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D QUADRANTE
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Título original
Ãrztlíclve Seelrorge
Copyright © 2003 herdeiros de Víktor Frankl
Capa
José Luis Bomñm
__g_$,a__;DadosIntemacionaís de Cataloa'o na Publicaão (CIP)
FranLJ', Vikxor
Psícotcrapia c semído da vidaz fundamcntos da Iogoterapía c análíse existencíal /
Viktor Frankl; Iradução dc Alípio Maia dc Castro ~ 6-" cd. - São Paulo '. Quadrantc, 2016.
Tírulo originalz Aurztlírbe Sfflwrgf
ISBNz 978-85-7465-056-2
1. Psicotcrapía 2. Psicanaqise 3. Humanismo 4. Logoterapia 5. Psicoterapia cxistencid
I. Título.
CDD-616.8914
NLM-\X/M 420
1. Logoterapia : Mcdicina 616.8914
2. Psicoterapia cxistcncial : Medicina 616.89l4
Todos os direitos reservados a
QUADRANTE, Socíedade dc Publicaçóes Culturaís
Rua Bernardo da Vciga, 47 - 'Ie'l.: 3873-2270
CEP 01252-020 - São Paulo - SP ›
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Sumar'io
Preâmbuloz Viktor Frankl - o homem
Prefácio à 7a cdição
Introduçáo
I - DA PSICOTERAPIA À LOGOTERAPIA
Psicanálise e psicologia índívidual
O vácuo existencial e a neurosc noogêníca
A superação do psicologismo
O reducionismo genétíco c o pandeterminismo analítico
Imago hominis
II - DA PSICANÁLISE A ANAL'ISE EXISTENCIAL
A) Análísc existencial geral ..
1. O sentido da vida
A DISCUSSÃO DO SENTIDO DA EXISTÊNCIA
O SUPRASSENTIDO
A psicogênese do psicologismo
PRINCÍPIO DO PRAZER E PRlNCÍPIO DO EQUILÍBRIO
SUBJETIWSMO E RELATIVISMO
TRÊS CATEGORIAS DE VALORES
EUTANÁSIA
SUICÍDIO
A VIDA NO SEU CARÁTER DE MISSÃO
0 PRINCÍPIO DA HOMEOSTASE E A DINÂMICA EXISTENCIAL
o SENTIDO DA MORTE
COMUNIDADE E MASSA
LIBERDADE E RESPONSABILIDADE
O PODER DE RESISTÊNCIA DO ESPÍRITO
O dextíno biolágico
O dextino psimlógico
O destino soriolágiw
A PSICOLOGIA DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO
2. O scntido do sofrimcnto ............................................................
3. O sentído do trabalho ...............................................
A NEUROSE DE DESEMPREGO
A NEUROSE DOMINICAL ...............................................
4. O sentido do amor ...................................................
SEXUALIDADE. EROTICIDADE E AMOR .........................
IRREPETIBILIDADE E «CARÁTER DE ALGO U'NICO» ........
0 HORIZONTE DO «TER».......................................
VALOR E PRAZER ..................................................
DISTÚRBIOS NEURÓTICOS SEXUAIS .............
o AMADURECIMENTO SEXUAL .......
DIRETRIZES DE PEDAGOGIA SEXUAL
B) Análise existencial especial
1. Psicologia da ncurosc de angústia ..
2. Psícología da neurose compulsiva ............................................... 291
ANÁLISE FENOMENOLÓGICA DAS VIVÊNCIASI
DE TIPO NEURÓTICO-COMPULSIVO ............................. .
A TÉCNICA LOGOTERÁPICA DA INTENÇÃO PARADOXAL .
. 298
. 312
. 339
. 349
3. Psicologia da melancolia ......................................
4. Psicologia da esquizofrenia ..
III - DA CONFISSÃO SECULAR
A DlREÇÀO DE ALMAS MÉDICA
Direção de almas médica e pastoral
A relaçào manipulada e a entrcvista de acareação .............................. 373
A técnica analítico-existencial do denominador comum
Último auxílio .................................................................................. 389
Epílogo ............................................................................................. 395
Observaçóes
Seleção bibliográñca do Autor
Índicc de matérias
Pream^bulo
Viktor Frankl - o homem
O que impressiona desde o início na obra, bastantc consi-
dcrável já, de Viktor E. Frankl é a profundeza de humanídade
que cla reHetc, a íntensídade de vida que dela se desprendez estas
qualidades não lhe diminuem nada o valor propriamentc cien-
tíñco, antes o realçam. esta uma obra que talvez represente
hoje em día 0 último grande sistema de psicopatologia (à parte
o de Szondi, se bem que Szondi nâo passe de um especialísta);
e os esforços de Frankl para claborar uma doutrina psicológica
e psicoterápica que permita ultrapassar qualquer psicologismo
sem espírito, sem «logos», valeram-lhc um prestígio mundial in-
discutido.
Não se imagine, porém, que a sua obstinação em descobrír
no homcm a «vontade de sentido» (ao contrário do «princípio
do prazer», de Freud, e da «v0ntade de podcr», de Adlcr); a sua
ínsistência sobre os «valores», a sua concepçâo das «neuroses
noogênicas», que (ao contrário de Freud, que vê na religião uma
neurose obsessiva) supócm uma «religiosidade recalcada»..., es-
tejam a denunciar nelc 0 filósofo ou 0 moralista que se houvesse
introduzido sub~repticiamente na clínicat Frankl é médico, lida
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
com doentcs, sarou muítos sofrimcntos, elaborou um método
terapêutico aplicado com êxito da Espanha ao Japa'o, da Rússia
à África do Sul.
Entretanto, para melhor comprecndermos a obra, travemos
conhecimento com o homcm.
Tipícamente vienense, expansivo e joviaL acolhe os doentes
com uma grande cord1'alidade, que nada tem de proñssionah
gosta de conversar, quer na universidade quer em família, à
mcsa; polemista 6no, sabe manejar o humor, a fantasia e o gra-
cej0. Os seus Cursos e conferências fascinam e enlcvam porquc
são expressão de uma convícção intcríor, dc experiências vívi-
das, de sofrimentos suportados, de um idealismo renitente, mas
jamaís dcscncarnado. A sua conversação inesgotáveL salpicada
de historietas, de tiradas espirituosas, de guinadas imprevisívcís,
de voos especulativos e de mergulhos incessantes na mais trí-
vial experiência cotidiana - nâo tem nada de espetáculo que sc
contemple de foraz é antes uma contradança extraordínáría que
incíta à participação. Os «sisudos professores» inquietam-se, os
ingênuos defensores das ciêncías exatas evitam-no, os seus pró-
prios compatriotas preferem por vezes ignorá-lo... TaJ foi a sorte
de outros célebres psiquiatras austríacos (Freud, Allers, Spítz).
Pouco importa. Se o querem ouvir - sempre acompanhado da
esposa encantadora, com quem casou em segundas núpcías -,
podem fazê-lo hoje em Harvard, amanhã em Oslo, depois em
Leípzig, Londres, Pamplona, em Ceilão, em Praga ou em Syd-
ney. Por toda a parte desperta ou entusiasmo ou despeíto, mas
nunca indíferença.
Não conhece o repouso. Uma das suas «distraçóes» prcferidas
é meter-sc em escaladas difíceis nos dedives abruptos dos Alpes.
Alias', tcm o diploma de guia da «Associaçáo Alpina»; e há mas-
mo certos itinerários no Peilstein e no Raxalpe que tomaram o
nome dele! Mas não é só isso: num abrir e Fechar dc olhos é capaz
PRFÀMBULO
de esboçar a carvão uma caricatura dívcrtída ou dc compor um
tango endiabrado. Leu Tomás de Aquino, mas compulsou tam-
bém os últimos artigos ou obras de sociologim é um apaixonado
por pastéis e náo bebe nunca uma gota dc al'cool; continua ñcl
à fé dos seus pais, mas utiliza-se de um brcviário romano para
rezar os salmos («a mais bela versão é a da Vulgata latina»). Sua
tha cstuda psicologia, mas nunca leu «as obras dc papai». É um
amigo exigente, mas que nínguém podc csquecer jamais.
Nos scus 16 anos, sendo ainda estudante dc Colégio, cstc
homem polifacético carteava-se com Sigmund Freudz cnviou-
-lhe um ensaío sobre a origem da expressão mímica da añrma-
ção e da ncgação, e teve a grande surpresa de o ver publicado
pelo Mestrc no seu ]ourmzl íntematíonal de Psyclmnalym Muito
mais tarde, Frankl poderá escrever: «Ao lado dc Frcud, eu não
sou mais que um anão, mas se um anão trepa aos ombros dum
gigantc, vê até muito mais longe do que cle».
A sua carreira universitária foi a breve trecho truncada pcla
perseguíção nazista; fez a experiência trágica dos campos de
Theresienstadt (Boêmia), dc Auschwítz, de Kaufering e de
Türkheim (dependência de Dachau): e quase que só por m¡-
lagre é que escapou. Aos quarenta anos, alguns días depois de
ter sido libcrtado pelos americanos, vcm a saber, em Chegando
a Viena, da morte do pai, da mãe, do írmâo e da sua querida
esposa - com qucm se havia casado durantc a guerra; e é cntão
que ele dita, dum fôlego, em nove dias, embargada a voz c
debulhado em lágrimas, o lívro que é conhecido em português
sob o título de «Um psicólogono campo de concentraçâo»1.
Não falarci aquí destc livro, pois muitos outros, mais quali-
(1) Traduçáo portuguesa, Editorial Astcn Lisboa. No originnl alcmão Ein Psycholog
crlebt das Konzcntmtionslagcr, Vcrlag Fúr Jugcnd und Volk, l-" edição, V1'cna. 1946
(N.T.). 9
10
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
ñcados do que eu, o fízcram já, para prcstar homenagem ao scu
alto valor, à grandc originalidade que ostenta no seu gênero,
à riqueza imcríor deste informc sem artifícios, aos Claróes psi-
cológicos quc ncle se contêm e podem scrvír de introduçâo ao
pensamento cientíñco do autor. Mas, acostando-me cm Gabricl
Marcei, eu gostaria de falar a todos os que porventura sintam
algum constrangimento em folhear ainda um livro sobre os hor-
rores desscs morticíniosz este livro, não o deixcm cair das mãos;
retomem-no c não o larguem antes de o terem lido até o fím,
dum fôlcgo só taJvez - tal como foi criado -, e como o grande
psiquíatra americano Allport confessa tê-lo feíto, levado de um
ímpulso espontâneo e irrcprimíveL
A análíse exixtmcíal e a logotempia, a doutrína e a terapéutica
de FrankL não se encontram aí ínteiramcntez já escrevcu dezes-
seis livros'. Mas o homem Viktor E. Frankl está todo ínteiro nes-
se testemunho. Vemo~lo crescer, amadurecer, expandir-se: em
comentários sevcros e írônícos, em voos líricos comoventes e ob-
scrvaçóes clínicas objetivas, em astúcias espiriruais e transportes
generosos duma bondade sem artifícios. É uma obra que é uma
joia e que conseguiu transformar~se em besHeller na América
(913.000 exemplares, declarada quatro vezes «livro do ano» das
universídadcs dos Estados Unidos). Prímeiro, Frankl fazía ten-
ção de a publícar no anonimato; só no último momento, quan-
do começava já a ser impressa, é que os amigos o persuadiram
de que devia assína'-13.
O pensamento de FrankL embora se apoie em bases ñlo-
sóficas sólidas - depois da guerra quis estudar Hlosofia, e aos 44
anos apresentou a sua tese de doutoramento, que é a obra sobre
«o Deus inconsciente» -, brota diretamente da.sua experiência
humana e médíca. Assím como Freud elaborou a sua doutrína a
partir das neuroses que lhe foí dado obscrvar e curar na socíeda-
de burguesa, vitoríana e tradicionalísta do seu tempo; e Adler, a
k
,M.
,.«.nn'_
M
PREAMABULO
partir das suas experiências nas classcs sociais mais desfavorcci-
das, que lutavam por uma melhoria dc situação - assim também
Frankl elaborou a sua doutrina c o scu método em contato com
homens do nosso tempo, sobretudo com aquclcs quc vívcram
as mais terríficas cxperiêncías do totalitarismo, do racismo, da
segunda gucrra mund1'al.
Não é possíveL nem seria oportuno resumir agora o scu pcn-
samento. Contudo, pelo que diz rcspcito à obra aqui apresenta~
da, direi que a poderíamos defínir como a «Summa Logothera-
peutica» até 1942, enríquecida pelo «experimentum crucis» dos
campos de concentração, e ampliada ultimamente, na edíção de
1967, com as experiéncias da teoria e prátíca da Logotcrapia, di-
ñmdida já no mundo todo. O médíco, o pedagogo, o assistentc
social, o sacerdote e todos os leitores avisados, ainda quc não
especialistas em alguma das chamadas ciências do homem, en-
contrarão aqui uma mina inesgotávcl de Hníssímas observaçõcs
sobre a existéncia humana, em seus aspectos mais quotidianos c
também mais profundos, sobre o sentido indcstrutível do vivcr
na terra, se se vive como ser livre e responsáveL no empenho de
trabalhar e amar, em submissão inexorável à prova da dor c do
lance da morte.
A sua exposição, a um tempo scvera e amabilíssima. toca a
chaga da problemática das geraçóes quc assomam ao Hnal do
nosso século XX, salvando do naufrágio gcral de estruturas
passadaS, não propriamcnte o instimo que certa p51'canal'ise e
certo espírito revoluciomirio quiseram pór no ccntro da fe.l|°ci-
dadc utópica futura - praticamente infra-hun1ana -. mas sim
aqucle sentido imperecível da existência dc cada um. em cada
particular situação histo'rica. indívídual e Colet1'va. que só uma
maturação da consciência conscguc descobrin A Logoterapia
pretcnde justamcnte dirigír-se a tantos daquelcs quc hoje cm
dia se sentcm asñxiados na atmosfbm rarefeâita do «vácuo exis- H
PSICUIERAPIA E SENTIDO DA VIDA
tenciaL para os ajudar a añnar a consciência, levando-os a des-
cobrir em si mesmos o profundo signiñcado da sua vída sin-
gular, única e irrepetích até nas circunstâncias mais trágicas e
aparentemente desprovídas de valor; para os ajudar a encontra-
rcm a valentia de aceitar a responsabilidade de um víver huma-
no entre os homens».
A parte dedicada à «Análise existencial cspecíal» tem parti-
cular interesse para psícólogos e psiquíatras, mas todos a podem
ler com proveito.
É uma obra que destrói uma infinidade de «tabus» e de luga-
res~comuns, que a divulgação psicológica c as atuais ideologías
«dcsmitizantes» têm levantado na mentalidade supcrsticiosa do
homem da era da técnica; e oferece, numa linguagem brilhante
e briosa, a afírmação louçã e esperançosa do que é vivo, dia'rio,
simples e especíñco do ser humano enquanto tal, semprc capaz
de recuperaçâo, de novos entusiasmos, de amor e de autotrans-
cendência.
Viktor E. Frankl Hcará, na história da psiquiatria, como o
médíco da «doença do século XX»; como defensor corajoso da
liberdade humana contra todo e qualquer determinismo cíen~
tíñcomaruralista cego; como 0 admirável fenomenólogo do
amor; como aquele que, cheio de otimismo, desvenda no ho-
mem uma abertura para a transcendênciaz com efeito, quem
chega a compreender a existência humana como uma «missão»
encontrará, maís cedo ou mais tarde, «Aquele quc conña ao ho-
mem tal missão».
O seu bom senso, o seu senso de humor _ que ele emprega
como meío terapêutico, por permitír ao «Eu» o dístanciar-se dos
seus sintomas ncuróticos - pode servir de remédio e de con-
trapeso a certa idolatria psicológica assaz difundida na nossa
cultura de m45'sas. A Lemercier, que preconízava a psicanálise
de todos os religiosos, no intuito de afastar aqueleskque batiam
PRFÀMBUl ,()
à porta do seu mosteiro movídos por «motivaçóes ncuróticas»,
Frankl respondeu, conforme contaria mais tarde, um pouco por
ironia, um pouco por desabafo dc quem quer sobrcvivcrz «Sc
todos os quc estudam psiquiatria por motivações ncurótícas ti-
vcssem que ser eliminados, as nossas cIínícas perderiam talvez
os terapeutas mais comprecnsivos e mais entusiastas. Não sabe,
Padre, quc Deus escreve dircíto por linhas tortas?». Frankl é um
psiquiatra excelente, precisamente por nâo ser um fanático da
psiquiatria, porquc crê no homcm e no seu espírito, maís do quc
na pretensiosa cíência psicológica.
Prof. JOHANNES B. TORELLÓ
13
Ur
Euntes ezmt etplorant, semen
spargendum portantex
Vmimtex uenient cum
exultatione, portantex
manpiulos .ma5.2
Prefácío à 7a edição
Já que nos aventuramos a corresponder, com uma nova edi-
ção, ao intercssc por um livro que continua a ser procurado
vinte anos dcpois que vcio a lume pela primeíra vez, impóc-se-
-nos íntroduzir capítulos adicionaís quc atualizem o ideário nclc
consígnado, sem entretanto adulterar demasiado 0 «primeiro
lance» - que era uma obra unita'ria, de uma só peça. É claro que
isto náo se faz senão à custa da homogeneidade do conteúdo.
Por isso nos parece oportuno enumerar aqui, dentre os adíta-
mentos feitos, aqueles quc ocupam os tópicos mais extcnsos da
prescntc edíção. Ei-los:
- Introdução (extrat0 da comunicaçâo apresentada pelo Au-
tor no encerramento do 5.° Congresso Intemacíonal de Psícote-
rapia, na qualidade de Vice~Presidente);
(2) Trccho do Salmo 125 da Bíblia, quc é prcccdido pcla fmsc «Qui xrmimml in
lacrimz'5, in exmlmtione metnm e. incluída esm, s1'gniñca: «Os quc scmeiam com
lágrimas cxultarão dc alegria na colhcim. Na ida. vão chomndo os quc levam a scmentc
a espargir; mas, ao voltarcm. trazendo na mão os molhos da ceífa, vírão chcios de
alegria». (N.T.) 15
16
PSICOÍERAPIA E SENTIDO DA VlDA
~ O vácuo c~xistencial c a neurose noogênica (extraído de uma
entrevista conccdida pelo Autor a Huston C. Smith, profcssor
do MassacbwettsImtítute ofTeclmology, conforme consta de um
filme a cores preparado por iniciatíva da Calfzo"rm'a College As-
socizztion);
- O reducíonismo genético e o pandeterminismo analítico
(baseado na dissertaçâo proferida a convite do Conselho Aca-
dêmico, quando do 6.° Centenário da Uníversidade de Viena);
- Imago bomínis (como acima);
- Subjctívismo e relativísmo (7716 First Howard Chamíler R0-
bbim Lecture, dada na Americrzn Uníverszfy em Washington);
- O princípio da homcostase e a dinâmica existcncial (extraído
da conferência proferida a convite do Instituto de Psicologia da
Unívcrsidade de Melbourne);
- A técníca logoterápíca da intenção paradoxal (C0nforme 0
Openíng Paper do Symposium on Logothempy, a convitc do 6.°
Congresso Intemacional de Psicoterapia);
- Díreção de almas médica e pastoral (Peyton Lecture do ano
de 1965, dada na Soutlaem Metbodist Uníuersíty em Dallas);
- A relação manipulada e a entrevista de acareação (extraído
do Seminar on Logotherapy realizado na Harvard University
Summer School);
- Últímo auxílio (da coleção Modem Psyclaotbmzpeutíc Practim
Innowztiom in Tecbnique», editada por Arthur Burton, Science and
Bcbavíor Books, PaJo Alt0, Califórnia, 1965);
- Epílogo (traduçâo do texto de um fílme prcparado pelo
Departmmt ofoycÍaiatry Neurology and Bebazzíoml Srienres da
University ofOklaboma).
VIKTOR E. FRANKL
Introdução
Schelsky, no título de um dos seus livros, classíñca a juven-
tude de hoje como «a geraçâo cética». Uma coisa semelhantc se
pode dizer também dos psicoterapeutas atuais. Dizemo-lo espe-
cíalmente pelo que se rcfcre a nós própriosz tomamo-nos caute-
losos e até desconñados das nossas conclusóes c conhecimentos;
mas esta modéstia e moderação, pode dizer-se que cxprimc a
impressâo vital de toda uma gcração de psicoterapeutas.
Há muito deixou de ser segrcdo que - independentemente
da técnica ou método aplícado -, entre dois terços e três quartos
dos casos sc registrou cura ou pelo menos uma melhoria essen-
cial. Só que eu queria percatar-me contra qualquer conclusào
demagógica. Porque ainda se não deu uma resposta à pergunta
de Pílatos da psicoterapiaz o que é a saúde? O que é dar saúdc, -
0 que é a cura? Uma coisa, entretanto, é indiscutívelz se, seguin-
do muito embora os mais variados métodos, os altos conselhos
ñnais que se apontam são mais ou menos os mesmos, então não
é à técnica aplicada em cada caso quc temos de atríbuir em pri~
meira linha os resultados rcspcctívosx Franz Alexander sustcn-
tou uma vcz esta añrmaçãm «In all forms ofq psychothcrapvn the
personality of the therapíst is his primary instrumcnt». Mas, dc- 1-7
18
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
vcrá isto signíñcar que nos é lícito tomarmo~nos dexprezadores
da témica? Quanto a mím, prcferiria concordar com Hacker,
quc tcve o cuidado de náo ver na psicoterapia uma simples arte
comparável ao charlatanismo, a que se abrcm de par em par
todas as portas. O certo é que a psicoterapia é ambas as coisas:
arte c técnica. Sem dúvida, gostaria de ir mais longe e arriscar
a añrmação de que o extremo da psicotempía, musiml ou témico
conforme o num é, enquanto taL enquanto extremo, mero arte-
fat0. Os extremos só existem propriamente na teoria. A prátíca
dcsenvolve-se numa esfera intermédía, numa csfera que se si-
tua entre os extremos de uma psícoterapia concebida musícal ou
tecnícamente. Entre estes extremos estende-se todo um espcc-
tro; e neste espcctro cada método e télcnica adquire um deter-
minado valor de posição. No ponto maís próximo do extrcmo
musícal estaria o autêntíco cncontro existencial (a «comunica-
ção existenciaJ» no scntido de Jaspers e Bínswanger), ao passo
que no extremo técnico se locaJizaria a transferência em sentido
psicanalítico, e que, como observa Boss num dos seus trabalhos
mais recentes, se «manuseia» em cada caso, para não dizermos
que se «manípula» (Dreikurs). Aproximar-se-ía bastante do ex-
tremo técnico o mziníng autógeno segundo Schultz, e do polo
musícaJ podería dístanciar-se ao max'imo algo do tipo da hipno-
se por música gravada (Scba/pllatrmbypnose).
Quamo a saber com que esfcra de frequência Hltramos as
coisas, por assim dizcr, através do espectro, isto é, quanto ao
método e técnica que julgamos indicado, - ísso dcpcnde não
apenas dos pacientes, mas também do médico, pois, além de
que nem todos os casos reagem ígualmente bem a cada métodoí
também nem todos os médícos se podem saír igualmente bem
(3) Bcard. o críador do conccilo de neurastcnia, já añrmavaz se um médico rrara do
mesmo modo dois casos de neurasrenia, é porque com certcza tratou mal um dos doís.
INTRODUÇÁO
com qualquer técnica. E o que tento explicar aos mcus alunos
servindo-me desta igualdadc:
<y>=X+y
Quer dizer: o método de psicotcrapia a cscolher em cada caso
(y) é dado por uma igualdade com duas incógnítas, não se po-
dendo construir sem se tomar em conta, por um lado, a irrcpe-
tibilidade e o «caráter de algo único»4 do paciente c, por outro, a
irrepetibilidade e o «caráter de algo único» do médico.
Qucrerá isto signíficar que podemos cntrar e cair num eclc-
ticismo ambíguo e pobre? Deverão ser dissimuladas as contra-
diçóes existentes entre os vários métodos de psicoterapia? Não é
possívcl ocuparmo-nos aqui de todas estas questóes. Mas, tanto
quanto no-lo permitem os nossos exames e reHexões, importa
dizer que a nenhuma psicoterapia é lícito impor a pretensão de
exclusiv1'dade. Enquanto náo pudermos depamr com uma verda-
de absoluta, devemos contentar-nos com que as verdades relatiuas se
corr]i'am umm as' oumm e também adotar a comgem da unilatera-
lz'dade, dc uma unilatcralidade que seja consciente de si mesma.
Suponha-se que o Hautista de uma orquestra não quer tocar
«unilateral» e exclusivamcnte Hauta, mas ter à mâo outro instru-
mentoz scria inconcebíveU Com efeito, ele tem não só o direíto,
mas precisamente o dever de tocar «unilateral» e exclusívamcn-
te na orquestra a sua Hauta. Bem entendido, só na orquestraz
porquc, logo que chega a casa, terá a prudente cautela de não
(4) A cxpressão quc pusemos cntre aspas é a tradução de um só vocábulo dcmãoz
EinzigartzgkeiL Já se sabe que outra tmdução possívcl é o Icrmo unicidadu No entanto.
pareceu-mc mclhor a solução adotada, muito mais rigorosamemc exprcssiva do que o
Autor qucr dizer. Já que a palavra alemã qucstionada nâo ñgura cntrc aspas no oríginaL
queria ainda ta.'Lê-lo constaL No resto do texto, scgu1'remos. por via dc regra, idéntico
critério. (N. T.) 19
20
PSl(IO'I'L-'RAPIA E SENTIDO DA VIDA
enervar os seus vizínhos com um concerto unílateral e exclusivo
de Hauta. Seja como for, na orquestra polífônica da psicoterapia
é-nos não só lcgítimo mas também obrigatório cscolher uma
unz'lateralz'daa'e, quepermaneça mnscimte de si mesma.
A arte foi uma vez deñnida como unidade rla pluralidade.
Analogamente, penso eu, pode-se defínir 0 lyomem como mulri-
plicidade na unz'dade. A despeito de toda a unidade e totalidade
da essência do homem, há uma multíplicidade de dimensóes em
que ele se estende interiormente, devendo a psicoterapía segui-
-lo no interíor de todas elas. Nada se pode deixar de tomar aí em
consideração: - nem a dimensâo somática, nem a psíquica, nem
a noética. A pxicoterapia deve-se mcver, portanto, numa esazda
dejtzcá subir C descer por uma escada de Jacó. Nâo lhe é líci-
to descurar a problemática metaclínica que lhe é própria, nem
espezinhar o terreno seguro do empírico clínico. Se a psicotera-
pia se «extravia» em esotéricas alturas, logo devemos chama'-la à
terra, pondo-a de novo no seu lugar.
Com 0 animaJ partilha o homem as dimensóes biológica e
psicológich Por mais que o seu ser animal seja dimensíonalmente
encímado e caracterizado pelo seu ser humano, o homem não
deíxa de ser também um anímal. E, no cntanto, é algo maís do
que isso. Um avião não deixa de poder dar voltas no aeródromo,
em terra, exatamente como um automóvel; embora só se mostre
verdadeiro avião quando levanta voo, isto é, quando se eleva ao
espaço tridimensionaL Da mesma forma, o homem é também
um animal; contudo, em última anáh'sc,é também maís do que
um animal e, na verdade, em nada menos do que toda uma dí-
mensão, a dímensão da liberdade. A libcrdadc do homem não
é, evídentemente, uma liberdade em relação a condíço'es, quer
elas sejam bíolo'gícas, psicológicas ou sociolo'gicas; e, sobretud0,
não é uma liberdade de algo, mas sim uma liberdade pam alg0,
a saberz a liberdade para uma tomzzdzz deposiçáo perante todas as
lNFRODUçAvO
condiçóes. Assim, o homcm também só se rcvela como verda-
deiro homem quando se elcva à dimensão da 11'bcrdadc.
O que acabamos de dizer ilustra a razão pela quaL na teoría,
o príncípio ethológíco é exatamentc tão legítimo com0, na pra'-
tica, o princípio farmacológica Gostaria que isto mc permitis-
se dilucidar a questão dc sabcr se uma psicofarmacologia podc
substituir uma p51'coterapia, ou apenas simplifícáJa ou compli-
ca'-la. E, neste sentido, h'm1'tar-me-ei a uma obscrvaçâoz recente-
mcnte salientou-se o receio de que a terapia psícofarmacológica,
tanto Como o tratamento por eletrochoquc, poderia fazer com
que a prática psiquiátrica se mecanizassc e o pacientc já não fosse
considerado como uma pessoa; entretanto, cu sinto-me na obrí-
gação de dizer que não se entcnde o motivo de tal receio, poís
o que aquí está em causa não é uma técnica, mas sim e sempre
aquele que manuseia a técnica, o espírito com que a técnica é
manuseadaÍ Assim, há de fato um espírito com base no qual
certa técnica psícoterzzp'im é manuseada de modo que «desperso-
naliza» os pacientes c que, por trás da doença, já nâo dcixa vcr a
pessoa, limitando-se antes a ver, na psyc/Je, meros mecanismosz o
homem é refíicadoó - transforma-se numa coísa - ou é manzp'u-
lado a bel-prazer: passa a ser meio para um HmÍ
Aliás, há, a mcu vcr, casos mais graves, de depressào endóge-
na por cxemplo, em que o tratamento por eletrochoque é muitas
vezes inteiramente indicado. A argumentação segundo a qual em
(5) Uma coisa é que eu aplique um aparelho, outm muito díchcme é que eu romiderr
como aparclho c mecanismo 0 p.'¡cicntc.
((›) Lutinismo usado pclo auton (N.T.)
(7) CÍ W. v. Bacycr ((¡e'x¡mrz'/›('iI›/'ünarge - Grsundbtitxpolilik 7. l97. l958): «Um
pacicmc não sc scntc mcnosprando no scu scr humano unicamemc quando nos
intcrcswnos só pclas suus flmçócs corp(›'rcas. mas mmbém quando clc sc sabc obicro
de estudos psíC()l(›'gicos, dc con1paraçóes c nmnípulaçóes. Ao lado do frio obictivismo
da medicim cicntíhwcmnamruL luí lambém 0 Frio objctivismo du psicologia c dc uma
mcdicina imprcgnada dc p51'cologia».
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
tajs casos os scntímentos de culpa não deveriam ser «eliminados
por choquc», por estar ncles latcntc uma culpa reaJ, nâo a tcnho
cu por rccomendáveL Num certo sentido, num sentido existen-
ciaL cada um de nós é culpado; mas este ser-culpado scnsibiliza
os dcpressívos endógenos de um modo tão desproporcionado,
tâo híper~dimensionado, que os impele para o desespero, para
o suícídio. Quando na mare'-baixa aparece um recfze', ninguém se
arrism a afrmar que 0 recfze' é a sua causzL Semelhantemente se
passam as coisas numa fase endógeno-depressiva: torna~se visí-
vel - visíveL mas dcsñguradamente - aquela culpa que está no
fundo de todo scr humano; ist0, contud0, ainda não signiñca
que taJ ser-culpado exístencial também se encontra agora «n0
fundo» da depressáo endógcna, no sentido de que esteja «no
fundo» da psicogêncse ou até da noogénese. Seja como for, é
já bastante digno de nota - cíto um caso concrcto - o fato de
esta culpa existencíal ser patogênica precisamente de Fevereiro a
Abril de 1951 e, poster1'ormente, só de Março aJunho de 1956,
não o scndo cm geral depois, durante longo tcmpo.
Mas ainda há uma coisa sobre a qual eu gostaría de fazer
refletir: nâo será descabido confrontar um homem com a sua
culpa existenciaL prccisamente durante as fases endógeno-de-
pressivas? Uma conduta destas facilmente tería por única conse-
quêncía uma tentatíva de suicídio: seria atirar água ao moinho
de autocensura do paciente. Eu nâo creio que nos seja lícito, em
casos deste tipo, prívar o doentc daquele alívio que o tratamcnto
por eletrochoque, e sobretudo a terapía com o auxílio da psi-
Cofarmacolog1'a, já costuma proporcionar às suas dores.
O mcsmo nâo se pode dizer quando temos de lidar, não com
uma depressáo endógena, mas com uma depressão psícógcna;
não com uma psicose deprcssíva, mas sím com uma neurose de-
pressivaz neste caso, um elctrochoque represéntaria, conforme
as circunstâncias, um defeito de técníca. Defeito que, por seu
INTRODUÇÁO
turno, representaría uma pseudoterapia, mcra dissimuladora da
ctiologia: tal qual a morñna no caso de uma apcndicítc. Isto valc
analogícamcnte para a psicoterapia: também o médico podc pas~
sar por alto a etiologia ncsta matéría. E este perigo é tanto maís
atuaJ quanto é certo vivermos numa época em quc a psíquiatria
c, afinal, a mcdicina, estão conhccendo uma mudança de funçâo.
Aínda não há muito, o professor Farnsworth, da Universidade de
Harvard, numa cxposiçâo à American Mediml Assocz'atz'on, sus-
tentava: «Mcdicine is now confronted with the task ofcnlarging
írs functiorL In a pcriod ofcrisis such as we arc now cxpcríencing,
physicians must of necessity indulge in ph1'losophy. The grcat
sickness of our age ís aimlessness, boredom, and lack of mcaning
and purpose». Dcsta maneira, põem-se hojc ao médíco proble-
mas que não sâo propriamente de natureza médica, mas antes dc
naturcza Hlosóñca, c para os quais ele não sc acha preparado.
Os pacientes dirigem-se ao psiquiatra porquc duvídam do
sentido da sua vida ou porque perdcram mcsmo toda a cspe-
rança de o achar. A este respeít0, eu costumo falar de uma frus~
traçâo cxistcnciaL Bem vístas as coisas, não se trata aqui de nada
patológico; na medída em que especíalmcnte se pode falar de
neurosc, o quc temos de encarar é um novo tipo de neurosc,
que eu denominei neurose noogênz'm. Por toda a parte ela preen-
che, conforme o atestam estatísticas gritantemcnte coincidentes
como as que constam em Londres, Würzburg e Tubinga, cerca
de 20% do movímento dos hospítaís respectivos, e nos Estados
Unidos, tanto na Universidade de Harvard como no Bradlcy
Center ofColumbía, (Gcórgia), já sc começaram a elaborar testes
que permitam díferençar em diagnóstico a neurose noogênica
de uma neurose psicógena (e de uma pseudoneurose somatóge-
na). Um médico que não estivesse em condiçóes de estabelecer
esta diagnose díferencial corrcria o rísco dc renunciar à arma mais
importante que jamais se pôde dar no arsenal psicotcrapêutícoz 23
24
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VI DA
a orientaçâo do homem para o sentido e os wzlores (obs. 1)3. Eu não
consigo imaginar quc a defícieme dedicaçáo a uma missão possa
constituir alguma veZ a única e cxclusiva azusa de uma enfer-
midade física. Mas estou convencido dc que uma oricntação de
sentido (Sinnorientíerung) é um meio de cum
Já estou prcparado para o caso de me objetarem que des-
te modo se estaria exigindo demais ao pacientez porque, o que
nós hoje em dia devemos temer, numa época de frustração exis-
tenciaL não é o exigir demais ao homem, mas sim o exigir-lhe
dc menos. Já nâo temos apenas uma patologia do esgotamen-
to (strm); mas temos também uma patología do desafoga Em
1946 foi-mc dado descrever a psicoãpatologia do desafogo por
morbidez em antigos prisioneiros de guerra. Mais tarde, alguns
trabalhos de W. Schulte bateram na mesma tecla, conceituando
o desafogo como um «ângulo vegetativo do tempo».
Finalmente, as minhas observaçóes foram conñrmadas por
Manfred PHanz e Thure von UexkülL Portant0, já náo vale evitar
a todo o custo as tensóes. Inclino-mc antcs a pensar que o bomem
precím de uma certa medída de temáo, de uma medida saudável
e doseada de temâa Nâo se trata de homeostase a qualquer pre-
ço, mas sim de noodz'námz'ca, conforme a terminologia por mím
adotada para designar o campo de tensão polar que se abre entre
o homem e o sentido - inintcrrupta e irrevogavelmente nele ex-
pectante - da sua realizaçãa Nos Estados Unidos, já se Hzeram
ouvir opiníóes segundo as quais mz psicotempia emícbegando aa
fm uma em epz'curz'5ta, subxtituínd0-a uma em estoz'cz'sta. Quer
dizer que, daqui em diante, já podemos pelo menos dar-nos ao
luxo de dcspachar a orientação e ordenação de um homem para
(8) No Hnal do volume, 0 Autor acrcsccnm um acervo de notas como csta a que aqui
0 tcxto sc refcrc. Para as disrínguírmos das notas que acompanham o texto no rodapé,
dcsignamo-las. na tradução, por obscrvaço'es. (N.T.)
INTRODUÇÁO
algo como o scntido e os valores, a título de «meros mccanismos
de defesa ou racionalízaçóes secundárias». Pelo que me diz respei-
tO ~ e talvez me seja permitido falar aqui cm nome pessoal -, cu
nâo gostaría de vivcr Cm funçâo dos mcus mecanísmos de dcfcsa
ou por causa das mínhas racionalizações sccunda'rías, ou arriscar
inteiramente à toa a minha vida. Decerto, em casos isolados c ex-
cepcionais, deve haver, por tras' da preocupação do homem com
o sentido da sua existência, alguma outra coisa; mas cm todos os
outros casos há apenas uma pura predisposíçâo do homem, que
nós tcmos de tomar a sério, não nos sendo lícito comprimi-la
dentro de um esqucma perceptivo proñssionaL tomado como
um lcito de Procusto. O esquema perceptivo proñssional facil-
mente nos induzíría a analisar ou a tranquílizar parcíalmentc a
preocupação do homem com o scntido da existência, preocupa-
ção essa tão humana quc só 0 bomem pade levantar a questáo do
sentido e pór em questáo o smtído da sua exístêncial Fosse como
fosse, cstaríamos envcredando por uma pscudotcrapía.
A noodinâmíca não é relcvante unicamcnte para a psícotcra-
pia; também o é para a psíco-higíene. Nos Estados Unidos, ba-
seando~se em pesquisa de testcs, Kotchen conseguiu provar que
o conceito de orientaçâo de sentido (Sínnorimtíerung), funda~
mental em logoterapía, - quer dizer, o ser orientado e o ser-orde-
nado de um homem, em funçáo de um mundo do sentido e dos
valores - é proporcíonal à sua saúde espirituaL Davis, McCourt
c Solomon também conñrmaram, no decurso das experiêncías
dc semory deprivatiom que, para cvitar as alucinaçócs ocorrentes,
não basta proporcionar simples dados de scntido (Sinnesdaten),
antes se tornando indispensável restabelecer uma correta refe-
rência de sentído (Sz'nnbezug).
Ora, esta exclusão da referêncía de sentido é precisamente
o que esta', não apenas no fundo de uma psicose experimen-
tal, mas no Fundo também de uma neurose coletiva. Reñro-me 25
26
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VlDA
àquele scntímento dc pcrda do sentido (Sinn/osigkeitsgfàe'/)/),
que pelo visto sc apodera cada vez mais do homem de hoje, e
que dcfini como wícua existencial Atualmente, o homem nâo
sofre apenas de um depauperamento dos instintos, mas de uma
perda da tradiçâo. Doravante, nem os instintos lhe dizem o que
tem que fazer, nem a tradição lhe diz o que devc fazcn Em breve
dcixará de saber o que qucr, para começar a imitar os outros
pura e 51'mplesmente. E, assim, caírá no conformismo. Nos Es-
tados Unidos, os psicanalistas queixam-se de terem comcçado
a lidar com um novo tipo de neurose, cuja característica mais
marcante consiste numa cmorpecentc perda da iniciatíva. O
tratamcnto tradicional - queixam-se os colegas - deíxa-os de-
samparados e não dá resultado em tais casos. Vê-se, assim, que
o brado dos pacientes, a rcclamar um* sentido da vida, produz
entre os médicos o seu eco, isto é, faz-lhes formular um apelo
a novas diretrizcs psicoterápicas. Este apelo soa com tanto mais
urgência quanto é certo que, no caso do vácuo existenciaL trata-
se de uma manifestaçâo coletíva. Cerca de 40/°o dos estudantes
alcmães, suíços e austríacos, que assistiram às minhas preleçóes
em língua alemã, confessaram que haviam tido a vivência e a
experiência do sentímento de uma profundíssima perda do sen-
tido; entre os estudantes dos Estados Unidos que assistiram as\
liçóes em língua inglesa, a percentagem subia a 80%. Natural-
mente, isto não quer dizer que o vácuo cxistencial domine es-
magadoramente os americanos, nem que, enñm, tenhamos que
atribuír o fato à chamada americanização; apenas signifíca que,
pelo vísto, estamos em face dc uma característica das formas
de sociedade superindustrializadas. E, já que Boss mencionou
o tédío como a neurose do futuro, estou em acrescentar que «o
futuro já começou». Mais aindaz foí já profetizado no século
passado por Schopenhauer, que via o homem destinado a osci-
lar para sempre entre os dois extremos da ncccssrdade e do té-
INTRODUÇAO
dio. Em todo caso, nós, os psiquiatras, observamos quc o extrc-
mo do tédio dá mais que fazcn
Entretanto, estará a psicoterapia preparada para tudo? Eu
creio que ela tem que aprofundar mais ou mcnos o seu novo pa-
ch Pelo menos ainda maJ sc descnvcncilhou daquela fasc que -
para usarmos a expressão de Franz Alcxander - estava dominada
pela mentalidade mecanícista. Sc bem que Franz Alexander tcm
também toda a razão cm dizer que é precisamcnte à oríentação
mecanicista e materialista da antiga medicina que nós dcvcmos
prodigíosos frutos. Eu, por mim, prcferiría dízerz Náa temos
mzda de que arrepender-nos, mas muito que subxanan
Uma das primciras tentativas neste sentido foi a que Freud
emprcendeu. A críação da sua psicanálise foi o nascimcnto da
moderna psicotcrapia. Mas Freud teve que emigrar, e com clc
a psicoterapiaL Na realidadc, já tinha cmigrado no dia cm que
a sua conferência na respeitável sociedade dc médícos de Viena
foi recebída com um sorríso dc cscárnio. Hoje, parcce-mc tcr
chegado o momemo de atentar naquilo que eu caracterizcí, no
título de uma conferência apresentada na Sociedade Médíca de
Mainz, como «O regresso dapsicotempía ao lar da medicina». Que
já chegamos ao momento de fazê-lo, é o que se deduz do fato dc
toda uma séríe de tarefas relativas à medícína da alma estarem
esperando por um médico de cabeceira. Seja como for, 0 esforço
médíco aínda está a muitos títulos mecanízado, «despcrsona-
lizando-sc» com Cle 0 pacienm Com efeit0, o esforço clínico
de muitos modos amcaça cristalizar em rotina, para não dízer
em burocracia. E se agora a própria psícoterapia sc contaminas-
se nesta medicina ultramecanizada, prestando homenagem ao
ideal tecnológíco do engcnhciro da alma, tão ccnsurado por
Franz Alexander, o erro seria tanto maior. No entanto, eu penso
poder aHrmar que estamos em vias de conjurar este perígo.
A psicoterapia acha-se, assim, com efeito, no caminho de 27
28
PSICOTERAPIA E SENTIDQ DA VIDA
aterno de toda a arte médica. Mas cste re-
tO o aspecto da psicoterapia como o da
sicoterapia terá de pagar um preço
cina, e este preço scrá a desmz'-
íregresso ao
seío m
gresso modiñcara tan
med1'cina. Realmentc, a p
pelo scu regresso ao lar da medi
tfiazçáo da psz'cotempz'a.
Entrementes, é de perg
anaJ'isc, o regresso da psicoterapla ao
cle realmente a uma ilimitada «psicolog1c1zaçâo
da medlcma»?
Julgo que não é bem assim, Camínhar-se-á não para .u4ma
psic0-
logicização, mas sim para uma reumanízaçáo da medzczna.
Como quer que seja, sempre convém considerar que, por
mais cssencíal que seja para a psicoterapia a relaçáo humana en-
tre médico e doente, nunca nos será Iícito tornarmo-nos dcspre-
zadores da técnica. É quc, o quc desumaniza os pacientes nào
é um método mas sim o espírito com que o método é usado; e
a tentaçâo de rejíimr e manipular os pacientes está pelo menos
tão latentc na psicoterapia como por exemplo no tratamento
psicofarmacológíco ou no que se faz Com ajuda do eletrocho-
quc. Pelo que diz respeito partícularmente à neurose noogênica,
a psicoterapia, não menos do que a somatotcrapia, deveria ter
em conta a verdadeira etiologia durantc 0 tratamento; e 0 vácuo
exístenciaL que cada vez mais se propaga, requer novos princí-
pios (logo)terápicos. O certo é que a psicoterapia só pode dar
vasão à multidimensionalidadc das suas tarefas se se inserir de
novo no conjunto da medicina donde ela emigrou com Freud.
Esse regresso modiñcará tanto o seu próprio rosto como o da
medícina, trazendo Consigo, por um Iado, uma desmitiñcação
da psicoterapia e, por outro, uma reumanização da medicina.
untarz como se efetivará,cm última
lar da medicina? Conduzirá DA PSICOTERAPIA
\
A LOGOTERAPIA
Psicanal'ise e psicologia
individual
Qucm poderia falar de psicoterapia scm mencíonar Frcud c
Adler? E, em sc tratando da psicorerapia, quem poderia deixar
de partír da psicanal'1'sc e da psicologia individuaL para dcpois
e sempre se lhes referír? Não resta dúvida alguma de quc ambas
rcpresentam os dois únícos grandes sistcmas no âmbito psicote-
ra'píco. A obra dos seus criadores impóe-se ao nosso pcnsamemo
na história da psicoterapia, sem que dela possamos prescindin
Ainda que se trate de ultrapassar os princípios da psicanal'ise e da
psícologia individuaL continua válida a sua doutrina como base
das investigaçôes. Stekel exprimiu uma vez belamente os termos
do problema, quando, ao refcrír-se à sua posição a respeito de
Frcud, imaginou um anão que, encarrapítado aos ombros de um
gigante, podía ver maís e mais longc do que o próprío gígante
(obs. 2).
O íntuíto das páginas que se seguem é ultrapassar os límites
de toda a psicoterapia que se fez até agora. Por isso, é prcciso 31
t_›
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
ecisão csses limitcs: antes de nos
de saber se é necessário e em
cumpre-nos determinar
rmais
delimitar com pr
mos sobre o problema
é possível ultrapassá-l.os,l
.
pia tem realmente tals hmltes.
o trabalho cssencial da psicanal'ise à
drena-
nessa reg1ão, as\ águas pr¡m¡_
assim também a
antes dc I
perguntar
que mcdída
que a psicotera
Freud compara
' - : assim comogem do Zulder Sec l
, F teis
tivas se foram conqulstando
terrenos er ,
p51'canal'ise vaí substituindo
o «Id» pelo «Eg0» (Ich); lsto e,
o consciente passará a ocupar o
lugar do mconsaente; obque se
' '
' mediantc a a oli ão
fez mconsaentc deve-se tomar
consc1ente, I ç
dos «recalques». Portanto, do que
se
sultado dos atos de repressão como
processo de m-
em todo caso, que dentro da psicanáli-
trata na psicanálise é de
anular o re
conscientízação. Ja se ve,
se correspondc ao conceito de rep
aliás no sentido de uma limitação do Ego
(Ich) conscxente por
parte do Id (Es) inconscienta Nestes termos,
a psicanálisc vê no
uma privação de poder do Ego
ressâo um signiñcado ccntraL
sintoma neurótico uma ameaça,
(Ich) enquanto consciência; e, por consegu1'nte,
csforça~se a te-
rapia analítica no sentido de extrair do inconsciente
o conteúdo
para restituí-las à consciência e, assim,das vivências reprimidas,
prover o Ego (Ich) de um incremento de poder.
De um modo análogo ao que ocorre na psicanálisc com o
conceito de repressão, desempenha na psicologia individual um
papel principal o conccito de amzngemmL No arrangement, o
neurótico tenta eximir-se de culpa; não há aqui, portanto, uma
tentativa de tornar algo inC0nsciente, mas sim a tentativa de se
tornar irrcsponsável; o sintoma arca, por assim dizer, com a res-
ponsabill'dade, eximindo-se dela o doente. Isto signiñca, eviden-
temente, no campo de visão da psicologia individuaL uma tcn-
tativa (como armngement) do paciente para§ se justiñcar perante
a comunidade ou perante si próprio (a chamada lcgitimação da
doença). A terapia da psícologia individual propóe-se, por isso,
PSICANÁLISE E PSKÍUI ()Gl/\ INDIVÍDUAL
tornar 0 neurótico responsável pclo scu s¡'ntoma, inscrindo-o na
esfera pessoal da rcsponsab1'lidadc, alargando a csfcra do Ego
(Ich) mediante um incrcmento da responsabilidade.
chos, assím, que a ncurose rcprcscnta, para a psicanáll'sc,
em última instância, uma limitação do Ego (Ich) cnquanto
consciência e, para a psicologia individuaL uma limitaçâo do
Ego (Ich) enquanto ser-rcsponsávcl (Verantwortlíchsein). Ambas
as teorias incorrcm numa limitaçâo concêntrica do scu campo
cicntíñco de visãoz uma, convergindo para a conscientidadc
(Bewusstbeit) do homem; a outra, para a sua rcsponsabilidadc.
Contudo, uma reHexão imparcial sobre os fundamcntos origi-
nários do ser humano leva-nos a concluir quc o ser-conscícntc
(Bewusxtsein) e 0 scr-responsável (Verantwortlícbsein) constituem
precisamente os dois fatos fundamentais da existência. Expri~
mindo esta realidade numa fórmula antropológica fundamcntaL
poderíamos dizerz ser-homcm signiñca scr-conscicnte e ser-res-
ponsáveL É bem verdade que tanto a psicanálise como a psicolo-
gia individual consideram um dos aspcctos do ser-homem, um
dos momentos da existência humana; mas só os dois aspcctos to-
mados conjuntamcnte é que evidenciam um verdadeiro retrato
do homem. No seu ponto dc partida amropolo'gico, a psicaná-
lise e a psicologia individual encontram-se cm posiçôes opostas;
mas sua oposição demonstra, já de si, uma complemcntaridade
recíproca. Patenteia-se, assim, com base nesta anal'ise teoréti-
co-cientíñca, que as duas escolas de psicoterapia não nasceram
como produto de um acaso histórico-cultural, devendo-se antes
a uma nccessidade sistemática.
Na sua un1°lateralidade, é claro que a psicanal'ise e a psicolo-
gia individual descortinam um dos lados do ser-homem. Toda-
Via, o fato de que 0 ser-consciente e o scr-responsável se interpe-
netram tem a sua contraprova na circunstância dc a linguagem
humana dispor, por exemplo em francês e inglês, de cxpressóes 33
›.'-
\
PSICOFERAPIA E SENTIDO DA VIDA
scmelhantcs (com a mesma raiz etimológica) para se referir ao
«ser-conscieme» (Bewmxtseín) e à «c0nscíência» (Gewi.rsen); por-
tanto, para se referir a um conceito que toca de perto a «resp0n-
sab1'lidadc». É a unidade da palavra a remetcr-nos para a unida-
dc do ser.
Que o ser-consciente e o ser-rcsponsávcl se entrclaçam numa
unidade, numa totalidadc do ser humano, é coisa que se entende
ontologicamente. Para atingirmos a comprccnsão destc ponto,
podemos começar por atentar em que todo ser é, em cada caso,
c cm substan^cia, um scr~diferentemcnte (Anders-sein). Explica-
mos: aquílo que nós no ente (Sez'md)9 cscolhemos, isoland0-0 da
restante série de seres, só sc pode delimitar na medída em quc é
suscetível de dífercnciaçãa Afinal de contas, só em se referindo
a um ente (Seíend), a um diferentemcntc-ente A(nders-seimd),
é que ambos sc constitucm. Scja como fon a relaçâo entre ente
(Seíend) e difercntcmcnte-ente (Ana'er5-seíend) está aí. Ser = Ser
dfze'rentemente, isto é, «ser-difcrentemente em relação a» A(nders-
sein aÁs): - portanto, relaçâw propr1'amente, só a relaçáo «é» (obs.
3). Podcríamos, por conseguinte, usar esta fórmulaz todo xer é
ser-referída (Bezogen_-sein).
Mas o ser-difercntemente (AnderJ-sein) tanto pode representar
um ser-difercntcmcntc numa relação de vízinhança (um Nebe-
neinandeü como numa relação de sucessão (um szclaeínander).
Ora, 0 ser-consciente pressupõe uma relação de vízínhança pelo
menos entre o sujcíto e o objeto - portanto um ser-diferente-
mente na dimensâo espacíal; em contrapartida, 0 ser-respon-
sável tem por pressuposto uma relação de sucessâo de diversos
estados, a separação entre um ser futuro e um ser presente -,
portanto, um ser-diferentemente na dím_ensão tcmporalz um
(9) O Ser (D¡1x Sein) não é nenhuma exccçãoz «E», em todo caso, udifcrcntcmentc em
relaçãm ao NadaE
..._r..~_,
./-
PSlCANÁLISE E PSICOLOGLA lNDlVlDUAL
tornar-se outra coisa difcrcnte). emmudar (Ana'ers-werden
que a vontade, como sujcito da responsabilidada sc csforça por
conduzir de um estado a outro. A intcrpcnetração ontológica
dos dois COnceitos ~ «ser-consciemc» c «ser-rcsponsa'vcl» - tem
a sua origem, por conseguinte, no primciro dcsdobramento do
ser, como ser-diferentcmentc, nas duas dimensócs das relaçócs
de vizinhança c sucessã0. Das duas possibilidades dc visão antro-
pológica que assentam na realidade ontológica aprescmada, é
claro que a psícanaüise e a psicologia individual escolhem uma
apenas.
Nós bem sabemos quc se deve a Frcud nada mais e nada
menos que a descoberta de toda uma dimensão do ser psíqui-
co'°. Mas Freud entendcu tão pouco a sua dcscoberta como Co-
lombo que, quando descobriu a América. julgava ter chegado
à Índia. Também Freud pensava que o essencial na psicanálise
cram mecanísmos como o rccalque e a trzmsfcrênchH quando na
realidade se tratava da consecução de um maisprofundo conhe-
cimento de si mesmo, mediante um encontro existenciaL
E, no entanto, devemos ser bastante generosos para de-
fender Freud do seu ermdo ronberímmm de si mexma Añnal
de contas, o que é que nos diz a p51'canálise, se nós a ísolamos
de todo condicionamento tcmporaL se a separamos de todas
as cascas de ovo que o século XIX lhe possa tcr pegado? O
edifício da psicanálise assenta em dois conceitos essenciaísz o
do recalque e o da transferência. Pelo quc diz respeito ao re-
calque, nos quadros da psícanálise, é através da Conscientíza-
ção (Bewusstwerdung) quc se elabora a atuação consciente (Be-
wusstmacbung). Todos nós conhecemos a orgulhosa frase de
Freud, ~ eu diria mesmo a sua frase prometeícaz «Onde está o
(10) Viktor E. FrankL Dax Memchenbild dtr Seelenbeilkunda HippokratcsVerlag.
Smttgart l959, pág. 13. 55
36
l'SlÇO'I'ERAPI/\ E SENTIDO DA VlDA
Id (Es), tornar-mc-eí Ego (Ich)». Mas, pelo que sc rcfcrc ao se-
gundo princípío, o da transferência, bem vistas as coísas, esta-
mos, quanto a mim, perantc um vezc'ulo de um entontro existem
a'al. Tanto assim é que a quinta-essêncía da psicanal'1'se, añnal
scmprc aceitáveL admite uma formulação que abrange os doís
princípíos da atuação consciente (Bewusstmachung) e da trans-
ferência: «Onde cstá o Id (Es), tornar-me-ei Ego (Ich)»; ora, o
Ego 50' 56 torna Ego pcmnte o Tu.
Paradoxalmente, a massificação da socícdade industrial traz
consigo um isolamento que acentüa a nccessidade de comunica-
çã0. A mudança de funçâo da psicoterapia, nos Estados Unidos,
o país da loneyl rrowd, jogou a cartada forte da p51'canal'1'se. Mas
os Estados Unidos sáo também o país da tradição puritana e
calvinistzL O scxual tinha sido reprímido no plano coletiv0, e
agora uma psicanálise equivocadamente pansexualista relaxava a
repressão coletiva. Embora, mz rezzlídada seja euídmte que a psi-
mnálise náo em de modo aglum pamexualístzL mas sim e apenas
pandeterminista.
Para falarmos com propr1'edade, a psicanálise nunca foí pan-
sexualista. E hoje cm dia muito menos. O que ocorria é que
Frcud concebia o amor como um mero epifenômeno, sendo
ele, na realidade umfenômmo orzg'i7za'rio da exístência Ímmamz e
não precisamente um mero epifenômeno, qucr no sentído das
chamadas tcndências inibida5, quer no sentído da sublímação.
