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Brasília-DF. AvAliAção e TerApiA dA FAlA envolvendo AspecTos MioFuncionAis Elaboração Profa. Claudia Gomes Ligocki Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APrESEntAção ................................................................................................................................. 4 orgAnizAção do CAdErno dE EStudoS E PESquiSA .................................................................... 5 introdução.................................................................................................................................... 7 unidAdE i SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO ................................................................................................................ 9 CAPítulo 1 OrGãOS fONOArTICulATórIOS E AlTErAçõES MIOfuNCIONAIS ........................................... 9 CAPítulo 2 OrTOdONTIA E IMplICAçõES dE fAlA E MOTrICIdAdE ......................................................... 34 unidAdE ii AVAlIAçãO E TrATAMENTO ................................................................................................................. 63 CAPítulo 1 AVAlIAçãO E TrATAMENTO dOS dISTúrbIOS dE fAlA dE OrIGEM fONéTICA ......................... 63 CAPítulo 2 AVAlIAçãO E TrATAMENTO dOS dISTúrbIOS dE fAlA dE OrIGEM MECâNICA ..................... 128 CAPítulo 3 AVAlIAçãO E TrATAMENTO dOS dISTúrbIOS dE fAlA dE OrIGEM NEurOlóGICA ............... 144 rEfErênCiAS ................................................................................................................................ 157 4 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. 6 Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Exercício de fixação Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/ conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não há registro de menção). Avaliação Final Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber se pode ou não receber a certificação. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 introdução A fim de atender às necessidades do profissional da Fonoaudiologia na área de Motricidade Oromiofuncional (MO) da atualidade, este material, direcionado a alunos do Curso de Especialização em MO (estudo da voz falada, cantada, profissional e de natureza patológica, comunicativa e estética), fornecerá informações imprescindíveis sobre a Avaliação e Reabilitação da Fala Envolvendo Aspectos Miofuncionais, a fim de permitir ao profissional o conhecimento e o entendimento das funções e disfunções a ela associadas. Segundo o Documento Oficial do Comitê de Motricidade Oral (2002), “Motricidade oral é o campo da Fonoaudiologia voltado para o estudo /a pesquisa, a prevenção, a avaliação, o diagnóstico, o desenvolvimento, a habilitação, o aperfeiçoamento e a reabilitação dos aspectos estruturais e funcionais das regiões orofacial e cervical”. A fala é multidimensional, de modo que existem vários métodos de avaliação, incluindo avançados recursos tecnológicos. Entretanto, o profissional precisa estar apto a correlacionar e interpretar os achados de todas as avaliações e indicar o método mais adequado de tratamento. Desta forma, o conhecimento dos processos de avaliação e reabilitação em MO é a base para o direcionamento da equipe envolvida na assistência ao sujeito, no sentido de uma abordagem integral e humanizada, o que efetivamente auxiliará a equipe multidisciplinar no diagnóstico e na terapêutica. A atuação no paciente ou no cliente demanda muito estudo, principalmente por clínicos, para fundamentação de um raciocínio clínico que o leve a uma abordagem eficiente e eficaz. O profissional deve ter conhecimento prévio daquilo que está observando e senso crítico para a interpretação dos dados, correlacionando o quadro apresentado aos aspectos anatomofuncionais, logo, a anatomia e a fisiologia do sistema estomatognático são a base necessária para o êxito na reabilitação. A motricidade orofacial, área da Fonoaudiologia que objetiva o restabelecimento das funções reflexo-vegetativas, promove, por meio de terapia miofuncional, o tratamento das alterações musculares, favorecendo a estabilidade pós-tratamento ortodôntico (MENDES; COSTA; NEMR, 2005). 8 objetivos » Compreender a importância do conhecimento da fala na MO. » Compreender o processo de avaliação na MO. » Compreender o processo de reabilitação na MO. » Promover análise crítica dos processos envolvidos nos distúrbios de fala relacionados à MO. » Analisar a correlação entre anatomia e fisiologia da voz e distúrbios de fala, processos diagnósticos, proposição de exercícios e estratégias de tratamento. 9 unidAdE iSiStEMA EStoMAtognÁtiCo CAPítulo 1 orgãos fonoarticulatórios e alterações miofuncionais O sistema estomatognático, que do grego significa estomato=boca e gnático=mandíbula, identifica um conjuntode estruturas bucais que desenvolvem funções comuns, tendo como característica constante a participação da mandíbula. Como todo sistema, tem características que lhe são próprias, porém depende da função de outros sistemas como o nervoso, o circulatório etc. (GOLDENBERG, 1998). Carvalho (2003) apud BRUM (2010) diz que a integridade funcional e muscular do sistema estomatognático, irá permitir um desenvolvimento e crescimento correto das estruturas dentofaciais, podendo, então, funcionar em harmonia, produzindo saúde para o indivíduo em geral. Marchesan (1998) salientou que o sistema estomatognático é um complexo composto por estruturas passivas e ativas. Este conjunto com características e funções interdependentes necessita de uma abordagem clínica especializada na solução de problemas da motricidade oral. Felício (1999) salientou que o tratamento fonoaudiológico – terapia miofuncional – é necessário, para evitar a manutenção dos padrões musculares inadequados e desenvolver as funções estomatognáticas de maneira correta e equilibrada. É importante, também, para preservar as mudanças conseguidas com a correção ortodôntica das bases ósseas e dos dentes. É fundamental para uma boa oclusão a adequada posição da língua, a eliminação de hábitos nocivos e a reeducação da mastigação, fala, deglutição e respiração. Por isso os objetivos do tratamento fonoaudiológico tem que ser compatível com os objetivos do tratamento ortodôntico. A conduta terapêutica adequada passa por uma interação dos profissionais das áreas relacionadas com o problema apresentado pelo indivíduo. 10 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Estrutura geral O sistema estomatognático é constituído por tecidos e órgãos que compreendem estruturas ósseas, dentes, músculos, articulações, glândulas e sistemas vasculares linfáticos e nervosos, todos associados e podendo ser divididos do ponto de vista funcional. Estruturas passivas ou estáticas São representas por dois ossos bases: um superior fixo chamado maxilar e outro móvel denominado mandíbula, os quais se relacionam entre si através das ATMs, assim como por seus respectivos arcos dentários. Aos componentes ósseo-articulares temos que adicionar o osso hioide e certos ossos craniais, que correspondem em conjunto a estruturas sem motricidade própria. Estruturas ativas ou dinâmicas Correspondem aos músculos esqueléticos ou voluntários com seu comando nervoso (componente neuromuscular) que representam os verdadeiros motores do sistema. Ao entrar em atividade contrátil, põem em movimento as estruturas passivas potencialmente móveis (a mandíbula), através dos músculos mandibulares ou mastigatórios (conjunto muscular mandibular) e o hioide, através dos músculos infra e supra-hioideos (conjunto muscular hioideo). Além do mais, existem grupos musculares localizados tanto por fora dos arcos ósseo-dentários (lábios e bochechas) quanto por dentro (língua), os quais desempenham um trabalho muito importante nas diferentes funções que desenvolve o sistema estomatognático (conjunto muscular língua-lábio-bochecha). Também se deve mencionar, os músculos do pescoço (especialmente o grupo posterior), estes são músculos antigravitacionais que ajudam à adaptação postural do crânio sobre a coluna cervical, durante as diferentes atividades funcionais do sistema (conjunto muscular crânio-cervical). Estruturas anexas Correspondem às glândulas salivares, assim como aos componentes vasculares e linfáticos associados. Como se pode perceber, trata-se de um sistema biológico caracterizado por uma heterogeneidade de tecidos e órgãos, que apresentam diferente composição histológica e 11 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I embrionária, assim como distintas funções. No entanto, mais importante que considerar o funcionamento isolado de cada componente ou estrutura, é o enfoque integrativo de todo o sistema, que constitui uma unidade morfofuncional bem organizada e sincronizada. Esta ação de integração está a cargo do sistema nervoso mediante suas complexas vias e mecanismos de integração e controle. Funcionalmente, então, se deve reconhecer o sistema estomatognático como uma unidade morfofuncional perfeitamente definível e indivisível com respeito ao resto do organismo e que, como tal, se deve compreender, diagnosticar e tratar. O sistema estomatognático cumpre uma série de funções, entre as quais se podem citar quatro principais: mastigação, deglutição, respiração e fonoarticulação. A mandíbula é capaz de realizar uma série de movimentos, que são produtos da atividade sinérgica de diferentes fascículos musculares mandibulares, regulados e coordenados pelo sistema nervoso central. Estes movimentos, não obstante, são guiados pelas articulações temporomadibulares com seus ligamentos, as aponeuroses musculares, os tendões, a tonicidade dos músculos inseridos na mandíbula e os contatos entre as peças dentárias (oclusão) com seus respectivos ligamentos periodontais. (MENEZES, 2014). Anatomia do Sistema Estomatognático. (CÉSAR, 2014. In: <https://www.sigaa. ufs.br/sigaa/verProducao?idProducao=220413&key=5e5b108ad05885768a4a5 c5dc29ccde7>) Para a atuação fonoaudiológica em motricidade orofacial, o profissional precisa conhecer os aspectos anatomofisiológicos envolvidos nas funções sensitivas e motoras do sistema estomatognático. Tal sistema é definido como um conjunto de estruturas orais que desenvolve funções comuns, tendo a participação constante da mandíbula, que em grego é denominada gnatos. (DOUGLAS, 2006, p. 270). Douglas ressaltou, no entanto, que, como o corpo humano funciona de forma integrada, este sistema está inter- relacionado com os demais sistemas, como o músculo-esquelético, o nervoso, o circulatório, o endócrino, o digestivo, o respiratório, entre outros. Marchesan (1999) acrescentou que o profissional deve conhecer os pressupostos teóricos, a fim de que estes subsidiem sua prática, ressaltando a importância do conhecimento do desenvolvimento craniofacial, das estruturas estáticas e dinâmicas que o compreendem; funcionalmente são quatro seus elementos básicos: a articulação temporomandibular, o sistema neuromuscular, as superfícies e pressões oclusais e o periodonto. Estes elementos, segundo Douglas (2006), ao interagirem entre si de forma equilibrada, atingem a homeostase: quando eficientes, apresentam suficiência estomatognática; quando em desequilíbrio, produzem insuficiência. 12 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Desta forma, serão apresentadas, a seguir, as estruturas estáticas e dinâmicas constituintes do sistema estomatognático. Estruturas estáticas ou passivas do sistema estomatognático Os elementos constituintes das estruturas estáticas ou passivas do referido sistema são as seguintes. » O esqueleto ósseo: ossos temporais, esfenoide, maxila, mandíbula, hioide, demais ossos cranianos, coluna cervical, base do crânio e articulações (temporomandibular e da coluna vertebral). » Os dentes (superfície oclusal) » O periodonto (localizado entre a raiz do dente e a cortical alveolar) » A mucosa (oral, lingual, nasal e faríngea) » Os tendões (extremidade do músculo com formato cilindroide ou de “fita”), as aponeuroses (extremidade do músculo com formato de lâmina) e os ligamentos (feixes fibrosos que reforçam as membranas fibrosas das cápsulas articulares, com o intuito de aumentar sua resistência e manter a união entre os ossos (DÂNGELO; FATTINI, 2004). ossos temporais Os ossos temporais (irregulares, por não apresentarem morfologia correspondente a alguma forma geométrica, segundo DÂNGELO; FATTINI, 2004), formam as laterais do crânio. Abrigam, em sua porção petrosa, o sistema auditivo-vestibular e também servem de apoio à articulação temporomandibular. Em sua superfície externa, apresenta três protuberâncias importantes para a inserção de músculos envolvidos nas funções orofaciais miofuncionais (MADEIRA, 2008): 1) o processo mastoide (protuberância localizada atrás do lóbuloda orelha), que apresenta como ponto de ligação o músculo esterno-cleidomastoídeo e, na incisura mastoide (porção medial), insere-se o músculo digástrico (que contribui para a formação do assoalho da boca); 2) o processo estiloide, que fica oculto no interior do esqueleto facial e é uma delgada formação óssea que apresenta, geralmente, 25 mm de comprimento no sujeito adulto. Fica entre as carótidas interna e externa e, posteriormente, à faringe. Neste processo, inserem-se três músculos envolvidos na deglutição: estiloglosso (inervado pelo nervo hipoglosso), estilofaríngeo (inervado pelo glossofaríngeo) e estilo-hioideo (inervado 13 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I pelo nervo facial); forma um complexo (complexo estilo-hioídeo) pelo ligamento estilo-hioideo e corn o menor do osso hioideo; 3) o processo zigomático, que serve de apoio para diversos músculos responsáveis pela mímica facial, no osso zigomático, onde se prendem os zigomáticos maior e menor, responsáveis por elevar o ângulo da boca e o lábio superior, respectivamente (CORBIN-LEWIS; LISS; SCIORTINO, 2009) na mastigação. Alguns músculos apresentam mais de um ventre muscular, como o digástrico, que apresenta dois ventres (MADEIRA, 2008), uma vez que, em sua borda superior, se prende a fáscia do temporal e, em sua borda inferior, se origina o músculo masseter (partes superficial e profunda). osso esfenoide O osso esfenoide, situado em posição profunda no crânio e com formato semelhante a um morcego ou borboleta, mantém conexão com o frontal, o temporal, o occiptal, o parietal, o osso zigomático e com a maxila. Serve como ponto de ligação para diferentes músculos envolvidos na deglutição, pois, em sua porção inferior da asa maior, ficam localizadas as placas pterigoides medial e lateral (por darem origem aos músculos pterigoides), e uma haste em forma de gancho desce da placa pterigoide medial, chamado hámulo. Neste osso há também o ligamento esfenomandibular, protegendo as estruturas e limitando o movimento relacionado à articulação temporomandibular. (MADEIRA, 2008). Maxila A maxila é composta pelo processo frontal (unido ao osso nasal pela sutura nasomaxilar), pela espinha nasal anterior, pelos processos alveolares com suas eminências, pelo forame infraorbital, pela fossa canina e pelo processo zigomático. Originam-se na maxila os músculos: nasal, prócero, levantador do ângulo da boca, levantador do lábio superior e da asa do nariz, orbicular da boca e do olho, bucinador e pterigoideo medial. (MADEIRA, 2008). Mandíbula A mandíbula é composta, em sua borda superior (ramo da mandíbula), por uma curva (incisura da mandíbula) que se divide pelos processos coronoide (onde há a inserção do músculo temporal) e condilar (colo e côndilo), pela fóvea pterigóidea; na borda inferior, pela linha oblíqua, pela tuberosidade massetérica; na borda 14 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO inferior e posterior, pelo ângulo da mandíbula e, na porção anterior, pelo forame mentoniano. Originam-se na mandíbula os músculos: digástrico, abaixador do lábio inferior (na linha oblíqua da mandíbula) e do ângulo da boca, bucinador (na superfície externa dos processos alveolares) e mentual (na fossa incisiva da mandíbula). Inserem-se na mandíbula os músculos da mastigação como o masseter (na tuberosidade massetérica, próxima do ângulo da mandíbula), o pterigoideo medial (na face medial do ângulo da mandíbula), o temporal (no processo coronoide do ramo da mandíbula) e o pterigoideo lateral (na depressão da parte anterior do côndilo da mandíbula), segundo Madeira (2008). A maxila e a mandíbula servem de ancoragem para dentição ( musculatura responsável pela mastigação, mímica facial) e, com a articulação temporomandibular, desempenham importante papel na deglutição (CORBIN-LEWIS; LISS; SCIORTINO, 2009). A maxila superior ainda divide a cavidade oral da nasal, cavidade importante para a função respiratória, para o olfato e para o sistema de ressonância da fala. De acordo com Madeira (2008) e Lemos (2010), a articulação temporomandibular é uma articulação sinovial que permite movimentos amplos da mandíbula em torno do osso temporal, que é fixo. É bilateral e interligada pela mandíbula e, apesar de cada lado realizar um movimento próprio, os movimentos são simultâneos. É revestida de fibrocartilagem e suas partes ósseas são, no processo condilar: 1) cabeça da mandíbula (clinicamente denominada por côndilo), 2) colo da mandíbula (estreitamento ósseo em que com maior frequência há fraturas condilares) e 3) fóvea pterigoidea (local de inserção do músculo pterigoideo lateral), e no osso temporal: 1) eminência/tubérculo articular (situa-se anteriormente à fossa articular e determina a direção do côndilo quando a mandíbula executa o movimento de abertura), 2) fossa mandibular do osso temporal (dividida em 2 partes: anterior, articular e posterior, extra-articular) e 3) disco articular (placa fibrocartilaginosa que se situa sobre a cabeça da mandíbula, estendendo- se anteriormente até a porção posterior do tubérculo articular, com inserção de fibras dos músculos pterigoideo lateral – entre a porção anterior do côndilo e a porção posterior do tubérculo articular e com algumas fibras tendinosas do feixe profundo do masseter, em sua porção medial. Em sua porção posterior, há a zona bilaminar ou ligamento retrodiscal; a superior insere-se na fissura petrotimpânica e a inferior, na cabeça da mandíbula). Hioide O hioide é um osso localizado no pescoço (no nível da terceira vértebra cervical) e não se liga a demais ossos a não ser por músculos e ligamentos. É subdividido em corpo e cornos maior e menor. Na face anterior do corpo do hioide, inserem-se os 15 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I músculos gênio-hioídeo, milo-hioídeo, esterno-hioídeo, omo-hioídeo, tireo-hioídeo e estilo-hioídeo. Em seu corno maior, inserem-se os músculos: constritor médio da faringe e o hioglosso. Seu corno menor é cartilaginoso e calcifica-se no decorrer do avanço da idade, sendo que se liga ao processo estiloide pelo ligamento estilo-hioídeo. (MADEIRA, 2008). A cartilagem epiglote localiza-se na porção superior da laringe, atrás da língua e do osso hioide. A extremidade inferior é designada por petiolo e encontra-se unido à cartilagem tiroídea através do ligamento tiro-epiglótico. Por cima do peciolo, descreve-se o tubérculo epiglótico. A epiglote está unida, anteriormente, ao osso hiide através do ligamento hio-epiglótico. A porção mais alta da epiglote é livre e coberta por uma mucosa que se reflete para a base da língua e para a parede lateral da faringe, formando as pregas glosso-epiglóticas medianas e laterais e entre elas as valéculas glosso-epiglóticas. dentes Os dentes constituem a substância mais dura do corpo humano e o sistema dentário humano é difiodonte, ou seja, apresenta duas dentições, a decídua (incisivos central e lateral, caninos e primeiro e segundo molares – total: 20 dentes, com início da erupção aos 6 meses de idade e término entre 2 anos e meio e 3 anos de idade) e a permanente (incisivos central e lateral, caninos, primeiro e segundo pré- molares – dentes sucessores – e primeiro, segundo e terceiro molares, dentes adicionais – total: 32 dentes, com início da erupção aos 6 anos e término entre 20 e 27 anos, em virtude do terceiro molar, sendo que, entre 12 e 13 anos, já houve o término da erupção dos segundos molares). Este processo ocorre em virtude dos dentes decíduos não aumentarem de tamanho durante o desenvolvimento, ficando em discrepância com as bases ósseas, que sofrem crescimentos. (PETRELLI, 1994). No dente reconhecem-se três estruturas mineralizadas, segundo Douglas (2006): esmalte, dentina e cemento (tecido que recobre a dentina da raiz anatômica do dente), fixados nos alvéolos pelos ligamentos periodontais. O periodonto, segundo Petrelli (1994), é composto pelo cemento, ligamento periodontal e osso alveolar e apresenta proprioceptores importantespara a mastigação, pois, segundo Douglas (2006), gerando pressão interoclusal durante o contato oclusal exigida para a trituração dos alimentos. Mucosas As mucosas (oral, da língua, nasal e faríngea) apresentam receptores específicos (com vias que atingem áreas específicas corticais), responsáveis pela gustação 16 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO (principalmente no dorso da língua, local em que situam nos corpúsculos gustativos) e pela olfação (na mucosa nasal, principalmente em sua mucosa amarela, local em que se localiza a maioria dos receptores da olfação, que na verdade são neurônios receptores primários com características bipolares) e receptores mais ou menos definidos, não específicos, também denominados por sistema somatossensorial (por aferência do V par craniano e pela via do sistema neo-espinho-trigêmio-talâmico – SNETT), que se responsabilizam pelas sensações de pressão (presso-receptores localizados na ponta e nas laterais da língua, para direcionar o alimento em direção aos dentes e no palato duro, eliciando o ato da mastigação, bem como a sensação de pressão nos dentes, de deformação do alimento pelos ligamentos periodontais, de receptores amielínicos na faringe, para sua distensão, retração e deformação da mucosa para o trânsito alimentar; nos lábios, com receptores de limiar baixo para o desenvolvimento de funções como a sucção, o beijo, a fala e o canto; no palato mole, em que há diversos receptores mecânicos sensíveis à tensão, deformação, toque ou pressão, importantes para a deglutição, para deflagar mecanismos protetores e reflexos como o vômito, a eructação), de tato (que pode propiciar a topognosia, em especial na língua, nos lábios, na gengiva e no palato duro, que são os locais mais sensitivos quando comparados com as bochechas e a eliciação do reflexo de gag e vômito) e de dor, por meio de nociceptores, localizados em diferentes locais do corpo que podem ser estimulados por nociceptores termossensíveis, mecanossensitivos e quimiossensitivos. (DOUGLAS, 2006). Estruturas dinâmicas ou ativas do sistema estomatognático As estruturas dinâmicas ou ativas deste sistema são representadas pelas unidades neuromusculares. » Faciais (bucinador, orbicular da boca, zigomáticos, retrator e levantador do ângulo da boca e mentual) » Músculos da mastigação (temporal, masseter, pterigoideo medial e lateral) » Músculos da deglutição (incluindo os músculos do palato, os linguais, os supra-hioideos e infra-hioideos) » Faríngeos (constritores da faringe e o salpingofaríngeo) » Palatinos (úvula, palatoglosso, palatofaríngelo, elevador e tensor do palate mole) 17 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I » Cervicais, com a porção superior do trapézio, esternocleidomastoídeo, esplênios e escalenos. (DOUGLAS, 2006; MARCHESAN, 1999; TASCA, 2002). Dangelo e Fattini (2004) ressaltaram que a musculatura não assegura apenas a dinâmica, mas também a estática do corpo humano, mantendo “(...) unidas as peças ósseas determinando a posição e postura do esqueleto” (p. 43). Quando os autores comentaram sobre as variedades dos músculos, podemos caracterizar os músculos da face como estriados e, por consequência, são tidos como músculos voluntários e esqueléticos. Ainda de acordo com os autores, no ato da contração muscular (realizada pela porção do ventre muscular), há a necessidade que os músculos estejam dentro de uma bainha elástica de contenção, ou seja, pela fáscia muscular, que também facilita o deslizamento dos músculos entre si. No ato da contração muscular, há o encurtamento do comprimento do músculo e, consequentemente, há o deslocamento da peça esquelética (DANGELO; FATTINI, 2004; DOUGLAS, 2006), e os músculos da face desenvolvem, em especial, tarefas importantes que se inter-relacionam como a alimentação, a mímica facial, a mastigação, a fonação e o piscar de olhos, segundo Madeira (2008). Os músculos da face localizam-se logo abaixo da pele e são denominados por cuticulares. Formam uma camada quase única, pois há, muitas vezes, fusão de feixes de músculos entre si, principalmente nos seus locais de inserção e, por este motivo, são tidos como os músculos mais fracos e delicados do corpo humano; ao se contraírem formam uma depressão/linha perpendicular em direção à fibra dos músculos que, com o passar do tempo, formam pregas e rugas. (MADEIRA, 2008). Contraímos os músculos da face para distintas tarefas, em especial, para nos expressarmos, manifestarmos nossas emoções que – ajustadas aos nossos traços de personalidade –, permitem definir nossa fisionomia (MADEIRA, 2008). Assim, quando estamos surpresos, contraímos o músculo occiptofrontal e, na sua porção antagonista, temos os músculos orbicular do olho, o corrugador do supercílio e o prócero, por exemplo (TASCA, 2002), mas como cada indivíduo tem uma forma única e peculiar de se expressar, alguns podem fazer uma contração mais forte para manifestar surpresa enquanto outros não. As condições de vida e de personalidade influenciam de tal forma na constituição desta tida “fisionomia”, que representam as condições adaptativas do ser humano que não nos permite uma norma rígida ou um padrão definido sobre o seu funcionamento, apesar de, em condições normais, apresentarmos as mesmas estruturas e os mesmos órgãos. 18 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO A seguir, serão apresentados os músculos de importância para a compreensão do sistema estomatognático e, ao final do texto, disponibiliza-se síntese contendo origem, inserção e ação de cada músculo. Os músculos peribucais são aqueles que, segundo Madeira (2008), circunscrevem a rima da boca, sendo constritor o orbicular da boca e dilatadores os levantadores do lábio superior, da asa do nariz, do ângulo da boca, os zigomáticos – maior e menor, risório, bucinador, abaixadores do lábio inferior e do ângulo da boca, mentual e platisma. As definições a seguir facilitarão a compreensão de cada músculo. O músculo orbicular da boca apresenta alguns feixes com inserção na espinha nasal anterior e nas fóveas incisivas (da maxila e da mandíbula), estendendo-se do nariz ao lábio inferior, no sulco labiomentoniano. Age no ato de preensão dos alimentos, para assobiar, para manter lábios fechados, para produzir fonemas bilabiais plosivos, para comprimir o lábio entre os dentes, para protrair o lábio entre outras funções. O músculo levantador do lábio superior origina-se logo acima do forame infraorbital (que se encontra coberto pelo músculo orbicular do olho) e insere-se na metade lateral do lábio superior, sendo que muitas de suas fibras se entrelaçam com o músculo orbicular da boca. Em sua porção mais medial, fica vizinho ao músculo levantador da asa do nariz e lábio superior e, em sua porção mais distal, fica ao lado do músculo zigomático menor, apresentando fibras fusionadas com esses músculos citados. Age para elevar o lábio superior. O músculo levantador do lábio superior e da asa do nariz estende-se do processo frontal da maxila (situação que fica encoberto pelo músculo orbicular do olho), estende fibras para a asa do nariz e dirige-se até o lábio superior. Sua função é elevar o lábio superior e a asa do nariz. O músculo zigomático menor situa-se ao lado do levantador do lábio superior, estando fixado no osso zigomático e dirige-se até o lábio superior e auxilia na ascensão deste lábio. O músculo levantador do ângulo da boca encontra-se fixado na fossa canina e é completamente encoberto pelo músculo levantador do lábio superior. Posiciona-se verticalmente e dirige-se até o ângulo da boca, cuja função é elevá-la. O músculo zigomático maior origina-se na face lateral do osso zigomático e dirige-se para baixo, em direção ao ângulo da boca, fundindo algumas de suas fibras com o músculo bucinador. Durante a risada, arquea as comissuras labiais para cima. 19 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I O músculo risório pode surgir da fáscea massetérica ou das fibras posteriores do platisma. Quandose encontra agarrado à pele, ao sorrir, a pessoa pode apresentar “covinhas” em virtude desta variação do músculo risório. Por inserir-se no ângulo da boca, ao contrair-se, retrai lateralmente o lábio. O músculo bucinador origina-se na região molar dos processos alveolares da mandíbula e da maxila e insere-se no ângulo da boca, fundindo-se com fibras do orbicular da boca. Muitas de suas fibras superiores estendem-se ao lábio inferior e muitas de suas fibras inferiores o lábio superior. É um retrator do ângulo da boca e suas funções principais são manter a bochecha distendida durante as fases de abertura e fechamento da boca, evitando que nestas manobras a bochecha seja ferida pelos dentes e manter os alimentos na superfície oclusal durante a mastigação. Age também no sopro e na sucção. O músculo abaixador do ângulo da boca origina-se na base da mandíbula, entre as origens do músculo platisma e o músculo abaixador do lábio inferior, entre a região do molar até o tubérculo mentoniano e vai em direção ascendente até o ângulo da boca, sendo que, ao ser contraído, abaixa e retrai (ligeiramente) a comissura labial. O músculo abaixador do lábio inferior tem origem acima da linha de origem do abaixador do ângulo da boca e dirige-se obliquamente ao lábio inferior, onde se insere, com a função de abaixar o lábio inferior. O músculo mentual origina-se na fossa incisiva da mandíbula, inserindo-se na cutis mentual. Apresenta função de elevar pele da região, protruir lábio inferior e realizar sua eversão. O músculo platisma prende-se à mandíbula, abaixo do músculo abaixador do ângulo da boca e pode apresentar algumas fibras na bochecha, indo até as regiões anterior e lateral do pescoço, cruzando a clavícula e terminando na região peitoral. Tensiona a pele do pescoço. Demais músculos são importantes para o desempenho da mímica facial como o orbicular do olho, o occiptofrontal, o prócero, o corrugador do supercílio e o nasal, a seguir descritos. O músculo orbicular do olho localiza-se ao redor do olho e, em sua contração, há o fechamento e a compressão das pálpebras para dentro. O músculo occiptofrontal apresenta dois ventres, um no occiptal e outro no frontal, sendo que seu ventre frontal insere-se na pele do supercílio e da raiz do nariz e sua função é a de elevar os supercílios. 