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1 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina Habilidades Cirúrgicas II | Aula 2 | UC 19 INTRODUÇÃO • A queimadura é uma lesão tecidual decorrente de trauma térmico, elétrico, químico ou radioativo, que destrói parcialmente ou totalmente a pele e seus anexos. • O paciente queimado precisa de reanimação inicial adequada, porque diminui a mortalidade, o paciente não entra em choque. • Princípios de atendimento inicial: Avaliar via aérea em busca de comprometimento por inalação. Identificação de lesões associadas. Manutenção da hemodinâmica. Manter normotermia. • O principal fator de prognóstico é a % da superfície corpórea queimada. • A lesão inalatória aumenta em 7 vezes a mortalidade. MECANISMOS DE QUEIMADURA Calor • Causado por chamas, líquidos quentes, objetos sólidos quentes e por vapor. • A profundidade da lesão está relacionada à temperatura de contato, o tempo de contato e a espessura da pele. • A maioria das queimaduras térmicas se limitam a epiderme e derme, devido a pele não possuir boa condutividade. Eletricidade • A eletricidade é conduzida em calor, a medida que penetra na pele, devido a baixa condutância da pele. • A magnitude da lesão depende da trajetória da corrente, da resistência ao fluxo de corrente através dos tecidos e da força e duração do fluxo de corrente. • Devido as diferentes velocidades de perda de calor por parte dos tecidos superficiais e profundos, pode coexistir pele aparentemente normal com necrose muscular profunda. • As queimaduras elétricas são, frequentemente, mais graves do que aparentam. • É importante, ainda, avaliar o ponto de entrada e de saída para estimar o caminho da corrente elétrica, a gravidade da lesão e os possíveis órgão acometidos. • Esse tipo de paciente deve ser transferido para centro de tratamento de queimados. Radiação • A mais comum é a queimadura solar. • Fatores de risco: exposição solar, terapias com radiação, procedimentos diagnósticos, indivíduos que trabalham em indústrias nucleares. • As lesões vão ser determinadas pela dose de radiação, tempo de exposição e tipo de partícula que determina a profundidade da exposição. Queimaduras (ATLS) 2 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina Fricção • Promove lesão por mecanismo combinado de ruptura mecânica dos tecidos e pelo calor gerado pela própria fricção. Química • A lesão é causada devido a reações cáusticas, incluindo alteração de pH, rompimento de membranas celulares e efeitos tóxicos pelos metabólicos liberados. • O contato com ácido causa necrose de coagulação enquanto um contato com substância alcalina causa necrose liquefativa. • Deve-se ter uma atenção especial em relação à absorção sistêmica de alguns produtos químicos que ameaçam a vida. • As queimaduras por álcalis são mais sérias do que por ácido, pois eles penetram mais profundamente. • Os danos locais podem incluir toda a espessura da pele e dos tecidos adjacentes. • O que determina a gravidade é a duração da exposição e a natureza do agente. • É necessário remover o produto químico com lavagem em água corrente por 20 a 30 minutos. • Agentes neutralizantes não apresentam vantagem em relação a água corrente, pois a reação com esses produtos, sozinha, produz calor e mais lesão. • Queimadura por álcalis em região ocular exigem irrigação contínua durante as primeiras 8h, podendo-se fixar uma cânula de pequeno calibre no sulco palpebral. CLASSIFICAÇÃO DE PROFUNDIDADE • A classificação das queimaduras leva em consideração a profundidade da lesão tecidual. • É importante essa determinação já que a profundidade da queimadura vai indicar, em grande parte, o potencial de cicatrização e a necessidade de intervenção cirúrgica. • O sistema de classificação tradicional utilizava a nomenclatura primeiro, segundo, terceiro e quarto graus. • As designações atuais refletem a necessidade de intervenção cirúrgica ou não, sendo classificadas em superficiais (1º grau), espessuras parciais superficial e profunda (2º grau) e espessura total (3º grau). • O termo quarto grau ainda é muito utilizado para descrever queimaduras mais graves, que se estendem até o tecido subcutâneo, envolvendo vasos, nervos, músculos, ossos e/ou articulações subjacentes. 