Fenomenologicamente veríñcowse que, em se tratando de qual-
quer coísa como a sublimação, é scmpre o amor quc precede
esta mesma sublimação como condição da sua possibilidade; e
que, por esta razão, a capacidade de amar -. 0 pressuposto da su-
blimaçâo - nâo podia ser por si só o rexultado de um processo
de sublimação. Por outras palavrasz a sublimação, quer dizer, a
íntegração da sexualidade no todo da pessoa, só sc toma com-
prcensível a partir de um Fundo que é a capacidadc de amar,
PSKMNÁLISE ií PSK IOLOGIA INDIVIDUAL
existencialmentc primária e originár1'a. a solicitude originária do
homem pelo amor. Em sumaz sá o Egv (ch) que tende pam o Tu
pode integmr 0 Id (Es) verdadeiro e prápria
Scheler refcriu-se à psicologia individual com uma obser-
vação desrespel'tosa, dizendo quc ela só valia propriamcntc para
um tipo de homem determinado, o do ambicioso. Talvcz não sc
dcva ir tão longe na crítíca. Em todo caso, pensamos quc o quc
a psicologia individual passou por alto em toda a tendência para
fazer-se valer (Geltungs:treben), que imaginava cncontrar sempre
e cm toda a parte, foi que muitos homens podem cstar anima-
dos por uma ambíção muito mais radical do que a ambiçâo pura
e simples, a saberz por uma ambição que, por assim dizer, não sc
satisfaria de maneira nenhuma com uma honra tcrrcna, estcn-
dendo-se, ao contrário, até muito mais longe, em um etemizar-
-se, de qualquer forma que seja.
Já se consagrou a expressão psicologia profundau onde Hca,
porém, a psicologia das alturas, quc ínclui no seu campo de visáo,
não só a vontade de prazer, mas também a vontade de scntido?"
Cumpre perguntarmo-nos se náo terá soado a hora de vermos,
no âmbito da psicoterapía, a exístência humana, não só na sua
profundeza, mas também nas suas alturas, - pam se ultrapassar
deliberadamente, não apenas o nível do físico, mas também 0 do
psíquico, abarcand0, por princípio, a esfera do espíríto.
A psicoterapia feita até à data bem pouco nos deixou ver da
(11) CE V. FrankL Zmlrzzlblattfiir Pysrlwtberzzpie 10, 33, 19382 «Onde cstá nquela
psicologia tcrapcuticamcmc intercssadm quc inclua cm scu csqucma csms camadns
mais alms da exisréncia humana c, ncstc sentido c cm contrasxc com u nomc dc
psicologia profunda, mcrcça dcnominar-sc psicologia dab alturas?» É vcrdndc quc um
represcntantc dn psicologin das alturas dissc cerm vczz Ídmls arr !/)t' u(ry_ smjiof
mruiual - o homem só podc sobrcvivcr sc vivcr por um idcnlz c. no faur scmclhantc
añrmaçãm pcnsuvn quc cla valc não npcnas paru o homem individuaL mas mmbém parn
a humanidadc como um [0d0. Sabcm qucm é cssc psicólogo das altumsP 0 primcim
dos astronaums :1mericanos, John H. Glcnn, - um psicólogo das alluraa rcaln1cmc...
38
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
[_Írcalidadccspírirud do homcm. Como se sabe, ainda existe, por
cxcmplo, uma ampla oposição entre a psicanzüise c a psícologia
índívidual2 ao passo que aquela contempla a realídade anímica13
sob a catcgoria da causalidade, o que domina no campo de vi-
sâo da psicologia indívidual é a categoría da ñnalidade. A cste
respeiro não se pode nega1'que, como qucr quc seja, a Hnalidade
rcprcsenta a Categoria mais clevada, c neste sentído a psícologia
individual sign1'6ca, em confromo com a psícanálíse, um maior
desenvolvímento da psícoterapia, um progresso na sua hístóría.
Ora, este progrcsso, na minha opiníão, ainda continua em aber-
to, na mcdida em que se lhc pode acrescentar mais outra fase.
Porquc, dc fato, o que se impóe indagar é se com as duas catc-
gorías aduzidas já se esgotou a esfera dos possíveis pontos de
vísta categoriais, ou se pelo Contrário não se devería íntroduzir
a nova categoria do «dever ser», para associa'-la à do «ter que»
(em fuãnção da causalidade) e à do «querer» (em função de uma
ñnalidadc anímica).
Semelhantes consideraçóes podem pareccr, à primcíra vista,
afasradas da vída. Mas nâo o sãoz cspecialmente, não o são para
0 médico, ncm muito mcnos para quem se dedíque à prátíca
p51'c0tera'pica. Tudo está, añnal dc contas, em que se queíra que
0 doente dê de si o max'ímo possíveL Não propriamente o ma'-
xímo possível de segrcdos, mas sim de valor humano, recordan-
do aquclas palavras de Gocthe, que talvez sc pudessem apontar
como princípío supremo de toda a psicoterapiaz «Sc tomamos os
(12) Esta palavrm embora pouco corremc nos lívros da espcuhlidade escricos cm
língua portugucsa. éa única que nos pcrmite conscrvar rigorosamcnte a Lcrminología
do Aulor. Pnra sc rcfcrír às várías dimcnsócs do Scr hum.-mo, Franld usa, afora outros
xcrmns dc sígniñcado o'bvío. os scguíntesz pllyxixrb (ñ”síco); psyrljixrb (ps¡'quic0); grislig
(espirírual): C. ñnalmcnre, JMÍÍJCÍJ quc é o quc tmduzimos por mmnim (dc alma, Die
See/r). Vci;l-sc. .¡*Il".i5. a sccção III do Iivro ondc se Íãla dc udircção dclümms médican
((írulo do original austríaco). Ao longo dc lodn a tradução, u pnlavra nnimico
corrcsponde ínvaríwclmcntc a JeelixtÍL (N.T.)
IISICANÁLISE E PSlCOLOGIA INDIVIDUAL
homens como eles são. Fazemo-los pior-cs. Se os tratamOS como
se eles fossem o quc deveríam sen Conduzimo-Ios aondc cumprc
conduzi-Ios».
Para além dos seus aspectos anrropológicos e das suas catc-
gorías psicopatológicas, podemos agora añrmar quc a psicaná-
lise e a psicologia individual tém, quanto ao respcctívo cscopo
psicoterápico, uma visualização perfcitamcnte diFercnçách Mas
também aqui, mais uma vcz, cncontramos. não uma simplcs
0posição, deparando-se-nos antcs uma espécie dc gradação; -
maís ainda, uma escala que nos parece não ter sído pcrcorrida
aínda até ao ñm. Observcmos, a estc propósito. a cosmovísão
que a psicanálise se propóc e que, conscíente ou inconscientc-
mente, poucas vczes declarada, mas sempre ímplícitamcntc c0n-
tida, está nela latente. Afinal de contas, onde équc a psicanzüisc
quer chegar quando sc refcre ao homem neurótíco? O scu objc-
tívo predetermínado cstá em provocar um compromisso cntre a
pretensão do scu 1'nconscientc, por um lad0, c. por outro, as exi-
géncias da realidade A psícanálise procura adaptar 0 indivíduo,
a sua disposição instintiva (Trieb/)zzflzg'keit), ao mundo cxteríor;
tenta harmonizá-la com a reall'dade, sendo quc esta, muitas ve-
zes - em consonâncía com um «princípio de rcalidadc» - exigc
inexoravelmente a chamada ncgação dos instintos (Triebuersa-
gung). Em contrapartida, 0 objctivo da psicologia indívídual vai
muito mais longc. Para além da mera adaptação, cxigc do docn-
te uma corajosa confíguração da realidade; ao ter-que por parte
do Id (Es), contrapôe o quercr por partc do Ego (Ic/;1).
Ora bem. Perguntamos a nós próprios scr esta séríe dc objc-
tivos não estará incomplcta. se não será permitído ou mesmo
exigido o avanço para uma dimensão mais ampla; se, por ou-
tras palavras, não se deveria acrescentar às categorias da adap-
taçáo e da conñguração uma tcrccira categoria, para chegarmos
a uma imagcm adequada da total realidadc somático-.1ním1'c0-
Tw*
_---'_--_-___-__
40
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA va
mem», - a úníca que, cnñm, nos poria
a csta realidade tâo sua o homcm-espirítual
que é o «ho Í
em condiçõcs de condu21r
Sofrcdor que nos é conñado e que, por seu turno,
se nos conña.
A categoria quc tcmos em mente,
denomlna-la-emos categona
da consumaçâo. Com efeito, cntre a conñguraçao
da v1da ex-
íntima e plena consumação de um homem, ha
ncíaJ. A confíguração da vida é por aSSÍm
ao passo quc a rcalização consu-
terna e a mais
uma diferença essc
dizer uma grandeza extensiva,
' f
mada da vidaé uma grandcza vetorialz trata-se
de uma dlreçao,
uma direçâo para a possíbílidadc
humana está reservada, cncomcndada, C Cm Vísta de cuja reali-
de valor que a cada pessoa
zaçâo efetiva se vive a vida.
Imaginemos, para esclarecer._com um exemplo todas estas dis-
tinçóes, um rapaz novo que cresceu na pobreza e - cm vez de se
comemar com «adaptar-SC» à estrciteza e à pressâo das circuns-
tâncias - impóe ao meio ambiente o seu querer pcssoaL «conñ-
gurando» a sua vida de tal maneira que, por hip0'tese, consegue
estudar para chegar ao exercícío de uma proñssão de relevo. Su-
ponhamos ainda que, seguindo a sua aptidão e inclinação, estu-
da medícina e chega a ser médico; tem então oportunidade de
aceitar uma proposta sedutora dc uma posição ñnanceiramente
lucrativa, que lhe garante ao mesmo tempo uma boa prática;
vence na vida e consegue conñgurar uma existência externamen-
te ríca. Mas admitamos também que o talento deste homem
se refere a um especíal setor da sua carreira, para o qual aquela
posição nâo oferece nenhuma 5aída: sendo assim, a despeito da
feliz conñguraçáo extema da vída, contínuaria sendo negada a
esta vida a consumaçâo íntima. Ainda quc bem acomodado, por
muito feliz que pareça, no seio de um lar instalado a bel-pra-
zer, numa Casa própria, com automóvel de luxo e urn rico par-
que, - este homem, logo que reHita mais profundamente, por
força tem que achar errada a sua vída; e, aoxcomparapse talvez
PSICANÁUSE LÍ PSICOLOGIA lNDlVIDUAL
com a ngra de outro homem quc, renunciando às riquczas cx~
tcmas c a muitas oportunídadcs da vida, sc mantcvc ñcl ao scu
deStino próprio, tcrá que rcfcrir-sc sua vída com as palavras
de Hebbelz «Quem eu sou saúda tristemcntc aqucle que cu po~
deria ser». Em contrapartida, poderíamos muito bem imaginar
que este homem do nosso exemplo, renunciando a uma carrcira
externamcnte brilhante e, conscqucntcxmnte, a muitos bcns da
vida, e retirado a um estreito sctor proñssional ditado pcla sua
aptidão, encontra o xmtido da sua w'da c a sua consumação ínti-
ma fazendo aquilo que cle, e porvcntura só clc exclu51'vamcntc,
podc fazcr melhor. A esta luz, muitos «pequcnos» médicos de
aldcia que permanecem e criam raízes no seu mcio ambientc
parecem-nos «maiores» do que muitos clos seus colcgas chcga-
dos às grandes cidadcs. Do mesmo modo, muitos teóricos, quc
vivem em postos retirados da ciência, podem estar mm's al'to do
\
a
que muítos dos práticos quc, «mergulhados na vida», se lançam
a dirigir a luta contra a morte. É que, na frente de luta da ciên-
cía, lá onde o combate com 0 desconhecido se inicía ou progri-
de, o teórico conserva um setor de combatc realmente peque-
no, ~ mas é aí que ele pode contribuir com algo dc insubstituível
e único, sendo insubstituível no caráter único desta tarefa pes-
soaL Encontrou o seu posto, desempenha-o e, assim, consuma-
se, realimae plenamente a sí mesma
Desta maneira, teríamos conseguid0, como que por um pro-
cesso puramente dedutiv0, o que se poderia classíñcar como uma
vaga no quadro cientíñco da psicoterapia; teríamos conseguido
provar a existência de uma lacuna que espera o respectivo preen-
chimento. Quer dizer: mostramos que a psicoterapía feíta até à
data se caracteriza por uma neccssidade de complementaçâo, a
necessídade de ser completada por um processo psicoterápico
que, digamos assim, se move do lado de lá do complexo de Édi-
po e do sentimento de inferioridade - 0u, em termos gerais, do 41
42
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
lado dc lá dc toda a dinâmica dos afetos (Afektdynamik). Nesna
ordcm dc idcias, o quc está ainda por fazer é uma psicotcrapia
quc retroccda para trás desta dinâmica dos afetos; que, obser-
vando por tras' dos sofrimentos anímicos o homem neurótíco, se
aperceba da sua luta cspirituaL Trata-se, assim, de uma psicote-
rapia «a partir do espírito».
A hora do parto da psicoterapia soou quando se começaram
a ver, por tras' dos sintomas somáticos, as causas anímicas; isto é,
quando sc começou a dcscobrir a sua p51'cogênese. Mas agora, o
quc importa é dar ainda um passo último c, ultrapassando, para
além do psicógcno, a dinâmíca dos afetos da neurose, contem-
plar o homem na sua necessidade espirituaL - para o ajudarmos
daí em d1'ante. Com isto, nâo nos passa despcrcebido, nem de
longc, quc o médico, ao situar-se assim perante o doente, ocupa
uma posiçáo quc está onerada por uma problcmáticzaL Referi-
mo-nos àquela problemática quc resulta da atítudc valorativa,
neccssariamente assumida pelo médicoz com efeito, no momen~
to em quc se entra no terreno de uma necessária «psicoterapia
a partir do espírito», apenas se toma explícita toda a conduta
espiritual do médico, a sua cosmovisáo concreta, - cxatamente
aquela cosmovisão quc até esse momento se achava oculta no
simplcs tratamento médico, na forma de añrmação do valor da
saúdc, quc afinal se contén1, de antcmâo e tacitamente, no fundo
de todo agir médico como tal. Scja como fon o reconhecimento
dcste valor enquanto príncípio último da arte médica está li-
vre de qualquer problcma'tica, pois o médíco pode reportar-se,
a todo moment0, ao mandato da socíedade humana, quc o in-
cumbiu exclusivamente dc velar pclos intercsses sanítários.
No entant0, a ampliaçâo da psicoterapia quc nós postu-
lamos, incluíndo o cspirítual no tratamento anímico do doen-
te, encerra díñculdades e perigos. Destes perígos, sobretudo do
perígo de o médico impor ao doente sua cosmovisâo pessoaL
1
NAi
M
à
PSIUWNÁL ISE E PSICUU XJlA lNDlVIDUAI
ainda falarcmos mais adiante; c além do problcma dc sabcr sc tal
imposição sc pode cfctivamcntc cvilan tcrá quc scr rcsolvido o
problema de sabcr sc. cm princípio, é possívcl a complcmcnta-
çáo da psicotcrapia por nós rcqucrida. Enquanto cstc problcma
estivcr em aberto. 0 postulado de uma «psicotcrapía a partir do
espírito» náo passará dc um desidmtmn A sortc dcsta mcsma
psicoterapia dcpende dc nós conscguírmos também, para além
da deduçáo da sua nccessidadc teorétíca, mostrar a sua possibi-
lídade; e de provarmos por princípío a legitimidadc da inscrçáo
do espirítual (e não apcnas do anímic0) no tratamcnto médico.
Sc nào nos quisermos tornar culpados de quanuer cxtr.1'limita-
ção no quadro da nossa crítica à usimplcs» psicotcrapia, tcmos
quc demonstrar a possibílidadc do valoran dentro da psicotera-
pia. Entretanto, antes dc mctcrmos ombrosa csta tarefa - o quc
farcmos no capítulo Hnal destc livro -, e depoís de nos tcrmos
rcferido já à ínevítávcl presença do valorar cm todo o agir mc'di-
co, queríamos ocupar-nos com a sua ncccssidadcz nào com a sua
necessídadc teorética - com a qual já nos ocupamos antcrior-
mente - mas precisamentc com a sua neccssidadc prática.
Dc fato, a observação empírica conñrma o quc nós pro-
curamos antes concluir dedutivamemez a falta quc faz uma
psicotcrapia a partir do cspírito. Na rcalidada o psicoterapcuta
depara dia a dia, hora a hora, no excrcício quotídiano da pro-
ñssão e nas situaçóes concretas das suas horas de consulm, com
problemas relativos à concepção do mund0. E perame tais pro-
blemas mostram-sc insuñcientes todos os rccursos postos à sua
disposiçáo pela «simples» ps1'coterapia, tal como ela até agora se
tem praticado.
O vácuo existencial
e a neurose noogênica
rAmissáo do médico, de ajudar 0 pacicme a alcançar uma
conccpção de valor c uma cosmovisão ~ a própria do pacícntd -
é, numa época como a atuaL tanto mais urgcntc quanto é ccrto
que 20% das neuroscs aproximadamcntc são condicionadas e
provocadas por aquele scntimemo de nusôncia dc sentido que eu
deñni como vácuo existenciaL O homem nào dispóe de um ins-
tinto que, Como sucede aos animais, lhe dite o que tcm quc fa-
zcr, e hojc em dia não há uma tradiçào que lhc diga o quc dcvc
fazer; em brevc, também nâo sabcrá o quc qucr propriamcntc e
tcrá que estar prcparado, quanto antcs, para fazcr o que outros
quiserem dcle; por outras palavras: tornar-se-á um joguctc nas
mâos dc chefcs e sedutores autoritários e totalitár1'os.
Atualmente, há pacicntcs que sc dirigem ao psíquiatra por-
que duvídam do scntido da sua vida ou porquc já dcscspcraram
até de cncontrar, em geraL um sentido para a vida. Em logo-
terapia, falamos, neste contcxt0, de uma frustraçáo existencíaL
Isto não constitui, em si e por si só, nada de patológíco. Foi-me 45
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
dado conheccr um caso dc um pacíente - de proñssâm profes-
sor unívcrsitário - que foi enviado à mínha clínica cm vírtude
do scu dcscspero quanto ao sentido da cxisrência. Da convcrsa
infcria-sc quc. no caso dele, se tratava propriamente de um es-
tado deprcssivo endógeno. Pôs-se a limpo que as elucubraçóes
sobre o scntído da vida nào o assaltavam, como podcríamos ter
suposto, ao tempo das fases depressívas; pelo contrárío, nessas
fascs, estava tâo hipocondriacamente preocupado que nâo com-
seguía pcnsar absolutamente em nada. E só nos intervalos sadios
é que conseguia pôr-se a elucubrar! Por outras palavrasz entre
a necessidade cspirituaL por um 'lado, e a doença anímica por
outro, havía mesmo, no caso concrcto, uma relaçâo de exclusáo.
Freud via as coísas de ourra maneira, quando escrevia a Maria
Bonapartcz «se se pergunta pelo sentido c vaJor da vida, é porque
13se está doente...»
A Rolf von Eckartsberg, do Depzzrtment fo Somzl Relatiom
da Universídade de Harvard, devemos uma pesquísa detalhada,
de grande envergadura, quc se prolongou ao longo de 20 anos,
c que muito esclarece o nosso ponto. Tratava-se de 100 antigos
estudantes de Harvard e - conforme depreendi de uma comuni-
cação pessoal de Rolf von Eckartsberg - «25% explícaram com
toda a cspontancídade que passavam por uma “críse” rclatíva ao
problcma do sentido da vída. Se bem que, cm parte alcançaram
êxito na sua profíssáo (metade são ativos nos negócios) e ganham
bem, queixam-se de sentir a falta de uma míssâo vítal especíaL a
falta de uma atívidade em que pudessem prestar um contributo
único c insubstituíveL Andam à procura de uma “v0caçã0” e de
valorcs pessoais que os sustcntem».
Na medida em que sc pode falar dc neurosc, temos que lidar
hoje com um novo tipo de neurose, que em logoterapía classiñ-
(13) Sígmund FrCULL Briefê (Cart0m) 1873-1939. Frankfurt am Main 1960.
"'.'
1
o VÁCUO EXISTENCJAL E A NEUROSE N()OGÉNIC^
camos como neurose noogênica. Nos Estados Unidos, tanto na
Univcrsidadc dc Harvard como no Bmdlqy Cemer dc Colúmbia
(Geórgia), clwgaran1~se a elaborar testcs quc pcrmitcm d1'fc'rcn-
gr por diagnóstico a ncurosc noogénica dc uma ncurosc psicó-
gena. James C. Crumbaugh e Leonhard T. Maholick resumcm
os resultados das suas pesquisas nestcs termosz «The rcsults of
225 subjccts consistcntly support anklk hypothesis that a ncw
typc of neurosis ~ wich he tcrms noogenic neurosis ~ is prcscnt
in thC clinics alongside thc convcntional formsz Íhcrc is eví-
dence that we are in truth dealing with a ncw syndrome»“.
Perantc uma neurose noogênl'ca, a Lcmpia cspccíñca que sc
oferccc é a Iogoterapia; mas sc, apcsar dc índ1'cada, um ou outro
médíco a recusa, é de suspeítar quc o faz por mcdo dc cnfrentar
o próprio vácuo cxistencíaL
Diantc da problemátíca cxístcncial quc sc abrc nos cusos por
nós chamados dc neurosc noogênic.1', a psicotcrapia aplicada e
orientada por uma psícodinâmica c analítica unilateral procu-
raria consolar os pacícmcs fazend0-05 csqucccr a sua utrágica
exístência» (AJfred Dclp). Em contraparn'da, a logoterapia, o
que faz é prccismncntc ocupar-sc dcla c tomá~|a tão a sério quc
recusa, como «nothing but defensc mechanisms and rcaction
formations», as suas falsas interpretaçócs psicologísticas c pato-
logísticas. Acaso nâo é consolar - com uma consolaçâo bcm ba-
rata, aliás - 0 reduzír o médico a angústía da mortc do pacícn-
te, como muítas vezes acontcce - cito o psicanalista americano
Burtonlã -, a um medo de castraçáo, tcntando-se resolver desta
maneira exisrcncialmcntc as suas amargura5? Qucm me dcra a
(l4) J. H. Crumbaugh c L. 'I'. Maholick, 7be Px rlwmetrirApprmzrb to Franklk Canctpl
afNoogmic Neura:1'x, joumal of Clinical Psychology 20. 200. 19(›4.
( 1 S) Arthur Burwn. Dmtb ax a Comzterrmmfermm nyclmzzndlysisandtbr P›y(/marm/ytir
Reuiew 49, 3, 1962/63› 47
48
¡,SK»O-¡~Em1›¡A E SENTIDO DA VIDA
da castraçâo em vez de me
a dúvída pungente sobre se
virá a ter sentidolrocupado
pclo medo
gustiante problema,
m día, na hora da morte,
l l ~
se noogen1ca, nao se am-
modiñcou-se também
mim estar prc
aHigir com o an
a minha vida u
arecimento da neuro
onte da psicoterapla;
nsulta médica transformowse num
posm
ara todos os desespcrados da
v1da, pafa tOdOS 05 que
escuta . , ' ' -de _d dPO Semido da Sua VIdEL Ja que «a hlumamdade oc1den
duw am mas para o médlco da alma», como
' o astor de al
'
tal cmlgrou d
p \ I
P _ ,
d' se v GcbsatteL coube
em sorte a p51cotera1a
uma especle de
IS .
função dc lugar-tenente.
E, no Cntant0, parece qulc nmgueml
l
e faltar o sentido da vida; poxs basta a argar um
pouco
na verdade, nos regozijamos com
Sim, regozija_
pliou apenas o honz
a sua clícntela. A co
teria hoje razôes de quei-
xa, por lh
o horizonte para se notar que,
enquanto outros vivem na escasscz.
mo-nos com a ll'berdade; mas onde ñca a responsablhdade
pelos
outros> Milhares de anos atra's, a humanidade lutou
pela fe num
Deus único: pelo monotcísmo; - mas onde Hca o Sabcr de urna
humanidade única, um saber .
zropismd O saber em torno da unidade da humanldade, uma
unídade que ultrapassa todas as diversidades, quer as da cor da
pele, quer as da cor dos partidos.
o bem~estar,
qUC CU gostaria dC chamar momm-
A superação
do psicologismo
Qualquer psicoterapeuta sabc com quanta frequéncia sc lhe
apresenta, no decorrer de um tratamcnto médico-anímico, o
problema do sentído da vida. Entrctant0, 0 sabermos que a dú-
vída de um doentc sobrc 0 scntido da sua vida, o seu descspcro
quanto à cosmovisão respectiva, sc dcscnvolvcu psicologicamcn-
te de um modo ou de outro, pouca scrventía tcm. Quer este-
jamos em condiçócs de lhe dcmonstrar que os sentimentos dc
inferioridadc são a origem anímica da sua carência cspírituaL
quer acredítemos poder «reduzir» a sua Concepção da vida pes-
simista, digamos, a urn complexo qualqucr, fazendo-o acreditar
nisso, - na realidade, apenas cstaremos cmretcndo o doente com
palavreado inútíL Com tudo ist0, não tocamos o cernc dos seus
problemas. Fazemos exatamcntc o mesmo que um médico que,
em vez de proceder psicoterap1'camente, se contentassccom me-
didas de tratamento físico ou prescriçóes medicamcntosas. Vem
a propósito aplicar-lhe 0 sábio ditado que diz: «Aíediaz mmte,
mm mediazmentíwl
O que aqui nos interessa é mostrar que estcs procedimentos 49
FPSICOTEWM
E SENTIDO DA VIDA
sígnificando por igual um
palavreado se afígure,
ícina c ciência.
odos na mcsma linha,
0 doex1tc, ainda quc tal
«sob a ímagem» de med
ermos, para os nossos doentes, pala-
rendamos a entrar na díscussão
meios adcquados, ísto é, com
mos, ou melhor, o quc
médícos estáo t
upalavrcadm para
num caso ou noutro,
O quc importa é nós t
resposta sólidas; quc ap
preendcrmos a luta com r
tuais. O quc nós necessita
' ' '
I . _
ótico tem o direíto
de ex1g1r, e uma crmca uma-
e tende a apresentar nos argumentos ligados
mos quc arriscar, com argumentos con-
rráríos a luta honrada Contra os seus argumentosz
rcnuncían-
7
do a uma argumentação Comodamente heterologa,
que extral
s-suas razões do reíno do biológíco ou até, quem sabe,
do
porque tais argumentos contrários signi-
vra c
para em
armas espirí
o homcm neur
nentc dc tudo o qu
a uma cosmovisão. Te
a
rcíno do socíológico;
Ecariam abandonar o plano - o plano espirltual - em que um
problema foi colocado, em vez de permanecer nele e arriscar e
sustentar a luta espirítuaL a luta por um equacionamento espi-
rítuaL Com armas espirituais. Até por uma questâo de decência
na nossa maneira de ver as coisas, deveríarnos bater-nos com
armas iguais.
É claro quc ocasionalmentc, em se tratando de casos em quc
os pacíenres, além de duvídarem do sentído da sua vida, se en-
contram já desesperados, correndo o pcrigo de se suicídarem,
torna~se aconselhável proceder a uma espécie de prestaçâo de
socorro ínícíaL
Nestes termos, a título de socorro sempre dá bom resultado
aquilo quc se podería caracterizar como academízação da pro-
blemáticac mal os pacíentes se apercebem de que o que os oprí-
me se insere no tema centraJ da ñlosoña da existência contem-
porânea, as suas necessídades anímicas tomam-se transparentes.
Coincídíndo com a necessídade espiritual da Human_idade, os
pacientes passam a toma'-las, nâo como uma neurose de quc te-
77_____*.___7
A SUPEIUKMO DO PSICOLOGISMO
ríam que se envcrgonhar. mas como um sacrifício dc quc po-
dcm ufanar-sc. De Fato, há pacientcs quc, por Hm. sc scntcm
aliviados ao añrmarem quc a problcmática quc os aHige c' tratada
nestes C naqueles termos, por csta ou aquela cscola ñlosóñcaz
porque, na vcrdade. é através dcssa afírmação quc sc distancíam
emocíondmcntc da problemática em qucstáo, objctivando-a cm
termos racíonais.
Qualquer médíco que seja «bem cducado» na crítica do co-
nhecimento refugará portanto o prescrcver, sem mais, uns tran-
quilizantes para o desespero de um homcm cnvolvido nas lu-
tas do espírito. Tentará antes, utilízand0-se de uma psitatempizz
orimtada pelo espz'rít0, dar ao doente um apoio cspiritual pro-
porcionando~lhe uma ancoragem no mundo do espírito. Isto
vale também e sobretudo quando deparamos com o quc se cos-
tuma chamar cosmovisão tipicamcnte neurótiC2L Com efeíto,
de duas uma: ou o doentc tcm razão na sua cosmovisão - c
nessa altura far~lhe-íamos uma ínjustiça se tcntas'semos abordá-
-lo por vias psicoterápicas; portanto. nunca seria lícito desde-
nhar a cosmovisão dum neurótico eo zp'xo, qucr dizer, enquanto
«neurótíca». Ou nâo tem razáo ~ e, ncssa altura, a correção da
sua cosmovisão requer métodos fundamcntalmente dífêrenteg
em todo caso métodos não psicotcnápicos Podcríamos chegar,
por consegu1'nte, a esta formulaçâm se o docntc tcm razâo. a
psicoterapia é desnecessa'ria, - poís é claro quc não temos quc
corrigír uma visualização corrcta; se, porém, 0 docnte náo tem
razã0, a psícotcrapia é impossích pois uma vísualização incor~
reta é precisamente o quc não podemos corrigir, a cxpensas da
psicotcrapia. A psicoterapia que sc tem fcíto até agora revela~sc,
assim, insuñcicnte cm face de todo o cspirituaL Mais do quc
ínsuñciente, aliás: perante 0 cspirituaL ela nem scquer é compe-
tente. De modo que, sc pelo quc anteriormcnte se díscutíu, se
mostrou insuñciente em Face da totalídade da realidade anímíca, 51
PbKÍUYERAPlA F SILN HDO DA VIDA
mostra-sc agora incompctcnte pcrantc a autonomia da realídade
espirituaL
Contud0. csta incompctência nâo sc revcla só ao tcntar-se
uma psicotcrapia das cosmovisócs; podemos vê-la já na chama-
da «psícop;1tologizl da cosmovisão», pressuposta por toda aquela
psicoterapia. É quc, de fato, nào cxiste nenhuma psicopatologia
da cosmovisão. ncm podc existír. Com efcítm uma criaçâo espi-
ritual cnquanto tal é psicologicamentc irredutích mesmo por-
que o espiritual e o anímico são incomensuráveis. Quer dizerz
nunm o conteúdo de uma imagcm cosmovidcnte é suscetívcl
dc scr derivado, no seu tod0, a partir das raízes anímicas do
scu criador. Tanto mais que nunca estamos autorizados a c0n-
cluir, partindo do fato dc estar doente na sua visão o homem
que produz determinada cosmov15'a'o, quc a sua cosmovísão
enquanto taJ seja falsa. Na rcalidada o conhccermos como sc
originou psicologicamente o pessimismo ou 0 ceticismo ou 0
Fatalismo dc um neurótico, de pouco nos serve c cm nada ajuda
o docntc. O quc tcmos que fazcr é rcfutar a sua Cosmovisão, - e
só então passarcmos a ocupar-nos com a «psicogc^nese» da sua
«ídeologia», para a cntendcrmos na pcrspectiva da sua história
de vida pessoaL Não há, portanto, qualquer psicopatología ou
mesmo psicoterapia da cosmovisâo; podc havcr, quando muito,
uma psicopatologia ou psicoterapia do homem concrcto que vê
o mundo, c cujo cérebro produziu a respectiva cosmovisão. Seja
como fon cxclui-se de antemáo a possibílidadc dc uma taJ psi-
copatologia dccídir sobre a correçâo ou incorrcçáo duma cos-
movisâo (c.f Allers). Nem de modo algum essa psícopatologia
podería pronunciar-se a respeito dc um determinado Hlósofm as
suas assertívas só valem, dc antemão e ñmdamcmalmcmq para
a pessoa do ñlósofo em questãa As categorias «sã0» c «clocn~
te», por crla aferidas, só são aplícáveis, caso por caso. ao homem:
nunca, porém, à sua obra. Uma assertiva psícopatológica so-
f
A...__
.-.ÀW_..W...
.3_,.....:_.__
A $Up¡.;¡\›,xg;\u DO rs1(;01.()(;ISM(›
bre um homcm nunca nos podcrá poupar c substituir a an.'\l'¡-
sc ñlosóñca dc uma cosn1ovisão. no scntido dc cxaminar a sua
correçáo ou incorrcção. A saúdc .'1nímica nu dncnça do titular
dc uma cosmovisão não podc ncm dcmonstrar ncm rcpulsnr a
correção ou incorrcção espirítual dcsta cosmovísâoc pnrquc duas
wzar dois sâo quarrm mwmo qmmrio é um przmlüim a ¡_1h“rmzi-lo.
Os erros de cálculo rcvelam-sc vcrificando as comasx náo atra-
vés da atividadc psiquiátricaz nâo é da prcscnça duma paralisia
que concluímos o erro de cálculo; pclo contrário, da vcrificação
do crro de cálculo é quc deduzimos a paralisia. Dcsta mancira,
também contínua a scr por princípio 1'rrclcvanu:. para a aprccia-
çáo dos contcúdos espirituais, o sabcr-sc dc que modo cstcs sc
oríginaram animicamente ou sc sào o produto dc um proccsso
anímico enfcrmiça
Ora bcm. ÍÍoda esta digressão sc prcndc, cm última análisc,
com a questão do psicologismo. Por psicologismo cnrcndc-sc
aqucle proccsso pseudocienrííícn quc. pnrtindn da origcm nní-
mica dc um ato, tcma concluir a v.1'lidadc ou a invalidadc do
scu contcúdo cspírithL É uma rcntativa quc cstá condcnada dc
antemão ao fracassa Objet1'vamcnre, com cfbítm as criaçócs cs~
pirítuais subtraen1-se a tal 1'ntcrprctaç.1"0 hcrcrólogm Nâo é lícito
ignorar jamais a lcgalidade própria dc todo o cspirítuaL inad~
missích por cxempl(). quc, só pcln circunstância dc o conccito
dc Dcus do homcm primitivo dcvcr a sua (›rigcm à angústia dclc
perantc a violência prcpotcnrc dn nnturczxL sc discura a cxís-
tôncia de um scr divino; ou quc. dado o Íato dc um artism ter
Críado uma obra numa sítuação anímíca cnfcrmiçu - digamOS,
numa fasc da vída psícótica ~, sc conclua logo pclo valor ou não
valor dcssa criaça'o. Embom uma vcz ou omra. ocaLsionalmcntc,
uma obra espiritual ou manifcstação Cultural originariamcnte
pura possa pôr-sc a scrviço dc motivos ou intcrcsscs¡1lhciosàsu.1'
natureza, ~ náo é só por isso quc já sc póc cm qucstáo 0 valor
54
íPSKDTLRMWA
E SENTIDO DA VIDA
al. Esquecer a validade ínterna e o
tica ou da vivência religiosa, em
ñns neuróticos, seria ir demasia-
semelhar-se-ia a alguém que,
aravilhadoz «Mas eu pensava
cegonha!» Será que, pelo
secundariamente na co-
do rcspcctivo quadro espiritu
l
valor origínário da criaçâo ams
vista da sua cvcntual aplícação
a
do longe. Quem assim pensasse
as
r uma cegonha, cxclamassc, m
que realmente nâo existia nenh'u.ma
fato de a ñgura da cegonha ser utlllzada
I
nhccida história da carochinha, será que
so
essa ave na real1'dade?
Naturalmente, nâo queremos negar,
s dc algum modo CStâO condICIOnadas p51co-
s ainda biológica e sociologícamente; estão,
cionadas», mas não neste sentido «produzi-
30 VC
por isso já não existe
com tudo ísto, que as
imagens cspirituai
logl'camentc, e mai
neste sentido, «c0ndi
das». Walcler referiu-se com raúo ao fato de que
todas estas con-
dicionalidades das imagens espirituais e manifestaçóes culturais
pouco a «Fonte de erros» dondeforam representando pouco a
sem dúvida brotam doutrinarismos parciais e cxageros, mas sem
permítir jamais a explicaçâo positiva do contcúdo essenciaL da
atividade espirituaL (Qualquer tentativa de «explicação» des-
te gênero confunde 0 campo de expressão duma pessoa com o
campo de representação duma coisa).
Alias', quanto à conñguração da imagem pcssoal do mundo,
já Scheller observou que as diferenças caracterológicas - toda a
individualidade de um homem - só atuam sobre a sua imagem
do mundo na exata mcdida em que inHuenciam a escolha dcs-
ta última, nào entrando, contudo, no seu conteúdo. Daí quc
Scheller denomine estcs clementos conclicionantes «eletivos» e
não «constiCutivos». Sào elementos que apenas permítem enten-
der por que razão o homcm em questáo tem prccisamcnte esta
sua maneira pessoal de contemplar o mundo; mas jamais podem
“eXP_1¡C3r” 0 que é que, nesta vísão úníca, quando não também
parc1al. se oferece da plenitude do mundo. AñnaL a particu-
t
14
E
íz
A SUPERAQÁO DO I'SICOLOGISMO
larídade de cada perspectiva, o caráter de rccorte quc todas as
ímagens do mundo têm, é claro quc pressupõe a objetividadc do
mundo. Assim, também 0 fato de cxistir uma fonte dc crros c
condicionalidades na observaçáo astronômica, como sc podc ver
na conhecida «equaçâ0 pessoal» dos .15'tro^nomos, náo autoriza
nínguém a duvidar de que Sírio, por cxemplo, cxisre realmcn-
te, índependentementc dessas subjetividades. Por conseguinte,
pelo menos por razóes heurísticas, teremos que adotar o crité-
rio segundo o qual a psicoterapía, enquanto tal, náo é compe-
tente em todos os problcmas relativos à Cosmovisá0, poís já a
psícopatologia, com as suas categorias de «são» e «doentc», tem
que renunciar ao problema do conteúdo de vcrdade e da valida-
de de uma imagem espirituaL Consentisse a mcra psicoterapia
em ajuizar do que quer que fosse a este respeito, e incorreria no
mesmo instante no erro do psicologismo.
Assim como na história da ñlosoña o psicologismo fbi venci-
do, assim também agora tem que ser vencido no scio da psicote-
rapia, graças àquilo que nos compraz chamar logoterapia. A csta
logoterapia caberia precisamente a missâo que nós atribuímos à
«psicoterapia a partir do espírito»: a missão de completar a psico-
terapia no mais estrito sentido da palavra e de prcencher aquela
lacuna que começamos por tentar dcduzir teoreticamente, para
depois a verificarmos em contato com a prática médico-anímica.
Só a logotcrapia está metodologicamente lcgitimada para, rcnun-
ciando à tentação psicologística de resvalar em crítica 1'nadequa-
da, íntroduzir-se num debate objctivo da necessídadc espiritual
do homem animicamente perturbado (obs. 4).
Naturalmcnte, uma logoterapia podc e deve, não substituir
a psícotcrapia, mas sim completá-la, - e, mesmo isto, só em
determinados casos. Defam isto, que é o que ela pretende, é o
que vem acomecendo há muito tempo e cada vez majsz a maío-
ria das vezes inconscíentemente; algumas vczes, mas menos, 55
56
rmcmemm
E SENTIDO DA VIDA
vale a pena inquirir se e em quc
Para chegarmos a tal escla-
e metodologicamente
c. No entanto,
pia se dá de z'ure.
os separar, num exam
a vez por razões heurístic
ponente psicotcrápico. Entretanto,
não
de que ambos os componentes se in-
prática médíc0-anímica; de que, por
outro dentro da unidadc da ação
quc também os objetos da
o anímico e o espiritual do
conscicntemcnt
mcdida a logotcra
rccimento, devem
oricntado, mais um
te logoterápico do com
nos csqucçamos nunca
terpcnetmm vivamcnte na
assim dizcr, se fundem um no
médica. Além do mais, é patcnte
psicoterapia e da logotcrapia, isto c,v
só num sentido hCurÍStÍCO se separam um
do outro,
dade rcal da existéncia humana em sua totalidade,
as, O componen-
homem,
pois na uni
num liame indíssolúveL
irnpóe~se portanto continuar a distinguir o
CS-
ambos reprcsentam duas esferas cssencial-
do psicologismo cifra-se precisamente
mente de uma esfera para a 0utra.
nos casos concretos, as leis
entrelaçam~se r
Em princípio,
pirítual do anímico;
mente dist1'ntas“1 O erro
em andar mudando arbitraria
Assim, náo toma em consideraçâo,
l, e este descuido tem que conduzir natural-
génos. EvitáJo no
próprias do espiritua
mente à consumação de uma metábasís eis Líllo
campo da ação psicoterapêutica e, assim, venccr o psicologismo
no scio da psicoterap1'a, - eis o propósito e a incumbência da
logoterapía que nós postulamos.
(16) CE V. E. FrankL 7btaríe und 77mn 'ed N ' ' '
m '
und B"'-'tf'lzll7ldylse, Viena 1956, Pág
161p¡e ssfr
euroxm Ezrfzubrung m Logotbepte
›-..-›~m
_
O reducionísmo genético
e o pandeterminísmo analítico
H0)e.v1vemos numa época dc espec1'alístas, e o que eles nos
proiporcmnam são simples perspectivas partículares e aspectos da
reahdada Dfieonte de árvores dos resulmdos dapesquisa o e '
saidorjzí náo Uê 0 bosque da realídada Mas os rcsultadoys dpasqeusl:
qulsha não são apcnas particulares; sáo também dispcrsos ur inpdo
fun.dl-los numa imagem una do mundo e do homem Oy cegrto '
qu-e Já nâo se pode desandar o quc se and0u. Numa é. oca 'e
esulo de pesquisa se caracteriza pelo trabdho em equip,eP é atceunJ-O
te qu'e nã_o podemos passar sem os especialistas. Seja compo for
o perzgo mzlo estzí em ospesquimdom se esperíalizarem, mas sim em,
dque 05 eslpeczallismx gmeralizem Todos nós conhecemos os chama-
agoosraterrazblels szmpljíimteurx Mas, ao iseu lad0, podem-se colocar
Ique es que me apraz denommar terribles génémliszzteurs
Os rerrzbles simpljíimteurs simpliñcam tudo; medem tudo elai
mesma bitola. Os terríbles ge'rzéralz'szzteurs, porém, nâo se contPen-
tam com a sua bitolaz generalizam os resultados da sua pcsquísa
Como neurólogo, convenho em que é absolutamcnte legítimol 57
*_1
zIÍ ,
Lãfê
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VlDA
considerar o romputer como um modelo, digamos, para o sis-
tema nervoso centraL O crro está apenas na asserção segundo a
qual o homem nâo é mzda mais quc um computer, pois é ao mes-
mo tempo inñnitamentc mais do quc um computen O m'ilzs'mo,
nâo é que zire a mas'cara falando do nada; o quefaz é mascarame
rom a locuçáo «naa'a mais que».
Sob a influência da psicanálísc, foi alastrando na psicotcra-
pia a tendêncía para «pcrsoniñcar instâncias» intrapsíquicas. Na
cstcira desta tendência, cstigmatizada por Boss, adquiriu foros
dc cidadania a propcnsão para farejar em toda a partc truques
c artimanhas, a ñm de em scguida os desmascarar e pôr a claro.
O fato dc estc fízror analisandi como lhe chama Ramon Sarro
(Quinto Congresso Intcrnacional de Psicotcrapia, Viena 1961),
não se deter perante o sentido e os valores, ameaça e faz pcricli-
tar a psicoterapia nas suas raízes. Os amerícanos falam, a este
respeito, num reductíonísm O reductíonixm podcria eu deñni-lo
como um proccsso pseudocientíñco mediante 0 qual os fenôme-
nos espcciñcamente humanos são rcduzídos a fenômenos sub-
-humanos ou destes se deduzem. Quer dizer, por Conseguínte,
que, cm termos gerais,o reducionismo se poderia definir como
um memmzmísma Por trás do amor não haveria, pois, senão os
chamados impulsos inibidos; c a conscíência não seria mais do
que o supcr-cgo (Úber-Ícb) (a psicanálíse realmente modcma já
há muito quc não continua a sustentar como Correta a ídcntíñ-
cação da conscíência com o super-Ego, admitíndo e propondo,
pelo contra'rio, a difcrença entre uma c outro). Numa palavra,
fenômenos especiñcamente humanos, como consciência e amor,
transformam-se em meros epifenômenos. Como se o espírito
fosse apenas a maís alta atividade nervosa, conforme a designa-
ção de um bem conhecído trabalho de um invéstigador famosoz
uma cspécie de epfze'n0meno/ogia do espz'rz'to...
Ao niilismo cientíñco tal como 0 exprime o reducionísmo,
0 REDUCIONlSMO GENÉTICO E o PANDETERMINISMO ANAI 1 I'l(,'()
corresponde o niilismo vivido. já que como tal sc podc intcrprc-
tar o vácuo cxistenciaL Efet1'vamentc, com o vácuo cxistcncial
colabora o rcducionismo, dada a sua tcndéncia pnra manuscar
o homem. rcíñcando-o, Coísifícando-o c dcspcrsonalimndo-o.
'Ie'm visos de ouerstatement, nâo o único ccrtamcnte, a cxpli-
caçáo do jovcm sociólogo amcricano William Irving Thompsom
«Humans are not objects that exist as chairs or tablcs; thcy livc,
and if they ñnd that their lives are redured to thc mcrc cxístcncc
of chairs and tables, they commit suicidc» (Main Currmn in
Modern Ybougbt I9, 1962). E, dadas certu circunstâncias, fa-
zem-no realmentcz uma vez, enquanto dava uma confcréncia na
Universidade de Ann Arbor (Michigan), disscrtando sobre 0 vá-
cuo cxistcnciaL 0 Dam ofStudent5, o asscssor dos estudantes, en-
trou na discussão para ahñrmar quc 0 vácuo existcncial cra 0 quc
lhe aparecia diariamcntc no consultório, c quc cstava prcparado
para me rcunir toda uma lista dc cstudantes quc, prccisamcnte
em virtude das suas dúvidas sobre o sentido da vida, acabaram
por desesperar, tendo tcntado o suícídio.
Os autorcs americanos foram os primeiros a adotar uma po-
siçâo de autocrítica, fíxando a sua atenção no dito reducionis-
mo: os primeiros que, atendo-sc ao postulado de rcconhcccr o
verdadeiro tal qual é - admitindo-o, como clcs dizcm, «at facc
value» -, ñzcram coro com a investigação fenomcnológica euro-
pcia. Isto não aconteceu scm que, cm todo caso, rcconhecesscm
o contributo de Sigmund Freud; simplcsmentc, viram nclc um
especíalista em motivos que prccisamemc não podiam rcconhc-
ccr como verdadeiros. Assim, Gordon W. Allport. o psicólogo
maís representativo da Universidadc de Harvard. deñnc Freud
Como «a specialist in preciscly those motives that cannot bc
taken at their face value» (Personaliz§y rznd Social Encoumen Bca-
con Press, Boston 1960, pág. 103). A título dc excmplo, toma
Allport a posição de Freud a respeito da rcligiàoz «To him religion
k
60
PSICUIERAPIA E SENHDO DA VIDA \::)REDULIlONlSMO (]L'*Nl-;"I'l(."0 E 0 PANDHITxRMlNISMO ANMÍYKÍU
is esscntially a neurosis in thc individuaL a formula for perso_
nal cscapc. Thc father image lies at the root of the matten One
cannot thercforc take the religíous scnt1'ment, whcn it exists in a
personality, at its face value» (1. c., pág. 104).
pensa no problcma dc sabcr sc a ncurosc não scrá antcs a consc-
quência dc sc tcr posto cm prática uma mosofm crrôncal
Mas o rcducionismo ncm scqucr tcm rawáo quando sc \1'm\'ta
a uma interprctaçào gcnética e analítica, nâo já dos cmprccndi-
mcntos humanos, mas até das perturbaçócs dcstcs cmptcn-
dimcntos; por cxemplo, dignmos. quando rcdux a pcrda dc fé dc
um homcm à sua cducação c ambicntc. Assim, añrma-sc quasc
semprc, em tcrmos gerais, quc é à inHuência da imago do pai
que, no caso concrct0, se dcvc atribuir a dcformação da imagcm
dc Dcus, bcm como a rencgação de Deus.
Allport tem bastante razão ao añrmar ao mesmo tempo que
um proccsso interprctativo deste tipo é realmente antiquadoz «In
a communication to the American Psychoanalytic Association,
Kris points out that the attempt to restrict interpretations of mo-
tivation to the id aspect only “represcnts the older procedure”.
Modcrn concem with the ego does not conñne itself to an analy-
sis of defensc mechanisms alone. Rathcr, it givcs more respect to
what he calls the “psychic surface”» (1. c., pág. 1Á03).
A estc propósito, pcrmito-me aduzir alguns dados. Os mcus
colaboradores deram-se ao trabalho de acompanhar uma séric
A questão é que, na problemática aqui abordada não há ape- de casos, tirados à sorte cntre os quc se aprcscntaram no cspaço
de 24 horas, para obscrvarcm nclcs as corrclaçôcs que dcixavam
entrevcr entre a imago do pai e a vida rcligiosa. No dccurso da
sua pesquisa estatística, pôs-sc a claro que 23 pcssoas possuíam
uma imago do pai dotada dc traços absolutamcnte posin'vos, ao
passo que 13 não sabiam declarar nada de favoráveL E, coisa
digna de notaz das 23 quc haviam crcscido sob uma boa estrcla
pedagógica, só 16 sc encontraram mais tarde cm boas rclaçócs
com Deus, tendo abandonado a fé as 7 rcstantcs; por outro lado,
dentrc as 13 quc haviam sido criadas sob os auspícios dc uma
imago do pai negativa, apenas havia 2 quc se podcriam qualiñcar
como irreligíosas, enquamo nada mcnos do que 11 tinham sido
lcvadas a uma vida crente. Portamo, as 27 quc sc mantêm reh'-
giosas mais tardc nâo sc rccrutam .1'pcnas, dc modo algum, cntre
o círculo daquclas pcssoas quc crcsceram num mcio favorávcl
e aquelas 9 que sc tomaram irreligiosas também não pudcrar
atribuir a sua irrcligiosidadc cxclusivamcnte a uma imago do p '
nas um aspecto material a considerar; há também um aspecto
humano. Cumprc pcrgumarmo-nos, portanto, para ondc ire-
mos, se no âmbito da psicoterapia deixam de scr considerados
como verdadciros o scmido e os valores, em função dos quais
víve o pacicntcz o próprio pacicme já nâo é tomado a sério como
homem Podemos exprimir cstc estado de coisas recorrendo à
fórmula seguintcz já se não acredita na sua fé. Ou então, para
falarmos outra vcz com as palavras de Allportz «The individual
loses his right to be belicvcd» (1. c., pág. 96). difícil imaginar
como é que, em tais circunstâncias, ainda se pode construir uma
conduta conñada.
A ñarmomos no tcstemunho de Ludwig Binswanger, Freud
considerava a ñlosoña como «nada mais» que «uma sexualida-
de rcprimida pclas formas mais deccntcs da sublimação» (Erin-
nerungen an Sigmund Freud, Berna 1956, pág. 19). Quanto nào
deve parecer suspeita a um epígono psicanalítico a cosmovisáo
privada e pcssoal de um pacicme neurótic0.| Dcntro desmóticm
nâo é de csperar da ñlosoña nada mais do quc a teorização ou
até a teologicizaçáo de uma neurosc disfarçada. E nem scquer se
negativa. Mcsmo quc, nos casos cm quc sc aprcscmou uma ccz
relaçâo emre a imago do pai c a imagcm de Dcus, pudéssenn
entrever um rcsultado da cducnçâ0, teríamos que admitir u,-
LÓZ
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
que a imago do paí e a imagem de
O homcm Capaz de discernímento
e opor resistência a determi-
missócs - não a menos
rüzusnáo
são congruentcs. d
cstá prccisamentc em condlçocs
d
nativos falsos da sua conduta.
E uma as l
'a é evocar este ser-11vre peramcal" -da sicoterapl . .
las tpe todo-poderosas. A ñlosoña, mJuríada
blimação da scxualidade reprimída»
(veja-se acíma), é que pode mostrar ao pacx'e,nte
o cam.inho para
uma dilucidaçâo desta liberdad6. E nâo
fanamos mals do que
m Conselho dc Kant, Sc nos propuséssemos aplicar
a ñ-
uma rncdicina! Condenar isto a Íímine é inadmís-
que também é perfeitamente val'ido
1'mportante,
as condiçóes falsamen
como «nada mais» que «su
scguir u
losofía como
síveL Lembremos, dc resto,
por excmplo, no âmbito da medxcma.aplicar a química,
Contra um sadio determinismo, é claro que não haveria nada
a dizer; mas o quc nós temos que contraminar é aquilo que eu
tentei deñnir como «pandetermínismo»17. Evídentemente, o
homcm está determinado, ísto é, sujeito a Condiçóes, quer se
trate de condíçóes biológicas e psicológicas, quer de condíçóes
sociolo'gicas; e, ncste semído, de modo algum élivrez o homem
não está livre de condiçóes e, em geraL não está livre de algo,
mas Iívre para algo, quer dizer, livre para uma tomada deposiçáo
perante todas as condiçóes; c é precisamente esta possibilidadc
propriamente humana que 0 pandeterminismo de todo em todo
esquece e desconhece.
Não preciso de que ninguém me Chame a atenção para a con-
dicíonalidade do homemz - añnal de contas, cu sou especialista
em duas matérias, neurologia e psiquiatria, e nessa qualidade
sei muito bem da condicionalidade biopsicológíca do homem;
(l7) lDe braço dado com o pandcterminisn10, portanto com um detcrminismo
exorbftanta andam, cm geraL cerro subjedvismo e ccrto relatívísmo não menos
CxÀorblrlantes. O prímeiro traduz-se especíalmente nas tcorias da motivação, c tantoassxm e que segue a oríentação da homeo'stase, em termos unilatcrais e cxclusivistas.
0 RIÉDUCIONISMO GENÉTICO E O PANDETERMINISMO ANALÍTICO
acomeccl Porérm quc não Sou
aPcnas CSpecialism cm duas ma_
térias, sou também sobrcvivcnte dc quatro campos dc Conccn_
traçâo' e Por isso mmbém SCÍ Pcrfeitamcnre
até ondc vai a liber-
dade do hommm que é CaPaz
dc se clcvar acíma dc toda a sua
COHdÍCÍOHalÍdadC e de resistir às mais rigorosas e duras condíçócs
e circunstâncias, escorando-se naquela Força que Cosmmo dcno_
minar o poder de resistência do espírito.
63
Imago hominis
Para salvar o humano, cm vista das aspiraçócs rcducionistas
a uma ciência plurall'st.1', náo pouparam esfo.rços, entrc outros,
Nicolai Hartmann, com a sua ontologia, c Max Schelcr, com a
sua antropologia. Distinguiram estcs autores divcrsos graus ou
camadu como o corporaL o anímico c o espirituaL Corresponde
a cada qual uma ciênciaz ao corporaL a biolog1'a; ao anímíco. a
psicologia, etc. Assim, à divcrsidade dos graus ou camadas cor-
responde precisamentc 0 pluralismo das cíências. Mas é dc pcr-
guntar2 onde fica a unidadc do homcm? Quc ó quc ñzcram do
ser-homem, que o destroçaram, pondo-o como uma ccrâmica
dc cacos e rachaduras, de «ñssuras qualitativas» (Hcgcl)? Como
é sabido, deñniu-se a arte como unidadc na plur;llídadc. Pois cu
gostaria de dcñnir agora o homcm como unidadc apesar da plu-
ralidadez porque há uma unidade antropológica apcsar das dife-
renças ontolo'gícas, apcsar das dífcrenças cntrc as cspécics dc scr
difercnçávcis. O sínctc da cxisténc1'.1' humana é a cocxistência da
unidade antropológica com as difcrcnçm~ 0ntológicas. dos modos
de ser humanos unos com as cspécies dc scr difcrcnçávcis, cm ()5
7
66
l SCHt3-SC como SC SCgUCZ
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VlDA
a cxistência humana é «unitasmama afm Em Su ' . .
