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Curso de Pós-Graduação Lato Sensu a Distância Psicopedagogia Pensamento Lógico Matemático – Recuperando o pensar Autor: Luciano Ferraz Servantes EAD – Educação a Distância Parceria Universidade Católica Dom Bosco e Portal Educação 2 www.eunapos.com.br SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 03 UNIDADE 1 – DESMITIFICANDO O PENSAMENTO LÓGICO MATE MÁTICO .... 05 1.1 Pensamento e raciocínio lógico matemático .................................................... 07 1.2 Aplicações cotidianas do raciocínio .................................................................. 09 1.3 Habilidades operatórias e matemáticas ........................................................... 11 1.4 Aprendizagem de matemática .......................................................................... 13 UNIDADE 2 – DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM MATEMÁTICA À CONSTRUÇÃO DOS CONCEITOS ........................................................................ 22 2.1 Comunicar e compreender ............................................................................... 22 2.2 Resolver problemas ......................................................................................... 24 2.3 Geometria na vida ............................................................................................ 28 2.4 Cálculo mental ................................................................................................... 32 UNIDADE 3 – CONTRIBUIÇÕES DE CONSTANCE KAMII ...... ............................ 36 3.1 De quem estamos falando ................................................................................ 36 3.2 Da anomia à autonomia do pensar e agir ......................................................... 37 3.3 Os tipos de conhecimento ................................................................................. 39 3.4 A importância do erro ....................................................................................... 42 3.5 As construções necessárias .............................................................................. 46 UNIDADE 4 – DO MEDO AO PRAZER .................... ............................................. 49 4.1 Dificuldades em matemáticas ............................................................................ 49 4.2 Em que residem as dificuldades ........................................................................ 51 4.3 Postura psicopedagógica e didática frente ao aprendente ................................ 53 3 www.eunapos.com.br INTRODUÇÃO Nesta disciplina vamos fazer uma incursão bastante interessante no estudo da Matemática, mas não se preocupem, vamos conhecer teoricamente uma ciência fascinante e não a complexa matemática, tão temida como disciplina escolar e, de preferência, relegada apenas aos exames probatórios e concursos. Vamos compreender o quanto há de mítico em torno da ensinagem e da aprendizagem matemática, que se torna ciência dos gênios e tormento para os que não a entendem. A fobia da matemática tem sua origem no desencontro das partes que lidam com ela, ou seja, parte está inserida no como é apresentada ao aluno, em sua fase de escolaridade inicial e outra parte em como ela é ensinada, considerando seus fundamentos e sua didática. Podemos ler um texto sem a necessidade de entendê-lo ou de interpretá-lo como se exige, fazendo amplas relações dele com um contexto mais prático e menos teórico. Contudo, na matemática esse processo não é tão simples, porque não fazemos uma operação matemática sem que esteja logicamente centrado, já que além de usar do raciocínio lógico, o resultado será sempre exato. Por isso se a matemática é uma ciência exata – porque não importa as propriedades de uma operação, o que importa é o seu resultado. Mas, mais que atingir um resultado, a matemática exige um pensar focado nos números, na condição aritmética exigida – somar, subtrair, multiplicar e dividir – bem como saber interpretar o enunciado implica compreender e situar o processo matemático. Dessa forma, compreender, ensinar e aprender matemática implica em pensar – um ato que não é simples, mas marcadamente complexo. Por isso o nome desse módulo refere-se ao recuperar o pensar, porque temos receio do que é complexo e, na verdade, diria: do que é desconhecido. No entanto, assim como outras ciências, a matemática também está sujeita a amplas relações, já que não se situa fora da realidade das pessoas e das várias atividades humanas. O que precisa é ser didaticamente melhor apresentada aos alunos, fazendo-os entender que matemática é um campo de aplicação de supra necessidade para todos, basta vê-la nas relações pessoais (na idade, no número de nossas casas, no comércio, na industrialização de produtos que adquirimos, nos tamanhos das roupas e sapatos que usamos, nos processos históricos das 4 www.eunapos.com.br sociedades que antecederam a nossa atual), como também concebê-la nas relações de trabalho (arquitetura, engenharias, química, física, contabilidade, economia, etc.) e, um pouco além nas relações com as novas tecnologias, nas quais a matemática se aplica nos hardwares, softwares, microchips, etc. Desse modo é preciso introduzir a matemática como uma ciência aplicada e necessária e, só podemos continuar a temer uma matemática que não se associa a nada, que não auxilia e não facilita processos – o que desmente sua aplicação. Portanto, espero que este módulo, assim como os demais, seja de muita riqueza para a nossa aprendizagem e, sobretudo, de aplicação na prática psicopedagógica no atendimento dos alunos e professores que ainda fazem da matemática uma ciência do medo. 5 www.eunapos.com.br UNIDADE 1 – DESMITIFICANDO O PENSAMENTO LÓGICO MATEMÁTICO Quando se fala em matemática muitas formas de pensá-la nos assolam, sendo que na maioria das vezes não a retratamos como uma importante ciência, mas uma matéria escolar complicada, que em nosso percurso escolar, nos colocou muitas vezes em risco de reprovação. Porque miticamente matemática só pode ser aprendida por gênios, ou, matemática é complexa demais. É mais fácil temê-la do que imaginar que a matemática se insere em quase todas as atividades humanas de maneira simples e que se torna parte de sistemas que simplificam determinados processos como, por exemplo, preços, medidas, tamanhos, etc. Fonte: http://migre.me/5cluW Essa forma medonha de pontuar a matemática nos leva a algumas questões: • Por que a fobia toma conta da maioria dos alunos, com exceção dos “gênios”, quando se trata de aprender matemática? • Será que o problema se centra na matemática ou em quem a ensina, no caso, o professor? • Será que o problema se centra na forma como ela é ensinada, no caso, a didática exigida? • Por que é tão difícil relacionar a matemática com outras situações, acreditando que sua especificidade é sempre mais complexa? • Por que a matemática não é entendida como uma ciência, como qualquer outra, mas uma disciplina que avalia, seleciona e exclui? • Por que a matemática tem que ser apresentada como a mais difícil, sendo que todas possuem sua complexidade? • Afinal, por que se teme tanto a matemática? Vamos tentar responder cada uma destas questões, mas é imprescindível que refutemos a ideia mítica que está em torno da matemática e aceitemos a ideia de que tudo aquilo que nos obriga a pensar nos faz resistentes. 6 www.eunapos.com.br Há muito de mítico que se tornam crenças para nós sobre a matemática, pois desde como ela nos é apresentada, até a forma como ela nos é ensinada, influenciam no modo como vamos aprendê-la, aceitá-la e desenvolvê-lano percurso da escolaridade. Para entendermos um pouco essa minha premissa e mais sobre o mítico que cerca a matemática, cito Chacón (2003, p.20), a qual faz a seguinte observação: As crenças matemáticas são um dos componentes do conhecimento subjetivo implícito do indivíduo sobre a matemática, seu ensino e sua aprendizagem. Tal conhecimento está baseado na experiência. As concepções entendidas como crenças conscientes são diferentes das crenças básicas, que muitas vezes são inconscientes e têm o componente afetivo mais enfatizado. É definido, portanto, em termos de experiências e conhecimentos subjetivos do estudante e do professor. Em outras palavras, a autora explica que só absorvemos como crenças verdadeiras aquilo que nos é mostrado como verdade, porque o subjetivo está muito próximo do nosso estado afetivo. Então, se tenho alguém que me afirma, como verdade, que algo não é simples, ou mais diretamente, que algo é extremamente complexo, já foi contido em mim o temor por aquilo que nem vi e nem aprendi. E isso é facilmente compreendido quando lembramos o contexto familiar, em que a família como primeira ensinante afirma, para a criança que deixa o grupo da educação infantil para ingressar no primeiro ano do ensino fundamental, que agora não vai mais brincar e desenhar na escola, mas aprender português e, prestar muita atenção na matemática que é muito difícil (mítico). Bem, a criança subjetivamente já internalizou o seu medo (ansiedade); se já é difícil não conseguirá aprender (afetivamente). O que gostamos, nos afinamos, nos aproximamos – nos faz sentir mais seguros, nos torna mais abertos para aprender; o oposto disso, nos torna inseguros, incapazes de entender mesmo as coisas mais simples, pois o medo nos afasta do aprender. Para muitos, a matemática é um mito, mais que uma disciplina, por isso é tratada como uma disciplina complexa, sendo que tudo que exige é o rigor de informações, porque dois mais dois, sempre será quatro, nunca mais e nem menos que quatro. A questão é que: 7 www.eunapos.com.br • o número é uma convenção objetiva – já que números não existem, mas são historicamente utilizados – e entendermos que eles são elementos sequenciais e lógicos; • dependendo das operações aritméticas que utilizamos, ou métodos que os articulam – como na estatística, por exemplo – tornam-se fundamentais para responder quantitativamente às pesquisas; que fracionados correspondem a partes de um todo; • são essenciais para fazer aplicações algébricas ou outras operações que fazem funcionar os aviões, as máquinas de radioterapia, os motores dos foguetes, os chips de computador, etc. Por essas razões, a matemática parece-nos distante, porque na verdade não a associamos à real importância que tem para tantas atividades humanas. Mas, se não a virmos como um mito, mas como uma disciplina que traz importantes contribuições para a formação, não só curricular, mas de conhecimento e aplicação humana, considerando que sua maior exigência é o pensar de forma lógica, operacional e até mesmo mecânica, teremos uma matemática sem problemas. 1.1 Pensamento e raciocínio lógico matemático O raciocínio é uma operação lógica discursiva e mental, pois trata-se de uma organização de dados, ou informações, sejam em números ou palavras, de modo que tenha um contexto, um significado e um resultado final (ou consequência). Nesse processo de organização e elaboração de um resultado, o intelecto humano utiliza uma ou mais proposições – ou hipóteses - para concluir, através de mecanismos de comparações, generalizações ou abstrações, quais são os dados que levam às respostas verdadeiras, falsas ou prováveis. Das premissas objetivas, ou exatas, ou ainda hipotéticas, chegamos ao resultado final ou conclusões. É pelo processo de pensamento ou do raciocínio lógico que ocorre o desenvolvimento do método matemático, bem como, as ciências como um todo, as quais evoluíram para uma crescente capacidade do intelecto humano em alavancar o pensamento matemático e organizar a própria lógica das atividades. 8 www.eunapos.com.br O pensamento ou raciocínio lógico-matemático é utilizado para analisar questões objetivas, ou isolar questões que deturpam a ordem exata de um resultado e, desenvolver métodos e resoluções nas mais diversas questões relacionadas à existência e sobrevivência humana, já que se aplica às várias atividades do cotidiano das pessoas, em todas as sociedades do mundo. Logo, o raciocínio deve ser considerado um dos integrantes dos mecanismos dos processos cognitivos superiores da formação de conceitos e da solução de problemas, sendo parte do pensamento lógico dos indivíduos. Por isso, antes de qualquer educador empreender a tarefa de ensinar a matemática é preciso levar em consideração como as crianças refletem seu entendimento sobre as configurações que, mais tarde, serão apresentadas em forma de números. Aqui se desvela a importância dos materiais concretos, das formas, das quantidades moldáveis – massa de modelar, líquidos coloridos, lápis de cor, etc. -, assim como dos desenhos, dos pontinhos, etc., que trabalham as percepções das crianças. É do concreto que se trabalhará o abstrato, dando-se oportunidades das crianças explorarem os materiais concretos e, progressivamente, desenvolverem o raciocínio lógico matemático. Nesse sentido, Arribas (2004, p.282) afirma que: Proporcionar o material mais variado possível, apresentar situações interessantes, dar o justo valor às suas interpretações, criar conflitos superáveis, estimular o raciocínio são algumas propostas que ajudarão as crianças a avançar rumo à construção do conhecimento matemático. Como a citação indica, apresentar situações interessantes é o primeiro passo para fazer com que a criança conheça a matemática, dando-lhe oportunidade de adentrar esse conhecimento, sem se assustar com essa ciência, mas explorá-la através de interpretações que, progressivamente, constroem o conhecimento matemático. As diferentes formas de apresentar a matemática, as diferentes metodologias aplicadas para a aprendizagem e conhecimento dos números, a pertinente didática que fundamenta suas operações, são os elementos mais relevantes para que a criança aprenda, de maneira significativa, a desenvolver seu raciocínio lógico matemático. Nesse sentido, Arribas (2004, p.281) ainda afirma que: 9 www.eunapos.com.br Ao selecionar os conteúdos, isto é, o que pode ser ensinado e aprendido, é necessário mostrar um grande respeito pela coerência interna da linguagem matemática. A organização prévia dos conteúdos é o que vai permitir apresentar a matemática de forma ordenada, relacionada e acessível, de modo que sirva para estruturar o pensamento, para interpretar e intervir na vida cotidiana e para assentar as bases do conhecimento matemático posterior. Vejamos que não se trata de apenas o professor(a) apresentar um conteúdo, mas de estar bem fundamentado – em interpretação e argumentos – para responder ao que a ideia matemática desperta no momento exato de sua aprendizagem; em outras palavras, o docente ao ensinar a matemática, ao querer construir no aluno o raciocínio lógico, deve pautar-se nos seus fundamentos, tendo previamente uma organização dos conteúdos em acordo com a linguagem matemática. Isso significa não só dar um sentido ao que se aprende, mas ao porquê de sua aprendizagem, tendo em vista que a matemática está implícita na realidade dos alunos. Não estou falando aqui de contextualizar a matemática, estou falando que a criança na sua fase inicial de escolarização precisa conhecer uma matemática essencialmente real e próxima de sua vida. O contextualizar será uma metodologia interessante quando o aluno, além do raciocínio lógico, já estiver na fase das operações concretas, reconhecendo a aritmética processuale científica. 