A História das Ciências e a Epistemologia
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A História das Ciências e a Epistemologia


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como poderia haver a observação?\u201d. A introspecção não seria apenas acientífica, mas impossível, havendo no máximo retrospecção, mas jamais a cohabitação de dois estados mentais, um observador e outro observado.
Contudo, como lembra Penna (1990), restaria à psicologia a possibilidade expressa na Política Positiva (1851) de uma teoria positiva da alma \u201cde inspiração sociológica e controle zoológico\u201d. E esta psicologia possível toma forma na frenologia de Franz Gall, conforme expresso no Curso de Filosofia Positiva (1837). Aqui, através da experimentação e da observação do outro, cumpre-se o método científico, inviabilizado na introspecção pela mistura entre observador e observado. Mesmo que o encantamento pela frenologia tenha cedido à busca de uma fundamentação sociológica, tal como se expressa na Política Positiva, permanece a possível autorização a qualquer psicologia que, partindo dos caprichos do método, mantenha seu objeto à distância de um outro (fisicamente objetivado) e à profundidade da superfície da pele. Apesar de quase todas psicologias se embalarem na cientificização pela adoção do método experimental, tal como legislado por Comte, somente a behaviorista percebeu que o rigor do método, enquanto ponto de partida, impunha uma alterização, uma descrição fisicalista do objeto, não justapondo, como as demais, a prática experimental a um objeto subjetivado, e, pois, incontinente ao método. É por tal razão que todo behaviorismo consequente será em última instância radical e não apenas metodológico, conforme distinção de Frederic Skinner.
Uma vez que a orientação positivista aborda a evolução da ciência enquanto aprimoramento da observação experimental, como poderia ser pensada a História da Psicologia? A princípio como a passagem natural de uma psicologia introspeccionista ou mentalista para uma psicologia estritamente comportamental, notadamente o behaviorismo radical, para o qual, qualquer defesa de uma substância mental teria um sabor metafísico. Definindo todos os fenômenos psicológicos em linguagem fisicalista como comportamentos, não haveria qualquer espaço mais para a introspecção de fenômenos mentais, em que o sujeito e o objeto viessem a se confundir. É assim que o pensamento é tratado como um comportamento verbal subvocal e as emoções, comportamentos reflexos viscerais.
Contudo, a História da Psicologia não é a marcha inequívoca das psicologias mentalistas na direção das behavioristas. Esta é a história que gostaria de nos contar o behaviorismo radical em conluio com uma epistemologia positivista. Contudo, vemos nos dias de hoje o declínio da abordagem comportamental em prol da mentalista, presente na ciência cognitiva. E o pior, não apenas a direção evolutiva sugerida pelo positivismo se veria problematizada no devir da ciência psicológica, mas a própria idéia de evolução nesta ciência, uma vez que cohabitam a contemporaneidade da psicologia diversos projetos além da ciência cognitiva ou do behaviorismo; teríamos a epistemologia genética, a psicanálise e a psicologia humanista-existencial, sem que nenhuma supere as demais, ou tenha sido falseada. As diversas psicologias são, pois, incompatíveis entre si, mas sem conseguir, por outro lado, a rejeição das restantes. E por tal, prosseguem acumulando-se, sucedendo-se sem se superar, e se mantendo mais por uma questão de moda intelectual do que de resistência científica, coexistindo numa unidade muito mais consensual do que lógica. Esta acumulação sem superação na história das psicologias é o maior obstáculo para qualquer concepção evolutiva da história das ciências, como a positivista. Restaria apontar a preferência por uma escola (a behaviorista), ou recusar a cientificidade da psicologia em geral.