3 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina • As feridas, geralmente, não são uniformes em profundidade, apresentando uma mistura de componentes profundos e superficiais. • Existem regiões com uma pele mais fina, como as superfícies volares dos antebraços, parte medial da coxa, períneo e orelhas, que sustentam lesões de queimaduras mais profundas do que as sugeridas pela aparência inicial, não se devendo assumir queimaduras superficiais nessas áreas. • Não se deve assumir queimaduras superficiais em crianças menores de 5 anos e adultos maiores de 55. SUPERFICIAL ESPESSURA PARCIAL SUPERFICIAL • Envolvem apenas 1 camada da pele (epidérmicas). • COMO É O ASPECTO? Não causam flictenas, mas são dolorosas, secas, avermelhadas e empalidecem sob pressão. • Recuperação rápida. Em 2 a 3 dias a dor e o eritema reduzem e no 4º dia a epiderme cicatriza se separando do epitélio lesionado. • QUANTO TEMPO PARA CICATRIZAR? Cerca de 6 dias. • Comumente visto em queimaduras solares. • • Na espessura parcial superficial, a queimadura atinge a epiderme e derme papilar. • COMO É O ASPECTO? Há formação de bolhas, com base rósea, dentro de 24h, entre a derme e epiderme, com aspecto úmido, chamada de aparência “lacrimejante”. • São extremamente dolorosas, inclusive às correntes de ar, avermelhadas e empalidecem sob pressão. • Algumas lesões que, inicialmente, parecem ser apenas epidérmicas, podem ser determinadas como espessura parcial superficial 12 a 24h depois. • QUANTO TEMPO PARA RESOLVER? 7 a 21 dias, sendo as cicatrizes e comprometimento funcional incomuns, embora mais comumente ocorram alterações de pigmento. • Devido a presença de detritos necróticos e exsudatos fibrinosos, deve-se atentar para à colonização bacteriana, podendo levar a uma cicatrização retardada, e a necessidade de antibioticoterapia. Na primeira imagem, queimadura de segundo grau superficial com flictena não danificada. Na segunda, queimadura com mesma profundidade, porém após remoção das bolhas e limpeza do local. É possível ainda visualizar presença de folículos capilares intactos, mostrando que a parte mais profunda da derme é preservada e alta probabilidade de restauração sem intervenção cirúrgica. 4 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina ESPESSURA PARCIAL PROFUNDA • As queimaduras estendem até a derme mais profunda e danificam os folículos capilares e tecido glandular. • COMO É O ASPECTO? Possui coloração avermelhada-brilhante ou amarelo- esbranquiçada, não empalidece sob pressão, pode ser úmida, embora mais comumente seca, e possui aspecto ceroso. São dolorosas apenas sob pressão, quase sempre com flictenas (facilmente abertas) com base esbranquiçada. Não empalidecem com a pressão. • QUANTO TEMPO PARA RESOLVER? Se a infecção for evitada, as feridas podem cicatrizar espontaneamente, sem enxertia, em cerca de 2 a 9 semanas. • Causam cicatrizes hipertróficas. Caso haja envolvimento articular, espera-se uma disfunção da articulação, mesmo com fisioterapia agressiva. • Queimaduras de espessura parcial que não cicatrizam em duas semanas são, funcional e cosmeticamente, equivalentes a queimaduras de espessura total. ESPESSURA PARCIAL SUPERFICIAL • Se estende por toda a derme e, geralmente, danifica o tecido subcutâneo subjacente. • COMO ÉO ASPECTO? Tem uma aparência mais escura, podendo variar de branco ceroso, acinzentado a preto, possuindo um aspecto de couro. A pele fica seca e inelástica, e não empalidece sob pressão. Vesículas e bolhas não se desenvolvem e os pelos podem ser facilmente retirados dos folículos capilares. • Geralmente são anestésicas, devido a destruição da inervação. • A derme morta e desnaturada é designada como escara, sendo que essa se separa do tecido subjacente e revela um leito não curado de tecido de granulação. • Sem cirurgia, essas feridas cicatrizam por contratura, com epitelização em torno das bordas das feridas. Como a contratura é grave, a cura espontânea não é