1.2 Aplicações cotidianas do raciocínio A matemática não é apenas uma disciplina que nasce na sala de aula, mas bem antes dela porque, com já o disse antes, faz parte de muitas atividades humanas. Piaget foi um dos estudiosos que mais contribuiu para que viéssemos reconhecer que a lógica e a matemática podem ser tratadas como formas de organização da atividade intelectual humana (CARRAHER et. col., 2001). Enquanto atividade humana, a matemática é uma forma de organizar os objetos e eventos no mundo; basta nos lembrarmos das relações que estabelecemos com os objetos que nos cercam, quando os contamos, os medimos, os somamos e até os dividimos. Nesse sentido: 10 www.eunapos.com.br • cozinhamos de acordo com a quantidade de pessoas que vão se alimentar; • nos vestimos e nos calçamos de acordo com um tamanho e uma numeração; • fazemos convites a outras pessoas, para uma festa, de acordo com o tamanho de um espaço e a quantidade que um ambiente suporta. Até mesmo nosso biológico é regulável matematicamente, pois ingerimos determinada quantidade de alimentos e de bebida suportável ao organismo. Nos tratamentos de saúde, as doses de remédios que podemos ingerir estão em função do que suporta o organismo, do contrário a medicação não faz efeito. Dentre outros tantos exemplos, assim descobrimos a matemática em diferentes situações em que se agregam pessoas, objetos e eventos. Essa premissa, no segmento da proposta piagetiana é abordada por Carraher et. col. (2001, p.14), da seguinte forma: A proposta piagetiana envolve a noção de que é o próprio sujeito que organiza sua atividade e consegue, por meio da evolução dessa organização, chegar à mudança que chamamos de “desenvolvimento do pensamento”. Piaget propõe, então, a necessidade de sabermos como o desenvolvimento das estruturas lógico-matemáticas ocorre também fora da escola, considerando, ele próprio, como simples hipótese sua descrição do desenvolvimento cognitivo por estar baseada apenas em uma cultura e, ainda assim, restrita ao estudo de sujeitos escolarizados de uma forma particular. Desse modo, apreende-se que a proposta piagetiana não se centra apenas nos aspectos culturais que envolvem o sujeito e nem na particularidade da forma como os sujeitos são escolarizados, considerando que há outros fatores que promovem a formação do pensamento matemático, sendo estes encontrados além dos muros da escola. Há duas situações que precisamos lembrar: primeiro, aprender matemática não é diferente de aprender outras disciplinas, sejam quais forem as áreas de conhecimento, porque aprender é inerente a todo indivíduo; segundo, sem dúvida, Piaget não errou em suas hipóteses, pois a formação do pensamento matemático perpassa as questões culturais e a própria forma de escolarização dos educandos, pois em alguns segmentos sociais, a matemática é apresentada na sua informalidade. Na feira livre, por exemplo, a matemática está sendo utilizada o tempo todo, por pessoas de diferentes idades, condições sociais e culturais, sendo que algumas nunca foram à escola para estudar a matemática. Então, como conseguem 11 www.eunapos.com.br dar o troco certo frente a um certo valor em dinheiro? Como sabem e interpretam os pesos, quantidades e medidas? Como sabem o valor do dinheiro e que notas servem como troco? Como analisam os números de uma balança ou o número exato de pés de alface que deve ter numa bacia? A dúzia da banana ou número de limões que tem um pacote?1 Por isso essa matemática é informal, porque não são aplicados métodos científicos para sua operacionalização. 1.3 Habilidades operatórias e matemáticas Na fase inicial da escolarização ou Educação Infantil, desperta-se na criança a capacidade de perceber as propriedades dos objetos e representar relações de cores, formas, sequências, tamanhos e espaços. O pensamento da criança é essencialmente intuitivo e está extremamente ligado à percepção e à representação simbólica, não apresentando as características de reversibilidade e anterioridade. Justamente nesse período, a criança começa então a perceber as relações espaciais ou temporais de uma configuração, sendo capaz de enumerar o que há de comum e de diferente nos objetos que ela observa, sendo de muita relevância ao educador na elaboração de ações pedagógicas para se estimular ainda mais a capacidade de observação da criança sobre os objetos e suas propriedades. Dessa forma, será interessante que o docente permita que as crianças explorem a sensibilidade tátil, percebendo as diferentes texturas, que a acuidade auditiva seja motivada pelos diferentes sons, a motricidade e a dinâmica de sua inteligência cinestésico-motora explore os espaços e ambientes, e por diferentes degustações aprimorem o paladar. Em conjunto, que ocorra gradualmente a alfabetização, permitindo que as crianças desenvolvam maneiras próprias de escrever as palavras, a partir de seus nomes, descobrindo as letras não só por suas habilidades fonológicas, mas a sequência como são escritas, formando as sílabas, as palavras, as frases e, finalmente, os textos. Desse modo, as habilidades a serem construídas, na fase inicial da escolarização ou na Educação Infantil, antes e durante o processo da alfabetização, 1 Pesquisa feita por Carraher, sobre crianças que na escola apresentavam dificuldades em aprender a matemática, sendo que as mesmas auxiliavam os pais numa feira livre, sabendo usar a matemática de forma adequada e pertinente. Por isso o nome de sua obra: Na vida dez, na escola zero. 12 www.eunapos.com.br são: observar, conhecer, compreender, comparar, separar, reunir, consultar, conferir, sendo estas as habilidades operatórias básicas, as quais progressivamente serão desenvolvidas até que o educando alcance as operações concretas, fase na qual já interpreta a matemática formal. No entanto, Arribas (2004) nos alerta que se sabemos o que é preciso ensinar, o que devem aprender e em qual nível evolutivo se encontram, poderia ser levantado o falso dilema de que ensinamos cedo demais e, com isso, as crianças não dispõem dos esquemas que permitem interpretar os conteúdos matemáticos (ensinar os números e as operações antes de chegar ao estágio das operações concretas) ou que esperamos demais e já construíram os esquemas, portanto não é preciso ensinar (ensinar os números e as operações quando adquiriram o nível operatório). No primeiro caso, se constrói um falso conhecimento matemático e, na segunda o educador teria sua intervenção didática restringida (Arribas et. col., 2004, p.282). Então, eis a questão: qual o momento certo (ou idade certa) para ensinar a matemática. A própria autora, Arribas (2004, p.282), nos responde: Na matemática, não se “ensina” a passar estágios, ainda que para observar o nível intelectual se utilizem situações experimentais carregadas de conteúdo matemático. Conhecidas as etapas de desenvolvimento intelectual, trata-se de considerá-las no momento de planejar a seleção de conteúdos matemáticos que serão propostos para sua aprendizagem, mediante uma ação educativa intencionada, em um ciclo escolar determinado. Assim, depreende-se que não há um estágio definido, nem fase escolar mais correta, mas deve-se ter um planejamento que contemple a matemática de acordo com o desenvolvimento intelectual das crianças. Isso não implica compreender que deva existir uma linearidade no desenvolvimento intelectual, já que cada pessoa tem seu desenvolvimento em função de muitos aspectos e fatores (intrínsecos e extrínsecos), pelos quais cada pessoa aprende ao seu tempo, com um grau próprio de intensidade e compreensão. Portanto, as habilidades operatórias e matemáticas surgirão para cada aprendiz ao seu tempo, ao seu curso, incluindo suas experiências;o que deve ser diferente e gradual são as formas e metodologias que o educador assumirá, 13 www.eunapos.com.br respeitando-se cada etapa de escolarização e o nível exigido em cada etapa para o desenvolvimento do conhecimento matemático. Desse modo, é fundamental que o professor antes de elaborar situações de aprendizagem, investigue qual é o domínio que cada criança tem sobre o assunto que vai explorar, em que situações algumas concepções são mais instáveis, quais as possibilidades e as dificuldades de cada uma para enfrentar este ou aquele desafio (Parâmetros Curriculares Nacionais – Matemática, 2000, p.63). 1.4 Aprendizagem de matemática Como dito anteriormente, a aprendizagem da matemática é tão importante quanto qualquer outra, já que não está à parte dos conhecimentos necessários a todo aprendiz. Nesse sentido, a relevância desse conhecimento deve ser concebida a partir das várias e amplas relações que a matemática tem com o próprio sujeito e a realidade em que está inserido. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento desse conhecimento implica o senso de coerência, projeção, previsão, abstração, elementos tais que favorecem a construção de habilidades e desenvolvimento de percepções sobre as propriedades materiais e subjetivas (preço e compra, por exemplo), que formam o raciocínio lógico-matemático. Segundo os PCNs de Matemática (2000, p.19-20): A aprendizagem em Matemática está ligada à compreensão, isto é, à apreensão do significado; apreender o significado de um objeto ou acontecimento pressupõe vê-lo em suas relações com outros objetos e acontecimentos. Assim, o tratamento dos conteúdos em compartimentos estanques e numa rígida sucessão linear deve dar lugar a uma abordagem em que as conexões sejam favorecidas e destacadas. Como um dos princípios dos Parâmetros, compreende-se que a aprendizagem da matemática está articulada sempre a um contexto no qual o aluno pode abstrair o significado, pois cada conteúdo matemático é, em sua essência (ou a semiótica) uma parte da realidade que o aluno conhece. É como, por exemplo, ensinar fração com uso de uma pizza ou uma melancia partida em partes que representam os elementos fracionados enquanto que uma pizza ou melancia inteira representa o todo. Como esse exemplo será mais fácil para os alunos visualizarem o 14 www.eunapos.com.br que são frações do que aqueles retângulos desenhados no quadro com giz, mal divididos em partes e pintados com giz colorido. Fonte: http://migre.me/5cp5N Por outro lado, sabe-se que a matemática tem alguns conteúdos que nem sempre podem ser expressos da maneira do exemplo anterior porque tratam de conhecimentos que já ultrapassaram a base simples e estão num nível mais elevado de pesquisa, característica da matemática científica composta pela álgebra linear, pelas equações lineares, entre outros. Mas, quando os educandos já alcançaram esse nível de aprendizagem, já estão em processos formativos mais avançados, caminhando para a profissionalização. Enquanto que nosso foco, nesse módulo, é a base de aprendizagem da matemática, portanto, não vamos entrar nos méritos da matemática científica. Mas, como a aprendizagem matemática ocorre nessa base? Segundo Kamii (2003), Piaget estabeleceu uma distinção fundamental entre tipos de conhecimento considerando suas fontes básicas e seu modo de estruturação: conhecimento físico, conhecimento lógico-matemático e conhecimento social (convencional): • Conhecimento físico e lógico-matemático: trata-se do conhecimento dos objetos da realidade externa, dos quais podemos extrair e perceber certas peculiaridades. A cor e o peso de uma caneta são exemplos de propriedades físicas que estão nesse objeto na realidade externa. Contudo, quando temos uma caneta azul e uma vermelha, notamos a diferença – e isto é um exemplo de pensamento lógico-matemático, pois a diferença notada é uma percepção mental, pois as propriedades físicas são passíveis de observação, mas a diferença é algo criado na mente humana e não é passível de observação, porque nasce da 15 www.eunapos.com.br percepção. Por isso o número é uma relação criada mentalmente por cada pessoa e, sua progressão nesse conhecimento acontece quando faz as relações necessárias entre as diferenças, as relações de igual, diferente e mais, quando faz a dedução e coordenação de, por exemplo, dois e dois, tipo: 2 + 2 = 4 e que 2 x 2 = 4. • Conhecimento lógico-matemático - abstração reflexiva e empírica: nesse processo dispõem-se quatro lápis, quatro balões, quatro flores e cinco borrachas e, pede-se que a criança os agrupe de acordo com seu número de elementos. Nesse caso, trata-se de uma abstração simples centrada no número de elementos; não são as propriedades dos elementos as mais importantes, mas o número de objetos. Já, na abstração reflexiva, a criança irá construir uma relação entre os objetos e agrupá-los de acordo com o número e suas propriedades, considerando tudo aquilo que representam na realidade externa, incluindo o seu número. Assim, quatro lápis azuis, cinco canetas pretas, dois lápis amarelos, três canetas vermelhas, duas borrachas e quatro balões, serão reduzidos a seus grupos comuns: (seis) lápis, (oito) canetas, (duas) borrachas e (quatro) balões. Mas, Kamii (2003, p.17) afirma que em suas pesquisas Piaget assinalou que: No âmbito da realidade psicológica da criança, não é possível que um dos tipos de abstração exista sem a presença do outro. Por exemplo, a criança não poderia construir a relação diferente se não pudesse observar as propriedades de diferença entre os objetos. Da mesma forma, a relação dois seria impossível de ser construída se as crianças pensassem que os objetos reagem como gotas d’água (que se combinam e se transformam numa gota). • O conhecimento lógico-matemático e social (convenci onal): a origem fundamental do conhecimento social são as convenções construídas pelas pessoas, ou seja, as convenções permeiam a crença de que algo socialmente construído é permanente, basta que seja aceito. Então, por exemplo, todo dia 25 de dezembro é Natal; mas, esta convenção é arbitrária, porque nem todos os povos e culturas comemoram o Natal nesse dia. Trata-se, portanto, de uma convenção arbitrária, mas aceita. A criança se depara com esta convenção e a 16 www.eunapos.com.br aceita, mas fica confusa com sua arbitrariedade, quando é ensinada – isso compõe o pensamento matemático e a noção de número. Sabe-se que 2 + 3 = 5 é a mesma matemática em todas as culturas, mas o sistema matemático não é o mesmo para todas as culturas, porque o número é apenas uma convenção, ele não existe concretamente; mas, o cinco é um resultado de uma adição, um sistema matemático, mas o número é uma convenção social que explica o sistema. Para compreender a ideia de Piaget, a autora Kamii (2003, p.25), faz a seguinte menção à teoria piagetiana: Pode-se ensinar as crianças darem a resposta correta para 2 + 3, mas não será possível ensinar-lhes diretamente as relações que subjazem a esta adição. Da mesma forma, até as crianças de dois anos podem ver a diferença entre uma pilha de três blocos e uma de dez, mas isto não implica que o número esteja “lá fora”, no mundo físico, para ser aprendido através da abstração empírica. Sabemos, assim que as convenções sociais são aceitas no seu conjunto, mas a matemática apresenta sistemas concretos, números que só são aceitos numa relação com outros objetos, os quais possuem uma relação social concreta – mas, lembrando: é a relação concreta e não os números, já que estes não são reais, mas criados na mente da criança. Dessa forma, podemos afirmar que não é simples a aprendizagem da matemática, porque o educador deve dominar, além desses fundamentos que as pesquisas piagetianas mostram, todas as outras que demonstrama importância da matemática na vida dos educandos. Exercício 1 1. A matemática é um mito, mais que uma disciplina, por isso é tratada: a) Como um elo entre o homem e suas atividades. b) Como uma ciência de loucos. c) Como um conteúdo comum. d) Como uma disciplina complexa. 2. Enquanto atividade humana, a matemática é uma fo rma de organizar os objetos e eventos no mundo porque: a) Fazemos as relações com os objetos que nos cercam. 17 www.eunapos.com.br b) Fazemos sempre uma análise das propriedades da realidade. c) Fazemos uma organização dos objetos de forma correta. d) Fazemos as relações entre os objetos e as situações cotidianas . 3. Qual o estágio ideal para ensinar matemática par a uma criança? a) Somente quando atingir o estágio operatório concreto. b) Não há um estágio definido, nem fase escolar mais correta. c) Quando a criança já souber o que é número. d) Não há uma fase ideal, mas um estágio adequado. 