Cla to P Palavras do Aqumate. Esta umda-
dequadamentc, nem o pluralismo
e encontramos na «Benedicti de
que aqu
multiplcxm
de, porém,
ncm um monismo como
o qu
' ' rd ' omemfonozxz ttbzaz omege
. . . l
SPI
0 csboçar em seguida uma zmago bomzms
uordlne
do homem que opera
demomtmta'. Não obstante, seja-
mc pcrmitid
monstrata», uma imagcm
se de uma ontologm dimensio-gcométrico
de T
com analogias geométr1cas.
rata-
nal (ank1, jabrzmb fir Psychologie und Pvcbotmeie 1› 186›
1953) caractcrmda por duas lcis. A primeira
destas lcis repre_
Jéo
Se tomamos uma e a mesma coisa numa dada dimensão c a
projetamos cm várias dimensóes inferiores àquela quc lhc é pró-
pria, a coisa em questão rcpresenta-se de tal modo que as ñguras
obtidas se opócm umas as\ outras. Tomemos por exemplo, um
copo, representado gcometricamente sob a forma de cilindro,
cm um espaço tridimensional. Projetcmo-lo em seguida nos pla-
nos horizontal e longitudinah c teremosz num caso, um círculo;
no outro, um retângulo. Observe~sc, entretanto, que as ngras
obtidas só sc opôcm cnquanto se trata de um quadro fechad0,
ao passo quc o copo é um recimo aberto.
A segunda das leis mencionadas exprime-se no quadro se-
guintcz
quo HuMINIs
Como sc vê pclo quadro acima, tomamos agora várias coisas,
em lugar de uma só. Projctamo-las, náo em várias, mas numa
mcsma e única dimensão, que é também infêrior àqucla quc lhcs
é própria. O resultado obtido aprcscnta-se de tal modo quc as
ñguras rcspect1'vas, em vez dc se oporem claramcntc, são suscctí-
vcis dc vários scntidos. No exemplo acima, tomamos um cilin-
dr0, um cone c uma esfera, num cspaço tridimcnsionaL c projc-
tamo~los no plano horizontaL resultando, como sc vc^, cm
qualquer dos três casos, um círculo. Convcnhamos cm quc se
trata das sombras que o cilindro, o conc c a csfcra projetam; c,
realmente, as sombras são suscctíveis dc vários scntidos (equívo-
cas), pois eu nâo posso conclu1'r, partindo das três sombras cer-
tamente iguais, se 0 que as projeta é um cilindro. um cone ou
uma esfera.
Como aplicar ao homem tudo ist0? É quc mmbém 0 ho-
mem, tomado na dimensão do especiñcamentc humano c pro-
jetado nos planos da biologia e da psícolog1'a, sc rcprcsenta de
tal modo que as ngras obtidas sc opóem umas às outra. Com
efeito, a projeção no plano biológico tcm por rcsultado fenô-
menos somáticos, ao passo que a projeção no plano psicológico
tem por resultado fenômenos psíquicos. Mas, à luz da ontologia
dimensionaL a oposição não sc faz à unidadc do homcmz faz-se
Ião pouco como a oposição entre 0 círculo c o retângulo se faz à
mós
pSKÍOTERAPlA E SENTIDO DA VIDA
as projeções de um mesmo e único
não percamos dc v15ta uma consaz a umdadc
dos modos dc scr humanos, que líga
a pluralldade das espec1es
dc scr dífcrcnçávcís a que ela sc refcrc
portanto, a llgação dos
3 c a Pjyfbf, a coincídmtia opposítorum no
ano, debaldc a procuraremos nos planos
mcm. Encontrá-la-cmos antes e unica-
rcalidadc, scndo, como sao,
cilíndro. Contudo,
opostos como o som
scntido dc Nícolau Cus
cm que projctamos o ho
mente na dimensão imediat
do especiñcamentc humano.
uc deste modo pretendamos resolver o problema psi-
podc ser que a omologia dimensional projete sobre
a luz, mos_trand0-nos por que é quc é insolúveL
ssa com o problcma do livre-arbítrio. Com
amcnte mais clcvada, na dimensão
Não é q
cofísica Mas
0 problema ccrt
Coisa anal'oga se pa
efeíto, sucede no caso do homem exatamcnte 0 mesmo quc no
caso do recinto aberto, ao ser projetado nos planos longitudínal
e horizontal dc um quadro fechado. O homcm é representado
no plano biológico como um sistema fechado de rcHexos BSio-
lógicos, e no plano psicológíco como um sístema fcchado de
reaçóes psicológícas. Mais uma ch, portant0, a projcçâo tem
por rcsultado uma oposiçâo. Mas, porque pertencc à cssência do
homem 0 ser ele, em todo caso, aberto, 0 ser «abert0 ao mundo»
(Schelcr, Gehlen e Portmann), - ser homem sígniñca, já de si, ser
para além de si mcsmo. A cssência da exístência humana, díria
eu, radica na sua autotransccndênc1'a. Ser homem significa, dc
per si c sempre, dírigir~se e ordcnar~se a algo ou a alguém: entre-
gar-se o homem a uma obra a que se dedica, a um homem quc
ama, ou a Dcus, a quem serve. Esta autotranscendência qucbra
os quadros de todas as imagens do homcm que, no sentido de
algum monadologismo (Frankl, Der Nervenarzt 31, 385, 1960),
rcpresentem o homem como um ser que não atingc o sentido
e os valores, para além de si mesmo, oríentando-se, assím, para
o mundo, intercssando-sc exclusivamentc por si mesmo, como
lMAGO HOMINIS
sc lhe importassc a conscrvação ou 0 rcstabclccimcnlo da ho-
meosma O monadologismo ignora quc, como demonstmram
Von BcrtalanEy, Goldstcim Allport c Charlortc Bühlcr. o prin-
Cípio da homeostase náo vale gcralmcntc na biolog¡'a, c muito
enos na psicologia. Mas, à luz da ontologia dimcnsionaL o ca-
ráter fcchado do sistema de rcHexos ñsiológicos c dc rcaçõcs psi-
Cológicas náo está em contradição ncnhuma com a humanidadc
do homcm. Podc-se dízcr que ml contradição cstá tãO longc de
se vcriñcar como a que sc imaginassc existir cntrc o carátcr Íc-
chado do cilindro do plano longitudinal ou do horizontal c 0
caráter aberto que tem dc per si.
III
Parece-nos agora igualmemc claro quc os rcsulmdos obtidos
nas dimensóes infcriorcs continuam a tcr a mcsma validadc quc
dantes, dcntro dcssas dimenso'cs; e isto nplicmsc na mcsma mc-
dida a orientaçócsde pcsquísa táo unihtcrnis como a rcHexo-
logia de Pawlow, o bchaviorismo dc \X/atson, a psicanálise dc
Freud e a psicologia individual dc Adlcr. Frcud crn suñcicntc-
mente genial para sabcr da cstrcitcza dimensional da sua teoria.
Alias', são dele estas palavras quc escrcveu a Ludwig Binswangen
«Sempre me detivc no rés do chào c na cripta do cdifício».
tentativa do rcducionismo na forma dc psicologismo - cu dirin
mesmo de patologismo - Frcud só ccdcu nu momcnm cm quc
chegou à scguinte conclusâoz «Pam a rcligiãu já cncontrci um
cômodo na minha modcsta casinh.1', dcsdc quc tropccci com a
catcgoria dc “ncurosc da humanidadc”» (l.c.). Aqui é quc Frcud
SC cnganou.
Mas a sua exprcssão «m0dcsta'” casinha» é uma exprcssão
programática, um lema. Seja como for, cumprc csclarccer quc.
(18) A palavm m'ea'rig. quc ñgura nn frasc dc Frcud cimda pclo Auton c quc ncm
frasc traduzimos por «madexta». é a mcsma quc. linhas abaixm aparccc tmduzida por
inferian (N. T.)
rúm
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
e fala de dimensócs inferiores
ou supcrlores, nao se pre-
nciona ainda 1mpllc1tamen-ma hicrarquia nem se mc
. . l
dc valor No sentido da ontologla
dlmcnsmnaL 0
ao falar de uma dimensão superíor, é que se
com uma dimensâo mais compreemzm, que mclu1
e
mensão infcrior. A dimensão inferíor c portanto
cxatamente no sentído plúri-
quando s
judica u
tC um JulZO
quc se quer dizer,
cstá lidando
abarca uma di
«clevada»” à dimensão super10r, . E émo que Hegel confere a estc termo
l
continua a ser de algum modo ammal
assim que o homcm,
uma vez tomado homcm,
'e planta. Isto em nada se dlstmguc
avião, que, em qualqucr hipo'tcsc, não perde a capacndade
de se
deslocar no chão, como um automóch Ev1'dentemente, só pro-
va 0 seu scr de avião quando decola c sc eleva no espaço. Embora
scja indiscutível quc um técníco pode comprovar logo desde o
momento em quc o fabrica, se o avíâo, mesmo antes de ter voa-
do efetivamcnte, é capaz de fazê-lo. Com isto queria aludir a
Portmann, que pôde veriñcar que a humanidade do homem até
na anatomia se pode rastrear. Com efeito, 0 próprio Corpo do
homem está já marcado pelo scu espírito.
do qluc ocorre no caso do
A ciência, porém, não só tem o direito, mas inclusive o de-
ver de pôr entre parênteses a multídimensionalidade da reali-
dade, de Fechar o diafragma da objetiva com que contempla a
realidade, de ñltrar uma determinada frequência do espectro
da realidade. A projeção é, portant0, mais que legítima: é obri-
(l9) O termo aJcmão quc traduzimos por «clcvadan é aufgehobem particípio dO VCrbO
aufbtbem quc signiñca. por exemplo, lcvamar uma coísa do cháo para pÔ-la mais acima,
mas cngloba ainda 0 sentido dc riran eliminar (tal/ere, em larim), Para compreender
bcm o Autor ímporta lcmbmr o papel do termo na linguagem de HegeL Este. como
se sabc. toma o conccito (um'umal concreto) como unidade xuperior na qual a tese e
fzmítfse são comervadm e xupemdaL scm se excluírem: o processo da realidada quc SC
ldcnnñca com o do pensmcntm evolve ncsses três momentos - tesc, antítese, sínrcse.
HA passagem_ dos dms primeiros momcntos, contraposros, para a síntCSC, CXPFÍmÔaegcl precxsamente com a palavra atfhleben. (N.T.)
à
IMAGO HOMIN lS
gatória. O Cientista tem que continuar a Hngir quc opcra com
uma realidade unidímensionaL Mas tem quc saber também o
que está fazendm e isto sígnifica quc tcm dc sc apcrccbcr das
fontes de crro que a invcstígação perlustra.
Assim chegaríamos ao ponto cm quc se aplica ao homcm a
chunda leí da ontologia dimensionalz sc cu, cm vez de projctar
ñguras tridimensionais num plano dc duas dimcnso'cs, projcto
figuras como Fiodor Dostoievskí ou Bemardcttc Soubirous no
plano psíquiátrico, para mim, enquanto psiquiatra, Dostoievski
não passa de um epilético como qualqucr outro c Bcrnardettc
não é senão uma histérica com alucinaçóes Visionárias. 0 que
sáo para além disso não se reHete no plano psiquiátrico. Com
efeito, tanto a criação artística de um como a entrcvista religiosa
da outra ficam fora do plano psiquiátrico. Mas dentro do plano
psiquiátríco tudo pcrmanece equívoco cnquanto não transpare-
cer cssc algo que possa estar por tras' ou acima do plano mencio-
nado; e isto, à semelhança do quc acontecia com a sombra, que
cra cquívoca enquanto cu não podia assegurar se se tratava do
cilindro, do Cubo ou da esfera.
Toda patologia precísa da diagnosc, de uma diagnose, dc
um olhar através de, o olhar para o logos quc cstá por detras' do
pathos, para 0 sentido que a afccção tcm. Toda sintomatologia
precisa ainda da d1'agnose, do olhar para uma etiologia; e. prcci-
samente na medida em que a etiologia é multidimensionaL é a
sintomatologia equívoca.
~«,
A psicogênese
do psicologismo
Ao concluir este capítulo. náo deixarcmos dc voltar o psi-
ícologismo contra si mesmo, usando-0 como arma contra clc.
batendo-o com as suas próprias armas. Basta. para mnto. volmr
o feitíço contra o feiticeíro, digamos assim. c, cm ccrto scntido.
aplicar 0 psicologismo a si mesmo, cxaminand(›-o na pcrspccti-
va da sua própria p51'cogênesc, isto c', a partir dos motivos que
porventura cstcjam na sua base. Pcrguntemo-nos poisz qual é
a sua posíção oculta fundamentaL a sua tcndência sccrcta? E
logo rcsponderemosz é uma tcndência dcsvalori7.ador.'1. manti-
da, aliás, cm relação aos contcúdos csçpiriuhqisy cvcntu;1|n1cntc
discutidos, dos aros anímícos quc o próprío psícologismo quali-
Hca dc consumados. Partindo dcsta tcndência dcsvnlorizadora, 0
psicologismo póc-sc C()nu'nu.1'muw:a dcsn1.1'scar;1r: nuncn pcrdc
a energia disposta a arrancar os disfarccs: anda consmntcmcmc à
procura das motivaçócs impr0'pr¡a$. isto á, ncurótic.1's. Sc sc lhc
apresenta qualquer problcma sobrc a validadc - por cxcmplo,
no âmbíto religioso ou aru'stíco, mas também no cicmíñco -. o
psicologísmo declina-o dc si,f24gina'o da esferd dos contzzídos pzmz 73
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
11 cfxtra dos atos. Assim, em última análise, o psicologismo está
cm Fuga diantc da poderosa riqueza dos dados do conhecimento
e das tarcfas decisivas; cm fuga, portanto, perantc as realídades c
as possibílidades da existência.
Só vé mas'caras por toda a partc; c por tras' delas, pretendc
nada mais havcr que motivos ncurótícos. Tudo lhe parece inau-
têntico, postiço. Quer-nos fazer crer quc a artc, «em última ana'-
lisc, nâo seria nada mais que» fuga da vída e do amor; que a
rcligiâo não passaria de mcdo do homem primitivo as\ forças
cósmicas. E os grandcs criadores do cspírito, logo os dcspacha
como ncurótícos c psicopatas. Na cstcira de um «desmascara-
mento» deste jaez, mediame cste psicologismo «arrancador de
disfarces», podcrcmos finalmente añrmar, com um suspiro de
alívio, quc, por exemplo, um Gocthe, «também, propriamen-
te faJando, apenas» era um neurótico. Semelhante orientação
do pensamcnto náo vê nada de genuíno, de verdadeiro; isto é,
verdadeíramente nada vê. Só porque algo uma vez por outra foí
mas'cara ou, em algum momento, meio para um ñm, - scrá quc,
só por isso, scmprc c exclusivamente tem que ser mas'cara e meío
para um fimP Não havcrá cntão nada de imediat0, autêntico,
origina'r1'o? A psicologia individual prega a valentia; mas, pclo
visto, esqueceu a submissão: a submissâo ao que no mundo há
de espiritualmente criador, ao espirítual como um mundo de
per sí, cuja essêncía e valores não admitcm o serem projetados,
sem mais, no plano psicológíco (obs. 5). Ora a submissão, se au-
têntica, é, pclo mcnos tanto como a valentia, um sínal dc força
ínterí0r.
O que interessa, em última anal'ise, à psicoterapia «arranca-
dora de disfarces» não é um juízo, mas uma condenação sumária
c deñnitívm Basta fazcrmos com que olhe para si mesma à sua
própría luzz coloqucmos díante dela um espclho comvo se fosse o
basilisco; e logo se verá que - como todo psicologismo - evita 0
A PSICOGÊNESE DO PSlCOLOGISMO
problema da vaJidadc no âmbito cicntíñco e no rclativo à con-
cepção do mundo.
O psicologismo pode-sc cntender, portamo, como meio dc
uma tendência desvalorizadora. Assim, qualqucr oricntaçâo dc
pesquisadominada por ele deixa de ser expressão da entrcga
cognoscitiva a uma coisa. Mas o psicologismo, na nossa opinião.
é ainda a manifestação parciaJ de um fenômeno mais amplo. O
ñnal do século XIX e o comcço do século XX dcformaram com-
pletamcnte a imagem do homcm. vcndo-o prcdominantementc
no seu várío estado de sujeiçãoz quer dizcr. na sua hipotética
impotência em face dos líames quc o atam; assím. 0 biológíco,
o psicológico, o sociológico. E a liberdade verdadeíramentc hu-
mana. a libcrdadc perante todas estas vinculaço'cs. a liberdade
do espíríto cm face da natureza ~ a única, aliás, quc constitui
a essência do homem -, foí esquec1'da. Como se vê, surgiram,
junto do psicologismo, um biologismo c um sociologismo (obs.
6) que inculcaram simultancamente e na mesma medida uma
imagem desñgurada do homem. Náo é dc estranhar quc, na
história do cspíríto, sc tenha registrado uma rcaçào contra esta
visão naturalística. De fato, não sc fez cspcrar essa rcação, convi-
dand0-nos a rcconsiderar os fatos fundamemais do ser humano:
o humano ser-livre perante os dados da vinculação naturaL Não
é de admirar que cnñm 0 ser-rcsponsável, como estado dc c0i-
sas primordiaL tenha sido trazído outm vez ao centro do nosso
campo de visão; cstc estado de coisas, dig0, porque 0 0utro, pelo
menos o do ser-consciente, nâo o pôdc negar o psicologismo.
A ñlosoña da existência nomcadamente teve o mérito de apre-
sentar a existência (Dasein) do homcm como uma forma de ser
sui generz'5. Assim, Jaspers denomina 0 ser do homem como um
ser «que decide», um ser quc não «é», sem mais, mas quc só cm
cada caso decide «0 que ele é».
Esclarecida desta maneira uma situação que, embora nem
L
75
rñM
PSKDTERAPIA E SENHDO l)A VlDA
dccerto quc havia longo tcmpo era tida
um dos cstudiosos, já se toma possíveL
çâo ética da conduta humana. Compor cvidcmc
l
cm princípi0, uma aprccxa
quando o homcm s
,
homem como tal «se contcm»
ndo dcixa de se submeter e obedecer cegameme
o vinculam ao biológico (raça), a0 sociológico
cológico ([ip0 caractcrológico), - só Cntâo,
manifcstapsc a sua suscetibilidade de Scr
c contrapóe aos dados natura¡'5,
efcito, só
quando 0
seguintc. só qua
aos liames quc
(classe) ou ao psi
digo. é que comcça a r
iulgado moralmeme a tod
conccitos quc sc empregam todo
dc mérito e de culpa, só se veriñca sc nos, em
vez de aCCItarmos
smente as mencionadas vinculaçóes a título de dados
do
onhccermos a capacidade humana de as tomar como
que visam conñgurar o dcstino C a vida. Assim,
perante elcs; por com-
os os rcspeitos. O sentido de certos
s os dias, tais como os conccitos
simplc
destíno, rcc
tarcfas e funço'es.
por cxcmplo, 0 fato
claro que não representa, sem mals,
de se pertcncer a um povo determínado, é
nem mérito nem culpa. A
quc, por hipótese, não seculpa só começaria no momento em
fomcmassem as qualidades espcciais de uma nação ou fossem
negligenciados os valores culturais dela; ao passo que o mérito
só cstaria em sercm dominadas certas fraquezas caracterológicas
do povo cm questão, no que do indivíduo dependesse, mediante
uma autoeducação consciente (obs. 7). Mas quantos homens
náo há ainda que cometem o erro de tomar por pretexto das suas
fraquezas de caráter as fraquezas dc caráter da rcspectiva naçâal
Fazem lcmbrar Alexandre Dumas Fílho, de quem se conta este
episódioz um dia, uma dama da alta-r0da dísse-lhe: «deve ser de-
sagradável para V.S. ter tido um paj com costumes tão livres...»;
ao quc Dumas Filho retorquiuz «Oh, não mínha senhora; se cle
mc não serviu dc exemplo, com certeza que me serve de descul-
pa». Mais correto seria que o ñlho tivesse tomado o pai como
excmplo esclarecedor e bom aviso. Mas quantos homens não há
i
A PSl(Í0(.*ÊNl~'$li nn PhI(.'()l.l)(ilSM()
mmbém quc comctem o crro dc sc scmircm simplcsmcntc or-
gulhosos da força de carátcr nacionaL scm sc darcm ao trabalho
dc Icnar um mcnto mdlviduaL cultivando primciro a força dc
carater da sua pcssoa! Aquilo por quc alguém não sc podc fnzcr
rcsponsáveh nem lhc podc scr atribuído como méríto ncm lhc
podc ser imputado como culpa. Ésm nmncira dc pcmar c'. añnal
0 fundamento de todo 0 pcnsamcnto ocidcmaL dcsdc 0S mósuj
fos antig05, c sobrctudo a partir do advcmo do cristianisnun cm
oposiçâo estrita e conscientc ao pcnsamcnto pagño. toda suscc-
tíbilidadc dc scr julgado moralmcntc comcçL sob cstc aspcct(›.
no momemo cm quc 0 homcm podc dccidir com libcrdade c
agir com responsab1'lidadc, para dcsaparcccr logo quc dcixc dc o
poder fazer assim.
Até aqui, tentamos deduzir, primciro tcorctl'camentc, a nc-
cessidadc de uma logotcrapia, para cm seguida mostrarmos, na
prática, a necessidade de uma «psicotcrapia a partir do cspírito».
Quanto ao primeiro ponto, rcvelou-sc catcgorialmcntc insuñ-
ciente a psicoterapia, entendida no sentido mais cstrito da pala-
vra; quanto ao segundo, pôs-se dc manifcsto que ela é incompe~
tente para tocar todo o campo cspirituaL ou forçosamcnte tem
quc cair no psicologismo. O que faremos agora. nas páginas que
se seguem, é demonstrar a possibilidade prática dc uma logote-
rapia, enquanto possibilidade dc uma conscicnte «psicotcr.1'pi.1'
a partir do espírito», para dcpois, finalmcntc, pormos à prova a
sua possibilidadc teorética, isto é, para respondermos à pcrgun-
ta, já ventilada, sobre se sc consegue cvitan cm princíp10, a im-
p'osição de uma cosmovisão. Quanto ao problcma da viabilidadc
Íáecnica de uma «psic0terapia a partir do cspírit0». no entanto,
Ja resultam, do quc foi dito até aquL advcrtências imp(›rtantes:
porque se mostrou rciteradamemc a ncccssidadc dc rcconsidcrar
0 fundamento essencial da existência (Dasein) hL1mana, 0 ser-
~responsável que lhe cstá na base. Assim. comprccndcrcmos quc, 77
FTPSCOTEMMA
E SENTIDO DA wDA
cm tomo do cixo dc uma
logOtcrapl'a, a psicoterapia
uma anaJ'isc da cxistênciazo cnquanto anágirandotem quc se voltar para
lisc do ser humano como scr responsáveL II
~ ,DA PSICANAL'ISEA ANALISE EXISTENCIAL
( V. E. Fran fquf . l r r r » chímlblatt Íkl gtvtzgm P df pljlfll0íb8 ,
2 Wr J
PSYChothera 'Plc U938 t
78 mcd. Wschn (l939)
) C têlmbem «Zur Grundlegurzg einer Ermmmyh S h
.
e”› C WClZl.
íA)Anal'ise existencial geral
l. O sentido da vida
Especíñcada como psican.1"lisc, a psicorcrapía csforç.'1-se por
chcgar à Conscicncializaçâo do .'mímico. A log(›rcr;1pía, pclo c0n-
trário, procura a conscicncializmgão do c.s'piritu.1'l. Com isto, na
sua especiñcação como análisc cxistcnciaL a logotcrapia csfor-
ça-se Cspecialmcntc por trazcr 0 homcm à consciôncia do scu
scr-responsa'vel, - enquanto fundamcnto usscncíal da cxístêncm
humana.
Mas responsabílidadc sígniñca scmprc rcsponsabilidadc pc-
rante um scntido. Foi por isso quc o problcma do scntido da
vida humana se pôs à cabeça dcstc capítul(›; c é por isso quc tcrá
de permanecer no seu núclco ccntraL Na realidada é cste pro-
blema um dos mais frcquentcs cntrc aquclcs com quc o docntc
da alma, na sua luta espirituaL assalta o médico. E nâo é cste
quem o levanta; é prccisamcme o pacicnte quc, na sua ncccssi-
dade espirituaL insta com o médico para quc lho rcsolsz 81
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82
PSICOIERAPIA E SENTIDO DA VIDA
A DISCUSSÀO DO SENTIDO DA EXlSTÊNClA
O problema do scntido da vida, qucr se apresentc quer não
cxprcssamente, cumpre defini-lo como um problcma caracte-
risticamente humano. Por consegu1'nte, o pôr~se cm qucstão o
sentido da vida não pode ser, nunca, dc pcr si, expressão do que
porvcntura o homem tenha de doentio; é antes e sem maís, para
falarmos com propricdadc, cxpressão do scr humano, - expres_
são precisamcnte do que dc maís humano há no homem. Com
efeito, podcmos perfcitamente imaginar animais altamente cvo-
luídos quc - como as abelhas ou as formigas, por exemplo - em
certos aspectos dc organização soc1'al, em alguns dispositivos se-
melhantes as\ cstruturas humanas do Estadlo, cheguem a supe-
rar a socicdade humana; mas jamais poderemos imaginar que
um animaJ seja capaz de suscitar o problcma do sentido da sua
própria existência, conseguindo assim pô-la em questão. Só ao
homem, como taL é dado - a ele exclusivamente - ter a vivência
da sua cxistência como algo problemático; só ele é capaz de ex-
perimentar a problematicidade do ser.
Valc a pcna repetir aqui o que dissemos acima, relatando um
caso cxempliñcativo, a propósito do conceíto dc vácuo existen-
cial. Reñro-me àquele professor universitário que tinha cstado
na minha clínica por causa do seu desespcro quanto ao sentido
da existência. No decorrer da consulta, pôs-se de manifesto que
se tratava de um estado endógcno-depressivo. Veriñcou-se ainda
quc as elucubraçóes sobrc o scntido da vida não o assaltavam,
como seríamos tentados a supor, ao tempo das fases depressí-
vas; pelo contrário, ncssas fases, estava tâo hipocondriacamente
preocupado, quc não conseguia pensar no que quer que fos-
se. Só nos intervalos saudáveis cntrava cm tais cogitaçóes! Por
outras palavrasz entrc a neccssidadc cspirituaL por um lado, e a
cnfcrmidade anímica, por outro, havia inclusive, no caso con-
M ANÁLISE PXISTENCIAI (;l-.RAl
crct0, uma relaçáo de cxclusã0. Freud era dc outro parcccn quan-
do cscrcvia a Maria Bonapartcz «Sc sc pcrgunta pclo scntido c
valor da vida, é porque sc está docntc...» ((,a“rtas 1873-1939.
Francforte do Mcno 1960).
O problcma do sentido. posto cm toda a sua mdicall'dadc.
podc francamcmc abatcr um homcm. É cstc o caso corrcntc,
sobretudo na puberdadc. portanto na época cm quc n pr(›blc-
mátíca essencial da existência humuna sc abrc ao homcm jovcm.
que vaí amadurecendo e lutando espirítualmcnte. Uma vcz. um
profcssor de história natural explanava, numa aula dum colc'gio.
a tese dc que a vida dos organísmos, incluindo o do homcm.
«em última análise, nada mais é quc “um processo dc oxidação.
um processo de combustão”». Imediatamcntc saltou um aluno.
lançando-lhe em rosto esta pergunta apaixonadaz «Sim. mas cn-
tão o que é quc dá sentido a toda uma vida?» Esse jovcm tinha
compreendido exatamentc que o homcm cxíste num modo dc
ser difercnte do de uma vela, por excmplo, quc cstá diantc de
nós a arder, cm cima duma mesa. O ser da vela (Heidcggcr di-
riaz «ser-presente», Vorbanden-m'n) podc-sc interpretar como
processo de combustâo; ao homem, contudo, ao homem como
tal, pertcnce uma forma de scr essencialmente diferentc O ser
humano é antes de mais um scr cssencíalmente histórico, cs-
tá ínserto num espaço históríco concreto, a cujo sistcma dc
coordenadas não logra arrancar-se. E este sistema de relaçócs
está determinado, cm cada caso, por um sentído, se nào incon-
fessado, talvcz em geral inexprimích O movimento de um fo.r-
migueiro bem se pode dcñnír, portanto, como tendente a um
ñm; o que náo se pode é aHrmar que tem um scntid0. Desaparc-
cendo, porém, a categoria de sentido, desaparecc também o que
sc pode chamar «histórico»: um «Estad0-formigueiro» nâo tem
«hístória» alguma.
Em seu livro «Acontecimento e vivência», Erwin Straus mos- 85
84
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
trou que no homem - e não apenas no caso do homem doente
de neurose - o fator histórico do tempo não sc pode ísolar con-
ccitualmente da sua realidade de vida, daquilo que o mesmo
Straus chama «realidade-cambiante». Menos ainda se pode fazcr
tal separação quando o homem (assim especialmentc no caso da
neurose) «deforma» essa realidade~cambíantc. Uma das formas
que esta deformação podc assumir é aquela tentativa de aversão,
aquela tentativa de abandonar o modo de ser humano originário,
que Straus classiñcou Como cxistêncía «prcsentista», entcndendo
por tal um ajustamento à vida, que crê poder renunciar a toda e
qualqucr orientaçãa Trata-se, portant0, de um comportamento
quc ncm se funda no passado nem se orientà para 0 futuro, apli-
cando-se antes ao puro presente sem história. Encontramo-lo,
aJia's, na evasão neurótíca para certa Cspécíe de esteticismo, para
uma dissipação artístíca ou para um exccssivo êxtase em saborear
a natureza. O homem em questão está, assim, em Certo sentido,
csquecído de si mesm0; mas poderíamos também dizerz esqueci-
do dos seus devcres, na medida em que, nesses momentos, vive
do lado de lá de qualquer dever que resultc do caráter de sentido
histórico-individual da sua existência.
O homcm «normal» (tanto no sentido de uma norma-média
como no da norma ética), só cm certas ocasióes pode c, mes-
mo então só em ccrto grau, legitimamente tomar uma atitude
presentistaL Rcñr0-rne àquelas ocasióes, as «festas» por exemplo,
em que adrede e temporariamentc se afasta da vida determinada
por um sentido, para se entregar à embriaguez; à cmbriaguez,
quer dizer, àquele estado de esquecimento de si mesmo que o
homem provoca intcncional e arti6c1'almente, para se desone~
rar, de tempos a tempos, da impressáo da sua responsabilidade
essencial que, de quando em vez, lhe parece demasiado pesada.
Mas, na verdade, o homcm ocídentaL pclo menos, está sempre
sob 0 ditado de vaJores que lhe compete efetivar de modo cria-
Í
|v
›
ANÁLISE EXJSTENCIAL GERALA)
dor, Com isto não se pretende certamente negar a possib1'lida-
de de alguém se narcotizar, embriagando-sc com as suas obras
Criadoras. É o que ocorre aos homcns daqucle tipo quc Schclcr,
no seu estudo sobre o «burguês», caracterizou dizendo que, por
causa dos meios de realízaçâo dos valores, esqueccm o fím últi-
mo (os próprios valores). Estão neste caso os que passam toda a
semana a trabalhar intensamente c no domingo - em vista do
Vazio, da solídâo e da falta de conteúdo da sua vida, que cntão
írrompe à tona da consciência - sc tornamdeprímidos («neurosc
dominical») ou, scmíndo um borror vzzcui (em scntido espiri-
wal), mergulham em qualquer situação dc embriaguez.
Mas não é só nos anos de maturação quc o problema do sen-
tidO da vida se póe de modo típíco; pôe-se também sempre que,
ocasionalmente, como se o destino a trouxesse, sobrevêm ao ho-
mcm uma vívência perturbadora. E, assim como no período dc
amadurecímento, nada há de propriamente doentio em questio-
nar sobre 0 sentido da vida, assim também nada rcprescnta de
patológico a necessidade anímica do homem que luta por um
conteúdo da vida, ou a própria luta espiritual em que se empe-
nha. Sendo assím, não se pode esqueccr que a psicoterapia, uma
vez alargado 0 seu horizonte pela logoterapia e, paralelamentc,
pela análise da existência (Exz'stenzanaylse), como forma que é
desta logoterapía, - tem que lidar, dadas certas circunstâncias,
com homens que padecem animicamente, e que, em sentido
clínico, não é lícito consídcrar propriamente doentes. AfinaL
esse sofrimento, nascido dentro da problemática absolutamente
humana, constitui prccisamente o objeto de uma «psicoterapia
a partir do espírito». Mas, mesmo quando houver de fato sin-
tomas clínicos, pode scr conveniente proporcionar ao doente,
através da logoterapia, aquele apoio espiritual especialmente se-
guro de que o homem sáo e corrente precisa menos, mas que o
homem animicamente inseguro necessíta com urgência, precisa- 85
86
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
mente para compensar a sua inscgurança. Em nenhuma hipóte-
se é lícito tomar a problemática cspíritual de um homem como
um «síntoma», pois sempre ela é «rcalízação» (para usarmos a
antítese de Oswald Schwarz): ~ nuns casos, realização que 0 pa-
cicnte já cfctivou; noutros, uma rcalização em que nós temos dc
ajuda'-lo. Isto vaJc nomeadamentc para aqueles homens que por
razôcs puramente cxternas perdcram a equanímidadc. Entre eles
podc-sc contar quem, depois de tcr perdido um ser especialmen-
te querido, a cujo serviço havia dedicado a vida intcira, levanta,
inseguro, o problema de saber se a sua vída ainda conserva aJ-
gum sentida Pobrc do homem quc, em tais momcntos, sente
vacilar a sua fé no caráter de sentido da sua existêncial Encon-
trar-se-á sem reservasz aquelas forças, que só lhe pode dar uma
cosmovisão quc añrme a vida incondicionalmente - ainda que
náo sc trate necessariamente de chegar a uma clara consciência
dela ou a uma formulação conceitual -, faltam-lhc ncsse instan-
te difícih e já nâo lhe ñca a possíbilidade dc «encaixar» o golpe
do destino compensando por si mesmo o seu «poder». E assim,
nascerá nele uma espécie de descompcnsação anímica.
Gostaríamos que se compreendessc 0 melhor possível o sig-
nifícado central que correspondc a uma atitude derivada dc
uma cosmovisáo que añrme a vida, esclarecendo-se também
com quc profundidade ela pode chegar a atingír até o bioló-
gico. E talvez isto salte à vista nas linhas que se seguem. Fez-se
uma vez um estudo estatístico de grande cnvergadura sobrc as
prováveis razóes da longevídad6. Poís bemz pôde-se comprovar
que, ern todos os casos examinados, a razáo era uma conccpçào
da vida «alegre». portanto uma concepção añrmativa da vida.
Na esfera psícológica, a atitude derivada da cosmovisão vê-se
que ocupa uma posição central de tal valor que semxpre «trans-
parece»; assim, por exemplo, no caso de doentes que tentam
ocultar a sua atitude básica ncgatívista em relação à vida, vê-sc
N ANAIISE EXISTENCIAL GERAL
que nunca a consegucm «dissimular» intciramente. Utilizando
o método correspondeme da exploração psiquiátrica, o tédio
da vída oculto rcvcla-se sem mais. Suponhamos um docntc quc
suspeitamos cstar dissímulando intcnções suicidas. O proccsso
que se recomenda para o exame é 0 seguinte: em primciro lugar,
intcrroguemos o doente a respeito dos pensamentos de suícídío,
isto é, perguntemos-lhe se pensa cm suicidar-sc ou, conforme
o caso, se persiste nas ideias suicidas que antcs manifcstou Em
qualquer hipo'tese, sempre responderá que não a esta pergunta -
sobretudo, alias', na hipótesc de pura dissímulaçâo. Em scguida,
façamos-lhe outra pergunta que nos permíta estabelecer uma
díagnose diferencíal entre o estar realmentc livre do taedium vi-
tae, por um lado, e, por outro, a mera dissimulaçâo do mesmoz
pcrguntemos-lhc - por mais brutal que a pergunta lhe pareça -
«por quc» (já) náo tcm nenhum pensamento dc suicídio. Ncssa
altura, o doente que estíver livre dc tais propósitos ou quc já
estiver curado logo responderá que, ev1'dentemente, por ter de
cuidar dos seus ou por tcr de pensar no seu trabalho, ou moti-
vos semelhantes. O doente dissimulador, no entanto, ñcará en-
calhado subitamente na nossa pergunta, com uma perplexidade
típica. Scntirá a nccessidade de responder à nossa pcrgunta com
argumentos em prol de uma afirmação (simu1ada) da vida, sem
saber como satisfazê-la. No caso de sc tratar de um paciente
já intemado, 0 mais típíco é começar cntão a ínsistir em ir-se
embora ou a protestar solenemente que não há nesse desejo
quaisqucr intcnçóes de suícídi0. Logo se vê que o homcm está
psicologicamente incapacitado para Hngir sequer argumentos a
favor da añrmaçâo da vida. ou argumentos para continuar a ví-
ver; argumentos, enñm, que depóem contra os seus prcmcntes
pensamentos de suicídioz se realmente os houvessc, se os tívesse
já no pensamento, não mais estaria, eo zp'50, domínado por in-
tençóes de suicídio, nada tendo portanto que ñngiL 87
88
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
O SUPRASSENTIDO
O problema do scntido da vida pode ser conñgurado de di-
ferentcs maneiras. Por isso, desde já queremos separar da sua ul-
terior discussâo a qucstào de averiguar qual o problemático scm-
tido de todo o acontecer; e, assim por exemplo, a problemática
«finalidade e fim» do mundo como um todo, ou o sentído do
dcstino quc vem ao nosso encontro, das coisas quc nos sucedem.
Porque as possíveis respostas positivas a todos estes problemas
pertencem propriamente ao domínio reservaclo da fé. Ê por isso,
alia's, que, para o homcm religioso, que crê numa Providéncia,
nâo há por via de rcgra, a este respeit_o, nenhuma problemática.
Quanto aos restantcs, a discussâo de tais indagaçóes teria que ser
cxaminada, antes de mais, em termos de crítica gnoseológica.
Tcríamos quc examinar, scm dúvida, se em geral é permitido
perguntarmos pelo sentido do todo; se portanto esta pergunta,
de per si, tem plena razão de scr. Isto é, o que nós podemos pro-
priamente fazer cm cada caso é perguntar apenas pelo sentido
de um acontecer parcial e nâo pelo «fim» do acontecer universaL
A categoria de fim é transcendente na medida em quc em cada
caso o ñm está fora daquilo quc o «tem». Por isso, quando mui-
to, poderíamos conccber o sentido do mundo como um todo
na forma de um conceito-limite, como se costuma dízer. Assím,
talvez pudéssemos caracterizar este sentido como suprassentido,
exprímíndo, numa só palavra, que o sentido do todo já não é
apreensível e quc é mais do quc apreensível. Nestes termos o
conceíto seria análogo aos postulados kantianos da razão; repre-
sentaría ao mesmo tempo uma necessidade do pensamcnto e,
apesar disso, uma impossibilidade do pensamento, - uma anti-
nomia quc só a fé logra contornar.
Já Pascal dizia quc nunca o ramo pode abarcar o sentido da
árvore toda. E a mais recente teoria bíológica do mundo circun-
;
íÊ .
ã
1t
m ANÁLISE hXI'STENCIAL GERAL
dante mostrou quc todo ser vivo se cncontra cnccrrado no mun-
do circundante próprío da respectiva espécic, scm podcr quebrá-
-lo. Ora, por muito excepcional quc scia a posição do homcm a
cste respeito, por muito quc elc scja «aberto ao mundo», tcndo
mais do quc um mundo cira1ndantc, mesmo quc o homcm «tc-
nha mundo» (Max Scheler) - ainda quc tenha «o» mundo -,
quem nos díz que, para além deste seu mundo, algum supra-
mundo não exíste? Ou mclhorz o quc é de supor não é só quc a
colocação ñnal do homcm no mundo scja apcnas aparentc, um
simples estar-mais-acima dentro da naturcza, em confronto com
0 animaL mas sim quc para 0 «scr~no-mund0» (Heídcgger) vale,
emúltíma análíse, analogicamente, o quc sc diz dos mundos cir-
cundantes dos animais. Quer dízerz assím como um animal não
pode cntender, para além do seu mundo c1'rcundantc, 0 mundo
do homcm quc 0 ultrapassa, assim também o homcm não po-
deria apreendcr o supramundo; para alcançá-lo, portant0, teria
quc ir mais longe, vislumbrando-o, - na fé. Um animal dome's-
tico náo sabe pam que fm o Íaomem se serue dele. Como poderia
cbegzzr o bomem a saber quc <jí<m últímm tem a xud z/1'a'a, qzml o
«5upmssmtido" que tem o munda como um todo?
Bem sci quc N. Hartmann afirma quc a libcrdadc e a rcs-
ponsabilidade do homcm estão em contradição com uma fi~
nalídade para ele oculta, mas que lhe é imposta de cima. En-
tendemos, porém, que csta vísualização nào concorda com os
fatos. Vejamos. O próprio Hartmann admite quc a libcrdadc
do homcm é uma «libcrdade apcsar da dcpcndênc1'a». na mcdí-
da em que a liberdade espíritual também sc constrói por sobrc
a legalidade21 da natureza, numa «camada dc scm pro'pría, mais
elevada, quc, malgrado a sua «dependência» da camada dc scr
Í21) E cxammcntc ism 0 que o Aumr dízz Gexrtzlirhkrin c não Gesttz (a lci). 0 originnl
alude à normalidadc não à norma. (N.T.)
k
89
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
m relação a esta. Pois bemz a meu Ver)inferion , , .ma rclaçao analoga entre o remo
é perfcitamente conceblvel
u
da líberdade humana e um reino
quc se lhe sobreponha, de tal
ar duma vontade livre, a
modo quc o homem continue
a goz
que uma Providência projete fazer com
ele; cxata_
esmos termos em que o animal doméstico vive em
com o seu instinto, apesar de servir ao homem
dos instintos anímais se serve para seus ñns.
é «autônoma» e
dcspeito do
mentc nos m
conformidade
que precisamente
Suponhamos que eu quero constru1r uma maquma cuja
função consista em embalar determinada mercadoria
de de-
nada maneira; salta logo à vista lque, para realizar esta tarefa
prccisarci de uma certa inteligência; uma inte11'gên-
cia dc que se pode añrmar, sem receio de erro, que ela
tcm de
ser, em qualquer caso, de um grau cssencialmente mais elevado
do que o que me faria falta para eu me encarregar de fazer,
por
mim, a embalagcm da mcrcadoria em questâo! Nada mais na-
tural do que aplicar agora esta escala comparativa ao problema
dos instintos; pois, no que se refere à chamada sabedoria dos ins-
timos, nâo temos que fazer longos raciocínios para Concluir que
aquela sabedoria que dotou de determinado instinto uma espé-
cie ou um gênero de animais, aquela sabedoria portanto que,
por assim dizer, tem que ter fundado este instinto, que aquela
sabedoria, digo, estando por tms' dc todos os instintos, terá que
ser de um nível incomparavelmente mais alto do que a própria
termi
construtiva,
«sabedoria» dos instintos com base nos quais o dito animal rea-
ge táo «sabiamente». Alia's, talvez a diferença especíñca entre o
homem e o animal não csteja tanto, em última anal'ise, no fato
de o animal ter instintos e o homem inteligência (añnal, toda
a inteligência humana se pode conceber como um simples ins›
tinto «mais alto», especialmente se pomos diante dos olhos 0 ü
priori latente no fundo de toda a razão humana, mas que já não
é explicáveL em si mesmo, através da razão); talvez a difercnça
N ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
esscncml esteJa. com cfeit0, cm ser tão clcvada a intcligência do
homem que - e nlsto em decisivo contrastc com a capacidade
do animal - pode aperceber-sc inclusivc de quc tcm uc havc
uma sabedoria, decerto de um nível ñlndamcntalmenth supcriorr
ao da sua - uma sabedoria sobre-humana -, quc nclc enxertou a
mzão e .nos animaís os ínstintosz uma sabedoria que críou toda a
sabedorla, tanto a sabedoria humana como os «sa'bios» instintos
dos animais, sintonízando-os, alia's, com o seu mundo.
nguém como Schleich exprimiu com tanta bcleza c con-
Cisáo a relação quc medcia entre o mundo humano e um su-
pramundoz uma relação que, por conscgu1'nte, nos cumprc
represcntar como análoga àquela que se dá entre o «mundo cír-
cundante» (v. UexkülD do animal e o do homem. «Dcus - diz
Schleich - sentou-se ao órgão das possibílidades e improvisou
o mundo. Nós, os pobres dos homens, nunca ouvimos mais do
que a vox bumamL Se esta é já tâo bela, Como não será espléndi-
do o todo!»
Sc a qucremos definír de algum modo, a relação entrc 0
mundo circundante dos animais (estreito) c o mundo do ho-
mem (mais amplo) e entre este e um supramundo (que abranja
a todos), teremos uma espécie de alegoria da sccção áurea. Con-
sequentemente, a parte menor está para a maior assim como a
maior para o todo. Tomemos o excmplo de um macaco a que
sc tenham aplicado injeçóes dolorosas destinadas à obtenção de
um soro. Conscguiria o macaco porvcntura imaginar por que
razâo tem que sofrer? Limitado pelo seu mundo c1'rcundante,
não está em Condiçóes de acompanhar as rechóes do homem
que 0 submete às suas experiências, pois nâo lhe é acessível 0
mundo humano, o mundo do sentido e dos valores. Até lá não
chega, não consegue atingir as suas dimensóes. Ora, nâo tcre-
mos nós que admitir que, acima do mundo humano, existe por
sua Vez um outro mundo, inacessívcl ao homem, e cujo sentido, 91
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
cujo suprassentido seja 0 úníco capaz de dar sentido aos seus
sofrimentos.>
A entrada na dimcnsâo supra-humana, cfetivada na fé, fun-
da-sc no amor. Dc per si, é isto coisa sabída. O que talvez seja,
contudo, menos sabid0, é que há disto uma préfo-rmaçâo in-
frmhumanm Quem nâo terá notado já como um cão, ao ter de
sofrer uma dor - causada no seu interesse, digamos, por um
vcterinário -, levanta os olhos para o seu dono, todo cheío de
confiança? Sem poder «saber» qual o sentido da dor que lhe pro-
vocam, o animal «crê», precísamenlte na medida em que conña
no seu dono e precisamente, aliás, porque o «ama», - xít venía
antbropormorpbísma
É de si evidente que a fé num suprassentido - quer o enten-
damos como conceit0-limite quer, em termos religiosos, como
Providêncía - tem uma imensa importância psicoterápica e psi-
co-higiênica. Esta fé é criadora. Como fé pura que brota duma
força ínterior, torna o homem mais forte. Para um crente as-
sim, não há, em última instância, nada sem sentido. Nada se
lhe pode añgurar «inútil», «não ñca por asscntar no livro fato
algum» (Wildgans). Neste aspecto, nenhuma grande ideía pode
vir a perecer, mesmo que jamais venha a scr conhecida, mes-
mo que alguém «a tcnha levado consígo para o túmulo». Assim,
a história interior da vida de um homem nunca acontece «em
vão» em todo 0 seu drama e inclusivamente na sua tragédia; e
isto, ainda que nunca a tenham observado, ainda que nenhum
romance a tenha sabido contar. Seja comofon 0 «romance» vivído
por um bomem é sempre uma mzlizaçáo crz'adora z'ncompamvel-
mente maíor do que o que agluém porventum tenba escríta De
um modo ou de outro, todos sabemos que o' conteúdo duma
vida, o seu acabamento, ñca guardado, por assim dizer, nalgum
lugar, sendo «elevado», naquele scntido duplo com que Hegel
inclui no tcrmo simultaneamcnte as conotaçóes de «tollere» C
A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
«conservare»32. Assim, 0 tempo, a caducidadc da vída, cm nada
poderão afetar o seu sentido e valor. Ter~5ido é também um modo
de ser, tzzlvez o mzzís segura E, sob cste prisma, todas as açócs na
vida se nos podem apresemar como um pôr o possível a salvo na
reaJídada A despeito de screm ações passadas; mais ainda, preci-
samentc no passado é que cstão seguras para toda a eternidadc,
a salvo de qualqucr posterior golpc do tempo.
Já se sabc que o tempo decorrido é irrcvcrsíveh mas o quc no
decurso dele aconteceu é íntocávcl e invioláveL Assim, o tempo
que corre mostra-sc nâo apenas como um ladráo, mas também
como Hel depositário. E uma cosmovisão quc tcnha em vista a
caducídade da exístência nem por ísso tem que ser, de modo al-
gum, pessimista. Se quisésscmos exprcssá-lo numa imagem, po-
deríamos dízer2 o pessimista assemelha-se a um homem quc está
diante de um calendárío de parede c vê, com medo e tristeza,
como o calendário - a que arrancadiariamentc uma folha - Hca
cada vez mais Hno; ao passo que quem conceber a vida no sen-
tido do que acima se disse, parecc~se com um homem quc cui-
dadosamcnte toma a folha que acabou dc separar do calendário,
para juntá~la às restantcs, já arrancadas, sem deixar dc inscre-
ver no verso uma notícia a modo dc diário, a fim de sc lem-
brar, cheio de orgulho e alegría, de tudo o que nessas notícias
assentou, - de tudo o que na sua vida foi «realmcnte vivido».
Mesmo que este homem repare ter envelhccido. que importa?
Deveria, poderia, só por isso, olhar com coração invejoso para a
juventude de outros homcns ou lembrar melancolicamentc sua
própria juventude? Porque, afinal - pois é isso 0 quc antes deve
perguntar-se -, o que é que tem a invejar num homem moç0?
Aspossz'bz'/idadex, talvez, que um homem jovem ainda tem, o scu
fúturM «Muito obrigado» - pensará entre si -, «no mcu pamzdo
(22) cha-se a nota que apuscmos à página 46 (N .T.) 93
94
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
tenho eu realz'a'ades, cm vez dc possibilidades: não apenas a rea-
lídadc das obras realizadas, mas a do amor amado e a das dores
sofridas. E por cstas* é que mais orgulho eu sinto, muito embora
sejam elas as que menos ínveja despertam...»
Tudo o que no passado há de bom e de belo, no passado
está bem seguro e bem guardado. Por outro lado, enquanto a
vida dura, todas as culpas, todos os pccados são ainda «redi_
míveis» (Scheler, «Wz'edergeburt und Reue»). Por conscguinte, as
coisas náo se passam, nem de longe, Como se fossem um Hlme
que acabou, que simplesmente chegou ao fim do últímo rolo
(é mais ou mcnos assím que a tcolria da relatividade representa
o processo cósmico, na totalidade das «linhas cósmicas» tetra-
dimcnsionais); pelo contrárioz o filme destc mundo maJ co-
meçou a ser rodado! Isto, porém, não significa senão que 0 pas-
sado - «felizmente» - está fíxado, sendo, portanto, seguro, ao
passo quc o futuro - «fclizmentc» - está em abert0, deparando-
-se por conseguínte à responsabilídade do homem.
Ora bemz o que é responsab1'lidade.> Responsabilidade é aqui-
lo por que somos «atraídos» e a que «nos subtraímos». Assim, a
sabedoria da linguagem já indica que no homem tem que havcr
como quc forças antagônicas, que tentam impedi-lo dc arcar
Com a sua responsabilidade essenciaL Realmente, na responsabi-
lidade há qualquer Coisa de abismo. E quanto mais e com mais
profundidade pensamos nela, maís descobrimos o abismo, até
quc, Hnalmente, nos envolve uma espécíe de vertigem. Com
efeito, basta mcrgulharmos a fundo na essência da responsabili-
dade humana para logo sentirmos um estrcmecimentoz há nela
qualquer coísa de temíwL se bem que haja nela também qual-
quer coísa de sublímd Temíuel é: saber que a cada momento arco
com a responsabilidade pelo momento seguinte; que todas as
decisóes, as de menor e as de maíor monta, são decisóes «para
toda a etemidade»; que em cada momento realizo ou desperdiço
r'lvÁ›
N ANÁLISE EXJSTENCIAL GERAL
uma possíb1'lídade, a possibilidade dcstc momcnto prcciso c úni-
ca Cada momento cnccrra milharcs dc possibilidadcs, mas cu
Só posso cscolher uma delas para rcalíza'-la, condcnando todas as
outras simultaneamcntc ao não-scr, e isto também «para toda a
cternidade».' Não obstante, é sublime o saber quc 0 Futuro, tanto
o meu próprio futuro como o das coisas c o dos homcns quc mc
rodciam, em certa mcdida, por pcqucna quc scja, dcpcndc da
decísâo que eu tomo em cada 1'nstante. O que cu rcalimr com
essa dccisão, o quc com ela «críar no mundo», é qualquer coísa
que ponho a salvo na realídade, preservando-a da caducidadc.
PRINCÍPIO DO PRAZER
E PRINCÍPIO DO EQUILÍBRIO
Até aquí tratamos do problema do sentido na mcdida em quc
tal problema se póe quanto ao scntido do universo como um
todo; rccons¡'deremo-lo agora nos termos cm que o entendcm o
mais das vezes os doentes que 0 lcvantam; isto é, o problema do
sentído do indivíduo, da sua vida pcssoaL
A este propósíto, impÕe-se-nos abordar antes de mais certa
viragem que muitos pacientes tentam dar à discussão deste pro-
blema, e que por força tem que desembocar num niilismo étíco.
Reñro-me com isto à aHrmação simplista que se costuma fazer
de que, falando com propriedade, o sentido da vida sc reduz ao
prazer; no seu arrazoado, csta añrmação reporta-se ao suposto
Fato de quc todo o agir humano é dítado, em última análise, por
uma aspiração à felíc1'dadc, scndo todos os proccssos anímicos
determinados única c Cxclusivamente por um princípio do pra-
zcr. Como é sabído, esta teoria do predomínío do príncípio do
prazer no conjunto da vida an1'mica, defende-a também a psi-
Canálise; perante 0 princípio do prazer, 0 príncípio da realidade
nâo representa, a rigor, nada dc Contraposto, constituindo an- 95
96
PSICOTERAPIA E SENTIDOíAVIDA
tes um simplcs alargamento daquele primeiro, achando-se a seu
serviço, cxatamcnte na medida em que se apresenta como mera
«modiñcaçâo» dele, «também no fundo pretendendo alcançar
prazer»35.
Ora bem: a meu ver, o princ1p'i0 do prazer é um artefato psi-
cológica Na verdadc, o prazer não é em geral a meta das nossas
aspiraço'es, mas sim a consequência da sua realização. Já Kant
aludiu a estc fato. E Scheler, referindo~se ao eudemonismo, dis-
se que o que ocorre nâo é que o prazer se depare como meta à
açáo moral, mas antes que a" ação moraL digamos assim, traz
às costas 0 prazen Decerto que em sítuaçócs ou circunstâncias
especiais o prazer podc rcpresentar efetivamente a meta dum ato
da vontade. Mas, prcscindíndo dos casos especiais deste tipo,
a teoria do princípio do prazer passa por aJto o caráter essen~
cialmcnte intencional de toda a atividade psíquíca. Em geraL o
que o homem quer não é o prazer; quer o que quer, sem mais.
Os objetos do qucrer humano são entre si diversos, ao passo
que o prazer sempre será o mesmo, tanto no caso de um com-
portamento valioso, como no de um comportamento contrário
aos valores. Daí que, como logo se entrevê, o reconhecimcnto
do princípío do prazer conduza ínevitavelmente ao nivelamento
de todas as possíveis ñnalidadcs humanas. Com efeito, sob estc
aspecto, seria completamente indifercnte que o homem ñzesse
uma ou outra coísa. Ê claro que o dar esmolas serviria para eli-
minar sensaçóes desagradáveís; mas nem mais nem menos que
0 gastar esse dinheiro em delícias culinárias. Na realidade, um
impulso de compaixão, digamos, encerra já um caráter de scn-
tido, mcsmo antes dc ser eliminado por_um ato correspondcnte
que, pelo visto, apenas teria o sentido de elíminação do despra-
zer; añnaL perantc o mesmo estado de fato que a um indivíduo
(23) S. Frcud. Gesammeltt Werlze (Obras Completas), voL VIL pág. 370.
Ir
A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
Provoca compaixãm é perfeitamentc conccbível quc outro sínta
uma maldadc sádica, se sacic com a desdíta que contempla e
inclusive expcrimente desse modo seu prazcn
Bem vistas as coisas, muito pouco na vida depende do prazcr
ou desprazer. Realmente, muito poucas vezes na vida é a questâo
do prazer ou desprazcr que está em causa. É como no caso do
espectador num teatroz o que é essencíal para o cspcctador não
é o fato de assistír a uma comédia ou a uma tragédia; o impor-
tante, para cle, é o conteúdo, a substância do que lhc oferecc a
representação. E ninguém com certeza sc lembrará de añrmar
que ccrtos sentimcntos de desprazcr provocados na alma dos
cspcctadores por um aconteccr triste visto no palco são a verda-
deira ñnalidade da sua ida ao teatro; se assim fosse, teríamos que
considerar como masoquístas disfarçados todos os que pagaram
entrada. De rcsto, a afirmação de que o prazcr é o ñm últímo de
todos os csforços humanos ~ c náo apcnas mcro cfeito Hnal dc
alguns deles -, pode-se refutar de plano, sendo para tanto sufi-
ciente ínverter-lhe os termos. Assim, se por exemplo fosse exato
que Napoleão deHagrou as suas batalhas só para sentir 0 prazer
do seu dcsfecho vitorioso - 0 mesmo prazer que qualquer outro
soldado poderia vir a scntir muito simplesmcnte em comezai-
nas, na embriaguez ou no prostíbulo -, então também o «ñm
último» das derradeiras batalhasnapolcônícas por foqrça tinha
que estar nas sensaçóes de desprazer que se chuem às derrotas,
tanto como as sensaçóes de prazer acompanham as vitórias.