possível, precisando de intervenção cirúrgica. • Queimaduras claras em toda a espessura podem simular a pele normal, exceto que a pele não empalidece sob pressão. Paciente do sexo masculino com queimadura profunda de espessura parcial causada por líquido quente (Em A). Em B é possível ver a presença de enxerto cutâneo, intervenção mais comum para cobertura da área de queimadura. Em C e D a progressão do pós-operatório em uma semana e um mês, respectivamente. Por fim, em E, é possível ver o retorno da amplitude dos movimentos das mãos em um mês. 5 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina PROFUNDIDADE PRINCIPAIS CAUSAS APARÊNCIA SENSAÇÃO TEMPO DE CURA Superficial – 1º Exposição UV Seca, avermelhada e empalidecem sob pressão Dolorosa 3 a 6 dias Espessura parcial superficial – 2º Água escaldante Flictenas com base rósea, úmidas, avermelhadas, lacrimejantes e empalidecem sob pressão Dolorosa à temperatura e ao ar 7 a20 dias Espessura parcial profunda – 2º Chama Óleo/graxa quentes Pode apresentar flictenas com base esbranquiçada, seca ou úmida, com aspecto ceroso, avermelhada a esbranquiçada e não empalidecem sob pressão Dolorosa ou indolor, perceptível à pressão > 21 dias Espessura completa – 3º Chama Óleo/graxa quentes Química Elétrica Branca cerosa, cinzenta a carbonizada Seca e inelástica Não empalidecem sob pressão Indolor, perceptível apenas à pressão profunda Raros, a menos que tratados cirurgicamente Lesões mais profundas – 4º Chama Estende-se para a fáscia e/ou músculo Pressão profunda Nunca, a menos que seja tratado cirurgicamente Queimadura de espessura total (terceiro grau) causada por sólido aquecido. EXTENSÃO PARA TECIDOS PROFUNDOS • Representa a queimadura de 4º grau. • São lesões profundas e potencialmente fatais que se estendem através da pele até os tecidos moles subjacentes e podem envolver músculos e/ou ossos. • Necessitam imediatamente de uma conduta intervencionista. Queimadura profunda de espessura total de 4º grau. É possível verificar a presença de auto enxerto com pele parcial em rede e retalho muscular cobrindo a face anterior da articulação do joelho esquerdo. 6 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina FISIOPATOLOGIA • A queimadura é uma lesão na pele e partes moles que possui repercussão sistêmica, gerando um resposta inflamatória que culmina em efeitos sistêmicos. Alterações hemodinâmicas. ↑ Permeabilidade capilar. Imunossupressão. Edema Hipermetabolismo. ↓ Fluxo sanguíneo renal. • A fisiopatologia da lesão por queimadura se dá pela destruição da integridade capilar e vascular, em razão de seus efeitos serem locais e sistêmicos. • O comprometimento do tecido vai depender da intensidade da exposição térmica, das características da área queimada e das reações locais e sistêmicas. • Assim, a queimadura irá comprometer a integridade funcional da pele, responsável pela homeostase hidroeletrolítica, controle da temperatura interna, flexibilidade e lubrificação da 0superfície corporal. Portando, a magnitude do comprometimento dessas funções depende da extensão e profundidade da queimadura. • A ferida da queimadura a princípio é estéril, porém o tecido necrótico rapidamente se torna colonizado por bactérias endógenas e exógenas, produtoras de proteases, que levam à liquefação e separação da escara, dando lugar ao tecido de granulação responsável pela cicatrização da ferida, que se caracteriza por alta capacidade de retração e fibrose nas queimaduras de terceiro grau. • Nas queimaduras extensas, superiores a 40% da área corporal, o sistema imune é incapaz de delimitar a infecção, que, sistematizando-se, torna rara a sobrevida nesses casos. • Essa resposta sistêmica manifesta-se por febre, circulação sanguínea hiperdinâmica e ritmo metabólico acelerado, com aumento do catabolismo muscular, decorrente de alteração da função hipotalâmica (aumento da secreção de glucagon, cortisol e catecolaminas), da deficiência da barreira gastrointestinal (passagem de bactérias e seus subprodutos para a circulação sistêmica), da contaminação bacteriana da área queimada (liberação sistêmica de bactérias e