1.4.1 A questão da memória e as outras competências Há muitas formas de desenvolver a memória das crianças no ensino da matemática, mas, é preciso que o educador tome cuidado para que a memorização não seja apenas uma mecanização do processo. Em outras palavras, não se pode permitir ensinar aos educandos que é preciso “decorar” as contas matemáticas, porque em sua essência a memória deve se referir ao contexto operatório para que se forme e desenvolva o pensamento e o conhecimento matemático. Sendo assim, enquanto que o raciocínio é uma operação lógica, discursiva e mental -sendo que são necessários mecanismos de proposições para uma conclusão, ou seja, é preciso comparar e abstrair elementos de uma operação para se chegar a um resultado-, a memória é a habilidade de aquisição, armazenamento e evocação dos elementos necessários à operação matemática. Por isso não pode ser utilizada para decorar apenas um resultado, mas o processo de construção que leva ao resultado. Dessa maneira, não se pode exigir que os alunos decorem a tabuada, mas que percebam o processo que nela está contido como, por exemplo: 5 x 3 = 15 (o quinze é apenas um resultado que deriva de uma operação que possui processos semelhantes para se chegar num mesmo resultado) ou seja: – 3 vezes o número 5 é o mesmo que: 5 + 5 + 5 = 15 – ou ainda: 5 x 3 = 15, é o mesmo que 5 vezes o número 3 (3 + 3 + 3 + 3 + 3) será igual a 15. Nesse sentido, Smole e Diniz (2001, p.15) indicam a comunicação matemática como um meio de construção do conhecimento matemático, pontuando que: 18 www.eunapos.com.br A predominância do silêncio, no sentido da ausência de comunicação, ainda é comum nas aulas de matemática. O excesso de cálculos mecânicos, a ênfase em procedimentos e a linguagem usada para ensinar matemática são alguns dos fatores que tornam a comunicação pouco frequente ou quase inexistente. No entanto, em matemática, a comunicação tem um papel fundamental para ajudar os alunos a construírem um vínculo entre suas noções informais e intuitivas e a linguagem abstrata e simbólica da matemática. Sendo assim, a comunicação nas aulas de matemática torna-se uma metodologia de ensino e de aprendizagem interessante porque provoca entre os alunos uma interação de seus produtos de conhecimento, ou seja, verbalizando como seus processos operatórios foram construídos, descobrem conjuntamente, não só as formas mais adequadas a essa operação, mas os diferentes processos que construíram essa operação. Por esse segmento, pode-se afirmar que os alunos não serão meros reprodutores do ensino, mas conhecedores do processo, tendo autonomia para ampliar seus conhecimentos matemáticos. Contudo, a comunicação não é a única metodologia que pode ser adotada pelo educador, mas a criatividade no uso dos materiais concretos, o incentivo à percepção das propriedades dos materiais e objetos, a análise das estruturas e espaços e, outras tantas relações passíveis da observação e de desenvolvimento de conceitos, permite que os alunos desenvolvam muitas outras habilidades a partir do conhecimento matemático. Tomando cada um dos princípios fundamentais do ensino da matemática na escola, segundo os PCN’s de Matemática (2000), analisamos que as habilidades matemáticas e outras competências só poderão ser desenvolvidas se o aluno: • Construir o significado do número natural a partir de seus diferentes usos no contexto social, explorando situações-problema que envolvam contagem, medidas e códigos numéricos. Isso implica ao aluno, sobretudo, identificar e perceber as relações que a matemática tem com as várias atividades e contextos em que o mesmo se insere. • Interpretar e produzir escritas numéricas, levantando hipóteses sobre elas, com base na observação de regularidades, utilizando-se da linguagem oral, de registros informais e da linguagem matemática. Nesse sentido, o aluno terá que desenvolver a competência de 19 www.eunapos.com.br comunicação e expressão de seu pensamento matemático conquistado pela observação da realidade. • Resolver situações-problema e construir, a partir delas, os significados das operações fundamentais, buscando reconhecer que uma mesma operação está relacionada a problemas diferentes e um mesmo problema pode ser resolvido pelo uso de diferentes operações. Agora, a competência do aluno se centra na gestão de situações que estão na realidade objetiva e a qual requer ações e soluções concretas com o uso do conhecimento matemático. • Desenvolver procedimentos de cálculo – mental, escrito, exato, aproximado – pela observação de regularidades de propriedades das operações e pela antecipação e verificação dos resultados. O cálculo implica na competência de pensar matematicamente abordando os processos que requerem uma lógica, entendendo, sobretudo, as operações e não apenas seu resultado. • Refletir sobre a grandeza numérica, utilizando a calculadora como instrumento para produzir e analisar escritas. A inserção no meio tecnológico se dá pela aprendizagem da importância da tecnologia e seu uso de maneira adequada; assim, é interessante que os alunos, em fase escolar adequada, desenvolvam a competência para operacionalizar com uso da calculadora. Mas, é importante ressaltar que esse uso só deve ser inserido quando o processo cognitivo for priorizado, do contrário, haverá uma tendência dos alunos a não quererem mais fazer cálculos mentais, mas usar da calculadora para os resultados, sem falar que isso já resulta em prejuízo para o desenvolvimento do processo operatório. Fonte: http://migre.me/5cq6k • Estabelecer pontos de referência para situar-se, posicionar-se e deslocar-se no espaço, bem como identificar relações de posição entre objetos no espaço; interpretar e fornecer instruções, usando terminologia adequada. Uma das grandes implicações para a 20 www.eunapos.com.br aprendizagem da matemática é o não conhecimento pelos alunos da direcionalidade e das noções espaciais básicas que incluem o reconhecimento do próprio corpo num plano ou ambiente; então, as noções de esquerda e direita, os esquemas corporais, as noções de temporais, são elementos importantes para que o aluno saiba identificar seu corpo num espaço e suas relações com ele; geralmente, estas noções deveriam ser mais objetivadas na educação infantil. Contudo, sem generalizar, essas aprendizagens nem sempre são observadas pelos educadores dessa fase escolar. • Perceber semelhanças e diferenças entre os objetos no espaço, identificando formas tridimensionais ou bidimensionais, em situações que envolvam descrições orais, construções e representações. Como dito anteriormente, lembrando as pesquisas piagetianas, percepção de semelhante e diferente é um processamento mental, não concreto, mas que só se realiza pelas relações que o aluno faz entre as propriedades dos objetose seu número; tal competência se desenvolve no ensino ou educação do olhar, do perceber as estruturas dos objetos e suas relações com o meio. • Reconhecer grandezas mensuráveis, como comprimento, massa, capacidade e elaborar estratégias pessoais de medida. A competência de reconhecimento das medidas e sua importância aplicada aos objetos, espaços e situações, permite que o aluno tenha uma noção espacial e estrutural que lhe dará condições de aprender, de forma mais pertinente e eficaz, as formações geométricas, as quais compõem o conhecimento matemático. • Utilizar informações sobre tempo e temperatura. Nesse desenvolvimento, a competência sobre o tempo e a temperatura desenvolve as noções temporais, aquelas que dão, por exemplo, condições de um aluno ler um relógio analógico e, interpretar o estado de objetos segundo sua temperatura, incluindo as situações climáticas. Fonte: http://migre.me/5cqd2 21 www.eunapos.com.br • Utilizar instrumentos de medida, usuais ou não, estimar resultados e expressá-los por meio de representações não necessariamente convencionais. Talvez, aqui se encontre um desafio para o ensino, porque todo uso de instrumentos requer metodologias de ensino que façam o aluno não só entender como é um instrumento, mas como deve ser utilizado para dar uma medida. A pruma de medida usada pelos mestres de obras nas construções, por exemplo, ou o correto uso da régua simples. • Identificar o uso de tabelas e gráficos para facilitar a leitura e interpretação de informações e construir formas pessoais de registro para comunicar informações coletadas. É necessário desenvolver a competência de interpretação por imagens e análise de dados nos alunos, pois não há como se furtar das pesquisas que são muito empregadas na educação e nos projetos educativos, sendo práticas interessantes aos alunos para apresentarem seus resultados. Fonte: http://migre.me/5ctcT Crê-se assim, que o desenvolvimento dessas várias competências poderá fazer com que os alunos aprendam matemática e, desenvolvam o pensamento matemático nas relações mais usuais que já são conhecidas por eles.2 Portanto, pode-se desmitificar o pensamento matemático quando os professores e alunos descobrirem que a matemática não está à margem de outras aprendizagens, mas inserida nas mais diversas situações que nos são comuns, basta percebê-la e relacioná-la no seu conjunto. 2 A relevância do conhecimento prévio no desenvolvimento de novos conhecimentos é enfatizada em diferentes teorias sobre o desenvolvimento cognitivo. Por exemplo, Piaget propõe que o desenvolvimento de conceitos lógico-matemáticos ocorre quando a criança enfrente situações problemáticas e tenta resolvê-las, utilizando o conhecimento anterior de que dispõe (Schliemann e Carraher, 1998, p13). 22 www.eunapos.com.br UNIDADE 2 – DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM MATEMÁTICA À CONSTRUÇÃO DOS CONCEITOS 2.1 Comunicar e compreender A aquisição da linguagem matemática, como já vimos, tem uma relação direta com o meio em que o aluno se insere, sejam por objetos e suas propriedades, sejam por meio das situações e, até mesmo, pelas competências que, progressivamente, vão se formando conjuntamente com os conhecimentos matemáticos que são ensinados. Assim, aprender matemática está estreitamente ligado ao que se ensina e é compreendido pelo aluno, pois do contrário os conceitos matemáticos não são construídos. Todavia, a Matemática é a única ciência na qual pouco valor se dá à erudição, pois o valor de um matemático é avaliado não pelo que ele sabe, mas por sua capacidade de resolver problemas. E não é para menos: a matemática vive de problemas. Mas, no ensino da matemática, é necessário que os problemas façam sentido para o aluno, que tem que perceber e compreender o funcionamento de ferramentas matemáticas e o efeito que elas têm sobre a resolução destes problemas. Mas, comunicar o problema, simplesmente, não basta, sem que inicialmente sejam vivenciadas experiências concretas para que, gradativamente, o aluno possa chegar às abstrações. E essas experiências devem estar relacionadas ao conteúdo real do aluno e aos materiais concretos que conhece, tais como bolas, palitos, fichas, chapinhas, que devem estar à disposição para serem manipulados e organizados segundo a ordem que os compõe. Nesse segmento, a abstração será crescente, até chegar-se ao conceito matemático puro, sendo cuidadosamente dosada, de acordo com o nível de compreensão dos alunos. A capacidade de reconhecer, em situações novas, conceitos descontextualizados é o teste real da compreensão de um conceito matemático, pois é o momento em que o aluno se desliga da realidade para abstrair mentalmente as situações que um determinado problema exige – neste momento, duas situações 23 www.eunapos.com.br ocorrem: a compreensão operatória e a abstração mental pela qual se construirá o conceito matemático. Desta forma deve-se lidar com situações do cotidiano, utilizar material concreto, caminhar em direção aos conceitos matemáticos de forma abstrata, voltar a situações concretas onde os mesmos possam ser aplicados, reconhecendo em novas situações e conceitos descontextualizados. Nesse processo contínuo de desenvolvimento da aprendizagem, a linguagem matemática estará sendo despertada. Assim, deve-se entender o uso da linguagem matemática fazendo-se uma analogia desta com a Língua Portuguesa. Quando as crianças começam a se expressar usando sua própria língua fazem construções aparentemente ilógicas como “eu faz, eu di“. Ao procurar uma relação lógica no uso dos verbos, tentando regularizar os verbos irregulares, a criança comete erros já que a língua possui sua própria organização, nem sempre muito lógica, porém pertinente ao processo de aprendizagem. Gradativamente, as crianças passam a dominar a organização da língua materna, sem necessidade de correção, mas sabe-se que elas estarão atentas ao que os adultos falam para poderem se autocorrigir, o que faz acreditar que o próprio contato com a língua favorece seu uso adequado. Da mesma forma o uso correto da linguagem da matemática será adquirido pelo aluno a partir do contato com esta linguagem, sendo que o uso correto dos conceitos matemáticos desde os anos iniciais da escolarização, fará com que os alunos aprendam a lidar e usar tais conceitos nos momentos corretos. Mas, é importante ressaltar que não se deve exigir muito cedo que a criança domine a simbologia e a linguagem específica da matemática, mas sua expressão correta inicial auxiliará para que no futuro dominem essa linguagem. Os livros didáticos, nesse sentido, têm um importante papel, pois muitas vezes, determinados capítulos destes livros discutem conceitos desnecessários, sem relação uns com os outros, o que torna a aprendizagem da linguagem fragmentada e obsoleta. Um exemplo, até clássico, é o capítulo dedicado à Teoria dos Conjuntos, presente em todos os livros iniciais de matemática, como um capítulo estanque da chamada “Matemática Moderna”, que não tem relação com os demais conceitos. Aqui cabe lembrar o importante papel do educador nas relações que pode fazer permitindo que esta parte da aprendizagem da linguagem matemática não fique à deriva – estanque e desarticulado dos demais conceitos. Desse modo, há uma 24 www.eunapos.com.br enorme necessidade de renovação dos livros didáticos de matemática, modificando- se a organização deles e até revendo-se conceitos ensinados de forma errônea – apesar de que muito já se modificou nesses últimos anos. Sendo necessário que a linguagem matemática seja desenvolvida e os conceitos matemáticos adequadamente desenvolvidos, a escola precisa incorporar as novas tecnologias que nos dias atuais são muito importantes na vidade todos os indivíduos. Mesmo porque, boa parte das crianças já chega à escola com uma bagagem de informações que precisa ser levada em conta e, essa bagagem só foi conquistada graças à tecnologia – sobretudo, televisão e computador, através da Internet. Então, a imagem tem um grande poder de sedução e pode ser usada, sob diferentes formas, basta que o educador seja criativo. A televisão, os vídeos e o computador podem apresentar de forma integrada um trabalho de imagens que venha a facilitar a construção de conceitos matemáticos. Problemas do cotidiano, desafios matemáticos que precisam ser vencidos, podem ser apresentados sob a forma de imagens em movimento. A própria Geometria (os movimentos das figuras, a comparação entre elas), se torna mais clara com o uso de imagens. Este trabalho, quando bem realizado, leva os alunos à descoberta de regras sem necessidade de memorização. Embora, sem dúvida, o trabalho com as novas tecnologias facilite o trabalho do professor, não há possibilidade de substituí-lo. Ao contrário, quanto mais as máquinas se desenvolvem, mais necessária se torna a figura do professor que cada dia mais terá que se preocupar com o desafios que deve lançar aos alunos para que estes se apropriem dos conceitos matemáticos. 