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A História das Ciências e a Epistemologia

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ocorre no interior de cada projeto, mas jamais no interior da psicologia, dada a impossibilidade de refutação neste saber. O alvo de trabalhos como os de Roger Smith (1988) e de Luis Alfredo Garcia-Roza (1977), será denunciar os mitos da unidade, da continuidade e da evolução, de resto descartados pela Nova História do grupo dos Annales. Em consonância com esta escola, toda história é referida a partir de um certo presente, marcado por seus referenciais, instrumentos, instituições, conceitos atuais (de tempo, período, sentido, evolução), e questões versando sobre uma certo modo de subjetivação (ou mentalidade, usando um termo destes historiadores). Reconhecer este ponto de partida é crucial para se dar conta da singularidade do passado a ser historicamente examinado. Sem demarcar o ponto de partida do historiador (o presente, sua identidade), arrisca-se a sua projeção no objeto visado (o outro revelado pelo passado histórico). Delimitar um eu, ou um nós, é condição não apenas para estranhamento do outro, mas para a “outrização de nós mesmos”. Como diria Paul Veyne (1989, p. 154): “Quando falamos do próximo, ou é para fazer mexerico, e nesse caso o estamos julgando, ou é para descrevê-lo como um estranho, sabendo que nós também o somos” Neste presentismo aberto, o mesmo e o outro são estranhos, evitando o risco do “mexerico”, de tomar toda a diferença como juízo de inferioridade. 
Este é o equívoco em que a história epistemológica da psicologia recai, estabelecendo uma evolução que cala o passado em nome da superioridade do presente. Neste mau presentismo, que reifica o presente, chega-se em alguns casos (como nos positivismos) a vê-lo em germe desde o fundar dos tempos, no olhar míope e impreciso dos precursores, mas que desde então teriam balbuciado algo sobre psicologia, a tomar forma somente na sua conjugação científica. De lá até hoje, a voz e o olho tomariam prumo e o objeto teria sido descortinado. É o que historiadores como Geoge Brett, Edwin Boring e Fernand-Lucien Mueller fazem; ao negar a estranheza do presente, eternizam-no, entronizam-no. Nem ao menos se questionam a partir de que condições a psicologia teria partido; ela simplesmente teria sido a mesma desde os tempos imemoriais. Tudo é monolítico: tempo, objeto, progresso, ciência. O mesmo objeto que se supõe atravessando os tempos é igualmente enganoso:
Na ânsia de encontrar continuidades, os historiadores vislumbraram uma longínqua analogia entre a “anima” aristotélica, o “cogito” cartesiano e a consciência, tal como é vista pelos psicólogos do século XIX. Esqueceram-se, porém, que a “anima” aristotélica é um princípio material, físico, nada tendo em comum com o “espirito” dos cristãos e ainda menos com o “cogito” cartesiano [...] Da mesma maneira, o “cogito ergo sum” pertence a um discurso filosófico no interior do qual adquire pleno sentido. Descartes não pretendia fazer e nem faz psicologia (Garcia-Roza, 1977, p. 24). 
Se, como Foucault (1969) considera, a noção de ruptura não opera mais como obstáculo, e sim enquanto a priori com que se erguem as novas histórias, pensar as condições de possibilidade da psicologia é dar conta dos eventos singulares e únicos, raridades que favoreceram a sua estranha constituição. Por que se desejou estabelecer uma ciência sobre aquilo no qual residia o obstáculo a toda e qualquer ciência, enquanto fonte de ilusões, a experiência imediata? Por que buscou se tomar o controle do que se determinou como ponto de toda liberdade, o indivíduo? São questões que retiram o presente do conforto de sua identidade, e lançam-nos na possibilidade de sermos outros, tomando o passado na sua potência de estranhamento e não na inferioridade do que seria o mero germe do que se desvela soberanamente no futuro. 
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