, não é indicado o uso de Libras para fazer a intermediação. O aluno pode utilizar o recurso, mas cabe ao professor a diminuição gradativa. É indicada a leitura labial, caso o aluno se sinta apto, e a leitura e escrita de textos. As aulas devem ser apli- cadas diariamente para que o aluno tenha um desenvolvimento constante. Alvez, Ferreira e Damázio (2010, p. 20-21) sugerem atividades para aprendizado da Língua Portuguesa, como: expressão corporal; expressão artístico-cultural; dramatização; contextualização de situações vividas; aula-passeio e sessão de filmes. As autoras ainda sugerem: leitura de ícones, sinais, índices, símbolos e signos linguísticos; leitura visual de imagens; leitura de texto escrito (texto-frases-palavras-sílabas-letras); interpretação/compreensão por meio do desenho; interpretação/compreensão por meio da escrita: aplica- ção das condições de produção dos gêneros textuais e discursivos. Para a escrita, as autoras sugerem: do desenho à palavra, da palavra ao desenho; da frase ao desenho, do desenho à frase; do texto ao desenho, do desenho ao texto; escrita de diferentes gêneros textuais; linguagens lúdicas; brincadeiras; jogos interativos; testes-problema; jogos eletrôni- cos; informática; livro; interação com outras pessoas por meio da pro- dução de textos escritos (bilhetes, cartas); além de uma ampla gama de recursos imagéticos, para que o aluno abstraia os significados de elemen- tos mórficos da Língua Portuguesa. Para desenvolver o léxico, as autoras propõem: estudos ortográficos e do sentido das palavras em diferentes contextos; proposição de ativida- – 65 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue des de escrita contextualizada, ou seja, a partir de um dado assunto para aprender a escrever com sentido e não apenas desenhar palavras; contex- tualização do uso do léxico (das palavras) da Língua Portuguesa escrita em várias situações diferentes (manga de camisa, manga fruta e outras). Uma das atividades a ser considerada no AEE é contar histórias (LODI et. al, 2010, p. 43), considerando que essa prática propicia a imer- são das crianças em atividades discursivo-enunciativas por meio das quais as situações vivenciadas nos livros podem ser postas em diálogos com a vivência de cada aluno. Além disso, essas práticas possibilitam o contato das crianças com práticas de letramento que interferirão de maneira signi- ficativa em seu processo posterior de aprendizagem da linguagem escrita da Língua Portuguesa. Na perspectiva da educação bilíngue, a escola é chamada a organizar variados recursos visuais, pictóricos e demonstrativos, proporcionando ao estudante surdo condições diferenciadas para apropriação e manifestação do conhecimento, processos perceptivos e produção dos textos escritos, não o submetendo a nenhuma forma de comparação com ouvintes que se comunicam por meio do português como língua natural. Convidamos o professor a promover práticas de leituras apoiadas, acompanhadas da Libras e de outros recursos visuais, de tal modo que o estudante surdo se aproprie da Língua Portuguesa e obtenha o acesso amplo aos conteúdos e práticas curriculares. Nas palavras de Fernandes (2005), o texto estará sempre presente, uma vez que ele configura a maior unidade de sentido da língua e qualquer atividade de interação verbal pressupõe sua existên- cia, podendo se materializar de forma oral, escrita ou sinalizada. • Alfabeto manual: é um recurso utilizado para sole- trar nomes próprios ou palavras do português para as quais não há equivalente em Língua de Sinais. • Mímica/dramatização: são recursos possíveis na comunicação que poderão acompanhar ou enriquecer os conteúdos discu- tidos em sala de aula e dão conta de significados contextuais. Desenhos/ilustrações/fotografias - poderão ser aliados impor- tantes, pois trazem, concretamente, a referência ao tema que se apresenta. Toda a pista visual pictográfica enriquece o con- teúdo e favorece a memorização visual para todos os alunos. Libras e temas contemporâneos em educação – 66 – • Recursos tecnológicos (vídeo/TV, retroprojetor, computador, slides, entre outros): constituem instrumentos ricos e atuais para se trabalhar com novos códigos e linguagens em sala de aula. A preferência deve ser por filmes legendados, pois isso facilita o acompanhamento pelos surdos. É oportuno discutir previa- mente a temática, o enredo, os personagens envolvidos, pois caso a legenda não seja totalmente compreendida, por conta do desconhecimento de algumas palavras pelos alunos surdos, não haverá prejuízo quanto à interiorização do conteúdo tratado. • Língua Portuguesa escrita: apresenta-se como uma possibilidade visual de representar as informações veiculadas em sala de aula. O professor poderá organizar um roteiro do conteúdo a ser abordado, com palavras-chave no quadro ou no retroprojetor, recorrendo, sem- pre, a seus apontamentos como forma de organizar sua explanação. • Língua Portuguesa oral/leitura labial: a leitura labial é possi- bilitada pela visualização da expressão fisionômica e da observação dos lábios da pessoa que fala. Constitui um recurso paliativo, pois apenas a dominam os surdos que passaram por um treina- mento intensivo para o domínio dessa técnica. Além disso, é um meio ineficaz para a compreensão plena entre os interlocuto- res, uma vez que, na melhor das hipóteses, 50% da mensagem estará comprometida pela dificuldade de leitura de fonemas não visíveis para os surdos e pela rapidez do fluxo da fala. A segunda língua, para os surdos, é diferente da língua estrangeira, pois os surdos têm a necessidade de vivenciar diariamente o uso da Língua Portuguesa, enquanto a língua estrangeira não se tem a oportunidade de praticar diariamente com falantes nativos. De qualquer modo, a aquisição fluente de uma língua que não seja a nativa, requer o contato diário, para que se tenha uma continuidade no processo de ensino aprendizagem. 3.14 Procedimentos pedagógicos Fernandes (2005) propõe múltiplos processos para o enriquecimento curricular, buscando a adequação às capacidades comunicativas dos estu- dantes, a saber: – 67 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue 2 planejar atividades amplas, que tenham diferentes graus de dificuldade e que permitam diferentes possibilidades de exe- cução e expressão; 2 propor várias atividades para trabalhar um mesmo conteúdo; 2 utilizar metodologias que incluam atividades de diferentes tipos, como pesquisas, projetos, oficinas, visitas, etc.; 2 combinar diferentes tipos de agrupamento, tanto no que se refere ao tamanho dos grupos quanto aos critérios de homogeneidade ou heterogeneidade, que permitam proporcionar respostas dife- renciadas em função dos objetivos propostos, da natureza dos conteúdos a serem abordados, das necessidades,características e interesses dos alunos; 2 organizar o tempo das atividades, levando-se em conta que as verbais tomarão mais tempo de alunos surdos; 2 utilizar diferentes procedimentos de avaliação que se adaptem aos diferentes estilos e possibilidades de expressão dos alunos; 2 realizar análises sobre a estrutura dos enunciados dos exercícios e avaliações; 2 apresentar referências relevantes (contexto histórico, enredo, personagens, localização geográfica, biografia do autor, etc.) sobre o texto, em Língua de Sinais, oralmente ou utilizando outros recursos, antes de sua leitura; 2 explorar o vocabulário e a estrutura do texto (decodificação de vocábulos desconhecidos, por meio do emprego de associações e analogias); 2 apresentar o texto por escrito; 2 reforçar os aspectos semânticos e estruturais do texto; 2 estimular a formação de opinião e do pensamento crítico; 2 interpretar textos por meio de material plástico (desenho, pintura e murais) ou cênico (dramatização e mímica); Libras e temas contemporâneos em educação – 68 – 2 adequar conteúdos e objetivos; 2 realizar avaliação diferenciada, considerando-se a interferência da estrutura gramatical da Língua de Sinais. (FERNANDES, 2005) Saiba mais 2 No Brasil, é comum os surdos serem monolíngues, seja porque só falem português, seja porque só utilizem a Língua de Sinais. Isso é consequ- ência de vários fatores: 2 A criança surda, na maioria das vezes, é filha de pais ouvintes. Nesse caso, os pais comunicam-se com ela por meio da Língua Por- tuguesa oral. 2 O preconceito é também um fator de que contribui para o surdo ser monolíngue. Os pais e professores têm medo de que o surdo não aprenda a falar e, assim, não só não permitem que ele utilize a Língua de Sinais, como também não aceitam aprendê-la, nem a utilizar. 2 A falta de uma estrutura adequada no sistema público de saúde e edu- cação (ausência de convênios entre os dois setores, por exemplo) que permita o trabalho de fonoaudiólogos (português oral) e professores (português escrito). 2 Os problemas na formação inicial de professores, que exclui conteúdos relacionados ao ensino de línguas para surdos. 3.15 Tecnologias Assistivas para pessoas com surdez O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação apresenta o Catálogo Nacional de Produtos de Tecnologia Assistiva. Para deficiência auditiva são 148 produtos cadastrados. Um dos produtos é o SIV (Serviço de Inter- mediação por Vídeo), apresentado na figura a seguir: – 69 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue Figura 5.1 – Independência de comunicação aos surdos Fonte: Shutterstock.com/ adriaticfoto/ pathdoc/ bokan. Atualmente, essa tecnologia deixou de ser utilizada na medida em que surgiram os telefones celulares, que permitem às pessoas surdas se comunicarem por meio de mensagens. O Rybená é um software que a traduz textos de Língua Portuguesa para Língua Brasileira de Sinais. Pode ser utilizado em telefones celulares, em caixas bancários, em computadores e estabelecimentos comerciais. Outros exemplos de produtos de Tecnologia Assistiva são relógio em Libras, brinquedos adaptados, carteira de comunicação contendo símbo- los ilustrados, despertador vibratório, jogos em Libras, campainha com luzes, entre outros. Dicas Para aprofundar o estudo a respeito da avaliação da aprendizagem do aluno surdo, recomendamos: Leituras 2 QUADROS, Ronice Müller de. Educação de surdos: a aquisição da lin- guagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. 2 FERNANDES, Sueli F. É possível ser surdo em português? Língua de Sinais e escrita: em busca de uma aproximação. In: SKLIAR, C. (Org.). Atualidades na educação bilíngue para surdos. Porto Alegre: Media- ção, 1999. v. 2. p. 59-81. Endereços eletrônicos 2 www.diaadiaeducacao.pr.gov.br Libras e temas contemporâneos em educação – 70 – 2 www.ines.org.br 2 www.feneis.org.br 2 www.epheta.org.br 2 www.surdosol.com.br Intérpretes 2 www.apic.org.br 2 www.aiic.net 2 www.macripiper.hpg.com.br 2 www.angelfier.com/pq/interpretels Curiosidades Cada país possui sua própria Língua de Sinais Por exemplo, um português surdo pode ter dificuldades para se comu- nicar com um brasileiro surdo. Em alguns países, existem dialetos de línguas de sinais, inclusive no Brasil. A Língua Brasileira de Sinais é considerada a segunda língua oficial do Brasil A Libras é oficializada pela Lei n. 10.436/2002, regulamentada em 2005 pelo Decreto n. 5.626. Existência da Libras escrita Nos últimos anos, têm surgido propostas de representação de Língua de Sinais escrita por pesquisadores de todo o mundo. Entretanto, ainda não existe um consenso, pois a Língua de Sinais é tridimensional. Uma pessoa surda que não tenha conhecimento do português escrito não pode ser considerada analfabeta A pessoa surda alfabetizada em Libras tem o domínio de uma língua. Ela ainda não aprendeu a escrever o português. Chamar uma pessoa de – 71 – Sujeitos surdos e a educação bilíngue “surdo-mudo”, “mudo” ou “mudinho” é considerado uma ofensa, pois são termos pejorativos. Existem surdos que aprendem a falar ao estudar as vibrações vocais e são chamados de oralizados. Conversas com uma pessoa surda Se uma pessoa surda estiver acompanhada de um intérprete de Libras, dirija-se à pessoa surda, e não ao intérprete. Se a pessoa não estiver olhando para você, acene ou toque levemente em seu braço. Fale de frente para a pessoa e mantenha contato visual. A pessoa surda pode compreender por meio de suas expressões faciais e corporais, e alguns surdos conseguem fazer leitura labial. Fale calmamente, sem gritar. Caso não conheça a Língua Brasileira de Sinais, não tente inventar ges- tos, pois podem atrapalhar a comunicação. 4 Deficiência visual 4.1 Introdução Sabemos quanto o nascimento de um filho com deficiência pode entristecer a mãe e toda família. A deficiência pode romper com nossas idealizações da perfeição do outro e do mundo, mas não pode mais ser narrada como um fardo nem como uma limi- tação inerente à pessoa. Hoje, a deficiência passa ser concebida como uma condição que se produz socialmente. A deficiência orgânica pode ser medida cientificamente, mas não é definidora de quem é a pessoa que a tem. Não podemos aceitar que uma condição, dependente das interações sociais, seja percebida como um grande peso a carregar, como se cogitou durante milênios. Libras e temas contemporâneos em educação – 74 – 4.2 Atitudes Muitas vezes, encontramos uma pessoa com deficiência visual (DV) e não sabemos qual atitude tomar diante de determinadas situa- ções. Observe, a seguir, algumas orientações. 2 Não fale sobre a cegueira como se fosse a pior desgraça do mundo. Use a palavra cego sem rodeios. 2 A pessoa cega dá a mão como qualquer outra pessoa. Ela não estende a mão com precisão em sua direção, pois ela não sabe com exatidão a distância que você está dela no momento. Não tenha nenhum receio de apertar sua mão. 2 Ao dirigir-se a uma pessoa cega chame-a pelo seu nome. Chamá-la de “cego” ou “ceguinho” é falta de educação. 2 Nem sempre os sujeitos com DV precisam de ajuda, mas, se você encontrar alguém que pareça estar em dificuldades, identifique- -se e ofereça seu auxílio. 2 Ao guiar a pessoa cega basta deixá-la segurar seu braço que o movimento de seu corpo lhe dará a orientação. Nas passa- gens estreitas, tome a frente e deixe-a seguir, com a mão em seu cotovelo ou ombro. Nos ônibus e escadas, oriente sua mão rumo ao corrimão. 2 Ao ajudar a pessoa cega a sentar-se, basta dirigir a mão ao encosto ou no braço ou no assento da cadeira. 2 É sempre bom avisar antecipadamente sobre a existência de degraus, pisos escorregadios, buracos ou obstáculos em geral durante o trajeto. Mantenha o caminho por onde passa a pessoa com DV sempre limpo e desimpedido. 2 Ao explicar direções para uma pessoa cega, seja o mais claro e específico possível, de preferência indique as distânciasem metros. 2 Fale em tom de voz normal. 2 Não será preciso dar-lhe a comida na boca. Apenas informe-a dos alimentos servidos e ofereça para fazer seu prato. – 75 – Deficiência visual 2 O cidadão com deficiência visual tem o direito de circular com o cão guia em locais públicos (Lei n. 11.126/05 e Decreto n. 5.904/06), sendo restrita a entrada desses animais em ambiente cirúrgico e de manipulação de alimentos. 2 Em ambientes desconhecidos ou em situações novas, man- tenha a pessoa muito bem informada, para que ela se oriente e localize. 2 Não gesticule nem aponte, pois isso não comunica. 2 Identifique-se quando a encontrar e despeça-se dela quando for embora. 4.3 Concepções, causas e barreiras De acordo com estudo realizado pela Organização Mundial da Saúde (publicado em 2011), a população estimada com deficiência visual no mundo é de 285 milhões, sendo 39 milhões cegos e 246 milhões com baixa visão (ONU, 2013) Em 2017, população total do Brasil chegou a 207 milhões. Existem aproximadamente 6 milhões de pessoas com baixa visão e 528 mil pessoas cegas. O número de pessoas que declararam ter alguma dificuldade visual atingiu 35 milhões. Em 2010, segundo censo do IBGE, era a deficiência que mais atingia tanto homens (16,0%) quanto mulheres (21,4%), seguida da motora (13,3 milhões, 5,3% para homens e 8,5% para mulheres), audi- tiva (9,7 milhões, 5,3% para homens e 4,9% para mulheres) e mental ou intelectual (2,6 milhões, 1,5% para homens e 1,2% para mulheres). Segundo Gil (2000), a expressão deficiência visual se refere ao espec- tro que vai da cegueira até a baixa visão. Na perspectiva clínica, a deficiên- cia visual é caracterizada pela perda parcial ou total da capacidade visual, em ambos os olhos. A deficiência visual significa a situação irreversível de diminuição da resposta visual, em virtude de causas congênitas ou hereditárias, mesmo após tratamento clínico, cirúrgico, considerando o uso de lentes convencionais. Do ponto de vista educacional, são pessoas cegas aquelas que apresentam desde a ausência total de visão até a perda da projeção de luz (BRASIL, 2006) Libras e temas contemporâneos em educação – 76 – Nos Decretos n. 3.298/99 e 5.296/04, os tipos de deficiência visual são: 2 cegueira – na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; 2 baixa visão – significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; 2 visão monocular – casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60° ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores (BRASIL, 2004). Observe que a acuidade visual e o campo visual são medidas funcio- nais da capacidade visual. Para fins de matrícula na Educação Especial e devido suporte legal, a deficiência visual e a baixa visão são consideradas mediante o uso da correção óptica mais avançada acessível, de uso pessoal. 2 Acuidade visual: é a capacidade visual de cada olho (visão monocular) ou dos dois olhos em conjunto (visão binocular). É a medida quantitativa de identificação dos estímulos visuais propostos pelo profissional avaliador. Sua medida é dada pela relação entre o tamanho do menor objeto (optotipo) visualizado e a distância entre o observador e o objeto. 2 Campo visual: é toda área que abrange a visão, chegando a quase 180 graus nos humanos. É dividido em visão central e visão periférica. 4.4 Avaliação visual O comportamento visual de uma pessoa expressa habilidade visual global e resulta da interação de diferentes funções visuais. A avaliação dessas funções abrange as seguintes capacidades: 2 acuidade visual – capacidade de discriminar detalhes com alto contraste. 2 sensibilidade ao contraste – capacidade para detectar a dife- rença de brilho (luminância) entre duas superfícies adjacentes (detecção de objetos grandes de baixo contraste). – 77 – Deficiência visual 2 campo visual – capacidade de discriminar objetos simultanea- mente, situados em pontos distantes um do outro. 2 visão de cores – capacidade de perceber e distinguir diferentes sombreamentos (nuances). 2 adaptação visual – habilidade para se adaptar a diferentes con- dições de iluminação. 2 visão binocular – capacidade de coordenação de imagens nos dois olhos, percebidas simultaneamente, resultado da noção de profundidade. 2 funções óculo-motoras – capacidade de controlar a posição e os movimentos dos olhos e do olhar. A avaliação visual pode ser realizada utilizando a Tabela Jaeger para perto e a Tabela de Snellen para longe. Observe a Tabela de Snellen e o modelo de diagnóstico de Acuidade Visual: Figura 4.1 – Tabela de Snellen e o modelo de diagnóstico de Acuidade Visual Diagnóstico Acuidade visual - escala Snellen c/c: O.D.___ O.E.___ A.O.___ s/c: O.D.___ O.E.___ A.O.___ Fonte: Shutterstock.com/oculo. Na avaliação da acuidade visual, apresenta-se o diagnóstico de cada olho, direito e esquerdo, “com” e “sem” uso de lentes. Inicia-se pelo olho direito (OD), ocluindo o esquerdo. A pessoa é encaminhada ao oftalmolo- Libras e temas contemporâneos em educação – 78 – gista, no caso de o diagnóstico acusar alguma suspeita de dificuldade para enxergar ou mostrar qualquer limitação visual. As causas de deficiência visual podem ser divididas em: 2 congênitas – amaurose congênita de Leber, malformações ocu- lares, glaucoma congênito, catarata congênita. 2 adquiridas – traumas oculares, catarata, degeneração senil de mácula, glaucoma, alterações retinianas relacionadas à hiperten- são arterial ou diabetes. 4.5 Patologias visuais e abordagens pedagógicas Vamos conhecer as principais causas de deficiência visual e algumas modificações ambientais que podem conferir melhor qualidade nos pro- cessos de leitura, escrita, melhor qualidade de vida, propiciando funciona- lidade visual nas situações cotidianas da pessoa com baixa visão. 2 Astigmatismo: é uma doença ocular causada, na maioria das vezes, por irregularidade da córnea e o seu efeito é a distorção de imagem, pois os raios de luz não chegam ao mesmo ponto na retina. 2 Doenças degenerativas da retina: provocam a perda gradativa da visão. A qualidade funcional da visão, para fins de leitura, mobilidade e mais autonomia, pode ser garantida com a amplia- ção de letras, o uso de contrastes nos ambientes, nas imagens, uso de caderno de pauta ampliada, lápis 3B ou 6B e canetas de ponta porosa. O professor precisa observar o tipo de letra do aluno e lembrar de pular uma linha para facilitar a leitura. O aluno poderá utilizar guias de leitura, porta-texto, além de eti- quetar lápis de cor e canetinhas, escrevendo o nome das cores. 2 Glaucoma: é provocado pelo aumento da pressão intraocular com alterações no nervo óptico e campo visual, ou seja, ocorre perda da visão periférica, geralmente bilateral, progressiva, de evolução lenta e irreversível, causando lesão no nervo óptico. Sem o tratamento precoce, o glaucoma pode resultar em cegueira. – 79 – Deficiência visual 2 Catarata: é a opacificação progressiva do cristalino, isto é, a perda da transparência. O cristalino opaco dificulta a passagem de luz que chega à retina, causando uma visão progressivamente borrada. Para melhorar a visão, é necessário ter boa iluminação natural ou com luminárias, aproximar o objeto para aumentar a sua imagem, usar porta-texto, utilizar contrastes com cores fortes ou contornos reforçados. Na escrita, utilizar cadernos ampliados, além de canetas de ponta porosa, lápis 6B ou 3B. 2 Diabetes: é uma doença progressiva que afeta os vasos san- guíneos do olho. Existem duas formas de retinopatia diabética: exsudativa e proliferativa. Em ambos os casos, a retinopatia pode levar a uma perda parcial ou total da visão. 2 Degeneração macular ou coriorretinite: é relacionada à idade e é uma doença que afeta a mácula na parte central da retina, área que é responsável pela visão precisa, tãovital à leitura, à escrita e à atenção aos detalhes, ficando intacta apenas a visão peri- férica. Para melhorar a visão, é necessário aproximar o objeto. Para aumentar o tamanho, pergun- tar ao aluno o que está vendo. Para interpretar corretamente o que vê, ampliar letras, figuras e usar porta- -texto, representado na figura 4.2. 2 Retinose pigmentar: é consi- derado um grupo de doenças da retina, de caráter degenerativo e hereditário. Leva à perda de visão noturna, dificuldade de enxergar quando há pouca luminosidade ou claridade excessiva. Resulta na perda progressiva da visão perifé- rica e no estreitamento do campo visual, chamado de visão tubular. A pessoa passa a necessitar de bengala para locomoção segura em ambientes desconhecidos ou escuros. Não são necessárias Figura 6.2 – Porta-texto Fonte:www.ergonomize.com. Libras e temas contemporâneos em educação – 80 – ampliações de imagens ou letras. Ao contrário, poderá ser neces- sária a diminuição de imagens e letras, pois a perda da visão periférica dificulta a percepção de objetos grandes. As pessoas com deficiência visual, dependendo das causas, podem enxergar de maneiras diferentes. Podem perder a visão central, perder a visão periférica, enxergar manchas pretas na imagem ou enxergar de forma opaca, como demonstrado na figura a seguir: Figura 4.3 – Diversas formas de enxergar 4.6 Sinais de alteração da visão 2 Irritação crônica indicada por olhos lacrimejantes, pálpebras avermelhadas, inchadas ou remelosas. 2 Náuseas, dupla visão ou névoas durante ou após a leitura. 2 Hábito de esfregar os olhos, franzir ou contrair o rosto ao olhar objetos distantes. 2 Inquietação, irritabilidade ou nervosismo excessivos depois de um prolongado e atento trabalho visual. 2 Pestanejamento contínuo, sobretudo durante a leitura. 2 Capacidade de leitura por apenas um período curto. 2 Inclinação da cabeça para um lado ou outro durante a leitura. 2 Cautela excessiva no andar, correr raramente e tropeçar sem motivo aparente. – 81 – Deficiência visual 2 Durante a leitura, hábito de segurar o livro muito perto, muito distante, em outra posição incomum, ou, ainda, fechar ou tapar um olho. 4.7 Avaliação funcional A avaliação funcional requer a observação do desempenho visual do aluno em todas as atividades diárias, incluindo a utilização da visão para as tarefas escolares. A avaliação funcional da visão revela dados qualitativos de observa- ção informal sobre: 2 desenvolvimento visual do aluno; 2 nível funcional da visão residual; 2 necessidade de adaptação à luz e aos contrastes; 2 adaptação de recursos ópticos e não ópticos. 4.8 Estimulação sensorial precoce A estimulação precoce consiste em programa oferecido às crianças com deficiência, de 0 a 3 anos, com o objetivo de contribuir no seu desen- volvimento integral, isto é, favorecer a formação social, afetiva, cognitiva, sensorial-motora, comunicativa e adaptativa. O trabalho de estimulação permite à criança participar de experi- ências lúdicas, comunicativas, sensoriais, apropriar-se dos elementos da cultura, da língua, desenvolver capacidades para resolver problemas de natureza prática, estabelecer a posse de objetos, atribuir significados fun- cionais, afetivos e simbólicos ao vivido. A criança passa da percepção sensorial dos objetos à aquisição de conceitos pelo uso funcional do objeto e pela atribuição de significados. No trabalho de estimulação precoce, a criança com deficiência inicia o processo de percepção de si e do outro. Aprende os procedimentos de pro- teção e o uso de referências ou pistas físicas do ambiente para realização da sua mobilidade independente e domínio do espaço. Libras e temas contemporâneos em educação – 82 – No programa de estimulação precoce, as crianças têm oportunida- des de participar de jogos, brincadeiras e apropriar-se da língua para a comunicação, para a negociação, para resolver problemas e internalizar a cultura em que vivem. As crianças aprendem a estabelecer trocas sociais e projetar sua subjetividade nas suas construções lúdicas e artísticas. A ausência de oportunidades de socialização implica dificuldades comunicativas, passividade, baixa coordenação motora e tendência ao isolamento social, que pode resultar em distúrbios secundários, como autismo e déficits de cognição (FRAIBERB, 1975). Para a pessoa cega, a mão assume um papel protagonista em seu desenvolvimento, pois é por meio da linguagem e da experimentação tátil que obtém grande parte de informações do ambiente. Além disso, a per- cepção tátil e a afetividade são os recursos para o desenvolvimento normal da criança, podendo alcançar um potencial cognitivo maior e a consti- tuição de uma personalidade em equilíbrio com o meio social e físico (LUCERGA REVUELTA, 1993). Para criança de baixa visão, as atividades são acompanhadas de exercí- cios com luz e objetos de cores que produzam destaques, contrastes, estimu- lando a consciência visual, a focalização, o segmento visual, a fixação, a dis- criminação de figuras e de detalhes, a percepção do todo e da figura de fundo. 4.9 Desenvolvimento tátil As pessoas com deficiência visual dispõem de uma ampla gama de possibilidades de perceber o mundo que as cerca, utilizando as modalida- des sensoriais remanescentes: audição, tato, olfato e paladar. Entre os sentidos remanescentes, o tato permite a formação de repre- sentações mentais de caráter espacial e a retenção na memória, a curto prazo, da informação apresentada pelo tato. Isso é relevante para a leitura, pois a codificação dos fonemas se processa via tato, a leitura Braille. A percepção tátil apresenta quatro estágios, sendo: 2 estágio da qualidade tátil – tridimensional – o todo; 2 estágio de reconhecimento concepção de forma – bidimensiona- lidade – todo e partes do todo; – 83 – Deficiência visual 2 estágio de representação gráfica – reprodução de objetos em relevo; 2 estágio sistema de simbologia Braille. O tato é de fundamental importância para a leitura do Braille. O pro- fessor utiliza-se de vários recursos para desenvolver a sensibilidade tátil do aluno, conferindo significado a toda experiência háptica (ciência que estuda a capacidade de perceber a realidade a partir do toque, isto é, tama- nho, forma, pressão, textura, temperatura, vibração e outras sensações). Com o trabalho de mediação adequada, a pessoa cega poderá adquirir habilidades para identificar e distinguir tecidos, roupas, talheres, alimen- tos, além de reconhecer texturas (liso e áspero), espessura (grosso ou fino), temperatura (quente ou frio), baixo e alto relevo, posição, forma, detalhes de objetos e reconhecimento dos aspectos físicos e sociais das pessoas. Pode-se explorar, com atenção aos detalhes e verbalização, todos os ambientes disponíveis, visando à formação dos conceitos de espaço, tamanho, distância, contribuindo para a tomada de consciência de si e dos elementos no nosso cotidiano. Aprender a brincar com jogos de mesa, como dominó, xadrez, dama e baralho, é uma oportunidade de trocas sociais que favorece a formação da autoimagem e a percepção do outro. O professor não é apenas aquele que ensina o aluno cego a aprender a ver com as mãos, mas aquele que o ensina a pensar e compreender a complexidade da cultura humana e da natureza. Para Bonilha (2006) “[...] o aluno com deficiência visual tem um papel importante na constituição do vínculo com o professor. Esse aluno poderá fornecer orientações gerais sobre sua deficiência, bem como poderá coo- perar com o professor no desenvolvimento de algumas estratégias peda- gógicas”. O estudante precisa estar aberto ao diálogo e à possibilidade de esclarecer quaisquer dúvidas levantadas pelo educador. Nas palavras de Lucerga Revuelta, a criança cega conta com a afeti- vidade e a percepção tátil como dois recursos fundamentais para integrar os dados da sua experiência. O desenvolvimento da sua afetividade é fun- damental para garantir o desenvolvimentodo seu potencial cognitivo e para a constituição da personalidade. Libras e temas contemporâneos em educação – 84 – Segundo Elizabet Dias de Sá, psicóloga e educadora, as crianças cegas precisam ser estimuladas desde cedo no que diz respeito à explora- ção do sistema háptico (o tato ativo ou em movimento) por meio de ativi- dades lúdicas, do brinquedo e de brincadeiras. Elas devem desenvolver um conjunto de habilidades táteis e de conceitos básicos que têm a ver com o corpo em movimento, com orientação espacial, coordenação motora, sen- tido de direção, etc. Tudo isso é importante para qualquer criança. As crianças cegas precisam desenvolver estratégias de aprendizagem a partir de um referencial perceptivo não visual, o que implica a funciona- lidade dos sentidos remanescentes, além das funções cognitivas superio- res, como a memória, a atenção, a antecipação, etc. É fundamental entender que a percepção tátil é diferente da percepção visual. Um objeto é percebido parcialmente pelo tato, que analisa os frag- mentos para formar o todo, enquanto a visão é global, instantânea e sintética. Uma pessoa que enxerga é capaz de vislumbrar uma página inteira de um livro e realizar uma leitura dinâmica. A partir da visão global, pode-se explorar visualmente as partes, os detalhes e as minúcias. No caso do tato, a percepção faz o caminho inverso, isto é, das partes (letras, sílabas e pala- vras) para o todo. O trabalho de alfabetização de crianças cegas será mais fácil e bem-sucedido se essas características e suas implicações pedagógi- cas forem bem compreendidas e assimiladas pelos educadores. O papel da família e de outros mediadores é igualmente importante nesse processo. 4.10 Leitura e escrita em Braille O sistema de escrita em Braille foi criado e desenvolvido por Louis Braille. Consiste na matriz de seis pontos, dispostos em duas colunas de três pontos, que permitem 64 combinações diferentes. Louis Braille inspi- rou-se no código de traços e pontos em relevo, inventado pelo capitão do exército francês Charles Barbier, que o utilizou para se comunicar com os seus soldados em tempo de guerra. O Sistema Braille foi uma janela que se abriu no vasto universo da cultura, permitindo que as pessoas cegas nele pudessem penetrar, por meio da escrita e da leitura. Até então, outros sistemas haviam sido uti- – 85 – Deficiência visual lizados, nomeadamente, o uso de letras móveis, que eram de dimensões bastante ampliadas, o que dificultava o seu manuseamento na construção de palavras, não sendo os seus resultados tão eficazes em relação ao esforço despendido. Atualmente, o Braille continua a ser sistema fundamental para lei- tura e escrita, especialmente nos anos iniciais da escolarização. O Sis- tema Braille consta de células verticais com seis pontos dispostos em duas colunas. A variação desses seis pontos na cela permite a formação de 63 combinações ou símbolos Braille. A cela Braille é um retângulo em que, do alto para baixo, no lado esquerdo, há os pontos 1, 2 e 3 e, no lado direito, os pontos 4, 5 e 6, con- forme figura: Figura 4.4 – Cela Braille 1 4 3 6 2 5 As dez primeiras letras do alfabeto são formadas pelas combinações dos pontos 1, 2, 4 e 5. Na continuidade do alfabeto, temos mais dez letras que são formadas da mesma maneira, só que acrescido o ponto 3. Na ter- ceira linha dessa tabela, temos mais dez símbolos fazendo a combinação como da primeira e acrescentando os pontos 3 e 6. A primeira linha varia da letra A ao J, a segunda vai da letra K até a letra T e a terceira consiste nas letras U, V, X, Y e Z e, ainda, as letras acentuadas, como Ç, É, Á, Í e Ú. Veja a figura 4.5. Figura 4.5 – Tabela de símbolos – Braille Fonte: Shutterstock.com/CSSZ. Libras e temas contemporâneos em educação – 86 – Doze anos depois, foi acrescentado nessa combinação o ponto 6, o que deu possibilidade de fazer outras letras, como Ó, W, À, entre outras. As dez primeiras letras do alfabeto, se precedidas pelo sinal de número, formado pelos pontos 3, 4, 5 e 6, permitem que se represente os números de 0 até 9. Quanto aos números, veja a tabela a seguir. Figura 4.6 – Tabela de símbolos – Braille 1 2 3 4 0 20 181 543 809 oitocentos e nove quinhentos e quarenta e três cento e oitenta e um vinte zero quatro três dois um Fonte: Shutterstock.com/Evgenii Bobrov. Para representar a pontuação e outros símbolos necessários conforme cada língua, utilizou-se a combinação dos pontos 2, 3, 5 e 6. A primeira máquina Braille foi inventada por Frank H. Hall, em 1892, nos Estados Unidos da América. O papel para a produção do Braille é do tipo sulfite com gramatura 40. Outra maneira de escrever-se o Braille é utilizando impresso- ras Braille, que são ligadas a um computador. Nelas, o Braille pode ser impresso nos dois lados do papel, chamado de Braille Interpontado. Existe um equipamento, denominado Linha Braille, que, acoplado ao computador por cabo USB ou por Bluetooth, reproduz o texto que está na tela, como apresentado na figura: – 87 – Deficiência visual Figura 4.7 – Linha Braille Fonte: www.kobavision.be. Assim, o leitor, em vez de ouvir a leitura sonora do computador, poderá ler na Linha Braille, o que favorece o acesso ao mundo digital especialmente por parte das pessoas surdocegas. Para ensinar a escrita e a leitura no sistema Braille, há que se conhe- cer quem é a pessoa, como foram suas experiências sociais, o modo como vem se constituindo sujeito. Figura 4.8 – Sistema Braille Fonte: marciaserante.com. No processo de ensino-aprendizagem, são utilizados materiais, como caixas de ovos e papelão com tampas de garrafas, onde são colocadas bolinhas. Esses materiais lúdicos e palpáveis permitem que o aluno com- preenda a cela Braille, para que depois utilize a reglete. Libras e temas contemporâneos em educação – 88 – As pessoas cegas praticam esportes, como futebol de cinco, goal- ball, natação, judô, corrida, entre outros. Muitos desses esportes foram adaptados para pessoas com deficiência visual. Foram realizadas altera- ções nas regras ou adaptações no objeto da atividade, como é o caso da bola de futebol e goalball que possui guizos internos para os participantes ouvirem o movimento durante o jogo. As atividades que envolvem expres- são corporal, dramatização, arte e música podem ser desenvolvidas com pouca ou nenhuma adaptação e contribuem com o relacionamento social e a autoestima dos participantes. 