III.2 – DA IMPOSSIBILIDADE DE RETROAÇÃO DE EVENTUAL PRETENSÃO INDENIZATÓRIA Ainda que, por exercício meramente argumentativo, se admitisse a existência de algum direito à compensação pelo uso do imóvel comum — hipótese que se repele desde logo —, tal pretensão não poderia, em nenhuma circunstância, retroagir ao período indicado na inicial. Isso porque o ordenamento jurídico não admite a constituição retroativa de obrigação indenizatória fundada em situação que, à época de sua ocorrência, se desenvolveu sob contexto de tolerância, consensualidade ou ausência de oposição. Como já demonstrado, a permanência do requerido no imóvel se deu em cenário de inexistência de resistência por parte da autora, em momento no qual a relação entre as partes ainda se encontrava em estado de indefinição fática, marcada por reaproximações e ausência de ruptura definitiva. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é firme ao estabelecer que o eventual direito à indenização pelo uso exclusivo do bem comum somente se perfectibiliza a partir da demonstração inequívoca de oposição do coproprietário, sendo inviável sua retroação a período anterior: “O termo inicial da indenização pelo uso exclusivo do imóvel comum corresponde ao momento em que há oposição do coproprietário, não sendo possível sua fixação em período pretérito em que inexistia resistência.” A razão de decidir é direta: não há ilicitude onde há consentimento, tampouco se pode imputar obrigação onde inexistia pretensão resistida. Admitir a retroação pretendida implicaria converter uma situação juridicamente neutra — ou mesmo consentida — em fonte de obrigação patrimonial ex post facto, em evidente afronta aos princípios da boa-fé objetiva, da segurança jurídica e da vedação ao enriquecimento sem causa. No caso concreto, a autora não demonstra qualquer ato de oposição contemporâneo aos fatos, limitando-se a formular pretensão indenizatória apenas em momento posterior, quando já consolidada a situação fática. Tal circunstância, por si só, inviabiliza qualquer pretensão retroativa. III.3 – DA ABSOLUTA AUSÊNCIA DE PROVA DA ALEGADA LOCAÇÃO E DA INEXISTÊNCIA DE PERCEPÇÃO DE FRUTOS CIVIS Superado o óbice jurídico, a pretensão autoral também não subsiste sob o prisma probatório. A autora afirma que o requerido teria locado o imóvel a terceiros, percebendo mensalmente a quantia de R$ 600,00. Todavia, tal alegação não é acompanhada de qualquer elemento mínimo de comprovação. Não há nos autos: contrato de locação; recibos de pagamento; comprovantes bancários; declaração fiscal; identificação de supostos locatários; qualquer indício de circulação financeira vinculada ao alegado aluguel. A única “prova” produzida consiste em imagens do imóvel , as quais são absolutamente incapazes de demonstrar a existência de relação locatícia ou percepção de frutos civis. Trata-se de material que, no máximo, evidencia a existência do bem — fato que jamais foi controvertido. Fotografia não constitui prova de locação. Imagem não comprova renda. Suposição não produz efeitos jurídicos. Nos termos do art. 373, I, do Código de Processo Civil, incumbia à autora comprovar o fato constitutivo de seu direito, ônus do qual não se desincumbiu. O art. 1.319 do Código Civil, invocado na inicial, pressupõe a efetiva percepção de frutos por um dos condôminos, em prejuízo do outro — circunstância que, além de não demonstrada, sequer encontra indícios nos autos. O que se verifica, portanto, é a tentativa de sustentar pretensão indenizatória a partir de narrativa desprovida de qualquer substrato probatório, o que não encontra guarida no sistema processual vigente. III.4 – DA INCONSISTÊNCIA DO VALOR ATRIBUÍDO E DO PERÍODO INDICADO (IMPUGNAÇÃO SUBSIDIÁRIA) Por cautela argumentativa, e apenas na remota hipótese de não acolhimento das teses anteriores — o que se admite unicamente para argumentar —, impugna-se de forma expressa os critérios utilizados pela autora para quantificação da suposta indenização. O valor de R$ 600,00 mensais foi fixado de maneira arbitrária, sem qualquer suporte técnico, estudo de mercado ou parâmetro comparativo que o legitime. Do mesmo modo, o período de 59 meses indicado na inicial revela-se igualmente unilateral e dissociado de qualquer marco jurídico válido, sobretudo diante da inexistência de demonstração de oposição por parte da autora. A pretensão de aplicação de juros de 1% ao mês carece, igualmente, de fundamento legal ou contratual, configurando tentativa de majoração indevida de valor já desprovido de base fática. Eventual fixação de indenização — hipótese que se repele — dependeria, necessariamente: de prova técnica quanto ao valor locativo do bem; da delimitação de marco inicial juridicamente válido (oposição inequívoca); da demonstração efetiva de fruição exclusiva com caráter indenizável. Nenhum desses requisitos se encontra presente nos autos. Dessa forma, ainda sob perspectiva subsidiária, a pretensão autoral revela-se inconsistente e juridicamente insustentável.