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TRICOMONÍASE É uma doença de caráter mais crônico, com alta incidência, apresentando cerca de 5 milhões de casos por ano. ● Tricomonadídeos - Grupo: Escavata - Agrupamento: Metamonada - Família: Trichomonadidae - Gênero: Trichomonas e Pentatrichomonas Existem três espécies que infectam humanos, T. vaginalis (importante, de caráter patogênico), T. tenax (comensal da cavidade oral) e P. hominis (acomete o trato intestinal). Desses, T. vaginalis apresenta maior importância por seu caráter patogênico. Se diferenciam dos outros protozoários por não formarem cistos. Habitam o trato geniturinário, do homem e da mulher. São anaeróbios facultativos, realizando o ciclo de krebs de forma incompleta, com liberação de hidrogênio. Seu metabolismo é similar ao da Giardia e Entamoeba. Imagem abaixo de um raspado da vagina, onde pode-se observar o parasito T. vaginaleis, em coloração rosa. Imagem de um T. vaginalis em cultura, onde pode-se observar o �agelo e a membrana ondulante. Possui uma membrana ondulante e quatro �agelos. Se diferencia do P. hominis pois este apresenta cinco �agelos e a membrana ondulante é maior. São mononucleares, com endossoma bastante globoso. ● Metabolismo Seu metabolismo é anaeróbico. Possui a presença do piruvato da glicose, que entra no hidrogenossoma e é descarboxilado pela enzima ferredoxina oxidoredutase (PFOR), que doa elétrons para a ferredoxina, tendo como produtos o acetato que forma o ATP. Essa organela é um ótimo alvo para fármacos, como o metronidazol que compete pelos elétrons. Porém, devido a sua ampla utilização para diversos parasitos, tem sido observado uma resistência a esse fármaco, sendo necessário a busca por novos fármacos com o mesmo alvo (produção de energia). ● Ciclo de vida Como não ocorre a formação de cistos, o ciclo é bem simples onde é necessário que ocorra um contato mais íntimo (sexual) ou até mesmo o contato com fontes que carreiam o parasito para o trato genitourinário. Ex.: Uso de certos tipos de buchas de banho, usar e sentar em banheiros públicos, compartilhar toalhas e peças íntimas. Importante destacar que em crianças antes da puberdade (mulheres antes da menstruação), a presença do parasito pode indicar abuso sexual, devido a relação do desenvolvimento do parasito com o ph vaginal. A transmissão também pode ocorrer durante o parto normal, porém é mais raro. A mulher está mais suscetível aos sintomas. Nos homens, a localização mais comum é sobre o prepúcio ou no canal da uretra, onde será expelido junto com o ejaculado ocorrendo a transmissão. O parasito irá se replicar por divisão binária, como ocorre com a giardia e amebas, e a partir daí se inicia o processo de colonização da mucosa vaginal ou da uretra. Ele não chega a colonizar o útero ou bexiga, mas o processo in�amatório pode atingir essas regiões. ● Patogenia da Infecção O parasito não possui um aparato de �xação como vimos na giardia, por exemplo, mas possui um mecanismo semelhante ao da E. histolytica na invasão do tecido. Ele secreta enzimas que vão gerar desintegração tecidual, e a partir daí nutrisse de células ricas em lipídeos, ferro, glicogênio e realiza a captação de purinas e pirimidinas, compostos importantes para o seu metabolismo. O parasito apresenta morfologia piriforme, mas durante o processo de contato com o tecido ele sofre uma modi�cação conformacional e �ca mais “esparramado”. As proteínas importantes para adesão, e que também possuem um certo caráter de virulência, são: AP65, AP51, AP33 e AP23. Esse processo de adesão também é auxiliado por uma série de cisteína proteinases, que apresentaram ação citotóxica e hemolítica. Então, assim como ocorre na amebíase, esse contato inicial é que desencadeia todo o processo de ação enzimática que causam lesões na integridade do tecido. Ele não invade a célula. ● Evasão imune A expressão das adesinas citadas anteriormente é alternada com a expressão de P270, uma proteína altamente imunogênica, havendo indícios de que isso facilita o processo de burlar a resposta imunológica do indivíduo. Além disso, o parasito possui algumas TvLPG que são moléculas associadas a carboidratos, que se ligam a ligantes/receptores da célula do hospedeiro (galectina-1 e -3) realizando uma modulação da resposta in�amatória local, suprimindo a expressão de algumas quimiocinas (IL-8, MIP-3a e RANTES) que facilitam o recrutamento de fagocitos. Importante destacar que o T. vaginalis realiza uma interação com o sistema purinérgico associado com o ferro da hemoglobina, através de ectonucleotidases que decompõem adenosina, facilitando o estabelecimento da infecção pois o parasito consegue energia a partir desse processo e consegue sobreviver nesse ambiente que seria inóspito para