subprodutos), da perda de calor (evaporação através da ferida levando à hipotermia) e da perda de fluidos (desequilíbrio hidroeletrolítico). • Outro ponto importante que precisamos ter em mente são as ZONAS DE LESÃO. Sendo a pele responsável por fornecer uma forte barreira à transferência de energia para os tecidos mais profundos, mesmo com a remoção do foco desencadeador da queimadura, a resposta dos tecidos locais mais profundos pode levar à lesão nas camadas mais profundas. • A área de lesão cutânea ou superficial é assim dividida em três zonas – zona de coagulação, zona de estase e zona de hiperemia. Injúria térmica Resposta local Necrose de coagulação tecidual Progressiva trombose dos vasos adjacentes 12 a 48 h GRANDES QUEIMADURAS Reação sistêmica Liberação de mediadores pelo tecido lesado Extenso dano à integridade capilar Perda acelerada de fluidos Evaporação através da ferida Sequestração nos interstícios Agravada por subprodutos da colonização bacteriana 7 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina ZONA DE COAGULAÇÃO: A área necrótica da queimadura onde as células foram destruídas. Esse tecido é danificado irreversivelmente no momento em que ocorre a lesão. ZONA DE ESTASE: A área imediatamente adjacente à zona necrótica tem um grau de lesão moderado, com perfusão tissular reduzida. Dependendo das condições da ferida, pode sobreviver ou evoluir para necrose coagulativa. Tratamento direcionado para o controle da inflamação local, imediatamente após a queimadura, pode preservar essa zona. ZONA DE HIPEREMIA: Caracterizada pela vasodilatação em razão da inflamação circunjacente à queimadura. Essa região contém o tecido claramente viável do qual se inicia o processo de cicatrização e, geralmente, não tem risco de necrose adicional. MECANISMO DE CURA Primeiro grau Simples resposta inflamatória. Reversão em até uma semana sem mudanças na coloração, espessura ou textura da pele a partir de multiplicação celular, com a descamação da subcamada acometida e normalmente não possuem repercussões sistêmicas. Segundo grau Podem ter cicatrização espontânea se não houver complicações de pele pelo processo conhecido como reepitelização e naquelas mais profundas pelo mecanismo de contração associado, a partir dos bordos da ferida, pela metaplasia de fibroblastos em miofibroblastos e a consequente retração das bordas. Terceiro grau Aquelas em que há lesão de todos os elementos da pele, incluindo epiderme, derme, tecido celular subcutâneo, com destruição de folículos pilosos, glândulas sudoríparas e sebáceas receptoras para a dor e da coagulação do plexo vascular, são incapazes de se regenerarem, pois os anexos dérmicos e sua reserva epitelial estão destruídos e, portanto, necessitamde algum tipo de cobertura cutânea, usualmente enxerto cutâneo de pele autólogo. CÁLCULO DA SUPERFÍCIE CORPORAL ATINGIDA • A estimativa do tamanho da queimadura é essencial para orientar o tratamento e determinar se é preciso transferir o paciente para um centro de queimados. • As queimaduras superficiais (de primeiro grau) não estão incluídas na avaliação percentual de queima de superfície corporal (SCQ). • Os locais das áreas queimadas de segundo e de terceiro grau são registrados em um diagrama de queima. • Presume-se que queimaduras com aparência compatível com segundo grau profunda ou terceiro grau sejam de terceiro grau até que seja possível uma diferenciação precisa. 8 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina GRÁFICO DE LUND-BROWDER • É o método recomendado em crianças, porque considera a porcentagem relativa da área de superfície corporal afetada pelo crescimento. • As crianças têm cabeças proporcionalmente maiores e extremidades inferiores menores, portando a porcentagem de SCQ é estimada com mais precisão usando o gráfico. GRÁFICO DE LUND-BROWDER MODIFICADO PARA AVALIAR PORCENTAGEM DE QUEIMADURA TOTAL DA SUPERFÍCIE CORPORAL EM CRIANÇAS E ADULTOS ÁREA NASCIMENTO ATÉ 1ANO 1 A 4 ANOS 5 A 9 ANOS 10 A 14 ANOS ADULTO Cabeça 9,5 8,5 6,5 5,5 4,5 Pescoço 11 11 11 11 11 Tronco 13 13 13 13 13 Braço 2 2 2 2 2 Antebraço 1,5 1,5 1,5 1,5 1,5 Mão 1,25 