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Prévia do material em texto

Brasília-DF. 
AvAliAção e TerApiA dA FAlA envolvendo 
AspecTos MioFuncionAis
Elaboração
Profa. Claudia Gomes Ligocki
Produção
Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração
Sumário
APrESEntAção ................................................................................................................................. 4
orgAnizAção do CAdErno dE EStudoS E PESquiSA .................................................................... 5
introdução.................................................................................................................................... 7
unidAdE i
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO ................................................................................................................ 9
CAPítulo 1
OrGãOS fONOArTICulATórIOS E AlTErAçõES MIOfuNCIONAIS ........................................... 9
CAPítulo 2
OrTOdONTIA E IMplICAçõES dE fAlA E MOTrICIdAdE ......................................................... 34
unidAdE ii
AVAlIAçãO E TrATAMENTO ................................................................................................................. 63
CAPítulo 1
AVAlIAçãO E TrATAMENTO dOS dISTúrbIOS dE fAlA dE OrIGEM fONéTICA ......................... 63
CAPítulo 2
AVAlIAçãO E TrATAMENTO dOS dISTúrbIOS dE fAlA dE OrIGEM MECâNICA ..................... 128
CAPítulo 3
AVAlIAçãO E TrATAMENTO dOS dISTúrbIOS dE fAlA dE OrIGEM NEurOlóGICA ............... 144
rEfErênCiAS ................................................................................................................................ 157
4
Apresentação
Caro aluno
A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se 
entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. 
Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela 
interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da 
Educação a Distância – EaD.
Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade 
dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos 
específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém 
ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a 
evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo.
Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo 
a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na 
profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira.
Conselho Editorial
5
organização do Caderno
de Estudos e Pesquisa
Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em 
capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos 
básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar 
sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para 
aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares.
A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de 
Estudos e Pesquisa.
Provocação
Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes 
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor 
conteudista.
Para refletir
Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita 
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante 
que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As 
reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.
Sugestão de estudo complementar
Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, 
discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.
Praticando
Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer 
o processo de aprendizagem do aluno.
6
Atenção
Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a 
síntese/conclusão do assunto abordado.
Saiba mais
Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões 
sobre o assunto abordado.
Sintetizando
Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o 
entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.
Exercício de fixação
Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/
conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não 
há registro de menção).
Avaliação Final
Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, 
que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única 
atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber 
se pode ou não receber a certificação.
Para (não) finalizar
Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem 
ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.
7
introdução
A fim de atender às necessidades do profissional da Fonoaudiologia na área de 
Motricidade Oromiofuncional (MO) da atualidade, este material, direcionado a alunos 
do Curso de Especialização em MO (estudo da voz falada, cantada, profissional e de 
natureza patológica, comunicativa e estética), fornecerá informações imprescindíveis 
sobre a Avaliação e Reabilitação da Fala Envolvendo Aspectos Miofuncionais, a fim de 
permitir ao profissional o conhecimento e o entendimento das funções e disfunções a 
ela associadas. 
Segundo o Documento Oficial do Comitê de Motricidade Oral (2002), “Motricidade 
oral é o campo da Fonoaudiologia voltado para o estudo /a pesquisa, a prevenção, a 
avaliação, o diagnóstico, o desenvolvimento, a habilitação, o aperfeiçoamento e a 
reabilitação dos aspectos estruturais e funcionais das regiões orofacial e cervical”.
A fala é multidimensional, de modo que existem vários métodos de avaliação, incluindo 
avançados recursos tecnológicos. Entretanto, o profissional precisa estar apto a 
correlacionar e interpretar os achados de todas as avaliações e indicar o método mais 
adequado de tratamento. Desta forma, o conhecimento dos processos de avaliação e 
reabilitação em MO é a base para o direcionamento da equipe envolvida na assistência 
ao sujeito, no sentido de uma abordagem integral e humanizada, o que efetivamente 
auxiliará a equipe multidisciplinar no diagnóstico e na terapêutica. 
A atuação no paciente ou no cliente demanda muito estudo, principalmente por clínicos, 
para fundamentação de um raciocínio clínico que o leve a uma abordagem eficiente 
e eficaz. O profissional deve ter conhecimento prévio daquilo que está observando e 
senso crítico para a interpretação dos dados, correlacionando o quadro apresentado aos 
aspectos anatomofuncionais, logo, a anatomia e a fisiologia do sistema estomatognático 
são a base necessária para o êxito na reabilitação. 
A motricidade orofacial, área da Fonoaudiologia que objetiva o restabelecimento das 
funções reflexo-vegetativas, promove, por meio de terapia miofuncional, o tratamento 
das alterações musculares, favorecendo a estabilidade pós-tratamento ortodôntico 
(MENDES; COSTA; NEMR, 2005). 
8
objetivos
 » Compreender a importância do conhecimento da fala na MO.
 » Compreender o processo de avaliação na MO.
 » Compreender o processo de reabilitação na MO.
 » Promover análise crítica dos processos envolvidos nos distúrbios de fala 
relacionados à MO.
 » Analisar a correlação entre anatomia e fisiologia da voz e distúrbios de 
fala, processos diagnósticos, proposição de exercícios e estratégias de 
tratamento. 
9
unidAdE iSiStEMA 
EStoMAtognÁtiCo
CAPítulo 1
orgãos fonoarticulatórios e alterações 
miofuncionais
O sistema estomatognático, que do grego significa estomato=boca e gnático=mandíbula, 
identifica um conjuntode estruturas bucais que desenvolvem funções comuns, tendo 
como característica constante a participação da mandíbula. Como todo sistema, tem 
características que lhe são próprias, porém depende da função de outros sistemas como 
o nervoso, o circulatório etc. (GOLDENBERG, 1998).
Carvalho (2003) apud BRUM (2010) diz que a integridade funcional e muscular do 
sistema estomatognático, irá permitir um desenvolvimento e crescimento correto das 
estruturas dentofaciais, podendo, então, funcionar em harmonia, produzindo saúde 
para o indivíduo em geral.
Marchesan (1998) salientou que o sistema estomatognático é um complexo composto 
por estruturas passivas e ativas. Este conjunto com características e funções 
interdependentes necessita de uma abordagem clínica especializada na solução de 
problemas da motricidade oral. 
Felício (1999) salientou que o tratamento fonoaudiológico – terapia miofuncional – é 
necessário, para evitar a manutenção dos padrões musculares inadequados e desenvolver 
as funções estomatognáticas de maneira correta e equilibrada. É importante, também, 
para preservar as mudanças conseguidas com a correção ortodôntica das bases ósseas 
e dos dentes. É fundamental para uma boa oclusão a adequada posição da língua, 
a eliminação de hábitos nocivos e a reeducação da mastigação, fala, deglutição e 
respiração. Por isso os objetivos do tratamento fonoaudiológico tem que ser compatível 
com os objetivos do tratamento ortodôntico. A conduta terapêutica adequada passa por 
uma interação dos profissionais das áreas relacionadas com o problema apresentado 
pelo indivíduo. 
10
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Estrutura geral
O sistema estomatognático é constituído por tecidos e órgãos que compreendem 
estruturas ósseas, dentes, músculos, articulações, glândulas e sistemas vasculares 
linfáticos e nervosos, todos associados e podendo ser divididos do ponto de vista 
funcional. 
Estruturas passivas ou estáticas
São representas por dois ossos bases: um superior fixo chamado maxilar e outro móvel 
denominado mandíbula, os quais se relacionam entre si através das ATMs, assim 
como por seus respectivos arcos dentários.
Aos componentes ósseo-articulares temos que adicionar o osso hioide e certos ossos 
craniais, que correspondem em conjunto a estruturas sem motricidade própria.
Estruturas ativas ou dinâmicas
Correspondem aos músculos esqueléticos ou voluntários com seu comando nervoso 
(componente neuromuscular) que representam os verdadeiros motores do sistema. Ao 
entrar em atividade contrátil, põem em movimento as estruturas passivas potencialmente 
móveis (a mandíbula), através dos músculos mandibulares ou mastigatórios (conjunto 
muscular mandibular) e o hioide, através dos músculos infra e supra-hioideos (conjunto 
muscular hioideo). Além do mais, existem grupos musculares localizados tanto por fora 
dos arcos ósseo-dentários (lábios e bochechas) quanto por dentro (língua), os quais 
desempenham um trabalho muito importante nas diferentes funções que desenvolve o 
sistema estomatognático (conjunto muscular língua-lábio-bochecha).
Também se deve mencionar, os músculos do pescoço (especialmente o grupo posterior), 
estes são músculos antigravitacionais que ajudam à adaptação postural do crânio sobre 
a coluna cervical, durante as diferentes atividades funcionais do sistema (conjunto 
muscular crânio-cervical).
Estruturas anexas
Correspondem às glândulas salivares, assim como aos componentes vasculares e 
linfáticos associados.
Como se pode perceber, trata-se de um sistema biológico caracterizado por uma 
heterogeneidade de tecidos e órgãos, que apresentam diferente composição histológica e 
11
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
embrionária, assim como distintas funções. No entanto, mais importante que considerar 
o funcionamento isolado de cada componente ou estrutura, é o enfoque integrativo 
de todo o sistema, que constitui uma unidade morfofuncional bem organizada e 
sincronizada. Esta ação de integração está a cargo do sistema nervoso mediante suas 
complexas vias e mecanismos de integração e controle. 
Funcionalmente, então, se deve reconhecer o sistema estomatognático como uma 
unidade morfofuncional perfeitamente definível e indivisível com respeito ao resto do 
organismo e que, como tal, se deve compreender, diagnosticar e tratar.
O sistema estomatognático cumpre uma série de funções, entre as quais se podem citar 
quatro principais: mastigação, deglutição, respiração e fonoarticulação. 
A mandíbula é capaz de realizar uma série de movimentos, que são produtos da atividade 
sinérgica de diferentes fascículos musculares mandibulares, regulados e coordenados 
pelo sistema nervoso central. Estes movimentos, não obstante, são guiados pelas 
articulações temporomadibulares com seus ligamentos, as aponeuroses musculares, os 
tendões, a tonicidade dos músculos inseridos na mandíbula e os contatos entre as peças 
dentárias (oclusão) com seus respectivos ligamentos periodontais. (MENEZES, 2014).
Anatomia do Sistema Estomatognático. (CÉSAR, 2014. In: <https://www.sigaa.
ufs.br/sigaa/verProducao?idProducao=220413&key=5e5b108ad05885768a4a5
c5dc29ccde7>)
Para a atuação fonoaudiológica em motricidade orofacial, o profissional precisa 
conhecer os aspectos anatomofisiológicos envolvidos nas funções sensitivas e motoras 
do sistema estomatognático. Tal sistema é definido como um conjunto de estruturas 
orais que desenvolve funções comuns, tendo a participação constante da mandíbula, 
que em grego é denominada gnatos. (DOUGLAS, 2006, p. 270). Douglas ressaltou, 
no entanto, que, como o corpo humano funciona de forma integrada, este sistema está 
inter- relacionado com os demais sistemas, como o músculo-esquelético, o nervoso, o 
circulatório, o endócrino, o digestivo, o respiratório, entre outros.
Marchesan (1999) acrescentou que o profissional deve conhecer os pressupostos 
teóricos, a fim de que estes subsidiem sua prática, ressaltando a importância do 
conhecimento do desenvolvimento craniofacial, das estruturas estáticas e dinâmicas 
que o compreendem; funcionalmente são quatro seus elementos básicos: a articulação 
temporomandibular, o sistema neuromuscular, as superfícies e pressões oclusais e 
o periodonto. Estes elementos, segundo Douglas (2006), ao interagirem entre si de 
forma equilibrada, atingem a homeostase: quando eficientes, apresentam suficiência 
estomatognática; quando em desequilíbrio, produzem insuficiência.
12
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Desta forma, serão apresentadas, a seguir, as estruturas estáticas e dinâmicas 
constituintes do sistema estomatognático.
Estruturas estáticas ou passivas do sistema 
estomatognático
Os elementos constituintes das estruturas estáticas ou passivas do referido sistema são 
as seguintes.
 » O esqueleto ósseo: ossos temporais, esfenoide, maxila, mandíbula, 
hioide, demais ossos cranianos, coluna cervical, base do crânio e 
articulações (temporomandibular e da coluna vertebral).
 » Os dentes (superfície oclusal) 
 » O periodonto (localizado entre a raiz do dente e a cortical alveolar)
 » A mucosa (oral, lingual, nasal e faríngea) 
 » Os tendões (extremidade do músculo com formato cilindroide ou de 
“fita”), as aponeuroses (extremidade do músculo com formato de 
lâmina) e os ligamentos (feixes fibrosos que reforçam as membranas 
fibrosas das cápsulas articulares, com o intuito de aumentar sua resistência 
e manter a união entre os ossos (DÂNGELO; FATTINI, 2004). 
ossos temporais
Os ossos temporais (irregulares, por não apresentarem morfologia correspondente a 
alguma forma geométrica, segundo DÂNGELO; FATTINI, 2004), formam as laterais 
do crânio. Abrigam, em sua porção petrosa, o sistema auditivo-vestibular e também 
servem de apoio à articulação temporomandibular. Em sua superfície externa, 
apresenta três protuberâncias importantes para a inserção de músculos envolvidos 
nas funções orofaciais miofuncionais (MADEIRA, 2008): 
1) o processo mastoide 
(protuberância localizada atrás do lóbuloda orelha), que apresenta como ponto de 
ligação o músculo esterno-cleidomastoídeo e, na incisura mastoide (porção medial), 
insere-se o músculo digástrico (que contribui para a formação do assoalho da boca); 
2) 
o processo estiloide, que fica oculto no interior do esqueleto facial e é uma delgada 
formação óssea que apresenta, geralmente, 25 mm de comprimento no sujeito adulto. 
Fica entre as carótidas interna e externa e, posteriormente, à faringe. Neste processo, 
inserem-se três músculos envolvidos na deglutição: estiloglosso (inervado pelo nervo 
hipoglosso), estilofaríngeo (inervado pelo glossofaríngeo) e estilo-hioideo (inervado 
13
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
pelo nervo facial); forma um complexo (complexo estilo-hioídeo) pelo ligamento 
estilo-hioideo e corn o menor do osso hioideo; 
3) o processo zigomático, que serve 
de apoio para diversos músculos responsáveis pela mímica facial, no osso zigomático, 
onde se prendem os zigomáticos maior e menor, responsáveis por elevar o ângulo da 
boca e o lábio superior, respectivamente (CORBIN-LEWIS; LISS; SCIORTINO, 2009) 
na mastigação. 
Alguns músculos apresentam mais de um ventre muscular, como o digástrico, que 
apresenta dois ventres (MADEIRA, 2008), uma vez que, em sua borda superior, se 
prende a fáscia do temporal e, em sua borda inferior, se origina o músculo masseter 
(partes superficial e profunda).
osso esfenoide
O osso esfenoide, situado em posição profunda no crânio e com formato semelhante 
a um morcego ou borboleta, mantém conexão com o frontal, o temporal, o occiptal, o 
parietal, o osso zigomático e com a maxila. Serve como ponto de ligação para diferentes 
músculos envolvidos na deglutição, pois, em sua porção inferior da asa maior, ficam 
localizadas as placas pterigoides medial e lateral (por darem origem aos músculos 
pterigoides), e uma haste em forma de gancho desce da placa pterigoide medial, 
chamado hámulo. Neste osso há também o ligamento esfenomandibular, protegendo 
as estruturas e limitando o movimento relacionado à articulação temporomandibular. 
(MADEIRA, 2008).
Maxila
A maxila é composta pelo processo frontal (unido ao osso nasal pela sutura nasomaxilar), 
pela espinha nasal anterior, pelos processos alveolares com suas eminências, pelo 
forame infraorbital, pela fossa canina e pelo processo zigomático. Originam-se na 
maxila os músculos: nasal, prócero, levantador do ângulo da boca, levantador do lábio 
superior e da asa do nariz, orbicular da boca e do olho, bucinador e pterigoideo medial. 
(MADEIRA, 2008).
Mandíbula
A mandíbula é composta, em sua borda superior (ramo da mandíbula), por uma curva 
(incisura da mandíbula) que se divide pelos processos coronoide (onde há a inserção 
do músculo temporal) e condilar (colo e côndilo), pela fóvea pterigóidea; na 
borda inferior, pela linha oblíqua, pela tuberosidade massetérica; na borda 
14
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
inferior e posterior, pelo ângulo da mandíbula e, na porção anterior, pelo forame 
mentoniano. Originam-se na mandíbula os músculos: digástrico, abaixador 
do lábio inferior (na linha oblíqua da mandíbula) e do ângulo da boca, bucinador 
(na superfície externa dos processos alveolares) e mentual (na fossa incisiva da 
mandíbula). Inserem-se na mandíbula os músculos da mastigação como o masseter 
(na tuberosidade massetérica, próxima do ângulo da mandíbula), o pterigoideo medial 
(na face medial do ângulo da mandíbula), o temporal (no processo coronoide do ramo 
da mandíbula) e o pterigoideo lateral (na depressão da parte anterior do côndilo da 
mandíbula), segundo Madeira (2008).
A maxila e a mandíbula servem de ancoragem para dentição ( musculatura responsável 
pela mastigação, mímica facial) e, com a articulação temporomandibular, desempenham 
importante papel na deglutição (CORBIN-LEWIS; LISS; SCIORTINO, 2009). A maxila 
superior ainda divide a cavidade oral da nasal, cavidade importante para a função 
respiratória, para o olfato e para o sistema de ressonância da fala.
De acordo com Madeira (2008) e Lemos (2010), a articulação temporomandibular 
é uma articulação sinovial que permite movimentos amplos da mandíbula em torno 
do osso temporal, que é fixo. É bilateral e interligada pela mandíbula e, apesar 
de cada lado realizar um movimento próprio, os movimentos são simultâneos. É 
revestida de fibrocartilagem e suas partes ósseas são, no processo condilar: 1) 
cabeça da mandíbula (clinicamente denominada por côndilo), 2) colo da mandíbula 
(estreitamento ósseo em que com maior frequência há fraturas condilares) e 3) fóvea 
pterigoidea (local de inserção do músculo pterigoideo lateral), e no osso temporal: 
1) eminência/tubérculo articular (situa-se anteriormente à fossa articular e determina 
a direção do côndilo quando a mandíbula executa o movimento de abertura), 2) fossa 
mandibular do osso temporal (dividida em 2 partes: anterior, articular e posterior, 
extra-articular) e 3) disco articular (placa fibrocartilaginosa que se situa sobre a cabeça da 
mandíbula, estendendo- se anteriormente até a porção posterior do tubérculo articular, 
com inserção de fibras dos músculos pterigoideo lateral – entre a porção anterior do 
côndilo e a porção posterior do tubérculo articular e com algumas fibras tendinosas do 
feixe profundo do masseter, em sua porção medial. Em sua porção posterior, há a zona 
bilaminar ou ligamento retrodiscal; a superior insere-se na fissura petrotimpânica e a 
inferior, na cabeça da mandíbula).
Hioide
O hioide é um osso localizado no pescoço (no nível da terceira vértebra cervical) 
e não se liga a demais ossos a não ser por músculos e ligamentos. É subdividido em 
corpo e cornos maior e menor. Na face anterior do corpo do hioide, inserem-se os 
15
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
músculos gênio-hioídeo, milo-hioídeo, esterno-hioídeo, omo-hioídeo, tireo-hioídeo 
e estilo-hioídeo. Em seu corno maior, inserem-se os músculos: constritor médio da 
faringe e o hioglosso. Seu corno menor é cartilaginoso e calcifica-se no decorrer do 
avanço da idade, sendo que se liga ao processo estiloide pelo ligamento estilo-hioídeo. 
(MADEIRA, 2008). A cartilagem epiglote localiza-se na porção superior da laringe, 
atrás da língua e do osso hioide. A extremidade inferior é designada por petiolo e 
encontra-se unido à cartilagem tiroídea através do ligamento tiro-epiglótico. Por cima 
do peciolo, descreve-se o tubérculo epiglótico. A epiglote está unida, anteriormente, ao 
osso hiide através do ligamento hio-epiglótico. A porção mais alta da epiglote é livre 
e coberta por uma mucosa que se reflete para a base da língua e para a parede lateral 
da faringe, formando as pregas glosso-epiglóticas medianas e laterais e entre elas as 
valéculas glosso-epiglóticas.
dentes
Os dentes constituem a substância mais dura do corpo humano e o sistema dentário 
humano é difiodonte, ou seja, apresenta duas dentições, a decídua (incisivos central e 
lateral, caninos e primeiro e segundo molares – total: 20 dentes, com início da erupção 
aos 6 meses de idade e término entre 2 anos e meio e 3 anos de idade) e a permanente 
(incisivos central e lateral, caninos, primeiro e segundo pré- molares – dentes sucessores 
– e primeiro, segundo e terceiro molares, dentes adicionais – total: 32 dentes, com 
início da erupção aos 6 anos e término entre 20 e 27 anos, em virtude do terceiro molar, 
sendo que, entre 12 e 13 anos, já houve o término da erupção dos segundos molares). 
Este processo ocorre em virtude dos dentes decíduos não aumentarem de tamanho 
durante o desenvolvimento, ficando em discrepância com as bases ósseas, que sofrem 
crescimentos. (PETRELLI, 1994). 
No dente reconhecem-se três estruturas mineralizadas, segundo Douglas (2006): 
esmalte, dentina e cemento (tecido que recobre a dentina da raiz anatômica do 
dente), fixados nos alvéolos pelos ligamentos periodontais. O periodonto, segundo 
Petrelli (1994), é composto pelo cemento, ligamento periodontal e osso alveolar e 
apresenta proprioceptores importantespara a mastigação, pois, segundo Douglas 
(2006), gerando pressão interoclusal durante o contato oclusal exigida para a trituração 
dos alimentos.
Mucosas
As mucosas (oral, da língua, nasal e faríngea) apresentam receptores específicos 
(com vias que atingem áreas específicas corticais), responsáveis pela gustação 
16
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
(principalmente no dorso da língua, local em que situam nos corpúsculos gustativos) e 
pela olfação (na mucosa nasal, principalmente em sua mucosa amarela, local em que se 
localiza a maioria dos receptores da olfação, que na verdade são neurônios receptores 
primários com características bipolares) e receptores mais ou menos definidos, não 
específicos, também denominados por sistema somatossensorial (por aferência do V 
par craniano e pela via do sistema neo-espinho-trigêmio-talâmico – SNETT), que se 
responsabilizam pelas sensações de pressão (presso-receptores localizados na ponta 
e nas laterais da língua, para direcionar o alimento em direção aos dentes e no palato 
duro, eliciando o ato da mastigação, bem como a sensação de pressão nos dentes, de 
deformação do alimento pelos ligamentos periodontais, de receptores amielínicos na 
faringe, para sua distensão, retração e deformação da mucosa para o trânsito alimentar; 
nos lábios, com receptores de limiar baixo para o desenvolvimento de funções como a 
sucção, o beijo, a fala e o canto; no palato mole, em que há diversos receptores mecânicos 
sensíveis à tensão, deformação, toque ou pressão, importantes para a deglutição, para 
deflagar mecanismos protetores e reflexos como o vômito, a eructação), de tato (que 
pode propiciar a topognosia, em especial na língua, nos lábios, na gengiva e no palato 
duro, que são os locais mais sensitivos quando comparados com as bochechas e a 
eliciação do reflexo de gag e vômito) e de dor, por meio de nociceptores, localizados em 
diferentes locais do corpo que podem ser estimulados por nociceptores termossensíveis, 
mecanossensitivos e quimiossensitivos. (DOUGLAS, 2006).
Estruturas dinâmicas ou ativas do sistema 
estomatognático
As estruturas dinâmicas ou ativas deste sistema são representadas pelas unidades 
neuromusculares.
 » Faciais (bucinador, orbicular da boca, zigomáticos, retrator e levantador 
do ângulo da boca e mentual) 
 » Músculos da mastigação (temporal, masseter, pterigoideo medial e 
lateral) 
 » Músculos da deglutição (incluindo os músculos do palato, os linguais, 
os supra-hioideos e infra-hioideos) 
 » Faríngeos (constritores da faringe e o salpingofaríngeo) 
 » Palatinos (úvula, palatoglosso, palatofaríngelo, elevador e tensor do 
palate mole) 
17
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
 » Cervicais, com a porção superior do trapézio, esternocleidomastoídeo, 
esplênios 
e escalenos. (DOUGLAS, 2006; MARCHESAN, 1999; TASCA, 
2002). 
Dangelo e Fattini (2004) ressaltaram que a musculatura não assegura apenas a 
dinâmica, mas também a estática do corpo humano, mantendo “(...) unidas as peças 
ósseas determinando a posição e postura do esqueleto” (p. 43). Quando os autores 
comentaram sobre as variedades dos músculos, podemos caracterizar os músculos 
da face como estriados e, por consequência, são tidos como músculos voluntários e 
esqueléticos.
Ainda de acordo com os autores, no ato da contração muscular (realizada pela porção 
do ventre muscular), há a necessidade que os músculos estejam dentro de uma bainha 
elástica de contenção, ou seja, pela fáscia muscular, que também facilita o deslizamento 
dos músculos entre si.
No ato da contração muscular, há o encurtamento do comprimento do músculo e, 
consequentemente, há o deslocamento da peça esquelética (DANGELO; FATTINI, 
2004; DOUGLAS, 2006), e os músculos da face desenvolvem, em especial, tarefas 
importantes que se inter-relacionam como a alimentação, a mímica facial, a mastigação, 
a fonação e o piscar de olhos, segundo Madeira (2008).
Os músculos da face localizam-se logo abaixo da pele e são denominados por cuticulares. 
Formam uma camada quase única, pois há, muitas vezes, fusão de feixes de músculos 
entre si, principalmente nos seus locais de inserção e, por este motivo, são tidos como 
os músculos mais fracos e delicados do corpo humano; ao se contraírem formam uma 
depressão/linha perpendicular em direção à fibra dos músculos que, com o passar do 
tempo, formam pregas e rugas. (MADEIRA, 2008).
Contraímos os músculos da face para distintas tarefas, em especial, para nos 
expressarmos, manifestarmos nossas emoções que – ajustadas aos nossos traços de 
personalidade –, permitem definir nossa fisionomia (MADEIRA, 2008). Assim, quando 
estamos surpresos, contraímos o músculo occiptofrontal e, na sua porção antagonista, 
temos os músculos orbicular do olho, o corrugador do supercílio e o prócero, por 
exemplo (TASCA, 2002), mas como cada indivíduo tem uma forma única e peculiar de 
se expressar, alguns podem fazer uma contração mais forte para manifestar surpresa 
enquanto outros não. As condições de vida e de personalidade influenciam de tal forma 
na constituição desta tida “fisionomia”, que representam as condições adaptativas do 
ser humano que não nos permite uma norma rígida ou um padrão definido sobre o seu 
funcionamento, apesar de, em condições normais, apresentarmos as mesmas estruturas 
e os mesmos órgãos.
18
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
A seguir, serão apresentados os músculos de importância para a compreensão do 
sistema estomatognático e, ao final do texto, disponibiliza-se síntese contendo origem, 
inserção e ação de cada músculo.
Os músculos peribucais são aqueles que, segundo Madeira (2008), circunscrevem a 
rima da boca, sendo constritor o orbicular da boca e dilatadores os levantadores do lábio 
superior, da asa do nariz, do ângulo da boca, os zigomáticos – maior e menor, risório, 
bucinador, abaixadores do lábio inferior e do ângulo da boca, mentual e platisma. As 
definições a seguir facilitarão a compreensão de cada músculo.
O músculo orbicular da boca apresenta alguns feixes com inserção na espinha nasal 
anterior e nas fóveas incisivas (da maxila e da mandíbula), estendendo-se do nariz ao 
lábio inferior, no sulco labiomentoniano. Age no ato de preensão dos alimentos, para 
assobiar, para manter lábios fechados, para produzir fonemas bilabiais plosivos, para 
comprimir o lábio entre os dentes, para protrair o lábio entre outras funções.
O músculo levantador do lábio superior origina-se logo acima do forame infraorbital 
(que se encontra coberto pelo músculo orbicular do olho) e insere-se na metade lateral 
do lábio superior, sendo que muitas de suas fibras se entrelaçam com o músculo 
orbicular da boca. Em sua porção mais medial, fica vizinho ao músculo levantador da 
asa do nariz e lábio superior e, em sua porção mais distal, fica ao lado do músculo 
zigomático menor, apresentando fibras fusionadas com esses músculos citados. Age 
para elevar o lábio superior.
O músculo levantador do lábio superior e da asa do nariz estende-se do processo frontal 
da maxila (situação que fica encoberto pelo músculo orbicular do olho), estende fibras 
para a asa do nariz e dirige-se até o lábio superior. Sua função é elevar o lábio superior 
e a asa do nariz.
O músculo zigomático menor situa-se ao lado do levantador do lábio superior, estando 
fixado no osso zigomático e dirige-se até o lábio superior e auxilia na ascensão deste 
lábio.
O músculo levantador do ângulo da boca encontra-se fixado na fossa canina e é 
completamente encoberto pelo músculo levantador do lábio superior. Posiciona-se 
verticalmente e dirige-se até o ângulo da boca, cuja função é elevá-la.
O músculo zigomático maior origina-se na face lateral do osso zigomático e 
dirige-se para baixo, em direção ao ângulo da boca, fundindo algumas de suas fibras 
com o músculo bucinador. Durante a risada, arquea as comissuras labiais para cima.
19
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
O músculo risório pode surgir da fáscea massetérica ou das fibras posteriores do 
platisma. Quandose encontra agarrado à pele, ao sorrir, a pessoa pode apresentar 
“covinhas” em virtude desta variação do músculo risório. Por inserir-se no ângulo da 
boca, ao contrair-se, retrai lateralmente o lábio.
O músculo bucinador origina-se na região molar dos processos alveolares da mandíbula 
e da maxila e insere-se no ângulo da boca, fundindo-se com fibras do orbicular da boca. 
Muitas de suas fibras superiores estendem-se ao lábio inferior e muitas de suas fibras 
inferiores o lábio superior. É um retrator do ângulo da boca e suas funções principais 
são manter a bochecha distendida durante as fases de abertura e fechamento da boca, 
evitando que nestas manobras a bochecha seja ferida pelos dentes e manter os alimentos 
na superfície oclusal durante a mastigação. Age também no sopro e na sucção.
O músculo abaixador do ângulo da boca origina-se na base da mandíbula, entre as 
origens do músculo platisma e o músculo abaixador do lábio inferior, entre a região do 
molar até o tubérculo mentoniano e vai em direção ascendente até o ângulo da boca, 
sendo que, ao ser contraído, abaixa e retrai (ligeiramente) a comissura labial.
O músculo abaixador do lábio inferior tem origem acima da linha de origem do 
abaixador do ângulo da boca e dirige-se obliquamente ao lábio inferior, onde se insere, 
com a função de abaixar o lábio inferior.
O músculo mentual origina-se na fossa incisiva da mandíbula, inserindo-se na cutis 
mentual. Apresenta função de elevar pele da região, protruir lábio inferior e realizar 
sua eversão.
O músculo platisma prende-se à mandíbula, abaixo do músculo abaixador do ângulo 
da boca e pode apresentar algumas fibras na bochecha, indo até as regiões anterior e 
lateral do pescoço, cruzando a clavícula e terminando na região peitoral. Tensiona a 
pele do pescoço.
Demais músculos são importantes para o desempenho da mímica facial como o 
orbicular do olho, o occiptofrontal, o prócero, o corrugador do supercílio e o nasal, a 
seguir descritos.
O músculo orbicular do olho localiza-se ao redor do olho e, em sua contração, há o 
fechamento e a compressão das pálpebras para dentro. 
O músculo occiptofrontal apresenta dois ventres, um no occiptal e outro no frontal, 
sendo que seu ventre frontal insere-se na pele do supercílio e da raiz do nariz e sua 
função é a de elevar os supercílios.
20
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
O músculo prócero origina-se no osso nasal e insere-se na pele da glabela, entre os 
supercílios. Apresenta função de tracionar a pele do nariz para cima, formando rugas 
transversais sobre a ponta do nariz e também ajuda a corrugar o supercílio.
O músculo corrugador do supercílio origina-se no osso frontal e termina na extremidade 
lateral do supercílio, apresentando função de enrugar a fronte e auxiliar na elevação das 
pálpebras superiores.
O músculo nasal divide-se em duas partes: a transversa, que tem a função de contrair 
as narinas, e outra, a alar, com função de dilatá-las. Origina-se na incisura da maxila e 
insere-se no tegumento da ponta do nariz septo nasal.
funções clássicas
As funções clássicas do sistema estomatognático podem ser divididas em mastigação, 
deglutição, sucção e fala. A seguir, serão descritas as funções com seus substratos 
musculares.