Se realmente víssemos no prazer todo o sentido da vida, cm
última análise a vida parecer-nos-ía sem scntido. Se o prazer
fosse o sentido da vida, a vida não teria propriamente sentido
algum. Porque, añnaL o que é 0 prazer? Um estado. O matcr1'al¡'s«
ta - e o hedonismo costuma andar à mistura com o mater¡a-
lismo - poderia dizer inclusivamente: o prazcr não é mais do que
um processo qualquer que se opera nas células ganglionares do 97
98
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
cérebro. E cu perguntoz só por causa desse processo valerá a pena
vivcr, cxperimentar, sofrer, ou fazer o que quer quc seja? Imagine~
mos um condcnado à morte quc, poucas horas antes de morrer,
sc puscsse a cscolher os manjarcs da refeição dc dcspcdida. Esse
condenado podcria pcrguntarz scrá quc ainda tem anum scntído,
à vista da morte, abandonar-se às delícias culinárias? Não será
indíferente que o tornar-sc o organísmo um cada'ver, duas horas
mais tarde, ocorra antes ou depoís de nele se haver veríñcado
rapidamente aquele processo das Células ganglionares a que cha-
mamos prazer? Ora, toda a vida está à vista da morte e todo o
prazer de qualquer homem carcceria igualmente de sentido.
Esta dcsolada concepção dla vida, conscqucntemcnte, tcria
quc fazepnos duvidar do scntido da própria vida, mcsmo cn-
quanto a estamos vivendo. Com toda a razâo podcría anteci-
par e generalízar aqui a conclusão a quc chcgou certo pacientc.
Uma vez internado, após uma tcntatíva de suicídi0, o paciente
a que me refiro, relatando a sua vivência, disse que, para efeti-
var o suicídio projetado, quisera deslocar-se a um lugar afastado
da Cidade; mas, nâo encontrando nenhuma companhia de bon-
des quc o levasse, rcsolvera tomar um tax'i. «Então - concluiu
ele - pus-me a pensar sc náo seria melhor poupar os dois centa-
vos; e não pude deixar de sorrír involumar1'amente, reparando
na soviníce de qucrer poupar dois centavos imcdiatamcnte an-
tes da morte».
Se alguém há a quem a própria vida aínda nâo tenha su-
Hcientcmente convencido de quc não se vive para «gozar a ví-
da», consulte a estatística de um psicólogo experimental russo
que, ccrta vez, mostrou como o homem normal expcrimcnta,
em média, nos seus dias, incomparavelmcnte mais sensaçóes de
- rdesprazer quc dc prazen AJia's, a experiência cotidiana põe Ja
/ .e o prmxcípio do prazcr, náode manifesto quâo insatísfatório
só enquanto visâo da vida, e portanto na prática, mas também
íiANÁLISE LXJ'S'1'ENCIAL GERAL
na teor1'a. Assim, se pcrguntamos a um homcm por quc nâo
faz isto ou aquilo quc a nós nos parcce tcr scntido c clc nos dá
como «razáo»: uNáo tcnho nisso pramr ncnhum», - logo to-
mamos esta resposta por insatisfatória. Imcdiatamcntc nos salta
à vista quc cssa rcsposta não é propriamentc rcsposta alguma,
pela simples razão dc quc nunca podcmos fazcr valcr o prazcr
ou o dcsprazcr como vcrdadciro argumento a Favor ou contra o
sentido de uma açáo.
De modo quc, o príncípio do prazer como máxima scria
igualmente insustenrável, mesmo quc se vcriñcasse o quc Frcud
afírma num dos scus trabalhos _ «Para além do princípio do
prazer» -: a tendência gcral do orgânico para rctornar à paz do
inorgânico. Frcud julgava poder provar com isso a añnídadc cn-
trc toda tendêncía para o prazcr c 0 quc clc dcnomína instínto
da morte. Só que, a mcu ver, scria pcrfcitamcnte concebívcl quc
todas cssas tendências originárias, psicológicas c biológicas, pu~
dessem continuar a scr reduzidas mais ainda. porvcntura até um
princípio dc equilíbrio univcrsaL quc coopcrasse pam cuncclar
qualqucr tensão em todas as rcgiócs do scr. Na vcrdadc, a física
conhece algo dc semelhantc na sua tcoria da cntropia; o cstado
cósmico ñnaL quc há quc espcrar. Assim, à «mortc térmica»
poderíamos contrapor, como correlato psicológíco, o Nírvana;
em suma, 0 cquilíbrio de todas as tcnsócs anímicas. mcdiantc
a libertação de todas as scnsaçócs de dcspmcn seria o equí-
valente microcósmico da cntropía macrocósnúca. consídcram
d0-se 0 Nirvana como a entropízz «uixta de dentro». Mas o próprio
princípio do equilíbrio reprcsentaria 0 contrário, frontalmente
incompatíveL do «princípio de indívíduaçâ0», tendente a con-
servar todos os seres como seres individualizados, como scrcs
que são-diferentemente (Ander5-sein)“. Basta o existír esta com-
(24) A tcoria de Schroudingcn análoga a csta. n.1-'o é sobrc o scr, mas sim sohrc a VÍdíL 99
100
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
traposição para se concluir que, do ponto de vista ético, nada
colhe o achado dessc princípio tão universaL a añrmação geral
de quaisquer tendêncías cósmicas; pois é claro que o acontecer
objctivo de modo algum é subjetivamente obrigatório (ist0 é,
para o sujeito). Quem nos afirma que, por assim dizer, temos
que identiñcar-nos com todas estas tendências e princípios? A
questáo começa precisamente com o problema de saber se nós
devemos submetcr-nos a tais tendências, - mesmo que porven-
tura as descubramos no nosso próprio acontecer anímico. Sem
dúvida, é perfcitamente concebível que a nossa missão própria
consista precisamente em resistir ao domínío dos poderes desse
tipo, externos ou intemos. W
É provável que todos nós, em virtude de uma educação uni-
lateralmente naturalista, tenhamos um respeito desmesurado,
excessivo, pelos resultados da pesquisa das ciências naturaís e
das ciéncias exatas, pelos conteúdos da imagem física do uni-
verso. Mas, teremos que temer realmente uma morte térmica
ou um «perecíment0 do mund0», como se uma catástrofe Hnal
de proporçóes Cósmicas pudesse prívar de todo o seu scntido os
nossos esforços e os das geraçóes que nos seguirem? A «experiên-
cia interna» duma vivência simples c isenta de preconceitos teó-
ricos não nos estará antes a ensinar que, por exemplo, a alegria
evidente de ver um pôr de sol tem não sei quê de «mais real» do
que, digamos, um cálculo astronômico sobre 0 suposto momen-
to cm que a terra virá a chocar comra o sol? Poderá ser-nos dado
algo dc mais ímediato do que a experiência de nós mesmos, ~ a
autowmpreemâo do nosso m=b0mem mquanw ser-re›'p0ma'vd? Al-
guém disse já que «0 mais certo é a consciência»~“; e nenhuma
(25) Em .1-lcmã0. u frase é um rrucadilho mais exprcssivoz «Das Gewisscstcn ((› mais
certo) é «<das Gcwissenn (a consdéncia). Para conscrvar 0 trocadilho. poderia dizcr-sc,
quando muitoz uo maís consciemízado é a consciéncia». (N.T.)
,\) ANÁLISE EXISTENCIAL GERA L
ceoria sobre a «natureza» ñsiológica de certas vivências, ncm a
tcse de que o gozo não é senão uma dança organizada, intcíra-
mentc dcterminada, de moléculas, átomos ou elétrons no in-
terior das células ganglionares do córtex cercbraL - nenhuma
delas é tão irrefutável e convincente como a experiência dc um
homem que, pela vivência do mais alto prazer estético ou da
mais pura felicidadc do amor, tem a certeza dc que a sua vida
possui pleno sentido.
No entanto, a alegría só pode dar sentido à vida sc a vida,
de per si, o tivcr já. Aliás, o sentido mais rigoroso da alcgria,
não é ncla que res¡'de. Bem vistas as coisas, reside sempre fora
delaz porque, cm cada caso, a alegria ínrendr"' para um objeta
Já Scheler nos indica que a alegria é um sentimento intencíonaL
ao contrárío do mero prazcr, que conta entre os sentimentos
não intencionais, os sentimcntos «de estado». «estados afctivos».
Salienta, a este propósito, o referido autor o fato de os usos da
linguagcm cotídiana acusarem já esta diferençaz tem-se prazer
«p0r causa de» alguma coisa, mas é «a propósito» de alguma coi-
sa que a alegria se sentelÍ Isto dá-nos a lembrar também o con-
ccito do modus uivendí «presenüsta», nos tcrmos cm que Erwin
Straus o consagrou. Neste modo de viver, o homem aferra-se
precisamente ao estado de prazer (a embr1'aguez, por exemplo),
(26) Do latim intmdere, tcnder para. No intuito dc scrmos Héis ao scntido exaro que 0
A. tem em mente, conscrvarcmos o latinismo ao longo dc toda a obra. (N .T.)
(27) A difcrenciação linguísticaa que o tcxro alude é diñcilmentc traduzívcl cm todo o
seu rígor. Pam mclhor conscrvar o argumcntm mantivc na tradunráo o sentido litcral^ das
prcposíçóes alcmãs, prcscindindo da adaptação cxígida pclo contcxto, em portugués.
uWegcnn cquivalc a upor causa dcnç uübcrn equivalc a ua propósito dc». «sobrc». TalveL
contribua para o esclarecimemo da leitura o observar-se que a preposição r<übcr»
1'mplic;1, no caso cm aprcç0. uma rcfkréncia ao temd para o qual tcndc o sujcito c quc
cstá à vista dtlc. ao passo quc a preposiçào «wcgen» parecc cxprimir mais dctcrminada
conscquêncim 0 pruzer serim pois, um rcsulmdo acontecido em cmmquéutizz dc Jlgm c
.1' alcgth um scnrimcmo quc 0 sujcitofàz, por assim dizen ao zmderpam detcrminado
obieto ou tema. (N .T.) 101
pSlCOTERAPIA E SENTIDO DA leA
bjetos, - que seria, neste
matiwz para os valores
Assim se Compreende
náo pode ser nuníca um ñm em si; não
ria como taL E uma «realidade de
enas na execução de atos Cognos_
ortanto, dos atos intencionais
a os valores (obs. 8). É o que
Kíerkegaard ex_
frase, ao dizer que a porta da felicidade
abre
ha-se para qucm, tentando abri-la, a em_
ara a felicidade aquele que a todo o
c fcliL Dohde se conclui que toda
da vida humana - é, já
, o reíno dos 0
' só a íntentío e
execuçáo» (
cítivos de valo
daquele que capt
prímía numa bela
para foraz essa porta Fec
purrar. Barra o caminho
p
se empenha em tornar-s
à fe'licídade - ao suposto «Hnal»
res; na realização, p
rranse
aspíraçâo
dc sí, coísa ímpossweL
O vaJor é necessariamente tmnscendente
em face do ato que
inlenda Transcende o ato cognoscítívo
de valores (wert.
e sc diríge em díreção a ele, de modo análogo
ao que
o de um ato cognoscítivo (n0 sentido eStrito
e deixar de estar fora deste. A fenome-
nología pôs de manifcsto que o carátcr transcendente
do objeto
de cada aro intencional faz já parte do conteúdo deste
ato. Se me
é dado ver uma lâmpada acesa, é-me dado ao mesmo tempo
o
fato de que cla está aí, aínda que eu feche os olhos ou lhe
volte as
costas. «Ver» já sígnífica também ver alguma Coísa que está
fora
dos olhos. Náo obstante, talvez alguém insísta na tesc de
que 0
o realmente as coísas que sc acham no mundo,
s imagens das coisas, reHetidas
para ele
-k0gm'tiz/) qu
ocorre com o objet
da palavra), que nâo pod
que vemos não sã
fora de nós, mas simplesmente a
na nossa retinaL Como se sabe, esta tese - absolutamcnte falsa -
corresponde ao erro fundamental da escola positívísta de Mach,
que parte metodicamente dos dados scnsíveis. Ora; uma atítudc
é umaque se atém às sensaçóes como tais, enquanto sensaçÕeS,
antude totalmenre determinada e, na verdade, meramente sc-102
-_..v-,«-
44._
.
M ANÁLISE EXISTENCIAL (.'ERAI.
cundar1a,\1sto e, reHexa; qu.e, por consegu1'me. se adapta muitíssí-
mo bem a postura cognosativa da psicologia cient1'ñca, mas não
dc modo algum, à postura puramente natural do conhccimentá
Oira, umfa teoria do conhecimento não tem primariamente nem'
a mtenvxçao n_em a m.15830 de ser teoria psicológica do conheci-
ment0' , p015 a sua mtenção e missâo é antes a de ser, sem mais
teoria do conheciment0. ›
Poderiamos ir mais longc até e dizer que se cngzmaría quem
Porventura aHrmasse que, com os óculos postos, apenas se veem
as lcntes, mas não (através delas) as próprias coisas. Com efeito,
não há dúvida de que nos podemos fixar nas impurczas, nas
nódoas ou partículas de pó que tenham aderido às lcntes; mas
nem por isso seria lícito esquecer que com essa atitude apenas
estaríamos atentando nos defeitos das lentes. Pois bem: a crítíca
do conhecimento é também uma atitude com que nos fixamos
nas fontes de erro do conhecimento; mas de um conhecimento
que, em sí, é certo! Quer dizer: trata-sc de uma postura que
atenta nas fontes de erro dum conhecimento cuja exatidâo po-
tencial sempre se pressupõe, precisamente ao aceitarcm-sc pos-
síveis fontes de erro.'
No conhecimento de um objcto como real, já cstá implícito
o reconhecer-se a realidade deste último, independentcmente de
quc o cognoscente ou quem quer quc seja o conheça de fato. O
mesmo se aplica aos objetos do Conhecímento de valores. Se é
que ainda se faz mister, podemos esclarecer ísto com o seguin-
te exemploz um homem observa que os atrativos estéticos da
(28) An11.'ogo ao conhecimento psicológico seria - para Continuarmos com 0 típo dE
cxcmpliñcação adotado - aquclc caso particular em quc alguém só visse rcalmenle as
imagcm reHctidas na rctina, sc, por cxcmplo. lcntasse estudar num olho arrancado a
um Cadzíver os processos físicos da râmam nhígira, imitados por aquelc. Rcalmenlc. é
de pergunmz a atitudc psicológica pcrantc os processos anímicos não encerrará
em
sí uma espécie dc udcsmembramento quc dissolvc a íntima c coerente cnntextura
do
todo vivo»?
105
104
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
sua companheira erótica apenas lhc são «dados» enquanto ele
se acha numa determínada disposição, ou seja, cnquanto se en-
contra num estado dc tensào sexuaL sentindo que, ao cessar esta
excítaçâo, é como se todos os valores estéticos de anum modo
desaparecessem Daí o concluir que tais atrativos nada têm de
reaL correspondendo antcs ao ofuscamento dos seus sentidos,
resultante da sensualidade; c que, por consegu1'nte, não repre-
sentam nada de objetivo, antes são qualquer coisa dc relativo ao
estado concreto do seu organismo, que se funda na subjetividade
dos scus insrintos. Mas esta conclusão é falsa. Não há dúvida de
que determinado estado subjetivo foi a condiçâo adequada para
que ccrtos valores se tornassem perceptíveis; também nâo há dú-
vída de que determinada dísposíçáo do sujeito constituí o meio
ou órgão neccssárío à captação dos valores. Contudo, isto não
exclui a objetivídade dos valores; pelo contrário, pressupÕe-na.
Por conseguínte, tanto os valores éticos quanto os estéticos re-
quercm, assim como os objetos do conhecimento, atos adequa-
dos à respectiva captação; entretant0, sempre tais atos implicam
a transcendência dos referidos objetos; quer dizcrz estes objetos
sâo transcendentes em relaçâo aos atos que para eles intmdem
veriñcando-se, portanto, a sua objetiv1'dade.
E isto em nada se altera pelo fato, já mencionado, de que a
nossa imagem dos valores, tal como a nossa imagem do mundo,
apenas nos permite ver, em cada Caso, como que um setor do
mund0, um simples corte do mundo, vinculando-nos, assim,
à perspectiva. O que porventura ocorre é que todo dever-ser é
dado ao homem com caráter concret0, na concrctizaçâo do que
«dcve» fazer, «aqui c agora». Os valores redundam, assim, em
exigências do dia e em míssões pessoais; ao que parece, só atra-
vés destas missóes é que se pode ímmder para os valores que por
trás delas se escondem E não sería de excluir a possibilidade de
que aquela totalidade para a qual se abre, por assím dizer, todo
m ANÁLISE hX'ISTENCIAL GERAL
devcr-ser concreto, jamaís se torne visível para o indivíduo vin-
culado à perspecríva do concreto (obs. 9).
Toda pessoa humana rcpresenta algo de único e cada uma
das sítuações da sua Vida algo que não se repete. Cada missão
concreta de um homem depende relativameme deste «carátcr de
alg0-úníc0», desta írrepet1'bílidade. É por isso que um homem
só pode ter, em cada momento, uma missão única; c é assim
precisamente que esta peculiaridade do que é único comuni-
ca a tal missão o caráter dc absoluta Pode-se dizer, portanto,
que o mundo29 dos valores se contempla em perspectiva, corres-
pondendo, porém, a cada situação uma única perspcctiva, que
é precisamente a exata. Ha', por conseguinte, uma exatidão ab-
soluta, nâo apesar, mas justamente por causa da relatividade da
perspectiva.
SUBJ ETIVISMO E RELATIVISMO
Permita-se-me fazer ainda uma observação a respeito da obje-
tividade daquilo a que Chamo sentidm a objetividade não exclui a
sua subjet1'vidade. Explico-me: 0 sentido é subjetivo na medida
em que não há um sentido para todos, mas sim um sentído para
cada um dos outros; entretant0, no caso Concreto de que se tra-
tar, o sentido não pode ser pummente subjetiv0502 não pode ser
a mera expressão,o puro reHexo do meu ser, nos termos em que
o subjetivismdl o relativismo o entendem e n0-lo pretendcm
fazer crer.
Assim, quando dizemos que o sentido é não só subjetivo,
(29) No origínal lé-sc o mundo (Die Wc/t). scm mais (N .T.)
(30) No scntído dc um undermzmnmL podemos deñm'-lo. com RudolfAllers, como
tran.s*-sub|'ctiv0.
(3l) A rigon o subictivismo ncga que lmja um sentido. pois sustenm que não «0» há.
scndo no's. pclo contrário, que damos c atribuímos um scntido a uma situaçâ0. 105
F"""'*
p5¡COTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
mos salientar que está numa
_ e com a situação em que
apenas quere
m a pessoaw
e realiza e sc insere. Sob este pnsma, é
tuaçâo é realmente rclativo; é-o, as_
tomada, no caso concrcto, como
mas também relat1vo,
determinada relaçao co
precísamcnte cssa pcssoa
s .
quc o sentido de uma sn
m rclaçáo a uma situaçao
claro
sim, e
irrepetível e única.
.d
A pessoa tem que atingir e captar
0 sentl o, tem quc apreeIL
dê.lo, percebê-lo e efetivá-lo, isto é, rea.liza'-l,o.
sentildo, por-
de da sua relaçáo com a SItuaçao, e tambcm, por
ível e único; e esta unicidade do «único que se
c o sentid0, extraídwo da sua trans-subjetivida_
dado por nós, seja para nós um dad0, por
e realização dcste dependa da subjetívídm
de do saber e da comcíéncia bumanos. A falíbilidade do saber e
da
consciêncía nâo prejudica zz tmns-subjetz'vz'dade do ente azptado
pelo mber lmmwzo nem a do dewmer mptzzdo peld Comciéncía bu-
mamL E qucm estiver convencído desta trans-subjetividade logo
se convence tambérn de que só uma consciência equivocada po-
deria advogar qualquer coísa de semelhante ao homícídio ou
ao suicídio. Esta convícçáo legitima por ísso que o médíco, em
casos excepc1'onais, se responsabilize por uma ímposiçâo da sua
concepçáo do mundo e da sua concepçâo valoratíva; sem esque-
cer, mesmo entáo, a falibilídade tanto da sua conscíência como
da do pac1'ente.
A consciência Faz parte dos fenômenos especíñcamente hu-
manos. Poderíamos defini-la como a capacidade intuitiva para
tanto, em virtu
seu turno, irrepet
impóe» faz com qu
de, em vez de ser algo
muito que a percepção
seguir o rasto do sentido írrepetível e único que se csconde em
cada situação. Numa palavraz a conscíêncía é um ózgámsmtida
Mas nâo basta dizer que é um fenômeno humano; diríamos
NÁLISE EXJSTENCIAL GERALNA
homem a enganar-se. Mais ainda: até o últímo momemo, até o
últímo suspiro, não sabe o homem se realmente tcrá realízado 0
sentido cla sua vida ou sc apenas se tcrá iludido: z'gnoramm, igno-
mbimm Desde Peter Wust, porém, «incerteza e risco» implicam-
.5e mutuamente e - por mais que a conscíéncia o dcixe scm saber
Se afinal encontrou, atingiu e captou o scntído da sua vída - tal
«incerteza» não dispensa o homem do «risco» de obedecer à sua
consciência, começando por escutar, antes de tudo, a sua voz.
E nem só cste «rísco» faz parte da «íncerteza»; faz parte dela
também a hum1'ldade. O fato de nem sequer no leito de mortc
virmos a saber se o órgão-scntido, a nossa consciência, nâo cs-
tevc añnal submetido a um sentído ilusório, signiñca, já dc si,
que a consciência dc outrem bem podc tcr razáo. Humildade,
portant0, signiñca tolerâncía; mas tolerância não qucr dizer in-
diferença, poís o respcitar a fé de quem de outro modo crê, nem
de longe requer que nos identiñquemos com a fé alheia.
Ninguém nega que, em certas circunstan^cias, o homem não
pode entender o sentido, tendo antes que interpretá-lo“. Mas
isso não signiñca, ncm de longc, que tal interpretaçáo se efe-
tue arbitrariamente. Com efeito, possuíndo o homem liberdadc
para adotar qualquer interpretação, - náo terá ele de arcar com a
responsabilídade pela interpretação exata? Porque decerto só há
uma resposta para cada pergunta, isto é, a resposta exata; para
cada problema há apenas uma soluçáo, a solução válída; e, em
cada vida, cm Cada condíção de vida, só um sentido, o verdadei-
ro. A um quadro de Rorschach dá-se um sentidoz c o sujeito a
quem se aplica o teste de Rorschach (pr0jetivo) «desmascara-sc»
precisamente em razào da subjetividade do ato mediante o qual
lhe atribui um sentido. Contud0, na vida não se trata de uma
atríbuição de sentido, senão de um achado de sentido; o que scamda que e exmmameme human0, p0iS, na verdade, partici-
Pando da Condlção humana. está sujeito ao seu cunho carac-
terlstico,106 107 (32) V. E. ankL emz Die Kmfizu lebem Bekenntnixse umerer Zeit. Gütersloh l963.a sua fimtude. E claro que a consciência pode levar o
108
PSICOTÉRAPIA E SENTIDO DA VIDA
faz não é dar um sentido, mas cncontra'-lo: encontrar, dízemos,
e nâo inventar, já que o sentido dzz Uida mio pode ser irwentadm
zmm tem que ser dexmberm
O seguinte episódio talvez nos possa esclarecer até que pon-
to, malgrado toda a subjetividade que porventura afete uma in-
terpretaça'o, nunca falta, ao sentído para o qual ela intendc, um
mínimo de trans-subjetivídade. Um día, estando eu nos Estados
Unidos, por ocasíão de uma discussão que se seguiu a uma das
minhas conferências, tíve que havemne com uma pergunta que
me fora apresentada por escrito e estava vasada nestes termosz
«Na sua tcoria, como se deñne 600?›.› Mal passou a vista por
este text0, 0 moderador da discussào dispunha-sc a pôr de lado
0 papel donde constava a pergunta, enquanto me comentavaz
«É absurdo! Como se define 600 na sua tcoria!...» Nist0, peguei
no papeL dei-lhe uma vista de olhos c dísse categoricamente
quc o moderador - um teólogo proñssionaL note-sc dc passa-
gem - tinha-se enganado; com efeito, no origínal inglês, a pala-
vra «GOD», escrita em caracteres de imprensa, náo era nada fá-
cil de distinguir de 600. Graças a este equívoco, cfetivowsc um
teste projetivo ínvoluntário cujos resultados, no caso do teólogo
e no meu próprio, como psiquiatra, acabaram por ser comple-
x
atamente paradoxais. Fosse como fosse, tendo rcgressado
Universidade de Viena, onde leciono, não perdi a oportunidade
de que os meus alunos americanos observassem o texto origi-
nal em inglês. O resultado foi que nove estudantes leram «600»
e outros nove leram «GOD», havendo entretanto 4 a hesitar
entre estas duas interpretaçóes. O fato é que - e aqui é que eu
queria chegar ~ estas interpretaçõcs nào tinham o mesmo valor;
pelo contrári0, só uma delas se pcdia c exigía, e cra estaz o autor
da pergunta pensara única e exclusivamente em «1Deus» e tinha
entendido a pergunta aquele que, ao lê-la (e precisamente sem
nada se pôr a decifrar), a rivessc ínterpretado no sentido aludido
m ANÁLISE EXIsSrENCIAL GERAL
pela palavra «Dcus». E por mais que esteja obrigado a scguir
a sua co“nscíência, dcla dcpcndendo quanto ao scntido duma
situação concrcta, c por muito quc duvíde (mesm0 quc scja até
o último suspiro) sobre sc a sua consciência sc engana ou nâo
na situaçâo concrcta, - o homcm tem quc arcar com o risco
dessa possibilidadc e conformar-se com a sua humanidadc, com
a sua ñn1'tude. É o quc diz, aliás, Gordon W. Allportz «We can
be at one and the same time half-sure and wholc-hcartcd»”.
Assim como o ser~livre do homcm c, añnaL o próprio ho-
mem, não tcm nada de onipotentc, - assim também o seu scr-
-responsável está conñgurado dc tal Forma quc, nào scndo o ho-
mem oniscicnte, tem que decidir tão somentc «como soubcr c a
consciência lho permitir».
Sempre que se acha o sentido único de uma situaçâo ou se
añrma a sua concordância ou discordância com um valor uni-
vcrsaL o papcl da consciência parecc dcscmbocar numa captação
de conñguraçóes (Gestaltefrasxen); e isto em virtude do que nós
chamamos vontade dc scntido e James C. Crumbaugh e Leo-
nard T. Maholick deñnem como a capacidadc especiñcamcme
humana para descobrir a conñguraçâo do sentído (Sinngesml-
tm), não apcnas no real mas também no possíveVÍ
Em certa ocasião, Wcrtheimer sustcntou o scguintez «The si-
tuati0n, sevcn plus seven cquals... ís a Systcm with a lacuna, a
gap (um lugar vago). It is possíble to ñll the gap in various ways.
The one complction - fourtcen ~ corrcsponds to the situati0n,
fíts in the gap, is what is structurally demandcd in this system,
ín thisplace, with its Function in the wholc. It docs justice to the
situati0n. Other completions, such as Hfteem do not HL They
(33) Í›)_*Vr/IU/ugim/ Aludvlsjíar Cutidmmç Hnrvard Edumtionnl Rcvicw 32, 573. l962.
(34) ). (Í. Crumbuugh c L T. Maholick. 17'Je CIIJf quthnÍelcÍ «Wi// to 1V1m›1ing»,
_]0urn;1l ofExisrcnnlal Psychiatry 4. 42. l96.'›. 109
' um-
HO
PSICOTERAPIA E SENTIDO DAVIDA
are not Lhe rivhot ones. Wc have here the concepts of tbe demands
_afrbe situdriom tbt '“rtquirrdnc$s'. “Requirementx” ofsucb an or-
dzr arz abjtmw qualiñeyÊÍ
\."ore-se, alias'. que, para além do sentido vinculado a uma
simac2_'o irrcpcúvel e un'ica, há ainda un1'\›'ersajs de sentido, que
sc prendem à tondilíon lmmaine enquanto taL e é a estas pos-
sibilidades gcrais de sentido quc se chama valores. É verdade
que o homcm uperimenta uma degradação de valores, prin-
cípíos éticos e morais, de validade mais ou menos geralz com
o decurso da história, esses valores degradam-se efet1'vamente,
cns'tzhzan'do nos quadros da socíedade humana. Esta degrada-
ca›'o._ porém, vcm a ser para o homcm o preço pago por declinar
dc si 05 conHjtos. Nâo se trata aqui propriamente de conHitos
dc consdénc1'a;de rcsro._ tajs conHitos náo existem na realídade,
poís é incquívoco o que a consciéncia dita a cada um. O caráter
de conflito é antes ineremc aos valorcs: na verdade, ao contra'n'o
do :\entuí0' das situaçocs' irrepetíveis c únicas de cada caso, que é
comveto (e, como costumo dizen o sentído sempre é sentido não
só adpmomnz. mas também zzdsitzmzionmz), os valorcs são, por
deñniçáo. abstmtos zmz'vmaz's-de-:entido; como tajs, não valem
pura e simplesmeme para pcssoas inconfundíveis, ínseridas em
situaçóes irrepeu'vcis. estendendo-sc a sua validade a uma área
ampla de situaçócs repetíveis, t1'picas, que interferem umas nas
outras. Ha', portanto, situaçóes em quc o homem sc acha de-
frontc de uma alternativa dc valorcs, pcrante a necessidade de
escolher dentre princípios entre si comrar'ios; e, como cssa esco-
lha não deve ser fcita arb1'tran'amente, ei-lo de novo a reportar-se
à consciência e na dependêncía da consciéncia, que apenas lhe
ímpóe decidir lz'wemente, - náo arbz'rmrz'ammte, mas com respon-
sabilidada Sem dúvida, ainda é livre em face da cohnsciência; mas
(3)'› Emz Dommmtí nchde stcbology Un1'versin_' ofCalifomia Prcss, 1961 .
,-\\ ANÁLISE DUSTENCIAL GERAL
csta liberdade consiste única e exclusivamente na escolha cntrc
duas possíbilidades: ouvir a consciéncia ou fazer-lhe orelhas de
mercadon Reprima-sc e sufoque-se sístematicamente. meto-
dicamenta a Conscíência, e logo se cairá ou no conformismo
ocídental ou no totalítarismo orientaL - conforme os «valores»,
cxorbitantemente generalizados pcla socicdade, scjam propostos
ou impostos pela força.
Dissemos que o caráter de conHito dc que aqui sc trata é
inerente aos valorcs. Mas nem sequer ísto é assim tão garantido,
porque as possíveis ínterferências entre as csferas de validade dos
valorcs podem ser simplesmcnte aparentes, por se veríñcarem
mediante uma projeção e, por conseguinte, mediante uma per-
da da sua dimensão. Quer dizerz só quando pomos entre pa-
rênteses a diferença dc nível hierárquico de dois valores, é que
cles paIecem intcrferir um no outr0, colidindo entre si: é o que
sucede com duas csferas, se as proietamos num plano; as ñguras
resultantes da projeção colídem entre si, muito embora as esferas
tenham sído tomadas por scparado no espaç0.
TRÊS CATEGORIAS DE VALORES
Tentamos dcsenvolvcr os argumcntos nccesszüios para rebater
o ceticismo de princípíos que com tanta frequência manifestam
os nossos doentes, fazendo frente, assim, ao niilismo. Mas, mui-
tas vezcs, faz-se ainda mister tornar visível a ríqueza do mundo
dos valores, o rcino dos valores em toda a sua plen1'tude. Real'-
mente, de quando Cm quando convém que o homem não se fixe,
por assim dízer, perantc um determinado grupo de valoresz quc
não se aferre à sua rcalização, sendo, pclo contrário, suñcientc-
mentc «dócil» paIa sc deslocar a um outro grupo de valores que
cstcja mais aJém, se é que aí, e só aí, se dá a possibilidade de uma 111
rf
112
PSlCOTERAPlA E SENTIDO DA VIDA
a vida pede ao homem umaA este respeitm \ _
uma adaptaçáo elástlca as oportumdadesrealizaçâo
de valores.
cidade declarada,elasti
ce urn dos nossos pacientes a
a sua vida nâo tem sentido
algu.m, p0r Carecer de
10r a sua atividadel Antes de mals, temos que cha-
para o fato de que, _ l
uc um homem proñssmnalmente se 51tua ou
lhe que o que importa fundamen~
além disso, o preencher
añrmar que
um valor super
mar-lhc a atençao
ferente o lugar cm q
all ue faz; dizcndo~
0 Uab 10 q mo trabalha
e,
' oa mcnte e o modo c
~ I l
tl
naL se acha 1nser1d0. O que tem 1m-e añdeveras o lugar cm qu ,
. f
rtância nâo é, portanto, a grandaza do seu
ralo de açao, mas
po
apenas o fato de se desempenhar do círculo
das suas obrigações_
Um homem simples que realmentIC cumpre .as
tarefas c.oncretas
impostas pela família e a profissão e, a despelto da sua
v1da «pe-
quena», bem «maior» e mais altamente Colocado
do que, por
exemplo, um «grande» estadista que, com uma penada, .p,ode
dispor da sorte de milhóes de pessoas, mas toma as suas dec1$oes
sem prestar atenção à consciência. .
.
Ora, o que nos permite compreender o valio^so Ida v,1da, m.-
dependentemente da e_streíteza das suas c1'rcunstanc1as, e prec1-
samente a apreensão de toda a riqueza do reino dos valores. A
este propósito, importa frisar que nem todos os valores se cifram
numa realização mediante um ato criador. Ao lado daqueles que
poderíamos denomínar valores «críadores», há outros que se rea-
em última análise, é ind¡-
lizam na experiência vitaL e que denominaremos «vivenciais».
Sâo os que se realizam, por exemplo, ao acolher o mundo, na
entrega à beleza da natureza ou da arte. Não é lícito desdenhar
a plenitude dc sentido que também podem confcrír à vida hu-
mana. Talvez haja quem duvíde de que o sentiâdo atual de deter-
minado momento da existência humana possa ser preenchido
numa simples vivência, isto é, para além de qualquer fazer e
N ANÁLISE EXJSTENCIAL GERAL
Conduta, de qualquer realização de valores através de ativida-
de_ A quem assim duvidar, talvez valha a pena referir a seguin-
te experiência mentalz imaginc-se que um homcm, amante da
música, está sentado na sala de concertos e que, precisamente
no instante em que lhe soam aos ouvidos os compassos maís
tocantcs da sua sinfonía predileta, sentc aquela forte comoção
que só se cxperimenta perante a beleza mais pura. Suponha-se
agora que, nessc momento, alguém lhe pergunta se a sua vida
tem um sentidog a pessoa assim interrogada nâo poderá delx'ar
de responder que valeria a pena viver, mesrno que fosse só para
experimentar a vivência dessc doce instante (obs. 10). Com cfei-
tO, embora sc tratc de um só momento, pela gnmdeza de um
momentojá sepode medír d grandeza de uma vidaz a altura duma
serrania não nos é dada pcla altura de um valc qualqucr, mas sirn
e exclusívamente pela aJtura do mais alto cume das montanhas.
Assim também, o que na vida decidc do seu carátcr de scntido
sâo os pontos altos; e um simples momento pode dar sentido,
retrospect1'vamente, à vída inteira. Senão, imagínemos ainda um
homem que, empreendendo uma escalada de alta montanha,
saboreia o arrebol dos Alpes nas alturas e a tal ponto o domina
toda a majestade da natureza que se sente transido de emoção; e
perguntemos-lhc se, depois dcssa vivência, ainda se podc consi-
derar totalmente scm sentido a sua vida...
Ma5, a meu ver, há ainda uma terceira catcgoría de possíveis
valores. Com efeito, a vida também se revela, em princípio, ple-
na de sentido quando náo é fecunda em criaçóes ncm ríca em vi-
vências. Quer dizer: há uma vasta série de Valores fundamcntaís
Cuja realizaçâo se cifra no modo como o homem se insere numa
limitaçâo da sua vida. Precisamente no modo de se comportar
perante este estreitamento das suas possibilidades, abre-se um
novo e especíñco reino de valores, que sem dúvida algurna se
conta entre os mais altos.Assim, urna existência, por muito em- 113
lH
l)\'ILD'l^EPu\PI.-\ E SENTIDO
DA VIDA
'1]Íd1dc. porém. só o será em valores
recer ainda uma última oportu-
. d ,rto a majon p;1ra. apesar de tudo,
r'ealiznr valores_
mdadcv C ecg Hes valorcs, valorcs de atitude
(Ezmtellzmgswer_
depcnde da atitlu.d.e qdue dollonAl'1.en'1 adote
pCrIHHIC um dcstino imutách
hAâpOSSlblllda C e rcd lzar ehstes
valores de atitude sempre se
vcrxhca, portantm quan 0 um 0_
1rmsta um destino perante o qual
nada mals pode fazer
Í tudo está no modo Como o
suporta,
ça ~ na re
, pode ofepobrccida
que p.1re.
criadorcs e vívcncmls
-
mem l
c' " )rta- 0;LUC .'1c1ta-Io. supc
l i T1
tludo dcpende de que o mrreguc
sobre sx çomo uma cruz. rata_
-se de atitudes tais comoz a valentia no sofrimento,
a dignidade
na ruína e no malogro. Ora, desde quc os valores
de atltudc se
a estkra das possívcis categorías de valores. ñca pa-
teme que a c.\'istênci;l humana nunca nla realidade e propria-
mentc sc podc considcrar sem sentido: a wda do Ímmem tonserua
0 M scurida até uas últimas», aré o úÍrimo suspira Enquanto cstá
uma responsabilidade perante os va-
incluam n
consc1'entc. o homcm tem
lores, ainda que apenas se trate de val'ores de atltude. Enqumto
tem um ser-conscicnte. tem tmlbéln um ser-responsa'vel. A sua
obrígaçào cle realízar vdores náo o deixa em png até o ul'timo
instmre da eñstência Por muíto limitadas quc venham a ser as
possíbilidades da real-ização dc valores, a realizaçáo de valores de
atitudc sempre cominua a scr possível. Assim se demonstra, por
outro lado, a validade da afirmaçío de que partimosz ser-homem
signiñca ser-consciente e ser-responsável.
De hora a hora. muda na vida a oportunidade de uma orien-
taçào pam estc ou para aquele grupo de valores. Umas vezes, a
vida cxigemos que rcalizemos valores criadorcs; outras, que nos
oricntcmos para a categorm dos valores vivençiais. No primeiro
caso. tcrcmos. por assim dizen que enriquecer o mundo com 0
nosso agin no segund0, teremos que enr1'quecer-nos a nós mes-
mos atrnvcs das nossas vívências. O ímperatívo do momentm
ora o poderemos satisfazer por meio de um ato. ora por meio da
nossa entrega a uma possibilidade de vivência. Scndo assinn até
à alcgria pode o homem estar «obrígado». Neste scntido, alguém
que. encontrando-se sentado num ônibus e, ao prescncíar um
pôr de sol soberbo ou ao notar o aroma dc acácias cm Hor, em
Vez de se entregar a esta possívcl vivência da natureza. continua
a ler 0 Seu ÍomaL de CCHO m0d0. poderia ser classiñcado, nessc
momento, como «esquecido do seu dcver».
Para Compreendermos a possibílidade de realízar as três ca-
tegorias de valores mencionadas, numa sucessão unita'ria. quase
dramática, podemos referir aqui a história da vida de um docn-
¡e, cujos últimos capítulos passamos a esboçan Tram-se dc um
homem novo que, em consequência de um tumor nào operá-
veL localizado na parte superior da coluna vertebraL estava in-
ternado num hospítal. A atividade profissional tínha-lhe sido
proibida há muíto tempo; manifestaçóes de paralisia haviam-lhe
cerceado a capacidade de trabalho. Assim. iá não tinha qualquer
acesso à real-izaçào de vdores criadorcs. Mas. nesse cstado. ainda
continuava aberto para ele o reino dos valorcs vivcnciaisz man-
tinha conversaçóes estimulantes com os outros pacicntcs (scm.
ao mesmo temp0. deixar de os entreter. encoraiando-os c conso-
lando-os): ocupava-se com a leitura de bons livros e. sobrctudo.
ouvindo boa música no rádio. Até que. um dia, não podia mais
segurar os auriculares; c as mâos, Cada vez mais parah'sadas. nào
podiam já Compulsar livro nenhum. Entâo imprimiu à vida a
segunda viragem; dcpois de tcr tido que deixar os valores criado-
res para se debruçar sobre os valorcs vivenciais. viu-se foirçado a
orientar-se pura os valores dc at1'tude. Acuso poderemos interpre-
tar de outro modo o seu comportamcntm tendo em conta que.
a partir desse rnomento. se pôs a servir de conselheiro e modelo
aos companheiros de hosp1'tal'? .E. de Eltm suportou com vdcmia
as suas dores. No dia da morte - que ele conhecia dc antemão -
_Í.
llí
116
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA \'ID.-\
ficou sabendo que o médico de plantão tinha sido cncarregado
de lhe aplicaL a seu tempo, uma injeçâo de morñna. Poís bem:
quc fez o nosso doente? Quando 0 médico apareceu para a visita
da tarde, pcdiu~lhe que lhe desse a ínjeção mcsmo antes de sc
dcitar, para não ter dc acordar de noíte por causa dele.
EUTANASIA
Posto ist0, impóc-se pcrguntar se em alguma circunstamcía
estamos autorizados a privar um dloente, já votado à morte, da
oportunidade dc se entregar à «sua morte»; da oportunidade de
cncher de sentido a sua existência até 0 scu último instante, ain-
da que, no caso, se trate apenas de realizar valores de atitude.
Isto é, temos diante dos olhos o problema de saber como o pa-
cientc, o «sofreme», se comportará perantc os seus sofrimentos
quando estes chegarem ao max'¡mo e ao ñnaL O morrer do pa-
ciente, contamo que se trate real e exclusivamente do seu mor-
rcr, faz parte, a rigor, da sua vida e encerraJha numa totalidade
de sentido. O problcma com que aqui dcparamos é o problema
da eutanas'ia; não no sentido de alívio prestado ao moribun-
do, mas no sentido mais amplo de «golpc de misericórdia». A
cutanas'ía, no sentído mais estríto da palavra, nunca constituíu
problema para o médico; a mítigação das an'sia$ da morte me-
díame medicamentos é coisa evidente, sendo igualmente uma
quesrão de fato o momento indicado para cfet1'va'-la, de modo
que é supérHuo discuti-la no plano dos princípios. Mas, afora
este tipo de alívio ao moríbundo, para além da eutanas'1'a no
sentído cstrito da palavra, têm-se feito tenta_t1'vas, e em var'íos
lugares, para consentir legalmente na livre elíminaçáo das cha-
madas vidas ínúteís. A cste propósito, cumpre alinhar as seguín-
tcs consideraçóes.
!x
N .\__\'ÁLISE L'\I'STE\.'CIAL GEML
Em primeiro lugar, e contcstando mis tcntativas, forçoso é
reconhccer quc o médico não foi chamado a julgar do valor ou
não vaJor duma vida humamL A sociedadc humana apcnas o dcs-
u'nou a prcstar ajuda, onde pudcr, c a aliviar as dores, onde tiver
que fazé-lo; a curar os homens, na medida cm que 15$'o estiver ao
seu alcancc, e a cuídar delcs, quando tal já não lhc for possíveL
Não cstívessem os pacíentcs c scus familiarcs convcncidos dc quc
o médico toma a sério e à letra essc mandato, c logo desaparcce-
ria, duma vcz para sempre, a conñança que ncle deposiLam. O
doentc em nenhum momemo saberia sc o médico, ao aproxímar-
-se dele, vem para ajuda'-lo ou para mata'-lo, como carrasco.
Esta posicafo de princípios também náo autorím nenhuma
excccafo quando, em vcz dc sc tratar de doenças físicas incura'vels',
sc trata de doenças mcntais, ígualmentc incuráveis. Com cfeito,
quem se atreveria a profetizar por quanto tempo se tem de con-
siderar incurável ajnda uma psicose rida como tal? E, antcs de
mais, não nos é lícito esquecer que o diagnósrico duma psícose
tída por incurávcl pode muíto bem ser algo de subjetivamentc
certo, mas sem quc as manifestaçócs objetívas da mesma nos
permítam ajuizar do ser e nâo-ser do paciente. Foi-nos dado
conheccr o caso de um homem que, tcndo dc ñcax entrevado
na cama cínco anos inteiros, a ponto de sc lhe atroñarem os
mus'culos das pcmas, precisava também de que o alimcntassem
artiñc1'almente. Se se tivesse moscrado cste caso a certos médicos
que costuma haver pelos hospitais, com certeza que algum deles
teria formulado a pergunta típicaz não seria melhor acabar com
a vida dc um homem assim? Pois bemz o Futuro tinha preparado
a melhor rcsposta a essa pergunta Um dia, o nosso pacientc pe-
diu quc lhe consentissem tomar uma rcfeicafo normal e mostrou
vontade de se levantaL Fez exercícios até conscguir suster-se ou-
tra vcz nas pernas, cujos mus'culos se haviam atroñada Poucas
semanas depois, deram-lhe alta e em brcve proferia conferéncias 11'
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É mufro :"L.xt«m-n'vo. s ôiíô mswim o caso de um mchco novo~
úúzmdo mr um manmxmmnm _mr ek íá mrremmeme diag-
snsmzlão mm rmçoex_:' nqmúusrthÃCidà Qx m~.-.;:§ tcnurmx
de urim. 9m°~1§mi3do 3 deis De_.i3 ée ourrm docmesz mu tbi
m'ut3ã: o àxmm mm no:'te. m“°hou-“.\ no Iabomtóño c efenmom
por gn mnu n megãa Em pmgrddndo a doençL rcmiaxxu
uma tçanrañu àis mçcidh TmhxiL q_uc tczs o medico dorntef
Camsçou ~; àuxiàar csda wz msis do primcim dz'.1-gn.,m'tim -
ai-ux^" mm - qm m7mz e. ao ~cn:tir mcrismews no Hgada entmu
1 diLyamácar àkurbfios bepátims inotênsixmz Qucr dizcrz sem
s
"\.,'*?.à4.\'°f. P~...-:\'1n'-; e mga1-;\;=-$: 3 sí m°~..:mo. pmkuneme ms
wncms àxa vomzzde
dc nWrer x cbelmxí Osz é exa~
mkwhms mlwr :i...m3
cíuús rbrem mm Íhmüí
_\\ k_\'_-\USE E\'L'=S I'E\.'L^L&L GER\¡
\_L¡s mmbém ü rccorrc treÃuemtmcmc a outm argumycma
o argumento dos quc sc retêrtm no rhto dc os doenm mcntak
-_“nmr.i\ris. especicdmcmc os que iá naaxeram com uma mn'*'_tio-
n'd.¡dc de cspírito. mprcsennuem uma bma monómia pm a
gçiaiadc hummgn sendo ímprodutivos c inteimmentc m”u'tels'
Wn x mmun1'dade. Todnim quc dizer desra aroumt›cnta~g.1“'03
\_'.x rtxxlidadà os idíoms. que pelo menos guzãllm um carrínho de
nu'o. ml~vez até seiml mús -produtivmv do que. por excmpla
05 velhinhos scnis que \^cotbmm dcntro dum asilo: e. no cnmnm
05 mcsmos que .~e“ JIÊ^_'1'F&II1 ao critério de utilidade pam a comu-
nidadc cermmeme mh*aç.m'.1m a ideia de mcrmináJos com
Eusx na mem mzâo de impmduúxid;1de. É quc todos tcmos de
mnhslxxwr que um homem que esri mdmdo pclo amor dos seus
mpmxnm o obiem de todo em todu insubstimíveL de\.~“e amon
bajmndo i\.\*0 p.Lm que a sua xida tenlm um sentidm mhda que
punmzsme pasiva Pelo visnm ncm toda a cmue mbe que xafo
1ñnal n crimçgs mcntalmcntc atrmdu as que. mx geml pre-
dmlcnte no Ru Carátcr de dcsmlidauz mads tema e cuidadoauw
mcntc sào amadu e Jmpamdas por seus púsz
Qumto a mim. a obrioabção incondicional de ›.11*\ar*. que o
medim tem sempre quc pxmL nào o ahmdona nem tqyuer
qumdo ›e" lhe depar~a um pademe quc tenha tcnmdo matam
c cuia xída se adwc agom prexm por um ño. .\'esm situasâm o
n1td1"'co enmm o pmblcm;1 de mbcr se dcve ou nâo entrgcsxr o
suicida à morte liutmente ñcolhidaz sc lhe é lícito opopsc à sua
mnmde dc x suicidar~. mmifesmda iá na prÂtiGL ou x tem quc
resp6im>hn Talvez se pudmw dizer que 0 med'ico que intcném
tcmpeuticsmente penmte uma tentatim dc suicídio mz' o papd
de dcsu'no. cm vez dc dM ao desrino lims curso. Mas a ism obie~
tamm nos' 0 sthm se o adestmou u'\'cx.\“e sido deLm morrer 0
mmdo da vida aqui em quesr.ío. ese xxdcsúnm tcria têito o pos-
sível c o imposível pan quc a intcntnçào med1"ta Lh'cg.1:m** mrdc p~l IJI
120
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
muito OpOITLlHâITlCHÍQfor, mal o «destino», _ ,d'
, - S do médico alguém ainda com v1da,
este .me, 1lco
poc nas ma.0 mo médico e em nenhum caso lhe serla hc1to
tem quc aglr C°_Z ara decidir sobre o ser ou nâo ser, quer por
arvorar-se em Jul a›CP05m0visâo pessoaL qucr por puro arbítrio.
dcmaís. Seja como
razões ligadas a su
SUICÍDIO
abordamos o problema do suicídio
discutindo as
que o observa de fora. Tentemos
Até aqui, .
possíveís posições do médlco
esclarecer agora este problema,
l d h
tro, procurando compreendê-lo sob o prlsma
o omem. que se
examinando ao mesmo tempo os mOthOS da
vendo-o, por assim dizer, de den-
cansou de viver,
sua justiñcaçâo interi0r.
Já se tem falado do chamado suicídioíbalanlçoz Com
isto
quer-se dizer que um homem só se poderla dec1d1r por u.ma
morte voluntária baseando-se num balanço que faz da sua v1da
inteira. Até que ponto este balanço, enquanto balanço do lpra-
zer, tería que ser forçosamente ncgativ0, já o vimos ao examlmar
o problema do «prazer como sentido da vida». O que aqu1 nos
ocupa, portanto, é apenas o problema de saber se alguma vez o
balanço do vaJor da vída pode ser tão negativo que o continuar
a viver chcgue necessariamente a añgurar-se sem valor. Ora
bemz nós temos por duvidoso que o homem esteja em condi-
çóes de fazer um balanço da vida com a objetividade suñcientc
Isto vale designadamente para a añrmaçáo de que uma determi-
nada situação nâo tem saída ou tcm por única xsaída o suicídio.
Por muito que essa añrmação corresponda a uma convicção, tal
convicção continua a ser algo de subjetiv0. Mesmo que apenas
um dentre os muitos que tenmm o suz'czd'z'0, por extarem convenci-
dos de mío Iuwer mzd'a panz a sua situaçâo, náo tivesse tido mzá0;
N ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
mamà que só nesse azxo, apemr de tudo, se encontrasse mais tardc
uma outm sazd'a, - mesmo que assz'mfosse, digo, qualquer tentativa
dg suz'czd'z'o mreceria dejustficaçáa Com cfeíto, a convicção sub-
jetiva é añnal a mesma ñrme convicçâo cm todos aqueles que
se decidem pelo suicídio, e nenhum deles pode saber de ante-
máo se precisamente a sua convicção é objetiva e fundamemada
0u, pelo contrário, não Virá a scr desmentida pclo acontecer das
próximas horas, aquelas horas que, dadas certas circunstâncias...
não mals v1vera.
Num plano puramente teórico, scria perfeitamcnte con-
cebível que um suicídio se just1'ñcasse, uma vcz ou outra, como
sacrifício conscientemente oferccida Contudo, bem sabemos
pela experiência que os motivos de um suicídio desse tipo tam-
bém brotam muitas vezes dum ressentimento ou que, mesmo
em tais casos, se acaba por divisar ainda outra qualquer saída
para a situação aparentementc sem perspectiva. Assim, prati-
camente, pode dizer-se que o suicídio nunca tem justiñcaçâa
Nem sequer 0 suicídio expiatórioz porque, assim como torna
impossível - no sentido da realização dos valores de atitude - o
crescer e amadurecer pela dor genuína, assim também impossi-
bilita o reparar, dum modo ou doutro, a dor inHigida a outrem.
O que 0 suicídio faz, isso sim, é perpetuar o passado e, em VCZ de
arrancar do mundo uma infelicidade ocorrida ou uma injustiça
cometida, arranca o eu, e nada mais.
Detenhamo-nos agora naqueles casos cm que os motivos de-
pendem de estados enfermiços da alma. Dcixaremos em aberto
o problema de saber se, numa sondagem psiquiátrica estrita e
profunda, poderia vir a descobr1'r-se alguma tentativa de suicí-
dio que não tivesse a menor base psicopatológica. O quc aqui
nos interessa é antes estabelecer que, em todos os casos, estamos
obrígados a demonstrar aos cansados da vida o contrassentido
dO suicídio, o incondicional caráter de sentido que a vida sempre 121
rr
122
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA
V1DA
a crítica imanente e uma argumenta-
em elementos o quer
d1"Zer› recorrendo aOs
erapia. A este pr0pósít0,
haverla que Chamar-l.hes)
to de que o cansaço de vwer
nunca um sentimento podendo
representars
nto. O certo é que não lhes
cabe em sorte
a solução dum problema. Sim, o que
uém que esteja decídido zz suícídame é
bretudo mostrar-lhe repetidamente
quc um su1c1d10 nao pode
50 T
problema algum emos que lhe fazer
ver Como ele se
assemelba zz um jogador de
xadrez quwa colomdo pemnte um pm
blemzz que Zbe parece extremamente
dfiitiL joga fonz ax pedwdo
'sso remluer qualquer problema de xadrez.
Com a
'o o, sem com z
l
sucede também a55ím: nenbum problema se
resolve deztando
fora zz vz'da. E, assim como esse jogador
de Xadrez não se atém às
regras do jog0, assim também viola as regras
do Jogo da v1da um
homem que escolhe a morte voluntária.
Estas regras, e claro que
não nos exigem vcncer a preço de tudo;
mas com certeza que
nos impóem 0 nâo abandonar Jamals a luta (obs. 11),
~ e isto, mediante
um
tCm,
çáo baseada
mcios da logot
antcs de maís,
é um sentimento,
bjetivos,
porém, um argume 1
o que procuram,
tcmos que fazer com alg
resolver
Ev1'dentemente, não precisamos tirar do mundo todas as cau-
sas de infelicidade para afastarmos do seu propósito aqucle
que
está decidido a suicídar-se; nem poderíamos faZê-lo. Não neces-
sitamos proporcíonar a mulher amada ao enamorado infeliz, c
também náo se trata de arranjar, a quem sofre indigência, um
ordenado. O que importa conseguir é convencer estes homens
de que, não só são capazcs de continuar a viver sem aquilo que,
por uma razâo ou por outra, não podem ter; mas também de
que têm de ver uma boa parte do sentído da sua vida precisa-
mente em superar interíormente a sua 1'nfelicidade, em crescer
com eIa, mostrand0-se à altura do seu dest1'n~o, muito embora
lhes seja negada anuma coisa. Contudo, só poderemos levar os
nossos doentes a tomar a vida como um valor, como algo que
M ANÁLISE EXISTENCIAL GERM
Sempre tem um sentid0, se estivermos em condições dc lhes dar
à vida um contcudo, de os levar a encontrar na sua existência
uma meta, uma ñnalidadc; por outras palavras: sc os sabemos
Pôr diante de uma missão. «Quando se tem na vida algum "por-
qué”» - diz Nietzsche - «qualquer “como” se pode suportar»
(obs. 12). De fato, o saber-se incumbído duma missão na vida
tem um valor psicoterápíco e psico-higíêníco extraordinário. Es-
tamos em dizer que nâo há nada de mais apropriado para quc
um homcm vcnça ou suporte diñculdadcs objctivas ou transtor~
nos subjetivos do que a Consciência de ter na vida uma missão
a cumprir. Contanto que ela seja talhada, por assim dizer, com
caráter pessoal, representando o que efctivamente se pode dcno-
minar uma míssáo; e scndo tanto mais eñcaz, de resto, quanto
mais pcssoal for. Tal missão torna o scu titular insubstituível e
conferc-lhe à vida o valor dc algo único. A frase de Nietzschc
que citamos dá a cntender também que 0 «como» da vida, e
portanto quaisquer circunstâncias penosas que a acompanhem,
passa para segundo plano no momento e na mcdida em que
para o primeiro plano passar o «porquê». Mas há maís: uma vez
atingida, a Lompreensão do caráter de missão da vida tem como
consequenaa que, a rigor, a vida se torna tanto mais plena de
sentido quanto mais difícíl se tomar.