4.11 Recursos: descrição de imagem e audiodescrição A descrição de imagem e audiodescrição (AD) são recursos utiliza- dos para descrever imagens de fotos, cenários de programas de televisão, filmes, teatros e outros, de tal forma que a pessoa com deficiência visual tenha acesso às informações das imagens que não foram reveladas. San- tana (2010) define que a audiodescrição “é um recurso de tradução audio- visual, que trabalha com uma relação intersemiótica – transformando ima- gem em palavras – e se concretiza através da técnica de narração realizada por um audiodescritor-narrador”. Descrever a imagem de foto, quadro ou gráfico, ou poder contar com a audiodescrição de um cenário proporciona à pessoa com deficiên- cia visual maior compreensão dos movimentos, das ações, as posições, a estética, os olhares e outros aspectos que compõem a comunicação não verbal. Garantir o direito à audiodescrição representa fator de dignidade dos sujeitos, oferecendo-lhe plenas condições de participar e se beneficiar com o mundo da cultura. Trata-se do direito de cidadania poder assistir e participar ativamente da produção da arte e da cultura, isto é, o cinema, o teatro, os museus, os eventos de exposição, apresentações de danças, passeios turísticos, etc. – 89 – Deficiência visual Dicas Livro MOTTA, Lívia Maria Villela de Mello; FILHO, Paulo Romeu (Org.). Audiodescrição: transformando imagens em palavras. São Paulo: SEDPcD, 2010. Sites 2 http://ibc.gov.br 2 http://www.fundacaodorina.org.br/ Filmes2 Vermelho como o céu: Mirco é um jovem toscano de dez anos que é apai- xonado pelo cinema e perde a visão após um acidente. Uma vez que a escola pública não o aceitou como uma criança normal, é enviado para um instituto de deficientes visuais em Genova. Lá, descobre um velho gravador e passa a criar histórias sonoras. Baseado na história real de Mirco Mencacci, um renomado editor de som da indústria cinemato- gráfica italiana. 2 Janela da alma: o documentário apresenta dezenove pessoas com dife- rentes graus de deficiência visual – da miopia discreta à cegueira total –, que narram como se veem, como veem os outros e como percebem o mundo. Celebridades como o Prêmio Nobel José Saramago, o músico Hermeto Paschoal, o diretor Win Wenders, o fotógrafo esloveno Evgen Bavcar e o neurologista Oliver Sachs fazem revelações pessoais e ines- peradas sobre vários aspectos relativos à visão: o funcionamento fisioló- gico do olho, o uso de óculos e suas implicações sobre a personalidade, o significado de ver ou não ver em um mundo saturado de imagens e, também, a importância das emoções como elemento transformador da realidade. Janela da Alma resulta em uma reflexão emocionada sobre o ato de “ver” – ou não ver – o mundo. 5 Libras como linguagem Viver em sociedade pressupõe comunicar-se. Estudar, tra- balhar, fazer amizades e ter uma vida pública são atividades do cotidiano que exigem a comunicação interpessoal como habili- dade primária. A deficiência auditiva é uma das mais complexas quando se pensa pela ótica da comunicação. A pessoa surda precisa enten- der o mundo a sua volta e estabelecer formas de diálogo com os demais, mas isso pode ser complicado em um local não adaptado para o convívio, ou para pessoas que não sabem as formas de comunicação possíveis. Libras e temas contemporâneos em educação – 92 – Imagine uma escola tradicional, em que o professor explica oral- mente a matéria do dia. Em seguida, um sinal sonoro informa a todos que a aula está encerrada. Anúncios acontecem nos alto-falantes dos corredo- res, enquanto crianças e adolescentes conversam entre si. Será que esse ambiente permitiria uma fácil adaptação para pessoas surdas? Como interpretar todos esses elementos e informações sem con- seguir ouvi-los? A língua brasileira de sinais (Libras) foi reconhecida pela legislação brasileira em 2002, firmando-se como uma língua brasileira. Não se trata de uma forma de expressão ou um dialeto, mas sim de uma língua oficial, assim como o português. Há, basicamente, três modalidades das línguas naturais: língua falada, língua escrita e língua sinalizada. Assim, o portu- guês é uma língua falada e a Libras é uma língua sinalizada. Língua e linguagem A diferenciação entre língua e linguagem é um assunto que gera muitas dúvidas nas pessoas. Para elucidar o tema, um texto divulgado pelo Museu da Língua Portuguesa pode ajudar. O que é língua e o que é linguagem? Não vou te dizer algumas coisas óbvias do tipo “é a língua que caracteriza o ser humano, distinguindo-o do resto da criação”, “não fosse a língua, e todos nós seríamos iguais a macacos”, “a língua é um meio de comunicação, pô!”, “o que seria de nós se não tivéssemos uma língua para falar, já pensou?” Embora essas respostas tenham seu valor, elas não vão ao ponto central. E o ponto central é que, sem uma língua, não podería- mos formular nosso pensamento. Você já se deu conta de que pensa em português? Sonha em português? Organiza-se logo de manhã com respeito ao que terá de fazer durante o dia, falando consigo mesmo em português? E mesmo quando quer aprender uma língua estrangeira, sai por aí tentando pensar só nessa lín- gua, como um bom modo de dominá-la. – 93 – Libras como linguagem Já “linguagem” é um termo genérico, pois pode referir-se a outras manifestações, além da sequenciação de sons, como em “linguagem das cores”, “linguagem dos perfumes”, “lingua- gem das abelhas”, e outras muitas linguagens mais. (CASTILHO, Ataliba T. de. O que se entende por língua e lin- guagem?. Disponível em: http://museudalinguaportuguesa. org.br/wp-content/uploads/2017/09/O-que-se-entende-por- -li%CC%81ngua-e-linguagem.pdf) De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem 9,7 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência auditiva. Isso significa que quase 10 milhões de pessoas em nosso país vivem dificuldades de comunicação todos os dias em decorrência da falta de conscientização em relação ao tema e da falta de iniciativas que tratem dessa situação. Se pensarmos em nossas próprias vivências e experiências, consegui- mos perceber com muita clareza que a sociedade não possui muitos meca- nismos de facilitar o acesso das pessoas surdas. Quantas pessoas dominam Libras? Quantos lugares públicos (escolas, cinemas, teatros) contam com tradução para Libras em seu cotidiano? Tendo como base o cenário atual em que vivemos, faremos um breve contexto histórico para explicar melhor a trajetória da deficiência auditiva ao longo do tempo. 5.1 Contexto histórico Até por volta do século XV, era uma prática comum que as pessoas que não podiam ouvir fossem atiradas do alto dos rochedos, pois elas não eram consideradas humanas. Esse comportamento, chamado atualmente de etapa do extermínio, era comum desde a Grécia e a Roma Antiga, já que essas sociedades viam as deficiências físicas como “defeitos” que não podiam ser corrigidos. Desse modo, os indivíduos eram improdutivos para a sociedade. Libras e temas contemporâneos em educação – 94 – Com o passar do tempo e a modificação dessa exclusão escancarada, a necessidade de um tratamento digno e de acesso à educação tornaram-se evidentes. Com isso, passou a ser aceita e disseminada a ideia de que as pessoas surdas deveriam ser oralizadas. Ser uma pessoa oralizada significa desenvolver sua fala por meio da vocalização dos sons. Ainda que as pessoas surdas não pudessem ouvir sua própria voz, eram criados meios de aprendizagem e técnicas de proje- ção de voz para driblar a impossibilidade de reproduzir os sons ouvidos. Nesse sentido, o trabalho era de recuperação auditiva, tratamento de reabilitação e exercícios mecânicos. O professor era mero treinador de fonemas e o aluno deveria empreender todos os esforços possíveis para realizar uma boa leitura labial. Esse tipo de concepção e, consequentemente, esse método de ensino, prevaleceu por muito tempo. Em 1880, ficou decidido durante II Congresso Internacional sobre Instrução de Surdos, que aconteceu em Milão (Itália), que o método de ensino mais adequado aos surdos seria a oralização. Após esse período, a integração foi a concepção adotada. Como vimos no capítulo anterior, na ideia de integração a pessoa com deficiên- cia deve fazer um esforço unilateral para se adaptar, ou seja, cabe a ela “se adequar” aos moldes e padrões, para, então, estar integrada à sociedade. A perspectiva da integração trouxe um novo paradigma frente à ora- lidade. Porém, na prática, pouca coisa mudou. Se a integração lida com as diferenças tentando eliminá-las ou ao menos disfarçá-las, isso signi- fica que a oralização permaneceu como a melhor maneira de colocar isso em prática. Na década de 1990, o paradigma da inclusão entra em voga e começa a influenciar a perspectiva que se tinha sobre a surdez. Nessa concepção, as pessoas que não ouvem continuam empenhando esforços para partici- parem mais ativamente do mundo que as cerca, mas há um duplo envolvi- mento: por parte delas e por parte da sociedade. Nesse período, pesquisas e iniciativas começaram a aparecer no Brasil sobre a língua de sinais e isso propiciou um olhar antropológico e cultural sobre a surdez. Isso significa que as pessoas surdas ocupavam papel de pro- – 95 – Libras como linguagem tagonistas nessas análises, como de fato são. Afinal de contas, não se pode pensar no bem estar de um determinado grupo com os referenciais de outro. Esse olhar para o surdo como umapessoa diferente acaba com a concepção de deficiente auditivo, anteriormente impregnada nos meios sociais e educacionais. Pensando na surdez como uma característica e não como um problema, elimina-se a necessidade de efetuar um processo de reabilitação e integração. De acordo com essa concepção de diferença (ao invés de deficiência), não há necessidade de inserção das pessoas, pois todos já fazem parte da sociedade, somos apenas mais uma figura no cenário da diversidade social – racial, religiosa, sexual, financeira, política, de gênero, etc. 5.2 Terminologia É preciso dar uma atenção especial a maneira como nos referimos às pessoas surdas. O que é correto, deficiência auditiva ou surdez? Quando dizemos “deficiência auditiva” estamos nos referindo ao seu aspecto clínico. Para um médico otorrinolaringologista, que se encarrega de cuidar da saúde dos ouvidos, esse termo seria adequado. Além disso, chamar alguém de “deficiente auditivo” é somente uma maneira de defini- -lo por uma única característica, de reduzi-lo a esse aspecto, e isso não é algo que se busca em uma sociedade inclusiva. Mais do que isso, vimos há pouco que não se vê mais a surdez como uma deficiência e sim como uma diferença. Por isso, a terminologia cor- reta a ser utilizada é “surdo” ou “pessoa surda”. O termo surdo-mudo também é um termo incorreto. Muitas pessoas surdas falam, o que por si só já torna a terminologia inadequada. Além disso, os surdos que não falam não o fazem justamente porque não ouvem. A mudez é uma outra deficiência -- não um termo aplicado a todas as pes- soas que não ouvem. Também não é correto dizer “surdos” e “normais”. Essa terminologia reflete uma visão que não é mais compatível com a sociedade em que vivemos. O correto é utilizar o termo “ouvinte”. Libras e temas contemporâneos em educação – 96 – Surdo Ouvinte 5.3 Comunicação As pessoas não sabem o que significa realmente ser surdo e, na maioria das vezes, tentam falar mais lentamente ou buscam um papel para escrever, na esperança de conseguir estabelecer uma comunicação. Porém, o desejável seria que essas pessoas pudessem responder da mesma forma, ou seja, com os sinais da Libras. Tudo bem? Qual é seu nome? – 97 – Libras como linguagem Qual é o seu sinal?1 Bom dia Boa tarde Boa noite Porém, isso nem sempre acontece na prática. Escolas públicas e pri- vadas não costumam ter Libras em sua grade curricular e, quando têm, são aulas geralmente destinadas para os alunos surdos. Isso limita o acesso dos ouvintes à língua, já que ele se torna algo que deve ser procurado pelos indivíduos em vez de ser visto como uma necessidade social. Também precisamos relembrar o exemplo com o qual abrimos o capítulo. Grande parte das formas de comunicação não-verbais - sinais, avisos, buzinas etc - são sonoros. É claro que eles são importantes, mas é preciso que existam maneiras de comunicá-los sem prejudicar a experiência de pessoas surdas. Libras e temas contemporâneos em educação – 98 – Essas situações não seriam tão problemáticas se os ouvintes soubessem Libras e conseguissem transmitir a informação aos surdos, por exemplo. Ima- gine que você está em um país estrangeiro, sem saber o idioma falado lá. Se há o disparo de uma buzina, que você também desconhece, e as pessoas começam a se movimentar em uma certa direção, como você faria para entender a situação? É exatamente isso que acontece com as pessoas surdas. A sociedade não desenvolve medidas coletivas para seu bem estar e tampouco pro- porciona meios para que isso seja feito individualmente. Ou seja, ainda existe um longo caminho a ser percorrido para que seja conquistada uma verdadeira promoção da inclusão. 5.3.1 Língua de sinais No Brasil, há duas terminologias correntes para designar a língua de sinais utilizada pela comunidade surda brasileira: Libras (Língua Brasi- leira de Sinais) e LSB (Língua de Sinais Brasileira). A primeira foi oficializada pela Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos, e é o termo presente em documentos legais. A LSB é a sigla utilizada por pesquisadores que publicam textos internacionais, já que todas as demais línguas de sinais do mundo possuem uma sigla com três letras – por exemplo, a American sign language, ou língua americana de sinais, tem ASL como sigla. Libras – 99 – Libras como linguagem A Lei Federal n. 10.436/2002 reconhece a Libras como uma língua oficial do Brasil. A conquista é importante em seu aspecto simbólico, já que representa o reconhecimento linguístico de uma minoria (o que não acontece com indígenas, por exemplo), mas também de forma concreta, já que oferece as bases para a luta por políticas públicas e ações que consi- gam a promoção e acesso da pessoa surda. 5.3.2 O desenvolvimento da linguagem em bebês e crianças surdas Independentemente de sua condição auditiva, toda criança apre- senta comportamentos semelhantes ao chorar e emitir sons sem qual- quer significado. Bebês ouvintes conseguem perceber aos quatro dias de idade diferentes tipos de língua, mediante a entonação e o ritmo. Em alguns meses, começa o balbucio oral e, quando chegam próximo aos seis meses, conseguem pro- duzir um número muito grande de sílabas e as repetem de forma exaustiva. Bebês surdos começam a balbuciar por volta dos oito meses, com pouca diferenciação nas sílabas executadas, devido ao retorno auditivo estar ausente. Já com a emissão de sons, tanto a criança surda quanto a ouvinte apresentam o balbucio manual. É também aos oito meses que os bebês surdos começam a produzir os primeiros sinais. Alguns deles são descartados, pois são avaliados como gestos e não como sinais lexicais; portanto, não se encaixam no repertório atualizado. Apontar um objeto que desejo é um exemplo de sinal com sig- nificado para crianças surdas e ouvintes. Grolla (2006) acrescenta que, quando as crianças atingem um ano de idade, a habilidade de identificação de línguas estrangeiras diminui e con- cede espaço ao refinamento para sua língua natural. Então, elas começam a elaborar enunciados com apenas uma palavra (“dá”, “para”, “quero”) e conseguem assimilar pequenas imposições. Tem-se, assim, que a elaboração de sinais acontece antes da palavra dita -- isso porque a coordenação motora das mãos evolui de forma mais acelerada do que a coordenação para o trato vocal e a articulação para a Libras e temas contemporâneos em educação – 100 – fala. Da mesma forma, os sons exercem maior dificuldade perceptiva aos ouvidos do que os movimentos espaciais aos olhos. Com um ano e seis meses de idade, as crianças ouvintes fazem rela- ção semântica para escolha das palavras, e a construção das frases traz erros naquilo que equivale à conjugação de passado, pronominalização e outros. Ou seja, a criança entende as regras e está se superando. As crianças surdas, nesse estágio, apresentam dificuldades para entender os pronomes que, em Libras, são feitos por apontamento. Por isso, costumam apontar para o interlocutor se referindo a elas mesmas, ou vice-versa. Ou seja, crianças surdas e ouvintes apresentam dificuldades com a aprendizagem de pronomes, o que indica a universidade da aquisição da linguagem nesse aspecto. Aos três anos de idade, crianças surdas e ouvintes já possuem grande vocabulário e conseguem fazer frases completas. Quadros (1997) diz que a criança surda: não adota pronomes para referentes ausentes ou o faz incorretamente; não cria correspondência entre a pessoa e o ponto estabe- lecido no espaço; estabelece mais de um referente em um mesmo ponto; comete um excesso de generalização para concordância de verbos simples semelhante à gramática dos adultos, em que a sequência de concordâncias se dará do mesmo modo. Com quatro anos, as crianças surdas dominam a língua de sinais, sendo que seus pais abordam qualquer assunto com elas, designando ordens, oferecendo carinho, tratando de assuntos futuros, etc. Com a aquisição da língua, as crianças surdas irãose desenvolver normalmente. O entretenimento acontece, muitas vezes, com a possibi- lidade de captar vibrações e, com isso, sentir o ritmo das músicas. Isso permite aprender a dançar e entender ritmos musicais. Com a alfabetização, a utilização de legendas (quando não há inter- pretação em Libras) é a opção mais viável. Existem espaços para convivência de crianças e jovens surdos, mas para que ocorra a constituição da comunidade surda, é necessária a uti- – 101 – Libras como linguagem lização da língua de sinais, sendo estabelecida por meio das afinidades daqueles que a integram. A comunidade é importante não só no caso das pessoas surdas. Reli- giões, grupos de jovens, escoteiros, esportes. Todas essas comunidades existem para que crianças e jovens possam desenvolver laços com pessoas semelhantes, que têm vivências e objetivos parecidos. No caso dos surdos, a comunidade representa um ambiente de língua compartilhada e de formação de uma cultura e identidade comum. 5.4 As relações sociais do surdo Reconhecendo que a surdez é uma diferença, é possível considerar que a pessoa surda participa da vida em sociedade de maneira diferente das pessoas ouvintes. Um exemplo interessante são os aplausos: enquanto ouvintes batem as palmas das mãos para homenagear alguém, os surdos erguem as mãos e as movimentam no ar. Considerando aspectos mais pessoais, a criação de vínculos afetivos, de amizade ou amor é algo que se torna muito mais fácil quando as con- dições de intercomunicação são garantidas. Afinal de contas, a criança que frequenta uma escola e não fala a mesma língua que os colegas terá dificuldades de se enturmar com eles. Por isso, a importância do ensino de Libras firma-se também no aspecto social. Uma das situações possíveis, no âmbito familiar, é a de pais surdos com filhos ouvintes. Por causa da dificuldade dos pais, às vezes o filho acaba por não ser estimulado, tendo grande dificuldade de desenvolver a fala a partir da audição e imitação dos pais. Isso é compartilhado mundialmente por essas pessoas e, devido à grande quantidade de filhos que se inclui nessa categoria, criou-se uma organização internacional destinada a discutir questões conflitantes, pois interagir simultaneamente em culturas diferentes não é algo simples, exige empenho e reformulação daquilo que se apreendeu. Os membros dessa organização atendem pelo nome de “coda” (children of deaf adults, ou filhos de pais surdos, na sigla em inglês). Libras e temas contemporâneos em educação – 102 – CODA International é o nome de uma organização mundial que reúne filhos de pais surdos, chamados em inglês de “coda” (children of deaf adults). O objetivo é compartilhar experiências, criar projetos de integração entre a cultura surda e a ouvinte, e ampliar a consciência e as possibilidades de interação entre pessoas que têm um ou os dois pais surdos. Com conferências anuais e atividades para crianças, jovens e adultos promovidas por organizações CODA em diversos países, é um ambiente de estímulo e aprendizado, voltado à inclusão e ao convívio. A criança coda, embora frequente desde cedo espaços em que encon- tra semelhanças com outras crianças também filhas de pais surdos, precisa também encarar um outro ambiente: a escola. Como as escolas não incorporam ainda essa perspectiva, os alunos logo vivenciam outra realidade. Professores e alunos dificilmente enten- dem a cultura em que eles foram criados, o que gera um distanciamento inicial. Outra dificuldade é a comunicação com os pais. Na maioria das vezes, utiliza-se a criança como tradutor, mas nem sempre isso é possível - reuniões de pais ou eventos sociais, por exemplo, costumam ser situações em que a criança não pode estar presente. Também existe a situação em que os pais são ouvintes e o filho é surdo. O ideal, nesse caso, é que todas as interações aconteçam por Libras. Mesmo que os pais falem verbalmente junto com os gestos, eles devem ensinar as ações e atividades para os filhos em Libras. Assim, é possível pensar que a aquisição da linguagem, em seu pro- cesso, ocorre do mesmo modo em crianças surdas e ouvintes. Talvez isso aconteça de modo bilíngue, caso os pais ensinem português. Grande parte das pessoas ouvintes tem dificuldades de entender o processo de ensino de Libras para crianças. Para facilitar essa concepção, é preciso considerar que a aquisição da linguagem acontece de modo natu- ral. O contato com uma língua é suficiente para que as crianças aprendam; com mais ou menos estímulos, elas aprendem a falar somente ouvindo os outros. O mesmo irá acontecer com as crianças surdas, que irão reproduzir as sinalizações que verem. – 103 – Libras como linguagem 5.5 Identidade surda A cultura pode ser entendida como o conjunto de elementos, crenças e valores compartilhados por um certo grupo. Strobel (2008) define que a cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e modificá-lo, para que tenha acesso e possa interagir mediante as percepções visuais, o que compreende a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos do povo surdo, caracterizando assim a identidade surda. Convivendo com sua família e amigos, a pessoa surda irá desenvol- ver suas habilidades em Libras e perceber aspectos da vida que são ine- rentes à surdez. É comum, por exemplo, que os surdos gostem mais de músicas com batidas (e vibrações) fortes e de artes que envolvam expres- são corporal. Como as condições que levam a essas preferências são compartilha- das, surge uma série de elementos comuns. Somados a vivências seme- lhantes -- como dificuldade em se comunicar com pessoas que não falam Libras --, nascem aí as bases da cultura surda. Essa cultura leva a alguns posicionamentos e definições, segundo Perlin (2004): 2 Identidade surda: pessoa consciente quanto à sua condição de surdez; é politizada e tem a língua de sinais como nativa. 2 Identidade surda incompleta: é o surdo que não se aceita, pelo sentimento de inferioridade em relação aos ouvintes. 2 Identidade surda de transição: surdo oralizado que, muito tempo depois, descobre a comunidade surda e transita do mundo audi- tivo para o mundo visual. 2 Identidade surda embaçada: surdo que não consegue captar o mundo de forma visual e nem auditiva. 2 Identidade surda híbrida: pessoa que nasceu ouvinte e, poste- riormente, se tornou surda. Tem conhecimento da estrutura do português falado. 2 Identidade surda flutuante: surdo que oscila de uma comuni- dade a outra, convivendo tanto com surdos quanto com ouvin- Libras e temas contemporâneos em educação – 104 – tes. Há falta de língua de sinais com surdos e falta de comuni- cação com ouvintes. 2 Identidade surda diáspora: pessoa que tem a necessidade de trocar experiências com seus colegas surdos, onde quer que estejam. A construção da identidade é um processo bastante complexo. Ela envolve muito do contexto social e familiar em que indivíduo está inse- rido, criando questões que são compartilhadas pelo grupo. Além disso, existem as próprias percepções e opiniões sobre tudo, que podem ou não ser parecidas com as do grupo. Esse conjunto de expressões e percepções pessoais é a identidade (Skliar, 2001). É claro que existem muitas definições e divergências sobre a constru- ção da identidade. No caso da comunidade surda, a diferenciação entre os seus componentes é interessante para entender que a união de um grupo não faz com que ele tenha uma identidade única. Embora compartilhem experiências e características, todas as mino- rias são compostas por pessoas diferentes entre si. Por isso é tão impor- tante entender que não se pode generalizar um grupo ou tomar uma fala individual como um discurso coletivo. 5.6 Organizações oficiais Uma das primeiras organizações a olhar para os surdos com mais atenção foi a Feneida -- Federação Nacional de Educação e Integração de Deficientes Auditivos. Mas, com um detalhe: não havia surdos em seu corpo diretivo. Por isso, em 1983, umgrupo de surdos se organizou para pedir par- ticipação nas decisões. O espaço foi conquistado aos poucos, até que em 1987 os surdos já atuavam na liderança, mudando o nome da instituição para Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (Feneis). Essa alteração não foi simplesmente de nome, mas em decorrência da perspectiva de trabalho, ou seja, a missão passou a atender aos ideais das pessoas surdas, que começavam a ser vistas não como deficientes auditi- vas, mas, sim, pessoas com diferença linguística. – 105 – Libras como linguagem Hoje, existem vários escritórios regionais da Feneis espalhados pelo país, com o objetivo de difundir a Libras e congregar surdos para discus- sões em relação à sua participação ativa na sociedade. Atualmente, os quatro milhões de surdos brasileiros, além de se reu- nirem na Feneis, organizam-se em outros espaços, como associações, coo- perativas e clubes. Existem cerca de 200 associações espalhadas pelos estados, e órgãos voltados apenas à questão desportiva dos surdos, como a Confederação Brasileira de Surdos (CBS). Todas se caracterizam pela cumplicidade linguística cultural dos participantes. O movimento surdo atinge espaços acadêmicos e chega a conquistar um curso de licencia- tura a distância. Trata-se do curso Letras-Libras, com sede na Universi- dade Federal de Santa Catarina, com vários polos distribuídos pelo Brasil. Nessa graduação, os alunos surdos têm a possibilidade de se qualificarem para atuar como professores de Libras. 6 Multiculturalismo Segundo o Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, multiculturalismo é a “prática de acomodar qualquer número de culturas distintas, numa única sociedade, sem preconceito ou dis- criminação”. Segundo Del Priori, o termo “multiculturalismo” designa tanto um fato (sociedades são compostas de grupos cul- turalmente distintos) quanto uma política (colocada em funcio- namento em níveis diferentes) visando à coexistência pacífica entre grupos étnica e culturalmente diferentes. Relacionar, no Brasil, multiculturalismo e educação, pode parecer, no primeiro instante uma tarefa fácil. Vamos a algumas considerações sobre isso para o entendimento da complexa rela- ção entre essas duas ideias: a formação étnica no país se fez em grandes ciclos migratórios, juntamente com a cultura indígena e africana e as fusões e sincretismos foram, por assim dizer, inevi- táveis, com isso acabaram formando uma diversidade cultural que Libras e temas contemporâneos em educação – 108 – veio a ser uma das maiores características da população deste país. Dessa forma, temos no Brasil um exemplo de multiculturalismo, que se reflete na educação, visto que as escolas acolhem alunos de diferentes culturas, que convivem lado a lado, o que possibilita afirmar que o multiculturalismo é a base da escola e portanto, um tema presente nas escolas brasileiras. Porém, ao olharmos com apuro para o tema, podemos destacar alguns pontos e aumentar a reflexão: primeiro: a relação entre diferentes culturas não é tão harmônica no campo escolar (que em última instância reflete também os interesses, valores e necessidades da sociedade em que se insere) e segundo tema multiculturalismo é relativamente novo no uni- verso da escola, como objeto de estudo como afirma Fleuri, p.123 O debate sobre as relações multiculturais e interculturais na edu- cação e nos movimentos sociais é bastante recente no Brasil, [...] trata-se de um debate complexo, em que interagem diferentes ver- tentes teóricas e políticas e em que é preciso manter o foco sobre a especificidade das relações culturais em nosso contexto brasileiro. Voltamos ao conceito do multiculturalismo como sendo a prática de agregar culturas distintas, numa única sociedade, sem preconceito ou dis- criminação e vemos saltar aos nossos olhos preconceitos e discriminação no ambiente escolar. Como lidar com isso? Em primeiro lugar, refletindo sobre o papel da escola. Edgar Morin, abordou sobre esse tema no limiar do século XXI. Em entrevista conce- dida à equipe do programa Um Salto para o Futuro, 2004, ele diz que: O papel da escola passa pela porta do conhecimento. É ajudar o ser que está em formação a viver, a encarar a vida. Eu acho que o papel da escola é nos ensinar quem somos nós; nos situar como seres humanos; nos situar na condição humana diante do mundo, diante da vida; nos situar na sociedade; é fazer conhecermos a nós mesmos [...]. Ao afirmar que o papel da escola é o de situar a condição humana diante do mundo, como seres humanos, Morin remete à questão da cul- tura que nos faz seres humanos diferentes uns dos outros. Tal cultura está impressa em cada uma das pessoas e presente nos relacionamentos. Não se trata obviamente de simplificar o tema, culpando a diversidade cultural como elemento desestruturador dos relacionamentos. Trata-se de integrar – 109 – Multiculturalismo as culturas, de estudá las, de procurar semelhanças e diferenças que sus- tentem a democracia. Como alerta Priori: Pesquisadores de todas as áreas insistem sobre a necessidade de construir uma verdadeira “educação intercultural”. Apresenta-se, aí, a ocasião de um aprendizado democrático. [...] no qual a comu- nicação cultural é possível: democracia feita de respeito à alteri- dade cultural e de tolerância. É, também, a ideia de uma “demo- cracia inclusiva”, na qual as comunidades não se definiriam mais pela exclusão. Aos professores, o desafio de compreender o processo de multicul- turalismo e fazê-lo acontecer nas práticas pedagógicas. Essa, aliás, é uma preocupação também de documentos oficiais. Os Parâmetros Curricula- res Nacionais, apresentam os temas transversais como temas que devem ser incorporados no trabalho educativo da escola, sem, contudo, fazerem parte de uma só área de conhecimento. Dessa forma, ao apresentarem seus temas transversais, os PCNs convidam a escola para o debate acerca de: ética, meio ambiente, saúde, orientação sexual e pluralidade cultural, essa última relacionada ao multiculturalismo. Ao abordar os temas transver- sais, (em específico para nosso estudo, a pluralidade cultural), os textos oficiais possibilitam que questões sociais sejam apresentadas na formação do professor e almejadas na aprendizagem e reflexão dos alunos. O desafio que se apresenta aos profissionais da escola é investir na supe- ração da discriminação, oportunizando que as pessoas possam conhecer a riqueza étnico - cultural que forma o Brasil. Desta forma, a escola precisa incorporar em seu currículo a história e a cultura dos afrodescendentes e indí- genas, bem como a valorização e a cultura do homem do campo e o legado cultural das diferentes etnias que compõem o mosaico cultural brasileiro. Assim, a escola deve ser um local de diálogo e convivência, de vivência da própria cultura e das diferentes formas de expressão cultural (BRASIL, 1997). 6.1 Inclusão Não há como tratar o tema educação contemporânea, sem uma abor- dagem que contemple a inclusão. O termo inclusão remete à ideia de um processo social em que Libras e temas contemporâneos em educação – 110 – a sociedade começa a perceber a existência de pessoas portadoras de deficiência e a se organizar, para acolhê-las e, de outro, as pró- prias pessoas com deficiência começam a se mostrar, a reivindicar seus espaços, a exercer seu papel de cidadãs (GIL, 2002). Inicialmente a inclusão foi considerada uma inovação da educação especial, mas atualmente, o conceito de inclusão permeia todo o contexto educativo de forma a proporcionar uma educação de qualidade para todos. Nesse aspecto reside a reflexão que propomos nesse tema: de que forma a escola pode ofertar uma educação de qualidade, transformando-se real- mente em uma escola inclusiva? Em primeiro lugar, vamos considerar que a inclusão, partindo do pressu- posto da qualidade, exige da escola brasileira modernização, quebra de para- digmas e posicionamentos profissionais que precisam ser alterados, em muitos casosnecessitam de modernização. Desta forma, é quase uma reestruturação da escola em direção à atualização. E isso demanda esforços e vontade. Segundo Ballard (1997) as características fundamentais da inclusão são: a não discriminação das deficiências, da cultura e do gênero. Para esse autor, todos os alunos têm o mesmo direito de acesso a um currículo culturalmente valioso, serem e se sentirem membros de uma turma. Nova- mente voltamos ao tema que exige da escola constante atualização. Apenas recentemente, a escola trata das questões da inclusão. A his- tória da educação especial mostra que o caminho percorrido é extenso. Para citar somente uma manifestação da sociedade sobre esse tema, desta- camos que em 1994, desenvolveu-se na cidade de Salamanca, na Espanha, a Conferência Mundial sobre “Necessidades Educativas Especiais”. Essa conferência é a chamada Declaração de Salamanca e o documento que resultou dela, foi um grande impulso ao desenvolvimento da educação inclusiva nas práticas educativas contemporâneas. A seguir, elencaremos os princípios abordados na Declaração de Salamanca, que devem fundamentar as ações educativas atuais, resultado da Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais, rea- lizada entre 7 e 10 de junho de 1994, na cidade espanhola de Salamanca: 2 Cada criança tem o direito fundamental à educação e deve ter a oportunidade de conseguir e manter um nível aceitável de aprendizagem. – 111 – Multiculturalismo 2 Cada criança tem características, interesses, capacidades e necessidades de aprendizagem que lhe são próprias. 