2.2 Resolver problemas Um problema matemático é toda situação requerendo a descoberta de informações matemáticas desconhecidas para que o aluno venha resolvê-lo. O fundamental é que o aluno tenha de inventar estratégias e criar ideias, sem perder a lógica exigida; ou seja: pode até ocorrer que o aluno conheça o objetivo a chegar, mas só estará enfrentando um problema se ele ainda não tiver os meios lógicos para atingir tal objetivo. São várias características dos problemas que se resumem assim: • sem algoritmização : o caminho da resolução é desconhecido, ao menos em boa parte; 25 www.eunapos.com.br • complexos : precisam de vários pontos de vista exigentes; a solução só é atingida após intenso trabalho mental; embora o caminho possa ser curto, ele tende a ser difícil; • exigem lucidez e paciência : para na aparente desordem vermos as regularidades, os padrões que permitirão a construção do caminho até a solução; • nebulosos : pode ocorrer que nem todas as informações necessárias estejam aparentes; por outro lado, pode ocorrer que existam conflitos entre as condições estabelecidas pelo problema; • não há resposta única : além de normalmente ocorrer de existirem várias maneiras de se resolver um dado problema, pode ocorrer de não existir uma melhor solução e até de não existir solução; ao contrário do que a Escola ensina: resolver um problema não é o mesmo que achar "a" resposta.3 Torna-se cada vez mais comum vermos nos livros de matemática elementares a inclusão de desafios matemáticos dirigidos. Tipicamente não correspondem diretamente ao material em ensino e, assim, muitos pensam que se tratam de problemas. Contudo, o mais adequado seria classificá-los como charadas ou quebra-cabeças, do tipo que apareciam no rodapé dos antigos almanaques, e que visam mais o entretenimento. Um bom problema matemático além de representar um desafio, tanto ao poder dos matemáticos como ao poder da disciplina por eles criada, também "mexe" com a matemática: faz com que a melhor entendamos, fertiliza-a e permite que possamos resolver outros problemas. Um bom problema de matemática é muito mais do que uma charada. Um ótimo exemplo é o chamado Problema de Fermat: Sendo n = 3, 4, 5, ..., mostrar que não há nenhuma trinca de inteiros positivos x, y e z verificando a equação: x n + y n = z n. Enunciado mais simples é difícil achar, contudo esse problema precisou de quase 400 anos de esforço até ser resolvido por A. Wilkes em 1995. Sua grandeza não está na dificuldade e também não está na utilidade desse resultado (que é 3 Robert Resnick (11 de janeiro de 1923 -) é um respeitado educador e autor de livros didáticos de física; nasceu em Baltimore, Maryland em 11 de janeiro de 1923 e se formou na faculdade da cidade de Baltimore ensino médio em 1939. 26 www.eunapos.com.br praticamente inexistente); ela está no fato de que as tentativas de resolvê-lo produziram ideias e problemas que fertilizam inúmeros campos: Teoria dos Números, Geometria Algébrica, etc. Procurando organizar um pouco o processo de resolução de problemas, o grande matemático George Polya (1977) o dividiu em quatro etapas, mas antes de passarmos a elas, é muito importante enfatizar que ele nunca pretendeu que sua divisão correspondesse a uma sequência de etapas a serem percorridas uma depois da outra, sem que nunca seja conveniente ou necessário voltar atrás; também não pretendeu que funcionasse como uma poção mágica. A resolução de problemas na educação infantil segue caminhos diferentes daqueles formais na abordagem tradicional da matemática nas séries mais avançadas. É necessário elaborar um ou vários processos de resolução, realizando, por exemplo, simulações, fazendo tentativas, formulando hipóteses, procurando resolver problemas mais simples para depois comparar os resultados com o objetivo de alcançar e controlar, desse modo, a evolução de seus processos de aprender. Para desenvolver as habilidades em resolução de problemas, é necessário que desde o início da escolaridade as crianças sejam desafiadas a buscar respostas para situações especialmente planejadas para isso. São as ideias matemáticas que as crianças desenvolvem na infância que formam as bases para toda a matemática que estudarão mais tarde. O sucesso da resolução de problemas depende das suas experiências iniciais. Normalmente a resolução de problemas não é abordada de maneira sistemática. Somente a partir do segundo ou terceiro ano da escolarização é que passam a constituir parte dos conteúdos ensinados; para os professores uma tarefa difícil e mal compreendida pelos alunos porque, na verdade, não são estudados como se deveria. Algumas crenças podem ser vistas com o trabalho da resolução de problemas na educação infantil por parte dos professores. Por exemplo, eles acreditam que para resolver problemas adequadamente, a criança precisa ter conceitos numéricos, podendo ser refutados através da ideia de que resolvemos vários problemas do cotidiano sem que apresentem necessariamente números. Outra crença é que para resolver problemas é necessário que as crianças sejam leitoras. Todavia, posso afirmar que saber ler não é sinônimo de incapacidade de ouvir, falar, compreender e 27 www.eunapos.com.br pensar, pois as crianças resolvem várias situações no cotidiano com tranquilidade, basta que lhes sejam apresentadas de maneira correta. Isso porque nem sempre o educador(a) sabe formular perguntas de fácil compreensão, sobretudo, para as crianças. O professor pode ser o leitor para seu aluno, e também o desencadeador para a aquisição da leitura e escrita nos alunos em fase de letramento. Muitos professores acreditam que, para resolver problemas, as crianças precisam ter antes conhecimento sobre operações e sinais matemáticos, que na verdade serão ensinados pelo professor. Para Kamii (2003), a aritmética não nasce da técnica e sim da capacidade de pensar logicamente. Deveríamos considerar que os problemas são perguntas que as crianças tentam responder pensando por si mesmas, não exigindo nada além da capacidade natural que têm de se encantar por desafios. Não se trata de considerar a resolução de problemas um conteúdo isolado dentro do currículo. O trabalho com resolução de problemas é uma maneira pela qual os alunos são envolvidos a fazer matemática, porque geralmente tais problemas estão relacionados ao cotidiano. Sob esse enfoque, a resolução de problemas na educação infantil é um espaço para comunicar ideias, fazer colocações, investigar relações,adquirir confiança em suas capacidades de aprendizagem. É um momento para desenvolver noções, procedimentos e atitudes em relação ao conhecimento matemático, auxiliando as crianças a dar sentido aos conceitos, habilidades e relações que são essenciais no currículo de matemática na educação infantil. Isso exige planejamento e, assim, o professor deve utilizar muitas e variadas fontes de problematização, desde as que surgem do cotidiano até as elaboradas e propostas pelos livros. Podem ocorrer oralmente, por escrito, podendo utilizar dramatizações, jogos, materiais diversos, literatura infantil, desenhos, escrita, etc. O desenho pode ser um importante recurso que as crianças venham a utilizar para expressar a solução por elas encontrada, como também é um meio para que elas reconheçam e interpretem os dados que o professor apresenta. Neste sentido, o desenho representaria tanto o processo de resolução de problemas quanto a reescrita das condições propostas. É forte a crença de que antes de ingressar na escola a criança não desenvolveu nenhuma forma de raciocínio matemático, sendo poucas e ineficientes 28 www.eunapos.com.br as habilidades que possui para resolver problemas. Sendo assim, a escola é o lugar onde se desenvolve o raciocínio matemático da criança pela primeira vez, porque será trabalhado de forma sistematizada e não apenas contextual. Uma das formas para fazer a matemática avançar é a formulação e a resolução de problemas, e todos os processos essenciais da matemática, como descoberta de regularidades, formulação de conjecturas, refinamento de ideias e procedimentos, são atravessados por essa atividade de resolução de problemas. O equívoco é considerarmos como problemas matemáticos apenas aqueles apresentados nos livros didáticos, que envolvem operações aritméticas, pois as crianças resolvem muitos problemas fora da escola, adotam certos procedimentos orais para a resolução de problemas. Infelizmente, a retórica da Resolução de Problemas virou um dos modismos do Sistema Escolar nos últimos anos. O resultado é o esperado: os oportunistas de plantão e os ingênuos despreparados conseguiram deturpar de tal modo o assunto que hoje podemos encontrar as atividades mais ridículas rotuladas como resolução de problemas matemáticos. Portanto, é necessário ouvirmos quem tem o real direito de falar sobre o assunto: os matemáticos produtores, os cientistas e técnicos usuários de matemática e, não as crianças as quais precisam ainda desenvolver, através de seus prévios conhecimentos, a matemática mais básica. 2.3 Geometria na vida A Geometria é um dos conteúdos mais perceptivos da matemática que, entre outras coisas, desenvolve mais o olhar do educando sobre as formas e as dimensões planas e espaciais. Mas, também é um dos conteúdos menos relegado ao aprofundamento, porque geralmente se configura como um ensino de segundo plano, ou, menos importante. Certo que nos últimos anos tem-se tentado modificar esta realidade do ensino de geometria, porém, ainda não se dá ênfase ao mesmo. Com uma introdução cada vez maior dos materiais concretos nos anos iniciais de escolarização, percebe-se que a geometria vem sendo ensinada, ainda de maneira muito tímida, já que também é muito exigente seu fundamento e, nem todo educador tem o domínio desse estudo. 29 www.eunapos.com.br Aos alunos costuma-se ensinar a matemática pelas operações mais simples passando, progressivamente, para as mais complexas, enquanto que na geometria ensinar os alunos a desenvolver a visão espacial e a percepção das formas é uma tarefa que fica à margem, aguardando que os educandos tenham todos os princípios norteadores da matemática para descobrirem, tardiamente, os conteúdos geométricos. Segundo Fainguelernt (1999, p.55), é analisado que: Fonte: http://migre.me/5cui5 A geometria na pré-escola e no primeiro grau inicia-se pela “percepção de” e “a ação sobre” os objetos no mundo exterior. Esses objetos são inicialmente percebidos no espaço, depois são observados e analisados, muitas propriedades são identificadas e descritas verbalmente, levando a uma classificação e mais tarde á conceituação. Apreende-se assim, que o estudo da geometria deve dar oportunidade aos alunos de explorar visual e perceptivamente as formas num espaço, desenvolvendo conhecimentos não só sobre o que são essas formas, mas os conceitos que nelas estão implicados. Desse modo, estudar a geometria implica na abordagem de situações relacionadas à forma, dimensão e direção. O objetivo de ensinar geometria aos alunos está ligado ao sentido de localização, reconhecimento de figuras, manipulação de formas geométricas, representação espacial e estabelecimento de propriedades. Uma base consolidada objetiva uma maior facilidade nos conteúdos, por isso, os profissionais das séries iniciais devem trabalhar de forma estruturada e planejada, levando em conta que os alunos podem questionar o porquê dos conteúdos geométricos serem depositados nas formas do material concreto. O grande problema desse ensino da matemática se divide em dois: • a sensação de que o conhecimento seja intuitivo; • e que as informações fazem parte do cotidiano do aluno. 30 www.eunapos.com.br A verdade não é bem essa, pois alguns alunos precisam ser direcionados aos aspectos perceptivos das formas espaciais e planas, pois não conseguem criar uma relação entre a geometria e o mundo ao seu redor. Afinal, é preciso lembrar-lhes que a geometria faz parte das construções, dos espaços internos e externos que compõe o nosso entorno; fazem parte das casas, prédios, ruas, paisagens urbanas e rurais, pois estão dentro de uma determinada forma, com dimensões que lhes dão regularidade, leveza e até elegância. Sem dúvida, lembraremos das esfinges e pirâmides do Egito, da Torre de Pisa, e de outros monumentos que, pelas mãos do homem, tomaram forma com uma assombrosa maravilha aos nossos olhos, sendo ela a própria geometria em sua forma estrutural. Fonte: http://migre.me/5cunG Analisando pelo lado construtivista e de acordo com as metodologias de ensino empregadas, o aluno estabelece seu espaço na medida em que o pensamento cognitivo seja colocado em ação, pois a aprendizagem da geometria exige isso. Dessa forma, os alunos que possuem um maior grau de habilidade se destacam, relacionando a geometria com outros contextos, sendo este momento em que o professor deve aproveitar os diferentes pontos de vista e opinião dos alunos, criando um ambiente de discussão de ideias, debates e formulação de novas definições, já que alguns conteúdos possuem afinidade com a geometria, como os mapas, as figuras, os sólidos, as planificações, entre outros. Por essa perspectiva, segundo Almouloud (2003, p.126-127)4, compreende-se a apreensão do conhecimento geométrico por quatro maneiras, sendo elas: • sequencial : é solicitada nas tarefas de construção ou nas tarefas de descrição com o objetivo de reproduzir uma figura; • perceptiva : é a interpretação das formas da figura em uma situação geométrica; 4 Registros de representação semiótica e compreensão de conceitos geométricos. in Machado, 2003, p.125-147. 31 www.eunapos.com.br • discursiva : é a interpretação dos elementos da figura geométrica, privilegiando a articulação dos enunciados, levando em consideração a rede semântica de propriedades do objeto; • operatória : está centrada nas modificações possíveis de uma figura de partida e na reorganização perceptiva que essas modificações sugerem. Com o auxílio dos mapas, por exemplo, o aluno utiliza formas bidimensionais no estudo de situações tridimensionais. O sentido de localização é colocado em prática e termos, como latitude, longitude e altitude, são relacionados àscoordenadas geográficas de países, estados e cidades. Por esse segmento de trabalho, Rangel (1992, p.55) já afirmava que: Não se trata, pois, de treinar “formas” em si mesmas para sustentar aprendizagens posteriores, mas apela para ação produtiva do sujeito, que, agindo sobre os fatos matemáticos e refletindo sobre as relações criadas em sua mente, torne-se capaz de postular coordenações novas em seu pensamento, melhorando e superando, portanto, suas formas atuais de conhecer, na medida em que reinventa o próprio saber matemático. Assim, pode-se dizer que as figuras e os sólidos são primordiais para o sucesso do aluno nas séries seguintes, pois todo sólido pode ser apresentado na forma de figura plana, denominada planificação, que possui como característica principal demonstrar o número de vértices, arestas e faces do sólido. Com isso a aluno está apto a classificar e nomear as figuras espaciais existentes e discutir os procedimentos a serem adotados na resolução de problemas. A junção de toda a estrutura do ensino, envolvendo os conceitos geométricos, será utilizada posteriormente na Geometria Analítica, na qual o aluno tomará conhecimento de que todas as formas possuem fundamentos e estruturação matemática. Por isso devemos incluir em nossos planos os temas relacionados ao ensino da geometria, com o objetivo de conscientizar o aluno de sua extrema importância curricular. A proposta deve ir além da manipulação de sólidos e da observação de figuras, a fim de acabar de vez com a ruptura que existe entre a aprendizagem de 32 www.eunapos.com.br representações planas e de sólidos tridimensionais, como se ambos não estivessem presentes simultaneamente na vida da criança. Exercício 2 1. A capacidade de reconhecer, em situações novas, conceitos descontextualizados é: a) O teste real da compreensão de um conceito matemático. b) A maior finalidade da aprendizagem matemática. c) A forma como não aprendemos matemática. d) É a melhor forma de ensinar a matemática. 2. Para resolver problemas, é necessário que as cri anças sejam leitoras. Isso é: a) Uma verdade do ensino, pois sem ler a criança não entenderá os enunciados. b) Uma ideologia de Piaget. c) Uma pesquisa que comprova a necessidade da leitura matemática. d) Uma crença, pois não é somente lendo que se aprende matemática. 3. A Geometria é um dos conteúdos mais perceptivos da matemática que, entre outras coisas: a) Mais desenvolve a noção de matemática sequencial, pois as noções matemáticas estão nas formas. b) Mais desenvolve o olhar do educando sobre as formas e as dimensões planas e espaciais. c) Mais torna complexa a aprendizagem da matemática. d) Mais aproxima o aluno da matemática, já que é um dos estudos matemáticos mais aprofundados. 