A VIDA NO SEU CARÁTER DE MISSÀO
Além disso, se qucremos ajudar os nossos doentes a ativar o
mais possível a sua vida, se os quercmos tírar, digamos assim,
da sua situação de «patiem» para conduzí-los à situação de um
«agem», não nos poderemos contentar em levá-los à vivéncia da
sua existência como ser-rcsponsa'vel perante as possibílídades de
realizaçâo dos valores; temos que mostrar-lhcs também que a LJ UJ
TIM
PSICOTERAPM E SENTIDO DA vmA
Í ' f
' '
sem re um
nmento sao rcsponsavexs,
e p na
por cujo cumpmissãoz ñ. . ' a, .Issao 65 eCI C . . r C '
m O at'per especíñco desta
mlssao e duPl°' om efelto” a m”'
car m _ ' '
- ' muda âmeLr dz bomem Pa bomem em Comommaama mw JSOtZ muda tzzmbem de hom rz bora,› - erzr umco de mdll P _ C_
cia do azrzífer irrepetível
de azda 5ztua,ao. Bastc-nos
alores de situaçãm (c0n-ue Scheler denominou uv
, que valcm sempre c para tod05)_
de que a sua hora
com o mrlí
em tÍeronên
recordar O q
s valores «ctcrnos»
é como sc escivessem à cspcra
l
chegasse, à espcra de que um homcm
a'prove1te a ocla51ao 1r.¡-e_
pctível de reaJiza'-los; a ocasião que se _delxa
fpassar sera ocaslao
perdida irremediavelmente e o valor de 51rtuaçaAo
ñca Para sempre
irreaJízado, - o homem desperdiçou-o. Ja se
ve, port'anto: ciomo
cstcs dois aspectos da CXÍStÉnCÍa humanaf o seu
ca.rater rumcwo e
írrepetível - são constítutivos do seu caratcr delsentlda
E, ahas,
à ñlosoña existcncialista do nosso tempo quc nos devcmos
o ter-
-se realçado a cxisréncía do hornem como algo cssencialmente
u», - ao contrar'í0 do vago conceito de
uapostos ao
Esres valores,
concreto, que é «só mc
vida da ñlosoña da vida de Outros tempos. So a551m, com esta
forma concreta, é que a vida humana adquiriu obrígatoríedadc.
Não é em vão que sc dcsibnoa a ñlosoña existencialista como ñ-
losoña «vocativa» («appe/Íierende»). Realmente, a explicada cxís-
téncia humana, como algo de único e irrepetíveL encerra urna
vocação (Appell apelo, chamada) para realíw as suas possíbüi-
dades únicas, que não se repetem.
Sc. no sentido duma anal'ise da existência e ao scrviço duma
logoterapia, queremos Ievar os pacientes a conccntrar-sc o maís
possível na sua vidag basta mostrar-lhcs como a vida de cada ho-
mem tem um fím úníco, a que conduz um único caminho. Ncs-
tc caminho, o homcm assemelha-se ao aviadog que, numa noite
nevocma e voando as' cegas, é «p11'otado» até o aeroporto. O
caminho indicado é o único a conduzir o piloto à sua meta. As-
N Asta EXISTENCLAL GERAL
Sím também cada homem, em todas as situaçoe$' da vidaa conta
com um caminho único c írrepetíveL pelo quzl pode chegar à
rajização das suas majs peculiarcs possibüidades.
Pois bem. Se um pacíente vem ter conosco e nos d12' que
ignora o sentído da sua vida, que as possíbilidadcs únicas da
Sua existência lhe estão vedadas, podemos reph'car-lhe que a sua
primeíra c mais imedíata missão cstá precisamcntc em dcscobrír
a própria míssão e em avançar resolutamcntc ao cncontro do
sentido da vida, no que ele tem de único c irrepetíveL E, para
mnto, no que sc refere especialmente as“ suas possib1h"dadcs in-
teriores, no quc diz respeito, por consegm'nte, ao problcma de
sabcr como poderia decifran digamos assim, no seu ser a d1r'e-
çáo do seu dever-ser, - nada melhor do que ater-$e à rcsposta
de Goethez «Como pode uma pcssoa conheccr-se a si mcsmaf
Nunca pcla reHexão, mas sím pcla ação. Tcnta cumprir o teu
dcver e logo saberas' o que há cm ti. Mas, o que é o teu devcrÉ A
exjgêncía do dia».
Pode ser que alguns homens, não obstantc reconheccrcm o
caráter un'ico, dc missão, da sua vida, e apcsar de estarem tam-
bém decididos a realízar os scus valores de situaçâo concrctos,
un'icos, considerem «desesperada» a sua situação pessoaL Ncstes
casos, o que temos que perguntaL antes de mais nada._ é i5toz que
sígniñca «desctsl:›osrado».> É claro que o homem náo pode predi-
zer o seu futuro. Alías', nunca o poderá, precisamentc potque o
seu conhecímcnto do Futuro imediatamcnte inñucncíaña o seu
futuro comportamento, ao sabor da sua atítude mais ou mcnos
tenaz ou sugestionável; e, sendo assun', já estaria conñtrubrando
o futuro de outro modo, e a pr1m'itiv:1 preñsão deLmà de ser
cxata. Mas enquanto o homem não puder profetizaL também
nunca poderá pronunciar-se sobre se o seu futuro encerra ou
não a possibilidade de realízação de valores. Uma vcz, um nbeoro
que tínha sido condcnado a trabalhos Íorçados por toda a vida.
126
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
embarcou cm Marselha, rumo à ilha do Diabo. No alto-mar,
sobreveio um incêndio no barco que o levava: era o «Leviathan»,
que ñcou destruído na ocasiáo. O condenado, um homem ex-
traordinariamente forte, tend0-se libertado dos grilhões, salvou
a vida de dez pessoas. O feito vaJeu-lhe, mais tarde, um indulto.
Sc, estando ainda no cais dc Marsclha, tivesscm perguntado a
essc homem se, na sua opinião, podcria ter para cle algum senti-
do 0 resto da vida, com certeza que logo tcria dito quc não com
a cabeça. Ê que, afmal de contas, nenhum homem pode saber
se tem aínda alguma coisa a esperar da vida e se algum grande
momento por ele ainda espera.
Nínguém tem 0 direito de apelarl para a sua própria insu-
ñciência; portanto, ninguém tcm o direito de menosprezar as
suas próprias possíbilidades interiores.Por muito que um ho-
mem duvidc dc si mesmo, por muito que a sí mesmo qucira
fazcr justiça, metend0-se a magicar escrupulosamente a sós com
a consciência, csse simples fato já, de certo modo, justíñca a
sua vida. Com efcito, sucede aqui o mesmo que com 25 afliçóes
em torno da relatividade e subjetividade de todo o conhecimen-
to (bem como com a Captaçâo dos valores): assim como tais
aHiçóes pressupõem já a objetividade do conheciment0, assim
também o autojulgamento de um homem prcssupõc um ídeal
da personal1'dade, um dcvcr-ser pessoaL Um homem destcs já
tem em vísta algo de valor e, por isso, participa no mundo dos
vaJores; desdc que esteja em condiçóes de aplicar a sí mesmo a
pauta dum ideaL é porque nâo podc estar totalmente privado
de valor. Efetivamente, atinge com isso já um nível quc o salva;
tendo conseguido elevar-se acima de si mesmo, entrou numa
regiâo do espírito e conñrmou a sua cidadania num mundo do
espírito, cujos valores passam a ser-lhe inerentes. uNão tívcssem
qualquer coisa de solar os nossos olhos, e nunca o sol podería-
mos contemplar...» este um pensamento que se poderia apli-
m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
car por analogia à generalização do desespero, à dúvida que se
Vê na humanidade. Vêm-nos dizer que «o homem é mau» no
fundo de si mcsmo (0bs. 13). Em todo o caso, este pessímismo
não autoriza ninguém a paralisar o seu agír. Se alguém pretender
convencer-nos de que «todos os homens, em última anal'ise, são
egoístas», como se os aJtruístas só aparentemente o fossem, nada
mais pretendendo que libertarem-se dum eventual scntimento
dc compaixão, bem sabemos o quc lhe havemos dc responder:
em primeiro lugar, a climinação dum impulso de compaixão nâo
é um Hm, mas uma consequência; em segundo lugar, o modo
de manífestar-se esse impulso pressupóe já um autêntico altruís-
mo. Mas, além disso, poderemos objetar que valc para a vida
da humanidade o que acíma dissemos sobre o sentido da vida
indívíduaL Quer dizcr: o que decide sâo os pontos culminantes,
tanto na históría dos tempos como por entre as serranias. Bas-
tariam algumas existências exemplares ou mesmo cste ou aquele
homem concreto, a quem votamos um amor verdadeiro, para
justiñcar a humanídade como um todo. E se, ñnalmcnte, nos
fazem ver que os grandes e eternos ideais da humanídade são por
toda a parte fementídos e aproveitados para distorcidamente sa-
tisfazer ñnalidades da política, dos negócios, do erotísmo pessoal
ou da vaidade privada, também poderemos responder quc tudo
isso depóe a favor da obrigatoriedade geral e do poder impere-
cível dcsses ideaisz com cfeito, se para tornar eñciente qualqucr
coisa, é necessário revesti-la duma roupagem moraL isso apcnas
demonstra, ao Hm e ao cab0, que a moralidade é eñciente; c isto
sígnifica que ela é capaz de atuar sobre os homens precisamente
em virtude da moralidade que lhes é própria.
Por conscguintc, a missão que um homem tem que cumprir
na vida, sempre na base da vida está presente, nunca, em príncí-
pio, sendo impossível de cumprir. Nestes termos, o que em geral
interessa à anal'ise existencial é fazer com que 0 homem cxpe- 127
ñPSICÚTERAPIA
E SENTIDO DA V¡DA
onsabílídadc pelo cumprimento
omcm apreender 0 caráter devencíalmcntc
a resp
aís 0 hrímente
vi
da sua míssão;
missáo que a v1d
tido a sua vida. Ao passo
responsabilídade cncara' 's ' ' -o a vê' a aJ<'lse cxxtencml ensmae ebenImt), a an
gfge elv . .
(Gdg
31go que lhe é cncomcndado
(Aufb7/Jezt). 1\/Ias aqul
ter c 1
demos dcixm de observar
ainda o segumt6: ha homenS
a' O
. a
.
no mais um passo. vivcndo
a wda, dlgamos assun. numa
que ao
d - ue WJ maís longa Sáo homens para quem a mlssão,imensao _ . _
x .
q é qualquer coisa dc transmva Epenmentam
a vivéncía de uma insnância donde a míssão
váo ao encontro da instância que 05
quanto m '
a tem. tanto maxs lhe
que o homen
a vida como algo símplesmenre
dado
-la com 0 cará_
parcccrá carregada de sen_
1 sem consciência da sua
por assim dízen
juntamente com ela,
Ihes vem. Na sua vivênc1a,
l ~
íncumbc da missão. Vivem a missáo
como mmdara A Vlda de¡-
xa transpareccr neles a prcsença dc um mandante
transcendente.
' ' a r um dos rasoE é com Isto, a meu ver. que se podena desenh
DOS
essencíais do lwmo ze'/zg'ío›'m': aquele homem
em cuyo ser-cons-
responsávcl se dâo conjuntamente a mlssão vnal e ocíentc e set-
mandante que lha confere (obs. 14).
Aprcsentamos o ser do homcm como SCr-resp0nsavel. Este
scr~responsável é sempre um ser responsável pela reahzaçáo de
vaJores. Pois bem: ao fal.armos destcs vaJ'ores, díssemos que cum-
pria ter também em conta aqueles quc são irrepetlveis, os «valores
de síruaçáo» (Scheler). As oportunídades de reahzaçao de valores
adquírcm assím um cunho concreto. Convém salientar, porém,
que náo se vinculam apenas à sítuaçào, pois se Iígam também à
pessoa, varíando não só de hora a hora, mas igualrnente de pes-
soa para pessoa. As possíbílidadcs quc cada homcm tem para sí, e
exclusívamentc para sí, são tão especíñcas como as possibilidades
quc a sítuação hístórica ofêreca no scu carátef irrepctíveL
Numa visualízaçáo analítico-existcncíal rigorosa, não pode
de|x'ar de se nos añgurar ímpossível uma missáo vital vzüida128
__w
íNÁUSE E.\l'STENCL-\L GER\›LM A
Cm termos geraís e obrigatória para todos. Sob este prisma, o
Problcma «da» missão da vída, ndou sentido da vidm - é um pro-
blema sem scntído. Tal problema, posto dessa fbrmm fhz pen-
Sgr na questão que. por hipo'tcse. um rcpórter formulassc a um
çampeâo mundíal de xadreL mais ou menos assimz «E agora, di-
ga-n16, mestre, na sua opiníào, qual é a melhor iogada?n É uma
pcrgunm que também não tem uma rcsposra válida cm termos
geraís. mas apenas uma resposta atincnte a uma situac.__'ão com-
crcra (c relativa a uma pessoa dctemu'nada). Qualquer campeão
mundíal de xadrez, se añnal quisesse tomar a sérío a pergunta.
teria quc respondcr ísto: uUm iogador de xadrez dcvc-se com-
portar em cada caso, de modo que tentc faz.er a melhor iogada,
na medida das suas próprias possibilidadcs c do que o adversárío
lhe pern1itír». E valeria a pena sublinhar aqui duas coisasz pri-
meír0, que há que avdiar a sítuação intcríon isto é. os chamados
dotcs da pessoa, - e é isto o que se tem cm mente na rcfcréncía
«medida das suas próprías possíbilidadesm depois. quc cumprc
ter em conm quc o jogador em questào nunca podc Íàzer senão
«tCIltáD> a melhor iogada para uma situaçáo concrcta do iogo.
isto é. a que melhor quadrar a uma determinada disposição das
pedms no tabuleiro. Quer dizer: se de antemâo quisesse ñtzer a
jogada considcrada melhor em termos absolutos. atormenmdo
pela dúvida e pela autocríu'ca. pelo mcnos teria que deixar pas-
sar o tempo de que dispóe e abandonar 0 iogo. Or;1. as coisas
passamse de maneira idêntica com o homcm quc póe 0 problc-
ma do sentído da sua v1'da: para que a formulaçào do problema
tcnha algum sentído como taL só a pode nventar em vista duma
situaçáo concreta c bem assim cvm vísta da sua pessoa concreta:
mais do que ísso, teímar cm fhzer 0 ótimo absolut0. em \'ez dc
simplcsmcnte x<tcntaru fhzàlo - scría Ellso c docntio. Bem en-
tendido, sempre deve tender para o mclhor. poís, caso contrário.
nunca nada de bom lhc adviriaz mas, ao mesmo tcmpo. tem que IJW
130
psICOTERAPIA E SENTIDO DA v1 DA
ção do seu objctivo,
nunciar a uma consecuestar disposto a rc
que náo seja apenas a
S a ora passamos a resumir
tudo o que dlssemos sobre
0
e
I -
.
g
do sentido da vida, chegamos a
uma crmca radlcal do
ema oblema do sentido da vida, sem mais,
o está mal posto, se nos seus termos
e «a» vída e nâo, em concreto, «a
ntamos a uma reHexão sobre
ssintótica.
probl
problema como tal. O pr
carece de sentido, porquant
as se considera vagament
a» cxistênc1'a. E, sc nos remo
ra originária da nossa vivênaa do mund0, tcremos
quc
blema do sentido da vida uma vimgem copemíazna: é
quefazperguntm ao bomem 0 que o bomem tem
nterrogan mas ser inlterragzldo pela vida e à vida
em que responder à w'da, tornanda-se «re_pson_
respostas que o homem dá s'ó podem ser
ntas vitais»concretas. E na respon-
apen
mính
a estrutu
dar ao pro
a própríd uida
quefzzzer mío é í
mpondm o bomem t
szíwbyí Entretanto, as
respostas concretas a «pergu
, / n
sabilidade da existênaa que se dá a sua resposta;
e na proprla
' d lh \ 'existência que o homem «efet1va» o respon er- e as questoes
quc lhe são próprias.
Talvcz não dcixe de ser oportuno referir aqui o fato de que a
psícologia evolutiva também salienta que o «extrair um sentido»
se veriñca numa fase der desenvolvimento maís elevada do que
o simples «dar sentido» (Charlotte Bu"hler). Assim, o que tenta-
mos «desenvolver» logicamente mais acíma - isto é, o prímado,
aparentcmente paradoxaL da resposta em relação à pergunta -
cortesponde perfcitamente ao desenvolvímento psícológico; e
funda-se no experimentar-se o homem a si mesmo como alguém
(36) Esta expressão - «[ornando-se responsávcl» - é traduçâo incomplcta, se bcm quc
íncvitáveL do original alemão. O Auror diz que o homem utcm quc responder à (0U
plela) 'vida» rcíterando a ideía com o vcrbo urr~antwarlm (antwortm = responder), que
da ongcm ao adjetivo uerzmtwortlicb (responsável). Assím, em lnLgua alemã, pode-se
dizcr que o homem repsomzíuel é aquele que, na ordem de ideias dcsenvolvidas pelo A.,
rexpondt à vida. (N . T.)
ANÁLISE EXISTENCIAL GERALA)
Sempre ínterrogado. Ora, 0 instinto que, como vímos, conduz
o homem às míssóes da vida que lhc são mais peculiarcs, guia-o
também na resposta as\ pcrguntas da vida, na responsabilidadc
pcla sua vida. Este instinto é a consciência. A consciência tcrm a
sua «Voz», «fala-nos», - eis um fato fenomenicamente indíscu-
tíveL Acontcce, entretanto, que o falar da consciêncía é sempre
e em cada caso um responder. E aqui, considerado psicologica-
mente, o homem religioso é aquele que, ao atender ao falado,
cXperimenta a vivência de alguém que lhe fala, sendo portanto,
Por assim dizer, homem - de ouvido mais agudo do que 0 náo
religiosoz no Colóquio com a sua Consciência - essa conversação
mais íntima quc se dá a sós consigo mesmo - o seu Deus é o
interlocutor que o acompanha (obs. 15).
o PRINCÍPIO DA HOMEOSTASE
E A DINÂMICA EXISTENCIAL
Na pra'tica, a logoterapia acaba por estabelccer um confronto
entre a existência e o ZogoL Em teoria, não faz mais do que tomar
o logos por motivaçâo da existência.
Entretanto, salta à vista uma objeçãoz confrontando a exis-
tência com o Zogos, numa ordenação da pessoa ao mundo do
sentido e dos valores, não se estará exigindo demais ao homem?
Prescindindo de que hoje em dia há menos razóes para temer
semelhante coisa, cumpre observar que tais receios são radi-
calmente descabidos, na medida em que ainda se apoiam no
príncípio da homeostase, ultrapassado já desde v. BertalanEyMÍ
No âmbito da neurologia e da psiquiatria, foi Kurt Goldstein38
(37) Problemx oszfe', Nova Iorque, 1952.
(38) Human Ntzture in tbe Líglyt ofPsyrhopathology, Harvard University Prcss Cam-
bridge, 1940.
131
rf
132
1151ÇOTEIMPIA E SENTIDO DA VII)A
c o princípio da «temion reduc_
amente as hipóteses psicana.
a rigor, um princípio pa_
c ajusta ao homem é o
uiu demonstrar qu
C rcportam COlltlnLl
TCPYCSCH[9.,
quem conseg
tion», a quc 5
líticas e psícodí
IOlÓgÍCO patcntez o
suportar tensócs e o or
csquíva'-los a todo custo.
nâmicas,
quc normalmente s
ientar-se cm direção aos Valores, e
não O
que um dos atributos essencíais do
r-se num campo de tensão, entre
em visar o sentido e os valorcs,
tendo em conta que a fuga
Quanto a mim, entendo
mwo consiste em acha
polos do ser e dever-scr,
e às suas exigência5. Aliás,
, .
s exigências constitui um traço caraicterlstlco
da ex¡S-
logo se vê quanto a psicoterapla se deve opor
a
sem lhe ser lícito c00pe_
ser hu
os dois
abrindo-s
pemnte esta
tência neurótica, , .
o» tipícamente ncurot1co,
o afastar os pacicntes de qualquer tensão e
onto com 0 sentido e os valores, por um
estc «escapism
rar com ele, tentand
poupando-lhes o confr
medo excessivo de prcjudicar a homeostase.
a dínâmica que se estabelece no campo deEm logoterapia,
tensão entre os dois polos do ser e dever-ser denomma-se n00-
dinâmica, em contraposição a toda a psícodinâmica; e distin_
desta precisamente por cntrar nela um elemento de li-gue-se '
berdadez em sendo movido por 1mpulsos, sou atraldo para
os
valores, ísto é, posso dizer sim ou não a uma exigêncía dos va-
lorcs, posso portanto decid1'r-me dum modo ou doutro. Quer
dízerz o elemento da liberdade não se veriñca apenas em facc
da instante imposição, aliás meramente aparente, das condíçóes
biológícas, psicológicas ou sociolo'gícas, mas também em face de
uma possibilidade de realizar valores.
Quanto mais se reduz a tensão que mana da noodínâmica,
tanto mais se ameaça e prejudica o homem. Apoiando-se nos
resultados da investigação inspírada por Carl _Rogers, Allport
esclarece: «Therc ís always a wholesome gap between self and
ideaJ-sclf, betwecn prescnt existence and aspiration. On the
m ANAIISE l-.'XI.S"I'ENCIAL GERAL
other hand, tOO hlgh a satisfacríon indícatcs pathology»-“' A cm_
relaçao normal cntre a imagcm rcal de sí mcsmo c a ídcal díz
.. c
, lCle, podeua caractc-rlzar-se pclo cocñcícntc de + 58
Por 155°› ÊPÊrfeltamemÊ ComPrecnsívcl que os autores amc-
ricanos - e llm1t0-me a c1tar aqui Íheodorc A_ Korchcnm _,
bascando-se em estudos cstatístícos, tcnham dado crédito à lo-
goterapia por cla havcr tomado a orientação do homcm para o
sentído como pedra de toque da saúde an1'mica_
Nos Estados Unidos, a psícologia está domínada por duas
corrcntesz uma mecanícista, a outra - cm reação contra ela -,
humanística. Ao passo que a primeira se conduz pelo princípio
da homeostase, a segunda guia-se pelo ideal da realização de si
mesmo (Goldstein, Horney e Maslow).
Gordon W. Aleort acentua que 0 costume de entender a
motivação como uma tentativa de quebrar o estado de tensão
através da homeostasc não atínge a essência da aspiração pro-
príamente dita/“. De fato, Freud caracterizou «o aparelho aními-
co» Como algo cuja «intenção» Consístiria «em domar e eliminar
toda uma gama de estímulos e excítações que lhc chcgam dc
fora e de dentro»42; e os arquétipos de Jung, antes ou depoís,
sáo concebídos homcostasicamentez antes ou depois, o homem
é-nos, assim, apresentado como alguém cuja aspiração acaba na
realização de possibilídades que precisamcnte são pré-formadas,
mas que tcm na base, única e exclu51'vamente, a intenção de apa-
zíguar o acicate ou até 0 descjo de vingança contra arquétipos
não desfrutados e de evitar as tensócs por cles provocadas.
Charlotte Bühlcr tem razão quando añrma que «desde as
(39) Persomzliçy andSarial Entounten Beacon Press, Boston l960.
(40) jourmzloflndiuidual Psydwlagy 16, 174, 1960.
(41) Bewming, New Haven 1955, p. 48 c s.
(42) S. Frcud, Gesammelte Werke (Obras Completas), vol. XL p. 370. 133
ññ__ñ
134
PSICOTERAPLA E SENTIDO DA VIDA
s formulaçóes freudianas do
princípfio do prazer até à
ual versão do princípio da abreaçao («Sptznn.un.gm_
bfillírm purga de tensóes) e homegstasa
0 .C0nstante gbletwo
de toda a atividadc ao longo da v1da t.e,m OSIdo Cionice,b1do
sentido dc um rcstabelccimento
do equlllbrlo no mdmduml _
Mas ¡a' a própría Charlotte Bu"hler, ao criticar a Concenpção
freudiana dos processos dc ajustament_0 ,(Alnptmungsuorg.ange)
añrma que «no seu impulso para o equlhbrlo, quem se flJusta
oma a realidade ncgat1'vamente», ao passo que «qluem cr1.a_co-
a o seu produto e obra numa realidadc conceblda posmva_
menteW Assim, o princípio da realidade, na dependência desta,
também por sua vez ñca ao serviçó do prinCIpio do prazer, na
medida em que representa uma simples «modiñcaçâo» do prin-
«pois, no fundo, também tende ao prazer»“*5_
primeira
últíma c at
t
loc
cípio do prazer, , . .
Ora, bem vistas as coísas, podemos añrmar que o proprlo prmc1-
pio do prazer representa, por seu turn0, uma mera modlñcaçâ0,
enquanto se subordina a um princípio superior, da homcostase,
isto é, à tendência para manter ou restabelecer o mais baixo mvel
dc tcnsáo possíveL
Assím como a p51'canah"sepóe em relevo a vontade de prazer
na forma de princípío do prazer, assim a psicologia individual
accntua a vontade de poder, sob a forma do chamado impulso
para fazer-se valer (Geltungsstreben). Contudo, no caso do im-
pulso para fazcr-se valer, de Adlcr, já nem de longe se trata de
uma impulsividade do homem em direção a algo que, tomado
como agressividade daquela sexualidade salientada por Freud, sc
tivesse posto de lado; trata~se antes de um querer que brota do
«centro dos atos» (Scheler) («A/etzentrum») da pessoa.
(43) Bmir Ihnlencies in Hzmzrm sze', cmz Scin und Wisscn, 'Iu\binga, 1960.
(44) PsychoL RdsclL 8, 1956.
(/IS) S. Frcud. Gcsammeltc \Vcrkc. vol. VII, p. 370.
A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
Já se vê quc, no sistema fechado dc um «aparelho anímico»
dominado pelo princípio do prazer, não cabe aquilo a que nós
chamamos vontade de scntido c que ordena c orienta o homem
Para o mundo. Não se entenda, porém, este conceito, num scn-
tido voluntarista. Se falamos de uma «vontade de sentido» e não,
Por exemplo, dc um «z'mtz'nto dc scntido», não é porquc nos cur-
vcmos ao Voluntarismo; o que com isso queremos saliemar é que
nâo Se pode perder de vista o fato da díreta (prímária) intenção
de scntido, isto é, o fato de que o que o homem pôe cm jogo é,
ao fim e ao cabo, o sentido e mzda mais que o sentída Porque, se
realmcnte se tratassc dc um ínstinto, o homem realízaria o scn-
tido apenas para apaziguar o acicate do instinto e rcadquirir 0
seu equilíbrio. Se assirn fosse, contudo, o homem teria d61x'ado
dc agir por causa do sentido em si, e a nossa teoria da motivaçâo
víria a redundar no princípio da homeostase.
A crítica europeia ainda zomba da logoterapia. As obser-
vações que lhe faz ainda têm seu ar de troça; dizemz ora... ora'.,
«apelar para a vontade»! Entretanto, a psíquiatria americana foi
muito mais longe e deu a devida atenção a esta «vontade» táo
ultrajada na sua pátria. O renomado psicólogo existencial de
Nova York, Rollo May chega a añrmar que a psicanálise se torna
cúmplice da tendência do paciente para a pa531'vidade, levando-o
a considerar-se privado dc um podcr dc decisão, scm sc achar já
responsável nas suas diñculdades. Vale a pena transcrever aqui
a sua mordaz observaçãoz «The existential approach puts deci-
sion and will back into the center of the pícture»; e notar como
depois termina, tão oportunamente, com as palavras de um Sal-
mo: «The very stone which thc builders rejccted has become the
head of the corner»4°47. Por outro lad0, James C. Crumbaugh
(46) Revicw ofExistmtítzl Pyxdmlogy and Pglrlriatry 1, 249, 1961.
(47) Salmo 117, 22. (N.T.) 135
T
136
pSICOTERAPlA E SENTIDO DA VIDA
c Leonard
T. Maholiclg os diretores do Bmdlabcjl
thmter dle Cos
lúmbia. Geórgía (U.S.A.),
escllareccm, num tr okrpubWihCado
nojozmml 0fExzs'tentíal PchbzatrjI
Úbe Caslefodr dmn X « dlto
Mmm'ng»). que. no entender
deles, o reisu^ta io as Suas
expe_
ríências conñrma a nossa hipótese
da exxstenaa duma vontade
ido.
de Sscernita um erro interpretar
a ideia de Vontade de sentido a
modo de apclo para a vontade.
A fé, 0 amor, a espcrança não
se deixam manipular e fabrican Nínguém
lhes pode dar ordens_
Até à intervençâo da vontade se subtraem.
Eu não posso quõ
rer crcr, não posso querer amar, não posso
querer esperaL _ e)
sobretudo. não posso querer queren Daí que seja inutil exigir a
Apelar para a vontade deum homem «que queira o sentido».
sentido sígniñca antes o fazer com qua desponte o bnlho do
- pondo à disposição da vontade o querê-lo ou na'o_sentid0›
«Atualmente - diz Charlotte Bühler -, no campo da psi-
coterapia, há essencialmcnte duas conccpçócs fundamentais a
respeito das tendências básicas da vida. Uma é a da tcoria psi-
canalítica, segundo a qual o restabelccimento do equilíbrio ho-
meostásico é a única tendência básica da vida; a outra é a teoria
da realizaçào de si mesmo como meta ñnal da vida»48. Na síntcse
que faz, contrapo'c, como se vê, a teoria da libertaçâo dos ins-
tintos à teoria da realízação de si mesmo. Mas só na medida em
que o homem atínge o sentido é que ele se realiza também a si
mesmo: a realização de si mesmo, portanto, signiñca de per sí
como que um efeito da consecução do sentido, mas não 0 obje-
tivo desta. Só a exístência que a si mesma se transcende se realiza
a si mesma; entretanto, aquela que íntende tão só para si mesma,
ísto e', aquela que unícamente tende à rcalizaçâo de sí mesma,
decerto que fracassa. 0 ser do homem é, po_r sua essência, um
(48) Z. exp angczu Psydwl 6, 1959.
N ANÁLISE EXJSTENCIAL GERAL
Ser que esta ordenado para algo, que se dirige a algo, quer csse
21lgo seja alguém, quer seja uma ideia ou uma pessoa4°.
Ora bem, Charlotte Bühler observa com todo o acerto que
«\X/hat the representatives of the self-rcalization principle rcal-
ly meant was the pursuit of potentíalities». De fato, qualquer
rcalização de si mesmo redunda, añnal de contas, na realização
das possibilidades próprías. A cste propósit0, depara-se-nos hoje
uma série de teorias em cujos termos 0 homem apenas deveria
tentar gozar as suas possibilidades interiores ou, como se costu-
ma dizer, exprímir-se a si mesmo. Mas, 0 que é que está por trás
de todas essas teorías? Na minha opinião, o motivo que nelas sc
oculta é añnal uma tendência para minorar a tensáo provocada
pela ñssura existente entre o que o homem é e o que ele tem
quc vir a ser; a tcnsão que, bem poderíamos dizer, existe cntre
a realidade, por um lado, e, por outro, os ideais que cumpre
realízar; ou ainda, por outras palavras, a tensáo entre cxístência e
essêmz'a, entre ser e sentida De fato, se, ao dizer-se que o homem
náo precisa de se preocupar com quaisquer ideais e valores, se
quer inculcar que os ditos ideais e valores nada mais são do que
a expressão de si mesm0, podendo o homem limitar-se a reali-
zar tranquilamente a sua mesmidade e possibilidades, - então,
convenhamos em tirar o Chapéu à boa nova.' É claro que, sendo
assim, 0 homem veriñca não precisar de mover um dedo para
alcançar a plenitude de sentido ou a realização de valores, uma
vez que tudo está já em ordcm há muito tempo, pelo menos na
forma de cada possibilidadc própria e concreta que cumpre re-
alizar. Desta forma, o imperativo de Píndaro, segundo o qual o
homem deve vir a scr o que é, ñca privado do seu carátcr de im-
perativo, para se transformar numa tese meramente indicativa,
(49) uOs homens sâo fortcs enquanto defendem uma ideia fortc; Hcam sem podcr, se
se lhe 0póem» (S. Frcud, Gesammelte Werlee vol. XVII p. 113). 137
138
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
se poderia traduzir dizendo que
que ele sempre jádaqui em
diante, .
pre deve vir a ser e aquxlo
amente por isso que não tem que se preocu_
ara nos exprimirmos metaforicamentg
diríamosz nâo mais precisa
o homem de levantar o brialço par'a Clo_
lher estrelas e traze-las à terra,
porque, añnaL repara1., a propna
' " uma estrcla...terrEa
scelnate-sc um suspiro de alívio nas Hleirals
daqueles quq
ices duma pseudomoral, tinham expcrlmentado
certo
f
' r
n
arl Mas nos bem sabcmos que
a t^ens.ao entre se e semldo
o inamovível na essenaa do homem. A ten_
cujo conteúdo,
o que o homem sem
tem sido.l E é prec1s
P
par com ideal nenhum
I
cúmpl
mal-est
tcm um fundament
l
são entre ser e dever-ser faz parte, pyeusamentq
do Ser-h0mem,
constituíndo por isso condíção inalienável da
saúd.e anímica.
Demais, a aplicação de testes em estudos que se reallzaram nos
Estados Unidos pôs de manifesto que 0 conceito logoterápico
fundamental da orientação de sentido representa inclusivamen-
te o melhor critério de saúde física.
Afora isto, o hiato entre ser e dever-ser, entre ser e sentido,
éessencial para todo o scr-homem, mesmo numa acepção mais
profunda. É que, numa natureza ñnita Como a do homem, não
podemos nem devemlos fazer coincidir e concordar a existência
com a essêncía§ pelo contrário, o sentido tem que ir sempre à
frente do ser, - pois só assim o sentido pode ser o que propria-
mente é: o guia do sen Em contrapartida, toda a existênciase
afunda em si mesma, sc a sí mcsma se não transcende, levantan-
do-se acima de sí, para alcançar algo que estcja mais além.
É como se diz na Bíbliaz durante o êxodo de Israel através
do dcserto, Deus caminha em forma de nuvcm à frente do seu
povo. E não de1x'aria de vir a propósito interpretar esta pas-
sagem, afirmando que o sentido (último; o suprassentido, na
nossa formulação) caminha à frente do ser,§ seguindo cste u'l-
timo ao primeiro, arrastando consigo o primeiro a este últi-
m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
mo. Senão, imaginemos o que teria acontecido se a majestade
de DCUS› Cm VCZ de ir à frente de IsraeL tivesse permanecido
n° meio deste P°V°3 logo SC entrevê o que sucederiaz a nuvem
nunca mais estaria em condiçóes de conduzir Israel pelo dcser-
ÍO até 0 ñm” até 0 lugar de deStin°; pelo Contrário, teria envol-
vido tudo em brumas, ninguém poderia já orientar-se, e Israel
ter-se-ia extraviado.
Uma vcz analisada esta dinâmica existenCiaL já estamos em
condíções dc dístinguir perfeítamente dois tipos de homens,
que poderíamos denominar guía e paciñcador (ou, para tran5_
crevermos a dcnominação inglesa original, «pacemakers versm
peacemakers»)' OS gmas PÕCITHIOS em face dos valores e do sen-
tidOJ Oferecemmmlos à vomade de Sentídm Os
pacíñcadores, em
compensação, tentam aliviar-nos da mrga de qualquer acareação
com o sentido.
Um guia, na acepção em quc aqui tomamos o tcrmo, se-
ria, por exemplo, Moises'. Moisés, com efcito, dc modo algum
procurou tranquilizar a consciência do scu povo; antes a desa-
ñou. E, ao descer do monte Sinai, entregou ao seu povo os dez
mandamcntos, sem lhe poupar o confronto com os ideais nem o
conhecimento da real1'dade, que lhes ñcava muito aquém.
Com o paciñcador, nada disto acontece. Para ele, o que in-
teressa é 0 equilíbrio interior que nada deve perturbar. Daí que,
para proteger esse equilíbrio, náo só todos os meios sejam per-
mitidos, mas também o mundo inteiro degenere e se degrade,
nada mais sendo que um meioz um meio que tanto se pode des-
tinar à libertação dos instintos como à realização de sí mesmo,
ou à satisfação de necessidades, ao alívio de um super-ego ou à
suavizaçâo de um arquétipo. Seja como for, o homem faz as pa-
zes consigo mesmo, - cai no «sossego». Só os fatos têrn validade.
Ora, 0 que nos mostram os fatos é que apcnas uma imperceptí-
vel minoria entcsta com os idcais. Portanto, por que é quc nos 139
140
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
dcvcmos prcocupar com eles, em vez de Hcarmos simplesmente
no termo médio? Para que sermos 1'dealistas?... Permaneçamos
normais! Compreendemos agora em que sentido Kinsey merece
ser chamado paciñcador de espírítos...
Segundo Charlotte Bühler, parece que o funcionamento
do organismo são depende de uma alternância entre duas ten-
dênciasz a tendência para a descarga de tensóes e a tendência para
a sua conscrvaçãoiq Ora bem, o quc nos pcrguntamos é se não
haverá, ao lado destc ritmo, digamos, ontogenético, um ritmo
análog0, Hlogenéticol Aliás, não foi Schopenhauer quem cha-
mou a atenção para o predomínio intermitente da necessidade e
do tédío, à luz da escala históríca e social? É claro que os períodos
dc necessídade e as épocas de tédio Ásão de uma altcrnância que
se veriñca por sucessão, e não por justaposição, como no Caso do
«orgam'smo sáo». O certo é que poderíamos chegar a arriscar a
añrmação de que o homem, em épocas «homeostásicas» (com0
a duma mñumt sorz'ety»), assume expontaneammte o contrapeso
da necmídczda A este propósito, e sustentando muito embora
a opínião de que «a pressão da necessidade tem provavelmentís
uma importância extraordínária sob o prisma antropológico»,
Gehlen explica que, «se alguma saída se pudesse ímaginar, essa
saída, a rigor, não poderia ser senão a da ascese». Só que não o
podemos acompanhar quando dcfende a ideia de que «a ascesc
nào foí sccular1'zada, prendcndo-se ainda a quase todos os ele-
mentos da relígiâo crista'»“; com efeit0, quer-nos parecer que foi
o desporto que sc incumbiu de expor o organismo a um stress
periódico e dc proporcionar ao homcm, em meio do bem-estar,
situaçóes de um estado de necessidade artiñcial e passageiro.
Mais delícada do quc as teorias da motivação em voga, é, no
(50) Pn_'rÍJo/. qu 10, 1962.
(51) Anthropologischr Fbrschung Hamburgo 1961, p. 65 e s.
m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
entanto, a sua aplicação prática, digamos, à higienc física. Tal
aplicação decerto que será radicalmente errônea se a construír-
mos Com base num fundamento errôneo, o que sucederá quando
a dominar e possuir o princípio segundo o qual importa evitar
que no homem apareça qualquer tensão; ou, em suma, quando
essa explícação for complacentc com o princípio da homeostase.
para não falarmos do «princípio do Nírvana» (Sigmund Frcud).
O certo é que aquilo de que 0 Íaomem retzlmenteprecim náo é de
um estado isento de toda e qualquer tensão, senão de uma certa
te725á0, uma sadía dose de temáo, - aquela doseada tensão que lhe
provoca no ser as exigêncías c solicitações dc um scntid0.
O problema é que na afuent sacz'ety, a socíedade do bcm-
-cstar, há muito pouca tensão; a época atuaL ao contrárío das
épocas de carestia do passado, poupa ao ser humano muitos so-
frimentos e tensóes, a tal ponto que ele já não sabe como su-
portá-las. A sua tolerância às frustraçóes se reduz, e o homem
desaprende a capacidade de rcnunciar. Mas, quando a socicdade
nâo Ihe oferece suñcientcs situaçóes de tensa'o, o homem acaba
por crízíJax de maneíra artjíícíalz inventa as tensóes de que pre-
cisa. E o faz exigindo dcterminadas coisas de sí próprio, como
por exemplu um desempenho externo, e não raramente o «de-
scmpenho da renúncia». Assim pode ocorrcr que, no meio do
consumísmo re¡'nante, as pessoas comecem a ncgar-sc livremcm
te algumas coísas, a criar situaçóes artiñciais mas deliberadas de
pobreza. No meio da sociedade do desperdício, o homem cria
por assim dizcr «ilhas de ascese»; e esta é, na minha opíníão, a
função do esportez ele é a ascese modema, secular.
Os professores dos Estados Unídos queixam-se de que os es-
tudantes de hoje se caracterízam por estarem mergulhados num
abismo de apatia: «On almost evcry campus from Califomia to
New England, student apathy was a topic of conversatiorL It
Was the one subject mentioned most often in our discussions 1~H
142
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
with faculty mcmbers and studcnts»52. Esses profcssorcs tém cm
alta estima o ideal da liberdade; mas a libcrdade cm que cles
pensam é negativa, e prccisa dc scr completada por uma idcia
positivaz a da responsabilidade, bem cntendido. Quando se rc_
solverão a lcvantar, na costa ocidentaL uma cstátua da Respon_
sab1'lidade, a fazer pendant com a estátua da L1'bcrdade, da COSta
orientaLm
E também nos Estados Unidos que os psicanalistas se quci-
xam dc tercm de lidar com um novo típo dc neurosc, Cuja nota
mais marcante está na carência de iníciativa e de z'nteresse.
Ao que parece, é tão difícil para o homem suportar por longo
tempo a absoluta despreocupaçáo no scntido psicológico, como
a absoluta ausêncía de obstzímlos no scntído físico; e também se
pode dízcr quc lhe é tão impossívcl existir num cspaço sem sen-
tido como num espaço sem ar.
Como é sabido, pelas experiências realizadas para preparar
viagens à volta do mundo, a privação total de impressões senso-
riais produz aluc1'naço'es. Contudo, conforme os cstudos feitos
nas Universidades de Yale e Harvard, chegou-se à conclusão de
que uo que produz os efeitos da privação de ímpressóes senso-
riais não é a ausência dc estímulos sensitivos, mas sim a ausên-
cia de cstímulo portadar de sentído». Para arrcmatar, os autores
cxplicam que o que faz falta ao cérebro é o sentido. Como se
(52) E D. Eddy, Thc Collcgc InHucncc on Student Character, p. 16.
()'3) Adiferença que há entrc scr responsável c scr livre, pode-se exemplíñcar facílmemc
comparando a culpa com o puro arbítrio. Assim, sc é certo quc podcmos deFmir o puro
arbíxrio como liberdadc scm rcsponsabilídadc, também podcmos dizcr que, dc ccrto
modo, a culpa é o scr-responsávelsem o ser-lívre; evídentemente, qucm se tornou
culpado suporta a rcsponsabílídade por anuma coisa, mas sem possuir a líbcrdadc
de eliminar o quc já feL Nessa altura, tudo depende do comportamento Justo, da
atitude correta; e o comportamento justo cm face dc uma culpa vcrdadcira c própriaé
o arrcpcndimema Al¡'a.s', Max Schcler, num trabalho rcferentc a csta matéria, pôs-nos
de manifesto até que ponto o arrcpcndimento pode. se não anulaL sim, pelo mcnos,
rcparar no plano moral o que acomcceu e se tomou culposo (cf. p. 153).
AJ ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
vê, até no fundamcnto bíológico da cxísténcna' do homem sc
pode ir cncontrar a sua elemcntar neoessidadc dc sentido. Ora
bcmz ao fazermos uma transposição desta projcção no plano fi-
siológico para o cspaço do fenômcno cspecíñcamcnte humano,
escutamos, por assim dizcr, o Zeítmotizz da logoterapia; é como sc
se estendcssc uma ponte cntrc os sígniñcados de logos - espíríto
e sentido -, a modo de fuga musical: o cspírito precisa do senti-
do - do naus, do logos -, assim como a enfermídade noogénica
precisa de um tratamcnto logoterápico.
Mas, ao lado das neuroses noogc"n1'cas, temos ainda as pscu-
doneuroses: não apenas as pseudoncuroscs psico'genas, mas
também aquelas quc denominci somatógcna5. Baste-nos citar as
agorafobias, por tras' das quais se cncontra uma hipcrtireose; as
claustrofobias cm que se inserc uma tetania latentc; e os sinto-
mas de despersonalizaçáo, ou síndromas psícoadinàmicos, que
escondem uma insuñcíéncia no córtex das suprarrenais. Não sc
pode dizer, portanto, que a logoterapía é, em teoria, espir1'tualz'5ta,
e, na przítím, momlista. Antcs se podería dizer xs'so da medici-
na psioossomática. Dc fato, 0 acontecer Corporal da doença cm
geral cstá muito longe de tcr na história da vida a importan^cia
que a mcdicina psicossomática com tanto destaque lhe atribui, o
mcsmo podendo añrmar-sc quanto ao valor dc cxpressão do cs-
pírito, que ela lhe concede. O corpo do homem não é de modo
algum o cspelho ñel do seu cspírito, - a não scr que se tratc do
corpo «glorioso»; mas, no caso do homem «decaído», se o qucrc-
mos tomar como cspclho, será, quando muito, um espelho quc-
brado, distorcido. Decerto que toda doença tem o seu usenúdo»;
mas o scntido real dc uma doença não está no quê do ser doente,
scnão no como do sofren na atitude assumida pelo doente, na
postura que ele adota pcrantc a doença.
Será a logoterapia, na prática, moralista? Não o é, pcla SLm'-
plcs razão dc que o sentido não se pode receitaL O médjco não 143
144
pSICOTERAPlA E 55\.'~'rmo DA v1DA
do paciente. Em última anal'íse,
o sen_
m que ser encontrad0. E, na verdadel
m que o achar, por Sua Conta. Nâo
cidír sobrc o sentido c não-sen_
é à serpente, que no Paraíso
pode dar sentido à vida
tido nâo podc ser dado; te
é o próprío paciente quem te
é à logotcrapia que competc de
ou sobre o valor e na'o-valor;
u aos homens torná-los «íguais a Deus,
conhecedoreStido,
promete
do bem e do mal».
O SENTIDO DA MORTE
questâo do sentido da vida - a mais
é remetido para si
Ao tentar responder à
humana de todas as questo'es-, o homem
mesmo, tornando-se alguém a quem a vida interroga,
alguém
quc a esta tem de responder, sendo responsáveL assim, por sua
vidaít Vê-se portanto remetido ao fato primordial de que a exis-
têncía humana é ser-responsável. Ora, pela anal'ise da existência
foi-nos dado observar quc a responsabilidade tem origem no ca-
ráter concreto da pessoa e da situaçã0, e que cresce, além di550,
juntamente com esse caráter concreto. Como vimos, a respon-
sabilidade acompanha, no seu desenvolvimento, o «caráter de
algo únicon da pessoa e a irrepetibilídade da situacafa aCaráter
de algo único» e irrepetibílidade são, conforme dissemos, ele-
mentos constitutivos do sentido da vida humana.
Mas, nestes doís aspectos essenciais da sua existêncía mani-
fcsta-se simultaneamente a Hnitude do homem. Sendo assim,
esta ñnítude tem de representar algo que, de qualqucr forma, dê
sentido à existência humana, e não algo que lho tire. ísto o que
agora cumpre cxplicar, resolvendo antes dc mais o problema dc
saber se a finítude do homem no tempo, a ñnitude tkemporal da
(54) Veja-se a nota da página 96 (N.T.)
M ANÁLISE DUSTENCLÀL GERAL
sug vida - o fato da morte -, é ou não suscctível dc fazer da vida
uma coisa sem semido.
Quantas vezcs nos não vêm dizer que a morte poe' em dúvida
O scntído da vida inteira.' Quantas vczcs nos d116m' que, cm ul'ti-
ma anal'isc, tudo caxece de scntido, já que a morte, no Em. tudo
destró1'.' Ora bemz poderá a mortc realmente corroer csse sentido
que caracteriza a vida? De maneira nenhuma.l Pelo conuan"o:
Porque, que acontecería se a nossa vida não fosse ñnita no tem~
po, mas antcs temporalmente ílimitadzL> Se fósscmos 1'monals',
poderíamos, com razão, adiar cada uma das nossas ações até o in-
ñnito; nunca tcria a menor importan'c1'a o rcahza"-las agora,. ncstc
momento preciso, podendo muito bern reah'22_r-se amanhã ou
depois de amanhã, ou daqui a um ano ou dez. Em compensaçao',
tendo cm vista a morte como fronteira ínfranquaível do nosso
futuro e limite das nossas possibilidadcs, vemo-nos obngados a
aprovcítar o tempo de vida de que dispomos e a nâo dcmar" passaI
em vão as ocasiões irrepetíveis que se nos oferecenL ocasiõcs essas
cuja soma «ñnita» rcprcsenta precmente a vida todzL
A ñnitudc. a temporalidade, não é apenas. por conmnv"ntc,
uma nota esscncial da vida humana; é também constimtiva do
seu sentido. O sentido da existéncía humana tuAnda-se no seu C2-
rátcr írreversível. Daí que só se possa entender a rcspoÀnsablhudade
que o homem tem pela vida quando a refenm'os à temporalida-
dc, quando a compreendemos como responsab1h"dade por uma
vida que só se vive urna veL Portantad se, na perspectiva duma
anaüise da e.x1"sténcia. quisermos levar os nossos pacientes a toma-
rem consciéncia do seu ser-responsável; se realmente quísermos
fazer com que sc compenetrem da sua responsabíh'dade, - então
teremos quc rcpresentar-lhes, por mcio de metzübrax o caráter
históríco da vida e, a paI disso, a responsabílidade que o homãm
nela tem. A um homem simplcs que porventura ÊSEÍYüaÍ scntado
diantc de nós durante a consulca, recomendan'amos._ por exemplm J.. *I|
146
PSKKII ERAPIA ln ShNTIDO DAímm
quc Hzesse de coma que, no ocaso da vidaa cstava a folhcar a sua
bíograña, tendo-a abcrto prccisamentc por aquclc Capítulo quc
trata do momento prcsentc; e quc imaginassc quc, por milagrc,
lhc cra dado ainda dccidir sobrc o contcúdo do capítulo scgu¡'ntc,
cstando, ass¡m, cm 5cu podcr introduzír corrcçócs num capítulo
dec15'ivo da história intcrior da sua vida, ainda inédita. A max'ima
da análisc da existéncía, podcríamos cntão revcstHa da scguintc
forma imperativaz Vive camo se uíumes pela Jegunda ZIEZ e wmo se
da primeira vez tiuesses feito tudo tcza' faluzmente mmo agom estzís
quzzse afazen Quem conscguir compcnctrar-sc dcsta rcprcscntaçâo
fantas't1'ca aperccber-sc-a' ímcdíaramentc de toda a grandaa da rcs-
ponsabilidade quc o homem em cada momcnto tem por sua vida:
a rcsponsabilidadc pelo quc ocorrerá na hora scguintc, pclo modo
como conñgurará o dia dc amanhã.
Também se pode sugcrir aos pacicntcs que imagincm a sua
vída como um fílme que estáo a 4I.ñlmarn, mas quc não admítc
ucortcsn, ísto é, um Hlme em que já não sc pode voltar atras' para
dcsfazcr o que foi utomado». Dcsta mancira também sc consc~
guc, uma vez ou outra, fazcr vcr o carátcr irreversível da vída
humana, a historícídadc da cxísténcía.
No começo, a vída é ainda substância na sua totall'dadc,
substância ajnda não consumída; ma_s, à medida quc transcorrc,
pcrde cada vcz mais como substància, convcrtendo-se cm fun-
ção cada va mais, para se rcduzir, ñnalmcnte, aos fatos, vivén-
cías e sofrímentos, que o seu portador, o homem concrcto, foi
acumulanda Assim, a vida humana faz lembrar o rádio quc,
como é sabido, tem também um utcmpo de vidap límitado, já
quc os seus átomos se dcsintcgram c a sua matéría sc vai trans-
formando em energia que irradia, nunca mais rctornando ncmvoltando a transformar-sc em matéría. Com cfeito, o processo
de dcsintegração do átomo é irrevcrsíveL uinapelávcln; no rádio
vcriñca-se também um dcpcrccimento progressivo da substan-
N ANÁLISlz rxm lcNfLIAL GEKAL
ciaJidadc orignária Pois bcmz o mcsmo vale aproxmmdamcn'-
w para a vida, justamemc na mcdida cm quc o scu on'g1mn"'0
carátcr dc matéria vaí rctroccdcndo cada vcz maLs', até acabar
em pura forma. O homcm, cfctivamcmc, asscmclha-sc a um
escultor quc trabalha com cinml c martclo a pcdra informc, dc
modo quc a faz adquirir forma pouco a pouco. Ê como sc o
homcm fossc modelando o matcríal com quc o dcstino o brín-
daz ora críando, ora cxpcrimcmando vivéncias ou sofrcndm o
homcm procura ~arrancarn valorcs da vída, ua golpes~, para a
transformar quanto possívcl cm valorcs cn'adorcs, vivenc¡'315' ou
dc au'tudc. Dcmais, ncsta comparação com a atívidadc do cs-
cultor, podemos introduzir o clcmento tempo; basta ímagínar
que, para tcrmínar a sua obra de arte, o cscultor dispoe' apenas
dc um tcmpo Iimítado, desconhcccndo contudo o momcnto
cm quc a tcm dc acabar c cmrcgan Assim, nunca sabc quando
scrá wxoncradom ignorando mesmo se a cxoncraçb ocorrerá
no momento segu1'ntc. Dcsta maneira, também ele se vé for-
çado, cm todo o caso, a aproveítar o tempo, Considerando 0
risco de deixar a sua obra cm cmbríão, cm fragmenta Díga-
-se, entremnto, que, caso a não pudesse terminar, nem dc longe
fícaría sem valor a sua obrzL O ucarátcr fragmentárion da vida
(Simmc|) não prcjudica dc modo algum o scu scntída Mnm
paderza'mos avalíar a plenitude de sentida duma uida Ímmamz tom
base mz sua duraçâa AfínaL mmbém não avaliamos uma biogra-
ña pela sua uextcnsãon, pelo número de pag'ínas, mas sím pela
riqueza do seu conteúdo. Dccerto quc a vida heroica de um
homcm que morra na juvcntudc tem mais contcúdo e scmído
do que a de um burgues' qualqucr quc víveu muíto. Quantas
sinfonías uincompletasn náo há entrc as maLs' belas.'
O homcm está na vida como que submetído a um exame de
aptidãoz mais do que um trabalho terminado, interessa aí quc o
trabalho seja valioso. Assim como o cxaminado tem que estar à H
148
PSlCOTERÀPIA E SE\.71DO D_-\ ubà
painha que lhc anuncia ter-se CSgOtado
0
assim também temos que csrar
na vlda à
'“" a qualqucr 1nstante.
cscuta do sínal de cam
' ' 'cã0tempo a sua dlsposL ,
d
ra de sermos uchama osuespê
O homcm dcve - no
tempo
até o ñmÍ isto é, arcar com
a ñn1m. '
h l
m ñm Esra atitudc amda nao tem
que ser el-01_
podemos entrevéJa já na conduta
é claro
e na Hnitude- lcvar alguma coisa
de e contemar-se consc1'en-
temcnrc com u
' .
rnuíto ao contrano,
. .
médio. Quando sc val ao cmema,
que o que mais importa é que
Ío ñlme tenha undm Alñmjfeja elle qlesual
for, pouco 1m'portando que seja
bapp)'-6_d d d|3$› 0 Slmp'
faro dc quc o homem comum
smta n.e'ce551 a e _ e um,a c01sa
como o cínema ou o tcatr0, demonstra
)a, de p_er 51, o Icarater de
scntido do hisróricoz se não csrivesse
em questao, prec1$amente,
' ' r conse inte o de-o cxpl1c2xem-›h'e o que lhe mteressay C pO - , I s
numa representaçao hlstonca, com
ue lhe contassem em poucas
ca, pois,
cotidiana do homem r
senvolverem-lho no tempo,
ccrteza que ele se contentaria com q
paJavras a umoral da histo'ría», em vez de fícar sentado no
tcatro
ou IlO cínema hOIQS C hor25.
Nâo é necessário, portanto, scpaxar a morte da vida, seja de
que modo for; porque, a rigor, o que sucede é que a mort.e faz
parte dela.' Mas também não é possívcl «dominá-la», como Julgla
fazer o homem que quer uetemizapsen pela procriaçâo, pois e
falsa a tcse de que o sentido da vida se radica na descendência.
