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Disciplina: Introdução ao Novo Testamento Aula 1: Texto e Cânon do Novo Testamento 1 Página 1 de 183 Apresentação O Novo Testamento não foi escrito de uma só vez. Ele é o resultado de um processo de formação de memórias coletivas, que se tornaram tradições orais, tradições escritas, pequenas porções escritas, até que isso se irradiasse em seus livros. Cada um desses livros do Novo Testamento foi sendo reconhecido como fundamental para a fé de comunidades cristãs nos quatro primeiros séculos do Cristianismo. Reconhecer os contextos de desenvolvimento desse processo é fundamental para a compreensão das mensagens e temas neotestamentários, sendo um aspecto preliminar do seu estudo. Objetivos Descrever o processo de formação do texto do Novo Testamento; Examinar os contextos em que o Novo Testamento surgiu: contexto de de�nição, eclesiástico, teológico e político; Relacionar tais contextos com o texto do Novo Testamento, que ecoa as questões do seu período formativo. Página 2 de 183 A formação do texto e do cânon do Novo Testamento A palavra Testamento, para os hebreus, signi�cava a “aliança” que Deus tinha �rmado com o seu povo, representado por Noé, Abraão e Davi. O Profeta Jeremias, por volta de 600 a.C., profetizou acerca de uma Nova Aliança, diferente da primeira (Jr 31:31- 33), e Jesus, nas suas palavras na última Ceia, se referiu a seu sangue como Nova aliança/Testamento. Fonte: The Center for the Study of New Testament Manuscripts <//www.csntm.org/Manuscript/View/GA_P52> Papiro 52, o papiro mais antigo de um evangelho canônico já encontrado até hoje. Datado de 125 d.C. Nele encontra-se o trecho de João 18:31-33, 37-38.Fica exposto na Biblioteca John Rylands, Manchester, Reino Unido. Foi encontrado em 1920, por Bernard Grenfell no deserto do Egito. C. H. Roberts foi o primeiro a estudá-lo e divulgá-lo, em 1934. Fonte: The Leon Levy Dead Sea Scrolls <https://www.deadseascrolls.org.il/explore-the- archive/image/B-371415> Fragmentos de 1QIsa, O Grande pergaminho de Isaías, escrito pelos essênios. Datado de 100 a.C, foi um dos sete manuscritos primeiramente descoberto por Beduínos o deserto de Qumran em 1948. Página 3 de 183 https://www.csntm.org/Manuscript/View/GA_P52 https://www.deadseascrolls.org.il/explore-the-archive/image/B-371415 Porém, só no Século II, encontram-se evidências de cristãos chamando seus escritos de Novo Testamento (BROWN, 2012). Comentário Durante os primeiros anos do Cristianismo, assim como no Judaísmo, consideravam-se como Escrituras Sagradas as “Leis e os Profetas”, a Bíblia de Israel (KÖESTER,2005). Essas escrituras eram usadas na Liturgia e, a partir dessa base, o movimento cristão primitivo foi moldando suas primeiras tradições, fórmulas, credos e hinos. Suas primeiras re�exões sobre a natureza do Cristo, da salvação etc. Paralelamente a esse uso das escrituras, havia a circulação de tradições orais atribuídas a Jesus de Nazaré, que logo passaram a serem propagadas na forma escrita. Nas décadas de 50 e 60 do primeiro século, Paulo, ex-fariseu que se converteu ao Cristianismo, empreendeu grandes viagens missionárias, espalhando o novo movimento pelo Império Romano. Com a plantação de igrejas, Paulo escreve cartas a essas comunidades para ensinar, orientar e dar soluções pontuais para situações especí�cas. Essas cartas são consideradas a fonte mais antiga e direta para o estudo da História do Cristianismo primitivo (KÖESTER,2005). A partir de 60 d.C., como veremos adiante, começam a serem redigidos os Evangelhos: um gênero literário que não tem a intenção meramente biográ�ca, mas teológica e catequética para as comunidades cristãs. Na imagem ao lado, inscrição encontrada em Priene, na Ásia menor. Datado de 9 d.C., faz parte de um calendário que se refere ao dia do Nascimento de César Augusto com o termo euangelion, o que despertou atenção, pois esse também é um termo usado pelos cristãos. Um trecho diz o seguinte: [...] O aniversário do deus Augusto foi o começo do euangelion (boas novas) para o mundo”. Inscrição encontrada em Priene, na Ásia menor. Disponível em: JKDOYLE.COM <//www.jkdoyle.com/the-birth-of-a-savior/> Página 4 de 183 https://www.jkdoyle.com/the-birth-of-a-savior/ (Fonte: Rick Schroeppel / Shutterstock). Contexto eclesiástico Logo após a morte de Jesus de Nazaré, seus discípulos passaram a a�rmar ter sido testemunhas de aparições deste Ressuscitado. Nesse estágio é que se dão as primeiras re�exões sobre a Cristologia e, por conseguinte, o surgimento das primeira fórmulas e tradições, credos e hinos e também os mais primitivos títulos atribuídos a Jesus. Os seguidores de Jesus de Nazaré continuavam participando da comunidade religiosa de Israel, do culto no Templo em Jerusalém e nas sinagogas nas demais cidades. Mas, agora, a morte de Jesus é interpretada como sendo um sacrifício de expiação pelos pecados do povo, sendo uma aplicação do culto sacri�cal como da Teologia do Mártir já presente no judaísmo pós-exílico (SCHNELLE, 2017). Saiba mais Com a conversão de judeus provenientes da diáspora ao Cristianismo, passou-se a ter uma corrente dentro da comunidade primitiva mais radical em relação ao Templo e à Torá e, por isso, foram perseguidos. Expulsos de Jerusalém, foram responsáveis por evangelizar nas cidades helenizadas da Galileia, Síria, Palestina e Samaria, sendo os primeiros a re�etir sobre a inclusão de não judeus na Igreja (SCHNELLE,2017). Nessa época, a Igreja de fala aramaica era liderada pelas “Colunas”, Pedro, Tiago e João (KÖESTER,2005). É provável de que estes não tenham sido afetados pela perseguição que houve aos cristãos helenistas. Uma das comunidades fundadas pelos helenistas foi a de Antioquia, considerada pelos estudiosos como o lugar de nascimento do Cristianismo como religião sincretista (SCHNELLE,2017). Segundo muitos estudiosos, como Köester (2005), foi lá que se designou a mensagem de Jesus como euangelion e as comunidades de ekklesia, argumentando-se que são termos correntes no mundo greco-romano, não podendo ter origem no meio de fala aramaica. A partir de 50 d.C., Paulo empreendeu suas viagens missionárias e fundou comunidades cristãs em diversos pontos do Império Romano. De fato, o Cristianismo alcançou os povos não judeus. Página 5 de 183 Com a morte dos apóstolos e da primeira geração de cristãos, foi iniciada a redação dos Evangelhos, usando como fonte tradições orais e escritas sobre o Cristo e modeladas segundo a necessidade e a visão teológica da comunidade. Expansão do Cristianismo A expansão do Cristianismo pelo mundo greco-romano fez com que as estruturas sociais se re�etissem nos escritos do século I. As comunidades tinham como membros desde escravos até membros da classe alta. Os primeiros séculos também foram marcados por períodos de intensa perseguição do Império contra os cristãos. Isso começou quando judeus e cristãos se diferenciaram ainda mais, tornando-se dois grupos religiosos distintos. Os cristãos, diferentemente do Judaísmo, pregavam um conceito universal de salvação, independentemente da origem étnica, ao mesmo tempo que oferecia monoteísmo judaico e o ethos exclusivo (SCHNELLE, 2017). O judaísmo, por sua vez, viu no Cristianismo um grupo herege e um possível fator de con�ito com o Império, já que se adorava como Deus um Cruci�cado. Atenção O Imperador Nero, no ano 64 d.C, de�agrou a primeira grande onda de perseguição contra os cristãos (BROWN, 2012). Domiciano, em 81-96 d.C., segundo Suetônio, mandou ser chamado de “Nosso Senhor e Deus” (SCHNELLE, 2017), renovando a perseguição e o clima de ódio contra os cristãos. Há alusões a essas perseguições em todo Novo Testamento, principalmente na Primeira Carta de Pedro e Apocalipse de João. Contexto teológico O mundo religioso judaico após o exílio passou por grandes alterações. Após ter sofrido in�uências do ambiente persa e um breve período como uma Teocracia, a Palestina foi conquistada pelos gregos. O Helenismo exerce enorme in�uência doOriente, e os judeus não foram exceção. Houve resistência a esse processo, sendo re�etida na Revolta Macabaica (198-164 a.C.). Essa revolução teve matriz religiosa e política, como reação à Helenização forçada e desrespeito às tradições religiosas judaicas por parte dos governantes selêucidas. Página 6 de 183 Os macabeus e asmoneus tomam o Poder na Judeia e a fazem independente. Mesmo que por um breve período, já que o território foi conquistado pelos romanos em 63 a.C. É nesse período que surgem as correntes religiosas e políticas que irão caracterizar o judaísmo até a destruição de Jerusalém em 70 d.C. Os hasidim (essênios e fariseus) Os hasidim eram um grupo de judeus conservadores que, apesar de terem apoiado a Revolta dos Macabeus, não aceitaram a nomeação de asmoneus para o sumo sacerdócio, cargo que teria que ser ocupado por alguém da família sadoquita. Então, esse grupo autoexilou-se no deserto de Qumran, dando origem aos essênios, que �cou muito conhecido após a descoberta de manuscritos preservados em cavernas em 1948. Os essênios formavam uma seita, autoidenti�cada com o verdadeiro Israel e aquela que prepara os caminhos do Senhor. Eram guiados por um “Mestre da Justiça”. Eram rígidos quanto à observância da Torá e dos rituais de puri�cação (HORLSEY; HANSON, 1995). Ruínas de Qumran. (Fonte: Sopotnicki / Shutterstock) Fragmentos do 1QGen, 1QEnGia e 1Q29, textos encontrados em Qumran, no Mar Morto em 1948. Foram escritos pelos essênios, que foram destruídos na Guerra Judaica e que esconderam os manuscritos nas cavernas do Mar Morto, o que os preservou. Disponível em: The Leon Levy Dead Sea Scrolls <https://www.deadseascrolls.org.il/explore- the-archive/manuscript/1Q1-1? locale=en_US> Todas as normas estavam escritas no Manual de Disciplina (1QS), dirigido aos membros da comunidade celibatários que ali viviam. Já o Documento de Damasco, era para membros casados que não residiam na comunidade e faziam uma interpretação escatológica das escrituras (KÖESTER,2005). Os essênios esperavam a vinda de três �guras escatológicas: O Profeta. O Messias real. O Messias sacerdotal. O texto de 1QS 9,10-11 deixa isso claro: (...) mas eles serão governados pelas primeiras regras, pelas quais os homens da comunidade começaram a ser instruídos, até a vinda de um profeta e dos Messias de Aarão e de Israel. (FITZMYER, J. Aquele que há de vir. São Paulo: Edições Loyola, 2015, p.105) Página 7 de 183 https://www.deadseascrolls.org.il/explore-the-archive/manuscript/1Q1-1?locale=en_US Comentário Há um texto chamado Hino da Autoglori�cação (4Q491 11 i) que leva a supor que havia uma �gura na comunidade que se considerava Messias e era assim considerado pela comunidade, devido a trechos como “Quem é como eu entre os anjos? Sou bem-amado do rei, um companheiro dos santos”. Recentemente, os estudiosos Israel Knohl e Michael Wise popularizaram a tese de que esse Messias ao qual o cântico se referia era o mestre da Justiça e que in�uenciou no movimento messiânico de Jesus de Nazaré. Atualmente, essa opinião é minoritária no mundo acadêmico (FITZMYER, 2015). Dos hasidim também surgiram os fariseus, corrente político-religiosa que, ao invés de se retirar para o deserto como os essênios, queria a aplicação da Lei em todos os seus detalhes na sociedade judaica (HORSLEY, HANSON, 1995). Flávio Josefo a�rmou que os fariseus já existiam como partido político durante os reinados de João Hircano, Alexandre Janeu e Alexandra (KÖESTER, 2005). Também a�rmou que: (...) os fariseus transmitiam ao povo certas regras de gerações mais antigas que não estavam escritas na Lei de Moisés. (Antiguidades 13.297 apud HORSLEY, R. HANSON, J. Bandidos, Profetas e Messias: Movimentos Populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus,1995, p. 41) Leitura Na época do Novo Testamento, exerciam muita in�uência sobre o povo e não foram raros seus con�itos com Jesus de Nazaré e seus discípulos. Durante os períodos Herodiano e Romano, foram os saduceus que apoiavam a família dominante e seus representantes exerciam o sumo-sacerdócio. Leia mais sobre Saduceus e Zelotes. <galeria/aula1/anexo/a01_14_01.pdf> Culturas helenistas Como já foi dito, o Helenismo penetrou na Palestina com a conquista de Alexandre Magno, quer tolerante em relação aos outros cultos, mas como um fenômeno frequente, essa nova cultura in�uenciou o Judaísmo. Foi estabelecido o Gymnasium, centro de formação física e intelectual do jovem helenista, na Síria e Palestina. O Primeiro Livro de Macabeus narra que foi construindo um Gymnasium em Jerusalém por volta de 175 a.C. (HENGEL, 1974). No contato entre as culturas helenistas, era inevitável que ocorresse a identi�cação do Deus dos hebreus com as novas divindades gregas. Celso, do Século II, escreveu que: Página 8 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/galeria/aula1/anexo/a01_14_01.pdf (...) Não há diferença se nós chamamos Zeus de Altíssimo, ou Zen, ou Adonai, ou Sabaoth, o Amom, como os egípcios (...). (HENGEL, M. Judaism and Hellenism: Studies in their encounter in Palestine during the early Hellenistic period. Oregon: Fortress Press, 1974) Fílon de Alexandria O expoente maior de uma corrente helenizada do judaísmo foi Fílon de Alexandria, que viveu entre 20 a.C. e 50 d.C. Teve ótima educação aos moldes gregos e, por ser de família judaica, também conhecia as escrituras, mesmo que provavelmente só a tradução grega (a Septuaginta). Fílon escreveu sobre Filoso�a, Cosmologia e Teologia. Interpretou alegoricamente o livro de Gênesis, e foi bastante in�uenciado pelo Aristotelismo e pelo Platonismo (BROWN, 2012). Ele uniu a re�exão sobre o Lógos presente no mundo grego com o conceito judaico da Palavra de Iahweh. A�rma que o Lógos é um demiurgo e a Sabedoria como a Mãe da Criação, ao lado de Deus (BORGEN, 2014). Fílon o Alexandrinós – Fílon de Alexandria. Disponível em: Wikipedia <https://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%ADlon_de_Alexandria#/media/File:PhiloThevet.jpg> O pensamento de Fílon sobre o Lógos está evidente no seguinte trecho de sua obra De Confusione Linguarim: [...] O primogênito de Deus, Lógos, o mais antigo dos anjos, o Arcanjo. Ele tem vários nomes [...]. O Princípio, e o Nome de Deus, e Lógos, e o Homem segundo Sua Imagem, e ‘aquele que vê’, Israel. (FÍLON. Conf.146 apud BORGEN, P. The Gospel of John: More Light from Philo, Paul and archaeology. Boston: Brill, 2014) A in�uência de Fílon sobre os escritos do Novo Testamento e a Teologia do Cristianismo Primitivo é muito discutida. Há evidências de que o autor do prólogo do Evangelho de João tinha conhecido das re�exões de Fílon sobre o Lógos (BROWN, 2012). Página 9 de 183 https://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%ADlon_de_Alexandria#/media/File:PhiloThevet.jpg Relação sincrética com outros cultos No mundo greco-romano, a religião romana tinha uma relação sincrética com outros cultos. Página 10 de 183 Cibele com os seus tradicionais atributos: cornucópia, leão e coroa no formato de muralhas de uma cidade (mármore romano, c. 50 d.C. (Fonte: Wikipedia <https://pt.wikipedia.org/wiki/Cibele#/media/File:Cybele_Getty_Villa_57.AA.19.jpg> ) Em 204 a.C., foi aceito o primeiro culto oriental à deusa Cibele. Estátua de ísis, no Templo de Ísis – Egito. (Fonte: Catmando / Shutterstock) Imigrantes egípcios levaram o culto à Ísis para Roma, e de lá se popularizou por todo território. Mitra sacrifica o touro sagrado - Baixo-relevo dos séculos II-III. (Fonte: Wikipedia <https://pt.wikipedia.org/wiki/Mitra_(mitologia)#/media/File:Mithras_tauroctony_Louvre_Ma3441b.jpg> ) Outro culto oriental que se tornou popular nos primeiros séculos da nossa era foi o de Mitra, divindade proveniente da Pérsia. Página 11 de 183 https://pt.wikipedia.org/wiki/Cibele#/media/File:Cybele_Getty_Villa_57.AA.19.jpg https://pt.wikipedia.org/wiki/Mitra_(mitologia)#/media/File:Mithras_tauroctony_Louvre_Ma3441b.jpg Santuários foram descobertos em vários pontos do império, desdea Germânia até a Mesopotâmia (KÖESTER, 2005). As religiões de mistério eram caracterizadas por rituais secretos, que só os iniciados teriam acesso e a partir deles participavam da natureza imortal dos deuses (BROWN, 2012). Era comum a crença de deuses tomando a forma de seres humanos. Homero a�rma que: (...) os deuses perpassam as cidades em muitas formas diferentes, parecidos a forasteiros vindos de longe. (HOMERO. Od 17, 485 apud SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Ed. Academia Cristã, 2017, p. 223) O culto a Hércules, que derrotou o mal e foi presenteado com a imortalidade por Zeus, estava bem estabelecido no século I. Dio Crisóstomo comenta que: [...] depois de sua morte [Hércules], eles o veneram mais do que qualquer outro, consideram-no deus e dizem que está morando junto a Hebe. Todos rezam a ele, para que suas vidas sejam menos sofridas. (DIO CRISÓSTOMO. Or 8,28 apud SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Ed. Academia Cristã, 2017, p. 223) O culto ao imperador romano era algo que também caracterizava o cenário religioso dos primeiros séculos. Segundo Köester (2005), o culto ao imperador vivo iniciou-se com Augusto, onde foram erguidos altares em adoração ao imperador. Imperador romano Augusto. (Fonte: Bildagentur Zoonar GmbH / Shutterstock) Página 12 de 183 Calígula, por sua vez, fortaleceu o culto ainda mais ao exigir ser tratado como Deus. No ano 69 d.C, Vespasiano é aclamado Imperador após uma crise sobre a sucessão iniciada com o suicídio de Nero. Tácito e Suetônio testemunham que a ascensão de Vespasiano foi vista como cumprimento de antigas profecias sobre um governante vindo do Oriente que restauraria a ordem. (TÁCITO. Hist. V 13, 1.2. SUETÔNIO. Vesp 4,5 apud SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Ed. Academia Cristã, 2017, p. 477) Flávio Josefo alegou ter dito a Vespasiano que dele seria o Governo do Mundo e chamou suas conquistas de euangelia, boas notícias. (JOSEFO, F. Bell 4,618 apud SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Ed. Academia Cristã, 2017, p.478) O imperador era designado como Kyrios, Senhor, título também utilizado para as divindades nas religiões orientais e nas religiões de mistérios (CULLMANN, 2008). Domiciano, por volta de 80 d.C. exigiu ser chamado de “Nosso Senhor e Deus”. Provavelmente, foi devido à recusa de adorarem ao imperador que os cristãos foram perseguidos violentamente nos primeiros séculos da Era Cristã. É ao Império Romano e à pretensão de divindade do imperador que Apocalipse 13 se refere quando fala da Besta que sobe o Abismo (KÖESTER, 2005). Leitura Leia sobre o Contexto Político. <galeria/aula1/anexo/a01_22_01.pdf> Atividade 1. O que foi determinante para a expansão do Cristianismo para os povos não judeus? a) A imigração dos Doze Apóstolos para Antioquia. b) A perseguição aos cristãos helenistas e a expulsão destes de Jerusalém, além das viagens missionárias de Paulo. c) A morte e a ressurreição de Jesus. d) A morte de Paulo e das colunas da Igreja de Jerusalém, Pedro, Tiago e João. Página 13 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/galeria/aula1/anexo/a01_22_01.pdf Gabarito comentado 2. Correlacione as colunas: Fariseus Saduceus Essênios Zelotas 1 2 3 4 a) Seita judaica que se retirou para o deserto. b) Grupo revolucionário que se originou da união de bandos de salteadores da zona rural da Judeia. c) Grupo composto pela casta sacerdotal. d) Seita judaica que valorizava as tradições orais. 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 3. Complete as lacunas: digite a resposta foi um pensador, nascido na Alexandria, que mesmo judeu teve excelente educação digite a resposta , e foi in�uenciado por correntes de pensamento helênicas, como o digite a resposta e o digite a resposta . Suas Re�exões abarcaram temas como o Lógos, para o qual era um digite a resposta . Página 14 de 183 4. Marque V para Verdadeiro ou F para falso: Os zelotas reivindicavam que os sumo-sacerdotes tinham que ser nomeados pelo imperador romano. b) Os essênios esperavam a vinda de três �guras escatológicas: O Profeta, o Messias Real e o Messias Sacerdotal. c) A Religião Romana era bastante intolerante com outras religiões, incentivando perseguições a todos os outros cultos estrangeiros. d) A Revolta Macabaica foi uma insurgência contra a dominação romana. 5. Discorra sobre o cenário religioso do Império Romano durante o Século I. Referências BORGEN, P. The Gospel of John: More Light from Philo, Paul and archaeology. Boston: Brill, 2014. BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. COLLI, G. Panorama Teológico do Novo Testamento. Curitiba: InterSaberes, 2017. CULLMANN, O. Cristologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. FITZMYER, J. Aquele que há de vir. São Paulo: Edições Loyola, 2015. FRANCISCO, Papa. O Evangelho da Vida Nova. Petrópolis: Vozes, 2015. FRIESEN, A. Teologia bíblica pastoral na pós-modernidade. Curitiba: InterSaberes, 2016. HENGEL, M. Judaism and Hellenism: Studies in their encounter in Palestine during the early Hellenistic period. Oregon: Fortress Press, 1974. HORSLEY, R.; HANSON, J. Bandidos, Profetas e Messias: Movimentos Populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995. KÖESTER, H. Introdução ao Novo Testamento 1: História, cultura e religião do período Helenístico. São Paulo: Paulus, 2005. _____. Introdução ao Novo Testamento 2: História e Literatura do Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulus, 2005. MARGUERAT, D. Novo Testamento, História, Escritura e Teologia. São Paulo: Loyola, 2009. MONASTERIO, R. A; CARMONA, A. R. Evangelhos sinóticos e Atos dos apóstolos. São Paulo: Ave-Maria, 2000. RENNER, R. História da Teologia. Curitiba: InterSaberes, 2017. VIELHAUER, P. História da Literatura Cristã Primitiva. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2004. Página 15 de 183 Próxima aula A autoria do Novo Testamento; O contexto do Novo Testamento; A recepção de textos neotestamentários; A transmissão dos textos do Novo Testamento até a sua formação. Explore mais O Center for the Study of New Testament Manuscripts (Centro de Estudos dos Manuscritos do Novo Testamento) funciona no Center for the Research of Early Christian Documents (Centro de Pesquisa de Documentos Cristãos Antigos), tendo o propósito de fazer fotogra�as digitais de manuscritos gregos do Novo Testamento para que essas imagens possam ser preservadas, duplicadas sem deterioração e acessadas por estudiosos que fazem pesquisas textuais: //www.csntm.org/ <//www.csntm.org/> Página 16 de 183 https://www.csntm.org/ Disciplina: Introdução ao Novo Testamento Aula 2: Texto e Cânon do Novo Testamento 2 Página 17 de 183 Apresentação A formação do texto do Novo Testamento, visto a partir do conceito de relevância, envolve as questões relacionadas à autoria, contexto, recepção e transmissão dos textos neotestamentários. Em relação à autoria e ao contexto de redação, vamos analisar a compreensão do Novo Testamento a partir da relação entre o(s) autor(es)/redator(es) e as comunidade para os quais os escritos foram dirigidos. Quanto à recepção e à transmissão dos textos, ambas dizem respeito à ampliação do público que recebe os escritos, fator fundamental no processo de canonização dos textos. Objetivos Reconhecer a relevância e a autoria dos textos neotestamentários; Examinar o contexto e a recepção dos livros do Novo Testamento pelas comunidades destinatárias; Descrever o processo de transmissão dos livros do Novo Testamento após a sua produção e recepção. Página 18 de 183 O texto do Novo Testamento O Cânon do Novo Testamento, usado nas Igrejas Católica Romana, Ortodoxa e Protestante é composto de 27 livros. O primeiro deles é o Evangelho de Mateus, considerado Evangelho eclesiástico. Contém o Sermão da Montanha, a oração do Pai Nosso e outros textos fundamentais para o Cristianismo. A tradição atribuiu sua autoria ao Apóstolo Mateus, ex-cobrador de impostos, também identi�cadocomo Levi. O Evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, é costumeiramente dividido em duas partes: A primeira, do capítulo 1 ao Capítulo 8, onde Jesus era mal compreendido e rejeitado; A segunda, a partir do Capítulo 8, onde passa a falar sobre o sofrimento, a morte e a ressurreição de Jesus. Os pais da Igreja atribuíram sua autoria ao assistente e tradutor de Pedro em Roma, Marcos. O Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos compõem uma única obra em dois volumes, sendo Lucas o mais longo dos Evangelhos, e onde a História mais confunde com a Teologia (BROWN, 2012). Em Atos dos Apóstolos, as duas principais figuras são Pedro e Paulo, mas narra a História da Igreja desde a Ascenção de Jesus até a prisão de Paulo em Roma. Segundo os pais da Igreja, Lucas teria sido médico e seria o mesmo que acompanhou Paulo em suas viagens missionárias. O Evangelho de João, com estilo e Teologia mais destoantes dos Sinóticos, recorre às técnicas retóricas do mal-entendido, do duplo signi�cado e da ironia para narrar a mensagem de Jesus. A tradição atribuiu a autoria do Evangelho ao Apóstolo João, que seria o Discípulo Amado, assim identi�cado no texto, mas a identidade desse discípulo ainda é objeto de muito debate. Evangelho de Mateus Evangelho de Marcos Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos Evangelho de João Página 19 de 183 (Fonte: jodaarba / Shutterstock). As cartas de Paulo Página 20 de 183 Clique nos botões para ver as informações. A carta de Paulo aos Romanos é a mais longa do Novo Testamento e a mais estudada das cartas paulinas. Seus tópicos teológicos mais importantes, como Justi�cação e Justiça de Deus, foram objeto de discussão em todos os períodos da história da Igreja. Carta de Paulo aos Romanos As cartas de Paulo aos Coríntios retratam a maneira como o Apóstolo lidava com os problemas da comunidade de Corinto. Cartas de Paulo aos Coríntios A epístola aos Gálatas é considerada por muitos a mais paulina, pois nela, levado pela raiva, Paulo disse o que realmente pensava (BROWN,2012). Foi, ao lado de Romanos, a mais usada pelos reformadores do século XVI. Epístola aos Gálatas A carta aos Efésios teve sua autoria muito questionada. A tradição atribuiu a Paulo a escrita dessa carta, mas, desde o século XVI, isso é objeto de muita discussão, sendo que atualmente a maioria dos estudiosos acreditam tratar-se de uma carta não paulina. Destaca-se pela avançada Eclesiologia. Já apresentando características de um catolicismo primitivo. Carta aos Efésios A carta aos Filipenses é o escrito em que Paulo mais demonstra seu amor pela comunidade e que contém um dos mais primitivos hinos da igreja cristã, compreendido em Filipenses 2:6-11. Essa carta também demonstra ser um testemunho da fase tardia da Teologia do Apóstolo Paulo, por ter sido escrita no �nal de sua carreira missionária e ter aspectos avançados nos conteúdos teológicos. Carta aos Filipenses A epístola aos Colossenses foi a primeira escrita após a morte do Apóstolo, e a que, dentre as cartas deuteropaulinas, se aproxima da Teologia de Paulo. Foi uma resposta para uma comunidade que estava tentando relacionar sincreticamente elementos de sua antiga crença com a Fé cristã. Epístola aos Colossenses Página 21 de 183 A primeira e a segunda carta aos Tessalonicenses são os escritos mais antigos conservados do Novo Testamento, por isso nelas está retratada a Teologia do início do ministério de Paulo. Primeira e Segunda carta aos Tessalonicenses A primeira e a segunda carta a Timóteo foram escritas por algum discípulo de Paulo com o objetivo de combater falsas doutrinas e orientar as comunidades em suas estruturas eclesiásticas e relações internas e externas. Primeira e Segunda carta a Timóteo A carta a Tito, assim como as outras pastorais (1 e 2 Timóteo), retratam a situação das igrejas pós- apostólica, tratando de questões como a liderança dessas comunidades. Carta a Tito A Carta a Filemon, aceita como sendo uma carta paulina genuína, é a mais breve das cartas do Apóstolo. Escrita a um líder de igreja doméstica, Paulo intercede em favor de um escravo, Onésimo, que fugiu de Filemon. O Apóstolo tenta persuadi-lo a não somente perdoar Onésimo, mas aceitá-lo como Irmão. Carta a Filemon A carta aos Hebreus, cujo autor é desconhecido, é o testemunho mais importante de uma Teologia que busca contrastar o culto judaico e a Fé cristã, a nova e a antiga Aliança etc. Carta aos Hebreus Carta de Tiago Chamada de Epístola de Palha por Lutero, a Carta de Tiago, ao lado do Evangelho de Mateus, é um escrito que expõe uma visão cristã-judaica. Destinada às doze tribos de Israel que estavam dispersas, defende uma unidade entre fé e obras. Cartas de Pedro e de Judas Página 22 de 183 Na Primeira e segunda carta de Pedro, assim como na Carta de Judas, o autor tenta fortalecer os cristãos da Ásia Menor que estão sendo perseguidos, recorrendo à Imagem do Servo sofredor, personi�cado em Jesus Cristo. Cartas de João As cartas joaninas (1,2 e 3 João) são semelhantes em linguagem ao Evangelho de João, e incontestavelmente foram produzidas dentro/para o mesmo círculo. Apocalipse de João O último livro do Novo Testamento, e o mais tardio, é o Apocalipse de João. Escrito durante a perseguição do Imperador Domiciano aos cristãos, o autor utiliza de imagens derivadas do Antigo Testamento e do ambiente cultual das igrejas para fortalecer as comunidades a�igidas como todas essas di�culdades. Apócrifos Nos primeiros séculos do Cristianismo, a produção de escritos não �cou restrita aos 27 livros que estão no cânon do Novo Testamento. Apareceram diversos escritos denominados pela Igreja de “apócrifos”. Página 23 de 183 Clique nos botões para ver as informações. O mais conhecido desses talvez seja o Evangelho de Tomé, descoberto em 1945 em Nag Hammadi, no Egito, junto a diversos outros papiros coptas. O manuscrito é datado de 400 d.C. Mas os estudiosos colocam sua composição como sendo no século II. Köester (2005) e outros defendem que o Evangelho tenha começado a ser composto nos anos 50 d.C. na Síria Oriental. Trata-se de uma coleção de ditos atribuídos à Jesus ressuscitado e, devido aos paralelos com os sinóticos, é postulado que o Evangelho de Tomé pode ter antecedido os Evangelho canônicos. Porém, no meio acadêmico é predominante a tese de que esse apócrifo teve como fonte o documento Q, o mesmo que foi usado pelos Sinóticos, e que sofreu in�uência gnóstica, sendo esse Evangelho um testemunho do Cristianismo gnóstico. Manuscrito contendo trecho do Evangelho de Tomé, descoberto em 1945, junto com a Biblioteca de Nag Hammadi, conjunto de manuscritos em copta de escritos gnósticos datando dos primeiros séculos do Cristianismo. Evangelho de Tomé (Fonte: Wikipedia <https://pt.wikipedia.org/wiki/Evangelho_de_To m%C3%A9#/media/File:P._Oxy._655.jpg> ). Página 24 de 183 https://pt.wikipedia.org/wiki/Evangelho_de_Tom%C3%A9#/media/File:P._Oxy._655.jpg O Evangelho de Pedro foi descoberto no �nal do século XIX, sendo esses manuscritos datados do Século VIII. Antes da descoberta, só se sabia da existência desse Evangelho apócrifo por causa das referências feitas por Orígenes e Eusébio a ele. O fragmento encontrado começa com uma cena no �nal do julgamento de Jesus, narra a cruci�cação e a ressurreição, com tom mitológico, e termina com os discípulos indo para a Galileia. J. D. Crossan defende que uma forma anterior de Evangelho de Pedro foi o primeiro Evangelho a ser redigido e que os Evangelhos sinóticos o usaram como fonte. Mas a maioria dos especialistas neotestamentários concorda que o Evangelho de Pedro é posterior aos Sinóticos e não o contrário (BROWN, 2012). Evangelho de Pedro Um Evangelho dos Nazarenos é citado por Epifânio e Jerônimo e também por manuscritos medievais. Seu surgimento provavelmente se deu no século II no círculo judaico-cristão da Síria. O Evangelho dos Ebionitas é citado por Epifânio e seria atribuído a um grupoherético que utilizava uma versão reduzida do Evangelho de Mateus. Teria surgido no século II, possivelmente na Transjordânia. Evangelho de Nazarenos e Ebionitas Clemente e Orígenes citam um Evangelho dos Hebreus. Eusébio o diferencia de outro Evangelho cristão- judaico escrito em sírio. Teria surgido no Egito, simultaneamente ao Evangelho dos Egípcios, cujos trechos só temos acesso por causa de citações em Clemente. Esse Evangelho era provavelmente usado nos círculos Cristão-gnósticos no Egito. Evangelho de Hebreus e Egípcios Clemente de Alexandria, em uma carta descoberta no século XX, cita um Evangelho Secreto de Marcos que seria usado por alguns cristãos da Alexandria. O trecho citado pro Clemente, único preservado desse escrito, narra um encontro entre um jovem vestido apenas com um pano �no com Jesus com o objetivo de ser iniciado nos mistérios do Reino. Alguns estudiosos, entre eles Köester (2005), levantaram a hipótese de que esse Evangelho seria anterior ao Evangelho canônico de Marcos. Porém, devido à frágil argumentação, essa teoria tem pouco apoio entre os estudiosos do Novo Testamento (BROWN,2012). Evangelho Secreto de Marcos Página 25 de 183 Popularizaram-se também, nos primeiros séculos da Igreja, os Evangelhos da Infância. O Protoevangelho de Tiago, composto no século II, possivelmente no Egito, tem Maria como personagem central, narrando desde seu nascimento até a comprovação da sua virgindade pós-parto de Jesus e conclui com o assassinato de Zacarias e o infanticídio praticado por Herodes. Evangelhos da Infância Também foi encontrado em Nag Hammadi o que se denominou de Evangelho da Verdade, provavelmente escrito no século II, que pode ter sido escrito por Valeriano, pensador gnóstico. Evangelho da Verdade Os Atos de Pedro, datados de 180 d.C., narram que, depois da viagem de Paulo à Espanha, o mago Simão se instala em Roma, onde consegue desviar da fé quase toda a comunidade cristã naquela cidade. Então, Pedro, sob ordem divina, se dirige para a capital do Império, onde opera diversos milagres. O clímax do livro é o confronto entre Simão e Pedro, e o Apóstolo acaba vencendo. Termina com o martírio de Pedro, condenado à cruci�cação, e relata o pedido do Apóstolo de ser cruci�cado de cabeça para baixo. Atos de Pedro Os Atos de Paulo, mais tardios do que os de Pedro, narram diversos acontecimentos da vida de Paulo, incluindo um batismo de um leão por ele, a conversão de Tecla e seu milagroso livramento na luta com feras. Atos de Paulo Atos de João contam a história do Apóstolo que a tradição identi�cou com o Discípulo Amado e como o autor do quarto Evangelho. Começa com a ida de João à Éfeso, depois para a Laodiceia e seu regresso à Éfeso. Lá, ele realiza diversos milagres, como a derrubada do Templo de Ártemis e ressurreições de mortos. O livro é concluído com a morte do Apóstolo. Atos de João Página 26 de 183 O Apocalipse de Pedro, citado por Clemente de Alexandria, teve sua existência con�rmada com a descoberta do manuscrito Akhmim, no Egito em 1892, e de outro manuscrito etíope em 1910. O texto de ambos tem grandes diferenças. Provavelmente surgiu no século II. O texto etíope começa com a pergunta dos discípulos à Jesus sobre o �m do mundo e o discurso apocalíptico de Jesus termina com um cenário semelhante à trans�guração descrita em Marcos 9. No fragmento de Akhmim, Jesus mostra o futuro pós-morte para os discípulos. O paraíso, destinado àqueles �éis a Cristo e o inferno, lugar de punição para os descrentes. O cânon de Muratori, descoberto por Ludovico Antonio Muratori e publicado em 1740 é a lista mais antiga de livros do Novo Testamento. Inclui quatro evangelhos, as cartas de Paulo, o Apocalipse de Pedro e o Pastor de Hermas. Apocalipse de Pedro (Fonte: Bible Research. <//www.bible- researcher.com/muratorian.jpg> ). Outro famoso escrito deuterocanônico é o Pastor de Hermas, que, por muitos círculos do Cristianismo Primitivo, foi considerado inspirado. O códice Sinaítico o inclui, junto com a Epístola de Barnabé. O livro conta a história de Hermas, um ex- escravo cristão, que também era profeta. Através de visões, ele recebe mandamentos, parábolas e profecias apocalípticas da parte de Deus. Seu objetivo é a chamada ao arrependimento antes do �m da Era, que se aproxima, e com ela, o julgamento da Igreja. O cânon de Muratori traz que Hermas seria o irmão de Pio, bispo de Roma. Possivelmente, foi escrito no Século II nessa cidade. Pastor de Hermas Página 27 de 183 https://www.bible-researcher.com/muratorian.jpg (Fonte: Quick Shot / Shutterstock). Manuscritos Atualmente estão catalogados cerca de 3 mil manuscritos do Novo Testamento em grego, além de cópias em Siríaco, Copta e Armênio. Os manuscritos mais antigos foram escritos em papiros, uma espécie de papel feitas a partir das folhas de um tipo de junco do pântano (BROWN, 2012). Entre eles, estão os Papiros Chester Beatty, datados do Século II e III, e os Papiros Bodmer, datados do Século III. Recentemente, foi publicado que dois manuscritos , fragmentos de papiro contendo trechos dos Evangelhos de Marcos e Lucas, foram datados do século II e III, respectivamente. 1 Saiba mais Após a institucionalização do Cristianismo como religião o�cial do Império Romano, por Constantino em 314 d.C., passou-se utilizar pergaminhos como material para transmissão dos escritos bíblicos. Feitos a partir de couros de animais, são mais resistentes. A partir daí temos os códices Sinaítico, Alexandrino, Vaticano, de Beza etc. Datados do século VI ao IX. Existem também os manuscritos em letras cursivas, chamados Minúsculos, e começaram a serem produzidos a partir do século IX, ou seja, no período medieval. Os mais famosos são os 13,33, 81, 157,565, 700,1424, 1739 e 2053 (KÖESTER, 2005). Para ajudar no estudo dessas testemunhas do processo de formação do Novo Testamento, os críticos textuais B. F. Westcott e F. H. Hort classi�caram os manuscritos em quatro famílias, associando-os aos locais geográ�cos onde provavelmente se deu a produção dessas cópias (KÖESTER,2005). Textos Página 28 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/aula2.html Clique nos botões para ver as informações. O Texto Alexandrino, advém da Alexandria, lugar que, por volta do século II, se tornou um grande centro de estudos cristãos, onde os escribas tinham amplo conhecimento �lológico (BROWN,2012). São classi�cados como parte dessa família as citações dos pais da Igreja alexandrinos, como Clemente e Orígenes, alguns manuscritos unciais, minúsculos, os papiros Bodmer e Chester Beatty, os Códices Vaticano e Sinaítico e traduções coptas (KÖESTER,2005). Esse texto é considerado o melhor tipo de texto, já que contém cerca de 5% de variantes (PAROSCHI, 1993). Texto Alexandrino O Texto Ocidental se desenvolveu na região de língua latina, com em Roma, Gália e Norte da África. Nessa família, estão as citações de Marciano, Justino, Tertuliano, Hipólito Irineu e Cipriano, como também alguns papiros do �nal do século III e os códices D (KÖESTER, 2005). Caracterizado pelas paráfrases frequentes, é geralmente mais longo que o texto Alexandrino (PAROSCHI,1993). Texto Ocidental Westcott e Hort classi�caram os códices א e B como Texto Neutro, que seria o texto livre de corrupções. Atualmente, os estudiosos classi�cam esses dois códices como sendo alexandrino (KÖESTER,2005). Texto Neutro O Texto Bizantino é visto como um texto tardio e secundário. Parece ter se originado da revisão do Novo Testamento feita por Luciano de Antioquia, por volta de 324 d.C. (KÖESTER,2005). Utilizado na Liturgia da Igreja Bizantina, tornou-se normativo a partir do século VI (BROWN, 2012). Abrange o Códice Alexandrino e todos os unciais e manuscritos posteriores. Posterior a Westcott e Hort, é a classi�cação da Família Cesareense, que teria origem na cidade de Cesareia, importante centro cristão nos séculos III e IV. Representa um estágio de transição entreo Texto Alexandrino e Texto Bizantino. Abrange uma parte do Texto de Orígenes Eusébio de Cesareia, Cirilo de Jerusalém, alguns manuscritos e as traduções armênia e Geórgica (PAROSCHI,1993). Texto Bizantino Página 29 de 183 Crítica textual e reconstituição do texto grego Os autógrafos, ou seja, os manuscritos originais do Novo Testamento não existem mais, somente cópia das cópias, e nenhuma é exatamente igual a outra, sempre tendo uma variação. A Crítica textual é a ciência que busca se aproximar o máximo possível do texto original (PAROSCHI, 1993). Para isso, utiliza-se alguns princípios textuais. Primeiro Passo: O primeiro passo é reunir as evidências externas, ou seja, as testemunhas do texto, manuscritos e citações em pais da Igreja. Deve-se utilizar os seguintes critérios para a avaliação das testemunhas (PAROSCHI, 1993): A antiguidade; A qualidade em detrimento da quantidade; A genealogia dos manuscritos; As citações indiretas do texto; As in�uências externas. Segundo Passo: O segundo passo é avaliar a evidência interna, ou seja, a relação das variantes com o contexto. Nesse ponto, deve-se seguir alguns princípios: Dar preferência à variante mais difícil, pois é mais provável que o escriba tentasse esclarecer e não di�cultar um texto; Escolher a variante mais curta, já que a tendência era ampliar um texto curto e não o contrário; Escolher o texto que melhor se encaixe no contexto do livro; Escolher a variante que melhor explica a origem das outras leituras. Atenção Somente um ou dois desses critérios não são su�cientes para determinar qual a variante mais próxima do original, mas deve-se usar toda a metodologia para chegar a um resultado adequado. Página 30 de 183 Reconstrução do texto grego do Novo Testamento As primeiras tentativas de reconstituir o texto grego do Novo Testamento, considerando a crítica textual, datam do século XVI. Ao longo desse tempo, um dos trabalhos mais notáveis nessa área foi o de B. F. Westcott e F. J. Hort, que, em 1881, lançaram sua edição do Novo Testamento Grego. Eles avaliaram a árvore genealógica dos manuscritos, sendo os primeiros a os classi�car em famílias. No �nal do século XIX, Eberhard Nestle lançou a sua edição, que acabou sendo a mais utilizada no meio acadêmico. Foi revista várias vezes, chegou a ter 25 edições, cada vez mais atualizada com novos manuscritos que iam sendo catalogados. Eberhard Nestle (1851-1913), professor da Universidade de Tübingen, na Alemanha. Responsável por uma edição crítica do Novo Testamento que já conta com 28 edições, e é atualmente chamada de Nestle-Aland. Disponível em: Wikipedia <https://pt.wikipedia.org/wiki/Eberhard_Nestle#/media/File:Eberhard_Nestle.jpg> Página 31 de 183 https://pt.wikipedia.org/wiki/Eberhard_Nestle#/media/File:Eberhard_Nestle.jpg O Institut für Neutestamentliche Textforschung, ligado à Universidade de Münster. É um centro de pesquisa especializado do Texto do Novo Testamento, fundado em 1959 por Kurt Aland. Hoje é responsável pela edição da Nestle-Aland e da Editio Critica Maior. Disponível em: Institut für neutestamentliche Textforschung INTF <https://www.uni- muenster.de/NTTextforschung/Begruessungsschirm.html> Já no século XX, Kurt Aland e sua esposa, professores da Universidade de Münster, na Alemanha, fundam o Institut für Neutestamentliche Textforschung e fazem uma nova edição do Texto de Nestle, agora chamado Nestle-Aland e que, atualmente está na sua 28ª edição. É no Institut für Neutestamentliche Textforschung que está sendo feita a Editio Critica Maior, uma nova edição construída a partir da avaliação de todo os testemunhos do texto grego do primeiro milênio, utilizando o recém-desenvolvido Método Genealógico baseado na coerência, que trata-se de gerar “estatísticas elaboradas por um programa de computador para formular um �uxograma dos ‘testemunhos ancestrais’ e dos ‘testemunhos descendentes’, de modo a compor uma árvore genealógica dos manuscritos” (SILVA, 2014, p.304). Os primeiros fascículos da Editio Critica Maior foram lançados em 1997, e hoje contam com as edições das Cartas Católicas, Atos dos Apóstolos e os Paralelos Sinóticos. A previsão é que se conclua esse trabalho até 2030 (SILVA, 2014). Atividade 1. Para ajudar na crítica textual dos manuscritos do Novo Testamento, os textos formam classi�cados em famílias, devido à sua origem geográ�ca. A família considerada o melhor tipo de texto é: a) Texto Bizantino, por seu desenvolvimento ser dado no meio ortodoxo do Cristianismo. b) Texto Alexandrino, por ter poucas variantes e corrupções. c) Texto Ocidental, por ter poucas variantes e corrupções. d)Texto Cesareense, por se encontrar no meio termo entre o Alexandrino e o Bizantino. 2. Correlacione: Marcos B. F. Westcott e F. J. Hort Tessalonicenses Pastor de Hermas 1 2 3 4 Página 32 de 183 https://www.uni-muenster.de/NTTextforschung/Begruessungsschirm.html Gabarito a) Escrito mais antigo do Novo Testamento. b) Apócrifo que quase foi incluído no Cânon do Novo Testamento, inclusive aparece no Códice Sinaítico. c) Tradutor de Pedro, a quem a tradição atribuiu a autoria do primeiro Evangelho a ser escrito. d) Especialistas no Novo Testamento que classi�caram os manuscritos em famílias. 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 3. Complete as lacunas com as opções: O Evangelho de digite a resposta utiliza de técnicas literárias como a digite a resposta e a retórica do digite a resposta para narrar a mensagem do Cristo. 4. Marque V para Verdadeiro ou F para falso: a) A autoria paulina de Efésios não é contestada até os dias atuais. b) Os manuscritos mais antigos foram escritos em papiros, uma espécie de papel feitas a partir das folhas de um tipo de junco do pântano. c) Devido aos paralelos com a tradição sinótica, alguns estudiosos defendem a tese de que o Evangelho de Tomé foi escrito antes dos Evangelhos canônicos. d) Na crítica textual, o critério decisivo para a con�abilidade de uma variante é sua antiguidade. 5. Descreva a importância da crítica textual para o estudo do Novo Testamento e sua metodologia para a análise das variantes encontradas nos manuscritos. Página 33 de 183 Notas Manuscritos 1 OBBINK, D., COLOMO, D.; PARSONS, P. J.; GONIS, N., eds. The Oxyrhynchus Papyri vol. LXXXII. Egypt Exploration Society,2018, p. 4-7. Referências BORGEN, P. The Gospel of John: More Light from Philo, Paul and archaeology. Boston: Brill, 2014. BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. COLLI, G. Panorama Teológico do Novo Testamento. Curitiba: InterSaberes, 2017. CULLMANN, O. Cristologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. FITZMYER, J. Aquele que há de vir. São Paulo: Edições Loyola, 2015. FRANCISCO, Papa. O Evangelho da Vida Nova. Petrópolis: Vozes, 2015. FRIESEN, A. Teologia bíblica pastoral na pós-modernidade. Curitiba: InterSaberes, 2016. HENGEL, M. Judaism and Hellenism: Studies in their encounter in Palestine during the early Hellenistic period. Oregon: Fortress Press, 1974. HORSLEY, R.; HANSON, J. Bandidos, Profetas e Messias: Movimentos Populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995. KÖESTER, H. Introdução ao Novo Testamento 1: História, cultura e religião do período Helenístico. São Paulo: Paulus, 2005. _____. Introdução ao Novo Testamento 2: História e Literatura do Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulus, 2005. MARGUERAT, D. Novo Testamento, História, Escritura e Teologia. São Paulo: Loyola, 2009. MONASTERIO, R. A; CARMONA, A. R. Evangelhos sinóticos e Atos dos apóstolos. São Paulo: Ave-Maria, 2000. OBBINK, D., COLOMO, D.; PARSONS, P. J.; GONIS, N., eds. The Oxyrhynchus Papyri vol. LXXXII. Egypt Exploration Society,2018, p. 4-7. PAROSCHI, W. Crítica textual do Novo Testamento. Vida Nova, 1993. RENNER, R. História da Teologia. Curitiba: InterSaberes, 2017. VIELHAUER, P. História da Literatura Cristã Primitiva. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2004. Página 34 de 183 Próxima aula Processo de seleçãode textos do Novo Testamento; Tipos textuais que auxiliaram na canonização dos textos do Novo Testamento. Explore mais A Biblioteca Digital Dead Sea Scrolls <https://www.deadseascrolls.org.il/home> Leon Levy dispõe de todos os manuscritos encontrados no deserto de Qumran digitalizados. É uma ótima ferramenta para pesquisadores e estudantes do Novo Testamento. A descoberta desses papiros, em 1948, mudou a compreensão que se tinha sobre o Judaísmo do Segundo Templo e até mesmo sobre alguns escritos do Novo Testamento. No site, você poderá acessar os manuscritos de Qumran e todas as informações necessárias acerca de cada um. Página 35 de 183 https://www.deadseascrolls.org.il/home Disciplina: Introdução ao Novo Testamento Aula 3: A seleção de textos do Novo Testamento Página 36 de 183 Apresentação Como temos visto, o Novo Testamento não foi escrito de uma só vez: ele é o resultado de um processo de formação de memórias coletivas, que se tornaram tradições orais, tradições escritas, pequenas porções escritas, até que tais porções se irradiassem em cada um dos seus livros. Após a formação de cada livro do Novo Testamento, tais livros foram sendo reconhecidos como fundamentais para a fé de comunidades cristãs nos quatro primeiros séculos do cristianismo. O resultado �nal desse processo — o primeiro, a formação; e o segundo, a canonização — é o que chamamos de Novo Testamento: 27 livros cuja ordem nas Bíblias modernas e sua divisão serão apresentadas nesta aula. Objetivos Descrever o processo de seleção de textos do Novo Testamento; Examinar os tipos textuais que auxiliaram na canonização dos textos do Novo Testamento. Página 37 de 183 (Fonte: Fat Jackey / Shutterstock). Língua dos escritos do Novo Testamento É unanimidade entre os estudiosos que os livros que compõem o Novo Testamento foram escritos originalmente em grego. Mas qual tipo de grego? O grego é uma língua que se originou com a chegada dos indo-europeus à Grécia, onde já habitavam os povos pré-helênicos. Inicialmente, haviam vários dialetos gregos, entre eles o jônio, falado na Jônia, região litorânea da Ásia Menor; ático, falado exclusivamente na Ática, que abrangia Atenas; lésbico, falado na Ilha de Lesbos; tessálio, utilizado na Tessália, norte da Península Balcânica; beócio, falado na Beócia e o dórico, característico de Mégara, Corinto, Agólida, Acaia, Creta, litoral africano e sul da Sicília; Além de remanescentes da linguagem aqueia, como os dialetos arcádico, cipriota e panfílio. (HORTA, 1970) Pode-se dizer que cada dialeto teve seu gênero literário próprio. Por volta do século V a.C., com o surgimento do Império Macedônio de Alexandre Magno, houve uma tentativa de unificar culturalmente os povos helênicos. O grego ático foi imposto como língua oficial da administração e, portanto, se tornou posteriormente a língua comum. (KÖESTER, 2005) Página 38 de 183 O grego koiné O Ático, em contato com outras formas características presentes em diversas regiões do Império, originou o que conhecemos como grego koiné, que signi�ca “comum”. Escritores não gregos, mas helenizados, de diferentes locais de origem, passaram a escrever utilizando o grego koiné, a partir do século III a. C., sendo também a língua popular no período romano. A Judeia, que foi conquistada por Alexandre Magno e posteriormente pelo Império Romano, não �cou imune a esse processo. Richard Horsley, por exemplo, em seu livro Arqueologia, História e Sociedade na Galileia (2000), ao analisar evidências epigrá�cas, conclui que o grego koiné era utilizado ao lado do hebraico e aramaico em obras literárias da Judeia e Galileia desde o século II a.C. Theos (Deus) escrito no início do Evangelho de João. Grego koiné, Novo Testamento. (Fonte: Swellphotography / Shutterstock) A maior parte dos manuscritos do Novo testamento que chegaram a nós, foram escritos em grego Koiné, incluindo os Papiros mais antigos como o 52, que é datado de aproximadamente 125 d.C. e é o testemunho mais primitivo do Evangelho de João. Papias, citado por Eusébio de Cesareia no século II, a�rma que o Evangelho de Mateus foi composto pelo apóstolo originalmente em hebraico, o que foi o pensamento predominante por muito tempo na Igreja e no mundo acadêmico, só sendo negado por Schleiermacher no século XIX, com base no fato de que Mateus não parece ser uma tradução a partir de uma língua semítica, mas, sim, depende do Evangelho de Marcos, que foi escrito em grego. Concordam com essa posição a maioria dos estudiosos do Novo Testamento, como Kümmel (1982), Köester (2005), Brown (2012), Vielhauer (2015) e até muitos conservadores, como Carson, Moo e Morris (1997). Então, conclui-se que os Evangelhos canônicos foram escritos em grego, assim como as cartas paulinas, já que eram endereçadas para comunidades do mundo helênico, como a Igreja em Corinto, em Filipos, Tessalônica, Roma etc. As epístolas Universais, assim chamadas as de Pedro, Tiago, Judas e João, também foram escritas nesse idioma, não havendo evidências para uma redação em outro dialeto. Da mesma forma temos o Apocalipse de João. Página 39 de 183 (Fonte: Fat Jackey / Shutterstock). Tradução para diferentes línguas Porém, logo nos primeiros séculos do Cristianismo, os livros canônicos foram traduzidos para diferentes línguas. Entre elas, o copta, siríaco e armênio. O copta, na época do Novo Testamento, estava dividido em vários dialetos, dos quais os mais importantes são o sahídico, do Alto Egito, e o bohaírico, do Baixo Egito. No século III, já haviam traduções de livros do Novo Testamento para o sahídico, enquanto que em bohaírico só existem evidências a partir do século XI. Um manuscrito em siríaco datado do quarto século e descoberto no Mosteiro do Monte Sinai, em 1892 é uma das evidências mais antigas de uma tradução do Novo Testamento para essa língua. A versão siríaca mais famosa é a Peshitta, que provavelmente foi escrita no início do século IV, e com mais de 350 manuscritos preservados até hoje, a maioria dos séculos V e VI. Outra tradução do siríaco famosa é a �loxênia, executada Pelo Bispo Filoxeno de Mabbug, na Síria. Através de um lecionário dos quatro evangelhos e dois manuscritos datados dos séculos XI e XII, conhece-se uma versão feita em siríaco palestinense, provavelmente feita no século V. Página 40 de 183 Sobre a origem da versão armênia, há duas tradições que circularam na história da Igreja. A primeira sustenta que São Mesrop, soldado que se tornou missionário cristão, morto por volta de 439, criou um novo alfabeto e traduziu o texto grego do Novo Testamento. A segunda diz que o católico Sahac fez a tradução a partir do siríaco. (BITTENCOURT, 1984) Estudiosos a�rmam que há evidências que favorecem esta última tradição. Seleção dos textos �dedignos A palavra cânon, de origem hebraica, significa cana ou o metro que era usado pelo carpinteiro ou a régua pelo escriba. Também significava regra, norma. (VIELHAUER, 2015) A palavra só foi aplicada à coleção dos textos cristãos a partir do século IV. Porém, antes disso, o que conhecemos como Novo Testamento já apresentava o presente corpo. Segundo Köester (2005) e outros, o catalisador para a seleção de um número de escritos cristãos para serem usados o�cialmente pelas Igrejas foi Marcião, que viveu no século II. Marcião, in�uenciado pela Teologia Paulina, rejeitou a sacralidade do Antigo Testamento, pois estava em contradição com os ensinos de Jesus, um Deus totalmente diferente do que é revelado nas escrituras judaicas. Em substituição à “Lei e os profetas”, ele estabeleceu como escrituras sagradas, que deviam ser utilizadas pelas Igrejas, o Evangelho de Lucas e as cartas de Paulo. Marcião acabou excomungado em 140 d.C. e fundou sua própria Igreja, tendo relatos de ter existido até o Período Medieval. Saiba mais Como reação ao Marcionismo, Justino Mártir escreve suas obras apologéticas, mas ainda não tem intenção de formar um cânon. Irineu, Bispo de Lyon, foi o primeiroa fazer isso. Ele inclui as cartas paulinas, as cartas católicas e quatro evangelhos nas Sagradas Escrituras, chamando-os de Novo testamento, ao lado das Escrituras judaicas, que agora é chamado de Antigo Testamento. Essa coleção o�cial se popularizou por Igrejas da África até a Ásia Menor. Apesar disso, alguns estudiosos consideram o Cânon de Muratori como sendo a lista canônica mais antiga, podendo ser datado do século II, mas essa opinião é controversa, como mostra Köester (2005), já que pode também ter sido compilado no século IV. Página 41 de 183 Por volta de 300 d.C., Eusébio de Cesareia faz uma classi�cação dos escritos que circulavam nas comunidades cristãs: Os livros reconhecidos. Os livros questionados. Os livros introduzidos pelos hereges e rejeitados pelos ortodoxos. Eusébio considera como reconhecidos os quatro evangelhos, Atos, 14 epístolas paulinas, 1 Pedro, 1 João e Apocalipse. Colocou como questionáveis os que não eram unanimidade, como Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Atos de Paulo, Pastor de Hermas etc. E classificou com heréticos os Evangelhos de Pedro, de Tomé e outros apócrifos. (CARSON; MOO; MORRIS, 1997) A primeira lista em que somente os 27 livros considerados canônicos aparecem é em uma carta de Atanásio à Igreja Alexandrina, datada do ano 367. O concílio de Cartago, em 397, reconheceu oficialmente esses 27 livros como inspirados divinamente e como cânon que devia ser usado pelas Igrejas cristãs. (CARSON; MOO; MORRIS, 1997) Critérios para a canonicidade No processo de formação do cânon são notáveis alguns critérios que foram utilizados pelas Igrejas para avaliarem a validade de um escrito. Um desses critérios era a apostolicidade, ou seja, o livro em consideração deve ter sido escrito por um dos doze apóstolos ou por alguém que teve contato direto com algum deles. Isso porque os Apóstolos seriam os herdeiros diretos dos ensinos de Jesus e, por isso, guardiões da sã doutrina. (BITTENCOURT, 1984) Página 42 de 183 Eles exerciam sua influência através da pregação, visitação às igrejas e escritos direcionados às comunidades. (KÖSTENBERGER; KRUGER, 2010) Como não era fácil demonstrar a autenticidade apostólica de um escrito, recorria-se ao uso e circulação do livro. Antes mesmo da discussão sobre o cânon, havia livros que eram praticamente aceitos pelas comunidades e eram de ampla circulação no meio cristão, inclusive no século I. Jerônimo, por exemplo, afirma que mesmo o autor de Hebreus sendo desconhecido, o livro devia ser aceito pois era lido em quase todas as igrejas. (CARSON; MOO; MORRIS, 1997) Outro critério importante era o da Ortodoxia, ou seja, a conformidade com a reta doutrina. Muitos escritos foram rejeitados por terem a in�uência do gnosticismo e de outras seitas heréticas. O último critério a ser mencionado é o da leitura em público. Já por volta de 50 d.C., Paulo pediu que sua carta aos Tessalonicenses fosse lida para toda comunidade (1 Ts 5,27). O autor da Carta aos Colossenses recomenda que mandem a Carta para a Igreja de Laodiceia, para que eles também a leiam (Cl 4,16). Justino Mártir, no século II afirma que “no dia chamado domingo, todos os que moram nas cidades ou no país se reúnem juntos em um lugar, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos, contanto que o tempo permita”. (KÖSTENBERGER, KRUGER, 2010, p. 134) Saiba mais Página 43 de 183 Apesar de muitos escritos considerados heréticos também serem lidos nas Igrejas, esse ainda é um critério importante para a canonicidade do livro, pois os que compõem o cânon são os que mais eram conhecidos e lidos nas comunidades. Baseado na existência de várias obras literárias que surgiram dentro do Cristianismo e analisando o processo de formação do cânon, Walter Bauer, teólogo e lexicógrafo do grego, em seu livro Ortodoxy and Heresy in Earliest Cristianity, lançou sua famosa teoria de que a Heresia teria precedido a Ortodoxia, e não o contrário, como se a�rmava até então. Para Bauer, o Cristianismo foi diverso desde o início, como mostra os Evangelhos apócrifos originários de grupos gnósticos, ebionitas etc. A ortodoxia seria uma construção sociopolítica posterior, que objetivava dar coesão ao Cristianismo nascente. A Tese de Bauer exerceu in�uência sobre vários teólogos posteriores, como Rudolf Bultmann e Helmut Köester, que, ao invés de falar sobre Ortodoxia e Heterodoxia, fala sobre trajetórias do Cristianismo. 1 James Dunn (2009) a�rma que apesar do Cristianismo ser diversi�cado desde o primeiro século, se evidencia pelos escritos neotestamentários que havia também um centro fundamental, algo comum a todas as correntes de pensamento e que as caracterizava como cristãs e que seria a Crença em Jesus de Nazaré como O Messias, sua morte e sua Ressurreição. 2 Atualmente, Bart Ehrmann têm renovado o interesse pela tese de Bauer, a atualizando em seu livro The Lost Cristianities, onde defende que, no processo de formação do Cânon, determinados grupos triunfaram sobre outras linhas de Cristianismo, impondo sua visão teológica, escolhendo os livros que seriam inspirados divinamente. Para Ehrmann, a Ortodoxia, nada mais é do que a visão dos vencedores nesse processo e as Heresias a visão dos perdedores. 3 Contudo, Andreas Köstenberger, do Southeastern Baptist Theological Seminary, e Michael Kruger, do Reformed Theological Seminary, no livro The Heresy of Ortodoxy: How Contemporary Culture's Fascination with Diversity Has Reshaped Our Understanding of Early Christianity (2010), criticam a Teoria Bauer-Ehrmann, demonstrando que desde cedo a Igreja adotava critérios, como os da Apostolicidade, para discernir os livros que seriam inspirados, e desde que a Igreja preservava os ensinos e tradições provenientes de Jesus, já havia uma preocupação com a Ortodoxia, rea�rmando então sua prioridade diante dos heresias, ao contrário da tese Bauer-Ehrmann. Aceitação dos livros no cânon Página 44 de 183 Clique nos botões para ver as informações. O Evangelho de Mateus foi aceito quase que unanimemente pela Igreja. Marcião o rejeitou, assim como fez com Marcos e João, só aceitando Lucas. No �nal do século II, os quatro evangelhos já aparecem no Diatessaron de Taciano. Desde então, nenhum teve a canonicidade questionada. Assim também Atos dos Apóstolos e Romanos. Evangelho de Mateus Coríntios, por sua vez, é citada por Clemente de Roma no �nal do século I e por Inácio de Antioquia no século II, não existindo objeção quanto à sua canonicidade. Só sendo citada a partir do século II, mas isso não constitui di�culdade para autenticidade da carta, só mostra menor circulação desta do que de a primeira epístola. Coríntios A Carta de Gálatas aparece na lista de obras paulinas de Marcião e há supostas citações de trechos da carta em Barnabé, Clemente, Policarpo, Justino Mártir, entre outros. Isso aponta para o fato de que Gálatas já era reconhecida desde cedo como autêntica. Carta de Gálatas A Carta aos Efésios aparece no cânon de Marcião e no cânon Muratoriano, ambos datados do século II. Não houve problemas quanto à sua canonicidade, sendo somente discutido seus destinatários. Carta aos Efésios Clemente e Inácio provavelmente fazem referência à Carta aos Filipenses e Policarpo fala claramente sobre esse escrito de Paulo. Carta aos Filipenses Colossenses é citada por Justino Mártir e aparece no cânon Muratoriano, não restando dúvidas quanto à sua aceitação pela Igreja. Colossenses A primeira e a segunda Cartas aos Tessalonicenses são encontradas em Marcião, no cânon Muratoriano e são citadas por Irineu. Cartas aos Tessalonicenses Página 45 de 183 Timóteo é mencionada por Policarpo e outros. Embora rejeitada por Taciano e Marcião, e que a autoria paulina tenha sido bastante questionada na atualidade, não há dúvidas de que foi amplamente aceita pela Igreja. Timóteo também não aparece em Marcião, mas foi mencionada por Irineu e Clemente de Alexandria. Timóteo Mesmo sendo uma carta breve a um destinatárioespecí�co, a Carta a Filemon se mostrou importante desde cedo, já que aparece no cânon Muratoriano e Marcião, e conta com defensores como Jerônimo e Crisóstomo. Carta a Filemon De autoria desconhecida até hoje, a Carta aos Hebreus não foi reconhecida como canônica inicialmente. Apesar de ser citada por muitos pais da Igreja, eles não a declaram como inspirada a ponto de fazer parte do Cânon. Ela foi a mais aceita, quando foi incluída na obra Paulina, provavelmente em Alexandria, no século II. Devido à in�uência de Jerônimo e Agostinho é que a Carta foi considerada canônica pela Igreja. Carta aos Hebreus O primeiro a citar a Carta a Tiago como Escritura foi Orígenes, e provavelmente o autor de Pastor de Hermas a conhecia. Eusébio a�rma que sua canonicidade ainda era discutida em sua época, mas é incluída na Peshitta e citada por Crisóstomo e Teodoreto como canônica. Não aparece no cânon de Muratori, sendo sua aceitação pela Igreja ocidental datada a partir do século IV, quando Jerônimo a declara como canônica. No século XVI, a carta foi severamente criticada pelo reformador Martinho Lutero. Ele acreditava que ela contradizia o ensino de Paulo sobre a justi�cação pela fé, chamando-a de “epístola de palha”. Mas, até hoje, o Cristianismo, inclusive o ramo protestante, a aceita como canônica. Carta a Tiago A Primeira Carta de Pedro é citada pela segunda (2 Pe 3.1) e por Irineu e Eusébio foi considerava autêntica. Mas a Segunda Carta de Pedro teve di�culdades para ser incluída no Cânon. Eusébio não a reconhecia como canônica, incluindo-a na lista de livros contestados, mas usados pela maior parte das Igrejas. Jerônimo citou a disputa em torno de sua aceitação e só foi amplamente reconhecida com Atanásio, em 367. Cartas de Pedro As três Cartas joaninas são citadas por Orígenes e Eusébio, que coloca a primeira como comprovadamente autêntica e as outras duas como contestadas. Todas as três aparecem na Lista de Atanásio. Cartas joaninas Página 46 de 183 Judas é citado por Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes, o que evidencia que ela teve aceitação cedo, mesmo com Eusébio, a incluindo entre os livros contestados. Judas Já o Apocalipse de João foi considerado canônico por Papias, Justino e Irineu e incluído no Cânon Muratoriano. Provavelmente, Inácio de Antioquia o citou e também serviu como referência para o autor de Pastor de Hermas. Apocalipse de João Cânon Muratoriano, lista mais antiga dos livros do Novo Testamento, foi publicado em 1740 por Ludovico Muratori. É datado do século II. Fragmento do Diatessaron de Taciano, que combinou os quatro evangelhos canônicos em uma única narrativa. Sua compilação se deu no século II. Trecho da Peshitta, Versão em siríaco do Novo Testamento. Essa tradução provavelmente realizada no Século IV. Apócrifos Apócrifos são aqueles livros que não foram incluídos no cânon do Novo Testamento. Entre as Epístolas apócrifas estão a Epístola de Ptolomeu à Flora e a de Barnabé e, entre o Evangelhos, temos os de Tomé, Maria, Judas etc. Página 47 de 183 Clique nos botões para ver as informações. Datada frequentemente como sendo da metade do século II e a�rma que o Deus do Antigo Testamento não é o Deus verdadeiro, mas sim um demiurgo. Foi rejeitada pelos Pais da Igreja, como Justino Mártir, Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes e outros. Epístola de Ptolomeu à Flora Foi escrita no Século II e era muito popular, sendo usada por Clemente de Alexandria, Orígenes e outros, enquanto que Irineu e Tertuliano, que comentaram extensivamente os livros canônicos, não dedicaram nenhuma atenção a esta epístola. Epístola de Barnabé Descoberto em Nag-Hammadi em 1945, é composto de 114 ditos de Jesus, que demonstram uma in�uência gnóstica. Por isso, é frequentemente datado do século II. Evangelho de Tomé Também em Nag-Hammadi foi descoberto o Evangelho de Filipe, que apresenta uma visão gnóstica do mundo. É datado como tendo sido escrito por volta do século III. Evangelho de Filipe Composto de duas partes: a primeira trata-se de um diálogo entre Jesus Ressuscitado e o Discípulos e a segunda apresentam Maria contando acerca de visões que recebeu de Jesus aos discípulos. Também foi in�uenciado pelo gnosticismo. Evangelho de Maria Provavelmente foi composto a partir de outros dois livros: “Atos de Pilatos”, que narra o encontro entre Pilatos e Jesus, e “A descida ao Inferno” que mostra o que Jesus fez no Inferno, quando lá esteve entre sua morte e a Ressurreição. Evangelho de Nicodemos Conclusão Página 48 de 183 Gabarito Com o crescimento do Cristianismo e o aparecimento de diferentes grupos com suas perspectivas teológicas, houve a necessidade da formação de uma coleção o�cial de livros, devidamente autorizados para servirem como base para a religião recém-nascida. Sendo resultado de disputas políticas ou teológicas, re�exo do pensamento de grupos vencedores sobre derrotados ou não, o fato é que até hoje as Igrejas Cristãs utilizam o Cânon do Novo Testamento para o ensino e pregação. Atividade 1. Acerca da formação do Cânon do Novo testamento, marque a alternativa correta: a) O Catalisador para a formação de um cânon foi Eusébio, que rejeitava o Antigo Testamento e fez uma lista que incluía o Evangelho de Lucas, Atos dos Apóstolos e as cartas paulinas. b) O Cânon de Muratori é a mais antiga lista a conter os 27 livros considerados canônicos atualmente. c) Entre os critérios utilizados para definir a canonicidade de um livro estavam os da Apostolicidade, da Ortodoxia e da leitura na liturgia das comunidades. d) A Tese de Bauer afirma que nem sempre o Cristianismo foi diversificado, mas que o fenômeno das Heresias só surgiu a partir do século II. e) Marcião defendia a canonicidade do Evangelhos Sinóticos e de João. 2. Acerca do processo de formação do cânon, correlacione as colunas: Apostolicidade Grego Koiné Canon de Muratori Diatessaron de Taciano 1 2 3 4 a) Dialeto Grego em que o Novo Testamento foi escrito. b) Harmonização dos quatro Evangelhos canônicos. c) Critério para avaliação da canonicidade de um escritos que leva em conta a relação do livro com os apóstolos. d) Lista de livros canônicos datada do século II. 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 Página 49 de 183 3. Acerca dos critérios utilizados pela Igreja para avaliar a canonicidade de um escrito, preencha as lacunas: O principal critério era o da digite a resposta , ou seja, o livro em consideração deve ter sido escrito por um dos Doze digite a resposta ou por alguém que teve contato direto com algum deles. Isso porque seriam os herdeiros diretos dos ensinos de Jesus e por isso, guardiões da sã doutrina. Como não era fácil demonstrar a autenticidade apostólica de um escrito, recorria-se ao digite a resposta do livro, pois antes mesmo da discussão sobre o cânon já havia livros que eram praticamente aceitos pelas comunidades e eram de ampla circulação no meio cristão, inclusive no século I. Outro critério era o da digite a resposta , ou seja, a conformidade com a reta doutrina. Muitos escritos foram rejeitados por terem a in�uência do gnosticismo e de outras seitas heréticas. 4. Ainda sobre a formação do cânon, marque Verdadeiro ou Falso: a) Apesar das controvérsias, foram reconhecidas como canônicas as Cartas de Hebreus e a de Barnabé. b) Marcião formou um cânon que incluía os quatro Evangelhos canônicos em uma só narrativa. c) A Tese de Bauer sobre Heresia e Ortodoxia in�uenciou teólogos como Bultmann, Köester e Ehrmann. d) Segundo Papias, o Evangelho de Mateus teria sido escrito originalmente em Hebraico. 5. Discorra sobre a in�uência de Marcião sobre o processo de formação do Cânon. 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Introdução ao Novo Testamento 1: História, cultura e religião do período Helenístico. São Paulo: Paulus, 2005. _____. Introdução ao Novo Testamento 2: História e Literatura do Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulus, 2005. KÖSTENBERGER, A. KRUGER, M. The Heresy of Ortodoxy: How Contemporary Culture's Fascination with Diversity Has Reshaped Our Understanding of Early Christianity. Crossway, 2010. KÜMMEL, W. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. MARGUERAT, D. Novo Testamento, História, Escritura e Teologia. São Paulo: Loyola, 2009. MONASTERIO, R. A; CARMONA, A. R. Evangelhos sinóticos e Atos dos apóstolos. São Paulo: Ave-Maria, 2000. RENNER, R. História da Teologia. Curitiba: InterSaberes, 2017. SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2017. VIELHAUER, P. História da Literatura Cristã Primitiva. