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EXPRESSÃO PLÁSTICA Amanda Guimarães Rodrigues Agenciamento Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Conceituar agenciamento em design de interiores. � Reconhecer os princípios de agenciamento na composição espacial. � Desenvolver composições de espaços utilizando os princípios de agenciamento. Introdução Os ambientes ou os espaços são projetados conforme inúmeros fatores, um deles é o agenciamento. Agenciar um espaço é promover a comu- nicação dos elementos desse ambiente por meio de alguns princípios e da disposição geométrica. Essa relação promovida pelo agenciamento determina como os elementos serão dispostos, de acordo com suas funções e as necessidades expostas pelos usuários. Para que uma composição espacial seja efetiva é importante conhe- cer os princípios do agenciamento e saber utilizá-los. Esses princípios proporcionam a criação de um ambiente harmonioso, aconchegante e equilibrado; porém quando não são usados da forma correta, os am- bientes podem transmitir caos e monotonia. Neste capítulo, você vai estudar a definição de agenciamento na área de design de interiores e a sua utilização, também aprenderá a reconhecer os princípios do agenciamento que norteiam a composição espacial e ainda vai aprender a compor ambientes com o uso desses princípios. Agenciamento em design de interiores Quando você observa um ambiente, todos os sentidos (visão, olfato, tato, paladar e audição) são ativados. Nessa apreciação, também é possível perceber a ativação das suas memórias afetivas e históricas. A partir desse momento, aquele ambiente pode lhe passar a sensação de conforto, de felicidade, de ruído ou de mau cheiro. Essas sensações são acionadas pelo seu inconsciente, mas também pelo modo como esse ambiente foi agenciado. O que é agenciar? Agenciar ou ordenar é distribuir os elementos ordenadamente e de modo harmonioso. De forma geral, essa ordenação é feita com base na geometria. A geometrização é percebida tanto em ambientes ortogonais quanto em ambientes de composição mais orgânica. É por meio dela que existe toda a criação do espaço e, como consequência, a composição dele, o que proporciona uma sensação de ordem. Por isso, muitas vezes, o agenciamento é também denominado ordem ou ordenação da forma. O agenciamento não depende somente da geometrização regular, mas também das circunstâncias em que os elementos do ambiente foram dispostos entre si e o espaço disponível. O principal objetivo da ordem é proporcionar um ambiente harmonioso e funcional. Ching (2008) afirma que a maneira como a arquitetura de interiores pode enaltecer iniciativas, trazer respostas e comunicar significados é determinada pela organização e ordem dos elemen- tos e do espaço das formas, e que entender a linguagem expressa por esses elementos favorece a resolução de problemas. Para agenciar é necessário conhecer o espaço disponível, o tamanho, a ventilação, a iluminação e os anseios dos usuários desse espaço para que se possa encontrar a melhor solução com a inserção dos elementos de decoração essenciais. Um exemplo de agenciamento de espaço é a observação da relação figura e fundo entre a forma desses elementos e o espaço. Ching e Eckler (2013) dizem que tanto o espaço quanto o elemento podem dominar esse relacionamento e que é fundamental que se tenha a capacidade de perceber os outros elementos como parceiros semelhantes nessa relação. Agenciamento2 Para melhor visualizar a situação descrita, imagine a relação de figura e fundo entre cadeiras e mesas quando são dispostas em um espaço (Figura 1). Ching e Eckler (2013) afirmam que a cadeira em um ambiente, além de preenchê-lo, cria também uma relação espacial com o lugar ao redor, e que é necessário também observar a forma do espaço depois que a cadeira passou a fazer parte daquele ambiente. Esse funcionamento também ocorre com os outros elementos que serão inseridos. Essa relação se multiplica e organiza e define a forma espacial. Figura 1. Relação figura e fundo entre elementos dispostos em um espaço. Fonte: Ching e Eckler (2013, p. 357). Espaços e agenciamento Agenciar em design de interiores também é conhecer e ter a capacidade de reconhecer a organização dos espaços e as diversas maneiras de ordená-los, já que os projetos de interiores costumam envolver diversos ambientes. Existem algumas maneiras de os espaços se relacionarem entre si. Ching e Eckler (2013) destacam alguns deles: � um espaço dentro do outro; � espaços intersecionados; � espaços adjacentes; � espaços conectados por um terceiro espaço. 