Mastigação
A função da mastigação é a ação de morder, triturar e mastigar o alimento (TANIGUTE, 
2005). Um grupo de músculos inervados pelo V par craniano – trigêmeo – participa 
desta atividade; o trabalho muscular precisa ser integrado. Em sua fase incisal, há a 
elevação mandibular e seu posicionamento topo a topo e, para cortar o alimento, a 
mandíbula repropulsa-se, deslizando os incisivos inferiores contra a face palatina dos 
incisivos superiores (DOUGLAS, 2006; MADEIRA, 2008). A força utilizada pelos 
músculos elevadores da mandíbula, o padrão facial do indivíduo, o estado de saúde e 
oclusão dentária, o tempo disponível para esta tarefa (se meu tempo for menor, mais 
utilizarei as fibras do temporal, uma vez que tal músculo é requisitado ao se falar e 
ao se fechar a boca rapidamente), a integridade neurológica do indivíduo e o modo 
respiratório são fatores que diferenciarão a incisão do alimento de um sujeito para 
outro.
A trituração do alimento no indivíduo adulto ocorre principalmente nos pré-molares 
que, segundo Douglas (2006), apresenta maior pressão intercuspideana que os molares. 
Neste caso, quanto mais duro for o alimento, por exemplo, maior será a força empregada 
pelos músculos masseter e pterigoídeo medial. Para manter o alimento na superfície 
oclusal para sua trituração, é desejável que haja tônus equilibrado de bucinador (que 
empurra medialmente o alimento para a superfície oclusal dos dentes enquanto a língua 
os empurra lateralmente – MADEIRA, 2008) e do orbicular da boca (que mantém os 
21
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
lábios vedados, MADEIRA, 2008), bem como o bom funcionamento do nervo facial 
(VII par craniano), para que não haja, segundo Corbin-Lewis, Liss e Sciortino (2009), 
impactação do alimento e possibilidades de engasgos. Para que o alimento seja mais 
bem triturado e para não fadigar a musculatura, é importante que seja triturado ora 
de um lado, ora de outro. Além de a língua, o músculo pterigoideo lateral auxilia o 
movimento de protração, lateralização e depressão mandibular. (TASCA, 2002).
A última fase da mastigação é a pulverização, quando o alimento é transformado em 
partículas menores, sendo esta tarefa realizada, geralmente, pelos molares (TANIGUTE, 
2005; DOUGLAS, 2006).
Douglas (2006) acrescentou que “(...) as diversas fases da função mastigatória são 
facilitadas ou sustentadas por contração tônica da musculatura cervical, que determina 
postura adequada da cabeça para a função mastigatória” (p. 348).
Como a mastigação segue um padrão rítmico de abertura e fechamento da boca, na 
sua fase de abertura, iniciada pela mucosa, pela articulação temporomandibular e pelo 
periodonto, há relaxamento da musculatura elevadora da mandíbula, e os músculos 
antagonistas da mastigação se contraem isotônicamente (músculos abaixadores 
mandibulares: digástrico, milo-hioídeo, gênio-hioídeo), havendo também imobilização 
dos infra- hioídeos e do estilo-hioídeo. Já para o fechamento, há o inverso, ou seja, a 
contração isotônica dos músculos levantadores e o relaxamento dos abaixadores da 
mandíbula. (DOUGLAS, 2006; MADEIRA, 2008).
Desta forma, a oclusão e força interoclusal satisfatórias,a preservação da forma do 
elemento dentário, a inexistência de hábitos orais deletérios, a preservação da integridade 
óssea, muscular, endocrinológica, respiratória e neurológica, os estímulos ambientais 
adequados e uma boa base genética (que proporciona harmonia nas características do 
esqueleto craniofacial) são fatores fundamentais para uma boa mastigação. (TERRA, 
2004; DOUGLAS, 2006).
Os músculos da mastigação, já citados anteriormente, serão descritos quanto sua 
origem, inserção e função, sendo que, de forma geral, são três os elevadores (masseter, 
pterigoídeo medial e o temporal) e um o protrusor da mandíbula (o pterigoídeo lateral), 
segundo Madeira (2008).
O masseter superficial e o temporal são músculos que podem ser palpados, enquanto 
os pterigoideos (medial e lateral) e o masseter (feixe profundo) por serem profundos 
e devido à inacessibilidade (como o pterigoídeo medial, que fica na superfície interna 
da mandíbula) não. Todos têm origem no crânio e inserção na mandíbula e sua 
característica principal está na atuação em conjunto, muito mais do que na ação isolada. 
22
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Agem movimentando a mandíbula em diferentes posições e por ação do ramo motor 
mandibular do nervo trigêmeo (V), denominado por nervo mandibular, que, ao inervar 
cada músculo, recebem seu nome (nervo massetérico, nervo temporal profundo, nervo 
pterigoideo medial e nervo pterigoideo lateral), comentou Madeira (2008).
O músculo masseter é potente e é recoberto por uma fáscia (fáscia massetérica), que se 
insere no arco zigomáticoe nas bordas do ramo da mandíbula (2/3 inferiores da face 
lateral do ramo). Este músculo cobre praticamente todo o ramo mandibular, com exceção 
de sua cabeça, o côndilo. Divide-se em duas partes: superficial (do arco zigomático, parte 
inferior e atrás, até a metade do arco, até o ramo mandibular), que é maior, fica localizada 
mais anteriormente e possui fibras mais inclinadas e a profunda (parte inferior da metade 
do arco zigomático até o limite da eminência articular), que é menor, localizada mais 
posteriormente, apresenta fibras verticais e se entrelaça (no arco zigomático) com feixes 
superficiais do músculo temporal, sendo que a porção mais anterior do masseter apresenta 
fusão de suas porções (superficial e profunda). Tem a função de elevar a mandíbula, sendo 
que sua porção superficial, por apresentar fibras inclinadas, ao ser contraída também 
movimenta a mandíbula ligeiramente para frente, permitindo a oclusão dentária e a 
porção profunda. Além de auxiliar na elevação mandibular, auxilia na manutenção da 
oclusão forçada por mais tempo. (MADEIRA, 2008).
O músculo temporal, que apresenta formato de leque, é coberto pela fáscia do temporal 
e fixa-se na margem superior do processo frontal do osso zigomático, abraçando a 
margem superior do osso zigomático tanto em sua porção anterior quanto posterior, 
pois divide-se em duas folhas neste local, estendendo-se até a face medial do processo 
coronoide da mandíbula e da região retromolar. Sua origem é no assoalho da fossa 
temporal e tem a função de elevar a mandíbula (com maior contração de suas fibras 
anteriores), e sua porção posterior realiza movimentos retrusores mandibulares.
O músculo pterigoideo medial origina-se na fossa pterigoídea, local em que se relaciona 
com o músculo pterigoideo lateral e o músculo tensor do véu palatino e insere-se no 
ramo mandibular, em sua face interna, na tuberosidade pterigoidea. Além de elevar a 
mandíbula, auxilia no seu deslocamento para frente.
O músculo pterigoídeo lateral dispõe-se horizontalmente em relação aos demais 
músculos da mastigação e relaciona-se com a articulação temporomandibular. Sua 
margem superior origina-se na fossa infratemporal da asa maior do esfenoide (em suas 
paredes lateral e superior) e a inferior no processo pterigoídeo (face lateral da lâmina 
lateral), fundindo-se até chegarem na fóvea pterigoidea do colo da mandíbula. Sua 
margem superior ainda estende fibras para a porção anterior da cápsula articular e daí 
para o disco articular. Age no movimento de protração mandibular ao se contraírem 
23
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
simultaneamente e, com a contração combinada com os músculos supra-hioídeos, 
favorece o movimento de rotação da mandíbula – movimento importante para sua 
abertura. Quando sua ação é unilateral, com movimento agonista de contração de um 
lado e antagonista de relaxamento do outro, movimenta a mandíbula lateralmente.
deglutição
Outra função importante do sistema estomatognático é a deglutição, seja de alimento 
sólido, de líquido ou saliva, que corresponde a uma série de contrações reflexas e 
ordenadas com o objetivo de levar o alimento ou a saliva da cavidade oral até o estômago. 
(DOUGLAS, 2006).
Divide-se em três fases: a primeira consciente (a oral) e as demais, inconscientes 
(faríngea e esofágica), segundo Tanigute (2005), ou até mesmo subconscientes, segundo 
Furkim e Mattana (2004).
Furkim, Mattana (2004) e Padovan (2004) acrescentaram uma fase, que denominaram 
antecipatória, que corresponderia à entrada do alimento na cavidade oral, no qual 
decidimos o tipo, a velocidade, o volume do alimento a ser deglutido e o ambiente da 
refeição.
Douglas (2006) e Corbin-Lewis; Liss e Sciortino (2009) dividem a primeira fase em 
dois estágios: o oral preparatório (quando o alimento é levado à boca e transformado 
em bolo alimentar coeso, incluindo o processo da mastigação com a fragmentação 
deste bolo em pequenas partículas em uma depressão formada na superfície da língua 
e pressionado contra o palato duro) e o oral (bolo é impulsionado posteriormente, em 
direção à orofaringe). Para Padovan (2004), esta fase oral é denominada por fase de 
transporte e o processo de sucção favorece o deslizamento do alimento, por meio do 
movimento ondulatório da língua (da frente para trás). Douglas (2006) acrescentou 
que a deglutição do lactente é tida como primária, associada à sucção (sistema límbico 
estaria associado ao bulbar da deglutição), e a do adulto, é tida como secundária.
Furkim e Mattana (2004) dividiram a fase oral em cinco estágios.
 » A captação (o alimento é captado com precisão,sem escape, e os lábios 
mantêm-se vedados). 
 » A qualificação (o alimento é avaliado quanto a volume, densidade, grau 
de umidificação e quantidade de deglutições). 
 » O preparo (do alimento em bolo alimentar). 
24
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
 » O posicionamento (do alimento na língua e desta contra o palato duro). 
 » A ejeção (deslocamento do alimento ou da saliva para a região faríngea). 
Para a modificação da forma da língua, como na fase oral da deglutição, há a participação 
dos músculos intrínsecos da língua. Quando se faz o transporte do bolo alimentar ou da 
saliva, há a participação de seus músculos extrínsecos. (MADEIRA, 2008).
Outro aspecto importante a ser considerado é que o transporte do bolo alimentar, do 
líquido ou da saliva são facilitados pela pressão positiva intraoral, facilitada pelo tônus 
do músculo bucinador e pela posição elevada da mandíbula (proporcionada pelos 
músculos masseter, pterigoideos e temporal), segundo Douglas (2006).
Na medida em que o alimento chega à orofaringe, inicia-se resposta faríngea de 
deglutição, fase faríngea (inconsciente e involuntária). Nesse momento deve haver 
sincronismo com a respiração, para que não haja passagem do alimento para as vias 
aéreas, que é regulado pelo sistema nervoso central (estruturas reticulares bulbares 
localizadas no tronco encefálico). Participam deste processo de proteção das vias 
aéreas o músculo levantador do palato (para aposição do palato mole contra a parede 
da faringe, evitando-se a passagem retrógrada do fluxo para as narinas posteriores), os 
músculos supra-hioídeos e os intralaríngeos (para levantamento e tração da laringe, 
bem como para adução das pregas vocais, fechamento da glote e deslizamento horizontal 
da epiglote – evitando-se, desta forma a aspiração do conteúdo deglutitório para as 
vias aéreas inferiores e pulmão), havendo parada inspiratória (apneia) e uma pressão 
negativa para o deslocamento do alimento. (FURKIM; MATTANA – 2004; PADOVAN 
– 2004; DOUGLAS – 2006; CORBIN-LEWIS; LISS; SCIORTINO – 2009).
Na última fase, a esofágica, o bolo alimentar (ou saliva) é levado para o estômago sob 
a ação dos movimentos peristálticos (PADOVAN, 2004), a partir do relaxamento do 
esfíncter esofágico superior (FURKIM; MATTANA, 2004; CORBIN-LEWIS; LISS; 
SCIORTINO, 2009). Douglas (2006) ressaltou que, no terço superior do esôfago, a 
musculatura é esquelética, seu terço médio apresenta uma gradação de musculatura 
esquelética e lisa (permitindo o movimento peristáltico supracitado), no terço inferior, 
a musculatura é lisa e controlada pelo nervo vago.
Na última fase, o fluxo aéreo é direcionado para as vias aéreas superiores, eliminando-
se a apneia citada anteriormente. (FURKIM; MATTANA, 2004).
No processo de mastigação, a língua é de extrema importância e, por este motivo, será 
descrita a seguir.
25
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
A língua, revestida pela mucosa lingual, encontra-se fixada, no assoalho da boca (pelo 
músculo genioglosso), ao osso hioide (pelo músculo hioglosso), ao processo estiloide 
(pelo músculo estiloglosso) e ao palato (pelo músculo palatoglosso) e, internamente, 
apresenta músculos intrínsecos, que se apresentam por fibras longitudinais (músculos 
longitudinais superior e inferior) – dispostas antero posteriormente, transversais 
(músculo transverso) e verticais (músculo vertical), segundoMadeira (2008). Tem 
importância na mastigação, na deglutição, na higienização da cavidade oral, na gustação 
e na fala (DANGELO; FATTINI, 2004) e alguns autores comentam que é formada por 
17 músculos.
Segundo o Comitê de Motricidade Orofacial (Comitê de MO) da Sociedade Brasileira de 
Fonoaudiologia (2002), é dividida assim.
 » Terços: anterior e médio (corpo), tidos como os 2/3 anteriores 
(pré- sulcais) da língua, que são móveis e, segundo Madeira (2008), 
compreende o dorso, as margens, a face inferior e o ápice. 
 » Terço posterior. Corbin-Lewis, Liss e Sciortino (2009) acrescentaram 
que a raiz da língua é relativamente fixa e que, ao entrar na faringe para 
se fixar no osso hioide, forma um ângulo aproximado de 90o.
O referido Comitê de MO acrescentou que a porção anterior da língua é representada 
pela ponta da língua e seu ápice (parte pontiaguda) e é presa ao assoalho da boca por 
um frênulo, segundo Corbin-Lewis, Liss e Sciortino (2009), denominado por frênulo 
da língua.
Pode ser ainda dividida em duas metades no sentido ântero-posterior, sendo que o 
sulco central é quem possibilita esta divisão da superfície da língua. (CORBIN- LEWIS; 
LISS; SCIORTINO, 2009).
A região sublingual, ou seja, a face inferior da língua é revestida por uma mucosa 
fina, sendo possível visualizar a veia profunda da língua. Na parte superior da região 
sublingual, está a mucosa e, na parte inferior, o músculo milo-hioide.
Entre a mucosa e o músculo milo-hioide encontram-se duas saliências, as carúnculas 
sublinguais, responsáveis pela saída dos ductos submandibulares e maior da sublingual.
Nesta região, encontra-se a glândula submandibular que possui vários ductos que 
desembocam diretamente na mucosa. Perto da extremidade anterior do frênulo da 
língua, há uma prega recortada irregularmente que pode ser seguida em ambos os lados, 
lateral e posterior, na superfície inferior da língua, denominadas por pregas fimbriadas 
ou franjeadas.
26
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Os músculos extrínsecos da língua a serem descritos são o genioglosso, o 
gênio-hioide, o milo-hioide, o palatoglosso, o estiloglosso e o hioglosso e os músculos 
intrínsecos são os longitudinais, os transversos e os verticais.
O músculo genioglosso parte da espinha mentoniana superior (acima do gênio-hioídeo) 
e, na superfície posterior, da sínfise mandibular, formando, de ambos dos lados, uma 
placa em forma de leque em direção à língua (do ápice à raiz). São separados por um 
septo fibroso. As fibras anteriores são verticais de sua origem até a ponta da língua e 
seu terço médio. As fibras posteriores são horizontais para o terço superior e as fibras 
intermediárias espalham-se entre as margens horizontal e vertical. Insere-se próximo 
à borda livre da língua, com feixes mais inferiores ligados ao hioide. É inervado pelo 
nervo hipoglosso. De acordo com o Comitê de MO (2007) e Madeira (2008), sua função 
é abaixar a língua (quando todas as fibras se contraem), sendo que suas fibras médias e 
posteriores protraem a língua e as anteriores retraem a ponta da língua.
O músculo gênio-hioideo origina-se na espinha mentoniana e insere-se na metade 
superior do osso hioide. É inervado pelo nervo hipoglosso. Tem a ação de elevar o osso 
hioide para cima e para frente, reduzindo e elevando o assoalho da boca. Quando fixado, 
auxilia o digástrico a tracionar a mandíbula para baixo e para trás (MADEIRA, 2008). 
De acordo com o Comitê de MO (2007), sua função é elevar o osso hioide, encurtar o 
assoalho da boca e alargar a faringe.
O músculo milo-hioídeo forma o assoalho da cavidade oral de cada lado e une-se por uma 
rafe milo-hioídea (cordão tendíneo que vai da mandíbula ao osso hioide). Origina-se 
na linha milo-hioídea e suas fibras posteriores inserem-se no corpo do osso hioide. É 
inervada pelo nervo milo-hioide, ramo do nervo mandibular (parte motora do nervo 
trigêmeo – V par craniano). De acordo com o Comitê de MO (2007) e Madeira (2008), 
tem a função de elevar o assoalho da boca e, com ele, a língua e o osso hioide durante 
a deglutição e a fala. Quando fixado, auxilia o digástrico na retrusão e no abaixamento 
da mandíbula.
O músculo palatoglosso tem origem na parte da superfície inferior da aponeurose 
palatina e insere-se na língua póstero-lateral. Este músculo forma o arco palatoglosso e 
age como um esfíncter, separando a cavidade oral da faríngea, na deglutição e na fala. 
É inervado pelo nervo vago. De acordo com o Comitê de MO (2007) e Madeira (2008), 
tem a função de elevar a língua e, quando estiver fixa, pode abaixar o palato mole, bem 
como a ajudar a estreitar o istmo das fauces.
O músculo estiloglosso origina-se da parte da superfície anterior do processo estiloide, 
indo em direção às porções posterior, lateral e inferior da língua, entrelaçando-se com 
27
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
o hioglosso. De acordo com o Comitê de MO (2007) e Madeira (2008), é um músculo 
retrator e elevador das laterais da língua. É inervado pelo nervo hipoglosso.
O músculo hioglosso fica parcialmente coberto pelo músculo milo- hioideo e alcança 
a língua por baixo e pelo lado. Origina-se na parte da borda superior do corno maior 
e no corpo do osso hioide. O músculo hioglosso é o depressor da língua (abaixando e 
retraindo – segundo o COMITÊ DE MOTRICIDADE OROFACIAL, 2007 e MADEIRA, 
2008), principalmente se estiver fora da boca, e é inervado pelo nervo hipoglosso.
Os músculos longitudinais superior e inferior da língua, intrínsecos da língua, 
apresentam disposição de fibras no sentido ântero-posterior da língua (MADEIRA, 
2008). O superior, ao ser contraído, curva o ápice e as laterais da língua para cima, 
formando um dorso côncavo. O inferior, ao ser contraído, conduz a ponta da língua 
para baixo, tornando seu dorso convexo, segundo o Comitê de Motricidade Orofacial 
(2007).
O músculo transverso da língua tem direção transversa na língua (Figuras 21 B e 27) 
e, ao se contrair, propicia o estreitamento da língua, o espessamento e o alongamento 
(MADEIRA, 2008). De acordo com o Comitê de Motricidade Orofacial (2007), também 
age elevando suas margens laterais.
O músculo vertical da língua, devido à direção de suas fibras, favorece o alongamento e 
o alargamento da língua (MADEIRA, 2008). O Comitê de Motricidade Orofacial (2007) 
acrescentou a função de achatamento da língua.
Em virtude de a fase faríngea (inconsciente e involuntária) da deglutição necessitar 
dos músculos do palato, dos músculos supra e infra-hioídeos, estes músculos serão, a 
seguir, descritos.
Os músculos do palato, segundo Madeira (2008), são o tensor e o levantador do véu 
palatino, o palatoglosso (já descrito anteriormente), o palatofaríngeo e o músculo da 
úvula. Nos 2/3 anteriores do palato mole, há uma lâmina fibrosa que se prende na 
porção livre do palato duro denominada por aponeurose palatina, considerada também 
como uma expansão do músculo tensor do véu palatino (este músculo é inervado pelo 
ramo motor do nervo trigêmeo, o nervo mandibular). Os demais músculos do palato 
estão inseridos nessa aponeurose e são inervados pelo nervo vago (X nervo craniano 
que tem função de sensibilidade geral, paladar e atividade motora para os músculos 
citados).
O músculo tensor do véu palatino origina-se na fossa escafoide, ao lado do pterigoídeo 
medial e desce verticalmente até o hámulo do pterigoídeo, contornando-o e direcionando-se 
28
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
horizontalmente ao palato. Sua função é, segundo o Comitê de MO (2007) e Madeira 
(2008), contrair o palato mole, abaixando-o ligeiramente.
O músculo levantador do véu palatino (Figura 20) estende-se da base do crânio (parte 
petrosa do osso temporal) diretamente ao palato mole, na superfície superior da 
aponeurose palatina. Sua função é elevar o palato mole durante a emissão de sons orais 
e durante a deglutição e a sucção (MADEIRA, 2008). Também auxilia na elevação da 
faringe e no contato com a parede posterior da faringe, separando, nestas situações,a 
cavidade oral da nasal. (COMITÊ DE MOTRICIDADE OROFACIAL, 2007).
O músculo palatofaríngeo origina-se na aponeurose palatina e insere-se na faringe, para 
tanto passa atrás da tonsila palatina, formando o arco palatofaríngeo para depois inserir-se 
na parede póstero-lateral da faringe. Sua função é aproximar o arco palatofaríngeo de 
ambos os lados e, assim, estreitar o istmo das fauces, sendo um músculo elevador da 
faringe e, segundo o Comitê de MO (2007), também eleva a laringe durante a deglutição 
e a fonação.
O músculo da úvula (Figura 20) sai da espinha nasal posterior para inserir-se na 
mucosa da úvula e, desta forma, encurtá-la ou alargá-la. (COMITÊ DE MOTRICIDADE 
OROFACIAL, 2007; MADEIRA, 2008).
Os músculos supra-hioídeos são compostos por músculos pares que unem o osso 
hioide ao crânio sendo que, com exceção do estilo-hioídeo (que se origina no processo 
estiloide do osso temporal), todos se ligam na mandíbula. São músculos supra-hioídeos: 
digástrico, milo- hióídeo, gênio- hioídeo e estilo- hioídeo. No conjunto são considerados 
como músculos abaixadores e retrusores da mandíbula, antagonistas aos músculos 
da mastigação, mas colaborando nesse processo (MADEIRA, 2008). Auxiliam no 
processo de deglutição e de sucção (nos três a quatro primeiros meses de vida, quando a 
mandíbula faz movimentos associados com a língua, principalmente em sua retrusão).
O músculo digástrico apresenta dois ventres musculares e, por este motivo, tem dois 
locais de origem, unindo-se por um tendão em comum. Seu ventre anterior encontra-se 
no corpo da mandíbula (é inervado pelo trigêmeo) e seu ventre posterior (inervado pelo 
facial) tem origem na incisura mastoídea e desce em direção ao osso hioide, encontrando 
o tendão e unindo-se ao ventre anterior. Sua função é tracionar a mandíbula para 
trás, favorecendo seu abaixamento (com sinergismo do pterigoideo lateral), segundo 
Madeira (2007). De acordo com o Comitê de MO (2007), também auxilia na elevação 
do hioide e o fixa durante a deglutição e a fala.
O músculo estilo-hioídeo origina-se no processo estiloide, desce acompanhando o 
ventre posterior do músculo digástrico, divide-se em dois feixes e insere-se no osso 
29
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
hioide, sendo que, ao ser contraído, leva o respectivo osso para trás e para cima, podendo 
fixá-lo quando atua em conjunto com os músculos infra-hioídeos (MADEIRA, 2007). 
O Comitê de MO (2007) acrescentou que este músculo também alonga o assoalho da 
boca. Este músculo é inervado pelo nervo facial.
Os músculos milo-hioídeo (Figura 22 – inervado pelo trigêmeo) e gênio-hioídeo (Figura 
66 – inervado pelo hipoglosso) já foram descritos anteriormente.
Os músculos infra-hioídeos são constituídos por quatro músculos, cujas denominações, 
segundo, omo-hioídeo, esternotireoideo e tíreo-hioídeo .Têm a função de abaixar 
a laringe, o hioide e o assoalho da boca e fixar o hioide para facilitar o trabalho dos 
músculos supra-hioídeos (MADEIRA, 2008), favorecendo o abaixamento do hioide 
após a deglutição (COMITÊ DE MO, 2007).
Os músculos da fala são os mesmos que executam as funções de mímica facial, 
mastigação e deglutição, sendo esta considerada uma função adaptada do ser humano.
Conclusão
A compreensão das estruturas que envolvem os processos de mastigação e deglutição 
favorece também o entendimento de como o ser humano, utilizando o mesmo arcabouço 
ósseo e de tecidos moles, pode realizar uma das funções que o distingue dos demais 
seres vivos, que é a fala.
Com a necessidade de interagir, o homem adaptou seus órgãos para tão nobre função 
e, de acordo com o Comitê de Motricidade Orofacial (2001), entre os conhecimentos e 
habilidades necessárias para atuação na área, está o conhecimento da anatomia e da 
fisiologia pertinentes às estruturas orofaciais e cervicais.
Síntese dos músculos 
Músculo occiptofrontal
ORIGEM – gálea aponeurótica ou escalpo/ INSERÇÃO – fibras médias do músculo 
orbicular e prócero/ AÇÃO – enruga a fronte, eleva os supercílios
Músculo corrugador do supercílio
ORIGEM – músculo orbicular do olho/ INSERÇÃO – músculo orbicular do olho 
oposto/ AÇÃO – enruga a fronte e auxilia a elevação das pálpebras superiores
30
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Músculo nasal / abaixador do septo ou porção 
transversal nasal
ORIGEM – cartilagem (nariz) incisura da maxila / INSERÇÃO – tegumento da 
ponta do nariz septo nasal /AÇÃO – estreita as narinas e dirige a ponta do nariz 
para baixo e alarga a abertura das narinas
Músculo prócero
ORIGEM – parte inferior do osso nasal e parte superior da cartilagem nasal (mais 
lateralmente) / INSERÇÃO – parte inferior da testa entre os supercílios / AÇÃO – 
traciona a pele do nariz para cima, formando rugas transversais sobre a ponta do 
nariz; ajuda a corrugar o supercílio
Músculo levantador do ângulo da boca
ORIGEM – fossa canina / INSERÇÃO – ângulo da boca / AÇÃO – traciona o ângulo 
da boca para cima (mostra o dente canino)
Músculo risório
ORIGEM – fáscia sobre o masseter, no próprio masseter / INSERÇÃO – pele do 
ângulo da boca / AÇÃO – traciona o ângulo da boca para cima e para fora
Músculo levantador do lábio superior e da asa do 
nariz
ORIGEM – processo frontal maxilar / INSERÇÃO – lábio superior / AÇÃO – eleva e 
realiza protusão com lábio superior e abertura da asa do nariz (mostra a gengiva)
Músculo abaixador do lábio inferior
ORIGEM – linha oblíqua na mandíbula / INSERÇÃO – lábio inferior / AÇÃO – 
traciona lábio inferior para baixo
Músculo platisma
ORIGEM – porção superior do peitoral maior e deltoide INSERÇÃO – borda 
inferior da mandíbula e parte do ângulo inferior / AÇÃO – traciona o lábio e o 
ângulo inferior para baixo e para fora, tensionando a pele sobre o pescoço.
31
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
Músculo orbicular da boca
ORIGEM – numerosas camadas de fibras musculares circundando o orifício da 
boca / INSERÇÃO – maior parte da pele e membrana mucosa externa / AÇÃO – 
fechamento dos lábios, protração para frente (assobiar)
OBS.: Pode se citar que origina e insere nos processos alveolares das maxilas
Músculo bucinador
ORIGEM – superfície externa dos processos alveolares maxila e mandíbula / 
INSERÇÃO – ângulo da boca, fundindo-se com orbicular da boca / AÇÃO – ato 
de pressionar as bochechas firmemente de encontro aos dentes (lateral), ato de 
tracionar para trás o ângulo da boca
Músculo mentual
ORIGEM – fossa incisiva da mandíbula / INSERÇÃO – tegumento do mento / 
AÇÃO – protração do lábio inferior, eleva a pele do mento
Músculo abaixador do ângulo da boca
ORIGEM – mandíbula, abaixo do ângulo da boca / INSERÇÃO – ângulo da boca / 
AÇÃO – ato de tracionar para baixo os ângulos da boca
Músculo orbicular do olho
ORIGEM – parte nasal e osso frontal, processo frontal da maxila / INSERÇÃO – 
fundem–se as estruturas ligamentosas e músculo adjacente / AÇÃO – fechar 
firmemente as pálpebras (parte orbitária) e fechar delicadamente (parte 
palpebral)
Músculo masseter
ORIGEM – arco zigomático parte superficial – 2/3 borda Inferior/anteriormente
parte profunda face medial / INSERÇÃO – face lateral do ângulo da mandíbula /
AÇÃO – eleva a mandíbula
32
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Músculo temporal
ORIGEM – fossa temporal e linha temporal inferior / INSERÇÃO – processo 
coronoide da mandíbula / AÇÃO – eleva a mandíbula
Músculo pterigoídeo medial
ORIGEM – tuberosidade da maxila e processo piramidal do osso palatino / 
INSERÇÃO – face medial do ângulo da mandíbula / AÇÃO – eleva mandíbula, 
protação da mandíbula
Músculo pterigoídeo lateral
ORIGEM – feixe superior da asa maior do esfenoide e crista inferior temporal / 
INSERÇÃO – depressão da parte anterior do côndilo da mandíbula e cápsula e 
disco da articulação temporo mandibular / AÇÃO – protação e desvio lateral da 
mandíbula
Músculo zigomático maior
ORIGEM – zigoma, osso zigomático / INSERÇÃO – ângulo da boca / AÇÃO – eleva 
o ângulo da boca
Músculo zigomático menor
ORIGEM – zigoma (soborbicular do olho) / INSERÇÃO – lábio superior (parte 
lateral) / AÇÃO – eleva lábio superior
Músculo levantador do lábio superior
Levantador do lábio superior e asa do nariz – Levantador do ângulo da boca – 
Risório – Abaixador do ângulo da boca – Abaixador do lábio inferior – Mentual
Músculos digástricos
ORIGEM – ventre posterior da incisura mastóidea temporal; ventre anterior da 
fossa digástrica na mandíbula junto à sínfise / INSERÇÃO – os dois ventres unem-
se no tendão intermédio, que é ligado por alça fibrosa e com o maior do hioide / 
AÇÃO – tração póstero–inferior da mandíbula ao abrir a boca
33
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
Músculo estilo-hioídeo
ORIGEM – processo estiloide / INSERÇÃO – hioide na junção do corpo do como o 
maior / AÇÃO – tração póstero-superior do hioide (resistida pelos infra–hioídeos, 
alongando assoalho)
Músculo esternocleidomastoídeo
ORIGEM – por duas cabeças manúbrio do esterno e porção medial da clavícula / 
INSERÇÃO – processo mastóideo do osso temporal / AÇÃO – ambos os músculos 
agem juntos, para flexionar a coluna cervical, agindo isoladamente, cada um 
deles roda a cabeça para o lado oposto
34
CAPítulo 2
ortodontia e implicações de fala e 
motricidade
A Fonoaudiologia busca o conhecimento científico, a fim de tornar a sua prática 
fundamentada em conteúdos consistentes do ponto de vista anátomo-fisiológico e 
funcional. 
A relação entre a Fonoaudiologia e a Ortodontia tem sido amplamente estudada, e hoje 
não se pode mais desconsiderar a necessidade de interação entre essas duas áreas, para 
a realização de um trabalho eficaz no que tange à oclusão e à motricidade oral, mais 
especificamente. 
Por estarmos imersos em uma área de conhecimento relativamente recente, muitas 
vezes usamos como base de nossa prática clínica dados pesquisados por outras áreas 
sem ao menos tentar traduzi-los, ressignificá-los para nossa realidade profissional. Na 
área de motricidade oral, por exemplo, podemos encontrar um número significativo de 
publicações que se dedicam a discorrer sobre os parâmetros teóricos que a norteiam 
– influência dos hábitos no desenvolvimento facial, no desenvolvimento da fala, na 
oclusão, as funções estomatognáticas, entre outras – mas que em sua maioria advém de 
trabalhos científicos realizados por dentistas, para a obtenção de títulos de especialistas 
em Ortodontia ou Odontopediatria. (GOLDENBERG, 1998).
Carvalho (2003) diz que a integridade funcional e muscular do sistema estomatognático 
irá permitir um desenvolvimento e crescimento correto das estruturas dento-faciais, 
podendo então funcionar em harmonia, produzindo saúde para o indivíduo, em geral, 
já que o sistema estomatognático está relacionado intimamente com outros órgãos e 
outras funções do corpo. 
Segundo Largo (2003), a Ortodontia e a Ortopedia têm objetivo comum que é o 
alinhamento e nivelamento dental, buscando com isso a oclusão cêntrica e a relação 
central coincidentes. 
De acordo com a Teoria Geral dos Sistemas (DOUGLAS, 2002), o trabalho de um 
sistema será mais eficiente quanto menor for o uso de energia gasto para realizá-lo. 