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2004. Próxima aula A autoria do Novo Testamento; O contexto do Novo Testamento; A recepção de textos neotestamentários; A transmissão dos textos do Novo Testamento até a sua formação. Explore mais O Center for the Study of New Testament Manuscripts <//www.csntm.org/> (Centro de Estudos dos Manuscritos Página 51 de 183 https://www.csntm.org/ do Novo Testamento) funciona no Center for the Research of Early Christian Documents (Centro de Pesquisa de Documentos Cristãos Antigos), tendo o propósito de fazer fotogra�as digitais de manuscritos gregos do Novo Testamento para que essas imagens possam ser preservadas, duplicadas sem deterioração e acessadas por estudiosos que fazem pesquisas textuais. Página 52 de 183 Disciplina: Introdução ao Novo Testamento Aula 4: Evangelhos sinóticos Página 53 de 183 Apresentação Nesta aula, analisaremos o gênero literário Evangelho e quais as características que o torna distinto dos demais gêneros. Veremos também como se deu a transmissão das tradições provenientes de Jesus e como as comunidades cristãs preservaram essas memórias. Reconheceremos que esses escritos são de fundamental importância, pois comunicam acerca da vida e dos ensinamentos de Jesus de Nazaré. Veremos também que os demais livros do Novo Testamento demonstram um interesse no Cristo Cruci�cado e Ressuscitado e focam muito pouco no Ministério Terreno de Jesus. Por isso, os Evangelhos são as fontes principais para a pesquisa do Jesus Histórico. Além disso, estudaremos as hipóteses sobre a formação dos Evangelho Sinóticos, que guardam alto grau de parentesco entre si. Objetivos Classi�car os evangelhos neotestamentários; Examinar o conteúdo teológico e as temáticas de cada evangelho sinótico; Analisar a relação entre os evangelhos sinóticos, a chamada “questão sinótica”. Página 54 de 183 O signi�cado de evangelho Há quatro evangelhos no cânon usados pelas Igrejas cristãs até hoje. Três deles contêm muitos paralelos entre si. Por isso, é quase unanimidade entre os estudiosos que Mateus, Marcos e Lucas usaram as mesmas fontes e convencionou-se chamá-los de evangelhos sinóticos. A palavra grega euangelion era usada no mundo helenístico para denotar “boas-novas” e já era aplicada no contexto religioso do culto ao Imperador. No Calendário de Priene, datado de 9 a.C., está escrito sobre a data de aniversário de Augusto: O nascimento do deus foi para o mundo o começo de boas-novas (euangelion) que a partir de então se sucederam deste mesmo mundo. (KÜMMEL, 1982) O historiador Flávio Josefo <https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Josefo> descreveu as vitórias militares e políticas do Imperador Vespasiano (70 d.C.) como euangelia. No contexto do Cristianismo, Paulo parece ter sido o primeiro a utilizar a palavra “evangelho” para designar a mensagem de Jesus Cristo. Muitos estudiosos a�rmam que Paulo fez a escolha por essa palavra devido ao uso religioso que ela já tinha no mundo helenístico, como uma forma de contrastar com o evangelho de César. Busto do Imperador Vespasiano. Assumiu o poder em 69 d.C., após a crise sucessória que se instalou com a morte de Nero. Responsável pela destruição de Jerusalém, foi aclamado Imperador pelos seus próprios soldados, em Alexandria. Disponível em: Wikipedia. <https://pt.wikipedia.org/wiki/Vespasiano> Página 55 de 183 https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Josefo https://pt.wikipedia.org/wiki/Vespasiano Saiba mais Uma opinião divergente, mas com boa argumentação é a de Jame Dunn, professor da Universidade de Durham, na Inglaterra. Para ele, o uso dessa palavra por parte de Paulo se deve mais à in�uência de Isaías. O profeta utiliza no capítulo 52, versículo 7, o verbo bsr, que a Septuaginta, os Salmos de Salomão e escritos de Qumran traduzem para o grego como euangelizómenou (DUNN, 2017). Marcos, considerado quase que unanimemente o primeiro evangelho a ser escrito, começa aplicando o termo euangeliou à mensagem de Jesus (Mc 1,1). A partir daí, dá-se origem ao gênero literário evangelho. Mas, só no século II, os escritos acerca da vida de Jesus passam a ser chamados de evangelhos, como em Didaquê, Clemente e Justino (MARGUERAT, 2009). O problema sinótico e a fonte Q Na história da pesquisa do Novo Testamento, foi muito discutida quais foram as fontes dos evangelhos sinóticos. Em quase 300 anos de debate, foram apresentadas muitas teses. Observe algumas: Página 56 de 183 Clique nos botões para ver as informações. No século XVIII, G. E. Lessing apresentou a teoria de que os três evangelhos sinóticos se basearam em um evangelho primitivo, talvez o dos Nazarenos ou o dos Hebreus, citados pelos pais da Igreja. G. E. Lessing Já no século XIX, F. D. Schleiermacher teorizou que os evangelhos utilizaram fragmentos de tradições orais, e que cada evangelista compilou esses blocos como desejou, para montar sua narrativa. F. D. Schleiermacher J. J. Griesbach defendeu que Mateus foi o primeiro evangelho a ser escrito, concordando com a tradição, e que Lucas e Marcos o usaram como fonte, sendo este último a tentativa de resumir os evangelhos. J. J. Griesbach Porém, a que foi mais amplamente aceita foi a Teoria das Duas Fontes, formulada e defendida inicialmente por H. J. Holtmann, C. Weizsäcker e B. Weiss no século XIX. (VIELHAUER, 2015). Essa teoria a�rma que Marcos é o evangelho mais antigo e, portanto, foi usado por Mateus e Lucas como fonte, que também utilizaram uma coleção de ditos de Jesus, hipoteticamente denominada de Q (Quelle, fonte em alemão). H. J. Holtmann, C. Weizsäcker e B. Weiss Muito tem se teorizado sobre Q e sua natureza. Joachim Jeremias, famoso teólogo alemão, que viveu de 1900 a 1978, questionou a existência de Q, e defendeu que os paralelos entre Mateus e Marcos são advindos de tradições orais utilizadas por ambos, atribuídas a Jesus, e que nunca passaram para um estágio escrito (JEREMIAS, 2008). Joachim Jeremias Philipp Vielhauer, da Universidade de Bonn, rebateu a tese de Jeremias, defendendo que Q se originou das tradições orais das comunidades e que posteriormente passou para o estágio escrito, argumentando, por exemplo, que as variantes entre os paralelos sinóticos seriam fruto do uso de diferentes traduções de Q (VIELHAUER, 2015). Philipp Vielhauer Já Helmut Köester, professor da Harvard Divinity School, já classi�cava Q como um evangelho — o evangelho de Ditos Sinóticos —, que foi composto por volta de 50d.C. e reeditado na época da Guerra Judaica. Helmut Köester Página 57 de 183 Muitas tem sido as tentativas de reconstrução literária de Q. A principal delas é o Internacional Q Project, liderado por John Kloppenborg e James Robinson, responsáveis por edições críticas de Q. Kloppenborg chama a atenção para a semelhança entre Q e a literatura sapiencial antiga, a�rmando que é desse tipo de escrito que os redatores de Q se basearam para compilar uma coleção de ditos de Jesus. John Kloppenborg e James Robinson Para Marguerat (2009), Q provavelmente era usado por pregadores itinerantes em Israel, sobretudo em Corazim, Betsaida e Cafarnaum, e originalmente foi composto em Aramaico. Marguerat James Dunn, ao comparar os paralelos sinóticos, concluiu que, em alguns casos que hoje são atribuídos, a concordância verbal é menor do que 40%. Isso o faz defender que a Teoria das Duas fontes não é su�ciente para explicar a origem dos evangelhos sinóticos. Sua tese não exclui a existência de Q, mas a�rma que parte dos paralelos sinóticos se deve à tradição oral, característica marcante da sociedade palestina. Dunn responde à questão das variantes entre os textos com o argumento de que o conceito de “original” não se aplica às tradições, e essas diferenças podem ser explicadas pelo fato de que Jesus não poder ter proferido uma sentença uma só vez, mas ensinou a mesma mensagem em diferentes ocasiões (DUNN, 2017). James Dunn A escrita dos evangelhos Udo Schnelle, professor da Universidade de Halle-Wittenberg, em seu livro Teologia do Novo Testamento, defende que a redação dos evangelhos foi uma resposta a uma crise que se instalou no Cristianismo na metade do século I. Essa crise iniciou-se com a morte dos fundadores, como os apóstolos Pedro e Paulo, em 64 d.C, e Tiago, líder da Igreja de Jerusalém, em 62 d.C. Testemunhas oculares do ministério de Jesus e, portanto, �guras importantes para a Igreja que tinham papel chave na formação da Teologia Cristã nascente, foram martirizados. Outro fator foi a destruição do Templo e de Jerusalém, que levou a Igreja de lá a fugir para outro local. (Fonte: Janaka Dharmasena / Sutterstock) Página 58 de 183 (Fonte: BRAIN2HANDS / Shutterstock) A tradição identi�ca esse local como sendo a cidade de Pela. Com a guerra Judaica, se dá a Ascenção de Vespasiano. O General romano, que posteriormente se torna Imperador, utiliza da linguagem religiosa do culto ao Imperador para propagandear suas conquistas. Escritores romanos, como Tácito e Suetônio, aplicaram à Vespasiano as profecias sobre um governante que viria do Oriente para restaurar a paz. Como já foi citado, Josefo utilizou a palavra euangelia para descrever as vitórias de Vespasiano (SCHNELLE, 2017). Em meio a essa perseguição, as comunidades cristãs viram a necessidade de compilarem as tradições acerca de Jesus, em narrativas com o objetivo de comunicar a mensagem do Cristo à comunidade local ou a outra comunidade, mantendo vivos na memória os atos e os ensinos de Jesus e aplicando no seu contexto. Saiba mais As prováveis in�uências literárias para o gênero “evangelho” podem ter sido as Vidas dos Profetas, no contexto semítico, e as biogra�as dos heróis e �lósofos, no contexto helenístico (BROWN, 2012). No mundo romano, era de ampla circulação as obras biográ�cas, como por exemplo, a “Vida dos Doze Césares”, de Suetônio, e a “Vida de Apolônio de Tiana”, de Filóstrato. Os evangelhos, assim como essas biogra�as greco-romanas, unem o interesse em transmitir uma mensagem com o interesse histórico pelo personagem, mas não se pode ignorar a singularidade desse gênero. Ele nasce de um programa teológico sem par, cujo objetivo é a�rmar que Jesus de Nazaré é o Jesus Cristo, Senhor e salvador do Mundo (MARGUERAT, 2009). Evangelho de Marcos Marcos é costumeiramente dividido em duas partes: Página 59 de 183 A primeira parte vai do início até o capítulo 8 e mostra Jesus pregando o evangelho, curando pessoas e expulsando demônios. A partir da segunda parte, Jesus se direciona rumo à Jerusalém e ao martírio, falando mais acentuadamente sobre o sofrimento e a importância de seu sacrifício. Comentário Köester (2005) a�rma que Marcos teve como fonte uma coleção de parábolas, utilizada em Mc 4, e um Apocalipse (Mc 13), o qual Vielhauer (2015) defende que já estava em forma escrita antes dos evangelhos serem redigidos. Köester também defende que o evangelho de Marcos no seu atual estágio é uma forma reduzida do “evangelho secreto de Marcos”, que se tornou conhecido devido a uma carta de Clemente de Alexandria descoberta no século XX, e que esse evangelho secreto, por sua vez, era um estágio redacional posterior de um protoevangelho de Marcos. Devido à argumentação frágil, essa tese encontrou poucos seguidores. Provavelmente, Marcos fez uso também de tradições que estavam circulando nas igrejas, e que remontariam à Jesus. No texto do evangelho, não é revelado quem é o autor da obra. A tradição mais antiga sobre a autoria a�rma que foi Marcos, assistente e tradutor de Pedro, que compilou as memórias do Apóstolo acerca do ministério de Jesus. Porém, devido a di�culdades para se provar essa tese, ela não é mais majoritariamente aceita no meio acadêmico (KÜMMEL, 1982). Proveniência do evangelho de Marcos Página 60 de 183 Roma O local de proveniência do evangelho é um tópico muito debatido na história da pesquisa neotestamentária. Segundo Eusébio, Marcos teria escrito o evangelho em Roma, opinião com ampla aceitação, mas não necessariamente por causa da tradição. R. E. Brown, da Union Theological Seminary, argumenta que no texto encontram-se latinismos característicos da região Ocidental do Império. E que a perseguição aos cristãos engendrada por Nero na capital seria o contexto para a redação desse evangelho. Essa é a opinião de vários outros estudiosos do Novo Testamento, como Martin Hengel, Philipp Vielhauer e Werner Kümmel. Galileia Outra tese, levantada inicialmente por Ernst Lohmeyer, seria que Marcos foi escrito na Galileia, devido ao forte contraste que se encontra no texto, entre essa região, que seria o lugar da Salvação, e Jerusalém, onde Jesus foi condenado e morto. Todavia, por haver no evangelho termos aramaicos que são traduzidos para o grego e explicações acerca do ritual judaico, é mais provável que ele tenha sido escrito fora de Israel, para uma comunidade gentio- cristã (BROWN, 2012). Síria Outros, como Köester (2005), a�rma que Marcos seria proveniente da Síria, já que os termos latinos poderiam ser encontrados em qualquer região onde a presença militar romana fosse forte. James Dunn (2017), baseado nas alusões de Marcos 13 à presença Militar e à perseguição e sofrimento, a�rma que Marcos pode ter sido escrito durante a Guerra Judaica, quando cristãos fugiram de Jerusalém e as comunidades sentiram o impacto da perseguição. Para ele, o evangelho foi escrito para as comunidades dos arredores de Israel, muito provavelmente a Síria. Já Carneiro (2016) a�rma ainda que isso torna provável a origem de Marcos ter se dado na Galileia, onde a comunidade tinha que lidar com a perseguição romana de um lado e com a oposição religiosa judaica de outro. A opinião majoritária é que o evangelho de Marcos foi escrito próximo à destruição de Jerusalém, podendo ser datado então de 65 a 80 d.C. Comentário Página 61 de 183 Marcos apresenta Jesus como Filho de Deus, não compreendido até a sua morte na cruz, mesmo operando milagres e maravilhas antes disso. Isso mostra que, para Marcos, o discipulado se dá somente quando o seguidor de Cristo carrega a sua cruz também. Escrito para uma comunidade perseguida, lembra aos cristãos que Jesus é o verdadeiro Senhor e que o cruci�cado pelo Império é o Filho de Deus. Evangelho de Mateus A organização literária de Mateus se dá em torno de cinco grandes discursos: 1 Sermão da Montanha (Mt 5-7) 2 Sermão da Missão (Mt 10) 3 Sermão das Parábolas (Mt 13) 4 Sermão Eclesiástico (Mt18) 5 Sermão Profético (Mt 23-25) Muitos defendem que isso deve a uma alusão aos cinco livros do Pentateuco (BROWN, 2012). Mateus teve como fonte o evangelho de Marcos, Q e um conjunto de material próprio, de tradições provenientes de Jesus ou de redação do próprio evangelista. Atenção Por causa de uma citação de Papias de Hierápolis, no século II, durante muito tempo, acreditou-se que Mateus foi o primeiro evangelho a ser escrito, originalmente em aramaico, pelo Apóstolo Mateus. Porém, com uma criteriosa análise textual, conclui-se que o evangelho de Mateus não se trata de uma tradução do aramaico, mas foi escrito originalmente em grego. Assim, a tese da prioridade de Mateus caiu em desuso (KÜMMEL, 1982). Devido às semelhanças de Mateus com os Midrash judaicos, comentários de textos bíblicos, e o contraste entre os escribas fariseus e os escribas sábios (Mt 13,53), é provável que o evangelista tenha sido um escriba da comunidade, o que explica o amplo conhecimento do Antigo Testamento (MARGUERAT, 2009). Página 62 de 183 Proveniência do evangelho de Mateus Muitos pesquisadores, incluindo R. E. Brown, defendem a Síria como lugar de procedência do evangelho de Mateus, utilizando os argumentos de que Inácio de Antioquia e a Didaquê fazem referência a esse evangelho. Brown (2012) a�rma que a Igreja de Antioquia se encaixa no contexto eclesiástico implícito em Mateus, uma comunidade judaico- cristã com uma abertura posterior para a missão entre os gentios. Köester (2005) defende essa posição argumentando para a autoridade de Pedro em Antioquia. Ulrich Luz, da Universidade de Berna, postulou que o grupo que deu origem à comunidade mateana era composto de pregadores itinerantes, que usavam Q e atuavam em Israel e que, com o fracasso da missão entre os judeus e a Guerra Judaica, migraram para a Síria, onde tiveram contato com o evangelho de Marcos (LUZ, 2005). Biblioteca on-line da Torre de Vigia. <https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1102003102> Página 63 de 183 https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1102003102 Outra tese que tem ganhado força recentemente, defendida principalmente por Anthony Saldarini e Andrew Overman, é que o evangelho de Mateus teria se originado na Galileia. Já Overman (1996) argumenta que essa localização é provável devido ao fato que, no evangelho, Jesus não sai da Galileia e que é lá que se deu a formação do judaísmo rabínico pós-queda de Jerusalém, com quem a comunidade mateana tem uma relação con�ituosa. Ele ainda a�rma que o escrito se originou em alguma grande cidade da Galileia ou aos arredores dela, postulando Cafarnaum ou Séforis como prováveis alternativas. Primeira Igreja Virtual. <https://primeiraigrejavirtual.com.br/wp-content/uploads/2016/12/Galileia.jpg> A maior parte dos estudiosos data o evangelho de Mateus como sendo do �nal do século I, muito provavelmente da última década, pois ele re�ete um período onde o judaísmo rabínico já está desenvolvido. Comentário Mateus retrata com maior vivacidade a relação de Jesus com a lei e com Israel. Como representante do Cristianismo judaico- cristão, o evangelista chama à atenção para a importância da Torah, e que só se torna verdadeiro praticante da Lei aquele que segue os mandamentos de Jesus, o único Mestre e chave para a compreensão verdadeira da Lei. Outro objetivo do evangelho é mostrar Jesus como Filho de Deus, ao mesmo tempo que é Filho de Davi, Rei de Israel. Do início ao �m, o evangelista conclama a comunidade para a missão entre os gentios, já que a missão entre os judeus está terminada. Evangelho de Lucas O evangelho de Lucas é o primeiro volume de uma obra magistral sobre a história da Igreja. Ele é comumente dividido nas seguintes partes: Página 64 de 183 https://primeiraigrejavirtual.com.br/wp-content/uploads/2016/12/Galileia.jpg 1 Prólogo (Lc 1,1-4) 2 Ministério de Jesus na Galileia (Lc 4,14-9,50) 3 Narrativa de viagem a Jerusalém (Lc 9,51-24,53) Segundo Lucas 1,1, o autor fez uma pesquisa junto às testemunhas oculares sobre o ministério de Jesus com o objetivo de transmitir a Teó�lo, o destinatário do evangelho, para provar a veracidade da fé que lhe foi transmitida. Porém, Lucas também se utilizou do evangelho de Marcos e de Q. Provavelmente, foi composto nos moldes das biogra�as greco-romanas que tinham intuito propagandístico, e alguns já levantaram a hipótese de ter sido escrito inspirado nas sagas épicas, como “Ilíada” de Homero e “Eneida” de Virgílio (KÖESTER, 2005). O cânon de Muratori identi�ca Lucas como médico e companheiro de Paulo nas viagens missionárias e, segundo Eusébio, originário da Antioquia. Saiba mais A autoria lucana ainda é muito discutida (KÜMMEL, 1982). A principal objeção contra a tese de que o evangelista teria sido companheiro de Paulo são as diferenças teológicas entre a obra lucana e as cartas paulinas. A questão é secundária, o fato é que o autor do evangelho não foi uma testemunha ocular de Jesus. Proveniência do evangelho de Lucas Muitos, como Brown, Kümmel, Köester e Vielhauer concordam com a tradição de que Lucas foi escrito fora da Palestina para o público grego, baseando-se na semelhança com as obras literárias helenísticas e as incorreções geográ�cas sobre a Judeia. Várias sugestões de possíveis locais já foram dadas: Macedônia, Acaia, Ásia Menor ou Roma. Ainda é difícil precisar exatamente o local onde foi escrito o evangelho de Lucas. A opinião majoritária é que o evangelho de Lucas foi escrito por volta de 80 d.C. Comentário Para Lucas, há uma continuidade entre a promessa de salvação a Israel feita por Deus através dos profetas e Jesus Cristo com seu evangelho universal. Segundo Schnelle (2017), a comunidade lucana vivia em crise e era necessário re�etir sobre a relação de Israel com os cristãos, ricos e pobres e com o Estado Romano. Jesus é o Senhor e Salvador de todos os homens, principalmente dos pobres e dos excluídos. Em um contexto cercado por magia e �loso�a, Lucas apresenta Jesus como o “Novo Caminho” que leva à Salvação. Conclusão Página 65 de 183 Gabarito comentado Os evangelhos sinóticos, os primeiros a serem escritos, são testemunhos das tradições e matérias escritas que já circulavam nas comunidades cristãs cerca de 30 anos depois da morte de Jesus. São re�exos da memória acerca do Cristo e da situação das comunidades, que, por meio de releituras dessas tradições, aplicaram o evangelho à sua realidade, seja para fortalecer no momento de perseguição como para resolver impasses teológicos. Na próxima aula, vamos continuar re�etindo sobre o texto e o cânon do Novo Testamento. Esses assuntos da segunda aula constituem o segundo passo de três que daremos para permitir que você reconheça o processo histórico de desenvolvimento e transformação do Novo Testamento em texto sagrado para cristãos. Atividade 1. A fonte Q, teorizada no século XIX como a fonte comum para Mateus e Lucas, trata-se de: a) Uma coleção de parábolas e milagres de Jesus. b) Coleção de Ditos de Jesus. c) Coleção dos cinco principais sermões de Jesus. d) Narrativa sobre a crucificação e ressurreição de Jesus. 2. Acerca do que se expôs sobre os evangelhos sinóticos e sua origem, analise as proposições abaixo e correlacione-as com a coluna seguinte: Helmut Köester Evangelho de Mateus Evangelho de Marcos Teoria das Duas Fontes 1 2 3 4 a) Geralmente dividido em duas partes, foi escrito destinado a uma comunidade gentio-cristã, provavelmente na Síria, Roma ou Galileia. b) Hipótese de que Mateus e Lucas teriam usado uma coleção de Ditos como fonte ao lado do evangelho de Marcos. c) Pesquisador do Novo Testamento que defendia que o atual evangelho canônico de Marcos é uma forma reduzida do evangelho secreto, citado por Clemente de Alexandria. d) Escrito durante um período em que o judaísmo rabínico estava desenvolvido, foi estruturado em torno de cinco grandes discursos de Jesus. 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 Página 66 de 183 3. Acerca da origem do gênero literário estudado nesta aula,preencha os espaços: O termo digite a resposta tinha conotação religiosa no digite a resposta e era utilizado no contexto culto ao digite a resposta , mas Paulo também pode ter tirado seu uso do digite a resposta , principalmente do profeta digite a resposta . 4. Marque verdadeiro ou falso: a) Marcos foi escrito para um público judeu, provavelmente no contexto da Guerra Judaica. b) Lucas foi escrito destinado a ser uma obra apologética perante Teó�lo e as comunidades do mundo grego. c) Mateus foi escrito para um público judeu, provavelmente na Síria ou Galileia. d) Mateus e Lucas provavelmente utilizaram Q e Marcos como fontes. 5. Discorra sobre os prováveis locais de composição de cada um dos três evangelhos sinóticos, elencando argumentos. Referências BORGEN, P. The Gospel of John: More Light from Philo, Paul and archaeology. Boston: Brill, 2014. BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. CARNEIRO, M. Os Evangelhos Sinóticos: origens, memória e identidade. São Paulo: Fonte Editorial, Edições Terceira Via, 2016. COLLI, G. Panorama Teológico do Novo Testamento. Curitiba: InterSaberes, 2017. CULLMANN, O. Cristologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. DUNN, J. Jesus, Paulo e os Evangelhos. São Paulo: Editora Vozes, 2017. FITZMYER, J. Aquele que há de vir. São Paulo: Edições Loyola, 2015. FRANCISCO, Papa. O Evangelho da Vida Nova. Petrópolis: Vozes, 2015. FRIESEN, A. Teologia bíblica pastoral na pós-modernidade. Curitiba: InterSaberes, 2016. HENGEL, M. Judaism and Hellenism: Studies in their encounter in Palestine during the early Hellenistic period. Oregon: Fortress Press, 1974. HORSLEY, R. HANSON, J. Bandidos, Profetas e Messias: Movimentos Populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995. JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. JOSEFO, F. Bell 4,618.656 apud SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Ed. Academia Cristã, 2017. KÖESTER, H. Introdução ao Novo Testamento 1: História, cultura e religião do período Helenístico. São Paulo: Paulus, 2005. _____. Introdução ao Novo Testamento 2: História e Literatura do Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulus, 2005. Página 67 de 183 KÜMMEL, W. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. LUZ, U. Studies in Matthew. Eerdmans Publishing, 2005. MARGUERAT, D. Novo Testamento, História, Escritura e Teologia. São Paulo: Loyola, 2009. MONASTERIO, R. A; CARMONA, A. R. Evangelhos sinóticos e Atos dos apóstolos. São Paulo: Ave-Maria, 2000. OVERMAN, A. J. Church and Community in crisis: The Gospel according to Matthew. A&C Black, 1996. RENNER, R. História da Teologia. Curitiba: InterSaberes, 2017. SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2017. VIELHAUER, P. História da Literatura Cristã Primitiva. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2004. Próxima aula Classi�cação dos escritos joaninos; Conteúdo teológico e temáticas de cada texto joanino; Relação dos escritos joaninos entre si e com o cânon do Novo Testamento. Explore mais Recomenda-se a leitura do artigo “Da Diáspora à Palestina: novas concepções sobre a localização dos evangelhos sinóticos” <//revista.faculdadeunida.com.br/index.php/re�exus/article/viewFile/186/199> de Marcelo da Silva Carneiro, publicado na Revista Re�exus, da Faculdade UNIDA, Ano VIII, n. 11, 2014. Ele traz as novas tendências na pesquisa neotestamentária moderna sobre a datação e localização dos Evangelhos Sinóticos, com uma linguagem simples e acessível. O autor pontua que cada vez mais pesquisadores do Novo Testamento situam os Evangelhos como tendo sido escritos na Palestina, e não fora dela. Mateus e Marcos, por exemplo, podem ter suas origens na Galileia. Não deixe de conferir. Página 68 de 183 https://revista.faculdadeunida.com.br/index.php/reflexus/article/viewFile/186/199 Disciplina: Introdução ao Novo Testamento Aula 5: Escritos Joaninos Página 69 de 183 Apresentação Nesta aula, estudaremos o Evangelho de João e as cartas joaninas, escritos que se destacam no Cânon do Novo Testamento por usar linguagem e estilos literários tão distintos. Veri�caremos, por exemplo, que o Evangelho de João se distancia dos Evangelhos sinóticos em muitos aspectos. Quase não há paralelos entre João e os Sinóticos, sendo que o Evangelho Joanino, ao contrário dos outros, foi iniciado a partir da pré-existência de Jesus. Veremos ainda as principais teorias para sua origem e desenvolvimento, como a suposta existência de uma “Comunidade Joanina”. Objetivos Classi�car os escritos joaninos; Examinar o conteúdo teológico e as temáticas de cada texto joanino; Analisar a relação dos escritos joaninos entre si e com o cânon do Novo Testamento. Página 70 de 183 O Evangelho de João Autoria Na narrativa do Evangelho, encontra-se um personagem enigmático, o “discípulo a quem Jesus amava”, o qual a tradição identi�cou com o autor, João, �lho de Zebedeu. A autoria do Evangelho de João só foi atribuída ao Apóstolo por Irineu no �nal do século II. Desde então, até o século XIX, esse assunto foi objeto de pouca controvérsia. K.G. Bretschneider, em 1820, questionou a procedência apostólica do Evangelho baseado em dois principais argumentos: A divergência de João com os sinóticos. Seu caráter não judaico. Sua opinião gerou grande discussão e foi bastante criticada. Página 71 de 183 David Friedrich Strauss. (Fonte: //www.payer.de/religionskritik/strauss01.htm <//www.payer.de/religionskritik/strauss01.htm> ) D.F. Strauss, por volta de 1835, a�rma que João se trata de uma forma mais desenvolvida do “Mito Cristão”, desprovido de qualquer caráter histórico. A posição de Strauss foi aprofundada por F. C. Baur, que defendeu que o Evangelho de João foi escrito no �nal do século II. Até hoje, nos círculos mais conservadores, é defendida a autoria apostólica do Evangelho, como por D.A. Carson, Douglas Moo e Leon Morris (1997), que defendem essa tese, argumentando para, além da tradição, evidências internas, como o fato de o Discípulo Amado estar na última ceia, na qual os sinóticos colocam somente os doze. A última ceia. (Fonte: Renata Sedmakova / Shutterstock). Outro argumento para essa tese é que o Discípulo Amado seria um dos três seguidores mais íntimos de Jesus segundo os sinóticos. 01 Não poderia ser Pedro, por causa de sua imagem um tanto negativa no Evangelho. Página 72 de 183 https://www.payer.de/religionskritik/strauss01.htm 02 Tiago também está excluído, devido à sua morte precoce, restando somente João. Vielhauer (2015) e outros a�rmam entretanto que esse argumento é frágil, pois o Evangelho de João mostra uma imagem dos Discípulos diferente dos Sinóticos. Em João, não há os três discípulos mais íntimos, e os �lhos de Zebedeu só são citados no capítulo 21, e não há como provar a autoria do �lho de Zebedeu com base no relato desse capítulo. Por essa razão, a tese da autoria de João pelo Apóstolo é posição minoritária na Academia nos dias atuais. Outras hipóteses para a identidade do Discípulo Amado foram levantadas, como: 1 Lázaro 2 João Marcos 3 Tomé Martin Hengel, da Universidade de Tübingen, apontava como provável autor João, o Ancião, que se estabeleceu na Ásia menor, oriundo da Palestina e mencionado por Papias, sendo também o escritor das Epístolas. Essa tese é defendida atualmente por Udo Schnelle (2017). Comentário Há também aqueles que defendem que o Discípulo Amado seria uma �gura �ctícia, um modelo de cristão para a comunidade. Essa tese também não encontrou muito apoio. A identidade exata do Discípulo Amado ainda é muito controversa. Mas R.E. Brown, renomado estudioso da literatura joanina e professor do Union Theological Seminary, em seu comentário The Gospel according to John (1966), defende a autoria apostólica. Página 73 de 183 Anos mais tarde, em seu outro livro A Comunidade do Discípulo Amado (1999), muda sua posição e a�rma somente que ele seria o discípulo não identi�cado que aparece em João1,35-40, ou seja, teria sido um dos discípulos de João Batista que começou a seguir Jesus e com base em suas memórias deu início à comunidade joanina, tese anteriormente defendida por Oscar Cullmann. Ainda segundo essa hipótese, seria a mesma pessoa do Evangelista. Hoje, essa opinião é seguida pela maioria dos pesquisadores das obras joaninas. A comunidade joanina R.A. Culpepper, em 1975, propôs que os escritos joaninos são produtos de uma escola em que vários discípulos, herdeiros da tradição do Discípulo Amado, a utilizaram para re�etir teologicamente. Desde então, a hipótese de uma escola ou comunidade joanina é majoritária entre os estudiosos do Evangelho de João. R.E. Brown, em seu livro A Comunidade do Discípulo Amado, reconstituiu a história da comunidade em quatro fases: Página 74 de 183 Clique nos botões para ver as informações. A primeira começa com a formação da comunidade, na década de 50 d.C., com alguns discípulos de João Batista que se converteram ao Cristianismo, principalmente o Discípulo Amado. Aceitavam Jesus como o Messias da linhagem de Davi, e a esse grupo acrescentaram-se samaritanos, com uma teologia anti-Templo de Jerusalém e identi�cando Jesus como o novo “Moisés”. Foram expulsos da sinagoga pelos líderes judeus. Primeira fase Na segunda fase, o Evangelho foi redigido, por volta de 90 d.C. A comunidade se muda da Palestina para, provavelmente, Éfeso. No contexto helenístico, passaram a ter uma postura mais universalista e também a se diferenciar dos outros cristãos. Foi nesse período que se desenvolveu a Alta Cristologia, Jesus como o “Eu Sou” e como Deus. Segunda fase Na terceira fase, na qual as epístolas foram escritas, a comunidade enfrenta uma divisão. Muitos não aceitam a divindade ou a humanidade de Cristo e saem da comunidade. Esses são chamados de “anticristos” nas cartas. Terceira fase Na última fase, a comunidade é absorvida pela Igreja Apostólica no início do Século II. Foi provavelmente nesse período que o capítulo 21 foi escrito. Quarta fase Atenção Importante ressaltar que vários outros autores também �zeram prováveis reconstituições da História da comunidade joanina, como J. Louis Martyn, Oscar Cullmann e Marie-Emile Boismard, mas ainda hoje a de Brown é a mais aceita. Página 75 de 183 O local de origem da comunidade e da composição do Evangelho ainda é discutido. A tradição coloca o Apóstolo João morando em Éfeso. Köester (2005) recorre aos papiros mais antigos de João, encontrados no Egito, para defender que o Evangelho foi escrito na Síria e de lá foi levado para o Egito, onde �cou popular muito cedo. Ele ainda argumenta que as tradições que o situam em Éfeso são relativamente tardias. Vielhauer (2015) evoca para as semelhanças com os escritos mandeus e de Odes de Salomão e para as citações de Inácio de Antioquia para defender a Síria como local de composição, assim como Kümmel (1982), ou que a comunidade começou na Síria e migrou para a Ásia Menor. Brown (1999) também acredita que as origens da comunidade se deram na Palestina e migraram para Éfeso. Página 76 de 183 Casa em Éfeso, onde supostamente Maria, mãe de Jesus, teria vivido seus últimos dias junto com o Apóstolo João, que a tradição identi�cou com o Discípulo Amado. Mesmo não sendo reconhecida pelo Vaticano, atrai milhares de peregrinos todos os anos. Página 77 de 183 Papiro 52, o manuscrito mais antigo a trazer um trecho do Evangelho de João. Foi descoberto em 1920 no Egito e datado do início do século II. Contém o trecho de João 18:31-33, 37-38. Página 78 de 183 Seguidores do Mandeísmo, seita que provavelmente se iniciou no século II. Conta, atualmente, com 100 mil adeptos, grande parte concentrados nas proximidades do Rio Tigre, no Iraque. Ficaram famosos devido à tese de Rudolf Bultmann de que o Evangelho de João teria sido in�uenciado pelo pensamento teológico mandeu. Sua origem ainda é objeto de muito debate e alguns levantam a hipótese de terem se originado a partir do grupo de seguidores de João Batista. Fontes Rudolf Bultmann, na metade do século XX, popularizou a tese de que o redator de João utilizou três fontes para compor o Evangelho. Teriam sido usadas: Uma fonte dos sinais Coleção sobre os relatos de milagres realizados por Jesus. Uma fonte dos discursos Outra para a narrativa da Paixão Página 79 de 183 É quase unanimidade também que o Evangelho originalmente foi escrito até o capítulo 20, e que capítulo 21 é uma redação posterior. (Vielhauer, 2015) Quanto à relação com os Evangelhos sinóticos, há várias correntes de pensamento sobre o tema. Vários estudiosos defendem que João foi composto de forma independente dos Sinóticos, incluindo Bultmann e Köester. Segundo esses, o evangelista teria usado fontes comuns aos sinóticos, mas não os conheceu nem os utilizou. Köester (2005), ao analisar as semelhanças entre o Evangelho de João e os escritos de Nag Hammadi, chegou à conclusão que o evangelista utilizou uma fonte comum de discursos ao “Evangelho de Tomé” e “Diálogos do Salvador”. Além disso, teria usado também a Narrativa da Paixão utilizada por Marcos, devido a paralelos entre ambos, que seguiram o mesmo esquema essencial. “nascer de novo” (Jo 3,3.5)/ “se tornar como uma criança” (Mt 18,3). “Eu sou o Pão da vida” (Jo 6,26)/ “Este pão é o meu corpo” (Mc 14,22-25). “Eu sou o bom Pastor” (Jo 10)/ “Parábolas do Pastor e das ovelhas” (Mt 18,12; Luc 15,4). O teórico concluiu que a comunidade fez uma releitura e reelaborou tradições que foram usadas também pelos sinóticos, mas ainda acentua (2017) que João não utilizou os Evangelhos propriamente ditos. Os principais argumentos para a hipótese de João não ter usado os Sinóticos são: 01 O tipo de intertextualidade presente nos Sinóticos não se encontra em João. 02 Quase não há correspondências verbais. 03 Quando há narrativas também presentes nos Sinóticos, as diferenças são consideráveis. (Zumstein, 2004) Comentário Página 80 de 183 Outra teoria que tem ganhado força recentemente é a de que João teria utilizado os Sinóticos como fonte. Esta tese é defendida por C. K. Barrett, Udo Schnelle e pela Escola de Louvaina, com base no fato de João recorrer ao gênero literário dos Evangelhos, com a mesma sequência narrativa, começando com o testemunho de João Batista e terminando com a Paixão e ressurreição de Jesus. (Zumstein, 2004) Além dessas fontes, o evangelista utilizou as tradições provenientes do Discípulo Amado, testemunha ocular de Jesus, provavelmente o discípulo anônimo citado em João 1,35-39 e 18,15-16. Ele forneceu à comunidade memórias acerca do período de Jesus, antes do início do seu ministério, ainda no círculo de João Batista, e dos atos de Jesus em Jerusalém. (Dunn, 2017) Jesus e os discípulos. (Fonte: Comaniciu Dan / Shutterstock). In�uências teológicas No início do século XX, a pesquisa sobre João chamou a atenção para os paralelos entre a linguagem joanina e obras literárias gnósticas. Por isso, sustentou-se que o Evangelho nasceu em uma comunidade in�uenciada pelo gnosticismo. Entre os que sustentavam essa posição estavam Walter Bauer e Helmut Köester. Página 81 de 183 Clique nos botões para ver as informações. Em 1925, Rudolf Bultmann defendeu em um artigo que o Evangelho de João adotou o mito gnóstico de um Redentor que descia ao mundo para revelar o Pai, presente principalmente entre os mandeus . Rudolf Bultmann 1 Vielhauer (2005) não acredita que o Evangelho de João tenha dependido literariamente das obras mandeias, e que a semelhança entre elas é somente o uso de uma linguagem religiosa comum. Vielhauer Brown (2012) também descarta essa hipótese, argumentando que as fontes de que dispomos sobre o mito gnóstico do Redentor são todas do século II, sendo improvável uma in�uência deste sobre o Evangelho de João. Ele a�rma ainda que a linguagem joanina se aproxima mais da de Qumran. Brown Vários outros autores situam na literatura sapiencial do Antigo Testamentoescritos pós-exílicos e a �loso�a judaico-helenística de Filo de Alexandria. Sustentam essa tese Johannes Beutler, Peder Borgen, James Dunn, entre outros. 1 Dunn (2017) A�rma que a Cristologia de João é baseada no papel que a sabedoria desempenha na literatura do judaísmo pós-exílico. 2 Borgen (2014) Chama a atenção para a re�exão sobre o Logos nos escritos de Filo de Alexandria. Comentário Página 82 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/aula5.html O fato é que o Evangelho nasceu em um contexto religioso diverso, e em seu texto a comunidade re�ete suas relações com esses outros grupos, como os seguidores de João Batista, os judeus, os cristãos apostólicos, os gregos etc. O texto Desde o século passado, o Evangelho de João é frequentemente dividido em quatro partes. Primeira parte (Jo 1, 1-18) Prólogo Composto muito provavelmente a partir de um hino utilizado pela comunidade. Segunda parte (Jo 1, 19-12, 50) Livro dos Sinais No qual são apresentados os milagres que Jesus realiza testi�cando sua messianidade e mostrando a hostilidade por parte dos judeus quanto a Ele. Terceira parte (Jo 13, 1-20, 31) Livro da Glória Narra da última ceia até a ressurreição de Jesus. Página 83 de 183 Quarta parte (Jo 21) Epílogo Considerado um texto que foi adicionado ao Evangelho posteriormente. Ele mostra Jesus encontrando os discípulos na praia, operando uma pesca miraculosa, depois um diálogo entre Jesus e Pedro, e conclui identi�cando o Discípulo Amado como a testemunha ocular dos fatos que estão relatados no Evangelho. R.A. Culpepper, famoso estudioso sobre o Evangelho de João, analisando sua estrutura literária, defendeu que cada personagem que aparece nas narrativas de João representa uma resposta possível em relação a Jesus. Assim se dá o diálogo com: Nicodemos (Jo 3); A mulher samaritana (Jo 4); Marta (Jo 11); Os judeus acerca da natureza da água viva (Jo 7) e do pão da vida de que Jesus estava falando (Jo 8). Essa técnica objetiva fazer uma distinção entre os membros da comunidade, os que entendem e os de fora, e esclarecer todas as dúvidas e equívocos acerca do Evangelho. (Marguerat e Bourquin, 2009) Para muitos estudiosos do atual século, um tópico importante que permeia o Evangelho de João e indispensável para sua compreensão é a Teologia da Cruz, que é objeto de muito debate. James Dunn (2017) enumera vários exemplos para a�rmar que a iminência da morte de Jesus está presente desde o início do Evangelho. Dentre esses exemplos: Página 84 de 183 '' O fato de João Batista denominar Jesus de “Cordeiro de Deus”, (Jo 1,29.30); A execução ser simultânea à imolação do sacrifício pascal no Templo (Jo 18,36); Os ditos de Jesus sobre dar a vida pelas ovelhas (Jo 10) e de que o grão tem que morrer para dar fruto (Jo 12,24). Cristo Crucificado. (Fonte: Martinus Sumbaji / Sutterstock) As cartas de João A tradição atribuiu a autoria das cartas joaninas ao autor do Evangelho de João. Muitos sustentam essa posição até hoje, mostrando as semelhanças na linguagem. Brown (2012) chama a atenção, porém, para as muitas diferenças também existentes, entre elas: Menor ênfase no espírito, sendo que Jesus é quem assume o papel de “Paráclito” nas Epístolas. Escatologia �nal mais forte do que no Evangelho. Mais proximidade com a linguagem dos manuscritos do Mar Morto. Comentário Página 85 de 183 Os presbíteros eram os herdeiros da tradição do Discípulo Amado. Com isso, Brown modi�ca a tese de R. A. Culpepper sobre “escola joanina”, e a aplica a um círculo de discípulos dentro da comunidade, que seriam responsáveis por transmitir essas tradições, orientados pelo Paráclito. Vários estudiosos concordam que um mesmo autor escreveu as três epístolas joaninas e que são posteriores ao Evangelho. Brown (2012) situa a escrita da primeira e segunda epístolas cerca de uma década depois da escrita do Corpo do Evangelho, mas antes de sua redação, e posterior a isso, a terceira. Jesus como Paráclito. (Fonte: Jesus Cervantes / Sutterstock) A primeira Carta de João foi escrita com o objetivo de combater ensinos heréticos que estavam causando prejuízo à fé da comunidade joanina. Desse grupo dissidente não sabemos muito, além do que podemos deduzir das referências nas Epístolas. Sua identidade é muito discutida até os dias atuais. Eles têm sido associados com os gnósticos ou com os docetistas, combatidos por Inácio de Antioquia, que acreditavam que Jesus tinha natureza somente espiritual e não teve um corpo físico. Comentário Esses grupos aparecem no século II e provavelmente se originaram dos erros doutrinários combatidos nas Epístolas joaninas, que por sua vez parecem ter sido exageros de determinados pontos da Teologia da Comunidade. (Brown, 2012) Página 86 de 183 In�uenciados pela �loso�a grega, principalmente pelo platonismo, os dissidentes negavam a natureza humana de Jesus, (1 Jo 2,22-23) não guardavam os mandamentos de Cristo e não se reconheciam como pecadores. (1 Jo 1,8.10) Também se autodenominavam profetas portadores da palavra do espírito. (1 Jo 4,1) (Fonte: lsnmrch / Sutterstock) Primeira Epístola Página 87 de 183 Prólogo Inicia com um prólogo (1 Jo 1,1-4) que se assemelha com o do Evangelho de João, e em seguida é reiterada a crença em um mundo dividido em trevas e luz (1 Jo 1,5- 7). Admoestação Em 2,3-27, os cristãos da comunidade são admoestados a obedecer aos mandamentos do Cristo e de não se deixar seduzir pelo mundo e o que ele oferece. Rea�rmação da natureza divina e humana de Jesus Em seguida, a natureza divina e humana de Jesus é rea�rmada frente à ameaça do ensino herético do grupo separatista e lembra a nova identidade dos discípulos, gerados �lhos de Deus, (1 Jo 2,28-3,3). Orientações éticas Em 3,11-5,12, encontram-se orientações éticas, em que a marca distintiva dos membros da comunidade deve ser o amor. Na conclusão, (1 Jo 5,13-21) o autor deixa claro qual é o seu objetivo, para que cressem no �lho de Deus. Segunda Epístola Página 88 de 183 Instrução acerca dos separatistas O Ancião instrui a comunidade acerca dos separatistas que estavam a caminho e pede que estes não sejam recebidos. (2 Jo 10-11) Terceira Epístola Exortação Tem como destinatário Gaio, que hospedara missionários em sua casa, e o exorta a tomar um papel de maior liderança, já que o líder da comunidade, Diótrefes, se recusa a receber os enviados do Presbítero. Comentário Sendo 1 João mais próximo de um tratado teológico, 2 e 3 João se encaixam no gênero literário de carta. Conclusão A literatura joanina nos apresenta uma comunidade cristã do �nal do século I e início do século II, em contato com várias correntes religiosas e �losó�cas. Fincada sobre a base da palavra do Discípulo Amado, testemunha ocular do Ministério de Jesus, a Teologia Joanina descreve Cristo como Deus que se fez carne e que amou o mundo a ponto de dar sua vida. Reconhecida por Cristologia Avançada, essa escola também mostra o surgimento de grupos considerados heréticos dentro do Cristianismo, que se distanciavam da visão apostólica da pessoa de Jesus. Página 89 de 183 Gabarito Atividade 1. A identidade do Discípulo Amado tem sido muito discutida no meio acadêmico nos últimos anos. Com base nas evidências internas, podemos dizer que ele era: a) Uma testemunha ocular do Ministério de Jesus, integrante da casta sacerdotal, fariseu e conhecedor da filosofia helenística. b) Um escriba que, guiado pelo Paráclito, fez uma reedição de ditos de Jesus e a partir deles compôs os discursos encontrados no Evangelho. c) Inicialmente um seguidor de João Batista, que posteriormente se tornou um discípulo de Jesus. d) Alguém próximo a Jesus, mas que durante seu ministério não o reconheceu como Messias nem o seguiu, convertendo-se posteriormente à Ressurreição. e) Alguém da família de Jesus, provavelmente Tiago. 2. Segundo o que estudamos acerca do contexto religioso do Evangelho de João e sua relação comos diversos grupos, correlacione as colunas: Fílon de Alexandria Escritos sapienciais Gnósticos Mandeísmo 1 2 3 4 a) Seita que, segundo Bultmann, exerceu in�uência sob a Teologia do Evangelho de João, principalmente quanto à crença do Redentor Celestial. b) Escritor judeu-helenístico que, por causa de suas re�exões sobre o logos, é apontado como maior fonte �losó�ca do Evangelho de João. c) Grupo religioso do qual, segundo Köester, originou a comunidade joanina. d) Literatura do judaísmo do Segundo Templo que forneceu ao Evangelho de João a linguagem religiosa ali utilizada. 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 Página 90 de 183 3. Acerca da autoria do Evangelho de João, preencha as lacunas: A tradição identi�cou o digite a resposta e, portanto, o autor do Evangelho, com o Apóstolo digite a resposta , mas essa tese tem sido desacreditada. Mesmo com muito debate, a questão continua em aberto, sendo possível somente identi�cá-lo como um seguidor de digite a resposta , que inicialmente era próximo de digite a resposta e tinha contatos no digite a resposta . 4. Marque verdadeiro ou falso: a) Martin Hengel e Udo Schnelle defendem que o autor do Evangelho e das Epístolas deve ser identi�cado com João, �lho de Zebedeu. b) O autor da segunda e terceira Epístolas de João se identi�ca como o Discípulo Amado. c) Os possíveis locais onde a comunidade Joanina se situava são a Ásia Menor ou Síria. d) A seita combatida na Primeira Epístola de João são, provavelmente, os mandeus. 5. Escreva sobre a reconstituição da história da comunidade joanina feita por R.E. Brown. Notas Mandeus 1 Os mandeus existem até hoje e são um grupo gnóstico que vive na Mesopotâmia, mas que provavelmente se originou na Palestina do Século I, derivado de alguma seita judaica batista. (Vielhauer, 2015) Eles consideram João Batista um profeta enviado por Deus, chamam toda água de Batismo de Jordão e odeiam os judeus e Jerusalém. É objeto de discussão se eles descendem dos seguidores de João Batista. Referências BORGEN, P. The Gospel of John: More Light from Philo, Paul and archaeology. Boston: Brill, 2014. BROWN, R. E. A Comunidade do Discípulo Amado. São Paulo: Paulus, 1999. ______. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. CARSON, D. A.; MOO, D. J.; MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova,1997. COLLI, G. Panorama Teológico do Novo Testamento. Curitiba: InterSaberes, 2017. Página 91 de 183 CULLMANN, O. Cristologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. DUNN, J. Jesus, Paulo e os Evangelhos. São Paulo: Vozes, 2017. FITZMYER, J. Aquele que há de vir. São Paulo: Edições Loyola, 2015. FRANCISCO, Papa. O Evangelho da Vida Nova. Petrópolis: Vozes, 2015. FRIESEN, A. Teologia bíblica pastoral na pós-modernidade. 