20 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO O músculo prócero origina-se no osso nasal e insere-se na pele da glabela, entre os supercílios. Apresenta função de tracionar a pele do nariz para cima, formando rugas transversais sobre a ponta do nariz e também ajuda a corrugar o supercílio. O músculo corrugador do supercílio origina-se no osso frontal e termina na extremidade lateral do supercílio, apresentando função de enrugar a fronte e auxiliar na elevação das pálpebras superiores. O músculo nasal divide-se em duas partes: a transversa, que tem a função de contrair as narinas, e outra, a alar, com função de dilatá-las. Origina-se na incisura da maxila e insere-se no tegumento da ponta do nariz septo nasal. funções clássicas As funções clássicas do sistema estomatognático podem ser divididas em mastigação, deglutição, sucção e fala. A seguir, serão descritas as funções com seus substratos musculares. Mastigação A função da mastigação é a ação de morder, triturar e mastigar o alimento (TANIGUTE, 2005). Um grupo de músculos inervados pelo V par craniano – trigêmeo – participa desta atividade; o trabalho muscular precisa ser integrado. Em sua fase incisal, há a elevação mandibular e seu posicionamento topo a topo e, para cortar o alimento, a mandíbula repropulsa-se, deslizando os incisivos inferiores contra a face palatina dos incisivos superiores (DOUGLAS, 2006; MADEIRA, 2008). A força utilizada pelos músculos elevadores da mandíbula, o padrão facial do indivíduo, o estado de saúde e oclusão dentária, o tempo disponível para esta tarefa (se meu tempo for menor, mais utilizarei as fibras do temporal, uma vez que tal músculo é requisitado ao se falar e ao se fechar a boca rapidamente), a integridade neurológica do indivíduo e o modo respiratório são fatores que diferenciarão a incisão do alimento de um sujeito para outro. A trituração do alimento no indivíduo adulto ocorre principalmente nos pré-molares que, segundo Douglas (2006), apresenta maior pressão intercuspideana que os molares. Neste caso, quanto mais duro for o alimento, por exemplo, maior será a força empregada pelos músculos masseter e pterigoídeo medial. Para manter o alimento na superfície oclusal para sua trituração, é desejável que haja tônus equilibrado de bucinador (que empurra medialmente o alimento para a superfície oclusal dos dentes enquanto a língua os empurra lateralmente – MADEIRA, 2008) e do orbicular da boca (que mantém os 21 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I lábios vedados, MADEIRA, 2008), bem como o bom funcionamento do nervo facial (VII par craniano), para que não haja, segundo Corbin-Lewis, Liss e Sciortino (2009), impactação do alimento e possibilidades de engasgos. Para que o alimento seja mais bem triturado e para não fadigar a musculatura, é importante que seja triturado ora de um lado, ora de outro. Além de a língua, o músculo pterigoideo lateral auxilia o movimento de protração, lateralização e depressão mandibular. (TASCA, 2002). A última fase da mastigação é a pulverização, quando o alimento é transformado em partículas menores, sendo esta tarefa realizada, geralmente, pelos molares (TANIGUTE, 2005; DOUGLAS, 2006). Douglas (2006) acrescentou que “(...) as diversas fases da função mastigatória são facilitadas ou sustentadas por contração tônica da musculatura cervical, que determina postura adequada da cabeça para a função mastigatória” (p. 348). Como a mastigação segue um padrão rítmico de abertura e fechamento da boca, na sua fase de abertura, iniciada pela mucosa, pela articulação temporomandibular e pelo periodonto, há relaxamento da musculatura elevadora da mandíbula, e os músculos antagonistas da mastigação se contraem isotônicamente (músculos abaixadores mandibulares: digástrico, milo-hioídeo, gênio-hioídeo), havendo também imobilização dos infra- hioídeos e do estilo-hioídeo. Já para o fechamento, há o inverso, ou seja, a contração isotônica dos músculos levantadores e o relaxamento dos abaixadores da mandíbula. (DOUGLAS, 2006; MADEIRA, 2008). Desta forma, a oclusão e força interoclusal satisfatórias,a preservação da forma do elemento dentário, a inexistência de hábitos orais deletérios, a preservação da integridade óssea, muscular, endocrinológica, respiratória e neurológica, os estímulos ambientais adequados e uma boa base genética (que proporciona harmonia nas características do esqueleto craniofacial) são fatores fundamentais para uma boa mastigação. (TERRA, 2004; DOUGLAS, 2006). Os músculos da mastigação, já citados anteriormente, serão descritos quanto sua origem, inserção e função, sendo que, de forma geral, são três os elevadores (masseter, pterigoídeo medial e o temporal) e um o protrusor da mandíbula (o pterigoídeo lateral), segundo Madeira (2008). O masseter superficial e o temporal são músculos que podem ser palpados, enquanto os pterigoideos (medial e lateral) e o masseter (feixe profundo) por serem profundos e devido à inacessibilidade (como o pterigoídeo medial, que fica na superfície interna da mandíbula) não. Todos têm origem no crânio e inserção na mandíbula e sua característica principal está na atuação em conjunto, muito mais do que na ação isolada. 22 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Agem movimentando a mandíbula em diferentes posições e por ação do ramo motor mandibular do nervo trigêmeo (V), denominado por nervo mandibular, que, ao inervar cada músculo, recebem seu nome (nervo massetérico, nervo temporal profundo, nervo pterigoideo medial e nervo pterigoideo lateral), comentou Madeira (2008). O músculo masseter é potente e é recoberto por uma fáscia (fáscia massetérica), que se insere no arco zigomáticoe nas bordas do ramo da mandíbula (2/3 inferiores da face lateral do ramo). Este músculo cobre praticamente todo o ramo mandibular, com exceção de sua cabeça, o côndilo. Divide-se em duas partes: superficial (do arco zigomático, parte inferior e atrás, até a metade do arco, até o ramo mandibular), que é maior, fica localizada mais anteriormente e possui fibras mais inclinadas e a profunda (parte inferior da metade do arco zigomático até o limite da eminência articular), que é menor, localizada mais posteriormente, apresenta fibras verticais e se entrelaça (no arco zigomático) com feixes superficiais do músculo temporal, sendo que a porção mais anterior do masseter apresenta fusão de suas porções (superficial e profunda). Tem a função de elevar a mandíbula, sendo que sua porção superficial, por apresentar fibras inclinadas, ao ser contraída também movimenta a mandíbula ligeiramente para frente, permitindo a oclusão dentária e a porção profunda. Além de auxiliar na elevação mandibular, auxilia na manutenção da oclusão forçada por mais tempo. (MADEIRA, 2008). O músculo temporal, que apresenta formato de leque, é coberto pela fáscia do temporal e fixa-se na margem superior do processo frontal do osso zigomático, abraçando a margem superior do osso zigomático tanto em sua porção anterior quanto posterior, pois divide-se em duas folhas neste local, estendendo-se até a face medial do processo coronoide da mandíbula e da região retromolar. Sua origem é no assoalho da fossa temporal e tem a função de elevar a mandíbula (com maior contração de suas fibras anteriores), e sua porção posterior realiza movimentos retrusores mandibulares. O músculo pterigoideo medial origina-se na fossa pterigoídea, local em que se relaciona com o músculo pterigoideo lateral e o músculo tensor do véu palatino e insere-se no ramo mandibular, em sua face interna, na tuberosidade pterigoidea. Além de elevar a mandíbula, auxilia no seu deslocamento para frente. O músculo pterigoídeo lateral dispõe-se horizontalmente em relação aos demais músculos da mastigação e relaciona-se com a articulação temporomandibular. Sua margem superior origina-se na fossa infratemporal da asa maior do esfenoide (em suas paredes lateral e superior) e a inferior no processo pterigoídeo (face lateral da lâmina lateral), fundindo-se até chegarem na fóvea pterigoidea do colo da mandíbula. Sua margem superior ainda estende fibras para a porção anterior da cápsula articular e daí para o disco articular. Age no movimento de protração mandibular ao se contraírem 23 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I simultaneamente e, com a contração combinada com os músculos supra-hioídeos, favorece o movimento de rotação da mandíbula – movimento importante para sua abertura. Quando sua ação é unilateral, com movimento agonista de contração de um lado e antagonista de relaxamento do outro, movimenta a mandíbula lateralmente. deglutição Outra função importante do sistema estomatognático é a deglutição, seja de alimento sólido, de líquido ou saliva, que corresponde a uma série de contrações reflexas e ordenadas com o objetivo de levar o alimento ou a saliva da cavidade oral até o estômago. (DOUGLAS, 2006). Divide-se em três fases: a primeira consciente (a oral) e as demais, inconscientes (faríngea e esofágica), segundo Tanigute (2005), ou até mesmo subconscientes, segundo Furkim e Mattana (2004). Furkim, Mattana (2004) e Padovan (2004) acrescentaram uma fase, que denominaram antecipatória, que corresponderia à entrada do alimento na cavidade oral, no qual decidimos o tipo, a velocidade, o volume do alimento a ser deglutido e o ambiente da refeição. Douglas (2006) e Corbin-Lewis; Liss e Sciortino (2009) dividem a primeira fase em dois estágios: o oral preparatório (quando o alimento é levado à boca e transformado em bolo alimentar coeso, incluindo o processo da mastigação com a fragmentação deste bolo em pequenas partículas em uma depressão formada na superfície da língua e pressionado contra o palato duro) e o oral (bolo é impulsionado posteriormente, em direção à orofaringe). Para Padovan (2004), esta fase oral é denominada por fase de transporte e o processo de sucção favorece o deslizamento do alimento, por meio do movimento ondulatório da língua (da frente para trás). Douglas (2006) acrescentou que a deglutição do lactente é tida como primária, associada à sucção (sistema límbico estaria associado ao bulbar da deglutição), e a do adulto, é tida como secundária. Furkim e Mattana (2004) dividiram a fase oral em cinco estágios. » A captação (o alimento é captado com precisão,sem escape, e os lábios mantêm-se vedados). » A qualificação (o alimento é avaliado quanto a volume, densidade, grau de umidificação e quantidade de deglutições). » O preparo (do alimento em bolo alimentar). 24 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO » O posicionamento (do alimento na língua e desta contra o palato duro). » A ejeção (deslocamento do alimento ou da saliva para a região faríngea). Para a modificação da forma da língua, como na fase oral da deglutição, há a participação dos músculos intrínsecos da língua. Quando se faz o transporte do bolo alimentar ou da saliva, há a participação de seus músculos extrínsecos. (MADEIRA, 2008). Outro aspecto importante a ser considerado é que o transporte do bolo alimentar, do líquido ou da saliva são facilitados pela pressão positiva intraoral, facilitada pelo tônus do músculo bucinador e pela posição elevada da mandíbula (proporcionada pelos músculos masseter, pterigoideos e temporal), segundo Douglas (2006). Na medida em que o alimento chega à orofaringe, inicia-se resposta faríngea de deglutição, fase faríngea (inconsciente e involuntária). Nesse momento deve haver sincronismo com a respiração, para que não haja passagem do alimento para as vias aéreas, que é regulado pelo sistema nervoso central (estruturas reticulares bulbares localizadas no tronco encefálico). Participam deste processo de proteção das vias aéreas o músculo levantador do palato (para aposição do palato mole contra a parede da faringe, evitando-se a passagem retrógrada do fluxo para as narinas posteriores), os músculos supra-hioídeos e os intralaríngeos (para levantamento e tração da laringe, bem como para adução das pregas vocais, fechamento da glote e deslizamento horizontal da epiglote – evitando-se, desta forma a aspiração do conteúdo deglutitório para as vias aéreas inferiores e pulmão), havendo parada inspiratória (apneia) e uma pressão negativa para o deslocamento do alimento. (FURKIM; MATTANA – 2004; PADOVAN – 2004; DOUGLAS – 2006; CORBIN-LEWIS; LISS; SCIORTINO – 2009). Na última fase, a esofágica, o bolo alimentar (ou saliva) é levado para o estômago sob a ação dos movimentos peristálticos (PADOVAN, 2004), a partir do relaxamento do esfíncter esofágico superior (FURKIM; MATTANA, 2004; CORBIN-LEWIS; LISS; SCIORTINO, 2009). Douglas (2006) ressaltou que, no terço superior do esôfago, a musculatura é esquelética, seu terço médio apresenta uma gradação de musculatura esquelética e lisa (permitindo o movimento peristáltico supracitado), no terço inferior, a musculatura é lisa e controlada pelo nervo vago. Na última fase, o fluxo aéreo é direcionado para as vias aéreas superiores, eliminando- se a apneia citada anteriormente. (FURKIM; MATTANA, 2004). No processo de mastigação, a língua é de extrema importância e, por este motivo, será descrita a seguir. 25 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I A língua, revestida pela mucosa lingual, encontra-se fixada, no assoalho da boca (pelo músculo genioglosso), ao osso hioide (pelo músculo hioglosso), ao processo estiloide (pelo músculo estiloglosso) e ao palato (pelo músculo palatoglosso) e, internamente, apresenta músculos intrínsecos, que se apresentam por fibras longitudinais (músculos longitudinais superior e inferior) – dispostas antero posteriormente, transversais (músculo transverso) e verticais (músculo vertical), segundoMadeira (2008). Tem importância na mastigação, na deglutição, na higienização da cavidade oral, na gustação e na fala (DANGELO; FATTINI, 2004) e alguns autores comentam que é formada por 17 músculos. Segundo o Comitê de Motricidade Orofacial (Comitê de MO) da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (2002), é dividida assim. » Terços: anterior e médio (corpo), tidos como os 2/3 anteriores (pré- sulcais) da língua, que são móveis e, segundo Madeira (2008), compreende o dorso, as margens, a face inferior e o ápice. » Terço posterior. Corbin-Lewis, Liss e Sciortino (2009) acrescentaram que a raiz da língua é relativamente fixa e que, ao entrar na faringe para se fixar no osso hioide, forma um ângulo aproximado de 90o. O referido Comitê de MO acrescentou que a porção anterior da língua é representada pela ponta da língua e seu ápice (parte pontiaguda) e é presa ao assoalho da boca por um frênulo, segundo Corbin-Lewis, Liss e Sciortino (2009), denominado por frênulo da língua. Pode ser ainda dividida em duas metades no sentido ântero-posterior, sendo que o sulco central é quem possibilita esta divisão da superfície da língua. (CORBIN- LEWIS; LISS; SCIORTINO, 2009). A região sublingual, ou seja, a face inferior da língua é revestida por uma mucosa fina, sendo possível visualizar a veia profunda da língua. Na parte superior da região sublingual, está a mucosa e, na parte inferior, o músculo milo-hioide. Entre a mucosa e o músculo milo-hioide encontram-se duas saliências, as carúnculas sublinguais, responsáveis pela saída dos ductos submandibulares e maior da sublingual. Nesta região, encontra-se a glândula submandibular que possui vários ductos que desembocam diretamente na mucosa. Perto da extremidade anterior do frênulo da língua, há uma prega recortada irregularmente que pode ser seguida em ambos os lados, lateral e posterior, na superfície inferior da língua, denominadas por pregas fimbriadas ou franjeadas. 26 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Os músculos extrínsecos da língua a serem descritos são o genioglosso, o gênio-hioide, o milo-hioide, o palatoglosso, o estiloglosso e o hioglosso e os músculos intrínsecos são os longitudinais, os transversos e os verticais. O músculo genioglosso parte da espinha mentoniana superior (acima do gênio-hioídeo) e, na superfície posterior, da sínfise mandibular, formando, de ambos dos lados, uma placa em forma de leque em direção à língua (do ápice à raiz). São separados por um septo fibroso. As fibras anteriores são verticais de sua origem até a ponta da língua e seu terço médio. As fibras posteriores são horizontais para o terço superior e as fibras intermediárias espalham-se entre as margens horizontal e vertical. Insere-se próximo à borda livre da língua, com feixes mais inferiores ligados ao hioide. É inervado pelo nervo hipoglosso. De acordo com o Comitê de MO (2007) e Madeira (2008), sua função é abaixar a língua (quando todas as fibras se contraem), sendo que suas fibras médias e posteriores protraem a língua e as anteriores retraem a ponta da língua. O músculo gênio-hioideo origina-se na espinha mentoniana e insere-se na metade superior do osso hioide. É inervado pelo nervo hipoglosso. Tem a ação de elevar o osso hioide para cima e para frente, reduzindo e elevando o assoalho da boca. Quando fixado, auxilia o digástrico a tracionar a mandíbula para baixo e para trás (MADEIRA, 2008). De acordo com o Comitê de MO (2007), sua função é elevar o osso hioide, encurtar o assoalho da boca e alargar a faringe. O músculo milo-hioídeo forma o assoalho da cavidade oral de cada lado e une-se por uma rafe milo-hioídea (cordão tendíneo que vai da mandíbula ao osso hioide). Origina-se na linha milo-hioídea e suas fibras posteriores inserem-se no corpo do osso hioide. É inervada pelo nervo milo-hioide, ramo do nervo mandibular (parte motora do nervo trigêmeo – V par craniano). De acordo com o Comitê de MO (2007) e Madeira (2008), tem a função de elevar o assoalho da boca e, com ele, a língua e o osso hioide durante a deglutição e a fala. Quando fixado, auxilia o digástrico na retrusão e no abaixamento da mandíbula. O músculo palatoglosso tem origem na parte da superfície inferior da aponeurose palatina e insere-se na língua póstero-lateral. Este músculo forma o arco palatoglosso e age como um esfíncter, separando a cavidade oral da faríngea, na deglutição e na fala. É inervado pelo nervo vago. De acordo com o Comitê de MO (2007) e Madeira (2008), tem a função de elevar a língua e, quando estiver fixa, pode abaixar o palato mole, bem como a ajudar a estreitar o istmo das fauces. O músculo estiloglosso origina-se da parte da superfície anterior do processo estiloide, indo em direção às porções posterior, lateral e inferior da língua, entrelaçando-se com 27 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I o hioglosso. De acordo com o Comitê de MO (2007) e Madeira (2008), é um músculo retrator e elevador das laterais da língua. É inervado pelo nervo hipoglosso. O músculo hioglosso fica parcialmente coberto pelo músculo milo- hioideo e alcança a língua por baixo e pelo lado. Origina-se na parte da borda superior do corno maior e no corpo do osso hioide. O músculo hioglosso é o depressor da língua (abaixando e retraindo – segundo o COMITÊ DE MOTRICIDADE OROFACIAL, 2007 e MADEIRA, 2008), principalmente se estiver fora da boca, e é inervado pelo nervo hipoglosso. Os músculos longitudinais superior e inferior da língua, intrínsecos da língua, apresentam disposição de fibras no sentido ântero-posterior da língua (MADEIRA, 2008). O superior, ao ser contraído, curva o ápice e as laterais da língua para cima, formando um dorso côncavo. O inferior, ao ser contraído, conduz a ponta da língua para baixo, tornando seu dorso convexo, segundo o Comitê de Motricidade Orofacial (2007). O músculo transverso da língua tem direção transversa na língua (Figuras 21 B e 27) e, ao se contrair, propicia o estreitamento da língua, o espessamento e o alongamento (MADEIRA, 2008). De acordo com o Comitê de Motricidade Orofacial (2007), também age elevando suas margens laterais. O músculo vertical da língua, devido à direção de suas fibras, favorece o alongamento e o alargamento da língua (MADEIRA, 2008). O Comitê de Motricidade Orofacial (2007) acrescentou a função de achatamento da língua. Em virtude de a fase faríngea (inconsciente e involuntária) da deglutição necessitar dos músculos do palato, dos músculos supra e infra-hioídeos, estes músculos serão, a seguir, descritos. Os músculos do palato, segundo Madeira (2008), são o tensor e o levantador do véu palatino, o palatoglosso (já descrito anteriormente), o palatofaríngeo e o músculo da úvula. Nos 2/3 anteriores do palato mole, há uma lâmina fibrosa que se prende na porção livre do palato duro denominada por aponeurose palatina, considerada também como uma expansão do músculo tensor do véu palatino (este músculo é inervado pelo ramo motor do nervo trigêmeo, o nervo mandibular). Os demais músculos do palato estão inseridos nessa aponeurose e são inervados pelo nervo vago (X nervo craniano que tem função de sensibilidade geral, paladar e atividade motora para os músculos citados). O músculo tensor do véu palatino origina-se na fossa escafoide, ao lado do pterigoídeo medial e desce verticalmente até o hámulo do pterigoídeo, contornando-o e direcionando-se 28 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO horizontalmente ao palato. Sua função é, segundo o Comitê de MO (2007) e Madeira (2008), contrair o palato mole, abaixando-o ligeiramente. O músculo levantador do véu palatino (Figura 20) estende-se da base do crânio (parte petrosa do osso temporal) diretamente ao palato mole, na superfície superior da aponeurose palatina. Sua função é elevar o palato mole durante a emissão de sons orais e durante a deglutição e a sucção (MADEIRA, 2008). Também auxilia na elevação da faringe e no contato com a parede posterior da faringe, separando, nestas situações,a cavidade oral da nasal. (COMITÊ DE MOTRICIDADE OROFACIAL, 2007). O músculo palatofaríngeo origina-se na aponeurose palatina e insere-se na faringe, para tanto passa atrás da tonsila palatina, formando o arco palatofaríngeo para depois inserir-se na parede póstero-lateral da faringe. Sua função é aproximar o arco palatofaríngeo de ambos os lados e, assim, estreitar o istmo das fauces, sendo um músculo elevador da faringe e, segundo o Comitê de MO (2007), também eleva a laringe durante a deglutição e a fonação. O músculo da úvula (Figura 20) sai da espinha nasal posterior para inserir-se na mucosa da úvula e, desta forma, encurtá-la ou alargá-la. (COMITÊ DE MOTRICIDADE OROFACIAL, 2007; MADEIRA, 2008). Os músculos supra-hioídeos são compostos por músculos pares que unem o osso hioide ao crânio sendo que, com exceção do estilo-hioídeo (que se origina no processo estiloide do osso temporal), todos se ligam na mandíbula. São músculos supra-hioídeos: digástrico, milo- hióídeo, gênio- hioídeo e estilo- hioídeo. No conjunto são considerados como músculos abaixadores e retrusores da mandíbula, antagonistas aos músculos da mastigação, mas colaborando nesse processo (MADEIRA, 2008). Auxiliam no processo de deglutição e de sucção (nos três a quatro primeiros meses de vida, quando a mandíbula faz movimentos associados com a língua, principalmente em sua retrusão). O músculo digástrico apresenta dois ventres musculares e, por este motivo, tem dois locais de origem, unindo-se por um tendão em comum. Seu ventre anterior encontra-se no corpo da mandíbula (é inervado pelo trigêmeo) e seu ventre posterior (inervado pelo facial) tem origem na incisura mastoídea e desce em direção ao osso hioide, encontrando o tendão e unindo-se ao ventre anterior. Sua função é tracionar a mandíbula para trás, favorecendo seu abaixamento (com sinergismo do pterigoideo lateral), segundo Madeira (2007). De acordo com o Comitê de MO (2007), também auxilia na elevação do hioide e o fixa durante a deglutição e a fala. O músculo estilo-hioídeo origina-se no processo estiloide, desce acompanhando o ventre posterior do músculo digástrico, divide-se em dois feixes e insere-se no osso 29 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I hioide, sendo que, ao ser contraído, leva o respectivo osso para trás e para cima, podendo fixá-lo quando atua em conjunto com os músculos infra-hioídeos (MADEIRA, 2007). O Comitê de MO (2007) acrescentou que este músculo também alonga o assoalho da boca. Este músculo é inervado pelo nervo facial. Os músculos milo-hioídeo (Figura 22 – inervado pelo trigêmeo) e gênio-hioídeo (Figura 66 – inervado pelo hipoglosso) já foram descritos anteriormente. Os músculos infra-hioídeos são constituídos por quatro músculos, cujas denominações, segundo, omo-hioídeo, esternotireoideo e tíreo-hioídeo .Têm a função de abaixar a laringe, o hioide e o assoalho da boca e fixar o hioide para facilitar o trabalho dos músculos supra-hioídeos (MADEIRA, 2008), favorecendo o abaixamento do hioide após a deglutição (COMITÊ DE MO, 2007). Os músculos da fala são os mesmos que executam as funções de mímica facial, mastigação e deglutição, sendo esta considerada uma função adaptada do ser humano. Conclusão A compreensão das estruturas que envolvem os processos de mastigação e deglutição favorece também o entendimento de como o ser humano, utilizando o mesmo arcabouço ósseo e de tecidos moles, pode realizar uma das funções que o distingue dos demais seres vivos, que é a fala. Com a necessidade de interagir, o homem adaptou seus órgãos para tão nobre função e, de acordo com o Comitê de Motricidade Orofacial (2001), entre os conhecimentos e habilidades necessárias para atuação na área, está o conhecimento da anatomia e da fisiologia pertinentes às estruturas orofaciais e cervicais. Síntese dos músculos Músculo occiptofrontal ORIGEM – gálea aponeurótica ou escalpo/ INSERÇÃO – fibras médias do músculo orbicular e prócero/ AÇÃO – enruga a fronte, eleva os supercílios Músculo corrugador do supercílio ORIGEM – músculo orbicular do olho/ INSERÇÃO – músculo orbicular do olho oposto/ AÇÃO – enruga a fronte e auxilia a elevação das pálpebras superiores 30 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Músculo nasal / abaixador do septo ou porção transversal nasal ORIGEM – cartilagem (nariz) incisura da maxila / INSERÇÃO – tegumento da ponta do nariz septo nasal /AÇÃO – estreita as narinas e dirige a ponta do nariz para baixo e alarga a abertura das narinas Músculo prócero ORIGEM – parte inferior do osso nasal e parte superior da cartilagem nasal (mais lateralmente) / INSERÇÃO – parte inferior da testa entre os supercílios / AÇÃO – traciona a pele do nariz para cima, formando rugas transversais sobre a ponta do nariz; ajuda a corrugar o supercílio Músculo levantador do ângulo da boca ORIGEM – fossa canina / INSERÇÃO – ângulo da boca / AÇÃO – traciona o ângulo da boca para cima (mostra o dente canino) Músculo risório ORIGEM – fáscia sobre o masseter, no próprio masseter / INSERÇÃO – pele do ângulo da boca / AÇÃO – traciona o ângulo da boca para cima e para fora Músculo levantador do lábio superior e da asa do nariz ORIGEM – processo frontal maxilar / INSERÇÃO – lábio superior / AÇÃO – eleva e realiza protusão com lábio superior e abertura da asa do nariz (mostra a gengiva) Músculo abaixador do lábio inferior ORIGEM – linha oblíqua na mandíbula / INSERÇÃO – lábio inferior / AÇÃO – traciona lábio inferior para baixo Músculo platisma ORIGEM – porção superior do peitoral maior e deltoide INSERÇÃO – borda inferior da mandíbula e parte do ângulo inferior / AÇÃO – traciona o lábio e o ângulo inferior para baixo e para fora, tensionando a pele sobre o pescoço. 31 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I Músculo orbicular da boca ORIGEM – numerosas camadas de fibras musculares circundando o orifício da boca / INSERÇÃO – maior parte da pele e membrana mucosa externa / AÇÃO – fechamento dos lábios, protração para frente (assobiar) OBS.: Pode se citar que origina e insere nos processos alveolares das maxilas Músculo bucinador ORIGEM – superfície externa dos processos alveolares maxila e mandíbula / INSERÇÃO – ângulo da boca, fundindo-se com orbicular da boca / AÇÃO – ato de pressionar as bochechas firmemente de encontro aos dentes (lateral), ato de tracionar para trás o ângulo da boca Músculo mentual ORIGEM – fossa incisiva da mandíbula / INSERÇÃO – tegumento do mento / AÇÃO – protração do lábio inferior, eleva a pele do mento Músculo abaixador do ângulo da boca ORIGEM – mandíbula, abaixo do ângulo da boca / INSERÇÃO – ângulo da boca / AÇÃO – ato de tracionar para baixo os ângulos da boca Músculo orbicular do olho ORIGEM – parte nasal e osso frontal, processo frontal da maxila / INSERÇÃO – fundem–se as estruturas ligamentosas e músculo adjacente / AÇÃO – fechar firmemente as pálpebras (parte orbitária) e fechar delicadamente (parte palpebral) Músculo masseter ORIGEM – arco zigomático parte superficial – 2/3 borda Inferior/anteriormente parte profunda face medial / INSERÇÃO – face lateral do ângulo da mandíbula / AÇÃO – eleva a mandíbula 32 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Músculo temporal ORIGEM – fossa temporal e linha temporal inferior / INSERÇÃO – processo coronoide da mandíbula / AÇÃO – eleva a mandíbula Músculo pterigoídeo medial ORIGEM – tuberosidade da maxila e processo piramidal do osso palatino / INSERÇÃO – face medial do ângulo da mandíbula / AÇÃO – eleva mandíbula, protação da mandíbula Músculo pterigoídeo lateral ORIGEM – feixe superior da asa maior do esfenoide e crista inferior temporal / INSERÇÃO – depressão da parte anterior do côndilo da mandíbula e cápsula e disco da articulação temporo mandibular / AÇÃO – protação e desvio lateral da mandíbula Músculo zigomático maior ORIGEM – zigoma, osso zigomático / INSERÇÃO – ângulo da boca / AÇÃO – eleva o ângulo da boca Músculo zigomático menor ORIGEM – zigoma (soborbicular do olho) / INSERÇÃO – lábio superior (parte lateral) / AÇÃO – eleva lábio superior Músculo levantador do lábio superior Levantador do lábio superior e asa do nariz – Levantador do ângulo da boca – Risório – Abaixador do ângulo da boca – Abaixador do lábio inferior – Mentual Músculos digástricos ORIGEM – ventre posterior da incisura mastóidea temporal; ventre anterior da fossa digástrica na mandíbula junto à sínfise / INSERÇÃO – os dois ventres unem- se no tendão intermédio, que é ligado por alça fibrosa e com o maior do hioide / AÇÃO – tração póstero–inferior da mandíbula ao abrir a boca 33 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I Músculo estilo-hioídeo ORIGEM – processo estiloide / INSERÇÃO – hioide na junção do corpo do como o maior / AÇÃO – tração póstero-superior do hioide (resistida pelos infra–hioídeos, alongando assoalho) Músculo esternocleidomastoídeo ORIGEM – por duas cabeças manúbrio do esterno e porção medial da clavícula / INSERÇÃO – processo mastóideo do osso temporal / AÇÃO – ambos os músculos agem juntos, para flexionar a coluna cervical, agindo isoladamente, cada um deles roda a cabeça para o lado oposto 34 CAPítulo 2 ortodontia e implicações de fala e motricidade A Fonoaudiologia busca o conhecimento científico, a fim de tornar a sua prática fundamentada em conteúdos consistentes do ponto de vista anátomo-fisiológico e funcional. A relação entre a Fonoaudiologia e a Ortodontia tem sido amplamente estudada, e hoje não se pode mais desconsiderar a necessidade de interação entre essas duas áreas, para a realização de um trabalho eficaz no que tange à oclusão e à motricidade oral, mais especificamente. Por estarmos imersos em uma área de conhecimento relativamente recente, muitas vezes usamos como base de nossa prática clínica dados pesquisados por outras áreas sem ao menos tentar traduzi-los, ressignificá-los para nossa realidade profissional. Na área de motricidade oral, por exemplo, podemos encontrar um número significativo de publicações que se dedicam a discorrer sobre os parâmetros teóricos que a norteiam – influência dos hábitos no desenvolvimento facial, no desenvolvimento da fala, na oclusão, as funções estomatognáticas, entre outras – mas que em sua maioria advém de trabalhos científicos realizados por dentistas, para a obtenção de títulos de especialistas em Ortodontia ou Odontopediatria. (GOLDENBERG, 1998). Carvalho (2003) diz que a integridade funcional e muscular do sistema estomatognático irá permitir um desenvolvimento e crescimento correto das estruturas dento-faciais, podendo então funcionar em harmonia, produzindo saúde para o indivíduo, em geral, já que o sistema estomatognático está relacionado intimamente com outros órgãos e outras funções do corpo. Segundo Largo (2003), a Ortodontia e a Ortopedia têm objetivo comum que é o alinhamento e nivelamento dental, buscando com isso a oclusão cêntrica e a relação central coincidentes. De acordo com a Teoria Geral dos Sistemas (DOUGLAS, 2002), o trabalho de um sistema será mais eficiente quanto menor for o uso de energia gasto para realizá-lo. Como o ser vivo é um sistema aberto, busca constantemente manter seu estado com trocas de energia, matéria e informação com o ambiente. Quanto menos adaptado mais emergia é usada. 35 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I Largo (2003) ressalta que a ação terapêutica será mais eficiente se possibilitar a autorregulação do sistema, isto é, busca do equilíbrio: ser versus ambiente. Para alcançar seus objetivos, a Ortodontia e Ortopedia buscam a cura de uma anormalidade com a consciência do que se está tratando com os mecanismos corretos disponíveis para o tratamento. O foco precisa ser o sistema estomatognático como um todo e não somente com a má posição dentária. A Ortodontia procura resolver os problemas de forma, posição dentária, óssea e muscular, com aparelhagem específica para cada caso, porém o trabalho muitas vezes é comprometido por causa de recidivas orais, pois a função não foi totalmente restabelecida. (FELÍCIO, 1999; MENDES; COSTA; NEMR, 2005). O plano de tratamento adequado necessita de uma visão interdisciplinar. O pensamento terapêutico isolado não pode prevalecer no caso de tratamento de alterações que envolvam dentes, ossos e músculos. A integridade deve ser atingida. (CAMPOS, 2005). Ramirez (1988), afirmou que as alterações verticais estão entre os problemas ortodônticos mais comuns. A mordida aberta é uma alteração vertical com diversas etiologias, envolvendo: fatores genéticos, epigenéticos, locais e gerais. O diagnóstico é essencial para determinar o tipo de tratamento. De maneira geral, o tratamento e prognóstico dependem do tipo de mordida aberta,do tamanho da alteração provocada, da idade e do potencial de crescimento do indivíduo. É indicado o uso de aparelhos e exercícios mioterápicos – terapia miofuncional. A estabilidade depende da severidade do tratamento. oclusão Há uma colocação comumente aceita em Fisiologia segundo a qual o normal não é o único ponto, mas, sim, uma variação. Uma oclusão atraente, equilibrada, estável e sã pode ser considerada normal, ainda que existam posições ligeiramente incorretas. A classificação mais utilizada para má-oclusão é a que apresentou Edward H. Angle, em 1899, que tomou como referência o primeiro molar superior, considerando que a posição deste estava invariavelmente correta. Este dente deve ocluir a cúspide mésio-vestibular no sulco do primeiro molar inferior. Esta é a chamada - chave de oclusão de Angle. Apesar de a classificação de Angle ser dentária, é extremamente útil na avaliação clínica odontológica, devendo ser complementada com dados esqueletais que podem ser obtidos 36 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO através de exames específicos, tais como cefalometria, telerradiografia, radiografia panorâmica, moldes, fotos, enfim, com a documentação ortodôntica completa. Angle sistematizou a má-oclusão em três grupos principais: classes, divisões e subdivisões. Classe I: quando há uma boa relação de crescimento entre maxila, mandíbula e base craniana, ou seja, quando a cúspide mésio-vestibular do 1o molar superior estiver articulando com o sulco vestibular do 1o molar inferior. As anomalias encontradas nessa classe são referentes à posição, à forma e ao número de dentes. Classe II: quando a mandíbula está mais para trás em relação à maxila e à base craniana, o 1o molar superior encontra-se em topo com o molar inferior e, muitas vezes, uma cúspide à frente do molar inferior, sendo que o ideal é que esteja uma cúspide atrás. Essa classe apresenta duas divisões: Divisão 1a: além dos molares estarem em classe II, os incisivos superiores estão inclinados para vestibular – em direção aos lábios. Divisão 2a: os molares estão em relação de classe II, os incisivos centrais superiores estão inclinados lingualmente e os incisivos laterais superiores encontram-se em lábio- versão. Nessa classe ainda temos a subdivisão, quando a Classe II ocorre apenas de um dos lados da arcada – unilateralmente. Classe III: quando a mandíbula encontra-se anteriorizada em relação à maxila e à base do crânio, assim, o 1o molar inferior estará mais para adiante que seu correspondente superior. Complementando a classificação de Angle, existe outra de autoria não definida, comumente usada nas clínicas ortodôntica e fonoaudiológicas, que se refere às alterações oclusais do segmento anterior, em que descreve algumas variações da mordida em oclusões de Classe I, tais como: » Mordida aberta anterior: quando em oclusão, há o distanciamento de alguns dentes na dimensão vertical. Nessa mordida há o toque dos dentes posteriores e um afastamento dos anteriores. » Mordida aberta lateral: Como na mordida aberta anterior, há um distanciamento dos dentes na dimensão vertical, com um afastamento dos dentes laterais. 