Essa tese facümeme se pode rcduzir ad zzbsurdmn Em primeiro
lugar, a nossa vida nâo se pode prolongar in infnitumz também
()')') No on'giml nio é Ls'to Iíteralmcmc o quc se dth mas sun' uabberufen». Ls'(o
-cxonerzdos~. dcmiúdos do argu O autor usa o mesmo termo quc emprega mals
ac¡m¡, na comparaçáo do esculton modiñcamos o texto, porém_, aproximandwo da
Iinguagem comum, a propósim do ñm da vida. ('\.~'.T.)
(56J O tato akmâo gíra em wmo de um uocaddh'o: uollendtn (levar até 0 ñm) -
lcrmo que o Aumr dccomptk propo<.imd21nente, cscrcvendo uoll-mden; Endlichletit
íñnimdck e Endz (Em, fin31)_ (\__Y_TI¡\
N Astg E\]'STF_\'CIAL GERAL
as línhagens acabarão por morrer e decerto que um dia tam~
bém toda a humanidade terá que desapareccr pela morta ainda
que tal suceda apenas numa catas'trofe cósmica do planeta Tcrra.
E, se uma vida ñnita carecesse dc sentido, sería completamente
indiferente a data do HnaL bem como o poder-se ou não pre-
\›é,la_ Quem fechar os olhos à irrelevan^cia deste fator temporal
assemclha-se àquela senhora que, ao saber da profecia dc um
astrônomo, segundo a qual se esperava o desaparecimento do
mundo para dcntro dc um bilhão de anos, estacou horrorizada
e, ao garantirem-lhe, mais uma vez, quc «só daqui a um bilháo
de anos», exclamou, com um suspiro de alívio: «Ajnda bem, eu
tinha cntcndido quc cra daqui a um milhão!» De duas umaz ou 11
vida tem um sentída e nesxe mxo come7'va'-lo-á independenremente
da sua duraça'o, quer sepropague quer mí0; ou nâo tem sentido ne-
nlmm e nesse azso também nâo o ganlm, por muito longa que ela
stjzl e por mazs' que ilimitadamente se propague. Se a vida duma
mulher scm ñlhos Hcassc realmeme sem sentido por essa única
razâo, isso signifícaria que o homem vive apenas para os seus
thos e que o sentido da sua existência estaria exclusivamente
na dcscendência que deixasse. Mas assim nào se faz mais do que
adiar o problema, deslocando-o cada geração para a geração se-
guinm sem o rcsolver. Náo seria isso o mesmo que dizer que o
sentido de cada geraçáo está em criar a gcração que se lhe segue?
Contudo, perpetuar uma coisa que, em si, não tem sentido é
coisa quc, de per si, tampouco o temz porque, o quc carece de
sentido nào passa a tê~lo pelo simples fato de se eternizar.
Mesmo que se apague, não se pode dizer que uma tocha não
tcve sentído no scu resplendor, enquanto iluminou; em com-
pensação, o quc não tcm sentido ncnhum é tomar uma tocha
apagada e desatar a correr com ela, mesmo que a corrida nunca
acabc. «O que deve ilumínar tem que suportar o seu arder», diz
Wirdgangs; e o que tcm em mente ao dizê-lo não podc ser scnão 149
150
PSICOTERAPIA E SE\¡'TIDO DA \"1D,\
istoz tem que sofren Bem poderíamos dizer também que tcm de
suportar o queimar-se, isto é, o arder uaté o ñm».
Anim cÍJegamos ao pmudoxo de que uma vida cujo úniro sen-
tido cmzsistisse em propagame t0rnar-xe-¡(z, eo ipso. tão mrente de
sentido wmo a sua propagzzçáa Em contrapart1'da. a propagação
da vida tem sentido só e quando a vida, de per si, representa iá
alguma coisa cheia de sentido. Por isso, quem vé na maternidade
o sentido exclusivo e último da vida da mulhcr náo é que negue,
na redídadc o sentido à vida da mulher sem fílhos: ncga-o. sim,
precisamente à vida da mulher que se fez mãe. Por conscgu1'nte, a
falta de descendência nào pode tomar sem senrido a existéncia de
um homem de peso. Mais aindaz a série de antepassados que nele
termina só teria adquirido retroatívamente a Coroação do seu
sentido através do signiñcado desta existência que ela fez nascer.
De tudo isto deduzimos maís uma vez que rz vida mmm pode ser
umfím em 5i, que 11 xzm propagaçziojanmis pode comriruir o mzrido
que ÍIJe éprápría Muito pelo contrar'ío. a vida só reccbe o seu sen-
tído de outras referências nâo biológicas. que representanL por
ísso, um momento transcendente. A vida não se transcende a si
mesma em ulongitudew - no sentido da sua própria propagação -,
mas sim «em alturam - enquanto intmde para um sentída
COMUNIDADE E MASSA
O correlato da irrepctíbilidade da existéncía humana - no
tempo, na succssáo - é esse «caráter de algo único» que se ver1'ñ-
ca em Cada homemz não já na ordem linear da succssão, senão na
da vízinhança e confronto com os indivíduos que _o circundanL
Mas, assím como a morte, enqumto limitação temporaL cxter-
na, não príva a vida de sentido, antes lhe confere o seu caráter
dc sentid0, assim também a limitação interior dohomem não
ív,-\\.'ÁLISE E\I'STE\¡'“CIAI. GERAL
faz mais do que dar scntído à sua vida. Se todos os Íwmemfossem
pg_rfàz'tos, seriam todos iguais uns aos ourros, qualquer um podzria
rppresentar a bel-prazer outro qualquen e para quem quer quefos-
_-.¡›, portzmto, seria azda qual um substimra Mas é precisamcnte
da imperfeição do homem que deríva o Carátcr indíspensável e
insubstituívcl de cada indívíduo. pois ainda quc o indivíduo seia
na verdade imperfeita cada qual o é a seu modo. O indívíduo
náo é onifacético (zI/l›'eitig), mas unitàcético (eim'eitig), tendo
precisamente por isso um «caráter de al'go único». peculian
Vem aqui a propósito recorrer a uma comparaçâo tirada da
biologia. Como é sabido, o ser vivo unicelulm paoaD a sua trans-
toqrmação em organismo pluricelular com o preço da sua «imor-
mJ-idade». - e com o sacrifício da om'poténcía. Em vez destas,
porém, tem a célula dentro dc si a sua especíñc1'dade. A célula
da retina, por cxemplo, aJtamente diferenc1'ada, não pode ser
substítuída na sua funçáo por nenhum outro típo de células.
Pois bem: o que isto mostra é quc o princípio da divisáo do tra-
balho das células as priva do caráter fhnciond onifacéríca mas
dá-lhes. precisamente por isso. um caráter fhncíonal uniñlcético,
que é o que lhes confcre a sua relativa insubstituíbilidade.
Num mosaic0, cada um dos fragmentos, cada pcdra, é. na
fbrma e na cor, dgo incompleto c ao mesmo tempo imperfeitm
só no todo e para o todo signiñca cada uma alguma coisa. Se
cada pcdra - a modo de ml'niatura. digamos- contivesse já o
todo, então poderia ser subsrituída por qualquer outra: ml' como
acontece com um cristaL que de algum modo pode ser perfeito
na sua forma, mas precisamente por isso é substítuível por qual-
quer outro exemplar da mesma formzu aHnal de contas, todos os
octaedros sào igum"s.
Quanto maís um homcm é dítcarencíada tanto mcnos cor-
responde à norma _ quer no sentido de médiaq quer no de ideaJ;
mas é pelo preço desta normalidade ou idealídadc que adquire a 151
152
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA íDA
sua indív1'dualidadc. No entanto, o signíñcado desta 1'ndividuali_
dade, o sentido da personalidade humana, é sempre orientado e
referido à comunidada Com efeito, assím como o Caráter único
e peculiar só confere valor ao pequeno fragmento do mosaico
em relação ao todo respectiv0, assim também o sentido do «ca-
ráter dc algo único» de qualquer personalidade humana reside
cxclusivamente no que ela signiñca em ordem a um todo supe_
rior. Desta maneira, o sentido da existência pessoaL cnquanto
pessoaJ, o sentido da pessoa humana enquanto personalidade,
cstá numa referência que lhe ultrapassa os limites, apontando
para a comunidade; na sua orientaçào para a comunidada trans-
cende-se a si mesmo o sentido do indivíduo.
Para aJém do carátcr de dado meramentc afetivo - e portanto
«situacional», de estado - que se revela na socialidade do ho-
mem, a comunidade ostcnta ainda o caráter de algo que é enro-
mendadoí A sua pura facticidade psicológica ou biológica - o
homem é, evídentemente, um «zoon politíleom - transforma-sc
num postulado ético. Mas não é só a existência indivídual a pre-
cisar da comunídade para vir a ser portadora de sentido; pode-
-sc dizer também o contrário: a comun1'dade, por seu turno,
precísa da existência individual para ter algum sentido. É isto o
que essencialmente a distingue da massa pura e simples. A mas-
sa, com efeito, não tolera individualidade nenhuma, e menos
ainda que a existência indivídual possa achar em seu seio uma
plenitude de sentido. Vimos mais acima que a rclação do indiví-
duo para com a comunidade se podia comparar com a que se dá
entre uma pequena pedra de um mosaico e o mosaico inteiro.
A relação do indivíduo com a massa, poderíamos compará-la
(57) É csxa a versão quc nos parece maís ñcL poi5, mantcndo o trocadilho do original
alcmão - Gegeberzbeir [al-go d.1'do) e Aufgfgtbenheit (qualidade do rclativo ao quc é
cncomendado ou exigido como encarg0) -, é tamhém adequada sufícicntememc à
ídcia quc lhc corresponde. (N .T. )
›À\) ANÁUSE EXISTENCIAL (il-.'RA1.
agora com aquela que se veriñca cntre um paralclipípcdo cor-
tadO em série e a rua pavimentada com paralclcpípedos, na sua
grisácea uniformidadcz cada paralelepípedo pode aqui ser subs-
tituído por qualquer 0utr0, já quc todos são talhados do mcsmo
modo; de resto, não tem qualquer signiñcado qualitativo para o
todo - que, no caso, nâo é propriamcnte um todo, mas apenas
uma Coísa grande; além disso, o pavimento de paralclepípedos,
no seu tom um'forme, nâo tem tampouco o valor cstético de
um mosaico, mas unicamente o valor do útil - tal qual como a
massa, que apenas sabe da utílidade dos homens, não tomando
conhecimento do seu valor ou da sua dignidade.
O sentido da indívidualidade só se atinge plenamente na
comunidade. Nesta medida, o valor do índivíduo depende da
comunidade. De modo que, se a comunidade, por si, tíver sen-
xido, não podcrá prescindir da individualídade dos índivíduos
que a formam; na massa, em contrapartida, desaparece o sentido
da existência única e individual de cada homem, e náo podc
deixar de desaparecer, que tudo quanto tiver a pecu11'arida-
de de algo único atua nela como fator dc pcrturbação. Pode
dízcr-se ainda que a individualidade intervém na constituíçâo
do sentido da comunidade e que, por outro lado, intervém esta
também na constituição do sentido da prímeira; ao passo que
o «sentido» da massa é perturbado pela índívídualidade dos in-
divíduos que a compõem (obs. 16) e, por outro lad0, o sentido
da individualidade (que na comunidade se destaca), desaparece
nela 1'nteíramente.
Dissemos que o «caráter de algo único» de cada homem e a
irrcpetíbilidadc da vida são elementos constitutivos do sentido
da existência; convém, no entretanto, distínguí-Ios perfeitamem
te da símples singularidade numérica. Toda singularidade nu-
mérica é, em si, carente dc vaIOL O simplesfato de cada bomem
se distinguír dactiloscopimmente de todos os outros nâo é sufciente
154
l'$l('0'l'FRAPIAIÊ\.'IÊN'1'ID()DA Vll)A
pdmfàzrr dele umu prrxanulidade. Por ísso, quando se fala dcsse
mmircr dc algu únicm como clcmcmo do scntido da cxistên-
cía humanm náu ó quc sc csrcia pcnsamdo cm algo quc é úníco
thlilnscupicamcntw. AssinL socorrcnd0-nos, por analogia,
d.1 distinçiu hcgcliana cntrc uiníinitudc mán c «inñnítude boa»,
podcrímmm lhhr Jqui dc um bom c um mnu «caráter dc algo
u'nícm; c. ncstcs lcr1nos. scria xxbunw zlquclc quc sc Oricnta para
unm conmnidudc paru u qunl um homcm tcm a signiñcação va-
liusa dc Jlgu u'nico.
0 rc*k"rido canírcr da mistêlmh humana tem. a meu ven um
ümdamcmo unmlógicm porqucx cvidcnrememcn a existência
pcssml rcprcscnra umu Íbrma c.s'pccial do scr. Se tomamos uma
cas.1. por cxcmplm não succdc o mesmo. Uma Casa compÕe-se
dc andarcs c os andarcs compóem-se dc quartos. Assim, a casa
podc-sc concclwcr como soma dc andares c um quarto como di-
visâo dc um nndan Qucr dizerz neste caso, podcmos traçar os
limítcs do scr mais ou mcnos arbitrariamente, delimitando o
cntc arbitrariumcntc c separand0-o da totalídade do ser. Só o
ser-pcswa. n Ln\'ístêncíu pcssoaL sc subtrai a esm arbitrar1'edadc,
pois é Jlgo complcto em sí. subsistente por s¡, que não se podc
somur ncm dividir.
Posto isto. c rcmontando-nos à tese que apresentamos mais
acinnL em cujos tcrmos «ser=ser-diferentementc». também po-
dcríamos prccisar agora a sobre-excclêncía do homem no campo
do sen oferecendo uma nova proposição: ser~pessoa (memr/7/i-
vljes DereirL Ew'stw¡z) signifíca um absoluto ser-diferentemente
(Anzlersx-.ve¡'n)”'s. Com efeáíta 0 essencial e valíoso «carátcr de algo
(\'S) Tonmdu cm cnnñouto com todos ns ourros. como unbsolmo ser-difbrcntcmcw
tcn. u human no quc conccrnc .'\0 scu scr-assim (Sosrin). tcm o ucnráter dc algo úniconç
.10 mcsmo tcn1po. no quc díL rcspcíto 21 sua L\\'isrônci;1 (D¡1:('in = scr .'u'), cada homcm
é irrcpcdch dc modo quc 0 scmído dc cadu cxistência é mmbém irrcpctívcl c lcm
o ncuálcr dc Jlgo único». E é prcdsnmcntc nisto quc sc thndzl a rcsponsnbilidndc
,\¡,\NÁ|.1$Elí\¡'l§"l'liN(Íl/\L(;ERAI.únicon dc cada homem não signiñca senáo que elc é prccísamcn-
tc difkrente dc todos os outros homcns.
Portanto. 0 scr do homcm acaba por pcrdcr a sua dignidndc
scmprc que sc vê absorvido por um ser dc ordem superion na
massa quc isto sc podc obscrvar mais claramcnte. Na mcdida cm
quc atua - podcndo nestc scntido dizcr-sc quc é «real»-. nunca
a massa atua dc pcr si. As leix xoriológims nâo zmmm paxmndo por
cimzz das 1'ndiwd'uos, mm sim passzmdo atmuâ dcles. Ea sutz uzzlida-
dr › sr de zrzzlidazíe xe podefalnr rzqui - só se zlerzfm ml medida em
que srío zlrílidox os aílrulos de probzzbilidnde referentes à psimlogia
zlax nzzzssrzs; e, mesmo assim, só na proporção em que for suscctí-
vel dc Cálculo um tipo psicológico médi0. Ora, estc tipo médío
não passa duma ñcçâo da ciência, não é uma pessoa real - nem
podería sê-lo, precisamente por ser suscctível dc ca'lculo.
Em scndo absorvido pcla massa, pcrde 0 homcm 0 que lhc é
maís próprío c pcculian a responsabílidadc. Em Contrapartida,
cntregando-sc àquclas missócs de que a comunidadc o incumbe,
por as assumir ou com elas ter nascido, ganha o homem algo
mais, uma responsabilidadc adicionaL É por isso quc 0 fugir
para a massa represcnta uma fuga à responsabilidadc índíviduaL
Scmprc quc alguém atua como sc apcnas Fosse a partc dc um
todo, tomando por propriedadc sua cste todo tâo somcntc, de-
certo pode ter a sensaçào de se libcrtar do Eqrdo da sua rcspon-
sabilidada Mas esta tendência para Fugír da responsabílidade é
Immnnaz ncsm ñnítudc da cxistênchn quc sc mcdc pch succssào c pclo cnnfronm na
sl'mulmneidndc. no tcmpo c no c.sp.1ç0. Mas n csm dupla Hnimdc ncrcscc um tcrcciro
elemcnro constitutivo que logo 21 quebra: a transcendência da cxístêncim esse modo
dc scr do homcxm quc é «scr-cm-urdcm-.1'-.1'Ig0», puis cssc ucarálcr dc algo únicm c
irrcpctívcl. tcm-no o homcm cm si. mns náo pnra si. Nào é. porénL nas minlms pobres
c Iimimdas palavms quc cuc thw cncontm a su.1 cxprcssào mais penrlmntm é dcceno
nnquclus Irêh pcrgunms cm quc Hillcl condcmn a ›u.| ñlosoñm aponnmdn os scus
cnsinamcntos pam n vidaz Sc cu nño o l.17ç0, qucm u fuãr.í? ~ E sc cu 0 nào faço agora.
qunndo sc Elrá? - Fn sc só para mim 0 Elçm o quc é que eu sou añnalÉ HS
156
PSICOTERAPIA E SENTIDO DAVlljí
o motivo dc todos os colctivismos. Umzz uerdadeim camunídade
é mmridlmmte romzmidade de pexsoas responsáuez's, ao pzmo que a
pura mzma é zzpenas umzz mmrz de sem dexpersonalizadox
No juízo que faz dos homens, o coletivismo vê neles, em ch
de pcssoas responsa'veis, apenas um tipo e, em vez da responsa_
bilidade pessoaL a mcra sujeiçáo do homem a essc tipo único_
Mas a perda da responsabilidade nâo sc dá só por parte do ob-
jeto do iuízo; chega-se a ela também por parte do sujeit0, pois
nâo há dúvida de que a valoraçâo dos homens em função de um
ripo facilíta a quem valora o seu juízo, tirando-lhc parcialmen-
tc a responsabílídadc quc tcm ao emiti-10. De fato, quando sc
avalia um homem tomando-o como tipo, não é preciso analisar
as características do caso concreto; e isto é muito cômodo. Tão
cômodo como, por exemplo, julgar dc um motor atendo-nos
apenas à marca da fábrica respcctíva ou ao tipo dc fabrica Sc
guiamos um determínado tipo dc automóveL sabemos a que
ater-nos. Conhecendo a marca duma máquina dc escrever, sabe-
mos também o que dcla podcmos esperan Até das raças de cães
nos podemos Harz tratando-sc de um pudeL são de pressupor
certas inclinaçóes e propriedades características; se de um lobo-
-de-Alsácia se tratar, outras o scrão. Só não é assim quando se
trata dc homcns. Só o homem se não pode detcrminar ou cal-
cular pelo fato de pertcncer a um certo tipo. Tal cálculo nunca
seria cxato; sempre um resto fícaria por contarz é o resto que
corresponde àqucla liberdade que o homem tem para se subtrair
às condicionalidadcs próprias dc um tipo. Como objeto dc juízo
moral, o homem como tal só aparece no cxato momento cm quc
tem líberdade para defrontar a sujeiçâo a um tipo determinado;
porque apenas nessa aJtura é que 0 homem é o seu ser - ser-res-
ponsável -; só nessa altura se pode dízer que «é» propríamenta
ou que é «propriamcnte» homcm. Uma máquína é tanto melbor
quanto mais regulada estiuer de tzcordo com o modelo de fabri~
,\) AN.'ÁLIS.1' tXISI E.'\1'(,'IALGL"RAL
¡0; mas 0 homem qmmta maix Jf ajustar ao seu típo - de raçm de
çlasm 0u de mra'ter- ou a uma norma me'dia, tanta mzzís se desvía-
ní dzz norma étiaL
No âmbíto moraL o julgamento ou a condcnação colctivis-
[a dos homens acaba por fazé-los «coletivamentc rcsponsáveis~.
Acaba-se por responsab1'lízá-los por alguma coisa pela qual não
sáo rcalmente responsávcis; o que equivale a tenrar fugir à rcs-
ponsabilidadc pelo juízo. Não há dúvida dc que é muito mais
cómodo valorar «raças» intcíras em bloco, prczando-as ou dcs-
prezando-as, conforme o indivíduo em aprcço pertcncer ou náo
a uma das duas únicas «raças» rclcvamcs do ponto dc visra mo-
ralz a «raça» dos decentes e a «raça» dos indecente5.
LIBERDADE E RESPONSABILIDADE
A rcsponsabílidade do homem, conscienc1'alizada, assím, pcla
análísc da existência, é uma responsabilidade em vista da írrcpe-
tibilidade c do referido «caráter de algo único» da sua ex15'tén-
cia; a existência humana é um ser-rcsponsável em vista da sua
fin1'tude. Já vimos, contud0, que esta ñnitude da vida, cnquamo
ñnitude temporaL não a toma sem sentido; pelo contrário, e
como vímos já, é a morte que dá sentido à vída. Dissemos que
à irrepetíbílidade da vida pertencc a irrepetibilídade de cada si-
tuação; agora, podemos dizer que 0 «Caráter de algo único» de
cada destino faz parte do «cara'ter de algo único» da vída. Em
termos gerais, pode-se afirmar que o destino - por analogia com
a morte - faz parte da vida, de algum modo. O homem não
pode sair do seu cspaço dc dcstino concreto, que tem também
um «caráter de algo único». Se se rcbcla contra o dcstino, 1s'to
é, em face daquilo contra que nada pode, em face daquilo em
que nâo tem nenhuma responsabilidade ou culpa, é porque não
T
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA V1D^ m ANÁLISE P.'XI.S"I'L<1NCIAI, GERAL
o scntido do destíno. E há
um slentido do dcsu'no, pois
o a mortc, dá à vída um sent1d0.
D,en'tro do hseLE eS_
como que exclusivo, o homem e
1ns.u.bst1tu1vel.
u'bi1idadc que gcra a sua responlsabllndade
Wa
u destino. Com o destino aSSIm Caracterlza_
r assim dizer, só no meio do uníversQ 0
Ninguém tem as mesmas possibilida_
dade. A líbcrdadc pressupõc vínculos, rcfcre-sc a vínculos. Mas
tal referência não signiñca submissáo ncnhuma. O chão cm quc
0 homem caminha, transccnde-o cle a cada passo c, cm última
ana'11'se, tomando-o como chão unícamentc na medida cm que
1he serve de ponto de apoío para saltar. Assim, sc quisésscmos
dcñnir o homem, teríamos quc caractcri2á-lo como 0 scr quc sc
Vai libertando daquílo que o determina (enquanto tipo dctcr-
minado b1'ologícamente, psícologicamcnte c soc1'ologicamcnte);
quer dizer, como o ser quc transcende todas estas detcrm1'na-
çócs, domínando-as ou conñgurando-as, sc bcm quc dcpcnda
também delas.
viu bem
este, tal com
paço dc destino,
E é csta insubstitL
configuração do sc
do, o homem está, po
d ' .' S
'
SCU CSUIIO nào
C fepete l
'
dCS que Cle nem
Cle prÓprlO aS Volta
a Íe . 0 aS Oes Com que
›
r AS C 1
d ara para realizar valores crladores ou v1venc1aus,
aqullo que e
CP
río do destino e vem ao seu encontro - ou sqa, o que
nao
p tcrar c tem que suportar no senfido dos valores de atltu-
pró
dpeo_d,e tauldo isso tem o «caráter de algo único» c irrepetíveL
A revolta contra o destino é paradoxaL c.om'0 se pode ver cla-
ramente quando alguém pergunta o que Éerla
51do dcle se o seu
verdadeíro pai não fosse quem realme'nte e, mas
outro qualquer:
pois, se alguém formula tal pergumaa C Porque esquece _que› nc.5'
se caso, nâo se trataria «dele»; que o portador do destmo .sler1a
outra pessoa completamente díferente, de modo qlue .n.em Ja
se
poderia falar do «seu» destino. O problcma da pOSSlbllldade de
um outro destino é, por consegu1'nte, em si impossweL contra_
Este paradoxo aponta0 caráter dialético do homcm, entrc
cujos traços essenciais ñguram o achar~se scmpre aberto e 0 es-
tar sempre encomendado a si mesmo (Sic/J-selbst-Aufgegebenbez't):
a sua realidade é uma possibi11'dade, e o seu ser é um poder-scr.
Nunca o homem se confunde com a sua facticidade. Scr ho-
mcm - poderíamos dizer - não signiñca ser fact1'camente, mas
antcs facultat1'vamente.
O existír humano é ser-responsável, porque é ser-livre. E um
ser que - como diz Jaspers - de cada vez decidc o que ele é:
«ser que decide». E precisamente «ser-aí» (Daxeín) c não, pura
e 51'mplesmente, «achar-se presentc»s° (Heideggc-r). A mesa que
ditório e sem scntido.
0 destínopertence ao bomem como o Claáo tl que 0 flgarm afor-
ça da gmvidzzde, sem a qual lbe seria impossível mmmêan Temfos
que comportzzrmox em relzzçáo ao destíno como em relaçao ao CÍa-zzo
que nós pisamoss extando em pe'; sabendo, entretanfm que essefbao
e' 0 tmmpolim donde nos cumpre salmr pam zz lzberdade. leer-
dade sem destino é ímpossível; liberdade só pode ser liberdade
em face de um destin0, um livre comportar~se perante o des-
tino. Sem dúvida, o homem é livre; mas ísto nâo signíñca que
esteja Hutuando, por assim dizer, num espaço sem ar, pois, ao
contrário, acha-se envolvido por uma séríe de vínculos. Estes
(59) Na terminología de Heidegger, Dmeíu (em alcmãoz da = aí, e sein = scr) é o modo
dc scr quc sc caractcrim pcla usolicitudw própria do uinstrumcntm (Zu/mnderze) quc,
por cssência, é ualguma coisa para», que sc encontra num cstado reFerido a um pnm qué
(Wozu); um estado quc é, por sua vcz, uma vontade~pam-quê (Worum-Wíllcu). hkte
cstado do Zulmndmt (Zu/umden/m't) é intciramcnte difcrentc do cstado Cm quc sc
acham as símples «c0isas»: esms apcnas estão presemcs. Varlmndmdein é prccisamcntc
a cxpressão quc traduzimos por «achar-sc prcscmc». Notc-sc ainda que aquilo quc
Hcidcgger dcñnc como Daxein é 0 quc, na termínologia de Jaspcrs, currcspondc à
Ewktmz Convém Frisar, por outro |ado. quc o Autor emprega estes dois termos com
um critério pessoaL Tendo cm consideraçào cstc critéri0, bcm Como a dihkuldadc dc
forjar, em português, uma nomcnclatum cspccíñca que lhe quadrm dcíxarcmos uma
vez por outra cntre parêntescs as palavras alemás (N .T.)158 vínculos, contudo, são os pontos de arranque para a sua hber- 159
l60
PSICOTERAPIA ETÀWDO DA \1D_:._
cstá diante dc mim é c cominua a ser tal como agora e, ao me_
nos por si só, quer dizer, se um homem a não modiñcan mas o
homcm que sc póe à minha frente, sentando-se a essa mcsa, de-
cide de cada vez o que ele «é» no segundo seguinte, aquilo quea
um momento depois, por exemplo, me dirá ou ocultara'. O que
caracteriza o seu existir (Dzzsein) como tal é a multiplicidade de
distintas possibilidades. dentre as quais apenas uma única rcaliza
no seu ser. (O ser peculiar do homem, a que se Chama existéncia
(Er1›"tmz), também sc poderia deñnír como uo ser quc eu sou»)_
Em ncnhum instantc da sua vida podc o homcm csqu1'var-se à
forçosa neccssidade dc escolher entre as possibilidades. Só Ihc
rcsta fazer «como se» não tivcsse nenhuma escolha e nenhuma
líberdade de decidir. Mas isto de «fazer como se» constitui boa
parte da tragicomédia do homem.
Talvez nos sírva de exemplo ilustrativo um episódío da vida
do Imperador Francisco I da Áustria. Conta-se que alguém se
apresentou repetidas vezes ao Imperador, insistindo sempre no
mesmo requerimento, que sempre de novo era indeferida Por
ñm. e referindo-se ao rcquerente, o imperador dirigiu-se a um
dos scus a]'udantes, para lhe dizerz «Verá como csse pobre diabo
acaba por se sajr com a sua». Talvez me perguntem qual a graça
que se pode achar no caso. Pois esta', 51'mplesmente, em se falar
aí de 414guém que faz de conta que nâo é livre, aruando como se
nào pudesse decidir sobre se o «pobre diabo», da próxima vez,
«acaba por se sajr com a sua» ou não.
O cómico do homem que não se apercebe da sua cssencial
liberdade dc dccidir transparece em muitas anedotas. Urna des-
sas anedotas fala de um homem que explica à mulher como a
humanidadc dos nossos dias é imoral c, para ccrtiñca'-la, acres-
ccnta o seguintcz «Hoje, por exemplo, cncontrcí uma caneira de
documentos; você acha que me passou pcla cabeça ir entregá-1a
no dcputamento dc objctos perdidos?». O que há de cômíco
_x. _-\\.'›\L.'ISE hM"b”I'E\.'CL-\L GERAL
no caso? Prects°amente o fato de que alguém fala da sua própria
imomlidade como se não fosse responsável por cla; o homcm
em quesrão procedc como sc tivcsse quc aceítaL sem maxs', como
Eato dado, a sua própria imoralidade. como se se tivesse que acei-
tar a imoralidade dos outros precisamente na sua facdcidadc.
Também elc se comporta como sc não fosse livre, como se náo
Ihe fosse possível dccidir conservar a caneira em scu poder ou ir
entregá-Ia ao departamento respectiva
Já uma vez nos refcrímos àquele professor de Secundar'i0 quc
deñnia a acsséncía» da vida como um proccsso de oxidaçào ou
de combustão. Uma vela que - para nos atcrmos à termmologia
da ñlosoña exístencial - apcnas use acha prcsente»"" , arde até o
ñm, sem de modo algum poder dirigir o rcspectivo proccsso dc
combustã0; o homem, em comrapartida. rem um -ser aín - tem._
em cada Caso concreto, a possibilídade de decidír liwemente so-
bre 0 scu serz este decidir vai tão longe nas suas possíbilídades
que o homem pode chegar até à decisâo de se aniquilar a sí mcs-
mo: o homem pode «apagar-se a si mcsmo».
A liberdade de decid1'r, o chamado livre-arbím'o, é coisa óbvia
para o homem sem preconceitos, que tem a cxperiéncia \'ívcn-
cial e imediata de si, como ser livra Para se poder pór seriamente
em dúvida o livre-arbítrio, é preciso estar-se tolhido por uma
teoria filosóñca determinista ou sofrer de uma esquizofrenia pa-
ranoica, numa vivéncia da própria vontade como algo nâo livre,
como algo «feito». Mas, no fatalismo neurótic0, o que há é um
livre-arbítrio encobertoz o homem neurótico barra a si próprio
o caminho paIa as suas próprias possíbüidades: atravessa-se a si
próprio no caminho que 0 levaria ao scu ~<poder-ser›-. .-\551m'._
deforma a sua vida e Furta-se à <~realídade do dex1r'», em vez dc
a exccutar (porque também o ser humano como um todo pode
(60) CÍÍ a ul'tima nota que apuscmos. (\.". TJ 161
PSICOTERAPIA E SENTIDO DAVím
ser tomado por «rcalidadc dc cxecuçâo»). De modo quc, se de
início dissemos que todo ser é ser-díferentemcnte (Ander5-sein))
tcmos que acrescentar agora esta outra fórmulaz xer bomem mio
signfim apenm ser-dfze”rentemente, max também poder-dfze'rente_
mmte (Anders-ko"mzen).
À liberdade da vontade contrapõe-se o que há de fatalól_
Com efe'1'to, Chamamos destino prccisamente a tudo aquilo que
escapa essencialmente à liberdade do homem e que não Hca sob
o seu poder nem sob a sua responsab1°lidade. No entanto, cm nc-
nhum momento se deve esquecer que toda a liberdadc humana
depende do que há dc fataL na exakta medida em que só neste
elemento e a ele aderindo pode desenvolver-se.
Pois bcm. No fatal inclui~se antes dc mais tudo o que é pas-
sado, precísamente na sua inalterab1'lidade. Ofactumú2 (o feito, o
que já veio a scr, o passado) é exatamente ofada Não obstante, o
homcm é livre também em face do passado e, nessa medida, em
facc do que é FataL Ê verdade que o passado torna compreensível
o presente, mas não se justiñca que o futuro seja por elc cxclusí-
vamente determínado, - como sucedc no fataJismo típicamente
neurótíco, cujo erro Característico está em reclamar, para o futuro,
o pcrdáo dos mesmos erros que se cometeram no passado, ao mes-
mo tempo que se tem compreensão deles. Entretanto, os erros do
passado deveríam ser tomados como fecundo materiaL útíl para
conñgurar um futuro «mclhor», já que com eles se «aprendeu».
Portanto, o homem tem líberdade para tomar perante o passado
uma atitude meramente fatalísta ou para aprender as suas liçóes.
Nunca é tarde demais para aprender, mas também nunca é de-
masiado cedo; semprc se esta', enñm, «na hora H». Quem nâo se
((›I) Tr.-1duzimos SdJirÁmIÍÍMfit por «o que haí dc fatal»; e Srljirksal por dcstino. Como
sc vê.a palavm destíno entm na composíção daqucla. (N.T.)
(62) 0 gríEldo não ñgura no oríginaL (N. T.)
N ANAIZISE EXISTENCIAL GERAL
aperceber disto assemelha-se àquele bêbado quc, tendo sido imcr-
Pelado por alguém quc o aconselhava a dar dc mão à embr1'aguez,
entendia que já era demasíado tarde para isso; quando lhe objcta-
ram que nunca é tarde, deu esta rcspostaz «Enta'o, náo há mocivo
para prcssasl»
A inalterabilidade do passado que, como taL se transformou
em destino, é precisamente o que mobíliza a liberdade humanaz
o destíno sempre tem que ser um íncentívo para o agír cíentc
da rcsponsabilídad6. Conforme vímos, o homcm está na vida
como alguém que nela colhe em cada instante uma única possi-
bilidade, dentre uma série de possibilidades e que, realízando-a,
de certo modo a póe a salvo no rcíno do passado e, por assim
dizer, a assegura. No rcíno do passado «Hca» o passado - por
mais paradoxal que pareça -, e «ñca», não apcsar de ter passa-
do, mas precisamente porque passou. Já nos referimos, noutro
lugar, à realídade do passado, dizendo que ela é «elevada»63 no du-
plo sentido hegeliano dc eliminar (Aufbebung) para guardar
(Aufbewabrung); e acrescentamosz ter-sido é a forma «mais segu-
ra» do ser. Com efeito, é 0paxsado que o salua de serpasmgeiro“; só
sáo pangeims aspossibílidades (cf. o que sc disse sobre os Valores
de situação irrepetíveis c sobre a 0casíão, irreversivelmente tran-
sitória, para a sua realização); - 0 que sepreserwz da azducidade (de
ser pzmageíro) é o quefíaz guardado no pzmador aquela rezzlidzzde
que no 55r~pzmado se ímere epâe a salua O instante transforma-se
em cternidade se conseguimos converter as possibilidades que
0 presentc enccrra naquclas realidadcs que no passado Hcaram
encerradas «para toda a eternidade». É este o sentido de todo e
(63) Revcja-se a nota que inscrevcmos na página 46, confronmndma com o tcxto do
Autor à pág. 65.
(64) O tcrmo do original é, a rigor, mduridade (Verga"ng/ir/7Á›a't): mas escolhemos
a tradução aqui posta para mantermos o jogo de palavms do Autor (o passado. em
aJemâo, é díe Vergangmbeit) (N . T. ) 163
164
P51(Jk)'lT:IL^\PlA E Sl-ÊN'I'll)() I)A \'Il)_-\
qualqucr rcalizan Scndo 2Ls5ím, o homem nào «rcaliza» apenas
quando ctêtua uma ação ou cria uma obra «duma vez para scm-
pre», mas também quando se póe a experimcntar uma vivência_
E, tomando o termo no estríto scntido que nós aqui lhe damos.,
e em conscquência desta espécie de 0bjctivism0, pode-sc chegar
21 afírmar quc o realizado numa experíência vívencial não é sus-
cetível dc ser destruído rcalmentc, mesmo quando porventura
caia no esquccimcnto; ou até fícando excluída a possibilidade de
rccordá-lo, pela morte do sujcito da vívência°Í
Dc ordinári0, 0 que o homcmlvê é apenas 0 restolho do pas~
sado, passando por alto os celeiros do passado bem fornidos. E,
na verdade, não há nada dcñnitivamcnte perdido no passado,
antes tudo aí ñca a bom recado, para não mais se perder. Do que
uma vez aconteceu, nada se pode apagar ou deítar fora; e não
haverá maís razão ainda para dizer que tudo depende do que
ncste mundo se criou?
O PODER DE RESISTÊNCIA DO ESPÍRITO
O que há de fatal na vida apresenta-se ao homem prin-
cipdmenre sob três formasz 1. sob a forma das suas disposíçó<35,
aquilo quc Tandler denominou «fado somático»; 2. sob a forma
da sua Condíção, ou seja, a totalidade das suas concretas situa-
çócs cxternas. Disposiçócs e condíção íntegram a posíçâo de um
homem. E, perante esta, tem o homem uma atitude; atítudc
que, ao contrário da «posição» essencialmente fatal do destino, é
1ivre, conforme se pode provar vcriñcando que há na vida uma
(›(5) cha-se, aliás_ o quc. em corrclnçáo com isto, sc díz mais adiantc (pa'g. 1 5 5) n
rcspcito do subjetívismo ou upsicologísmm do homem que Hca aturdido diame duma
infblicidade c foge para a «inconsciéncian da infelícidadc - pela cmbriaguez - ou para
a inconsciência absolula - pclo SUÍCÍdiÍL
M A\'Ál l.\L L'u\'lb l l*N( '|Al (›'ER1\1,
m..cspécie de mudança dc posíção basta, para tanto, incluirmos
3 dimcnsão temporal no nosso csqucma, já que uma mudan-
ça de posiçâo significa uma modificação da atitudc no rcmpo e
com o tempo. Faz partc da mudança de posição ncstc scntid0,
Por cxemp10, tudo aquilo a que chamamos cducação, cduca-
çáo complcmcntar, autocducação, mas tàn'1bém a psicolcrapia
na accpção mais ampla da palavra, c bem assim 0 fcnómcno da
conversâo.
As disposiçóes reprcsentam o destino biológico do homem,
c a condição o seu destino sociológíca Acresce a isro, porém,
o dcstino psicológico, do qual faz partc aquela atitudc anímica
que. por nâo ser livre, nâo constitui ainda uma livrc tomada clc
posição espirituaL Pois bem; o que farcmos cm scguida scrzí cxa-
minar, passo a passo, cm que medida 0 biológíc0, o psicológico
c o sociológico, enquanto reprcscntam algo dc faátaL intcrfcrcm,
digamos assim, na liberdade humana.
O destíno bíolágíco
Se repararmos naqueles casos ou situaçóes em que o homem
defronta o destino biológico, logo nos surgirá o problema de
saber até onde chega a liberdade do homcm cm facc do acon-
tecer orgânico; e, paralelamente, o problema de saber qual a
profundidade com que o poder da sua vontadc livre penetra
no campo do ñsíológico. Desta maneira, aproximamo-nos da
problemática psicofísica, mas scm nos introduzirmos na intcr-
minável discussâo sobre a qucstáo de saber em que mcdida o
organismo físico do homem depende do anímico-cspirituaL c
(66) Àquh a hidclidadc au pensamcnm do Autor não nos pnrccc pcrmiür a conserv.1-
çâo do jogo dc palavms que. mais uma vc¡,'. cle utili.7.'1. Assim. traduzl'mnsz Anlnga por
disposiço'e5: Lage, por condiçãm Stellung, por posiçãoz Eimtellung, por atitude (cm vcz
dc postura); Umsttlltmg, por mudança dc posiça'0. (N .T.) 165
166
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
vice-versa. Baste-nos acarear duas cruas realidades, dcixando-as
a comentar-se por si mesmas.
Uma vcz, 0 psíquiatra Lange informou-nos do seguinte
casoz havia dois gêmeos seus conhccídos, que procediam de um
único óvulo c há muitos anos viviam completamcnte scparados
um do outro. Pois bem, a ccrta altura recebeu uma carta de
um deles que vivia noutra c1'dade. Ncssa carta, rcvelava-se, pela
primeira vez, uma ideia quimérica do mesmo conteúdo que o
da paranoía do outro irmã0, sob os cuidados de Lange para
tratamcnto psiquiátrico da mesma. Assim, as disposiçóes enfer-
miças comuns manifestavam-se cyomo algo de fatal nestes doís
irmáos que, como gêmeos de um só óvulo, se tinham formado
a partir da mesma célula germinaL tendo portanto as mesmas
disposiçóes.
Ora bemz tcremos que cruzar os braços perante esta força
biológica do destino? Deveremos negar aos poderes orgânícos a
consideração devida, uma vez vistos fatos como estes, que tanto
clizcm da sua eñcácia? Estará porventura o destino dos portado~
res de certas disposiçóes inevitavelmcnte conñgurado pelo bio-
lógico? E, sendo assim, terá aínda alguma coisa a fazer, quanto à
conñguraçáo do destino, a liberdade do espírito humano? Dos
resultados obtidos pela investigação no campo da patologia he-
reditária dos gêmeos, brota uma sugestão fatalista que é perig0-
sa, porque paralisa a vontadc de resistir ao destino ínterior. Com
efeito, quem comidem mamzdo 0 seu destino torna-se mazpzzz de
67UEnCê-/0
Isto, quanto ao primeiro caso. Vejamos agora o segundo. Na
clínica ncurológica de Viena, Hon e os seus colaboradores pu-
seram em estado hipnótico algumas pessoas, para deste modo,
(67) Notc-se que l1.1', aqui tnmbém, um trocad1'lho, desta vcz íntraduzívclz bmegell
signiñca marcado (dccídíd0, selad0); besiegen signiñca dominar (venccr). (N .T.)
A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
a título de experiência, produzirem nelas uma espécie dc afc~
tOS puramente cristalizados (rez'n/zrístal/isíerte Affekte). Ora lhes
eram sugeridas vivências gozosas, ora tristes. Poís bemz veriñcou-
-se nas referidas experiêncías que o título de aglutinação relatívo
aos bacilos do tífo, se 0 soro sanguíneo sc extraía ao tempo da
excitação alegre, era incomparavelmente maíor do que quando
obtido ao tempodo estado de ânímo triste. Alia's, estes exames
permitíram ver a uma nova luz a reduzida capacídade de resis-
têncía às infeçóes do organismo de um homem hipocondriaca-
mente medroso, e bem assim o que costuma sucedcr com as en-
fermeiras possuídas do senso do dever moraL Estas enfermeiras,
trabalhando muito embora em hospitais de doenças ínfecciosas
ou até em leprosários, a tal ponto se acham preservadas de infec-
çóes que, quando se fala nisso, chcga-sc a dizcr que se trata de
«mílagre» ou de «fábula».
A meu ver, é ocioso andar sempre a trazer à baila, para com-
frontá-los entre si, o «poder do espírito» e o «poder da nature-
za». Já nos referimos ao fato de que ambos fazem parte do ho-
mem, dependendo sempre um do outro. Nâo há dúvida de que
homem é cídadão dc vários reínos, estando, essencialmente, na
sua vida, numa tensáo, num campo de forças bipolar. Se qui-
séssemos comparar entre si os dois poderes, pondo-os a medír
forças, tudo redundaria numa espécie de «corrida morta». Mas,
como se sabe, é nas corridas mortas que se chega ao cúmulo da
violência. E, añnaL o que propríamente faz a vida do homem
é a eterna luta que nele se dá entre a sua liberdade e o seu des-
tino tanto interior como exterior. Sem desprezarmos o que há
de fataL c cspccialmente o destino biológico, o que nos cumpre
obscrvar a nós, na qualidade de médicos psicoterapeutas, em
tudo isto, são, em última análise, as provas que garantcm a li-
berdade humana. Pelo menos por razóes heurísticas, tcríamos
que fazer de conta que os limites do livre poder-ser (Ko"mzen) 167
168
PSICOTERAPIA E SENTIDO DAVllí
rcmfacc do ter~quc-ser (Mu5"sen) fatal cstão infinitamente longe;
nessa altura, podercmos pclo menos ir táo longe quanto possí-
vel (RudolfAllers).
Mesmo nos casos em quc o ñsiológico está em íntima relação
com o psíquico, na patología cerebraL uma alteração física pato-
lógica ainda não signiñca, de per si, nenhum destino defínitivq
mas sim um mero ponto de arranque para uma confíguração li-
vre. É neste sentido quc se diz que o cérebro tcm «plasticidade»:
assím, sabc-se que, no caso de serem atingidas por ferimento
partes cxtemas do cércbro, passam a substituí-las «vicariamente»
outras partes dcstc órgão, de modo que, mais cedo ou maís tarde,
a função afetada pode chegar a' restabeleccr-se. Dandy, o cirur-
gião norte-americano espccíalista em círurgia do cérebro, con-
seguíu elíminar opcracionalmente toda a parte direita do córtex
cerebral (nos destros), sem quc daí tivessem resultado perturba-
çóes anímicas duradouras dignas de nota. Um problema à parte
está em sabcr se o padecimento físico permanentc quc se segue
a uma operação dcsse tipo, e que consiste numa paralisia da me-
tade esquerda do corpo, será ou náo bem recebido pelos doentes
em questão ou pelos respectivos parentes, - problcma perante o
quaL maís uma vez, se póe de manifcsto a concepção do mundo,
como fundamento último da atuaçáo médica.
Hoje em dia, ainda não sabemos se não Hcam, por assím
dizer, ímprodutivas, partes inteiras do cércbro humano. Nem
sequer se sabe ao certo se sâo efetivamente aprovcitadas todas as
células ganglionares (aliás, o fato de os centros lesados poderem
ser substituídos por Outros na sua função persuade o contrá-
rio). Sobretud0, conclui~se das investigaçóes mais recentes quc
o descnvolvimento filogenétíco do cérebro se dá aos saltos, ísto
é, de tal modo quc o número das células 'ganglionarcs, em vez
de aumentar paulat1'namente, antes duplíca de rcpente, em cada
caso. Sendo assim, qucm poderia añrmar com segurança quc
A) ANÁLlSE I:X“lSTENClAL GERAL
nós, os homcns de hoje, já conseguimos rcaJizar todas as pos-
sibilídades quc corrcspondcm ao atual grau dc organízaçáo do
cérebro humano? É perfeitamentc conccbích rcalmentc, quc
o desenvolvimento das funçóes do cérebro ainda csteja muito
aquém das possibílídades max'imas do órgáo, muito aquém da
sua capacidadc dc rendimemo.
O destino biológico é, para a líberdadc humana, puro matc-
rial a conñgurar. Tal é, na perspcctiva do homem, o scu último
sentido. De fato, obscrvamos constantemente como o homem
lhe dá sentido ao integrá-lo na estrutum históríca e biográñca
da sua vida. A cada passo encontramos homens quc, de modo
excmplar, conseguiram superar as rcstriçóes e limitaçócs iniciais,
postas à liberdade pelo fator biológico, isto é, as diñculdadcs
quc, a príncípío. se opunham ao descnvolvímento do seu es-
pírito. Assim, a sua forma de vida deñnítíva faz lcmbrar uma
realização artística ou desportiva: uma 1'ealizm;ão artístíca, na
medida em quc a rcbclde matéria bíológica sc foi dcixando mo-
delar; uma realização desportiva, no scntido em quc a naçâo
dos dcsportistas por excelência, os anglo-saxóes, usa a expressáo
idiomática to do orzei best ~ dar o max'imo de sí, dando-se às
coisas, entregando-se-lhcs de corpo e alma -, tomand0-a como
uma das mais correntes c quotidianas cntrc 05 ditos usuais. Conv
tudo, fazer cada qual 0 melhor «que puder», fàzer em cada caso o
max'imo possíveL signihâca tcr em conta, ao ajuizar duma reali-
zaçâo, a sua relatividade; apreciá-la em rclaçâo ao seu «start», em
rclação à sítuaçâo concreta, com todas as suas dificuldadcs, isto
é, os impedimcntos extcrnos ou inibiçóes intcrnas.
Uma vida humana bem podc estar íntciramente marcada,
desde o seu começo, pela resisrência contra um bandimp do des-
tino, no quc cstc tem de fatalidade biolo'gicn, rcprcsentando,
añnaL dado essc difícil «start» a quc aludimos, uma única grandc
realização. Conhecemos um homem que, cm conscquência dc 169
TPSICOTEMHAE SENTIDO DA VIDA
aída já no scío matcrno, era pa_
e tínha táo atrofiadas as pemas
odía mexer com o auxílio de
juventude foí considera_
uma enfermídade cerebral
contr
'dadesralítico das quatro extrcml
,
durante a vida ínteira, so se p
ira de rodas. Até os finais da
como atrasado mcntaL tendo ñcado anajfabetQ
um homem de letras resolveu tomar
é que, num período de tem-
que,
uma cade
do, geralmente,
A certa aJtura, ñnalmente,
e ensiná-10. O ccrto
o do que seria de prever, o nosso paciente não só
escrever, etc., mas também adquiriu uma cultura
cíalidades pelas quaís se havía interessado parti-
éríe de renomados homens _de ciência e pr0_
dísputavam entre sí a honta dc serem seu
reuma vanas vezes por semana
cujo centro de admiraçáo era ele
conta delc
po maís curt
aprendeu a ler,
superíor em cspe
cularmcntc. Uma s
fcssores unívcrsírários
mestre particular. Em sua casa,
uma tertúha hrerarla c arust1ca,
próprio. Belas mulheres encíumavam-se pelas mostras de amor
que nele víam, o que deu motivo a cenas, escândalos, suicídios.
E, não obstante, o que ali havia era um homem que nem sequer
estava em condiçóes de falar normalmentez Como a articulaçáo
tinha sido afetada por uma atetose geral grave, era com 0 rosto
convulsíonado e banhado em suor pela fadiga que tinha dIC lutar
ostcnsívamente na conformaçáo motora de cada palavra. E bem
de ver que este homem, se apenas tivesse seguido o seu «desti-
no», aínda hoje estaria num asílo a vcgetar, até às últimas. E, no
entanto, que rcalízação não representa a formação da sua vida.'
Quc de força convíncente ela nâo possui, como exemplo para os
nossos doentes que, por via de regra, têm de haver-se com um
«start» bem mais fácil do que o destc caso.'
0 destino psicolágico
Analisemos agora aquilo a que demos 0 nome de dCStÍDO
psxcologico do homem, querendo com isto referírmos àque-170
A) ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
16 elemento anímíco quc contramina a líberdade humana. Os
doentes neuróticos pendem, no aspecto psícológíco, para uma
fé cega no dcstino e, ao rcferírem-sc ao destino, ncste sentido,
mvocam constantementc a inexorabílidadc das suas tendências
instintivas, da força dos ímpulsos ou, digamos, da fraqucza da
vontadc, das fraquezas do cara'ter. No seu fatalísmo típico, o
neurótíCO parece como que dominado pcla fórmula «A vida é
assim» - aí está o seu «ser-assim»!oR - c «assim tinha quc ser»;
e com esta lsegunda parte da fórmula posta-se precisamente na
sem-razão.O ego «qucr». O íd69 «impulsa» (obs. l7). Mas nunca o ego é
absolutamente «impulsado»7°. Velejar náo é simplesmente dcixar
o botc corrcr ao sabor do vento que o «impulsa»; a artc de velcjar
começa, antes pelo contra'rio, precísamente quando se está em
condições de imprímir à força do vento a dircçâo desejada, po-
dendo-se inclusíve dirigir a embarcação contra o vent0.
Fraqueza de vontade por nascímento é coisa que nâo existe. Ê
verdade que os neuróticos hipostasiam a força da vontade; esta,
contudo, não é nada dc cstático, algo dado de uma vez só, antes
é algo que, de certo modo, se apresenta cm cada caso como fun-
ção de váríos fatores, a saberz conhccimcnto claro dos objctivos,
decisâo honrada e um certo treino. Enquanto um homem c0-
meter o erro de, mesmo antes de tentar o quc quer quc seja, cis-
mar constantemente no inevitávcl malogro das suas tentatívas, é
claro que nâo lhe poderão surtir efeito as tentativas em questão;
além do mais, porque ninguém de bom grado se retrata, mes-
mo perante sí mesm0. Daí a ímportâncía que tem o excluir de
(68) No oríginaL Soseinz So -assim-, e xein -ser-. CE Nora do Autor à pa'g. 1 l7. (N .T.)
(69) Nn original não figuram os pronomes latinos, mas os alcmãcs correspondcmes.
ItlzeEL (N,T.)
(70) Traduzímos utreibw por impulsaz e ugetricbcnm por impulsado, para mantcrmos
a corrclação tcrmínológica do alcmão. (N.T.) 171
PSICOTERAPLA E SENTIDO DA VIDA
antemão, na formulação interior dc qualqucr propósito, tudo
o que possivelmcnte tenha visos de contra-argumento. Assim,
por exemplo, se alguém diz, de si para síz «não vou beber», logo
deve contar com que sc lhc háo de apresentar as mais variadas
objeçóes, mais ou menos como estas: «mas... nâo tcm jeito»;
«apesar de tud0, náo poderei resistír», etc. Mas, se o interessado
rcsolve pôr um ponto ñnal na discussão e diz repetidamente a
si mesmoz «Aqui náo há bebidas e nâo se fala mais no assunto»,
cntão já entrou por bom caminho.
Quão sábia era - ev1'dentemente, scm cla 0 Ísaber e querer ~ a
rcsposta de uma pacíente esquízofrêníca, quando lhe pergunta-
vam se tinha força de vontade.l «Quando quero, tenho; e quando
não quero, também nâo tenho», - dizia ela. Esta paciente psicó-
tica teria podido dar, portanto, uma boa liçâo a muitos docntcs
neurótícos, fazendthes ver que o homem propende a dissimu-
lar a seus olhos o seu próprio 1ivre-arbítrio, escondendo-o por
trás duma suposta fraqueza de vontade.
O fatalismo neurótic0, ímpressíonado sobretudo pelas tescs
da psícologia índívidual - entendendo-as mal e tergivcrsan-
do-as - apela muítas vezes também para 0 que «Hzeram dele, na
infância, as inHuências de educação e do meio ambiente», como
se esses elcmentos e quejandos se tivesscm transformado em
destino. O que os homens querem com isto é, no entant0, des-
Culpar-sc das suas fraquezas de caráter. Tomam estas fraquezas
como simplesmente dadas, em vez de nelas verem uma tarefa de
complementação educacional ou de autoeducação. Uma doente
que, após uma tcntativa de suicídio, fora íntemada numa clínica
ncurológica explicava, recusando as índicaçóes de um psícotera-
peutaz «Mas que querem dc mim? O que cu sou, precisamfntc é
uma “filha única” típica, segundo Alfrcd Adler'.» Como se o quc
interessa não fosse precisamente libertar-se daquilo que numa
pessoa há de típico. Bem vistas as coisas, o que o ethox da psi-
ímANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
cologia individual deveria exigir ao homem é quc clc sc libertc
dos crros c fraquezas de caráter típicos que porventura ainda lhc
adcrem, em decorrência da respectiva sítuação educacionalz dc
modo que, enfim, já ninguém repare quc está a lidar com um
«ñlho únic0» ou coísa semelhante.
A «lei» (da psicología individuaD a que «sc amoldava» (como
filho úníco) a nossa paciente acíma citada, só vale, caso por caso,
teorícamente, para quem está de fora; na prática, cxistencial-
mente, só cstá em vigor prccísamente cnquanto a «deixamos vi-
gorar». Os erros de educação não são nenhuma desculpa; são
para acertar por meio da autocducaçáo. Por outro lado, o fata-
lismo neurótico signiñca uma Fuga à responsabílidade com que
oneram os homens a sua própria irrepetibilidade c 0 seu «caráter
dc algo único», - uma fuga para o típico, para o que parece
haver de fatal no dcstino da típicidada E, neste ponto, não é
essencial que o típo a cuja regularidade se julga estarmos sujeí-
tos, se conceba como tipo de caráter ou como típo dc raça ou de
classc; não é essenciaL portanto, que sc entenda no scntido de
uma Condicionalidade psícológíca, pois a fuga pode também ve-
riñcar-se com base numa condicionalidade bíológica (coletiva)
ou sociológíca.