2 Os sistemas de educação devem ser planejados e os programas educativos implementados tendo em vista a vasta diversidade cultural e as características e necessidades de cada aluno. 2 As crianças e jovens com necessidades educativas especiais devem ter acesso às escolas regulares, que se devem se adequar a esses alunos através de uma pedagogia centrada na criança e indo ao encontro de suas necessidades. 2 As escolas regulares, seguindo esta orientação inclusiva, consti- tuem os meios mais capazes para combater as atitudes discrimi- natórias, criando comunidades abertas e solidárias, construindo uma sociedade inclusiva e atingindo a educação para todos. Além disso, proporcionam uma educação adequada à maio- ria das crianças e promovem a eficiência, numa ótima relação custo-qualidade, de todo o sistema educativo. Portanto, ao tratar de educação inclusiva, atualmente, estamos falando de direitos, do fato de que todas as crianças devem ser bem- vindas à escola e dela receber uma educação de qualidade, que leve em conta seu pleno desenvolvimento. Para que isso se efetive na prática educacional, a escola precisa estar preparada para receber as crianças sob sua responsabilidade e poder oferecer vivências e oportunidades para que elas se desenvolvam. Certamente, caberá aos professores boa parte desse desenvolvimento. Não se pode querer que a inclusão seja uma determinação de uma instância superior. Sendo o professor a pessoa que vai lidar diariamente com a criança, ele tem o direito de ser informado sobre como fazê-lo e receber meios do sistema de ensino para que isso se efetive. Dessa forma, a inclusão passa a ser realmente uma meta de toda a escola, dos pais e, consequentemente, da sociedade. 6.2 Gênero e sexualidade As questões de gênero e de sexualidade estão presentes em todos os níveis das escolas brasileiras, desde a educação infantil. Sabemos que é a Libras e temas contemporâneos em educação – 112 – identidade de gênero que possibilita à criança reconhecer se como perten- cente ao gênero masculino ou feminino, com base nos relacionamentos que se estabelecem a partir do seu nascimento. Não se trata do aprendizado de papéis pura e simplesmente, de forma a adequar-se à expectativa de seu grupo, mas sim, de uma construção de identidade, do seu próprio reconhecimento como pessoa. A maneira como a família e a escola agem em relação às meninas e aos meninos é fundamental no processo de constituição da identidade de gênero. Porém, mesmo com as transformações ao longo dos anos, a escola reproduz em seu meio a diferenciação que a própria sociedade ainda faz entre homens e mulheres, trazendo, via de regra, muitas concepções pre- conceituosas construídas com base nas diferenças de sexo. Como a questão de gênero é um tema recorrente na sociedade, mui- tas vezes pode parecer que a escola não tem como lidar com isso de forma diferente. Para essa reflexão, retomemos o que se espera da escola: um local que oportunize vivências, que construa conhecimentos e que forme cida- dãos críticos e conscientes. Ora, se a escola é o local dessa formação, é por natureza um espaço onde o preconceito deve estar minimamente (se não anulado) representado. Os profissionais da escola precisam tomar para si a responsabilidade de refletir sobre as questões de gênero e alterar as bases desse preconceito para com homens e mulheres. Reconhecer que o preconceito existe e tra- balhar com ele. O que não é tarefa fácil. Esse preconceito está de tal forma intrínseco nas bases culturais, que nos parece aceitável que, mesmo na escola de educação infantil, a professora escolha as cores azul e rosa para separar seus alunos e seja difícil aceitar que um professor do sexo mascu- lino possa ser tão competente no trabalho com crianças pequenas quanto sua colega do sexo feminino. Há de se considerar alguns perigos: não basta que professores e pro- fessoras tratem de forma similar meninos e meninas. O preconceito ainda está muito impregnado na cultura brasileira, sendo preciso falar sobre o assunto, desvelar as expectativas e os saberes dos alunos de forma a – 113 – Multiculturalismo auxiliá-los a compor novos referenciais, diferentes até mesmo dos antigos contos de fadas, onde a princesa espera pelo príncipe que vem salvá-la. Para o professor e, principalmente, para a professora, essa não é uma missão de fácil execução. Como professores e pertencentes a um gênero, fomos criados achando naturais muitos dos preconceitos que validamos em nossas ações. Para que possamos trabalhar com as questões de gênero na escola, temos que desconstruir muitas verdades presentes em nossa formação acadêmica e pessoal. O fato é que, mesmo com toda a dificuldade, o tema precisa ser tra- tado, uma vez que a opinião e as atitudes dos professores são fundamen- tais para a construção do que é ser menino e menina. 6.3 Sociedade, tecnologia e educação: múltiplas relações Como é do conhecimento de todos, ocorreram, no terceiro milênio, alterações significativas na vida das pessoas. Diariamente, surgem artefa- tos tecnológicos que passam rapidamente das prateleiras das lojas para a vida cotidiana da população. A chamada expansão tecnológica também está alterando significa- tivamente as formas de comunicação e relacionamento, pois a sociedade contemporânea está descobrindo, a cada dia, como o uso de recursos tec- nológicos – juntamente com as novas formas de trânsito de informação – tem possibilitado a transformação pessoal na percepção do mundo, nos valores e nas formas de ação que dela decorrem. Com relação a isso, Perrenoud (2000, p. 126) afirma que “as novas tecnologias da informação e da comunicação transformaram espetacular- mente não só nossas maneiras de comunicar, mas também de trabalhar, de decidir, de pensar”. Passamos neste momento por uma brutal mudança de paradigmas da sociedade, em que a geração das novas tecnologias, com a avassala- dora quantidade de informações disponíveis, amplia vertiginosamente a velocidade das mudanças. Muito mais que somente uma questão tecnoló- Libras e temas contemporâneos em educação – 114 – gica, esse fato precisa ser entendido sob a ótica social, na medida em que representa não só uma mudança no cenário da tecnologia em si, mas sim no conjunto de transformações técnicas, ideológicas, estéticas, políticas e educacionais dos séculos XX e XXI, notadamente as mídias,as Tecnolo- gias da Informação, o computador e o acesso às redes sociais. As implicações decorrentes dos avanços do mundo da tecnologia e da comunicação, não passam despercebidas à escola. Mesmo porque, diante deste panorama, a educação não tem como ficar indiferente, mas o fato é que, ainda sem conseguir resolver muitos problemas próprios da educação em si, como analfabetismo e evasão escolar, a escola já se vê absorvida por desafios novos, provenientes das mudanças advindas da tecnologia e da comunicação, impostas quase que forçosamente ao ambiente escolar (PRETTO, 1996). A tecnologia cruzou os muros escolares e invadiu a educação. Assim, à luz dos processos de mudança que a sociedade vem concretizando, emerge nos meios educacionais a necessidade de um caminhar num ritmo alucinante para poder adequar-se às inovações tecnológicas e ao mundo globalizado e competitivo. Neste momento, a educação começou um pro- cesso de ampliação de seus limites, pois estamos vivendo a era da inserção cada vez maior, de recursos tecnológicos no ambiente escolar. Educar com tecnologia não é uma tarefa fácil. A cultura escolar é excessivamente baseada no texto impresso e na cultura oral, de modo que a incorporação de novas linguagens (plásticas, musicais, gestuais ou tec- nológicas) torna-se um desafio. Por outro lado, o ato de inserir a tecnologia na escola, por si só não garante uma melhor qualidade na educação ofertada, uma vez que práticas tradicionais podem ser reproduzidas com o uso dos recursos tecnológi- cos. Com relação a isso, Moran (1995, p. 25), alerta que “as tecnologias de comunicação não mudam necessariamente a relação pedagógica. As tecnologias tanto servem para reforçar uma visão conservadora, individu- alista, como uma visão progressista”. Assim, o desafio agora é repensar a escola sob a ótica das tecnologias. Segundo Jorge (2002), a pergunta latente é: como formar pessoas num mundo de tecnologias? A autora chama a atenção para que a escola – 115 – Multiculturalismo não caia no extremo de ao formar indivíduos para o mundo da tecno- logia, dirigir suas ações para o lado mercadológico, formando-os num contexto onde serão vistos como trabalhadores eficientes e consumido- res em potencial. Ao contrário, destaca que o desenvolvimento do ins- trumental tecnológico, pode dar à escola subsídios para formar um novo homem, necessário ao novo mundo. Nesta perspectiva, o saber passa a ser um instrumento de melhoria da vida de todos, sob um prisma de valores éticos. Para esses fins, serão bem-vindas as novas tecnologias que permi- tem ao homem: acelerar a produção de bens necessários para erradicar a miséria material e intelectual; diminuir o tempo de trabalho socialmente necessário; propagar rapidamente informações e novos conhecimentos; disseminar novas culturas, transformando cada indivíduo num “cidadão do mundo” (JORGE, 1998). Pois bem, viver nessa sociedade que avança consideravelmente no campo das comunicações, exige habilidades e competências diferencia- das, cada vez mais complexas, para que o indivíduo possa ter uma posição de criticidade e não somente de consumo indiscriminado. Se a vida cotidiana está cada vez mais baseada na leitura de imagens e nas mídias eletrônicas, provocando no leitor novas formas de compre- ensão do mundo, torna-se urgente que a escola incorpore ao fazer peda- gógico a reflexão sobre as diferentes linguagens que existem no mundo, principalmente a tecnológica, pela amplitude que permite no campo da comunicação e do desenvolvimento (MORAN, 2000). Dessa forma, um caminho é direcionar as discussões pedagógicas não só sobre como, mas também sobre o que e para que educar. Reforçamos a ideia de Pretto (1996,) quando este diz que inserir a tecnologia na escola significa não só a utilização de novos recursos no campo educacional, mas também – e muito fortemente – um repensar sobre as concepções pedagógicas a respeito da educação como um todo. Para o necessário repensar sugerido pelo autor, tomemos o conceito de educação. Etimologicamente, educar significa “levar de um lugar para outro”, o que pressupõe não mudança física, mas mudança de paradigmas, de pensamento. Libras e temas contemporâneos em educação – 116 – Freire (1996, p. 27) alerta que a educação não pode ser uma relação bancária, em que o educador somente deposita conteúdos que os educan- dos devem memorizar, gravar e repetir. O autor destaca que nesse formato, a educação é um tipo de dominação, pois “o educando em sua passividade, torna-se um objeto para receber paternalisticamente a doação do saber do educador, sujeito único de todo o processo”. Esse autor ressalta que ensinar é algo profundo e dinâmico, não é a mera transferência de conhecimentos, mas sim conscientização e teste- munho de vida. Segundo Freire, a educação é uma prática política tanto quanto qualquer prática política é pedagógica. O autor ressalta que como toda educação é um ato político, sem neutralidade, deve ter como obje- tivo maior desvelar as relações de opressão vivenciadas pelas pessoas, transformando-as para que elas possam transformar o mundo. Moran (1998, p. 155) colabora na reflexão quando enfoca que: Educar numa perspectiva ampla, consiste em ajudar a si mesmo e a outros a aprender a viver, em ajudá-los a desenvolver todas as suas habilidades de compreensão, emoção e comunicação pessoal [...] Educar é colaborar para que professores e alunos transformem suas vidas em processos permanentes de aprendizagem. É ajudar os alunos na construção da sua identidade, do seu caminho pessoal e profissional – do seu projeto de vida, no desenvolvimento das habilidades de compreensão, emoção e comunicação que lhes per- mitam encontrar espaços pessoais, sociais e profissionais e tornar- -lhes cidadãos realizados e produtivos. Educar com tecnologia, sob este ponto de vista, indica que as mudan- ças que podem acontecer com a inserção da tecnologia na escola, não dependem somente do recurso em si, mas sim do que o recurso pode pro- porcionar ao processo de ensino-aprendizagem. Com relação a isso, Gadotti (1994, p. 273), enfatiza que “é preciso mudar profundamente nossos métodos (de ensinar) para reservar ao cére- bro humano o que lhe é peculiar: a capacidade de pensar, a dominar a linguagem (inclusive a eletrônica), ensinar a pensar criticamente”. Concordamos com Demo (1998, p. 33) quando ele afirma que “reconstruir a forma de ensinar e aprender é o caminho para alcançarmos o verdadeiro sentido de educação”. – 117 – Multiculturalismo Assim, o desafio que se faz presente à educação não está somente em aprender a utilizar a tecnologia, como lembrou Moran, como ferramenta de ensino, pois não é apenas a sua inserção que deve ser encarada como prioritária, e sim a compreensão de que ela pode representar uma nova forma de ensinar e aprender. Uma discussão corrente nas escolas da atualidade é a de que é preciso uma adequação da escola para educar a geração que está interagindo nesse mundo. Dessa forma, compreendemos porque muitas das práticas educati- vas desenvolvidas ao longo dos anos tornaram-se obsoletas na medida em que não respondem mais às necessidades de uma sociedade cujos paradig- mas alteraram-se radicalmente nos últimos anos. Os desafios de hoje residem em criar e avançar a infraestrutura e os serviços educacionais necessários para colocar a educação em um patamar mais próximo e condizente com os avanços. O desenvolvimento social exige que a escola ofereça uma formação sólida, ampla e profunda de seus membros. Alves (2001), ao citar a escola da Ponte, que visitou em Portugal, corrobora a visão de repensar a função da escola, o que ela ensina e de que forma o faz, apontando para o caminho da reconstrução na forma de educar, sob sua ótica: centrar o ensino no aluno, em suas expectativas, projetos, ambições: [...] naquela escola o currículo não é o professor, mas o aluno. A educação mais do que um caminho é um percurso – e um percurso feito à medidade cada educando e, solidariamente partilhado por todos [...], Parece simples e até romântico? Parece, mas funciona. [...]para imensa surpresa dos observadores mais desprevenidos, o que aconteceu na Escola da Ponte, significou uma verdadeira “revolução coperniana” no modo como os professores se posi- cionam diante dos alunos e os alunos diante dos professores” (ALVES, 2002, p. 17-18). Esse autor descreve, a começar pelo título de seu livro A escola que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir, que a reconstrução da escola, até imaginariamente utópica, pode ser sonhada sob alguns pontos de vista, e que o sonho é possível e traz resultados, como verificado na “Escola da Ponte”. Libras e temas contemporâneos em educação – 118 – Se recorrermos a um dicionário para definir o verbete escola, tere- mos: “estabelecimento de educação, público ou privado, no qual o ensino, geral ou especializado, é ministrado de forma coletiva e segundo uma planificação sistematizada; conjunto dos alunos, professores e pes- soal auxiliar de um desses estabelecimentos; edifício onde funciona um desses estabelecimentos”. Os vários significados deste verbete demonstram que a escola é um espaço constituído por diversas dimensões, entrelaçadas. Cançado (1996, p. 13) destaca algumas: 2 Dimensão pedagógica – compreende o processo de ensino e aprendizagem, com todas as variáveis que o constitui, por exem- plo, a organização dos conhecimentos, do espaço e do tempo escolar, a relação professor-aluno, a metodologia de ensino. 2 Dimensão administrativa – engloba as questões de infraestru- tura e de pessoal, como os problemas hidráulicos e elétricos, merenda, quadro de pessoal, dentre outros. 2 Dimensão política – situa as relações de poder e o processo decisório. 2 Dimensão social – refere-se à relação com a comunidade escolar em um sentido bem amplo – a relação interna entre professores, alunos e funcionários e a relação estabelecida com pais, mora- dores próximos à escola, secretaria de educação e sociedade em geral. Também estão incluídas as experiências sociais de todos os segmentos, ou seja, suas origens de classe, suas condições de moradia, trabalho e lazer. 2 Dimensão cultural – envolve as raízes e vivências que promo- vem a elevação do Homem, conferindo-lhe uma identidade social e cultural. Por exemplo, suas tradições religiosas, políti- cas, expressões artísticas, hábitos alimentares. 2 Dimensão humana – compreende os sentimentos, desejos, difi- culdades pessoais, os conceitos e preconceitos que povoam o íntimo de cada um de nós. – 119 – Multiculturalismo Cada uma dessas dimensões é constituída por elementos ou traços das demais, encontrando-se em um permanente movimento de associação e influências mútuas. Como já dissemos, as transformações tecnológicas, econômicas e culturais aumentam a necessidade do conhecimento ético e da educação do homem em toda a sua multiplicidade. Portanto, dentro de sua função, que é a formadora, a escola deve considerar todas as suas dimensões para além dos conteúdos científicos e buscar uma educação equilibrada, que atenda a essa multiplicidade, é fundamental para a formação do indivíduo. Educar, em sentido mais amplo, significa considerar as diversas experiências sociais, culturais e intelectuais do aluno. Ou seja, respeitar suas histórias de vida, linguagem e costumes, condições sociais, moradia e lazer (CANÇADO, 1996, p. 77). Relacionar a ideia de centrar a escola nos alunos, tendo-os como foco permanente e ao mesmo tempo estabelecer regras de convivência e aprendi- zado nessa sociedade que avança consideravelmente no campo das comuni- cações, não é uma tarefa fácil. Por muito tempo o foco da educação foi cen- trado no desempenho do professor e educar era sinônimo de dar aulas. Isso criou paradigmas de que o agente principal deste ato chamado educar, era o professor, aquele que garantiria, com uma aula bem elaborada, que todos os seus alunos aprenderiam prestando atenção às informações oferecidas. Concebemos que uma escola se faz pelas pessoas que nela trabalham, pelo que elas pensam, pelo que esperam, por seus paradigmas, por suas crenças, por seus conhecimentos teóricos e por suas expectativas. Pensar a criação de uma escola condizente com seu tempo, não obstante, requer pensar profissionais capazes de ajudar a construí-la. A escola desejada não surgirá sem uma equipe que institua o novo no que já existe. É preciso uma equipe que trabalhe de forma integrada, que deseje e esteja disposta a trans- formar a realidade. Desempenhando um papel fundamental nesta equipe e, consequentemente, nos caminhos que a escola traçará, está o professor, interagindo com os ambientes virtuais de aprendizagem, ajudando o aluno a superar barreiras em relação ao espaço e o tempo com maior habilidade, em espaços de possibilidades de construção de conhecimento na internet. Libras e temas contemporâneos em educação – 120 – 6.4 O profissional professor e a necessidade de uma formação continuada Concordando com Demo (1998, p. 22), ressaltamos que o foco da educação moderna não é puramente o desempenho do professor em rela- ção a dar aulas, mas sim, a comunicação entre este desempenho e o apren- dizado do aluno. Educar é levar de um lugar para outro; quem precisa ter a opção de caminhos é o aluno, e isto não tem acontecido muito. Os resultados obtidos e reforçados nas provas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio, proposto pelo governo para avaliar o Ensino Médio no país), e verificados no desempenho dos nossos estudantes no vestibular e nos estudos acadêmicos, provam que o aluno não foi capaz de aprender, o objetivo da educação não foi cumprido, utilizando-se recur- sos tecnológicos ou não. Desta forma, preparar o professor é melhorar o aprendizado do aluno, como afirma Pretto (1996, p. 18): Iniciar hoje a formação do novo educador é premente [...] natural- mente se estamos pensando numa escola na qual a cultura audio- visiva seja uma presença, o professor, principal personagem desse processo, precisa estar preparado para trabalhar com essa cultura. Ou seja, é necessário conceber o professor como elemento primordial da equipe de mudanças. Isto nos remete a algumas implicações: valoriza- ção de sua atuação por parte das instâncias públicas e de ensino, no que se refere a investimentos que traduzam condições dignas de vida e trabalho; implantação e adequação de programas institucionalizados que o capacite a dominar as suas habilidades e adquirir tantas quantas sejam necessárias a contribuir para a formação do indivíduo polivalente que o mercado de trabalho exige; capacitação não somente para comunicar, como também para desenvolver práticas voltadas à realidade do contexto social de sua atividade profissional, bem como a necessidade iminente da revisão de sua prática e de sua formação profissional, baseado na reflexão. A partir da década de 90, a formação dos professores trouxe mui- tas discussões acirradas. Pesquisadores como Perrenoud (1993), Nóvoa (1992) e Freire (1997), são exemplos de estudiosos que centralizaram algumas de suas investigações em respostas à pergunta: O que se espera do profissional professor na atualidade? De forma geral, as indicações – 121 – Multiculturalismo destes autores apontam o caminho no sentido de que os professores tenham consonância com a educação de seu tempo, sendo mediadores e pesquisadores, competentes e reflexivos. E estes conceitos de professor como mediador e professor-pesquisador, para Ramal (2002, p. 229) estão diretamente implicados na discussão sobre as práticas educacionais na era informático-mediática. A reflexão sobre a prática pedagógica tem sido, ultimamente, o con- ceito mais adotado por pesquisadores e formadores de professores, para se referirem às tendências de formação do educador. Atualmente torna- -se difícil encontrar referências escritas sobre propostas de formação de professores que, de algum modo, não incluam o conceito de reflexãocomo elemento estruturador. Sendo assim, estamos de acordo com o que afirma Freire (1997, p. 43), “na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática”. Para uma nova delineação da ação docente, que retirou o professor do plano central da aprendizagem do aluno, colocando-o como um facili- tador da construção de conhecimentos, requerendo deste profissional pro- fessor uma nova forma de agir, Perrenoud (2000, p. 12) toma como guia, um referencial de competências. Para este autor, a noção de competência designa uma capacidade de mobilizar diversos recursos cognitivos para enfrentar um determinado tipo de situação. No intuito de formar pessoas que possam atuar em sociedade, Perre- noud considera dez competências que são prioritárias “por serem coeren- tes com o novo papel dos professores, com a evolução da formação inicial, com as ambições das políticas educativas” (PERRENOUD, 2000, p. 12). Vistas sob a ótica escolar, as competências propostas são compatíveis com os eixos de renovação da escola, listados a seguir: 2 Individualizar e diversificar os percursos de formação. 2 Introduzir ciclos de aprendizagem. 2 Diferenciar a pedagogia. 2 Direcionar-se a uma avaliação mais formativa que normativa. 2 Conduzir projetos relevantes à aprendizagem dos educandos. Libras e temas contemporâneos em educação – 122 – 2 Desenvolver o trabalho em equipe docente. 2 Responsabilizar-se coletivamente pelos alunos. 2 Colocar os alunos no centro de ação pedagógica. 2 Recorrer aos métodos ativos. 2 Recorrer aos procedimentos de projeto. 2 Recorrer ao trabalho por problemas abertos e por situa- ções-problema. 2 Desenvolver as competências e transferência de conhecimentos. 2 Educar para a cidadania. Com bases nestes eixos, Perrenoud propõe as dez novas competên- cias para os profissionais que desejam ensinar: 1. Organizar e dirigir situações de aprendizagem. 2. Administrar a progressão das aprendizagens. 3. Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação. 4. Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho. 5. Trabalhar em equipe. 6. Participar da administração da escola. 7. Informar e envolver os pais. 8. Utilizar novas tecnologias. 9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão. 10. Administrar sua própria formação contínua. Na décima competência, Perrenoud, (2000) chama a atenção para a ideia de formação continuada. Ele argumenta que a necessidade desta reside no fato da escola não ser um mundo estável. Se os contextos mudam, o público muda, as abordagens mudam, é necessário acompanhar essas transformações. Se para desenvolver competências é preciso traba- lhar com projetos e problematizações que incitem os educandos a mobili- zarem seus conhecimentos, além do preparo profissional, o professor pre- – 123 – Multiculturalismo cisa identificar suas próprias competências, num exercício que promova a reflexão dialógica. A necessidade de formar professores que reflitam sobre sua própria prática é um instrumento essencial ao desenvolvimento do pensamento e da ação docente (SCHÖN, 1995). Os conhecimentos e competências adquiridos pelo professor antes, e durante a sua formação inicial, têm se mostrado insuficientes para o exercício das suas funções ao longo de toda a carreira. Diferente do que se pensava anteriormente, o professor está longe de ser um profissional acabado e amadurecido no momento em que recebe a sua habilitação profissional. Essa nova visão do professor que está em permanente desenvolvi- mento teve a contribuição de vários fatores: as já citadas mudanças na sociedade que causaram mudanças na escola (não só na estrutura da escola como no próprio conceito de escola), bem como as novas teorias peda- gógicas que desencadearam pensamentos acerca da função do professor, com reconhecimentos à complexidade e dificuldades desta função e tam- bém à complexidade de sua formação. 7 Cultura e diversidade Embora seja utilizado cotidianamente, o termo cultura é ainda bastante difícil de definir. Remontando a tempos em que seu significado era somente ligado à atividade agrícola, com a palavra sendo usada como sinônimo de plantação ou cultivo, ela implica em tudo aquilo que é cultivado e compartilhado entre pessoas e povos. Nos séculos XVIII e XIX, o termo começou a ser utilizado em sentido metafórico - tudo aquilo que era produzido e culti- vado por um povo poderia ser visto como sua cultura. Ou seja, ela se firmou como o conhecimento, valores e modelos que gru- pos e povos possuem e perpetuam. No entanto, filósofos iluministas passaram a utilizar o termo para descrever o conhecimento formal, vendo a cultura como “a soma dos saberes acumulados e transmitidos pela humanidade, considerada como totalidade, ao longo de sua história” (Cuche, 2002, p.21). Daí vem uma percepção, ainda comum nos dias de hoje, de que cultura é sinônimo de elevados saberes teóricos ou se expressa sob um conceito de artisticamente elegante. Libras e temas contemporâneos em educação – 126 – Por outro lado, também fazem parte da cultura de um povo as mani- festações artísticas oriundas de aprendizado não formal, muito mais liga- das à prática, às tradições locais e ao cotidiano. A isso convencionou-se chamar de “cultura popular”. Atrelar a cultura somente ao conhecimento formal e às belas-artes é simplificar seu caráter e ajudar a disseminar preconceitos decorrentes disso -- afinal, isso implicaria que alguns povos e grupos teriam mais ou menos cultura do que outros. E não se pode julgar a “qualidade” de uma cultura. O termo é bastante complexo e defini-lo significa fazer uma grande revisão de literatura sobre o tema. Para simplificar o conceito, Canedo (2009) estabelece que ele contém três dimensões: “modos de vida que caracterizam uma coletividade; obras e práticas da arte, da atividade inte- lectual e do entretenimento; e fator de desenvolvimento humano”. Ou seja, povos e grupos variados possuem culturas próprias, que se manifestam em sua ação coletiva, em suas expressões artísticas e em seu desenvolvimento. Logo, é possível afirmar que existem múltiplas formas de cultura e que a diversidade cultural é algo inegável em nossa sociedade. O respeito a essa diversidade é uma faceta da igualdade entre as pes- soas, garantida internacionalmente pela Declaração Universal dos Direi- tos Humanos (1948): Artigo I: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas as outras com espírito de fraternidade. Artigo II: Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, política, opinião pública ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. (ONU, 1948). 7.1 Gênero, uma construção social O estudo de gênero no Brasil, assim como no resto do mundo, é muito recente, e poderíamos dizer que, por muito tempo, foi sinônimo de estudos sobre a mulher. Sem dúvida, os estudos sobre mulheres foram fun- damentais para se entender o “sexismo” (discriminação de um dos sexos), – 127 – Cultura e diversidade como as relações de gênero em nossa sociedade são assimétricas e como a mulher é oprimida, por conta da construção social e subordinada do feminino. No entanto, embora esses trabalhos ajudem a dar visibilidade às mulheres, são teorias a partir da pura oposição masculino/feminino. Assim, muitos estudos de gênero deixam de falar de sistemas de relações sociais ou entre os sexos. Antes de mais nada, é preciso entender os conceitos de sexo e de gênero e as diferenças entre eles. 2 Sexo De modo geral, sexo é a característica biológica que determina a classificação dos indivíduos como homens ou mulheres. No entanto, isso não significa que ele seja somente um elemento biológico! De acordo com a filósofa Judith Butler,uma das prin- cipais teóricas contemporâneas da questão de gênero, o sexo não é anterior ao discurso (BUTLER, 2003). O que isso quer dizer? Logo que se descobre se um bebê ainda por nascer será menino ou menina, associa-se a ele uma série de elementos pré-estabe- lecidos. Nomes, tipos e cores de roupas, decoração de quarto e brinquedos são alguns exemplos. Perceba que não se trata de um comportamento específico do bebê ou mesmo dos pais, mas sim de um conjunto de elementos compartilhados, aceitos e até impostos por toda a sociedade. Ou seja, o sexo de cada indivíduo, além de ser algo biológico, car- rega o que a sociedade convenciona como “adequado” em termos de discurso e de características de comportamento “esperado”. 2 Gênero O gênero diz respeito aos elementos socialmente construídos. Para Butler, é um conjunto de normas e modelos que deve ser seguido por pessoas que se identificam como homens ou mulhe- res. Esse modelo comportamental é determinante na criação, no desenvolvimento e na vida das pessoas. Historicamente, o gênero sempre foi considerado binário: mas- culino ou feminino, e a um deles a pessoa é associada ao nascer. Libras e temas contemporâneos em educação – 128 – Apresentam-lhe modelos de conduta e elementos simbólicos que irão determinar seus comportamentos em sociedade. Esses comportamentos são apreendidos socialmente, pois tanto o masculino como o feminino são criações culturais, e é no processo de socialização que as pessoas vão se conformando, de forma dife- renciada, a cumprir funções específicas, a modelos que significam um conjunto de atitudes, normas e expectativas que definem a mas- culinidade e a feminilidade. Romper com essa lógica de raciocínio bipolar, além de não ser nada fácil, é um desafio que está ligado a todas as áreas do conhecimento, bem como às práticas cotidianas. Mais recentemente, a própria classificação de gênero passou a ser reexaminada: o gênero não necessariamente precisa ser biná- rio. Existem milhares de formas de expressão ligada ao gênero, que captam elementos de ambos. Todas elas são válidas e corro- boram o fato de que todos esses aspectos são construções sociais e, portanto, não podem ser definidos rigidamente. Em um mundo sem determinismo de gênero, elementos que são atrelados ao feminino e ao masculino poderiam ser compartilhados por todos sem problemas ou preconceitos. A transição de gênero é outro ponto de discussão. É cada vez mais comum ver pessoas que fazem esse processo, que consiste na incor- poração de elementos do gênero oposto para seu cotidiano. Vestir-se e agir dessa forma são exemplos da transição, mas é garantido por lei o direito de que a transição seja reconhecida socialmente e que o nome social seja respeitado em empresas, escolas e órgãos insti- tucionais. Assim, tem-se pessoas que se identificam com o gênero com que nasceram (cisgênero) ou com o oposto (transgênero). 7.1.1 Movimentos feministas Uma das máximas dos estudos feministas é o pensamento de Simone de Beauvoir (1970) que afirma que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. A autora afirma que o gênero feminino é construído ao longo do tempo, por meio das pequenas atitudes que permeiam o cotidiano da mulher. As reproduções de atitudes machistas constroem-se sobre esse pilar, baseado – 129 – Cultura e diversidade em preconceitos socialmente aceitos (mulheres são mais frágeis, são pio- res em ciências exatas, entre outras) e que devem ser questionados. Desde a década de 1980, tem-se utilizado o conceito de gênero para sugerir que “[...] a informação sobre mulheres é necessariamente informa- ção sobre homens, que um implica o estudo do outro” (SCOTT, 1990, p. 7). O que isso quer dizer? Embora em muitos casos seja comum usar gênero como sinônimo para mulher, muitas correntes do feminismo defendem que o conceito de gênero é muito mais amplo do que a simples referência às mulhe- res. Ele serve, na verdade, para compreender as relações humanas, seja entre homens e mulheres, mulheres e mulheres, ou homens e homens. Ou, em outras palavras: os estudos feministas não são uma oposição ao masculino, mas sim uma tentativa de criar contextos harmônicos e efe- tivamente igualitários entre ambos. No entanto, o senso comum, exacerbado pelo machismo, tende a acreditar que o feminismo luta pela supremacia das mulheres sobre os homens, mas essa visão é completamente equivocada. Para entender essa questão, precisamos recorrer ao conceito de poder de Michel Foucault. Para o filósofo, o poder não é um conceito abstrato e unilateral (como o poder do governo sobre um povo oprimido, por exemplo), mas sim algo composto por uma rede de micro-poderes (FOUCAULT, 1979). Isso significa que o poder é exercido concretamente e em pequenos momentos. Quando uma mulher sente medo de andar sozinha à noite, o homem exerce um poder sobre ela capaz de causar medo. Quando uma menina é advertida na escola por ter ido de saia e um colega ter olhado por baixo, é o exercício do poder masculino sobre o feminino. Quando lemos que as mulheres brasileiras ganham 20%1 menos do que os homens em todas as funções, notamos o poder econômico do homem sobre a mulher. Perceba que nada disso tem a ver com elementos biológicos, mas sim com o que foi socialmente construído. É por isso que o feminismo se pre- ocupa tanto com esses estudos, já que é a partir deles que se pode entender a raiz do problema. 