37 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I » Mordida cruzada: ao invés dos dentes superioresencobrirem os inferiores, estes contêm os superiores. Pode ocorrer em um ou mais dentes, uni ou bilateralmente. » Mordida topo a topo: os dentes superiores não encobrem os inferiores, ficando numa relação de um sobre o outro. » Sobremordida ou mordida profunda: há uma diminuição da dimensão vertical, sendo que os dentes superiores encobrem os inferiores em mais de 1/3. (GOLDENBERG, 1998). desequilíbrio oclusal Galvão (1996) apud Goldenberg (1998) afirma que o desequilíbrio oclusal nem sempre é o resultado de um determinado fator etiológico. São vários os fatores que podem interferir na oclusão normal. Podemos agrupá-los segundo sua origem como hereditários, congênitos ou adquiridos. Hereditários: caracteres patológicos que são passados dos pais para os filhos. Por exemplo, mordidas abertas esqueletais, micro e macrognatia, problemas relativos ao número e tamanho dos dentes etc. Congênitos: anomalias que se formam desde a fecundação até o nascimento. Por exemplo, fissuras lábio-palatais, tumores, paralisia cerebral etc. Adquiridos: diversas alterações dentofaciais que surgem pela ação de fatores locais ou gerais, após o nascimento. Entre os fatores, os adquiridos são os que podem ser detectados clinicamente pelo fonoaudiólogo e, devido à sua abrangência, abordaremos dois importantes. » Deficiência nutricional: podem ocasionar má-oclusões graves por perdas prematuras de dentes, retenção prolongada ou desvios significativos no eixo de erupção. » Pressões anormais por hábito ou função: o osso é um tecido plástico que reage às pressões que agem sobre ele. Normalmente, na posição postural de descanso, há um equilíbrio das forças musculares intra e extrabucais, que evita o deslocamento anterior dos dentes. Um dos fatores mais frequentes no rompimento desse equilíbrio é o bico da mamadeira não fisiológico, que obriga a criança a manter a abertura maior de boca, exigindo 38 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO em demasia o mecanismo do bucinador, podendo causar, futuramente, problemas ortodônticos. O uso da chupeta até os 3,5 anos de idade não produz, em geral, efeitos danosos à oclusão. Para que efeitos prejudiciais venham a produzir-se, com respeito aos hábitos em geral e à sucção em particular, é necessária a combinação de três fatores, como duração, frequência e intensidade. Outros hábitos importantes que podem originar má-oclusões são as pressões com os lábios e a língua e a onicofagia. A interposição da língua entre os dentes e o hábito de morder os lábios e roer unhas, geralmente, provocam desequilíbrio funcional e consequente má-oclusão. » Sucção dos dedos: mais comumente o polegar, vigorosa, repetida e constante, associada à contração bucal e labial, parece ser o tipo de hábito mais relacionado a má-oclusão. » Deglutição atípica: a deglutição normal depende de um mecanismo sinérgico que envolve os músculos linguais, os da expressão e os da mastigação. Quando essa sinergia é rompida, podem ocorrer várias anomalias no processo e teremos a chamada deglutição atípica. Esta se caracteriza pela pressão constante da língua, ainda que leve, contra os dentes, sendo que essa é variável em relação às áreas das arcadas dentárias. Embora a pressão da língua se verifique com maior frequência contra os incisivos, ela também ocorre lateralmente contra os demais dentes. Tal ação pode, ainda, atuar separadamente na arcada superior, na inferior ou em ambas. A deglutição atípica, em geral, é precedida de uma mastigação também atípica que, por sua vez, é resultante de movimentos anormais de mandíbula e dos músculos que tomam parte da mastigação. » Amígdalas hipertróficas: as hipertrofias ocasionadas por inflamações podem determinar alterações temporárias no posicionamento lingual, a fim de reduzir a sensação dolorosa que advém do próprio quadro. Além disso, as amígdalas hipertróficas podem ocasionar desvios nas funções de deglutição e respiração. Em qualquer dessas situações, as amígdalas hipertróficas podem favorecer uma má-oclusão. » Bruxismo: pode ser causado por fatores psicogênicos, neuromusculares e/ou ambientais. O excessivo e contínuo ranger dos dentes pode ocasionar 39 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I desgastes ou mesmo fraturas dentais, o que obviamente pode gerar uma má-oclusão. » Hábitos alimentares: a criança encontra-se preparada para a mastigação a partir da erupção dos primeiros dentes e, portanto, necessita de uma alimentação mais consistente para que possa exercitar seu padrão mastigatório, padrão este que interfere diretamente no desenvolvimento crânio-facial. Observa-se que uma dieta alimentar líquido-pastosa determina um padrão muscular hipotônico, podendo gerar desvios de crescimento e/ou oclusais. » Traumatismos e acidentes: os dentes decíduos desvitalizados por choques e pancadas podem ter padrões de reabsorção anormais, desviando os sucessores permanentes, ocasionando má-oclusões. » Perdas prematuras: os dentes decíduos, além da função mastigatória, são verdadeiros e naturais mantenedores de espaço. A perda do 1o ou 2o molar decíduos, acarreta geralmente o deslocamento para mesial dos elementos posteriores à falta, determinando uma má-oclusão. Além disso, pode haver uma ocupação desse espaço pela língua, e quando a perda se mantém por um período prolongado, pode se instalar uma posição viciosa da língua. A perda de dentes permanentes, principalmente primeiros molares, provoca graves alterações na oclusão, ainda mais se a perda ocorrer antes que a dentição esteja completada. » Cáries: a restauração de dentes cariados se impõe, não só para evitar a dor e a infecção, como também para a conservação da integridade dos arcos dentários, da oclusão e do padrão mastigatório. » Restaurações dentárias inadequadas: os contatos imperfeitos podem ocasionar deslizamentos, impactação de alimentos, perdas ósseas, contatos prematuros etc. As restaurações bem executadas, devolvendo a forma e função do elemento dentário, são considerados excelentes procedimentos de Ortodontia Preventiva. » Respiração bucal: é comum a suposição de que a função pode está diretamente ligada ao desenvolvimento dentofacial. Todo paciente com obstrução nasal crônica pode se tornar um respirador bucal, o que normalmente leva a alterações na face, principalmente durante a fase de crescimento. 40 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Hábitos orais e oclusão (goldEnBErg, 1998) Jamais se poderia abordar o tema hábitos orais nocivos ( perniciosos) ou deletérios sem antes diferenciá-los das atividades realizadas pelo sistema estomatognático com finalidade fisiológica. Neste sentido toda e qualquer ação que não seja própria ou natural de um órgão, sistema ou aparelho constitui-se num hábito parafuncional e, portanto, prejudicial ao sistema mastigatório. Atuando parafuncionalmente e, portanto, em demasia, a musculatura atinge seu limiar de resistência a tais sobrecargas, o que é explicado bioquimicamente por Cohen ( 1978). Este pesquisador afirma que maior energia é necessária durante a realização de hábitos parafuncionais, em contraste com a mínima quantidade de energia requisitada durante as atividades funcionais. Segundo ele, alguns hábitos parafuncionais são caracterizados por períodos prolongados de contato dentário, com concomitante exagerada contração muscular. A etiologia dos hábitos orais é diversificada, podendo estar relacionada, entre outras causas, a fatores psicológicos ou à repetição contínua de um ato. A interação entre o sistema muscular e os hábitos, produzem consequências diretas sobre ossos, dentes e tecidos moles, pois estes envolvem atividades musculares das regiões facial (ou da mímica), mandíbula (ou da mastigação) e portal (músculos dos tratos respiratórios e alimentar superior), interagindo tanto na inervação sensitiva quanto na motora. Graber (1974) afirma que não há dúvidas que os hábitos orais estão associados às má- oclusões, mas, sim, se são fatoresetiológicos ou apenas estão relacionados, sendo a etiologia desconhecida; porém é necessária a associação de três fatores que modificam o hábito: duração, frequência e intensidade. Menciona ainda que os hábitos não podem ser vistos isoladamente, principalmente sem considerarmos os fatores genéticos, e que não costumam causar danos definitivos se abandonados até os 3 anos de idade; eles normalmente agravam as má-oclusões inerentes aos padrões faciais herdados. Ainda no que se refere ao fator etiológico, tanto os hábitos funcionais quanto os parafuncionais estão relacionados aos mecanismos psicológicos, o que contribui para que possam sofrer alterações, evoluções, transferências e transformações. Pizarro; Honorato (1981) consideram que há um equilíbrio entre as forças intra e extrabucais em repouso e, quando se instalam os maus-hábitos orais, rompe-se esse equilíbrio e se produzem diversos graus de transtornos dentomaxilares. Consideram 41 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I que o uso de mamadeira com bicos inadequados, o uso prolongado de chupeta e a sucção digital podem ser causadores ou agravantes de má-oclusões. Pesquisando 79 crianças de 5 anos, encontraram 81,1% de portadores de maus- hábitos. Dessas observações, concluíram que há uma alta incidência de maus hábitos em pré-escolares com predominância no sexo masculino: a associação entre dois ou mais hábitos é o habitual; a respiração bucal ( 31,4%) e a deglutição atípica ( 27,3%) são os maus-hábitos predominantes; o uso de chupeta, mamadeira, resfriados frequentes e hipertrofia das amígdalas são as características mais frequentes; as sequelas mais comumente encontradas foram a mordida aberta anterior, a compressão maxilar lateral e palato alto; os maus-hábitos de interposição( dedo, por exemplo) apresentaram como sequelas diastemas e má-oclusões focais. Silva Filho et al. (1986 a, b) considera como hábitos bucais deletérios as funções bucais que constituem fatores etiológicos em potencial na deteriorização da oclusão e na alteração do padrão normal de crescimento facial, como a respiração bucal, as funções anormais da língua durante a deglutição, a fonação e postura, os hábitos prolongados de sucção de dedo e/ou chupeta, entre outros. Ressaltam, entretanto, que tais hábitos até a idade de 3 a 3,5 anos são considerados plenamente normais, fazendo parte do desenvolvimento emocional da criança, não trazendo consequências prejudiciais permanentes para a oclusão, pois até essa idade há uma forte tendência para a autocorreção da má-oclusão, apesar de essa correção espontânea ser dependente de vários fatores, tais como a competência da musculatura perioral e o padrão respiratório. Moyers (1991) afirma que a sucção do polegar, bem como de outros dedos,a interposição de língua, a onicofagia, a mordedura e a sucção dos lábios são as causas mais comuns que alteram a oclusão. Entretanto parece importante citar deglutição atípica, respiração bucal e hábitos de postura, uma vez que estes constituem frequentes causas de problemas ortodônticos. Por outro lado, hábitos como o bruxismo, extremamente envolvido nos quadros de disfunção temporomandibular, devem ser conhecidos para que se possa interpretar alterações musculares sem causa aparente. Lino (1993) afirma que os hábitos são fatores etiológicos das má- oclusões e sugere que sejam retirados o mais cedo possível, como manobra ortodôntica preventiva. oclusão e respiração Entre os hábitos deletérios, a respiração bucal foi citada por todos os autores discutidos e, por isso, a importância de discuti-la mais especificamente. Guardo (1982) afirma que a respiração bucal acarreta má-oclusões, pois, ao ser rompido o equilíbrio fisiológico no qual está embasado todo o desenvolvimento dentomaxilofacial, produz-se mudanças 42 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO anormais nos tecidos, tanto ósseos quanto musculares. Afirma, também, que quanto mais precocemente se instale a respiração bucal, maiores serão as alterações bucais, uma vez que ossos jovens, não suficientemente mineralizados, são facilmente moldáveis. Bruer (1989) considera que uma criança que apresenta respiração bucal pode apresentar alterações oclusais, mas que estas dependerão sempre da frequência e da intensidade da mesma, bem como da disposição genética do paciente para sofrer em maior ou menor grau as influências desse tipo anormal de respiração. Minervini et al. (1990) afirmam que a respiração bucal pode prejudicar o desenvolvimento crânio-facial, contanto que haja predisposição genética. Discorrem também sobre muitas outras complicações orgânicas que o respirador bucal pode apresentar, tais como dificuldades de aprendizagem, lentidão, sonolência, escolioses, hipóxia e descompensações cardíacas, entre outras. Articulação e oclusão Silva (1983), após o estudo das funções estomatognáticas, tece relações detalhadas sobre a classificação de Angle e a produção de fonemas. A autora acredita que as má-oclusões causam alterações articulatórias, como, por exemplo, a mordida aberta anterior pode interferir na articulação dos fonemas (t, d, n, l, r) e a mordida aberta lateral nos fonemas sibilantes (s, z, ch, j). Douglas (1988) afirma que a má-oclusão é uma causa de alteração na fala, assim, 80% dos indivíduos com má-oclusão apresentam. Ele relaciona, ainda, a mordida aberta anterior severa e o prognatismo com distorções dos fonemas /f/ e /v/ e a retrusão mandibular com distorções dos fonemas /p/, /b/, /m/, /s/ e /z/. Guedes (1985) aponta como consequências de uma má-oclusão as deglutições atípicas, o que acarretaria a diminuição do tônus e mobilidade muscular, favorecendo as imprecisões articulatórias como o sigmatismo frontal ou ceceio (ponta de língua contra os incisivos) ou lateral (bordos de língua contra os molares ou pré-molares), ocasionando um som “palatizado”, que pode ou não ser acompanhado de escape de saliva. 43 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I o que são e como tratar as alterações de fala de origem fonética Fonte: Dra. Irene Queiroz Marchesan. Especialista em Motricidade Oral pelo CFFa. Mestre em Distúrbios da Comunicação pela PUC – SP. Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Diretora do CEFAC – Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica. E-mail: Irene@cefac.br A fala é a representação motora da linguagem. Para uma fala normal, precisamos da integridade e da integração da cognição, com os sistemas neuromuscular e músculo – esqueletal. O estudo da fala, como a articulação dos sons, é realizado pela fonética e o estudo da aquisição dos fonemas de uma língua é pertinente à fonologia. A fonética estuda os sons como entidades físico-articulatórias isoladas e a fonologia irá estudar os sons do ponto de vista funcional como elementos que integram um sistema lingüístico determinado. A fonética descreve os sons da linguagem analisando suas particularidades articulatórias, acústicas e perceptivas e a fonologia estuda as diferenças fonêmicas intencionais, distintivas, ou seja, as que trazem diferença de significado. A unidade da fonética é o som da fala, ou o fone, enquanto a unidade da fonologia é o fonema. As alterações de fala correspondem às alterações que afetam os padrões de pronúncia ou de produção dos sons da língua. Os distúrbios motores da fala podem ser definidos como distúrbios de fala resultante de deficits neurológicos, afetando a programação motora ou a execução neuromuscular da fala. Estas alterações estão ligadas, principalmente, às fases de programação e/ ou execução neuromotora. Neste capítulo, estudaremos as alterações de fala de origem fonética. Estas podem ocorrer por alterações neuromusculares ou por alterações músculo-esqueletais. As alterações de fala de origem neuromuscular englobam as disartrias e as dispraxias. As alterações de origem músculo-esqueletais correspondem aos distúrbios causados por problemas nas estruturas ósseas, nas cartilagense /ou nos músculos envolvidos na produção da fala. Evidentemente que para compreender as alterações da fala temos que estudar a fisiologia da produção da mesma, assim como a anatomia das estruturas que a produzem. Não é o propósito deste capítulo desenvolver com profundidade esses aspectos, mas queremos, aqui, levantar alguns pontos mostrando a importância deste tópico. Quando dois ou mais órgãos se combinam de forma a mostrar-se como uma unidade funcional, eles são chamados de “sistema”. Por exemplo, temos os sistemas: esqueletal, articular, muscular, digestivo, vascular, nervoso e respiratório, entre outros. Evidentemente nenhum destes sistemas é independente dos outros. Para o mecanismo 44 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO da fala usamos mais uns, do que outros desses sistemas, embora todos eles sejam necessários para a correta produção da fala. Os sistemas mais utilizados para a produção da fala são: esqueletal, muscular, nervoso e respiratório. Quando encontramos alguma alteração na fala, evidentemente todos os sistemas devem ser verificados, pois um deles, mais provavelmente, é o causador da alteração encontrada. Assim, o clínico deve ter um bom protocolo de avaliação, o qual inclua os vários aspectos que poderão interferir na produção da fala. Para a produção da fala necessitamos de bons mecanismos de respiração, fonação, articulação, ressonância, de boa audição e, evidentemente, do feedback auditivo e proprioceptivo. Claro fica, que todos estes processos não ocorrem em uma determinada ordem, mas tudo acontece simultaneamente, sendo que um aspecto influencia o outro e todos são comandados pelo sistema nervoso central. Por exemplo, para a correta produção dos sons da fala, precisamos da integridade dos pulmões, da traqueia, da laringe, das cavidades nasais e da boca. Qualquer uma das partes não funcionando adequadamente, fará com que o produto final não seja de boa qualidade. Isto significa que conhecer os vários sistemas e as várias partes que participam da produção da fala é essencial. Assim, quando avaliamos qualquer alteração na produção de um som, vamos lembrar de que será essencial verificarmos item a item dos participantes da produção deste som para sabermos onde está o problema e, consequentemente, do que vamos tratar. Vamos ainda nos lembrar de que a qualidade de muitos sons pode ser grandemente modificada, por exemplo, pelas mudanças na configuração do trato respiratório, do trato vocal e da anatomia da boca e de seus componentes, assim, é muito importante conhecer em profundidade todos estes e outros elementos participantes da produção do som para identificar e classificar as alterações articulatórias encontradas na fala. Uma analogia física do mecanismo da fala consistiria de: estoque de energia (representado pelo mecanismo de respiração), elementos de vibração, sistema de válvulas e dispositivo de filtros. Finalizando, alterações no sistema nervoso trariam como consequência problemas na fala de origem neurológica e alterações das estruturas que a produzem; levariam a problemas de fala de origem muscular ou esqueletal. Quando estas alterações são apenas da produção sem envolver a linguagem, dizemos que são de origem fonética de causas neurológicas ou músculo-esqueletais. Alterações de fala de origem fonética 1. Causadas por alterações neurológicas Uma alteração de fala, cuja causa é decorrente de alterações do sistema nervoso, pode resultar em disartria ou dispraxia. Estas alterações são, em geral, consequências de 45 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I lesões neurológicas. Apesar de a causa ser a mesma, os sintomas de cada uma destas alterações são bem diferentes e já foram bem descritos na literatura. disartria O termo disartria vem do grego dys + arthroun que significa inabilidade para pronunciar claramente. A disartria é definida como articulação imperfeita da fala causada por uma lesão no sistema nervoso central ou periférico. Normalmente os distúrbios causados pela perda do controle muscular dos mecanismos da fala são fraqueza, paralisia do aparelho fonador ou incoordenação da musculatura da fala. As características mais comuns da disartria são a imprecisão na articulação das consoantes, assim como a velocidade lenta da fala. Existem vários tipos de disartrias e elas se diferenciam por diferentes características de fala e de voz. As disartrias mais citadas na literatura são: flácida, espástica, hipocinética, hipercinética, atáxica e mista. Os principais quadros neurológicos onde as disartrias costumam ocorrer são nas alterações: do neurônio motor superior – córtex e trato piramidal; extrapiramidais; cerebelares; de danos de localização desconhecida e da junção mioneural. Para avaliar as alterações que ocorrem nas alterações motoras da fala é fundamental que saibamos a etiologia da disartria, já que algumas ocorrem após traumas encefálicos e outras são devido a doenças neurológicas degenerativas. Precisamos avaliar aspectos como força, amplitude e velocidade de cada um dos movimentos envolvidos na fala. A avaliação constará de aspectos objetivos e subjetivos. Deverá ser realizada a avaliação dos aspectos vocais e da articulação da fala. A terapia será planejada de acordo com a origem da alteração e com os achados encontrados na avaliação. Assim, a avaliação e o conhecimento das causas da disartria são fundamentais para que se possa obter maior assertividade no tratamento. Terá forte influência no trabalho a ser desenvolvido: o estado neurológico, a história de vida, a idade, a presença de ajustes automáticos, o tratamento multidisciplinar, a personalidade do sujeito e o sistema de apoio, ou seja, a influência da família no tratamento e outras atividades que o paciente terá durante o mesmo. Outros autores sugerem que a terapia deva estar baseada na fisiologia de funcionamento das estruturas envolvidas na alteração, propondo então a análise de cada um dos componentes da fala. Considerar os processos básicos da fala – respiração, fonação, ressonância, articulação e prosódia – pode ser o ponto de partida para a avaliação e o tratamento. 46 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Evidentemente, o trabalho a ser realizado deverá considerar as particularidades de cada paciente, considerando-se sempre a causa e a fisiologia das alterações encontradas. dispraxia A dispraxia, assim como a disartria, também é considerada como uma alteração motora da fala, causada por uma lesão cerebral. Os termos dispraxia e apraxia são utilizados muitas vezes como sinônimos na literatura, embora o prefixo “dis” signifique diminuição e o prefixo “a” signifique ausência. A apraxia ou dispraxia foi caracterizada como uma alteração articulatória resultante de um distúrbio na capacidade de programar o posicionamento dos músculos da fala e de sequencializar os movimentos na produção intencional ou espontânea dos fonemas. Ao contrário da disartria, não há fraqueza ou lentidão significantes, ou mesmo incoordenação destes músculos nos movimentos reflexos ou automáticos. Outras interessantes definições sobre dispraxia podem ser encontradas na literatura como as que se seguem. As dispraxias de desenvolvimento são um grupo de alterações fonológicas resultante da ruptura dos processos sensório motores centrais que interferem com o aprendizado motor da fala. A dispraxia da fala em adultos é um distúrbio neurogênico com neuropatologia documentada no hemisfério esquerdo incluindo áreas como a de Broca e motora suplementar; primariamente um distúrbio articulatório (fonológico) caracterizado por problemas sensório motores para posicionar e seqüencializar os músculos para a produção voluntária da fala; associada com problemas de prosódia; não sendo causada por fraqueza muscular ou lentidão neuromuscular; presumindo-se ser uma alteração da programação da fala. Algumas das principais características da dispraxia estão aqui descritas: os erros de articulação aumentam proporcionalmente à complexidadedo ajuste motor que a articulação exige; a zona de articulação do fonema deve ser considerada já que os palatais e dentais são mais suscetíveis a erros do que outros sons; o modo de articulação também interfere na produção da fala, sendo que os fricativos são mais difíceis de serem articulados do que os plosivos; a repetição de fonemas, de pontos anteriores para posteriores, é mais fácil; as consoantes iniciais tendem a serem produzidas mais inadequadamente do que quando em outras posições; a repetição se apresenta pior do que a fala espontânea; a articulação correta parece ser influenciada pela forma de apresentação do estímulo. Conhecer, estas e outras características da dispraxia é importante para avaliarmos corretamente o paciente, e definirmos qual será a melhor estratégia de terapia para ele. 47 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I O propósito da avaliação dos problemas motores da fala é: descrever e detectar o problema; determinar as possibilidades de diagnóstico; determinar o diagnóstico; constatar implicações para a localização do problema e o diagnóstico da doença e especificar a severidade. As diretrizes gerais para o exame são: história do paciente; características evidentes; sinais confirmatórios e integração dos achados. Para o exame motor da fala devemos: obter a história; examinar os mecanismos da fala durante atividades que não envolvam fala; avaliar as características perceptuais da fala; avaliar a inteligibilidade e obter medidas acústicas e fisiológicas. Como considerações gerais para o tratamento da dispraxia podemos elencar os seguintes itens: começar a terapia o quanto antes; as sessões devem ser mais frequentes do que o usual; considerar se não existem outras alterações associadas; adiar o tratamento quando houver afasia associada até que alguma linguagem seja reestabelecida; iniciar cada sessão com tarefas fáceis sempre para depois introduzir as mais difíceis; terminar a sessão com algo de sucesso; estar consciente que o tratamento é essencialmente comportamental; estar consciente de que o tratamento é limitado e os efeitos podem ser indiretos e temporários; estar consciente que não adianta usar feedback auditivo atrasado; enfatizar a eficiência comunicativa; enfatizar a precisão articulatória e, treinar cuidadosamente tarefas de fala como – fala automática antes da espontânea; sons mais frequentes na língua; sons em posições iniciais na palavra; sons visíveis; oral e nasal antes de surdo e sonoro; surdo e sonoro antes de modo; modo antes de ponto; bilabial e linguo-alveolar antes dos outros; usar palavras de alta frequência; palavras com significado; palavras monossílabas e dissílabas antes e palavras antes de frases ou sentenças. Como procedimentos de tratamento da dispraxia podemos elencar os seguintes itens: indicar psicoterapia e garantir apoio para o cliente e para a família; usar práticas consistentes e variáveis; produzir modelos de sons com freqüência para o paciente poder imitá-lo; garantir a prática sistemática para a produção dos sons da fala; reduzir o ritmo da fala inicialmente; aumentar o ritmo da fala quando a precisão articulatória melhorar e estabilizar; usar técnicas que possam promover a prosódia naturalmente; trabalhar com a colocação fonética do som e com suas variações; usar uma variedade de sons e combinações de sons; praticar produções de sons com material significativo; dar instruções e demonstrações de produção de fala; fornecer feedback específico imediatamente; usar instrumental para biofeedback ou feedback quando necessário; focar as atividades do tratamento em atividades de fala; usar atividades com ênfase nos contrastes da fala; usar técnicas com pistas; usar contrastes fonéticos; inicialmente usar atividades de fala automática para evocar fala; usar frases simples; usar canto; usar exercícios para conseguir o fechamento das pregas vocais e a fonação quando necessário; usar laringes artificiais quando necessário; enfatizar a comunicação total, 48 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO combinando o uso de expressões verbais com gestos, com escrita, com comunicação alternativa; ensinar habilidades de auto controle e auto monitoramento; usar técnicas de tratamento de alterações articulatórias e de alterações fonológicas. Segundo uma pesquisa desenvolvida em um centro americano, a incidência de alterações motoras da fala – disartrias e dispraxias, é de 36,5%, as alterações de fala por deficiências anatômicas, 9,3% e as alterações cognitivas-linguísticas, 9,2%. Como podemos observar as alterações de fala por problemas neuromotores é muito maior do que as demais. Em geral, o investimento nos cursos de graduação de Fonoaudiologia para ensinar a avaliar e tratar as alterações de fala de origem fonológica, é muito maior do que para os de origem fonética. Apontamos ainda que, entre as alterações de fala de origem neurológica, a disartria tem 46,3% e a dispraxia apenas 4,6%. 2. Causadas por alterações nos músculos, cartilagens ou ossos Existem influências na produção da fala que não têm como causa os processos cognitivo- linguísticos ou as alterações neuromotoras. Em algumas alterações, fica muito claro que não há comprometimento do sistema nervoso. Em outras alterações, as causas são difíceis de serem detectadas, mas sabemos que não são alterações, nem neuromotoras, nem especificamente cognitivo-linguísticas. Estas são as alterações de fala cuja origem pode estar nas alterações dos músculos, das cartilagens ou dos ossos e são chamadas de alterações de fala de origem músculo- esqueletais. Temos, como exemplo clássico destas alterações, a fala dos indivíduos com fissuras de lábio e/ou palato. Podemos considerar ainda os laringectomizados, os indivíduos que sofreram fraturas nos ossos da face, as variações anormais na forma e no tamanho da cavidade oral, as alterações dentárias, as cirurgias que levam a lesões de forma ou do tecido e assim por diante. A integridade de músculos, ossos e cartilagens é crucial para se obter uma fala normal. Lesões, ferimentos, doenças, alterações congênitas, cirurgias, modificações que ocorrem com a idade, poucos cuidados com os dentes, por exemplo, são fatores a serem considerados nas alterações de fala. Outras influências físicas, tais como variações anormais no tamanho e na forma das estruturas da fala ou o efeito de doenças sistêmicas também podem alterar a fala. Ao avaliarmos uma alteração de fala, buscando causas de origem músculo-esqueletal, nós devemos nos centrar, durante a avaliação, na anatomia e fisiologia das estruturas que participam da produção da mesma. As possíveis causas das alterações de fala de origem muscular podem ser por: paresias, fibroses, atrofia muscular, perda da mobilidade, fasciculações, alterações de tamanho ou forma. 