Como o ser vivo é um sistema aberto, busca constantemente manter seu estado com 
trocas de energia, matéria e informação com o ambiente. Quanto menos adaptado mais 
emergia é usada. 
35
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
Largo (2003) ressalta que a ação terapêutica será mais eficiente se possibilitar a 
autorregulação do sistema, isto é, busca do equilíbrio: ser versus ambiente. Para 
alcançar seus objetivos, a Ortodontia e Ortopedia buscam a cura de uma anormalidade 
com a consciência do que se está tratando com os mecanismos corretos disponíveis 
para o tratamento. O foco precisa ser o sistema estomatognático como um todo e não 
somente com a má posição dentária. 
A Ortodontia procura resolver os problemas de forma, posição dentária, óssea e 
muscular, com aparelhagem específica para cada caso, porém o trabalho muitas 
vezes é comprometido por causa de recidivas orais, pois a função não foi totalmente 
restabelecida. (FELÍCIO, 1999; MENDES; COSTA; NEMR, 2005). 
O plano de tratamento adequado necessita de uma visão interdisciplinar. O pensamento 
terapêutico isolado não pode prevalecer no caso de tratamento de alterações que 
envolvam dentes, ossos e músculos. A integridade deve ser atingida. (CAMPOS, 2005). 
Ramirez (1988), afirmou que as alterações verticais estão entre os problemas 
ortodônticos mais comuns. A mordida aberta é uma alteração vertical com diversas 
etiologias, envolvendo: fatores genéticos, epigenéticos, locais e gerais.
O diagnóstico é essencial para determinar o tipo de tratamento. De maneira geral, o 
tratamento e prognóstico dependem do tipo de mordida aberta,do tamanho da alteração 
provocada, da idade e do potencial de crescimento do indivíduo. É indicado o uso de 
aparelhos e exercícios mioterápicos – terapia miofuncional. A estabilidade depende da 
severidade do tratamento. 
oclusão
Há uma colocação comumente aceita em Fisiologia segundo a qual o normal não é o 
único ponto, mas, sim, uma variação. Uma oclusão atraente, equilibrada, estável e sã 
pode ser considerada normal, ainda que existam posições ligeiramente incorretas. 
A classificação mais utilizada para má-oclusão é a que apresentou Edward H. Angle, 
em 1899, que tomou como referência o primeiro molar superior, considerando que 
a posição deste estava invariavelmente correta. Este dente deve ocluir a cúspide 
mésio-vestibular no sulco do primeiro molar inferior. Esta é a chamada - chave de 
oclusão de Angle. 
Apesar de a classificação de Angle ser dentária, é extremamente útil na avaliação clínica 
odontológica, devendo ser complementada com dados esqueletais que podem ser obtidos 
36
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
através de exames específicos, tais como cefalometria, telerradiografia, radiografia 
panorâmica, moldes, fotos, enfim, com a documentação ortodôntica completa. 
Angle sistematizou a má-oclusão em três grupos principais: classes, divisões e 
subdivisões. 
Classe I: quando há uma boa relação de crescimento entre maxila, mandíbula e base 
craniana, ou seja, quando a cúspide mésio-vestibular do 1o molar superior estiver 
articulando com o sulco vestibular do 1o molar inferior. As anomalias encontradas nessa 
classe são referentes à posição, à forma e ao número de dentes. 
Classe II: quando a mandíbula está mais para trás em relação à maxila e à base 
craniana, o 1o molar superior encontra-se em topo com o molar inferior e, muitas vezes, 
uma cúspide à frente do molar inferior, sendo que o ideal é que esteja uma cúspide 
atrás. Essa classe apresenta duas divisões: 
Divisão 1a: além dos molares estarem em classe II, os incisivos superiores estão 
inclinados para vestibular – em direção aos lábios.
Divisão 2a: os molares estão em relação de classe II, os incisivos centrais superiores 
estão inclinados lingualmente e os incisivos laterais superiores encontram-se em 
lábio- versão. 
Nessa classe ainda temos a subdivisão, quando a Classe II ocorre apenas de um dos 
lados da arcada – unilateralmente. 
Classe III: quando a mandíbula encontra-se anteriorizada em relação à maxila e à base 
do crânio, assim, o 1o molar inferior estará mais para adiante que seu correspondente 
superior. 
Complementando a classificação de Angle, existe outra de autoria não definida, 
comumente usada nas clínicas ortodôntica e fonoaudiológicas, que se refere às alterações 
oclusais do segmento anterior, em que descreve algumas variações da mordida em 
oclusões de Classe I, tais como:
 » Mordida aberta anterior: quando em oclusão, há o distanciamento de 
alguns dentes na dimensão vertical. Nessa mordida há o toque dos dentes 
posteriores e um afastamento dos anteriores.
 » Mordida aberta lateral: Como na mordida aberta anterior, há um 
distanciamento dos dentes na dimensão vertical, com um afastamento 
dos dentes laterais.
37
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
 » Mordida cruzada: ao invés dos dentes superioresencobrirem os inferiores, 
estes contêm os superiores. Pode ocorrer em um ou mais dentes, uni ou 
bilateralmente.
 » Mordida topo a topo: os dentes superiores não encobrem os inferiores, 
ficando numa relação de um sobre o outro.
 » Sobremordida ou mordida profunda: há uma diminuição da dimensão 
vertical, sendo que os dentes superiores encobrem os inferiores em mais 
de 1/3. (GOLDENBERG, 1998).
desequilíbrio oclusal
Galvão (1996) apud Goldenberg (1998) afirma que o desequilíbrio oclusal nem 
sempre é o resultado de um determinado fator etiológico. São vários os fatores que 
podem interferir na oclusão normal. Podemos agrupá-los segundo sua origem como 
hereditários, congênitos ou adquiridos. 
Hereditários: caracteres patológicos que são passados dos pais para os filhos. Por 
exemplo, mordidas abertas esqueletais, micro e macrognatia, problemas relativos ao 
número e tamanho dos dentes etc. 
Congênitos: anomalias que se formam desde a fecundação até o nascimento. Por 
exemplo, fissuras lábio-palatais, tumores, paralisia cerebral etc. 
Adquiridos: diversas alterações dentofaciais que surgem pela ação de fatores locais 
ou gerais, após o nascimento. 
Entre os fatores, os adquiridos são os que podem ser detectados clinicamente pelo 
fonoaudiólogo e, devido à sua abrangência, abordaremos dois importantes.
 » Deficiência nutricional: podem ocasionar má-oclusões graves por perdas 
prematuras de dentes, retenção prolongada ou desvios significativos no 
eixo de erupção.
 » Pressões anormais por hábito ou função: o osso é um tecido plástico que 
reage às pressões que agem sobre ele. Normalmente, na posição postural 
de descanso, há um equilíbrio das forças musculares intra e extrabucais, 
que evita o deslocamento anterior dos dentes. 
Um dos fatores mais frequentes no rompimento desse equilíbrio é o bico da mamadeira 
não fisiológico, que obriga a criança a manter a abertura maior de boca, exigindo 
38
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
em demasia o mecanismo do bucinador, podendo causar, futuramente, problemas 
ortodônticos. 
O uso da chupeta até os 3,5 anos de idade não produz, em geral, efeitos danosos à 
oclusão. Para que efeitos prejudiciais venham a produzir-se, com respeito aos hábitos 
em geral e à sucção em particular, é necessária a combinação de três fatores, como 
duração, frequência e intensidade. 
Outros hábitos importantes que podem originar má-oclusões são as pressões com os 
lábios e a língua e a onicofagia. A interposição da língua entre os dentes e o hábito 
de morder os lábios e roer unhas, geralmente, provocam desequilíbrio funcional e 
consequente má-oclusão. 
 » Sucção dos dedos: mais comumente o polegar, vigorosa, repetida e 
constante, associada à contração bucal e labial, parece ser o tipo de hábito 
mais relacionado a má-oclusão.
 » Deglutição atípica: a deglutição normal depende de um mecanismo 
sinérgico que envolve os músculos linguais, os da expressão e os da 
mastigação. Quando essa sinergia é rompida, podem ocorrer várias 
anomalias no processo e teremos a chamada deglutição atípica. Esta 
se caracteriza pela pressão constante da língua, ainda que leve, contra 
os dentes, sendo que essa é variável em relação às áreas das arcadas 
dentárias. 
Embora a pressão da língua se verifique com maior frequência contra os incisivos, 
ela também ocorre lateralmente contra os demais dentes. Tal ação pode, ainda, atuar 
separadamente na arcada superior, na inferior ou em ambas. A deglutição atípica, em 
geral, é precedida de uma mastigação também atípica que, por sua vez, é resultante de 
movimentos anormais de mandíbula e dos músculos que tomam parte da mastigação.
 » Amígdalas hipertróficas: as hipertrofias ocasionadas por inflamações 
podem determinar alterações temporárias no posicionamento lingual, a 
fim de reduzir a sensação dolorosa que advém do próprio quadro. Além 
disso, as amígdalas hipertróficas podem ocasionar desvios nas funções 
de deglutição e respiração. Em qualquer dessas situações, as amígdalas 
hipertróficas podem favorecer uma má-oclusão.
 » Bruxismo: pode ser causado por fatores psicogênicos, neuromusculares 
e/ou ambientais. O excessivo e contínuo ranger dos dentes pode ocasionar 
39
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
desgastes ou mesmo fraturas dentais, o que obviamente pode gerar uma 
má-oclusão. 
 » Hábitos alimentares: a criança encontra-se preparada para a mastigação 
a partir da erupção dos primeiros dentes e, portanto, necessita de uma 
alimentação mais consistente para que possa exercitar seu padrão 
mastigatório, padrão este que interfere diretamente no desenvolvimento 
crânio-facial. Observa-se que uma dieta alimentar líquido-pastosa 
determina um padrão muscular hipotônico, podendo gerar desvios de 
crescimento e/ou oclusais. 
 » Traumatismos e acidentes: os dentes decíduos desvitalizados por choques 
e pancadas podem ter padrões de reabsorção anormais, desviando os 
sucessores permanentes, ocasionando má-oclusões.
 » Perdas prematuras: os dentes decíduos, além da função mastigatória, 
são verdadeiros e naturais mantenedores de espaço. A perda do 1o ou 2o 
molar decíduos, acarreta geralmente o deslocamento para mesial dos 
elementos posteriores à falta, determinando uma má-oclusão. Além 
disso, pode haver uma ocupação desse espaço pela língua, e quando 
a perda se mantém por um período prolongado, pode se instalar uma 
posição viciosa da língua. A perda de dentes permanentes, principalmente 
primeiros molares, provoca graves alterações na oclusão, ainda mais se a 
perda ocorrer antes que a dentição esteja completada. 
 » Cáries: a restauração de dentes cariados se impõe, não só para evitar a 
dor e a infecção, como também para a conservação da integridade dos 
arcos dentários, da oclusão e do padrão mastigatório.
 » Restaurações dentárias inadequadas: os contatos imperfeitos podem 
ocasionar deslizamentos, impactação de alimentos, perdas ósseas, 
contatos prematuros etc. As restaurações bem executadas, devolvendo 
a forma e função do elemento dentário, são considerados excelentes 
procedimentos de Ortodontia Preventiva. 
 » Respiração bucal: é comum a suposição de que a função pode está 
diretamente ligada ao desenvolvimento dentofacial. Todo paciente 
com obstrução nasal crônica pode se tornar um respirador bucal, o que 
normalmente leva a alterações na face, principalmente durante a fase de 
crescimento. 
40
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Hábitos orais e oclusão (goldEnBErg, 1998)
Jamais se poderia abordar o tema hábitos orais nocivos ( perniciosos) ou deletérios 
sem antes diferenciá-los das atividades realizadas pelo sistema estomatognático com 
finalidade fisiológica. Neste sentido toda e qualquer ação que não seja própria ou natural 
de um órgão, sistema ou aparelho constitui-se num hábito parafuncional e, portanto, 
prejudicial ao sistema mastigatório. 
Atuando parafuncionalmente e, portanto, em demasia, a musculatura atinge seu limiar 
de resistência a tais sobrecargas, o que é explicado bioquimicamente por Cohen ( 1978). 
Este pesquisador afirma que maior energia é necessária durante a realização de hábitos 
parafuncionais, em contraste com a mínima quantidade de energia requisitada durante 
as atividades funcionais. Segundo ele, alguns hábitos parafuncionais são caracterizados 
por períodos prolongados de contato dentário, com concomitante exagerada contração 
muscular. 
A etiologia dos hábitos orais é diversificada, podendo estar relacionada, entre outras 
causas, a fatores psicológicos ou à repetição contínua de um ato. 
A interação entre o sistema muscular e os hábitos, produzem consequências diretas 
sobre ossos, dentes e tecidos moles, pois estes envolvem atividades musculares das 
regiões facial (ou da mímica), mandíbula (ou da mastigação) e portal (músculos dos 
tratos respiratórios e alimentar superior), interagindo tanto na inervação sensitiva 
quanto na motora. 
Graber (1974) afirma que não há dúvidas que os hábitos orais estão associados às má-
oclusões, mas, sim, se são fatoresetiológicos ou apenas estão relacionados, sendo a 
etiologia desconhecida; porém é necessária a associação de três fatores que modificam 
o hábito: duração, frequência e intensidade. Menciona ainda que os hábitos não podem 
ser vistos isoladamente, principalmente sem considerarmos os fatores genéticos, e 
que não costumam causar danos definitivos se abandonados até os 3 anos de idade; 
eles normalmente agravam as má-oclusões inerentes aos padrões faciais herdados. 
Ainda no que se refere ao fator etiológico, tanto os hábitos funcionais quanto os 
parafuncionais estão relacionados aos mecanismos psicológicos, o que contribui para 
que possam sofrer alterações, evoluções, transferências e transformações. 
Pizarro; Honorato (1981) consideram que há um equilíbrio entre as forças intra e 
extrabucais em repouso e, quando se instalam os maus-hábitos orais, rompe-se esse 
equilíbrio e se produzem diversos graus de transtornos dentomaxilares. Consideram 
41
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
que o uso de mamadeira com bicos inadequados, o uso prolongado de chupeta e a 
sucção digital podem ser causadores ou agravantes de má-oclusões. Pesquisando 
79 crianças de 5 anos, encontraram 81,1% de portadores de maus- hábitos. Dessas 
observações, concluíram que há uma alta incidência de maus hábitos em pré-escolares 
com predominância no sexo masculino: a associação entre dois ou mais hábitos é o 
habitual; a respiração bucal ( 31,4%) e a deglutição atípica ( 27,3%) são os maus-hábitos 
predominantes; o uso de chupeta, mamadeira, resfriados frequentes e hipertrofia 
das amígdalas são as características mais frequentes; as sequelas mais comumente 
encontradas foram a mordida aberta anterior, a compressão maxilar lateral e palato 
alto; os maus-hábitos de interposição( dedo, por exemplo) apresentaram como sequelas 
diastemas e má-oclusões focais.
Silva Filho et al. (1986 a, b) considera como hábitos bucais deletérios as funções bucais 
que constituem fatores etiológicos em potencial na deteriorização da oclusão e na 
alteração do padrão normal de crescimento facial, como a respiração bucal, as funções 
anormais da língua durante a deglutição, a fonação e postura, os hábitos prolongados 
de sucção de dedo e/ou chupeta, entre outros. Ressaltam, entretanto, que tais hábitos 
até a idade de 3 a 3,5 anos são considerados plenamente normais, fazendo parte do 
desenvolvimento emocional da criança, não trazendo consequências prejudiciais 
permanentes para a oclusão, pois até essa idade há uma forte tendência para a 
autocorreção da má-oclusão, apesar de essa correção espontânea ser dependente de 
vários fatores, tais como a competência da musculatura perioral e o padrão respiratório. 
Moyers (1991) afirma que a sucção do polegar, bem como de outros dedos,a interposição 
de língua, a onicofagia, a mordedura e a sucção dos lábios são as causas mais comuns 
que alteram a oclusão. Entretanto parece importante citar deglutição atípica, respiração 
bucal e hábitos de postura, uma vez que estes constituem frequentes causas de problemas 
ortodônticos. Por outro lado, hábitos como o bruxismo, extremamente envolvido nos 
quadros de disfunção temporomandibular, devem ser conhecidos para que se possa 
interpretar alterações musculares sem causa aparente. 
Lino (1993) afirma que os hábitos são fatores etiológicos das má- oclusões e sugere que 
sejam retirados o mais cedo possível, como manobra ortodôntica preventiva. 
oclusão e respiração
Entre os hábitos deletérios, a respiração bucal foi citada por todos os autores discutidos 
e, por isso, a importância de discuti-la mais especificamente. Guardo (1982) afirma que 
a respiração bucal acarreta má-oclusões, pois, ao ser rompido o equilíbrio fisiológico no 
qual está embasado todo o desenvolvimento dentomaxilofacial, produz-se mudanças 
42
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
anormais nos tecidos, tanto ósseos quanto musculares. Afirma, também, que quanto 
mais precocemente se instale a respiração bucal, maiores serão as alterações bucais, 
uma vez que ossos jovens, não suficientemente mineralizados, são facilmente moldáveis.
Bruer (1989) considera que uma criança que apresenta respiração bucal pode apresentar 
alterações oclusais, mas que estas dependerão sempre da frequência e da intensidade da 
mesma, bem como da disposição genética do paciente para sofrer em maior ou menor 
grau as influências desse tipo anormal de respiração. 
Minervini et al. (1990) afirmam que a respiração bucal pode prejudicar o 
desenvolvimento crânio-facial, contanto que haja predisposição genética. Discorrem 
também sobre muitas outras complicações orgânicas que o respirador bucal pode 
apresentar, tais como dificuldades de aprendizagem, lentidão, sonolência, escolioses, 
hipóxia e descompensações cardíacas, entre outras. 
Articulação e oclusão
Silva (1983), após o estudo das funções estomatognáticas, tece relações detalhadas sobre 
a classificação de Angle e a produção de fonemas. A autora acredita que as má-oclusões 
causam alterações articulatórias, como, por exemplo, a mordida aberta anterior pode 
interferir na articulação dos fonemas (t, d, n, l, r) e a mordida aberta lateral nos fonemas 
sibilantes (s, z, ch, j). 
Douglas (1988) afirma que a má-oclusão é uma causa de alteração na fala, assim, 80% 
dos indivíduos com má-oclusão apresentam. Ele relaciona, ainda, a mordida aberta 
anterior severa e o prognatismo com distorções dos fonemas /f/ e /v/ e a retrusão 
mandibular com distorções dos fonemas /p/, /b/, /m/, /s/ e /z/. 
Guedes (1985) aponta como consequências de uma má-oclusão as deglutições atípicas, 
o que acarretaria a diminuição do tônus e mobilidade muscular, favorecendo as 
imprecisões articulatórias como o sigmatismo frontal ou ceceio (ponta de língua 
contra os incisivos) ou lateral (bordos de língua contra os molares ou pré-molares), 
ocasionando um som “palatizado”, que pode ou não ser acompanhado de escape 
de saliva.
43
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
o que são e como tratar as alterações de fala de 
origem fonética 
Fonte: Dra. Irene Queiroz Marchesan.
Especialista em Motricidade Oral pelo CFFa.
Mestre em Distúrbios da Comunicação pela PUC – SP.
Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Diretora do 
CEFAC – Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica. E-mail: Irene@cefac.br 
A fala é a representação motora da linguagem. Para uma fala normal, precisamos da 
integridade e da integração da cognição, com os sistemas neuromuscular e músculo 
– esqueletal. O estudo da fala, como a articulação dos sons, é realizado pela fonética e 
o estudo da aquisição dos fonemas de uma língua é pertinente à fonologia. A fonética 
estuda os sons como entidades físico-articulatórias isoladas e a fonologia irá estudar os 
sons do ponto de vista funcional como elementos que integram um sistema lingüístico 
determinado. A fonética descreve os sons da linguagem analisando suas particularidades 
articulatórias, acústicas e perceptivas e a fonologia estuda as diferenças fonêmicas 
intencionais, distintivas, ou seja, as que trazem diferença de significado. A unidade da 
fonética é o som da fala, ou o fone, enquanto a unidade da fonologia é o fonema. 
As alterações de fala correspondem às alterações que afetam os padrões de 
pronúncia ou de produção dos sons da língua. Os distúrbios motores da fala podem 
ser definidos como distúrbios de fala resultante de deficits neurológicos, afetando a 
programação motora ou a execução neuromuscular da fala. Estas alterações estão 
ligadas, principalmente, às fases de programação e/ ou execução neuromotora. Neste 
capítulo, estudaremos as alterações de fala de origem fonética. Estas podem ocorrer por 
alterações neuromusculares ou por alterações músculo-esqueletais. As alterações de 
fala de origem neuromuscular englobam as disartrias e as dispraxias. As alterações de 
origem músculo-esqueletais correspondem aos distúrbios causados por problemas nas 
estruturas ósseas, nas cartilagense /ou nos músculos envolvidos na produção da fala. 
Evidentemente que para compreender as alterações da fala temos que estudar a fisiologia 
da produção da mesma, assim como a anatomia das estruturas que a produzem. Não é o 
propósito deste capítulo desenvolver com profundidade esses aspectos, mas queremos, 
aqui, levantar alguns pontos mostrando a importância deste tópico. 
Quando dois ou mais órgãos se combinam de forma a mostrar-se como uma unidade 
funcional, eles são chamados de “sistema”. Por exemplo, temos os sistemas: esqueletal, 
articular, muscular, digestivo, vascular, nervoso e respiratório, entre outros. 
Evidentemente nenhum destes sistemas é independente dos outros. Para o mecanismo 
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UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
da fala usamos mais uns, do que outros desses sistemas, embora todos eles sejam 
necessários para a correta produção da fala. Os sistemas mais utilizados para a produção 
da fala são: esqueletal, muscular, nervoso e respiratório. Quando encontramos alguma 
alteração na fala, evidentemente todos os sistemas devem ser verificados, pois um deles, 
mais provavelmente, é o causador da alteração encontrada. Assim, o clínico deve ter um 
bom protocolo de avaliação, o qual inclua os vários aspectos que poderão interferir na 
produção da fala. 
Para a produção da fala necessitamos de bons mecanismos de respiração, fonação, 
articulação, ressonância, de boa audição e, evidentemente, do feedback auditivo e 
proprioceptivo. Claro fica, que todos estes processos não ocorrem em uma determinada 
ordem, mas tudo acontece simultaneamente, sendo que um aspecto influencia o outro e 
todos são comandados pelo sistema nervoso central. Por exemplo, para a correta produção 
dos sons da fala, precisamos da integridade dos pulmões, da traqueia, da laringe, das 
cavidades nasais e da boca. Qualquer uma das partes não funcionando adequadamente, 
fará com que o produto final não seja de boa qualidade. Isto significa que conhecer os 
vários sistemas e as várias partes que participam da produção da fala é essencial. Assim, 
quando avaliamos qualquer alteração na produção de um som, vamos lembrar de que 
será essencial verificarmos item a item dos participantes da produção deste som para 
sabermos onde está o problema e, consequentemente, do que vamos tratar. Vamos 
ainda nos lembrar de que a qualidade de muitos sons pode ser grandemente modificada, 
por exemplo, pelas mudanças na configuração do trato respiratório, do trato vocal e 
da anatomia da boca e de seus componentes, assim, é muito importante conhecer em 
profundidade todos estes e outros elementos participantes da produção do som para 
identificar e classificar as alterações articulatórias encontradas na fala.
Uma analogia física do mecanismo da fala consistiria de: estoque de energia 
(representado pelo mecanismo de respiração), elementos de vibração, sistema de 
válvulas e dispositivo de filtros. Finalizando, alterações no sistema nervoso trariam como 
consequência problemas na fala de origem neurológica e alterações das estruturas que 
a produzem; levariam a problemas de fala de origem muscular ou esqueletal. Quando 
estas alterações são apenas da produção sem envolver a linguagem, dizemos que são de 
origem fonética de causas neurológicas ou músculo-esqueletais. 
Alterações de fala de origem fonética 
1. Causadas por alterações neurológicas 
Uma alteração de fala, cuja causa é decorrente de alterações do sistema nervoso, pode 
resultar em disartria ou dispraxia. Estas alterações são, em geral, consequências de 
45
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
lesões neurológicas. Apesar de a causa ser a mesma, os sintomas de cada uma destas 
alterações são bem diferentes e já foram bem descritos na literatura. 
disartria
O termo disartria vem do grego dys + arthroun que significa inabilidade para pronunciar 
claramente. A disartria é definida como articulação imperfeita da fala causada por uma 
lesão no sistema nervoso central ou periférico. Normalmente os distúrbios causados 
pela perda do controle muscular dos mecanismos da fala são fraqueza, paralisia do 
aparelho fonador ou incoordenação da musculatura da fala. As características mais 
comuns da disartria são a imprecisão na articulação das consoantes, assim como a 
velocidade lenta da fala. Existem vários tipos de disartrias e elas se diferenciam por 
diferentes características de fala e de voz. As disartrias mais citadas na literatura são: 
flácida, espástica, hipocinética, hipercinética, atáxica e mista. Os principais quadros 
neurológicos onde as disartrias costumam ocorrer são nas alterações: do neurônio 
motor superior – córtex e trato piramidal; extrapiramidais; cerebelares; de danos de 
localização desconhecida e da junção mioneural. 
Para avaliar as alterações que ocorrem nas alterações motoras da fala é fundamental 
que saibamos a etiologia da disartria, já que algumas ocorrem após traumas encefálicos 
e outras são devido a doenças neurológicas degenerativas. Precisamos avaliar aspectos 
como força, amplitude e velocidade de cada um dos movimentos envolvidos na fala. A 
avaliação constará de aspectos objetivos e subjetivos. Deverá ser realizada a avaliação 
dos aspectos vocais e da articulação da fala. 
A terapia será planejada de acordo com a origem da alteração e com os achados 
encontrados na avaliação. Assim, a avaliação e o conhecimento das causas da disartria 
são fundamentais para que se possa obter maior assertividade no tratamento. Terá forte 
influência no trabalho a ser desenvolvido: o estado neurológico, a história de vida, a 
idade, a presença de ajustes automáticos, o tratamento multidisciplinar, a personalidade 
do sujeito e o sistema de apoio, ou seja, a influência da família no tratamento e outras 
atividades que o paciente terá durante o mesmo. 
Outros autores sugerem que a terapia deva estar baseada na fisiologia de funcionamento 
das estruturas envolvidas na alteração, propondo então a análise de cada um dos 
componentes da fala. Considerar os processos básicos da fala – respiração, fonação, 
ressonância, articulação e prosódia – pode ser o ponto de partida para a avaliação e o 
tratamento. 
46
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Evidentemente, o trabalho a ser realizado deverá considerar as particularidades de cada 
paciente, considerando-se sempre a causa e a fisiologia das alterações encontradas. 
dispraxia
A dispraxia, assim como a disartria, também é considerada como uma alteração 
motora da fala, causada por uma lesão cerebral. Os termos dispraxia e apraxia são 
utilizados muitas vezes como sinônimos na literatura, embora o prefixo “dis” signifique 
diminuição e o prefixo “a” signifique ausência. A apraxia ou dispraxia foi caracterizada 
como uma alteração articulatória resultante de um distúrbio na capacidade de 
programar o posicionamento dos músculos da fala e de sequencializar os movimentos 
na produção intencional ou espontânea dos fonemas. Ao contrário da disartria, não 
há fraqueza ou lentidão significantes, ou mesmo incoordenação destes músculos nos 
movimentos reflexos ou automáticos. 
Outras interessantes definições sobre dispraxia podem ser encontradas na literatura 
como as que se seguem. As dispraxias de desenvolvimento são um grupo de alterações 
fonológicas resultante da ruptura dos processos sensório motores centrais que 
interferem com o aprendizado motor da fala. A dispraxia da fala em adultos é um 
distúrbio neurogênico com neuropatologia documentada no hemisfério esquerdo 
incluindo áreas como a de Broca e motora suplementar; primariamente um distúrbio 
articulatório (fonológico) caracterizado por problemas sensório motores para 
posicionar e seqüencializar os músculos para a produção voluntária da fala; associada 
com problemas de prosódia; não sendo causada por fraqueza muscular ou lentidão 
neuromuscular; presumindo-se ser uma alteração da programação da fala. 
Algumas das principais características da dispraxia estão aqui descritas: os erros 
de articulação aumentam proporcionalmente à complexidadedo ajuste motor que 
a articulação exige; a zona de articulação do fonema deve ser considerada já que os 
palatais e dentais são mais suscetíveis a erros do que outros sons; o modo de articulação 
também interfere na produção da fala, sendo que os fricativos são mais difíceis de 
serem articulados do que os plosivos; a repetição de fonemas, de pontos anteriores 
para posteriores, é mais fácil; as consoantes iniciais tendem a serem produzidas mais 
inadequadamente do que quando em outras posições; a repetição se apresenta pior 
do que a fala espontânea; a articulação correta parece ser influenciada pela forma 
de apresentação do estímulo. Conhecer, estas e outras características da dispraxia é 
importante para avaliarmos corretamente o paciente, e definirmos qual será a melhor 
estratégia de terapia para ele. 
47
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
O propósito da avaliação dos problemas motores da fala é: descrever e detectar o 
problema; determinar as possibilidades de diagnóstico; determinar o diagnóstico; 
constatar implicações para a localização do problema e o diagnóstico da doença e 
especificar a severidade. As diretrizes gerais para o exame são: história do paciente; 
características evidentes; sinais confirmatórios e integração dos achados. Para o exame 
motor da fala devemos: obter a história; examinar os mecanismos da fala durante 
atividades que não envolvam fala; avaliar as características perceptuais da fala; avaliar 
a inteligibilidade e obter medidas acústicas e fisiológicas. 
Como considerações gerais para o tratamento da dispraxia podemos elencar os seguintes 
itens: começar a terapia o quanto antes; as sessões devem ser mais frequentes do que 
o usual; considerar se não existem outras alterações associadas; adiar o tratamento 
quando houver afasia associada até que alguma linguagem seja reestabelecida; iniciar 
cada sessão com tarefas fáceis sempre para depois introduzir as mais difíceis; terminar 
a sessão com algo de sucesso; estar consciente que o tratamento é essencialmente 
comportamental; estar consciente de que o tratamento é limitado e os efeitos podem 
ser indiretos e temporários; estar consciente que não adianta usar feedback auditivo 
atrasado; enfatizar a eficiência comunicativa; enfatizar a precisão articulatória e, 
treinar cuidadosamente tarefas de fala como – fala automática antes da espontânea; 
sons mais frequentes na língua; sons em posições iniciais na palavra; sons visíveis; oral 
e nasal antes de surdo e sonoro; surdo e sonoro antes de modo; modo antes de ponto; 
bilabial e linguo-alveolar antes dos outros; usar palavras de alta frequência; palavras 
com significado; palavras monossílabas e dissílabas antes e palavras antes de frases ou 
sentenças.
Como procedimentos de tratamento da dispraxia podemos elencar os seguintes itens: 
indicar psicoterapia e garantir apoio para o cliente e para a família; usar práticas 
consistentes e variáveis; produzir modelos de sons com freqüência para o paciente 
poder imitá-lo; garantir a prática sistemática para a produção dos sons da fala; reduzir 
o ritmo da fala inicialmente; aumentar o ritmo da fala quando a precisão articulatória 
melhorar e estabilizar; usar técnicas que possam promover a prosódia naturalmente; 
trabalhar com a colocação fonética do som e com suas variações; usar uma variedade 
de sons e combinações de sons; praticar produções de sons com material significativo; 
dar instruções e demonstrações de produção de fala; fornecer feedback específico 
imediatamente; usar instrumental para biofeedback ou feedback quando necessário; 
focar as atividades do tratamento em atividades de fala; usar atividades com ênfase 
nos contrastes da fala; usar técnicas com pistas; usar contrastes fonéticos; inicialmente 
usar atividades de fala automática para evocar fala; usar frases simples; usar canto; 
usar exercícios para conseguir o fechamento das pregas vocais e a fonação quando 
necessário; usar laringes artificiais quando necessário; enfatizar a comunicação total, 
48
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
combinando o uso de expressões verbais com gestos, com escrita, com comunicação 
alternativa; ensinar habilidades de auto controle e auto monitoramento; usar técnicas 
de tratamento de alterações articulatórias e de alterações fonológicas. 
Segundo uma pesquisa desenvolvida em um centro americano, a incidência de 
alterações motoras da fala – disartrias e dispraxias, é de 36,5%, as alterações de fala 
por deficiências anatômicas, 9,3% e as alterações cognitivas-linguísticas, 9,2%. Como 
podemos observar as alterações de fala por problemas neuromotores é muito maior do 
que as demais. Em geral, o investimento nos cursos de graduação de Fonoaudiologia 
para ensinar a avaliar e tratar as alterações de fala de origem fonológica, é muito maior 
do que para os de origem fonética. Apontamos ainda que, entre as alterações de fala de 
origem neurológica, a disartria tem 46,3% e a dispraxia apenas 4,6%. 