1 Dados do IBGE: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-03/pesquisa-do-ib- ge-mostra-que-mulher-ganha-menos-em-todas-ocupacoes Libras e temas contemporâneos em educação – 130 – A educação ligada à cultura e ao gênero tem como objetivo levar essa visão à sociedade. Ao longo da história, utilizou-se de diferenças biológicas para justificar desigualdades sociais, e o cerne da questão é o entendimento de que homens e mulheres devem ser tratados de maneira igualitária porque são efetivamente iguais. A conquista de igualdade de direitos já aconteceu institucionalmente, mas isso nem sempre se verifica na prática. Feminicídio, comentários sexistas, assédio na rua e no trabalho, salá- rios mais baixos, profissões “de homem” e “de mulher”, e divisão desequi- librada das tarefas e responsabilidades domésticas são alguns dos exem- plos de diferenças de tratamento entre gêneros. Esses comportamentos influenciam a vida e o trabalho de muitas mulheres. Historicamente, a entrada massiva da mulher no mercado de trabalho foi um marco para o surgimento e o fortalecimento de demandas feminis- tas. Quando as mulheres começaram a ganhar sua independência finan- ceira e a ocupar posições tipicamente masculinas, como cargos de chefia e liderança, deu-se uma ruptura com o histórico de submissão. A luta das mulheres por igualdade de direitos, de oportunidades, de escolher seus companheiros afetivos, sexuais, casar ou não, ter ou não filhos, ir a qualquer parte, quebra a noção de domínio que sempre foi reservado ao homem. Na maioria das sociedades ocidentais, começa apaga-se pouco a pouco a linha que separa os campos da masculinidade e da feminilidade, da maternidade e da paternidade. É claro que isso não ocorre de maneira efetiva ou abrangente. Questões socieconômicas influenciam isso de maneira direta: mulheres com baixa renda têm menos recursos financeiros e sociais a seu dispor, o que limita seu poten- cial de ação. Adicionalmente, em muitos lares ainda há a típica “dupla jor- nada”, já que a mulher ainda carrega a responsabilidade, supostamente atribu- ída somente a ela, de cuidar dos afazeres domésticos, alimentação, filhos etc. Por isso, não se pode jamais esquecer que as questões culturais não acontecem de forma independente. Todos os elementos da sociedade - econômicos, geográficos, religiosos, etnográficos e outros - estão relacio- nados e afetam-se mutuamente. Essa intersecção, porém, é complexa, e não nos cabe aqui destrinchar esse tema. – 131 – Cultura e diversidade 7.1.2 Representações de gênero Como vimos, o gêneroé construído a partir de elementos simbólicos associados ao masculino e ao feminino. Tudo isso, porém, são representa- ções - ou seja, referem-se a elementos que não são concretos. Isso nos leva a pensar na pluralidade social e na existência não de uma única feminili- dade ou masculinidade, mas, sim, de várias e múltiplas2. Não são só as mulheres que sofrem com as questões de gênero. “Meninos não choram” ou “o homem deve ganhar bem” são máximas que causam desconforto no sexo masculino e que levam a comportamen- tos desagradáveis. A necessidade de que o homem sempre demonstre sua força é uma das raízes da violência exacerbada contra a mulher e entre homens, o que prejudica a eles próprios. 7.2 Relações étnico-raciais Qual a importância de se discutir relações étnico-raciais, a identidade e a diversidade em um país como o Brasil, onde se afirma não haver dis- criminação racial? O Brasil é, de fato, um país miscigenado e isso é realmente uma grande riqueza cultural. No entanto, não se pode esquecer das condições que levaram a essa diversidade. Em primeiro lugar, estamos falando de um país que foi colonizado pelos portugueses à custa da exploração de indígenas (povos autóctones) e negros. 7.2.1 Escravização de indígenas nativos Os indígenas de diferentes grupos, povos nativos do Brasil, foram os primeiros a sofrer os impactos da colonização portuguesa. Esse contato entre colonizadores e indígenas se deu de forma violenta. Os povos indí- genas, legítimos donos da terra, foram subjugados, socialmente inferiori- zados e culturalmente desconsiderados. 2 Sobre isso ler o texto de Guacira Lopes Louro, “Gênero, história e educação: construção e desconstrução” da revista Educação e Realidade, v. 20, n. 2, Porto Alegre, 1995. Libras e temas contemporâneos em educação – 132 – O sistema de capitanias hereditárias, criado pela Corte portuguesa para povoar o novo território, loteou terras que antes eram de domínio indígena, expulsando os nativos para longe do litoral. A escravização dos indígenas para trabalhar nas fazendas durou mais de um século, por ser uma mão de obra acessível e barata, embora de baixo rendimento porque os indígenas resistiram de todas as formas. Eles só estavam acostumados a trabalhar em uma agricultura de subsistência (e não de produção de exce- dentes) e, além disso, o serviço agrícola era considerado uma atribuição feminina pelos índios, daí a maior resistência. Mais tarde, a catequização promovida pelos jesuítas, impondo a fé católica aos indígenas “pagãos”, obrigou-os a aprender a ler e escrever e a se tornarem “civilizados”. A vantagem é que os jesuítas eram contrários à escravização dos índios. O resultado dessa miscigenação forçada foi o surgimento de um novo grupo sem identidade, não aceito nem por uma origem nem pela outra. Até hoje, vemos os reflexos dessa falta de identidade e da expulsão dos indígenas de seu chão. 7.2.2 Escravização de negros africanos Com a percepção de que o trabalho dos indígenas “não rendia”, e a exigência de mais mão de obra para atender o crescimento da atividade agrícola, a Coroa portuguesa decidiu investir no tráfico de escravos da África para o Brasil, que por si só já era um negócio altamente rentável. Estima-se que, ao longo de três séculos, quase 5 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil em navios negreiros, depois de sequestra- dos e vendidos por outros africanos, sob forte estímulo dos portugueses. Assim, foram arrastados, de forma compulsória, negros de vários países da África, com línguas, costumes e tradições diferentes. Condições de vida degradantes, jornadas de trabalho extenuantes, doenças, punições cruéis e toda sorte de explorações perduraram até 1888, quando foi promulgada a Lei Áurea, abolindo a escravidão no Brasil. Abandonados à própria sorte, porém, os escravizados agora libertos não tinham acesso a educação, saúde, moradia ou emprego. Criou-se um grupo de pessoas marginalizadas, que se instalaram em comunidades peri- – 133 – Cultura e diversidade féricas e sem infraestrutura. Conflitos sociais, desigualdade e preconceito acompanharam os africanos, e até hoje a parcela negra da população bra- sileira enfrenta esses mesmos problemas. 7.2.3 Imigrantes europeus e de outros continentes Com a abolição da escravatura, era preciso suprir a mão de obra para a agricultura que se expandia em área e tipos de cultivo. O final do século XIX e primeiros anos do século XX foram períodos de intensa imigração europeia para o Brasil, sobretudo de italianos e alemães. A chegada dos europeus eliminou de vez as chances de emprego para os africanos e seus descendentes, e acabou com a falsa analogia entre os dois grupos, uma vez que as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes nada tinham a ver com escravidão e exclusão. Ciganos, asiáticos (especialmente japoneses) e outros povos também tiveram processos de integração particulares e é igualmente importante analisá-los. Porém, a categoria étnico-racial que será tomada como refe- rência neste texto é a negra. O termo étnico na expressão étnico-racial está sendo usado para marcar que as relações raciais tensas na sociedade brasileira não dizem respeito somente a diferenças de cor de pele e traços fisionômicos, mas também se referem à raiz cultural plantada na ancestralidade africana, que difere da visão de mundo, valores e princípios dos de origem indígena e asiática (BRASIL, 2009). Entender esse processo de formação da população brasileira é essencial para compreender o contexto étnico-racial do país e suas consequências atuais. 7.3 Populações historicamente marginalizadas De modo geral, o povo brasileiro é oriundo de quatro continentes: Amé- rica, Europa, África e Ásia. Todos esses povos trouxeram em sua bagagem memórias e elementos representativos de diferentes culturas e civilizações. Então, podemos dizer que o Brasil é uma rica combinação desses ingredien- tes, que contribuíram para formar a identidade, a cultura e a história do bra- sileiro como povo (MUNANGA; GOMES, 2006). No entanto, grande parte dos brasileiros não tem ideia dessas origens, e desconhece as tradições de Libras e temas contemporâneos em educação – 134 – povos indígenas, africanos, ciganos e outros que ajudaram a formar a nação brasileira. Isso tem promovido o preconceito e estimulado as desigualdades sociais, e também indica ausência de democracia racial, cultural e política. Tomemos como exemplo as circunstâncias da dominação dos negros. O fato de os escravocratas misturarem as diversas etnias africanas, aliado ao desconhecimento dos negros acerca do território brasileiro, da floresta e da língua falada no Brasil, facilitou o processo de escravização, e tam- bém a imposição de que se afastassem de suas religiões e tradições origi- nais, como o candomblé e a umbanda. Impedidos de cultuar seus diversos orixás (deuses) e executar seus rituais, os africanos usaram subterfúgios. O mais comum era associar uma divindade do candomblé a um ou mais santos católicos, prática que ficou conhecida como sincretismo religioso. Assim, Iemanjá se tornou Nossa Senhora da Conceição; Xangô é São Pedro; Ogum é Santo Antônio, e há inúmeras outras associações. No caso dos indígenas, a catequização promovida pelos jesuítas procurou apagar as crenças em diversas divindades relacionadas às forças da natureza, que regiam o ritmo da vida cotidiana, e substituí-las pelos preceitos católicos. O exemplo da religião se aplica a outros aspectos. Toda a cultura dos povos marginalizados costuma ser carregada de conotações nega- tivas, “inadequadas”, e que causam desconforto e problemas sociais. Músicas, danças e outras expressões artísticas também foram abafadas e até mesmo criminalizadas. Esse passado de exploração e desvalorização da cultura, da religião e das tradições indígena e negra tem repercutido na autoestima dos des- cendentes desses povos e alimentado o preconceito e a discriminação na sociedade brasileira. Entretanto, a Constituiçãode 1988, quase 500 anos após o início da barbárie cometida contra negros e indígenas, estabeleceu bases mais éticas e justas para a convivência social no país, ressaltando o respeito à dignidade humana e os direitos fundamentais (SARMENTO, 2006). O texto constitu- cional brasileiro e os acordos e tratados internacionais assinados pelo Bra- sil permitiram que as minorias étnicas, incluindo indígenas, negros, ciganos, comunidades tradicionais e outras populações historicamente marginalizadas, tivessem finalmente sua cidadania reconhecida (LOPES; SALLES, 2010). – 135 – Cultura e diversidade Por outro lado, somente a existência das leis não está sendo sufi- ciente para promover a igualdade das relações étnico-raciais no Brasil. Pelo menos é o que apontam os indicadores de raça/etnia e sexo, divulga- dos pelo IBGE. O que esses indicadores mostram é que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que essas populações marginalizadas sejam compostas por cidadãos plenos de direitos (LOPES, 2009). Lei de 1941 considera ociosidade crime e pune ‘vadiagem’ com prisão de 3 meses Foi em plena ditadura do Estado Novo (1937-1945), no governo Getúlio Vargas, que o Brasil assistiu à criação da chamada “lei da vadiagem”. Em um país com históricos problemas de falta de trabalho, especialmente para a população de baixa renda e pouca escolaridade, a legislação previa a punição por ociosi- dade de uma pessoa apta a trabalhar. Desde então, a “vadia- gem” serviu, em muitos casos, como uma espécie de manto para encobrir o abuso de poder da polícia — representante do Estado — nas prisões efetuadas para averiguações. Embora raramente aplicada hoje, a lei septuagenária ainda per- siste, mesmo perdendo o propósito com a evolução dos costu- mes e a nova realidade do país. Especialistas lembram que, no passado, a lei da vadiagem foi usada pela polícia como pretexto para prender suspeitos de crimes, principalmente pobres, negros e pessoas sem emprego, muitos dos quais inocentes. Às vezes a pessoa era detida pelo simples fato de não ter prova imediata de trabalho ou por não estar com um documento no bolso. Mistu- rada a criminosos comuns nas celas de delegacias, estava sujeita a humilhações e ficava com a “ficha suja” na polícia. Leia mais: https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/lei- -de-1941-considera-ociosidade-crime-pune-vadiagem-com- -prisao-de-3-meses-14738298#ixzz64n6cLkgL Libras e temas contemporâneos em educação – 136 – Até mesmo o ensino escolar pode reproduzir esses preconceitos. Estuda-se extensamente povos antigos como os gregos e os romanos, e valoriza-se a história europeia e estadunidense, mas a história africana e indígena – componente fundamental na formação do povo brasileiro – só passou a ser levada a sério nas escolas a partir da atualização da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.394, de 1996). Em 2003, a lei 10.639 instituiu a temática “história e cultura afro-bra- sileira” como obrigatória nos currículos escolares, bem como estabeleceu o dia 20 de novembro como Dia da Consciência Negra. Em 2008, outra lei veio complementar a LDB: a lei 11.645 determina que deve fazer parte do currículo escolar a história e cultura indígena, dos povos que habitavam o Brasil antes da colonização. Ainda assim, muitas escolas encontram dificuldade em tratar essa sociodiversidade cultural na hora de pensar e elaborar seu projeto político- -pedagógico, e as matrizes africanas e indígenas muitas vezes são apresen- tadas de forma distorcida, incompleta ou estereotipada nos livros didáticos. 7.3.1 Os indígenas e sua identidade A Constituição de 1988 reconhece a cidadania indígena. Ser índio é ter direito à educação, à saúde, à cultura e às tradições dos ancestrais, ou seja, é sinônimo de orgulho identitário. Nesse sentido, concorda-se com Luciano (2006, p. 38) que ser índio passou a ser socioculturalmente importante, pois: [...] não está mais associado a um estágio de vida, mas à qualidade, à riqueza e à espiritualidade de vida [...]. Após 500 anos de dominação e repressão cultural, hoje respiram um ar menos impositor, o suficiente para que, de Norte a Sul do país, eles possam reiniciar e reto- mar seus projetos sociais étnicos e identitários. Culturas e tradições estão sendo resgatadas, revalorizadas e revividas. Dito de outra forma, os indí- genas brasileiros estão sendo estimulados a retomar projetos sociais que trazem de volta sua identidade e cultura, depois da violenta imposição da cultura europeia no passado. A interferência sobre a população indígena levou-a a se reduzir e se dispersar. Por isso, a autodeclaração é o critério adotado para a identifica- ção desses povos. De acordo com o site da FUNAI (Fundação Nacional – 137 – Cultura e diversidade do Índio), a identidade indígena é inquestionável, afirmando que “Iden- tidade e pertencimento étnico não são conceitos estáticos, mas processos dinâmicos de construção individual e social. Dessa forma, não cabe ao Estado reconhecer quem é ou não indígena, mas garantir que sejam res- peitados os processos individuais e sociais de construção e formação de identidades étnicas”. Legalmente, os direitos indígenas são reconhecidos pelo Decreto nº 5.051/2004 e pelo Estatuto do Índio (Lei 6.001/73). A denominação índio ou indígena, dada aos povos que habitavam o Brasil desde a invasão dos europeus, persiste até hoje. De uma maneira geral, chamamos as diversas etnias indígenas de índios ou simplesmente indígenas, como se fossem todas iguais. Entretanto, de acordo com Luciano (2006, p. 28), “não existe nenhum povo, tribo ou clã com a deno- minação de índio. Na verdade, cada ‘índio’ pertence a um povo, a uma etnia identificada por uma denominação própria, ou seja, a autodenomina- ção, como o Guarani, o Yanomami etc”. Essa história foi apagada do Brasil em termos oficiais. Além disso, durante muito tempo justificou-se a dizimação desses povos por serem “preguiçosos” demais para trabalhar nas fazendas coloniais. Essa máxima não foi ao menos questionada por séculos. Analise com cautela: povos europeus invadiram o território brasileiro, tentaram (e muitas vezes con- seguiram) colocar os nativos em regime de escravidão, dizimando os que se recusaram. E a manipulação dos fatos históricos aconteceu de tal forma que até hoje isso é ignorado por grande parte da sociedade. Além disso, o processo histórico de discriminação e preconceito foi tão intenso que até hoje o termo índio ou indígena é carregado de signi- ficado pejorativo. Quem entre nós nunca ouviu a expressão “isso é pro- grama de índio” para se referir a um programa ruim? Ou ouvir alguém uti- lizar o termo para se referir a pessoas “selvagens”, sem adaptação social? A atuação social de povos indígenas e organizações parceiras tem, nos últimos tempos, tentado reverter essa visão. Desde lutar pelo reco- nhecimento da injustiça sofrida até a luta por direitos básicos, o trabalho desses movimentos visa a conquista de melhores condições a partir de uma convivência pacífica e respeitosa. Libras e temas contemporâneos em educação – 138 – Com o surgimento do movimento indígena organizado a partir da década de 1970, os povos indígenas do Brasil chegaram à conclusão de que era importante manter, aceitar e promover a denominação gené- rica de índio ou indígena, como uma identidade que une, articula, visibiliza e fortalece todos os povos originários do atual território bra- sileiro, e principalmente para demarcar a fronteira étnica e identitária entre eles, enquanto habitantes nativos e originários dessas terras, e aqueles com procedência de outros continentes, como os europeus, os africanos e os asiáticos. A partir disso, o sentido pejorativo de índio foi sendo mudado para outro positivo de identidade multiétnica e de todos os povos nativos do continente. (Luciano, 2006, p. 28). A proteção às terras indígenas é outro ponto em questão. A maior parte das terras ocupadas atualmente está na região amazônica, que é alvode disputas de poder e território intensas e violentas. 7.3.1.1 Diversidade cultural indígena A diversidade cultural é reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e foi considerada, pela Unesco, patrimônio comum da humanidade. A diversidade cultural indígena ou das populações tradicio- nais é considerada patrimônio da humanidade pela Convenção n. 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), assinada pelo governo bra- sileiro em 2003 (LUCIANO, 2006). Cabe aí o questionamento: isso funciona na prática? Foi somente em 2008 que o governo criou a lei 11.645, que tornou obrigatório o ensino de história de povos indígenas nas escolas brasileiras. Ou seja, é preciso lutar continuamente pela conquista de medidas e ações que possibilitem a valorização da cultura indígena. O etnólogo Curt Nimuendaju (apud OLIVEIRA; FREIRE, 2006) se refere à existência de aproximadamente 1.400 povos indígenas no terri- tório que correspondia ao Brasil, por ocasião da chegada dos europeus. Ainda de acordo com esse autor, eram povos de grandes famílias linguís- ticas, a saber: tupi-guarani, jê, karib, auák, xirianá, tucano e outras, com diversidade geográfica e de organização social. – 139 – Cultura e diversidade O que é ensinado e divulgado sobre esses povos? Praticamente nada. Existem registros e pesquisas sobre essas civilizações, mas as infor- mações dificilmente chegam à população geral. Por isso, não basta apoiar- -se na legislação para afirmar que a educação sobre a cultura indígena acontece. É preciso reconhecer que há ainda uma grande lacuna nesse aspecto e buscar revertê-la sempre que possível. Os livros didáticos, por exemplo, são superficiais ao mencionar essa diversidade sociocultural indígena. É muito raro que tragam essa visão porque foram escritos do ponto de vista do colonizador. Também não mencionam que os indígenas do continente americano haviam desenvol- vido avançadas civilizações milenares, em muitos aspectos mais sofistica- das do que as indo-europeias. Por exemplo, as civilizações astecas, maias e incas diferiam das europeias apenas na questão do desenvolvimento da arma de fogo. Algumas dessas civilizações chegaram a alcançar o ponto máximo de desenvolvimento, seguido de decadência, muito tempo antes da chegada dos colonizadores, fato que ajuda a desconstruir a ideia de que foram os europeus, com sua superioridade, que destruíram todas essas civilizações milenares. (LUCIANO, 2006). Saiba mais O documentário Guarani e Kaiowá: pelo direito de viver no Tekoha foi lan- çado pela ONU em 2017 e traz um pouco da situação do povo guarani e kaiowá, remanescentes no território brasileiro. A luta desses povos em meio a disputas diversas é um bom panorama da situação atual dos indígenas no Brasil. O documentário está disponível no site da ONU: https://nacoesunidas. org/onu-lanca-documentario-guarani-e-kaiowa-pelo-direito-de-viver- -no-tekoha/ 7.3.2 A origem dos negros brasileiros Os colonizadores portugueses traçaram seus objetivos de produção a partir da utilização de mão de obra escrava. Como não tiveram muito Libras e temas contemporâneos em educação – 140 – sucesso com os povos indígenas, iniciou-se o tráfico de pessoas africanas para o Brasil para trabalhar na produção agrícola e extrativista. O processo aconteceu por séculos. Como afirmam Munanga e Gomes (2006, p. 18): O tráfico negreiro é considerado, por sua amplitude e duração, como uma das maiores tragédias da história da humanidade. Ele durou séculos e tirou da África Subsaariana (região do continente africano abaixo da linha do deserto do Saara) milhões de homens e mulheres que foram arrancados de suas raízes e deportados para três continentes: Ásia, Europa e América. Cerca de 5 milhões de pessoas foram trazidas à força para o Brasil. As etnias mais comuns foram Balantas, Diulas, Mandingas, Manjacos, Peules, Quissis, Saracolês, Sereres, Tenês, Tuculeres, Uolofes e outras (LOPES, 2008). No século XVI, depois de chegarem ao Congo, Cabinda, Luanda e Benguela, os portugueses passaram a trazer para o Brasil africanos, em sua maioria, da etnia Banto, predominando os chamados Bantos do cen- tro: Congo, Quimbundo, Cuango, Casai, Lunda-Quioco e Bemba. Depois vieram africanos de outros grupos: Iorubas (Ibinis, Ibos, Ibibios e Ekoi), do sudoeste da atual Nigéria; Fons ou Jejes, dos atuais Togo e Benin; Fan- tis e Axantis, da atual Nigéria (LOPES, 2008). Só pela variedade de etnias e regiões de origem já é possível imaginar a diversidade de dialetos, tradições e costumes. No entanto, o colonizador branco ignorou isso e tratou a todos como “africanos”, como se fossem um só povo, em uma tentativa de massifica-los e apagar suas identidades, para facilitar a dominação. Esses povos chegaram ao Brasil sem conhecer o território e sem entender o idioma português. Locomover-se e comunicar-se com nati- vos e possíveis aliados era difícil, criando o cenário ideal para o domínio português. Corroborando a exploração do trabalho e o tratamento cruel dado aos escravos, a Igreja Católica considerava que os povos negros não tinham alma, o que reforçava posiciona-los como inferiores. Esse comportamento persiste até hoje. Pouco se fala sobre os países originários de grande parte de nossa população, já que grande parte das pessoas negras e pardas são descendentes dos povos escravizados. – 141 – Cultura e diversidade Em vez de um resgate dessa memória e do reconhecimento dos erros cometidos no passado, o que se observa são tentativas de atenuar esse momento da história do Brasil. A cultura negra tem passado por processos de valorização, geralmente incentivadas por movimentos sociais, mas a postura oficial do país ainda tem muito a caminhar. A lei n. 10.639/2003 garante o ensino de história e cultura de matrizes africanas. Contudo, isso ainda é bastante complexo, já que envolve falta de conhecimentos e materiais necessários para a tarefa e um reflexo na esfera pública. As iniciativas legais são interessantes para o reconhecimento das falhas e dívidas com os povos negros. Contudo, é preciso extrapolar essa esfera e garantir que a sociedade entenda e aceite essa necessidade. O res- peito e o conhecimento das religiões e expressões culturais próprias são essenciais para o desenvolvimento de posturas menos discriminatórias. 7.3.2.1 Racismo e desigualdade Embora se diga que no Brasil não há racismo, é fato que brasileiros(as) negros(as) e seus descendentes, ainda hoje, mais de cem anos depois da abolição da escravatura, vivem em uma sociedade vio- lenta e desigual. A Pesquisa Anual por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD- -Contínua), realizada pelo IBGE em 2018, revela que as desigualdades ainda persistem. Na área educacional, por exemplo, embora os indicado- res tenham melhorado de modo geral em relação a 2016, ainda há muitas desigualdades em relação a gênero e a cor e raça. As mulheres têm mais anos de escolarização do que os homens, as pessoas brancas tiveram resul- tados educacionais melhores do que as negras ou pardas, e o Centro-Sul do país está muito à frente do Norte e Nordeste quando se fala em anos de estudo e em taxa de analfabetismo. Por exemplo, se considerarmos o número de pessoas que concluíram o ensino médio, ou seja, que tiveram acesso à educação básica, esse índice é maior entre brancos (55,8%) do que entre pretos ou pardos (40,3%). Também se percebe que pretos ou pardos têm em média dois anos menos de estudo do que os brancos (8,4 contra 10,3). Libras e temas contemporâneos em educação – 142 – O relatório Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial, publi- cado em 2010 pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualda- des (CEERT), aponta que “a pobreza atinge preferencialmente a parcela negra da população, como decorrência, entre outros fatores, do racismo estrutural da sociedade brasileira e da omissão do poder público”, e que qualquer política pública não pode ignorar que os negros “são os mais pobres entreos pobres”, sob pena de “perpetuar e realimentar as atuais desigualdades”. Para Rosemberg e Pinto (1988), o silêncio sobre a discriminação racial é uma forma de negá-la, cultivando um mito de que vivemos em uma democracia racial, com oportunidades iguais para todos. É nítida a dívida histórica do Brasil com sua população negra. Os números apontados não refletem contextos individuais, mas sim uma situação nacional causada pela escravidão e pelos fatos que se sucederam a partir disso. Nos ambientes educacionais, sociais e culturais, há pouca ênfase a intelectuais, músicos e escritores negros do presente e do passado, ou omite-se a cor de sua pele nas narrativas históricas. A representação é outro aspecto deficitário. Poucas produções artísticas contam com um número de pessoas negras proporcional ao da população. Na moda, as tentativas de demonstrar a diversidade fazem com que campa- nhas expressivas tenham somente uma pessoa negra, o que ficou conhecido como síndrome do negro único². A publicidade começa a reverter esse quadro, incluindo pessoas negras em todo tipo de campanha, de educação a cosméticos. Quando se cruza as questões de gênero com as raciais, encontra-se nas mulheres negras um grupo com ainda mais problemas sociais. O Dossiê Mulhe- res Negras - retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil, publi- cado pelo Governo Federal em 2013, traz dados alarmantes sobre a questão. Em 2009, enquanto a taxa de homens brancos em situação de extrema pobreza era de 2,9%, a de mulheres negras era de 7,4%. Você sabe o que é racismo institucional? Nem sempre o preconceito acontece de maneira explícita. Uma sociedade racista cria estereótipos e modelos que se – 143 – Cultura e diversidade instauram no senso comum e que são mais difíceis de serem percebidos ou identificados. Ao preconceito gerado nesse contexto e praticado por pessoas, empresas e instituições, dá-se o nome de racismo institucional. Uma campanha contra o racismo, desenvolvida pelo Governo do Paraná, produziu um vídeo que ilustra bem a questão e impacta o espectador pela proximidade que tem com situações cotidianas. Assista e reflita! O vídeo está disponível no YouTube: https://www.youtube. com/watch?v=JtLaI_jcoDQ 7.3.3 Ciganos: invisibilidade que gera preconceito Cigano é um nome genérico usado para designar povos nômades. Ser nômade quer dizer não ter endereço fixo, e isso significa dificuldade para o acesso a vários direitos, para os quais há necessidade de com- provante de endereço. O povo cigano tem convivido e superado esses obstáculos, porém, o preconceito e a ignorância das pessoas têm sido quase impossível de superar, pois essa etnia é uma das mais hostilizadas no mundo (MARSIGLIA, 2008). Os ciganos estão dispersos pelo mundo e o que foi escrito sobre sua cultura e história é resultado do trabalho de antropólogos e pesquisadores do assunto, pois sua tradição oral não propicia registros escritos. Também não se tem certeza da quantidade de ciganos no mundo. Estima-se que haja um total de 17 milhões em todo o planeta. Desses, cerca de 1,5 milhão estão na América Latina, metade dos quais no Brasil. Por ser uma população flutuante, é difícil seguir sua trajetória e sua história exata. Acredita-se que sejam povos originários do norte da Índia, que migraram para o Oriente Médio há pelo menos mil anos, fugindo de muçulmanos. Assim, atravessaram a Pérsia e viveram vários séculos no Império Bizantino, indo para o Norte no século XIV. Além disso, muitos se espalharam pela Europa antes mesmo disso. Libras e temas contemporâneos em educação – 144 – Muitos se fixaram na Península Ibérica, onde está Portugal e Espa- nha. Lá, sofreram muitos preconceitos decorrentes da falta de conhecimento sobre sua cultura. Eram comuns penalidades como o açoitamento em praça pública, a pena de morte, o embarque forçado para o Brasil e para a África, a proibição do uso da língua, dos trajes e das suas profissões tradicionais, como a feira, além da apropriação legal dos seus bens e mercadorias. Os primeiros ciganos que chegaram ao Brasil, deportados de Portu- gal, ainda no século XVI, eram, em sua maioria, da etnia Calon. Aqui, praticavam o comércio ambulante de escravos, cavalos e arte- sanatos. Integraram-se na sociedade da maneira como puderam. Embora estivessem em uma posição de discriminação, eram povos livres que viviam em uma sociedade escravocrata. Para eles, isso significa que não estavam mais na faixa mais inferior da pirâmide social. Durante a Segunda Guerra Mundial, os ciganos foram perseguidos pelos nazistas. Estima-se que 500 mil ciganos tenham morrido em campos de concentração ou sido deportados (BAÇAN, 1999). É importante também destacar que nem todos os ciganos vieram para o Brasil de maneira obrigatória. Muitos vieram voluntariamente e aqui se estabeleceram. Um dos maiores movimentos de migração recente ocorreu após a queda do Muro de Berlim, em 1989, quando muitos ciganos que viviam no leste europeu vieram para cá. Embora sejam chamados de ciganos, eles se autodenominam “Rom” ou “Roma”, que no idioma romanês significa homem. No Brasil, os Rom estão divididos em sete clãs: Kalderash, Moldowaia, Sibiaia, Roraranê, Lovaria, Mathiwia e Kalê (BATULI, 2007). Segundo Marsiglia (2008), atualmente são três as principais etnias ciganas que vivem no Brasil: os Rom (oriundos da ex-Iugoslávia, Sérvia e outros países do Leste Europeu), os Calon (oriundos da Espanha e de Portugal) e os Sinti (oriundos da Itália, Alemanha e França). Sua cultura é marcadamente forte e transmitida entre as gerações. Os ciganos brasileiros têm vestimentas, músicas, danças e práticas de adivi- nhação (como leitura de mãos e cartas) muito conhecidas, que são com- partilhadas por eles, sem se perderem ao longo do tempo. – 145 – Cultura e diversidade Embora entre os ciganos atuais haja grupos que se sedentarizaram, possuindo endereço fixo, uma grande parte deles continua nômade. Indi- ferentemente ao fato de serem itinerantes ou sedentários, continuam sofrendo com o preconceito (MARSIGLIA, 2008). O desconhecimento sobre esses povos leva à associação de muitas das atividades ciganas à “desocupação”, a atividades criminosas como furtos e outros delitos, ou ao charlatanismo, supostamente explorando os “crédulos”. A maioria dos ciganos é analfabeta e, por isso, raramente encontra ocupação formal. Uma das maiores dificuldades para se criar políticas públicas de inclu- são e respeito é a falta de dados atualizados sobre a comunidade cigana no Brasil. O último levantamento foi feito em 2014 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Naquele ano, o instituto registrou a existência de acampamentos ciganos em 22 estados brasileiros. Algumas estimativas apontam que vivem no Brasil de 600 a 800 mil ciganos, mas as comunidades acreditam que o número é muito maior. Segundo a Agência Brasil de Notícias, em 2016, o Brasil instituiu, por meio da Secretaria de Políticas e Promoção da Igualdade Racial (Seppir), o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos. Suas ações prioritárias são os serviços de documentação e registro civil dos ciganos, capacitação de defensores públicos, inclusão em políticas sociais e de infraestrutura, como o Minha Casa, Minha Vida e o Luz para Todos, além de projetos de regularização fundiária e de valorização da cultura cigana. Com movimentos sociais organizados ainda incipientes, os povos ciga- nos brasileiros têm pouca força para cobrar as instâncias governamentais acerca de políticas públicas específicas. Também são limitadas e pouco abrangentes as iniciativas próprias para o desenvolvimento, a educação e a valorização da cultura. Isso perpetua um contexto de discriminação, desigualdade e, principalmente, de invisibilidade dos ciganos. 