3Agenciamento Um espaço dentro do outro Observe as possíveis configurações na Figura 2. Nessa situação, um espaço envolve outro de menor dimensão. Esse tipo relação sugere um campo tri- dimensional sustentado pela diferença dimensional perceptível entre os dois espaços. Caso houvesse um aumento do espaço envolvido, ele se tornaria uma pequena camada e a ideia de tridimensionalidade seria perdida. Figura 2. Representação de um espaço dentro de outro e o resultado que apresenta quando há diferenciações nas dimensões do espaço envolvente. Fonte: Ching e Eckler (2013, p. 127). Espaços intersecionados Essa relação é resultante da sobreposição de duas partes dos espaços, que cria uma zona comum compartilhada. Tal configuração permite a individualidade e a limitação de espaço. Porém, o arranjo que resulta das partes intersecionadas fica sujeito a perspectivas diversas. Observe esse tipo de relação na Figura 3. Agenciamento4 Figura 3. Representação de espaços intersecionados Fonte: Ching e Eckler (2013, p. 128). Espaços adjacentes Relação comumente encontrada que permite aos espaços a comunicação entre si, mesmo preservando sua independência. Essa relação de sequenciamento visual e do espaço é dependente da origem do plano que une e que separa os dois espaços. Observe esse tipo de relação na Figura 4. Figura 4. Representação de espaços adjacentes e o plano que os separa e os une. Fonte: Ching e Eckler (2013, p. 130). 5Agenciamento Espaços conectados por um terceiro espaço Esse tipo de relação ocorre quando dois espaços podem se relacionar ou se conectar por um terceiro espaço, conforme a Figura 5. Esse espaço interme- diário interfere na relação visual e de espaço entre os outros dois e também pode diferir em algumas características, como forma e orientação, com o intuito de se firmar como vínculo. Figura 5. Representação de espaços conectados por um terceiro espaço. Fonte: Ching e Eckler (2013, p. 132). Princípios de agenciamento na composição espacial O manuseio de inúmeros elementos em um ambiente proporciona a criação de diversas atmosferas que podem transmitir sensações de luminosidade, de dinamismo, de aconchego, etc. Essas características estão interligadas à forma e aos princípios de ordem como variedade, unidade, ênfase, proporção e equilíbrio aliados aos elementos de design como cor, textura, iluminação que são dispostos no ambiente. A ordenação sem diversidade acaba criando um ambiente monótono e a diversidade sem ordem pode transmitir o caos. Os princípios de ordenamento são artifícios visuais que permitem que ambientes e formas possam conviver tanto em relação à apreensão quanto à definição de um conjunto ordenado, harmonioso e unido, são eles: Agenciamento6 � eixo; � simetria; � hierarquia; � ritmo; � contraste. Eixo É o princípio mais importante no agenciamento de espaços (Figura 6). Ele é uma linha reta estipulada entre dois pontos no espaço que se distribui de modo regular ou irregular. Apesar de ser imaginária, acaba se tornando uma forte ferramenta, sugerindo simetria e equilíbrio no ambiente. A disposição dos objetos em relação ao eixo ditará se a composição visual será sutil ou extremada, formal ou informal, monótona ou dinâmica. Observe um exemplo em um ambiente na Figura 7. Figura 6. Configuração do eixo: possui comprimento e direção, suasextermidades devem terminar em um espaço ou forma, pode ser determinado por linhas ou planos que definem um espaço linear que coincide com o eixo ou pode ser determinado por simples arranjos simétricos dos elementos. Fonte: Ching e Eckler (2013, p. 152). Como um eixo é em essência linear, ele tem comprimento e dureção, induz ao movimento e promove vistas ao longo de seu percurso. Por de�nição, um eixo deve terminar, em ambas as extremidades, em uma forma ou espaço signi�cativo. A noção de eixo pode ser reforçada por limites laterias ao longo de sua extensão. Esses limites podem ser meras linhas no plano do solo ou do piso (o plano-base) ou planos verticais que de�nem um espaço linear que coincide com o eixo. Um eixo também pode ser estabelecido por meio de um simples arranjo simétrico de formas e espaços. 7Agenciamento Figura 7. Ambiente configurado por um eixo. Fonte: Photographee.eu/Shutterstock.com. Simetria Simetria é a disposição de diferentes partes de uma forma ordenada e corres- pondente. Para se configurar, é necessária a existência de um eixo ou centro em que ela é estruturada. Como já visto, um eixo se forma a partir de dois pontos, já a simetria exige a disposição equilibrada dos elementos em ambos os lados do eixo ou do ponto divisor. Existem dois tipos de simetria: � simétrica — é aquela em que a disposição dos elementos se dá de forma equilibrada nos dois lados, de modo que o eixo divida o total em partes semelhantes; � assimétrica — é aquela em que a divisão do todo se dá de forma radial, ou seja, as metades são divididas por um eixo passando em qualquer ângulo, desde que ele cruze um ponto central do todo (Figura 8). Agenciamento8 Figura 8. Ambiente assimétrico Fonte: Africa Studio/Shutterstock.com. A Figura 9 representa os tipos de simetria. Figura 9. Representação da simetria simétrica e assimétrica. Fonte: Ching e Eckler (2013, p. 154). 