49 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I As alterações de fala de origem esqueletal podem ser por: alterações nos ossos ou na conformação da face. A ausência de dentes, as próteses, a má-oclusão, por exemplo, podem afetar a fala. Os sons mais afetados nas alterações músculo-esqueletais, em geral pelas más condições das estruturas orais, principalmente as oclusais, são as sibilantes, /s/. Comentaremos a seguir as interferências mais frequentes nas alterações de fala de origem músculo- esqueletal explicando como estas causas interferem na produção da fala. tonsilas hipertróficas Quando há aumento das tonsilas, da faríngea e ou das palatinas, observamos que a passagem para o ar fica diminuída ou mesmo totalmente obstruída. Quando isto ocorre a boca se entreabre e a língua toma uma posição mais baixa. Como consequência deste posicionamento inadequado de lábios e língua, podemos ter: flacidez da língua e dos lábios, principalmente do inferior; retração do lábio superior; possível atresia do arco maxilar; possíveis alterações oclusais, sendo que as que mais interferem com a fala são as mordidas abertas ou cruzadas unilaterais. As funções de mastigar e deglutir tambémpodem, como consequência do aumento das tonsilas, estarem alteradas. É ainda previsto acúmulo de saliva na cavidade oral, uma vez que o número de vezes que o paciente passa a deglutir se torna menor. Com este quadro de alterações ósseas, dentárias, musculares e funcionais, poderemos ter alterações nos fonemas sibilantes que podem estar sendo produzidos de forma distorcida, principalmente por causa do posicionamento da língua. Além da distorção, pode ocorrer imprecisão, já que a flacidez da língua dificulta que os pontos de contato sejam corretos. Em alguns casos, a parte média da língua fica elevada facilitando o aparecimento do ceceio lateral. Se ocorrer mordida aberta anterior, também poderemos ter o ceceio anterior. Os indivíduos que respiram pela boca, não importando a causa, quase sempre terão a língua posicionada no assoalho da boca, com possíveis alterações musculares, ósseas e até oclusais, conforme vimos. A respiração oral favorece o aparecimento do ceceio anterior ou lateral, e a imprecisão articulatória da fala. Isto pode ocorrer pela flacidez dos órgãos fono-articulatórios e também pelo acúmulo da saliva na boca. dentes A ausência de elementos dentários, o apinhamento dos mesmos, a inclinação lingualizada ou vestibularizada dos incisivos superiores podem levar a uma alteração do espaço intraoral, dificultando o posicionamento da língua para articular com precisão os fones. 50 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO No caso, por exemplo, da inclinação vestibularizada dos incisivos superiores, os fonemas línguodentais podem estar sendo produzidos com a língua posicionada anteriormente. Por outro lado, quando há a lingualização dos dentes superiores e o espaço interno fica diminuído, a língua tende a baixar a sua ponta e elevar seu dorso para se acomodar melhor dentro da cavidade oral, fazendo com que os fones sibilantes percam seus pontos de contato ficando distorcidos. Quando ocorrem doenças periodontais, já numa fase mais adiantada onde as peças dentárias podem ter se movimentado com o consequente aparecimento de diastemas, temos a fala com assobio e maior escape de saliva, além da anteriorização dos fones línguodentais. oclusão e mordida As mordidas abertas, cruzadas e sobremordidas podem favorecer o aparecimento de pontos de contato inadequados na produção dos sons da fala. Nas sobremordidas, é comum o aparecimento do assobio nos sibilantes. Isto ocorre pela diminuição do espaço vertical interno. Nas mordidas cruzadas, podemos ter o deslizamento da mandíbula para lateral o que também favorece a má produção dos sibilantes. As mordidas abertas podem favorecer o aparecimento do ceceio anterior, assim como favorecer a anteriorização do ponto de articulação dos fones línguodentais. Na má- oclusão de Classe II de Angle, pelo fato de haver discrepância póstero-anterior da maxila com a mandíbula, observamos que os fonemas bilabiais são produzidos com o lábio inferior, em contato com os dentes incisivos superiores, ao invés do contato normal que seria lábio inferior em contato com o lábio superior. O ceceio lateral também pode ocorrer pelo fato da parte média da língua se manter próxima do palato duro, diminuindo o espaço de saída do ar. O deslize mandibular anterior também é frequente para ampliar o espaço interno, facilitando o correto posicionamento da língua na produção dos sons. Bastante comum ainda é o acúmulo de saliva na cavidade oral, favorecendo uma articulação mais fechada, evitando que a saliva seja expelida da boca durante a fala. Na Classe III de Angle, podemos observar a mudança do ponto articulatório das fricativas /f/ e /v/, onde a produção das mesmas fica invertida, ou seja, o lábio superior se articula com os dentes inferiores para produzir estes sons. Observamos ainda maior uso do lábio superior nos plosivos e maior participação da parte média da língua durante a fala. disfunção temporomandibular Segundo Bianchini, pacientes com disfunção da articulação temporomandibular tenderão a apresentar: redução da amplitude do movimento mandibular; aumento da 51 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I atividade da musculatura perioral; lateralização da mandíbula no /s/ e /z/; diminuição da velocidade da fala e ainda alterações de voz. Movimentos mandibulares Os movimentos mandibulares inadequados durante a fala, como deslizes mandibulares frontais ou laterais, assim como a menor abertura de boca ou os movimentos exagerados da mandíbula, são encontrados em sujeitos com: respiração oral; Classe II de Angle, divisão 1a; excessiva sobressaliência; mordida cruzada lateral ou aberta anterior, assim como nas disfunções da articulação temporomandibular. Provavelmente estes movimentos inadequados de mandíbula ocorram como forma de compensação para encontrar melhor possibilidade de correta articulação dos fonemass a serem produzidos. Saliva A quantidade e a qualidade da saliva interferem na produção da fala. Quando há excesso na produção, esta tenderá a se acumular nas comissuras e será expelida durante a fala. Para que isto não aconteça, há instintivamente a diminuição do espaço entre os maxilares durante a fala, evitando este escape. No entanto esta manobra de compensação para conter a saliva leva a uma imprecisão da fala. Quando existe pouca saliva, a língua aumenta seus movimentos na tentativa de buscar mais saliva. Este movimento causa um ruído característico, produzido também pelos idosos que tem menos saliva, e que acompanha a fala quase o tempo todo interferindo na sua produção. Alterações estruturais da face O crescimento craniofacial se dá durante a infância e a adolescência. Quando ele não ocorre de maneira adequada e o crescimento termina com grandes desproporções maxilo-mandibulares, sejam elas no sentido horizontal, vertical ou transversal, provavelmente haverá maior possibilidade de ocorrerem alterações da articulação dos fonemas. As modificações da fala serão totalmente dependentes do tipo de alteração estrutural encontrada. Faces mais longas, em oposição às faces curtas, apresentam comportamento da musculatura antagônica, assim como os espaços internos são distintos. Nas faces longas, observamos maior flacidez da musculatura, propiciando abertura da boca mais frequentemente com consequente posicionamento baixo de língua. Nas faces curtas, o espaço intraoral é menor, propiciando maiores deslizamentos da mandíbula, para anterior ou lateral, com a finalidade de possibilitar a correta articulação dos sons sibilantes, por exemplo. 52 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Vamos encontrar ainda alterações estruturais na face decorrentes de traumas ou de cirurgias, como, por exemplo, nos casos de acidentes, queimaduras ou câncer na região da face. Estas alterações estruturais são acompanhadas por modificações musculares adaptadas à estrutura transformada. Observamos o mesmo fenômeno, nas má- formações da face, em síndromes que afetam a face e em fissuras labiopalatinas, além de outros. Em cada uma destas alterações poderá haver compensações buscando melhores apoios para uma melhor articulação dos sons. As estruturas que produzem a fala passam a utilizar os pontos mais favoráveis para a produção dos fonemas. A compensação sempre é realizada para que a fala permaneça com suas características, o mais próximo possível do que se espera como normal. Portanto, as modificações articulatórias serão dependentes, por exemplo, das cirurgias realizadas ou da grandeza da má- formação encontrada na face. Próteses As próteses dentárias causam problemas para que se possa articular com perfeição os sons da fala quando não são bem construídas e/ou adaptadas. As próteses também podem ser confeccionadas para a melhora da fala, como se usa com frequência nos indivíduos com fissuras labiopalatinas ou nos indivíduos com doenças neurológicas evolutivas as quais podem causar perda da mobilidade do palato mole. Em geral, a prótese dentária, quando não está bem adaptada, traz problemas dotipo falar com a boca mais fechada para não perder a estabilidade da prótese e isto acaba por causar imprecisão articulatória. A diminuição dos movimentos mandibulares também fica evidente, assim como aparecem movimentos alterados de mandíbula e de lábios numa tentativa de manter a prótese mais firme e de compensar ou melhorar a precisão da fala. frênulo lingual O frênulo lingual, quando alterado, traz várias modificações para os movimentos da língua e dos lábios, assim como para a correta e precisa articulação de alguns fonemas. Os movimentos da língua ficam reduzidos, a abertura da boca tenderá a ser menor durante a fala, o /r/ brando poderá estar distorcido, os grupos consonantais com /l/ e com /r/ podem não ser produzidos de forma clara e consistente. O que se observa mais comumente é a dificuldade de aquisição de alguns sons principalmente do /r/, e mesmo quando adquirido, a fala fica imprecisa como um todo, pelo fato de haver diminuição da abertura da boca. Isto ocorre para que a língua possa alcançar o palato para produzir todos os sons que necessitam deste ponto de apoio. 53 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I Piercing A inserção de objetos de metal na boca, como o piercing, parece ser moda principalmente entre os jovens, no entanto esta nova mania pode trazer numerosas complicações orais e dentais, mas nem sempre são observadas alterações de fala, mastigação e deglutição em quem usa este adorno. Os piercings utilizados na língua são os que mais frequentemente podem interferir na articulação da fala. É fundamental que os jovens, assim como seus pais, sejam alertados para as possíveis interferências que podem ocorrer pelo uso deste adorno. A simples retirada do objeto em geral, já é suficiente para que qualquer alteração das funções orais desapareçam. Associado com os distúrbios de fala, pode-se encontrar reações ou sentimentos negativos, tanto no falante quanto em quem ouve uma fala com distorção. Poderíamos citar alguns sentimentos ou algumas reações comuns por parte de quem ouve uma fala apresentando inadequações: impaciência, rejeição, gozação, imitação, dificuldade de compreensão gerando confusão, embaraços e pena, entre outros. Por sua vez, quem fala errado também apresenta sentimentos ou reações que podem gerar alterações no convívio social como: ansiedade, autoestima baixa, sentimento de exclusão, desconforto, insegurança e frustração. Crianças que falam com erros tendem a ser mais tímidas e menos falantes do que outras, e adultos que cometem erros ao falar se sentem inseguros para buscar empregos ou novas posições no emprego já existente. Às vezes, a fala é apontada até como causa de dificuldade para novos relacionamentos, principalmente os amorosos. Ao conversarmos com adultos que sempre falaram errado e que foram excluídos ou se auto excluíram dos grupos a quem pertenciam, podemos ter uma ideia mais precisa do que é falar errado, mesmo quando a alteração parece ser pequena para nossos ouvidos. Relatos desses pacientes nos mostram a importância da correção o mais precoce possível. Dificuldades de encontrar emprego, não por falta de competência, mas acima de tudo pela sensação de serem menos, já é um bom ponto de partida para que se preste a máxima atenção até nos pequenos desvios encontrados na fala. Muitas vezes, estamos acostumados a nos preocupar apenas com as omissões ou substituições, pois estas parecem ser mais perceptíveis dos que as distorções e imprecisões articulatórias. Mas, são as distorções e as imprecisões que mais interferem no dia a dia do sujeito. Quando existe uma omissão ou substituição, em geral, é mais simples a resolução do problema, mas quando aparecem sons distorcidos, é um sinal de que o indivíduo percebeu que o som não estava sendo produzido adequadamente, tentou uma aproximação do correto, num esforço provavelmente grande, no entanto, por mais que tentasse não conseguiu atingir a produção correta do som. As imprecisões são piores, pois elas normalmente 54 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO não atingem um som ou um grupo de sons. Elas prejudicam a fala como um todo. Independente da alteração encontrada, a correção deve ser realizada o mais cedo possível, para que padrões errados não sejam fixados, dificultando não só a correção e a instalação de um novo padrão, mas, acima de tudo, dificultando a automatização da maneira correta de falar. A terapia de fala, quando as causas da alteração provém de problemas músculo-esqueletal, pode não ter o sucesso esperado, pois a cura seria dependente da correção da causa, o que nem sempre é possível. Melhoras são sempre esperadas e o sucesso da terapia pode ser considerado quando modificações ocorrem e quando o sujeito reconhece a melhora, entendendo que está mais apto para enfrentar as situações diárias. Muitas vezes este tipo de terapia envolve uma equipe maior além do trabalho apenas do fonoaudiólogo. Muitas vezes é necessário que o dentista resolva os problemas dentários ou que o médico resolva os problemas respiratórios que estão interferindo na articulação dos fonemas. Trabalhar com a correção da fala em criança ou adulto é extremamente gratificante, uma vez que o paciente, ao melhorar ou eliminar o problema, fica extremamente feliz e mais confiante em suas atitudes. A fala é a melhor forma de comunicação, é com a fala que construímos ou destruímos relações. O poder da fala é imenso e estar privado deste poder é terrível. Nunca devemos considerar como problema menor, as pequenas alterações de fala, e nunca devemos considerar como impossíveis de serem resolvidas as grandes alterações de fala. Tanto problemas pequenos quanto grandes podem ter para o paciente significados totalmente diferentes daquela impressão e daquele julgamento que fazemos sobre a alteração que ele tem. Tentar sempre uma modificação do padrão encontrado, ter metas no tratamento e considerar toda e qualquer mudança como positiva é fundamental para um caminho mais bem estruturado e, certamente, com final feliz. Alterações da fala de origem músculo-esquelética: compreender para melhor tratar (toMÉ, 2014) As alterações da fala sempre foram reconhecidas como sendo da clínica fonoaudiológica, mesmo no princípio da profissão, quando poucos sabiam quem era o fonoaudiólogo e para quem era dirigido o seu trabalho. Ao longo dos anos, a ciência produziu construções importantes que nos levaram a entender as diferenças entre alterações de fala de origem fonológica e de origem fonética. Ainda hoje, entretanto, muitas alterações da fala, decorrentes de alterações anatômicas e funcionais da face ou da cavidade oral e de suas estruturas, sem alteração do componente fonológico, causam dúvidas quanto ao seu tratamento. 55 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I Quando um profissional se depara com alterações de fala, excluídos os fatores fonológicos, é preciso verificar se a alteração pode ter alguma relação com características do sistema estomatognático. Quadros como hipertrofia de tonsilas palatinas ou faríngeas, alterações da oclusão dentária, disfunção temporomandibular, hipofunção muscular de língua ou lábios, respiração oral e seus decorrentes, limitação de frênulo lingual, entre outros, podem colaborar para a instalação de problemas de fala que ficarão mascarados caso o fonoaudiólogo não os considere na avaliação e, consequentemente, no tratamento. Tomemos como exemplo o caso de uma mordida aberta anterior. O posicionamento de língua, nesse caso, é fundamental para o entendimento da etiologia e do tratamento dessa alteração oclusal. A própria condição pode favorecer o surgimento de um ceceio anterior. Em alguns casos, com a correção do trespasse vertical, há um ajuste natural da postura lingual. Em outros, a mordida não fechará facilmente, pois outras podem ser as características que colaboram para a manutenção do quadro oclusal. Entre as alterações citadas, a de frênulo lingual sempre é um fator importante a ser considerado nas alteraçõesde fala. Os estudos recentes da área (MARCHESAN, 2004; MARCHESAN, 2010) mostram que não há somente um tipo de frênulo alterado ou mais facilmente reconhecido. Ao contrário, os autores apontam a existência de pelo menos três variações, além da clássica anquiloglossia, com língua totalmente fixada no assoalho da boca. São eles: o anteriorizado (quando na face inferior da língua, a fixação estiver acima da metade); o curto (com fixação no meio da face inferior da língua), como no frênulo normal, porém de menor tamanho; o curto e anteriorizado (apresenta uma combinação das características do frênulo curto e do anteriorizado). Dados recentes de trabalhos com frênulo lingual em cadáveres e também oriundos de estudos clínicos (OLIVEIRA et al. 2010; WITWYTZKYJ et al., 2012) indicam que é possível objetivar a alteração do frênulo lingual e, com isso, o que se esperar como resultado terapêutico. Além disso, esses trabalham indicam que devemos avançar no sentido de identificar quais são as alterações esperadas em cada grau de frênulo lingual, em aspectos funcionais e posturais da língua. As alterações de fala, de acordo com Wertzner (2004), envolvem dificuldades nas habilidades motoras da produção de sons e podem ocorrer devido à imprecisão de zona de articulação, tempo, pressão e velocidade da produção, resultando em um som não padrão da fala. A importância de reconhecer cada quadro é porque, mesmo no caso de uma limitação no frênulo lingual, nem sempre a alteração é assim tão explícita. Por exemplo, o problema pode manifestar-se apenas na postura lingual e resultar na dificuldade em finalizar um caso ortodôntico. Podendo se manifestar na limitação da elevação da porção lateral da língua e a resultante podendo ser uma distorção na produção dos fonemas fricativos S e Z ou africados tz e dz. E possível, ainda, que a limitação da elevação de ponta de língua seja o principal problema e, nesse caso, poderá ser observado desde a omissão dos fonemas l; 56 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO r ou lh, a distorção desses fonemas, que serão produzidos em local de medial a posterior na cavidade oral, em geral produzidos com o dorso médio da língua contra o palato duro. Ainda há a possibilidade de haver apoio de lábio inferior, tornando a produção de um /l/ ou /r/ como uma semivogal. Também haverá casos em que, embora a alteração do frênulo esteja presente, há uma perfeita compensação, fazendo que somente testes mais sensíveis consigam captar e registrar o que, ao ouvido humano, soará como normalidade. E, nesse sentido, não há o que ser tratado. A colaboração dessa discussão para a clínica fonoaudiológica é a compreensão de que o mais importante é considerar e entender essas diferenças. Nesse sentido, a reflexão nos faz pensar que, cada vez mais, é necessário que nós, fonoaudiólogos, passemos a considerar, durante a avaliação, que há características muito peculiares a cada tipo facial e estruturas que compõem o sistema estomatognático. Além disso, é importante que cada vez mais nos apossemos e contribuamos com dados e pesquisa para tornar nossa prática mais fidedigna. Identificar cada subtipo de alteração de fala, validar as estratégias terapêuticas e seus efeitos parece ser o caminho a percorrer. Alterações de fala de origem fonética (CoStA, 2009) Estudos indicam que problemas de articulação são as alterações mais frequentes nos distúrbios de comunicação em adultos (MARCHESAN 2005 ; OLIVEIRA et al. 2005). Porém, a prática clínica mostra que poucos adultos buscam tratamento para fala por conta própria e os que o fazem, são encaminhados por outros profissionais da área de saúde. (MARCHESAN, 2005). Nas alterações fonéticas, o indivíduo percebe o contraste fonológico entre os sons, mas não consegue produzi-los de maneira adequada devido a questões de ordem fisiológica. Tais erros incluem a distorção do /s/, conhecida como ceceio, assim como a distorção do /r/, que ocorrem na fala devido a alterações fisiológicas e funcionais. (RUSCELLO, 2003). O que se tem observado na prática clínica é que os indivíduos parecem não perceber a distorção na fala, o que poderia explicar o reduzido número de adultos que buscam terapia fonoaudiológica. Este dado traz a tona alguns questionamentos, tais como: Teriam esses indivíduos alguma dificuldade na autopercepção do problema? Até que ponto este problema interfere na vida social e profissional destes indivíduos?. (ZACKIEWCTZ et al., 1998, OLIVEIRA et al., 2005). Para Shriberg (1997) , Kwiatkowski (1982) e Ruscello (2003), transtornos de fala que persistem para além do período esperado de aquisição e desenvolvimento desta função 57 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I são considerados como um subtipo de transtornos de desenvolvimento, identificados como “erros fonológicos residuais”. Essa categoria de erros abrange as distorções de sons, mais comumente das consoantes líquidas, das fricativas e das africadas. Em termos da gravidade e da interferência na inteligibilidade de fala, eles se configuram geralmente em pequenos erros, que podem, no entanto, muitas vezes, ocasionar reações negativas por parte de falantes normais. (RUSCELLO, 2003). Para Van Borsel et al. (2007), na vida adulta, a persistência do ceceio pode causar desconforto ou constrangimento. Marchesan (2004) concorda que indivíduos que têm problemas de fala, independente da causa que leva a esta alteração, experimenta muitas vezes sensações desagradáveis ao tentar se comunicar. O ouvinte pode ser impaciente, rejeitar o falante, ter pena, satirizar ou imitar de forma jocosa, além de outros comportamentos, o que leva o falante a se sentir ansioso, embaraçado, desconfortável, excluído, inseguro, frustrado, ocasionando diminuição da autoestima e da autoconfiança. Entretanto Van Borsel et al. (2007) relata que existem alguns adultos que não querem fazer terapia, como também existem pessoas que são conhecidas na sua vida pública por sua alteração de fala, passando desta forma o ceceio a ser sua marca registrada e parte da sua imagem. Avaliação cefalométrica A avaliação miofuncional orofacial é um processo imprescindível para que o fonoaudiólogo verifique as condições estruturais e funcionais de seu paciente, fato que possibilita o planejamento e a intervenção terapêutica adequada. Essa avaliação, tradicionalmente realizada de forma qualitativa, vem sendo aprimorada com recursos de áreas tangenciais da saúde que permitem complementá-la com dados quantitativos. Os dados quantitativos/ objetivos proporcionam ao profissional melhor conhecimento das relações existentes entre tecidos duros e moles do crânio, viabilizando a definição de uma conduta precisa a partir da reflexão sobre as possibilidades estruturais de cada caso. Entre os recursos de outras áreas utilizados para avaliações mais objetivas na motricidade orofacial destaca-se a cefalometria radiográfica, pela quantidade de informações relevantes que fornece. Essa técnica, utilizada na Odontologia desde a década de 1930, foi empregada para o estudo do crescimento do complexo craniofacial, tornando- se um recurso indispensável para o diagnóstico e planejamento do tratamento das deformidades craniofaciais. Tal avaliação vem ganhando espaço na Fonoaudiologia nos últimos 20 anos, devido à intima relação entre as porções anatômicas do crânio e da face e as funções estomatognáticas. 58 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Os traçados cefalométricos fornecem informa ções sobre o espaço nasofaríngeo, a posição do osso hioide, a postura da cabeça, além de dados básicos quanto às medidas lineares e angulares do complexo craniofacial. Desse modo, observa-se a relevância deste exame como instrumento complementar ao diagnóstico de alterações miofuncionais. Por esse motivo, faz-se necessário que o fonoaudiólogo conheça a aplicabilidade da cefalometria como uma ferramenta auxiliar no diagnóstico das disfunções orofaciais. A cefalometria, uma avaliação tradicionalmente utilizadana área odontológica, é uma ferramenta que contribui para o diagnóstico fonoaudiológico, bem como para áreas afins que têm como objetivo o estudo da constituição crânio-facial. Visto que, dados sobre o crescimento do complexo crânio-facial, a inter-relação entre as estruturas, bem como sua forma e postura, quando adequadamente analisados, apresentam indicativos relevantes para a atuação fonoaudiológica. A cefalometria, por meio do conjunto de valores angulares e lineares obtidos, tem o propósito de determinar o padrão dento-cranio-facial de um indivíduo, no intuito de evidenciar mudanças proporcionadas pelo crescimento ou pelas alterações produzidas por tratamentos terapêuticos, empregando padrões de normalidade ou morfológicos, para comparar com o estado atual do paciente. A determinação do tipo facial por meio da cefalometria é a partir do cálculo do índice VERT de Ricketts, baseado em cinco grandezas cefalométricas (ângulo do eixo facial, profundidade facial, ângulo do plano mandibular, altura facial inferior e arco mandibular). Os sujeitos são classificados como dolicofacial (índice VERT menor que -0,5), mesofacial (valores entre -0,5 e +0,5) ou braquifacial (VERT maior que 0,5). Sugere-se que para a análise facial ser considerada confiável é necessário que os seguintes aspectos sejam aferidos na posição frontal e de perfil: rosto, feições, simetria, harmonia e proporções faciais; tendência a qual tipo de face; altura e largura facial; terços faciais, em especial o inferior; largura bizi gomática; contorno e grau de curvatura do perfil; formato do crânio e da cabeça; linha do cabelo; testa; olhos; sobrancelhas; orelhas; maxila, forma e altura da mandíbula, largura bigoníaca, contorno do queixo; lábios, língua, boca, dentes, linha média, posição do filtro, oclusão e sorriso; bochechas; nariz, ângulo nasolabial, base e projeção nasal; linha queixo-pescoço; músculos, expressões faciais e marcas de expressão. Nesse tipo de análise, deve-se levar em conta que a face é uma particularidade de cada um e não existe uma exatamente igual à outra. A análise deve considerar o sexo, os traços familiares, a tipologia facial, a raça e a etnia. O fonoaudiólogo é um dos profissionais que realiza a análise facial em seus pacientes ao avaliar suas estruturas orofaciais, em que se abordam os aspectos morfológicos, posturais e funcionais. Além disso, acredita-se que geralmente faz parte da avaliação 59 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I fonoaudiológica a definição do tipo de face a partir dos achados clínicos e da correlação com as características gerais de cada tipo. Quanto às medidas antropométricas orofaciais: altura do lábio superior (do subnasal ao estômio); altura do lábio inferior (do estômio ao gnático); altura do filtro (do subnasal ao labial superior); altura do terço superior da face (do trichio à glabela); altura do terço médio da face (da glabela ao subnasal); altura do terço inferior da face (do subnasal ao gnatico); distância entre o canto externo do olho e o cheilion no lado direito ou lado direito da face (ex-ch). Aspectos acústicos e articulatórios dos sons /s/ (CoStA, 2009) O segmento consonantal /s/ é classificado como fricativa alveolar. Para um segmento ser classificado como fricativo, a área de abertura do conduto vocal deve ser suficientemente pequena para causar uma fricção audível (LAVER, 1994). Essa fricção, ou turbulência das moléculas no fluxo aéreo, pode ocorrer no local da constrição ou pode ser causada pelo direcionamento do jato de ar para um obstáculo, como, por exemplo, os dentes (STEVENS, 1998). Por este motivo, o critério para classificar um segmento como fricativo inclui fatores acústicos/auditivos, aerodinâmicos e articulatórios. Assim, a estrutura do conduto vocal é de grande importância na produção desses sons, pois deve haver um canal, com uma forma bem precisa, para que a turbulência na corrente aérea seja produzida. Santos (1987) mostrou, em seus estudos, que os fonemas fricativos /s,z/ são os mais agudos. Para Casaes (1990), nas consoantes fricativas ocorre um estreitamento da passagem de ar pela cavidade oral, produzindo um ruído de fricção, sibilo ou chiado, sendo por isso os fonemas /s,z/ classificados como fricativos sibilantes. Hanson e Barret (1995) afirmam que os fonemas /s/ e /z/ são produzidos elevando-se as laterais da língua contra o palato duro, impedindo o escape lateral do ar. A pronúncia correta do /s/ pode ser observada em uma faixa de energia de aproximadamente 4.000 Hz, podendo chegar a 8000 Hz no português falado no Brasil (RUSSO & BEHLAU, 1993). A quantidade de fluxo aéreo que passa através do conduto vocal pode influenciar a concentração de energia no espectro da fricativa, o que explica que o grau de contração da musculatura contribui para a determinação da intensidade vocal (HALEY et al., 2000), sendo as consoantes fricativas as mais fracas e agudas do Português, com valores médios que ficam entre 15 e 25 dbNA (RUSSO; BEHLAU, 1993). A duração do /s/ segundo pesquisas é de cerca de 140 ms em inglês (CHEN; STEVENS, 2001) e para Reis (1995) 170 ms em português. 