8 Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade Fundamentados no desejo de concretizar uma política educa- cional transformadora, capaz de oferecer uma escolaacolhedora e competente, preocupada em possibilitar a construção individual e coletiva do saber, temos como objetivo oferecer indicadores para a reflexão acerca dos fundamentos filosóficos da educação inclusiva, por meio da análise do painel real das possibilidades e dificuldades das comunidades escolares brasileiras. Propomos a análise de pos- síveis implicações do princípio da diversidade humana aplicado à pedagogia da inclusão das pessoas com necessidades especiais na escola e serviços comuns da sociedade. Partimos do pressuposto de que as diferenças são as marcas fundamentais das relações sociais. Isso significa o rompimento de toda espécie de rótulos e preconceitos. Propomos que nin- guém seja chamado de diferente, porque a diferença manifestará novas individualidades dos novos sujeitos ou atores sociais. Na verdade, a individualidade das pessoas que apresentam neces- Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 148 – sidades especiais só será produzida quando conquistarem as condições para estabelecer com autonomia e independência suas relações sociais. A conquista da individualidade é a expressão maior da diferença que se pretende. Proclamamos que não haja necessidade de nenhum qualificativo para designar este ou aquele indivíduo. As designações classificatórias ao outro dão lugar ao respeito à individualidade. 8.1.1 Relacionamento com a diversidade Atualmente, a diversidade se constitui como uma mola propulsora de mudanças em todas as dimensões da vida. As mudanças provocadas com a inclusão escolar e social da pessoa com deficiência produzem benefícios no âmbito das atitudes humanas, nas políticas públicas, nas inovações tec- nológicas, nos processos de gestão, nas concepções, no conhecimento do tempo, do ambiente e do ser humano. Contudo, são notórias as barreiras ainda existentes em práticas peda- gógicas não significativas, em processos avaliativos classificatórios. Isso significa que as dificuldades para beneficiar-se do conhecimento, dos saberes e valores sociais se localizam também no modo como se organi- zam a escola e a sociedade. Dessa forma, se as condições estruturais, as expectativas e atitudes forem positivas, alteradas, adaptadas, a pessoa pertencerá à sociedade, na qual se manifestam a identidade, as diferenças e as possibilidades de cada um. Os avanços em relação às concepções adotadas não foram suficientes para a libertação da deficiência de sua marca metafísica de maldição ou castigo do céu, do fatalismo clínico da hereditariedade inevitável, nem da segregação para a educação especial, além do fato dessas pessoas, do ponto de vista sensorial e motivacional, serem tratadas como se fossem iguais e imutáveis. Não há oferta de emprego, não há captação das competências dessa mão de obra pelo mercado de trabalho, e também não há trânsito social nas instituições básicas da cidadania, como saúde e educação. Ainda se pensa que a formação de professores deve ser específica (especializada) em pedagogia especial e que esses docentes devem ser remunerados com – 149 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade gratificação especial por sua ocupação com pessoas que apresentam defi- ciências (SKLIAR, 1997, p. 40). Ainda que se pregue hoje a exigência de libertação das pessoas com deficiência, do cárcere da segregação ou mesmo da reclusão, tal cárcere é mantido com relação às suas atitudes e decisões. À vida dessas pessoas é reservado um destino funesto, a negação da alteridade é expressa a partir da exigência de que sejam pacatas, normais, saudáveis e adequadas às melhores relações sociais. A sociedade atual proclama a liberdade e a igualdade como bases para legitimar os empreendimentos capitalistas. O emprego das forças de traba- lho alimentam a ilusão e o sonho do enriquecimento, da ascensão social, tor- nando as pessoas resignadas com o sofrimento, com a subserviência, o que evidencia a desqualificação engendrada no próprio processo de trabalho. As pessoas com deficiência eram consideradas, a priori, inferiores, incapazes, indignas para travar as lutas pela liberdade, mas não lhes era con- ferido um lugar digno para usufruírem dos benefícios humanos. Elas cons- tituíam a negação, a marginalidade, a invisibilidade. Eram negadas e exclu- ídas por fragilidade, empecilho aos propósitos de se formar uma sociedade harmonicamente funcional. Elas não eram tomadas como sujeitos merece- dores de investimento de recursos e de atenção da sociedade para garantir- -lhes a promoção da vida, o compartilhar dos afetos e saberes humanos. Assim, não basta concentrarmos todos os esforços em um diagnós- tico precoce, tratamento médico, reabilitação profissional e social dessas pessoas se não provocarmos mudanças na esfera do trabalho, na pesquisa científica e tecnológica, nas práticas educacionais e formativas, nas rela- ções familiares e humanas em geral. Hoje alguns campos da ciência e da atividade humana se voltam para a seguinte questão: quais são os melho- res procedimentos para acolher a pessoa com deficiência? Nesse momento, as políticas inclusivas proclamam o seguinte prin- cípio: toda pessoa tem o direito de ser ouvida, isto é, manifestar suas necessidades, preferências, aspirações e fazer escolhas, tomando decisões e participando em todos os projetos que afetem direta ou indiretamente suas vidas. Mas, para obter o resultado de suas decisões, é necessário o segundo princípio: toda pessoa tem o direito de usufruir do acesso aos Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 150 – ambientes, às ações, às práticas culturais, econômicas e políticas que se organizam socialmente. Desse modo, cabe à escola e às outras instituições sociais promover as condições de acessibilidade multidimensional, multicultural e politéc- nica, isto é, um estado de plena oportunidade para quem se encontra em situação de desvantagem ou de desigualdade. Para garantir a autonomia e a interdependência do aluno com deficiência, é necessário que os códigos, os currícu- los, as avaliações, os procedimentos, as linguagens, as cren- ças e os instrumentos avaliativos se apresentem flexíveis. Há de se pensar na formulação de avaliações, para que elas sejam mais formativas e menos classificatórias. As aulas também precisam ser revistas, no sentido de se apresentarem mais desafiadoras e explo- ratórias, provocando maior envolvimento e participação dos alunos. O professor pode ser mais acolhedor da diversidade de cada aluno e menos homogeneizador da turma. Ele pode conjugar mais ação e abs- tração, interação e autonomia, aprendizado da teoria e da ética, conceito e significado, ciência e arte, intelectualidade e política, compreensão e crítica ao existente, escrita e expressão dos sentimentos e da trajetória de cada um. O professor pode ir além da transmissão do conhecimento, sem mais esperar a absorção homogênea por parte dos alunos; isso é, educar para reproduzir. É preciso tornar-se um professor pesquisador, isto é, levantar hipóteses sobre o que trabalha e investigá-las. O professor pesquisador desafia os alunos a formular métodos, organizar experiências, compreen- der o sentido e o significado do que aprende. Diante da necessidade de assumir a condição de quem repensa e recria o conteúdo do trabalho, o professor passa a construir sua identidade profissional. Ao realizar a verificação de hipóteses por meio de experi- ência, confrontação com outros autores e outras visões, sistematizará o método, os resultados, tomará consciência desses procedimentos e reto- mará o sentido e o significado do exercício de ser professor. Refazendo – 151 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade sua identidade, passará a compreender as diferenças com outros pares e buscará aquelas existentes em cada um de seus alunos. Acreditando no valor das diferenças, o professor forma uma nova con- cepção de unidade e de coletivo, os fundamentos que orientam o próprio pro- jeto político-pedagógico. Nessa concepção, a necessidade do docenteultra- passa a dimensão técnica, o fazer da sala de aula, para alçar demandas mais amplas, participando e oferecendo alternativas à gestão política dos processos de formação. Diagnosticando as carências e os recursos existentes, o profes- sor assume seu papel político, reivindicando o que falta, as condições estrutu- rais que viabilizam melhor o processo de ensino, melhores condições para os alunos exercerem a autoria do conhecimento e da aprendizagem. Para dar início a essa concepção de ensino e aprendizagem, é preciso acreditar no valor das diferenças, no valor dos confrontos e conflitos de pontos de vista, no valor educativo do erro, na riqueza das trajetórias de vida, na importância da crítica aos métodos, ao raciocínio preestabelecido, no caráter ontológico das falas e das experiências e saberes dos alunos. Essas mudanças podem contribuir para a formação de um novo saber, isto é, um saber ser, um saber articular-se socialmente rumo à autoria do seu tempo. Desafiar o aluno a produzir conhecimento sobre o modo como o tempo é apropriado diferentemente pelas pessoas em função de suas ocupações e res- ponsabilidades, por exemplo, torna-o autor, protagonista de sua história. Podemos afirmar que a educação inclusiva busca o desenvolvimento de inteligências cognitivas, emocionais e sociais, que permitam uma flexibilidade para alterar o curso linear de procedimentos existentes na educação tradicio- nal. O professor manifesta sempre atitude encorajadora, proativa, positiva, seu comprometimento com a ética, com a justiça e com o direito à autoria da diversidade de cada um. As organizações que já produziram essas mudanças podem ser consideradas mais inclusivas, mais tolerantes e acolhedoras. 8.1.2 Compreensão das necessidades educativas especiais Em consequência das conquistas históricas, questionamos a legitimi- dade de empregar rótulos e/ou categorias para descrever e/ou classificar os Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 152 – sujeitos resultantes da aplicação massiva dos testes de inteligência. Con- sideramos que rótulos, como atraso mental, distúrbios de aprendizagem e emocionais, produzem efeitos negativos, tanto no autoconceito quanto nas expectativas da sociedade sobre esses sujeitos, as quais contribuem para perpetuar os estereótipos e para obstaculizar a aceitação plena das diferenças individuais (ILLAN ROMEU, 1992, p. 17-25). A lógica da exclusão apoia-se na lógica de classes. Classificar é uma organização que coloca os iguais, os que respondem ao mesmo critério, em um mesmo lugar, em uma mesma caixa. Assim, as pessoas que se enquadram dentro das mesmas dificuldades formam uma nova classe: dos deficientes intelectuais, deficientes visuais, deficientes auditivos, deficien- tes físicos e pessoas com transtornos invasivos do desenvolvimento. Os testes de inteligência são questionados não só como origem da rotulação, mas também por suas graves consequências no processo de decisão sobre o encaminhamento de alunos para a educação especial como situação duradoura e irreversível. Nas décadas de 60, 70 e 80 do século XX, os progressos em neu- ropsicologia substituem os rótulos qualitativos (idiota, imbecil, débil) ou quantitativos (QI 0-20, 20-50, 50-75, por exemplo) e a psicopedagogia propõe critérios de avaliação e classificação baseados em desempenhos observados nas diversas situações. Mais recentemente, “a psicanálise vem contribuindo à produção de relações familiares e sociais capazes de qua- lificar a deficiência no campo das diversidades humanas, propondo um sistema de estimulação de bebês e produção de vínculos de saúde nas relações familiares e sociais” (KLIAR, 1997, p. 40). A constatação de uma distinção deveria, sim, contribuir para o desen- volvimento de uma intervenção educativa adequada. O diagnóstico de necessidades especiais – ao contrário do rótulo – não possui o caráter está- tico e irremovível, ele se converte em ponto de partida para a melhoria das possibilidades do indivíduo. Embora tenha suas origens no ano de 1960, o conceito de necessida- des educativas especiais só foi adotado e redefinido a partir da Declaração de Salamanca (BRASIL, 1997), passando a abranger todas as crianças e jovens cujas necessidades envolvam deficiências ou dificuldades de – 153 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade aprendizagem. Desse modo, passou também a atender tanto as crianças em desvantagem quanto as chamadas superdotadas, bem como crianças de rua ou em situação de risco, que trabalham, que fazem parte de popu- lações remotas ou nômades, pertencentes a minorias étnicas ou culturais, e crianças desfavorecidas ou marginalizadas, além das que apresentam problemas de conduta ou de ordem emocional. De acordo com Marchesi e Palacios (2004), podemos enumerar quatro razões importantes para a utilização da terminologia “necessi- dades educativas especiais”. A primeira compreende que várias pes- soas são afetadas por várias deficiências e não existe uma só que possa caracterizá-las. O segundo ponto revela que as categorias confundem o tipo de educação especial necessário, pois se estão todos nas mes- mas categorias, suas necessidades são também semelhantes. O terceiro aspecto levantado pelo autor diz respeito aos recursos proporcionados a uma determinada categoria, os que não se enquadram nela não podem utilizar, por exemplo, recursos comunitários só para pessoas que têm um tipo de deficiência. Para concluir, Marchesi e Palacios ressaltam o caráter rotulante e negativo que é designado às pessoas com deficiência, separando-as por grupos distintos tornam, assim, impossível a ideia de que façam parte de outros grupos. Dessa forma, as necessidades educativas especiais (N.E.E.) afetam um conjunto maior de pessoas e referem-se principalmente aos problemas de aprendizagem dos alunos em sala de aula, além de supor a provisão de recursos necessários, assim podem existir deficiências ou dificuldades de diferentes níveis de gravidade. O mesmo autor ainda considera que a avaliação dos problemas de aprendizagem deve levar em conta o funcionamento da escola, os recur- sos disponíveis, a flexibilização do ensino, a metodologia e os critérios de avaliação utilizados. Somente com essa análise contextual podemos iden- tificar a grande variedade de dificuldades que podem impedir o sucesso escolar do aluno e, então, levantar as suas necessidades educativas espe- ciais, que, para surpresa de todos, acabam sendo necessidades também de um grande número de estudantes, não apenas do indivíduo identificado Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 154 – com problemas. O tipo de ensino que se desenvolve em uma escola pode originar ou intensificar as dificuldades dos educandos. É preciso identificar como foram geradas tais dificuldades, que influ- ência os ambientes social e familiar exercem sobre o aluno e qual o papel da escola frente a essas dificuldades. A finalidade principal da avaliação é analisar as potencialidades de desenvolvimento e de aprendizagem para providenciar todos os recursos necessários para que a educação aconteça no contexto mais integrador possível. “Não são as espécies mais fortes e nem as mais inteligentes que sobrevivem, mas, sim, aquelas que melhor respondem às mudanças.” Charles Darwin 8.1.3 Identificação das necessidades educativas especiais Para Vygotsky (1989), o desenvolvimento humano é visto como uma atividade social em que as crianças participam de ações de natureza cultu- ral mediante ações dos colegas ou adultos com mais experiência. Assim, compreendemos que a aprendizagem é fruto da interação com outras pes- soas significativas nos diversos contextos da vida, ideia completamente contrária ao parecer de diagnóstico que leva em consideração somente o sujeito biológico sem analisar a sua história pessoal e o contexto em que está inserido. Dessa forma, o autor convoca o professor a levantar as solu- ções para as mudanças das condições do ambiente de maneira a favorecera aprendizagem do aluno. A avaliação psicopedagógica não é um ato pontual. Devemos consi- derar o desenvolvimento de natureza interativa e contextual, o que gera mudanças importantes nas práticas de avaliação e nas tomadas de decisões frente ao contexto em que o aluno está inserido. Passa a ser um processo de coleta de informações das variáveis que intervêm no ensino e na apren- dizagem, que levará a identificar quais as N.E.E. do aluno e as diversas decisões com relação às adaptações curriculares e ao tipo de suporte que – 155 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade o sujeito venha a precisar. Assim, a avaliação psicopedagógica deve servir para orientar o processo educacional em seu conjunto, facilitando o traba- lho do professor que trabalha cotidianamente com o aluno. A coleta dessas informações deve acontecer principalmente na rotina da escola, tornando o professor o principal personagem desse encaminha- mento, visto que a ele também serão oferecidas as diversas medidas de apoio que se considerem necessárias. Deverão ser analisados os itens lis- tados a seguir. 2 Programações da turma: a forma como é distribuída a rotina na sala deve ser considerada, pois o limite natural de uma criança para desenvolver uma atividade é um aspecto fundamental para o sucesso da aprendizagem, assim como não ter rotina escolar também influencia na forma como o aluno se organiza para efe- tivar sua aprendizagem. Atividades que levam mais de uma hora para serem realizadas tornam-se naturalmente desmotivantes para a criança. 2 Conteúdos: é preciso levantar os pontos fortes e fracos do aluno com relação ao currículo escolar, identificando o que é capaz de fazer com relação aos objetivos e conteúdos (atitudinais, con- ceituais e procedimentais) das diferentes áreas curriculares, bem como verificando qual o conhecimento prévio que o aluno deve ter para apropriar-se do novo conteúdo apresentado. 2 Metodologia utilizada, critérios de acompanhamento e avalia- ção: as observações frente a todas as participações dos alunos são o instrumento mais eficaz de avaliação da aprendizagem, por pro- porcionar informações qualitativas sobre as experiências na sala de aula, podendo contribuir com o tipo de ajuste que eles possam vir a necessitar. Criar um portfólio1 individual pode auxiliar no levantamento e organização das informações necessárias. 2 Relação do professor com o aluno e a turma: as considera- ções acerca de como se estabelecem as relações do professor 1 O portfólio é uma coleção de todos os trabalhos pedagógicos realizados pelo aluno. Po- dem ser textos, atividades gráficas, fotografias, filmagens ou desenhos. Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 156 – são outro fator importante. É preciso perceber o quanto existe de desejo e vontade de transformar a sua realidade, possibilitando condições específicas de aprendizagem. As condições afetivas nesse aspecto são determinantes para impulsionar o aluno rumo a novas metas. 2 Interação com os colegas: considerando que a aprendizagem acontecerá na relação que se estabelece com o outro e com o contexto, a forma e a intensidade da relação do aluno com os colegas revelam pontos importantes a serem analisados. 2 Ajuda que lhe é prestada: os apoios possibilitados devem ser enumerados e descritos quanto às circunstâncias em que foram usados. Existem atividades nas quais o aluno pode não precisar de apoio ou recurso concreto e outras nas quais possa precisar. 2 Ritmo de aprendizagem: a forma como o aluno aprende, como se dá o seu desempenho, as características individuais que apre- senta na resolução de situações-problema que lhe são colocadas, assim como suas preferências, interesses e habilidades. 2 Condições pessoais de deficiência: nesse aspecto, devemos levantar as condições próprias para cada deficiência, como a comunicação alternativa para as pessoas que apresentam para- lisia cerebral e não conseguem utilizar a linguagem oral, as características comunicativo-linguísticas dos surdos, aspectos etiológicos e/ou neurológicos, as condições de saúde, higiene e hábitos alimentares. 2 Contexto familiar e social: uma parte da responsabilidade do desenvolvimento cabe aos adultos, que organizam as experiências da criança; assim, é necessário analisar em que medida as condi- ções de vida familiar e social influenciam seu desenvolvimento. As necessidades educativas especiais referem-se a crianças e jovens que apresentam elevada capacidade ou dificuldades para apren- der, são as pessoas com altas habilidades/superdotação, deficiên- cias cognitivas, físicas, psíquicas e sensoriais. O uso da expressão “necessidades educativas especiais” tem por objetivo evitar os efeitos – 157 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade negativos de expressões como deficientes, excepcionais, subnormais, superdotados e incapacitados. É dada atenção às soluções positivas como forma de suprir as dificuldades encontradas pelo aluno. 8.1.4 Integração e inclusão educacional Na integração escolar, o aluno tem acesso às escolas por meio de um leque de possibilidades educacionais, que abrange desde a inserção em salas de aula do ensino regular até o ensino em escolas especiais, dentro de uma concepção de inserção parcial e segregadora. O aspecto mais importante desse processo é que a escola isola os alunos com necessidades educativas especiais e só integra os que não constituem nenhum tipo de desafio, indicando escola de rede regular aos que foram avaliados por instrumentos e profissionais supostamente obje- tivos. Nessa concepção é prevista a individualização dos programas ins- trucionais, que devem se adaptar às necessidades de cada um dos alunos, com deficiência ou não. Nesse modelo existe a inserção do educando com necessidades especiais no ensino comum, com sistemas diferenciados para cada tipo de deficiência, separando os alunos em dois grupos distin- tos: aqueles com e aqueles sem deficiência. Os planos e ensino devem ser individualizados e também separados em dois grupos distintos, em que se tem o controle do processo de aprendizagem por especialistas. A noção de inclusão é incompatível com a de integração e institui a inserção escolar de forma radical, completa e sistemática. O conceito se refere à vida social e educativa, e todos os alunos devem frequentar as salas de aula do ensino regular, considerando todas as suas necessidades, para as quais são organizados o espaço e os recursos. É por isso que inserir um aluno com necessidades especiais em uma sala de aula regular não faz dela uma sala inclusiva. Essa somente será uma sala inclusiva quando puder atender e responder, com qualidade, às neces- sidades educacionais especiais de todos os alunos que nela se encontram. Ao falarmos em integração, referimo-nos a um processo que privile- gia os esforços de modificação do repertório e do funcionamento do aluno. Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 158 – Já quando falamos em inclusão, mencionamos um processo que, além de investir na modificação do aluno, impõe essencial atenção à modificação do contexto escolar (projeto pedagógico, objetivos educacionais, conte- údo, método de ensino, processo de avaliação, acessibilidade, métodos de comunicação, etc.). Basicamente, a diferença entre inclusão e integração é simples: na inclusão, é a escola que tem de estar preparada para acolher todos os alu- nos; na integração, é o aluno que tem de se adaptar às exigências da escola. Na primeira, o fracasso escolar é da responsabilidade de todos (profes- sores, auxiliares, pais, alunos); na segunda, o fracasso é do aluno, que não teve competência para se adaptar às regras inflexíveis da escola, que presta mais atenção nos impedimentos do que nos potenciais das crianças. Inclusão é estar com o outro, integração é estar junto ao outro (que não necessariamente significa compartilhar nem aceitar). Na integração, nem todos os alunos com deficiência têm a chance de entrarem uma turma de ensino regular, já que a escola faz uma seleção prévia dos candidatos que estariam ou não aptos. A integração escolar se resume ao desloca- mento da educação especial para dentro da escola regular, muitas vezes criando “turmas especiais” para atender aos “alunos especiais”, e perma- necendo as “turmas normais” para “alunos normais”. Enfatiza-se, assim, a discriminação e o preconceito dentro da própria escola. Dessa forma, a inclusão é incompatível com a integração, visto que defende os direitos de todos, sem exceção, de frequentarem as salas de aula de ensino regular. Não se trata apenas de todos frequentarem a mesma escola, mas, sim, as mesmas salas de aula, todos os alunos juntos, inde- pendente das suas necessidades ou particularidades. Então, a escola inclu- siva é aquela que tem salas de aulas inclusivas, assim como bibliotecas inclusivas, banheiros inclusivos, acessos inclusivos, projeto pedagógico inclusivo e, principalmente, alunos e professores inclusivos. O termo “inclusão” refere-se primordialmente à valorização e ao respeito à pessoa humana, independente de sua raça, credo, condição biofísico-sensorial ou intelectual, opção sexual, situação econômica e cul- tural. Assim, buscamos alcançar, construir e contribuir para a obtenção de ambientes, processos, relações e atitudes cada vez mais adequados às – 159 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade necessidades e aos direitos, ao modo de ser e de existir das pessoas com e sem deficiência. O valor do paradigma da inclusão não se localiza apenas na necessi- dade de se organizar uma escola comum adequada às possibilidades dos alunos, mas também nos direitos de cada família, cada aluno de usufruir de uma escola especial, promotora de suas capacidades e valorizadora de seus direitos. Cabe, portanto, à sociedade eliminar todas as barreiras físi- cas e atitudinais para que as pessoas com necessidades especiais tenham acesso a todos os recursos existentes na comunidade de forma ampla, a fim de garantir o seu desenvolvimento pessoal, educacional e profissional. A escola para todos reconhece e valoriza as diferenças, a cidada- nia global plena, livre de preconceitos, a heterogeneidade das turmas e a diversidade do processo de construção coletiva e individual do conheci- mento. Ela não possui valores e medidas predeterminantes de desempenho escolar, prevê a abolição dos serviços segregadores e do mito da neces- sidade do atendimento clínico a todos os indivíduos com deficiência. Tal escola considera que o conhecimento não obedece a critérios rígidos esta- belecidos e limitados pelas disciplinas curriculares, mas configura ampla rede de ideias introduzindo objetivos e conteúdos funcionais. Nas escolas são consideradas as experiências socioculturais dos educandos, seus sabe- res e práticas familiares, assim como é proposto apoio permanente a toda equipe que os acompanha. A inclusão considera a criação de condições e possibilidades para que as pessoas com necessidades educacionais especiais possam realmente usufruir da comunidade, ao mesmo tempo em que tenham suas singulari- dades respeitadas. O paradigma da educação inclusiva compreende que toda criança tem direito à educação e que os seus limites e possibilidades devem ser respeitados. Assim como possuem possibilidades e recursos de comuni- cação, interesses, habilidades, necessidades de aprendizagem singulares, trajetórias de vida ricas e significativas, têm o direito de se beneficiar dos serviços e da atenção ofertados na escola comum ou na escola especial, independentemente das dificuldades ou diferenças que elas possam apre- sentar. A ideia que permeia essa questão é a dos direitos humanos, da auto- Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 160 – determinação, do apoio entre pares, do empoderamento2 , do direito de correr riscos e de se integrar à sociedade. O principal objetivo do processo inclusivo é fazer com que todas as pessoas com deficiência alcancem a indepe ndência, a autonomia e a res- ponsabilidade e, por consequência, empoderem-se de sua própria vida. O processo de cooperação e organização deve passar pelo respeito às necessidades do outro, sendo um processo de negociação aberto e dinâmico, no qual o aluno sente-se responsável e participante. Assim, ele pode estar na classe regular e ter um professor de educação especial para fazer um pro- grama, para compensar das suas áreas deficitárias e desenvolvê-las individu- almente, fora da sala de aula, em contra- turno. Não compreendemos, hoje, uma educação especial para uma fatia de crianças ou jovens, assim como não compreendemos que seja necessário separar as pessoas para educá-las, para ensiná-las a viver com os outros e para juntá-las posteriormente. 8.1.5 Modelo médico-clínico e modelo inclusivo A educação especial esteve impregnada pela ideia corretiva e cura- tiva, tendo em vista a necessidade de adequar os alunos aos modelos bio- lógicos e sociais construídos pela obra da natureza. Regenerar os sujeitos de necessidades especiais passava a ser a marca e expressão do autorita- rismo da ciência médica sobre outras ciências. O modelo médico-clínico tem raízes mais profundas que o campo da educação especial. Tem suas origens em uma concepção de sociedade na qual todos os problemas sociais eram explicados localizando suas cau- sas no indivíduo. Esse seria um problema, alguém a ser curado. Deveria, então, sofrer intervenções médico-clínicas e de reabilitação para estar de acordo com as exigências da sociedade. A suposta necessidade de tantos procedimentos e técnicas especiais para atender a esses alunos e a suposta incapacidade de professores e de 2 O empoderamento diz respeito ao processo pelo qual uma pessoa, ou um grupo de pessoas, usa o seu poder pessoal inerente à sua condição. Por exemplo: deficiência, gênero, idade, cor, para fazer escolhas e tomar decisões. O poder pessoal está em cada ser humano. A sociedade não tem consciência de que a pessoa com deficiência também tem esse poder pessoal. – 161 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade outros profissionais da educação para levar a cabo essas exigências têm pro- duzido, genericamente, resultado comum aos alunos com e sem deficiência: o fracasso escolar. De um lado, as escolas estariam cumprindo seu papel e os educandos que não conseguissem aprender teriam características pessoais impeditivas para aprender. De outro lado, os procedimentos e técnicas espe- ciais compatíveis com suas necessidades só poderiam ser trabalhados pelos especialistas em educação especial, cabendo, portanto, aos professores do ensino comum lavar as mãos diante de pessoas e de “problemas” que não se enquadrassem em sua formação e competência profissionais. Tal como ocorria em outras instâncias sociais, nas quais os problemas deveriam ser imputados ao indivíduo, o fracasso escolar das pessoas com defi- ciência também precisa ser convertido em processo de individualização, mis- tificação e acobertamento das determinações sociais e históricas. A individu- alização se expressa na medida em que as características pessoais compõem a responsabilidade do indivíduo, seu fracasso ou sucesso na escolarização e a conquista do trabalho, autonomia e independência social. Tal perspectiva está fundamentada na concepção liberal de educação, segundo a qual o sucesso e o mérito são determinados pelo esforço e trabalho de cada um. A educação liberal constituiu-se condição para a construção de uma sociedade democrática e livre, concebida como uma somatória de indi- víduos. Descontextualizar o papel e a função da educação especial das determinações sociais, econômicas, políticas e culturais implica um duplo processo de discriminação e marginalização: o processo de segregação e de isolamento em relação à sociedade, bem como a crença na existência desse lugar ideal, nessa separação, nessa naturalização da divisão entre o modo como interagem pessoas sem e com deficiência. As pessoas com deficiênciaeram discriminadas e culpadas em razão da exigência de características individuais que se constituiriam na pron- tidão e maturidade para aprender a se relacionar socialmente. Ao não se adequarem a esses requisitos, além de não serem levadas em conta suas condições sociais e econômicas, esses alunos deveriam ser encaminhados aos serviços de educação especial. A desigualdade de oportunidades de acesso aos saberes sociais para as camadas subalternas da população, nas quais está inserida a maioria das Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 162 – pessoas com deficiência, confere atitude tão discriminatória quanto a de responsabilizar o indivíduo pelo seu sucesso ou fracasso escolar. No entanto, a educação inclusiva propõe a organização de escolas nas quais seja privilegiada a fusão entre a qualidade do atendimento especiali- zado com a qualidade do atendimento da rede regular de ensino, vivendo a experiência de uma verdadeira comunidade educacional, em que exista a aceitação, a solidariedade, a diversidade, o respeito, a compreensão e os direitos à saúde, educação e trabalho. Tal comunidade deve, também, compreender que o convívio social da pessoa com deficiência com seus pares pode oferecer a efetivação das relações de respeito, a dignidade, a construção da identidade, da cidadania e a organização das regras sociais de forma justa, respeitosa e solidária. É necessário ter coragem, vontade política e organização coletiva para obter as mudanças desejadas em prol de uma cidadania plena. No interior da escola, é preciso unir as forças ao invés de dividi-las, lutando para que haja igualdade de oportunidades. A ideia de inclusão, por outro lado, não pode cair no extremo e sim- ples ato de fé, não basta ao educador aceitar e acolher os seus alunos, é necessária a ação objetiva. O professor deverá saber o que, quando e como fazer, tornando a sua capacitação profissional indispensável. Falar de ati- tudes inclusivas a todo o momento para o corpo docente e demais profis- sionais da escola é condição inquestionável para que ali nasça e reine a solidariedade e o espírito de equipe, em detrimento do individualismo e do espírito de competição. É preciso termos em mente que estamos cons- truindo coletiva e gradativamente um conhecimento diferente daquele que comumente encontramos nas escolas, de intervenções pedagógicas inclu- sivas, cooperativas e solidárias. A clareza das relações e das ações configura-se essencial para o sucesso no processo educacional, pois qualquer profissional que fizer parte dessa escola deve ter claro que os alunos ali matriculados podem ser deficientes ou superdotados, de população nômade pertencente a minorias linguísticas, étnicas ou culturais, ou, ainda, participar de grupos desfavo- recidos ou marginalizados. Sendo assim, deverão ser tratados de forma igual e possuir a mesma oportunidade de crescer. É o espírito positivo – 163 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade da equipe que vai criar e garantir a implementação de formas eficazes de combater atitudes discriminatórias. Uma sociedade e uma escola inclusiva aprendem a trabalhar com as diferenças, com a diversidade de ritmos, de estilos de aprendizagem, inte- resses, motivações e maneiras distintas de construir o conhecimento, e con- sideram que todas as diferenças humanas são normais e que o ensino deve se ajustar às necessidades de cada pessoa e não o contrário. A deficiência deve ser pensada não pela lógica da falta, mas como pura e simples diferença. De acordo com a atual perspectiva inclusiva, o ambiente escolar é que precisa se transformar para receber os alunos. Pensar assim representa uma grande mudança, não só nas estruturas de ensino, mas em toda a sociedade. Significa, ainda, mudar posturas para combater o preconceito e a exclusão de todos os grupos marginalizados, inclusive entre as próprias pessoas com deficiência. Consideramos que os alunos com necessidades educativas especiais devem ter acesso à escola regular, acolhidos em uma ação pedagógica que organiza o tempo e o espaço para eles e que é capaz de satisfazer as suas necessidades. Saiba mais Em Portugal, há uma escola na qual não existem turmas separadas por idade ou grau de escolaridade, nem lugar fixo ou sala de aula. Os alu- nos, organizados em pequenos grupos com interesse comum, reúnem- -se com o professor em grandes galpões e desenvolvem programas de trabalho de quinze dias. Avaliam o que aprendem e formam novos gru- pos. Saiba mais acessando o site <http://www.escoladaponte.com.pt>. O aluno passa, portanto, a ter o direito de expressar seus desejos com relação à sua educação, assim como de exercê-lo com relação ao ensino fundamental, ou seja, compreendemos nesse processo uma educação que possibilite atingir e manter um nível de aprendizagem adequado dentro de suas necessidades. Para esse fim, a escola precisa, em regime de urgência, adequar-se para garantir que o sistema de ensino não desconsidere que a aprendiza- gem deve ocorrer de acordo com os interesses e habilidades de cada aluno. Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 164 – Cabe à instituição acolher todas as características próprias de apren- dizagem, assegurando ensino de qualidade a todos mediante um currículo apropriado, alcançado por meio de arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de todos os recursos que estiverem ao alcance da escola e parceria com as comunidades envolvidas, conforme preveem as Dire- trizes Nacionais da Educação Especial na Educação Básica. A inclusão deve significar concretamente a aprendizagem de conteúdos e objetivos previamente planejados e organizados. Ao pensarmos em qualidade de educação para todos, também é pre- ciso que consideremos determinados princípios fundamentais, entre eles a liberdade de escolha do indivíduo. Essa é uma ação que devolve a ele, o principal interessado e responsável por seu destino, esse direito que esteve na mão dos especialistas durante décadas. Outro aspecto a ser considerado é o de que as pessoas com defi- ciência têm o direito de receber atendimento complementar, caso seja necessário. A legislação prevê que é dever da rede pública de ensino oferecer acompanhamento pedagógico aos alunos com deficiência que apresentarem dificuldades de aprendizagem, sempre no período contrário ao das aulas na classe regular. A ideia é manter abertas as escolas especiais e ressignificá-las nessa tarefa. Assim, dentro do novo contexto da educação inclusiva, o papel dessas escolas passa a ser, também, o de oferecer serviços complementares na área pedagógica e/ ou da saúde. O processo de cooperação e organização deve respeitar as necessi- dades de cada um, assim como de todo o grupo, sendo uma negociação aberta e dinâmica, na qual o aluno se sente responsável e participante. Dessa forma, a ressignificação compreende não só o atendimento espe- cializado, a escola especial é o lugar onde há preocupação com a preven- ção, com a prestação de serviços no contexto da educação regular, capaz de proporcionar aos alunos independência, autonomia e empoderamento, com objetivos educacionais de caráter funcional. Objetivamente, podemos concluir que os fatores elencados a seguir devem estar presentes e que são essenciais para que a educação inclusiva ocorra: – 165 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade 2 flexibilidade no sistema educativo; 2 ensino e aprendizagem cooperativos; 2 projeto político-pedagógico coerente com a legislação do país; 2 gestão escolar defensora da política de inclusão; 2 sistema de avaliação processual do aluno sem retenção; 2 boa relação entre escola, família e comunidade; 2 diferenciação pedagógica a quem precisar; 2 atitudes solidárias, de respeito e de aceitação por parte do professor; 2 plano específico de ação para a sala de aula; 2 formação de professores; 2 recursos materiais e humanos; 2 professores fixos nas escolas. A escola inclusiva, portanto, compreende todosos alunos, respei- tando sua condição sexual, etnia, sua origem, religião, condição física, social ou intelectual, clamando a gestão das diferenças, na qual cada con- dição converte-se em força, um princípio, uma base do trabalho. Na escola inclusiva os alunos aprendem participando. Não é apenas a presença física que conta, mas se sentir per- tencente à instituição e ao grupo de tal maneira que o sentimento de pertencimento por parte do aluno e de reponsabilidade por parte da escola sejam mútuos. O edu- cando não é uma parte do todo, mas compõe o todo. A escola se compromete a desenvolver uma pedagogia capaz de edu- car todas as crianças com sucesso, incluindo as mais desfavorecidas e as que apresentam deficiências graves, na perspectiva de que o ensino deve se adaptar às necessidades dos alunos, mais do que a adaptação deles às normas preestabelecidas. Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 166 – Dica de filme O milagre de Anne Sullivan é um filme de 1962, dirigido por Arthur Penn. Baseado na vida real de Helen Keller, o filme conta a comovente história de Anne Sullivan, uma persistente professora cuja maior luta foi a de ajudar uma menina cega e surda a adaptar-se ao mundo que a rodeava. O MILAGRE de Anne Sullivan. Direção de Arthur Penn. EUA: Classic Line, 1962. 1 filme (106 min.), sonoro, legenda, color. 8.1.6 Da segregação ao direito de compartilhar, aprender e interagir socialmente A instrumentalização das entidades mantenedoras das escolas espe- ciais passa a ser descartada com a possibilidade e necessidade de organizar, prestar e vender serviços à comunidade. Em decorrência da despolitização crescente de instituições, profissionais, sujeitos com necessidades especiais e suas próprias filosofias, tais entidades acabam se autonomizando, criando seus vínculos, sua unidade, individualizando suas necessidades e elimi- nando até mesmo os conflitos. Mas não existe prática política emancipatória na qual não possa haver democracia com sujeitos e com conflitos. A sociedade não se constrói apenas por estruturas econômicas e políticas e pelo dinamismo ligado às classes em conflito. Nela há espaços, tempos e relações que passam pela subjetividade pessoal e coletiva e que deixam sua marca na configuração social (BOFF, 1998, p. 102). Quebrados os vínculos entre o movimento organizado, os profis- sionais de educação e os próprios sujeitos com necessidades especiais, desintegram-se a escola e as práticas educativas, enquanto proclamadoras da defesa dos bens públicos sociais fundamentais. A luta pela integração das pessoas com necessidades especiais, suas instituições e suas utopias eram expressão de um momento da politização dos sujeitos, de um lado, e a adoção ou implementação de políticas públi- – 167 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade cas de bem-estar, de outro. Com a despolitização constatamos a desinte- gração e desmobilização das pessoas. Ao invés de se lutar pelo direito ao exercício do trabalho, ao bem-estar, à participação política, à felicidade, à rebeldia, às trocas simbólicas e culturais, bastaria, agora, estar “incluso” em uma escola comum? As escolas especiais, ao atenderem pessoas com graves deficiências, lutando para que elas recebam a atenção adequada à dignidade humana, potencializando suas capacidades comunicativas, ampliando a aquisição de habilidades sociais, pessoais e mantendo uma prática democrática e politizadora em seu interior, podem ser classificadas como escolas inclu- sivas. Nessa perspectiva de inclusão, a escola especial pode se constituir como um espaço inclusivo, se for acolhedora e valorizadora das possibi- lidades de determinadas pessoas. A escola especial pode ser um direito de escolha de famílias que a elejam como seu projeto de inclusão. No tempo da desmobilização, as diferenças não precisariam ser supe- radas, mas simplesmente discursadas e mantidas. Com a fragmentação e despolitização das pessoas e das organizações não haveria mais luta contra o monopólio do poder, das decisões, do conhecimento, nem a consequente falta de acesso e usufruto daqueles que apresentassem necessidades edu- cacionais especiais. Agora, serão reservadas às pessoas com deficiência, atividades de caráter pragmático, nas quais possa ser despertado o seu espírito de cria- tividade. Tais práticas pedagógicas são revertidas em um novo otimismo, uma nova fantasia, uma pseudo - diversidade, um isolamento escanca- rado, um abandono vigiado, uma segregação assistida. Sem mudanças radicais, sem uma nova organização escolar e social, a inclusão educa- cional mascararia seu caráter classificatório, meritocrático, competitivo e individualista. Como o otimismo pedagógico apresentava-se messiânico e redentor das condições de vida, a inclusão escolar resgatava as pessoas da segre- gação, provocando mudanças estruturais na sociedade. Enquanto seria promovida uma educação inclusiva voltada à competitividade, paralela- mente, seriam mantidas e acomodadas as desigualdades, referidas, agora, como diversidade. Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 168 – Em decorrência da autonomização da escola, as práticas educativas passam a ser dirigidas a uma diversidade abstrata, dissociando-se das prá- ticas sociais desses sujeitos entendidos como diversidade. Tais práticas são organizadas para uma “diversidade média”, análoga ao aluno médio ou padrão buscado por aquela pedagogia considerada tradicional. Dessa forma, é fundamental reconhecer que, além da pretendida atenção adequada às necessidades e possibilidades de cada um dos alunos nas escolas especiais e comuns, tais instituições sempre têm a ver com os movimentos sociais. A pseudo absolvição da prática educacional com relação às práticas sociais não é outra coisa senão a forma dominante de estabelecer o vínculo específico entre elas. Uma escola inanimada perante a mudança social é uma escola com- prometida com a conservação da ordem, com o mascaramento das condi- ções de miséria e exploração existentes em nossas sociedades. Se a escola não contribui para o fortalecimento dos movimentos populares, ela acaba contribuindo para o seu enfraquecimento. Por sofrerem um processo forçado de isolamento e segregação social e por terem a subjetividade negada, muitas das pessoas que apre- sentam necessidades especiais não se agregam, de fato, à população bra- sileira. Se as organizações sociais, em parceria com a escola, consegui- rem resgatar a função social e política da educação, uma de suas tarefas prementes será a de identificar esses milhares de excluídos, recuperando -lhes a identidade, a subjetividade e contribuindo, assim, para que supe- rem sua clandestinidade. Contudo, não basta recuperar a individualidade no plano simbólico se isso não for feito igualmente nos planos material e político social. Não basta identificar as deficiências se não forem criados meios de estancar sua produção acelerada, produto mórbido dos acidentes de trabalho e de trânsito. Para esse produto não há forma nem marketing, mas o descaso equivale a uma guerra civil, que é incompatível com qualquer projeto de uma sociedade inclusiva cuja vida possa ser festejada todos os dias. Ocorre que certas organizações sociais, em razão de sua despoliti- zação, seu formalismo e isolamento das necessidades reais e direitos das pessoas, estão limitadas e movidas pela cotidianidade, na qual os proble- – 169 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade mas sociais não entram na pauta de discussões. Em última instância, a problemática da exclusão social e da própria clandestinidade fica restrita à preocupação dos próprios excluídos e clandestinos. Tendo como pressuposto que os direitos do homem, por mais funda- mentais que sejam, são direitos históricos que nascem de circunstâncias caracterizadas por lutas e defesas contra velhos poderes, resistências e preconceitos ou velhas circunstâncias limitadoras, podemos afirmar como irreversível e irresistível o movimentoda sociedade inclusiva. Tal socie- dade será, irreversivelmente, cada vez mais adaptada às condições de vida das pessoas dotadas de uma condição biofísico-sensorial distinta. As necessidades especiais humanas serão cada vez mais respeitadas na forma de oferecimento das condições específicas para a manifestação humana do direito de educar-se e ser feliz em sociedade. Elas serão aten- didas gradual e progressivamente e não todas de uma só vez. Dessa forma, como a liberdade religiosa é resultante de guerras de religião, a liberdade civil resulta da luta de povos e parlamentos contra o poder absoluto dos soberanos. Como a liberdade política e social resulta do fortalecimento das lutas dos trabalhadores, dos sem-terra, a liberdade individual das pessoas com deficiência nasce do seu reconhecimento social geral enquanto seres individuais dignos da condição humana. Do mesmo modo que os trabalhadores exigem dos poderes públicos a proteção do trabalho contra o desemprego, a gratuidade e qualidade dos serviços educacionais, as pessoas com deficiência exigem a proteção das suas necessidades específicas, condição essencial para a manifestação do respeito às suas diferenças. Todas as carências e necessidades que os detentores do poder econô- mico podem satisfazer para si próprios precisam ser protegidas à luz dos chamados direitos sociais, que são, na verdade, individuais. Os direitos sociais, que já foram considerados direitos de segunda e terceira geração, tratam-se de uma categoria ainda heterogênea e difícil de se materializar em termos de especificidades individuais. Atualmente, é almejado que todos sejam contemplados pelo direito à educação e ao usufruto das conquistas desenvolvidas. Do mesmo modo que as pesquisas biológicas produziram condições para que indivíduos Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 170 – reclamem o direito de manipulação ou comercialização de seu patrimônio genético, os avanços científicos acabaram permitindo que determinadas pessoas tenham o direito de ampliar suas funções biológico-orgânicas, repercutindo diretamente em sua capacidade de vida, que pode ser cada vez mais autônoma e independente. Toda vez que uma gama de direitos se apresenta como possível em deter- minada sociedade, ainda que se constitua base material para novas reivindica- ções, apresenta socialmente a forma mais desenvolvida. No momento em que as pessoas com deficiência passam a ser treinadas para a aquisição de deter- minadas habilidades, não se imagina que possam realizar, no futuro, trabalhos remunerados, nem mesmo serem consideradas trabalhadores. No momento em que a pessoa considerada deficiente passa a existir concretamente, interagindo com os outros, assumindo responsabilidades, desenvolvendo capacidades, revelando talentos na realização de diferentes trabalhos, seus direitos passam a existir como decorrência de sua condição de agente único e, ao mesmo tempo, coletivo, distinto e integrado às rela- ções sociais. Os direitos são expressão material da existência social dos homens. Se não for dado ao ser humano o direito de interagir socialmente frente às diversidades, não serão produzidos nele os benefícios resultantes das lutas e resistências, pois ele não terá lutado na vida real. Em condição segregada, existirá a representação de um pseudo mundo, acobertando as aspirações e necessidades do indivíduo e, de outro lado, falseando uma harmonia e uma aparente igualdade entre as pessoas da sociedade. Reclusas em um aparente conforto, são retardadas as mudan- ças a serem enfrentadas pelos dirigentes, governantes e demais pessoas. Nesse sentido, podemos afirmar que o ser humano só se constitui como pessoa compartilhando os benefícios dos instrumentos e recursos materiais, no usufruto dos saberes, dos valores e dos afetos humanos, no confronto com as possibilidades e com os limites reais, objetivos e sub- jetivos, tangíveis e intangíveis. É no teatro das interações e dos enfrenta- mentos que assumimos diferentes papéis enquanto personagens e atores da nossa existência. Nos ambientes segregados e restritos, o ser humano manifesta ape- nas suas necessidades primárias e privadas. Quanto mais se consolida a – 171 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade vida na sociedade das pessoas deficientes, mais se denunciam suas neces- sidades e, ao mesmo tempo, mais se tornam fundamentais, inalienáveis e invioláveis os direitos à vida, à liberdade, ao pensamento e expressão, à educação, ao trabalho, enfim, à constituição da individualidade no seio das relações sociais. É a vida em sociedade que materializa o direito à educação, à auto- nomia, à interdependência, o compartilhar de ideias e emoções, saberes e afetos, objetos, instrumentos e aconchegos. É a vida em sociedade, também, que desenvolve estratégias práticas de superação das limita- ções humanas. Nesse sentido, devem ser superadas as representações sociais da deficiência caracterizadas pelas ideias de inferioridade, protecionismo, piedade, genialidade e, ao mesmo tempo, certas proclamações constantes de declarações políticas da “igualdade de oportunidades”, tendo em vista a necessidade de compreendermos o homem ativo, suas lutas reais para superar as dificuldades e se apropriar tanto da sua individualidade quanto dos bens socialmente construídos. É preciso recuperar o conhecimento perdido na mera informação, na grande superficialidade pela qual navegamos quase como autômatos. É preciso desenvolver a qualidade mental de organizar e dominar o conhe- cimento em meio à multiplicidade de notícias produzidas e lançadas para todos os lados todos os dias. Esse projeto requer de nós uma tarefa essen- cial, a de definir os rumos de nossa existência, de nosso trabalho, de nossa formação, os rumos de nossa docência escolar e não escolar, profissional e não profissional, de selecionar sempre aquilo considerado fundamental para nós, com os procedimentos, os caminhos para alcançá-lo, para que cada um manifeste sua aprendizagem segundo suas possibilidades e de acordo com a condição humana. A condição de cidadão, ao qual são exigidos deveres, em contrapar- tida ao exercício de direitos, ainda é algo abstrato, tendo em vista a dico- tomia existente entre o discurso que proclama a humanização e a inclusão social frente à organização de práticas assistencialistas. Onde impera o assistencialismo são sufocados os direitos individuais e coletivos; onde há repressão aos direitos não pode haver cobrança quanto ao cumprimento Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 172 – de deveres; não existem deveres onde não existem indivíduos constituídos como cidadãos. Se, de um lado, as características intrínsecas das pessoas com defici- ência deixam cada vez mais de se constituir como determinantes para suas dificuldades de acesso a serviços educacionais, de trabalho e outros servi- ços sociais mais amplos, de outro lado, temos a organização e a difusão de modelos educacionais inclusivos que ganham status salvacionistas quanto às condições de escolaridade de tais pessoas. Outra dicotomia constatada no processo histórico de organização dos sistemas de educação especial diz respeito às funções contraditórias que justificaram sua generalização. De um lado, foram abertas as oportuni- dades educacionais para cegos, surdos, deficientes mentais e outros, que não podiam usufruir dos processos pedagógicos correntes. De outro, o princípio da generalização da educação legitimou as formas de segregação daqueles que não apresentavam resultados compatíveis com os interesses econômicos e de ordem social vigentes. Assim, a ideia de ampliar as opor- tunidades educacionais se contrapôs à ideia de segregação e secundariza- ção social e humana daquelas pessoas. A inclusão diz respeito à mudança de valores e ati- tudes que só acontece mediante a conscientiza- ção de cada pessoa e de geração a geração. Quem está comprometido com a sua concepção está “arando a terra da inclusão”, da qual nossosfilhos semearão, nos- sos netos cultivarão e nossos bisnetos colherão o fruto. 8.1.7 Benefícios e desafios da inclusão Após o acompanhamento dos alunos incluídos que apresentam neces- sidades educativas especiais, constatamos que eles se tornaram mais autô- nomos em suas relações sociais, percebendo que suas dificuldades não os impossibilitam de viver dignamente em sociedade, melhorando sua auto- estima e, por consequência, tornando-se mais produtivos e apresentando – 173 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade crescente responsabilidade e aumento na aprendizagem, assim como nas relações de amizade com outros alunos. A ação inclusiva também apresenta socialmente como resultado novos amigos, que mais tarde poderão se tornar recursos formais para a própria área da deficiência (médicos, professores, serviços técnicos varia- dos, etc.), transformando a postura dos futuros profissionais em todas as áreas com relação às deficiências, comprovando que esse processo se dá a longo prazo, mas de forma eficiente. Esses amigos poderão represen- tar, ainda, recursos informais (amigos, colegas, familiares, grupos sociais, etc.). Os pares, com ou sem os professores, funcionam como suporte social e instrucional na aprendizagem cooperativa, modelação, aprendiza- gem por imitação, entre outros. A magnitude do benefício da heterogeneidade torna-se um grande aliado dos estudantes com ou sem deficiências na luta contra a discrimi- nação. A maioria descobre ser capaz de atos solidários e cooperativos, tornando-se mais compreensiva, tolerante e confiante nas relações com o outro. O grupo passa a ser o fator fundamental na construção da apren- dizagem em uma prática equilibrada entre trabalho coletivo e individual. Os alunos com necessidades educativas especiais poderão, futura- mente, envolver-se em transições sociais de forma autônoma e diversi- ficada. Por outro lado, os alunos ditos “normais” poderão desenvolver maior capacidade afetiva e cognitiva, construída com base na acei- tação e no respeito às diferenças, desenvolvendo crescente conforto, confiança e compreensão a respeito da sua diversidade individual e de outras pessoas. Outro aspecto importante a ser ressaltado entre os benefícios da inclusão diz respeito à proximidade do indivíduo com a comunidade onde mora. Quando um aluno com necessidades educativas especiais vai para uma escola especializada, geralmente se afasta da área de sua residência, o que implica um corte nas relações com seus amigos e vizinhos. A escola especial tem, então, que proporcionar um currículo funcional, pois o aluno precisa aprender a utilizar os recursos de seu bairro. Ao estar próximo de sua casa, ele resgata a aprendizagem contextualizada nas condições em que, posteriormente, as competências serão exercidas. Educação cidadã, diversidade e meio ambiente – 174 – Para que os benefícios se consolidem, é imprescindível ultrapassar as barreiras impeditivas encontradas ao longo do processo, a primeira delas trata da rigidez e cristalização dos esquemas institucionais, reprodutores de injustiças e desigualdades sociais, que têm sido um dos grandes entra- ves para a conquista desse ideal. Assim, apresenta-se a impossibilidade de investir em novas ações, com uma mudança nas prioridades, e as pessoas continuam sendo marginalizadas. As barreiras nos fazem esquecer de que nas atitudes de cada indivíduo também estão postos os princípios da edu- cação inclusiva, ao valorizar e ser valorizado, ao respeitar e ser respeitado. Como toda instituição, a escola vive em seu interior as contradições das relações de poder, que determinam os papéis sociais e a conduta, tanto de alunos quanto de pais e profissionais, reproduzindo ou enfatizando erroneamente as diferenças que são vistas de forma prejudicial quando supervalorizam a hierarquia, a burocracia e a rigidez disciplinar, tornando- -se controladora da práxis pedagógica. Embora cristalizada por meio de seus costumes e retificada pelas leis e normas, cabe ao cidadão ter a sobriedade e a inquietude necessárias para transformar quando for preciso essa instituição. Outro ponto que tem sido elemento dificultador do processo inclusivo é reservado a um dos atores fundamentais desse processo, o professor, a quem é exigido que, independente de sua experiência de vida e cultura, acolha a todos indiscriminadamente, como se fosse possível garantir que a base da formação de todos os docentes tenha sido calcada nos princípios da valorização humana. Também não é possível afastar as dificuldades das condições financeiras e pessoais dos docentes, o que faz com que eles se vistam do altruísmo necessário para oferecer seus conhecimentos. Dentre todos os fatores do processo de inclusão, a questão do profes- sor é considerada um grande diferencial para a efetivação dos princípios da educação inclusiva. Quando o docente estiver mobilizado, acolhido e apoiado, compreendendo que ele, com suas atitudes, fará a diferença no atendimento educacional, será quebrado o circuito interminável de desmo- tivação, queixa, preconceito e fracasso, sem fechar os olhos para o que o corpo docente tem encontrado no dia a dia quanto à construção dessa escola: a baixa qualidade do ensino, a falta de infraestrutura, o baixo salário dos professores e o espaço escolar cheio de barreiras (físicas e atitudinais). – 175 – Inclusão: ensinando e aprendendo na diversidade Não menos importante é a discussão sobre o número elevado de alu- nos que o professor tem em suas turmas, o que se revela um elemento de grande dificuldade para o oferecimento de atendimento individualizado, se for necessário, a quem precisar. Tal discussão pode auxiliar a realização de uma prática pedagógica mais organizada. Reservamos à capacitação dos professores uma atenção especial. Esse não é um problema exclusivo da rede regular de ensino, que entende que seus professores não se consideram capacitados para atender pessoas com deficiência, levando-os a buscar especializações que, imaginariamente, darão conta de toda a diversidade dos alunos. Os docentes que busca- ram estudar a questão da educação especial nas instituições especializadas também não se sentem preparados para trabalhar com tal diversidade, pois a capacitação ofertada trata da forma como lidar com a diversidade em sala de aula e não especificamente com as deficiências. Um terceiro aspecto importante diz respeito ao poder de decisão e da palavra das pessoas com deficiência, a maioria das ações voltadas ao seu bem-estar costuma não ser decidida por elas. De forma geral, encontramos pais e professores envolvidos em sua defesa. É preciso instigar as pessoas com deficiência a lutarem pelo que consideram melhor para si. Os espaços físicos onde estão constituídas as escolas também mere- cem ser destacados, não parecem ser atrativos a qualquer criança, visto que geralmente sua distribuição arquitetônica não possibilita que pessoas com dificuldade de locomoção transitem com segurança e autonomia. Por outro lado, os profissionais das instituições especializadas reagem negativamente ao movimento inclusivo e à ressignificação das escolas por terem medo do risco iminente de esvaziamento ou desmantelamento dessa atividade, não compreendendo que se trata de uma função mais ampla da educação especial, que agora pode sair dos muros da instituição e atuar também na rede regular de ensino, da educação infantil ao ensino superior. 9 O trabalho como princípio educativo A organização do trabalho pedagógico no interior das ins- tituições de educação e ensino assume formas históricas cons- truídas socialmente. Isso implica o reconhecimento da escola como resultado da multiplicidade de relações que se estabele- cem entre as dimensões gerais do mundo capitalista e as dimen- sões específicas da natureza da educação, em um processo de continuidades e rupturas, que requer reprodução, resistência, acomodações, negociações. Nessa perspectiva, compreende se que a educação nãoé vítima absoluta da sociedade, no sentido de apenas reproduzir relações que foram preestabelecidas; tampouco é redentora da humanidade ou da civilização, pois não possui poderes que per- mitam uma interferência de dentro da escola para a sociedade no sentido de modificá-la e resolver os problemas existentes. Libras e temas contemporâneos em educação – 178 – Há muitos estudos que procuram relacionar diretamente os avanços de escolaridade da população e desenvolvimento econômico dos países. É importante reconhecer que há uma forte correlação entre essas duas dimen- sões, mas isso não significa a existência de uma relação de causalidade linear e direta, como se não existissem outros aspectos intervenientes. Assim, o que se pretende defender é a importância da educação reco- nhecida no contexto de seus limites e suas possibilidades. Este capítulo pretende ressaltar justamente as possibilidades de transformação, em dife- rentes aspectos, estabelecidas pela atuação educativa. 9.1.1 Concepção e forma do trabalho como princípio educativo O mundo está e sempre esteve em constante transformação, porque é construído historicamente nas relações que homens, mulheres e crian- ças estabelecem entre si para produzir sua própria existência – e não há novidade nessa afirmação. Porém, “para aqueles que analisam o mundo atual, alguma coisa radicalmente nova surgiu, alguma coisa mudou na própria mudança: é a rapidez e a aceleração perpétua de seu ritmo” (FOR- QUIN, 1993, p. 18). Se antes as transformações levavam décadas e, por vezes, gerações, para se manifestarem, atualmente a mesma geração passa por inúmeras transformações, que não se resumem simplesmente ao avanço tecnológico. Pode se dizer que a única coisa permanente, hoje, é a mudança. E quanto mais velozes são as mudanças, mais se evidencia a exclusão das maiorias. Os princípios de racionalidade, hierarquia, consumo de massa, que sustentavam a sociedade industrial moderna, estão sendo substituídos pela crescente importância conferida à intelectualização, por uma nova ética, uma nova estética, pela virtualidade, pela consideração da subjetividade. Essas mudanças tomam tal amplitude que as interpretações intelectuais e morais construídas até então não são mais suficientes para explicar este mundo, estas transformações. As mudanças são muito aceleradas e a vida humana não as tem acompanhado. Do ponto de vista da produção científica, uma das questões centrais que se apresentam, segundo Santos (1988), é que a ciência moderna e seus – 179 – O trabalho como princípio educativo conceitos não respondem às perguntas da atualidade. “As condições epis- têmicas das nossas perguntas estão inscritas no avesso dos conceitos que utilizamos para lhes dar resposta.” (SANTOS, 1988, p. 47). Isso marca o fim de um período hegemônico da ciência moderna, que durante os últi- mos quatrocentos anos tem naturalizado a explicação da realidade. O rigor científico, porque fundado no rigor matemático, é um rigor que quantifica e que, ao quantificar, desqualifica, um rigor que, ao objetivar os fenômenos, os objetualiza e os degrada, que, ao caracterizar os fenômenos, os caricaturiza. [...] o conhecimento ganha em rigor o que perde em riqueza e a retumbância dos êxitos da intervenção tecnológica esconde os limites da nossa compreen- são do mundo e reprime a pergunta pelo valor humano (SANTOS, 1988, p. 58). O pensamento moderno acostumou-se em tal medida à utilização de categorias fundadas em números, tempo, espaço, matéria, que não con- seguem conceber explicações científicas que possam prescindir dos con- ceitos “cartesianos” convencionais. Nesse paradigma, conhecer implica dividir e classificar para depois determinar as relações que se estabelecem entre as parcelas, generalizando-as na forma de leis da ciência. Essas leis privilegiam a explicação do funcionamento das coisas e fenômenos, bus- cando suas causas, independentemente de seus agentes ou fins. Esse modelo de racionalidade da ciência natural logo foi transposto para o estudo da sociedade, conferindo-lhe o estatuto de ciência. A dis- tinção dicotômica entre ciências naturais e sociais está assentada em uma “concepção mecanicista da matéria e da natureza a que contrapõe [...] os conceitos de ser humano, cultura e sociedade” (SANTOS, 1988, p. 60). A naturalização das categorias da ciência moderna foi um processo lento e ainda encontra eco nas comunidades científicas, assim como no interior da escola. A organização do trabalho pedagógico tem se pautado nos princí- pios da ciência moderna, reproduzindo o paradigma até agora dominante e contribuindo, em certo sentido, para sua cristalização. A própria divisão do conhecimento escolar em disciplinas, assim como a forma de siste- matização dos conteúdos de cada área, a seriação dos anos letivos são manifestações do processo de incorporação desse paradigma. É impor- tante perceber que Libras e temas contemporâneos em educação – 180 – a disciplinaridade da presente estrutura curricular não [somente] como a tradução lógica e racional de campos de conhecimento, mas como a inscrição e recontextualização desses campos num contexto em que processos de regulação moral e controle tornam se centrais (SILVA, 1996, p. 93). A escola, espelhando a ciência, dicotomiza natureza e cultura, matéria e mente, objetividade e subjetividade, e não abre espaço para que se efetue a superação dessas dicotomias. De maneira bastante evidente, os alunos se apropriam dessa lógica de pensamento e a reproduzem, mesmo que sintam, ainda que intuitivamente, que poderia ou deveria haver superação. A escola precisa pensar sobre as questões suscitadas pelo paradigma científico emergente, não para incorporá las de forma mecânica e abstrata, mas para rever seus próprios funda- mentos, sobretudo em relação à: a) necessidade de superação da dicotomia entre as ciências sociais e naturais, entendendo que não é possível conceber uma natureza humana diferen- ciada de outros tipos de natureza, porque toda natureza é humana; b) compreensão de que todo conhecimento é local e total porque tem como horizonte a totalidade universal; c) superação da dicotomia entre sujeito e objeto de conhe- cimento, considerando a ciência como um ato criador; d) compreensão de que todo conhecimento científico visa a constituir se em um novo senso comum porque busca traduzir se em uma nova racionalidade (SANTOS, 1988, p. 60 71). Não é mais possível, nem saudável, ocultar as dúvidas. É preciso torná las parte das preocupações dos sujeitos que compõem a escola, envolvendo toda a comunidade escolar nos debates sobre essas questões, porque elas dizem respeito ao mundo, à vida, para além dos limites da escola. Os processos de superação das contradições não são, sob quaisquer aspectos, lineares ou naturais; assim como o confronto entre a ciência moderna e o novo paradigma “pós moderno” não é a única contradição criada pela contemporaneidade. Forquin toma as análises de Hannah Arendt em relação à existência de “uma espécie de incompatibilidade estrutural entre o espírito de modernidade e a justificação da educação como tradição e transmissão cultural” (FORQUIN, 1993, p. 20) para dis- – 181 – O trabalho como princípio educativo cutir o caráter aparentemente paralisado, esvaziado e até ilegítimo que assumem os objetivos do trabalho pedagógico. Arendt (apud FORQUIN, 1993) sublinha que autoridade e tradição são próprias da natureza da