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1. Por que Neuropedagogia? França, na década de 70, Hélène Trocmé-Fabre, uma dessas vozes em permanente questionamento procura novos caminhos para o ato de aprender. Ao longo de sua experiência como professora, em contato permanente com diferentes parceiros da situação de aprendizagem, ela pode constatar que apesar de todos os meios utilizados, como a renovação dos conteúdos, as ferramentas e as diversas abordagens metodológicas, os problemas de assimilação de novos conhecimentos e os problemas relativos ao “como aprender”, a atenção e a motivação, entre outros continuavam sendo ignorados. Mas ela observava também que os parceiros do sistema educacional tomavam consciência de que havia uma lacuna entre os recursos dos”aprendentes” e suas realizações; entre os esforços que todos faziam e os resultados obtidos; entre as expectativas de uns e de outros e os objetivos alcançados. Essa constatação levou-a concluir que era preciso mudar de atitude sobre a “aquisição de conhecimentos”. O sistema educacional continuava voltado somente para os conteúdos, dando muito pouco interesse ao “processo” de aprendizagem, aos recursos perceptivos e ao perfil do aluno. Para ela não existe aprendizagem humana possível, sem compreensão de si mesmo, sem compreensão do mundo que nos cerca, sem disponibilidade para com seu próprio ser. No início dos anos 80, encorajada e respaldada pelas pesquisas inovadoras sobre o funcionamento do cérebro, mas também pela abordagem sistêmica que já se desenvolviam nos Estados Unidos e em vários lugares do planeta, Hélène Trocmé Fabre decide focar sua tese de doutorado sobre os avanços da neurociências e o envolvimento delas na aprendizagem. A pesquisadora cria o conceito de “neuropédagogie” (neuropedagogia), estabelecendo assim um diálogo entre nosso cérebro (neuro) e a pedagogia ( a arte de aprender). 2. As publicações de Trocmé-Fabre e o conceito de Neuropedagogia Em 1987, Hélène Trocmé-Fabre publica pela primeira vez o livro J’apprends, donc je suis, une introduction à la neuropédagogie (Aprendo, logo existo, uma introdução à neuropedagogia) e que foi lançado em 2016 no Brasil. Nosso cérebro, como afirma Hélène Trocmé-Fabre é nosso órgão de aprendizagem por excelência, a pedagogia mais do que qualquer outra disciplina encontra sua legitimidade sob o prefixo “neuro”. Embora ela ainda seja considerada, por muitos, como uma disciplina para professores e que esse conceito tenha se desgastado com o tempo, é mais do que urgente resituá-la, valorizá-la como uma transdisciplina, por meio, entre e para além das disciplinas porque seu objeto principal é o aprender, nossa capacidade fundamental (17). A neuropedagogia, como diz Hélène Trocmé-Fabre é um apelo para que retornemos às raízes biológicas da aprendizagem. Um apelo por uma aprendência bionômica, ou seja, que rege a vida. Um apelo por uma aprendizagem/aprendência ecológica, que leva em conta as relações daquele que aprende com seu meio ambiente. Um apelo por uma emergência do ser e sua transposição para além da própria existência porque nascemos para aprender e para descobrir nosso próprio potencial na duração. Cada ser humano, seja qual for sua idade, sua origem, sua hereditariedade, seu passado, seu futuro… tem um direito fundamental: o de desenvolver sua inteligência, sua capacidade para compreender o mundo que o cerca, e para saber quem ele é. É necessário repetir com insistência: a natureza equipou-nos para aprender, para captar o que vemos, ouvimos e ressentimos. Mas, o mecanismo só poderá funcionar bem se não estivermos sobrecarregados por aquilo que cremos saber… A aprendizagem é um nascimento que deve ser feito sem precipitação, a seu ritmo e na hora exata. (17) Hélène Trocmé-Fabre, J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), 2002. 