1,25 1,25 1,25 1,25 Coxa 2,75 3,25 4 4,25 4,5 Perna 2,5 2,5 2,5 3 3,25 Pé 1,75 1,75 1,75 1,75 1,75 Nádega 2,5 2,5 2,5 2,5 2,5 Genitália 11 11 11 11 11 REGRA DOS NOVE • Método mais expedito para estimar a SCQ em adultos. • Para crianças, há uma regra dos nove específica pela superfície corporal ser diferente dos adultos REGRA DOS NOVE Superfície Criança Adulto Cabeça 18% 9% Cada braço 9% 9% Cada perna 14% 18% Genitália 5% (nádegas) 1% Tronco anterior 13% 18% Tronco posterior 18% 18% 9 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina REGRA DOS NOVE MÉTODO DA PALMA DA MÃO • Muito utilizado para queimaduras pequenas ou irregulares. • É realizada por meio da medição utilizando a palma da mão do paciente. Excluindo-se os dedos, a palma da mão equivale a cerca de 0,5% da área total da superfície corporal do mesmo e toda a superfície palmar, incluindo os dedos, cerca de 1%, tanto em crianças quanto adultos. ATENDIMENTO INICIAL AO QUEIMADO • Se inicia com um primeiro atendimento, o qual será baseado na estabilização do paciente e na correção dos distúrbios hidroelétricos decorrentes das perdas volêmicas após a quebra da barreira da pele e exposição de capilares; até a correção das complicações geradas como infecções e contraturas. • Assim, será preciso uma equipe multidisciplinar, composta desde a equipe de pronto atendimento para a situação aguda, até uma equipe especializada composta por médicos dermatológicos, cirurgiões plásticos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionais e psicólogos. • A aplicação dos princípios básicos de reanimação inicial no trauma minimiza o desfecho de mortalidade. Tais princípios incluem a atenção quanto ao comprometimento da via aérea, como em inalação de fumaça, a fim de mantê-la sempre pérvia, verificando também a necessidade de ventilação. • Além disso, manutenção da normalidade hemodinâmica através de reanimação com infusão de volume. • O médico também deve estar atento para tratar possíveis complicações como rabdomiólise e arritmias cardíacas, vistas, por exemplo, em queimaduras elétricas. Outro ponto importante é estar sempre atento no controle da temperatura e a remoção do paciente do ambiente causador da lesão, como por exemplo na insolação. CRITÉRIOS DE REFERENCIAÇÃO PARA CENTRO DE QUEIMADOS Acometimento de rosto, mãos, pés, genitália, períneo ou articulações principais Espessura parcial > 10% da SCQ Queimaduras de terceiro grau Queimaduras elétricas (incluindo danos causados por raios) Queimaduras químicas Lesão por inalação Distúrbios médicos preexistentes que podem complicar o tratamento Traumas ou fraturas associadas Crianças queimadas em hospital sem equipamento ou profissionais qualificados para aquele atendimento Pacientes que necessitarão de intervenção social, emocional ou de reabilitação especial CRITÉRIOS PARA INTERNAÇÃO NA UTI Pacientes queimados na fase aguda, com SCQ ≥ 20% em crianças Pacientes queimados na fase aguda, com SCQ ≥ 30% em maiores de 12 anos Pacientes com suspeita ou diagnóstico de inalação de fumaça 10 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina OBS: paciente com lesão por inalação podem necessitar de broncoscopia, assim optar sempre por um tubo maior. INTERRUPÇÃO DO PROCESSO DE LESÃO • Todos os acessórios e roupas do paciente devem ser removidos, exceto se houver aderência à pele. • Tecidos sintéticos queimam rapidamente em altas temperaturas e derretem, formando resíduos aquecidos que continuam lesando a vítima. • Roupas embebidas em substâncias químicas devem ser removidas cuidadosamente, assim como o próprio pó químico que, se presente, deve ser removido da ferida com escova. • Após a interrupção do processo de lesão, a superfície corporal acometida deve ser banhada copiosamente com água corrente e, após isso, cobrir o paciente com lençóis quentes e secos evitando hipotermia. • JAMAIS aplicar agentes neutralizantes, pois a reação é exotérmica e pode agravar a queimadura. VIAS AÉREAS • A via aérea superior corre um grande risco de obstrução pelo edema que as queimaduras podem causar. • Inicialmente, os sinais de obstrução são sutis, mas