ele. ● Níveis hormonais e Microbiota Tudo isso está relacionado com os ciclos menstruais/hormonais na mulher, pois irá impactar no pH. O parasito é incapaz de sintetizar lipídios, por isso ele irá fagocitar hemácias como fonte de ferro e ácidos graxos. Esse processo de citotoxicidade afetará de maneira negativa a microbiota vaginal, principalmente as populações de lactobacilos vaginais. Algumas espécies de lactobaci�us possuem a capacidade de inibir a adesão de T. vaginalis ao tecido varginal. Então, o processo de colonização e adesão quebra a homeostase di�cultando a ação desses lactobaci�us. Esses processos possuem uma relação íntima com a questão �siológica, pois alterações �siológicas levam ao aumento do pH. Assim, o período após a menstruação e antes da ovulação é mais suscetível a infecção do parasito, pois é quando o pH vaginal não vai estar tão ácido pois o espermatozóide também não sobreviveria nesse microambiente, e também está ocorrendo uma alta de estrogênio e mudança na microbiota. Portanto, é bem marcante essa associação entre, estrogênio, microbiota e pH vaginal, onde o parasito se aproveita dessa alteração �siológica e anatômica para garantir seu sucesso na infecção. ● Sintomatologia feminina A infecção pelo T. vaginalis vai levar a um processo de in�amação (vaginite), que pode apresentar grau de intencidade variado. Essa in�amação leva a prurido e irritação, podendo evoluir e se expandir acometendo a vulva e causando vulvovaginite. Devido a todo esse quadro de in�amação e descamação do tecido, a paciente pode sentir dores no ato sexual gerando um desconforto, associado à dor ao urinar (disúria). Em algumas situações se tem a compressão da bexiga, resultando em aumento da frequência miccional. O período de incubação é, em média, de 7-20 dias. ➔ Corrimento vaginal A paciente vai apresentar um corrimento vaginal branco, amareláceo e bolhoso fétido e purulento (20% dos casos), com hiperemia vulvo-vaginal. Esse corrimento vaginal é importante para o diagnóstico diferencial. ➔ Colpite macular (colo em “morango”) Não ocorre uma adesão do parasito no colo do útero, mas o processo de in�amação que ele gera é muito intenso, podendo atingir o colo. O aspecto lembra um morango, daí vem a denominação “colo em morango”. Essa lesão é especí�ca para tricomoníase mais grave, acometendo cerca de 5-10% das pacientes, podendo progredir para displasia/metaplasia intra-epitelial cervical, detectada em cerca de 39% dos pacientes. ● Sintomatologia masculina A princípio, vai se ter uma sintomatologia mais super�cial. Serão lesões associadas a glande ou no canal da uretra (uretrite). Paciente também terá �uxo purulento associado a prurido, principalmente ao acordar. Pode desenvolver prostatite, afetando a frequência miccional. Cerca de 10% dos homens desenvolvem infertilidade. De forma geral, o homem vai apresentar cerca de 40-50% menos sintomas, em comparação com a mulher. ❖ RESUMINDO ❏ É uma doença percebida e contraída em geral por mulheres sexualmente ativas, e homens são transmissores (por contato sexual); ❏ Homem apresenta sintomatologia muito mais branda; ❏ Causar vaginite, corrimento �uido abundante de cor amarelo-esverdeada, bolhoso e fétido, especialmente na fase pós-menstrual, além de irritação da vulva; ❏ Pode levar à ruptura prematurada membrana placentária, parto prematuro e nascimento de bebês de baixo peso; ❏ Aumenta a chance de transmitir HIV e está associada a desenvolvimento de câncer cervical e de próstata. ● Diagnóstico Colposcopia (preventivo), onde observa-se a integridade do colo do útero e o �uido vaginal, além de realizar coleta de tecido para exame histopatológico. Pode-se realizar o esfregaço do �uido vaginal (ou da uretra) para exame parasitológico. Ainda, pode ser realizado o cultivo do parasita em meio Diamond, a partir de amostras da secreção vaginal. Outra possibilidade é o teste do pH da vagina, pesquisa de parasita na urina e esperma. Outros métodos, mas menos utilizados, são ELISA, PCR e Imuno�uorescência. ● Tratamento Tratamento a base de metronidazol, com uso por 10 dias (250 mg 3x/dia). Alternativamente pode-se tomar secnidazol em dose única de 2g. O controle é os mesmos utilizados para outras ISTs. Trichomonas tenax Associado a cavidade oral. Pode ser encontrado na microbiota bucal (tártaro dentário), apresentando caráter comensal, não causando patologias. Transmitido por compartilhamento de copos e talheres, ou através do beijo. De forma mais rara, podem ser associados à infecções pulmonares ou dos brônquios. Não é necessário realizar terapia, apenas higiene adequada. Não é considerado uma tricomoníase. Pentatrichomonas hominis Apresenta caráter comensal. Entretanto, estudos recentes associaram infecção desse parasito com cânceres do trato digestivo.