b) O Racionalismo-aplicado
O segundo modelo em questão é o racionalista aplicado, e seus instrutores são Gaston Bachelard e Georges Canguilhem. Como instrução geral, destacam-se dos positivistas ao promoverem a distinção entre objeto natural e científico: este, não se encontra dado, mas construído, sendo parte integrante de um projeto margeado por um método e um problema que lhe são próprios. Diz respeito a uma \u201cteoria controlada pela intenção de captá-la em erro\u201d (Canguilhem, 1972, p. 15). Como o objeto científico não está dado, mas construído, logo a história de um saber seria a superação dos projetos equivocados. Não seria mais uma história da experimentação, mas da inteligência na superação dos erros primeiros. Não é a história das descobertas, mas das invenções e das reinvenções. E como este objeto é constantemente reconstruído em função dos erros primeiros, este história demarca-se através de cortes e rupturas. Se um projeto atual se vê desligado dos anteriores por cortes e superações, então a história de um saber terá que tomar como referência a sua atualidade e não as suas origens. É na atualidade que se demarca a sua racionalidade, que se constitui o valor sob o qual se orienta a história. Não é uma história com uma regressão infinita, uma vez que delimitada na superação dos erros primeiros. Também não é uma história linear, uma vez que sempre reescrita por sua atualidade. É, no entanto, uma história progressista, uma vez que regulada por seus valores atuais e racionais.
O processo quanto à psicologia terá como relator Canguilhem, o qual nos oferece uma análise caústica em seu demolidor O que é psicologia? (1973). O início da palestra, proferida em 1956, já anuncia o tom de seu parecer:\u201cDe fato, de muitos trabalhos de psicologia, se tem a impressão de que misturam uma filosofia sem rigor, uma ética sem exigência e uma medicina sem controle\u201d (op. cit., p. 105). A pergunta-título do artigo visa a enunciação de um projeto que confira à psicologia unidade, racionalidade e valor, tal como procede esta epistemologia, recusando-se qualquer definição deste saber em termos de eficácia. A única resposta possível é a listagem dos diversos projetos metodológicos, que guardam entre si uma unidade que \u201cse parece mais a um pacto de coexistência pacífica, concluído entre profissionais do que uma essência lógica, obtida pela revelação de uma constância numa variedade de casos\u201d (op. cit., p. 106). Não havendo unidade de projeto, não há racionalidade e, pois, positividade. Não se pode demarcar a história da psicologia enquanto uma história científica, ungida pela noção de progresso, e realizada na noção de ruptura, na superação dos erros primeiros. Talvez esta história seja possível no interior de cada orientação psicológica, mas não na psicologia como um todo. Na psicologia, ou não cabe nenhuma história da ciência, ou cabem várias.
Na possibilidade ainda de uma possível unidade insuspeita, Canguilhem buscará, no exame dos diversos projetos, recuar ao sentido original de cada um deles, procedendo à história da psicologia, pesquisa de resto frustrada quanto a seu objetivo. Contudo, antes de proceder ao exame, o epistemólogo francês deixa margem para que se compreenda a diversidade de projetos a partir das diversas imagens de homem presentes nestes sentidos originais. Esta é sem dúvida uma contribuição positiva de Canguilhem para que se compreenda a dispersão do espaço psicológico :
A partir disso pode-se rigorosamente falar de uma teoria geral da conduta, enquanto não se tiver resolvido a questão de saber se há continuidade entre linguagem humana e linguagem animal, sociedade humana e sociedade animal? É possível que, neste ponto, caiba não à filosofia decidir, mas à ciência de fato, a várias ciências, inclusive a psicologia. Mas então a psicologia não pode, para se definir, prejulgar aquilo a que ela é chamada a julgar. Sem o que, é inevitável, que se propondo ela própria como teoria geral da conduta, a psicologia faça alguma idéia de homem (grifo meu) É preciso então permitir à filosofia perguntar à psicologia de onde ela tira esta idéia e se não seria no fundo, de alguma filosofia (op. cit. p. 106).
c) O Paradigmatismo
Tanto no positivismo quanto no racionalismo aplicado, o progresso da ciência é visto dentro de uma \u201cclausura operacional\u201d,