60 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO Tabain (2001) comparou a produção das fricativas sibilantes /s/ e /z/ com as dos fonemas dentais /f/ e /v/ e relatou que as alveolares /s/ e /z/ apresentaram pontos articulatórios mais estáveis, não permitindo várias trajetórias para atingir o mesmo objetivo sonoro. Esse dado reforça a afirmação da extrema precisão dos eventos ocorridos na cavidade oral referentes à produção do /s/ e também destaca o fato de desvios desta consoante serem tão frequentes, pois pequenas variações no formato e na localização da língua alteram a produção final deste fonema. A distorção é um erro de articulação do som onde o som gerado no lugar do som-alvo não segue os padrões da língua do falante. As distorções na fala seriam, então, segundo Wertzner (2003), Britto Pereira et al. (2003) e Leite et al. (2008), classificadas como alterações fonéticas, uma vez que a distorção de um som pode ser definida como a substituição de um som padrão por um som não padrão, onde o contraste entre o som distorcido e os demais sons da língua é mantido, diferente da substituição onde uma classe de sons é substituída por outra. Segundo Kocjancic (2004) a distorção está presente nos adultos, porém, por não afetar diretamente a compreensão da palavra, ela é aceita no meio social e não causa ininteligibilidade da fala. (WERTZNER, 2003). Para Casarin et al. (2006) e Marchesan (2004), as possíveis causas de uma distorção são as alterações anatômicas da face, da boca e de suas estruturas e o posicionamento inadequado dos órgãos fonoarticulatórios, principalmente de língua, lábios e dentes. Os indivíduos que distorcem estão buscando ajustes ou compensações para uma fala mais inelegível. As distorções ocorrem mais frequentemente nos sibilantes e no /r/ brando. distorção do /s/ – ceceio (CoStA, 2009) Leite et al. (2008) refere-se ao ceceio como a incorreta produção dos fricativos linguoalveolares. Powers (1971) define o ceceio como a má articulação de uma ou mais consoantes sibilantes, sendo a maior ocorrência observada nos fonemas [s] e [z] e o classifica como: central, lateral e nasal, levando em consideração a alteração da posição da língua na cavidade oral e direção do sopro respiratório. Os diferentes tipos de ceceio apresentam características acústicas diferentes e Britto Pereira et al. (2003) propõem uma classificação caracterizando as distorções como: dental anterior, interdental anterior, lateral e palatal. O ceceio dental anterior caracteriza-se quando há elevação da ponta da língua, que toca os dentes incisivos 61 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I anteriores inferiores, sem, contudo haver interposição da língua entre estes. Em alguns casos, a língua toca os incisivos superiores, prejudicando a fricção do ar, ficando, desta forma, o som distorcido, similar a um foneoclusivo. É comum observarmos hipofunção da musculatura labial na emissão do [s] ou até mesmo um movimento de protrusão dos mesmos como para compensar a posição inadequada da língua. A função articulatória de lábios e língua parece ser enfraquecida. Já o ceceio interdental anterior caracteriza-se quando se observa a interposição anterior da língua nos incisivos centrais, fazendo com que a fricção ocorra entre os dentes e a língua e não entre o palato e a língua. No ceceio lateral, observa-se escape lateral de ar, que provoca a distorção sonora, podendo-se, em algumas vezes, observar até interposição lateral da língua na parte posterior das arcadas dentárias. No ceceio palatal, observa-se uma palatalização do som, decorrente da aproximação da parte dorsal da língua em relação ao palato, durante emissão do som, modificando a direção do fluxo aéreo. O som distorcido assemelha-se ao [ ch ], apesar do contraste entre estes dois sons estar presente. Van Borsel et al. (2007) realizaram estudo em que foi pesquisada a prevalência de ceceio em jovens adultos. Os participantes foram 748 estudantes, sendo 374 mulheres e 374 homens falantes do Holandês. A análise da amostra revelou um índice de prevalência de 23%. Significativamente menos participantes da área de Ciências Humanas apresentaram ceceio do que os das Ciências Naturais ou Sociais. Houve uma pequena, mas não significativa prevalência maior de ceceio em mulheres do que em homens, que foi interpretada como se os familiares aceitassem mais estas alterações em mulheres. Ficou determinado que esta elevada prevalência do ceceio em adultos parecia representar uma tendência recente ou que a permanência do padrão de fala com ceceio em adultos parecia estar sendo considerada como normal. As razões para esta prevalência elevada não está totalmente clara para o pesquisador quanto este padrão é um fenômeno novo. Uma possibilidade é que esta prevalência elevada de articulação dental ou interdental realmente seja de origem recente e que este achado reflita uma mudança de atitude sobre a articulação em geral e em relação ao ceceio em particular. Outra hipótese é que hoje em dia haja uma tolerância maior para as imprecisões articulatórias, fazendo parte de um estilo de fala mais casual. Na ausência de algum dado sobre prevalência de ceceio em gerações mais velhas para comparação, esta hipótese torna-se de difícil verificação. Van Borsel et al. (2007) acreditam que esta hipótese está alinhada com os achados de sua pesquisa a qual mostrou que 87.4% dos indivíduos diagnosticados com ceceio nunca receberam qualquer observação sobre sua fala. 62 UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO distorção do /r/ A distorção do /r/ geralmente ocorre devido à não elevação da região anterior da língua, o que prejudica a correta articulação do som. Muitas vezes o som resultante desta produção é parecido com o som do /g/ (como na palavra gato), devido a uma elevação inadequada do dorso da língua. No entanto, Vuletic (1987 apud KOCJANCIC, 2004) classifica a distorção do /r/ de duas formas, de acordo com o ponto de articulação: distorção anterior e distorção posterior. As distorções anteriores são articuladas na frente da cavidade oral na área labial e alveolar. Segundo Kocjancic (2004), na Eslovênia, as distorções anteriores são de dois tipos: rotacismo bilabial e rotacismo lateral. No rotacismo bilabial, o /r/ é produzido pela vibração dos lábios e no rotacismo lateral ele é resultante de uma atividade assimétrica da língua. Esses casos são mais difíceis de correção, pois são de difícil identificação, sendo frequentemente encontrados nos adultos. Para Kocjancic (2004), em esloveno, os sons que apresentam distorções anteriores são articulados atrás da cavidade oral. Existem três tipos de distorção anterior: dorsal, uvular e laríngeo. No rotacismo dorsal, o /r/ é produzido com a parte anterior do “velum” vibrando contra a língua. No rotacismo uvular, o /r/ é articulado na mesma área, com a diferença que a úvula vibra contra a parte posterior da língua. No rotacismo laríngeo, a produção do /r/ ocorre entre a parte anterior da faringe e a raiz da língua, as vibrações são mais lentas que as outras já mencionadas. Além desses tipos de rotacismo, existem outros que são descritos, mas não classificados nessas categorias. As classificações descritas levam em conta o ponto de articulação e de acordo com Kocjancic (2004) o uso da análise acústica é importante para um diagnóstico mais eficaz, assim como a percepção e a experiência do terapeuta. 63 unidAdE iiAVAliAção E trAtAMEnto CAPítulo 1 Avaliação e tratamento dos distúrbios de fala de origem fonética A avaliação clínica em motricidade orofacial (MO) representa fundamental etapa no processo de diagnóstico fonoaudiológico nessa área, uma vez que possibilita a compreensão das condições anatômicas e funcionais do sistema estomatognático. Permite, ainda, estabelecer o raciocínio terapêutico e definir a necessidade de encaminhamentos, além de fornecer dados quanto ao prognóstico do caso. Visando ao desenvolvimento do raciocínio clínico, assim como à padronização das informações contidas em uma avaliação clínica, várias propostas foram publicadas no que diz respeito à documentação fotográfica do paciente em motricidade orofacial. O protocolo de exame clínico compreende observação da postura corporal, análise morfoló- gica extra e intraoral, avaliação da mobilidade, tonicidade e sensibilidade orofacial, além das funções de respiração, mastigação, deglutição e fala. Os dados obtidos durante o exame pretendem, ainda, possibilitar a identificação da origem do problema, direcionando o processo terapêutico. A história clínica compreende: identificação, queixas, antecedentes familiares e intercorrências; desenvolvimento e dificuldades motoras; problemas de saúde e respiratórios, sono e tratamentos realizados; aspectos ligados à alimentação desde a amamentação até a alimentação atual; bem como sobre a mastigação, a deglutição, os hábitos orais e também os aspectos envolvendo a comunicação, fala, audição, voz e escolaridade. Abrange também o exame miofuncional orofacial que envolve: postura de cabeça e de ombros; medidas da face, movimento mandibular e oclusão; análise facial; exame intraoral envolvendo bochechas, língua, palato, tonsilas palatinas, dentes e oclusão; mobilidade, tonicidade e dor à palpação, além das funções de respiração mastigação, deglutição, fala e voz. Nesse protocolo também está proposta 64 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO a documentação a ser realizada, envolvendo tanto foto quanto filmagem, para análise posterior. Finalmente, tem-se um resumo dos aspectos avaliados e os escores esperados e alcançados. Avaliando e tratando do sistema estomatognático (Fonte: <http://www.cefac.br/library/artigos/b92233ef3425570e7d8fdce4b52481d9.pdf>) Irene Queiroz Marchesan Ao avaliarmos o Sistema Estomatognático, não podemos nos esquecer que ele é composto por partes duras e moles, ou seja, ossos e músculos. Portanto não adianta conhecer apenas as partes moles, como lábios, língua e bochechas, tendo como justificativa o fato de que somos fonoaudiólogos, assim como não se justifica que o dentista conheça somente as partes duras, como ossos e dentes. A avaliação deverá ser completa. Não só examinaremos todas as estruturas que compõe este sistema, como deveremos, acima de tudo, relacioná-las entre si, já prevendo o que será possível ocorrer. Um bom clínico, ao fazer a anamnese, já poderá estar examinando seu paciente. Comportamentos, posturas, hábitos e funções podem ser observadas durante as perguntas da anamnese, sejam estas feitas para os pais ou para o próprio paciente. Para que isto ocorra, é claro que a pessoa a ser examinada deverá estar presente durante a anamnese. Os terapeutas podem escolher se querem fazer a anamnese diretamente com o paciente, só com os pais ou com os pais e o paciente. As três maneirasde colher os dados podem ser adequadas, se bem utilizadas, e todas apresentarão aspectos positivos e negativos. Cada terapeuta deverá encontrar para si ou para cada caso a melhor maneira de conhecer a problemática dos pacientes que o procuram. O Sistema Estomatognático, é composto por ossos, dentes, articulação temporo-mandibular, músculos, sistema vascular e nervoso e espaços vazios. Sobre os ossos estão as partes moles e, portanto, ao examinarmos as partes duras, poderemos prever como ocorrem as funções. Qualquer alteração, principalmente sobre os dentes, tenderá a levar a um desarranjo de todo o sistema. Entre os principais ossos que compõem a face destacam-se a maxila e a mandíbula. Sobre estas bases estão os dentes. O ser humano nasce, cresce, desenvolve-se e envelhece. Ocorrerão modificações durante toda a vida, assim, não podemos tomar um único parâmetro de normalidade 65 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II para a avaliação. Devemos ter sempre em mente que nossas estruturas, em um processo normal de desenvolvimento, se modificam constantemente. Um dos fatores que pode levar a estas modificações é a hereditariedade. Observar as características dos familiares pode ser uma forma de obtermos indícios sobre possíveis caminhos que o futuro crescimento de nossos pacientes pode tomar. Outro fator interferente, e que deverá ser relevado durante o exame, é sabermos de que meio socioeconômico eles provêm. Não poderíamos deixar de citar, ainda, que exercerá grande influência em nosso trabalho o conhecimento técnico-científico dos profissionais envolvidos no caso, como o dentista e o otorrinolaringologista, assim como o interesse do paciente e de sua família pelo trabalho. É também de fundamental importância que os fonoaudiólogos mantenham-se bem informados e atualizados em relação aos problemas com os quais pretendem atuar. O paciente e sua família devem estar conscientes da necessidade do trabalho e participarem de todo o processo terapêutico, para que seja possível alcançar as modificações pretendidas. Nunca é demais lembrar que qualquer modificação virá de dentro para fora, ou seja, o profissional pode interferir, determinando o que o paciente deve fazer, mas só ele é quem poderá fazer algo por si mesmo. Assim, mesmo com ótimos profissionais trabalhando no caso, se não houver uma verdadeira participação do paciente e de seus familiares, dificilmente conseguiremos um resultado positivo. Faremos, a seguir, um roteiro didático para que possamos nos orientar na anamnese e no exame de nossos clientes. Somente a partir da coleta destes dados poderemos pensar no planejamento terapêutico. Anamnese O que usar: roteiros prontos, folhas em branco, perguntas semidirigidas? Ou será que é melhor deixar os pais falarem sem perguntarmos nada? Temos visto que os jovens fonoaudiólogos se perdem inicialmente a respeito do que fazer ao estarem pela primeira vez com um paciente. Não é importante que um questionário formal exista. Na verdade, tanto faz a forma como iremos abordar a família para descobrir o que queremos saber: se vamos dirigi-los ou simplesmente deixar que contem livremente o que entendem como importante para aquele momento. O essencial é que saibamos manejar e compreender a técnica escolhida para a primeira entrevista. Devemos ressaltar que ambas as formas, entrevistar sem roteiros e fazer perguntas pré- estabelecidas, são maneiras interessantes e muitas vezes fundamentais. Às vezes, é mais uma questão de rotina ou de como aprendemos a colher dados. 66 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO Devemos, no entanto, ter claro que nenhum modelo será suficientemente bom quando o estamos utilizando apenas porque o temos em mãos, sem compreendermos exatamente o que o autor daquele tipo de anamnese queria quando a elaborou. Os autores de anamneses e exames, quando fazem seus roteiros, têm em sua mente um conceito do que é o problema em questão e as possíveis causas que levaram a ele. Assim, irão tentar, por meio de perguntas e técnicas de exame, comprovar suas hipóteses chegando às causas do problema. Conhecer o que aquele instrumento específico pretende, ou seja, o que o autor daquele questionário ou forma de entrevistar ou examinar tinha como princípio teórico é o mais importante. Até porque, desta maneira, saberemos se estes princípios são os mesmos que queremos adotar, que acreditamos. Em relação às perguntas específicas para cada caso, podemos dizer que serão inúteis se não estiverem ligadas a um conhecimento que justifique a questão. Exemplo disto seria perguntarmos para uma mãe com quantos centímetros e com que peso seu filho nasceu e não sabermos os parâmetros de normalidade. Outro bom exemplo seria o de uma criança de 6 anos que tem como queixa, simplesmente, a troca do fonema /k/ por /t/, e perguntamos se a mãe fez abortos, quantos e em que condição. Estas perguntas não são significativas para o caso, com certeza. Tampouco nos levam a um raciocínio clínico acerca das possíveis causas da troca do /k/ pelo /t/ que era a queixa inicial. Muitas vezes, recorremos a um roteiro pré- determinado em que existem questões as quais não sabemos o que querem dizer, qual o parâmetro de normalidade e, até mesmo, como utilizar tais dados no futuro. Essas perguntas e respostas acabam se tornando um monte de papel arquivado sem significado. O primeiro contato com o paciente deve servir, entre uma série de razões, para criar vínculos entre terapeuta e família, criar hipóteses diagnósticas, levantar novas questões e possíveis encaminhamentos. Como se pode perceber, fazer entrevistas e/ ou anamneses não é algo fácil. Fundamentação teórica, raciocínio inferencial e alguma perspicácia são elementos necessários para que se obtenha com sucesso aquilo que se pretende. Um conhecimento mínimo da patologia é condição básica para nos orientarmos na anamnese. Só desta maneira podemos, ao final, interpretar de forma adequada o que colhemos. Agindo desta maneira, os próximos encontros passarão a ser uma continuidade do primeiro, não havendo a quebra entre a anamnese, o exame e a terapia. Devemos evitar que cada bloco se torne estanque e sem vínculo com o seguinte. A anamnese, o exame e a terapia devem ter os mesmos princípios e também uma continuidade entre eles. 67 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II Sugestões para a elaboração de um roteiro de AnAMnESE Primeira parte Se estamos confusos por onde começar, sugiro iniciarmos pela coleta de dados que irá identificar o paciente, perguntando dados como nome, data de nascimento, nome dos pais, profissão, endereço, escolaridade etc. Podemos terminar esta parte com a queixa, ou seja, com a razão que levou o paciente a nos procurar. Este momento é essencial, pois os pais ou o paciente podem falar livremente sobre as razões que os trouxeram até nós, quem os encaminhou, quais suas expectativas de tratamento. Eles podem, enfim, contar sua história sem que sejam interrompidos. Segunda parte A partir da primeira coleta de dados, iremos dirigir nossas questões de acordo com a queixa apresentada na primeira parte. Temos observado que as questões das anamneses são direcionadas basicamente na busca de causas para o problema. Estaremos em busca das causas por três diferentes razões. » Para saber se a causa ainda está presente, o que dificultaria a solução do caso. Exemplo: mordida aberta anterior com sucção de dedo. » Se a causa for genética, há necessidade de orientação médica, principalmente para o caso de novas gestações. Exemplo: síndromes. » Para conhecer as possíveis razões que teriam levado àquele problema, embora a causa, propriamente dita, não esteja mais presente. Isto nos fornece elementos para o planejamento de futuros programas de prevenção e orientação. Exemplo: uso de mamadeira por longo prazo com furo aumentado. questões específicas em casos de motricidade oral desenvolvimento global Partir da idade atual e retornar ao passado, caso seja necessário.Quando partimos do momento atual, é mais fácil para os pais ou para o próprio paciente relatar, com precisão, o que queremos saber. Podemos, a partir do relato deles, perguntar se sempre foi assim ou se antes existiam estas ou outras dificuldades e em que nível. 68 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO Saúde anterior e atual Fazer perguntas principalmente relacionadas a aspectos respiratórios. Caso existam ou tenham existido doenças, devemos perguntar como ocorreram, como foram tratadas, quais medicamentos foram usados, dificuldades para curar, recidivas, mudanças de profissionais etc. Este roteiro já nos dará uma visão das dificuldades que podemos encontrar em nosso trabalho. Exemplo: Paciente com 14 anos, respirador bucal desde os 4 anos, com inúmeros tratamentos sem sucesso. Queixa: lábios entreabertos dificultando o tratamento ortodôntico. Alimentação Perguntar como se comporta, desde a infância, em relação às características dos alimentos que come: consistência, variedade, textura e quantidade. Não deixar de investigar o que a família pensa sobre este assunto e como ela própria se alimenta, de uma maneira geral. Devemos nos lembrar de que muito do que aprendemos em relação a alimentos, como causa de problemas ligados à motricidade oral, são mudanças de toda uma sociedade em relação aos seus hábitos alimentares. Isto gera conflitos quando pretendemos orientar os pais sobre tais aspectos, uma vez que toda a família pode estar se alimentando da mesma maneira que a criança em questão. Escolaridade Perguntar sobre as escolas que frequentou. No caso de mudanças, porque elas ocorreram. Como tem sido seu aproveitamento. Quais são as exigências por parte dos pais. Quais são as disciplinas nas quais a criança tem melhores rendimentos e em quais são piores. Obter dados gerais sobre a escolarização podem nos dar dois tipos de informação: em primeiro lugar, sobre as capacidades de aprendizagem da criança e, em segundo lugar, o nível de interesse, concentração e atenção do futuro paciente. Às vezes, temos à nossa frente uma criança extremamente inteligente, mas ligada apenas em jogos de vídeogame, entendendo que o resto é perda de tempo. Isto pode significar que seu interesse na terapia será baixo, dificultando sobremaneira o andamento do tratamento. Sono Perguntas sobre o sono também são importantes em casos de motricidade oral: se roncam, babam, levam água para o quarto e bebem durante a noite, se acordam com a boca seca e se têm apneia noturna, dados que nos levam a conhecer melhor a parte 69 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II respiratória. Posições adotadas para dormir também são de fundamental interesse para verificarmos possíveis interferências no crescimento ou na má- oclusão. questões finais A pergunta final sempre deverá retornar para a queixa inicial. De modo geral, devemos encerrar perguntando se há alguma coisa a mais que o paciente e/ ou os pais gostariam de nos informar. Se existem outras colocações que não foram feitas durante a queixa inicial e que podem ser feitas neste momento, caso os pais acreditem ter importância para o caso. Deixá-los falar livremente neste momento pode nos dar outra visão da queixa inicial ou sabermos o que, de fato, eles esperam do tratamento. Terminada a anamnese, devemos dar início ao exame. Durante o exame podemos estar retomando as questões respondidas na anamnese. Ao examinarmos, podemos observar que determinada informação não corresponde ao que estamos vendo e, por isto, devemos voltar a fazer perguntas sobre o que não está fazendo sentido. Às vezes, percebemos, durante o exame, que faltou perguntar algo essencial. Outras vezes, os próprios pais ou o paciente se lembram de alguma informação que lhes parece pertinente frente ao que estamos examinando. Esta é a razão pela qual devemos entender que anamnese e exame não devem ser separados e devem vir sequencialmente. Mesmo assim, sabemos que muitas questões não serão discutidas naquele momento, pois ficam esquecidas ou, simplesmente, não há, ainda, um vínculo para que sejam ditas, motivo pelo qual sempre aparecem novas informações durante as sessões seguintes, na medida em que os pais e/ou o paciente adquirem confiança no terapeuta. Estes processos de colher dados e examinar, no sentido de compreender o problema, não se esgotam no primeiro encontro. Na verdade, até o último dia estaremos fazendo novas considerações sobre o caso. É absolutamente dinâmico e interligado o processo de avaliação e tratamento. Avaliação do sistema estomatognático I. Postura corporal A postura corporal é o primeiro item a ser avaliado. Grande parte dos problemas encontrados nas funções orais são devido à postura corporal inadequada. Devemos examinar o paciente em pé, de frente, de costas e de lado. Nestas posições, observar o corpo todo e avaliar posturas inadequadas e assimetrias. Depois, com o paciente sentado, devemos observar a cabeça em relação ao tronco. Por último, observar as assimetrias faciais. Fotografar o paciente nas diversas posições, principalmente se houver alterações será o ideal, pois somente desta maneira poderemos obter, no final do tratamento, comparações entre o antes e o depois. As filmagens são amostras 70 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO dinâmicas do exame, enquanto as fotos são estáticas. Ambas são importantes e devem, na medida do possível, ser realizadas. II. Partes duras Ossos e maxila: lembrar que são duas, portanto, um lado pode estar diferente do outro. Alterações de palato duro dificultarão ou modificarão o posicionamento da língua e suas funções. O estreitamento da maxila, muitas vezes, é decorrente da respiração bucal. Outras causas também devem ser pesquisadas como hereditariedade e/ou má- oclusão. É importante saber que expansões realizadas em maxilas atrésicas, quando ocorrem após o crescimento crânio facial, são apenas dentárias e não estão de fato interferindo com o osso. Um palato atresiado interferirá na respiração pelo nariz, pois estará diminuindo o espaço aéreo superior. Todos estes dados são importantes, pois nos ajudarão a compor o quadro do paciente, não só na avaliação, mas também, principalmente, no prognóstico da terapia. Mandíbula: a língua está inserida na mandíbula, portanto, seu formato será fortemente influenciado pelo tamanho e profundidade deste osso. Da mesma forma, a língua contribuirá fortemente para a sua forma. Uma forte correlação entre estas duas estruturas é esperada. Muitas discussões existem sobre quem causou o quê. Não é nosso intuito, neste momento, descobrirmos os vilões dos prejuízos encontrados, mas, como sabemos destas relações, procuraremos intervir durante o crescimento, para evitar maiores danos do que aqueles que já são determinados pela genética. Maxila e mandíbula: devemos observar relações de tamanho e de posicionamento entre maxila e mandíbula, para compreendermos a força e o funcionamento dos músculos que recobrem tais estruturas. Por exemplo, em faces mais longas, a musculatura tenderá a ser mais fraca. Em faces em que exista retrognatia, o selamento labial ficará dificultado. Em arcos mais estreitos, a língua tenderá a “sobrar” nas laterais. A fala também sofrerá grande influência do posicionamento da mandíbula porque, quando esta estiver muito retroposta em relação à maxila, tende a haver um deslizamento da mandíbula para a frente na produção dos fonemas sibilantes. Relações entre maxila, mandíbula e base do crânio: relacionar estes dois ossos comparando-os com a base do crânio também é de grande importância para os fonoaudiólogos. Observando a relação, podemos, por exemplo, verificar se é a maxila que está maior, caracterizando uma relação de Classe II, ou se foi a mandíbula que não cresceu suficientemente. Ter este tipo de informação pode ser de grande valia para a seleção de exercícios que iremos propor ao paciente. Durante a fase de desenvolvimento, sabendo que a mandíbula está com pouco crescimento, podemos ajudar,liberando a força do músculo mentalis por meio de exercícios isométricos, além de exercitar a 71 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II mandíbula com exercícios de anteriorização. Devemos investir ainda mais nos exercícios mastigatórios. Dentes: ao examinarmos os dentes, devemos nos lembrar de que eles iniciam sua erupção em torno dos 6 meses de idade. A dentição descídua completa-se por volta dos 2 anos e meio,com vinte dentes na boca. Há diastemas naturais entre os dentes,que garantirão a correta erupção dos dentes definitivos. Dos 20 dentes, 8 incisivos e 4 caninos servirão para o corte do alimento e os 8 molares restantes farão o trabalho, propriamente dito, de mastigação. A falta de um bom relacionamento entre os dentes, cáries, ausência de algum elemento e a presença de extranumerários, são algumas das causas que podem alterar as funções de mastigar e/ ou deglutir. Portanto, conhecer a estrutura dentária é fundamental para podermos avaliar as funções estomatognáticas e compreendermos melhor algumas de suas alterações. Em caso de dúvida, não devemos deixar de consultar um dentista para esclarecermos o problema. Para a realização de um trabalho ortodôntico, é solicitada, pelo dentista, uma documentação ortodôntica. Esta documentação é composta por fotos, modelos e radiografias, entre outros. O ortodontista utiliza-a para fazer o planejamento de seu trabalho. O fonoaudiólogo, de comum acordo com este profissional, poderá visualizar melhor os problemas ósseos e/ou dentários, utilizando a telerradiografia e a radiografia panorâmica. Podemos solicitar ao ortodontista que nos auxilie a compreender melhor o material. Desta forma, podemos avaliar que possibilidades as partes moles, com as quais trabalhamos, têm de se acomodar sobre as partes duras, que as sustentam. III. Partes moles Lábios. Examinaremos primeiramente, cada lábio, isoladamente. Observaremos esses lábios em repouso e em função. No repouso, observar: tamanho, posicionamento e simetria. Devemos observar e comparar entre si a metade direita e a metade esquerda, tanto do lábio superior quanto do lábio inferior. Ao examinarmos o lábio superior, devemos imaginá-lo dividido ao meio para verificarmos se um lado é igual ao outro. Em geral, o lado mais curto e mais fino é o que trabalha mais. Esta simples observação, que um lado do lábio é mais fino do que o outro, assim como todas as outras deste capítulo, não podem ser tomadas como regra. Elas irão ajudar o clínico não só a registrar o que vê, uma assimetria, por exemplo, mas a tentar compreender qual é o significado da alteração encontrada. Temos que lembrarmos sempre de que, ao realizar um exame, estaremos tentando compreender o que os dados podem significar. O objetivo é unir as informações do exame àquelas colhidas durante a anamnese, para que possamos entender a razão de uma determinada função ocorrer desta ou daquela maneira. No 72 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO exemplo específico do lábio superior, verificamos, por exemplo, que o lado direito do lábio é mais fino e de menor tamanho. Em seguida, observamos que a bochecha do mesmo lado é mais alta e tem maior consistência ao toque, além de maior força. Observamos, ainda, que os dentes do mesmo lado têm melhor oclusão do que do outro e, finalmente, lembramos de que, na anamnese, o cliente disse que preferia mastigar deste lado. Há uma coerência entre os dados do exame e os da anamnese. É o que devemos buscar o tempo todo, ou seja, coerência entre aquilo que vemos e aquilo que ouvimos quando a história nos foi relatada. Agindo assim, estaremos não só descrevendo, mas também compreendendo as causas daquilo que está ocorrendo com o paciente. Mantendo o mesmo exemplo, se o paciente durante a anamnese não sabia de que lado mastiga, ao encontrarmos os dados anteriormente citados com relação a lábios e bochechas, podemos deduzir que ele mastiga do lado direito. Este dado vai nos deixar mais atentos durante o exame da função mastigatória. Poder prever como se realiza uma função a partir das estruturas envolvidas facilita nosso exame e ajuda a explicar para o paciente as razões de possíveis disfunções. Outro ponto de controvérsias diz respeito ao tamanho do lábio superior. Em geral, afirma-se que o lábio superior é curto quando mais do que um terço dos incisivos superiores aparecem. Primeiro, devemos nos perguntar o que é um lábio curto? Afinal, qual é o tamanho, em milímetros, de um lábio normal? Fazer estas e outras perguntas pode ser o começo de um bom exame. É interessante como a fonoaudiologia não se preocupou, durante muito tempo, com possíveis padrões de normalidade. Partimos direto para a busca do patológico. Esquecemos, ainda, algo bastante importante: o paciente que nos procura no consultório é, ou pelo menos pensamos que seja, patológico. Assim, qual é o nosso parâmetro? Aliás, será que existe um parâmetro de normalidade para tamanho de lábio ou mesmo para outras formas e funções as quais estamos avaliando? Voltemos, então, ao tamanho do lábio superior. Medir partes moles é bastante difícil, pois uma simples contração no momento da mensuração já trará diferenças sensíveis. Usar um bom instrumento para tomar as medidas também é importante. Os paquímetros de metal, apesar de mais caros, são de melhor qualidade do que os de plástico. Saber usar o tipo de instrumento é fundamental. Comparar o tamanho do lábio com o tamanho do osso que ele deve cobrir é o nosso objetivo para sabermos se o lábio é curto ou não. Na verdade, não há um tamanho normal para o lábio superior. Dizemos que há normalidade quando são encontradas proporções adequadas entre partes moles e partes duras. Ao tomarmos a medida do lábio superior em milímitros, observamos que, muitas vezes, este lábio que nos parece extremamente curto, na medida em que expõe 73 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II os incisivos superiores é, na verdade, mais longo do que o lábio superior de outras pessoas que não ficam com os incisivos expostos. Outro detalhe importante diz respeito a verificar com atenção o ângulo naso-labial. Quando ele está muito aberto, em geral a ponta do nariz está arrebitada e os dentes ficam mais expostos. Isto pode significar que o lábio, por causa do nariz estar arrebitado, está posicionado fora do lugar, nos dando a impressão de ser curto. Estes exemplos são amostras de como devemos estar sempre atentos e preocupados em fazer considerações e relações entre o que estamos vendo, e não apenas anotar, pura e simplesmente, o que foi visto. Imagino que você possa, neste exato momento, estar confuso. Afinal devemos ou não nos preocupar com dados de normalidade? A fonoaudiologia, ao avaliar problemas de motricidade oral, teve, no passado, um único padrão de normal e é desta noção fixa de normalidade que devemos nos afastar. Existem vários normais. Normal é o que funciona bem, em suas possibilidades. Tudo fica dependente das relações existentes entre as partes duras e moles. Regra que deve valer para todas as estruturas avaliadas. Língua. Ao avaliarmos esta estrutura, vamos procurar vê-la dentro da boca, e não fora. Ao encontrarmos marcas de dentes sobre ela em suas laterais, nem sempre isto significa algo importante para o clínico. Por exemplo, podemos, por estresse, estar com a língua marcada por apertamento temporário. Por outro lado, estas marcas podem existir há muitos anos, e não ter nada a ver com o problema que estamos avaliando. No entanto, as marcas podem significar que a língua, realmente, está apertada. Esta pressão sobre a língua pode estar ocorrendo porque a boca é pequena para a língua , porque a língua é grande para a boca ou, ainda, porque os dentes estão inclinados lingualmente, diminuindo o espaço intraoral. Dizer apenas que existem marcas não elucida nada. Novamente, os dados só terão valor quando comparados entre si ou quando levantarmos hipóteses das possíveis causas daquilo que foi encontrado. A presença de sulcos longitudinaisna língua, frequentemente dois ou três, siginifica que pode haver uma desproporção entre sua largura e a largura da cavidade oral, o que acarreta uma espécie de dobra em sua superfície. Avaliar o tamanho das amígdalas pode nos elucidar acerca da razão da protrusão da língua. Grandes amígdalas não permitem o posicionamento correto deste órgão, pois isto dificultaria sobremaneira a respiração. Ainda, em relação ao posicionamento da língua, devemos verificar a altura da face. Indivíduos de face mais longa apresentam maior dificuldade em posicionar e deglutir com a língua na papila, principalmente se este quadro vier acompanhado de respiração bucal. Temos observado também que pacientes Classe III de Angle posicionam sua língua no soalho da boca, uma vez que a mandíbula é maior do que a maxila. A língua de pessoas com esta característica tende a estar aumentada no sentido da altura. Os respiradores bucais tendem a elevar o dorso da língua mantendo a ponta para baixo. A mesma posição 74 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO tem sido encontrada, com frequência, nos Classes II de Angle. A força da língua tem sido associada ao tipo de alimentação. Comidas mais pastosas exigem menor força de mastigação e, consequentemente, menor movimentação da língua. As características genéticas, no entanto, determinam fortemente tais padrões de força e de tamanho enquanto que as condições ambientais contribuem para melhorar ou piorá-los. Bochechas. Devemos avaliar a simetria, a altura e a força de ambas as bochechas, lembrando de que elas deverão ser comparadas entre si e não com as bochechas de outras pessoas. Não devemos nos esquecer de que as demais estruturas que as circundam terão grande influência sobre elas. Uma das funções das bochechas é colaborar, durante a mastigação, com a manutenção do alimento sobre os dentes. Em uma mastigação unilateral, ocorrerá o fortalecimento da bochecha do mesmo lado. Caso a mastigação unilateral já venha ocorrendo há muito tempo, provavelmente encontraremos uma hipertrofia da bochecha do lado onde ocorre a mastigação, o que resultará numa diferença de tamanho bastante razoável. A bochecha do lado em que predomina a mastigação tende a ser mais alta e a distância entre a comissura