educação, processo através do qual os conte- údos culturais necessários à continuidade do mundo são transmitidos às novas gerações. Contudo, o mundo não está mais organizado sobre esses princípios de autoridade, tampouco é regido pela tradição – o que cria con- tradições que precisam ser pensadas a fim de recontextualizar os proces- sos educativos. É preciso reconhecer que não se pode ignorar a moderni- zação do mundo, ao mesmo tempo em que não se pode rejeitar a história. “[...] só uma visão extremamente superficiale prematura da modernização pode nos fazer aderir ao mito de efêmero e rejeitar, como um fardo, nosso pertencimento à memória.” (FORQUIN, 1993, p. 20). Nesse sentido, são muitos os desafios da escola frente à pós moder- nidade, inclui se entre eles a necessidade de uma prática fundamental- mente ética, contra a exploração e a exclusão. A exclusão não se mate- rializa somente no desemprego, na fome, na miséria, na exclusão do mercado produtor e consumidor, mas, sobretudo, e talvez com maior intensidade, materializa-se na exclusão dos processos de produção e socialização do conhecimento, dos elementos que formam o ser humano na sua plenitude. Parece, então, ser fundamental uma análise e revisão rigorosa dos con- ceitos e objetivos que foram sendo construídos historicamente como resulta- dos possíveis das relações entre as dimensões gerais do processo de produção capitalista e as dimensões específicas da natureza da educação. Contudo, isso não pode ser feito de fora dos processos educativos. É fundamental que essa reflexão seja realizada por todos aqueles que compõem a escola. A vida social é assim o produto de uma “composição” entre cada um e os outros, de um concerto e de uma partilha, mas produto constantemente ameaçado, constantemente contestado, causa e efeito de uma “negociação” perpétua entre os atores portadores de interpretações e de “definições de situações” divergentes (FOR- QUIN, 1993, p. 79). A perspectiva de educação a partir da qual se constrói essa análise e a proposta de revisão dos princípios que sustentam as ações educativas Libras e temas contemporâneos em educação – 182 – partem do pressuposto de que o trabalho, compreendido como atividade humana, intencional e planejada, voltada para a transformação da natureza e da cultura – e consequente produção da própria humanidade –, para a satisfação das necessidades materiais e simbólicas, deve ser o princípio educativo, por excelência, de todo o sistema de ensino. Compreender o trabalho como princípio educativo significa reco- nhecer sua importância no processo de constituição dos seres humanos. É imprescindível retomar a compreensão de trabalho como dimensão de produção humana e da própria humanidade. O reconhecimento de que o homem se faz homem por meio do trabalho leva à compreensão da rele- vância do trabalho para a organização dos processos educativos formais, informais e não formais. Sugestão de leitura FORQUIN, J. C. Escola e cultura. As bases sociais e epis-temológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre: Artmed, 1993. Se compreendermos que toda ação humana intencional é trabalho, então todas as formas de relacionamento que produzem ações educativas, sejam sistemáticas ou assistemáticas, são formas de trabalho. Nesse sen- tido, conclui-se que educação, como já analisado no capítulo 1, é traba- lho. Partimos, portanto, dos conceitos já estudados para a elaboração da reflexão acerca das proposições para a organização do ensino que tome o trabalho como princípio educativo. Cabe salientar a importância de conceber a educação para além dos muros da escola, ou seja, como um conjunto de processos de relação humana que se estabelecem em diferentes tempos e espaços de vida, na interação com diferentes grupos sociais. Assim, entende-se que a educação se perpetua por toda a vida dos indivíduos, possibilitando a apropriação, ressignificação e produção de cultura aqui entendida como produção humana, que envolve formas de pensar, agir, produzir, viver, estabelecer prioridades e atuar em função delas, relacionar se com os demais, etc. – 183 – O trabalho como princípio educativo Mészáros (2005) ressalta as reflexões de José Martí, intelectual cubano do século XIX e mártir da independência daquele país, sobre o objetivo da educação enquanto possibilidade de construção da liberdade por meio do acesso à cultura. É preciso lembrar que sua reflexão trata de um período de defesa da liberdade e busca da independência de seu país, mas a reflexão se mantém atual, tendo em vista que tanto a conquista da liberdade quanto o acesso à cultura social e historicamente produzida pela humanidade não se caracterizam como realidade universal. De fato, o papel dos educadores e sua correspondente responsabi- lidade não poderiam ser maiores. Pois, como José Martí deixou claro, a busca da cultura, no verdadeiro sentido do termo, envolve o mais alto risco, por ser inseparável do objetivo fundamental da libertação. Ele insis- tia que “ser cultos es el único modo de ser libres”. E resumia de uma bela maneira a razão de ser da própria educação: “Educar es depositar em cada hombre toda la obra humana que le ha antecedido; es hacer a cada hombre resumen del mundo viviente hasta el dia em que vive.” (MÉSZÁROS, 2005, p. 58, grifos do autor). Na concepção de Martí (apud MÉSZÁROS, 2005), o obje- tivo maior da educação é garantir que cada sujeito tenha acesso ao que a humanidade produziu como um direito inaliená- vel, para que essa humanidade possa reviver em cada homem singular. Ou seja, o reconhecimento da máxima de que o homem se faz homem implica, necessariamente, no reconheci- mento da importância da educação nesse processo, pois, para fazer se humano, é imprescindível que cada sujeito se apro- prie individualmente da cultura produzida socialmente. Vigotski (1998) explica esse processo como “internalização” ou reconstrução intrapsíquica de relações que se estabeleceram inicialmente de forma interpsíquica. Compreende-se, assim, que qualquer conheci- mento ou relação se produz primeiro entre pessoas (pelo menos duas) para que os sujeitos possam internalizá-lo individualmente. Esse processo se inicia muito antes do acesso à escola e se prolonga para além dela, mesmo que essa seja a razão da existência da instituição escolar. Libras e temas contemporâneos em educação – 184 – Dessa forma, a aprendizagem é um aspecto fundamental da consti- tuição dos seres humanos. Para Vigotski1, o aprendizado adequadamente organizado gera o desenvolvimento humano em seus diferentes aspectos; “[...] o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas” (VIGOTSKI, 1998, p. 118) e, por essa razão, se perpetua por toda a vida do indivíduo. A defesa dessa perspectiva deve-se à necessidade de humanização dos processos educativos, pois, como vimos, há um intenso processo de desumanização e coisificação das relações humanas que precisa ser revisto. Essa situação provoca reflexos no interior das escolas, tornando possível, muitas vezes, reconhecer atitudes que incentivam o individu- alismo, a competição, o desprezo pela solidariedade, tanto nas relações entre os profissionais da educação quanto nas relações com e entre alunos. Para Kuenzer (1995, p. 191), eleger o mundo do trabalho como ponto de partida para a proposta pedagógica da escola comprometida com os interesses dos traba- lhadores não significa propor uma formação profissional estreita e limitada, determinada pelo mero “saber fazer” despido de compre- ensão, de análise, de crítica. A autora ressalta que a compreensão abrangente de trabalho como todas as formas de ação humana implica, necessariamente, perceber que toda e qualquer educação é educação para o trabalho, e contém uma dimensão intelectual, teórica, e outra instrumental, prática, na medida em que ela interfere de algum modo nas formas de intera- ção do homem com a natureza, com os outros homens e consigo mesmo (KUENZER, 1995, p. 191). 9.1.2 Educação como trabalho não material A perspectiva materialista histórica de análise da realidade explica a ação dos seres humanos por meio do conceito de trabalho, como estuda- 1 Não nos deteremos aqui em um estudo mais aprofundado sobre a Teoria do Desenvolvi- mento e Aprendizagem de Vigotski, posto que esse não é o tema deste livro, mas é impor- tante ressaltar interfaces relevantes entre teorias que se aproximam do ponto devista das concepções teórico filosóficas. – 185 – O trabalho como princípio educativo mos. Mas há formas diferentes de trabalho e de ação sobre a natureza e a sociedade, por isso distingue se trabalho material de trabalho não material. A categoria trabalho material refere-se à transformação da natu- reza que produz uma modificação material na realidade, com a produ- ção de artefatos e mercadorias que possuem existência sensível. Trata-se, por exemplo, de processos como a transformação da madeira bruta em mesas e cadeiras; do trabalho industrial que transforma matéria prima de natureza diversa em plástico, tecido, ligas de metal, produtos igualmente diversos. Inclui-se nessa classificação não só a produção industrial em larga escala, mas também a bricolagem e o trabalho artesanal que produz diferentes objetos. Já, a categoria trabalho, não material trata basicamente da produção intelectual, que não transforma diretamente a realidade material, mas pro- duz ideias, conhecimentos, valores. Ou seja, produz modificações sociais e individuais sobre os próprios seres humanos, sem precisar resultar em obje- tos sensíveis e palpáveis – o que não significa que isso não possa acontecer. Compreende se como não material o trabalho que produz arte, filosofia, edu- cação. Muitas vezes, esse trabalho exige um suporte material para que possa existir de fato e para que possa ser comunicado, divulgado, socializado. A separação absoluta entre trabalho material e não material, portanto, é possível apenas para fins didáticos, pois, na prática, eles se encontram, se relacionam e muitas vezes são, realmente, inseparáveis. A produção de um livro, por exemplo, pode ser classificada como trabalho não material, posto que se refere à elaboração de ideias, mas se não existir a produção material do livro enquanto objeto, essas ideias não serão divulgadas, não chegarão aos leitores e não haverá sentido para a sua produção. De forma análoga, não há produção material que possa prescindir de um trabalho não material que envolva planejamento, previsão de utiliza- ção de recursos e de resultados esperados. Assim, percebemos que essa divisão didática entre trabalho material e não material, embora não encon- tre correspondência na realidade cotidiana, pode nos ajudar a compreen- der melhor o sentido e a natureza da ação humana. Vamos nos concentrar na análise do trabalho não material, no qual se situa a educação. É importante distinguir duas formas de compreender Libras e temas contemporâneos em educação – 186 – e definir a educação na perspectiva do trabalho não material: uma defi- nida por Saviani (2008) e outra por Paro (2006). As explicações dos dois autores não são necessariamente excludentes, mas diferentes em alguns aspectos, que veremos a seguir. Saviani (2008)2 diferencia o trabalho não material, em que o produto não se separa do produtor e do processo de produção, daquele tipo de trabalho não material que permite essa separação, ou seja, não exige um consumo imediato. No primeiro caso estão as peças teatrais, os concertos orquestrados ao vivo, os shows de diferentes tipos, as aulas. Na educação, o produto não se separa do produtor e do processo de produção porque ela exige a presença de professor e aluno no mesmo espaço e ao mesmo tempo, para que a interação e a aprendizagem possam se realizar. Ao mesmo tempo em que a aula é produzida é, também, consumida. Obviamente, o autor trata do ensino presencial e não do ensino a distância. No segundo caso, encontramos os livros que podem ser lidos muitos anos depois de escritos e até mesmo depois da morte de seus autores, as obras de arte como pinturas e esculturas, as músicas, os filmes, etc. Paro (2006) apresenta algumas reflexões com o objetivo de proble- matizar as definições de Saviani (2008), defendendo que a educação pode se separar do produtor e do processo de produção, na medida em que se prolonga para além do momento da aula, nas reflexões e ações de alunos e professores, provocadas durante a aula. Assim, Paro (2006) retoma a discussão sobre o objetivo do trabalho educativo, na perspectiva de defen- der a transformação do estudante para além dos muros da escola. O autor salienta, ainda, que o aluno, nesse processo, assume um papel triplo: (co) produtor da aula, consumidor e objeto do trabalho do professor. As diferenças entre as explicações apresentadas pelos autores não as tor- nam divergentes, ao contrário, ambas as teorizações corroboram a compreen- são da educação como trabalho não material. A partir da compreensão dessa condição de trabalho não material, ambos os autores defendem a ideia de que 2 Essa reflexão pode ser encontrada no texto clássico produzido pelo autor, intitulado: “Sobre a natureza e a especificidade da educação”, publicado no livro Pedagogia histórico crítica: primeiras aproximações (SAVIANI, 2008). – 187 – O trabalho como princípio educativo “a especificidade da atividade educativa escolar impede que aí se generalize o modo de produção capitalista. [...] no trabalho não material o capitalismo não pode aplicar se a não ser de forma restrita” (PARO, 2006, p. 140). As restrições apontadas referem-se a, pelo menos, três dimensões importantes, relacionadas à impossibilidade de expropriar plenamente o produtor do conhecimento sobre o processo de trabalho, reduzir o aluno a mero consumidor e a aula, ou o aprendizado, a simples mercadoria. O produtor não pode ser expropriado plenamente do conhecimento sobre o processo de trabalho sob pena de torná lo inviável, tendo em vista que o conhecimento é o próprio objeto sobre o qual professores e alunos se debruçam. O aluno, como já indicado, não estabelece um papel passivo no processo educativo, ao contrário, participa ativamente e sua aprendizagem depende diretamente da sua ação sobre o conhecimento. Por último, mas não menos importante, a aula não pode ser con- fundida com uma mercadoria comum, mesmo em situações em que há pagamento de mensalidades em instituições privadas de ensino, já que a presença na aula não garante a aprendizagem do aluno, que é o verdadeiro produto da educação. Dessa forma, o aluno educado (e não a aula em si) consiste no resultado almejado pelo trabalho escolar. 9.1.3 O princípio educativo da escola unitária A necessidade de uma proposta educativa que apresente ideias para construir relações de novo tipo é fundamental para rever o modelo de sociedade no qual estamos imersos. A convivência com situações de vio- lência, de desrespeito pela vida, caos e relativização de todos os conceitos, muitas vezes, nos habitua à desumanidade e nos impede de ter reações de indignação. Portanto, cabe tomar emprestada da pesquisa de tipo etnográfico, de cunho antropológico, a premissa de estranhar o familiar e familiarizar-se ao estranho para analisar a realidade de maneira objetiva, a fim de consta- tar as possibilidades de intervenção e transformação dessas relações. Uma das atitudes necessárias é resgatar a capacidade de indignação frente às situações que se tornaram cotidianas, mas que demonstram comportamen- tos de abandono da civilidade e negação da cidadania. Libras e temas contemporâneos em educação – 188 – Na intenção de defender a ação educativa contra a barbárie e os fata- lismos, Paulo Freire (2000) apresenta reflexões sobre a necessidade de reconhecer que existem fatores condicionantes da realidade, mas que não podem ser tomados como determinantes a priori de todas as dimensões da vida humana. Isso implica, ainda, e sobretudo, reconhecer a possibilidade de transformação social, não como devaneio e sim como resultado da ação histórica dos homens e mulheres sobre a realidade. Freire conecta a ideia de uma educação emancipadora à necessidade de construção de um mundo menos injusto, pautado em relações de respeito à dignidade do outro. A justiça, assim como a igualdade, é um conceito que exige maior aprofundamento, posto que necessita de uma “adjetivação”, ou seja, exige que se determinejustiça ou igualdade em relação a quê. Para Amartya Sen (2001), todas as teorias normativas acerca do ordenamento social apresentam a defesa da igualdade em algum aspecto, campo ou espaço, ainda que divirjam em relação ao conteúdo dessa igual- dade. Dessa forma, diferentes teorias defendem a igualdade no espaço que consideram possuir um papel central para o ordenamento social. Assim, a igualdade passa a ser definida “como igualdade num espaço em particu- lar” (SEN, 2001, p. 45, grifos do autor), em um aspecto específico. O autor defende que é necessário sempre qualificar o termo igual- dade, a fim de explicitar de que igualdade se trata. Da mesma forma, podemos ampliar essa reflexão para a defesa da ideia de justiça. Para Sen (2001, p. 52), “a questão importante na presente discussão é a natureza da estratégia para justificar a desigualdade por meio da igualdade”, ou seja, em nome da igualdade em determinado aspecto, o discurso social justifica a desigualdade em outro. Por exemplo, em nome da igualdade de reconhecimento dos méri- tos individuais, justifica-se a desigualdade de rendimentos; ou então, em nome da igualdade de liberdade no mercado, justifica-se a desigualdade de condições de vida. Desse modo, muitos discursos de justificativa da desi- gualdade se constroem pelo argumento de igualdade em algum aspecto da vida, tendo em vista que a diversidade humana cria espaços de diversifica- ção frente às situações de vida, necessidades de sobrevivência, caracterís- ticas individuais, capacidades, potenciais, etc. – 189 – O trabalho como princípio educativo Não é possível analisar as questões relacionadas à igualdade e à justiça independentemente da compreensão acerca dos condicionantes e determinantes sociais. Em relação ao tema, Freire apresenta uma impor- tante reflexão sobre a diferença entre reconhecer que os seres humanos são condicionados e determinados pela estrutura econômico social. É o que nos faz recusar qualquer posição fatalista que empresta a este ou àquele fator condicionante um poder determinante, diante do qual nada se pode fazer. Por grande que seja a força condicionante da economia sobre o nosso comportamento individual e social, não posso aceitar a minha total passividade perante ela. [...] É neste sen- tido que, reconhecendo embora a indiscutível importância da forma como a sociedade organiza sua produção para entender como esta- mos sendo, não me é possível, pelo menos a mim, desconhecer ou minimizar a capacidade reflexiva, decisória, do ser humano. O fato mesmo de se ter ele tornado apto a reconhecer quão condicionado ou influenciado é pelas estruturas econômicas o fez também capaz de intervir na realidade condicionante (FREIRE, 2000, p. 55 56). Essa reflexão é importante na medida em que restabelece a dimensão histórica da ação dos indivíduos sobre a realidade, considerando como de “mão dupla” a relação entre o homem e suas circunstâncias3. O reco- nhecimento da dimensão estrutural da sociedade, das relações de trabalho que criam as condições de existência da humanidade, é fundamental para construir uma visão que se aproxime da realidade concreta. Porém, é pre- ciso cuidar para não mergulhar em um fatalismo determinista ou estrutu- ralismo, que impeça de reconhecer a dimensão da autonomia dos indiví- duos, pois é justamente na autonomia que se encontra a possibilidade de transformação, de transgressão e de construção de novos paradigmas. Por isso, a discussão sobre a formação humana, para Grasmci (2000), não pode prescindir do debate acerca da autodisciplina intelectual e autonomia moral dos indivíduos, com vistas à forma- ção integrada das dimensões técnicas e políticas. Na perspectiva gramsciana, todo homem é concebido como intelectual, ainda que não execute funções intelectuais frente à divisão social do traba- lho, e possui o dever e o direito de ser formado para ter condições técnicas e políticas de assumir papéis dirigentes na sociedade. 3 Questão enunciada por Marx no texto intitulado “Teses sobre Feuerbach” (MARX; EN- GELS, 1998). Libras e temas contemporâneos em educação – 190 – Assim, coloca se em xeque a dualidade estrutural que per- meia a organização escolar, estabelecendo cursos diferencia- dos para os indivíduos que assumirão posições de comando e para os que assumirão posições consideradas produtivas. A partir da defesa de uma educação ampla para todos os sujei- tos, Gramsci (2000) apresenta o ideal da escola unitária. A escola unitária constrói se sobre o princípio de unitariedade da pró- pria sociedade. Pretende-se a superação das dualidades, bem como das desigualdades e injustiças criadas pelo modelo de produção que distingue, separa e hierarquiza as formas de trabalho intelectual e industrial. Consi- dera-se que a plenitude de uma escola unitária é possível apenas em uma sociedade também unitária, em que não sobreviva a ideia de dominação e de expropriação do homem por outros homens. Gramsci explica que O advento da escola unitária significa o início de novas relações entre trabalho intelectual e trabalho industrial não apenas na escola, mas em toda a vida social. O princípio unitário, por isso, irá se refletir em todos os organismos de cultura, transformando os e emprestando lhes um novo conteúdo (GRAMSCI, 2000, p. 40). A proposta de escola unitária se refere à reorganização da educação básica como um todo, sobretudo nos níveis fundamental e médio. Para Gra- msci, a escola precisa ser mais coercitiva no início do processo de escola- rização, a fim de que os alunos possam internalizar a disciplina necessária aos estudos, contemplando, além dos conhecimentos sobre leitura, escrita e rudimentos das ciências, conteúdos relacionados aos direitos e deveres fundamentais para a organização de uma sociedade de novo tipo. Desde as atividades destinadas à educação infantil, a escola precisa- ria organizar tempos e espaços para a aprendizagem coletiva e para uma disciplina igualmente coletiva. Ao longo do processo de escolarização, o trabalho pedagógico deve tornar se menos coercitivo e mais voltado para a construção da autonomia dos estudantes. No último nível, que corresponderia ao ensino médio, a escola deve se constituir como uma escola criativa, o que significa enfatizar os valores fundamentais do humanismo, a disciplina intelectual e a autonomia moral voltados para a aprendizagem dinâmica das ciências, seus princípios e – 191 – O trabalho como princípio educativo métodos de produção do conhecimento sobre a realidade. A escola criativa não significa a utilização de métodos considerados construtivistas, signi- fica uma abordagem baseada na investigação que possibilite a criação ou criatividade a partir de uma sólida base de conhecimentos científicos. A escola unitária ou de formação humanista (entendido este termo, “humanismo”, em sentido amplo e não apenas em sentido tradicio- nal), ou de cultura geral, deveria assumir a tarefa de inserir os jovens na atividade social, depois de tê los elevado a um certo grau de matu- ridade e capacidade para a criação intelectual e prática e a uma certa autonomia na orientação e na iniciativa (GRAMSCI, 2000, p. 36). A instituição escolar, nessa concepção, constitui se como desinte- ressada e de cultura geral. Esses conceitos são fundamentais na medida em que Gramsci defende a não profissionalização precoce dos jovens, bem como certo distanciamento dos interesses específicos do mercado. A escola deve ser articulada ao mundo do trabalho, mas não deve submeter- -se às exigências transitórias do processo produtivo, o que explica a utili- zação do termo “desinteressada”. Assim, a especialização técnica para o trabalho seria realizada em momentos posteriores, garantindo a escola de caráter unitário e de formação geral para toda a população. Esse modelo de escola propõe a articulação entre a formação técnica e a formação política de todos os sujeitos, a fim de torná-los potencial- mente dirigentes. Essa perspectiva pode ser traduzidapelo conceito de educação politécnica, que se contrapõe à formação polivalente e defende um projeto pedagógico baseado nas descobertas científicas e tecnológicas em uma perspectiva omnilateral. Isso implica reconhecer o caráter histó- rico e provisório do conhecimento; não sacralizar a ciência em detrimento das demais áreas de estudo; considerar as exigências e necessidades da vida humana em todas as suas dimensões. Uma educação politécnica que levasse em conta as dimensões aqui discutidas e que tomasse como sua moldura teórica e prática a perspectiva da omnilateralidade (a dialética entre trabalho e não trabalho; o cultivo dos cinco sentidos e da sensibilidade humana; a formação do eu socialmente competente; a integração entre edu- cação geral e educação profissional; a escola unitária e sua combi- nação com experiências práticas de trabalho concreto; o estímulo da iniciativa dos alunos por meio de projetos e de experimentos conduzidos por eles mesmos etc.) desembocaria naturalmente Libras e temas contemporâneos em educação – 192 – num duplo engajamento: em prol do desenvolvimento das capa- cidades humanas e em prol das transformações sociais necessárias (MARKERT, 1996, p. 32, grifos do autor). Markert (1996) nos ajuda a compreender como é possível detalhar o conceito de omnilateralidade e perceber os impactos de uma educação politécnica em duplo sentido, tanto individual como social. Assim, uma educação de novo tipo não estaria voltada apenas à formação dos sujeitos de maneira atomizada, independente dos demais e da sociedade em que estivesse inserida, tampouco trataria das estruturas sociais aniquilando a dimensão individual. É justamente na compreensão da necessária articu- lação entre o uno e o múltiplo, entre o indivíduo e a sociedade, em suas dimensões subjetivas e objetivas, que se constrói a possibilidade de uma educação verdadeiramente transformadora. Para que a transformação social seja possível, com vistas à superação do atual padrão de produção excludente e opressivo, é fundamental que exista uma superação do ordenamento social em seus múltiplos aspec- tos. A transformação a que nos referimos exige mudanças profundas em relação à sociedade, à economia, à cultura, às relações humanas em sua totalidade. Tais mudanças não se estabelecem “de cima para baixo”, ou seja, qualquer processo de transformação não pode prescindir das pessoas que agem, pensam, produzem, sentem, relacionam se entre si e constroem cotidianamente a vida em sociedade. Dica de filme O filme A história de Ron Clark – o triunfo relata a história de um pro- fessor que procura enfrentar novos desafios, com o objetivo de elevar a aprendizagem dos alunos, sobretudo aqueles estigmatizados pela sociedade. O professor demonstra grande sensibilidade ao estabelecer relação com os alunos e consegue resultados amplamente reconheci- dos. É uma história envolvente, que provoca e incentiva a reflexão sobre a organização do trabalho escolar em múltiplas dimensões. A HISTÓRIA de Ron Clark – o triunfo. Direção de Randa Haines. Esta- dos Unidos; Canadá: California Home Video, 2006. 1 filme (95 min). – 193 – O trabalho como princípio educativo Portanto, quando se pensa em uma proposta destinada à transforma- ção da escola, a fim de construir um “novo tipo” de instituição a partir de novas bases, é preciso pensar em educação para quê e para quem – ou seja, no aluno. Desse ponto de vista, é possível associar a proposta de escola unitária à concepção de escola defendida por Snyders (1988), em relação à necessidade de garantir a satisfação cultural dos alunos. Por satisfação cultural, compreende-se a alegria possibilitada pelo acesso à cultura, pela desmistificação da realidade, pela compreensão do mundo a partir da mul- tiplicidade de elementos historicamente elaborados pela humanidade. Assim como Gramsci, Snyders (1993) defende que a escola deve ser inicialmente mais dogmática, baseada em obrigações e na disciplina, para tornar-se cada vez mais aberta, mas sempre enfatizando o método inves- tigativo e o desenvolvimento do espírito crítico – levando os alunos a tornarem-se independentes. A questão central para a conquista da satisfa- ção cultural está no acesso aos saberes mais elaborados de cada área do conhecimento, que possibilitem o desvelamento da realidade. Snyders (1993) chama esse tipo de conhecimento de “obra prima”. Para ele, é importante que o aluno seja colocado em situações que o possibilitem romper com os conhecimen- tos fragmentados que possui e que o conduzam a experiên- cias de satisfação ao se apropriar de saberes mais complexos, permitindo o seu contato com a cultura mais elaborada. A singularidade da “minha” escola é transformar os conteú- dos escolares a ponto de colocar em primeiro plano a obra prima e a alegria que o aluno pode extrair da obra prima; uma escola que ambiciona confrontar o aluno com as con- quistas humanas essenciais, na esperança de que ele alcance assim as alegrias essenciais (SNYDERS, 1993, p. 111). A escola, na sua concepção, precisa aprender a encantar o aluno e surpreendê-lo, precisa buscar a beleza e a admiração pelo conhecimento, precisa instigar os alunos para que participem do mundo à sua volta. Nesse sentido, supera-se a ideia de que é necessário estudar para o futuro, de que não há vida na escola e de que as instituições escolares possuem uma Libras e temas contemporâneos em educação – 194 – função de simples preparação para a vida. Snyders (1993) defende que a escola é tempo e espaço de vida, aprendizagem e alegria cultural. Isso não minimiza a dificuldade do estudo, o peso das obrigações estudantis e o sofrimento muitas vezes causado pelo esforço. Ao contrário, a satisfação só é possível com trabalho árduo e o esforço é valorizado e compensado pelas satisfações que apenas a compreensão de determinadas teorias, conceitos, leis, poesias, períodos históricos, entre outros, pode- riam apresentar. O encontro do aluno com a obra prima é acompanhado da certeza de que, espontaneamente, ele não atingiria tal nível de reflexão e apropriação desse saber. “Desenvolver o espírito crítico é uma das tarefas essenciais da escola” (SNYDERS, 1988, p. 235), que está intimamente relacionada à possibili- dade de estabelecer interpretações e análises para além dos textos e con- teúdos estudados. A satisfação cultural criadora permite a originalidade, possibilita a internalização dos saberes e sua reelaboração, incorporando novas perspectivas à compreensão do mundo, à vida. Dica de filme O filme Entre os muros da escola apresenta situações cotidianas das relações entre jovens alunos e professores. O filme foi produzido garan- tindo espaço para o improviso, o que lhe confere grande grau de rea- lismo. A trama não pretende apresentar heróis ou experiências fantás- ticas de superação das adversidades, mas centra se na exploração de dilemas atuais e reais sobre o trabalho escolar. É um filme que privilegia os diálogos e a reflexão. ENTRE OS MUROS da escola. Direção de Laurent Cantet. França: Sony Pictures Classics; Imovision, 2007. 1 filme (128 min). A escola é necessária porque a aprendizagem do conhecimento ela- borado, nos leva à emancipação, não se dá ao acaso. A escola é o local onde se apresenta aos jovens, a todos os jovens, um tipo de poesia dife- rente da que eles estão acostumados em seu cotidiano: modos de racio- cínio rigoroso que eles não tinham atingido até então. Isso só é possível – 195 – O trabalho como princípio educativo por meio do reconhecimento, intervenção e confronto com o outro: outros pensamentos, teorias, atitudes. Por isso é tão necessária a orientação e a intervenção do professor nesse processo, para que os alunos e alunas atinjam os níveis mais ele- vados do conhecimento e, dessa forma, possam prescindir de seus mes- tres, construindo graus cada vez mais elevados de autonomia intelectual e moral. O objetivo de todo processo educativo que se pretenda emancipa-dor, será sempre conduzir os estudantes à autonomia que possibilite sua intervenção crítica, criativa e consciente sobre a realidade. Sugestão de leitura SNYDERS, G. Alunos felizes. São Paulo: Paz e Terra, 1996. Glossário Cartesiano: O termo cartesiano é uma referência ao cientista e filó- sofo francês René Descartes (1596–1650) e pode ser utilizado em diferen- tes sentidos. O uso mais habitual é feito na matemática e na geografia em relação ao “plano cartesiano”, sistema de coordenadas organizado sobre um plano, formando a imagem de um papel quadriculado. Outra forma de utilizar o termo pode ser uma referência ao método científico enunciado por Descartes, por meio do qual se pretende conhecer determinada reali- dade a partir da sua subdivisão na menor partícula possível, a fim de pro- ceder à análise das partes e posteriormente reagrupá-las. Essa ideia está baseada sobre o fundamento de construção do conhecimento a partir das questões menos complexas para as mais complexas. 10 Educação e cidadania Ensinar as pessoas a compreender a sociedade em que estão inseridas e a adotar boas práticas da cidadania é função da edu- cação. Para que isso seja possível, porém, a educação tem que ser vista de maneira dialética e interligada a todos os aspectos da vida coletiva. O trabalho se insere nesse contexto e não deve ser visto somente como uma forma de subsistência. Ele é o fruto dos sabe- res individuais, do esforço físico e mental, e é por meio dele que se obtém aquilo que será oferecido à sociedade. Tudo isso deve acontecer com base na responsabilidade social e nos princípios éticos. Mas como conseguir isso de maneira efetiva na prática? Libras e temas contemporâneos em educação – 198 – É aí que a entra a educação. Não só em seu aspecto teórico, mas tam- bém na formação de cidadãos conscientes de seu papel na sociedade e nas relações de troca que efetuam diariamente com outros cidadãos. Todo o conhecimento obtido deve ser aplicado a uma atuação prática e abrangente. É preciso que os saberes extrapolem os muros da escola, e possam ser utilizados em casa, nas relações sociais e no trabalho que será desempenhado por cada um. A educação não compreende, assim, somente a transmissão do conhe- cimento. O professor é responsável por ensinar os alunos a analisar a reali- dade em que vivem, a partir da coleta de informações e de um pensamento crítico, de modo a desenvolverem suas próprias interpretações e opiniões. Ou, em outras palavras, a educação deve levar a pessoa a ser capaz de agir e pensar por si mesma. Da mesma forma, o conhecimento prévio e as experiências indivi- duais têm papel fundamental no processo de aprendizagem. Tudo aquilo que o aluno viveu compõe a sua bagagem cultural e histórica e deve ser integrado ao conhecimento que será produzido. Segundo Paulo Freire, o educador é político, e faz política ao fazer educação; então que se faça de maneira mais consciente, localizando os discentes dentro de sua realidade produtiva; ensinar exige respeito aos saberes socialmente construídos, na prática comunitária e profissional do aluno: “Por que não estabelecer uma necessária intimidade entre os sabe- res curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos?” (FREIRE, 1999, p. 34). Ou seja: o aluno combina aquilo que é ensinado com seus contextos pessoais. Essa perspectiva coloca o aluno em um papel ativo, dinâmico e coparticipante do processo educativo. Debates, trocas de conhecimentos e atividades práticas devem estar presentes no cotidiano escolar, pois per- mitem que os alunos desenvolvam seu pensamento crítico e aprendam uns com os outros. Além disso, a educação é o meio de obter colocações no mercado de trabalho e bases para a continuação dos estudos em universidades e enti- dades de pesquisa. Por isso, é preciso que todas as habilidades necessárias para isso sejam ensinadas. – 199 – Educação e cidadania A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento criado em 2017 e que dispõe sobre as competências necessárias para os alunos em cada etapa de formação. Seu texto é composto pelas necessidades do contexto social e econômico atual, embasado em conhecimentos sólidos e que visam uma formação eficiente. Ela traz a necessidade dos alunos de pensar por si próprios, articu- lando habilidades críticas e criativas para questões diversas. Resolver pro- blemas sociais, questionar situações, resolver conflitos e encontrar solu- ções para questões variadas são algumas dessas competências. Ou seja, a formação do aluno tem um aspecto muito mais amplo do que a aprendiza- gem de um ofício ou obtenção de um diploma. É dessa maneira que se pode pensar a cidadania dentro do contexto educacional. A percepção de somos todos cidadãos de um mesmo mundo e que todas as nossas ações impactam a sociedade e meio ambiente é o cerne da questão - saber como atuar nesse papel de maneira positiva é a necessidade básica da formação do aluno. 