2.4 Cálculo mental Nos dias atuais é imprescindível que as pessoas tenham o hábito do cálculo mental, pois como não utilizá-lo para prever os gastos de uma compra quando o valor estimado não pode ultrapassar o dinheiro em mãos? Como decidir entre uma compra a prazo ou à vista sem analisar os descontos sobre o produto, reconhecendo a vantagem da compra? Desse modo, percebe-se o quanto o cálculo mental é importante para as pessoas. A ideia do cálculo mental está associada à capacidade de estimar resultados ou, ainda, à rapidez na execução do cálculo. De acordo com os PCN’s de 33 www.eunapos.com.br matemática, “pode-se dizer que se calcula mentalmente quando se efetua uma operação, recorrendo-se a procedimentos confiáveis sem os registros escritos e sem a utilização de instrumentos” (2000, p.117). Neste sentido, parece que a questão central do cálculo mental pode ser compreendida na reflexão sobre a produção e utilização de procedimentos confiáveis. Contudo, não há porque afirmar que o cálculo feito com registros ou uso de instrumentos seja desconsiderado como cálculo mental. Pois os registros escritos podem, até mesmo, vir a facilitar esse processo, principalmente para a criança que ainda se encontra na fase do operatório concreto, pois ao anotar um resultado parcial pode ser que venha a facilitar a sua estratégia seguinte na busca do resultado final. Por exemplo, na soma de 32+15, o aluno pode adicionar 30+10 e registrar o resultado = 40 e, em seguida somar 2 + 5, registrando o seu resultado, = a 7; somando afinal os dois resultados para se chegar no resultado total, 47. O que importa é que cada registro seja coerente e confiável, ou seja, que seja pensado pelo sujeito que propõe esse ou aquele processo. É importante ressaltar que as estratégias e a rapidez do cálculo dependerão da idade do aluno e da qualidade das experiências matemáticas experimentadas ao longo de seu processo de aprendizagem. Sendo assim, o cálculo mental é um conjunto de estratégias de cálculo, na busca da solução de um problema matemático, sem recorrer aos procedimentos preestabelecidos do algoritmo. Trata- se, portanto de um sistema flexível, no qual podem ser usadas estratégias diferentes na solução de um mesmo problema, de forma rápida e eficiente. O cálculo mental, porém não surge de forma gratuita só pelo fato de não registrarmos o algoritmo de forma tradicional, mas exige que o aluno tenha legítimas experiências matemáticas, participando da construção de conceitos matemáticos, compreendendo as possibilidades implicadas em cada operação. Se observarmos as aulas de matemática, perceberemos que o ensino matemático, na maior parte das vezes, ainda, traduz a forma de educação nos seus modelos tradicionais. Treina-se o aluno, mecanicamente, a encontrar a resposta certa, os resultados exatos, as operações lineares por processos decorados e não apreendidos. Cabe aos alunos executar prescrições fixadas nas regras e definições “dadas” pelo professor, o qual sabe a matemática, mas nem sempre dá conta de seus fundamentos básicos. O educando assume, assim, uma posição secundária e 34 www.eunapos.com.br marcadamente passiva, depositário de conteúdos e exaustivos exercícios que mais são reproduções que a necessária aprendizagem. E isso é tão sério que se trocar os números de uma mesma operação, os alunos já não sabem mais fazer o exercício porque deduzem que o professor não ensinou aquela conta. A excessiva preocupação pela representação formal na Matemática, destituída de sua relação com o cotidiano, leva à manipulação mecânica dos algoritmos e teoremas que, por sua vez levam ao fracasso, já que atitudes cognitivamente mecânicas pouco instrumentalizam o aluno para continuar sua jornada de aprendizagem na matemática. Para Piaget, “não é o conhecimento do teorema de Pitágoras que irá assegurar o livre exercício da inteligência pessoal: é o fato de haver redescoberto a sua existência e a sua demonstração” (1978, p.60). Na excessiva valorização do produto, desconsidera-se o processo, quando na verdade é esse que aponta a condição do educando e sua capacidade de resolução de problemas. Segundo Parra (2001, p.189): Para muitas pessoas, cálculo mental está associado a cálculo rápido. Na perspectiva que adotamos, a rapidez não é nem uma característica nem um valor, ainda que possa ser uma ferramenta em situações didáticas nas quais, por exemplo, permita aos alunos distinguir os cálculos que dispõem os resultados na memória dos que não dispõem. Sabe-se assim, que não é o produto final do cálculo que importa, mas o que seu processo desenvolve cognitivamente, pois o raciocínio está ligado ao pensar cada elemento que irá compor a operação matemática. Assim, o domínio dos recursos para o cálculo indica uma aproximação com o cálculo que torne os alunos capazes de escolher os procedimentos apropriados, encontrar resultados e julgar suas validades. Aponta para o caminho da descoberta, fazendo com que o aluno possa sentir a emoção de perceber-se produtivamente ao se deparar com a soluçãoencontrada numa estratégia ainda não reconhecida antes por ele e, agora, descoberta. O professor, enquanto mediador do processo de problematização deve ficar atento sobre os caminhos apresentados durante a solução dos problemas, porque nem sempre resultados objetivos são comprovados por operações adequadas, porque pode haver erro no processo e não no resultado. Por isso, o professor não 35 www.eunapos.com.br deve adiantar soluções e nem deixar o aluno entregue a si mesmo, e sim, a partir de seus pequenos avanços, levá-lo a observar, analisar, estabelecer relações, fazer conjecturas e comprovações, orientando-o para chegar à descoberta dos conceitos matemáticos envolvidos nas atividades propostas. Quanto maior o envolvimento do aluno, desde o levantamento do problema até sua resolução, maior a capacidade de sua compreensão dos conceitos envolvidos e maiores habilidades numéricas gera para si. Por isso, a participação do educando consiste em indagar, dialogar, analisar, levantar hipóteses, propor soluções, expor seus raciocínios, observar os raciocínios dos outros, compará-los concluir sobre os mesmos, sintetizar e recontextualizar os conhecimentos construídos, sendo um ativo aprendiz. Uma vez que um dos objetivos da educação reside no desenvolvimento da autonomia dos educandos, considero que a produção de resultados de cálculo mental é de extrema importância, uma vez que ele é o resultado e ao mesmo tempo gerador de qualidades e procedimentos característicos de um aprendiz autônomo, quais sejam: flexibilidade, criatividade, capacidade de argumentação, análise, interpretação, e de própria significação, etc. Neste sentido, destaco a problematização por meio de situações matemáticas contextualizadas como estratégia didática importante porque são adquiridas algumas habilidades e competências para a matemática, tais como: • media questões-problema que desafiam os alunos para validação dos resultados; • pode-se criar um ambiente positivo que os encoraja a levantar hipóteses; • justificam seu raciocínio; • propõem e discutem soluções; • validar e debatem suas próprias conclusões. Influem, assim, na capacidade de o aluno resolver problemas, favorecendo uma melhor relação com a matemática, ampliando a compreensão dos conceitos numéricos e suscitando o surgimento do cálculo mental em diferentes níveis de acordo com o avanço e o progresso nos estudos da matemática. 36 www.eunapos.com.br UNIDADE 3: CONTRIBUIÇÕES DE CONSTANCE KAMII 3.1 De quem estamos falando Constance Kazuko Kamii, nascida em Genebra, Suíça, é uma psicóloga nipo- americana, filha de pai japonês e mãe estadunidense, viveu no Japão até os 18 anos, transferindo-se depois para os Estados Unidos, onde em 1955 bacharelou-se em Sociologia. Mestra em Educação e Doutora em Educação e Psicologia, pela Universidade de Michigan/EUA. Foi aluna e colaboradora de Jean Piaget, tendo feito diversos cursos de Pós-Doutorado nas universidades de Genebra e de Michigan, relacionados com a epistemologia genética e com outras áreas educacionais pertinentes tanto à teoria piagetiana como de outros pesquisadores. Atualmente é professora da Universidade do Alabama. Fonte: http://migre.me/5cvok Publicou diversos livros, entre os quais “Aritmética: Novas Perspectivas: Implicações da Teoria de Piaget”, “Conhecimento Físico na Educação O Pré- Escolar”, “A Criança e o Número”, “Crianças Pequenas Reinventando a Aritmética”, “Desvendando a Aritmética: Implicações da Teoria de Piaget”, “Jogos em Grupo na Educação Infantil”, “Piaget para a Educação Pré-Escolar” e “Reinventando a Aritmética: Implicações da Teoria de Piaget” entre diversos outros5, sendo que alguns destes compõem esta disciplina. Por suas grandes contribuições, sobretudo, na área de conhecimento matemático, faremos nessa unidade uma incursão sobre as principais ideias e estudos de Kamii junto às pesquisas de Piaget, considerando que não estamos estudando a matemática para sermos matemáticos, mas, como psicopedagogos entendermos as relações de ensino e aprendizagem que se realizam no desenvolvimento do conhecimento do pensamento e do raciocínio lógico- matemático. 5 http://pt.wikipedia.org/wiki/constancekamii,acessado em março de 2011. 37 www.eunapos.com.br 3.2 Da anomia à autonomia do pensar e agir Educação é isto: o processo pelo qual os nossos corpos vão ficando iguais às palavras que nos ensinam. Eu não sou eu: eu sou as palavras que os outros plantaram em mim. Como disse Fernando Pessoa: ‘Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim’. (Alves, 2009)6 A disciplina de cada um existe quando aprendemos a colocar ordem em nossas atividades, e compromissos, e em qualquer tarefa com a qual estejamos envolvidos. Disciplina não é cumprimento de horários, ou obrigações, ou aceitação de certos padrões. Isso não passa de simples interesse pessoal, motivado, na maioria das vezes, pelo desejo se obter algum tipo de vantagem, ou evitar algum tipo de constrangimento, o que dá no mesmo. Esta ordem interna se aprende, quando explicamos à criança, por que deve fazer qualquer tarefa, por mais simples que possa inicialmente parecer. Mesmo que seja o calçar de uma meia, isso deve ficar claro para ela, o porquê está fazendo aquilo; qual a função, o que se espera como resultado, quais os benefícios daquela ação. Torna-se até um momento agradável, aquele saber, o conhecer do porquê das necessidades de realizarmos uma tarefa. Assim, a criança pratica a coisa sabendo por que o faz. Desse modo, tende a se autodisciplinar no futuro. Porém, quando se trata de aprender, seja aprender muitas coisas, seja para desenvolver competências e habilidades matemáticas, é importante saber dar autonomia ao aluno para que possa, por si só, construir os seus conhecimentos sabendo o valor dos conceitos e o que significam para sua formação e aplicação na realidade em que se insere. O indivíduo aprende basicamente através de suas próprias ações sobre os objetos do mundo, e constrói suas próprias categorias de pensamento ao mesmo tempo em que organiza seu mundo. A anomia, que acontece até os três anos de idade, faz com que a criança espere que suas necessidades sejam atendidas, não é um sujeito que espera que alguém que possui um conhecimento o transmita a ele por um ato de bondade, mas faça o que ele ainda não sabe como fazer. Embora o foco de Piaget não tenha sido o educacional, suas ideias contribuíram para a compreensão de como a criança constrói o conhecimento, são elas: 6 http://umavezprofessoraprofessorasempre.blogspot.com, acessado em março de 2011. 38 www.eunapos.com.br • o objetivo de ensino deve centrar-se na criança e a partir das atividades da mesma; • a criança não aprende por repetição, mas por descoberta; • a aprendizagem é um processo construído internamente, depende do nível de desenvolvimento do sujeito e é um processo de reorganização cognitiva; • os conflitos cognitivos são importantes para o desenvolvimento da aprendizagem; • a interação social favorece a aprendizagem; • as experiências de aprendizagem devem privilegiar a colaboração, a cooperação e intercâmbio de pontos de vistas na busca conjunta do conhecimento e soluções. Portanto, o princípio de autonomia se desenvolve juntamente com o processo de desenvolvimento da autoconsciência. Autonomia é autogoverno, é “a submissão do indivíduo a uma disciplina que ele próprio escolhe e a constituição da qual ele elabora com sua personalidade” (Piaget, apud Kamii, 2001, p.95). Dessa forma, A pessoa autônoma não é aquela que faz tudo o que deseja, que se governa sem se importar com as pessoas à sua volta. Pelo contrário, o sujeito autônomosabe coordenar as regras, ideias, decisões e preferências de seu grupo social, agindo de forma harmônica. Já a disciplina é um comportamento, que corresponde ao necessário equilíbrio, organização e diálogo, para manutenção adequada das relações. Ser uma criança disciplinada, não é indicativo de criança quieta, silenciosa, atenta, centrada, sempre acessível; uma criança disciplinada brinca, corre, pula, grita, chora, briga, porque criança é criança e é assim que se comporta – tem energia para suas vivências. Mas esta criança sabe também respeitar as regras e limites que se impõem ao ambiente; sente-se segura para liberar suas energias, sem atrapalhar ou comprometer-se a si e aos demais no seu entorno. No entanto, para saber os limites e as regras, a criança requer que o adulto lhe ensine e oriente o seu processo e, isto, não reside apenas na informação que possa passar o adulto, mas nos modelos que ele expressa a partir de si, pois, a família é o modelo que a criança tem. 39 www.eunapos.com.br Por isso mesmo, sua energia precisa ser direcionada da forma correta, de forma disciplinada e equilibrada, para as coisas práticas, que lhe serão úteis, e com menor intensidade, às atividades destinadas apenas a ajudar a passar o tempo. Nessa etapa, dependendo do nível de conscientização do adulto, ela aprende a ser naturalmente disciplinada, pela correta distribuição das atividades que lhe trarão autonomia e independência, no futuro. Desse modo, o pensar deve ser autônomo e o aprendiz capaz de administrar seus conhecimentos, pois a matemática requer essa autonomia para que o aluno saiba agir com segurança e com criatividade sobre os processos operatórios. 3.3 Os tipos de conhecimento O homem, desde sempre, se viu na necessidade de explicar o mundo que o rodeia. Porém, o próprio homem percebeu que para explicar o mundo teria que conhecê-lo. Assim, percebeu que o conhecer não era um estado, mas sim um processo e, como tal, estava necessariamente relacionado com a atividade prática do próprio homem. Assim, ao analisar a construção histórica do conhecimento matemático, percebe-se que o mesmo tem sido elaborado a partir da tentativa do homem de compreender e atuar em seu mundo. Como, na Grécia Antiga, berço da Matemática, somente alguns tinham acesso ao conhecimento formal, os escribas eram considerados homens especiais, dotados de inteligência acima da média, por serem os únicos capazes de decifrar e desfrutar dos conhecimentos geométricos e aritméticos da época, que muitas vezes eram complexos, como o sistema de numeração grego e egípcio. Dessa forma, conhecer não era só possuir uma representação mental do mundo, mas também atuar no mundo a partir da representação que dele tinha. Então, faço algumas questões para ampliar nossas análises: • Será que todo o conhecimento procede apenas da experiência? • Será que alguns dos nossos conhecimentos têm a sua origem na razão? • Ou, será que todo o conhecimento resulta de uma elaboração racional a partir dos dados da experiência? 