evoluem com grande agilidade levando o paciente a entrar em crise rapidamente, portanto, a avaliação precoce da necessidade de intubação orotraqueal é essencial. • Quanto mais grave a lesão, em relação a profundidade, extensão, queimaduras em região da face e pescoço, lesões inalatórias e queimaduras no interior da boca, maior o risco de obstrução. • Esses problemas são maiores quando se trata de crianças, pois possuem vias aéreas mais curtas. Os sinais sugestivos de lesão por inalação são: queimaduras faciais e/ou cervicais; chamuscamento dos cílios e das vibrissas nasais; depósitos de carbono na boca e/ou nariz e expectoração carbonácea; alterações inflamatórias agudas na orofaringe, incluindo eritema; rouquidão; história de confusão mental e/ou confinamento no local do incêndio; explosão com queimaduras da cabeça e do tronco; níveis sanguíneos de carboxihemoglobina > 10% se o doente foi envolvido em algum incêndio. Caso presença de algum dos sinais sugestivos de lesão por inalação há necessidade de intubação orotraqueal. Esperar por evidências radiológicas de lesão pulmonar ou por modificações na gasometria arterial, permite que o edema da via aérea chegue a ponto de impedir a intubação e tornar necessária a via aérea cirúrgica. VENTILAÇÃO • Deve-se ter a preocupação quanto a ventilação desses pacientes em situações de hipóxia, intoxicação por monóxido de carbono e por lesões inalatórias de fumaça. • Deve ser administrado oxigênio suplementar, podendo ser com ou sem intubação, dependendo se há ou não indicação para esse procedimento. • A suspeita de intoxicação por monóxido deve-se partir da história e pela medida direta desse gás no sangue (HbCO). Quando concentração inferior a 20% o paciente, geralmente, não apresenta manifestação clínica, devendo-se, portanto, valorizar a história do paciente. Níveis mais elevados de CO podem se manifestar por cefaleia, náuseas, confusão, coma e morte. • A utilização do oxigênio em alto fluxo, com máscara unidirecional, sem recirculação é mandatória nesses casos. • Por fim, pode-se realizara radiografia de tórax e gasometria arterial para a avaliação da condição pulmonar inicial desse doente. Em muitos casos essa avaliação será normal, mas o paciente pode evoluir com piora rapidamente. 11 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina OBS: o ECG deve ser monitorado para identificar distúrbios do ritmo cardíaco, uma vez que arritmias cardíacas podem ser o primeiro sinal de hipóxia e de anormalidade do equilíbrio acidobásico ou eletrolítico. CICATRIZAÇÃO • Pacientes que apresentem queimadura de primeiro grau irão apenas precisar de hidratação da pele, já que a lesão se restringe a epiderme, se caracterizando uma inflamação local. • No caso de pacientes com queimaduras de segundo grau superficial, onde existe um acometimento até a derme papilar, é preferível a realização de enxertos de pele parciais após o desbridamento de toda a região acometida, assim, o paciente irá apresentar uma menor contratura e alterações estéticas da região acometida. • Quando existe acometimento da derme total, chegando ao subcutâneo, o organismo não será mais capaz de realizar uma cicatrização eficiente, já que os anexos dérmicos e sua reserva epitelial estão destruídos. Nessas situações, é preferível a utilização de retalhos cutâneos para prevenir o surgimento de contraturas e deformidades na pele do paciente. OBTENÇÃO DE ACESSOS VENOSOS • A reposição volêmica será necessária para qualquer paciente com mais do que 20% da superfície corporal acometida. • Os acessos devem ser estabelecidos em veias periféricas com cateter de grosso calibre, no mínimo 16 G. Preferivelmente deve se realizar o acesso em região de pele intacta, porém caso não seja possível a queimadura não inviabiliza o processo. • Lembrar que sempre os MMSS são prioridade em relação aos MMII, devido à alta incidência de flebites e flebites sépticas nas veias safenas. • A infusão é realizada, de preferência com Ringer Lactato. CIRCULAÇÃO • Para a reanimação do paciente com fluidos, a monitorização do débito urinário será uma forma confiável de