2. Causadas por alterações nos músculos, cartilagens ou ossos 
Existem influências na produção da fala que não têm como causa os processos 
cognitivo- linguísticos ou as alterações neuromotoras. Em algumas alterações, fica 
muito claro que não há comprometimento do sistema nervoso. Em outras alterações, 
as causas são difíceis de serem detectadas, mas sabemos que não são alterações, nem 
neuromotoras, nem especificamente cognitivo-linguísticas. Estas são as alterações de 
fala cuja origem pode estar nas alterações dos músculos, das cartilagens ou dos ossos 
e são chamadas de alterações de fala de origem músculo- esqueletais. Temos, como 
exemplo clássico destas alterações, a fala dos indivíduos com fissuras de lábio e/ou 
palato. Podemos considerar ainda os laringectomizados, os indivíduos que sofreram 
fraturas nos ossos da face, as variações anormais na forma e no tamanho da cavidade 
oral, as alterações dentárias, as cirurgias que levam a lesões de forma ou do tecido 
e assim por diante. A integridade de músculos, ossos e cartilagens é crucial para se 
obter uma fala normal. Lesões, ferimentos, doenças, alterações congênitas, cirurgias, 
modificações que ocorrem com a idade, poucos cuidados com os dentes, por exemplo, 
são fatores a serem considerados nas alterações de fala. Outras influências físicas, tais 
como variações anormais no tamanho e na forma das estruturas da fala ou o efeito de 
doenças sistêmicas também podem alterar a fala. 
Ao avaliarmos uma alteração de fala, buscando causas de origem músculo-esqueletal, 
nós devemos nos centrar, durante a avaliação, na anatomia e fisiologia das estruturas 
que participam da produção da mesma.
As possíveis causas das alterações de fala de origem muscular podem ser por: paresias, 
fibroses, atrofia muscular, perda da mobilidade, fasciculações, alterações de tamanho 
ou forma. 
49
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
As alterações de fala de origem esqueletal podem ser por: alterações nos ossos ou na 
conformação da face. A ausência de dentes, as próteses, a má-oclusão, por exemplo, 
podem afetar a fala. Os sons mais afetados nas alterações músculo-esqueletais, em 
geral pelas más condições das estruturas orais, principalmente as oclusais, são as 
sibilantes, /s/. 
Comentaremos a seguir as interferências mais frequentes nas alterações de fala de 
origem músculo- esqueletal explicando como estas causas interferem na produção da 
fala. 
tonsilas hipertróficas
Quando há aumento das tonsilas, da faríngea e ou das palatinas, observamos que a 
passagem para o ar fica diminuída ou mesmo totalmente obstruída. Quando isto ocorre 
a boca se entreabre e a língua toma uma posição mais baixa. Como consequência deste 
posicionamento inadequado de lábios e língua, podemos ter: flacidez da língua e dos 
lábios, principalmente do inferior; retração do lábio superior; possível atresia do arco 
maxilar; possíveis alterações oclusais, sendo que as que mais interferem com a fala são 
as mordidas abertas ou cruzadas unilaterais. As funções de mastigar e deglutir tambémpodem, como consequência do aumento das tonsilas, estarem alteradas. É ainda previsto 
acúmulo de saliva na cavidade oral, uma vez que o número de vezes que o paciente passa 
a deglutir se torna menor. Com este quadro de alterações ósseas, dentárias, musculares 
e funcionais, poderemos ter alterações nos fonemas sibilantes que podem estar sendo 
produzidos de forma distorcida, principalmente por causa do posicionamento da 
língua. Além da distorção, pode ocorrer imprecisão, já que a flacidez da língua dificulta 
que os pontos de contato sejam corretos. Em alguns casos, a parte média da língua 
fica elevada facilitando o aparecimento do ceceio lateral. Se ocorrer mordida aberta 
anterior, também poderemos ter o ceceio anterior. Os indivíduos que respiram pela 
boca, não importando a causa, quase sempre terão a língua posicionada no assoalho 
da boca, com possíveis alterações musculares, ósseas e até oclusais, conforme vimos. 
A respiração oral favorece o aparecimento do ceceio anterior ou lateral, e a imprecisão 
articulatória da fala. Isto pode ocorrer pela flacidez dos órgãos fono-articulatórios e 
também pelo acúmulo da saliva na boca. 
dentes
A ausência de elementos dentários, o apinhamento dos mesmos, a inclinação lingualizada 
ou vestibularizada dos incisivos superiores podem levar a uma alteração do espaço 
intraoral, dificultando o posicionamento da língua para articular com precisão os fones. 
50
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
No caso, por exemplo, da inclinação vestibularizada dos incisivos superiores, os fonemas 
línguodentais podem estar sendo produzidos com a língua posicionada anteriormente. 
Por outro lado, quando há a lingualização dos dentes superiores e o espaço interno fica 
diminuído, a língua tende a baixar a sua ponta e elevar seu dorso para se acomodar 
melhor dentro da cavidade oral, fazendo com que os fones sibilantes percam seus pontos 
de contato ficando distorcidos. Quando ocorrem doenças periodontais, já numa fase 
mais adiantada onde as peças dentárias podem ter se movimentado com o consequente 
aparecimento de diastemas, temos a fala com assobio e maior escape de saliva, além da 
anteriorização dos fones línguodentais. 
oclusão e mordida
As mordidas abertas, cruzadas e sobremordidas podem favorecer o aparecimento de 
pontos de contato inadequados na produção dos sons da fala. Nas sobremordidas, é 
comum o aparecimento do assobio nos sibilantes. Isto ocorre pela diminuição do espaço 
vertical interno. Nas mordidas cruzadas, podemos ter o deslizamento da mandíbula 
para lateral o que também favorece a má produção dos sibilantes. As mordidas 
abertas podem favorecer o aparecimento do ceceio anterior, assim como favorecer a 
anteriorização do ponto de articulação dos fones línguodentais. 
Na má- oclusão de Classe II de Angle, pelo fato de haver discrepância póstero-anterior 
da maxila com a mandíbula, observamos que os fonemas bilabiais são produzidos com 
o lábio inferior, em contato com os dentes incisivos superiores, ao invés do contato 
normal que seria lábio inferior em contato com o lábio superior. O ceceio lateral 
também pode ocorrer pelo fato da parte média da língua se manter próxima do palato 
duro, diminuindo o espaço de saída do ar. O deslize mandibular anterior também é 
frequente para ampliar o espaço interno, facilitando o correto posicionamento da língua 
na produção dos sons. Bastante comum ainda é o acúmulo de saliva na cavidade oral, 
favorecendo uma articulação mais fechada, evitando que a saliva seja expelida da boca 
durante a fala. 
Na Classe III de Angle, podemos observar a mudança do ponto articulatório das fricativas 
/f/ e /v/, onde a produção das mesmas fica invertida, ou seja, o lábio superior se articula 
com os dentes inferiores para produzir estes sons. Observamos ainda maior uso do lábio 
superior nos plosivos e maior participação da parte média da língua durante a fala. 
disfunção temporomandibular 
Segundo Bianchini, pacientes com disfunção da articulação temporomandibular 
tenderão a apresentar: redução da amplitude do movimento mandibular; aumento da 
51
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
atividade da musculatura perioral; lateralização da mandíbula no /s/ e /z/; diminuição 
da velocidade da fala e ainda alterações de voz. 
Movimentos mandibulares
Os movimentos mandibulares inadequados durante a fala, como deslizes mandibulares 
frontais ou laterais, assim como a menor abertura de boca ou os movimentos exagerados 
da mandíbula, são encontrados em sujeitos com: respiração oral; Classe II de Angle, 
divisão 1a; excessiva sobressaliência; mordida cruzada lateral ou aberta anterior, 
assim como nas disfunções da articulação temporomandibular. Provavelmente estes 
movimentos inadequados de mandíbula ocorram como forma de compensação para 
encontrar melhor possibilidade de correta articulação dos fonemass a serem produzidos. 
Saliva 
A quantidade e a qualidade da saliva interferem na produção da fala. Quando há excesso 
na produção, esta tenderá a se acumular nas comissuras e será expelida durante a fala. 
Para que isto não aconteça, há instintivamente a diminuição do espaço entre os maxilares 
durante a fala, evitando este escape. No entanto esta manobra de compensação para 
conter a saliva leva a uma imprecisão da fala. Quando existe pouca saliva, a língua 
aumenta seus movimentos na tentativa de buscar mais saliva. Este movimento causa 
um ruído característico, produzido também pelos idosos que tem menos saliva, e que 
acompanha a fala quase o tempo todo interferindo na sua produção. 
Alterações estruturais da face
O crescimento craniofacial se dá durante a infância e a adolescência. Quando ele não 
ocorre de maneira adequada e o crescimento termina com grandes desproporções 
maxilo-mandibulares, sejam elas no sentido horizontal, vertical ou transversal, 
provavelmente haverá maior possibilidade de ocorrerem alterações da articulação dos 
fonemas. As modificações da fala serão totalmente dependentes do tipo de alteração 
estrutural encontrada. Faces mais longas, em oposição às faces curtas, apresentam 
comportamento da musculatura antagônica, assim como os espaços internos são 
distintos. Nas faces longas, observamos maior flacidez da musculatura, propiciando 
abertura da boca mais frequentemente com consequente posicionamento baixo de 
língua. Nas faces curtas, o espaço intraoral é menor, propiciando maiores deslizamentos 
da mandíbula, para anterior ou lateral, com a finalidade de possibilitar a correta 
articulação dos sons sibilantes, por exemplo. 
52
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Vamos encontrar ainda alterações estruturais na face decorrentes de traumas ou 
de cirurgias, como, por exemplo, nos casos de acidentes, queimaduras ou câncer na 
região da face. Estas alterações estruturais são acompanhadas por modificações 
musculares adaptadas à estrutura transformada. Observamos o mesmo fenômeno, nas 
má- formações da face, em síndromes que afetam a face e em fissuras labiopalatinas, 
além de outros. Em cada uma destas alterações poderá haver compensações buscando 
melhores apoios para uma melhor articulação dos sons. As estruturas que produzem 
a fala passam a utilizar os pontos mais favoráveis para a produção dos fonemas. A 
compensação sempre é realizada para que a fala permaneça com suas características, 
o mais próximo possível do que se espera como normal. Portanto, as modificações 
articulatórias serão dependentes, por exemplo, das cirurgias realizadas ou da grandeza 
da má- formação encontrada na face. 
Próteses
As próteses dentárias causam problemas para que se possa articular com perfeição os 
sons da fala quando não são bem construídas e/ou adaptadas. As próteses também 
podem ser confeccionadas para a melhora da fala, como se usa com frequência nos 
indivíduos com fissuras labiopalatinas ou nos indivíduos com doenças neurológicas 
evolutivas as quais podem causar perda da mobilidade do palato mole. Em geral, a 
prótese dentária, quando não está bem adaptada, traz problemas dotipo falar com a 
boca mais fechada para não perder a estabilidade da prótese e isto acaba por causar 
imprecisão articulatória. A diminuição dos movimentos mandibulares também fica 
evidente, assim como aparecem movimentos alterados de mandíbula e de lábios numa 
tentativa de manter a prótese mais firme e de compensar ou melhorar a precisão da fala. 
frênulo lingual
O frênulo lingual, quando alterado, traz várias modificações para os movimentos da 
língua e dos lábios, assim como para a correta e precisa articulação de alguns fonemas. 
Os movimentos da língua ficam reduzidos, a abertura da boca tenderá a ser menor 
durante a fala, o /r/ brando poderá estar distorcido, os grupos consonantais com /l/ e 
com /r/ podem não ser produzidos de forma clara e consistente. O que se observa mais 
comumente é a dificuldade de aquisição de alguns sons principalmente do /r/, e mesmo 
quando adquirido, a fala fica imprecisa como um todo, pelo fato de haver diminuição da 
abertura da boca. Isto ocorre para que a língua possa alcançar o palato para produzir 
todos os sons que necessitam deste ponto de apoio. 
53
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
Piercing
A inserção de objetos de metal na boca, como o piercing, parece ser moda principalmente 
entre os jovens, no entanto esta nova mania pode trazer numerosas complicações orais e 
dentais, mas nem sempre são observadas alterações de fala, mastigação e deglutição em 
quem usa este adorno. Os piercings utilizados na língua são os que mais frequentemente 
podem interferir na articulação da fala. É fundamental que os jovens, assim como seus 
pais, sejam alertados para as possíveis interferências que podem ocorrer pelo uso 
deste adorno. A simples retirada do objeto em geral, já é suficiente para que qualquer 
alteração das funções orais desapareçam. 
Associado com os distúrbios de fala, pode-se encontrar reações ou sentimentos 
negativos, tanto no falante quanto em quem ouve uma fala com distorção. Poderíamos 
citar alguns sentimentos ou algumas reações comuns por parte de quem ouve uma fala 
apresentando inadequações: impaciência, rejeição, gozação, imitação, dificuldade de 
compreensão gerando confusão, embaraços e pena, entre outros. 
Por sua vez, quem fala errado também apresenta sentimentos ou reações que podem 
gerar alterações no convívio social como: ansiedade, autoestima baixa, sentimento de 
exclusão, desconforto, insegurança e frustração.
Crianças que falam com erros tendem a ser mais tímidas e menos falantes do que outras, 
e adultos que cometem erros ao falar se sentem inseguros para buscar empregos ou 
novas posições no emprego já existente. Às vezes, a fala é apontada até como causa de 
dificuldade para novos relacionamentos, principalmente os amorosos. 
Ao conversarmos com adultos que sempre falaram errado e que foram excluídos ou se 
auto excluíram dos grupos a quem pertenciam, podemos ter uma ideia mais precisa do 
que é falar errado, mesmo quando a alteração parece ser pequena para nossos ouvidos. 
Relatos desses pacientes nos mostram a importância da correção o mais precoce 
possível. Dificuldades de encontrar emprego, não por falta de competência, mas acima 
de tudo pela sensação de serem menos, já é um bom ponto de partida para que se preste 
a máxima atenção até nos pequenos desvios encontrados na fala. Muitas vezes, estamos 
acostumados a nos preocupar apenas com as omissões ou substituições, pois estas 
parecem ser mais perceptíveis dos que as distorções e imprecisões articulatórias. Mas, 
são as distorções e as imprecisões que mais interferem no dia a dia do sujeito. Quando 
existe uma omissão ou substituição, em geral, é mais simples a resolução do problema, 
mas quando aparecem sons distorcidos, é um sinal de que o indivíduo percebeu que o 
som não estava sendo produzido adequadamente, tentou uma aproximação do correto, 
num esforço provavelmente grande, no entanto, por mais que tentasse não conseguiu 
atingir a produção correta do som. As imprecisões são piores, pois elas normalmente 
54
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
não atingem um som ou um grupo de sons. Elas prejudicam a fala como um todo. 
Independente da alteração encontrada, a correção deve ser realizada o mais cedo 
possível, para que padrões errados não sejam fixados, dificultando não só a correção e 
a instalação de um novo padrão, mas, acima de tudo, dificultando a automatização da 
maneira correta de falar. 
A terapia de fala, quando as causas da alteração provém de problemas 
músculo-esqueletal, pode não ter o sucesso esperado, pois a cura seria dependente da 
correção da causa, o que nem sempre é possível. Melhoras são sempre esperadas e 
o sucesso da terapia pode ser considerado quando modificações ocorrem e quando o 
sujeito reconhece a melhora, entendendo que está mais apto para enfrentar as situações 
diárias. Muitas vezes este tipo de terapia envolve uma equipe maior além do trabalho 
apenas do fonoaudiólogo. Muitas vezes é necessário que o dentista resolva os problemas 
dentários ou que o médico resolva os problemas respiratórios que estão interferindo na 
articulação dos fonemas. 
Trabalhar com a correção da fala em criança ou adulto é extremamente gratificante, 
uma vez que o paciente, ao melhorar ou eliminar o problema, fica extremamente feliz 
e mais confiante em suas atitudes. A fala é a melhor forma de comunicação, é com a 
fala que construímos ou destruímos relações. O poder da fala é imenso e estar privado 
deste poder é terrível. Nunca devemos considerar como problema menor, as pequenas 
alterações de fala, e nunca devemos considerar como impossíveis de serem resolvidas as 
grandes alterações de fala. Tanto problemas pequenos quanto grandes podem ter para 
o paciente significados totalmente diferentes daquela impressão e daquele julgamento 
que fazemos sobre a alteração que ele tem. Tentar sempre uma modificação do padrão 
encontrado, ter metas no tratamento e considerar toda e qualquer mudança como 
positiva é fundamental para um caminho mais bem estruturado e, certamente, com 
final feliz. 
Alterações da fala de origem músculo-esquelética: 
compreender para melhor tratar (toMÉ, 2014)
As alterações da fala sempre foram reconhecidas como sendo da clínica fonoaudiológica, 
mesmo no princípio da profissão, quando poucos sabiam quem era o fonoaudiólogo e 
para quem era dirigido o seu trabalho. Ao longo dos anos, a ciência produziu construções 
importantes que nos levaram a entender as diferenças entre alterações de fala de 
origem fonológica e de origem fonética. Ainda hoje, entretanto, muitas alterações da 
fala, decorrentes de alterações anatômicas e funcionais da face ou da cavidade oral e de 
suas estruturas, sem alteração do componente fonológico, causam dúvidas quanto ao 
seu tratamento.
55
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
Quando um profissional se depara com alterações de fala, excluídos os fatores fonológicos, 
é preciso verificar se a alteração pode ter alguma relação com características do sistema 
estomatognático. Quadros como hipertrofia de tonsilas palatinas ou faríngeas, alterações 
da oclusão dentária, disfunção temporomandibular, hipofunção muscular de língua ou 
lábios, respiração oral e seus decorrentes, limitação de frênulo lingual, entre outros, 
podem colaborar para a instalação de problemas de fala que ficarão mascarados caso o 
fonoaudiólogo não os considere na avaliação e, consequentemente, no tratamento.
Tomemos como exemplo o caso de uma mordida aberta anterior. O posicionamento 
de língua, nesse caso, é fundamental para o entendimento da etiologia e do tratamento 
dessa alteração oclusal. A própria condição pode favorecer o surgimento de um 
ceceio anterior. Em alguns casos, com a correção do trespasse vertical, há um ajuste 
natural da postura lingual. Em outros, a mordida não fechará facilmente, pois outras 
podem ser as características que colaboram para a manutenção do quadro oclusal. 
Entre as alterações citadas, a de frênulo lingual sempre é um fator importante a ser 
considerado nas alteraçõesde fala. Os estudos recentes da área (MARCHESAN, 2004; 
MARCHESAN, 2010) mostram que não há somente um tipo de frênulo alterado ou 
mais facilmente reconhecido. Ao contrário, os autores apontam a existência de pelo 
menos três variações, além da clássica anquiloglossia, com língua totalmente fixada no 
assoalho da boca. São eles: o anteriorizado (quando na face inferior da língua, a fixação 
estiver acima da metade); o curto (com fixação no meio da face inferior da língua), 
como no frênulo normal, porém de menor tamanho; o curto e anteriorizado (apresenta 
uma combinação das características do frênulo curto e do anteriorizado).
Dados recentes de trabalhos com frênulo lingual em cadáveres e também oriundos de 
estudos clínicos (OLIVEIRA et al. 2010; WITWYTZKYJ et al., 2012) indicam que é 
possível objetivar a alteração do frênulo lingual e, com isso, o que se esperar como 
resultado terapêutico. Além disso, esses trabalham indicam que devemos avançar 
no sentido de identificar quais são as alterações esperadas em cada grau de frênulo 
lingual, em aspectos funcionais e posturais da língua. As alterações de fala, de acordo 
com Wertzner (2004), envolvem dificuldades nas habilidades motoras da produção 
de sons e podem ocorrer devido à imprecisão de zona de articulação, tempo, pressão 
e velocidade da produção, resultando em um som não padrão da fala. A importância 
de reconhecer cada quadro é porque, mesmo no caso de uma limitação no frênulo 
lingual, nem sempre a alteração é assim tão explícita. Por exemplo, o problema pode 
manifestar-se apenas na postura lingual e resultar na dificuldade em finalizar um caso 
ortodôntico. Podendo se manifestar na limitação da elevação da porção lateral da língua 
e a resultante podendo ser uma distorção na produção dos fonemas fricativos S e Z ou 
africados tz e dz. E possível, ainda, que a limitação da elevação de ponta de língua seja o 
principal problema e, nesse caso, poderá ser observado desde a omissão dos fonemas l; 
56
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
r ou lh, a distorção desses fonemas, que serão produzidos em local de medial a posterior 
na cavidade oral, em geral produzidos com o dorso médio da língua contra o palato 
duro. Ainda há a possibilidade de haver apoio de lábio inferior, tornando a produção de 
um /l/ ou /r/ como uma semivogal. Também haverá casos em que, embora a alteração 
do frênulo esteja presente, há uma perfeita compensação, fazendo que somente testes 
mais sensíveis consigam captar e registrar o que, ao ouvido humano, soará como 
normalidade. E, nesse sentido, não há o que ser tratado. A colaboração dessa discussão 
para a clínica fonoaudiológica é a compreensão de que o mais importante é considerar 
e entender essas diferenças. Nesse sentido, a reflexão nos faz pensar que, cada vez mais, 
é necessário que nós, fonoaudiólogos, passemos a considerar, durante a avaliação, 
que há características muito peculiares a cada tipo facial e estruturas que compõem o 
sistema estomatognático. Além disso, é importante que cada vez mais nos apossemos 
e contribuamos com dados e pesquisa para tornar nossa prática mais fidedigna. 
Identificar cada subtipo de alteração de fala, validar as estratégias terapêuticas e seus 
efeitos parece ser o caminho a percorrer. 
Alterações de fala de origem fonética 
(CoStA, 2009)
Estudos indicam que problemas de articulação são as alterações mais frequentes nos 
distúrbios de comunicação em adultos (MARCHESAN 2005 ; OLIVEIRA et al. 2005). 
Porém, a prática clínica mostra que poucos adultos buscam tratamento para fala por 
conta própria e os que o fazem, são encaminhados por outros profissionais da área de 
saúde. (MARCHESAN, 2005). 
Nas alterações fonéticas, o indivíduo percebe o contraste fonológico entre os sons, 
mas não consegue produzi-los de maneira adequada devido a questões de ordem 
fisiológica. Tais erros incluem a distorção do /s/, conhecida como ceceio, assim como 
a distorção do /r/, que ocorrem na fala devido a alterações fisiológicas e funcionais. 
(RUSCELLO, 2003). 
O que se tem observado na prática clínica é que os indivíduos parecem não perceber 
a distorção na fala, o que poderia explicar o reduzido número de adultos que buscam 
terapia fonoaudiológica. Este dado traz a tona alguns questionamentos, tais como: 
Teriam esses indivíduos alguma dificuldade na autopercepção do problema? Até 
que ponto este problema interfere na vida social e profissional destes indivíduos?. 
(ZACKIEWCTZ et al., 1998, OLIVEIRA et al., 2005). 
Para Shriberg (1997) , Kwiatkowski (1982) e Ruscello (2003), transtornos de fala que 
persistem para além do período esperado de aquisição e desenvolvimento desta função 
57
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
são considerados como um subtipo de transtornos de desenvolvimento, identificados 
como “erros fonológicos residuais”. Essa categoria de erros abrange as distorções de 
sons, mais comumente das consoantes líquidas, das fricativas e das africadas. Em 
termos da gravidade e da interferência na inteligibilidade de fala, eles se configuram 
geralmente em pequenos erros, que podem, no entanto, muitas vezes, ocasionar reações 
negativas por parte de falantes normais. (RUSCELLO, 2003). 
Para Van Borsel et al. (2007), na vida adulta, a persistência do ceceio pode causar 
desconforto ou constrangimento. Marchesan (2004) concorda que indivíduos que 
têm problemas de fala, independente da causa que leva a esta alteração, experimenta 
muitas vezes sensações desagradáveis ao tentar se comunicar. O ouvinte pode ser 
impaciente, rejeitar o falante, ter pena, satirizar ou imitar de forma jocosa, além 
de outros comportamentos, o que leva o falante a se sentir ansioso, embaraçado, 
desconfortável, excluído, inseguro, frustrado, ocasionando diminuição da autoestima 
e da autoconfiança. 
Entretanto Van Borsel et al. (2007) relata que existem alguns adultos que não querem 
fazer terapia, como também existem pessoas que são conhecidas na sua vida pública 
por sua alteração de fala, passando desta forma o ceceio a ser sua marca registrada e 
parte da sua imagem. 
Avaliação cefalométrica
A avaliação miofuncional orofacial é um processo imprescindível para que o fonoaudiólogo 
verifique as condições estruturais e funcionais de seu paciente, fato que possibilita o 
planejamento e a intervenção terapêutica adequada. Essa avaliação, tradicionalmente 
realizada de forma qualitativa, vem sendo aprimorada com recursos de áreas tangenciais 
da saúde que permitem complementá-la com dados quantitativos. Os dados quantitativos/ 
objetivos proporcionam ao profissional melhor conhecimento das relações existentes 
entre tecidos duros e moles do crânio, viabilizando a definição de uma conduta precisa a 
partir da reflexão sobre as possibilidades estruturais de cada caso.
Entre os recursos de outras áreas utilizados para avaliações mais objetivas na 
motricidade orofacial destaca-se a cefalometria radiográfica, pela quantidade de 
informações relevantes que fornece. Essa técnica, utilizada na Odontologia desde a 
década de 1930, foi empregada para o estudo do crescimento do complexo craniofacial, 
tornando- se um recurso indispensável para o diagnóstico e planejamento do tratamento 
das deformidades craniofaciais. Tal avaliação vem ganhando espaço na Fonoaudiologia 
nos últimos 20 anos, devido à intima relação entre as porções anatômicas do crânio e 
da face e as funções estomatognáticas.
58
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Os traçados cefalométricos fornecem informa ções sobre o espaço nasofaríngeo, a posição 
do osso hioide, a postura da cabeça, além de dados básicos quanto às medidas lineares e 
angulares do complexo craniofacial. Desse modo, observa-se a relevância deste exame 
como instrumento complementar ao diagnóstico de alterações miofuncionais. Por esse 
motivo, faz-se necessário que o fonoaudiólogo conheça a aplicabilidade da cefalometria 
como uma ferramenta auxiliar no diagnóstico das disfunções orofaciais.
A cefalometria, uma avaliação tradicionalmente utilizadana área odontológica, é uma 
ferramenta que contribui para o diagnóstico fonoaudiológico, bem como para áreas 
afins que têm como objetivo o estudo da constituição crânio-facial. Visto que, dados 
sobre o crescimento do complexo crânio-facial, a inter-relação entre as estruturas, 
bem como sua forma e postura, quando adequadamente analisados, apresentam 
indicativos relevantes para a atuação fonoaudiológica. A cefalometria, por meio do 
conjunto de valores angulares e lineares obtidos, tem o propósito de determinar o 
padrão dento-cranio-facial de um indivíduo, no intuito de evidenciar mudanças 
proporcionadas pelo crescimento ou pelas alterações produzidas por tratamentos 
terapêuticos, empregando padrões de normalidade ou morfológicos, para comparar 
com o estado atual do paciente.
A determinação do tipo facial por meio da cefalometria é a partir do cálculo do 
índice VERT de Ricketts, baseado em cinco grandezas cefalométricas (ângulo do eixo 
facial, profundidade facial, ângulo do plano mandibular, altura facial inferior e arco 
mandibular). Os sujeitos são classificados como dolicofacial (índice VERT menor que 
-0,5), mesofacial (valores entre -0,5 e +0,5) ou braquifacial (VERT maior que 0,5). 
Sugere-se que para a análise facial ser considerada confiável é necessário que os seguintes 
aspectos sejam aferidos na posição frontal e de perfil: rosto, feições, simetria, harmonia 
e proporções faciais; tendência a qual tipo de face; altura e largura facial; terços faciais, 
em especial o inferior; largura bizi gomática; contorno e grau de curvatura do perfil; 
formato do crânio e da cabeça; linha do cabelo; testa; olhos; sobrancelhas; orelhas; 
maxila, forma e altura da mandíbula, largura bigoníaca, contorno do queixo; lábios, 
língua, boca, dentes, linha média, posição do filtro, oclusão e sorriso; bochechas; nariz, 
ângulo nasolabial, base e projeção nasal; linha queixo-pescoço; músculos, expressões 
faciais e marcas de expressão. Nesse tipo de análise, deve-se levar em conta que a 
face é uma particularidade de cada um e não existe uma exatamente igual à outra. A 
análise deve considerar o sexo, os traços familiares, a tipologia facial, a raça e a etnia. 
O fonoaudiólogo é um dos profissionais que realiza a análise facial em seus pacientes 
ao avaliar suas estruturas orofaciais, em que se abordam os aspectos morfológicos, 
posturais e funcionais. Além disso, acredita-se que geralmente faz parte da avaliação 
59
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
fonoaudiológica a definição do tipo de face a partir dos achados clínicos e da correlação 
com as características gerais de cada tipo. 
Quanto às medidas antropométricas orofaciais: altura do lábio superior (do subnasal ao 
estômio); altura do lábio inferior (do estômio ao gnático); altura do filtro (do subnasal 
ao labial superior); altura do terço superior da face (do trichio à glabela); altura do terço 
médio da face (da glabela ao subnasal); altura do terço inferior da face (do subnasal ao 
gnatico); distância entre o canto externo do olho e o cheilion no lado direito ou lado 
direito da face (ex-ch). 
Aspectos acústicos e articulatórios dos sons /s/ 
(CoStA, 2009)
O segmento consonantal /s/ é classificado como fricativa alveolar. Para um segmento ser 
classificado como fricativo, a área de abertura do conduto vocal deve ser suficientemente 
pequena para causar uma fricção audível (LAVER, 1994). Essa fricção, ou turbulência 
das moléculas no fluxo aéreo, pode ocorrer no local da constrição ou pode ser causada 
pelo direcionamento do jato de ar para um obstáculo, como, por exemplo, os dentes 
(STEVENS, 1998). Por este motivo, o critério para classificar um segmento como fricativo 
inclui fatores acústicos/auditivos, aerodinâmicos e articulatórios. Assim, a estrutura 
do conduto vocal é de grande importância na produção desses sons, pois deve haver 
um canal, com uma forma bem precisa, para que a turbulência na corrente aérea seja 
produzida. Santos (1987) mostrou, em seus estudos, que os fonemas fricativos /s,z/ são 
os mais agudos. Para Casaes (1990), nas consoantes fricativas ocorre um estreitamento 
da passagem de ar pela cavidade oral, produzindo um ruído de fricção, sibilo ou chiado, 
sendo por isso os fonemas /s,z/ classificados como fricativos sibilantes. 
Hanson e Barret (1995) afirmam que os fonemas /s/ e /z/ são produzidos elevando-se 
as laterais da língua contra o palato duro, impedindo o escape lateral do ar. 
A pronúncia correta do /s/ pode ser observada em uma faixa de energia de 
aproximadamente 4.000 Hz, podendo chegar a 8000 Hz no português falado no Brasil 
(RUSSO & BEHLAU, 1993). A quantidade de fluxo aéreo que passa através do conduto 
vocal pode influenciar a concentração de energia no espectro da fricativa, o que explica 
que o grau de contração da musculatura contribui para a determinação da intensidade 
vocal (HALEY et al., 2000), sendo as consoantes fricativas as mais fracas e agudas 
do Português, com valores médios que ficam entre 15 e 25 dbNA (RUSSO; BEHLAU, 
1993). A duração do /s/ segundo pesquisas é de cerca de 140 ms em inglês (CHEN; 
STEVENS, 2001) e para Reis (1995) 170 ms em português. 
60
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
Tabain (2001) comparou a produção das fricativas sibilantes /s/ e /z/ com as dos fonemas 
dentais /f/ e /v/ e relatou que as alveolares /s/ e /z/ apresentaram pontos articulatórios 
mais estáveis, não permitindo várias trajetórias para atingir o mesmo objetivo sonoro. 
Esse dado reforça a afirmação da extrema precisão dos eventos ocorridos na cavidade 
oral referentes à produção do /s/ e também destaca o fato de desvios desta consoante 
serem tão frequentes, pois pequenas variações no formato e na localização da língua 
alteram a produção final deste fonema. 
A distorção é um erro de articulação do som onde o som gerado no lugar do som-alvo 
não segue os padrões da língua do falante. 
As distorções na fala seriam, então, segundo Wertzner (2003), Britto Pereira et al. 
(2003) e Leite et al. (2008), classificadas como alterações fonéticas, uma vez que a 
distorção de um som pode ser definida como a substituição de um som padrão por um 
som não padrão, onde o contraste entre o som distorcido e os demais sons da língua 
é mantido, diferente da substituição onde uma classe de sons é substituída por outra. 
Segundo Kocjancic (2004) a distorção está presente nos adultos, porém, por não 
afetar diretamente a compreensão da palavra, ela é aceita no meio social e não causa 
ininteligibilidade da fala. (WERTZNER, 2003). 