A atitude espíritual de um homem tem, portanto, certa mar-
gcm dc líberdade de movimentos cm facc do quc nele hzí, não
apenas de físíco, mas também dc anímico.' e nem de longc ele
tem que se submeter cegamente ao seu destino psicológico. Mas
a expressão porventura mais inequívoca c impressíonante do
que acabamos de dizer, temo-la nos casos em que se trata dc
uma conduta humana de Iivre escolha perante estados anímicos
patológicos. Vejamos o caso de uma pacicnte que estava interna-
da numa clínica para tratamento dc depressóes endógenas que
se repctiam period1'camente. À vista das componentcs endóge-
nas da sua doença, foi-lhe prescrita uma terapia medicamentosa, IW
174
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
iniciando-sc portanto um tratamento aplicado a fatorcs somáti-
cos. Um dia, o médico que a tratava surpreendcu-a em estado cle
grandc excitaçã0, debulhada cm lágrimas. Uma breve conversa
pcrmítiu veriñcar que, nesse instante, o que havia não era pro~
priamente uma dcpressão endógcna, mas antes uma depressão
psicógena que tinha, assim, no conjunto, um componente psi-
cógeno. Com efeito, a doente chorava, nessa ocasía'o, por ser de
choro fáciL A dcpressão, por assim dizcr, tinha-se potencializa~
do. Ao componcnte cndógeno acrescia um componente psicó-
geno adicional. A depressáo atual tinha por objcto a dcpressão
endo'gcna; era, nestes termos, uma rcação ao estado endógeno.
Dado este desgosto reativo, prcscreveu-sc cntão uma terapia adi-
cionaL isto é, a psicotcrapia correspondente aos componentes
psicógenos. Por isso, a docnte foi aconselhada a quc evitasse,
quanto possíveL o cstar a magicar c a dar voltas à sua depressão,
já que isso, compreensích mas 1'njustiñcadamente, a fazía vcr
tudo negro. Foi admoestada a que deixasse passar a depressáo
como uma nuvem que corre diante do sol, tirando-o da nossa
vista; fazendo-a compreender que, assim como o sol não dei-
xa de existir, embora momentaneamente o não vcjamos, assim
também os valores continuam a existir, mesmo quando não os
enxerga um homcm que momentaneamente, ao atravessar uma
depressão, Hcou cego para os valores.
No entanto, uma vez posta a Claro a situaçâo da docnte pelo
tratamcnto psicoterápico, descobriu-se toda a sua carêncía espi-
ritualz ela própria revelou a suposta pobreza de conteúdo e fal-
ta dc scntido da sua exístência - cxistência dc uma pessoa quc
sente o bandicap próprio do destíno das suas dcpressões recidi-
vas. Posto ísto, era indicado ír mais além do tratamento psico-
terápíco, no scntido mais cstrito do termo, atendendo a doentc
pelo processo logoterapêutico. Sendo assim, tratava-se de lhe
mostrar como precisamente esses cstados de dcsgosto, em retort
ímANAlISE EX1*STENCIAL GERAL
no fatal (Straus diría «criatural»), são apropríados para incitar
o homem (livrc, em todo caso, para tomar atitudes cspirituais
Pcrante os processos anímicos) - para íncitar o homcm, digo, a
adotar perame os ditos processos a única conduta corretaz aque-
la que Consiste em rcalizar o que nós denominamos valorcs dc
atítud6. Com o tempo, a paciente aprcndeu, não apenas a cn-
carar, apesar dos scus estados de desgosto, uma vida chcía dc ta-
rcfas pessoais, mas também a ver, nesses mcsmos estados, mais
uma tarefaz a tarefa de acabar com eles fosse como fosse e, como
qucr que fosse, sobrelevá-los. Feita csta anal'ise existencial - poís
nâo foí senão isso 0 quc se fez -, c a dcspcito de subsequentcs
fases endógeno-dcpressivase mesmo no scu decurso, conseguiu
levar uma vida que era mais cheia de sentido do que antes do
tratamentm mais inclusíve do quc possivclmcnte teria sido se
jamaís tivesse adoecido e prccisasse dc um tratamento. Isto lcm-
bra-nos dc novo aquela frase dc Goethe que citamos, para
íncuICá-la como a melhor das max'imas dc qualquer psicotera-
pia: «Se tomamos os homens como eles são, fazcmo-los piorcs;
mas se os tomamos como eles devem ser, faremos deles o quc
podem ser».
Em muítos dos casos de doença mentaL a melhor Forma dc
produzir, na mcdída do possíveL a atitude espíritual livre é levaI
o doente à reconciliação com o destino da sua doença. Não há
dúvida de quc é precisamente a luta constante e inútil contra
esses estados «criaturaís» que leva a uma depressâo ad1'cional; ao
passo que quem simplesmente e sem convulsões se abandona
aos estados em qucstâo, acaba por supcrá-los mais depressa.
Havia uma paciente que, há dezenas de anos, sofria de
gravíssimas alucinaçõcs auditivasz ouvia constantemente vo-
zes horríveís, que acompanhavam com observaçóes sarcas'ticas
tudo quanto fazia ou dcixava de fazen Um dia perguntaram-lhe
Como, apcsar disso, cstava de tão bom humor e o que tinha que 175
PSICOTERAPIA ESENTTDODA VIDA
dizer ao quc escutava. Ao que ela rcspondeuz «Eu, cá por mim,
penso que, ao ñm e ao cab0, sempre é muito melhor ouvir o quc
ouço do quc estar surda como uma porta». Que arte dc viver não
há e que grandc rcalização (no sentido dos valores de atitude),
por tras' deste comportamcnto de uma pessoa simples em face
do tcrrível destino dc um sintoma esquizofrênico pcnoso! Mas,
não sc encerra porventura nesta observação, a um tempo jocosa
e scnsata, uma certa liberdade dc espírito em relação à docnça
mental?
Qualquer psiquiatra sabe Como pode variar - em funçâo das
diversas atitudes de espírito - o comportwamento de homens psi-
cóticos em face da mesma e úníca psicose. Assim, um paralítico
irrita-se c adota uma atitude dc hostilidade para com os que o
rodciam, ao passo que outro - com a mesmíssima doença! - é
amável, chcio dc bonomia, e até, porventura, encantad0r. Sabe-
mos de um caso que passamos a narrar. Numa barraca de um
campo de concentraçáo, havia duas dúzias de doentes com tifo
exantemático. Todos deliravam, exceto um.' E que fazia? Esfor-
çava-se por cvitar os delírios da noite, ñcando acordado de pro-
pósito; o caso é que aproveitou a excitação febríl e a animaçâo de
cspírito para reconstruir, no decurso de 16 noites de febre, rabis-
cando às escuras, e numas diminutas folhas, algumas frases este-
nográñcas básicas - um manuscrito duma obra cientíñca ainda
inédita que lhe tinham subtraído no campo de concentração.
O destíno sociológíco
Por toda a parte o indivíduo nos surge incrustado na cs-
trutura sociaL Com efeíto, a comunídade determina-o sob dois
pontos de vistaz por um lado, o organismo social como um todo
m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
condiciona-o; por outro lad0, e 51'multaneamcnte, o índivíduo
é orientado para se ajustar ao referido organismo. Assim, vcriñ-
ca-se tanto uma causalidade social quc sc excrcc no indivíduo,
como uma ñnalídade socíal deste último. Pelo que diz respeito à
causalidadc social, seria dc notar, mais uma vcz, que as chamadas
leis sociológicas nunca determinam intciramente 0 indivíduo,
de modo algum o despojando, portanto, do seu livre-arbítrio. O
quc sucede, ao contrário, é que, antcs de inHucnciarem o índiví-
duo no seu comportamento, têm quc passar, digamos assim, por
uma zona de liberdade individual. Quer dizerz o homem con-
serva também em face do destino social certa margcm de livre
possibilidade dc decisão, tal Como perante o destino biológico
ou psicológíco.
No que conceme à ñnalidade sociaL gostaríamos de rcferir-
-nos ao crro em que incorre sobretudo a psicologia individuaL
no âmbito da psicoterapia. O que tcmos aqui em mente é aque-
la errônea concepção segundo a qual toda a conduta valiosa de
um homem não é senão, cm última análise, uma conduta so-
cialmente correta. O ponto de vista segundo o qual só é valíoso
o que acarreta algum proveito à comunidade é insustentáveL
Conduziria a existência humana a um cmpobrccímento dc va-
lores. Com efeito, é fácil demonstrar que, no reino dos valores,
há reservas individuais, ou seja, valores cuja realizaçâo podc e
até deve lcvar-se a cabo além e independentemente de toda e
qualquer comunidade humana. Nomeadamente, sempre que sc
trata do que nós classiñcamos como valores vivenciais, nenhuma
validade pode reclamar o padrão do útil para a comum'dade. A
plenitude de valores que sc oferecem ao indivíduo que, mesmo
em soledade, vive uma expcríéncia artística ou experimcnta vi-
vências da natureza é fundamental e essencialmente indepen-
dente do proveito quc a comunidadc porvcntura disso possa au~
ferir, num caso Concreto - 0 que, de resto, diñcilmente se pode _,_./
178
PSICOTERAPIA ESETÍDODA VIDA
ímaginar. Contud0, não nos passa despcrccbido que também há
uma série de valores vivencíais que estão reservados neccssária e
esscncialmente à vivência comunitáriaz quer se trate de uma base
comunitária mais ampla, como succde na camaradagcm, na so-
l|'daricdadc, ctc.; quer dessa outra que é própria da comunidade
amorosa, apenas entre duas pessoas.
Com tudo isto, não ñzemos mais do que indicar o momento
social da existência humana, na medida cm que o podemos con-
ccber como base ou meta da vida. Temos que atentar agora no
socíal cnquanto desrino propriamentc dito, isto é, cnquamo ele-
mento imutách ininHuenciáveL quc sc contrapóe à vontade bu-
mana, desañando-a para a luta. Cumprc-nos cstudar, portanto,
o sociológico, tomando-0 como aquclc terceíro campo em que
o quc há de fatal na vida vem ao encontro do homcm. Ncssc
sentído, não deixaremos de considerar os problemas da conñ-
guraçâo da vida proñssionah o problema, digamos, daquela luta
ativa em que 0 homem se debate com o meio ambiente soc1'al.
É o quc farcmos, no próximo capítulo. Aqui, entretanto, apcnas
nos ocuparcmos com este meío ambíente como fator que, em
dadas circunstâncias, o indivíduo tem que sofren
Os últimos tempos prodigalízaram abundante material à psi-
cologia destc possível sofrcr sob a pressão das circunstâncias so-
ciais. A primeira guerra mundiaL permitindo compor o quadro
patológico da chamada docnça do arame farpadol («barbed wire
disease») com basc nas observaçóes e experíências dos campos de
reclusã0, já tinha cnriquecido a psicología da prisão; posteri0r-
mente, a segunda guerra mundial deu-nos a conhecer os fenô-
menos resultantes da «guerra de nervos». Mas estava reservado a
um passado mais recente o enriquecimento da in_vestigação no
sentido de uma psicopatologia das massas, pois foi o estudo da
vida das massas nos campos de concentraçâo 0 que mais contrí-
buiu nesse sentido.
A) ANÁLISE EXlSTENClAL GERAL
A PSICOLOGIA DO CAMPO DE CONCENTRAÇÀO
No campo de concentração, a existência humana sofrcu uma
deformaçáo. Esta adquiriu taís proporçóes quc se impunha per-
guntar se o observador, achand0-sc ncle também prisioneiro,
ainda poderia conservar a suñciente objctividade nos seus juí-
zo$. Ev1'dentemente, a sua capacidadc para ajuizar dc si c dos
outros por força tinha que ser também afetada do polnto dc vista
pSicoIógiCQ Ao passo que quem estava dc fora ñcava a dema-
siada dístância c diñcilmeme podia entrar nos scntimentos dos
prísíoneiros, quem «estava bem por dentro», tcndo já vivido,
por si, o sofrimento, carecia do mínimo de distância para julgar.
Por outras palavras, o problcma fundamental residia em que se
impunha admitir quc o critério a aplicar à rcalidade dc vida de-
formada cra, já de si, um critério dcsñgurada
A despeito destes rcparos, os especialistas em psicopatologia e
psicoterapia coligiram, a este propósito, um matcrial de obscrva-
çóes próprias c alhcias, tendo-sc chegado a condcnsar em teorias
a suma das suas expcriências e vivências; e, considcrando a sua
suficientc concordância no cssenciaL podc-sc dizer que é muito
pouco o subjetivísmo que há que polir nclas.
Nas reaçóes do prisionciro do campode concentraçáo são vi-
síveis três fascs distintas: a fase da entrada no campo, a da vida no
campo propriamente dita, e a quc sc segue ao ñm da detençâo,
isto é, a fase da libertação. A primeira caracteriza-se pelo chama-
do Choque dc cntrada. Esta forma de reação perante um meio
ambicnte desacostumado, anormaL não ofcrece nada de novo
sob o prisma psicológico. O prisionciro que acaba de ingressar
no campo traça um risco por sobrc a sua vida anterior. Tiram-lhc
tudo o que traz consígo; nada mais lhe ñca que represente um
laço de união extemo com a sua vida anterior, a não ser, talveL
os óculos, se é que lhc permitem conserva'-los. As impressóes 179
ISU
PSICOTERAPIA E SENTIDO l)A Vll)A
quc desabam sobre elc, ou o scnsibilizam profundamentc ou o
cxaltam. Vísta a ameaça que constantemente pcsa sobre a vida›
um ou outro decide-se a «atirar-se às farpas» (a cerca de arame
farpado do campo, carregada de alta tensão), ou a tentar quaL
quer outro suicídio. Esta fase, contudo, logo depois de alguns
dias ou semanas da scgunda fase, costuma ccder a uma profunda
apatia, que é um mecanismo de autoproteção da alma. O que
até então sensibílizava ou amargurava o prisíoneir0, o quc ele
tinha que contemplar à sua volta ou aquilo em que tinha que
participar, ricochetcía, daí em diante, numa espécie de arma-
dura que 0 envolve. Trata-se aqui de um fenômeno anímico de
adaptação ao meio ambícnte peculiar cm que sc vê obrigado a
viver; o que nele se passa chcga-lhc já amortccido à Consciência.
A vida afetiva vaí dccaindo até um nível baixíssimo. Veriñca-se
aquilo quc os observadores oricntados sob um prisma psicanalí-
tico conccítuam como regressâo ao primitivismo. Os interesses
Cingem-se às neccssidadcs imediatas e mais prementes. Todas as
aspiraçóes parecem concentrar-se num único pontoz sobreviver
dia a dia. À noite, quando os prisioneiros, exaustos, chcios de
frio e de fome, eram outra vez arrastados para as barracas pe-
los «comandos de trabalho», aos tropeçóes pelos campos neva~
dos, sempre se lhes ouvia soltar um profundo suspiro: «En6m,
aguentamos mais um dia!»
Tudo o que ultrapassa os problcmas mais atuaís da pura
e vital autoconservaçáo, 0 que está mais além da salvação da
vida - da própria e da alheia -, da vida atuaL dia a dia, mo-
mento a moment0, por força tem que scr considerado como
um luxo. Chega a ser coisa sem valor. Esta tendência crescen-
te para a desvalorização nota~se nas palavras dedesabafo que
mais se ouvem nos campos de concentraçáoz «É tudo uma
merda'.». Todos os intercsses superiores Hcam postcrgados du-
rante a prísão no campo, ~ a nâo ser os intcrcsscs políticos
ímANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
Comuns, ev1'dentemcntc, e, coísa digna dc nota, cventuais in-
tercsses religiosos. Afora ísto, o prisioncíro vai mergulhando
numa híbernação cultural.
O prímitivismo da vida interior no campo de concentração
tem uma expressão caractcrístíca nos sonhos típicos dos prisio-
nciros. A maioria sonha com pã0, bolos, cígarros c um banho
quente. Fala-se também constantcmente de comidaz se se jun-
tam nos «comandos de trabalho» e a scntinela não está pcrto, os
prisioneiros trocam entre si rcccitas de cozinha e descrevem uns
aos outros os pratos favoritos quc hão de ofcrcccr-sc quando,
uma veZ livres do campo, se convidarem uns aos outros a almo-
çar. Os mclhorcs dcntrc elcs esperam ansiosamente o día cm que
já nâo tenham quc sentir fomc, não por amor à boa comida, mas
pelo desejo dc que acabe ñnalmente aquela situação humana-
mente indigna em que não sc podc pensar senão cm comen As-
sim, o Campo de conccntração (salvas as exceçóes mencionadas)
conduz ao primitivismo, e a subalimentação faz precisamente do
instinto nutritivo o contcúdo maís importante em torno do qual
se fccham os pensamentos e dcsejos; de modo quc, sobrctudo,
provavelmente por causa da subalimentação, nota-se também
um surpreendente desinteresse pelos tcmas de conversa sexualz
nos campos de concentração não se dizem «porcarias».
A interpretação das reaçóes anímicas pcrante a vida do cam-
po de concentração, nos tcrmos que acabamos dc ver, como re-
gressão à primítiva cstrutura da instínt1°vidade, não é a única
que sc conhecc. E. Utitz explicou as alteraçóes dc caráter típicas,
observávcis, a seu vcr, nos prcsidiários dos campos de Concentra-
ção, como um deslocamcnto do tipo de caráter Ciclotímico para
0 esquizotímica O que lhe chamou a atençáo foi que, além da
apatia, podia obsc-rvar-se nos presidiários uma grande írritabi-
h'dade. Ora, ambos os estados afctivos correspondcm perfe1'ta-
mente à proporção psicostética do temperamento esquizotími- 181
182
PSICOTERAPIA ESTWIDODA Vl DA
co, no sentido que Kretschmcr lhe atribui. Mas, prescindindo
de toda a problematicidade destas mudanças ou instabilidadc de
carátcr, na nossa opinião, este esquízoidismo - aparente - pode-
-se explicar duma maneira muito mais simplcsz a grande massa
dos presos sofría, por um lado, a escasscz de alimentos c, por
outr0, a falta dc sono - em consequência da praga dc inset05,
provocada pcla cxcessiva concentração das moradias. Ao passo
que a subalímcntação tornava as pessoas apáticas, a deficiência
crônica de sono tornava~as irritávcis. Mas a estes dois motivos
acrcsciam ainda outros doisz a falta daqueles dois vcncnos da
civilização quc, na vida normaL costumam mítigar respectiva-
mentc a apatia c a irritabilidadez a cafweína e a nicotina. Real-
mente, as autoridades do campo proíbiam a posse de café e de
tabaco. Só que, com tudo isto, apcnas teríamos tentado explicar
as bases fisiológicas das «mudanças de caráter» em questão. Ora,
há um fator psíquico que sc lhcs associa. A maioria cstava ator-
mentada por scntimentos de inferioridadez gcntc que tinha sido
«alguém» cra agora tratada pior que um «zé-ninguém». E, no
entanto, uma minoria, que se jumava para formar camarilha,
representada nomcadameme pelos capos (ñscajs do trabalho),
produzia a pouco e pouco um delírio de cesarismo cm miniatu-
ra; ainda por címa, estes homens, formados em grupos selecio-
nados com um critério caracterológico «negativo», tinham nas
mãos um poder totalmente desproporcíonado para a sua irres-
ponsab1'|idade. Como aquela maioria dc desclassiñcados cntrava
constantememe em atríto com esta minoria de arrivistas - c para
choques assim nunca faltava nos campos ocasião -, a irritabi-
lidadc dos prísioneiros, potenciada, aliás, pelos motivos antes
indicados, por força tinha que chegar a explodir.
Ora bemz será que isto não nos está a dizcr quke um tipo de
caráter é modelado em função do meio amb1'ente? Nâo vem ísto
porventura demonstrar que o homem nâo se pode subtrair ao
A) ANÁLISE EMSTENCLAL GERAL
destino do seu ambientc social? A nossa rcsposta éz nâo! Ondc
ñca entáo a liberdade intcrior do homcm? Que dízer cntão da sua
conduta? Espir1'tualmente, arca cle ainda com a rcsponsabilidadc
pelo que lhe acontece sob o ponto de vista psíquico, por aquilo
quc «delc faz» o campo de concentraçâo? A nossa resposta é: sim!
É que, mesmo num mcio ambiente socialmcnte tão estreito como
este, a dcspeíto destas limitaçóes sociaís impostas à sua liberdadc
pcssoaL ainda resta ao homem aqucla derradcira liberdade com
que, dum modo ou de 0utr0, conseguc conñgurar a sua exis-
tênciaL Há exemplos bastantes - frequememente hcroicos - quc
demonStram como o homem, mesmo em campos deste tipo,
«também pode ser-diferentcmente», não tendo que sucumbir às
leis, à primeira vista onipotentes, do campo de concentraçáo,
que lhc impóem uma deformação anímica. Antes pelo contrário,
está dcmonstrado que, quando alguém assume as propriedadcs
caracterológicas típicas do presidiário dos campos, nos termos
em quc as sublinhamos - e, portanto, sempre que alguém su-
cumbe às forças do seu meio ambiente social que lhe modelam
o caráter, - é precisamente porque antes se deixou dccair no as-
pecto esp1'ritual. Não se perde a liberdade de atitude perante uma
situaçâo concreta; o que sucede, 51'mplesmcnte, é que o homem
se lhe entrega, numa atitude de desistência (obs. 18). Por muito
que lhe tivesscm tirado nas primcirashoras de presídio, ninguém
Comeguiria arrebatar ao bomem a liberdade que ele tem para, de
um modo ou de outra, e até o último suspiro, assumir uma atitude
para com o seu destína E sempre Íoá um «a'e um modo ou de outro».
Precisamente nos campos de concentração, havia indivíduos que
conseguiam dominar a sua apatia e subjugar a sua irritabilidadc.
Eram aqucles homens admiráveis que ~ esquecendo-se de sua
pessoa até à renúncia e sacrifício de si mesmos ~ passavam pelas
barracas c praças de revista militar dizendo aqui uma boa palavra.
dando além o último pedaço dc pão. 183
184
PSlCOThRAPIA E SENTIDO DAVllí
Assim, toda a síntomatologia do campo de concentraçáq
que acima tentamos explicar com base cm causas físicas e aní-
micas, no seu desenvolvimento aparentcmente fatal e inelutáveL
apresenta-sc como algo suscetível de ser configurado a partir do
espírito. E também valc, na esfera da psicopatología do campo
de concentraçâo, o que, num dos capítulos seguintes, diremog
em tcrmos muito gcrais, a respeito dos sintomas neuróticosz que
não constituem mera conscquência de algo somático e expressão
do psíquico, mas também um modo da existência - scndo este o
fator decisiv0, em última anal'1'se. isto também 0 que se passa
com as mudanças de caráter do homem no campo de concen_
traçãoz trata-se sem dúvida de uma consequência das alteraçóes
do estado ñsiológico (fome, insônias, etc.) e de uma cxpressão
de dados psicológicos (sentimento de inferioridade, etc.); mas,
añnal de contas, e essencialmentc, trata-se de uma posição espi-
ritual que se adotou. Com efeito, e seja qual for o caso, o ho-
mcm conserva a liberdade c a possibilidade de decidir a favor ou
Contra a inHuéncia do mcio ambicnte (obs. 19). Mesmo que, em
geraL só raramente faça uso dela, esta liberdade e possibilidade
estão scmpre ao seu dispor. Quer dízerz dc um modo ou de ou-
tr0, está inclusive ao dispor daqueles homens que sucumbiram
ao meio ambicnte do campo de concentração, Como se este lhes
tivesse imprimido um cunho anímico, poís, seja como for, aínda
têm forças e responsabilidadc para se subtraírem às suas inHuên-
cias. Ora bem: se agora perguntamos quais eram as razócs que
levavam cstes homens a decair tanto esp1'ritualmente, fazendo
com que sucumbissem as\ inHuências físico-anímicas do meio
ambieme, teremos que responder istoz abatiam-se porque e só
quando tinham já pcrdido o apoío espirituaL Mas isto requer
uma explanação mais detalhada. $
Já Utitz caracterízou o modo de existír dos presidiários dos
campos de concentração como uma «existência provísória». Esta
A) ANÁUSE l-L)\'IS/I'ENCIA1. GERAL
Caracterização pedc, contudo. a mcu ver, um complcmcnto es-
senciaL Referimomos com ísto ao fato dc quc. ncsta forma dc
exístênCia humana, não se tratava apenas da mcra provisoric-
dade, mas sím dc uma provisoriedadc «sem prazo». Antcs de
entrarem no camp0, os futuros prisioneiros cncontravam-se
muitas vezes num estado de espírito quc só se podia compa-
rar àquelc em que se sente o homem cm face do Além, dondc
nínguém regressaz de muitos campos de concentraçáo, também
ainda ninguém havia regressado ou, pelo menos, não se sabia dc
quaisqucr ínformações vindas a público. Uma vez quc sc entrava
no campo, ofím da incerteza (quanto às condíçócs locais) trazizz
mngo a inrerteza do Realmente, ncnhum dos prisioneíros
Podia saber por quanto tempo ñcaría ali detido. Os boatos que,
de día em dia e de hora em hora, circulavam por cntre aquelas
massas de homens amontoados, referindo-se de cada vcz a um
«ñm» próximo, iminente, scmprc levavam a um dcsengano cada
vez mais proñmdo e até deñnítiva A indcterminabilidadc do
momento de libertação cria no prisioneiro a sensaçâo de um
encarceramenro praticamente ilimitado, por não ser dclimítáveL
Com o tempo, toma-o a sensação dc ser estranho ao mundo que
cstá do lado de lá do arame farpado; através do arame farpado,
vé os homcns e as coísas que estâo lá fora, como se não fosscm
deste seu mundo, ou melhor, como se ele já não pertencesse ao
mundo, como se para o rnundo fora já «pcrdido». O mundo dos
náo cncarcerados añgura-se-lhe tal como o veria porventura um
morto, do Alémz irreaL inacessíveL ímpossível de alcançar - Fan~
tasmaL
A carência de um Hm, própria do modo de existir no cam-
po de concentraçã0, traz consigo a vivência da falta dc futura
Um dos prisioneiros que marchavam, cm colunas interminá-
veis, para o seu futuro campo de concentraçáo, dízía-nos uma
vez que havia tido a scnsaçâo de se ir arrastando atrás do seu 185
186
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
próprio cadávcn Era uma explicaçâo precisa: era a sensação de
que a sua vida não tinha futuro, dc que cra puro passado, tendo
passado já, Como a de um morto. A vida destes «cadáveres vivos»
vem a ser predominantemente uma existência retrospectiva. Os
pensamentos gíram-lhes continuamente cm torno dos mesmos
detalhes da vida experimcntada no passado; uma transñguração
famasmagórica banha-lhes na sua luz as mais insigniñcantes ni-
nharias cotidianas.
Ora, sem um ponto ñxo no futuro, nâo consegue o homem
propriamente existir. É em ordem ao futuro que normalmente
todo 0 seu presente é conñgurado, orientando-se para ele como
a límalha de ferro se orienta para um polo magnético. Pelo c0n-
trário, o tcmpo interior, o tempo vivencial perde toda a sua es-
trutura sempre que o homem perde o «seu futuro». Já não se
vivez vai-se vívendo, num viver presentista, sem rumo; chega-se
a uma situação semelhante àquela que nos pinta Íhomas Mann
na «Montanha Mágica», onde se fala precisamente de tubercu-
losos incuráveis que desconhecem por completo o término, 0
dia da líbertação. Ou entâo cai-se naquela sensaçâo de vazio e de
falta dc sentido da existêncía, que domina tantos trabalhadorcs
desempregados, que experimentam também uma desintegração
da estrutura da vivência temporaL conforme se deduz dos exa-
mes psicológícos feitos em série entre mineiros sem trabalho.
A palavra latina «ñnis» tanto signifíca o fínal ou término como
0 ñm ou objetiv0. No momento em que o homem não consegue
entrever o Hnal de uma sítuação provisória na sua vida, também
não consegue propor-se nenhum ñm, nenhuma míssão; a vida
por força tcm que perder, a seus olhos, qualquer contcúdo e
sentido. Pclo contrárío, 0 olhar em direçâo ao «final» e a um
objetivo marcado no Futuro forma precisamente aquele apoio
espiritud de que o prisioneiro dos campos tanto precisava, por-
que esse apoío cspiritual é 0 único capaz de preservar o homem
M ANÁLISE EM'STF.,N(.'1AL GERAL
da capitulação pcrantc as forças do meio socíaL modcladoras do
caráter e típiñcadora$ o único. portanto, quc o podc livrar dc
sucumbin Havia um prisioneiro, por cxcmplo, que com um ins-
tinto certeiro, tentava supcrar as situaçócs mais duras da vida do
campo de concentração, imaginando-sc sentado numa cátcdra,
perante um numeroso audítório, a falaplhes prccisamcntc das
coisas que ele, no momento, vivía e expcrímentava. Com csta
artimanha, conseguía ele viver a experiência das Coisas «quadam
sub specie aeterm'taris», e suportá-las7'.
A decadência anímica proveniente da falta de um apoío cspí-
rituaL o completo abandono de sí à apatia totaL era entre todos
os prisíoneiros do campo um fcnômcno tão conhecido como
temido, e efetivava-se tão rapídamentc quc cm poucos días con-
duzia à catástrofc A certa altura, os presidíários quc se achavam
neste estado ñcavam pura e simplesmemc no scu lugar, nas bar-
racas, recusando-se a responder à chamada ou a ocupar 0 seu
posto nos «comandos de trabalh0»; não se prcocupavam com t0-
mar refeiçóes, deixavam de ir aos quartos dc asscio; c ncnhuma
proposta, nenhuma ameaça era já capaz de arrancá-los da apatía;
nada os intimidava já, nem sequcr os castigos, que suportavam
r651'gnadamentc, embotados e indíferentes, «ínarimbando-se» de
tudo. E o hábito de se deixarem fícar para ali deitados - às vezes
em cima das próprias fezes e urina - signiñcava uma amcaça à
vida, não apenas no aspecto d1'sciplinar, mas também no aspec-
to diretamente vital. Era o que sc vía claramente nos casos em
que a vivência do«interminável» se apossava subítamentc dos
prisioneiros.
Vejamos, a este propósíto, um exemplo. Um dia, um dclcs
contou aos companhciros que tinha tido um sonho esquísi-
(7I) V. E. ankL Mmú 5mrtbfor Meaning. Prrfrlre by Gordan W. Allpom 43 cdiç1'o.
Washington Square Press, Nova York, 1964 187
T
188
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
voz Falavavlhe e pergumava-lhe
sc elc náo desejava Saber
pois lhe poderia profetizar o futur0. E
a reSPOSta
o estaz «O quc eu queria saber é quando
ter1nina¡.á
nda gucrra mundial». Nisto, a voz do sonho
de Março dc 1945». Quando este pr1'sione¡_
ro explicava o seu sonho, estava
Oo mês de Março nos começos_
Na ocasiã0, ainda ele estava Chelo
de esperançUa e bom hum0r_
Todavia, o dia 30 aproximava-sc cada vez maxs, de modo
un
cada vez menos provavel que
. l
o nosso homem f01 camdo cada
toz uma
alguma coísa,
dele tinlm sid
para mim esta segu
retorquíuz «Em 30
a «voz» tivesse razâo. Nos u'lu'-
cra
mos dias do prazo profetlzad0,
vcz mais no desalenta O certo
para a seção dos doentes, com Febre e em estado de
delírio E no dia 30 de Março - para ele tão
importante _, no
dia em que deviam acabar, «para ele», os sofriment05,
perdeu a
consciência. Urn dia dcpois cstava morto. Morrera de
tlfo exan_
é quc no dia 29 de Março 0
transferiram
temática
]a' sabemos como a imunidadc do organismo depende gran_
demente dos estados afetivos e portanto também de Coísas como
a vontade de viver ou o cansaço da vída - em virtude, por exem-
plo, de uma desilusão, de uma frustraçâo de esperanças. Daí o
podcrmos admítir, com razão e com toda a seriedade clínica,
que 0 desengano desse prisioneiro a respeito da falsa profecia
da voz do seu sonho provocou-lhe um súbito decaimento das
Forças defensivas do organismo, fazendo-o sucumbir à ínfecção
1'ncubada. Em consonância com o nosso modo de conceber este
caso, temos uma ínformaçâo de um médico dos campos de con-
centração, que se baseia em observaçóes feitas em grande escala.
Nos termos dessa informação, os prisioneiros do campo em quc
trabalhava o médico cm questâo andavam em gewral com a es-
perança de que, no Natal de 1944, todos estariam em sua casa.
Chegou a noitc dc NataL mas as notícias dos jornais náo eram
nada animadoras para os prisioneiros. Que sucedeu entâo? Na
m ANAIJSE EXISFENCIAL GERAL
semana entre o Natal e o Ano Novo, vcríñcou-sc ncssc campo
dc concentração uma mortandade cm massa como nunca até
Cntào sc tinha visto c quc também se não podcria cxplicar por
dctcrminndas circunstância5: ncm pcla mudança dc condições
atmosfe'ricas, ncm pelo maior gravame das condiçócs dc traba-
1h0, nem pelo aparecímento de docnças infccciosas.
Está claro quc qualqucr tentativa dc psicoterapia num campo
de conccntração só scria possível sc sc oricmassc para 0 Enor dc-
cisivo do apoío cspiritual num objetivo marcado no Futur0. para
a neccssidade de uma vida «sub spccíc Futuri». - sob 0 pomo dc
vista do futuro. Na «prática», não cra assim tão diFícíL muitas
vczes, soerguer o ânimo de um ou outro prisionciro através dcssa
oríentação em ordcm ao fururo. Numa convcrsa Comum com
dois desscs prisioneiros cujo dcsespero sc tinha ido agravando
até os levar à decisáo do suicídío, produziu~sc umzl vcz um m-
sultado desse tipo. Ambos estavam dominados pcla sensaçâo de
que jtí náo tínbam nada a espemr dzz v1'da. O quc cra indicado,
no caso, era levá-los a efetivar aquela víragcm copcmicana dc
que já falamos, declarando quc, ao efetuá-la, a vida não poderia
propriamente scr interrogada sobre 0 scu scntido, antes sc num-
va de responder~lhe às perguntas concrctas, aos problcmas por
ela apresentados; de modo que o que havia quc fazcr era quc clcs
fossem res~p0nsdveis73 perantc ela. E realmmte cm breue sr tornou
patmte que - para além do que ambos os prisioneiros tínham a
esperar da v1da - em a uida deles que tinba mixsáes bem roncrems
a sua espem O certo é quc, conforme se comprovou, um delcs
(72) O grifado não Egura no originaL Fizcnw~lo nós. numa mnlauivn dc COIISCF
var 0 jogo dc palavras implícilo no tcxto alcnúnz pnis cm nltmñn hica mnis nílído
quc a palavra rcsponsabilidade dcriva dc respondcn wmmtworlrt wmde'›l, como
Cscrcvc o Autor, c'. litcmlmcnta scr rcspondida (a vida) mas com rcsponmbilidndu
(C Ver-antworrung signiñca rcspollsabilidadc. ao passo que Antuwrt sígniñca apcnns
rcsposta). Cf. a nossa Nota à pág. 96. (N .T.) 189
Two
PSIC()'l"l-ZRAPIA E SENTIDO DA VIDA
tinha publícado uma série dc
livros dc ge'ograña, mas scm a ha_
vcr termínado; o outro tinha
no cstrangelro uma ñlha que dele
dcpcndia e 0 idolatrava. A um, esperava-o
luma obra; ao outro,
um ser humano. Portamo, ambos estavam
Igualmente segums
ter de algo único», naquela ínsubsrituibilidade que
um sentido incondicionad0, a dcspeito do sofri_
m deles era tão insubstituível para o respectivo
omo o outro para o amor da sua ñlha.
naqucle «cará
logra dar à vida
mento. AHnaL u
trabalho cíentíñco c
O prisioncir0, mesmo quan
cisa de certos cuidados anímicos. Prccisamentc
a llbertaçãm a
desopressáo súbita, zzqzwle dmzfogo da pOressao ammlca, acarre-
por seu tumo ~ no aspecto p51colog1co - um perzgo. O que
aquí ameaça o indivíduo, no plano psicologico, representa, nem
mais ncm menos, o <p«endant» zznímíco da doençzz de CaixsorL Mas
o chegamos já à terceira fase que, dentro deste esboço da
do campo de conccntração, nos tínhamos proposto
do já posto em 11'berdade, pre_
ta,
com ist
psicología
tratar.
Pois bemz pelo quc díz respeito à reaçáo do prisioneiro em
face da libertação, pode-se añrmar, em poucas palavras, o que se
seguc. A princípío, tudo lhe plarece um sonho lind0; nem sequer
sc atreve ainda a acreditar. E claro quc muitos outros sonhos
belos lhe haviam trazido já seus desenganos. Quantas vezes não
sonhara já com a sua libertaçâo! Quanto não sonhara estar vol-
tando ao 1ar, a envolver num abraço a sua esposa, a cumprimen-
tar seus amigos, a sentar-se à mesa para começar a contar as suas
experíências vividas e explicar como se havia ímaginado neste
instante do recncontro, tão esperançosamente sonhado e agora,
por f1'm, feíto realidade! Mas era justamcntc cnquanto sonhava
que lhe soavam aos ouvidos aqueles três apitos esrrídulos, que
o vínham despertar ímpcrativamente de madrugadha, arrancan-
do~o do sonho que lhe pintava enganosamente a 11'berdade, para
zombar dele, tão somente. Enñm, dia Virá em que 0 que se vis-
M ANÁLISE FXISTIÊNCIAL GERAL
1umbra e entrevê em sonhos se tornará verdadcíra rcah'dade. O
certo é quc o prisioneiro líbertado sc cncontra oprcsso por uma
espécie de sentimento de despersonalüaçãa Não conscguc a¡n-
da ,1]-egrar-se com a vida, - tcm que aprcnder Outra vcz a alegrar-
,Se, pois já o desaprendeu. No primeiro dia, añgura-se-lhc a l¡-
berdadc um bclo sonho; mas a certa altura vê que progrediu tan-
to que o passado chega a parecer-lhe apenas sonho ruim. Ncm
ele próprio conseguc compreender como foi capaz dc sobreviver
à prisão. E daí em diante apossa-se dclc a dcliciosa sensação dc
que, depois de tudo o que vivcu e sofrcm nada no mundo tcm a
recear - a não ser o seu Deus. E são muitos os quc, nos campos
de concentração e graças aos campos de Conccntração, voltaram
a crcr nEIe.
191
192
2. O sentido do sofrimento
Ao analisarmos o problema do sentido da vida, distinguimí
em termos muito gcraís três categorias de valores. Falamos de
valores criadorcs, de valorcs vívenciais e de valores de atitude,
Conforme vimos, ao passo que os da primeira categoria se real¡_
zam mediante um fazer, os valores vivenciais já se realizam no eu
medíante uma passiva acolhida dada pelo eu ao mundo (natu-
reza, arte). Em compensação - e como tivemos também ocasião
de advertír - os valores de atitude só se realizam quando algo
de inelutáveL qualquer coisa de fatal se tcm que aceitar precisa-
meme tal qual é. No modo como cada um assume estas coisas
veriñca-se uma séríe incalculável de possibilidades de valor. Mas
isto signiñca quc a vída humana pode atingir a sua plen1°tudc,
não apcna5' no criar e gozar, senâo também no sofrimentaEstas consideraçóes, é claro que não se cingem a uma trivial
ética do êxito. É suñciente reHetirmos um pouco sobre o quc
há de primordial no nosso juízo cotídiano acerca do valor e da
dignidade da existência humana, para logo se nos dcparar aquela
proñmdidade dc vivência em que as Coisas, para além do êxito
ou do malogro, independentemente de tudo quanto seja efeito,
conscrvam a sua validade. Este reino das plenitudes interiorcs
a despeito dos malogros cxternos só se nos torna acessívcl atra-
N ANÁLISE hM"'s.“l'l'-N(Íl/\l. (§l'^.RAI.
vés daqucla visão quc a artc tcnde a proporcx'onar-nos. Basta
lcmbrar certos rclatos do gênero da história da «Mortc dc Ivan
11¡Ch», de TolstoL
Pinta-se aí a existência burguesa dc um homcm quc só des~
cortína a sua radical falta de sentido quando está à bcira da mor-
[c. Mas eís que, ao penetrar nesta falta de scntido, cssc homcm,
nas últimas horas da vida, aínda conscguc supcrar~sc a si mcsmo,
atingindo uma grandeza interior que, retrospcctivamcntc. con-
fere a toda a vida passada - não obstantc a sua aparemc inutilí-
dade - uma plenitudc de sentido. É quc a vida podc adquirir o
Scu último sentido, náo apcnas - como no caso do herói - atra-
vés da mortc, mas também na própría mortc. Portanto, não é
que só o sacrífício da própría vida possa dar scntido à vida; 0 que
ocorre é que a vída até no malogro se pode consumar.
Faltzz de êxito nâo signzfm frzlta de Jenrida Isto torna-se cvi-
dent-c, por exemplo, quando se considcra o próprío passado no
que concerne à vida amorosa. Se alguém honcstamcmc se in-
tcrroga sobre se estaria dísposto a passar sem as vivências amo-
rosas malsucedídas, a saber que estavam riscadas na sua vída as
vivências desvcnturadas e dolorosas, - decerto diria que não; a
plenitudc da dor não foí uma não plcnitudc dc rcnlizaç.1^'o. Antes
pelo contrário, foí na dor quc amadurcccm foí ncla quc crcsccm
a dor dcu-lhe muito mais do quc podcriam ter-lhc dado êxitos
amorosos sem conta.
Em geraL o homem pende a exagerar respectivamente o lado
positívo ou negativo do tom de prazer ou desprazer d:15 suas vi-
vências. A importância que atribui a estes aspcctos torna-o scm
razão queixumeiro contra o destino. Já dissemos os vários senti-
dos cm que o homcm «não está no mundo para se divertír». já
vimos também que 0 prazer de modo algum é suscctível dc dar
à vicla do homem um sentido. Pois bemz sc o prazcr não é capaz
de dar sentido à vida humana, também a ausência dc prazer não 193
194
PSICUTERAPIA E SENTIDO DAVíA
é capaz de lho tíran E mais uma vez veriñcamos que a erte nos
indica com que justeza a vivência simples, sem preconceítos e
dírcta, vê a realídade das coisas. Basta pensar, por exemplo, em
como é indifercnte, quanto ao conteúdo artístíco, o problema
dc sabcr sc uma melodia está composta em tom maíor ou mc_
n0r. Náo sào só as sinfonías incompletas que - conformc apon_
tamos noutra ocasião - se contam entre as peças musicais mais
valiosas; são também as «patéticas».
Dissemos que o homem realíza, criando, os valores criado-
res; cxpcrimcntando vívências, os valores vivencíais; e, sofren-
do, os vdorcs de atitudc. Sucede, aléml disso, que o sofrimento
tcm um scntido 1'manente. a língua que, paradoxalmente, nos
leva a descobrir me sentídoz sc sofremos por causa de alguma
coisa, é precisamcme porque não «a podcmos sofrer», isto é,
porque não queremos permitir-lhe que vígore. A discussão com
os dados fatais do destíno é a missão ultima e rumo gcnuíno do
sofrimenta Se uma coisa nos faz sofren é porque interiormente
lhe voltamos as costas; é porque criamos distâncía entre a nossa
pessoa e essa coisa. Se ainda sofremos perante um estado de coi-
sas quc não deveria ser assim, é precísamente porque ainda esta-
mos na tensão entre o ser fático, por um lado, e o que as coisas
dcvcríam ser, por outro lado. Isto vale, como já vimos, para o
homem que desespera de si mesmoz um homem assim deixa de
ter quzzlquer mzzía pzmz o dexespero precisrzmente pclo fato de estar
desespemd0, pois tal desespero signiñca, já de si, que ele avalia
a própria rcalídade em função duma idealídade, que lhe serve
para a valorar; o fato de essc homem, em gcraL se apercebcr dos
valores (quc permaneceram irrealizados), ímplica já um ccrto
valor da sua vida. É claro que não poderia arvorar-sc em juiz de
sí mcsmo, se de antemão não possuísse 0 poder e a dignidade
de juiz - como homem que sc dzí conta do que deveria ser, em
confronto com o que é simplesmente (obs. 20). O sfroÉtho
M ANÁLISEID(1$I'ENC[A1.GlíRAL
rrid uo Íyomem, por consegu1'nte, uma Icnsão Fccunda - cstamos
em dizer mesmo uma temáo rcuolutiomíria ~, Fazcndcrlhc scn-
¡¡r, como tal, 0 que não dcrve scr. Na mcdida cm quc, dígamos
assinL se identiñca com o que lhc é dado, o homcm climina a
distância quc cxiste entrc clc c o dado c cxclui afeczmda tcnsáo
emre o xer e o dezler-ser.
É, assim, evídente, que há nas emoçóes do homem uma pro-
funda sabcdoria, antcrior a qualquer racionalidade, c quc chc-
ga a contradizer o que se podcria considcrar racionalmcntc útiL
Consíderemos, por exemplo, os afctos doloridos do luto c do
arrcpendimento: do ponto de vista utilitarísm, dccerto que am-
bos parecem sem sentid0. Com cfeíto, chorar o que sc perdeu
irremediavelmente parcce ao «são scnso comum» coisa tâo ínútil
c carente de sentido como o arrcpender~se duma culpa indeléveL
E, no entanto, tanto o luto como o arrcpcndimcntn tém 0 seu
scntÍdO na história interior do homem. O luto por um ÍJammm
qur amamos e perdemm fzí-lo de rzgzlmz modo sobrezliuen e o arre-
pendimento da mlpado, é como xe o fzme rmusciran Íibertado da
sua cupltL O ubjeto do nosso amor ou da nossa enlutada tristeza
perdeu-se objet1'vamente, no tcmpo empíríco, mas fícou a salvo
subjetl'vamentc. no tempo interiorz a mágoa do luto mantém-
-no presente. E o arrependiment0, conforme Scheler salientou,
pode apagar uma culpaz nâo, cvídentcmente, no scntido dc que
ela deixe de ser imputada ao respcctivo sujeito; mas sim no scn-
tido em que este. por assim dízcr, se socrguc, ao renascer moral-
n1e11t<3.Tal possibilidade de convertcr o já acontecido em algo de
fecundo para a história intcrior do homem nem dc longe cstá em
contradiçâo com a sua rcsponsabilidade, mas antcs numa rclação
dialética. Com efeit0, o tornar-sc culpávcl prcssupóe responsa-
bi11'dadc. E esta, por sua vez, mede-se consíderando o fato de o
homem não poder derrogar ncnhum dos passos que dcu na vída;
todas as decisóes que tomou, da menor à maior, permanccem 195
196
PSKÍOÍ ERAPIA Ií SENHDO DA \'Il)A
dcñnirivamcnto Nada do quc o homem faz ou deíxa de fazer
se pode cancclar. Só pnra um obscrvador superñcial é quc isto
csrá cm contradíçào com o Elto de que, não obstante, o homem
podc, no ato dc sc arrepcndcn afastar--sc interiormcntc dc uma
ação e. ao cfetivar csse ato - num acontecer ínterior, portanto _,
fazer com que dc algum modo, no plano moraL passe a scr nào
acontccído o que externamcme acontcceu.
Como é sabido, Schopenhauer pcnsava e deplorava que a
vida humana cra um contínuo vaivém entre nccessidade e té-
dio. Mas, añnaL tanto a neccssidade Como 0 tédio tém o seu
scntido profunda O tédio é um constante lembrete. O que é
que Conduz ao tédi0? A ociosidadc. Nâo sepeme, contud0, que o
agir se destinm digamos, a lizzrar-n05 do téditx é este, pelo co71tm"rz'o,
que zzprzrcce pam fzgírmox da inatiuídade e compreendermw bem
o xentido da nomz UÍdtL A luta pela vida conscrva-nos em «ten-
são» porque o sentido da vida prcnde-se intímamente com a
nccessidade dc cumprir as suas missóes; esta «tensão» é portanto
csscncíalmcnte díferentc daqucla quc buscam os neuróticos no
scnsacionalismo ou os histérícos na excitaçãa
O sentído da «necessidade» cstá igualmente em ser um lem~
breta Mesmo no plano biológico, a dor rcpresenta o papel de
um guardíão c monitor pleno de sentíd0. Pois bcmz na esfcra
anímico~espirítual, tem uma função anal'oga. O que o sofrimen-
to faz é salvar o homem da aparía, da rigidez mortal da alma.
Enqumto sofremos, continuamos a viver da alma. É claro que
no sofrimento amadurecemos e crescemos:o sofrimento torna-
-nos mais ricos e poderosos. O arrepcndimento, conforme vi-
mos, tem o sentido e a força de fazer com quc um acontecimen-
to externo se converta cm algo não acontcçidm quanto à história
ínteríor (n0 sentido moral); e a tristeza do luto tem o sentido e a
foãrça dc fazcr Com que continue a existir dc algum modo aquilo
que já passou. Quer dizer: ambos, de alguma maneira, Corri-
.\› /,\NÁI ISE l~lX|\."I'lÍ-N(Jll\l. GERAI
gem 0 passado. O ccrto é quc, ao contrárío da simplcs dívcrsáo
ou do narcotísmo, resolvcm um problcma. 0 lmmem quc para
esqueccr uma ínfelicidadc sc divcrtc ou tmm mmtrxiarw pela
mzrmtizzzçáo não rcsolve ncnhum problcma, nâo ambzz mm mmz
¡';fzr/ia'zíade; amba, xim, r simplcsmmug mm mnrz mmrquênrid da
i;fze/iridade: 0 mcro estado aFctivo do deypmzmz Quando apcnas
se diverte ou narcot1'za. o homem «náo quer sabcr dc nada». rlbn-
ta fhgir à realidade. Vai-se rcfugian por cxcmplo, na embriaguez.
E com isso comete um crro '.subjctivísta c até psicologistaz o crro
de supor que, silcnciando-se. pcla narcotizaçáo. o ato cmocio-
naL também se acaba com o objeto da cmoção; como sc o quc sc
desterra para a inconsciência já Hcassc também dcstcrrado para o
domínío da írreahdadc. Mas 0 ato dc olhar para um objeto não
o produz, nem o ato de apartar dcle os olhos o dcsfaz; assim,
rambém a repressáo duma emoção dc tristcza nâo anula o cstado
de Coisas quc se lamentaL E, rcalmente, a sensibilidadc sadía dc
um homem que chora costuma rcbclar~se, por cxemplo, contra
a idcia dc tomar hipnóticos. «para não passar noitcs intciras a
chorar»; quem fíca enlutado scmprc se opóc à banal prescrição
dc hipnóticos, poís não é por sc dormir melhor que sc rcssusci-
ta o morto táo chorado. Quer dizerz a morte - csse paradígma
do acontecer irrevcrsível - dc modo algum se podc Converter
em algo nâo acontccido só por sc expulsar pam o domínio da
inconsciêncía; mas nâo é menos certa esta afirmação no caso de
quem chora um morto qucrido sc refhgíar na absoluta incons-
ciência ~ na ignorância da própria mortdí
A sensibilidade que 0 homem tem para 0 sentido do cmo-
(73) A cn1bríagucz. cm comparmgão com n nzlrculizmp0. é quulqucr coisn dc posiu'vo.
A cssCulcia da cmbriagucz é 0 alhcnmcmo do mundn objclivo do scn com quc o humcm
>c voha para uma vivôncm usituacional», pam uma vida num mundo dc .1parénci;¡5.
Em contrapardda. a narcotiLaçin apcn;1.s lcva à inconsciência dd 1'níblicíd.1dc, n umn
«lklicidadc» no scntido ncgntivo que ll1c Llá Schupcnhaucn a um camdo dc Nirvauax 197
í
p51CO'l'ERAPIA E SENTIDO DA va
cional acha-se ncle profundamente
arreigada. E chquochASPC.0de
entrcvcr numa série dc clementos
que passamos f21 pd . _51m,
, melancolias que, em vez de aprcselntarem o a etoi a trlsteza
ha lano sintomatológlco (como habltualmente
ocorre), fazcm comp que 05 Pademcs Se _queixdem
PredCisambefnte
de não conseguirem entristecer-se, de
nao Dpo erem c.sa a ar-
de se sentircm numa frlcza dc sentlmentos
ortosz trata-se dos casos da chamada melan-
bem sabe que diñcilmente
no seu primelro
-5c pelas lágrimm
e interiormente m
Quem os conhece,
scspcro tâo grande como o destes homens
colia aneste'sz'ca.
se encontra um de
7
que
princípio do prazer é mera construçâo, umj iartefato
psal1c"odlódgic0,
mas não um cstado de coisas fenomenologlco;
na re 1 a e, Ie
pela sua emocional «logique du cocur», sfemprel
o homem esta
cmpenhado numa certa atívação de emloçioes, mstes
o.u alegrñes,
mas para, em todo o caso, se manter anlmlcamente
«at1vo», nao
decaindo na apatia. Mas o pamdoxo de que quem siofre de melan-
colia «aneste'sz'm» safreprecísamentepela sua íncízpaâzdade de s,0.f;*er
é apenas um paradoxo psicopatológico; no aüalmbltlo da .anahse
existenciaL já não subsis'te. Com efeito, a anlse ex1stenc1al d.e-
monstra que o sofrimento tem um sentido, prova que o sofr1-
por não poderem ñcar tristes. Estamos em
mento faz parte do pleno sentido da vida. O sofrimento, como
a necessidade, o destíno e a morte, faz parte da vida. Nenhum
destes elemcntos se pode separar da vida sem se lhe destruír o
sentido. Privar a vida da necessidade e da morte, do destinq e do
sofrímento, seria como tirar-lhe a conñguraçáo, a forma. E que
a uida sá adquíreforma efgum com as marteladas que 0 destíno
lhe dá quando o sofrimento a põe ao rubm
O sentido do destino que um bomem sofe resíde portanto, em
primeiro Zugar, em ser pelo bomem confgumdo - se possível; e, em
segundo lugan em ser suportado ~ se necemíría Por outro lad0›
m ANÁLISE EXISTENCIAL GERAL
também nâo podemos esquccer que o homem tem que cstar
prevenido para não sc rcndcr ccdo demais; para nâo tomar por
fataL Cedo demais, um determinado cstado de coisas; para não
se resignar com um destino que seja puro produto da imagína-
çáo. Só quando o homem já nâo tem nenhuma possibilidade dc
realizar valores criadores; só quando ele nâo está já rcalmentc
em condiçôcs de conñgurar o destino - só cntão podc rcalizar os
valores dc atitude; só nessa altura tem algum sentido «carrcgar
a sua cruz». A essência de um valor dc atitude residc precisa-
mente no modo como um homem se submctc ao irrcmediáveh
quer dizer: o pressuposto da verdadeira realizaçâo dos valores
de atitude consiste em se tratar rcalmente de qualquer coisa de
irremediável; em se tratar daquilo que Brod denomina «nobre
infortúnio» e que se contrapóe ao infortúnio «não nobre» - náo
devido propriamcntc a uma fatalidade do destino, e que se po-
dia ter evitado ou, uma vez veriñcado, se comprova dcvcr-se a
culpa do homem (obs. 21).
Seja como for, nâo há nenhuma situaçâo que nâo nos ofereça
a oportunidade de realizar valores - quer no sentido de valores
criadores, quer no de valores de at1'tudc. «Nào há nenhuma si-
tuação que se não possa enobrecer, o que qucr que seja realizan-
do ou suportando» (Goethe). Alia's, se se prefere, bem se pode
dizer que até no suportar há já, de algum modo, uma «realiza-
ça'o»; uma vez pressuposto, é claro, que se trate de um autêntico
suportar, isto é, de suportar um dcstino impossível de alterar
pelo agir ou inevitável pela omissão. Só num «autêntico» supor-
tar como este temos uma realizaça'o, só este sofrimento de todo
cm todo inevitável é sofrimento pleno de semido.
Tal caráter de realizaçâo que o sofrimento possui não é estra-
nho à sensibilidade simples do homem da rua. E, com cfcito,
qualquer um compreende, por exemplo, o episódio que passo a
descrever. Quando, faz uns anos, quiscram premiar as mais altas 199
00
PSICOTERAPIA Ii SENTIDO DA\'llrí
rcalízaçóes dos cscoteiros inglcses, os condecorados foram três
rapazcs que, em consequência de docnças incuráveis, estavam
1'ntcrnados num hospital e que, apesar disso, mostrando valemia
e coragcm, tinham suportado ñrmcmcnte o sofrimenta Assim,
o seu sofrimemo foi rcconhccido como «realizaçâo» mais alta do
quc a rcalízaçâo, no mais estrito sentido da palavra, de muitos
outros escoteiros.