labial e o canto externo do olho deste lado tende a ser menor do que a distância do lado de balanceio. Quando estamos falando em mastigação, dizemos que o lado onde a comida está sendo triturada chama-se trabalho e, o lado oposto, balanceio. IV. Funções realizadas pelos órgãos fono- articulatórios Embora sejam várias as funções que as partes moles e duras dos órgãos fono- articulatórios podem realizar, nos limitaremos a abordar a respiração, a mastigação, a deglutição e o ato de fala. respiração Os seres humanos nascem respirando pelo nariz e, a não ser que ocorram impedimentos mecânicos, assim continuará até a morte. Isto significa que, ao encontrarmos um paciente com respiração bucal, devemos buscar compreender o motivo dele não estar realizando esta função de forma normal. Devemos nos lembrar de que, a maior parte das vezes, a respiração não é puramente bucal, mas, sim, mista, isto é, dá-se pelo nariz e pela boca. As causas mais frequentes de uma respiração inadequada referem-se a problemas mecânicos. Eles podem estar em nível da nasofaringe, da adenoide, da orofaringe, das amígdalas ou do próprio nariz, como um desvio de septo ou, mais comumente, as hipertrofias de conchas que impedem ou diminuem a entrada do ar. Para conhecermos de forma correta qual a razão da respiração estar ocorrendo por via inadequada, uma consulta ao otorrinolaringologista é fundamental, sendo que a mesma 75 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II deve acontecer antes de iniciarmos nosso tratamento. Caso o médico nos informe que, do ponto de vista clínico, não existem problemas, devemos ainda considerar se o paciente tem possibilidade de oclusão labial, para que a respiração possa ocorrer pelo nariz. Se existir uma tipologia desfavorável ou mesmo uma oclusão que não permita o correto selamento, outra indicação, agora para a ortodontia, será necessária antes do nosso tratamento. Verificar que nosso paciente não respira pelo nariz é muito fácil. Descobrir as possíveis causas, encaminhá-lo corretamente e tratá-lo no momento adequado é mais difícil e precisa de um conhecimento maior do que o óbvio comentário de que ele não respira pela via correta. Como sempre, precisamos nos preparar para inferir causas, estabelecer relações e prioridades de tratamento. Mastigação Para avaliarmos esta função, precisamos, em primeiro lugar, conhecer os dentes e como eles se relacionam. A oclusão e a tipologia facial determinam a força e o modo de mastigar. Em segundo lugar, vamos pesquisar, com bastante detalhamento, os hábitos alimentares, não só do paciente, mas, principalmente, de sua família. Hábito alimentar não é só o que se come. É necessário saber o como, o quando, o tempo disponível, valores que se dá para a alimentação, dinheiro que se investe nisto etc. Normalmente, o problema alimentar não é só do paciente, mas é da família ou do meio no qual aquele indivíduo vive. Como prova específica, pode-se utilizar, em todas as avaliações, um mesmo alimento para que se possa criar um padrão de exame. O pão francês é uma boa opção, pois é fácil de encontrar e, praticamente, todos o comem. Filmar o exame também é aconselhável para que seja possível fazer comparação posteriores com maior objetividade. Lembrar-se de que os limites de mastigação impostos pela oclusão só serão resolvidos após o tratamento da oclusão. Como prova específica, podemos sugerir que o paciente coma o pão normalmente, como está acostumado. Após duas ou três dentadas, perguntamos onde está mastigando melhor, ou seja, qual é o lado de preferência mastigatória e por que prefere este lado. Caso o paciente não saiba identificar, devemos sugerir-lhe que coma mais alguns pedaços, para observar como ele sente a mastigação acontecendo. Em seguida, devemos pedir que mastigue apenas de um lado e observe relatando, em seguida, como foi. Depois, repetimos a mesma prova, usando o outro lado da boca. Por fim, sugerimos que volte a mastigar como o faz normalmente. Após cada prova, devemos pedir ao próprio paciente que descreva como se sentiu, se foi fácil e quais foram as dificuldades encontradas. Esta forma de avaliar faz com que possamos ter a nossa visão e também a do próprio paciente sobre como está se processando sua função mastigatória. Mesmo que o paciente não saiba nada ou só tenha 76 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO uma visão parcial daquilo que ocorre, isto não é importante. Agindo, assim, podemos saber o que o paciente percebe e já o estaremos ajudando a ficar mais atento, deste momento para a frente, em relação à sua mastigação. Praticamente, iniciamos o processo terapêutico durante a avaliação. Estes procedimentos de anamnese, exame e a própria terapia devem ser contínuos e interligados. Não podemos ter momentos estanques em que a anamnese segue uma linha, o exame outra, e ambos desvinculados da terapia. Com muita frequência, observamos que anamneses e exames com riqueza de dados são simplemente arquivados para todo o sempre, sem nenhuma ligação ou importância para a terapia. deglutição Esta função dá continuidade ao processo de mastigação e, como tal, não pode e nem deve ser avaliada em separado. Ao observarmos a mastigação também observaremos o paciente deglutindo, pois esta sequência é natural. Nada mais lógico do que olharmos, ao mesmo tempo, as duas funções. Assim, como não vamos pedir para que o paciente faça um bolo alimentar e nos mostre antes de deglutir, não pediremos que abra os lábios, a fim de olharmos dentro da sua boca enquanto deglute. Estas duas formas de avaliar levam a atipias alterando, evidentemente, o processo natural. Seria interessante que os terapeutas fizessem as provas neles próprios e em pessoas normais, para avaliar a eficácia e osresultados de tais procedimentos, antes de aplicá-los ao paciente. Normalmente, vamos mastigando e engulindo. Não fazemos um único e grande bolo de tudo o que está sendo mastigado para então deglutir. Quando isto ocorre, tendemos a realizar um movimento de cabeça para trás, na tentativa de aumentar o espaço orofaríngeo, para que todo o alimento possa passar de uma só vez. Isto acaba sendo classificado como “deglutição atípica”, quando, na verdade, foi algo que provocamos ao pedirmos uma forma de mastigação que é antinatural. Assim como esta atipia, muitas outras são provocadas pelos examinadores. Até o dentista, quando pede para que o paciente degluta com os lábios entreabertos, numa posição em que o corpo está reclinado, dificultando a deglutição, também causa uma atipia. Sugiro ao leitor atento experimentar deglutir nessas circunstâncias, não se esquecendo de um babador. Sabemos que os sujeitos Classes II de Angle, com grandes desproporções maxilo-mandibulares, deglutem com os lábios separados e, mesmo assim, procuram fazer um selamento compensatório, que é o do lábio inferior com os dentes superiores. O selamento anterior é necessário para manter uma pressão negativa no interior da boca e todas as pessoas procuram obtê-la de alguma maneira. Às vezes, vamos ter, de fato, a projeção anterior da língua no momento da deglutição. Ao invés de apenas apontar tal fato tentaremos compreender suas razões. Pode haver 77 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II uma mordida aberta anterior; pode existir amígdalas hipertrofiadas, trazendo a língua para frente para criar um espaço posterior de passagem; outras vezes, em função da respiração bucal, encontramos a língua posicionada embaixo e com sua força diminuída, ou seja, sempre há ou houve, no passado, uma razão para que a deglutição não se processasse de forma normal. Ninguém deglute errado porque assim o quer. Em geral, deglutimos da maneira que nos é possível. O nosso papel é mais do que repetir o diagnóstico pobre de “deglutição atípica”. Devemos descobrir qual é a causa da inadequação deste modo de deglutir e, mais do que a causa, tentar verificar quais são as possibilidades que o paciente tem de deglutir de outra maneira que não aquela por nós encontrada. fala Avaliar a fala, em geral, requer procedimentos mais simples. Podemos verificar como o paciente fala e que tipos de troca apresenta, apenas conversando com ele. Em geral, os pais sabem quais os fonemas que os filhos omitem ou trocam. Muitas vezes, já na ananmnese, podemos ficar conhecendo, com certa margem de segurança, quais são os problemas de fala existentes. No entanto, para uma avaliação mais precisa é importante não só sabermos quais são as trocas ou omissões, mas, mais uma vez, tentar compreender a razão das trocas e quais as possibilidades de correção. Com muita frequência, encontramos problemas de fala que fazem parte de problemas de linguagem. Infelizmente, muitas vezes, acabamos simplificando e realizando análises somente parciais, reduzindo problemas de desenvolvimento de linguagem em meras trocas ou omissões de fonemas. As distorções, por sua vez, podem estar relacionadas a problemas de forma, ou seja, a características anatômicas das estruturas que produzem fala. terapia O grande momento chegou. Muito provavelmente alguns de vocês vieram direto a esta parte sem ter lido as demais páginas que antecederam este ponto. É uma pena. Talvez seja por isto que a Fonoaudiologia tem caminhado tão lentamente. Buscamos, durante muitos anos, soluções prontas e isto não nos leva a raciocinar. Porém, se me enganei, e você já leu o restante, já percebeu que não há uma regra única, nem para avaliar e, muito menos, para a terapia. Podemos falar, talvez, de princípios terapêuticos e também pensarmos no que inviabilizaria a terapia. Após a avaliação, isto é, a anamnese e o exame, indicaremos outros profissionais e/ou exames, caso sejam necessários, para um melhor diagnóstico. Antes de a família deixar 78 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO nossa sala, já neste primeiro encontro, devemos dar a ela e ao paciente um prognóstico e um tempo aproximado de terapia. Sempre que vamos ao médico procuramos saber qual remédio devemos tomar, quais os efeitos colaterais e, o mais importante de tudo, em quanto tempo vamos ficar “curados”. A expectativa de nosso paciente não é diferente da nossa quando estamos no papel de paciente. Eles também querem saber em quanto tempo o problema estará resolvido e se a terapia vai dar resultado. Alguns chegam a nos perguntar se não existe nenhum remédio para ajudar na terapia. Nem sempre, quando encerramos a consulta, temos respostas precisas para tudo o que o paciente gostaria de saber. Desta forma, faremos prognósticos próximos daquilo que imaginamos que vá ocorrer. É recomendável propormos reavaliações de dois em dois meses, quando o problema parece ser mais simples, e de três em três, ou quatro em quatro meses, caso o problema nos pareça mais complicado. Assim, teremos um tempo maior de trabalho para que possamos emitir uma opinião mais precisa. Nas reavaliações sistemáticas, devemos explicar de forma clara para os pais e para o paciente o problema em questão e como o estamos conduzindo. Agindo assim poderemos fazer com que todos tenham uma visão do percurso terapêutico em seus detalhes, e não somente do início e do fim do trabalho. Em geral, os pais imaginam que o terapeuta consegue fazer tudo sozinho. Acredita-se que, como num milagre de transformação, o terapeuta toma o paciente e o devolve novinho em folha. Com as reavaliações periódicas, pode-se mostrar que as melhoras são progressivas e dependem da participação de todos. Nas reavaliações conseguimos averiguar se nossas hipóteses diagnósticas estão corretas ou não. Pode ser de grande ajuda as informações pertinentes trazidas pelos pais e isto só se torna possível na medida em que eles participam do processo terapêutico. Verificamos, ainda, o índice de satisfação ou de insatisfação com o trabalho que vem sendo realizado. Desta maneira, dificilmente seremos surpreendidos por atitudes dos pais como a de abandonar o tratamento com a desculpa de que o terapeuta chegou atrasado para uma sessão. Na verdade, eles utilizam tal pretexto para descarregar toda a insatisfação que sentem e terminar com uma situação que para eles, de algum modo, não era vista como favorável. Especificidades da terapia do sistema sensório-motor oral respiração Após o exame otorrinolaringológico, podemos iniciar nosso trabalho. Caso o paciente tenha apenas um hábito de respirar inadequadamente, a terapia será mais tranquila do 79 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II que nos casos com pacientes alérgicos. Mesmo que o paciente tenha um impedimento mecânico, como hipertrofia de adenoide, será válido trabalharmos com ele, pois as tentativas seguidas de respiração, via nariz, podem ajudar na desobstrução ou mesmo no tratamento médico. Devemos iniciar o tratamento fazendo comentários sobre a importância da respiração nasal e quais são as estruturas que compõem o aparelho respiratório. Devemos também explicar quais são suas dificuldades para utilizar esta via e as possibilidades de utilizá-la. Precisamos ensiná-lo a limpar o nariz e a fazer com que ele aprenda a utilizá-lo, inicialmente em terapia. Não adianta pedir para que faça exercícios respiratórios em casa e esperar que isto ocorra normalmente. O paciente precisa começar a treinar na terapia e ir relatando as dificuldades que está sentindo. O terapeuta deverá, neste instante, estar atento para poder explicar ao paciente possíveis dúvidas que possa ter: por que não passa ar pelo nariz, por que as narinas ardem na inspiração, por que dá tontura, por que falta ar etc. O terapeuta tem que conhecer bem a anatomia e a fisiologia do aparelho respiratório, para poder explicar ao paciente todos os sintomas que vão aparecendo durante as sucessivas tentativas de aprender a inspirar e expirarpelo nariz. No caso de pacientes alérgicos, a terapia pode processar-se da mesma maneira. No entanto, os resultados tendem a ser parciais. Devemos informar a família que não vamos curar a alergia. Mas, o fato de o paciente usar mais vezes o nariz nos momentos que não está em crise, poderá fazer com que as crises até diminuam. Normalmente, o paciente alérgico, apesar de estar muitas vezes desobstruído, não percebe isto e, por hábito, continua usando a boca para respirar. A terapia é bastante útil, uma vez que pode levar o paciente a perceber tais momentos e a usar o nariz mais vezes. Mastigação Pacientes com a oclusão normal Devemos ensinar, basicamente, uma mastigação com os lábios ocluídos, utilizando os dois lados da boca, alternadamente, para a trituração dos alimentos. A quantidade de comida colocada na boca também é importante. Muita comida não permite uma mastigação eficiente. A velocidade também deve ser controlada. Não devemos trabalhar forçando a ingestão de alimentos que o paciente não aprecia. A alimentação deve ser algo prazeroso. Não há necessidade de iniciar com alimentos pastosos para depois passar para sólidos, a não ser em pacientes pequenos ou com alterações neurológicas. Conversar com os pais sobre hábitos alimentares e formas de alimentação é fundamental, uma vez 80 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO que o paciente está conosco poucas horas por dia. Devemos trabalhar com exercícios de força, quando houver necessidade, solicitando que os mesmos sejam realizados uma vez por dia, durante alguns minutos. É mais importante a realização diária, com pouco tempo de duração, porém sistemática, do que por um tempo prolongado, mas que não seja realizada rotineiramente. Pacientes com problemas oclusais Se existem problemas com a oclusão dentária, o ideal é que o paciente seja primeiro tratado com o odontólogo, para depois fazer terapia, caso seja necessário. Se o paciente não necessitar de tratamento odontológico, iremos trabalhar da mesma maneira, apenas respeitando as possibilidades que ele apresenta para realizar a mastigação. A forma de mastigar encontrada pode ser melhorada, mesmo que não fique “perfeita”. Trabalhamos explicando o que é uma mastigação ideal e como é que ele, paciente, está realizando tal função. Mostramos que, apesar de sua forma oclusal não ser a melhor, é a condição que ele efetivamente tem, e que sempre existe algo que pode ser melhorado. Ele será o agente de suas mudanças e estará informando ao terapeuta sobre o que ocorre, quais as tentativas que faz para mudar e como está percebendo e sentindo as mudanças que estão se processando. deglutição Observamos que quando o paciente pode respirar pelo nariz, quando tem uma boa oclusão, quando mantém os lábios ocluídos, quando o espaço interno é compatível com o tamanho da língua e que, quando ele mastiga adequadamente, também pode deglutir corretamente. Os demais pacientes, que não apresentam tais características terão que adaptar seu modo de deglutir às condições existentes. O nosso paciente mais “típico” é aquele que, apesar das boas condições de forma e de respiração, deglute com projeção anterior. Verificar a postura, o tônus, os hábitos alimentares e modificá-los, caso seja necessário, é bastante importante para que ele consiga uma melhor deglutição. Os exercícios para aumentar a força da língua e para melhorar a propriocepção são fundamentais para a obtenção de um melhor posicionamento da língua na cavidade oral. O trabalho com alterações da motricidade oral é vasto e exige, de maneira geral, que o diagnóstico tenha sido bem feito. Quando está claro para ambos, paciente e terapeuta, quais são os limites possíveis e a importância do trabalho a ser realizado, o investimento de todos é maior e os resultados mais favoráveis. 81 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II outros comentários Hanson e Barrett (1995) apud FOLHA (2010) descreveram que o exame detalhado das estruturas orofaciais deve preceder o das funções, e a avaliação das estruturas externas deve preceder a da cavidade oral. Inicia-se o exame pela avaliação da face, considerando a relação entre as porções superior e inferior e entre os tecidos moles e os componentes do esqueleto – padrão facial; do nariz quanto a forma, tamanho e simetria; dos lábios quanto a postura de repouso, presença de rachadura, ressecamento, cicatriz ou ferimento, a tensão, se há reversão/protrusão do lábio inferior e se há prega horizontal abaixo do lábio inferior; do vestíbulo oral analisa-se os frênulos labiais e as condições da gengiva; dos dentes observa-se o estado de conservação, a presença de diastemas, falhas dentárias, dentes supranumerários, assimetrias entre os dois lados dos arcos dentários, além de mensurar o trespasse vertical e horizontal e realizar a classificação de Angle; do palato duro analisa-se a largura, a altura e a conformação e se há fissura, verifica-se o tamanho das tonsilas palatinas; do palato mole verifica-se a mobilidade, o comprimento e a coloração para identificar a presença de fissura submucosa; da úvula considera-se as variações da forma e tamanho ou sua inexistência; e da língua avalia-se o tamanho, a forma, a presença de sulcos ou traços geográficos e a posição no repouso. Hanson e Barrett (1995) destacaram, ainda, que o miologista orofacial trata quatro funções envolvidas com estas estruturas e, para tanto, devemos saber avaliá-las. Trata-se da postura de repouso das estruturas anteriormente citadas; da respiração, se esta ocorre pelo nariz ou pela boca e se há ruídos; da mastigação; da deglutição, avaliada com sólidos e líquidos; e da fala espontânea ou contagem até 20, observando-se a presença de sigmatismo ou dentalização dos sons liguo-alveolares. Os autores preconizaram que, em relação à deglutição, o terapeuta deve definir o tipo encontrado, e, de alguma forma, determinar a gravidade e o grau de constância do padrão anormal. Sugeriram a utilização de uma escala, atribuindo-se para a deglutição normal o grau 0; quando houver contato linguodental significativo, mas com a superfície lingual dos dentes anteriores e laterais, o grau 1, indicando deglutição atípica moderada; e se a língua se projeta anteriormente além dos dentes, atribui-se o grau 2, ou seja, grave. Bianchini (2000) apud FOLHA (2010) destacou que numa avaliação fonoaudiológica completa não basta constatar a presença de distúrbios miofuncionais. É necessário estar atento a todas as possíveis relações desencadeantes do problema funcional observado. Além disso, analisar os possíveis efeitos das atividades miofuncionais em relação à patologia que o indivíduo apresenta e a possibilidade de ajuda do fonoaudiólogo, no 82 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO sentido de amenizar os fatores funcionais agravantes e auxiliar na remissão do problema. A avaliação consiste de uma anamnese que é o primeiro contato com o paciente, sendo nela investigados os dados da história clínica do indivíduo e feita a verificação das funções estomatognáticas, como postura habitual, respiração, deglutição de saliva, articulação da fala, voz e coordenação entre as funções, assim como a presença de alguns hábitos parafuncionais. O exame clínico envolve a análise funcional de situações espontâneas, como postura corporal, análise facial quanto à simetria, tensão, repouso dos lábios e língua, respiração, deglutição e fala, presença de hábitos como morder lábios, umedecer lábios, apertamento dentário, entre outros. Também verificam-se as características craniofaciais, como face, se curta, média ou longa, perfil, se reto, convavo ou convexo, além da intensidade do desvio das alterações neuromusculares associadas. É verificado as estruturas e a musculatura de lábios, bochechas, mento mole, língua e assoalho bucal, assim como palato duro e mole, tonsilas palatinas, gengiva e mucosa jugal, mobilidade dos lábios e língua; e avaliação das funções de respiração, mastigação, deglutição e fala. Com osdados da avaliação em mãos, a terapia fonoaudiológica poderá ser indicada, podendo ser associada a outras terapêuticas como a ortodôntica e a otorrinolaringológica. Qual terapia deverá vir primeiro dependerá se as características observadas são alterações neuromusculares ou situações adaptativas secundárias à forma. Bianchini (2001) apud FOLHA (2010) analisou alguns pontos da avaliação fonoaudiológica, buscando estabelecer as relações entre forma/função pertinentes a cada caso. O primeiro passo foi a anamnese, podendo durante a realização desta, serem observados aspectos como postura habitual, respiração, deglutição de saliva, articulação da fala, voz e coordenação entre as funções, assim como a presença de alguns hábitos parafuncionais. A avaliação em si constou da análise de dados de áreas afins como da Odontologia e Otorrinolaringologia, sendo os mesmos analisados com tais profissionais. Os dados de observação foram: postura corporal, análise facial quanto a simetria, tensão, repouso de lábios e língua, respiração, deglutição e fala, presença de hábitos como morder lábios, umedecer lábios, apertamento dental, entre outros. As características craniofaciais avaliadas foram as proporções verticais da face, o perfil facial e a intensidade do desvio, relativo à severidade das desproporções maxilo mandibulares. Houve também verificação das estruturas e musculatura, envolvendo avaliação de lábios, bochechas, mento mole, língua, assoalho bucal, palato duro e mole, tonsilas palatinas, gengivas e mucosas jugais que devem ser analisadas quanto à postura, forma, simetria, tônus, tensão, sinais em mucosa, presença de nódulos e resistência; além desses, a palpação, a presença de dor e a contração dos músculos temporais e masseteres foram avaliadas. A avaliação de mobilidade dos lábios e da língua foi realizada, assim como das funções de respiração, mastigação, deglutição e 83 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II fala. A autora conclui que a avaliação detalhada e multidisciplinar de cada paciente se faz necessária para assim se definir o diagnóstico e as interferências determinantes. Após isso, deve se estabelecer a hierarquia dos trabalhos ou trabalhos em conjunto. A autora destacou também a eficácia da terapia miofuncional quando devidamente direcionada aos distúrbios miofuncionais orofaciais, adequando às funções estomatognáticas, restabelecendo o padrão muscular e, consequentemente, modificando a forma se não houver impedimentos, podendo o trabalho fonoaudiológico ser realizado antes ou após o tratamento do paciente por outros profissionais, dependendo do caso. Protocolos Protocolo MBgr Ele é extenso, porém de fácil aplicação e mantém o mesmo padrão dos protocolos de motricidade orofacial geral, existentes até o momento. Por ser um protocolo da MO de caráter mais global, quando for necessário, devem ser utilizados outros protocolos mais específicos para problemas pontuais, como é o caso das disfunções da articulação temporomandibular, paralisia facial, problemas de fala de origem neurológica, fissura labiopalatina e disfunção velofaríngea, entre outros. Os autores do protocolo MBGR sugerem a realização de medidas para análise facial e frênulo lingual, bem como da oclusão (estática e dinâmica) e dos movimentos mandibulares. O protocolo MBGR contém ainda questões que demandam do avaliador análises subjetivas baseadas no seu conhecimento. A investigação criteriosa dos aspectos anatômicos se faz necessária, uma vez que os problemas encontrados podem estar diretamente relacionados às alterações funcionais apresentados pelo paciente, ou, ainda, limitar o sucesso do tratamento. 84 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 85 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 86 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 87 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 88 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 89 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 90 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 91 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 92 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 93 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 94 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 95 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 96 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 97 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 98 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO Protocolo AMiofE O protocolo MBGR de Genaro et al. (2009) contém escalas numéricas mais amplas, permitindo identificar a normalidade, os desvios e distúrbios, no entanto o protocolo não foi validado até o momento. Felício e Ferreira (2008) desenvolveram e validaram um protocolo com escalas numéricas (Protocolo de Avaliação Miofuncional Orofacial com Escores – AMIOFE), para ser utilizado por fonoaudiólogos de forma que a percepção do examinador a respeito das características e dos comportamentos orofaciais observados possa ser expressa por escalas numéricas, permitindo a mensuração da impressão do clínico, sem a necessidade de utilização de materiais especiais. Contudo, apesar de sua reconhecida importância, a avaliação perceptiva apresenta certas limitações, devido à sua subjetividade (TRINDADE et al., 2005), e a maior precisão nos resultados pode ser obtida com escalas numéricas de avaliação maiores. (KAHRAMAN; KAMATA, 2004). 99 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II Para a análise do AMIOFE ,os seguintes critérios foram adotados (FELÍCIO, 2009) apud FOLHA (2010). Aspecto e postura de lábios, mandíbula, bochechas, simetria facial, posição da língua e aparência do palato duro: uma escala de 3 pontos é usada, sendo o escore 3 adotado para normalidade, 2 para alteração leve e 1 para alteração severa. Para os lábios, considera-se escore 2 quando estiverem no repouso selados com tensão ou entreabertos, 1 se estiverem totalmente abertos. Para a mandíbula, o escore 2 é atribuído se os dentes estiverem em oclusão ou se a mandíbula estiver levemente abaixada, porém com um espaço entre os dentes mandibulares e maxilares maior que o espaço funcional livre (maior que 4 milímetros), e o escore 1 se a mandíbula estiver totalmente abaixada. Para as bochechas, o escore 2 é atribuído se encontrada assimetria leve entre as bochechas, ou o escore 1 se a assimetria for severa, ou se estas se apresentarem flácidas e/ou arqueadas. Para a simetria facial, o escore 2 é atribuído para assimetria leve e, o escore 1 para assimetria facial severa. A posição da língua alterada no repouso recebeu o escore 2 se estiver interposta aos arcos dentários por adaptação ou disfunção, ou o escore 1 se estiver interposta em excesso, ou seja, ultrapassando as faces incisais dos dentes incisivos e/ou as cúspides vestibulares dos dentes posteriores. O palato duro alterado poderá receber o escore 2 se apresentar largura diminuída em grau leve, ou escore 1 se a largura estiver diminuída em grau severo. Para a mobilidade de lábios, língua, mandíbula e bochechas, atribuem-se os escores numa escala de 3 pontos: 3 = normalidade, 2 = habilidade insuficiente e 1 = ausência de habilidade ou não realização da tarefa. São considerados normais: movimentos isolados de cada componente, precisos e sem tremor. No caso dos lábios, é atribuído o escore 2 quando há habilidade insuficiente ou tremor, o escore 1 é atribuído se houver falta de habilidade ou quando o movimento não é realizado. Para a língua, o escore 2 é atribuído se houver habilidade insuficiente ou tremor, o escore 1 é atribuído se houver falta de habilidade ou quando o movimento não é realizado. Para a mandíbula, o escore 2 é atribuído se houver habilidade insuficiente ou desvios, o escore 1 é atribuído se não houver habilidade ou não houver a realização do movimento. Para a respiração, uma escala de 3 pontos é administrada, sendo o escore 3 atribuído para respiração nasal, ou seja, se os lábios permanerem em oclusão sem esforço, principalmente durante as situações de repouso, mantendo o espaço funcional livre e durante a mastigação. Ainda, se no repouso a mandíbula estiver abaixada, mas osujeito mantiver a língua interposta entre as arcadas dentárias de modo que bloqueia totalmente a passagem de ar pela boca; o escore 2 é atribuído se durante a respiração o sujeito apresentar a inspiração do ar simultaneamente pelas cavidades oral e nasal, mesmo se ele conseguir fazer a inspiração apenas nasal, sem demonstrar sinais de cansaço 100 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO e falta de ar; o escore 1 se ao tentar a inspiração apenas nasal o sujeito, em poucos minutos, demonstrar a cansaço, falta de ar e abrir a boca para respirar, observado tanto em repouso como na prova de mastigação. A função de respiração pôde ser avaliada durante toda a sessão de avaliação, registrada em vídeo, apenas a partir da postura e aparência dos órgãos do sistema estomatognático, não sendo possível qualquer outra análise. Na prova de deglutição, é solicitado ao sujeito que leve à boca o copo d’água e depois de dar um gole, abaixe o copo, para que a toda a face possa ser visualizada, e engula de modo habitual. São realizadas pelo menos duas repetições. Posteriormente, é explicado ao sujeito que ele deverá proceder como na prova anterior, mas que o examinador colocará o dedo indicador sob seu queixo e o polegar abaixo do seu lábio inferior (região do músculo mentual) e que seus lábios serão afastados imediatamente após a deglutição. Assim, o examinador separará os lábios para permitir a visualização dos dentes e da língua em caso de interposição da língua. Para a deglutição, para os lábios uma escala de 4 pontos é adotada, atribuindo-se escore 4 quando os lábios vedarem a cavidade oral, mas apresentarem contração além do normal; é atribuído o escore 3 para contração leve e o escore 2 para contração severa; o escore 1 foi atribuído quando os lábios não vedarem a cavidade oral. Para a língua, é considerado padrão normal e atribuído o escore 4, quando o sujeito apresentar a língua contida na cavidade oral e o vedamento anterior da cavidade oral sem esforço; se ocorrer alguma alteração da deglutição, adaptação ou atipia é registrado em quais músculos e/ ou ações, assim, o escore 2 é atribuído se a houver interposição leve da língua entre os arcos dentários por adaptação ou disfunção; e o escore 1 é atribuído se a língua apresentar interposição aos arcos dentários em excesso, ou seja, se estiver ultrapassando a face incisal dos dentes incisivos e/ou as cúspides vestibulares dos dentes posteriores. Para outros sinais de alteração como movimentação da cabeça, tensão dos músculos faciais e escape do alimento, quando presentes, é atribuído, individualmente, o escore 1, ou, se ausentes, o escore 2. Além disso, a eficiência da deglutição, considerada neste caso como a capacidade de impelir o bolo da cavidade oral para a orofaringe, é avaliada tanto para a deglutição do bolo sólido quanto para o bolo líquido, sendo que para cada uma dessas consistências é atribuído o escore 3, caso não houver mais de uma repetição da deglutição do mesmo bolo; o escore 2 caso houver mais de uma deglutição, ou o escore 1 para o caso de deglutições múltiplas. Para a mastigação, uma escala de 3 pontos é atribuída à trituração, o escore 4 se esta for bilateral alternada; 3 se for bilateral simultânea; 2 se houver preferência mastigatória unilateral, 66% de um mesmo lado; 1 se for unilateral crônica, 95% do tempo de um mesmo lado da cavidade oral ou ainda, se for anterior ou houver ausência da função. O 101 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II tempo para o consumo de cada porção é mensurado da seguinte maneira: o cronômetro é acionado após o alimento ser mordido ou colocado na cavidade oral e assim que os lábios forem ocluídos, ou caso não houver oclusão labial, assim que a trituração for iniciada, sendo este paralisado quando ocorrer a deglutição final daquela porção, o que evita incluir o tempo gasto para levar o alimento até a boca e outras variáveis. O tempo total para o consumo do alimento é calculado pela somatória dos tempos despendidos para a ingestão de cada porção. Essa medida inclui o tempo de trituração e de deglutição. O tempo que o bolo permanece do lado direito da cavidade oral, quando isto ocorrer, é mensurada acionando o cronômetro no início da trituração e paralisado cada vez que o alimento for transferido para o lado esquerdo, sendo acionado quando novamente o alimento se encontrar do lado direito e assim sucessivamente. O mesmo procedimento é utilizado para mensurar o tempo de trituração do lado esquerdo. Quando a trituração ocorrer de ambos os lados simultaneamente, o cronômetro é acionado e interrompido se o alimento for levado para um dos lados e mais uma vez acionado, se o alimento voltar a ser triturado no padrão bilateral simultâneo. A análise para cada um dos lados e a trituração bilateral é realizada separadamente, ou seja, primeiramente é cronometrada a mastigação à direita, depois à esquerda e, por fim, a bilateral simultânea. O cálculo das porcentagens é realizado com base na somatória dos tempos parciais em relação ao tempo total. Além disso, a função da mastigação é avaliada quanto à presença de outros comportamentos e sinais de alteração como movimentação da cabeça ou outras do corpo, postura alterada e escape de alimento. Para a presença de cada um desses itens é atribuído o escore 1 ou, na ausência, o escore 2. 