Para Casarin et al. (2006) e Marchesan (2004), as possíveis causas de uma distorção 
são as alterações anatômicas da face, da boca e de suas estruturas e o posicionamento 
inadequado dos órgãos fonoarticulatórios, principalmente de língua, lábios e dentes. Os 
indivíduos que distorcem estão buscando ajustes ou compensações para uma fala mais 
inelegível. As distorções ocorrem mais frequentemente nos sibilantes e no /r/ brando. 
distorção do /s/ – ceceio (CoStA, 2009)
Leite et al. (2008) refere-se ao ceceio como a incorreta produção dos fricativos 
linguoalveolares. 
Powers (1971) define o ceceio como a má articulação de uma ou mais consoantes 
sibilantes, sendo a maior ocorrência observada nos fonemas [s] e [z] e o classifica como: 
central, lateral e nasal, levando em consideração a alteração da posição da língua na 
cavidade oral e direção do sopro respiratório. 
Os diferentes tipos de ceceio apresentam características acústicas diferentes e Britto 
Pereira et al. (2003) propõem uma classificação caracterizando as distorções como: 
dental anterior, interdental anterior, lateral e palatal. O ceceio dental anterior 
caracteriza-se quando há elevação da ponta da língua, que toca os dentes incisivos 
61
SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO │ UNIDADE I
anteriores inferiores, sem, contudo haver interposição da língua entre estes. Em alguns 
casos, a língua toca os incisivos superiores, prejudicando a fricção do ar, ficando, desta 
forma, o som distorcido, similar a um foneoclusivo. É comum observarmos hipofunção 
da musculatura labial na emissão do [s] ou até mesmo um movimento de protrusão dos 
mesmos como para compensar a posição inadequada da língua. A função articulatória 
de lábios e língua parece ser enfraquecida. Já o ceceio interdental anterior caracteriza-se 
quando se observa a interposição anterior da língua nos incisivos centrais, fazendo com 
que a fricção ocorra entre os dentes e a língua e não entre o palato e a língua. 
No ceceio lateral, observa-se escape lateral de ar, que provoca a distorção sonora, 
podendo-se, em algumas vezes, observar até interposição lateral da língua na parte 
posterior das arcadas dentárias. 
No ceceio palatal, observa-se uma palatalização do som, decorrente da aproximação 
da parte dorsal da língua em relação ao palato, durante emissão do som, modificando 
a direção do fluxo aéreo. O som distorcido assemelha-se ao [ ch ], apesar do contraste 
entre estes dois sons estar presente. 
Van Borsel et al. (2007) realizaram estudo em que foi pesquisada a prevalência de 
ceceio em jovens adultos. Os participantes foram 748 estudantes, sendo 374 mulheres 
e 374 homens falantes do Holandês. A análise da amostra revelou um índice de 
prevalência de 23%. Significativamente menos participantes da área de Ciências 
Humanas apresentaram ceceio do que os das Ciências Naturais ou Sociais. Houve uma 
pequena, mas não significativa prevalência maior de ceceio em mulheres do que em 
homens, que foi interpretada como se os familiares aceitassem mais estas alterações 
em mulheres. Ficou determinado que esta elevada prevalência do ceceio em adultos 
parecia representar uma tendência recente ou que a permanência do padrão de fala 
com ceceio em adultos parecia estar sendo considerada como normal. 
As razões para esta prevalência elevada não está totalmente clara para o pesquisador 
quanto este padrão é um fenômeno novo. Uma possibilidade é que esta prevalência 
elevada de articulação dental ou interdental realmente seja de origem recente e que 
este achado reflita uma mudança de atitude sobre a articulação em geral e em relação 
ao ceceio em particular. Outra hipótese é que hoje em dia haja uma tolerância maior 
para as imprecisões articulatórias, fazendo parte de um estilo de fala mais casual. Na 
ausência de algum dado sobre prevalência de ceceio em gerações mais velhas para 
comparação, esta hipótese torna-se de difícil verificação. Van Borsel et al. (2007) 
acreditam que esta hipótese está alinhada com os achados de sua pesquisa a qual 
mostrou que 87.4% dos indivíduos diagnosticados com ceceio nunca receberam 
qualquer observação sobre sua fala. 
62
UNIDADE I │ SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO
distorção do /r/
A distorção do /r/ geralmente ocorre devido à não elevação da região anterior da 
língua, o que prejudica a correta articulação do som. Muitas vezes o som resultante 
desta produção é parecido com o som do /g/ (como na palavra gato), devido a uma 
elevação inadequada do dorso da língua. 
No entanto, Vuletic (1987 apud KOCJANCIC, 2004) classifica a distorção do /r/ de duas 
formas, de acordo com o ponto de articulação: distorção anterior e distorção posterior. 
As distorções anteriores são articuladas na frente da cavidade oral na área labial e 
alveolar. Segundo Kocjancic (2004), na Eslovênia, as distorções anteriores são de dois 
tipos: rotacismo bilabial e rotacismo lateral. 
No rotacismo bilabial, o /r/ é produzido pela vibração dos lábios e no rotacismo lateral 
ele é resultante de uma atividade assimétrica da língua. Esses casos são mais difíceis 
de correção, pois são de difícil identificação, sendo frequentemente encontrados nos 
adultos. 
Para Kocjancic (2004), em esloveno, os sons que apresentam distorções anteriores 
são articulados atrás da cavidade oral. Existem três tipos de distorção anterior: dorsal, 
uvular e laríngeo. 
No rotacismo dorsal, o /r/ é produzido com a parte anterior do “velum” vibrando contra 
a língua. 
No rotacismo uvular, o /r/ é articulado na mesma área, com a diferença que a úvula 
vibra contra a parte posterior da língua. 
No rotacismo laríngeo, a produção do /r/ ocorre entre a parte anterior da faringe e a raiz 
da língua, as vibrações são mais lentas que as outras já mencionadas. Além desses tipos 
de rotacismo, existem outros que são descritos, mas não classificados nessas categorias. 
As classificações descritas levam em conta o ponto de articulação e de acordo com 
Kocjancic (2004) o uso da análise acústica é importante para um diagnóstico mais 
eficaz, assim como a percepção e a experiência do terapeuta. 
63
unidAdE iiAVAliAção E 
trAtAMEnto
CAPítulo 1
Avaliação e tratamento dos distúrbios 
de fala de origem fonética
A avaliação clínica em motricidade orofacial (MO) representa fundamental etapa 
no processo de diagnóstico fonoaudiológico nessa área, uma vez que possibilita a 
compreensão das condições anatômicas e funcionais do sistema estomatognático. 
Permite, ainda, estabelecer o raciocínio terapêutico e definir a necessidade de 
encaminhamentos, além de fornecer dados quanto ao prognóstico do caso. 
Visando ao desenvolvimento do raciocínio clínico, assim como à padronização das 
informações contidas em uma avaliação clínica, várias propostas foram publicadas no 
que diz respeito à documentação fotográfica do paciente em motricidade orofacial.
O protocolo de exame clínico compreende observação da postura corporal, análise 
morfoló- gica extra e intraoral, avaliação da mobilidade, tonicidade e sensibilidade 
orofacial, além das funções de respiração, mastigação, deglutição e fala. Os dados 
obtidos durante o exame pretendem, ainda, possibilitar a identificação da origem do 
problema, direcionando o processo terapêutico. 
A história clínica compreende: identificação, queixas, antecedentes familiares e 
intercorrências; desenvolvimento e dificuldades motoras; problemas de saúde e 
respiratórios, sono e tratamentos realizados; aspectos ligados à alimentação desde a 
amamentação até a alimentação atual; bem como sobre a mastigação, a deglutição, os 
hábitos orais e também os aspectos envolvendo a comunicação, fala, audição, voz e 
escolaridade. Abrange também o exame miofuncional orofacial que envolve: postura 
de cabeça e de ombros; medidas da face, movimento mandibular e oclusão; análise 
facial; exame intraoral envolvendo bochechas, língua, palato, tonsilas palatinas, 
dentes e oclusão; mobilidade, tonicidade e dor à palpação, além das funções de 
respiração mastigação, deglutição, fala e voz. Nesse protocolo também está proposta 
64
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
a documentação a ser realizada, envolvendo tanto foto quanto filmagem, para análise 
posterior. Finalmente, tem-se um resumo dos aspectos avaliados e os escores esperados 
e alcançados. 
Avaliando e tratando do sistema 
estomatognático
(Fonte: <http://www.cefac.br/library/artigos/b92233ef3425570e7d8fdce4b52481d9.pdf>)
Irene Queiroz Marchesan 
Ao avaliarmos o Sistema Estomatognático, não podemos nos esquecer que ele é composto 
por partes duras e moles, ou seja, ossos e músculos. Portanto não adianta conhecer 
apenas as partes moles, como lábios, língua e bochechas, tendo como justificativa o 
fato de que somos fonoaudiólogos, assim como não se justifica que o dentista conheça 
somente as partes duras, como ossos e dentes. 
A avaliação deverá ser completa. Não só examinaremos todas as estruturas que compõe 
este sistema, como deveremos, acima de tudo, relacioná-las entre si, já prevendo 
o que será possível ocorrer. Um bom clínico, ao fazer a anamnese, já poderá estar 
examinando seu paciente. Comportamentos, posturas, hábitos e funções podem ser 
observadas durante as perguntas da anamnese, sejam estas feitas para os pais ou para 
o próprio paciente. Para que isto ocorra, é claro que a pessoa a ser examinada deverá 
estar presente durante a anamnese. Os terapeutas podem escolher se querem fazer a 
anamnese diretamente com o paciente, só com os pais ou com os pais e o paciente. 
As três maneirasde colher os dados podem ser adequadas, se bem utilizadas, e todas 
apresentarão aspectos positivos e negativos. Cada terapeuta deverá encontrar para si 
ou para cada caso a melhor maneira de conhecer a problemática dos pacientes que o 
procuram. 
O Sistema Estomatognático, é composto por ossos, dentes, articulação 
temporo-mandibular, músculos, sistema vascular e nervoso e espaços vazios. Sobre os 
ossos estão as partes moles e, portanto, ao examinarmos as partes duras, poderemos 
prever como ocorrem as funções. Qualquer alteração, principalmente sobre os 
dentes, tenderá a levar a um desarranjo de todo o sistema. Entre os principais ossos 
que compõem a face destacam-se a maxila e a mandíbula. Sobre estas bases estão os 
dentes. O ser humano nasce, cresce, desenvolve-se e envelhece. Ocorrerão modificações 
durante toda a vida, assim, não podemos tomar um único parâmetro de normalidade 
65
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
para a avaliação. Devemos ter sempre em mente que nossas estruturas, em um processo 
normal de desenvolvimento, se modificam constantemente. 
Um dos fatores que pode levar a estas modificações é a hereditariedade. Observar 
as características dos familiares pode ser uma forma de obtermos indícios sobre 
possíveis caminhos que o futuro crescimento de nossos pacientes pode tomar. Outro 
fator interferente, e que deverá ser relevado durante o exame, é sabermos de que meio 
socioeconômico eles provêm. Não poderíamos deixar de citar, ainda, que exercerá 
grande influência em nosso trabalho o conhecimento técnico-científico dos profissionais 
envolvidos no caso, como o dentista e o otorrinolaringologista, assim como o interesse 
do paciente e de sua família pelo trabalho. É também de fundamental importância 
que os fonoaudiólogos mantenham-se bem informados e atualizados em relação aos 
problemas com os quais pretendem atuar. 
O paciente e sua família devem estar conscientes da necessidade do trabalho e 
participarem de todo o processo terapêutico, para que seja possível alcançar as 
modificações pretendidas. Nunca é demais lembrar que qualquer modificação virá de 
dentro para fora, ou seja, o profissional pode interferir, determinando o que o paciente 
deve fazer, mas só ele é quem poderá fazer algo por si mesmo. Assim, mesmo com 
ótimos profissionais trabalhando no caso, se não houver uma verdadeira participação 
do paciente e de seus familiares, dificilmente conseguiremos um resultado positivo. 
Faremos, a seguir, um roteiro didático para que possamos nos orientar na anamnese 
e no exame de nossos clientes. Somente a partir da coleta destes dados poderemos 
pensar no planejamento terapêutico. 
Anamnese
O que usar: roteiros prontos, folhas em branco, perguntas semidirigidas? Ou será que 
é melhor deixar os pais falarem sem perguntarmos nada? Temos visto que os jovens 
fonoaudiólogos se perdem inicialmente a respeito do que fazer ao estarem pela primeira 
vez com um paciente. Não é importante que um questionário formal exista. Na verdade, 
tanto faz a forma como iremos abordar a família para descobrir o que queremos saber: se 
vamos dirigi-los ou simplesmente deixar que contem livremente o que entendem como 
importante para aquele momento. O essencial é que saibamos manejar e compreender 
a técnica escolhida para a primeira entrevista. Devemos ressaltar que ambas as formas, 
entrevistar sem roteiros e fazer perguntas pré- estabelecidas, são maneiras interessantes 
e muitas vezes fundamentais. Às vezes, é mais uma questão de rotina ou de como 
aprendemos a colher dados. 
66
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
Devemos, no entanto, ter claro que nenhum modelo será suficientemente bom quando o 
estamos utilizando apenas porque o temos em mãos, sem compreendermos exatamente 
o que o autor daquele tipo de anamnese queria quando a elaborou. Os autores de 
anamneses e exames, quando fazem seus roteiros, têm em sua mente um conceito do 
que é o problema em questão e as possíveis causas que levaram a ele. Assim, irão tentar, 
por meio de perguntas e técnicas de exame, comprovar suas hipóteses chegando às 
causas do problema. Conhecer o que aquele instrumento específico pretende, ou seja, 
o que o autor daquele questionário ou forma de entrevistar ou examinar tinha como 
princípio teórico é o mais importante. Até porque, desta maneira, saberemos se estes 
princípios são os mesmos que queremos adotar, que acreditamos. 
Em relação às perguntas específicas para cada caso, podemos dizer que serão inúteis 
se não estiverem ligadas a um conhecimento que justifique a questão. Exemplo disto 
seria perguntarmos para uma mãe com quantos centímetros e com que peso seu filho 
nasceu e não sabermos os parâmetros de normalidade. Outro bom exemplo seria o de 
uma criança de 6 anos que tem como queixa, simplesmente, a troca do fonema /k/ por 
/t/, e perguntamos se a mãe fez abortos, quantos e em que condição. Estas perguntas 
não são significativas para o caso, com certeza. Tampouco nos levam a um raciocínio 
clínico acerca das possíveis causas da troca do /k/ pelo /t/ que era a queixa inicial. 
Muitas vezes, recorremos a um roteiro pré- determinado em que existem questões as 
quais não sabemos o que querem dizer, qual o parâmetro de normalidade e, até mesmo, 
como utilizar tais dados no futuro. Essas perguntas e respostas acabam se tornando um 
monte de papel arquivado sem significado. 
O primeiro contato com o paciente deve servir, entre uma série de razões, para 
criar vínculos entre terapeuta e família, criar hipóteses diagnósticas, levantar novas 
questões e possíveis encaminhamentos. Como se pode perceber, fazer entrevistas 
e/ ou anamneses não é algo fácil. Fundamentação teórica, raciocínio inferencial e 
alguma perspicácia são elementos necessários para que se obtenha com sucesso aquilo 
que se pretende. Um conhecimento mínimo da patologia é condição básica para nos 
orientarmos na anamnese. Só desta maneira podemos, ao final, interpretar de forma 
adequada o que colhemos. Agindo desta maneira, os próximos encontros passarão a 
ser uma continuidade do primeiro, não havendo a quebra entre a anamnese, o exame 
e a terapia. Devemos evitar que cada bloco se torne estanque e sem vínculo com o 
seguinte. A anamnese, o exame e a terapia devem ter os mesmos princípios e também 
uma continuidade entre eles. 
67
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
Sugestões para a elaboração de um roteiro de 
AnAMnESE 
Primeira parte
Se estamos confusos por onde começar, sugiro iniciarmos pela coleta de dados que irá 
identificar o paciente, perguntando dados como nome, data de nascimento, nome dos 
pais, profissão, endereço, escolaridade etc. Podemos terminar esta parte com a queixa, 
ou seja, com a razão que levou o paciente a nos procurar. Este momento é essencial, 
pois os pais ou o paciente podem falar livremente sobre as razões que os trouxeram até 
nós, quem os encaminhou, quais suas expectativas de tratamento. Eles podem, enfim, 
contar sua história sem que sejam interrompidos. 
Segunda parte 
A partir da primeira coleta de dados, iremos dirigir nossas questões de acordo com a 
queixa apresentada na primeira parte. Temos observado que as questões das anamneses 
são direcionadas basicamente na busca de causas para o problema. 
Estaremos em busca das causas por três diferentes razões. 
 » Para saber se a causa ainda está presente, o que dificultaria a solução do 
caso. Exemplo: mordida aberta anterior com sucção de dedo. 
 » Se a causa for genética, há necessidade de orientação médica, 
principalmente para o caso de novas gestações. Exemplo: síndromes. 
 » Para conhecer as possíveis razões que teriam levado àquele problema, 
embora a causa, propriamente dita, não esteja mais presente. Isto 
nos fornece elementos para o planejamento de futuros programas de 
prevenção e orientação. Exemplo: uso de mamadeira por longo prazo 
com furo aumentado. 
questões específicas em casos de motricidade oral 
desenvolvimento global
Partir da idade atual e retornar ao passado, caso seja necessário.Quando partimos 
do momento atual, é mais fácil para os pais ou para o próprio paciente relatar, com 
precisão, o que queremos saber. Podemos, a partir do relato deles, perguntar se sempre 
foi assim ou se antes existiam estas ou outras dificuldades e em que nível. 
68
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
Saúde anterior e atual
Fazer perguntas principalmente relacionadas a aspectos respiratórios. Caso existam ou 
tenham existido doenças, devemos perguntar como ocorreram, como foram tratadas, 
quais medicamentos foram usados, dificuldades para curar, recidivas, mudanças de 
profissionais etc. Este roteiro já nos dará uma visão das dificuldades que podemos 
encontrar em nosso trabalho. Exemplo: Paciente com 14 anos, respirador bucal 
desde os 4 anos, com inúmeros tratamentos sem sucesso. Queixa: lábios entreabertos 
dificultando o tratamento ortodôntico. 
Alimentação
Perguntar como se comporta, desde a infância, em relação às características dos 
alimentos que come: consistência, variedade, textura e quantidade. Não deixar de 
investigar o que a família pensa sobre este assunto e como ela própria se alimenta, de 
uma maneira geral. Devemos nos lembrar de que muito do que aprendemos em relação 
a alimentos, como causa de problemas ligados à motricidade oral, são mudanças de 
toda uma sociedade em relação aos seus hábitos alimentares. Isto gera conflitos quando 
pretendemos orientar os pais sobre tais aspectos, uma vez que toda a família pode estar 
se alimentando da mesma maneira que a criança em questão. 
Escolaridade
Perguntar sobre as escolas que frequentou. No caso de mudanças, porque elas 
ocorreram. Como tem sido seu aproveitamento. Quais são as exigências por parte 
dos pais. Quais são as disciplinas nas quais a criança tem melhores rendimentos e em 
quais são piores. Obter dados gerais sobre a escolarização podem nos dar dois tipos de 
informação: em primeiro lugar, sobre as capacidades de aprendizagem da criança e, 
em segundo lugar, o nível de interesse, concentração e atenção do futuro paciente. Às 
vezes, temos à nossa frente uma criança extremamente inteligente, mas ligada apenas 
em jogos de vídeogame, entendendo que o resto é perda de tempo. Isto pode significar 
que seu interesse na terapia será baixo, dificultando sobremaneira o andamento do 
tratamento. 
Sono
Perguntas sobre o sono também são importantes em casos de motricidade oral: se 
roncam, babam, levam água para o quarto e bebem durante a noite, se acordam com 
a boca seca e se têm apneia noturna, dados que nos levam a conhecer melhor a parte 
69
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
respiratória. Posições adotadas para dormir também são de fundamental interesse para 
verificarmos possíveis interferências no crescimento ou na má- oclusão. 
questões finais
A pergunta final sempre deverá retornar para a queixa inicial. De modo geral, devemos 
encerrar perguntando se há alguma coisa a mais que o paciente e/ ou os pais gostariam 
de nos informar. Se existem outras colocações que não foram feitas durante a queixa 
inicial e que podem ser feitas neste momento, caso os pais acreditem ter importância 
para o caso. Deixá-los falar livremente neste momento pode nos dar outra visão da 
queixa inicial ou sabermos o que, de fato, eles esperam do tratamento. 
Terminada a anamnese, devemos dar início ao exame. Durante o exame podemos estar 
retomando as questões respondidas na anamnese. Ao examinarmos, podemos observar 
que determinada informação não corresponde ao que estamos vendo e, por isto, devemos 
voltar a fazer perguntas sobre o que não está fazendo sentido. Às vezes, percebemos, 
durante o exame, que faltou perguntar algo essencial. Outras vezes, os próprios pais 
ou o paciente se lembram de alguma informação que lhes parece pertinente frente ao 
que estamos examinando. Esta é a razão pela qual devemos entender que anamnese e 
exame não devem ser separados e devem vir sequencialmente. Mesmo assim, sabemos 
que muitas questões não serão discutidas naquele momento, pois ficam esquecidas 
ou, simplesmente, não há, ainda, um vínculo para que sejam ditas, motivo pelo qual 
sempre aparecem novas informações durante as sessões seguintes, na medida em que 
os pais e/ou o paciente adquirem confiança no terapeuta. Estes processos de colher 
dados e examinar, no sentido de compreender o problema, não se esgotam no primeiro 
encontro. Na verdade, até o último dia estaremos fazendo novas considerações sobre 
o caso. É absolutamente dinâmico e interligado o processo de avaliação e tratamento. 
Avaliação do sistema estomatognático
I. Postura corporal 
A postura corporal é o primeiro item a ser avaliado. Grande parte dos problemas 
encontrados nas funções orais são devido à postura corporal inadequada. Devemos 
examinar o paciente em pé, de frente, de costas e de lado. Nestas posições, observar 
o corpo todo e avaliar posturas inadequadas e assimetrias. Depois, com o paciente 
sentado, devemos observar a cabeça em relação ao tronco. Por último, observar 
as assimetrias faciais. Fotografar o paciente nas diversas posições, principalmente 
se houver alterações será o ideal, pois somente desta maneira poderemos obter, no 
final do tratamento, comparações entre o antes e o depois. As filmagens são amostras 
70
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
dinâmicas do exame, enquanto as fotos são estáticas. Ambas são importantes e devem, 
na medida do possível, ser realizadas. 
II. Partes duras 
Ossos e maxila: lembrar que são duas, portanto, um lado pode estar diferente 
do outro. Alterações de palato duro dificultarão ou modificarão o posicionamento 
da língua e suas funções. O estreitamento da maxila, muitas vezes, é decorrente da 
respiração bucal. Outras causas também devem ser pesquisadas como hereditariedade 
e/ou má- oclusão. É importante saber que expansões realizadas em maxilas atrésicas, 
quando ocorrem após o crescimento crânio facial, são apenas dentárias e não estão de 
fato interferindo com o osso. Um palato atresiado interferirá na respiração pelo nariz, 
pois estará diminuindo o espaço aéreo superior. Todos estes dados são importantes, 
pois nos ajudarão a compor o quadro do paciente, não só na avaliação, mas também, 
principalmente, no prognóstico da terapia. 
Mandíbula: a língua está inserida na mandíbula, portanto, seu formato será 
fortemente influenciado pelo tamanho e profundidade deste osso. Da mesma forma, a 
língua contribuirá fortemente para a sua forma. Uma forte correlação entre estas duas 
estruturas é esperada. Muitas discussões existem sobre quem causou o quê. Não é nosso 
intuito, neste momento, descobrirmos os vilões dos prejuízos encontrados, mas, como 
sabemos destas relações, procuraremos intervir durante o crescimento, para evitar 
maiores danos do que aqueles que já são determinados pela genética. 
Maxila e mandíbula: devemos observar relações de tamanho e de posicionamento 
entre maxila e mandíbula, para compreendermos a força e o funcionamento dos músculos 
que recobrem tais estruturas. Por exemplo, em faces mais longas, a musculatura 
tenderá a ser mais fraca. Em faces em que exista retrognatia, o selamento labial ficará 
dificultado. Em arcos mais estreitos, a língua tenderá a “sobrar” nas laterais. A fala 
também sofrerá grande influência do posicionamento da mandíbula porque, quando 
esta estiver muito retroposta em relação à maxila, tende a haver um deslizamento da 
mandíbula para a frente na produção dos fonemas sibilantes. 
Relações entre maxila, mandíbula e base do crânio: relacionar estes dois 
ossos comparando-os com a base do crânio também é de grande importância para os 
fonoaudiólogos. Observando a relação, podemos, por exemplo, verificar se é a maxila 
que está maior, caracterizando uma relação de Classe II, ou se foi a mandíbula que não 
cresceu suficientemente. Ter este tipo de informação pode ser de grande valia para a 
seleção de exercícios que iremos propor ao paciente. Durante a fase de desenvolvimento, 
sabendo que a mandíbula está com pouco crescimento, podemos ajudar,liberando 
a força do músculo mentalis por meio de exercícios isométricos, além de exercitar a 
71
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
mandíbula com exercícios de anteriorização. Devemos investir ainda mais nos exercícios 
mastigatórios. 
Dentes: ao examinarmos os dentes, devemos nos lembrar de que eles iniciam sua 
erupção em torno dos 6 meses de idade. A dentição descídua completa-se por volta dos 
2 anos e meio,com vinte dentes na boca. Há diastemas naturais entre os dentes,que 
garantirão a correta erupção dos dentes definitivos. Dos 20 dentes, 8 incisivos e 4 
caninos servirão para o corte do alimento e os 8 molares restantes farão o trabalho, 
propriamente dito, de mastigação. A falta de um bom relacionamento entre os dentes, 
cáries, ausência de algum elemento e a presença de extranumerários, são algumas das 
causas que podem alterar as funções de mastigar e/ ou deglutir. Portanto, conhecer a 
estrutura dentária é fundamental para podermos avaliar as funções estomatognáticas e 
compreendermos melhor algumas de suas alterações. Em caso de dúvida, não devemos 
deixar de consultar um dentista para esclarecermos o problema. 
Para a realização de um trabalho ortodôntico, é solicitada, pelo dentista, uma 
documentação ortodôntica. Esta documentação é composta por fotos, modelos e 
radiografias, entre outros. O ortodontista utiliza-a para fazer o planejamento de seu 
trabalho. O fonoaudiólogo, de comum acordo com este profissional, poderá visualizar 
melhor os problemas ósseos e/ou dentários, utilizando a telerradiografia e a radiografia 
panorâmica. Podemos solicitar ao ortodontista que nos auxilie a compreender melhor 
o material. Desta forma, podemos avaliar que possibilidades as partes moles, com as 
quais trabalhamos, têm de se acomodar sobre as partes duras, que as sustentam. 
III. Partes moles
Lábios. Examinaremos primeiramente, cada lábio, isoladamente. Observaremos esses 
lábios em repouso e em função. No repouso, observar: tamanho, posicionamento e 
simetria. Devemos observar e comparar entre si a metade direita e a metade esquerda, 
tanto do lábio superior quanto do lábio inferior. Ao examinarmos o lábio superior, 
devemos imaginá-lo dividido ao meio para verificarmos se um lado é igual ao outro. Em 
geral, o lado mais curto e mais fino é o que trabalha mais. Esta simples observação, que 
um lado do lábio é mais fino do que o outro, assim como todas as outras deste capítulo, 
não podem ser tomadas como regra. Elas irão ajudar o clínico não só a registrar o que 
vê, uma assimetria, por exemplo, mas a tentar compreender qual é o significado da 
alteração encontrada. Temos que lembrarmos sempre de que, ao realizar um exame, 
estaremos tentando compreender o que os dados podem significar. O objetivo é unir 
as informações do exame àquelas colhidas durante a anamnese, para que possamos 
entender a razão de uma determinada função ocorrer desta ou daquela maneira. No 
72
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
exemplo específico do lábio superior, verificamos, por exemplo, que o lado direito 
do lábio é mais fino e de menor tamanho. Em seguida, observamos que a bochecha 
do mesmo lado é mais alta e tem maior consistência ao toque, além de maior força. 
Observamos, ainda, que os dentes do mesmo lado têm melhor oclusão do que do outro 
e, finalmente, lembramos de que, na anamnese, o cliente disse que preferia mastigar 
deste lado. 
Há uma coerência entre os dados do exame e os da anamnese. É o que devemos buscar 
o tempo todo, ou seja, coerência entre aquilo que vemos e aquilo que ouvimos quando 
a história nos foi relatada. Agindo assim, estaremos não só descrevendo, mas também 
compreendendo as causas daquilo que está ocorrendo com o paciente. Mantendo o 
mesmo exemplo, se o paciente durante a anamnese não sabia de que lado mastiga, 
ao encontrarmos os dados anteriormente citados com relação a lábios e bochechas, 
podemos deduzir que ele mastiga do lado direito. Este dado vai nos deixar mais atentos 
durante o exame da função mastigatória. Poder prever como se realiza uma função a 
partir das estruturas envolvidas facilita nosso exame e ajuda a explicar para o paciente 
as razões de possíveis disfunções. 
Outro ponto de controvérsias diz respeito ao tamanho do lábio superior. Em geral, 
afirma-se que o lábio superior é curto quando mais do que um terço dos incisivos 
superiores aparecem. Primeiro, devemos nos perguntar o que é um lábio curto? Afinal, 
qual é o tamanho, em milímetros, de um lábio normal? Fazer estas e outras perguntas 
pode ser o começo de um bom exame. É interessante como a fonoaudiologia não se 
preocupou, durante muito tempo, com possíveis padrões de normalidade. Partimos 
direto para a busca do patológico. Esquecemos, ainda, algo bastante importante: 
o paciente que nos procura no consultório é, ou pelo menos pensamos que seja, 
patológico. Assim, qual é o nosso parâmetro? Aliás, será que existe um parâmetro de 
normalidade para tamanho de lábio ou mesmo para outras formas e funções as quais 
estamos avaliando?
Voltemos, então, ao tamanho do lábio superior. Medir partes moles é bastante difícil, pois 
uma simples contração no momento da mensuração já trará diferenças sensíveis. Usar 
um bom instrumento para tomar as medidas também é importante. Os paquímetros de 
metal, apesar de mais caros, são de melhor qualidade do que os de plástico. Saber usar 
o tipo de instrumento é fundamental. Comparar o tamanho do lábio com o tamanho 
do osso que ele deve cobrir é o nosso objetivo para sabermos se o lábio é curto ou 
não. Na verdade, não há um tamanho normal para o lábio superior. Dizemos que há 
normalidade quando são encontradas proporções adequadas entre partes moles e 
partes duras. Ao tomarmos a medida do lábio superior em milímitros, observamos que, 
muitas vezes, este lábio que nos parece extremamente curto, na medida em que expõe 
73
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
os incisivos superiores é, na verdade, mais longo do que o lábio superior de outras 
pessoas que não ficam com os incisivos expostos. Outro detalhe importante diz respeito 
a verificar com atenção o ângulo naso-labial. Quando ele está muito aberto, em geral a 
ponta do nariz está arrebitada e os dentes ficam mais expostos. Isto pode significar que 
o lábio, por causa do nariz estar arrebitado, está posicionado fora do lugar, nos dando 
a impressão de ser curto. Estes exemplos são amostras de como devemos estar sempre 
atentos e preocupados em fazer considerações e relações entre o que estamos vendo, e 
não apenas anotar, pura e simplesmente, o que foi visto. 
Imagino que você possa, neste exato momento, estar confuso. Afinal devemos ou não 
nos preocupar com dados de normalidade? A fonoaudiologia, ao avaliar problemas de 
motricidade oral, teve, no passado, um único padrão de normal e é desta noção fixa 
de normalidade que devemos nos afastar. Existem vários normais. Normal é o que 
funciona bem, em suas possibilidades. Tudo fica dependente das relações existentes 
entre as partes duras e moles. Regra que deve valer para todas as estruturas avaliadas. 
Língua. Ao avaliarmos esta estrutura, vamos procurar vê-la dentro da boca, e não 
fora. Ao encontrarmos marcas de dentes sobre ela em suas laterais, nem sempre isto 
significa algo importante para o clínico. Por exemplo, podemos, por estresse, estar com 
a língua marcada por apertamento temporário. Por outro lado, estas marcas podem 
existir há muitos anos, e não ter nada a ver com o problema que estamos avaliando. 
No entanto, as marcas podem significar que a língua, realmente, está apertada. Esta 
pressão sobre a língua pode estar ocorrendo porque a boca é pequena para a língua 
, porque a língua é grande para a boca ou, ainda, porque os dentes estão inclinados 
lingualmente, diminuindo o espaço intraoral. Dizer apenas que existem marcas não 
elucida nada. Novamente, os dados só terão valor quando comparados entre si ou 
quando levantarmos hipóteses das possíveis causas daquilo que foi encontrado. 