«A vida não é alguma coisa, mas sim, e semprc, mera ocasíão
para alguma coísa». Para conñrmarmos esta sentença de HebbeL
basta Considerarmos a seguintc alternatíva de possibilidadesz ou
se pode Conñgurar, no sentido de uma realização Criadora de
valorcs, 0 destino fatal (portanto, o que é originariamentc e cm
si imutávcl): 0u, sendo isso realmente ímpossíveL e no sentido
dos valores de an'tude, adota-se perante o destino um compor_
tamcnto tal que, num autêntico sofrimento, ainda haja uma re-
alizaçâo humana. Ora bcmz tem todo o ar de uma tautologia
o dizermos que as doenças oferecem ao homem a «ocasião» de
«padcccr». No entanto, se usamos as palavras «ocasião» e «sofrer»
no sentido acima apontado. já a frase nos não parecerá assim tão
ev1'dente. E náo o é, solbretudo porque há que fazer uma distin-
ção fundamental entre as doenças - incluindo as mentais ~ e 0
sofrimenta Assím. por um lado, 0 homem pode estar doente
scm «sofrer» no sentido verdadeíro e próprio da palavra; por
outro lad0, há um sofrimento que está para além de todo o ser-
-doente: o sofrímcnto pura c simplesmente humano, aquelc que
sc insere na essência e sentidoda própria vida humana. Nestes
termos, pode-se dar o caso de a zzmílise exixtencíal ter que tornar
o homcm mpaz de sofen ao passo que apsimnálísa por cxemplo,
apenas pretendc torná-lo mpaz de gozar ou reàlízan Quer dízen
há sítuaçóes em que o homcm se podc realizar plenamentc a si
mcsmo no puro sofrimento e só no puro sofrimenta A «0casião
para alguma coisa», que é o que a vida signiñca, também se pode
VM ANÁI lSli l-.'XIH."I'1:'I\'(ÍIA1 (ilílU\l
Pcrder no caso dc havcr ocasião para um pum sofrimcnto c, por
consch11'ntc, no caso dc uma possibilidadc dc rcalizar valorcs dc
atítude. De modo que, aqui clmgados, já podcmos comprccndcr
Por que razâo dízía Dostoícvski quc só uma coí.sa tinha quc tc-
mcrz o não scr dígno das suas pcnas. E c'-nos dado avalíar tam~
bém a grandeza da realízaçâo quc há no sofrimcmo dos docnrcs
quc pareccm lutar por scrcm dígnos das suas grandcs pcnas.
Vejamos outro caso. Havin um homcm extraOrdinariamcnte
dotado, espiritualmcntc Fal:mdo, quc, nn suu juvcntudc, fora ar-
rancado de repente da sua ativa vida proñssional logo quc sc lhc
notaram sintomas de paralísía nas pernas. Era ísto conscquência
dc um Corte transversal da medula espínal (motivado por uma
tuberculosc da coluna vertcbral). quc se dcscnvolvera bastantc
rapidamentc. Avcntou-sc a possibilidadc dc uma lamincctomía.
Um dos maís renomados cntre os novos cirurgiócs da Europa,
consultado pelos amigos do pacientc, mosrrou-sc pcssímista do
ponto dc vísta do prognóstico, C rccusou-sc a opcrar. Um dclcs
escreveu uma carta a uma amiga do docnte, cm cuja faãzenda
Cstc se achava, informando-a do ocorrid0. A empregadm scm
a mcnor ideia do que fazia, cntrcgou a carta à dona da casa no
momento em que esta tomava o café da manhã com o hóspede
docnte. O que então aconteceu é o próprio pacicntc qucm o des-
crcve a um amigo seu, numa carta ondc respigamos as passagens
seguintes: «A Eva não pôdc evítar quc eu lessc a carta. Dc modo
que tomei conhecimento da minha scntcnça dc Inorte, contida
nas explanaçóes do professon Meu Caro, sabcs o quc ísto mc
faz lembrar? Aqucle Hlmc do “'l"itanic”, quc ví há tantos .1-nos.
Lcmbro-me especialmcnte da cena em quc o paralítico alciia-
do, represcntado por Fritz Kormcr, rczando o Pai-Nosso, opóc à
morte uma pequena comunídadc de destino, enquanto o nuvio
vai ao fundo e a água lhes sobe peIo corpo acima. Saí do cíncma
impressionado. Julgava que era um prcsente do destíno ir assim 201
KxJ lv
PSKÍOTEILÀPIA E ILNHDOl)/\ VIDA
conscientc ao encomro da morrcx Pois olhaz agora, foi~me dado_
a mim'. essc prcscnte. Chcgou o momento de pôr à prova 0 com-
batenrc quc há dcntro dc mim. Contud0, o quc desdc já cstá em
causa não é uma vitóría, mas sim uma últíma tensáo das forças
como taís, uma espécic de dcrradciro excrcício de gínástica... O
quc cu queria era suportar as dores sem os narcóticos, enquanto
puder... “Combate em posição perdída?” Nã0, isso, nem falar'. O
que importa, é lutar... Não pode haver quaisquer posíçóes perdL
das... noite, ouvímos a “quar'ta” de Bruckner, a romântica. Era
como sc tivessc cá por dcntro de mím todo um mundo espaçoso
a deslizar em torrcntes reparadoras. De rcsto, trabalho todos os
dias na Matemática, e nem dc longe me sinto sentimental».
Outras vezcs, podc uma doença e a proxímidade da morte
fazer brotar do fundo de um homem as últimas reservas, depois
de ter passado a vida numa «frivolidade metafísica» (Scheler),
sem prestar atençáo às suas próprias possibilidades. Havia uma
mulher, muito nova, quc tinha sido sempre mimada pela vida.
Um dia, inop1'nadamente, foi transferida para um campo de
concentraçã0. Aí, adoeceu e, dc dia para dia, dcñnhasz Mas, cis
o quc dissc poucos dias antes de morrer: «Para falar a verdadc,
estou muito agradecida ao destino por me ter tratado tâo dura-
mente. Na minha vida anteríor, burguesa, não há dúvida que,
a bem dizer, fui muito relaxada. Quanto às minhas ambiçócs
artísticas, não havia nada de sérío nisso». E, vendo a morte quc
se aproximava, cncarou-a de frcntc Do lugar da enfermaria em
quc cla jazia podia-se ver, pela janela, um castanhciro em Hor;
e, se nos debruçávamos sobre a cabeça da doentc, divisávamos
precisamente um ramo com duas résteas de Hores. «Esta árvore
é o meu único amigo na soledadc cm que est0u›.›, dí2ia. «Ê Com
ela que eu converso». Estaria com alucinações, estaria a delirar?
Porque, de fato, acredítava quc a árvore lhe «respondía». No en-
tanto, faltavam todos os sinais do estado de dclírío. Que espécic
¡\1¡\NÁLISltI'.'.\'|.S'l'!~.'NCIAl GlARAl
de estranho «diálog0» era nquclcP O quc é quc a árvorc cm Hor
«dizia» à moribunda? «0 que mc dissc foi istoz cu cstou aqui,
cstou ao teu lado, cu sou a vida, n vida ctcrna».
Viktor von Wciuíicker añrmou ccrta vez quc 0 docntc. cn-
quanro sofrcdon cstá dc algum modo .-1cima do médico qua o
rratzL E era isso exatamentc o quc nos vinha à mcntc c à cons-
ciéncía quando nos afastávamos daqucla docmc Um mádico
quc tenha a suñcíentc Hnura dc scnsíbilídadc para os impondc-
rávcis duma situaçâo scmprc rcra', diantc dc um doentc incurá-
vcl ou de um moribundo, a scnsação de não sc podcr aproximar
dele sem uma certa vergonha. É quc, re.1lmcnte, quando assim
sucede, o médico Hca impotenrc e incapaz dc arrancar a vítima
à mortc; aliás, enquanto 0 pacientc surge como um homem quc
cnfrenta com Hrmcza 0 seu dcstino e, ao assumHo num scrcno
sofrimento, Ieva a cab0, no plano mctafísico, uma auténtica rca-
lização, o médíco, no mundo físico, na csfbra das rcalizaçóes
médícas, não faz mais do quc falhan
203
204
3. O sentido do trabalho
Conforme já dissemos, não se trata de perguntar pelo sentido
da vida, mas sim de respondcr-lhe, dando à vida uma resposta.
Daí que a resposta a dar cm cada caso nâo sc possa dar efctiva-
mcnte com paJavras, mas antes com açõcs, através de um agir
(obs. 22). Além disso, essa rcsposta tem quc Corresponder a toda
a concretude da situação e da pessoa, assumindo-a em si,poí
assim dizcr. A rCSpOSta correta vem a ser, portanto, uma resposta
ativa e uma resposta na concretude do dia a dia, enquanto espa-
ço concreto do humano ser-responsável.
Dentro deste espaço, não pode 0 homem ser por outrem
substituído ou representado. Já deñnimos a importância quc
tem para o homem a consciência do seu «caráter de algo úni-
c0» e da sua irrcpetib1'lidade. Vimos também por que razõcs a
anal'ise da existência visa tomar o homem conscientc do seu ser-
-responsa'vcl, c como, a par e passo, a consciência da responsa-
bílidade se desenvolve, sobretudo ao basear-sc na consciêncía
de uma tarcfa concrcta e pessoaL isto é, de uma «missã0»: Se
não penetra no sentido único do seu ser singular, Q homem nâo
pode deixar de se sentir paralisado nas sítuaçóes difíceis. Por
força lhe sucederá como ao alpinista que, encontrando-se com
uma nuvem densa, deixa de ter a mcta diante dos olhos e, dessa
M ANÁLISE EMSTIZNCIAL (:ERAL
mancíra, se expõe ao perigo de perdcr a vida pclo cansaço. Bas-
ta, porém, que se desanuvie 0 horizonte, para que, lobrigando
go longe o refúgio salvador, logo se sinta revigorado c chcio de
cnergias.
Qualquer alpinista conhece perfeitamcnte essa vivência do
abatímento que lhe enerva as Forças quando «da' com uma pa-
rede» e Hca sem saber se estará ou nâo numa rota falsa. ou sc
terá ído parar à borda de um despenhadeiro; até quc, de súbito,
divisa a «chaminé» c cnta'o, sabendo que pouca corda o separa
já do cume, sente novas forças a rcvigorar-1he os braços frouxos
e enfraquecídos.
Enquanto os valores críadores ou a sua rcalizaçâo ocupam o
primeiro plano da missão da vida, a esfcra da sua consumaçâo
concrcta costuma coincidir com o trabalho proñssionalm Em par-
ticular, o trabalho pode representar o campo em quc o «cara'ter
de algo u'nico» do indivíduo se relaciona com a comunidade, re-
cebendo assim o seu sentido c o seu valor. Contudo, este sentido
e este valor são inerentes, em cada caso, à realização (à realização
com que se contríbui para a comunidadc) e não à proñssão con-
creta como ta1. Nâo é, por consegu1'ntc, um determinado tipo
de profíssâo o queoferece ao homem a possibilidade de atingir
a plen1'tude. Neste sentido, pode-se dizer que nenhuma proñs-
são faz o homem feliz. E se há muitos, principalmente entre
os neurótícos, que afirmam que sc teriam realizado plenamente
Caso tivessem escolhido outra proñssâo, 0 que se encerra nessa
añrmação é uma dcturpação do sentido do trabalho proñssional
ou a atitude de quem se engana a si mesmo. Nos casos cm que a
profissão concreta nâo traz consigo nenhuma sensação de plena
satisfação, a culpa é do homem que a cxerce, nâo da proñssãa
A proñssâo, em si, nâo é ainda suñcíente para tornar 0 homem
insubstituível; o que a proñssão faz é simplesmcnte clar-lhe a
oportunidade para vir a sê-lo. 205
206
I'\'l(.'()'l'[-Zlb\PlA li SENTIDO DA\'1I),\l
Dissc-nos uma vez uma pacientc que, como considcrava sem
scntido a sua vida, nâo tinha o mcnor interesse cm ñcar curadajv
mas, como tudo scria difcrcnte e belo sc ela tivesse uma proñs-
sâo quc a .s'atisfízcsse!; se, por cxcmplo, fosse médica, ou enfer-
meira, ou química, para poder fazer descobertas cicmíñcas. O
¡ndicado, no caso, era fazer ver à doente que o que importa não
é, de modo algum, a profíssâo cm quc algo sc cria, mas antes
o modo como se cria; que não depende da profissão concreta
como taL mas sim de nós, o fazermos valer no trabalho aquilo
quc em nós há de pcssoal e especíñco, Conferindo à nossa exis-
tência o seu «caráter de algo único», fazendo-a adquirir, assim,
pleno sentido.
Efetivamcnte, o que é que se passa, por exemplo, com o mé-
dico.> O que é que confere um sentido ao seu agir? Será porven-
tura o fato de se comportar de acordo com as regras da arte? O
fato de, num determinado caso, dar ao doente esta ou aquela
injeção ou receitar-lhc um medicamento? Nâo; a arte médica
não consiste apenas em conduzir-se em conformidadc com as
regras da arte. A proñssâo médica dá à pcrsonalídadc médi-
ca, pura e simplesmentd o quadro de contínuas oportunida-
des para esta se realizar plenamente através do cunho pessoal
quc imprimir à respectiva obra profissionaL O que 0 médico
faz no seu trabalho - mas sem dúvida transccnde o que neste
há dc puramentc médico -, o que nele há, cnñm, dc pessoaL
de humano, - eis 0 quc forma o sentido desse trabalho e nelc
toma o homem insubstituíveL De fato, tanto faz que seja ele
como qualqucr outro dos seus colegas a aplicar, «lege artis», in-
jeçóes, etc., - se e enquanto não Hzer mais do que proceder «ern
conformidade com as regras da artc». Só a partif do momcmo
em que se move para além das frontciras dos prcceitos pura-
mente proñssionais, para além do que está «rcgulado» pcla pr0-
ñssão, - só a partir desse momento é que o médico começa um
ímANÁLISE L-'x1s.T1-:N(:IA1. (;-L'RAL
trabalho verdadeiramentc pcssoal, quc só clc podc lcvar a cabo
plcn.1n1cnte. E o quc é quc sc passa com o trabalho das cnfcr-
meiras, que a nossa pacíentc tzmto invejava? O quc fazcm as
cnfermeíras é ferver seringas, despejar urinóis, ajudar os docn-
tcs a deitar-se, tudo trabalhos certamcme útcis, mas quc dc pcr
si muito diñcílmente podcriam satisfazcr o homem; contud0,
quando uma cnfermeírm para além das suas obrigaçóes mais ou
menos regulamentares, faz adgo de pcssoal; quando, por excm-
plo, acha uma palavra para dizer a um doentc gravc, - cntão,
sim, conseguirá encontrar no trabalho profissional uma opor-
tunidade para dar sentido à sua vida. Só quc esta oportun1'dadc,
qualquer proñssão a da', desdc que 0 trabalho rcspectivo scja re~
tamente comprecndid0. Quer dizer: aqucle cnráter ínsubstituí-
vel da vída humana, aquela impossíbilidade de o homcm ser
rcpresentado por outrem no quc só clc pode c devc fazcn o scu
«caráter de algo único» e írrepetích a que nos tcmos rcfcrido,
scmprc depende do homemz não do que ele faz, mas de quem
o faz e do modo como 0 fa7.. Além do mais, o que era preciso
fazer vcr àquela doente que julgava de todo em todo impossível
satísfazer-se na sua proñssão era que ela podcria fazcr valcr 0
«caráter de algo único» e a irrcpctibilidade - como Fatorcs quc
dáo sentído à existência - para além da sua vida proñssionaL na
sua vida privadaz como amante e amada, como csposa c mãc,
poís nisto está toda uma séríe de encargos vitais cm que uma
mulher é ínsubstituívcl para 0 marido c os ñlhos, nínguém a
podcndo propriamcntc representan
A relação natural do homem com o seu trabalho proñssionaL
considerado corno campo de possívcl rcalizaçâo criadora de va-
lores e da realização única e plena dc si mesmo, sofrc muítas
vczcs um desvio em virtude das circunstância5' domínantcs do
trabalho. Penso sobretudo nos homens que se queíxam dc traba-
lharem oíto ou maís horas por dia para um emprcsário. para os N
208
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
s mesmos movimentes, acio-
cle, fazcndo em série o
c a mesma alavanca dum
O C Oportuno quanto nllals
A l ,
dizado. Evidentemente quc,
em tais c.1¡'cunstanc1as, so Se Pode
conceber o trabadho Como
símples melo ipalra um ñmf o ñmIde
oanhar a vida, de ganhar os meios
neccssarIOS para v1ver a nvlda
pDropriamentc dita. Esta, no
caso, só começa com o tempo 11vre,
c o seu sentido está no modo lívre
c pessoal como o trabalhador
scm nos ser lícito esquecer que há homcns
a
em Chegando a casa mortos
interesses d
nando sempr
tanto mais exat
a máquina - num trabalho
impessoal e estandar-
0 conñgura. Isto,
quem o trabalho fatiga tanto que,
de cansaço, atiram-se para a
cama,
inicíar o que quer que seja; o único
modo de conñgurarem 0
Sistc em tomarem-no como tempo de rcpousoz a
s resta fazer entã0, e a mais rac1'onal, é porem-
à to'a, sem já se atrcverem a
tempo livrc con
única coisa que lhe
-se a dormir.
Mas o próprio empresário, o empregador, também não está
sempre «livre» no seu tempo lívre; também nem sempre está
dispensado de sofrer os mencionados desvios das relações na-
turais de trabalho. Quem nâo conhece esse típo de homem que
anda sempre a acumular dínheiro e que, para além do lucro,
para além do dínheíro como meio de vivcr a vida, sc esquece de
enxergar a vida em si? Nesses casos, o que não passa de um meío
de vída passou a constituir um Hm cm si. Um homem assim
tcm muíto dínheiro e o xeu dínlaeíro tem aínda um qoam quê»; a
mrz vz'da. p0rém, deíxou de 0 ten A ganâncía que o possui sufoca-
-lhe a vída verdadeira; ao lado do lucro, um homem destes não
conhece nada, nem a arte, nem sequer o desporto; e no jogo,
quando muito, o que conhece é a tensâo, bem co“mo a possível
relação que o jogo tem com o dinheiro: nos cassinos, onde 0
que sc joga é ainda o dinheiro que «está em jogo», e onde o jogo
representa o último ñm.
ímANÁLISE l-.'.\'lS'l'L'-NCIAL GERAL
A NEUROSE Dli DESEMPREGO
O sígníñcado existcncíal da proñssâo torna~sc Claramcmc
visívcl quando desaparece totalmcntc o trabalho profíssionaL
isto é. no Caso do descmprego. As ohservaçóa fcítas sobrc os
descmpregados levaram-nos a Formar 0 conccito da ncurosc de
dcsemp1'cgo"'^'. O que é digno dc nota é que o que aparccc no
primeiro plano sintonmtológico não é, digamos, a dcpressão,
mas sim a apatia. Os dcscmpregados rornam-se paulatínamcnte
desinteressados e a sua iniciativa vai dccaindo cada vez mais. É
uma apatia não isenta de perigo. Assím, torna-os íncapazcs dc
apertar a mâo que lhes csrcndcm, tcntando ajudá-los a sair dn
situaçâo em que sc meteranL O dcscmprcgado cxpcrimcnta a
vivência da dcsocupação da sua época como uma desocupação
interior, um vazio da sua consc1'ência. Scnte«se ínútil por estar
desocupado. Por não ter nenhum trabalho, pcnsa quc náo tcm
nenhum sentido a sua vida. Assím como ha', no campo biológí-
c0, as chamadas hipertroñas de vacânciag assim também sc vc-
riñcam, no campo psicológico, fcnômcnos análogos. O desem-
prego vem a ser, dcsta forma, terreno abonado para proccssos
neuróticos. O vazio espiritual Conduz a uma nemwe dominiazl
«em permanêncz'a».
Mas a apatia, como sintoma dominantc da ncurosc dc dc-
semprcg0, não é apcnas cxprcssão da frustração Lmímicm é
também, como, na nossa opinião, o é todo síntoma ncurótico,
sequela dc um estado físico e, neste caso concreto do dcscm-
prego, sequclada subalímentação quc o mais das vezcs acom-
panha o dcsemprego. De quando cm vez é ainda - tanto como
os sintomas neuróticos em geral - um meio para um Hm. De~
(74) V. E. FrankL Wirtsthrlftxkrise und Seelmlebm uom Smndpunkr IÍBI jugmdbemtem
SoziaJãrztlinchc Rundschau 43, 1933. 209
210
PSKIOFERAPIA E SENTIDO DA VI[)A
signadamente nos homcns quc já tinham uma neurosc, quC
apcnas foí exaccrbada ou reitcrada por uma cspécíe de desem-
prego intcrcorrente, o cstado de coisas próprio do dcscmprcgo
emm, por assim dizer, na ncurose, como matcrial; é tomado
pela neurose como contcúdo c passa a ser «elaborado ncuro_
ticmnente». Nestcs casos, 0 dcscmprego é rccebido pcrlo neu-
rótíco como um meío bem-vindo para se dcsculpar de todos
os malogros da vida (nâo apenas os da sua vida proñssional)_
Serve como quc de bode expiatórío quc agucnta com todas
as culpas de uma vida «estragada». Os próprios erros passam
a scr apresentados como resultados fataís do desemprego. «É,
se eu nâo estivcsse descmprcgado, outro gaJo cantaria, seria
tudo fbrmidável». Os homens deste tipo neurótíco sempre nos
garantem que fariam isto e aquilo; a vida de desemprego au-
toriza-os a levar a vida como coisa provisória, fazendo-os cair
numa modalídade provisória da existência. Julgam que nin-
guém lhes pode exígir nada. E eles, por scu turno, nada exi-
gem a si mesmos. O destino do descmprego parcce exími~los
de responsabilidade perante os outros c perante elcs próprios,
de toda a responsabilidade pela vida. E qualquer falha, em
qualquer setor da existêncía, vem a ser reduzida a esse destino.
É como se se consolassem pensando quc o sapato só os apcrta
num ponto. Tudo se explica partindo deste ponto c se, ainda
por címa, este ponto é, pelos vistos, um dado fatal do destino,
tem-se uma vantagemz a vantagem de se nâo estar incumbido
de nenhuma tarcfa, nâo se precisando fazer coisíssíma nenhu-
ma, afora 0 esperar o momento ímaginário em quc tudo se
poderá curar, uma vez quc se cure aquele ponto.
Por consegu1'nte, como qualquer sintoma neurótícqo, a ncuro-
se do desemprego é também consequência, expressão e meio. É
dc esperar, assim, quc, numa vísâo última e decisiva, possamos
entrever nela. como em qualquer outra neurose, um modm exz'5-
m ANÁLISE LX'-l$]'ENClAl GlzRAL
tmdL uma tomada dc atitudc cspirituaL uma dccísão cxistcnciaL
O quc queremos dízcr com isto é quc a ncurosc do dcscmprcgo
náo é dc mancira ncnhuma aquclc dcstino incondicionado com
quc o ncurótico tcndc a idcntiñca'-la. O dcscmprcgado ncm dc
longe tem quc se cntrcgar à ncurose dc dcscmprcga Antcs pclo
contrário, também nestc comexto sc evidcncia quc o homcm
upodc ser-difc'rentemente»; quc, seja como for, scmprc podc dc-
cidír sc sc há dc submetcr ou não animicamcmc às foârças do
destino sociaL
Alias', nâo faltam exemplos a demonstrar-nos quc o caráter
não é formado e cunhado de um modo unívoco c fatal pelo
desemprego. É o quc se pode conclu1'r, scm du'vida, do fato
de haver outro tipo de dcsempregados, além dos tipos neu~
rótíCOS que acabamos de definin Refcrímomos àquelc quc se
cnconrra entre os homens que, vendo-sc obrigados a vivcr nas
mesmas condiçóes econômicas desfavorávcís dos quc pade-
cem a neurOSe do desemprego, apcsar disso, contínuam lívres
dela, sem darem impressâo nem dc apatía ncm de dcprcssâo,
conservando até uma certa seren1'dadc. A quc se dcverá isto?
Não é necessárío grande esforço para logo obscrvarmos quc es-
tes homensse dedícam a ocupaçóes quc váo muíto além do
seu campo estrítamente proñssionaL Ajudam cspontaneamem
te, por exemplo, esta ou aqucla organi/.'ação; são Funcionários
honorários em instítuiçóes dc cducaçáo populan colaborado-
res de associaçóes juvenis; vâo ouvír confüências e boa música;
leem muito e discutem com os amigos sobrc 0 quc leram. Sa-
bem dar pleno sentido ao excesso de tempo livre e, desta ma-
neira, conferem uma plenitude de contcúdo à sua conscíência,
ao seu temp0, à sua Vida. Muitas vezes, também andam com
o estômago a dar horas, como os representames do outro tipo
de desempregados, que se tornaram ncurótícos; mas nem por
isso dcixam de añrmar a sua vida e nem por sombras se deixam
TEZ
pslgo I'ERAPIA E SENTIDO DA va
E que souberam dar à vida um conteú_- « cro.u1r do deSC>P , _ e 'poss C ê_h dc semida Apcrcebemm s de que o scntldo
do c guarnc -
da vidq humana não se rcduz
ao trabalho proñssionàh de qiueh .
m ode cstar desempregado, sem quc
por lsswo sc VFCJa
um Omc ' Pr uma vida carcntc
de sentido. Para eles, Ja se nao
frootrçqudeo
oasvelnvtcido da vída com o mcro fat,o
.da Codlocaçào proñs_
siponaL O que vcrdadciramentc
torna apatlco 0 esempregado
rótico o que añnal está no fundo
da neurose de desempre_
ncu , alsa vísão scgundo
a qual 0 úmco scn_/ c ' re a foo_ e or onsegum . Í
Êdo dap vida reside no trabalho proñssnonaL
Com efe¡to, a faJsa
l n
' /
identifícação da proñssâo com
a mlssao a que se e chamado na
vida por fbrça tem que induzir o desempregado
a sofrer a 1m-
prcssáo dc ser inútil e superHua
De tudo isto se deprecnde quc na reaçâo anumca perante
o desemprcgo há bem pouco de fatalã 'qu'e também aqui resta
ainda muito espaço para a liberdadc Csplrltual do homem. No
campo de visão da anal'ise exiStencial da nCUFOSC _de deñsemprego
que tentamos fazer, salta à vista que a mesma sutuaçDao de de_
semprego é diversamente conñgurada por homens d1f'erlent68;
ou melhorz vê-se claramente que, ao passo que o neurotlco se
deixa conñgurar animicamente pelo destíno social - que o for_
ma e modela caracterologícamente -, o tipo não neurótico, ao
contrárío, configura o destino sociaL Por conseguinte, cada de-
sempregado pode ainda decidír, caso por caso, digamos assim,
que tipo há de representarz se há dc ser um desempregado que
permancce erguido interiormentc ou, pelo Contrário, há de dei-
xar-se abater pela apatia.
A neurose de desemprego não é, portanto, uma consequên-
cía ímedíata do desemprego. Alia's, chegamos a observar que,
muito pclo contrário, o desemprcgo é uma consequência da
116urose. Não há dúvída, realmente, de que uma neurose tem
a sua repercussào no destino social e na sítuação econômica de
N ANÁLISE L~'X1$TL'~NC1AL GERAL
quem a sofre. Ceteris parz'bus, um dcscmprcgado quc sc mantc-
nha interiormente erguido na luta pcla concorrência tcrá maio-
rcs oportunidades do quc o dcscmprcgado quc caiu na apatim
c, cm confronto com clc, sempre levará a mclhor ao procurar
colocaçáo. Mas as rcpcrcussócs da ncurosc de dCSCmpngO náo
são unicamcnte sociais; sáo também vitais. Para o comprccndcr-
mos, basta-nos atentar em que rz romtrutum adquirida pela vida
g_.¡›~irífzml medimzte o sezz mrzíter de misszío repertute no biolágim
Por outro lado, a súbita pcrda da estrutura intcrí0r, que aparecc
com a vivência da falta dc sentido e dc contcúdo da vida, con-
duz também a fcnômenos dc dccadêncía orgâníca. A psíquiatria
conheCC, por exemplo, o típico dccaímcnto psicofísico dos ap0-
sentad05, manífesto em sinais dc envelhecímcnto quc surgcm
rapidamente. Até com os animais se veríñca um fenômeno se-
melhantez sabe-se, por excmplo, que os animais amcstrados para
o circo, que reccbem as suas «missóes» no circo, vivcm muito
mais tempo do que os seus congêncres quc se conservam em
jardins Zoológicos e náo Hcam «ocupados».
Pois bem. Do fato dc a neurose de desemprcgo não se achar
fatalmente vinculada ao dcscmprego, segue-se a possibílídade de
uma intervenção psicoterapêut1'ca. Qucm, não obstmte, sc scntir
inclinado a desdenhar esta Forma de obviar ao problcma psico-
lógico do desemprego, tenha em conta o que náo raro dizem os
desempregados, cspecialmente os jovens: «O que nós queremos
nâo é dinheiro, o que queremos é que a nossa vida tenha um con-
teúdo». Se bem que nisto se entreveja, por outro lado, o evcntual
despropósito de aplicar em taís casos um tratamento orícmado,
por exemplo, em termos de «psicologia profunda», uma psicote-
rapia no sentido mais cstrito, c não no sentido da logorerapizL O
que é índicado, nestcs casos, é apcnas uma análisc da existência
que mostre ao descmpregado o caminhoque leva à sua liberda-
de interior, mcsmo perante o seu destino sociaL conduzindo-o
214
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
àquela consciêncía da responsabill'dade, a partir da qual elc possa
dar um conteúdo à vida c guarnecêvla de sentid0, a dcspeito das
suas diñculdades.
O ccrto é quc, conforme vimos, tanto o desemprcgo como
o trabalho profissional podem scr usados abusivamente como
meios pnra um Hm neurótíco. Mas desta utílização neurótíca
cumprc dístinguir aquela atitude rcta quc se traduz na preocu_
paçâo de mamer o trabalho como mcio para o fim de uma vida
plena de sentido. Com efc”1'to, a dignidade do homem proíbe~o
de sc transformar num meio, um simples meio do proccsso de
trabalho; denega-lhe a degradaçãowde vir a ser puro meio de pro-
dução. A mprzcidade de trabzzlho nzio é tudo, mío camtituí mzâo
necemírizz nem szfítríente pam encber a uida de sentida Um ho-
mem pode pcrfeitamente ser capaz de trabalhar e, no entanto,
lcvar uma vida sem sentid0; e pode dar-se também o caso de
um homem incapacitado para 0 trabalho ínfundir vcrdadeiro
sentido à sua vida. O mesmo vale, em termos gcrais, quanto à
capacidade de gozan Quer dizer: justifica~se. sem mais, que um
homem procure predominantememe o sentido da sua vida num
detcrminado campo e, nessa medida, de algum modo a limite; é
de perguntar, porém, se essa autolimitação se baseia na realidade
das coisas ou se, para falar verdade, náo será desneccssária, como
no caso da neurose. O quc nesses casos costuma acontecer, pre-
cisamente sem tal ser necessárío, é que se renuncia à capacidade
de gozar, em beneHcio da capacidade de trabalho, ou vice-ver-
sa. A cstes neuróticos, haveria que ler-lhes aquela frase da mé-
dica que ngra entre os personagens de um romance de Alice
Lyttkens - «Ich komme nicht zum Abendessen»75: «Se falm 0
amor, transforma-se o trabalho em sucedâneo; se o quc falta é
trabalho, transforma-se o amor em ópio».
(75) A Lmdução Iiterd destc título éz uNâo vou jantar». (N.T.)
A) ANÁUSE EXISTENCIAL GERAL
A NEUROSE DOMINICAL
A plenitude de trabalho proñssional nâo é ídêntica à plenitu-
de de sentído da vida criadora. Dc quando cm quando, alias', o
íwuróüco tcnta fugir da vída pura c simples, da vida em toda a
sua grandeza, refugiando-se na vída proñssíonaL O ccrto é quc
o verdadeíro vazio e, aHnaL a pobrcza de scntido da sua cxístén-
cía, vém à luz do dia logo que a sua laboriosidadc proñssional
se paralisa por certo lapso de tempo: quando Chega o domingo!
Quem não Conhece o desconsolo mal disfarçado quc transparc~
ce no rosto de alguns, quando, tendo posto de lado o trabalho
para passarem o domingo, sc veem por sua vez postos dc lado se,
por excmplo, perdcm uma entrevista ou já nâo conscguem uma
entrada para o cinema! Já se não dispóc do «ópío» do «amor»;
ñca-lhes vedado por uns instantes o entretenimento do ñm dc
semana - aquelc entrctenimcnto quc tendc a abaafr o deserto
interior. Mas é disso que prccisa o homcm quc nada mais é do
que homem de trabalho. Ê que, no domingo, cm sc detcndo o
ritmo de trabalho dos dias úteis da scmana. pÕc-se a nu a pobre~
za de sentido característíca da vida cotidíana nas gmndcs cida-
des. E ñca-se Continuamentc com a ímpressão dc quc 0 homem,
ignorando por completo o objetivo da vida, Corrc por ela com
a maior velocidadc possíveL precisamente para nào rcparar quc
essa vida carcce de objetivo. É como se tentasse, dcssa mancira,
fugír de si mesmo - inut1'lmente, é claro, porquc, em chegando
o domingo, detendo-se por 24 horas a afanosa corrida da sema-
na, posta-sc-lhc outra vez diante dos olhos a carência de 0bjcti-
v0, a falta de conteúdo e de sentído da sua existônc1'a.
Nâo há nada quc o homem não tente, para cscapar a esta
vivência. Primcira tentativaz corrcr para um salão dc baile. Aí
chegado, o barulho da músíca poupa-lhe a despesa da conversaz
já não é como noutros tempos, já nem scqucr faz falta animar-se
TBÓ
PSILÍOFERAPIA E SENTIDO DA \'IDA
conversas dc baílc». ÉJhC Poupado tambem
0 traba~
5 «
a toda a sua atenção se concentra
na dança_ Mas
«neurótíco dominic31» tambcm COSElea
é outro «asilo» para OS
com
lho de pensar;
hzí outras tentativas. O
.
a atividade dcsport1va, que
s de ñm de semana. Resolvc fazer de coma,
pOr
0 há no mundo coisa mais ímportante do qUe
Sabcr qual das duas equipes vai ganhar a partlda. the e dois
'o adores disputam o encontro e milharcs
de pessoas contem-
J g Ol Nas lums de pugilato, embora só atuem dois
é mais intensa; e à atenção do
refugiar-sc n
cntretenimento
cxcmplo, que na
plam o espctácul
homens, é claro que a dxsputa
. . -
espccrador inatívo unc-se um pouco de sadxsma
Com 1st0, nao
cremos dizer absolutamente nada contra qualquer atividade
desportíva sadia. Só que, sempre seria de perguntarTqual
é o
valor intcrior relativo que corresponde ao desporto. omcm05,
por exemplo, a atitude de um alpínístleL O alpinismo Fpressu.póe
sempre particípação ativa: não valc aqu1 a COHÍCmplãiçao pasâmL
O que aqui há sâo verdadeiras rcalizaçóesz no que dlZ rlespelt_o à
capacídade de rcalização Física, o escalador, em certas ,51.tuaçocs
em que póe a vida em perigo, vê-se forçado a dar o max1m0 dc
si; sob o ponto de vista anímico, também não temos aqui senão
verdadciras «rcalizaçôes», poís ó alpinista semprc tem quc apren_
der a vencer fraquezas anímicas, como 0 medo ou as vertigens.
dc notar, aliás, que 0 alpinista, como salientou E. Straus, nâo
qu
«procura» o pcrigo (por si mesmo), mas apenas 0 «experimen-
ta»7('. E a rivalídade, que nos outros desportos produz o anseio
pelos remrd5, vcm a produzir no alpinismo a forma mais valiosa
e mais alta de uma «rivalidade consigo mesmo». F1'nalmente, a
vivência da camaradagem, que se experímenta no liame da mes-
ma corda, representa outro momento social, bem posi_tivo.
(7(›) Em alcn1.1'o, as duas palavras. quc o Autor também póc cntrc aspas, dão à Frasc
um sabor dc trocadilhoz «procura» é «:ur/77»: «experimenta» é «uersuchr». (N .T.)
M ANÁLLHE -Lx1's."niNc1A1. G~LRA1_.
Mas, mesmo no malsào anscio pclos ret'0rd5, podc-sc vcriñcar
um rasgo genuinamcntc humano, na mcdidn cm quc rcprcscn-
ta, digamos assim, uma forma daqucla tcndência humana para
Chcgar ao «caráter dc algo únicm c à irrcpctibilidadc Dc rcsto,
ocorrc uma coisa scmelhantc com outros Fcnómcnos psicolo'gi-
cos das massas; com a moda, por excmploz 0 quc o homcm qucr
na moda. e a prcço de tudo, é a 0riginalidadc; só que, aqu¡, o
«caráter de algo único» e a írrepctibilídade ñcam cingidos ao quc
há de mais cxterion
Entretanto, nem só do dcsporto se podc abusar neurotica-
mente; também da arte. Ao passo quc a vcrdadcíra artc ou a vida
artística genuína cnriquece o homem e o conduz às suas maís ca-
racterístícas possibílídades, a «arte» de quc se abusa não Faz mais
que desviar o homcm de si mcsmoz cssa «artc» passa a ser. pum
e simplesmente, mera possíbilídade c ocasião para o homem se
cmbriagar e aturdir. Se o homcm qucr fugir dc si mesmo, da vi-
vência do vazio exístenciaL agarra-sc, por exemplo, a um roman-
ce policial o mais possível tcnso. É claro quc o quc se procura,
em última ana'lisc, na tensã0, é conseguír dcsligar-se - aquelc
prazer negativo que se sente quando uma pcssoa sc libcrta, sol-
tando-se de qualquer coisa desagradách e quc Schopenhaucr
considerava a única forma possível de prazcn Mas já díssemos
acima que o desprazer, a tensão, a luta, não nos servcm apenas
para experimentarmos o prazcr de nos vcrmos livres deles; na
realidade, nâo nos metcmos a lutar pela vida só para scntirmos
sensações novas, pois a luta pela vida, antcs pelo contrário, c'
qualquer coisa de intencional e só por ísso constítui algo pleno
de sentido.
Nâo há maior sensaçâo, para 0 homem sedcnto de tcnso'c-s,
do que a sensação causada pela mortez tanto no âmbito da narte»
Como na vida real. O valentão que, enquanto toma o Café da
manhã, se põe a ler o jomal necessita de reportagens que narrcm
218
PSICOTERAPIA E SENHDO DAVlíx
Náo lhe bastam, porém, desventuras das
a massa anônima aínda lhc parece co¡_
ontecer que cste homem sima
mortcs C desventuras.massas, ITIOITCS cm massa;
muito abstrata. Assím, pode ac
.
sidade de ir, no mcsmo d1a, ao c1nema, para
ver uma
Succde~lhe o mesmo que a todos os viciad05¡ a
óes precisa de um prurido nos nervos; o Prurido
ma nova c maior fome de excitaçóes e traz
Mas o que se passa, no ñm de con_
sa r
a neces
fíta dc gzzngsters.
avidcz dc scnsaç
dos nervos produz u
consígo 0 aumento da dosc.
tas é o cfeito de contrastc produzido pela lmpressao dc
que Sâo
,
z
sempre os outros a morrer. E que os homens Idesfe npo fogem
e mais os horror1'7.a: a certeza da qua proprla morte, lsm
ue torna tão insuportável 0 vazio cxístcnciaL Com
do qu
é, aquüo q
cfcíro, a ccrteza da morte só representa um horror para aqueles a
quem pesa a consciência da vida. A morte, como Hnal do tempo
que se vivc, assusta apenas aqucles quc não 0cupam o tempo da
sua vida. Só esses nâo podem olhar a mortc cara a cara. Ern vez
de preencherem o tempo Hnal da sua vida, realízando-se então
plenamente a si mesmos, rcfugiam-se numa cspécie de pcrdão
ilusórío, como faria um condenado à morte que à última hora
comcçasse a julgar que ainda scria perdoad0. Os homens deste
tipo refugiam-se na ílusâo dc que a Cles nada acontece e de quc
a morte e as catástrofes são uma coisa que sempre acontece aos
«outros».
A fuga neurótíca para 0 mundo dos romances, para o mundo
dos seus uheróis», com os quais o neurótico de um modo ou de
outro se ídentíñca, fbrneceJhc ainda mais uma cbzmm Ao passo
que 0 desportista, possuído pela ílusâo dos recomíg aínda gosta-
ría de dormir sobre os louros alcançados, este tipo de leitores dc
romances contenta-se com que haja alguém, que, mujto cmbora
se trate de mera personagem Hctícia, cumpra com o seu dever.
Ora, em príncípio, o que vale na vida não é dormir sobre os 10u-
ros, sejam eles quaís Forem, nem o contentar~se com 0 que já se
,\) ANÁLISE LX'ISTENCIAL GERAL
nlcançom para falar verdade, a vída. com as rcitcradw pcrguntasr
quc nos faz, nunca nos deixa dcscansan Só aturd1'ndo-nos dc ilu-
Sóes conseguimos tornar-nos insensíveis àqucle ctcrno aguilhão
quc a vvída nos crava na consciência com as suas cxigências sc-m~
Pre novas. Qucm se dctém é ultrapassadm c quem sc contcnta
a si mesmo acaba por perdcr-se. Portanto, não devcmos ñcar
nunca satisfeitos com 0 quc já alcançamos, quer no tcrreno da
criação, quer no terrcno das vivências; cada dia. cada hora torna
nccessárías novas açóes e traz consigo a possibílidade dc novas
vivências.
219
220
4. O sentido do amor
Já vimos como o caráter de sentído da cxistência humana se
Funda no «caráter de algo u'nico» c na irrepetibilídade da pessoa_
Vimos também que os valores críadores se realizam sempre na
forma de realizaçócs quc sempre têm relação com a comunida-
de. Ficou patcnte, assim, que só a comun1'dade, enquanto ponto
de referêncía em ordem ao quaJ se orienta a Criaçâo humana,
confere o sentido cxístcncial àquele «caráter de algo único» e
irrepetívcl próprio da pessoa. Mas náo basta falan a este propósi-
to, da criaçã0. A comunidade também pode ser aquilo para quc
se orienta a vivência humana. Especialmente a comunidade a
dois: a comunidade de um cu com um tu. Se prescindimos do
amor num sentido mais ou menos metafórico, para nos ater-
mos ao amor no sentído dc eros, temos que 0 amor represcnta o
campo onde de um modo especial São realizávcis os vaJores de
vívência. O amor é, afinaL a vivência em que, pouco a pouco, se
vive a vída de outro ser humano, em todo o seu «caráter de algo
u'nico» e irrepetívell
AJém do caminho da realização dc valorcs cr'íadores cm
que, portanto, se dá algo de ativ0, para fazer valer 0 «cara'ter
dc ano único» e a irrepetibilidade da pcssoa, há um segundo
caminho, como que passivo, onde tudo quanto o homemtemí
¡\) ›\\'\,'/\ILIS_Í: L"\'l$'l'liNClAL (¡'¡."I\'Al
quc conquistar, em geraL mcdiantc um agir, lhc cai do céu, por
assim dizer. Esse caminho é o camínho do amm'. ou mclhorr
0 camínho do ser-amado. Sem ncccssidadc dc sc propor Fazer
propriamcnte seja o quc Fon scm um «múríto» propriamcntc
ditO - como quc por pura graça -, o quc aqui succdc ao ho-
mem é que Ihe cabe em sorte aqucla plenitudc quc reside na
rcalizaçâo do seu «caráter de algo único» c irrcpctích No amor,
o amado é cssencíalmentc captado como um ser irreprtíuel no
mz Xer-az' (Dasein), e «u'nim» no xcu ser-1Lss1'm (So-sein)“, quc é
o que ele é; concebido como Tu c, enquanto taL acolhido num
outro Eu. Como fígura humana, vem a sc~r, para qucm o ama,
insubstituíveL ninguém podendo Fazer as vczes dele, sem que
por isso ou para isso tenha que fazcr seja o que fon A vcrdade é
csta: 0 homem que é amado «não tem culpa» de que, cm scndo
amad0, já se realize o que há dc irrepctível c dc único na sua
pcssoa, isto é, o valor da sua personalídade. Não é «mérito» o
amor, antes é graça.
Mas não é só graça, é também fcitiça Para qucm ama, 0 amor
enfeitiça 0 mundo, mergulha~o numa nova vali051'dade. O amor
dá àquele que ama uma maíor altura no que diz respeíto à res~
sonância humana em face da plcnitudc dos valorcs. Abre-lhe o
espírito ao mundo, na sua plenitude de valores, a toda a «gm13
dos valores». Assim, 0 amante, ao entregar-se ao Tu, cxperimcnta
um enriquecimento ínterior quc transcende esse Tuz o cosmos
inteiro toma-se para ele mais vasto e maís profundo na sua va-
líosidade; resplandece nos raios de luz daqueles valores que só o
enamorado sabc Vcr, pois, añnaL nâo faz cegos o amor, mas sim
videntes - dando aguda visão para os valores. Por Hm, ao lado da
graça de ser amado e do feítiço do amar, um terceiro momcnto
(7.7) Veia-se o (cxto da pág. 178. Aí o Autor toca a mcsma idéia usando csm cxprcssão
mudiñcadaz «scr-assim«e-náo-dc-ou¡r0-modo» (Sa-unzI'-ni(/)I-zmdemseinJ. (N. T. ) . 221
222
PSICOYERAPIA E SENTIDO DA \'lDA
surge ainda no amorr o seu mílagre; porque, prccisamente através
do amor. e dando um rodeio pelo biológico, consuma-se o que
é de al›gum modo inconcebível: uma pessoa nova entra na vida,
cheia, cla também, daquclc mistério do «caráter dc algo únic0» c
írrepetível da cxistência - e um tho é isto'.
SEXUALIDADE, EROTICIDADE E AMOR
Temos falado repetidas vezes da estrutura do ser humano,
disposta em camadas e escalócs. Rcferimanos repetidas vezes
à visáo que temos do ser humano. como totalidadc de corpo,
alma e cspírito. E, no que concerne à psicoterapia, partimos
do postulado de que cumprc ter em consídcração essa totali-
dade, de modo que a terapêutíca, além de ver o que há de físico
no homem, deve tomar como ponto de partida, não apenas 0
anímico, mas também o espiritual
Pois bcm. Vejamos agora, precísamente cm face da cstrutura
estratiñcada da pessoa, as diferentes atitudes quc podem tomar o
homem Como sujeito que ama e experimenta a vivência do amor
e a vivência do outro, nesse amor com que ama. Efetívamente,
às três dímensóes da pessoa humana correspondem também três
possíveis formas de atitud6.
A maís prímítiva dcstas atitudes é a atítude sexual. Neste
caso, da aparência física de uma pcssoa emana um atrativo se-
xual que dcsencadeia cm outra, sexualmente predisposta, o ím-
pulso sexuaL afetando-a, portanto, na sua corporalidade. A for-
ma imediatamcnte superíor de atitude é a eróticaL Mas convém
notar quc aqui, por razóes heurísticas, estabelecemós uma c0n-
traposição entre eroticidade e sexualídade. Queremos dizer com
isto que, no sentido mais estríto da palavra, a atitude erótica
não é aquela cm quc o homcm se sente, sem mais, scxualmentc
¡\) ANÁLISE MSTENUAL GERAL
excitad0, poís há nela algo maís do que o mero dcscjo sexuaL
Trata-se de uma atitude que não é propriamentc ditada por um
impulso scxuaL não sendo tampouco provocada pcla outra partc
da rclação amorosa, enquanto mera companhcira scxuaL Qucr
dizer: se consíderamos a corporalidadc da companheira como
o estrato mais extemo da sua pessoa, o homcm quc toma para
com ela uma atitude crótica nâo se ñxa apenas ncsse estratoç vaí
mais a fundo, digamos assim, do quc aquelc quc tomou uma
atitude meramcnte sexuaL penetrando na camada ímcd1'ata-
mente mais profunda, que é o tecído anímico. aquelaForma
de atitude que, como fase da relação entre dois sercs humanos,
se costuma identiñcar pelo nome de paixão dc namorados. As
qualidades físicas excítam-nos sexualmentc; mas as qualidades
anímicas são as que nos tornam «enamorados». O namorado,
portant0, já não está excitado na sua própría c01'poralidade, mas
sim comovido na sua emocionalídade anímica; comovido, dígo,
pela psíque própria da outra parte (nào a do seu «caráter de algo
úníco»): assim, por detcrminados rasgos do scu caráter.
Portanto, a atitude meramente sexual tcm por meta a C0r-
poralídadc e, como 1'ntmçá078, detém-se, por assim dízcr, ncssa
camada. Pelo contrário, a atitude crótica, aquela que corrcspon~
de à paixão dos namorados, or1'enta-se para 0 psíquico; ainda
que nâo cheguc a avançar até o ceme da outra pessoa, pois isto
só 0 faz a terceira das atitudes mencionadasc a do amor propría-
mente dito.
Amor (n0 sentido mais cstrito da palavra) é a forma maís
clevada possível do erótico (no sentido mais amplo do tcrmo),
porquanto representa a mais profunda penetração possível na
estrutura pessoal da outra partez 0 entrar em relaçõcs com cla,
(78) Grifàdo por nós. dado o scntído especial confcrido pelo Autor u cste tcrn10. CÍ
a nossn nota da pág. 72 (N .T.)
TM
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA leA
rítuaL Nestcs tcrmos, a relação díreta com o
aJ na outra parte signiñca a mais alta forma
rismo. Quem ama neste sentido tam_
a vez, excitado na sua corporalidadq
onalidade; antes se acha tocado no
sim, pelo portador espirítual
pelo seu ceme
como algo de espi
que há de espiritu I
possívcl dc companhm
bém não se sente, por su
.
nem comovido na sua emoc1
mais Fundo do scu espíritoz rocado,
da corporalidade e do anímlco.
da outra partlc, dñ
Amor é, portanto, a atxtudc que relaaona
1retameImC
com a pessoa espiritual do ser amlado,
crom a sua pesâoâ prCClsa_
mente no quc ela tcm de excluswo
«carat\cr nde algo umco» e de
irrepetibilidadc (os únicos rasgtos que
a c,onst1tuem como pessoa
espiritual!). Como pcssoa espirltuaL ela_c
.a portadora daquclas
qualidades anímicas e físicas para as quals
zntende quem toma a
atitude crótíca (no sentido mais estrito do
term0) ou a sexuah éy
acha por trás daquelas aparên_
pcssoaL
como pessoa espirituaL o que sc
cias sexuais e mcsmo puramente pSLqmcas
em que penetram,
a atitude sexual e a atitude do «namorado»; é 0respectivamente,
que nas aparências físicas e anímícas,
prec15amente transparece.
3
A aparêncía física e anímica sâo Como que a «r0upa», rcspecu'_
vamentc exterior e interi0r, que a pcssoa Cspiritual «traz» vcstida.
Qucm se posta numa atitude scxual ou quem apenas é namora-
do ñxa-se numa atração que sobre ele exerce determinada nota
física ou determinada propriedade anímica. A quem está numa
atitude sexual' ou simplesmente é um namorado, agrada-lhe «na»
outra parte uma nota física ou uma propriedade anímica deter-
minada, atingíndo-o, portanto, qualqucr coisa que o ser amado
«tem»; não assim o que ama com verdadeiro amorz porque este
não se límita a amar «no» ser amado o que qucr que seja, antes o
ama por si mesmo - precísamente o quc ele «é» e não 0 que cle
«tem». Quem ama de verdade é como se visse através da «rou-
pa» física e psíquica da pessoa espirítuaL para pôr os olhos nela
própria. Por isso, já se não trata aqui de um «tipo» físico que 0
N ANÁLISE EXAISTENCLAL GERAL
cxcite, ou de um caráter anímico que porventura o apaixonc; o
que está aqui em apreço é o próprio ser humano, a companheira
Ou o companheiro enquanto ser incomparável e insubstituích
Como é sabido, a psicanálisc deñne como tendências «inibi-
d35» aquelas que se nos deparam na chamada paixão dc namora-
dos c que não têm, por conseguinte, naturcza scxuaL Quer-nos
parccer que tem razão, mas precisamcnte no sentido contrário
àqucle cm quc a julga tcr. Porque a psicanal'ise consídera inibidas
as referidas tendências no sentído de quc não atingem a mcta do
impulso sexual-gem'tal por ela suposto. E, no nosso cntendcr,
mis tendências estão inibidas exatamentc no sentido inverso: no
sentído de que (quanto à paixâo de namorados) está interrom-
pida a sua orientação para a forma imediatamente mais clevada
de atitudc, a forma de amor verdadeiro, quc visa à camada imc-
diatamente mais profunda da pessoa da outra parte: o seu ceme
espirituaL
IRREPETIBILIDADE E «CARÁTER DE ALGO ÚNICO»
O amor é um fenômeno humano no sentido exato da pala~
vra. É um fenômeno especificamente humano, quer dizerz não se
podc reduzir, sem mais, a um fenômeno sub-humano, nem de
um fcnômeno sub-humano sc pode deduzir. Enquanto «fenôme~
no originário» que, como taL é impossível reduzir a alguma coisa
que «a rigor» esteja por tras' dele, - o amor é um ato quc caracte-
ríza a exístência humana no que ela tem de humano; por outras
palavras, um ato existenciaL Mais ainda2 é o ato coexistencial por
excelência; porque o amor é aquela rclação entrc dois seres hu-
manos, que os pôc cm condiçóes de descobrir o outro em todo o
seu «carátcr dc algo único» c irrepetíveL Numa palavra. o amor
caracteriza-se pelo seu caráter de encontro; e encontro signiñca
sempre que se trata de uma relaçáo de pessoa para pessoa.
226
PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA
O amor não é apcnas um fenômeno propriamente huma_
no; é também um fcnômcno orzg'inariamente humano e, por
conscglu'ntc, náo é um epífenômeno puro e simplcs. Sê-lo-ia,
cerramcnte, se o pudéssemos ínterpretar no sentido cm que o
dcñnem as doutrínas psicanalíticas e psicodinâmicasz como su-
blimaçâo da sexuah'dadc. Mas 0 amor não é mera sublimação
da scxualidade, pela símples razâo dc que, muíto ao contrári0,
constitui condição e pressuposto de um processo sem o qual é
de todo em todo inconcebível qualquer coisa que se assemelhe a
uma sublimação. Referimomos com isto àquele processo que se
veriñca através do descnvolvimento e amadurccimcnto da pro-
gressiva inregração da scxualídade.
Explicamos. Desenvolvímento e amadurecímento da se-
xualídade partem do mero z'mpeto sexual (Sexualdmng) que - para
nos atermos à terminologia introduzida por Freud - dcsconhece
qualquerfm imtíntívo e objeto imtintíw (Trz'ebzz'el e Trz'ebo/7je/et).
Só maís tarde é que sc chega à formação do instinto sexual no
sentido rigoroso do termo. O imtinto 5exual (Sexualt7'ieb) dispóe
já de um ñm instintivo, poís rcalmcnte aponta para 0 comércio
sexual (Ge:c/J/ec/mver/ee/)r). Mas faltaJhe aínda um objeto instin-
tivo, no sentído de uma genuína companhia amorosa em que se
possa centrar: tal dircção c orientação cm ordem a uma pessoa
determinada, prccisamente a pessoa amada, é o que distingue
a terceira fasc c 0 terceiro estádio do desenvolvímento e ama-
durecimemo sexuaL a tmdénria Jexual (Sexualstrebm). O que
acontecc, portanto, é que a capacidade de amar é condiçâo e
pressuposto da íntegração da scxuah'dadc. E o quc qucremos díz-
er com ísto é que JÚ o Eg0, que intendepam um Tu, pode integmr
0 pr0p'ri0 Ítí '
Qualquer pessoa simples se apercebe claramente de que o
homem, enquanto realmente ama, toma pelo amor uma atitude
que de fato visa o que há de irrcpctível e único na pessoa espí-
íN:\NÁLISE EXISNÉNCML GERAL
ritual do ser amado. Imaginemos quc uma dessas pcssoas sim-
ples ama urna outra determínada c que. cm seguida, a pcrdc,
ou porquc morreu ou porque emprecndeu viagcm, ñcando dela
scparada longo tempo. Apresentemos-lhc cntâo uma cspécíc de
sósia da pessoa amada, alguém que scja, tal e quaL do ponto dc
vista psicofísíco, o objeto do scu prímeíro amor. Pois bcmz sc
lhe perguntarmos se poderia transfbrir para cste sósia. pura e
simplcsmente, o amor com que amava o scr amado, nâo podcrá
deixar de confcssarmos que nào é capaz dc tanto. É quc semc-
lhante «transferéncia» de um auténtico amor é inconcebíveL
Quem deveras ama não «tcm em mcntc». quuanto ama. uma
peculíaridadc físíca ou psíquíca, qualqucr quc ela scjaL c quc sc
dá «na» pessoa amada; náo há dúvida dc quc não «tem cm mcn-
tc» esta ou aquela qualidadc que ela «tcm», mas nntcs 0 quc cla
«é», no seu «cara'tcr dc algo único». Ora, cnquanto pessoa «úní-
ca», nenhum