40 www.eunapos.com.br Através de alguns estudiosos7, tratarei das repostas a estas questões analisando alguns dos conhecimentos que permeiam os estudos da matemática, não só como disciplina escolar, mas como uma ciência aplicada. Pois, meu objetivo é tornar claro que no passado para aprender matemática era preciso desenvolver estes conhecimentos, já que foram linhas de pensamento matemático-filósofico. O empirismo, por exemplo, considera como fonte de todas as nossas representações os dados fornecidos pelos sentidos. Assim, todo o conhecimento é a posteriori, ou seja, provém da experiência e à experiência se reduz. Segundo os empiristas, as noções matemáticas seriam cópias mentais estilizadas das figuras e objetos que se apresentam à percepção. Já, os racionalistas consideram que só é verdadeiro conhecimento aquele que for logicamente necessário e universalmente válido, isto é, o conhecimento matemático é o próprio modelo do conhecimento. Assim sendo, o racionalismo tem que admitir que há determinados tipos de conhecimento, em especial as noções matemáticas, que têm origem na razão. Não quer isso dizer que neguem a existência do conhecimento empírico. Admitem-no. Consideram-no, porém, como simples opinião, desprovido de qualquer valor científico. O conhecimento, assim entendido, supõe a existência de ideias ou essências anteriores e independentes de toda a experiência. Todavia, o conhecimento empírico-racionalismo ou intelectualismo defende que as nossas representações são construções «a posteriori» elaboradas pela razão a partir dos dados experimentais. Assim, o conhecimento tem a sua origem na experiência, mas a sua validade só pode ser garantida pela razão. Então, as noções matemáticas são construções racionais a partir da observação dos objetos e figuras que rodeiam o homem. Decorrem de processos de abstração e regularização relativamente à irregularidade das figuras reais. Mas, por um lado, o realismo afirma que no ato do conhecimento, o sujeito consegue apreender um objeto que é independente e distinto dele. E, por outro, o idealismo defende que não é o objeto em si que conhecemos, mas o objeto tal como se nos representa. Na verdade, não podemos saber sequer se há coisas reais, transcendentes ou exteriores ao espírito ou, se pelo contrário, tudo quanto existe está no espírito. 7 Kamii (2001), Piaget (1946), Miorin (1998), Kohl (2000), Ribeiro e Silva (1973), entre outros. 41 www.eunapos.com.br Nesse sentido, a escola pitagórica muito contribuiu para esse pensamento, pois, formada por aristocratas, defendia o número como sendo a essência de tudo o que existe. Segundo Miorim (1998, p.14-15), “a escola pitagórica [...] foi responsável pela introdução da concepção, existente até hoje, de que os homens que trabalham com os conceitos matemáticos são superiores aos demais.” Hoje, percebe-se, ainda, a idéia de que poucos conseguirão apropriar-se do conhecimento matemático, que, ainda para muitos, é considerado difícil e complexo. O aluno, ao chegar à escola, já apresenta um certo temor a esse conhecimento, sentindo-se incapaz, e tal idéia é legitimada pela postura pedagógica e didática do professor, que não tem uma escuta às necessidades de seus alunos e faz questão de reforçar a heteronomia deles, não lhes propiciando um fazer, pois acredita que aprender é “saber na ponta da língua” o que foi ensinado. Fonte: http://migre.me/5cwIy Assim, sabendo que a Matemática surgiu da interação do homem com seu mundo, ao tentar compreendê-lo e atuar nele, é difícil aceitar que, conhecedoras desse percurso e de estudos como os de Piaget, os quais afirmam que a criança constrói o conhecimento através da interação com o outro e com o mundo, nossas escolas insistam em manter um ambiente “desmatematizador”. Esse ambiente é permeado pelas ideias da transmissão de conhecimentos e de que a criança, ao chegar na escola, não é dotada de saberes. Pois, se a Matemática foi elaborada a partir da atuação do homem no mundo, por que então nossas escolas não oferecem à criança a possibilidade de se apropriar do conhecimento elaborado por seus antepassados, na relação com o seu mundo? Se a Matemática é uma ciência simples e natural por que, então, considera- se que somente alguns dão conta desse saber? Ao responder essas perguntas percebe-se que é emergente a necessidade de a escola contemporânea propiciar um ambiente matematizador. Segundo Kamii “o ambiente social e a situação que o professor cria são cruciais no desenvolvimento lógico-matemático.” (2003, p.63) Então, o aprender está 42 www.eunapos.com.br relacionado ao fazer, lembrando que o ser humano é movido por desejos e é capaz de aprender tudo o que está em seuentorno, inclusive a matemática, pois um ambiente estimulador seria aquele permeado por situações, desafios, construções, e inúmeras possibilidades. Assim, ele viverá e (re)descobrirá o conhecimento, construindo-o de forma ativa e significativa, posicionando-se como parte fundamental desse mundo, capaz de promover mudanças em si mesmo e no meio que está em seu entorno. 3.4 A importância do erro O homem tem errado e continuará errando: porém, é sua capacidade para aprender com os erros, com os fracassos, o que o torna diferente das demais espécies. (La Torre et. al., 1994, p.11) O aprender com os erros é tão antigo quanto o próprio homem, mas quando se trata de escola e de aprendizagem, errar é sinônimo de fracasso, sendo que aquele que erra é fadado a não conseguir aprender, sendo marginalizado e excluído. Assim, culturalmente o erro assume o caráter de seletividade e de exclusão, pois errar não cabe aos melhores. O erro na matemática é uma dicotomia a ser analisada, porque se o resultado estiver errado, a operação está errada; mas, se o resultado estiver certo, a operação não pode estar nunca errada. Então, como julgar o certo e o errado na operação matemática. Segundo Pinto (2000, p.37): Diagnosticar e corrigir os erros não é suficiente para melhoria do ensino. Os erros contêm um potencial educativo que precisa ser mais bem explorado, não apenas pelos professores, como também pelos próprios alunos. Desse modo, a autora chama a atenção para que se analise o erro por sua base e não apenas por seus resultados. Para exemplificar a situação, lembrei-me de uma conversa que tive com um professor de matemática, há alguns anos atrás, quando me deparei com sua angústia na correção de avaliações de seus alunos. A questão que o deixava angustiado era: alguns alunos tinham chegado ao resultado que foi pedido no enunciado, mas a operação estava errada; por outro lado, alguns alunos tinham chegado ao resultado errado, mas a operação estava completamente 43 www.eunapos.com.br certa. Então, como proceder, já que se tratava de uma avaliação da aprendizagem matemática? Analisando juntos as questões, podia-se perceber que alguns alunos erraram as operações em razão, sobretudo, do excesso de informações que o enunciado do problema matemático trazia; então, havia erro de sinais e de sequência de sub- resultados, que ao final, dava um resultado correto. Então, o erro era didático e não de aprendizagem, porque o enunciado não estava claro, mas indicava o resultado mais adequado. Quanto a isso é preciso que façamos uma análise mais rigorosa e, que me perdoem a crítica: mas, há educadores que não sabem escrever um enunciado de matemática corretamente. A situação perpassa dois contextos: um de formação, porque matemáticos são formados para fazer matemática e não para escrevê-la; o outro, é que a auto- suficiência didática dos matemáticos é sua maior fraqueza, pois quantos são os educadores que dão aula voltados para o quadro, ou seja, eles fazem a matemática no quadro preto dialogando com eles mesmos e, não dão importância aos alunos presentes. Alguns professores se atrevem a “jogar perguntas no ar”, mas eles próprios respondem antes que algum aluno faça a besteira de responder. Portanto, que tipo de avaliação de aprendizagem matemática pode ser aplicada; a mais confusa, a copiada do livro, aquela que fez parte da lista de exercícios, só mudou os números, e assim por diante. A segunda questão é: alguns alunos erram os resultados, mas a operação estava correta, então o que aconteceu? Simplesmente os alunos tiveram uma maior preocupação em organizar os dados do que prever o resultado; mas, isso também é uma resposta ao excesso de informações que o enunciado trouxe. Sendo que agora, analiso esse tipo de enunciado da seguinte forma: a lógica é muito exigente, e os matemáticos também, pois na ânsia de se fazer entendido, o simples tornou-se complexo. Isso é muito comum se tomarmos aqueles educadores que se preocupam tanto em ser criativo, que se inspiram demais e complicam o conhecimento dos alunos. Bem, qualquer um dos casos merece solução, já que o meu colega matemático estava angustiado em como proceder com a correção dos erros de seus alunos. Fiz, então, a seguinte sugestão por etapas: 44 www.eunapos.com.br • faça seus apontamentos a parte das avaliações dos alunos, atribuindo- lhes conceitos relativos; • na sala de aula, devolva para cada aluno sua avaliação e, de forma individualizada peça que cada um refaça sua avaliação, sem apagar dados da primeira – ou seja, peça para que o aluno transfira os dados corretos e corrija os dados incorretos; • depois, de forma conjunta, faça com a sala a correção da avaliação; • e, por último, peça que cada aluno mostre o seu erro, demonstrando qual foi o raciocínio empregado que o resultou incorreto (ou seja, o porque dele), já que agora tem o certo para comparar. Após essa experiência, com certo teor construtivista, fui informado que o resultado foi muito melhor, pois ao ouvir os alunos demonstrando sua forma de pensar o enunciado matemático, o meu colega descobriu que os mesmos sabiam muito de matemática, porém quanto ao emprego operatório e conceitual, precisavam de orientação. A partir disso, tomou mais cuidado na formulação dos enunciados e passou a fazer as correções em conjunto, após passar por seu crivo matemático. Nesse sentido, Pinto (2000, p.35) afirma que: Estudar os erros tendo em vista o êxito escolar requer, prioritariamente, uma análise mais fina de sua produção, a partir de uma reflexão que os considere como parte integrante do processo de ensino-aprendizagem. Ao contrário de uma pedagogia tradicional, centrada na assimilação do conhecimento que o professor transmite ao aluno, trata-se de conceber a aprendizagem como um processo dinâmico, que flui em ambas direções: do aluno para o professor e do professor para o aluno. Culturalmente, é preciso saber que o erro existe porque há opção para acertar, ou não; pois, se há duas vias de suposição, podemos acertar ou errar, por isso errar é um ato humano. Porém, devemos saber interpretar e aceitar o erro como parte de nossa responsabilidade, afinal foi feita uma opção consciente. Assim, didaticamente o aluno tem a possibilidade do acerto, mas erra, sendo que será importante que ele assuma a responsabilidade sobre isso; por outro lado, precisa ser orientado ao acerto. Nesse caso, o professor é o principal mediador que eleva seu 45 www.eunapos.com.br aluno ao conhecimento necessário, ou, ao mesmo tempo o ditador, que desestimula o seu aluno e o faz sentir fracassado diante do aprendizado. Então, o papel do erro no processo de aprendizagem depende de como ele ocorre nas resoluções de tarefas, pois se o aluno já tem condições de solucionar o problema proposto, pode errar por descuido ou pela falta de informações necessárias e, neste caso, a constatação de seu erro pode levá-lo, simplesmente, a refazer o procedimento. Se a estrutura de pensamento ainda não é suficiente para selecionar estratégias de resolução, a conscientização sobre o erro pode auxiliar o aluno, mediado pelo professor, a atingir um nível de desenvolvimento superior; neste caso, o erro é “construtivo”. Se, no entanto, o aluno sequer compreende o que lhe foi solicitado, a tentativa de apresentar alguma solução vai ser barrada pelos seus limites e os erros cometidos são sistemáticos, ou seja, vão se repetir em situações semelhantes, porque ele não se sente desafiado pela atividade proposta. Portanto, o erro precisa ser analisado de maneira que o educador conheça o processo pelo qual o aluno optou para resolver a questão, para que o professor possa descobrir que tipo de conhecimento matemático foi construído. Exercício 3 1. A disciplina de cada um existe quando aprendemos : a) A sermosmais heterônomos, entendendo assim as regras e as normas que compõem a sociedade. b) A colocar ordem em nossas atividades, e compromissos, e em qualquer tarefa com a qual estejamos envolvidos. c) A cumprir horários, obrigações e a aceitação de certos padrões. d) A obedecer aos padrões, analisando o certo e o errado como convencionais. 2. Empirismo, racionalismo, realismo e idealismo, s ão: a) Formas de aprender a matemática. b) Linhas de ensino da escola pitagórica. c) Linhas de pensamento filosófico-matemático. d) Princípios do conhecimento lógico. 3. Culturalmente, é preciso saber que o erro existe porque: a) Não está certa a ação. b) Quem erra está sempre fracassado. c) Errar é humano. d) Há opção para acertar, ou não. 46 www.eunapos.com.br 3.5 As construções necessárias Um dos grandes problemas com a aprendizagem da matemática é fazer com que o aluno seja convencido de que a ciência matemática é exata, mas não complexa quando se aprende. Segundo Parra (2001), três são os motores da aprendizagem: motivação, mecanismo e resignificação. A motivação como se sabe é uma autoatitude, ninguém pode dar motivação ao outro, pois todos nós nascemos com ela. Porém, há situações que implicam na condução para que o aluno se sinta motivado. O primeiro passo para isso é que o educador derrube a ideia que os pais colocam nos filhos que, ao entrar no primeiro ano de escola – ele ou ela – os filhos deixaram de ser crianças, porque agora a escola é coisa séria – vai se aprender a ler, escrever e, o mais difícil, aprender matemática. Essa ideia já vem preconcebida de casa – a matemática é mais difícil. Por outro lado, é preciso que os educadores se preocupem, desde a educação infantil, em identificar as experiências e conceitos matemáticos que as crianças já possuem, partindo do básico: sua idade, número de sua casa, quantos irmãos tem, qual dos irmãos é o mais velho e o mais novo (sequência); quantos dias tem a semana, qual o dia do mês, quantos dedos tem a mão, e os pés; enfim, notemos a infinidade de interrogações que podemos fazer às crianças e, assim, saber como lidam com os números e saber qual importância tem esses conhecimentos para sua formação. Desse modo, creio que a motivação (ou o despertar) para conhecer e aprender os números e, gradativamente, as operações aritméticas, se desenvolve de maneira que a criança já conheça a matemática sem complicações. Nessa perspectiva, Parra (2001, p.43), afirma que: Os conhecimentos não se empilham, não se acumulam, mas passam de estados de equilíbrio a estados de desequilíbrio, no transcurso dos quais os conhecimentos anteriores são questionados. Uma nova fase de equilíbrio corresponde então a uma fase de reorganização dos conhecimentos, em que os novos saberes são integrados ao saber antigo, às vezes modificado. Portanto, a construção do conhecimento ou do pensar matemático pelo aluno não se inicia pelo racionalismo, mas pelas experiências prévias, que desenvolveram 47 www.eunapos.com.br nas crianças seus conhecimentos matemáticos pelo senso comum, o que mais tarde será um viés necessário para conhecimentos mais sistematizados da matemática. O mecanismo , por sua vez, será incitado através de um aporte de conhecimentos matemáticos que serão construídos após os alunos terem aprendido além dos conceitos, as noções numéricas: a sequência, a reversibilidade, as seriações e permutas, estando já acostumados a lidar com as operações. Assim, os exercícios aplicados pelo educador têm a função de incitar o mecanismo matemático dos alunos. Mas, vale ressaltar que mecanismo matemático não é, e não pode se tornar, uma postura mecânica de aprendizagem; ou seja, na matemática os mecanismos de conhecimentos implicam na aprendizagem das operações no sentido de processo – é o porquê dos resultados, da ordem dos números, da exatidão; já a postura mecânica torna o aluno despreocupado com a operacionalização, porque o sentido é “decorar” a operação e o resultado, sem entender o processo no seu todo. É certo afirmar que tanto o mecanismo como a postura mecânica implica no uso pelo aluno da memorização. A memória é essencial para a aprendizagem, é por ela que se retêm as informações e, ao mesmo tempo, as organiza para que possamos utilizá-las da forma adequada, desde que as informações nos sejam comuns e cotidianas, do contrário, a memória armazenará a informação, mas o seu uso ficará em função da evocação. Porém, a diferença fundamental entre desenvolver (despertar) o mecanismo matemático e utilizar-se da memória mecânica é que, enquanto o primeiro é um processamento de aprendizagem, no qual se insere a necessidade de compreensão do processo, a segunda apenas mantém, temporariamente, as informações, para depois esquecê-las. Por isso muitos alunos, na maioria das vezes, esquecem determinados conteúdos após uma avaliação, pois apenas os decoraram para fazer a prova. Por fim, a resignificação trata-se da aprendizagem da matemática de maneira dinâmica e articulada, pois usa das situações e problemas que estão inseridas no cotidiano do aluno, porém, agora são conhecimentos que exigem maiores aprofundamentos e sistematização. A matemática agora é mais científica - operacional e racional – estou falando dos estudos das equações e inequações, dos 48 www.eunapos.com.br estudos das potências e raízes, da proporcionalidade em geometria, da interpretação de gráficos com informações cruzadas, etc. Para esse motor de aprendizagem, é importante que o aluno tenha condições de articular a matemática às situações reais e problematizadas, tendo o objetivo de solucionar o problema. Assim, resignificar implica aprender com mais sistematização, não abandonando o senso comum da realidade, mas dando a ela (e suas situações) um significado mais científico, de forma que agora não se trata de um tímida informação, mas de uma situação com propriedade de conhecimento. 