10.1 Cidadania, direitos humanos e o direito à educação A Constituição de 1988 traz a garantia do direito à educação para todos os brasileiros. O Estatuto da Criança e do Adolescente, criado a partir da Lei nº. 8.069/1990, também estabelece esse direito e determina as bases para sua oferta efetiva. No entanto, é preciso ir além da esfera institucional. Muitas crian- ças e jovens permanecem afastados da escola por questões econômicas e sociais. É papel do Estado fiscalizar essa adesão e garantir que todos os direitos estão sendo respeitados. Além disso, é preciso que o sistema educacional esteja preparado para receber todos os tipos de alunos. Pessoas com deficiência, de todos os credos e etnias, classes sociais e contextos diversos devem encontrar na escola um ambiente acolhedor. Isso significa ter estrutura, concreta e formacional, para entender as necessidades de cada um e oferecer a todos o melhor ensino possível. Libras e temas contemporâneos em educação – 200 – As dificuldades enfrentadas são muitas. Falta de recursos financeiros, quantidade excessiva de alunos por turma e escassez de programas de formação específica são algumas delas, que permeiam a carreira de pro- fessores e profissionais da educação. Por isso, é preciso que família, governo e sociedade atuem conjunta- mente para garantir uma educação de qualidade. A ação conjunta e inte- grada é a chave do processo de formação de crianças e adolescentes cons- cientes de seu papel enquanto cidadãos. 10.1.1 Concepção de cidadania: elementos para uma retrospectiva histórica A cultura grega está muito presente em nossa sociedade e, no caso da concepção de cidadania, isso não é diferente. Na Antiguidade Clássica, nasceu o conceito de polis, que dizia respeito ao espaço de convivência e debate público sobre a vida em sociedade. Esse espaço era reservado aos homens livres e adultos da sociedade grega. A concepção de uma arena de debates políticos, com participação de todos, nasceu daí. A ideia de um governo feito pelo povo e para o povo, que viria a se tornar a base da democracia, também é originada nesse contexto. Com isso, criou-se também a ideia de que a cidadania gira em torno da capacidade de participar do poder político e exercer modificações no contexto social. Essa vida pública criou, assim, uma esfera pública de debates, que se diferencia da esfera familiar por estabelecer uma relação de igual- dade entre seus membros. Em casa, esposas, filhos e agregados deviam ser submissos aos chefes de família. Na polis, isso não acontecia. Os indivíduos falavam de igual para igual; eles não mandavam, mas tam- bém não obedeciam. Essa posição foi determinante para criar um conceito social de liber- dade. A possibilidade de atuar publicamente na vida política, buscando consensos em vez de determinações, passou a ser vista como a verda- deira liberdade. Ela permanecia, contudo, restrita à esfera pública, pois era somente nela que esse papel podia ser desempenhado. – 201 – Educação e cidadaniaJá o Império Romano estabeleceu uma diferença essencial entre liberdade e cidadania. Algumas punições poderiam gerar a proibição de participação na vida pública. Ou seja, era perdida a cidadania, mas não a liberdade em seu aspecto generalista, caracterizado basicamente como o direito de ir e vir. A Idade Média, por sua vez, eliminou a esfera pública. A família era o centro de tudo e comandava toda uma área de influência - familiares e servos deveriam sempre acatar as ordens do senhor feudal, sem questioná- -lo ou participar do processo decisório. Ou seja, a esfera familiar regia as relações sociais de maneira determinante e autoritária. Assim, é possível afirmar que, na Idade Média, os servos são condicionados, desde a infância, à ideia de serem comandados à imagem da hierarquia e ao aspecto da obediência. É importante lembrar que todo o direito medieval está baseado na hereditariedade. Nos países onde reina a desigualdade permanente de condições e oportunidades, os senhores obtêm de seus serviçais uma obediência pronta, completa, respeitosa e fácil. Os trabalhadores ocupam uma posição subordinada, da qual eles não podem sair. Tudo isso começa a mudar com a Revolução Francesa, no final do século XVIII. A indignação da burguesia com a necessidade de obedecer às regras criadas pela aristocracia levou ao surgimento de um novo ideal de liberdade, eternizado na máxima “liberdade, igualdade e fraternidade”, que se tornou o lema da Revolução. É preciso lembrar, porém, que a liberdade francesa era semelhante à grega: só se aplicava a homens, brancos e adultos. As mulheres e uma série de pessoas que não tinham boas condições financeiras estavam em uma camada da sociedade que não desfrutava desses ideais. Como a busca pelo exercício da cidadania influenciou a sociedade? À medida em que os homens buscavam ter mais possibilidades de exercer a sua cidadania, mais foram necessárias medidas institucionais para garantir essa participação. Consequentemente, mais espaços passaram a ser ocupados pelos cidadãos e mais funções foram sendo desempenhadas. Libras e temas contemporâneos em educação – 202 – Ou seja, a cidadania está diretamente ligada com os direitos civis, políticos e sociais. Marshall (1967) procura identificar a evolução histó- rica dessas três dimensões da cidadania, concluindo que: 2 o século XVIII propiciou o desenvolvimento dos direitos civis (liberdade pessoal, de expressão, pensamento e crenças, o direito à propriedade e à justiça, por exemplo); 2 o século XIX foi palco do estabelecimento de direitos políticos ( voto e o emprego em serviço público); 2 o século XX possibilitou a extensão da cidadania para a dimen- são social (bem estar, a segurança, o direito a uma vida civili- zada e o acesso à herança social). A cidadania, assim, é a base de toda a conquista dos direitos humanos. Foi por meio dela que se percebeu que cada indivíduo precisa ter direitos absolutos. Não se trata de questões variáveis ou que podem ser tomadas em situações extremas: os direitos humanos são universais e devem ser aplicados a todos os sujeitos do mundo. Ao serem declarados como universais, os direitos humanos são esta- belecidos como superiores às fronteiras de cada país, aos governos que existem e aos sistemas vigentes. Os direitos humanos existem não só para garantir o bem estar cole- tivo, mas também para determinar parâmetros de conduta entre a socie- dade. Ao afirmar o direito de liberdade dos homens, por exemplo, define- -se que a escravidão não é permitida. O que são os direitos humanos? “Os direitos humanos são direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição. Os direitos humanos incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre e muitos outros. Todos merecem estes direitos, sem discriminação. – 203 – Educação e cidadania O Direito Internacional dos Direitos Humanos estabelece as obrigações dos governos de agirem de determinadas maneiras ou de se absterem de certos atos, a fim de promover e proteger os direitos humanos e as liberdades de grupos ou indivíduos. Desde o estabelecimento das Nações Unidas, em 1945 – em meio ao forte lembrete sobre os horrores da Segunda Guerra Mundial –, um de seus objetivos fundamentais tem sido pro- mover e encorajar o respeito aos direitos humanos para todos, conforme estipulado na Carta das Nações Unidas: “Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta da ONU, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor do ser humano e na igualdade de direi- tos entre homens e mulheres, e que decidiram promover o pro- gresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla, … a Assembleia Geral proclama a presente Decla- ração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações…” Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948” (Extraído de: https://nacoesunidas.org/direitoshumanos/) Os direitos humanos são fundamentados por leis, mas não se restrin- gem a esse aspecto. A igualdade entre todos condena a discriminação, por exemplo, mesmo que não haja leis específicas para isso em todos os países. Perceba, assim que se constituem três esferas de atuação: a familiar ou pessoal, a pública e a institucional, que diz respeito ao governo oficial e a seus relativos órgãos. Em qual delas o indivíduo deve ser exercer sua cidadania? Em todas! A vida pessoal não é descolada da cidadania. Ela exige ações e condutas diárias, cujas decisões são pessoais. No entanto, elas afetam a todos os que estão ao redor. Furar uma fila, por exemplo, é uma ação negativa e que prejudica aos demais cidadãos, mas que não é um crime ou motivo de exclusão social. A maneira como uma pessoa se relaciona com colegas de trabalho e vizinhos, por exemplo, já abrange a esfera social. Agir sem preconceitos e Libras e temas contemporâneos em educação – 204 – respeitar os direitos dos outros é uma premissa básica dessa convivência, assim como atuar em conjunto para criar situações positivas para todos. Votar não é a única maneira de participar de forma cidadã da esfera institucional. Saber do que está acontecendo, fiscalizar as ações do governo e cobrar a criação ou manutenção de políticas públicas são deveres do cidadão consciente. Ou seja, a cidadania pode também ser vista como um conjunto de princípios éticos que devem ser seguidos por todos. Isso significa que eles devem ser seguidas mesmo sem necessidade jurídica e que, uma vez fazendo parte das leis, devem ser cumpridas corretamente. 10.1.2 Educação como direito de cidadania A educação pode ser compreendida como um dos direitos sociais fun- damentais para a conquista da cidadania. É praticamente um consenso universal que a educação é a maneira mais eficiente de formar pessoas conscientes. Na prática, isso significa também que a educação pode ensinar os indivíduos sobre seus direitos e deveres, permitindo que ele tome consciência de seu papel ao mesmo tempo em que tem maior acesso a seus direitos. A leitura e a escrita, por exemplo, são essenciais para que se possa buscar e entender os direitos. Essa é a premissa básica da educação: per- mitir que os cidadãos possam saber por si mesmos o que podem fazer. A compreensão das ciências em seu processo investigativo, das lin- guagens e suas possibilidades de abrangência e conscientização, as exa- tas e seu potencial de determinar com precisão as grandezas. Todas essas habilidades servem para facilitar a vida coletiva e oferecer as bases para os rumos pessoais que cada um deseja seguir. Além disso, a educação é, simultaneamente, um direito e um dever. O direito à educação está diretamente ligado ao dever de frequentar a escola - no caso do Brasil, a obrigatoriedade do ensino é dos 4 aos 17 anos. Essa determinação sinaliza parao papel da educação aos olhos do Estado. A importância do ensino é de tal forma essencial que se tornou um dever previsto em lei. – 205 – Educação e cidadania Como a obrigação de enviar crianças e jovens à escola é da família, note também que a esfera familiar tem um direito de ter acesso à educação e um dever de manter menores de idade devidamente matriculados. Você sabia? A Constituição Imperial brasileira, aprovada em 1824, foi uma das pri- meiras no mundo a estabelecer o direito à educação para toda a popu- lação, determinando em seu Art. 179 (BRASIL, 1824): Art. 179. A inviolabilidade dos Direitos Civis, e Politicos dos Cidadãos Brazi- leiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual, e a propriedade, é garantida pela Constituição do Imperio, pela maneira seguinte. [...] XXXII. A Instrucção primaria, e gratuita a todos os Cidadãos. . Ter garantias legais de oferta de ensino gratuito é fundamental, mas será que é o suficiente para que o ensino seja acessível a todos? A resposta é não. No Censo de 1920, cerca de 65% da população brasileira com mais de 15 anos não era alfabetizada - e isso 100 anos após a garantia do ensino gratuito. Ou seja, é preciso criar políticas públicas de incentivo à educação. A proibição do trabalho infantil é determinante nesse caso, pois é um grande entrave ao acesso. A criação de incentivos às famílias de baixa renda que mantém os filhos na escola também é importante, já que garante o bem estar familiar sem prejudicar a adesão à educação. Quadro 1 - O ensino fundamental na legislação brasileira no período republicano Ano Disposição legal Conteúdo da legislação em relação à obrigatoriedade e gratuidade 1891 CF Laicidade do ensino ministrado nos estabelecimentos públicos. Libras e temas contemporâneos em educação – 206 – Ano Disposição legal Conteúdo da legislação em relação à obrigatoriedade e gratuidade 1934 CF2127 Ensino primário integral gratuito e de frequência obrigatória. Tendência à gratuidade do ensino ulterior ao primário. 1937 CF Ensino primário obrigatório. Garantia de gratuidade apenas aos que alegam “escassez de recursos”. Contribuição mensal dos estudantes para a “caixa escolar”. 1946 CF Ensino primário obrigatório, ministrado na língua nacional e gratuito para todos. Ensino ulterior ao primário gratuito aos que comprovam insuficiência de recursos. 1961 LDB n. 4.024 Ensino primário com, no mínimo, quatro séries anuais de duração, podendo ser estendido para seis séries pelos sistemas de ensino, obrigatório a partir dos sete anos de idade. Isenção aos que comprovam estado de pobreza, quando houver insufi- ciência de escolas ou a criança apresentar doença grave. 1967 CF Ensino primário obrigatório para todos, dos 7 aos 14 anos, e gratuito nas escolas oficiais. Ensino ulterior ao primário gra- tuito aos que comprovam insuficiência de recursos. Substitui- ção da gratuidade por distribuição de bolsas de estudos. 1971 Lei n. 5.692 Ensino de 1° grau com oito anos de duração, obrigatório e gratuito dos 7 aos 14 anos de idade. Gratuidade nos níveis ulteriores para os que provam insuficiência de recursos e não tenham repetido mais de um ano letivo. 1988 CF Ensino fundamental obrigatório e gratuito até para os que não tiveram acesso na idade própria. Gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais. 1996 EC n. 14 Ensino fundamental obrigatório e gratuito, assegurada a gra-tuidade para os que não tiveram acesso na idade própria. 1996 LDB n. 9.394 Ensino fundamental obrigatório e gratuito até para os que não tiveram acesso na idade própria, com, no mínimo, oito anos de duração. Gratuidade do ensino público em estabele- cimentos oficiais. 2006 Lei n. 11.274 Altera a LDB n. 9.394/96, estabelecendo o ensino fundamen- tal com nove anos de duração, obrigatório e gratuito na escola pública, a partir dos seis anos de idade. – 207 – Educação e cidadania Ano Disposição legal Conteúdo da legislação em relação à obrigatoriedade e gratuidade 2009 EC n. 59 Educação básica obrigatória e gratuita dos 4 aos 17 anos de idade, assegurada a gratuidade para os que não tiveram acesso na idade própria. Fonte: Bruel (2010, p. 154 155). Até 1934 não havia determinações sobre obrigatoriedade e frequên- cia na educação escolar. Ou seja, a educação gratuita era oferecida, mas não era mandatória e também não se determinava por quantos anos os alunos precisavam estudar. Outro ponto importante é a gratuidade. No período da ditadura, entre 1937 e 1967, o ensino só era gratuito a quem alegasse escassez de recur- sos. Isso só veio em mudar com a Lei n. 5.692/71, que estende o período de obrigatoriedade para oito anos e flexibiliza a gratuidade apenas aos níveis posteriores ao obrigatório. O fim da ditadura, na década de 1980, foi essencial para a evolução das condições de educação no país. Isso porque a liberdade de organização e ação de manifestações de movimentos sociais influenciou diretamente a luta por direitos. Essa luta foi significativa em diversos aspectos, fazendo com que a Constituição Federal (CF) de 1988 seja considerada uma das mais positivas em termos de conquistas de direitos dos cidadãos. O Art. 5º da CF estabelece os direitos civis e políticos fundamentais dos cidadãos brasileiros e estrangeiros residentes no Brasil, reconhecendo o princípio de igualdade perante a lei. O caput do Art. 5º (BRASIL, 1988) dispõe textualmente que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...]”, e se desdobra em 78 incisos que detalham os termos sob os quais a igual- dade de todos se estabelece. É importante lembrar que a igualdade legal não exclui a desigualdade em outros aspectos da vida humana. No entanto, ter o amparo da legis- Libras e temas contemporâneos em educação – 208 – lação e, consequentemente, da esfera institucional do país, é um grande avanço frente a toda a luta por direitos que vimos ao longo desse capítulo. A CF reserva todo o Capítulo II para a descrição dos direitos sociais da população. O caput do Art. 6º determina que “são direitos sociais a edu- cação, a saúde, a alimentação , o trabalho, a moradia , o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição” (BRASIL, 1988). Assim, a educação é descrita em nossa Constituição como um direito social. Ou seja, todos os indivíduos devem ter acesso a ela para garantir seu desenvolvimento e bem estar social. Não é um privilégio ou uma van- tagem. Nesse sentido, todas as ações que visem a ampliação do acesso à educação, por políticas públicas ou por ações sociais, são válidas e devem ser incentivadas no contexto brasileiro. A formalização do direito à educação também fez com que fossem estabelecidas obrigações do governo para com o povo. Ou seja, ao tornar o ensino gratuito e obrigatório, foi preciso criar maneiras de garantir essa obrigação e de medir os resultados obtidos. Assim, podemos ressaltar os itens estabelecidos como dever do Estado por meio do Art. 208 da CF (BRASIL, 1988): 2 A maior abrangência da gratuidade, que foi estendida a todos os estabelecimentos públicos de ensino. 2 A garantia de oferta da educação gratuita para as pessoas que não tiveram acesso na idade própria, superando a limitação de idade entre 7 e 14 anos presente na legislação anterior. 2 A definição do ensino fundamental (e posteriormente do ensino obrigatório) como direito público subjetivo, incluindo responsa- bilização da autoridade competente pela sua não oferta. Assim, o ensino passa a ser reconhecido como direito inalienável de todo cidadão brasileiro e o Estado passa a ser responsabilizado por sua oferta. 2 A ideia de progressiva universalização do ensino médio, indi- cando uma preocupação com a continuidadeda escolarização, – 209 – Educação e cidadania o que deixou espaço para a definição do conceito de educação básica estabelecido posteriormente pela LDB n. 9.394/96. 2 A extensão da obrigatoriedade do ensino à educação básica dos 4 aos 17 anos de idade, ampliando o tempo de escolaridade obri- gatório que antes da aprovação da EC n. 59/09 se limitava ao ensino fundamental. O início do período obrigatório na etapa de educação infantil aos quatro anos de idade tem gerado muitas polêmicas por não se configurar como consenso entre legislado- res e intelectuais da educação. 2 O atendimento especializado às pessoas com deficiência. Mesmo que esse tema ainda seja alvo de muitas discussões e dissensões, foi importante o seu reconhecimento pela CF. 2 A oferta de ensino noturno regular adequado às condições dos alunos e o atendimento aos estudantes por meio de programas suplementares indicam a preocupação do Poder Público com a satisfação das necessidades dos alunos, a fim de garantir a sua permanência no sistema de ensino. Em um país de desigualdades econômicas e sociais como o Brasil, é preciso considerar que ter a educação como uma prerrogativa do Estado é uma grande conquista. Isso significa não responsabilizar pais e familia- res pela obrigação de manter seus filhos na escola mesmo quando não há condições de transporte, alimentação e permanência. Ou seja, o governo precisa encontrar meios de criar escolas que ofereçam a todos os alunos formas de acessá-lo. Dessa forma, consolida-se a reciprocidade entre o direito à educa- ção como um direito social e o dever do Poder Público enquanto ente responsável pela garantia desse direito. Compreende-se que a ação do Estado sobre a educação não se esgota na oferta de vagas, mas abrange a garantia de acesso a elas, permanên- cia na escola e um padrão mínimo de qualidade de ensino. Assim, não se pode falar em garantia do direito à educação sem matrícula em instituição de educação ou de ensino. Libras e temas contemporâneos em educação – 210 – A igualdade de direitos, no que se refere ao acesso à educação, é muito importante. Porém, é preciso considerar essa questão com mais pro- fundidade do que isso. A igualdade não deve ser baseada na oferta das mesmas coisas a todos, mas sim na oferta daquilo que cada um precisa para estar em posição de igualdade. Parece confuso? Imagine que duas crianças, uma de 1,20m e outra de 1,50m, fossem avaliadas por sua capacidade de alcançar uma prateleira. Isso é justo? O exemplo é uma maneira lúdica de ilustrar a equidade. O paradigma da equidade afirma que é preciso oferecer aos alunos as condições neces- sárias para que todos tenham acesso adequado à educação. Isso significa que alunos com deficiências, por exemplo, devem encontrar na escola todo o suporte para seu desenvolvimento em vez de precisarem se adequar a um padrão da maioria. As diferenças existem e sempre existirão. Uma educação cidadã não pode se basear na massificação de seus alunos, culpando a cada um por suas dificuldades e necessidades. Ao contrário, ela deve prezar pelo reco- nhecimento da diferenças e encontrar maneiras eficientes de atender às demandas que irão surgir. Todas essas concepções são pensadas com o mesmo objetivo: o de criar uma educação que crie cidadãos socialmente responsáveis, com pen- samento crítico e autossuficientes. A educação precisa ser sempre vista com a base fundamental de toda a sociedade, sobre a qual se pode erguer o tra- balho, a vida em sociedade, a atuação política e outros aspectos relevantes. Como dissemos, a educação é a base. Somente o acesso à educação não é suficiente para garantir a emancipação dos cidadãos se outros direi- tos humanos não forem respeitados. Por isso, é preciso sempre a partici- pação e a fiscalização das ações do Estado para garantir sua responsabili- dade para com a promoção e manutenção dos direitos humanos a todos os cidadãos de seu país, independentemente de sua origem, cor, etnia, credo e comportamento. – 211 – Educação e cidadania Dica cultural Como vimos, a educação é importante tanto no aspecto civil quanto na função social de ensinar os alunos a conviver com colegas a desenvol- ver um senso coletivo ético, responsável e cidadão. O documentário Mitã. Criança brasileira fala sobre esse tema, demons- trando como a valorização da cultura e das habilidades sociais é importante no desenvolvimento dos indivíduos e da sociedade em que estão inseridos. Assista em: https://vimeo.com/110362748. 11 Educação como direito da criança Neste capítulo vamos discutir o que significa conceber a criança como sujeito de direitos e entender quais são esses direi- tos quando estamos tratando de educação. Para tanto, a análise do Estatuto da Criança e do Adolescente, de forma articulada à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, é central. Não vamos entrar na seara da legislação de ensino propriamente dita e, sim, nas interseções que se estabelecem entre as duas leis e a realidade. Libras e temas contemporâneos em educação – 214 – 11.1.1 A criança como sujeito de direito A definição da criança, do adolescente e do jovem como sujei- tos de direito se contrapõe à concepção de sujeitos de tutela. Durante um longo período da história da humanidade, a criança não desfrutou de uma atenção diferenciada do adulto. A “invenção” do conceito de criança e da compreensão de sua especificidade é bastante recente e confunde-se com a consolidação do Estado moderno, já analisado em capítulos anteriores. A compreensão desse grupo como sujeitos de tutela indica que os direitos, em última instância, referem-se aos seus pais ou responsáveis, que tomam as decisões e assumem os direitos pelas crianças, adoles- centes e jovens. Isso pode ser exemplificado com a legislação anterior à CF de 1988, quando, por exemplo, as mães trabalhadoras tinham direito à creche para os filhos pequenos. A conquista desse direito pre- cisa ser compreendida no contexto das lutas feministas das mulheres trabalhadoras, que garantiu as condições necessárias para a emanci- pação feminina e a entrada da mulher na esfera pública, no mundo do trabalho. No entanto, ao mesmo tempo, é preciso identificar que a atenção à infância era considerada um direito da mãe trabalhadora e não da criança em si. Essa situação se altera legalmente com a aprovação da CF de 1988 e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei n. 8.069/90, que reco- nhecem não apenas os tradicionais direitos humanos, mas incluem direitos especiais, decorrentes da compreensão de que crianças e adolescentes são seres “em desenvolvimento”. De acordo com o Art. 2º do ECA, “considera se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade” (BRASIL, 1990). É importante lembrar que a adoção internacional dos direitos das crianças deve se, principalmente, à Convenção da ONU de 1989, da qual o Brasil é um dos países signatários. Para a realidade nacional, a atuação dos grupos da sociedade civil organizada, que reivindicavam avanços no sentido da garantia de direitos para a população nessa faixa etária, foi tão relevante quanto a influência do movimento internacional. – 215 – Educação como direito da criança Saiba mais A Convenção sobre os Direitos da Criança foi adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1989, e 193 países ratificaram o documento. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulga que apenas dois países assinaram formalmente, mas não ratificaram a convenção: Estados Unidos e Somália. No site da ONU no Brasil é possível acessar o documento na íntegra: <http://onu.org.br/a-onu-em-acao/a-onu-e-as-criancas/>. A Constituição Federal de 1988, Constituição Cidadã, é conside- rada um marco importante no processo de definição de direitos civis, políticos e sociais, de forma abrangente e também no que concerne aos direitos de crianças, adolescentes e jovens.Há uma transformação signi- ficativa em relação à transição da compreensão anterior – que indicava a criança como sujeito de tutela – para uma compreensão mais ampla, da criança como sujeito de direitos. Esses direitos incorporam diferentes aspectos da vida cidadã, incluindo a educação, e indicam a necessidade de cuidados que resguardem essa população de diferentes formas de dis- criminação e violência. De acordo com a CF de 1988, é estabelecida prioridade absoluta ao atendimento à criança, ao adolescente e ao jovem, tanto pela família quanto pela sociedade e pelo Estado. Pode se afirmar, portanto, que há uma responsabilidade compartilhada entre as três instâncias para garan- tir essa prioridade em múltiplas dimensões da vida, conforme disposto no Art. 227. Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à pro- fissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988, redação dada pela Emenda Constitucional n. 65, de 2010). Libras e temas contemporâneos em educação – 216 – Sugestão de leitura ROCHA, R. Os direitos das crianças segundo Ruth Rocha. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002. Ao definir a prioridade do atendimento às crianças, adolescentes e jovens, a CF de 1988 estabelece um princípio importante para a definição e execução de políticas públicas para a população. No entanto, o texto constitucional não indica os instrumentos para a garantia dessa prioridade e tampouco define em que ela consiste, exigindo da legislação que nor- matizou os direitos da criança e do adolescente um detalhamento maior, como indica o parágrafo único do Art. 4º, da Lei n. 8.069/90. Art. 4º [...] Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende: a. primazia de receber proteção e socorro em quaisquer cir- cunstâncias; b. precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; c. preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas; d. destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas rela- cionadas com a proteção à infância e à juventude (BRA- SIL, 1990). Essa definição do que significa “absoluta prioridade” é fundamental para o direcionamento das políticas de atendimento à população até 18 anos de idade. Mesmo porque, com a aprovação da CF de 1988, esta- beleceram se novas regras para a distribuição de competências entre os entes federados e os municípios alcançaram níveis de autonomia que não tinham até então, ficando responsáveis pelo planejamento e execução de grande parte das políticas sociais. É importante salientar o papel do Poder Público no processo de garantia da proteção integral necessária à infância, adolescên- cia e juventude, pois o reconhecimento e a determinação legal – 217 – Educação como direito da criança dos direitos não implicam uma transferência direta e imediata para a sua realização. Assim, muitos desses direitos formal- mente conquistados ainda não são efetivamente realizados. As autoras Oliva e Kauchakje (2009) realizaram um estudo sobre os “Planos Plurianuais Municipais (PPA)1 referentes ao quadriênio 2004 2007” (OLIVA; KAUCHAKJE, 2009, p. 24) de dezenove capitais brasilei- ras, para avaliar a inserção de políticas públicas sociais destinadas a crian- ças, jovens e adolescentes, no sentido de cumprir os dispositivos legais relacionados à priorização desse público. As pesquisadoras concluíram que muitos municípios apenas reproduzem políticas estaduais ou federais, sem organizar políticas próprias e articuladas à realidade local. Para elas, num país com tantas diferenças e contrastes culturais, o gestor municipal deve estar atento para perceber as peculiaridades locais, adequando estratégias e ações adaptadas à realidade da infanto adolescência, reconhecendo os no lugar que merecem, como novos sujeitos de direitos (OLIVA; KAUCHAKJE, 2009, p. 29). Como já analisado anteriormente, a realização de qualquer direito instituído exige um dever que envolve a oferta de condições correspon- dentes para garantir sua satisfação. Portanto, esse acompanhamento das ações específicas das administrações municipais, estaduais e federal é de extrema importância para averiguar se as políticas realizadas estão aten- dendo às necessidades da população de forma adequada. Compreende-se que “o Estado democrático de direito existe em função da pessoa. Nessa perspectiva, a realização dos direitos humanos tem como escopo a ação estatal, que se volta à garantia desses direitos e à promoção da dignidade da pessoa humana” (SANTOS, 2007, p. 134). Assim, é fundamental a atuação da sociedade civil organizada na fiscalização não só do processo de elaboração e aprovação das leis orça- 1 O Plano Plurianual (PPA) é um documento elaborado pelo Poder Executivo e aprovado pelo Poder Legislativo, transformando se em lei. É um instrumento de gestão obrigatório, deve preceder a discussão, elaboração e aprovação das Leis de Diretrizes Orçamentárias e Leis Orçamentárias Anuais, orientado as. O PPA deve ser elaborado para abranger as ações de governo no período de quatro anos, materializando se como um planejamento das ações da administração pública em relação às políticas e diversas áreas de atuação. Libras e temas contemporâneos em educação – 218 – mentárias, mas também e, sobretudo, das ações delas decorrentes. A execução orçamentária, portanto, não deve ser objeto de análise apenas dos tribunais de conta, mas também da população, pois é preciso que exista um processo de acompanhamento e fiscalização contínuo, possi- bilitando a democratização da gestão pública. O principal espaço para isso, seguramente, é o das audiências públicas de prestação de contas, que precisam assumir um caráter cada vez mais político e analítico, e não meramente técnico. Nessa perspectiva, o ECA estabelece direitos para crianças e adoles- centes; deveres para o Poder Público, a sociedade e as famílias; e possibi- lidade de punição em caso de ação ou omissão que atente contra tais direi- tos. Nos termos do Art. 5º, “nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais” (BRASIL, 1990). Dica de filme O pequeno Nicolau é inspirado no livro Le petit Nicolas, de Jean Jac- ques Sampé e René Goscinny, publicado em 1959. O filme apresenta as aventuras de um garotinho na década de 50 do século XX que, com idade de oito ou dez anos, é cercado de amigos que possuem estereóti- pos de personalidades presentes na sociedade moderna. Ao assistir ao filme, é interessante prestar especial atenção ao que acontece quando é necessário substituir a professora da turma na qual Nicolau estuda. O PEQUENO Nicolau. Direção de Laurent Tirard. Produção Fidélité Films; Wild Bunch; M6 Films. França, 2009. 1 filme (91 min) color. Para estimular o debate e a organização nacional de políticas destina- das à juventude, a Emenda Constitucional n. 65/2010 inseriu novo pará- grafo no texto do Art. 227 da CF de 1988, com o seguinte teor: § 8º A lei estabelecerá: I. o estatuto da juventude, destinado a regular os direitos dos jovens; – 219 – Educação como direito da criança II. o plano nacional de juventude, de duração decenal, visando à articulação das várias esferas do poder público para a execução de políticas públicas (BRASIL, 1988). Esse novo parágrafo, além de estabelecer a necessidade de um “esta- tuto da juventude” à luz das conquistas possibilitadas pelo ECA, institui a exigência de um plano nacional que regule e articule as políticas públicas para o atendimento à juventude. A ideia embutida no inciso II é funda- mental,