9Agenciamento Hierarquia Esse princípio indica que na composição espacial haverá elementos que serão destacados por suas formas e funções (Figura 10). Essa definição de valor é relativa e depende do papel que cada elemento irá exercer nessa composição. Para que o elemento tenha esse destaque, é importante que ele seja visível por meio de seu tamanho, formato ou pelo local em que será disposto. Figura 10. Representação da hierarquia. Fonte: Ching e Eckler (2013, p. 156). Na Figura 11, a seguir, você pode verificar as possibilidades de exposição da hierarquia por meio dos seus tipos citados anteriormente. Agenciamento10 Figura 11. Representação da hierarquia (pelo tamanho, formato e local). Fonte: Ching e Eckler (2013, p. 157). 11Agenciamento Observe um exemplo de hierarquia na Figura 12. Figura 12. Neste ambiente, o sofá é o elemento principal. Fonte: united photo studio/Shutterstock.com. Ritmo É qualquer movimento resultante da padronização de motivos (linhas, contor- nos, formas e cores) dispostos de modo regular ou irregular (Figura 13). Esse movimento é percebido pelos olhos, à medida que se acompanha a sequência desses elementos. O ritmo acaba incorporando o princípio da repetição como meio de ordenação dos elementos no ambiente e pode ser classificado em: � ritmo monótono — os motivos são dispostos em intervalos iguais e constantes; � ritmo dinâmico — os motivos iguais são apresentados em intervalos diferentes ou motivos diferentes apresentados em intervalos iguais. Agenciamento12 A Figura 14 apresenta exemplos de ritmo monótono e dinâmico. Figura 13. Configuração de ritmo. Fonte: Unconventional/Shutterstock.com. Figura 14. Ritmos monótono e dinâmico. Fonte: Botond Horvath/Shutterstock.com e David Pereiras/Shutterstock.com. 13Agenciamento A Figura 15 apresenta um exemplo de ambiente com ritmo. Figura 15. Ambiente com ritmo. Fonte: zhu difeng/Shutterstock.com. Contraste Esse princípio é definido como contraposição, comparação ou diferença entre os elementos. Ele pode ser expresso por meio da combinação e da relação de formas, cores, dimensões, texturas, posição desses elementos em um espaço determinado, buscando a harmonia entre eles. O contraste faz referências aos estímulos sensoriais, destacando os elementos participantes da composição por oposição ou diferença. Agenciamento14 Observe um exemplo de contraste na Figura 16. Figura 16. Ambiente com contraste. Fonte: Photographee.eu/Shutterstock.com. Composição de espaços segundo os princípios de agenciamento Compor um espaço é unir os conceitos do mundo do design de interiores com os anseios do usuário e as sugestões do designer. Umas das ferramentas para ajudar na criação do projeto é a utilização dos princípios de agenciamento: eixo, simetria, ritmo, hierarquia e contraste. Para aplicar esses princípios em um projeto, é fundamental realizar um prévio questionário com os usuários para saber dos gostos e desejos e, posteriormente, selecionar os elementos que irão fazer parte do ambiente. Após essas etapas, o designer de interiores poderá relacionar as carac- terísticas do espaço com as atividades que serão desenvolvidas nele. Ching e Eckler (2013) afirmam que essa concepção do espaço deve atender tanto aos critérios funcionais quanto os estéticos e os apresentam no Quadro 1, a seguir. 15Agenciamento Fonte: Adaptado de Ching e Eckler (2013). Critérios funcionais Critérios estéticos Agrupamento de mobiliário conforme atividades específicas Orientação apropriada em relação à luz, à vista ou a um foco interno Dimensões e afastamentos adequados Escala apropriada à função Distâncias sociais apropriadas Agrupamento visual: unidade com variedade Privacidade visual e acústica correta Leitura de padrões geométricos em planta baixa Flexibilidade ou adaptabilidade adequada Forma, cor, textura e padrão Iluminação apropriada e outros serviços elétricos ou mecânicos Orientação apropriada em relação à composição tridimensional: ritmo, harmonia, equilíbrio Quadro 1. Critérios funcionais e estéticos Definidos os parâmetros, o projeto segue com a criação de algumas pos- sibilidades, por meio dos rascunhos de organização do espaço, seguindo os critérios dos princípios de agenciamento (Figura 17). Esses desenhos devem explorar as inúmeras organizações possíveis para o ambiente, para se chegar à opção mais adequada conforme solicitação do usuário. Nas Figuras 18, 19 e 20 é possível perceber alguns ambientes que seguiram os critérios funcionais e estéticos. Agenciamento16 Figura 17. Opção de organização de espaço. Fonte: artnLera/Shutterstock.com. Figura 18. Ambiente com contraste e hierarquia. Fonte: Photographee.eu/Shutterstock.com. 17Agenciamento Figura 19. Ambiente simétrico. Fonte: LEKSTOCK 3D/Shutterstock.com. Figura 20. Ambiente com ritmo. Fonte: Inna Andrushchenko/Shutterstock.com. Agenciamento18 CHING, F. Arquitetura: forma, espaço e ordem. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. CHING, F. D. K.; ECKLER, J. Introdução à arquitetura. Porto Alegre: Bookman, 2013. Leituras recomendadas GURGEL, M. Projetando espaços: design de interiores. São Paulo: Senac, 2007. GURGEL, M. Projetando espaços: guia de arquitetura de interiores para áreas residenciais. São Paulo: Senac, 2005. 19Agenciamento Conteúdo: