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A História das Ciências e a Epistemologia

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	A HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS, A HISTÓRIA DA PSICOLOGIA
E O CAMPO EPISTÊMICO
	
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Arthur Arruda Leal Ferreira 
Introdução: A História das Ciências e a Epistemologia
Tomar a História da Psicologia como tarefa é, antes de tudo, indagar sobre o seu modo de operação. Fazer História é mais que colecionar feitos, fatos, curiosidades e dados, mas implica um projeto que indague sobre os seus conceitos fundamentais, problemas, formas de produção e legitimação de conhecimentos e modelos. Proclamando-se a Psicologia como científica, um dos modos de historiar de forma crítica este saber é recorrer à História das Ciências. Ganharíamos um modelo uniforme e seguro? Ou ainda: teríamos um modelo pertinente à natureza do saber psicológico? Antes de tudo um problema: a História das Ciências não garante um modelo uniforme para a análise de cada ciência ou das ciências em geral. Qual a razão desta pluralidade? Se como lembra Canguilhem (1977) a História das Ciências é epistemologicamente fundada, então existem tantas Histórias das Ciências quantas Epistemologias. Muitos discursos podem ser lançados com relação a uma ciência: pode-se buscar fundamentá-la, descrevê-la, historiá-la, positivá-la, legitimá-la, criticá-la. Todas estas atitudes no trato com os saberes são reunidas sob a marca genérica de Epistemologia. Contudo, dentre as posturas que atravessam o vocábulo epistemologia, o que ele assume perante qualquer saber é basicamente o de julgamento. A epistemologia tem aqui, pois, um “sentido legalizante”, conforme aventado por Stengers (1989, p. 80). Se a epistemologia possui esta postura legislante, impõe-se catalogar os foros epistêmicos em que a História das Ciências é fundável e a psicologia julgável. Neste aspecto, como destaca Foucault (1975, p. 76) a História está francamente ligada ao direito e à atitude de legitimização, no caso, ao pleito de ser ciência.
De início é necessário que se diferencie a epistemologia de outros discursos como o gnosiológico e o da filosofia das ciências. À teoria do conhecimento, cabe a reflexão sobre as condições do conhecimento em geral, parta esta reflexão de uma ciência particular como sugere Piaget (1970, p. 26), ou não. Contudo, todas teorias do conhecimento se aproximam de uma ontologia do sujeito, seja enquanto substância pensante, alma imortal, mônada ou complexo de impressões. Neste aspecto, a epistemologia se confundiria com uma reflexão racionalista sobre as ciências, tal como denunciado por Lebrun (1977, p. 11). Representa o esforço inaugurado por Descartes e prolongado até início deste século por Pierre Duhem. Por filosofia da ciência, entende-se a tomada do conhecimento científico como modelo para o conhecimento em geral
Não há mais uma reflexão sobre o conhecimento em geral, amparado pelos poderes de uma razão universal. Representa a transição para uma reflexão inerente ao campo científico, como é próprio da epistemologia contemporânea. Neste caso a linhagem mais fecunda é a kantiana, que considera as próprias categorias e formas a priori do entendimento nos moldes da matemática e da física mecânica da época (final do século XVIII). A ciência não possuiria pois história, seria um mero desdobramento do entendimento humano delimitado no sujeito transcendental em contato com a diversidade sensível.
Se a gnosiologia inaugura-se no século XVII, a filosofia da ciência no final do XVIII, a epistemologia é contemporânea, própria do século XX . A epistemologia científica irá tomar como tema a própria feitura da ciência, em sua concretude, sem nada dizer quanto ao conhecimento em geral. E nada irá marcar mais este fazer do que o seu constante refazer, ou a ultrapassagem incessante que a ciência impõe a si própria, inclusive das matemáticas e da mecânica, que Kant tomava como formas do conhecimento. É neste sentido que Fernando Gil (1979, p. 159) afirma que: “Assim a epistemologia contemporânea transforma-se a pouco e pouco numa epistemologia da história das ciências, ao mesmo tempo que a história das ciências aparece animada de uma intenção declaradamente epistemológica, não se trata já de contabilizar a acumulação dos conhecimentos, mas de conhecer as condições de possibilidade de sua transmissão”.
É deste modo que as epistemologias tratam da constante renovação das ciências através da história, impondo um viés temporal ausente nas demais reflexões sobre o conhecimento. Ao se fazer história das ciências, a epistemologia científica não se torna um mero museu das idéias, dos métodos e seus instrumentos obsoletos. Seu sentido não está no passado, ou no “ultra-passado”, mas no futuro, no ultrapassar, ou seja, no progresso constante que mede esta superação. Se o sentido da ciência está no progresso, a questão derradeira da epistemologia científica é o motor deste progresso. Refinamento experimental por parte dos positivistas; inteligência crítica, pelos racionalistas aplicados; consenso (ou dissenso) da comunidade, segundo Thomas Kuhn; regime de poderes para Isabelle Stengers , são estes os principais motores sugeridos. Estes quatro modelos serão tomados como quatro fóruns, onde serão avaliados a pertinência de uma História Científica da Psicologia, além da sua pleito como saber legítimo.
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1Professor Adjunto do Instituto de Psicologia da UFRJ e pesquisador financiado pela FAPERJ. Doutor pelo Programa de Psicologia Clínica da PUC/SP. Residente na Rua do Riachuelo 169/405. Centro – Rio de Janeiro – RJ. CEP: 20.230-014. E-mail: arleal@antares.com.br. 
2Segundo Robert Blanché, citado por Márcio Marighela (1997, p.31), o termo epistemologia surge em 1906, significando teoria da ciência. Somente mais tarde, notadamente com Gaston Bachelard, é que este termo será correlacionado à história da ciência. 
3Deve-se destacar a singularidade da posição de Stengers nesta corrente, posto que ela distancia-se do poder demarcatório que os epistemólogos se concedem, ao delimitarem o científico do não-científico, conforme se cumpra a “marcha progressiva das ciências” ou não. Por reconhecer este poder demarcatório dos epistemólogos, é que Stengers destaca-se destes. Contudo, esta autora não torna o poder como estranho à ciência, estando presente nos riscos dos operadores em produzir fatos e não artefatos.
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A Psicologia sob o crivo da História das Ciências
a) Os positivismos
Curiosamente, os primeiros julgadamentos epistemológicos foram realizados antes do saber psicológico se pleitear científico, tratando-se mesmo de um setor da filosofia do sujeito. Pode-se dizer inclusive que a constituição deste fórum epistêmico foi fundamental para o surgimento da psicologia científica. No caso, o primeiro fórum histórico foi constituído pelo positivismo, tendo como julgado a psicologia filosófica, tanto a dos Ideólogos, quanto a da Escola Escocesa e a dos Ecléticos. Antes de tudo, cabe destacar as instruções de julgamento: as condições de possibilidade do conhecimento científico são aqui reconhecidas como exclusivas do método experimental. Só há conhecimento na medida em que este for público, observável e controlável. Deste modo, a história de qualquer ciência é uma evolução sem rupturas de um olhar em direção a um objeto dado, evolução esta referenciada pelo uso de modalidades cada vez mais positivas de observação. O sentido desta história é o do acúmulo de descobertas proporcionadas pelo método experimental. 
Como veredito, Augusto Comte, na condição de “magistrado da ciência”, exclui a psicologia do seu círculo das ciências, passando direto da Biologia à Sociologia. Seria um réu sem direito à cidadania, banido da comunidade científica. Lucien Lèvy-Bruhl (citado por Penna, 1990, p.19) esclarece o veto: ele não se estende a toda e qualquer psicologia; apenas à introspeccionista, à qual o termo era fortemente associado. Comte, em seu Curso de Filosofia Positiva (1837, p. 20) assim explicitava o seu veto ao método introspectivo: “O indivíduo pensante não poderia se dividir em dois, um raciocinando, enquanto o outro o visse raciocinar. O orgão observado e o orgão observador, sendo, neste caso, idênticos,