102 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 103 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 104 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 105 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 106 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 107 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 108 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 109 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 110 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO Avaliação A consideração dos aspectos morfológicos e fisiológicos do sistema estomatognático, bem como da classificação do tipo de oclusão e dentição são fundamentais obtenção dos resultados da avaliação, que enfoca as correlações entre fala, respiração oral, dentição e oclusão. É importante considerar que as alterações na produção da fala podem variar, dependendo da gravidade do problema estrutural. A literatura consultada descreve que o sistema estomatognático é composto por ossos, dentes, articulação temporomandibular, músculos, sistema vascular e nervoso e espaços vazios. Qualquer alteração, principalmente sobre os dentes, poderá levar a um desequilíbrio de todo o sistema, acarretando alterações de fala. As alterações de oclusão podem advir de várias causas, sendo a respiração oral uma delas. Nos respiradores orais, a língua tende a permanecer mais baixa na cavidade oral, podendo ocasionar mudanças nos tecidos musculares e alterar as funções do sistema estomatognático, incluindo a produção da fala. (MARTINELLI, 2011.) 111 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II PACIENTE IDADE AVALIAÇÃO DE FALA Distorção Omissão Substituição Adição Imprecisão Ceceio anterior Ceceio lateral Travamento SINAIS DE RESPIRAÇÃO ORAL Olheira Eversão do lábio inferior Acúmulo de saliva nas comissuras labiais Lábios entreabertos no repouso Lábios ressecados Lábio superior encurtado DENTIÇÃO OCLUSÃO Classificação da oclusão CLI CLII – div. 1 CLII – div. 2 CLIII Classificação da dentição Sobressaliência Sobremordida Mordida aberta Biprotusão Cruzamento Falta de espaço intraoral Desvio ósseo de linha média inferior 112 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO Parâmetros do roteiro rof utilizados A observação visual do roteiro ROF deve ser feita utilizando velocidade normal, slow motion e congelamento de imagem. REGISTRO FRONTAL EM REPOUSO REGISTRO DA OCLUSÃO E DENTIÇÃO REGISTRO DA CONFIGURAÇÃO DO PALATO Fonte: REHDER, M.I,; FERREIRA, L.B.; SILVA JR. Proposta de avaliação em vídeo na clínica multidisciplinar: fonoaudiológica, ortodôntica e reabilitadora. Anais do VI Congresso Internacional de Fonoaudiologia. São Paulo, 1999. A avaliação dadentição e da oclusão. Em relação à análise ortodôntica da oclusão e da dentição, cabe ao Ortodontista classificar a oclusão como classe I, classe II – 1, classe II – 2, classe III de acordo com Angle 21; na avaliação da dentição considerar a ocorrência ou não de: sobressaliência, sobremordida, mordida aberta, biprotrusão, cruzamento, falta de espaço intraoral e desvio ósseo de linha média inferior. A falta de espaço intraoral é considerada a partir da ocorrência de apinhamento dentário, atresia do palato e dificuldade no deslizamento lateral e anterior da mandíbula. O desvio da linha média óssea inferior é analisada através da imagem frontal. A análise da documentação ortodôntica é utilizada para a confirmação da avaliação global e OTD. Nas avaliações de produção de fala, considerar os seguintes aspectos: presença de distorção, omissão, substituição, adição, imprecisão, travamento, ceceio anterior e lateral. Considerar distorção os ajustes ou as compensações utilizadas para a produção de um fonema ou um grupo de fonemas; omissão quando um fonema ou mais fonemas não forem produzidos; na substituição quando ocorreu a troca de fonemas por dentes anteriores; como ceceio lateral quando o fluxo respiratório foi dividido lateralmente havendo escape lateral de ar pela cavidade oral durante a produção dos fricativos linguodentais. Na avaliação da respiração, observar os seguintes sinais: olheira, eversão do lábio inferior, acúmulo de saliva nas comissuras labiais, lábios entreabertos no repouso, lábios ressecados, lábio superior encurtado. 113 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II Alteração do frênulo lingual e fala O frênulo da língua é uma prega mediana de túnica mucosa que conecta a língua ao assoalho da boca, permitindo a parte anterior desse órgão mover-se livremente. Por não ser um músculo, não tem origem nem inserção. No recém-nascido, o frênulo lingual é posicionado do ápice da língua até a base do processo mandibular alveolar. À medida que existe desenvolvimento e crescimento ósseo, com prolongamento lingual e erupção dentária, o frênulo migra para posição central até ocupar a sua fixação definitiva com erupção dos segundos molares decíduos. Na literatura são encontradas classificações diferentes de frênulos: mucoso curto, mucoso longo de fixação mandibular e hipertrófico fixado na crista do rebordo alveolar. O frênulo lingual pode ser classificado também como curto, com fixação anteriorizada e curto com fixação anteriorizada. A anquiloglossia, vulgarmente conhecida como língua-presa, é uma anomalia congênita incomum, mas não rara caracterizada por um freio lingual curto e grosso, resultando em limitações nos movimentos da língua. Estudos apontam predisposição maior em meninos do que em meninas. Os fonoaudiólogos encontram muitos pacientes com queixas diversas que levam à hipótese de que o frênulo da língua pode apresentar alguma alteração, sendo o causador ou, pelo menos, agravante dos problemas verificados. Os problemas mais comuns estão relacionados às dificuldades de articulação da fala. O falante poderá apresentar limitações ao realizar movimentos articulatórios mais amplos e elaborados, o que reduz a abertura de boca e seus grupos consonantais. Outros sons da fala que podem ser afetados englobam os fonemas [t], [d], [z], [s], [r], [tz], [l] [λ], [n]. Movimentos de protrusão, elevação, retrusão, lateralização e vibração também se encontram prejudicados. Estas alterações geralmente surgem na infância e se mantêm na vida adulta, caso não sejam tratadas. Outra alteração citada na literatura refere-se à alimentação, principalmente durante a fase de amamentação. Os principais sintomas associados à anquiloglossia na amamentação são dor no mamilo da mãe, dificuldade na ordenha e sucção, que resultam em desmame precoce e perda de peso. Devido às limitações dos movimentos da língua em decorrência de alterações no frênulo, pode-se ainda observar ineficiência dos processos de mastigação e deglutição especialmente no estágio oral (por dificuldade de acoplamento da língua no palato duro), devido à postura baixa de língua , que, por sua vez, gera acúmulo de alimentos na 114 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO cavidade oral. Encontrou-se também referência à interposição anterior ou bilateral de língua. Ainda são citadas alterações dentárias como, por exemplo, diastema, alterações de oclusão e do tecido periodontal. Alguns dos problemas relacionados à anquiloglossia, tais como dificuldade de lamber os lábios, sorvete, beijar, implicam constrangimentos. A literatura fonoaudiológica é escassa em relação ao tema, incluindo pesquisas conclusivas quanto à existência de uma possível associação entre a presença e o grau de limitação gerada pelo frênulo encurtado e/ou com fixação anteriorizada e a quantidade ou gravidade das decorrentes distorções de fala. (BRAGA, 2009). Marchesan (2004) apud FOLHA (2010) buscou estabelecer um método quantitativo para classificar o frênulo da língua, a partir do julgamento de dois fonoaudiólogos que avaliaram 98 sujeitos e caracterizaram o frênulo como normal ou alterado. Utilizaram o protocolo qualitativo, proposto por Marchesan (2003), o qual estabelece que frênulos curtos são de tamanho menores do que a maioria, embora inseridos em local correto, conforme descrição anatômica, ou seja, da metade da face inferior da língua (face sublingual) ao assoalho da boca; frênulo com inserção anteriorizada, ou seja, embora de tamanho normal, está inserido em qualquer ponto, à frente da metade da face inferior da língua, podendo estar inserido inclusive próximo ao ápice; frênulo curto com inserção anteriorizada, sendo este a combinação dos dois anteriores. Também foi verificado a liberdade de movimentos da língua a partir da realização das tarefas: língua para fora, tocar as comissuras labiais, para cima e para baixo. O frênulo foi classificado como alterado se houvesse tanto dificuldade nos movimentos quanto resultado alterado no protocolo qualitativo; caso contrário,era classificado como normal. Outras quatro medidas foram tomadas por um fonoaudiólogo utilizando o paquímetro, sendo: abertura máxima da boca apoiando, se o paquímetro nos dentes incisivos centrais superior e inferior do lado esquerdo e essa medida foram tomados como valor de referência para as comparações; abertura máxima da boca, porém com o ápice da língua apoiado na papila incisiva e considerando-se os mesmos pontos de apoio para o paquímetro; abertura máxima da boca, mas com a língua sugada ao palato, sendo o paquímetro apoiado nos mesmos pontos; como última medida, uma espátula de madeira era encostada na face vestibular dos incisivos centrais inferiores solicitando-se ao indivíduo que colocasse a língua para fora o máximo possível sobre a espátula e, com um lápis era demarcado esse local, medindo-se com o paquímetro da ponta da espátula até o local demarcado. Posteriormente, foi aplicada regra de três, relacionando-se o valor de referência com as três medidas. Os resultados mostraram que a melhor forma para análise era a relação entre o valor de referência e o valor com o ápice da língua tocando na papila incisiva. 115 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II fonte: brAGA, lívia Augusta dos Santos et al. prevalência de alteração no frênulo lingual e suas implicações na fala de escolares. revista CEfAC, v. 11, n. 3, p. 378-390, 2009. 116 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO Parâmetros da avaliação do frênulo Avaliar o frênulo para caracterizá-lo como normal ou alterado por meio da inspeção visual, baseando-se no seguinte critério: a) frênulo normal: fixação vai da metade da face inferior da língua (face sublingual) até o assoalho da boca; b) frênulo curto: fixação em local correto e com tamanho pequeno; c) fixação anteriorizada: apresenta tamanho adequado e fixa-se em qualquer ponto na face inferior da língua, do meio para frente ou próximo ao ápice, o que dificulta e/ou impede a elevação do terçoanterior; d) frêmulo curto com fixação anteriorizada: apresenta tamanho menor com fixação à frente da metade da face inferior da língua, ou seja, este frênulo é misto dos dois anteriores. Tomadas de medidas com o uso do paquímetro: a) máxima distância interincisal; b) máxima distância interincisal com língua na papila. Para realização da primeira medida, solicita-se a abertura máxima da boca e, em seguida, colocar o ápice de sua língua na papila palatina para mensuração da segunda medida. Após a coleta das medidas com o paquímetro, aplica-se a regra de três relacionando a abertura máxima de boca sem e com a língua na papila, no qual o valor da segunda medida é multiplicado por 100 e dividido pelo valor obtido na primeira medida. De acordo com a porcentagem obtida o resultado menor que 50% indica frênulo alterado, entre 51% e 59%, alterado ou normal, e maior que 60%, normal. Os pacientes devem ser fotografados com a câmera fotográfica e, posteriormente, submetidas à avaliação funcional, que abrange aspectos como tensão da língua, posicionamento da mesma durante a postura habitual, praxias, observação do assoalho da língua durante a elevação e formato retangular/quadrado ou em forma de coração do ápice ao protuir a língua. Para a avaliação da tensão lingual, os pacientes são solicitados a empurrar a língua contra uma espátula. Nesta avaliação, os critérios considerados, de acordo com a capacidade de a língua imprimir força e mantê-la, foram: adequada, levemente hipotensa, hipotensa ou hipertensa. Em relação às praxias, os pacientes são solicitados a realizar movimentos com a língua para verificação de liberdade de seus movimentos. Os movimentos solicitados são: língua para fora, dentro, cima, baixo, lado direito, lado esquerdo, estalo de ponta de língua, sucção e vibração. 117 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II Análise acústica da fala Journal of Speech Sciences 2(1):33-47. 2012. Available at: <http://www. journalofspeechsciences.org> Abordagem fonética de dados clínicos CAMARGO, Zuleica. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - Laboratório Integrado de Análise Acústica e Cognição (LIAAC) Abstract: This study aims at presenting a review, from the methodological point of view, of procedures and demands related to the phonetic approach of clinical data. The possibility of taking into account the interface between speech perception and production may be productive when analyzing data collected from clinical settings or developing researches in which the central questions arose from the clinical practice. The dynamics aspects of speech are considered. The series of studies reported reinforces the indication of a highly integrated and cooperative approach among the several research areas concerned on speech production and perception. The capability of producing speech under disorders caused by damages in phonatory and auditory systems can stimulate researchers to develop approaches that could influence theoretical models, rehabilitation tools and speech technologies development. Keywords: speech therapy; speech acoustics; speech perception; voice quality. introdução A abordagem fonético-acústica de dados advindos da clínica fonoaudiológica tem se configurado como uma possibilidade de leitura atenta e detalhada dos mecanismos subjacentes à geração do sinal de fala1 registrado, muitas vezes fruto de mecanismos compensatórios desenvolvidos na tentativa de superar alterações de natureza estrutural e/ou funcional do aparelho fonador e do sistema auditivo. A leitura de dados clínicos revela a possibilidade de uma relação profícua entre Fonoaudiologia e Ciências Fonéticas, em que, num extremo, temos a possibilidade de detalhamento de mecanismos que podem ser determinantes da manifestação clínica, permitindo um planejamento terapêutico diferenciado. No outro extremo, contamos com a condição de aprofundar a leitura de dados de variabilidade de fala. Situada entre os extremos citados, encontramos uma vasta gama de manifestações que interessam tanto àqueles que se dedicam a atividades clínicas, quanto àqueles envolvidos com o estudo da variabilidade da fala e com a possibilidade de adoção de modelos de natureza dinâmica. (GREGIO et al., 2006). 118 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO Nesta concepção, ambos os campos de conhecimento beneficiam-se da abordagem da plasticidade do aparelho fonador em se adaptar a demandas advindas de uma vasta gama de alterações, além das possibilidades expressivas da fala, outra abordagem refinada permeada pela Fonética Acústica e enfocada no universo de atuação fonoaudiológica. A consideração das manifestações clínicas sob a perspectiva fonética conclama os fonoaudiólogos a romperem a clássica dicotomia estabelecida entre normalidade x alteração, a qual, além de não contribuir para a compreensão mais refinada das alterações de fala, e de suas possibilidades de abordagem clínico-terapêutica, leva a uma simplicação da natureza dinâmica dos processos de percepção e de produção da fala. Neste contexto, o nosso enfoque a respeito da possibilidade de “cura” das alterações deve superar a consideração de um “ideal de normalidade”, no sentido de que comparar o comportamento de um falante a tal ideal pode impor limitações na consideração de suas reais possibilidades: as condições anátomo-fisiológicas presentes, aquelas de sua adaptação à situação da alteração de fala, de seu conhecimento da língua e das possibilidades e restrições inerentes. (CAMARGO, 2004). Tal concepção permite superar outras dicotomias, tais como fala x voz e fonética x fonologia. Entender a manifestação em si e orientar o falante quanto às possibilidades e às limitações presentes parece ser a solução mais indicada. (MARCHESAN, 2004, 2004a). Além disso, a adoção de modelos de o termo sinal de fala como o resultado dos complexos processos nos planos linguístico, fisiológico, acústico e perceptivo, em que são congregados os elementos segmentares e prosódicos. Sendo a qualidade vocal um elemento prosódico, os aspectos clínicos da voz também estão comtemplados no termo sinal da fala. Para corresponder às questões de abordagem clínica nas especialidades na atuação fonoaudiológica, mencionaremos fala no sentido de conjugar fala e voz do ponto de vista clínico, o que equivaleria ao sinal de fala-voz. Os aspectos tradicionalmente enfocados como “articulatórios” na clínica fonoaudiológica (nas especialidades de motricidade orofacial e de linguagem) corresponderiam aos elementos segmentares, enquanto aqueles da atuação em especialidades de voz e na linguagem, e, particularmente, na área de fluência, corresponderiam ao enfoque dos elementos prosódicos. Não se pretende estabelecer uma divisão entre estes elementos, mas valorizar sua possibilidade de interação, conforme indicado em Albano et al. (1997). Adotamos uma perspectiva de associação de informações de natureza perceptiva, acústica e fisiológica, na busca pela descrição integrada do sinal de fala. (STEVENS, 1989/1998; JOHNSON, 2003). A natureza dinâmica permite um olhar diferenciado sobre estas manifestações, enfocadas mais propriamente como gradientes de percepção e de produção de fala. 119 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II (MADUREIRA et al., 2002; BARZAGHI- FICKER, 2003; CAMARGO et al., 2003; MENDES, 2003; VIEIRA et al., 2004; Berti, 2006; GREGIO, 2006; BONATTO, 2007; PEREIRA, 2007; BARZAGHI-FICKER et al., 2008; SOARES, 2009; LIMA-GREGIO, Barbosa, 2010; OLIVEIRA, 2011; CAMARGO et al., 2011; MARCHESAN et al., 2011). Diante da possibilidade de adoção de referencial teórico que prima pelas relações entre a percepção e a produção de fala, nossas indagações direcionam-se às demandas metodológicas advindas da possibilidade de desenvolvimento de pesquisas a partir de dados clínicos: Como planejar a coleta de dados? Como conceber o corpus de pesquisa? Há necessidade de grupo-controle ou da adoção de estudos que tenham trabalhado com as mesmas variáveisna população sem alterações? Como enfocar as correlações entre as esferas perceptiva, acústica e fisiológica? No cenário nacional, destacamos modelos de natureza dinâmica, como o esboço da fonologia acústico-articulatória para o PB (ALBANO, 2001) e do modelo dinâmico de ritmo (BARBOSA, 2006). Neste ponto, surge a questão central de nossa exploração neste artigo: de que forma os preceitos fonético-acústicos permitem-nos analisar dados de fala de forma a não nos atermos à abordagem dicotomizante entre normalidade e alteração? Tais desafios nos são postos a cada tentativa de enfoque de dados de alteração de fala (em suas vertentes da percepção e da produção), uma vez que uma primeira possibilidade reside na adoção de dados de um grupo-controle, ou de um indivíduo-referência, para se estimar o nível de alteração. Diante desse universo de possibilidades e de limitações, em que a exploração do sinal acústico da fala emerge como uma alternativa promissora de estudos e, ao mesmo tempo, como objeto complexo em termos de registro, processamento e análise, este artigo visa a discorrer sobre aspectos metodológicos de estudos que possam trazer uma contribuição ao enfoque dos processos de diagnóstico e de planejamento terapêutico. Para tanto, a alteração de fala deixa de ser considerada como um desvio numérico em relação a uma situação supostamente irreal: a fala ideal. Passa a ser enfocada enquanto produção sonora decorrente de alterações orgânicas e/ou funcionais em toda a extensão do aparelho fonador e/ou do sistema auditivo. uma reflexão à luz da metodologia dos estudos fonético-acústicos de dados clínicos Nossa incursão aos referenciais fonéticos iniciou-se pela busca de compreensão da implementação de ajustes desenvolvidos por falantes com alterações de maior porte no aparelho fonador, provocadas por tratamentos oncológicos (cirurgias, combinações de 120 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO radioterapia e quimioterapia) em cabeça e pescoço. Numa exploração inicial de grupo de falantes submetidos a laringectomias parciais verticais, erem-se a cirurgias da laringe em que parte da sua estrutura é removida, de maneira a permitir o desempenho das funções de respiração, proteção para deglutição e fonação, porém com comprometimentos do conjunto de funções em graus variados. Consistem na remoção parcial ou total de uma prega vocal e, por vezes, de parte da prega vocal contralateral. Nestes casos, a remoção cirúrgica ocorre de forma mais intensa de um lado da laringe (direito ou esquerdo), podemos nos beneficiar da adoção de abordagem integrada de dados da percepção, fisiologia e acústica, como forma de diferenciar os padrões funcionais compensatórios desenvolvidos por falantes submetidos a tratamentos similares, porém com resultados funcionais variados. (CAMARGO, 1996). Tal exploração inicial nos motivou a prosseguir pela análise de alterações do aparelho fonador, como no caso das incompetências glóticas, tendo como base descrições da percepção (qualidade vocal e reconhecimento de fala), suas correspondências acústicas (de curto e de longo termo) e fisiológicas – eletroglotografia, videolaringoestroboscopia e videoquimografia.(CAMARGO, 2002). Enfocamos um grupo de indivíduos portadores de alterações de mecanismos glóticos justamente pela possibilidade de estabelecimento de grande variedade de compensações, as quais não se restringem à porção glótica do aparelho fonador, ou seja, em nível que concentra a principal limitação à produção sonora (CAMARGO, 2002). Portanto, o estudo centrou-se nos ajustes individuais implementados em seu aparelho fonador durante a produção da fala, respaldado pela teoria acústica da produção da fala (FLANAGAN, 1955, 1957; FANT, 1970) e pelo modelo fonético de descrição da qualidade vocal (LAVER, 1980), com incorporação do roteiro Vocal Profile Analysis Scheme – VPAS, em sua verão resumida (LAVER, 2000). Os desafios metodológicos impostos residiram na seleção do grupo estudado, na concepção de corpus e na eleição de procedimentos para integração dos dados das esferas perceptiva, acústica e fisiológica, uma vez que a coleta de dados envolvia informações de naturezas distintas. Em termos do grupo estudado, não intentamos desenvolver uma pesquisa quantitativa baseada em análise de limitados parâmetros e amplo número de falantes. Em contraposição, optamos por um grupo de quatro indivíduos em atendimento clínico por disfonia de fator desencadeante comum (incompetência glótica, por paralisia de prega vocal ou fibrose laríngea) e um indivíduo referência da mesma faixa etária e sexo, sem almejarmos propor generalizações sobre a produção sonora na situação de disfonia, mas, em contraposição, ilustrar as várias facetas da alteração da qualidade vocal. 121 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II Vale ressaltar que a referência à fonação na ausência de alterações do aparelho fonador passou a ser o ponto de apoio necessário para que se considerasse, entre os ajustes, aqueles que são impostos pela mudança de atividade em decorrência de incompetência glótica, subsequente à instalação de paralisia unilateral ou de fibrose de prega vocal. Integrou um ponto no contínuo sonoro (MATHIESON, 2000) que se estende desde a fonação com sonoridade e sem ruídos até aquela situação em que a fonte de sonoridade é completamente substituída por ruído turbulento e a sonoridade praticamente ausente. Como justificativa para tal procedimento, destacamos que a adoção de indivíduo referência para estudos de base fonético-acústica também envolveu o levantamento de particularidades da emissão oral de falantes de determinada comunidade linguística e, nesta situação delineada, de ausência de condições características de quadro de distúrbios de fala, à semelhança de outros estudos. (CAMARGO, 1996, 2002; BARZAGHI-FICKER, 2003; MENDES, 2003; PEREIRA, 2007). Em termos do corpus, num momento em que maioria dos estudos ainda enfocava, quase que exclusivamente, a emissão de vogais sustentadas, a análise de longo termo poderia ser comprometida pela inexistência de material padronizado para tal finalidade em nossa língua. Optamos por compor texto que resumisse várias das necessidades de nosso grupo de estudos, como uma primeira etapa de concepção de instrumentos a serem utilizados em pesquisas subsequentes no campo da Fonética Perceptiva e Acústica. Partimos para elaboração de estímulo para leitura: texto com presença de sons orais, nasais, vozeados e não vozeados (total de 209 palavras), com duração mínima prevista de 90 segundos (quando em leitura em taxa de elocução elevada). O avanço das tecnologias de análise acústica ainda não nos permitia, com facilidade, a seleção apenas do segmentos vozeados, como hoje se faz, de maneira que elaboramos um segundo texto, com predomínio de sons vozeados (145 palavras). As medidas acústicas de longo termo de três repetições de leituras de ambos os textos foram comparadas em um dos falantes (disfônicos) do grupo estudado, por meio da análise de componentes principais e construção de clusters, de forma a revelar similaridade de achados para as leituras dos dois textos elaborados. (CAMARGO, 2002). A preocupação nesta etapa recaía sobre a possibilidade de segmentos não vozeados presentes no texto sinalizarem, erroneamente, eventos de ajustes de escape de ar e soprosidade do ponto de vista laríngeo. Superada esta etapa, prosseguimos com análise dos dados do texto misto de 209 palavras para todos os falantes do grupo estudado. Tal instrumento também foi empregado em estudos subsequentes. (LIMA, 2008; CAMARGO, MADUREIRA, 2009; GIANNINI, 2010). 122 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO Como fatores limitantes, destacamos que tal proposta de corpus dificultou-nos a abordagem de alguns índices acústicos, como extração de frequências formânticas de vogais e de medidas de voice- onset-time (VOT) das consoantes plosivas, uma vez que o contexto da inserção dos segmentos vocálicos e consonantaisnão era controlado, como no caso do emprego de sentenças-veículo, como em Mendes (2003), Barzaghi-Ficker et al. (2008) para vogais e por Barzaghi-Ficker (2003), Bonatto (2007) e Pereira (2007) para consoantes. Do ponto de vista da análise de dados, o desafio residiu na tentativa de corresponder as esferas relevantes da estrutura acústica do sinal aos atributos perceptivos e fisiológicos. Contamos com apoio de softwares para análise eletroglotográfica (VIEIRA et al., 2002), propiciando maior acurácia na leitura de dados numa situação geralmente contraindicada, a paralisia ou fixação de prega vocal. As limitações residem no fato de que a qualidade vocal engloba várias dimensões, de forma que os achados de correlação entre um determinado parâmetro acústico e um respectivo julgamento perceptivo podem não sinalizar uma relação estreita. Flanagan (1957), um dos precursores de estudos da acústica da fala e de suas relações com a percepção, apontava a dificuldade de se fazer corresponder uma medida acústica à qualidade auditiva, diante do desconhecimento de outros fatores que poderiam colaborar para o efeito sonoro detectado. Reforçando tais aspectos da complexidade das correlações entre percepção e acústica da qualidade vocal, Kreiman e Gerrat (2000) apresentaram uma revisão crítica dos estudos, especialmente daqueles centrados nos aspectos glóticos da emissão, salientando que a qualidade vocal resultaria da interação entre o sinal acústico e um ouvinte, de maneira que a “qualidade” seria evocada no sistema perceptivo do ouvinte e não puramente na estrutura do sinal. A partir desta argumentação discorreram sobre muitas das limitações na leitura de dados de correspondências perceptivas e acústicas e reforçaram o cuidado na seleção da abordagem estatística dos dados. Neste ponto, chegaram a revisar dados de estudos publicados com variação da metodologia estatística empregada apontando métodos de análise multivariada como os mais promissores. Retomando os dados do estudo de Camargo (2002), adotamos procedimento de análise de componentes principais e de construção de clusters para a análise acústica de longo termo. Para avançar no enfoque da disfonia, enquanto manifestação de caráter adaptativo, defendemos a posição de que o quadro a que ela se refere implica diversos graus de mobilização para a tentativa de manutenção do produto sonoro, mobilização esta que revela a plasticidade do aparelho fonador em face de alterações em sua estrutura. Nas etapas de análise, as emissões do grupo de disfônicos e 123 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II indivíduo-referência foram analisados em conjunto e separadamente (apenas disfônicos), como forma de se estimar as gradiências na percepção e na produção. (MATHIESON, 2000). Diante desta abordagem, o grupo estudado revelou a fascinante condição de adaptação do aparelho fonador diante de limitações de ordem de mobilização e vibração dos tecidos da região laríngea e as variadas resultantes sonoras possíveis, a partir de gestos particularizados e integrados para cada falante. Tais gestos podem ser abordados como forma de cumprir a necessidade crucial de sonorização da coluna aérea e transmissão da energia sonora, como um importante requisito da comunicação oral. Podemos considerar que, diante de manifestações de base comum, enquanto quadro clínico, desvendamos ações diferenciadas com maior ou menor efetividade em termos da adaptação da função vocal, condição visada pela intervenção terapêutica. Tal consideração nos foi possível a partir da concepção fonética adotada, Tais achados nos conduziram à reflexão de que a exploração da qualidade vocal enquanto um traço recorrente da característica da emissão do falante deveria ser cuidadosamente dimensionada, no sentido de se traduzir em abordagens mais fidedignas de avaliação, a revelarem os fatores subjacentes que caracterizam o sofrimento dos indivíduos disfônicos. Tal aspecto inclui a demanda por estabelecimento de consistente treinamento auditivo na formação do fonoaudiólogo e das possibilidades de atuação em avaliação e assistência terapêutica, com importantes contribuições aos campos experimental e clínico e, inclusive, para adaptação da formação do profissional fonoaudiólogo. Na continuidade de exploração do tema e trabalhando com os dados gerados (CAMARGO et al., 2003; MADUREIRA, 2009), iniciamos nosso empenho na implementação e adaptação de instrumento de avaliação perceptiva da qualidade vocal com motivação fonética para o português brasileiro, justamente pelos desafios metodológicos anteriormente relatados. Iniciamos projeto de abordagem fonética da qualidade vocal, de forma a apresentar a versão VPAS- PB3 (CAMARGO, MADUREIRA, 2008), juntamente a proposta de corpus para coletas de amostras de qualidade vocal, composto de emissões semiespontâneas (de caráter dirigido, como, por exemplo, o relato sobre a cidade onde o falante nasceu), bem como leitura de sentenças-chave, baseadas no conceito de segmentos-chave, enquanto segmentos vocálicos e consonantais susceptíveis aos efeitos de ajustes de qualidade vocal, conforme bases de modelo fonético de Laver (1980), e diretrizes para uso do VPAS em sua versão original. (MACKENZIE-BECK, 2005; LAVER, 2007). 