A presença de sulcos longitudinaisna língua, frequentemente dois ou três, siginifica 
que pode haver uma desproporção entre sua largura e a largura da cavidade oral, o que 
acarreta uma espécie de dobra em sua superfície. Avaliar o tamanho das amígdalas pode 
nos elucidar acerca da razão da protrusão da língua. Grandes amígdalas não permitem 
o posicionamento correto deste órgão, pois isto dificultaria sobremaneira a respiração. 
Ainda, em relação ao posicionamento da língua, devemos verificar a altura da face. 
Indivíduos de face mais longa apresentam maior dificuldade em posicionar e deglutir 
com a língua na papila, principalmente se este quadro vier acompanhado de respiração 
bucal. Temos observado também que pacientes Classe III de Angle posicionam sua língua 
no soalho da boca, uma vez que a mandíbula é maior do que a maxila. A língua de pessoas 
com esta característica tende a estar aumentada no sentido da altura. Os respiradores 
bucais tendem a elevar o dorso da língua mantendo a ponta para baixo. A mesma posição 
74
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
tem sido encontrada, com frequência, nos Classes II de Angle. A força da língua tem 
sido associada ao tipo de alimentação. Comidas mais pastosas exigem menor força de 
mastigação e, consequentemente, menor movimentação da língua. As características 
genéticas, no entanto, determinam fortemente tais padrões de força e de tamanho 
enquanto que as condições ambientais contribuem para melhorar ou piorá-los. 
Bochechas. Devemos avaliar a simetria, a altura e a força de ambas as bochechas, 
lembrando de que elas deverão ser comparadas entre si e não com as bochechas 
de outras pessoas. Não devemos nos esquecer de que as demais estruturas que as 
circundam terão grande influência sobre elas. Uma das funções das bochechas é 
colaborar, durante a mastigação, com a manutenção do alimento sobre os dentes. Em 
uma mastigação unilateral, ocorrerá o fortalecimento da bochecha do mesmo lado. 
Caso a mastigação unilateral já venha ocorrendo há muito tempo, provavelmente 
encontraremos uma hipertrofia da bochecha do lado onde ocorre a mastigação, o que 
resultará numa diferença de tamanho bastante razoável. A bochecha do lado em que 
predomina a mastigação tende a ser mais alta e a distância entre a comissura labial 
e o canto externo do olho deste lado tende a ser menor do que a distância do lado de 
balanceio. Quando estamos falando em mastigação, dizemos que o lado onde a comida 
está sendo triturada chama-se trabalho e, o lado oposto, balanceio.
IV. Funções realizadas pelos órgãos fono- articulatórios
Embora sejam várias as funções que as partes moles e duras dos órgãos fono- articulatórios 
podem realizar, nos limitaremos a abordar a respiração, a mastigação, a deglutição e o ato 
de fala. 
respiração
Os seres humanos nascem respirando pelo nariz e, a não ser que ocorram impedimentos 
mecânicos, assim continuará até a morte. Isto significa que, ao encontrarmos um 
paciente com respiração bucal, devemos buscar compreender o motivo dele não estar 
realizando esta função de forma normal. Devemos nos lembrar de que, a maior parte das 
vezes, a respiração não é puramente bucal, mas, sim, mista, isto é, dá-se pelo nariz e pela 
boca. As causas mais frequentes de uma respiração inadequada referem-se a problemas 
mecânicos. Eles podem estar em nível da nasofaringe, da adenoide, da orofaringe, 
das amígdalas ou do próprio nariz, como um desvio de septo ou, mais comumente, as 
hipertrofias de conchas que impedem ou diminuem a entrada do ar. 
Para conhecermos de forma correta qual a razão da respiração estar ocorrendo por via 
inadequada, uma consulta ao otorrinolaringologista é fundamental, sendo que a mesma 
75
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
deve acontecer antes de iniciarmos nosso tratamento. Caso o médico nos informe que, do 
ponto de vista clínico, não existem problemas, devemos ainda considerar se o paciente 
tem possibilidade de oclusão labial, para que a respiração possa ocorrer pelo nariz. Se 
existir uma tipologia desfavorável ou mesmo uma oclusão que não permita o correto 
selamento, outra indicação, agora para a ortodontia, será necessária antes do nosso 
tratamento. Verificar que nosso paciente não respira pelo nariz é muito fácil. Descobrir 
as possíveis causas, encaminhá-lo corretamente e tratá-lo no momento adequado é 
mais difícil e precisa de um conhecimento maior do que o óbvio comentário de que 
ele não respira pela via correta. Como sempre, precisamos nos preparar para inferir 
causas, estabelecer relações e prioridades de tratamento. 
Mastigação
Para avaliarmos esta função, precisamos, em primeiro lugar, conhecer os dentes e 
como eles se relacionam. A oclusão e a tipologia facial determinam a força e o modo de 
mastigar. Em segundo lugar, vamos pesquisar, com bastante detalhamento, os hábitos 
alimentares, não só do paciente, mas, principalmente, de sua família. Hábito alimentar 
não é só o que se come. É necessário saber o como, o quando, o tempo disponível, 
valores que se dá para a alimentação, dinheiro que se investe nisto etc. Normalmente, 
o problema alimentar não é só do paciente, mas é da família ou do meio no qual aquele 
indivíduo vive. Como prova específica, pode-se utilizar, em todas as avaliações, um 
mesmo alimento para que se possa criar um padrão de exame. O pão francês é uma boa 
opção, pois é fácil de encontrar e, praticamente, todos o comem. 
Filmar o exame também é aconselhável para que seja possível fazer comparação 
posteriores com maior objetividade. Lembrar-se de que os limites de mastigação 
impostos pela oclusão só serão resolvidos após o tratamento da oclusão. Como prova 
específica, podemos sugerir que o paciente coma o pão normalmente, como está 
acostumado. Após duas ou três dentadas, perguntamos onde está mastigando melhor, 
ou seja, qual é o lado de preferência mastigatória e por que prefere este lado. Caso 
o paciente não saiba identificar, devemos sugerir-lhe que coma mais alguns pedaços, 
para observar como ele sente a mastigação acontecendo. Em seguida, devemos pedir 
que mastigue apenas de um lado e observe relatando, em seguida, como foi. Depois, 
repetimos a mesma prova, usando o outro lado da boca. Por fim, sugerimos que volte a 
mastigar como o faz normalmente. 
Após cada prova, devemos pedir ao próprio paciente que descreva como se sentiu, 
se foi fácil e quais foram as dificuldades encontradas. Esta forma de avaliar faz com 
que possamos ter a nossa visão e também a do próprio paciente sobre como está se 
processando sua função mastigatória. Mesmo que o paciente não saiba nada ou só tenha 
76
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
uma visão parcial daquilo que ocorre, isto não é importante. Agindo, assim, podemos 
saber o que o paciente percebe e já o estaremos ajudando a ficar mais atento, deste 
momento para a frente, em relação à sua mastigação. 
Praticamente, iniciamos o processo terapêutico durante a avaliação. Estes procedimentos 
de anamnese, exame e a própria terapia devem ser contínuos e interligados. Não 
podemos ter momentos estanques em que a anamnese segue uma linha, o exame outra, 
e ambos desvinculados da terapia. Com muita frequência, observamos que anamneses 
e exames com riqueza de dados são simplemente arquivados para todo o sempre, sem 
nenhuma ligação ou importância para a terapia. 
deglutição
Esta função dá continuidade ao processo de mastigação e, como tal, não pode e nem 
deve ser avaliada em separado. Ao observarmos a mastigação também observaremos o 
paciente deglutindo, pois esta sequência é natural. Nada mais lógico do que olharmos, 
ao mesmo tempo, as duas funções. Assim, como não vamos pedir para que o paciente 
faça um bolo alimentar e nos mostre antes de deglutir, não pediremos que abra os 
lábios, a fim de olharmos dentro da sua boca enquanto deglute. Estas duas formas de 
avaliar levam a atipias alterando, evidentemente, o processo natural. 
Seria interessante que os terapeutas fizessem as provas neles próprios e em pessoas 
normais, para avaliar a eficácia e osresultados de tais procedimentos, antes de aplicá-los 
ao paciente. Normalmente, vamos mastigando e engulindo. Não fazemos um único 
e grande bolo de tudo o que está sendo mastigado para então deglutir. Quando isto 
ocorre, tendemos a realizar um movimento de cabeça para trás, na tentativa de 
aumentar o espaço orofaríngeo, para que todo o alimento possa passar de uma só vez. 
Isto acaba sendo classificado como “deglutição atípica”, quando, na verdade, foi algo 
que provocamos ao pedirmos uma forma de mastigação que é antinatural. 
Assim como esta atipia, muitas outras são provocadas pelos examinadores. Até o dentista, 
quando pede para que o paciente degluta com os lábios entreabertos, numa posição em 
que o corpo está reclinado, dificultando a deglutição, também causa uma atipia. Sugiro 
ao leitor atento experimentar deglutir nessas circunstâncias, não se esquecendo de 
um babador. Sabemos que os sujeitos Classes II de Angle, com grandes desproporções 
maxilo-mandibulares, deglutem com os lábios separados e, mesmo assim, procuram 
fazer um selamento compensatório, que é o do lábio inferior com os dentes superiores. 
O selamento anterior é necessário para manter uma pressão negativa no interior da 
boca e todas as pessoas procuram obtê-la de alguma maneira. 
Às vezes, vamos ter, de fato, a projeção anterior da língua no momento da deglutição. 
Ao invés de apenas apontar tal fato tentaremos compreender suas razões. Pode haver 
77
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
uma mordida aberta anterior; pode existir amígdalas hipertrofiadas, trazendo a língua 
para frente para criar um espaço posterior de passagem; outras vezes, em função 
da respiração bucal, encontramos a língua posicionada embaixo e com sua força 
diminuída, ou seja, sempre há ou houve, no passado, uma razão para que a deglutição 
não se processasse de forma normal. 
Ninguém deglute errado porque assim o quer. Em geral, deglutimos da maneira que 
nos é possível. O nosso papel é mais do que repetir o diagnóstico pobre de “deglutição 
atípica”. Devemos descobrir qual é a causa da inadequação deste modo de deglutir e, 
mais do que a causa, tentar verificar quais são as possibilidades que o paciente tem de 
deglutir de outra maneira que não aquela por nós encontrada. 
fala
Avaliar a fala, em geral, requer procedimentos mais simples. Podemos verificar como 
o paciente fala e que tipos de troca apresenta, apenas conversando com ele. Em geral, 
os pais sabem quais os fonemas que os filhos omitem ou trocam. Muitas vezes, já na 
ananmnese, podemos ficar conhecendo, com certa margem de segurança, quais são os 
problemas de fala existentes. 
No entanto, para uma avaliação mais precisa é importante não só sabermos quais são 
as trocas ou omissões, mas, mais uma vez, tentar compreender a razão das trocas e 
quais as possibilidades de correção. Com muita frequência, encontramos problemas de 
fala que fazem parte de problemas de linguagem. Infelizmente, muitas vezes, acabamos 
simplificando e realizando análises somente parciais, reduzindo problemas de 
desenvolvimento de linguagem em meras trocas ou omissões de fonemas. As distorções, 
por sua vez, podem estar relacionadas a problemas de forma, ou seja, a características 
anatômicas das estruturas que produzem fala. 
terapia
O grande momento chegou. Muito provavelmente alguns de vocês vieram direto a esta 
parte sem ter lido as demais páginas que antecederam este ponto. É uma pena. Talvez 
seja por isto que a Fonoaudiologia tem caminhado tão lentamente. Buscamos, durante 
muitos anos, soluções prontas e isto não nos leva a raciocinar. Porém, se me enganei, 
e você já leu o restante, já percebeu que não há uma regra única, nem para avaliar e, 
muito menos, para a terapia. Podemos falar, talvez, de princípios terapêuticos e também 
pensarmos no que inviabilizaria a terapia. 
Após a avaliação, isto é, a anamnese e o exame, indicaremos outros profissionais e/ou 
exames, caso sejam necessários, para um melhor diagnóstico. Antes de a família deixar 
78
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
nossa sala, já neste primeiro encontro, devemos dar a ela e ao paciente um prognóstico 
e um tempo aproximado de terapia. Sempre que vamos ao médico procuramos saber 
qual remédio devemos tomar, quais os efeitos colaterais e, o mais importante de tudo, 
em quanto tempo vamos ficar “curados”. A expectativa de nosso paciente não é diferente 
da nossa quando estamos no papel de paciente. Eles também querem saber em quanto 
tempo o problema estará resolvido e se a terapia vai dar resultado. Alguns chegam a nos 
perguntar se não existe nenhum remédio para ajudar na terapia. 
Nem sempre, quando encerramos a consulta, temos respostas precisas para tudo o que 
o paciente gostaria de saber. Desta forma, faremos prognósticos próximos daquilo que 
imaginamos que vá ocorrer. É recomendável propormos reavaliações de dois em dois 
meses, quando o problema parece ser mais simples, e de três em três, ou quatro em 
quatro meses, caso o problema nos pareça mais complicado. Assim, teremos um tempo 
maior de trabalho para que possamos emitir uma opinião mais precisa. Nas reavaliações 
sistemáticas, devemos explicar de forma clara para os pais e para o paciente o problema 
em questão e como o estamos conduzindo. Agindo assim poderemos fazer com que 
todos tenham uma visão do percurso terapêutico em seus detalhes, e não somente 
do início e do fim do trabalho. Em geral, os pais imaginam que o terapeuta consegue 
fazer tudo sozinho. Acredita-se que, como num milagre de transformação, o terapeuta 
toma o paciente e o devolve novinho em folha. Com as reavaliações periódicas, pode-se 
mostrar que as melhoras são progressivas e dependem da participação de todos. 
Nas reavaliações conseguimos averiguar se nossas hipóteses diagnósticas estão corretas 
ou não. Pode ser de grande ajuda as informações pertinentes trazidas pelos pais e 
isto só se torna possível na medida em que eles participam do processo terapêutico. 
Verificamos, ainda, o índice de satisfação ou de insatisfação com o trabalho que vem 
sendo realizado. Desta maneira, dificilmente seremos surpreendidos por atitudes dos 
pais como a de abandonar o tratamento com a desculpa de que o terapeuta chegou 
atrasado para uma sessão. Na verdade, eles utilizam tal pretexto para descarregar toda 
a insatisfação que sentem e terminar com uma situação que para eles, de algum modo, 
não era vista como favorável. 
Especificidades da terapia do sistema 
sensório-motor oral 
respiração
Após o exame otorrinolaringológico, podemos iniciar nosso trabalho. Caso o paciente 
tenha apenas um hábito de respirar inadequadamente, a terapia será mais tranquila do 
79
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
que nos casos com pacientes alérgicos. Mesmo que o paciente tenha um impedimento 
mecânico, como hipertrofia de adenoide, será válido trabalharmos com ele, pois as 
tentativas seguidas de respiração, via nariz, podem ajudar na desobstrução ou mesmo 
no tratamento médico. 
Devemos iniciar o tratamento fazendo comentários sobre a importância da 
respiração nasal e quais são as estruturas que compõem o aparelho respiratório. 
Devemos também explicar quais são suas dificuldades para utilizar esta via e as 
possibilidades de utilizá-la. Precisamos ensiná-lo a limpar o nariz e a fazer com que 
ele aprenda a utilizá-lo, inicialmente em terapia. Não adianta pedir para que faça 
exercícios respiratórios em casa e esperar que isto ocorra normalmente. O paciente 
precisa começar a treinar na terapia e ir relatando as dificuldades que está sentindo. 
O terapeuta deverá, neste instante, estar atento para poder explicar ao paciente 
possíveis dúvidas que possa ter: por que não passa ar pelo nariz, por que as narinas 
ardem na inspiração, por que dá tontura, por que falta ar etc. O terapeuta tem que 
conhecer bem a anatomia e a fisiologia do aparelho respiratório, para poder explicar 
ao paciente todos os sintomas que vão aparecendo durante as sucessivas tentativas 
de aprender a inspirar e expirarpelo nariz. 
No caso de pacientes alérgicos, a terapia pode processar-se da mesma maneira. No 
entanto, os resultados tendem a ser parciais. Devemos informar a família que não 
vamos curar a alergia. Mas, o fato de o paciente usar mais vezes o nariz nos momentos 
que não está em crise, poderá fazer com que as crises até diminuam. Normalmente, o 
paciente alérgico, apesar de estar muitas vezes desobstruído, não percebe isto e, por 
hábito, continua usando a boca para respirar. A terapia é bastante útil, uma vez que 
pode levar o paciente a perceber tais momentos e a usar o nariz mais vezes. 
Mastigação
Pacientes com a oclusão normal
Devemos ensinar, basicamente, uma mastigação com os lábios ocluídos, utilizando 
os dois lados da boca, alternadamente, para a trituração dos alimentos. A quantidade 
de comida colocada na boca também é importante. Muita comida não permite uma 
mastigação eficiente. A velocidade também deve ser controlada. Não devemos trabalhar 
forçando a ingestão de alimentos que o paciente não aprecia. A alimentação deve ser algo 
prazeroso. Não há necessidade de iniciar com alimentos pastosos para depois passar para 
sólidos, a não ser em pacientes pequenos ou com alterações neurológicas. Conversar 
com os pais sobre hábitos alimentares e formas de alimentação é fundamental, uma vez 
80
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
que o paciente está conosco poucas horas por dia. Devemos trabalhar com exercícios 
de força, quando houver necessidade, solicitando que os mesmos sejam realizados uma 
vez por dia, durante alguns minutos. É mais importante a realização diária, com pouco 
tempo de duração, porém sistemática, do que por um tempo prolongado, mas que não 
seja realizada rotineiramente. 
Pacientes com problemas oclusais 
Se existem problemas com a oclusão dentária, o ideal é que o paciente seja primeiro 
tratado com o odontólogo, para depois fazer terapia, caso seja necessário. Se o paciente 
não necessitar de tratamento odontológico, iremos trabalhar da mesma maneira, 
apenas respeitando as possibilidades que ele apresenta para realizar a mastigação. A 
forma de mastigar encontrada pode ser melhorada, mesmo que não fique “perfeita”. 
Trabalhamos explicando o que é uma mastigação ideal e como é que ele, paciente, está 
realizando tal função. Mostramos que, apesar de sua forma oclusal não ser a melhor, é 
a condição que ele efetivamente tem, e que sempre existe algo que pode ser melhorado. 
Ele será o agente de suas mudanças e estará informando ao terapeuta sobre o que 
ocorre, quais as tentativas que faz para mudar e como está percebendo e sentindo as 
mudanças que estão se processando. 
deglutição
Observamos que quando o paciente pode respirar pelo nariz, quando tem uma boa 
oclusão, quando mantém os lábios ocluídos, quando o espaço interno é compatível 
com o tamanho da língua e que, quando ele mastiga adequadamente, também pode 
deglutir corretamente. Os demais pacientes, que não apresentam tais características 
terão que adaptar seu modo de deglutir às condições existentes. O nosso paciente 
mais “típico” é aquele que, apesar das boas condições de forma e de respiração, 
deglute com projeção anterior. Verificar a postura, o tônus, os hábitos alimentares 
e modificá-los, caso seja necessário, é bastante importante para que ele consiga uma 
melhor deglutição. Os exercícios para aumentar a força da língua e para melhorar a 
propriocepção são fundamentais para a obtenção de um melhor posicionamento da 
língua na cavidade oral. 
O trabalho com alterações da motricidade oral é vasto e exige, de maneira geral, que o 
diagnóstico tenha sido bem feito. Quando está claro para ambos, paciente e terapeuta, 
quais são os limites possíveis e a importância do trabalho a ser realizado, o investimento 
de todos é maior e os resultados mais favoráveis. 
81
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
outros comentários
Hanson e Barrett (1995) apud FOLHA (2010) descreveram que o exame detalhado das 
estruturas orofaciais deve preceder o das funções, e a avaliação das estruturas externas 
deve preceder a da cavidade oral. 
 Inicia-se o exame pela avaliação da face, considerando a relação entre as porções 
superior e inferior e entre os tecidos moles e os componentes do esqueleto – padrão 
facial; do nariz quanto a forma, tamanho e simetria; dos lábios quanto a postura de 
repouso, presença de rachadura, ressecamento, cicatriz ou ferimento, a tensão, se há 
reversão/protrusão do lábio inferior e se há prega horizontal abaixo do lábio inferior; 
do vestíbulo oral analisa-se os frênulos labiais e as condições da gengiva; dos 
dentes observa-se o estado de conservação, a presença de diastemas, falhas dentárias, 
dentes supranumerários, assimetrias entre os dois lados dos arcos dentários, além de 
mensurar o trespasse vertical e horizontal e realizar a classificação de Angle; do palato 
duro analisa-se a largura, a altura e a conformação e se há fissura, verifica-se o tamanho 
das tonsilas palatinas; do palato mole verifica-se a mobilidade, o comprimento e a 
coloração para identificar a presença de fissura submucosa; da úvula considera-se as 
variações da forma e tamanho ou sua inexistência; e da língua avalia-se o tamanho, a 
forma, a presença de sulcos ou traços geográficos e a posição no repouso. 
Hanson e Barrett (1995) destacaram, ainda, que o miologista orofacial trata quatro 
funções envolvidas com estas estruturas e, para tanto, devemos saber avaliá-las. Trata-se da 
postura de repouso das estruturas anteriormente citadas; da respiração, se esta ocorre 
pelo nariz ou pela boca e se há ruídos; da mastigação; da deglutição, avaliada com 
sólidos e líquidos; e da fala espontânea ou contagem até 20, observando-se a presença 
de sigmatismo ou dentalização dos sons liguo-alveolares.
 Os autores preconizaram que, em relação à deglutição, o terapeuta deve definir o tipo 
encontrado, e, de alguma forma, determinar a gravidade e o grau de constância do 
padrão anormal. Sugeriram a utilização de uma escala, atribuindo-se para a deglutição 
normal o grau 0; quando houver contato linguodental significativo, mas com a 
superfície lingual dos dentes anteriores e laterais, o grau 1, indicando deglutição atípica 
moderada; e se a língua se projeta anteriormente além dos dentes, atribui-se o grau 2, 
ou seja, grave. 
Bianchini (2000) apud FOLHA (2010) destacou que numa avaliação fonoaudiológica 
completa não basta constatar a presença de distúrbios miofuncionais. É necessário estar 
atento a todas as possíveis relações desencadeantes do problema funcional observado. 
Além disso, analisar os possíveis efeitos das atividades miofuncionais em relação à 
patologia que o indivíduo apresenta e a possibilidade de ajuda do fonoaudiólogo, no 
82
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
sentido de amenizar os fatores funcionais agravantes e auxiliar na remissão do problema. 
A avaliação consiste de uma anamnese que é o primeiro contato com o paciente, sendo 
nela investigados os dados da história clínica do indivíduo e feita a verificação das 
funções estomatognáticas, como postura habitual, respiração, deglutição de saliva, 
articulação da fala, voz e coordenação entre as funções, assim como a presença de 
alguns hábitos parafuncionais. O exame clínico envolve a análise funcional de situações 
espontâneas, como postura corporal, análise facial quanto à simetria, tensão, repouso 
dos lábios e língua, respiração, deglutição e fala, presença de hábitos como morder 
lábios, umedecer lábios, apertamento dentário, entre outros. Também verificam-se as 
características craniofaciais, como face, se curta, média ou longa, perfil, se reto, convavo 
ou convexo, além da intensidade do desvio das alterações neuromusculares associadas. 
É verificado as estruturas e a musculatura de lábios, bochechas, mento mole, língua e 
assoalho bucal, assim como palato duro e mole, tonsilas palatinas, gengiva e mucosa 
jugal, mobilidade dos lábios e língua; e avaliação das funções de respiração, mastigação, 
deglutição e fala. Com osdados da avaliação em mãos, a terapia fonoaudiológica poderá 
ser indicada, podendo ser associada a outras terapêuticas como a ortodôntica e a 
otorrinolaringológica. Qual terapia deverá vir primeiro dependerá se as características 
observadas são alterações neuromusculares ou situações adaptativas secundárias à 
forma. 
Bianchini (2001) apud FOLHA (2010) analisou alguns pontos da avaliação 
fonoaudiológica, buscando estabelecer as relações entre forma/função pertinentes 
a cada caso. O primeiro passo foi a anamnese, podendo durante a realização desta, 
serem observados aspectos como postura habitual, respiração, deglutição de saliva, 
articulação da fala, voz e coordenação entre as funções, assim como a presença de 
alguns hábitos parafuncionais. A avaliação em si constou da análise de dados de áreas 
afins como da Odontologia e Otorrinolaringologia, sendo os mesmos analisados com 
tais profissionais. Os dados de observação foram: postura corporal, análise facial 
quanto a simetria, tensão, repouso de lábios e língua, respiração, deglutição e fala, 
presença de hábitos como morder lábios, umedecer lábios, apertamento dental, entre 
outros. As características craniofaciais avaliadas foram as proporções verticais da face, 
o perfil facial e a intensidade do desvio, relativo à severidade das desproporções maxilo 
mandibulares. Houve também verificação das estruturas e musculatura, envolvendo 
avaliação de lábios, bochechas, mento mole, língua, assoalho bucal, palato duro e 
mole, tonsilas palatinas, gengivas e mucosas jugais que devem ser analisadas quanto 
à postura, forma, simetria, tônus, tensão, sinais em mucosa, presença de nódulos e 
resistência; além desses, a palpação, a presença de dor e a contração dos músculos 
temporais e masseteres foram avaliadas. A avaliação de mobilidade dos lábios e da 
língua foi realizada, assim como das funções de respiração, mastigação, deglutição e 
83
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
fala. A autora conclui que a avaliação detalhada e multidisciplinar de cada paciente se faz 
necessária para assim se definir o diagnóstico e as interferências determinantes. Após 
isso, deve se estabelecer a hierarquia dos trabalhos ou trabalhos em conjunto. A autora 
destacou também a eficácia da terapia miofuncional quando devidamente direcionada 
aos distúrbios miofuncionais orofaciais, adequando às funções estomatognáticas, 
restabelecendo o padrão muscular e, consequentemente, modificando a forma se não 
houver impedimentos, podendo o trabalho fonoaudiológico ser realizado antes ou após 
o tratamento do paciente por outros profissionais, dependendo do caso. 
Protocolos
Protocolo MBgr
Ele é extenso, porém de fácil aplicação e mantém o mesmo padrão dos protocolos de 
motricidade orofacial geral, existentes até o momento. Por ser um protocolo da MO 
de caráter mais global, quando for necessário, devem ser utilizados outros protocolos 
mais específicos para problemas pontuais, como é o caso das disfunções da articulação 
temporomandibular, paralisia facial, problemas de fala de origem neurológica, fissura 
labiopalatina e disfunção velofaríngea, entre outros.
Os autores do protocolo MBGR sugerem a realização de medidas para análise facial 
e frênulo lingual, bem como da oclusão (estática e dinâmica) e dos movimentos 
mandibulares. O protocolo MBGR contém ainda questões que demandam do avaliador 
análises subjetivas baseadas no seu conhecimento. A investigação criteriosa dos 
aspectos anatômicos se faz necessária, uma vez que os problemas encontrados podem 
estar diretamente relacionados às alterações funcionais apresentados pelo paciente, ou, 
ainda, limitar o sucesso do tratamento. 
84
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Protocolo AMiofE
O protocolo MBGR de Genaro et al. (2009) contém escalas numéricas mais amplas, 
permitindo identificar a normalidade, os desvios e distúrbios, no entanto o protocolo 
não foi validado até o momento. 
Felício e Ferreira (2008) desenvolveram e validaram um protocolo com escalas 
numéricas (Protocolo de Avaliação Miofuncional Orofacial com Escores – AMIOFE), 
para ser utilizado por fonoaudiólogos de forma que a percepção do examinador a 
respeito das características e dos comportamentos orofaciais observados possa ser 
expressa por escalas numéricas, permitindo a mensuração da impressão do clínico, 
sem a necessidade de utilização de materiais especiais. Contudo, apesar de sua 
reconhecida importância, a avaliação perceptiva apresenta certas limitações, devido à 
sua subjetividade (TRINDADE et al., 2005), e a maior precisão nos resultados pode ser 
obtida com escalas numéricas de avaliação maiores. (KAHRAMAN; KAMATA, 2004). 
99
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
Para a análise do AMIOFE ,os seguintes critérios foram adotados (FELÍCIO, 2009) 
apud FOLHA (2010). 
Aspecto e postura de lábios, mandíbula, bochechas, simetria facial, posição da língua e 
aparência do palato duro: uma escala de 3 pontos é usada, sendo o escore 3 adotado para 
normalidade, 2 para alteração leve e 1 para alteração severa. Para os lábios, considera-se escore 
2 quando estiverem no repouso selados com tensão ou entreabertos, 1 se estiverem 
totalmente abertos. Para a mandíbula, o escore 2 é atribuído se os dentes estiverem em 
oclusão ou se a mandíbula estiver levemente abaixada, porém com um espaço entre 
os dentes mandibulares e maxilares maior que o espaço funcional livre (maior que 4 
milímetros), e o escore 1 se a mandíbula estiver totalmente abaixada. Para as bochechas, 
o escore 2 é atribuído se encontrada assimetria leve entre as bochechas, ou o escore 1 
se a assimetria for severa, ou se estas se apresentarem flácidas e/ou arqueadas. Para a 
simetria facial, o escore 2 é atribuído para assimetria leve e, o escore 1 para assimetria 
facial severa. A posição da língua alterada no repouso recebeu o escore 2 se estiver 
interposta aos arcos dentários por adaptação ou disfunção, ou o escore 1 se estiver 
interposta em excesso, ou seja, ultrapassando as faces incisais dos dentes incisivos e/ou 
as cúspides vestibulares dos dentes posteriores. O palato duro alterado poderá receber 
o escore 2 se apresentar largura diminuída em grau leve, ou escore 1 se a largura estiver 
diminuída em grau severo. 
Para a mobilidade de lábios, língua, mandíbula e bochechas, atribuem-se os escores 
numa escala de 3 pontos: 3 = normalidade, 2 = habilidade insuficiente e 1 = ausência 
de habilidade ou não realização da tarefa. São considerados normais: movimentos 
isolados de cada componente, precisos e sem tremor. No caso dos lábios, é atribuído o 
escore 2 quando há habilidade insuficiente ou tremor, o escore 1 é atribuído se houver 
falta de habilidade ou quando o movimento não é realizado. Para a língua, o escore 2 é 
atribuído se houver habilidade insuficiente ou tremor, o escore 1 é atribuído se houver 
falta de habilidade ou quando o movimento não é realizado. Para a mandíbula, o escore 
2 é atribuído se houver habilidade insuficiente ou desvios, o escore 1 é atribuído se não 
houver habilidade ou não houver a realização do movimento. 
Para a respiração, uma escala de 3 pontos é administrada, sendo o escore 3 atribuído 
para respiração nasal, ou seja, se os lábios permanerem em oclusão sem esforço, 
principalmente durante as situações de repouso, mantendo o espaço funcional livre e 
durante a mastigação. Ainda, se no repouso a mandíbula estiver abaixada, mas osujeito 
mantiver a língua interposta entre as arcadas dentárias de modo que bloqueia totalmente 
a passagem de ar pela boca; o escore 2 é atribuído se durante a respiração o sujeito 
apresentar a inspiração do ar simultaneamente pelas cavidades oral e nasal, mesmo 
se ele conseguir fazer a inspiração apenas nasal, sem demonstrar sinais de cansaço 
100
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
e falta de ar; o escore 1 se ao tentar a inspiração apenas nasal o sujeito, em poucos 
minutos, demonstrar a cansaço, falta de ar e abrir a boca para respirar, observado tanto 
em repouso como na prova de mastigação. A função de respiração pôde ser avaliada 
durante toda a sessão de avaliação, registrada em vídeo, apenas a partir da postura e 
aparência dos órgãos do sistema estomatognático, não sendo possível qualquer outra 
análise. 
Na prova de deglutição, é solicitado ao sujeito que leve à boca o copo d’água e depois 
de dar um gole, abaixe o copo, para que a toda a face possa ser visualizada, e engula de 
modo habitual. São realizadas pelo menos duas repetições. Posteriormente, é explicado 
ao sujeito que ele deverá proceder como na prova anterior, mas que o examinador 
colocará o dedo indicador sob seu queixo e o polegar abaixo do seu lábio inferior 
(região do músculo mentual) e que seus lábios serão afastados imediatamente após 
a deglutição. Assim, o examinador separará os lábios para permitir a visualização dos 
dentes e da língua em caso de interposição da língua. 