avaliação do volume sanguíneo circulante e acompanhar a necessidade de reposição. Assim, a sondagem vesical é um procedimento que deve ser feito em pacientes queimados. • Iniciar a reposição volêmica com solução isotônica aquecida, de preferência Ringer Lactato, segundo a fórmula de Parkland se dá da seguinte forma: Reposição volêmica em > 14 anos = 2mL x Kg x SCQ% Reposição volêmica em crianças = 3mL x Kg x SCQ% Reposição volêmica em queimaduras elétricas = 4mL x Kg x SCQ% • Assim, para fins de cálculo inicial, programa-se que metade desse volume de Ringer Lactato deve ser administrado nas primeiras 8h e o restante nas 16h seguintes, fechando a infusão em 24h. • Após essa quantidade alvo inicial, e independente do esquema de reposição administrado, um volume de líquido deve ser fornecida ao paciente para hidratá-lo, com base no débito urinário, segundo o cálculo: Hidratação = 0,5mL x Kg Hidratação em < 30kg = 1mL x Kg • Essa hidratação deve ser feita a cada hora. • Em presença de hematúria ou hemoglobinúria, deve-se estimular a diurese para grandes volumes (2 ml/kg/h em crianças e 70 ml/h em maiores de 12 anos). Outra ressalva é que em crianças < 30 kg, pode ser necessária a associação de glicose nos fluidos para evitar hipoglicemia. • É importante entender que uma reposição insuficiente resulta em hipoperfusão, podendo levar a lesão de órgão. Já uma reposição excessiva resulta em aumento do edema, que pode levar a complicações, como progressão da profundidade da queimadura ou síndrome compartimental em abdome e extremidades. • O objetivo da ressuscitação é manter o equilíbrio e, consequentemente, um perfusão adequada, conforme indicado pelo débito urinário. 12 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina COMPLICAÇÕES • A depender do tipo, do local e de como foi realizado o tratamento da queimadura do paciente, ele pode evoluir com algumas complicações como contraturas e infecções. • Assim, em regiões de grande mobilidade, como articulações e pescoço, é preciso ficar atento para o surgimento de contraturas, já que poderá impactar de maneira negativa na evolução do paciente. Para impedir seu surgimento, o cirurgião plástico pode fazer uso dos enxertos e retalhos para impedir a reepitalização desordenada nestas regiões. • Caso o paciente já se encontre com contraturas em seu atendimento, pode-se fazer uso de retalhos, como na Zetaplastia, para permitir uma maior mobilidade a região. • Por fim, para impedirmos o surgimento de infecções, é preciso ter em mente a sua fisiopatologia. Após a queimadura, a barreia de proteção que a pele confere é perdida, permitindo o extravasamento de nutrientes para o meio externo, criando um local propício para a colonização bacteriana e posterior surgimento de infecções. • Os organismos gram-positivos predominantes encontrados nas infecções por queimaduras permanecem sendo o Staphylococcus aureus, seguidos pelas espécies de Enterococcus, que são encontradas em números decrescentes. Patógenos gram-negativos dominam após o quinto dia de uma internação hospitalar tipicamente prolongada e emergiram como os agentes etiológicos mais comuns de infecção invasiva em virtude de seu grande repertório de fatores de virulência e características de resistência antimicrobiana. Pseudomonas aeruginosa continua sendo o microrganismo gram-negativo mais frequente isolado de feridas queimadas, seguido por Escherichia coli. • Dessa forma, quando recebemos esse paciente, ainda durante a realização de seu primeiro curativo, precisamos impedir que ocorra a infecção, já que após a adequada reposição volêmica 70% dos pacientes que morrem serão em decorrência de infecções. • O tratamento preventivo será realizado com sulfadiazina de prata tópica em 1% nas feridas. Caso venha a evoluir com uma infecção, faremos uso de uma antibioticoterapia inicialmente empírica, baseada nos principais patógenos encontrados no seu hospital, sendo guiada, posteriormente, pelo antibiograma da cultura realizada a partir das secreções coletadas. 13 HABILIDADES CIRÚRGICAS II | P7 - UC 19 | MEDICINA UNIT AL 2022.1 - Mayra Alencar @maydicina