49 www.eunapos.com.br UNIDADE 4 - DO MEDO AO PRAZER 4.1 Dificuldades em matemáticas Nesta unidade vou fazer uma articulação entre teóricos, que nas unidades anteriores contribuíram para o nosso estudo, e, as práticas pedagógicas que muito deixam a desejar quando se trata da didática do ensino da matemática. Há alguns anos tive a oportunidade de ser convidado para fazer parte de uma banca examinadora de didática – em matemática. A minha tarefa era analisar a postura e o discurso de docentes que concorriam a uma vaga para lecionar no Ensino Fundamental II, como professor de matemática. Além da minha participação como mestre em educação, estavam presentes mais dois avaliadores – sendo um mestre em matemática e o outro mestre em didática, todos nós com o mesmo nível de formação, ou seja, habilitados para essa tarefa. A prova era composta pela apresentação de uma aula de matemática, sendo o conteúdo escolhido livremente pelo candidato, o qual tinha 40 minutos para fazer a regência de uma aula de matemática. Dos nove candidatos, apenas uma professora apresentava o perfil para compor vaga de docente de matemática. Nela, alguns diferenciais essenciais para lecionar matemática: sorriso nos lábios e nos olhos; empatia na fala; linguagem simples e objetiva; enfática no conteúdo e dominando seus fundamentos. As minhas reflexões ante os demais candidatos foram: por que professor de matemática é sempre “emburrado” (mal humorado)? Para se fazer respeitar, ou, para que os alunos temam a matemática? Aliás, essas questões foram partilhadas de forma recíproca na banca examinadora, porque chamou a atenção de todos. Dessa forma, posso sugerir que a postura do professor de matemática tem uma influência direta sobre como o aluno se comportará frente a aprendizagem da matemática, pois há condições afetivas que podem promover uma aproximação dos conteúdos, buscando as afinidadesnecessárias para o seu desenvolvimento no pensar ou raciocinar de forma lógica. Segundo Chacón (2003, p.23): A relação que se estabelece entre afetos – emoções, atitudes e crenças – e aprendizagem é cíclica: por um lado, a experiência do estudante ao aprender matemática provoca diferentes reações e influi na formação de suas crenças. Por outro, as crenças defendidas 50 www.eunapos.com.br pelo sujeito têm uma consequência direta em seu comportamento em situações de aprendizagem e em sua capacidade de aprender. Essa premissa pode ser assim representada: Figura 1 - Diagrama do domínio afetivo em matemátic a Fonte: Chacón (2003, p.23) A partir dessa estrutura acima, a autora nos chama a atenção para o importante papel que deve desempenhar o professor, levando em conta que sua postura e sua didática (a forma como ensina) têm influência sobre o comportamento do aluno frente ao aprendizado da matemática. Gostar implica numa relação de afeto e tem ligação com prazer, e o inverso disso, com o medo e a resistência, pois é normal reagirmos com medo de tudo aquilo que não compreendemos, e que nos afasta por acharmos que somos incapazes de entender. Dessa forma, o prazer e o medo da matemática têm relação direta com o nosso afeto, o qual, por sua vez, está relacionado com a maneira de apresentar a matemática. Modificação das crenças individuais sobre a matemática e sobre si mesmo em relação à matemática. A Crenças sobre a matemática e sobre si mesmo em relação à matemática. C Atitudes positivas e/ou negativas para a matemática ou partes da matemática. COGNIÇÃO + estabilidade resposta - intensidade resposta Limite “frio” de AFETO Limite “quente” de AFETO - estabilidade resposta + intensidade resposta Respostas individuais a novos estímulos associados com a matemática: problemas, atuações do professor, etc.. B Reação EMOCIONAL positiva e/ou negativa para um novo estímulo O indivíduo encontra- se, repetidamente, com situações similares 51 www.eunapos.com.br Façamos a seguinte analogia: vamos ser apresentados a alguém que não conhecemos; o nosso interlocutor não dá bons referenciais sobre a pessoa, ou, não sabe descrevê-la positivamente. Ao estarmos diante da pessoa desconhecida, a nossa reação primária é não sermos simpáticos e, imediatamente, nos afastamos para evitar conversa com ela. O que acontece? A matemática não foi bem apresentada, porque me disseram que ela é difícil, complexa; então, por que tenho que conhecê-la (aprendê-la)? É melhor não me aproximar, não vou conhecê-la mesmo! Percebem? A matemática é uma disciplina que, como qualquer outra, traz suas complexidades, até que possamos internalizá-la, sem medo, compreendendo seus processos, sem receio da operação, porque é o processo que nos leva ao resultado e não ao contrário. Porém, todo aprender depende de duas pessoas, numa relação de reciprocidade, pois, alguém tem que ensinar para outra aprender. Portanto, o professor é o melhor material didático de seu aluno quanto à aprendizagem da matemática, sendo o mediador mais pertinente, basta que ele próprio seja um aprendiz dessa ciência. 4.2 Em que consistem as dificuldades As dificuldades residem no desconhecimento do educador quanto ao seu papel de mediador da aprendizagem, pois o aluno não sabe tudo quando chega à escola. O aluno tem muitas informações, mas não as conhece operacionalmente, ou seja, é fácil, por exemplo, afirmar que chove, mas por que chove? Se o aluno fosse detentor da operacionalização de todas as coisas à sua volta, a escola seria totalmente dispensável, inclusive o professor. Dessa forma, é ledo engano achar que o aluno vai aprender de maneira simples e rápida a matemática, mas ao seu turno, aprenderá em conformidade ao que lhe é ensinado. A problemática do ensino da matemática reside na formação dos professores, pois ainda é observável o número de alunos que procuram os cursos de licenciatura porque são de baixa renda, precisando trabalhar para seu sustento e, não podem se dedicar a cursos em outros horários, podendo estudar apenas no período noturno. Assim, deixam de ser médicos, engenheiros, odontólogos para serem professores, esquecendo que operam, constroem e mexem com o discurso dos alunos que 52 www.eunapos.com.br passarão por seus domínios. Outros adentram nos cursos de licenciatura porque não sabem o que querem, ou porque acham a licenciatura um “curso trampolim” – de mais fácil entrada na universidade e, assim, podem transferir para os cursos que lhe sejam mais convenientes. Porém, qual o tamanho ou dimensão da responsabilidade de quem ensina, seja matemática ou qualquer outra disciplina? A primeira é aceitar sua condição de mediador da aprendizagem. E nessa expectativa, Parra (2001, p.66), pontua que: Aceitar tornar-se responsável pelos meios individuais de aprendizagem do aluno (o sujeito cognitivo) exigiria: - uma modificação completa do papel do professor e de sua formação; - uma transformação do próprio conhecimento; - outros meios de controle individual e social do ensino; - uma modificação da epistemologia do professor, etc. Dessa forma, muitos ainda se tornam professores e, não sabem o que vão fazer com isso. Então, alguns professores se preocupam de que seus alunos aprendam a matemática e, outros, apenas de que saibam matemática. Há uma diferença entre essas duas perspectivas, pois os alunos que aprendem a matemática desenvolvem suas noções, aprofundam sua sistematização, reconhecem o seu valor e sua aplicação na realidade. Os alunos que apenas sabem a matemática, a interpretam como uma disciplina de seleção e exclusão, porque saber matemática não significa dar a ela o seu sentido na realidade, mas na seletividade social. Aprender matemática, então, implica em superação das dificuldades de aprendê-la, pois, como já foi dito, o aluno não chega à escola dominando a informação, mas é dominado por ela sem ter sentido aplicável. Assim, aprender matemática é superar a mera informação e dimensionar suas propriedades numa dada realidade. Saber matemática, então, implica em não superar as dificuldades, mas entendê-las como parte de tudo aquilo que é complexo e, ao mesmo tempo, necessário a uma seletividade – tais como os concursos e outros exames, nos quais a matemática é apontada como conteúdos classificatórios ou de eliminação. 53 www.eunapos.com.br 4.3 Postura psicopedagógica e didática frente ao ap rendente A postura pedagógica é sempre norteada pelas organizações do ensino e se aplicam dentro de uma necessidade que o contexto escolar requer, pois os planos de ensino visam a aprendizagem objetivamente falando. A postura didática bem como a postura do ensinante e do aprendente compõem o que se caracteriza como relação do processo ensino-aprendizagem. Esse é o processo escolar. Todavia, a postura psicopedagógica não se centra unicamente numa organização e gestão do ensino e da aprendizagem, mas na educação do olhar e da escuta psicopedagógica, já que na relação de ensino e aprendizagem, ambos aprendem e ambos ensinam. Mas, esse já é outro processo que está não só no contexto da escola, mas acompanha tanto o educador como o educando, porque ambos se envolvem na relação de desenvolvimento do conhecimento – não se trata apenas de ensinar, nem de aprender – mas de elaborar reflexões, gerar suposições, incitar questionamentos, solucionar dúvidas e, ao mesmo tempo, gerar um ciclo contínuo de novas aprendizagens e novos conhecimentos. Se, os educadores tivessem mais postura psicopedagógica, na mesma dimensão e elaboração da pedagógica, com certeza, a educação estaria em outro patamar de discussão. Porque estaríamos falando de uma educação plural e perceptiva, ou seja, abrangente,envolvente e significativa – não apenas no seu discurso, mas em sua aplicação por todas as pessoas. Assim, ensinar matemática sem fragmentações e desarticulações não seria desafio, mas um hábito tão comum quanto para o aluno aprender matemática seria um contínuo de suas experiências. Macedo et. al (2000, p.33) já afirmaram que: Nossa hipótese é, portanto, a de que supostas aptidões diferenciadas dos “bons alunos” em Matemática ou Física, etc., em igual nível de inteligência, consistem principalmente na sua capacidade de adaptação ao tipo de ensino que lhes é fornecido; os “maus alunos” nessas matérias, que entretanto são bem-sucedidos em outras, estão na realidade, perfeitamente aptos a dominar assuntos que parecem não compreender, contanto que esses lhes cheguem através de outros caminhos: são as “lições” oferecidas que lhe escapam à compreensão, e não a matéria. Desse modo, pode-se apreender que ensinar conteúdos não implica em ensinar o que lhe é próprio para aprendizagem dos alunos. E, até onde se sabe, a 54 www.eunapos.com.br matemática sempre foi usada como matéria que agrega os bons alunos – os gênios – e, exclui os maus alunos – não gênios. Mas, como explicar que ambos podem chegar ao mesmo nível de formação e compreensão? O fracasso escolar, que tanto ouvimos e assistimos nas inúmeras pesquisas da área de educação, nada mais é que o separatismo entre o ensinar o conteúdo e o educar para a matéria, ou seja, nenhuma postura psicopedagógica, que não olha e não escuta o seu aluno. Não há, evidentemente, conhecimento novo que não seja, primeiramente, complexo, difícil e estranho. Ou alguém poderá me dizer que tudo o que nos é ensinado, aprendemos de imediato – isso não é verdade. Não aprendemos regras gramaticais de imediato – mesmo quando já tínhamos o domínio da linguagem; ouvimos o som do que falamos, mas temos que ir à escola para aprender a escrever as palavras de forma correta. Sabemos a nossa idade, o número de nossa casa, a quantidade de irmãos e de selos que colecionamos, o tamanho das roupas das bonecas, o tamanho dos carrinhos e quantas rodas precisam ter para estar inteiros e funcionar; mas, ainda assim nos surpreendemos ao conhecer a matemática. Sendo assim, o que nos falta como educadores é aprender a olhar para o que ensinamos, tendo a percepção necessária para compreender que a dificuldade do nosso aluno é o seu assombro, porque o desconhecido nos assombra. Isso não quer dizer que precisa ser difícil nem complexo o que se ensina e o que se aprende, mas criativo e natural. 4.3.1 Matemática e as inteligências múltiplas Resumidamente, falaremos das inteligências múltiplas e de seu precursor, Howard Gardner, apenas para que possamos entender que as pessoas não possuem as mesmas habilidades e competências para a aprendizagem. Entendendo que cada pessoa desenvolve seus mecanismos de aprendizagem mediante suas afinidades e interesses, relacionados às suas capacidades cognitivas. Tendo em vista que inteligência, por muito tempo, foi sinônimo de genialidade mensurada por testes de QI, Gardner acreditava que deveriam ser abandonados os testes e suas correlações e partir para observar as fontes de informações mais naturalistas a respeito de como as pessoas desenvolvem capacidades importantes para seu modo de vida. Assim, Gardner procurou elaborar os blocos construtores 55 www.eunapos.com.br das inteligências utilizadas por diferentes pessoas que atuavam em diferentes situações e profissões, a fim de encontrar e estudar perfis cognitivos regulares ou circuitos irregulares em diferentes culturas e espécies. Desse modo, acabou reunindo uma grande quantidade de informações e, para organizá-las Gardner teorizou as sete inteligências: • Inteligência Linguística : característica dos poetas; • Inteligência Lógico-Matemática : capacidade lógica e matemática; • Inteligência Espacial : capacidade de formar um mundo espacial e de ser capaz de manobrar e operar utilizando esse modelo (marinheiros, engenheiros, cirurgiões, etc.); • Inteligência Musical : possuir o dom da música como Mozart; • Inteligência Corporal-Cinestésica : capacidade de resolver problemas ou elaborar produtos utilizando o corpo (dançarinos, atletas, artistas, etc.); • Inteligência Interpessoal : capacidade de compreender outras pessoas (vendedores, políticos, professores, etc.); • Inteligência Intrapessoal : capacidade correlativa, voltada para dentro. Capacidade de formar um modelo acurado e verídico de si mesmo e de utilizar esse modelo para operar efetivamente na vida. Através de suas pesquisas e estudos, Gardner começou a perceber e enfatizar que o propósito da escola deveria ser desenvolver essas inteligências e ajudar as pessoas a atingirem seus objetivos de ocupação pertinentes ao seu particular modo de inteligência ou o que hoje chamaremos de perfil. Então, esse pesquisador propõe uma escola centrada no indivíduo, voltada para um entendimento e desenvolvimento do perfil cognitivo de cada aluno. Dessa forma, a escola ideal baseia-se em algumas suposições: • nem todas as pessoas têm os mesmos interesses e habilidades, nem aprendem da mesma maneira; 56 www.eunapos.com.br • ninguém pode aprender tudo o que há para ser aprendido, porque