Para a deglutição, para os lábios uma escala de 4 pontos é adotada, atribuindo-se escore 
4 quando os lábios vedarem a cavidade oral, mas apresentarem contração além do 
normal; é atribuído o escore 3 para contração leve e o escore 2 para contração severa; 
o escore 1 foi atribuído quando os lábios não vedarem a cavidade oral. Para a língua, é 
considerado padrão normal e atribuído o escore 4, quando o sujeito apresentar a língua 
contida na cavidade oral e o vedamento anterior da cavidade oral sem esforço; se ocorrer 
alguma alteração da deglutição, adaptação ou atipia é registrado em quais músculos e/
ou ações, assim, o escore 2 é atribuído se a houver interposição leve da língua entre os 
arcos dentários por adaptação ou disfunção; e o escore 1 é atribuído se a língua apresentar 
interposição aos arcos dentários em excesso, ou seja, se estiver ultrapassando a face 
incisal dos dentes incisivos e/ou as cúspides vestibulares dos dentes posteriores. Para 
outros sinais de alteração como movimentação da cabeça, tensão dos músculos faciais 
e escape do alimento, quando presentes, é atribuído, individualmente, o escore 1, ou, 
se ausentes, o escore 2. Além disso, a eficiência da deglutição, considerada neste caso 
como a capacidade de impelir o bolo da cavidade oral para a orofaringe, é avaliada tanto 
para a deglutição do bolo sólido quanto para o bolo líquido, sendo que para cada uma 
dessas consistências é atribuído o escore 3, caso não houver mais de uma repetição da 
deglutição do mesmo bolo; o escore 2 caso houver mais de uma deglutição, ou o escore 
1 para o caso de deglutições múltiplas. 
Para a mastigação, uma escala de 3 pontos é atribuída à trituração, o escore 4 se esta for 
bilateral alternada; 3 se for bilateral simultânea; 2 se houver preferência mastigatória 
unilateral, 66% de um mesmo lado; 1 se for unilateral crônica, 95% do tempo de um 
mesmo lado da cavidade oral ou ainda, se for anterior ou houver ausência da função. O 
101
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
tempo para o consumo de cada porção é mensurado da seguinte maneira: o cronômetro 
é acionado após o alimento ser mordido ou colocado na cavidade oral e assim que os 
lábios forem ocluídos, ou caso não houver oclusão labial, assim que a trituração for 
iniciada, sendo este paralisado quando ocorrer a deglutição final daquela porção, o que 
evita incluir o tempo gasto para levar o alimento até a boca e outras variáveis. O tempo 
total para o consumo do alimento é calculado pela somatória dos tempos despendidos 
para a ingestão de cada porção. Essa medida inclui o tempo de trituração e de deglutição. 
O tempo que o bolo permanece do lado direito da cavidade oral, quando isto ocorrer, é 
mensurada acionando o cronômetro no início da trituração e paralisado cada vez que 
o alimento for transferido para o lado esquerdo, sendo acionado quando novamente o 
alimento se encontrar do lado direito e assim sucessivamente. O mesmo procedimento 
é utilizado para mensurar o tempo de trituração do lado esquerdo. Quando a trituração 
ocorrer de ambos os lados simultaneamente, o cronômetro é acionado e interrompido 
se o alimento for levado para um dos lados e mais uma vez acionado, se o alimento 
voltar a ser triturado no padrão bilateral simultâneo. 
A análise para cada um dos lados e a trituração bilateral é realizada separadamente, 
ou seja, primeiramente é cronometrada a mastigação à direita, depois à esquerda 
e, por fim, a bilateral simultânea. O cálculo das porcentagens é realizado com base 
na somatória dos tempos parciais em relação ao tempo total. Além disso, a função 
da mastigação é avaliada quanto à presença de outros comportamentos e sinais de 
alteração como movimentação da cabeça ou outras do corpo, postura alterada e escape 
de alimento. Para a presença de cada um desses itens é atribuído o escore 1 ou, na 
ausência, o escore 2. 
102
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
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AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
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UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
Avaliação
A consideração dos aspectos morfológicos e fisiológicos do sistema estomatognático, 
bem como da classificação do tipo de oclusão e dentição são fundamentais obtenção dos 
resultados da avaliação, que enfoca as correlações entre fala, respiração oral, dentição 
e oclusão. É importante considerar que as alterações na produção da fala podem 
variar, dependendo da gravidade do problema estrutural. A literatura consultada 
descreve que o sistema estomatognático é composto por ossos, dentes, articulação 
temporomandibular, músculos, sistema vascular e nervoso e espaços vazios. Qualquer 
alteração, principalmente sobre os dentes, poderá levar a um desequilíbrio de todo o 
sistema, acarretando alterações de fala. As alterações de oclusão podem advir de várias 
causas, sendo a respiração oral uma delas. Nos respiradores orais, a língua tende a 
permanecer mais baixa na cavidade oral, podendo ocasionar mudanças nos tecidos 
musculares e alterar as funções do sistema estomatognático, incluindo a produção da 
fala. (MARTINELLI, 2011.)
111
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
PACIENTE 
IDADE 
AVALIAÇÃO DE FALA 
Distorção 
Omissão 
Substituição 
Adição 
Imprecisão 
Ceceio anterior 
Ceceio lateral 
Travamento 
SINAIS DE RESPIRAÇÃO ORAL 
Olheira 
Eversão do lábio inferior 
Acúmulo de saliva nas comissuras labiais 
Lábios entreabertos no repouso 
Lábios ressecados 
Lábio superior encurtado 
DENTIÇÃO OCLUSÃO 
Classificação da oclusão 
CLI 
CLII – div. 1 
CLII – div. 2 
CLIII 
Classificação da dentição 
Sobressaliência 
Sobremordida 
Mordida aberta 
Biprotusão 
Cruzamento 
Falta de espaço intraoral 
Desvio ósseo de linha média inferior 
112
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
Parâmetros do roteiro rof utilizados
 A observação visual do roteiro ROF deve ser feita utilizando velocidade normal, slow 
motion e congelamento de imagem. 
REGISTRO FRONTAL EM REPOUSO
REGISTRO DA OCLUSÃO E DENTIÇÃO
REGISTRO DA CONFIGURAÇÃO DO PALATO
Fonte: REHDER, M.I,; FERREIRA, L.B.; SILVA JR. Proposta de avaliação em vídeo 
na clínica multidisciplinar: fonoaudiológica, ortodôntica e reabilitadora. Anais do VI 
Congresso Internacional de Fonoaudiologia. São Paulo, 1999. 
A avaliação dadentição e da oclusão. Em relação à análise ortodôntica da oclusão e 
da dentição, cabe ao Ortodontista classificar a oclusão como classe I, classe II – 1, 
classe II – 2, classe III de acordo com Angle 21; na avaliação da dentição considerar 
a ocorrência ou não de: sobressaliência, sobremordida, mordida aberta, biprotrusão, 
cruzamento, falta de espaço intraoral e desvio ósseo de linha média inferior. A falta de 
espaço intraoral é considerada a partir da ocorrência de apinhamento dentário, atresia 
do palato e dificuldade no deslizamento lateral e anterior da mandíbula. O desvio da 
linha média óssea inferior é analisada através da imagem frontal. 
A análise da documentação ortodôntica é utilizada para a confirmação da avaliação 
global e OTD. 
Nas avaliações de produção de fala, considerar os seguintes aspectos: presença de 
distorção, omissão, substituição, adição, imprecisão, travamento, ceceio anterior e 
lateral. 
Considerar distorção os ajustes ou as compensações utilizadas para a produção de 
um fonema ou um grupo de fonemas; omissão quando um fonema ou mais fonemas 
não forem produzidos; na substituição quando ocorreu a troca de fonemas por dentes 
anteriores; como ceceio lateral quando o fluxo respiratório foi dividido lateralmente 
havendo escape lateral de ar pela cavidade oral durante a produção dos fricativos 
linguodentais.
Na avaliação da respiração, observar os seguintes sinais: olheira, eversão do lábio 
inferior, acúmulo de saliva nas comissuras labiais, lábios entreabertos no repouso, 
lábios ressecados, lábio superior encurtado. 
113
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
Alteração do frênulo lingual e fala
O frênulo da língua é uma prega mediana de túnica mucosa que conecta a língua ao 
assoalho da boca, permitindo a parte anterior desse órgão mover-se livremente. Por 
não ser um músculo, não tem origem nem inserção.
No recém-nascido, o frênulo lingual é posicionado do ápice da língua até a base do 
processo mandibular alveolar. À medida que existe desenvolvimento e crescimento 
ósseo, com prolongamento lingual e erupção dentária, o frênulo migra para posição 
central até ocupar a sua fixação definitiva com erupção dos segundos molares decíduos.
Na literatura são encontradas classificações diferentes de frênulos: mucoso curto, 
mucoso longo de fixação mandibular e hipertrófico fixado na crista do rebordo alveolar. 
O frênulo lingual pode ser classificado também como curto, com fixação anteriorizada 
e curto com fixação anteriorizada.
A anquiloglossia, vulgarmente conhecida como língua-presa, é uma anomalia congênita 
incomum, mas não rara caracterizada por um freio lingual curto e grosso, resultando 
em limitações nos movimentos da língua. Estudos apontam predisposição maior em 
meninos do que em meninas. 
Os fonoaudiólogos encontram muitos pacientes com queixas diversas que levam à 
hipótese de que o frênulo da língua pode apresentar alguma alteração, sendo o causador 
ou, pelo menos, agravante dos problemas verificados. Os problemas mais comuns 
estão relacionados às dificuldades de articulação da fala. O falante poderá apresentar 
limitações ao realizar movimentos articulatórios mais amplos e elaborados, o que 
reduz a abertura de boca e seus grupos consonantais. Outros sons da fala que podem 
ser afetados englobam os fonemas [t], [d], [z], [s], [r], [tz], [l] [λ], [n]. Movimentos 
de protrusão, elevação, retrusão, lateralização e vibração também se encontram 
prejudicados. Estas alterações geralmente surgem na infância e se mantêm na vida 
adulta, caso não sejam tratadas.
Outra alteração citada na literatura refere-se à alimentação, principalmente durante 
a fase de amamentação. Os principais sintomas associados à anquiloglossia na 
amamentação são dor no mamilo da mãe, dificuldade na ordenha e sucção, que resultam 
em desmame precoce e perda de peso.
Devido às limitações dos movimentos da língua em decorrência de alterações no 
frênulo, pode-se ainda observar ineficiência dos processos de mastigação e deglutição 
especialmente no estágio oral (por dificuldade de acoplamento da língua no palato 
duro), devido à postura baixa de língua , que, por sua vez, gera acúmulo de alimentos na 
114
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
cavidade oral. Encontrou-se também referência à interposição anterior ou bilateral de 
língua. Ainda são citadas alterações dentárias como, por exemplo, diastema, alterações 
de oclusão e do tecido periodontal. Alguns dos problemas relacionados à anquiloglossia, 
tais como dificuldade de lamber os lábios, sorvete, beijar, implicam constrangimentos.
A literatura fonoaudiológica é escassa em relação ao tema, incluindo pesquisas 
conclusivas quanto à existência de uma possível associação entre a presença e o grau de 
limitação gerada pelo frênulo encurtado e/ou com fixação anteriorizada e a quantidade 
ou gravidade das decorrentes distorções de fala. (BRAGA, 2009).
Marchesan (2004) apud FOLHA (2010) buscou estabelecer um método quantitativo 
para classificar o frênulo da língua, a partir do julgamento de dois fonoaudiólogos que 
avaliaram 98 sujeitos e caracterizaram o frênulo como normal ou alterado. Utilizaram o 
protocolo qualitativo, proposto por Marchesan (2003), o qual estabelece que frênulos 
curtos são de tamanho menores do que a maioria, embora inseridos em local correto, 
conforme descrição anatômica, ou seja, da metade da face inferior da língua (face 
sublingual) ao assoalho da boca; frênulo com inserção anteriorizada, ou seja, 
embora de tamanho normal, está inserido em qualquer ponto, à frente da metade da 
face inferior da língua, podendo estar inserido inclusive próximo ao ápice; frênulo 
curto com inserção anteriorizada, sendo este a combinação dos dois anteriores. 
Também foi verificado a liberdade de movimentos da língua a partir da realização 
das tarefas: língua para fora, tocar as comissuras labiais, para cima e para baixo. O 
frênulo foi classificado como alterado se houvesse tanto dificuldade nos movimentos 
quanto resultado alterado no protocolo qualitativo; caso contrário,era classificado 
como normal. Outras quatro medidas foram tomadas por um fonoaudiólogo utilizando 
o paquímetro, sendo: abertura máxima da boca apoiando, se o paquímetro nos dentes 
incisivos centrais superior e inferior do lado esquerdo e essa medida foram tomados 
como valor de referência para as comparações; abertura máxima da boca, porém com 
o ápice da língua apoiado na papila incisiva e considerando-se os mesmos pontos de 
apoio para o paquímetro; abertura máxima da boca, mas com a língua sugada ao palato, 
sendo o paquímetro apoiado nos mesmos pontos; como última medida, uma espátula de 
madeira era encostada na face vestibular dos incisivos centrais inferiores solicitando-se 
ao indivíduo que colocasse a língua para fora o máximo possível sobre a espátula e, com 
um lápis era demarcado esse local, medindo-se com o paquímetro da ponta da espátula 
até o local demarcado. Posteriormente, foi aplicada regra de três, relacionando-se o 
valor de referência com as três medidas. Os resultados mostraram que a melhor forma 
para análise era a relação entre o valor de referência e o valor com o ápice da língua 
tocando na papila incisiva. 
115
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
fonte: brAGA, lívia Augusta dos Santos et al. prevalência de alteração no frênulo lingual e suas implicações na fala de 
escolares. revista CEfAC, v. 11, n. 3, p. 378-390, 2009.
116
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
Parâmetros da avaliação do frênulo
Avaliar o frênulo para caracterizá-lo como normal ou alterado por meio da inspeção 
visual, baseando-se no seguinte critério: a) frênulo normal: fixação vai da metade 
da face inferior da língua (face sublingual) até o assoalho da boca; b) frênulo curto: 
fixação em local correto e com tamanho pequeno; c) fixação anteriorizada: apresenta 
tamanho adequado e fixa-se em qualquer ponto na face inferior da língua, do meio para 
frente ou próximo ao ápice, o que dificulta e/ou impede a elevação do terçoanterior; d) 
frêmulo curto com fixação anteriorizada: apresenta tamanho menor com fixação 
à frente da metade da face inferior da língua, ou seja, este frênulo é misto dos dois 
anteriores.
Tomadas de medidas com o uso do paquímetro: a) máxima distância interincisal; b) 
máxima distância interincisal com língua na papila. Para realização da primeira medida, 
solicita-se a abertura máxima da boca e, em seguida, colocar o ápice de sua língua na 
papila palatina para mensuração da segunda medida. 
Após a coleta das medidas com o paquímetro, aplica-se a regra de três relacionando 
a abertura máxima de boca sem e com a língua na papila, no qual o valor da segunda 
medida é multiplicado por 100 e dividido pelo valor obtido na primeira medida. De 
acordo com a porcentagem obtida o resultado menor que 50% indica frênulo alterado, 
entre 51% e 59%, alterado ou normal, e maior que 60%, normal.
Os pacientes devem ser fotografados com a câmera fotográfica e, posteriormente, 
submetidas à avaliação funcional, que abrange aspectos como tensão da língua, 
posicionamento da mesma durante a postura habitual, praxias, observação do assoalho 
da língua durante a elevação e formato retangular/quadrado ou em forma de coração 
do ápice ao protuir a língua.
Para a avaliação da tensão lingual, os pacientes são solicitados a empurrar a língua 
contra uma espátula. Nesta avaliação, os critérios considerados, de acordo com 
a capacidade de a língua imprimir força e mantê-la, foram: adequada, levemente 
hipotensa, hipotensa ou hipertensa. Em relação às praxias, os pacientes são solicitados 
a realizar movimentos com a língua para verificação de liberdade de seus movimentos. 
Os movimentos solicitados são: língua para fora, dentro, cima, baixo, lado direito, lado 
esquerdo, estalo de ponta de língua, sucção e vibração.
117
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
Análise acústica da fala
Journal of Speech Sciences 2(1):33-47. 2012. Available at: <http://www.
journalofspeechsciences.org> 
Abordagem fonética de dados clínicos 
CAMARGO, Zuleica. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - Laboratório 
Integrado de Análise Acústica e Cognição (LIAAC) 
Abstract: This study aims at presenting a review, from the methodological point of 
view, of procedures and demands related to the phonetic approach of clinical data. 
The possibility of taking into account the interface between speech perception and 
production may be productive when analyzing data collected from clinical settings or 
developing researches in which the central questions arose from the clinical practice. The 
dynamics aspects of speech are considered. The series of studies reported reinforces the 
indication of a highly integrated and cooperative approach among the several research 
areas concerned on speech production and perception. The capability of producing 
speech under disorders caused by damages in phonatory and auditory systems can 
stimulate researchers to develop approaches that could influence theoretical models, 
rehabilitation tools and speech technologies development. 
Keywords: speech therapy; speech acoustics; speech perception; voice quality. 
introdução 
A abordagem fonético-acústica de dados advindos da clínica fonoaudiológica tem se 
configurado como uma possibilidade de leitura atenta e detalhada dos mecanismos 
subjacentes à geração do sinal de fala1 registrado, muitas vezes fruto de mecanismos 
compensatórios desenvolvidos na tentativa de superar alterações de natureza estrutural 
e/ou funcional do aparelho fonador e do sistema auditivo. 
A leitura de dados clínicos revela a possibilidade de uma relação profícua entre 
Fonoaudiologia e Ciências Fonéticas, em que, num extremo, temos a possibilidade de 
detalhamento de mecanismos que podem ser determinantes da manifestação clínica, 
permitindo um planejamento terapêutico diferenciado. No outro extremo, contamos 
com a condição de aprofundar a leitura de dados de variabilidade de fala. Situada entre 
os extremos citados, encontramos uma vasta gama de manifestações que interessam 
tanto àqueles que se dedicam a atividades clínicas, quanto àqueles envolvidos com o 
estudo da variabilidade da fala e com a possibilidade de adoção de modelos de natureza 
dinâmica. (GREGIO et al., 2006). 
118
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
Nesta concepção, ambos os campos de conhecimento beneficiam-se da abordagem da 
plasticidade do aparelho fonador em se adaptar a demandas advindas de uma vasta gama 
de alterações, além das possibilidades expressivas da fala, outra abordagem refinada 
permeada pela Fonética Acústica e enfocada no universo de atuação fonoaudiológica. 
A consideração das manifestações clínicas sob a perspectiva fonética conclama os 
fonoaudiólogos a romperem a clássica dicotomia estabelecida entre normalidade 
x alteração, a qual, além de não contribuir para a compreensão mais refinada das 
alterações de fala, e de suas possibilidades de abordagem clínico-terapêutica, leva a 
uma simplicação da natureza dinâmica dos processos de percepção e de produção da 
fala. 
Neste contexto, o nosso enfoque a respeito da possibilidade de “cura” das alterações 
deve superar a consideração de um “ideal de normalidade”, no sentido de que comparar 
o comportamento de um falante a tal ideal pode impor limitações na consideração de 
suas reais possibilidades: as condições anátomo-fisiológicas presentes, aquelas de 
sua adaptação à situação da alteração de fala, de seu conhecimento da língua e das 
possibilidades e restrições inerentes. (CAMARGO, 2004). 
Tal concepção permite superar outras dicotomias, tais como fala x voz e fonética x 
fonologia. Entender a manifestação em si e orientar o falante quanto às possibilidades 
e às limitações presentes parece ser a solução mais indicada. (MARCHESAN, 2004, 
2004a). Além disso, a adoção de modelos de o termo sinal de fala como o resultado dos 
complexos processos nos planos linguístico, fisiológico, acústico e perceptivo, em que 
são congregados os elementos segmentares e prosódicos. Sendo a qualidade vocal um 
elemento prosódico, os aspectos clínicos da voz também estão comtemplados no termo 
sinal da fala. Para corresponder às questões de abordagem clínica nas especialidades na 
atuação fonoaudiológica, mencionaremos fala no sentido de conjugar fala e voz do ponto 
de vista clínico, o que equivaleria ao sinal de fala-voz. Os aspectos tradicionalmente 
enfocados como “articulatórios” na clínica fonoaudiológica (nas especialidades de 
motricidade orofacial e de linguagem) corresponderiam aos elementos segmentares, 
enquanto aqueles da atuação em especialidades de voz e na linguagem, e, particularmente, 
na área de fluência, corresponderiam ao enfoque dos elementos prosódicos. Não se 
pretende estabelecer uma divisão entre estes elementos, mas valorizar sua possibilidade 
de interação, conforme indicado em Albano et al. (1997). Adotamos uma perspectiva de 
associação de informações de natureza perceptiva, acústica e fisiológica, na busca pela 
descrição integrada do sinal de fala. (STEVENS, 1989/1998; JOHNSON, 2003). 
A natureza dinâmica permite um olhar diferenciado sobre estas manifestações, 
enfocadas mais propriamente como gradientes de percepção e de produção de fala. 
119
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
(MADUREIRA et al., 2002; BARZAGHI- FICKER, 2003; CAMARGO et al., 2003; 
MENDES, 2003; VIEIRA et al., 2004; Berti, 2006; GREGIO, 2006; BONATTO, 2007; 
PEREIRA, 2007; BARZAGHI-FICKER et al., 2008; SOARES, 2009; LIMA-GREGIO, 
Barbosa, 2010; OLIVEIRA, 2011; CAMARGO et al., 2011; MARCHESAN et al., 2011). 
Diante da possibilidade de adoção de referencial teórico que prima pelas relações 
entre a percepção e a produção de fala, nossas indagações direcionam-se às demandas 
metodológicas advindas da possibilidade de desenvolvimento de pesquisas a partir de 
dados clínicos: Como planejar a coleta de dados? Como conceber o corpus de pesquisa? 
Há necessidade de grupo-controle ou da adoção de estudos que tenham trabalhado 
com as mesmas variáveisna população sem alterações? Como enfocar as correlações 
entre as esferas perceptiva, acústica e fisiológica? 
No cenário nacional, destacamos modelos de natureza dinâmica, como o esboço da 
fonologia acústico-articulatória para o PB (ALBANO, 2001) e do modelo dinâmico de 
ritmo (BARBOSA, 2006). 
Neste ponto, surge a questão central de nossa exploração neste artigo: de que forma os 
preceitos fonético-acústicos permitem-nos analisar dados de fala de forma a não nos 
atermos à abordagem dicotomizante entre normalidade e alteração? Tais desafios nos 
são postos a cada tentativa de enfoque de dados de alteração de fala (em suas vertentes 
da percepção e da produção), uma vez que uma primeira possibilidade reside na adoção 
de dados de um grupo-controle, ou de um indivíduo-referência, para se estimar o nível 
de alteração. 
Diante desse universo de possibilidades e de limitações, em que a exploração do sinal 
acústico da fala emerge como uma alternativa promissora de estudos e, ao mesmo 
tempo, como objeto complexo em termos de registro, processamento e análise, este 
artigo visa a discorrer sobre aspectos metodológicos de estudos que possam trazer uma 
contribuição ao enfoque dos processos de diagnóstico e de planejamento terapêutico. 
Para tanto, a alteração de fala deixa de ser considerada como um desvio numérico em 
relação a uma situação supostamente irreal: a fala ideal. Passa a ser enfocada enquanto 
produção sonora decorrente de alterações orgânicas e/ou funcionais em toda a extensão 
do aparelho fonador e/ou do sistema auditivo. 
uma reflexão à luz da metodologia dos estudos 
fonético-acústicos de dados clínicos 
Nossa incursão aos referenciais fonéticos iniciou-se pela busca de compreensão da 
implementação de ajustes desenvolvidos por falantes com alterações de maior porte no 
aparelho fonador, provocadas por tratamentos oncológicos (cirurgias, combinações de 
120
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
radioterapia e quimioterapia) em cabeça e pescoço. Numa exploração inicial de grupo de 
falantes submetidos a laringectomias parciais verticais, erem-se a cirurgias da laringe em 
que parte da sua estrutura é removida, de maneira a permitir o desempenho das funções 
de respiração, proteção para deglutição e fonação, porém com comprometimentos do 
conjunto de funções em graus variados. Consistem na remoção parcial ou total de uma 
prega vocal e, por vezes, de parte da prega vocal contralateral. Nestes casos, a remoção 
cirúrgica ocorre de forma mais intensa de um lado da laringe (direito ou esquerdo), 
podemos nos beneficiar da adoção de abordagem integrada de dados da percepção, 
fisiologia e acústica, como forma de diferenciar os padrões funcionais compensatórios 
desenvolvidos por falantes submetidos a tratamentos similares, porém com resultados 
funcionais variados. (CAMARGO, 1996). 
Tal exploração inicial nos motivou a prosseguir pela análise de alterações do aparelho 
fonador, como no caso das incompetências glóticas, tendo como base descrições da 
percepção (qualidade vocal e reconhecimento de fala), suas correspondências acústicas 
(de curto e de longo termo) e fisiológicas – eletroglotografia, videolaringoestroboscopia 
e videoquimografia.(CAMARGO, 2002). 
Enfocamos um grupo de indivíduos portadores de alterações de mecanismos 
glóticos justamente pela possibilidade de estabelecimento de grande variedade de 
compensações, as quais não se restringem à porção glótica do aparelho fonador, ou seja, 
em nível que concentra a principal limitação à produção sonora (CAMARGO, 2002). 
Portanto, o estudo centrou-se nos ajustes individuais implementados em seu aparelho 
fonador durante a produção da fala, respaldado pela teoria acústica da produção da 
fala (FLANAGAN, 1955, 1957; FANT, 1970) e pelo modelo fonético de descrição da 
qualidade vocal (LAVER, 1980), com incorporação do roteiro Vocal Profile Analysis 
Scheme – VPAS, em sua verão resumida (LAVER, 2000). 
Os desafios metodológicos impostos residiram na seleção do grupo estudado, na 
concepção de corpus e na eleição de procedimentos para integração dos dados das 
esferas perceptiva, acústica e fisiológica, uma vez que a coleta de dados envolvia 
informações de naturezas distintas. 
Em termos do grupo estudado, não intentamos desenvolver uma pesquisa quantitativa 
baseada em análise de limitados parâmetros e amplo número de falantes. Em 
contraposição, optamos por um grupo de quatro indivíduos em atendimento clínico por 
disfonia de fator desencadeante comum (incompetência glótica, por paralisia de prega 
vocal ou fibrose laríngea) e um indivíduo referência da mesma faixa etária e sexo, sem 
almejarmos propor generalizações sobre a produção sonora na situação de disfonia, 
mas, em contraposição, ilustrar as várias facetas da alteração da qualidade vocal. 
121
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
Vale ressaltar que a referência à fonação na ausência de alterações do aparelho fonador 
passou a ser o ponto de apoio necessário para que se considerasse, entre os ajustes, 
aqueles que são impostos pela mudança de atividade em decorrência de incompetência 
glótica, subsequente à instalação de paralisia unilateral ou de fibrose de prega vocal. 
Integrou um ponto no contínuo sonoro (MATHIESON, 2000) que se estende desde a 
fonação com sonoridade e sem ruídos até aquela situação em que a fonte de sonoridade 
é completamente substituída por ruído turbulento e a sonoridade praticamente ausente. 
Como justificativa para tal procedimento, destacamos que a adoção de indivíduo 
referência para estudos de base fonético-acústica também envolveu o levantamento de 
particularidades da emissão oral de falantes de determinada comunidade linguística 
e, nesta situação delineada, de ausência de condições características de quadro 
de distúrbios de fala, à semelhança de outros estudos. (CAMARGO, 1996, 2002; 
BARZAGHI-FICKER, 2003; MENDES, 2003; PEREIRA, 2007). 
Em termos do corpus, num momento em que maioria dos estudos ainda enfocava, 
quase que exclusivamente, a emissão de vogais sustentadas, a análise de longo termo 
poderia ser comprometida pela inexistência de material padronizado para tal finalidade 
em nossa língua. Optamos por compor texto que resumisse várias das necessidades 
de nosso grupo de estudos, como uma primeira etapa de concepção de instrumentos 
a serem utilizados em pesquisas subsequentes no campo da Fonética Perceptiva e 
Acústica. 
Partimos para elaboração de estímulo para leitura: texto com presença de sons orais, 
nasais, vozeados e não vozeados (total de 209 palavras), com duração mínima prevista 
de 90 segundos (quando em leitura em taxa de elocução elevada). O avanço das 
tecnologias de análise acústica ainda não nos permitia, com facilidade, a seleção apenas 
do segmentos vozeados, como hoje se faz, de maneira que elaboramos um segundo 
texto, com predomínio de sons vozeados (145 palavras). As medidas acústicas de longo 
termo de três repetições de leituras de ambos os textos foram comparadas em um dos 
falantes (disfônicos) do grupo estudado, por meio da análise de componentes principais 
e construção de clusters, de forma a revelar similaridade de achados para as leituras 
dos dois textos elaborados. (CAMARGO, 2002). 
A preocupação nesta etapa recaía sobre a possibilidade de segmentos não vozeados 
presentes no texto sinalizarem, erroneamente, eventos de ajustes de escape de ar e 
soprosidade do ponto de vista laríngeo. Superada esta etapa, prosseguimos com análise 
dos dados do texto misto de 209 palavras para todos os falantes do grupo estudado. 
Tal instrumento também foi empregado em estudos subsequentes. (LIMA, 2008; 
CAMARGO, MADUREIRA, 2009; GIANNINI, 2010). 
122
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
Como fatores limitantes, destacamos que tal proposta de corpus dificultou-nos a 
abordagem de alguns índices acústicos, como extração de frequências formânticas de 
vogais e de medidas de voice- onset-time (VOT) das consoantes plosivas, uma vez que o 
contexto da inserção dos segmentos vocálicos e consonantaisnão era controlado, como 
no caso do emprego de sentenças-veículo, como em Mendes (2003), Barzaghi-Ficker et 
al. (2008) para vogais e por Barzaghi-Ficker (2003), Bonatto (2007) e Pereira (2007) 
para consoantes. 
Do ponto de vista da análise de dados, o desafio residiu na tentativa de corresponder as 
esferas relevantes da estrutura acústica do sinal aos atributos perceptivos e fisiológicos. 
Contamos com apoio de softwares para análise eletroglotográfica (VIEIRA et al., 
2002), propiciando maior acurácia na leitura de dados numa situação geralmente 
contraindicada, a paralisia ou fixação de prega vocal. 
As limitações residem no fato de que a qualidade vocal engloba várias dimensões, de 
forma que os achados de correlação entre um determinado parâmetro acústico e um 
respectivo julgamento perceptivo podem não sinalizar uma relação estreita. Flanagan 
(1957), um dos precursores de estudos da acústica da fala e de suas relações com a 
percepção, apontava a dificuldade de se fazer corresponder uma medida acústica 
à qualidade auditiva, diante do desconhecimento de outros fatores que poderiam 
colaborar para o efeito sonoro detectado. 
Reforçando tais aspectos da complexidade das correlações entre percepção e acústica da 
qualidade vocal, Kreiman e Gerrat (2000) apresentaram uma revisão crítica dos estudos, 
especialmente daqueles centrados nos aspectos glóticos da emissão, salientando que a 
qualidade vocal resultaria da interação entre o sinal acústico e um ouvinte, de maneira 
que a “qualidade” seria evocada no sistema perceptivo do ouvinte e não puramente na 
estrutura do sinal. A partir desta argumentação discorreram sobre muitas das limitações 
na leitura de dados de correspondências perceptivas e acústicas e reforçaram o cuidado 
na seleção da abordagem estatística dos dados. Neste ponto, chegaram a revisar dados 
de estudos publicados com variação da metodologia estatística empregada apontando 
métodos de análise multivariada como os mais promissores. 
Retomando os dados do estudo de Camargo (2002), adotamos procedimento de 
análise de componentes principais e de construção de clusters para a análise acústica 
de longo termo. Para avançar no enfoque da disfonia, enquanto manifestação de 
caráter adaptativo, defendemos a posição de que o quadro a que ela se refere implica 
diversos graus de mobilização para a tentativa de manutenção do produto sonoro, 
mobilização esta que revela a plasticidade do aparelho fonador em face de alterações 
em sua estrutura. Nas etapas de análise, as emissões do grupo de disfônicos e 
123
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
indivíduo-referência foram analisados em conjunto e separadamente (apenas 
disfônicos), como forma de se estimar as gradiências na percepção e na produção. 
(MATHIESON, 2000). 
Diante desta abordagem, o grupo estudado revelou a fascinante condição de adaptação 
do aparelho fonador diante de limitações de ordem de mobilização e vibração dos 
tecidos da região laríngea e as variadas resultantes sonoras possíveis, a partir de gestos 
particularizados e integrados para cada falante. Tais gestos podem ser abordados como 
forma de cumprir a necessidade crucial de sonorização da coluna aérea e transmissão 
da energia sonora, como um importante requisito da comunicação oral. 
Podemos considerar que, diante de manifestações de base comum, enquanto quadro 
clínico, desvendamos ações diferenciadas com maior ou menor efetividade em termos 
da adaptação da função vocal, condição visada pela intervenção terapêutica. Tal 
consideração nos foi possível a partir da concepção fonética adotada, 
Tais achados nos conduziram à reflexão de que a exploração da qualidade vocal enquanto 
um traço recorrente da característica da emissão do falante deveria ser cuidadosamente 
dimensionada, no sentido de se traduzir em abordagens mais fidedignas de avaliação, 
a revelarem os fatores subjacentes que caracterizam o sofrimento dos indivíduos 
disfônicos. Tal aspecto inclui a demanda por estabelecimento de consistente treinamento 
auditivo na formação do fonoaudiólogo e das possibilidades de atuação em avaliação 
e assistência terapêutica, com importantes contribuições aos campos experimental e 
clínico e, inclusive, para adaptação da formação do profissional fonoaudiólogo. 