1. A neuropedagogia atualmente “Não nomear bem o objeto é aumentar o sofrimento do mundo” Albert Camus (18) Atualmente, a “neuropedagogia” vem sendo substituída pelo conceito de “neuroeducação”. Porém algumas perguntas que vêm à mente precisam ser esclarecidas: Trata-se realmente de educar? O que colocamos sob o conceito de “educar”? O que leva os parceiros da situação educacional a preferirem “neuroeducação”, em vez de “neuropedagogia”? O verbo “educar” tomou um espaço enorme no panorama da aprendizagem, colocando um véu sobre quase todos os outros verbos envolvidos com o aprender, como por exemplo, o próprio verbo aprender, o verbo instruir, o verbo ensinar. A dificuldade talvez venha do fato de não sabermos exatamente o que colocar sob esses conceitos. Nós não somos capazes de definir com clareza qual é o papel de cada um, quem é quem na história. Nós, os pais, queremos que nossos filhos sejam “educados”, queremos que eles sejam “instruídos”, queremos que eles sejam “ensinados”. E diante da organização da sociedade atual, por razões múltiplas, delegamos cada vez mais essa tarefa à Instituição Educacional. 2. Educar é tarefa de quem? Antigamente com frequência, mas ainda hoje ouvimos a expressão “a educação vem do berço”, no sentido de que educar era da incumbência dos pais. Estes deveriam “entregar” à sociedade um ser “já com as regras de bases”, ou seja, as regras de comportamento ético, do respeito aos outros, de respeito às coisas e do respeito de si mesmo. Valores que aprendemos independente de nosso grau de instrução, de nosso grau de ensino e de nossa condição social. Somente aos 7 anos ou até mesmo mais tarde para alguns países, as crianças iam para escola para serem instruídas. Atualmente, nós entregamos nossos filhos à sociedade cada vez mais cedo para serem ao mesmo tempo educados e instruídos. Será que quando deixamos a educação de nossos filhos nas mãos da Instituição, mesmo sendo uma Instituição Educacional, não cometemos um erro de apreciação, de percepção, de conceituação? Será que é o papel da Instituição e dos professores, educar nossos filhos? O sistema educacional da maneira como ele é organizado só poderá instruir e é o que ele faz se observarmos a etimologia de “instruir” = amontoar materiais, ajuntar. O aluno/aprendente vai amontoando conhecimentos, na maioria dos casos desconectados uns dos outros, com um único objetivo um diploma no final. O interessante nessa batalha de conceitos, é o lugar do verbo ensinar. O verbo ensinar tentou realizar a proeza de reunir “educar e instruir”. Porém, vemos por inúmeros exemplos que os resultados não foram alcançados, apesar de todos os esforços e de todos os investimentos. Os professores estão mais desencorajados. O verbo ensinar caiu em uma armadilha, ficando entre uma Instituição desastrosamente burocrática e cada vez mais exigente e uma educação com pais totalmente impotentes diante das imensas transformações do mundo atual. O conceito de “ensinar” ao longo do tempo foi se tornando um conceito “fora do solo” e tão flexível que acabou se adaptando a qualquer uso, perdendo seu verdadeiro sentido. Provavelmente, será preciso esclarecer o papel de cada um desses conceitos e reajustar a linguagem/língua para podermos encontrar soluções para pais desarmados, professores infelizes, alunos desamparados. 3. Onde está o professor? Educar, instruir, ensinar, se eles são pertinentes, eles nunca poderão ser outra coisa que uma faceta do verbo aprender. Logo, é para esse conceito que temos que voltar o nosso olhar. O Ministério da Educação ganharia muito e provavelmente encontraria o verdadeiro sentido se ele fosse chamado de Ministério do Aprender. Hélène Trocmé-Fabre estava pelo menos uns vinte anos à frente, quando ela preparou sua tese sobre a Neuropedagogia, onde seu maior centro de interesse era o aprender. Mas, como ela diz: “Em um sistema educacional sobrecarregado de certezas não é possível mudar as mentalidades de um dia para outro”19. Apesar de toda a sua pertinência o conceito de “neuropedagogia” ainda tem encontrado dificuldades para ser aceito, os interessados preferindo substituí-lo pelo conceito de “neuroeducação”. A preferência pelo termo “neuroeducação” vem, provavelmente, do fato desse termo entrar no molde já pré-estabelecido.Mudar é talvez correr o risco de perder o controle e o ser humano, como podemos constatar, sempre foi atraído pela vontade de controlar. Ele buscará infinitamente meios, palavras, conceitos que o levam nessa direção. Logo, “neuropedagogia?”ou “neuroeducação?” Somente o futuro determinará a prevalência.