124 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO A partir do trabalho com o referido instrumento, além das novas demandas advindas desta etapa de trabalhos, passamos a trabalhar no sentido de estruturação de banco de dados de qualidades vocais (CAMARGO, MADUREIRA, 2008), de forma a gradativamente explorar as possibilidades de correlações de dados perceptivos e acústicos (BLAJ et al., 2008; RUSILO et al., 2011; CAMARGO, MADUREIRA, 2012), inclusive quanto à revisão crítica do corpus desenvolvido (CAMARGO et al., 2011) e a particularidades entre gêneros (CAMARGO et al., 2012). O trabalho constante na ampliação do banco de dados, na formação de juízes habilitados ao uso do VPAS-PB e na exploração de dados de natureza perceptiva e acústica conduziram-nos à busca por aprimoramento de análise das correlações, bem como à definição de um conjunto de parâmetros acústicos que pudesse refletir os aspectos recorrentes da qualidade vocal. A demanda pela bateria de variáveis acústicas nos foi possibilitada pelo uso do script Expression Evaluator SG (BARBOSA, 2009), que permite a extração de um conjunto de medidas absolutas e normalizadas de frequência fundamental (f0, primeira derivada de f0, intensidade, declínio espectral e espectro de longo termo). Diante da incorporação deste instrumento, que permite a análise de trechos de fala e não apenas de segmentos isolados, por meio da etiquetagem de enunciados, pudemos trabalhar com uma nova perspectiva de descrição de correlatos acústicos (PESSOA et al., 2009, 2011, 2012; FERNANDES, 2011; LIMA-SILVA, 2012), a qual impulsionou o desenvolvimento e adaptação de procedimentos de análise estatística de natureza multivariada para o banco de dados em questão. (CAMARGO, MADUREIRA, 2010; RUSILO et al., 2011; CAMARGO et al., 2012a; LIMA-SILVA, 2012; PESSOA et al., 2012). Certamente, ao lidarmos com dados de falantes com e sem alterações de fala, buscamos alternativas de análise que contemplem as demandas da população e dos estudos em questão, especialmente com destaque àqueles que não nos permitem retroceder a uma abordagem dicotomizante. Em alguns de nossos estudos mais recentes, diante da metodologia descrita, pudemos estimar comportamentos dos indivíduos com alterações de fala, na tentativa de entender a particularidade daquele grupo, até que a demanda de caracterização de parâmetros acústicos seja efetivada para o nosso grupo de falantes do PB. Dessa forma, estes estudos não se pautaram em comparações com Profile Analysis Scheme (VPAS), referem-se a um instrumento de avaliação perceptiva de qualidade vocal (LAVER et al., 1981), desenvolvido a partir de modelo fonético de descrição da qualidade vocal (LAVER, 1980), tendo sido adaptado parao português brasileiro: VPAS-PB (CAMARGO, MADUREIRA, 125 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 2008). O material instrutivo desenvolvido com a finalidade de incorporação do VPAS- PB inclui a proposta de corpus para coleta de dados, população sem alteração de fala, mas detalharam o comportamento dos falantes, com base em descrições perceptivas (FERNANDES, 2011) e integradas à acústica (PESSOA et al., 2009, 2011, 2012; CAMARGO et al., 2012a; LIMA-SILVA, 2012). Com o desenvolvimento dos estudos em expressividade da fala, esboça-se a tentativa de obtenção de dados de fala “natural” ou espontânea, muitas vezes limitada em termos de coletas por questões éticas, em complementação às coletas que ocorrem em situações experimentais controladas. (XU, 2010). Outra possibilidade de enfoque e de composição de corpus, por parte de fonoaudiólogos, reside em registros de trechos de sessões de terapia. Neste caso, particularmente, temos trabalhado com estruturação de banco de dados em coletas seriadas de amostras de fala em situações de terapia, com crianças usárias de implante coclear. Tal banco de dados tem permitido a incorporação de amostras de fala infantil de natureza semiespontânea (respostas a estratégias terapêuticas) e gerado estudos que apresentam dados do(s) mesmo(s) falante(s) em recortes longitudinais (PESSOA et al., 2009, 2012). Abrimos mão da padronização na coleta de amostras para assumirmos a possibilidade de registrar produções espontâneas de crianças com implante coclear. Tal metodologia tenta contemplar a demanda acima apontada. Em outras explorações, além da possibilidade de descrição com base na incorporação de um indivíduo referência, ou seja, sem o quadro clínico da mesma faixa etária e mesmo sexo (CAMARGO, 2002; BARZAGHI-FICKER, 2003; MENDES, 2003; PEREIRA, 2007), pode-se optar por um grupo controle (CUKIER- BLAJ, 2006; OLIVEIRA, 2011), situação em que, ao mesmo tempo, apresenta a abordagem das alterações à luz do referencial das Ciências Fonéticas, e brinda-nos com a possibilidade de descrição das variáveis enfocadas para a população sem alterações de faixa etária e sexo. Diante desta lacuna, alguns fonoaudiólogos optaram por conduzir estudos de caracterização de parâmetros fonético-acústicos na população sem alterações de fala, como é caso de Bonatto (2007) para crianças e Gregio et al. (2011) para adultos, com o propósito de, futuramente, trabalharem com populações com alterações. Neste constante empenho por caracterização das alterações sem meras comparações com a normalidade, encontramos no modelo fonético um respaldo para enfoque de ajustes de qualidade vocal que foi recentemente adotado pelo grupo, na medida em que o banco de dados começa a ter um conjunto de amostras suficientes para cobrir a descrição de várias manifestações de ajustes possíveis ao aparelho fonador. 126 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO Contamos com a possibilidade de comparação de variáveis acústicas e perceptivas que nos garantam uma calibração entre várias estados de alteração, a partir da comparação de varíaveis relativas a ajustes neutros e não neutros de qualidade vocal, sem ter que, necessariamente, selecionar previamente a população por dividi-las em grupos. Esta concepção metodológica também permitirá estudar, com maior detalhamento, a questão dos graus de manifestação dos ajustes não neutros de qualidade vocal, acentuando-se que ajustes não neutros não significam fala alterada, mas uma postura diferenciada daquela adotada como referência no modelo teórico: o ajuste neutro. (CAMARGO et al., 2011). O enfoque da percepção em nosso grupo não se ateve aos aspectos de qualidade vocal, detalhados por ser linha de pesquisa da autora. Em termos da percepção da fala alterada, outra possibilidade de abordagem que merece destaque refere-se à avaliação da fala por indivíduos com e sem alteração. Neste particular, o falante com alteração da fala também passa a exercer o papel de juiz de suas produções e daquelas do(s) falante(s) sem alaterações. (BARZAGHI-FICKER, 2003). Diante das possibilidades esboçadas, cabe destacar que a caracterização fonético- acústico- articulatória de variantes do português brasileiro (PB), tanto do ponto de vista segmental (SILVA, ALBANO, 1999; MADUREIRA et al., 2004; GREGIO, 2006; BONATTO, 2007), quanto prosódico (MADUREIRA, BARBOSA, 2000; MADUREIRA, DINIZ, 2002; MADUREIRA, FONTES, 2003; BARBOSA et al., 2007, 2008; BARBOSA, SILVA, 2012), em populações de adultos e crianças, é ainda incipiente. No campo prosódico, a produção de nosso grupo destaca o empenho na adaptação de roteiro VPAS-PB (CAMARGO, MADUREIRA, 2008). Tal produção resultou em possibilidades de abordagens de populações com alterações de fala, como é caso de deficientes auditivos e crianças usuárias de implante coclear (PESSOA et al., 2009, 2011, 2012) e de professores com disfonia (FERNANDES, 2011; LIMA-SILVA, 2012), bem como de explorações no campo da expressividade de fala (MADUREIRA, CAMARGO, 2010, MADUREIRA, 2011). As reflexões delineadas encontram respaldo na afirmação de Whalen (1999) de que: “Toda teoria de fala deve explicar como os ouvintes podem relacionar uma articulação com um sinal acústico. O link entre percepção e produção é forte, imediato e inevitável na fala humana”. Destacamos a necessidade de uma abordagem altamente integrada e cooperativa entre as diversas áreas de conhecimento voltadas ao enfoque da percepção e da produção de fala humana, com o intuito de contribuir para a formação de conhecimento sobre os 127 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II complexos níveis de atividade que permeiam a interface da percepção e da produção sonora. Considerações finais A capacidade extraordinária de produção de fala na vigência de alterações que podem, inclusive, resultar de verdadeiras “mutilações” do aparelho fonador e do sistema auditivo, tem servido de base para a reflexão dos pesquisadores sobre esta faculdade humana tão complexa. A leitura fonética de dados clínicos também pode auxiliar a concepção e o aprimoramento de modelos teóricos, uma vez que nos indicam situações extremas de uso do aparelho fonador, raramente presentes na fala cotidiana. Tal nível de colaboração também enriquece a produção científica e a atuação clínica do fonoaudiólogo, que, ao incorporar a visão integrativa do sinal de fala, passa a compreender a complexidade das relações entre a percepção e a produção da fala e a refinar suas possibilidades de atuação com falantes com alterações de fala de natureza tão peculiares. 128 CAPítulo 2 Avaliação e tratamento dos distúrbios de fala de origem mecânica tratamento do distúrbio fonético – sigmatismo/ ceceio O sigmatismo ou ceceio é uma distorção na fala em decorrência de uma alteração na postura da língua, relacionada ao ponto articulatório e à precisão dos movimentos; nele a língua se projeta ou se apoia entre os dentes. A projeção, o toque e o fluxo aéreo podem ocorrer na região anterior ou lateral e ocorre, principalmente, na produção dos fonemas fricatives /s/ e /z/, dando aos sons semelhança de “x” (ex.: “s(x)apo que eu não s(x)ei?”). Pode estar relacionada ao tônus reduzido da língua, alteração na sensibilidade tátil e proprioceptiva da cavidade oral, geralmente decorrente de maus hábitos orais na infância, como: sucção digital ou uso prolongado de chupeta e/ou mamadeira e alimentação em consistência que não estimule o bom desenvolvimento das estruturas orais. Pode estar relacionada a problemas ortodônticos ou respiratório e à alteração das funções orais, especialmente mastigação e deglutição. Respiradores orais, por exemplo, desenvolvem postura incorreta da língua, alargada no assoalho da boca e anteriorizada, e dos lábios sempre abertos e com lábio inferior evertido e superior encurtado. A flacidez dos músculos aliada à postura incorreta da língua e dos lábios facilitam a projeção da língua durante a deglutição e a pronúncia dos fonemas. Desta forma, o tratamentodeve englobar em alguns casos atuação multidisciplinar, cabendo ao fonoaudiólogo fazer os encaminhamentos necessários, tanto para avaliação quanto para intervenção, mantendo um diálogo constante com os demais profissionais no sentido de potencializar os efeitos positivos da abordagem. O tratamento fonoaudiológico para o ceceio realizado por meio de exercícios de tônus e mobilidade de língua, direcionamento do fluxo aéreo, propriocepção, sensibilidade, percepção visual e auditiva, para que se mude os engramas motores pré-estabelecidos, biofeedback visual, auditivo, tátil, proprioceptivo. Entretanto, o fonoaudiólogo deve ter em perspectiva que o uso de exercícios isolados têm pouca efetividade, portanto, deve-se trabalhar mioterapia associada à terapia miofuncional, alcançando objetivos também através do ajuste e uso sistemático de funções orais. 129 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II O trabalho aborado deve ser praticado pelo paciente todos os dias de maneira intensiva, uma vez que, para modificarmos ajustes, posturas e engramas é necessário exercitar a musculatura e realizar o novo plano motor sistematicamente. A dedicação do paciente é fator fundamental para que o tratamento tenha resultado, já que os exercícios melhorarão a força da musculatura e a posição da língua. O tempo de tratamento e o resultado final dependerão da adesão do paciente aos tratamentos necessários. 130 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 131 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 132 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 133 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 134 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 135 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 136 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 137 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 138 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 139 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 140 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 141 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 142 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 143 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II 144 CAPítulo 3 Avaliação e tratamento dos distúrbios de fala de origem neurológica Disartrofonia é a terminologia usada para as alterações motoras da fala resultantes de lesão do sistema nervoso central ou periférico. A ação dos grupos musculares relacionados à produção fonoarticulatória torna-se ineficiente em decorrência do prejuízo sobre todos ou alguns dos processos motores básicos envolvidos na fala (respiração, fonação, ressonância, articulação e prosódia). As alterações dos processos motores básicos podem comprometer a inteligibilidade e naturalidade da produção oral. Estas alterações podem gerar impacto negativo no convívio social e levar a uma limitação na comunicação, podendo, muitas vezes, afetar a vida pessoal, experiências sociais, educacionais e profissionais, ou seja, interferir na qualidade de vida. Disartria é um nome coletivo para as alterações de fala resultantes de distúrbios no controle de seu mecanismo, devido a danos no sistema nervoso central ou periférico; designa problemas na comunicação oral devido à paralisia, fraqueza ou incoordenação da musculatura da fala. Ocorre como um deficit na produção da fala resultante de alteração no sistema nervoso central ou periférico que afeta um ou vários dos cinco componentes da produção da fala: respiração, fonação, ressonância, articulação e prosódia. Disfonias neurológicas são comuns nas disartrias e desempenham um importante papel no diagnóstico diferencial. Portanto, é essencial a avaliação e a terapia de voz. Trabalho realizado no Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo 04/09950-2. 1. Doutora, Professora do Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil. 2. Especialista em Voz pelo Centro de Estudos da Voz – CEV – São Paulo (SP), Brasil; Pós-Graduanda do Communication Studies Department da San Jose State University – SJSU – San Jose (CA), Estados Unidos. Endereço para correspondência: Karin Zazo Ortiz. R. Cunha, 111, cjto 73, Vila Clementino, São Paulo – SP, CEP 04037-030. E-mail: karinortiz.fono@epm.br. Recebido em: 22/10/2007. Aceito em: 30/8/2008. 145 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II Considerem todo o mecanismo da fala: respiração, fonação, articulação, ressonância e prosódia. A coexistência de alteração dos diversos subsistemas deve levar o clínico a dirigir a avaliação fonoaudiológica para testes específicos de exploração de aspectos neurológicos da emissão do indivíduo. Voz rouca, geralmente é uma queixa comum trazida pelo paciente ao médico e/ou fonoaudiólogo. A natureza da queixa é vaga e subjetiva e podem existir múltiplos fatores etiológicos que causam o transtorno vocal. Dependendo da localização da lesão neurológica têm-se manifestações diversas na fala, voz e linguagem do indivíduo. Os distúrbios neurológicos da fala podem ser definidos de acordo com o nível anatômico afetado: transtornos do neurônio motor superior (esclerose lateral amiotrófica – ELA – disartria mista e paralisia pseudobulbar – disartria espástica); transtornos do neurônio motor inferior (ELA – disartria mista e paralisia bulbar – disartria flácida); transtornos do sistema extrapiramidal (doença de Parkinson – disartria hipocinética, distonia – disartria hipercinética lenta e Corea – disartria hipercinética rápida); transtornos do cerebelo (doença cerebelar degenerativa – disatria atáxica, ataxia hereditária, transtornos metabólicos tóxicos, lesões vasculares e esclerose múltipla – disartria mista, espástica e atáxica); transtornos da junção neuromuscular; e transtornos mistos (disfonia espástica) Lesões cerebrais no lado esquerdo parecem mostrar impacto mais severo na articulação, afetando, principalmente, a produção das consoantes, independente da lesão topográfica. No entanto, alterações na fonação e prosódia também são frequentes. (CARRILLO; ORTIZ, 2008). Alterações da comunicação humana: contribuições da fonoaudiologia nas disartrias (Fonte: <http://www.profala.com/arttf113.htm>) Autora: Roberta Medeiros A disartria é uma alteração da fala de etiologia neurogênica, ou seja, não compreende patologias da fala associadas aos defeitos estruturais somáticos ou psicológicos. A disartria pode afetar tanto os movimentos voluntários, coordenados pelo sistema nervoso piramidal, quanto os involuntários, coordenado pelo sistema extrapiramidal. 146 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO O mecanismo da fala engloba, basicamente, articulação, fonação, respiração, ressonância e prosódia. Estes processos são encontrados no trato vocal, sendo a prosódia o resultado harmônico de todos os mecanismos envolvidos que necessitam de uma ação muscular para o seu perfeito funcionamento. O tipo de disartria resulta do transtorno neuromuscular e depende do local em que ocorreu a lesão. Devido a este fato, o mecanismo da fala pode ser alterado em menor ou maior grau, atingindo diferentes músculos orofaciais, gerando tipos específicos de disartria. Portanto, os sistemas neuromusculares danificados originam um tipo de disartria que podem afetar o neurônio motor inferior (disartria do tipo flácida), o neurônio motor superior (disartria espástica), o cerebelo (disartria atáxica), o sistema piramidal ou sistema extrapiramidal. A disartria pode ser definida como uma alteração na expressão oral causada por um acometimento no controle muscular dos mecanismos da fala em decorrência de uma lesão no Sistema Nervoso Central (SNC) ou Periférico (SNP). Nas disartrias, há a diminuição ou perda da faculdade de unir os sons, o que acarreta na emissão imprecisa de sílabas. A disartria é uma alteração da fala de etiologia neurogênica, ou seja, não compreende patologias da fala associadas aos defeitos estruturais somáticos ou psicológicos. A disartria pode afetar tanto os movimentos voluntários,coordenados pelo sistema nervoso piramidal, quanto os involuntários, coordenado pelo sistema extrapiramidal. O mecanismo da fala engloba, basicamente, articulação, fonação, respiração, ressonância e prosódia. Estes processos são encontrados no trato vocal, sendo a prosódia o resultado harmônico de todos os mecanismos envolvidos, que necessitam de uma ação muscular para o seu perfeito funcionamento. Do tipo de disartria resulta do transtorno neuromuscular e depende do local em que ocorreu a lesão. Devido a este fato, o mecanismo da fala pode ser alterado em menor ou maior grau, atingindo diferentes músculos orofaciais, gerando tipos específicos de disartria. Portanto, os sistemas neuromusculares danificados originam um tipo de disartria que podem afetar o neurônio motor inferior (disartria do tipo flácida), neurônio motor superior (disartria espástica), cerebelo (disartria atáxica), sistema piramidal ou sistema extrapiramidal. 147 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II disartria flácida Os neurônios fazem uma conexão entre o SNC e as fibras do músculo esquelético ativando-o. Dos corpos celulares localizados no corno anterior da medula espinhal e nos núcleos motores dos nervos cranianos do tronco cerebral, os axônios dos neurônios motores inferiores passam pelos vários nervos espinhais e cranianos motores para o SNP e, daí, aos músculos voluntários. O segundo neurônio motor ou periférico representa a via final da motricidade e é, portanto, um agente executor efetor. A lesão em alguma extensão da unidade motora implica a alteração da motricidade voluntária, causando diminuição do alongamento muscular e flacidez dos músculos. Quando o neurônio motor inferior não transmite os impulsos nervosos necessários para a manutenção da adequação do tônus, a principal característica gerada desta alteração é a hipotonia. As características clínicas da disartria flácida são: hipernasalidade associada a escape aéreo nasal, voz suspirada, inspiração audível, pobre abertura labial, excesso de saliva, dificuldade quanto aos movimentos alternantes da língua, redução do tempo de fonação, pobreza de inteligibilidade, respiração curta, dificuldade na emissão de tons altos, voz baixa e dificuldade na emissão de fonemas fricativos e plosivos. disartria espástica Os neurônios motores superiores transmitem impulsos nervosos das áreas motoras do córtex cerebral do giro pré-central ou pré-motor do córtex aos neurônios motores inferiores e encontram-se localizados no cérebro, tronco encefálico e medula espinhal. Lesões neste neurônio ocasionam debilidade e espasticidade contralateral do córtex lesionado (giro pré-central do córtex), sendo evidente a alteração motora nos músculos distais das extremidades da língua e dos lábios, podendo ser uni ou bilateral. A lesão unilateral está localizada em cada córtex motor ou cápsula interna, sendo manifestada alteração nos lábios e parte inferior do rosto. Entretanto, a disartria espástica persistente ou bilateral é causada por uma interrupção bilateral dos neurônios motores superiores que inervam os músculos dos nervos cranianos bulbares. Os principais sintomas de uma disfunção muscular são: espasticidade, fraqueza muscular, limitação e lentidão de movimentos. O distúrbio da fala afeta alguns fonemas, embora as sentenças produzidas sejam gramaticalmente corretas e a compreensão também seja normal. Os fonemas bilabiais, 148 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO linguodentais e fricativos apresentam-se mais distorcidos do que os outros. É importante mencionar há descontrole da respiração devido à incapacidade de vedação velofaríngea, dificuldade de protrusão de língua, de levantar o véu palatal e controlar os movimentos dos lábios, ausência de diferenciação entre sons surdos e sonoros, voz rouca e baixa, frases curtas, ausência de controle fonorrespiratório, distorção de vogais e hipernasalidade. disartria atáxica O estudo das lesões cerebelares e de seus efeitos permite findar que o cerebelo regula a força, a velocidade, a duração e a direção dos movimentos originados em outros sistemas motores. Lesões no cerebelo ou em suas conexões levam à ataxia, em que os movimentos se tornam descoordenados. Se esta ataxia afetar os músculos do mecanismo da fala, a sua produção se torna alterada. O cerebelo está anatomicamente localizado na porção posterior do tronco cerebral, onde ocupa a maior parte da fossa craniana posterior. Este órgão é separado dos lobos occipital e temporal do cérebro pelo tentório cerebelar. Os músculos afetados tornam-se hipotônicos, movimentos lentos com alteração na força, extensão, duração e direção. Há o predomínio de monotonia, interrupções e, às vezes, nasalidade e presença de lentidão na leitura e prosódia. A fala de pacientes com este tipo de disartria é denominada de escandida ou scanning speech, caracterizada por pausas depois de cada sílaba e lentificação das palavras. Estas alterações se referem à prosódia, que consiste em enfatizar sílabas de forma diferente da habitual. Além disso, a presença de movimentos hipercompensatórios afetam a direção e o controle da língua, o volume, o timbre da voz, provocando uma articulação espasmódica, explosiva. As alterações da fala que emergem diante da disartria atáxica, segundo Brown, Darley e Monson (1970, apud MURDOCH), são: imprecisão articulatória e distorção de consoantes e vogais; intervalos prolongados e velocidade lenta, monopitch, monoloudness e voz áspera. disartria por lesões no sistema piramidal O sistema piramidal, responsável pelo controle motor dos movimentos voluntários e corticais dos membros, é formado por fibras do trato corticoespinhal, corticomesencefálico e corticobulbar. Os hemisférios cerebrais inervam os músculos articulatórios bilateralmente. Uma lesão piramidal bilateral ocasiona uma disartria de difícil prognóstico, entretanto, uma lesão unilateral não acarreta disartria permanente. Neste não se verifica fibrilação de 149 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II língua, porém ela permanece estática no assoalho bucal, o que impossibilita a adequada realização da função de deglutição, uma vez que a saliva escorre pelas comissuras labiais. Na fonação, os lábios parecem paralisados, mas apresentam mobilidade nas funções involuntárias. disartria por lesão no sistema extrapiramidal O sistema extrapiramidal está relacionado à função motora e é constituído por núcleos cinzentos e partes do tronco cerebral. Os principais componentes deste sistema são os gânglios basais situados nos hemisférios cerebrais, que contribuem para o funcionamento motor. Estes núcleos incluem a substância nigra, o núcleo rubro e o núcleo subtalâmico. A sintomatologia presente nas síndromes extrapiramidais pode ser agrupada em dois segmentos: os hipocinéticos e os hipercinéticos. Síndrome extrapiramidal é a denominação indicada para patologias que afetam unicamente o sistema extrapiramidal, que regula o tônus muscular necessário para manter uma postura ou modificá-la, organiza os movimentos associados ao ato de andar e facilita o automatismo nos atos voluntários que requerem destreza. A disartria hipocinética é caracterizada por lentidão e limitação dos movimentos, voz monótona com monoaltura e monointensidade, articulação imprecisa das consoantes, diminuição dos atos espontâneos, rigidez, presença de tremor que conduz à festinação, bem como diminuição da tonicidade muscular, com movimentos involuntários em todos os segmentos corporais. A síndrome de Parkinson, por exemplo, possui um quadro clínico característico, como tremor, rigidez, bradicinesia e instabilidade postural, decorrente de lesões no núcleo de base. A disartria hipercinética também decorre de uma alteração no sistema extrapiramidal. Estes movimentos são evidenciados de forma brusca e rápida do tipo coréico (preponderante nos membros superiores e crânio) ou lenta do tipo atetósica, (predominante nas porções distais e em membros superiores). Entre as suascaracterísticas, verifica-se anormalidade dos movimentos involuntários, rigidez muscular e perda das reações posturais, redução nos movimentos articulatórios com lentidão no percurso do músculo, rigidez, tremores e perda dos movimentos automáticos. 150 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO Contribuição fonoaudiológica O fonoaudiólogo é um profissional importante na reabilitação das disartrias, tendo em vista a sintomatologia apresentada por estes sujeitos, especialmente no que se refere às já citadas alterações funcionais de respiração, fonação e articulação. O fonoaudiólogo deve proporcionar a melhora na inteligibilidade da articulação da fala, ao reduzir o deficit de comprometimento articulatório, desenvolver estratégias compensatórias dos acometimentos da respiração, fonação e articulação e facilitar a comunicação com os familiares e cuidadores. É importante que os cuidadores e familiares sejam orientados a dar atenção integral ao paciente, escolher o melhor ambiente e hora para conversar, olhar sempre para o disártrico, evitar comunicação em longa distância, deixar o disártrico calmo para repetir as palavras e frases mal elaboradas e não interromper os turnos do discurso. Se não entender, pedir para que repita a frase, deixando-o concluir seu pensamento, no intuito de evitar que ele sinta que alguém fala por ele, o que pode acarretar baixaestima, perda da sua identidade, enquanto ser falante e eficaz. A terapia consiste no emprego de técnicas específicas em que a articulação, respiração, fonação e ressonância deverão ser reabilitadas de forma que o disártrico tome consciência da alteração na sua comunicação, no intuito de propiciar um melhor autocontrole, para depois haver a correção das alterações. O tratamento fonoaudiológico deverá ser iniciado o mais breve possível, visando à motivação para a terapia, bem como impedir a eclosão de padrões articulatórios incorretos. 151 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II fonte: <http://books.google.com.br/books?id=Glun0u_iKYkC&pg=pA744&lpg=pA744&dq=disartrias&source=bl&ots=3kcG6rZ 2Jk&sig=__qAKqfExqfejlWrmfwllgdrNMg&hl=ptbr&sa=X&ei=XrJju9fyfMuOyATpoYlQCw&ved=0CHwQ6AEwCTgK#v=onepage &q=disartrias&f=false> 152 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 153 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II fonte: ligia Motta. <http://www.ccmeventos.com.br/palestras%20pEC-puC%20M%f3dulos%20IV%20e%20V/dra.%20 l%Edgia%20-%20fonoaudiologia.ppt> 154 UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO intervenção terapêutica na disartria Avaliação A avaliação das disartrias/disartrofonias deve englobar protocolos de avaliação de motricidade orofacial, podendo ser utilizados protocolos elaborados pelo terapeuta com base na literatura ou os já descritos neste material. A avaliação vocal completa engloba análise perceptivo-auditiva e análise acústica de fala e voz, sendo que esse último recurso também pode ser utilizado como estratégia de biofeedback nas sessões de terapia. terapia A intervenção terapêutica vai focar-se nos aspetos que se encontrarem alterados. Existem vários tipos de disartria e a intervenção será conduzida em consonância com as potencialidades e dificuldades de cada utente. A intervenção pode, portanto, focar-se na reabilitação de uma ou mais das seguintes áreas. » Fonação (aumento da qualidade vocal) » Ressonância (adequação da nasalidade da fala) » Prosódia e ritmo da fala (adequação das características suprassegmentais da fala) » Articulação e inteligibilidade da fala (muitas vezes implica uma reabilitação motora dos órgãos fonoarticulatórios – lábios, língua, mandíbula, palato) » Respiração (aumento do suporte e coordenação respiratória para a fala) O planejamento terapêutico deve ter enfoque na postura corporal geral e específica, buscando alinhamento biomecânico que favorece a fonoarticulação, o aprimoramento do tônus e a mobilidade de lábios, língua, mandíbula e bochechas uni ou bilateral, bem como o aprimoramento da articulação da fala, sendo que a forma e a função são trabalhadas simultaneamente. Ao final do processo terapêutico, devemos observar o aperfeiçoamento da postura corporal, com diminuição da tensão e rigidez muscular de ombros e pescoço; adequação da tensão e mobilidade dos lábios, língua e bochecha e aprimoramento da mímica facial espontânea e orientada; adequação na tensão da musculatura facial, diminuição da assimetria facial, melhora na inteligibilidade de fala e adequação dos parâmetros 155 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II vocais: qualidade vocal, ressonância, coordenação pneumofonoarticulatória e respiração. E maximização da utilização das estruturas fonoarticulatórias e das funções neurovegetativas. Estudos apontam para a importância da intervenção fonoaudiológica na área de Motricidade Orofacial em pacientes com disartria/disartrofonia, visto que há uma melhora significativa nas estruturas e funções do Sistema Estomatognático e, consequentemente, na qualidade de vida e comunicação dos pacientes. 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Agora construa os alicerces.” (Shakespeare) 157 referências ABREU, A. C. B.; MORALES, D. A.; BALLO, M. B. J. F. A respiração oral influencia o rendimento escolar ?, Rev. CEFAC, v. 5, n. 1, p. 69-73, 2003. ABREU, A. C. B.; MORALES, D. A.; BALLO, M. B. J. F. A respiração oral influencia o rendimento escolar? Revista CEFAC, v. 5, n. 1, 2003. p. 69-73. ALBANO, E.C. O gesto e suas bordas: esboço de fonologia acústico-articulatória do português brasileiro. Campinas: Mercado de Letras, 2001. ALMEIDA, S.P.T.; PAIXÃO, R.F.; VIERA, G.O. Influência do tipo de aleitamento, hábito de sucção e má-oclusão: revisão sistemática da literatura. JBO, v. 10, n. 57, maio/jun., 2005. ARRUDA, F.R. de. Ortodontia. Disponível em:<http://www.dentofacial.com.br/ ctd%2003 _%20ortodontia.html>. Acesso em: maio de 2010. AULER, M.F.A. Ronco e apneia. Disponível em:<http://www.viadental.com.br/ Artigos.aspx>. Acesso em: maio de 2010. AZENHA, L.C. Protocolos em ortodontia: diagnóstico, planejamento e mecânica. 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