Na continuidade de exploração do tema e trabalhando com os dados gerados (CAMARGO 
et al., 2003; MADUREIRA, 2009), iniciamos nosso empenho na implementação e 
adaptação de instrumento de avaliação perceptiva da qualidade vocal com motivação 
fonética para o português brasileiro, justamente pelos desafios metodológicos 
anteriormente relatados. 
Iniciamos projeto de abordagem fonética da qualidade vocal, de forma a apresentar a 
versão VPAS- PB3 (CAMARGO, MADUREIRA, 2008), juntamente a proposta de corpus 
para coletas de amostras de qualidade vocal, composto de emissões semiespontâneas 
(de caráter dirigido, como, por exemplo, o relato sobre a cidade onde o falante nasceu), 
bem como leitura de sentenças-chave, baseadas no conceito de segmentos-chave, 
enquanto segmentos vocálicos e consonantais susceptíveis aos efeitos de ajustes de 
qualidade vocal, conforme bases de modelo fonético de Laver (1980), e diretrizes para 
uso do VPAS em sua versão original. (MACKENZIE-BECK, 2005; LAVER, 2007). 
124
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
A partir do trabalho com o referido instrumento, além das novas demandas advindas 
desta etapa de trabalhos, passamos a trabalhar no sentido de estruturação de banco 
de dados de qualidades vocais (CAMARGO, MADUREIRA, 2008), de forma a 
gradativamente explorar as possibilidades de correlações de dados perceptivos e 
acústicos (BLAJ et al., 2008; RUSILO et al., 2011; CAMARGO, MADUREIRA, 2012), 
inclusive quanto à revisão crítica do corpus desenvolvido (CAMARGO et al., 2011) e a 
particularidades entre gêneros (CAMARGO et al., 2012). 
O trabalho constante na ampliação do banco de dados, na formação de juízes habilitados 
ao uso do VPAS-PB e na exploração de dados de natureza perceptiva e acústica 
conduziram-nos à busca por aprimoramento de análise das correlações, bem como 
à definição de um conjunto de parâmetros acústicos que pudesse refletir os aspectos 
recorrentes da qualidade vocal. A demanda pela bateria de variáveis acústicas nos 
foi possibilitada pelo uso do script Expression Evaluator SG (BARBOSA, 2009), que 
permite a extração de um conjunto de medidas absolutas e normalizadas de frequência 
fundamental (f0, primeira derivada de f0, intensidade, declínio espectral e espectro de 
longo termo). 
Diante da incorporação deste instrumento, que permite a análise de trechos de fala e 
não apenas de segmentos isolados, por meio da etiquetagem de enunciados, pudemos 
trabalhar com uma nova perspectiva de descrição de correlatos acústicos (PESSOA et 
al., 2009, 2011, 2012; FERNANDES, 2011; LIMA-SILVA, 2012), a qual impulsionou 
o desenvolvimento e adaptação de procedimentos de análise estatística de natureza 
multivariada para o banco de dados em questão. (CAMARGO, MADUREIRA, 2010; 
RUSILO et al., 2011; CAMARGO et al., 2012a; LIMA-SILVA, 2012; PESSOA et al., 
2012). 
Certamente, ao lidarmos com dados de falantes com e sem alterações de fala, buscamos 
alternativas de análise que contemplem as demandas da população e dos estudos em 
questão, especialmente com destaque àqueles que não nos permitem retroceder a uma 
abordagem dicotomizante. 
Em alguns de nossos estudos mais recentes, diante da metodologia descrita, pudemos 
estimar comportamentos dos indivíduos com alterações de fala, na tentativa de entender 
a particularidade daquele grupo, até que a demanda de caracterização de parâmetros 
acústicos seja efetivada para o nosso grupo de falantes do PB. Dessa forma, estes estudos 
não se pautaram em comparações com Profile Analysis Scheme (VPAS), referem-se 
a um instrumento de avaliação perceptiva de qualidade vocal (LAVER et al., 1981), 
desenvolvido a partir de modelo fonético de descrição da qualidade vocal (LAVER, 1980), 
tendo sido adaptado parao português brasileiro: VPAS-PB (CAMARGO, MADUREIRA, 
125
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
2008). O material instrutivo desenvolvido com a finalidade de incorporação do VPAS-
PB inclui a proposta de corpus para coleta de dados, população sem alteração de fala, 
mas detalharam o comportamento dos falantes, com base em descrições perceptivas 
(FERNANDES, 2011) e integradas à acústica (PESSOA et al., 2009, 2011, 2012; 
CAMARGO et al., 2012a; LIMA-SILVA, 2012). 
Com o desenvolvimento dos estudos em expressividade da fala, esboça-se a tentativa de 
obtenção de dados de fala “natural” ou espontânea, muitas vezes limitada em termos de 
coletas por questões éticas, em complementação às coletas que ocorrem em situações 
experimentais controladas. (XU, 2010). 
Outra possibilidade de enfoque e de composição de corpus, por parte de fonoaudiólogos, 
reside em registros de trechos de sessões de terapia. Neste caso, particularmente, temos 
trabalhado com estruturação de banco de dados em coletas seriadas de amostras de fala 
em situações de terapia, com crianças usárias de implante coclear. Tal banco de dados 
tem permitido a incorporação de amostras de fala infantil de natureza semiespontânea 
(respostas a estratégias terapêuticas) e gerado estudos que apresentam dados do(s) 
mesmo(s) falante(s) em recortes longitudinais (PESSOA et al., 2009, 2012). Abrimos 
mão da padronização na coleta de amostras para assumirmos a possibilidade de 
registrar produções espontâneas de crianças com implante coclear. Tal metodologia 
tenta contemplar a demanda acima apontada. 
Em outras explorações, além da possibilidade de descrição com base na incorporação de 
um indivíduo referência, ou seja, sem o quadro clínico da mesma faixa etária e mesmo 
sexo (CAMARGO, 2002; BARZAGHI-FICKER, 2003; MENDES, 2003; PEREIRA, 
2007), pode-se optar por um grupo controle (CUKIER- BLAJ, 2006; OLIVEIRA, 2011), 
situação em que, ao mesmo tempo, apresenta a abordagem das alterações à luz do 
referencial das Ciências Fonéticas, e brinda-nos com a possibilidade de descrição das 
variáveis enfocadas para a população sem alterações de faixa etária e sexo. 
Diante desta lacuna, alguns fonoaudiólogos optaram por conduzir estudos de 
caracterização de parâmetros fonético-acústicos na população sem alterações de fala, 
como é caso de Bonatto (2007) para crianças e Gregio et al. (2011) para adultos, com o 
propósito de, futuramente, trabalharem com populações com alterações. 
Neste constante empenho por caracterização das alterações sem meras comparações 
com a normalidade, encontramos no modelo fonético um respaldo para enfoque de 
ajustes de qualidade vocal que foi recentemente adotado pelo grupo, na medida em 
que o banco de dados começa a ter um conjunto de amostras suficientes para cobrir a 
descrição de várias manifestações de ajustes possíveis ao aparelho fonador. 
126
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
Contamos com a possibilidade de comparação de variáveis acústicas e perceptivas que 
nos garantam uma calibração entre várias estados de alteração, a partir da comparação 
de varíaveis relativas a ajustes neutros e não neutros de qualidade vocal, sem ter que, 
necessariamente, selecionar previamente a população por dividi-las em grupos. Esta 
concepção metodológica também permitirá estudar, com maior detalhamento, a questão 
dos graus de manifestação dos ajustes não neutros de qualidade vocal, acentuando-se 
que ajustes não neutros não significam fala alterada, mas uma postura diferenciada 
daquela adotada como referência no modelo teórico: o ajuste neutro. (CAMARGO et 
al., 2011). 
O enfoque da percepção em nosso grupo não se ateve aos aspectos de qualidade vocal, 
detalhados por ser linha de pesquisa da autora. Em termos da percepção da fala alterada, 
outra possibilidade de abordagem que merece destaque refere-se à avaliação da fala 
por indivíduos com e sem alteração. Neste particular, o falante com alteração da fala 
também passa a exercer o papel de juiz de suas produções e daquelas do(s) falante(s) 
sem alaterações. (BARZAGHI-FICKER, 2003). 
Diante das possibilidades esboçadas, cabe destacar que a caracterização fonético-
acústico- articulatória de variantes do português brasileiro (PB), tanto do ponto de 
vista segmental (SILVA, ALBANO, 1999; MADUREIRA et al., 2004; GREGIO, 2006; 
BONATTO, 2007), quanto prosódico (MADUREIRA, BARBOSA, 2000; MADUREIRA, 
DINIZ, 2002; MADUREIRA, FONTES, 2003; BARBOSA et al., 2007, 2008; BARBOSA, 
SILVA, 2012), em populações de adultos e crianças, é ainda incipiente. 
No campo prosódico, a produção de nosso grupo destaca o empenho na adaptação 
de roteiro VPAS-PB (CAMARGO, MADUREIRA, 2008). Tal produção resultou em 
possibilidades de abordagens de populações com alterações de fala, como é caso de 
deficientes auditivos e crianças usuárias de implante coclear (PESSOA et al., 2009, 2011, 
2012) e de professores com disfonia (FERNANDES, 2011; LIMA-SILVA, 2012), bem 
como de explorações no campo da expressividade de fala (MADUREIRA, CAMARGO, 
2010, MADUREIRA, 2011). 
As reflexões delineadas encontram respaldo na afirmação de Whalen (1999) de que: 
“Toda teoria de fala deve explicar como os ouvintes podem relacionar uma articulação 
com um sinal acústico. O link entre percepção e produção é forte, imediato e inevitável 
na fala humana”. 
Destacamos a necessidade de uma abordagem altamente integrada e cooperativa entre 
as diversas áreas de conhecimento voltadas ao enfoque da percepção e da produção de 
fala humana, com o intuito de contribuir para a formação de conhecimento sobre os 
127
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
complexos níveis de atividade que permeiam a interface da percepção e da produção 
sonora. 
Considerações finais 
A capacidade extraordinária de produção de fala na vigência de alterações que podem, 
inclusive, resultar de verdadeiras “mutilações” do aparelho fonador e do sistema 
auditivo, tem servido de base para a reflexão dos pesquisadores sobre esta faculdade 
humana tão complexa. A leitura fonética de dados clínicos também pode auxiliar a 
concepção e o aprimoramento de modelos teóricos, uma vez que nos indicam situações 
extremas de uso do aparelho fonador, raramente presentes na fala cotidiana. 
Tal nível de colaboração também enriquece a produção científica e a atuação clínica 
do fonoaudiólogo, que, ao incorporar a visão integrativa do sinal de fala, passa a 
compreender a complexidade das relações entre a percepção e a produção da fala e a 
refinar suas possibilidades de atuação com falantes com alterações de fala de natureza 
tão peculiares. 
128
CAPítulo 2
Avaliação e tratamento dos distúrbios 
de fala de origem mecânica
tratamento do distúrbio fonético – sigmatismo/
ceceio
O sigmatismo ou ceceio é uma distorção na fala em decorrência de uma alteração na 
postura da língua, relacionada ao ponto articulatório e à precisão dos movimentos; 
nele a língua se projeta ou se apoia entre os dentes. 
A projeção, o toque e o fluxo aéreo podem ocorrer na região anterior ou lateral e ocorre, 
principalmente, na produção dos fonemas fricatives /s/ e /z/, dando aos sons semelhança 
de “x” (ex.: “s(x)apo que eu não s(x)ei?”). Pode estar relacionada ao tônus reduzido da 
língua, alteração na sensibilidade tátil e proprioceptiva da cavidade oral, geralmente 
decorrente de maus hábitos orais na infância, como: sucção digital ou uso prolongado 
de chupeta e/ou mamadeira e alimentação em consistência que não estimule o bom 
desenvolvimento das estruturas orais. Pode estar relacionada a problemas ortodônticos 
ou respiratório e à alteração das funções orais, especialmente mastigação e deglutição. 
Respiradores orais, por exemplo, desenvolvem postura incorreta da língua, alargada 
no assoalho da boca e anteriorizada, e dos lábios sempre abertos e com lábio inferior 
evertido e superior encurtado. A flacidez dos músculos aliada à postura incorreta da 
língua e dos lábios facilitam a projeção da língua durante a deglutição e a pronúncia 
dos fonemas.
Desta forma, o tratamentodeve englobar em alguns casos atuação multidisciplinar, 
cabendo ao fonoaudiólogo fazer os encaminhamentos necessários, tanto para avaliação 
quanto para intervenção, mantendo um diálogo constante com os demais profissionais 
no sentido de potencializar os efeitos positivos da abordagem.
O tratamento fonoaudiológico para o ceceio realizado por meio de exercícios de tônus 
e mobilidade de língua, direcionamento do fluxo aéreo, propriocepção, sensibilidade, 
percepção visual e auditiva, para que se mude os engramas motores pré-estabelecidos, 
biofeedback visual, auditivo, tátil, proprioceptivo. Entretanto, o fonoaudiólogo deve 
ter em perspectiva que o uso de exercícios isolados têm pouca efetividade, portanto, 
deve-se trabalhar mioterapia associada à terapia miofuncional, alcançando objetivos 
também através do ajuste e uso sistemático de funções orais.
129
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
O trabalho aborado deve ser praticado pelo paciente todos os dias de maneira intensiva, 
uma vez que, para modificarmos ajustes, posturas e engramas é necessário exercitar a 
musculatura e realizar o novo plano motor sistematicamente. A dedicação do paciente 
é fator fundamental para que o tratamento tenha resultado, já que os exercícios 
melhorarão a força da musculatura e a posição da língua.
O tempo de tratamento e o resultado final dependerão da adesão do paciente aos 
tratamentos necessários.
130
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
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AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
144
CAPítulo 3
Avaliação e tratamento dos distúrbios 
de fala de origem neurológica
Disartrofonia é a terminologia usada para as alterações motoras da fala resultantes 
de lesão do sistema nervoso central ou periférico. A ação dos grupos musculares 
relacionados à produção fonoarticulatória torna-se ineficiente em decorrência do 
prejuízo sobre todos ou alguns dos processos motores básicos envolvidos na fala 
(respiração, fonação, ressonância, articulação e prosódia). As alterações dos processos 
motores básicos podem comprometer a inteligibilidade e naturalidade da produção 
oral. Estas alterações podem gerar impacto negativo no convívio social e levar a uma 
limitação na comunicação, podendo, muitas vezes, afetar a vida pessoal, experiências 
sociais, educacionais e profissionais, ou seja, interferir na qualidade de vida.
Disartria é um nome coletivo para as alterações de fala resultantes de distúrbios no 
controle de seu mecanismo, devido a danos no sistema nervoso central ou periférico; 
designa problemas na comunicação oral devido à paralisia, fraqueza ou incoordenação 
da musculatura da fala. Ocorre como um deficit na produção da fala resultante de 
alteração no sistema nervoso central ou periférico que afeta um ou vários dos cinco 
componentes da produção da fala: respiração, fonação, ressonância, articulação e 
prosódia.
Disfonias neurológicas são comuns nas disartrias e desempenham um importante 
papel no diagnóstico diferencial. Portanto, é essencial a avaliação e a terapia de voz. 
Trabalho realizado no Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de 
São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil, com financiamento da Fundação de 
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo 04/09950-2. 
1. Doutora, Professora do Departamento de Fonoaudiologia da Universidade 
Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.
2. Especialista em Voz pelo Centro de Estudos da Voz – CEV – São Paulo 
(SP), Brasil; Pós-Graduanda do Communication Studies Department da 
San Jose State University – SJSU – San Jose (CA), Estados Unidos. 
Endereço para correspondência: Karin Zazo Ortiz. R. Cunha, 111, cjto 73, Vila Clementino, 
São Paulo – SP, CEP 04037-030. E-mail: karinortiz.fono@epm.br. Recebido em: 
22/10/2007. Aceito em: 30/8/2008. 
145
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
Considerem todo o mecanismo da fala: respiração, fonação, articulação, ressonância e 
prosódia. 
A coexistência de alteração dos diversos subsistemas deve levar o clínico a dirigir a 
avaliação fonoaudiológica para testes específicos de exploração de aspectos neurológicos 
da emissão do indivíduo. Voz rouca, geralmente é uma queixa comum trazida pelo 
paciente ao médico e/ou fonoaudiólogo. A natureza da queixa é vaga e subjetiva e 
podem existir múltiplos fatores etiológicos que causam o transtorno vocal. 
Dependendo da localização da lesão neurológica têm-se manifestações diversas na fala, 
voz e linguagem do indivíduo. Os distúrbios neurológicos da fala podem ser definidos de 
acordo com o nível anatômico afetado: transtornos do neurônio motor superior 
(esclerose lateral amiotrófica – ELA – disartria mista e paralisia pseudobulbar – 
disartria espástica); transtornos do neurônio motor inferior (ELA – disartria 
mista e paralisia bulbar – disartria flácida); transtornos do sistema extrapiramidal 
(doença de Parkinson – disartria hipocinética, distonia – disartria hipercinética 
lenta e Corea – disartria hipercinética rápida); transtornos do cerebelo (doença 
cerebelar degenerativa – disatria atáxica, ataxia hereditária, transtornos metabólicos 
tóxicos, lesões vasculares e esclerose múltipla – disartria mista, espástica e atáxica); 
transtornos da junção neuromuscular; e transtornos mistos (disfonia 
espástica) 
Lesões cerebrais no lado esquerdo parecem mostrar impacto mais severo na 
articulação, afetando, principalmente, a produção das consoantes, independente da 
lesão topográfica. No entanto, alterações na fonação e prosódia também são frequentes. 
(CARRILLO; ORTIZ, 2008).
Alterações da comunicação humana: 
contribuições da fonoaudiologia nas 
disartrias 
(Fonte: <http://www.profala.com/arttf113.htm>)
Autora: Roberta Medeiros
A disartria é uma alteração da fala de etiologia neurogênica, ou seja, não compreende 
patologias da fala associadas aos defeitos estruturais somáticos ou psicológicos. A 
disartria pode afetar tanto os movimentos voluntários, coordenados pelo sistema 
nervoso piramidal, quanto os involuntários, coordenado pelo sistema extrapiramidal.
146
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
O mecanismo da fala engloba, basicamente, articulação, fonação, respiração, ressonância 
e prosódia. Estes processos são encontrados no trato vocal, sendo a prosódia o resultado 
harmônico de todos os mecanismos envolvidos que necessitam de uma ação muscular 
para o seu perfeito funcionamento.
O tipo de disartria resulta do transtorno neuromuscular e depende do local em que 
ocorreu a lesão. Devido a este fato, o mecanismo da fala pode ser alterado em menor 
ou maior grau, atingindo diferentes músculos orofaciais, gerando tipos específicos de 
disartria.
Portanto, os sistemas neuromusculares danificados originam um tipo de disartria que 
podem afetar o neurônio motor inferior (disartria do tipo flácida), o neurônio motor 
superior (disartria espástica), o cerebelo (disartria atáxica), o sistema piramidal ou 
sistema extrapiramidal.
A disartria pode ser definida como uma alteração na expressão oral causada por um 
acometimento no controle muscular dos mecanismos da fala em decorrência de uma 
lesão no Sistema Nervoso Central (SNC) ou Periférico (SNP). Nas disartrias, há a 
diminuição ou perda da faculdade de unir os sons, o que acarreta na emissão imprecisa 
de sílabas.
A disartria é uma alteração da fala de etiologia neurogênica, ou seja, não compreende 
patologias da fala associadas aos defeitos estruturais somáticos ou psicológicos. A 
disartria pode afetar tanto os movimentos voluntários,coordenados pelo sistema 
nervoso piramidal, quanto os involuntários, coordenado pelo sistema extrapiramidal.
O mecanismo da fala engloba, basicamente, articulação, fonação, respiração, ressonância 
e prosódia. Estes processos são encontrados no trato vocal, sendo a prosódia o resultado 
harmônico de todos os mecanismos envolvidos, que necessitam de uma ação muscular 
para o seu perfeito funcionamento.
Do tipo de disartria resulta do transtorno neuromuscular e depende do local em que 
ocorreu a lesão. Devido a este fato, o mecanismo da fala pode ser alterado em menor 
ou maior grau, atingindo diferentes músculos orofaciais, gerando tipos específicos de 
disartria.
Portanto, os sistemas neuromusculares danificados originam um tipo de disartria que 
podem afetar o neurônio motor inferior (disartria do tipo flácida), neurônio motor 
superior (disartria espástica), cerebelo (disartria atáxica), sistema piramidal ou sistema 
extrapiramidal.
147
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
disartria flácida
Os neurônios fazem uma conexão entre o SNC e as fibras do músculo esquelético 
ativando-o. Dos corpos celulares localizados no corno anterior da medula espinhal e 
nos núcleos motores dos nervos cranianos do tronco cerebral, os axônios dos neurônios 
motores inferiores passam pelos vários nervos espinhais e cranianos motores para o 
SNP e, daí, aos músculos voluntários.
O segundo neurônio motor ou periférico representa a via final da motricidade e é, 
portanto, um agente executor efetor. A lesão em alguma extensão da unidade motora 
implica a alteração da motricidade voluntária, causando diminuição do alongamento 
muscular e flacidez dos músculos. Quando o neurônio motor inferior não transmite os 
impulsos nervosos necessários para a manutenção da adequação do tônus, a principal 
característica gerada desta alteração é a hipotonia.
As características clínicas da disartria flácida são: hipernasalidade associada a escape 
aéreo nasal, voz suspirada, inspiração audível, pobre abertura labial, excesso de saliva, 
dificuldade quanto aos movimentos alternantes da língua, redução do tempo de fonação, 
pobreza de inteligibilidade, respiração curta, dificuldade na emissão de tons altos, voz 
baixa e dificuldade na emissão de fonemas fricativos e plosivos.
disartria espástica
Os neurônios motores superiores transmitem impulsos nervosos das áreas motoras 
do córtex cerebral do giro pré-central ou pré-motor do córtex aos neurônios motores 
inferiores e encontram-se localizados no cérebro, tronco encefálico e medula espinhal.
Lesões neste neurônio ocasionam debilidade e espasticidade contralateral do córtex 
lesionado (giro pré-central do córtex), sendo evidente a alteração motora nos músculos 
distais das extremidades da língua e dos lábios, podendo ser uni ou bilateral.
A lesão unilateral está localizada em cada córtex motor ou cápsula interna, sendo 
manifestada alteração nos lábios e parte inferior do rosto. Entretanto, a disartria 
espástica persistente ou bilateral é causada por uma interrupção bilateral dos neurônios 
motores superiores que inervam os músculos dos nervos cranianos bulbares.
Os principais sintomas de uma disfunção muscular são: espasticidade, fraqueza 
muscular, limitação e lentidão de movimentos.
O distúrbio da fala afeta alguns fonemas, embora as sentenças produzidas sejam 
gramaticalmente corretas e a compreensão também seja normal. Os fonemas bilabiais, 
148
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
linguodentais e fricativos apresentam-se mais distorcidos do que os outros. É 
importante mencionar há descontrole da respiração devido à incapacidade de vedação 
velofaríngea, dificuldade de protrusão de língua, de levantar o véu palatal e controlar 
os movimentos dos lábios, ausência de diferenciação entre sons surdos e sonoros, voz 
rouca e baixa, frases curtas, ausência de controle fonorrespiratório, distorção de vogais 
e hipernasalidade.
disartria atáxica
O estudo das lesões cerebelares e de seus efeitos permite findar que o cerebelo regula a 
força, a velocidade, a duração e a direção dos movimentos originados em outros sistemas 
motores. Lesões no cerebelo ou em suas conexões levam à ataxia, em que os movimentos 
se tornam descoordenados. Se esta ataxia afetar os músculos do mecanismo da fala, a 
sua produção se torna alterada. O cerebelo está anatomicamente localizado na porção 
posterior do tronco cerebral, onde ocupa a maior parte da fossa craniana posterior. Este 
órgão é separado dos lobos occipital e temporal do cérebro pelo tentório cerebelar.
Os músculos afetados tornam-se hipotônicos, movimentos lentos com alteração na 
força, extensão, duração e direção. Há o predomínio de monotonia, interrupções e, às 
vezes, nasalidade e presença de lentidão na leitura e prosódia. A fala de pacientes com 
este tipo de disartria é denominada de escandida ou scanning speech, caracterizada por 
pausas depois de cada sílaba e lentificação das palavras. Estas alterações se referem à 
prosódia, que consiste em enfatizar sílabas de forma diferente da habitual. Além disso, a 
presença de movimentos hipercompensatórios afetam a direção e o controle da língua, 
o volume, o timbre da voz, provocando uma articulação espasmódica, explosiva.
As alterações da fala que emergem diante da disartria atáxica, segundo Brown, 
Darley e Monson (1970, apud MURDOCH), são: imprecisão articulatória e distorção 
de consoantes e vogais; intervalos prolongados e velocidade lenta, monopitch, 
monoloudness e voz áspera.
disartria por lesões no sistema piramidal
O sistema piramidal, responsável pelo controle motor dos movimentos voluntários e 
corticais dos membros, é formado por fibras do trato corticoespinhal, corticomesencefálico 
e corticobulbar.
Os hemisférios cerebrais inervam os músculos articulatórios bilateralmente. Uma 
lesão piramidal bilateral ocasiona uma disartria de difícil prognóstico, entretanto, uma 
lesão unilateral não acarreta disartria permanente. Neste não se verifica fibrilação de 
149
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
língua, porém ela permanece estática no assoalho bucal, o que impossibilita a adequada 
realização da função de deglutição, uma vez que a saliva escorre pelas comissuras 
labiais. Na fonação, os lábios parecem paralisados, mas apresentam mobilidade nas 
funções involuntárias.
disartria por lesão no sistema extrapiramidal
O sistema extrapiramidal está relacionado à função motora e é constituído por núcleos 
cinzentos e partes do tronco cerebral. Os principais componentes deste sistema 
são os gânglios basais situados nos hemisférios cerebrais, que contribuem para o 
funcionamento motor. Estes núcleos incluem a substância nigra, o núcleo rubro e o 
núcleo subtalâmico.
A sintomatologia presente nas síndromes extrapiramidais pode ser agrupada em dois 
segmentos: os hipocinéticos e os hipercinéticos.
Síndrome extrapiramidal é a denominação indicada para patologias que afetam 
unicamente o sistema extrapiramidal, que regula o tônus muscular necessário para 
manter uma postura ou modificá-la, organiza os movimentos associados ao ato de 
andar e facilita o automatismo nos atos voluntários que requerem destreza.
A disartria hipocinética é caracterizada por lentidão e limitação dos movimentos, voz 
monótona com monoaltura e monointensidade, articulação imprecisa das consoantes, 
diminuição dos atos espontâneos, rigidez, presença de tremor que conduz à festinação, 
bem como diminuição da tonicidade muscular, com movimentos involuntários em todos 
os segmentos corporais. A síndrome de Parkinson, por exemplo, possui um quadro 
clínico característico, como tremor, rigidez, bradicinesia e instabilidade postural, 
decorrente de lesões no núcleo de base.
A disartria hipercinética também decorre de uma alteração no sistema extrapiramidal. 
Estes movimentos são evidenciados de forma brusca e rápida do tipo coréico 
(preponderante nos membros superiores e crânio) ou lenta do tipo atetósica, 
(predominante nas porções distais e em membros superiores).
Entre as suascaracterísticas, verifica-se anormalidade dos movimentos involuntários, 
rigidez muscular e perda das reações posturais, redução nos movimentos articulatórios 
com lentidão no percurso do músculo, rigidez, tremores e perda dos movimentos 
automáticos.
150
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
Contribuição fonoaudiológica
O fonoaudiólogo é um profissional importante na reabilitação das disartrias, tendo em 
vista a sintomatologia apresentada por estes sujeitos, especialmente no que se refere às 
já citadas alterações funcionais de respiração, fonação e articulação.
O fonoaudiólogo deve proporcionar a melhora na inteligibilidade da articulação da 
fala, ao reduzir o deficit de comprometimento articulatório, desenvolver estratégias 
compensatórias dos acometimentos da respiração, fonação e articulação e facilitar a 
comunicação com os familiares e cuidadores.
É importante que os cuidadores e familiares sejam orientados a dar atenção integral 
ao paciente, escolher o melhor ambiente e hora para conversar, olhar sempre para 
o disártrico, evitar comunicação em longa distância, deixar o disártrico calmo para 
repetir as palavras e frases mal elaboradas e não interromper os turnos do discurso. Se 
não entender, pedir para que repita a frase, deixando-o concluir seu pensamento, no 
intuito de evitar que ele sinta que alguém fala por ele, o que pode acarretar baixaestima, 
perda da sua identidade, enquanto ser falante e eficaz.
A terapia consiste no emprego de técnicas específicas em que a articulação, respiração, 
fonação e ressonância deverão ser reabilitadas de forma que o disártrico tome consciência 
da alteração na sua comunicação, no intuito de propiciar um melhor autocontrole, para 
depois haver a correção das alterações.
O tratamento fonoaudiológico deverá ser iniciado o mais breve possível, visando 
à motivação para a terapia, bem como impedir a eclosão de padrões articulatórios 
incorretos.
151
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
fonte: <http://books.google.com.br/books?id=Glun0u_iKYkC&pg=pA744&lpg=pA744&dq=disartrias&source=bl&ots=3kcG6rZ
2Jk&sig=__qAKqfExqfejlWrmfwllgdrNMg&hl=ptbr&sa=X&ei=XrJju9fyfMuOyATpoYlQCw&ved=0CHwQ6AEwCTgK#v=onepage
&q=disartrias&f=false>
 
 
152
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
 
 
 
153
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
 
 
 
fonte: ligia Motta. <http://www.ccmeventos.com.br/palestras%20pEC-puC%20M%f3dulos%20IV%20e%20V/dra.%20
l%Edgia%20-%20fonoaudiologia.ppt> 
154
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
intervenção terapêutica na disartria
Avaliação
A avaliação das disartrias/disartrofonias deve englobar protocolos de avaliação de 
motricidade orofacial, podendo ser utilizados protocolos elaborados pelo terapeuta 
com base na literatura ou os já descritos neste material. 
A avaliação vocal completa engloba análise perceptivo-auditiva e análise acústica de 
fala e voz, sendo que esse último recurso também pode ser utilizado como estratégia de 
biofeedback nas sessões de terapia. 
terapia
A intervenção terapêutica vai focar-se nos aspetos que se encontrarem alterados.
Existem vários tipos de disartria e a intervenção será conduzida em consonância com 
as potencialidades e dificuldades de cada utente. A intervenção pode, portanto, focar-se 
na reabilitação de uma ou mais das seguintes áreas.
 » Fonação (aumento da qualidade vocal)
 » Ressonância (adequação da nasalidade da fala)
 » Prosódia e ritmo da fala (adequação das características suprassegmentais 
da fala)
 » Articulação e inteligibilidade da fala (muitas vezes implica uma reabilitação 
motora dos órgãos fonoarticulatórios – lábios, língua, mandíbula, palato)
 » Respiração (aumento do suporte e coordenação respiratória para a fala)
O planejamento terapêutico deve ter enfoque na postura corporal geral e específica, 
buscando alinhamento biomecânico que favorece a fonoarticulação, o aprimoramento 
do tônus e a mobilidade de lábios, língua, mandíbula e bochechas uni ou bilateral, 
bem como o aprimoramento da articulação da fala, sendo que a forma e a função são 
trabalhadas simultaneamente. 
Ao final do processo terapêutico, devemos observar o aperfeiçoamento da postura 
corporal, com diminuição da tensão e rigidez muscular de ombros e pescoço; adequação 
da tensão e mobilidade dos lábios, língua e bochecha e aprimoramento da mímica 
facial espontânea e orientada; adequação na tensão da musculatura facial, diminuição 
da assimetria facial, melhora na inteligibilidade de fala e adequação dos parâmetros 
155
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO │ UNIDADE II
vocais: qualidade vocal, ressonância, coordenação pneumofonoarticulatória e 
respiração. E maximização da utilização das estruturas fonoarticulatórias e das funções 
neurovegetativas. 
Estudos apontam para a importância da intervenção fonoaudiológica na área de 
Motricidade Orofacial em pacientes com disartria/disartrofonia, visto que há uma 
melhora significativa nas estruturas e funções do Sistema Estomatognático e, 
consequentemente, na qualidade de vida e comunicação dos pacientes. 
Diante dos hábitos de vida, do meio ambiente favorecendo distúrbios 
respiratórios e hábito alimentares, qual a relevância do Fonoaudiólogo ser 
especialista em MO?
<http://anais.unicentro.br/sec/isec/pdf/resumo_69.pdf>
<http://www.fo.ufu.br/sites/fo.ufu.br/files/Anexos/Documentos/Anexos_
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estomatognatico.pdf>
156
UNIDADE II │ AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
“Se os seus sonhos estiverem nas nuvens, não se preocupe, pois eles estão no lugar 
certo. 
Agora construa os alicerces.”
(Shakespeare)
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