há uma infinidade de conhecimentos que não são todos, universalmente, necessários a todos; • a tarefa, dos educadores e outros profissionais da educação, na avaliação seria tentar compreender as capacidades e interesses dos alunos; • a tarefa do agente de currículo para o aluno seria ajudar a combinar os perfis, objetivos e interesses dos alunos a determinados currículos e determinados estilos de aprendizagem; • a tarefa do educador e da escola, bem como da comunidade, seria encontrar situações determinadas pelas opções não disponíveis na escola, para as crianças que apresentam perfis cognitivos incomuns; • um novo conjunto de papéis para os educadores deveria ser construído para transformar as visões em realidade pautadas no conhecimento sobre as coisas, conforme cada um tem condições de aprender (abstrair). Gardner passa a se preocupar com as crianças que não brilham nos testes padronizados, e que, consequentemente, tendem a ser consideradas como não tendo nenhum tipo de talento. Para ele, os professores seriam liberados para fazer aquilo que deveriam fazer: ensinar o assunto de sua matéria, da forma como podem os alunos aprender – cada um a seu modo particular. Todavia, ele mesmo, Gardner (2000, p.17) afirma: Certamente, o que estou descrevendo é uma tarefa difícil; poderia inclusive ser chamado de utópico. E existe um grande risco nesse programa, do qual estou bem consciente. É o risco da destinação prematura – de dizer: ‘Bem Johnny está com quatro anos de idade, ele parece ser musical, então vamos mandá-lo para a Juilliard e suspender todas as outras coisas’. Entretanto, nada existe de inerente nesta abordagem descrita por mim que exija esta supradeterminação precoce – muito pelo contrário. Por essa afirmação podemos entender, então, que não há uma inteligência única em um aluno que desmereça todas as outras aprendizagens. E, não se pode afirmar com exatidão (e precocidade) a existência de uma que negue todas as 57 www.eunapos.com.br demais inteligências, lembrando que temos tempo certo de amadurecimento como aprendizes. Então, tudo em seu tempo e momento certo. Cabe ao educador estar atento ao que seu aluno desenvolve e como desenvolve. Todavia, estar atento não basta; é preciso estar bem planejado e atento aos objetivos da aprendizagem dos alunos. E, nesse sentido, faço uma observação (ou crítica?): muitos educadores estão sempre com seus planejamentos em dia, atentos aos conteúdos e suas evoluções, mas, poucos analisam se a cada dia seus alunos atingem os objetivos traçados para a aprendizagem.Para Armstrong (2001, p.66), pesquisador das ideias de Gardner, as inteligências múltiplas, não são apenas sete, mas oito, acrescentando a Naturalista, na qual acredita que há pessoas mais relacionadas ao meio ambiente natural, pelo qual aplicam seus conhecimentos por se identificarem com ele e sua dinâmica natural. Mas, este pesquisador salienta que para qualquer trabalho levando em conta as oito inteligências, o trabalho do professor requer planejamento, o qual pode ser representado da seguinte forma: Figura 2 - Perguntas de planejamento das Inteligências Múltipl as Fonte: Armstrong, 2001 Lógico -matemática : Como posso introduzir números, cálculos, lógica, classificações ou habilidades de pensamento crítico? Linguística: Como posso usar a palavra falada ou escrita? Naturalista: Como posso evocar sentimentos ou memórias pessoais, ou deixar os alunos escolherem? Intrapessoal: Como posso evocar memórias pessoais ou deixar os alunos escolherem? Interpessoal: Como posso fazer com que os alunos compartilhem coisas com os colegas, envolvam-se na aprendizagem cooperativa ou em simulações em grande grupo? Espacial: Como posso usar recursos visuais, visualização, cor, arte ou metáfora? Musical: Como posso introduzir a música ou os sons ambientais ou explicar pontos importantes numa estrutura rítmica ou melódica? Corporal -cinestésica: Como posso envolver todo o corpo ou usar experiências práticas? OBJETIVO 58 www.eunapos.com.br Tendo em vista que o professor não pode limitar ou restringir desenvolvimentos de conhecimentos, percebe-se, pela leitura e análise da figura anterior, que é de muita importância trazer para o contexto da sala de aula um planejamento que favoreça o desenvolvimento de todas as inteligências de seus alunos. Todavia, poderá perceber que cada aluno estará mais afinado com uma ou algumas, mas não com todas, o que demonstra que cada pessoa é atraída por seus interesses e conhecimentos de forma particular. A questão, então, é notar se os objetivos da aprendizagem foram atingidos. Mas, dentro do foco do nosso estudo, a inteligência lógico-matemática pode ter tarefas e/ou atividade interessantes para os alunos envolvendo, por exemplo: - atividades matemáticas no quadro para os alunos resolverem, sendo sempre um problema em forma de desafio; - questionamento socrático; - demonstrações científicas, de complexidade média; - exercícios de resolução de problemas lógicos; - exercícios matemáticos por percepção visual; - classificações, agrupamentos, seriações e categorizações; - criação de códigos ou criptografia; - enigmas e jogos lógicos; - quantificações e competição de cálculos mentais; - programação de linguagem matemática no computador; - pensamento científico e linhas do tempo; - apresentação de uma história que exija sequência lógica do assunto; - exercícios piagetianos; - teatro de matemática, com inserção de enigmas matemáticos; - heurística; - entre outros. Acredito que, para que essas atividades sejam prazerosas, é necessário que os professores elaborem bons planejamentos, tenham ótimos discursos, com uma dose de muita criatividade; assim a matemática pode ser aprendida sem medo, mas com prazer. 59 www.eunapos.com.br Exercício 4 1. Gostar de matemática implica numa relação de afe to e tem ligação com prazer. O inverso disso: a) Com ansiedade e estranhamento. b) Com sabedoria e inteligência. c) Com o medo e a resistência. d) Com alegria e persistência. 2. O fracasso escolar, que tanto ouvimos e assistim os nas inúmeras pesquisas da área de educação, nada mais é que: a) A desatenção dos alunos. b) O que a escola enfrenta na realidade. c) A falta de comprometimento dos professores. d) O separatismo entre o ensinar o conteúdo e o educar para a matéria. 3. A tarefa dos educadores e outros profissionais da educação, na avaliação, deve ser: a) Refletir sobre a importância da matemática. b) Compreender as capacidades e interesses dos alunos. c) Reformular as formas de ensinar a matemática. d) Identificar os tipos de necessidade de cada aluno. 4.3.2 A importância do jogo para as aprendizagens m atemáticas O lúdico tem sua origem na palavra latina "ludus", que quer dizer "jogo”, sendo que passou a ser reconhecido como traço essencial de psicofisiologia do comportamento humano, de modo que a definição deixou de ser o simples sinônimo de jogo. As implicações da necessidade lúdica extrapolaram as demarcações do brincar espontâneo, e passaram a ter uma conotação de experiência, pois as pessoas quando jogam expressam seu verdadeiro “eu”. Caso contrário, por exemplo, aquele programa de televisão, no qual as pessoas ficam confinadas por meses, para ganhar uma bolada em dinheiro (não tanto quanto a própria televisão ganha!), não faria tanto sucesso. Alguém já reparou que as pessoas, que ali estão confinadas, no início do jogo não se revelam? Mas, a cada dia na casa, elas vão 60 www.eunapos.com.br mostrando quem são, umas para outras. Portanto, o jogo implica na personalidade das pessoas. Outro exemplo: se quiser saber como a personalidade de uma criança está sendo desenvolvida, observe como brinca ou joga. Se ela for passiva, ativa, hostil, agitada, nervosa – será manifestado ao brincar ou jogar. Isso é fato. Assim, na idade infantil e na adolescência a finalidade do jogo é essencialmente pedagógica, porque se trata de aprender pelas experiências pessoais. E a criança se desenvolve através do jogo, de forma lúdica, e por esse segmento aprende as regras, as normas, as etapas, as sequências, que são elementos importantes dentro da aprendizagem matemática. Nessa perspectiva, Grando (2004, p.29) afirma que: Fonte: http://migre.me/5e3Ga O jogo propicia o desenvolvimento de estratégias de resolução de problemas na medida em que possibilita a investigação, ou seja, a exploração do conceito por meio da estrutura matemática subjacente ao jogo que pode ser vivenciada pelo aluno quando ele joga, elaborando estratégias e testando-as a fim de vencer o jogo. A ludicidade é tão importante para a saúde mental do ser humano que se torna um espaço que merece atenção dos pais e educadores, pois é o espaço para expressão mais genuína do ser, é o espaço e o direito de toda a criança para o exercício da relação afetiva com o mundo, com as pessoas e com os objetos. Dessa forma, o lúdico possibilita o estudo da relação da criança com o mundo externo, integrando estudos específicos sobre a importância do lúdico na formação da personalidade. Através da atividade lúdica e do jogo, a criança forma conceitos, seleciona ideias, estabelece relações lógicas, integra percepções, faz estimativas compatíveis com o crescimento físico e desenvolvimento e, o que é mais importante, se socializa. A convivência de forma lúdica e prazerosa com a aprendizagem proporcionará à criança estabelecer relações cognitivas com as experiências vivenciadas, bem como relacioná-las às demais produções culturais e simbólicas 61 www.eunapos.com.br conforme procedimentos metodológicos compatíveis a essa prática. Lembrando que essas relações são necessárias para o desenvolvimento do pensamento lógico, pois ela precisa se organizar, tanto em relação aos objetos quanto às situações em que estiver inserida, achando as soluções para as perspectivas mais complexas do seu cotidiano. Assim, a ludicidade é uma atividade que tem valor educacional intrínseco, por isso várias são as razões que levam os educadores a recorrer às atividades lúdicas no ensino da matemática e a utilizá-las como um recurso no processo de ensino-aprendizagem, pois: • correspondem a um impulso natural, e neste sentido, satisfazem uma necessidade interior, pois o ser humano apresentauma tendência lúdica; • apresentam dois elementos que o caracterizam: o prazer e o esforço espontâneo; prazeroso devido à sua capacidade de absorver o indivíduo de forma intensa, e é este aspecto de envolvimento emocional que o torna uma atividade com forte teor motivacional, capaz de gerar um estado de vibração e euforia. Em virtude desta atmosfera de prazer dentro da qual se desenrola, a ludicidade é portadora de um interesse intrínseco, canalizando as energias no sentido de um esforço total para consecução de seu objetivo. Portanto, as atividades lúdicas são excitantes, mas também requerem um esforço voluntário; • mobilizam esquemas mentais, sendo uma atividade física e mental, a ludicidade aciona e ativa as funções psicológicas superiores e neurológicas e as operações mentais, estimulando o pensamento, o raciocínio. Em geral, o elemento que separa um jogo pedagógico de outro de caráter apenas lúdico é este: desenvolve-se o jogo pedagógico com a intenção de provocar aprendizagem significativa, estimular a construção de novo conhecimento e principalmente despertar o desenvolvimento de uma habilidade operatória, ou seja, o desenvolvimento de uma aptidão ou capacidade cognitiva e apreciativa específica que possibilita a compreensão e a intervenção do indivíduo nos fenômenos sociais e culturais e que o ajude a construir conexões. 62 www.eunapos.com.br Também chamado de “faz-de-conta”, o jogo simbólico caracteriza-se por recriar a realidade usando sistemas simbólicos, ele estimula a imaginação e a fantasia da criança, favorecendo a interpretação e resignificação do mundo real. É considerado por diversos autores como fundamental para o desenvolvimento, favorecendo a interação com o outro e possibilitando a expressão das emoções e percepções vivenciadas na relação que a criança estabelece com o mundo real. Muitos autores acreditam que essa atividade estimula o desenvolvimento psicomotor, cognitivo, emocional, social e cultural das crianças. Entre outros, Piaget valoriza a contribuição do jogo simbólico para o desenvolvimento cognitivo e afetivo- emocional. Lajonquière (2004) destaca a contribuição social proporcionada por essa atividade, afirmando que o jogo é "uma ação de uma atividade voluntária, realizada dentro de certos limites de tempo e de lugar, segundo uma regra livremente consentida, mas imperativa, provida de um fim em si (...)” (LAJONQUIÈRE, 2004, p.39). Enfim, o jogo é toda a ocupação sem qualquer outra finalidade que não seja a ocupação em si mesma, uma atividade fortuita e infinitamente flexível que nos brinda uma oportunidade para ampliar e reorientar tanto a mente como a forma de desenvolver o pensamento sobre as situações e o nosso entorno. 4.3.3 Atividades que desafiam o pensar ou que trein am a memória O jogo surge na criança quando ela adquire a noção de representação e pretende ser uma cópia da realidade. Segundo as novas orientações curriculares, o faz de conta vai permitir à criança recriar experiências da vida cotidiana, situações imaginárias e utilizar os objetos livremente, atribuindo-lhes significados múltiplos. A adaptação das condições concretas existentes e o aproveitamento dos materiais disponíveis bem como as disponibilidades psicológicas da criança permitem conjunturalmente a materialização e evolução do jogo simbólico. A concretização deste tipo de jogo deriva necessariamente no jogo dramático. O jogo dramático, forma de expressão do real e do imaginário, ganha assim estatuto privilegiado na formação da criança no que diz respeito ao desenvolvimento de parâmetros psicomotores e sócio-afetivos não se sujeitando a comportamentos rígidos, facilitando o mundo da fantasia sem esperar em troca compensações nem 63 www.eunapos.com.br recear insucessos provocados por reforços positivos ou negativos e evitando aspectos competitivos ou de mero adestramento de outro tipo de jogos. Assim, o jogo simbólico será, por conseguinte, um jogo em que a criança faz de conta que é outrem, ou se imagina numa qualquer situação, ou atribui uma nova função a um objeto. É dos três aos seis anos que a criança torna esta estrutura de faz de conta cada vez mais complexa e cada vez mais durável, imagina o seu mundo preferido no qual pretende viver e simula o real modificando-o em função das suas necessidades. Fonte: http://migre.me/5e4j5 O jogo simbólico ocupa predominantemente a criança dos três aos seis anos. Com efeito, no período pré-operatório em que se encontra, a criança desenvolve a função simbólica que consiste na representação de um objeto ausente. Piaget considera que a criança em idade pré-escolar, ao realizar essa importante função, desenvolve adequadamente a assimilação (atividade da criança quando esta se apropria dos elementos da realidade de acordo com a percepção que deles tem), e a acomodação (influência que o meio exerce sobre a criança obrigando-a a modificar uma conduta a fim de se adaptar) o que a vai ajudar a adaptar-se no mundo. A evolução deste tipo de atividade está ligada ao desempenho do educador tornando-se mais ou menos complexa, mais ou menos intencional, consoante com os objetivos que tenha em vista, intervindo direta ou indiretamente e avaliando a todo o momento a dinâmica gerada, as ações e interações produzidas. 64 www.eunapos.com.br REFERENCIAIS BIBLIOGRÁFICAS ARMSTRONG, Thomas. Inteligências múltiplas na sala de aula. 2 ed Porto Alegre/RS: Artmed Ed., 2001. ARRIBAS, Teresa LLeixá et. col. Educação infantil: desenvolvimento, currículo e organização escolar. 5 ed Porto Alegre/RS: Artmed Ed., 2004. BRASIL, Ministério da Educação e Cultura, Secretaria de Ensino Fundamental, Brasília, Parâmetros curriculares nacionais – Matemática. vol 3, 2 ed Rio de Janeiro: DP&A, 2000. CARRAHER, Terezinha; CARRAHER, David; SCHLIEMANN, Analúcia. Na vida dez, na escola zero. 12 ed São Paulo: Cortez, 2001. CHACÓN, Inés Maria Gómes. Matemática emocional: os afetos na aprendizagem matemática. 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