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Próxima aula Analisar a autoria, as fontes e o gênero literário de Atos dos Apóstolos e sua relação com a historiogra�a grega e judaica; Página 92 de 183 Examinar o conteúdo teológico e as temáticas de Atos dos Apóstolos; Analisar a relação entre Atos dos Apóstolos e o cânon do Novo Testamento. Explore mais O evangelho de João começa com o chamado "Hino ao Lógos", um hino cristológico que explica as abordagens a respeito de Jesus no decorrer do evangelho. Para saber mais a respeito do prólogo do evangelho de João, é importante fazer a leitura do artigo “O Prólogo de João: atributos conferidos ao Logos” <https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/viewFile/15341/11457> , de Antonio Wardison, Cézar Teixeira e José Pedro Teixeira de Jesus, publicado na Revista Cultura Teológica, volume 19, número 74, em 2011. Página 93 de 183 https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/viewFile/15341/11457 Disciplina: Introdução ao Novo Testamento Aula 6: Atos dos apóstolos Página 94 de 183 Apresentação Os Atos dos Apóstolos foram uma unidade com o Evangelho de Lucas. Como veremos, ambos tiveram o mesmo autor. Nesta aula, analisaremos o gênero literário em que a obra lucana se enquadra. Questões que são muito discutidas hoje, como a sua historicidade, serão tratadas aqui. Objetivos Analisar a relação do Novo Testamento e a historiogra�a grega e judaica; Examinar o conteúdo teológico e as temáticas de Atos dos Apóstolos; Identi�car a relação entre Atos dos Apóstolos e o cânon do Novo Testamento. Página 95 de 183 Autoria e fontes Fonte: jarmoluk / Pixabay O prólogo de Atos se refere a Teó�lo como destinatário, o mesmo que foi mencionado no prólogo de Lucas. Marcião, no século II, identi�ca o autor com Lucas, o companheiro de viagem de Paulo. Assim também o fazem Irineu, Tertuliano e o Cânon Muratoriano. (Carson, Moo e Morris, 1997) Saiba mais Papiro 127, que contém trechos de Atos dos Apóstolos ( 10:32-35, 40-45; 11:2-5, 30; 12:1-3, 5, 7-9; 15:29-31, 34-36, 38-41; 16:1-4, 13-40; 17:1-10). Ele é datado do Século V e foi publicado em 2010. Atenção Página 96 de 183 Adolf Von Harnack, em 1906, lançou a mais popular teoria sobre as fontes utilizadas por Lucas. Para ele, Atos utilizou três fontes: Fonte A, proveniente de Jerusalém e Cesareia (At 3,1-5,16, 8,5-40, 9,31-11,1812,1-23); Fonte B (2,1-47; 5,17-42); Fonte C, de Antioquia (6,1-8,4; 11,19-30; 12,25-15,35). Essa teoria foi sustentada por muito tempo, com diversas alterações, (Marguerat, 2007) mas sempre apontando as variações estilísticas, o que seria a reminiscência de fontes diferentes. Muitos, como R. E. Brown e Daniel Marguerat, contudo, a�rmam que o estilo não seria um critério con�ável para reconstruir uma fonte, pois já foi provado que o autor reescreve suas fontes, representando discursos de personagens com estilos próprios. Exemplo Podemos notar isso no grego semítico de Pedro no Sermão da Festa de Pentecostes (At 2,14-36) e no grego re�nado de Paulo no Areópago (At 17,22-31). Saiba mais Areópago de Atenas, literalmente signi�ca Colina de Ares, era o lugar de reunião do mesmo conselho. Por volta de 50 d.C., Paulo lá esteve discutindo sobre Cristianismo com �lósofos estoicos e epicureus, o que é narrado em Atos 17. Outra tese famosa é a de Martin Dibelius, professor da Universidade de Heidelberg no início do século XX. Ele a�rmava que Lucas, o autor, utilizou um diário de viagens escrito por um companheiro de Paulo, tendo ele também participado de viagens de Paulo. Página 97 de 183 O argumento principal dessa hipótese é o fato de, em alguns trechos de Atos, ser utilizado o pronome pessoal da primeira pessoa do plural, “nós”, enquanto que em outros trechos não é usado. Vielhauer (2015) concorda que um itinerário de viagens foi utilizado como fonte, mas a�rma que o autor de Atos não pode ter sido uma testemunha ocular e alguém próximo de Paulo, argumentando que são cometidos por ele equívocos históricos. Ele cita a a�rmação de que houve uma segunda viagem missionária a Jerusalém, antes do Concílio, o que entra em contradição com o que Paulo diz em Gálatas 1,17-2,1 e com o Decreto dos Apóstolos (At 15,23-29), que contradiz Gálatas 2,6- 9. Há também as diferençasteológicas notórias, como: O uso de imagens estoicas de Deus por parte de Paulo no Areópago (At 17), recorrendo a uma Teologia Natural, ao contrário do que ele faz em Romanos 1. A lealdade de Paulo à lei em Atos, contrastando com seus ensinos demonstrados nas epístolas. Vielhauer conclui sua argumentação a�rmando que: O autor de Atos empregou, portanto, o recurso literário do relatório próprio a fim de simular testemunho ocular para alguns períodos da vida de Paulo. (Vielhauer, 2015, p. 421) Veja o que a�rmam alguns autores: Página 98 de 183 Clique nos botões para ver as informações. Quanto à teoria do diário de viagem, D.A. Carson, Douglas Moo e Leon Morris (1997) a questionam, por não esclarecer o motivo de Lucas não ter editado e preservado o pronome pessoal dos textos do itinerário, já que ele reescrevia suas fontes. Sobre as contradições entre a Teologia de Paulo em Atos e a das cartas, eles respondem as objeções de Vielhauer questionando se seria impossível o Paulo de Atos 17 ter escrito Romanos 1, já que não haveria nenhuma contradição clara entre os textos. Chamam ainda a atenção para o fato de que está sob criteriosa revisão e debate a relação entre Paulo e a Lei. Algumas linhas de pensamento defendem que o Apóstolo não teria uma visão tão negativa sobre a Lei como se acredita. D. A. Carson, Douglas Moo e Leon Morris Já Brown (2012) acredita que, como há muitas diferenças, também existem muitas semelhanças entre a imagem de Paulo esboçada em Atos e nas Cartas paulinas. O autor também acha provável Lucas ter escrito o Evangelho e os Atos dos Apóstolos, assim como ter utilizado um diário escrito por uma testemunha ocular das viagens de Paulo como fonte. Brown Foram muitas as teses sobre a datação de Atos. F.C. Baur, mentor da Escola de Tübingen, defendia que o livro foi escrito no Século II, argumentando que seria uma tentativa de conciliar facções adversárias dentro do Cristianismo (Pedro e Paulo). F.C. Baur Atenção Devido à ausência de evidências de uma oposição de grupos petrinos e paulinos na Igreja do século II, poucos sustentam essa tese atualmente. Kümmel (1982), Vielhauer (2015) e Brown (2012) a�rmam ser provável que Atos tenha sido escrito entre 80 e 90 d.C. É quase unanimidade que o Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos tenham sido escritos para igrejas de herança paulina, principalmente na Grécia. Mensagem Página 99 de 183 Atos dos Apóstolos começa com um prólogo, em que se estabelece uma ligação com o Evangelho de Lucas. 1 Ele cita Teó�lo, que também é o destinatário do Evangelho, e faz referência a esse primeiro relato. 2 Logo em seguida (At 1,3-7), são narradas as aparições de Jesus aos discípulos. Usando várias tradições acerca desses fatos, o autor as encaixou de forma a corresponder aos 40 dias de Jesus no deserto. (Brown, 2012) 3 A última instrução de Jesus a seus discípulos antes da Ascenção é que sejam suas testemunhas em Jerusalém, Judeia, Samaria e até os con�ns da Terra (At 1,8). 4 Em Atos 1,12-15, os discípulos cumprem a ordem de Jesus de esperar pela descida do Espírito em Jerusalém. Entre eles estão Maria, mãe de Jesus, e seus irmãos. Pedro narra o que aconteceu com Judas e segue-se a eleição de um substituto. Mostra-se a importância de manter o círculo apostólico em doze, pois Israel era composta originalmente de doze tribos, e a igreja seria a continuação do Israel de Deus. (Fonte: Didgeman / Pixabay) A partir de Atos 2, 1... Narra-se a descida do Espírito sobre os discípulos enquanto estavam reunidos no Cenáculo durante a Festa de Pentecostes. O Espírito se faz presente sob a forma de um vento impetuoso e algo parecido com línguas de fogo. Página 100 de 183 Teólogos a�rmam que isso é um eco da imagem da teofania do Sinai, (Brown, 2012) onde há trovões e fumaça. Fílon descreve a cena com anjos descendo e entregando o que Deus falava a Moisés ao povo em forma de línguas. Outros estudiosos já evocam o papel do fogo como símbolo do julgamento e puri�cação no Antigo Testamento. A partir desse acontecimento, o Espírito estaria com a Igreja, capacitando-a para a proclamação do Evangelho no mundo inteiro, por isso a presença de pessoas de diversas nacionalidades na cena e a multiplicidade de línguas. Página 101 de 183 Quando questionado sobre o que está acontecendo, Pedro, representando os Apóstolos, levanta e prega seu primeiro sermão em Atos. Ele apresenta Jesus como cumprimento das profecias feitas a Israel e convida todos a reconhecê-lo como Senhor e Messias. Após descrever o Evento do Pentecostes, Lucas descreve a Igreja de Jerusalém em sua práxis (At 2,37-45). Para ele, a vida cotidiana da comunidade cristã era caracterizada pela comunhão, orações, partir do pão e ensinamento dos Apóstolos. Página 102 de 183 Em Atos 3,1-5, é narrada a cura de um aleijado no Templo por parte de Pedro e João “em nome de Jesus Cristo”, o que é sucedido por um sermão novamente pregado por Pedro. O resultado desses acontecimentos é a prisão dos dois apóstolos que são levados a julgamento e conduzidos à presença dos saduceus, que se irritaram pelos cristãos estarem pregando a ressurreição dos mortos, a qual eles negavam veementemente. No sinédrio, os Apóstolos discursam rea�rmando sua crença de que Jesus, o cruci�cado, ressuscitou e é o �lho de Deus. Os líderes religiosos os proíbem de pregar novamente, mas não para os cristãos, que �cam cada vez mais destemidos para proclamar o Evangelho. Após esses fatos, nos é mostrado mais da vida comunitária da Igreja. Barnabé É apresentado com um discípulo exemplar, que vende suas terras e leva o dinheiro para os apóstolos, para que seja dividido com os demais e ninguém �que desamparado. Essa imagem contrasta com a de Ananias e Sa�ra. Ananias e Sa�ra Também vendem suas propriedades, mas retêm uma parte do dinheiro consigo, mentindo para os Apóstolos. Pedro anuncia o julgamento de Deus sobre eles, e ambos caem mortos. Página 103 de 183 Pessoas de diversas regiões começam a trazer doentes para serem curados pelos apóstolos, o que chama a atenção dos religiosos, que os prendem, mas são libertos por um anjo enviado por Deus e começam a anunciar a palavra de Jesus no Templo. Os líderes religiosos, com raiva, planejam a morte dos apóstolos, mas Gamaliel, in�uente fariseu, defende que haja tolerância para com os cristãos. Os Apóstolos são açoitados e liberados, pregando diariamente sobre Jesus Cristo. Após um período sem perseguição, é narrado (At 6,1-8,1) que começa a haver um con�ito dentro da Igreja de Jerusalém. Agora havia dois grupos: 1 Os cristãos helenistas, que falavam grego. 2 Os cristãos judeus, de fala aramaica. Comentário O primeiro tinha uma visão negativa acerca do Templo, enquanto o segundo continuava participando do culto judaico. Martírio de Estevão. (Fonte: https://www.thoughtco.com/ <https://www.thoughtco.com/stephen-in-the-bible-first-christian-martyr- 4074068> ) A pregação de Estêvão, líder dos helenistas, resulta em sua prisão e julgamento no Sinédrio, onde profere um sermão que conclui a acusação aos líderes judeus de terem cruci�cado o Justo, Jesus de Nazaré. Com isto, ele é arrastado para fora da cidade e apedrejado até a morte. Após o martírio de Estêvão, se dá uma perseguição contra os cristãos helenistas, que os obriga a sair de Jerusalém. Esse grupo se torna responsável por levar a mensagem de Jesus para os samaritanos, e Pedro e João são enviados para conferir os resultados da pregação. (At 8,1-25) Página 104 de 183 https://www.thoughtco.com/stephen-in-the-bible-first-christian-martyr-4074068 At 8, 1-25 Após o martírio de Estêvão, se dá uma perseguição contra os cristãos helenistas, que os obriga a sair de Jerusalém. Esse grupo se torna responsável por levar a mensagem de Jesus para os samaritanos, e Pedro e João são enviados para conferir os resultados da pregação. Atos 8, 26-40 Apresenta a conversão e batismo do Eunuco etíope, funcionário da rainha Candace, apósseu encontro com Filipe, que aplica as profecias de Isaías ao Cristo. Atos 9, 1-30 É mostrada a conversão de Paulo, que se dá no caminho de Damasco, onde ele estava se dirigindo para efetuar prisões de cristãos e se deparou com Jesus Ressuscitado, perdendo temporariamente a visão. Posteriormente, Ananias é enviado por Deus para orar por Saulo, momento em que este recebe o Espírito Santo. Em seguida... Página 105 de 183 Atos 9, 31 a Atos 11, 18 São mostrados os milagres que Pedro realiza em Lida, Jope e Cesaréia. É em Jope que Pedro tem uma visão com alimentos considerados impuros pelo Judaísmo e com Deus os considerando ritualmente puros a partir de agora. Isso é um catalisador para a missão entre os gentios. Voltando para Jerusalém, Pedro tem de se justi�car para seu ato de estender a comunhão aos gentios. Ele usa as visões em sua defesa. Em Antioquia, os seguidores de Jesus são chamados de cristãos pela primeira vez. Com o crescimento da comunidade cristã naquela cidade, Barnabé e Paulo são enviados para veri�car os resultados obtidos. At 12, 1-23 Com a subida ao poder na Judéia de Herodes Antipas, (At 12, 1-23) ocorre uma perseguição aos cristãos em Jerusalém. Tiago, irmão de João, é martirizado, e Pedro é preso. Isto ocorre simultaneamente a uma fome que se abate sobre a região. Deus envia um anjo para libertar Pedro, que logo em seguida sai de Jerusalém. Provavelmente é nesse período que Tiago, irmão de Jesus, assume um papel importante na Igreja. A partir do capítulo 13, iniciam-se as viagens missionárias de Paulo. Página 106 de 183 Clique nos botões para ver as informações. Na primeira viagem, ele é enviado junto com Barnabé e João Marcos a Chipre. De lá, se dirigem a Antioquia da Psídia, na Ásia Menor, onde acabam expulsos. Prosseguem passando por Icônio, Licaônia, Listra e Derbe. Depois dessa viagem à Ásia Menor, voltam para Antioquia da Síria. A missão de Paulo entre os gentios começa a ser questionada por alguns da Igreja de Jerusalém, pois estava havendo a aceitação deles sem a circuncisão. A polêmica torna necessário o primeiro concílio da Igreja, narrado em Atos 15. É decidido, depois de grande discussão, que os gentios estariam livres da exigência da circuncisão, mas precisariam se abster de comidas oferecidas a ídolos, sangue, animais estrangulados e uniões incestuosas. Com esse resultado, Paulo e Barnabé retornam a Antioquia. Lá houve nova controvérsia, agora sobre as regras alimentares. Pedro passa a defender o ponto de vista dos enviados de Tiago, que ensinavam que os cristãos deviam obedecer à Lei quanto à pureza dos alimentos. Primeira viagem Página 107 de 183 A partir de Atos 15,36 é narrada a segunda viagem missionária de Paulo, agora acompanhado de Silas, já que se desentendeu com Barnabé e João Marcos. Eles passaram pela Cilícia, Listra, Derbe, Frígia, Galácia, Trôade e Macedônia. Em Atos 16,11-40 Paulo evangeliza em Filipos, o que resulta em sua prisão. Depois de um terremoto, Paulo é libertado da cadeia. Em seguida, Paulo passa pela Tessalônica, Beréia e Atenas. (At 17) Atos 18 narra a permanência de Paulo na cidade de Corinto, onde ele escreveu a Carta aos Tessalonicenses. De Corinto, ele retorna a Antioquia. No versículo 23 desse capítulo, Paulo dá início à sua terceira viagem missionária. Passando pela Galácia e Frígia, ele chega a Éfeso, onde �ca por três anos. Nessa cidade da Ásia Menor, o Cristianismo cresce, culminando na revolta por parte dos artesãos de Ártemis, que estavam com os negócios ameaçados, e na saída de Paulo. Depois de passar pela Macedônia, Paulo �ca em Corinto por três meses, retorna à Macedônia e vai a Filipos e Trôade. Querendo ir para Jerusalém, ele navega para Mileto. (At 20,1-38) Na cidade, profere um discurso de despedida aos presbíteros de Éfeso. Em Atos 21,1-6, Paulo retorna à Palestina, passando por Tiro e Cesaréia, onde recebe a profecia de Ágabo sobre sua prisão. Já em Jerusalém, (At 21,15-40) é recebido pela igreja e sua liderança. Sob as falsas acusações de ter profanado o Templo, Paulo é quase linchado, sendo salvo por um tribuno romano. Preso, declara ter cidadania romana e discursa em aramaico para o público judeu. Nesse discurso, relatado em Atos 22,1-21, Paulo narra sua conversão e defende seu ministério. Ele provoca a raiva da população. No Sinédrio, (At 22,30-23,11) Paulo se aproveita da discordância entre fariseus e saduceus acerca da Ressurreição para provocar uma discussão. Sabendo de um plano para matá-lo, as autoridades o enviam para Cesaréia para ser julgado pelo Prefeito Félix. Lá, é deixado preso até o �m da procuradoria deste. Em Atos 25,1-12, é interrogado por Festo e apela para César, mas é dirigido ao Rei Agripa II. (At 25,13-26,32) Segunda Viagem A última viagem de Paulo, a Roma, é narrada em Atos 27 e 28. Após sobreviver a um naufrágio e a uma picada de serpente, o Apóstolo chega à capital do Império, onde está sob prisão domiciliar, mas isso não o impede de proclamar o Evangelho. Terceira viagem Saiba mais Página 108 de 183 Vista de Chipre, ilha localizada no Mar mediterrâneo. Paulo esteve nesta ilha em sua primeira viagem missionária, junto com Barnabé. O Livro termina com a menção ao crescimento do Cristianismo na maior cidade do mundo conhecido, simbolizando que as boas novas de Jesus tinham chegado aos con�ns da Terra. Gênero literário Por causa da tradição que atribui a autoria de Atos dos Apóstolos ao médico e Historiador Lucas, convencionou-se que o Livro era um relato puramente historiográ�co acerca dos primeiros anos da Igreja. Inúmeros estudos têm comparado Atos com obras antigas, para melhor situar o livro entre os gêneros literários. Página 109 de 183 Atena, deusa grega. (Fonte: Christos Georghiou / Shutterstock) Vielhauer (2015) via um grau de semelhança em alguns pontos entre Atos e as biogra�as de Heróis, onde eram narrados os feitos maravilhosos destes. Também menciona os paralelos com as Aretologias, narrativas sobre divindades. Helmut Köester, em seu livro Introdução ao Novo Testamento, cita a tese de Marianne Bonz, da Harvard Divinity School, de que Lucas escreveu sua obra em dois volumes nos moldes da narrativa épica Eneida de Virgílio, que mostra a saga de Eneias, herói troiano que escapa da guerra e chega à Península Itálica, tornando-se ancestral dos romanos. Eneias, herói troiano. (Fonte: Cultura mix <//cultura.culturamix.com/historia/eneias-o-heroi-troiano> ) Página 110 de 183 https://cultura.culturamix.com/historia/eneias-o-heroi-troiano Daniel Marguerat, da Universidade da Lausanne, aponta vários argumentos para o fato de que os dois livros de Lucas se encaixam no gênero literário das obras historiográ�cas greco-romanas, mesmo com suas peculiaridades. Primeiro, aponta que historiadores como Tito Lívio, Dionísio de Halicarnasso e Plutarco objetivavam passar uma mensagem moral para os leitores, através de exemplos positivos e negativos, o que também acontece em Atos. Segundo, a construção do relato a �m de entrelaçar as sequências narrativas está de acordo com os escritos dos historiadores antigos. Os livros de Lucas são considerados obras historiográficas. (Fonte: yesxcom / Pixabay) O fato de o autor reescrever suas fontes com �ns estilísticos, como Lucas, já era um recurso utilizado e defendido por Luciano de Samósata. Sobre a composição dos discursos em Atos, Marguerat (2003) a�rma que Lucas seguiu a regra de Tucídides, que viveu por volta de 400 a.C., em que os discursos de famosos personagens históricos deviam ser retratados com o estilo e pensamento próprios de cada interlocutor, buscando máxima verossimilhança com eles. Apesar disso, como já vimos, Lucas mantém suas singularidades em relação ao gênero historiográ�co. Enquanto os escritores antigos preconizavam a independência do historiador quanto aos fatos narrados, Lucas se coloca como o teólogo que está contando a história da Igreja. O leitor é convidado a sair da neutralidadequanto à divindade e participar dos eventos narrados. Nesse ponto, Lucas se afasta da historiogra�a grega e se aproxima da literatura judaica. Recursos literários e mensagem teológica Página 111 de 183 No seu comentário de Atos dos Apóstolos, A Primeira História do Cristianismo (2003), Daniel Marguerat aponta alguns recursos literários utilizados pelo autor para construir sua narrativa. Veja: Pacto de leitura Já no prólogo, (At 1,1-4) vemos o autor recorrer a um pacto de leitura, técnica que a análise narrativa a�rma ter o objetivo de: “estabelecer o quadro dentro do qual a obra deve ser entendida, assinalando, pois, a maneira como o relato deve ser lido”. (Marguerat, 2003, p. 33) Ambiguidade Outro recurso é o da ambiguidade. Bastante utilizado no Evangelho de Lucas, é um recurso no qual se empregam termos que podem gerar diferentes interpretações. Exemplo Um exemplo disso é o uso do adjetivo Justo para Jesus em Atos 3,14;7,52 e 22,14, o qual pode ter sido compreendido pelos destinatários como tendo o sentido helenístico de “mártir inocente” como no sentido judaico do “justo sofredor”, em que sua morte tem valor expiatório. Segundo Schnelle (2017), a Cristologia de Atos está ligada à de Lucas, mas sob novos aspectos: Página 112 de 183 1 Jesus está presente, através do Espírito Santo, como o Ressurreto. 2 O Espírito Santo é quem promove o desenrolar da História da Salvação, e essa salvação consiste na aceitação da palavra de Jesus, o caminho que leva a Deus. Atividade 1. Acerca das fontes utilizadas pelo autor de Atos dos Apóstolos, marque a alternativa correta: a) A tese defendida primeiramente por Adolf Von Harnack é que três documentos foram utilizados como fonte para Atos: Fonte A, contando a História da Igreja de Jerusalém; Fonte B, sobre Paulo; e Fonte C, sobre Antioquia. b) Martin Dibelius formulou a teoria de que o autor de Atos teria sido um companheiro de viagem de Paulo, muito provavelmente Lucas, concordando com a tradição. c) O principal argumento para o uso de um diário de viagens como fonte para Atos é o emprego do pronome da primeira pessoa do plural, “nós”, em algumas narrativas. d) A tese defendida primeiramente por Adolf Von Harnack é que três documentos foram utilizados como fonte para Atos: Fonte A, contando a história da Igreja de Antioquia; Fonte B, sobre a Igreja de Cesaréia; e Fonte C, sobre Jerusalém. e) A principal objeção à teoria do diário de viagem é que era uma prática incomum na época. 2. Acerca da estrutura literária de Atos, correlacione as colunas: Eneida, de Virgílio Ambiguidade ou polissemia Aretologia Pacto de leitura 1 2 3 4 a) Recurso literário usado em Atos, em que determinadas palavras têm duplo signi�cado. b) Recurso que a narratologia de�ne como um quadro pelo qual o relato deve ser lido, aparecendo no prólogo de Atos. c) Obra literária que, segundo Helmut Köester, serviu de moldura para Lucas e Atos. d) Gênero literário que narra os grandes feitos de um herói. 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 Página 113 de 183 Gabarito comentado 3. Acerca dos argumentos utilizados para enquadrar os Atos dos Apóstolos dentro da Historiogra�a Greco- Romana, preencha as lacunas com: Próprios / Mensagem moral / Entrelaçar as narrativas / Tucídides / Historiadores gregos e romanos Dentre os vários argumentos para a identi�cação de Atos com as obras historiográ�cas greco-romanas estão a presença de uma digite a resposta para os leitores, através de exemplos positivos e negativos, técnica utilizada por Tito Lívio, Dionísio de Halicarnasso e Plutarco, e a construção do relato a �m de digite a resposta , o que também está de acordo com os escritos dos digite a resposta . Outro argumento importante é que Lucas seguiu a regra de digite a resposta , que viveu por volta de 400 a.C., em que os discursos de famosos personagens históricos devem ser retratados com o estilo e pensamento digite a resposta , buscando máxima verossimilhança com eles. 4. Acerca da autoria de Atos dos Apóstolos e fontes utilizadas, marque Verdadeiro ou Falso: a) A tradição a�rma ser Lucas, companheiro de viagens de Paulo, autor tanto do Evangelho como de Atos de Apóstolos. b) A análise do estilo de escrita é um critério con�ável para distinguir as fontes, já que o autor de Atos não as reescrevia, usando-as intactas, o que torna possível ao estudioso identi�car as diferentes fontes. c) Philipp Vielhauer defende que o autor de Atos não poder ter sido um companheiro de Paulo, apontando as diferenças teológicas entre o Paulo lucano e suas cartas. d) A maioria dos estudiosos a�rma que Atos foi escrito destinado às comunidades na Grécia. 5. Há fortes objeções às teorias do diário de viagem e das diferenças teológicas entre Atos e as cartas paulinas, por parte de teólogos conservadores, entre eles, D. A. Carson, Leon Morris e Douglas Moo. Discorra acerca dos argumentos levantados por eles. Referências BROWN, R.E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. CARSON, D.A.; MOO, D.J.; MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova,1997. COLLI, G. Panorama Teológico do Novo Testamento. Curitiba: InterSaberes, 2017. CULLMANN, O. Cristologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos,2008 DUNN, J. Jesus, Paulo e os Evangelhos. Petrópolis: Vozes, 2017. Página 114 de 183 FITZMYER, J. Aquele que há de vir. São Paulo: Edições Loyola, 2015. FRANCISCO, Papa. O Evangelho da Vida Nova. Petrópolis: Vozes, 2015. FRIESEN, A. Teologia bíblica pastoral na pós-modernidade. Curitiba: InterSaberes, 2016. HORSLEY, R.; HANSON, J. Bandidos, profetas e messias: movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus,1995. JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. KÖESTER, H. Introdução ao Novo Testamento 1: História, cultura e religião do período Helenístico. São Paulo: Paulus, 2005. ______. Introdução ao Novo Testamento 2: História e Literatura do Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulus,2005. KÜMMEL, W. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. MARGUERAT, D. Novo Testamento, História, Escritura e Teologia. São Paulo: Loyola, 2009. ______. A Primeira História do Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2003. MONASTERIO, R.A.; CARMONA, A. R. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Ave-Maria, 2000. RENNER, Roberto. História da Teologia. Curitiba: InterSaberes, 2017. SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã/ Paulus, 2017. VIELHAUER, P. História da Literatura Cristã Primitiva. Santo André: Academia Cristã/ Paulus, 2004. Próxima aula A autoria do Novo Testamento; O contexto do Novo Testamento; A recepção de textos neotestamentários; Página 115 de 183 A recepção de textos neotestamentários; A transmissão dos textos do Novo Testamento até a sua formação. Explore mais O Livro “A Primeira História do Cristianismo”, de Daniel Marguerat, publicado pela Editora Paulus (2003) trata- se de um comentário de Atos dos Apóstolos, onde o autor utiliza a Análise Narrativa como método exegético. Está disponível para compra no site da Editora Paulus <https://www.paulus.com.br/loja/a-primeira-historia- do-cristianismo-os-atos-dos-apostolos_p_458.html> . Acesso em 29 jan. 2019. Página 116 de 183 https://www.paulus.com.br/loja/a-primeira-historia-do-cristianismo-os-atos-dos-apostolos_p_458.html Disciplina: Introdução ao Novo Testamento Aula 7: Epístolas Paulinas 1 Página 117 de 183 Apresentação Paulo, sem dúvida, foi o escritor mais prolí�co da história do Cristianismo. Suas cartas moldam nosso pensamento teológico até hoje. Veremos quais as in�uências que Paulo recebeu e que são perceptíveis em seus escritos. Nesta aula especi�camente, iremos analisar suas três maiores Epístolas: Romanos, Gálatas e 1 e 2 Coríntios. Objetivos Classi�car as epístolas paulinas; Examinar o conteúdo teológico e as temáticas de cada carta paulina maior (Romanos, 1 e 2 Coríntios e Gálatas); Analisar a relação das cartas paulinas entre si e com o cânondo Novo Testamento. Página 118 de 183 Paulo: breve biogra�a Tarso, capital da Cicília. (Fonte: Tatiana Popova / Shutterstock) Em sua carta aos Filipenses, Paulo a�rma ser “hebreu, �lho de Hebreus” (Fl 3,5), mas nasceu em Tarso, capital da Cilícia, que apesar de estar no Oriente, foi bastante in�uenciada pelo helenismo. Há também tradições, provenientes de Jerônimo, de que Paulo teria nascido em Gíscala, no norte da Galileia, e migrado com os pais para Tarso. Para Jerome Murphy-O’Connor (2015), da École Biblique de Jérusalem e um dos maiores pesquisadores sobre Paulo, é provável que os pais do Apóstolo fossem de Gíscala, houvessem sido escravizados pelos romanos, levados para Tarso e posteriormente libertados, ganhando a cidadania romana. Provavelmente, Paulo foi educado segundo os moldes judaicos, tendo o Antigo Testamento como material didático para aprender a ler e depois como fonte de conhecimento. Nesse período, também deve ter aprendido hebraico e aramaico. Por viver em Tarso, teve contato com a educação helenística, pois como se sabe hoje, até as crianças judias liam obras gregas, como Homero, (Murphy-O’Connor, 2015) Devido à sua posição social, é provável que Paulo tenha estudado retórica no ginásio grego, ao mesmo tempo em que frequentava a sinagoga de Tarso, em sua juventude. Em Atos 22,3, Paulo a�rma ter sido educado por Gamaliel, famoso rabino fariseu, o que se harmoniza com certas falas de Paulo nas cartas sobre seu passado. Comentário Gamaliel também foi um perseguidor dos cristãos nos primeiros anos após a morte de Jesus, até ter uma experiência traumática de conversão, narrada em Atos 9,3-19;22,6-16;26,12-18, em que ele se depara com uma grande luz e uma voz, identi�cada como a de Jesus Cristo. Página 119 de 183 Já em 1 Coríntios 9,1 e 15,8, Paulo fala de uma cristofania, uma aparição de Jesus ressuscitado, na mesma categoria daquelas dos Apóstolos, e em Gálatas 1,16, ele faz menção à sua missão que foi dada pelo próprio Cristo, de levar o Evangelho aos gentios. Evangelho sendo levado aos gentios. (Fonte: Sergey Kohl / Shutterstock) Após passar um tempo na Arábia, visitar a Igreja de Jerusalém, onde recebe muitas tradições primitivas, e depois ir à Antioquia, Paulo parte em três viagens missionárias, fundando igrejas em várias cidades do Império Romano. Página 120 de 183 Disponível em: (Fonte: //www.nospassosdepaulo.com.br/ <//www.nospassosdepaulo.com.br/p/paulo-vivo-hoje.html> ). Acesso em: 01 jan. 2019. Primeira Viagem Segunda Viagem Terceira Viagem Comentário Tessalônica, Corinto, Filipos, Éfeso, Colosso, Atenas e Roma são algumas cidades por onde Paulo passou. Depois de ser preso em Jerusalém, julgado por procuradores romanos da Palestina, é levado para Roma, onde �ca em prisão domiciliar. Segundo Clemente de Roma, Paulo foi martirizado em Roma durante a perseguição aos cristãos empreendida por Nero, em 64 d.C. Página 121 de 183 https://www.nospassosdepaulo.com.br/p/paulo-vivo-hoje.html Responsável por propagar o Cristianismo por todo o Império Romano, as cartas de Paulo são demonstrações de seu profundo conhecimento teológico e �losó�co, utilizando técnicas literárias e retóricas comuns aos pensadores gregos, como as diatribes, recurso retórico que consiste em um diálogo com um interlocutor imaginário, perguntas, respostas e objeções e que era muito usada pelos �lósofos, como Teles, Musônico Rufo, Sêneca e Epíteto. (SCHNELLE, 2010) Paulo também utilizava as perístases, nas quais se recorre às condições de vida do �lósofo para comprovar suas ideias. Os cínicos usavam bastante essa técnica, e é com esses pensadores que o Apóstolo guarda muitas semelhanças, entre elas, o estilo de vida itinerante, sem obrigações familiares e econômicas, a serviço integral da divindade. Contexto Muitos fatores ajudaram Paulo a obter sucesso em suas viagens missionárias. Um deles foi a língua. Segundo descobertas epigrá�cas, em toda a extensão do Império Romano se falavam dois idiomas: a língua nativa e o grego koiné. Era assim na Palestina, Síria e Ásia Menor (SCHNELLE, 2010). Grego Koiné. (Fonte: Robert_C / Pixabay) Isso facilitou a missão de Paulo, já que ele dominava esse idioma e poderia percorrer toda a extensão do Império, comunicando o Evangelho. Ele também contava com uma extensa malha viária construída pelos romanos. Segundo Udo Schnelle (2010), na época de Paulo o Império possuía cerca de 90 mil quilômetros de estradas bem construídas, muitas das quais existem até hoje, o que facilitou a locomoção do Apóstolo. Página 122 de 183 Cenário religioso Além do culto às divindades gregas, estava bastante difundida a adoração aos deuses egípcios, como Ísis. O Imperador era cultuado como divindade também, recebendo títulos de Senhor, Deus e Salvador. (KÖESTER, 2005) Antiguidade As associações religiosas, como os cultos de mistérios e as sinagogas, se reuniam em casas privadas. Não foi diferente com o Cristianismo. Paulo, em suas cartas, pressupõe essas comunidades domésticas, com a corrente expressão “a igreja que se constitui segundo as casas” (1 Co 16,19; Rm 16,5; Fm 2; Rm 16,14.23). Nas casas, os cristãos se reuniam para orar, ler as Escrituras, celebrar batismos e a ceia do Senhor e hospedavam missionários. (SCHNELLE, 2010) James Dunn (2017) a�rma que, como faziam parte das igrejas cidadãos de classe média ou alta, estes cediam suas residências para a realização dos cultos, que comportariam cerca de 20 a 50 pessoas. Romanos A comunidade em Roma é citada em Atos 28,15, quando é narrada a chegada de Paulo à cidade. O historiador Suetônio, ao falar da expulsão dos judeus pelo Imperador Cláudio, cita o con�ito deles com os seguidores de Chrestos . Esse edito de Cláudio data do ano 49. (KÜMMEL, 1982) 1 2 Busto do historiados Suetônio. (Fonte: branfer <https://branfer.blogspot.com/2015/08/chrestus-nao-e-christus.html> ) Página 123 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/aula7.html https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/aula7.html https://branfer.blogspot.com/2015/08/chrestus-nao-e-christus.html Depois da morte de Cláudio, a esposa de Nero, Pompeia, era mais benevolente com os judeus, o que levou a um período de tranquilidade para a comunidade judaica e, por conseguinte, para os cristãos. (VIELHAUER, 2015) O edito foi importante para que a Igreja se distanciasse da sinagoga e fosse mais independente. A tradição da Igreja a�rma que Pedro levou o Cristianismo a Roma, mas não há evidências disso. Na época da escrita da carta, a maioria da comunidade já era de gentios cristãos, e também contava com pessoas de várias classes sociais, mas com um grande número de escravos. Comentário Estudos epigrá�cos no Capítulo 16 mostram que nove dos 13 nomes citados são de escravos. (SCHNELLE, 2010) Mulheres exerciam muitos papéis dentro da Igreja, que era organizada em várias comunidades domésticas, entre elas, a che�ada por Priscila e Áquila. Saiba mais Uma grande parte dos estudiosos, como Kümmel (1982) e Vielhauer (2015), a�rma que a Carta aos Romanos <galeria/aula7/anexo/carta_aos_romanos.pdf> foi escrita durante sua estada em Corinto, provavelmente no ano 55 ou 56. Como já vimos, o escrevente para o qual Paulo ditou a carta foi Tércio. 1 e 2 Coríntios Página 124 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/galeria/aula7/anexo/carta_aos_romanos.pdf Ruínas do Templo de Apolo em Corinto, capital da Província da Acaia, onde Paulo fundou a igreja cristã na cidade. (Fonte: Anastasiia-S / Shutterstock) Corinto �cava localizada na Acaia, na Grécia Ocidental, e foi destruída pelos romanos em 146 a.C., porém foi reconstruída por Júlio César em 44 a.C. Augusto a tornou capital da província da Acaia. Era um centro comercial cuja língua principal era o latim — embora também fosse utilizado o grego no comércio —, que tinha templos para divindades gregas e também egípcias, como Ísis e Serápis. Lá também estava difundido o culto ao Imperador,principalmente com a realização dos jogos ístmicos a cada dois anos. Havia na cidade uma colônia judaica, que talvez tenha crescido com a expulsão dos judeus de Roma, no ano 49. (BROWN, 2012) A cidade era conhecida por sua licenciosidade sexual, com prostitutas sagradas dedicadas a Vênus. A estada de Paulo em Corinto narrada em Atos dos Apóstolos enfrenta um problema: as diferentes tradições textuais trazem variantes do relato. 1 A primeira adição traz Priscila e Áquila como an�triões de Paulo (At 18,2-3), o que é verídico, já que Paulo a�rma em 1 Coríntios 16,19 que eles eram seus amigos próximos. 2 O texto ocidental, porém, mostra que Paulo já conhecia Áquila por ser da mesma tribo, enquanto para o texto Alexandrino, isto ocorreu por terem a mesma pro�ssão. (Murphy-O’Connor, 2015) 3 A Em outra adição, Silas e Timóteo (At 18,5) demonstra ter Paulo pregado sozinho antes de seus companheiros chegarem à cidade. As primeiras conversões ao Cristianismo em Corinto provavelmente foram as da família de Estéfanas, chamadas por Paulo de “Primícias da Acaia” (1 Co 16,15). Eles eram da classe alta, comerciantes. Paulo também cita Crispo (1 Co 1,14), o qual Atos 18,8 identi�ca como principal da sinagoga, título de honra concedido em gratidão por algum feito ou presente, então certamente também era abastado. Em 1 Coríntios 1,26, Paulo a�rma que não havia na comunidade muitos sábios aos olhos dos homens, nem muitos poderosos. Não havia muitos da elite, mas também não muitos da classe baixa. Segundo Murphy-O’Connor (2015), a Igreja em Corinto era composta por uma maioria de origem pagã, de vários estratos sociais, mas sem grandes magnatas nem escravos do campo, que constituíam os extremos da pirâmide social da época. Saiba mais Página 125 de 183 Após a partida de Paulo, Apolo exerce um ministério em Corinto. Paulo escreve as cartas <galeria/aula7/anexo/carta_aos_corintios.pdf> em um momento em que a comunidade passava por muitas turbulências. Gálatas Era comum o culto a Agdistis, identificada como Cibele pelos Romanos, a mãe dos deuses, responsável pela fertilidade. (Fonte: dezmilnomes <https://dezmilnomes.wordpress.com/2017/03/20/deidades- do-equinocio-de-primavera/> ) Os gálatas eram membros de tribos celtas que migraram para a Ásia Menor por volta de 278 a.C. Tentaram conquistar o oeste da Península, mas foram derrotados pelos romanos em 189 a.C. Posteriormente se tornaram aliados destes. Segundo historiadores da época, levaram os costumes dos povos bárbaros para aquela região. As línguas mais utilizadas eram o celta e o grego, porém a região foi pouco helenizada, como se percebe pela organização política em torno das estruturas tribais no século I. Sendo Galácia a denominação de uma região, ainda se discute em quais cidades Paulo atuou ou se ele escreveu a carta para todas as Igrejas da província ou só para algumas. Provavelmente a epístola foi escrita durante sua estadia em Éfeso ou durante sua viagem para Macedônia. Saiba mais O motivo do envio da carta aos gálatas <galeria/aula7/anexo/carta_aos_galatas.pdf> foi a entrada de cristãos judaizantes na comunidade, pois devido ao medo da perseguição, ensinava-se que eram necessárias a circuncisão e a observação do calendário ritual para se tornar cristãos. (SCHNELLE, 2010). Atenção Adolf Von Harnack, em 1906, lançou a mais popular teoria sobre as fontes utilizadas por Lucas. Para ele, Atos utilizou três fontes: Fonte A, proveniente de Jerusalém e Cesareia (At 3,1-5,16, 8,5-40, 9,31-11,1812,1-23); Fonte B (2,1-47; 5,17-42); Fonte C, de Antioquia (6,1-8,4; 11,19-30; 12,25-15,35). Página 126 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/galeria/aula7/anexo/carta_aos_corintios.pdf https://dezmilnomes.wordpress.com/2017/03/20/deidades-do-equinocio-de-primavera/ https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/galeria/aula7/anexo/carta_aos_galatas.pdf Essa teoria foi sustentada por muito tempo, com diversas alterações, (Marguerat, 2007) mas sempre apontando as variações estilísticas, o que seria a reminiscência de fontes diferentes. Muitos, como R. E. Brown e Daniel Marguerat, contudo, a�rmam que o estilo não seria um critério con�ável para reconstruir uma fonte, pois já foi provado que o autor reescreve suas fontes, representando discursos de personagens com estilos próprios. Exemplo Podemos notar isso no grego semítico de Pedro no Sermão da Festa de Pentecostes (At 2,14-36) e no grego re�nado de Paulo no Areópago (At 17,22-31). Atividade 1. Acerca do Apóstolo Paulo, assinale a alternativa correta: a) Em suas cartas, utiliza recursos retóricos também usados por filósofos estoicos e cínicos, como as diatribes e as perístases. b) Era de uma família de origem gentílica, que posteriormente se converteu ao Judaísmo. c) Paulo provavelmente foi martirizado em Jerusalém em 64 d.C. d) A Teologia de Paulo era marcada por sua defesa da prática da circuncisão por parte dos cristãos. e) Paulo nunca teve contato com a educação grega e, como fariseu, rejeitava completamente a cultura helênica. 2. Acerca da estrutura literária de Atos, correlacione as colunas: Romanos 1 e 2 Coríntios Fariseus Gálatas 1 2 3 4 a) Cartas que foram escritas por Paulo em um momento que a Igreja estava enfrentando divisões internas, problemas relacionados à moralidade sexual e abusos quanto aos dons. b) Carta escrita para uma comunidade que estava dando ouvidos a missionários judaizantes que ensinavam que era necessário circuncidar-se e guardar os dias sagrados do calendário judaico para se tornar cristão. c) Epístola escrita por Paulo para tratar de questões como a justi�cação pela fé e a relação da igreja com as promessas feitas por Deus a Israel. d) Seita judaica de que Paulo fazia parte, caracterizada pelo forte apego às tradições. 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 Página 127 de 183 Gabarito comentado 3. Sobre a carta aos romanos, preencha as lacunas com: Fidelidade / Morte de Jesus / Justiça / Jurídico / Justi�cação pela fé Na primeira parte da carta (Rm 1,16-4,25), Paulo disserta sobre digite a resposta e digite a resposta , que é revelada pelo Evangelho. Através da digite a resposta na cruz, os pecadores, tanto judeus como gregos, podem ser justi�cados diante de Deus. A grande discussão é sobre o sentido desses termos. Enquanto alguns os entendem como conceitos helenistas retirados do mundo digite a resposta , os defensores da nova perspectiva sobre Paulo pensam que o Apóstolo foi in�uenciado pelo conceito de justiça do Antigo testamento, que signi�ca a digite a resposta de Deus ao cumprir o que assumiu ao fazer uma aliança com Israel. 4. Acerca de Paulo e de suas epístolas, marque Verdadeiro ou Falso: a) Paulo foi o fundador da comunidade de Roma, para a qual ele escreve a epístola tratando acerca da justiça de Deus. b) É debatido se o capítulo 16 da Carta aos Romanos faz parte do texto original. c) Paulo, ao escrever para a Igreja em Corinto, trata de um caso de imoralidade sexual, excluindo o indivíduo da comunidade. d) Em Gálatas, Paulo argumenta que a justi�cação se dá pela fé e pelas obras da Lei. 5. Paulo defende, em sua carta aos gálatas, a ideia de que a justi�cação se dá somente pela fé. Discorra sobre os argumentos utilizados por ele para defender sua tese. Notas Chrestos 1 Página 128 de 183 Trata-se de outra forma de se escrever Cristo. Edito 2 Parte de lei em que se estabelece alguma disposição, se preceitua algo; DECRETO; MANDADO Fonte: //www.aulete.com.br/edito <//www.aulete.com.br/edito> Referências BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. CARSON, D. A.; MOO, D. J.; MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. COLLI, G. Panorama Teológico do Novo Testamento. Curitiba: InterSaberes, 2017. DUNN, J. Jesus, Paulo e os Evangelhos. Petrópolis: Vozes, 2017. ______. A nova perspectiva sobre Paulo. Santo André: Academia Cristã/ Paulus, 2011. FRANCISCO, Papa. O Evangelho da Vida Nova. Petrópolis: Vozes,2015. FRIESEN, A. Teologia bíblica pastoral na pós-modernidade. Curitiba: InterSaberes, 2016. JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. KÖESTER, H. Introdução ao Novo Testamento 1: história, cultura e religião do período helenístico. São Paulo: Paulus, 2005. ______. Introdução ao Novo Testamento 2: história e literatura do cristianismo primitivo. São Paulo: Paulus, 2005. KÜMMEL, W. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. MARGUERAT, D. Novo Testamento: História, Escritura e Teologia. São Paulo: Loyola, 2009. MURPHY-O’CONNOR, J. Paulo: biogra�a crítica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2015. MONASTERIO, R.A; CARMONA, A.R. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Ave-Maria, 2000. RENNER, Roberto. História da Teologia. Curitiba: InterSaberes, 2017. SCHNELLE, U. Paulo: vida e pensamento. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2010. ______. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2017. VIELHAUER, P. História da Literatura Cristã Primitiva. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2004. Página 129 de 183 https://www.aulete.com.br/edito Próxima aula A autoria do Novo Testamento; O contexto do Novo Testamento; A recepção de textos neotestamentários; A transmissão dos textos do Novo Testamento até a sua formação. Explore mais O livro A nova perspectiva sobre Paulo, de James Dunn, publicado pela Editora Paulus (2011), é uma das principais defesas da nova visão acerca da Teologia Paulina, principalmente sobre os temas da justiça de Deus e da justi�cação pela fé. Está disponível para compra no site da Editora Paulus <https://www.paulus.com.br/loja/a-nova-perspectiva- sobre-paulo_p_3050.html> . Acesso em: 17 jan. 2019 Página 130 de 183 https://www.paulus.com.br/loja/a-nova-perspectiva-sobre-paulo_p_3050.html Disciplina: Introdução ao Novo Testamento Aula 8: As Epístolas Paulinas 2 Página 131 de 183 Apresentação Nesta aula, continuaremos a estudar as cartas paulinas, assim como as que foram atribuídas a ele, as chamadas deuteropaulinas. Apesar de a pesquisa contemporânea apontar que algumas cartas provavelmente não foram escritas por Paulo, elas ainda continuam tendo importância, por serem re�exos do Cristianismo do século I e continuam sendo base para a fé de milhares de cristãos. Analisaremos também os principais argumentos que permeiam essa discussão no meio acadêmico, para que, ao �nal, você esteja preparado para argumentar acerca da questão. Objetivos Classi�car as epístolas paulinas; Examinar o conteúdo teológico e as temáticas de cada carta paulina; Analisar a relação das cartas paulinas entre si e com o cânon do Novo Testamento. Página 132 de 183 Corpus paulinum Efésios Papiro P46 (Fonte: Early Bible <//earlybible.com/manuscripts/p46-Eph.html> ) Segundo a tradição, essa carta foi escrita por Paulo endereçada a Éfeso. Porém, isso é discutido ainda hoje. Sobre os destinatários, as palavras “aos efésios” (1,1) não constam em muitos manuscritos, inclusive no mais antigo papiro preservado a conter as cartas paulinas, o P46. Marcião a�rmava que a carta foi escrita aos laodiceanos. (Kümmel, 1982) Na carta também não há alusão a alguma situação ou indivíduo especí�co da comunidade, o que ocorre em outros escritos de Paulo. Por essas razões, a maioria dos estudiosos concorda que Efésios era uma carta circular, destinada a ser lida em várias cidades. Outra questão é a autoria paulina, que tem sido questionada. Apesar de Inácio, Policarpo, Clemente de Alexandria e Marcião terem atribuído essa carta a Paulo, já no século XVI Erasmo chamava a atenção para o estilo do escrito destoante do de Paulo.1 F. C. Baur, principal estudioso da famosa Escola de Tübingen, datou a carta como sendo do século II e produto do catolicismo primitivo. (Kümmel, 1982) Os argumentos mais utilizados contra a autoria paulina de Efésios são: Página 133 de 183 https://earlybible.com/manuscripts/p46-Eph.html https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/aula8.html 1 Seus paralelos com a Carta de Colossenses. 2 O estilo da escrita. 3 O grande número de termos que não foram usados por Paulo nas outras cartas. Comentário Acerca das semelhanças com Colossenses, Brown (2012) a�rma que por volta de um terço dos versículos de Efésios são paralelos a Colossenses, com a mesma ordem e conteúdo, enquanto um quarto das palavras de Efésios é encontrado em Colossenses e um terço das palavras de Colossenses está em Efésios. Porém, ele lembra que também existem diferenças, como 1 O fato de Efésios ser mais longa e conter material que não se encontra em Colossenses. 2 A refutação à falsa �loso�a de Colossenses 2 não aparecer em Efésios. Portanto, ainda é provável que tenha havido alguma dependência literária entre as cartas, mas grande parte dos estudiosos não acredita que as duas tiveram o mesmo autor. Argumenta-se também para as palavras não encontradas nas cartas autênticas e que são usadas em Efésios. Clique nos botões para ver as informações. A�rmam que essa objeção é fraca, já que o mesmo número de termos pode ser encontrado em Gálatas e é maior em 2 Coríntios e Filipenses. Brown (2012), Carson, Moo e Morris (1997) Recorre a diferenças teológicas entre Efésios e Paulo para refutar a autoria paulina. Ele lembra que, enquanto em Colossenses 1,26 o mistério do Evangelho foi revelado a todos os santos, em Efésios 3,5 o mesmo mistério é revelado aos Apóstolos e profetas . Philipp Vielhauer (2015) 2 Página 134 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/aula8.html Outra diferença se encontra na forma como o casamento é retratado. Enquanto que, em 1 Coríntios 7, ele é considerado um mal necessário, em Efésios 5 é a representação do amor de Cristo pela Igreja. Porém, D.A. Carson, Leon Morris e Douglas Moo (1997) a�rmam que estes argumentos são insu�cientes, pois essas diferenças não seriam contradições com o pensamento paulino. As objeções mais fortes para Paulo não ter escrito a carta são os relacionados ao estilo literário. Efésios contém frases grandes, acúmulo de sinônimos e muitos genitivos consecutivos, o que destoa das cartas autênticas paulinas. (Dettwiller apud Marguerat, 2008). Com isso, a maioria dos pesquisadores atualmente classi�ca a carta como sendo fruto de uma escola paulina, constituída por seguidores do Apóstolo na Ásia Menor no �nal do século I. (Brown, 2012) Comentário A carta começa saudando os “santos e �éis em Jesus Cristo” (Ef 1,1-2), seguida de uma ação de graças, cuja linguagem é semelhante à encontrada nas bênçãos judaicas (Ef 1,3-23). Em Efésios 1,15-23, o autor deseja que os cristãos cresçam no conhecimento do Cristo e no amor d’ele. Efésios Parte indicativa (Ef 2,1-3,21) É explicado o plano de Deus para salvar os pecadores, derrubando o muro que separava judeus e gentios e tornando todos membros da Sua família. Seção parenética (Ef 4,1-6,20) Página 135 de 183 Contém 36 verbos no imperativo. São dadas instruções para os cristãos viverem de acordo com o chamado de Jesus. A partir de Efésios 5, é mostrado como deve ser o estilo de vida doméstico, regulando as relações marido-esposa, pais-�lhos e senhores- escravos. Conclusão (Ef 6,21-24) O autor saúda Tíquico, que está sendo enviado aos destinatários. Colossenses A autoria paulina de Colossenses foi inicialmente questionada por Mayerhoff em 1838, devido à dependência em relação a Efésios e a diferenças com a Teologia de Paulo. F. C. Baur atribuía a epístola aos gnósticos do século II. Holtzmann a�rmava que se trata da reelaboração de uma carta mais primitiva de Paulo aos cristãos em Corinto. (Kümmel, 1982) A presença de palavras nunca usadas por Paulo nas cartas autênticas. A ausência de temas como justi�cação pela fé. As diferenças teológicas, como a ênfase no papel cosmológico de Cristo e a importância do apostolado de Paulo, atribuindo aos seus sofrimentos uma continuação das a�ições de Cristo (Cl 1,24). Vejamos o que dizem alguns autores:Página 136 de 183 Clique nos botões para ver as informações. A�rma que a falta de conceitos paulinos bem conhecidos não prova nada, pois esta característica encontra-se em algumas cartas autênticas, e defende que em Colossenses também há muitas características do estilo de escrita de Paulo, e que no Novo Testamento só são encontradas nas cartas do Apóstolo. Kümmel (1982) Lembra que o termo “justi�car” não aparece em 1 Tessalonicenses, Filipenses e 2 Coríntios, “lei” não consta em 1 Tessalonicenses e em 2 Coríntios, nem “salvar” em Gálatas. Brown (2012) A�rmam que esses argumentos contra a autoria paulina são fracos e não levam em conta que Paulo tinha a capacidade de se adaptar a novas situações e adotar novos vocábulos de acordo com as necessidades. Carson, Moo e Morris (1997) Alega que o argumento estilístico deve ser posto de lado, visto que Paulo utilizava secretários para escrever algumas de suas cartas, sendo difícil estabelecer um padrão linguístico para seus escritos. Jerome Murphy-O’Connor (2015) Ainda assim, a maioria dos pesquisadores do Novo Testamento não acredita que Paulo tenha escrito Colossenses. Comentário A datação e o lugar da escrita da epístola também são controversos. Os que defendem a autoria paulina a têm localizado em Roma ou Éfeso, provavelmente entre os anos 62 e 63, já Murphy-O’Connor (2015) a data de 53 d.C. Se a carta não foi escrita por Paulo, leva-se em conta que Inácio de Antioquia, em 110 d.C., conhecia Efésios, e se essa depende literariamente de Colossenses, então só pode ser anterior ao ano 80 d.C. Página 137 de 183 Introdução da carta (Cl 1,1-2) Cita Timóteo como corremetente, e na ação de graças que se segue (Cl 1,3-8), Paulo ou o autor pseudônimo revela estar alegre com o que ouviu sobre a comunidade, por parte de Epafras. Parte indicativa (Cl 1,9-2,23) Ele explicita seu desejo de que a Igreja compreenda Cristo, o mistério de Deus, no qual estão escondidos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. Também adverte contra os falsos ensinos que estavam se in�ltrando na comunidade. A identidade desse grupo herético ainda é muito discutida. Brown (2012) chama atenção para a advertência em Colossenses 2,8 contra “vãs �loso�as” e a elementos do universo, que no mundo helênico se referiam a agentes cósmicos, inclusive astros celestes, que tinham domínio sobre a vida dos humanos e exerciam in�uência nela. Schnelle (2017) a�rma que : Heresia colossense = Filoso�as: pitagórica platônica neoplatônica + Judaísmo helenista Em outras palavras... Os membros da comunidade estariam cultuando esses espíritos cósmicos, ao lado da prática da ascese, da circuncisão e do culto aos anjos. Em Colossenses 1,15-20, o autor utiliza um hino litúrgico para transmitir sua visão cristológica. Página 138 de 183 Seção imperativa (Cl 3,1-4,6) Encontram-se instruções sobre como os cristãos devem viver: com duas listas, cada uma com cinco vícios a serem evitados, e uma lista sobre as virtudes essenciais a um discípulo de Jesus. Segue-se uma instrução acerca do convívio doméstico. Conclusão (Cl 4,7-18) São saudados indivíduos que também são mencionados na carta de Paulo a Filemon. 1 e 2 Tessalonicenses A autenticidade de 1 Tessalonicenses já foi questionada, principalmente por F.C. Baur e seus discípulos, mas não encontra di�culdades hoje, sendo unânime atualmente que a carta foi escrita por Paulo. (Kümmel, 1982) O que é discutido hoje é a integridade da epístola, tendo sido popular a tese de que 1 Tessalonicenses, na verdade, é uma compilação de duas cartas paulinas. Seus defensores argumentavam para o fato de que na carta aparecem várias introduções e conclusões. Saiba mais Ruínas da Ágora de Tessalônica. Fundada em 355 a.C., recebeu esse nome por causa da irmã de Alexandre Magno. Paulo enviou várias cartas para a igreja nessa cidade. Página 139 de 183 Padre Jerome Murphy-O’Connor (Fonte: Telegraph <https://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/10452676/Father- Jerome-Murphy-OConnor-Obituary.html?fb> ) Jerome Murphy-O’Connor (2015) é um dos que acreditam nessa teoria. Ele a�rma que uma carta, que ele chama de Carta A e compreende 1 Ts 2,13- 4,12, foi inserida em outra, a Carta B, que consiste em 1 Ts 1,1- 2,12 e 4,13-5,28. Ainda segundo Murphy-O’Connor, o tom da carta A sugere um contexto de perseguição, e nela, Paulo demonstra sua preocupação com a perseverança dos �éis perante as di�culdades. Já na Carta B, ele defende sua imagem perante os cristãos da comunidade e esclarece algumas dúvidas acerca do Dia do Senhor. Já a autoria de 2 Tessalonicenses é objeto de discussão até hoje. Clique nos botões para ver as informações. Questionou pela primeira vez a autoria paulina desta carta. Para ele, as duas advertências para se con�ar em um escrito de Paulo já eram indícios do seu caráter não paulino. J.E. Christian Schmidt (1798) Con�rmou a inautenticidade da carta, alegando que esta dependia literariamente da primeira. Recorre ainda à incompatibilidade de 2 Tessalonicenses 2,1-12 com a escatologia presente em 1 Tessalonicenses 4,13 e 1 Coríntios 15,20. W. Wrede Para este autor, entretanto, diferentes atitudes diante de questões sobre o �m não implicam em diferentes autores para as cartas. Ele a�rma ainda que a linguagem e o estilo de 2 Tessalonicenses são paulinos e conclui que ela realmente foi escrita por Paulo provavelmente nos anos 50 ou 51 d.C. Kümmel (1982) A�rma que uma análise do vocabulário e do estilo mostra que 2 Tessalonicenses está mais próxima do estilo de Paulo do que 1 Tessalonicenses e 1 Coríntios. Murphy-O’Connor (2015) Vejamos a seguir como 2 Tessalonicenses está estruturada. 2 Tessalonicenses inicia com uma introdução na qual são apresentados Paulo, Timóteo e Silvano (1,1- Página 140 de 183 https://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/10452676/Father-Jerome-Murphy-OConnor-Obituary.html?fb 1 2). Segue com uma ação de graças (1,3-10), a fé e o amor dos membros da comunidade são louvados, e uma oração (1,11-12) é feita, para que Deus os faça dignos de sua vocação. 2 Na parte expositiva (2 Ts 2,1-17), Paulo pede que os cristãos não �quem assustados com boatos acerca do Dia do Senhor. Ele explica que o evento seria antecedido por sinais que ainda não aconteceram. 3 Em 2 Tessalonicenses 3,1-16 se dá seção imperativa da carta. Paulo manda que aqueles que pararem de trabalhar por causa da iminência da volta de Jesus voltem aos seus serviços. Na conclusão (2 Ts 3,17-18), ele saúda a comunidade. Filipenses Apesar de não ter a autoria paulina questionada, a integridade da Carta aos Filipenses tem sido objeto de muito debate na história da pesquisa. Já no século II, Policarpo de Esmirna menciona que Paulo escreveu mais de uma carta para a Igreja em Filipos. (Brown, 2012) Alguns estudiosos a�rmam que Filipenses é uma compilação de duas cartas, enquanto outros defendem que seja composta de três cartas. Saiba mais Ruínas na cidade de Filipos. Para a Igreja dessa cidade, Paulo enviou três cartas que foram compiladas e deram origem à atual carta canônica. Murphy-O’Connor (2015) identi�ca Filipenses 4, 10-20 como sendo o texto da primeira carta enviada por Paulo àquela comunidade, a qual ele chama de Carta A. Página 141 de 183 1 Carta A Nessa epístola, Paulo agradece pela ajuda �nanceira que recebeu da Igreja. 2 Carta B Consistiria em Filipenses 1,1-3,1 e 4,2-9, em que Paulo, encarcerado, esboça sua preocupação quanto à in�ltração de judaizantes na comunidade. 3 Carta C Filipenses 3,2-4,1. Carta escrita depois da saída de Paulo da prisão, na qual o Apóstolo dirige advertências mais incisivas contra os mestres judaizantes. Filemon No mundo acadêmico, é unânime a opinião de que a carta a Filemon foi escrita pelo Apóstolo Paulo enquanto estava preso, sendo somente discutido o local do aprisionamento. Brown (2012) a�rma que, já que a carta aos Colossenses menciona Onésimo, então Filemon foi escritanaquela região, o que torna Éfeso provável local da escrita da carta, por volta de 54 d.C. Murphy-O’Connor considera provável que a carta tenha sido escrita em Éfeso ou em Roma, sendo que para ele há mais indícios da primeira alternativa. Paulo preso em Roma. Rembrandt (Fonte: amosboiadeiro <//amosboiadeiro.blogspot.com/2016/05/conversa-mole.html> ) A mais breve das cartas paulinas é endereçada a Filemon, um cristão, provavelmente de Colossos. O escravo Onésimo fugiu de seu senhor, o destinatário, e causou prejuízos a ele. Página 142 de 183 https://amosboiadeiro.blogspot.com/2016/05/conversa-mole.html Nos versículos 4-7 Paulo elogia Filemon para introduzir o assunto principal a ser tratado. Ele fala que está enviando Onésimo de volta, mas pede que Filemon não o receba apenas como um escravo, mas como irmão amado, como se fosse o próprio Apóstolo. Nos versículos 18-19 Paulo promete reparar qualquer dano que Onésimo tenha causado a seu senhor e manifesta seu desejo de visitar Filemon quando saísse da prisão. As cartas pastorais A autenticidade das cartas pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito) não tinha sido questionada até o século XIX, quando J.E.C. Schmidt, em 1804, e Schleiermacher, em 1807, a�rmaram que provavelmente 1 Timóteo não foi escrita por Paulo. F.C. Baur, em 1837, a�rmou que as cartas pastorais lidavam com os gnósticos, que só apareceram a partir do século II. Alega-se para a não autoria paulina, que o vocabulário e o estilo das cartas pastorais são divergentes com as das cartas genuinamente paulinas. Assim pensa a maioria dos estudiosos, como Kümmel (1982), Vielhauer (2015), Brown (2012), Murphy- O’Connor (2015) e Schnelle (2017). Atenção Tem que se ressaltar que, para alguns, pelo menos uma das cartas pastorais deve ter sido escrita por Paulo. Para Murphy-O’Connor (2015) esta carta é 2 Timóteo, argumentando para o fato de que ela está tão próxima do estilo paulino quanto 2 Coríntios, e para seu grande número de paralelos com as cartas autênticas. Ainda segundo ele, a carta foi escrita durante a prisão de Paulo em Éfeso, nos anos 52 ou 53 d.C. Página 143 de 183 Apóstolo Paulo acompanhado por seu jovem discípulo Timóteo (Fonte: ibpazcnp <//www.ibpazcnp.com.br/post.php?id=70:> ) É bom lembrar que ainda há aqueles que acreditam na autoria paulina das três cartas, como Carson, Morris e Moo (1997), mas são poucos. Para os que defendem que Paulo não as escreveu, as cartas pastorais são produto de uma escola paulina, fundada pelo próprio Apóstolo ou por seus discípulos, nos moldes das escolas �losó�cas helenistas, em torno do pensamento do fundador, com leitura e discussão acerca de seus escritos, provavelmente localizada na Ásia Menor. (Schnelle, 2017) Ruínas do Palácio de Cnossos, em Creta. É nessa ilha que ficava a Igreja que Tito liderava, para o qual Paulo teria escrito a carta. (Fonte: Scorpp / Shutterstock) A carta a Tito, endereçada ao líder da Igreja em Creta, começa com uma longa introdução (Tt 1,1-4) e parte para tratar da ordem eclesiástica (Tt 1,5-9), pois a igreja estava ameaçada por falsos mestres. A carta diz que Paulo não �cou muito tempo na comunidade para organizá-la e por isso, estava passando essa missão a Tito. Em 1,10-16, o tema abordado é a falsa doutrina, da qual sabemos muito pouco. A carta somente indica que os adversários são maledicentes, gananciosos e depravados. A partir de 2,1, o autor fala acerca das relações domésticas, tratando do papel a ser desempenhado pelas diferentes faixas etárias na comunidade, desde os jovens até os anciãos. Em Tito 2,11-3,11, o autor dá instruções gerais baseadas no exemplo de Cristo e conclui a carta saudando Tito e a comunidade (Tt 3,12-15). Página 144 de 183 https://www.ibpazcnp.com.br/post.php?id=70: A introdução de 1 Timóteo (1,1-2) é mais breve que a de Tito. O destinatário é o companheiro de Paulo, Timóteo, que está na Igreja de Éfeso. Paulo identi�ca-se como Escolhido de Deus para levar instruções à Igreja. No corpo da carta (1 Tm 3,1-6,19), trata de vários assuntos acerca da ordem eclesiástica. Primeiro, fala do papel dos presbíteros e dos requisitos para tal ministério. Em seguida, descreve os papéis e as quali�cações necessárias para os diáconos. Comentário As viúvas também formavam um grupo bem destacado na comunidade. Para Paulo, aquelas que após a viuvez permaneceram solteiras e não precisavam mais cuidar de �lhos ou netos, constituíam um grupo especial, dedicado à oração e ao serviço à comunidade e aos necessitados. Após essas instruções, Paulo adverte Timóteo sobre as falsas doutrinas que estariam ameaçando a Igreja. 1 A partir de 1 Timóteo 5, são dadas instruções sobre a vida doméstica e eclesiástica, que deve regular as relações entre mais velhos e mais jovens, homens e mulheres. Na conclusão, não se encontram as saudações típicas das cartas paulinas, mas apenas um pedido a Timóteo: evitar conversas que desagradassem a Deus. 2 A introdução de 2 Timóteo (1,1-2) é semelhante à de 1 Timóteo, mas se aproxima mais da linguagem das cartas autênticas paulinas. A ação de graças (2 Tm 1,3-5) também é um traço característico dos escritos de Paulo que falta em 1 Timóteo. 3 No corpo da carta (2 Tm 1,6-4,18), Paulo demonstra a solidão pela qual passa na prisão, sentindo a proximidade de sua morte. Ele conclui dando suas últimas instruções a Timóteo. Atividade 1. Acerca da autoria e do caráter literário das cartas que compõem o corpus paulinum, assinale a alternativa correta: a) Efésios e Colossenses têm a autenticidade questionada desde o século II, quando Clemente de Alexandria afirmou não terem sido escritas por Paulo. b) A carta aos Filipenses, segundo a maioria dos estudiosos, não foi escrita por Paulo. c) É unânime a opinião de que as cartas pastorais foram escritas por Paulo, com a possível exceção de 2 Timóteo. d) Os principais argumentos contra a autoria paulina de Efésios são a incompatibilidade do vocabulário e do estilo com as cartas autênticas de Paulo e as diferenças teológicas. e) Provavelmente, a Carta a Filemon não foi escrita por Paulo. Página 145 de 183 Gabarito 2. Ainda sobre as cartas do corpus paulinum, correlacione as colunas: Efésios Filemon F.C. Baur 1 e 2 Tessalonicenses 1 2 3 4 a) Carta paulina que foi enviada ao líder de uma igreja doméstica, devido à fuga de seu escravo, que foi ao encontro de Paulo. b) Teólogo que, no século XIX, questionou a autoria paulina de várias cartas presentes no Novo Testamento. c) Carta deuteropaulina que contém muitos paralelos com a carta aos Colossenses. d) Cartas paulinas endereçadas a uma comunidade que estava sendo perturbada com falsos ensinos sobre o Dia do Senhor. 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 3. Acerca da carta aos Filipenses, preencha as lacunas com: Carta B / Carta C / Carta A / três Alguns estudiosos a�rmam que Filipenses é uma compilação de várias cartas. Murphy-O’Connor identi�ca Filipenses como sendo compilação de digite a resposta cartas. 4, 10-20 foi o texto da primeira carta enviada por Paulo àquela comunidade, a qual ele chama de digite a resposta . Nessa epístola, Paulo agradece pela ajuda �nanceira que recebeu da igreja. A digite a resposta consistiria em Filipenses 1,1-3,1 e 4,2-9, na qual Paulo, encarcerado, esboça sua preocupação quanto à in�ltração de judaizantes na comunidade. Filipenses 3,2-4,1 é a digite a resposta , escrita depois da saída de Paulo da prisão, na qual o Apóstolo dirige advertências mais incisivas contra os mestres judaizantes. Página 146 de 183 4. Sobre as cartas estudadas nessa aula, assinale Verdadeiro ou Falso: a) A carta aos Efésios trata de controvérsias acerca do Dia do Senhor. b) O grupo herético que estava ameaçando a igreja de Colossos era, provavelmente, de judaizantes que rejeitavam a �loso�a helênica. c) 1 Tessalonicenses parece consistir em uma compilação de várias cartas, assim como Filipenses. d) Das cartas pastorais, a única considerada autenticamente paulina é a carta a Tito. 5. Fale sobreos argumentos usados na discussão acerca da autoria das cartas paulinas. Notas Estilo do escrito destoante 1 Em 1792, Edward Evanson, baseado nesse argumento, classi�cou a carta como “epístola forjada”, seguido de De Wette que, em 1826, negou a autoria paulina, citando ainda as inúmeras semelhanças textuais com Colossenses. Apóstolos e profetas 2 Esses dois ofícios também são mencionados em Efésios 4,11 como fundamento da Igreja, ou seja, Efésios representaria uma fase mais avançada da eclesiologia, na qual a Igreja estaria hierarquizada, como é mostrado também na redução dos dons aos ministérios eclesiásticos. textuais com Colossenses. Referências BROWN, R.E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. CARSON, D.A.; MOO, D.J.; MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. COLLI, G. Panorama teológico do Novo Testamento. Curitiba: InterSaberes, 2017. DUNN, J. A nova perspectiva sobre Paulo. Santo André: Academia Cristã/ Paulus, 2011. FRANCISCO, Papa. O Evangelho da Vida Nova. Petrópolis: Vozes, 2015. FRIESEN, A. Teologia bíblica pastoral na pós-modernidade. Curitiba: InterSaberes, 2016. JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. Página 147 de 183 KÖESTER, H. Introdução ao Novo testamento 1: história, cultura e religião do período helenístico. São Paulo: Paulus, 2005. ______. Introdução ao Novo Testamento 2: história e literatura do cristianismo primitivo. São Paulo: Paulus, 2005. KÜMMEL, W. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. MARGUERAT, D. Novo Testamento: história, escritura e teologia. São Paulo: Loyola, 2009. MONASTERIO, R.A; CARMONA, A.R. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Ave-Maria, 2000. MURPHY-O’CONNOR, J. Paulo: biogra�a crítica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2015. RENNER, Roberto. História da Teologia. Curitiba: InterSaberes, 2017. SCHNELLE, U. Paulo: vida e pensamento. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2010. ______. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2017. VIELHAUER, P. História da literatura cristã primitiva. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2004. Próxima aula A autoria e o contexto do Novo Testamento; A recepção de textos neotestamentários; A transmissão desses textos até a sua formação. Explore mais O Livro Paulo: biogra�a crítica <//www.loyola.com.br/produtos_descricao.asp? lang=pt_BR&codigo_produto=3645> , de Jerome Murphy-O’Connor, publicado pela Editora Loyola (2. ed. 2015), é uma biogra�a sobre o Apóstolo dos Gentios que discorre sobre a questão das cartas Página 148 de 183 https://www.loyola.com.br/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=3645 ), g p q q pseudoepígrafas. Está disponível para venda no site da Editora. Página 149 de 183 Disciplina: Introdução ao Novo Testamento Aula 9: Epístolas Gerais Página 150 de 183 Apresentação Nessa aula, analisaremos as epístolas gerais. São elas: as cartas aos hebreus, de Tiago, 1 e 2 Pedro e Judas. Analisaremos seus conteúdos teológicos e seus estilos literários. Veremos também as hipóteses acerca da autoria dessas epístolas, com os argumentos a favor da tradição que as atribuem a Apóstolos e �guras próximas de Jesus, como seus irmãos Tiago e Judas e argumentos contrários a essas identi�cações. Objetivos Classi�car as cartas gerais do Novo Testamento; Examinar o conteúdo teológico e as temáticas de cada carta geral; Analisar a relação dessas cartas com o cânon do Novo Testamento. Página 151 de 183 Epístolas gerais A autoria de oito das treze epístolas do Novo Testamento não são atribuídas a Paulo. (Fonte: Free-Photos/Pixabay) O Novo Testamento contém treze epístolas que são identi�cadas como sendo escritas por Paulo e oito que não são atribuídas a ele. Estas são chamadas de epístolas gerais ou católicas. Como as cartas joaninas já foram estudadas anteriormente, nesta aula vamos analisar as epístolas aos Hebreus e as de Tiago, Pedro e Judas. Epístola aos Hebreus A epístola aos hebreus não identi�ca seu escritor nem seus destinatários. Esse título só foi usado pela primeira vez por Panteno, seguido de Clemente de Alexandria e Tertuliano, e aparece no manuscrito mais antigo a conter seu texto, o P46. Todas essas referências são do século II. (Kümmel, 1982). Desde cedo, acreditava-se que Paulo foi quem escreveu essa epístola. Nas Igrejas sírias e gregas, no século III, era quase unânime atribuir a ela a autoria paulina. As evidências demonstram que isso demorou a acontecer no Ocidente. Ela está ausente no Cânon de Muratori e no Cânon da África, de 365 d.C. Papiro 46 (P46). Manuscrito mais antigo a conter o texto das cartas paulinas e da epístola aos hebreus. (Fonte: wikiwand <//www.wikiwand.com/pt/Novo_Testamento> ) Página 152 de 183 https://www.wikiwand.com/pt/Novo_Testamento Irineu a�rmava que Paulo não a escreveu. Tertuliano cita a carta como um escrito não canônico e atribui sua autoria a Barnabé. Só foi na metade do século IV que Hebreus passou a ser vista unanimemente como uma epístola paulina. Entre os argumentos usados por aqueles que defendiam a autoria paulina, estavam: 1 A menção de Timóteo em Hebreus 13,23. 2 As semelhanças entre as bênçãos e as saudações em Hebreus e as encontradas nas cartas de Paulo. 3 Paralelos no vocabulário também eram evocados para sustentar tal posição. (BROWN, 2012) Durante a Reforma Protestante, no século XVI, Hebreus teve sua autoria fortemente discutida. Lutero não acreditava que ela foi escrita por Paulo, atribuindo-a a Apolo. Calvino, Melanchton e Beza também não concordavam com a autoria paulina. No meio católico, com o Concílio de Trento, foi rea�rmada a natureza paulina da epístola. No período do Iluminismo, a questão voltou a ser discutida. Os argumentos que levam a duvidar da autoria paulina da carta são as diferenças na estrutura, estilo e teologia, que divergem muito das cartas de Paulo. Em suas cartas Paulo apresentava uma seção principal na qual discutia questões doutrinárias ou de âmbito comunitário, sucedida por uma seção exortativa. Em Hebreus Em Hebreus, não se encontra essa estrutura, mas as instruções são intercaladas por trechos exortativos. O vocabulário também difere muito do de Paulo, revelando um autor que utilizava mais a retórica grega. Comentário As questões teológicas não são tratadas da mesma forma que por Paulo. Enquanto a ênfase do Apóstolo estava na ressurreição de Jesus, o foco de Hebreus está na exaltação de Cristo no céu. Paulo retrata a salvação como justi�cação perante Deus, e Hebreus fala de puri�cação e santi�cação. Mas se é improvável que Paulo tenha escrito essa epístola, então qual a identidade do autor de Hebreus? Essa questão ainda é muito debatida. Página 153 de 183 Clique nos botões para ver as informações. A�rma que há indícios do Judaísmo helenista no texto de Hebreus, principalmente de Fílon de Alexandria. O autor utiliza o mesmo método exegético dos teólogos alexandrinos, tendendo à alegorização. Kümmel (1982) Segue Kümmel nesse ponto e acrescenta que há também resquícios do Platonismo, com o conceito de transitoriedade da vida e o mundo terreno como uma sombra. Köester (2005) O classi�ca como um orador eloquente e um profundo teólogo, e o uso que faz do grego e das Escrituras demonstra que era um judeu cristão com alto conhecimento da �loso�a helenista. Assim também pensa a maioria dos estudiosos, como Vielhauer (2015) e Vouga. (apud MARGUERAT, 2008) Brown (2012) Comentário Os destinatários da carta também são discutidos. Devido ao uso abundante de citações do Antigo Testamento e argumentos teológicos acerca dos sacrifícios e cultos judaicos, pensou-se muito tempo que a epístola foi escrita para um público composto de cristãos-judeus, provavelmente na Palestina. Kümmel (1982), entretanto, a�rma que esses argumentos são inconclusivos. As citações do Antigo Testamento podem ser explicadas pelo conhecimento das Escrituras proporcionado pela atividade missionáriacristã a comunidades gentílicas. Ele ainda defende um público gentio como destinatário da epístola. Vouga (apud MARGUERAT, 2008) coloca os cristãos alexandrinos como uma alternativa provável para os destinatários da carta. Comentário O lugar da redação da epístola tem sido apontado por muitos como sendo a cidade de Roma, devido à saudação dos “da Itália” (Hb 13,23). A epístola tem sido frequentemente datada de entre 60 e 90 d.C. (BROWN, 2012) Página 154 de 183 Em hebreus encontramos: Cristo é superior O autor começa Hebreus a�rmando a superioridade de Cristo (Hb 1,1-3). A linguagem utilizada para falar da sabedoria no Antigo Testamento é aplicada a Jesus, que é re�exo da glória de Deus. Cristo é superior aos anjos e a Moisés Em Hebreus 1,4-4,13, é demonstrada Sua superioridade em relação aos anjos e a Moisés. Chama a atenção o texto de Hebreus 1,8-9, no qual o Salmo 47,7-8 é aplicado a Jesus, chamando-o de Deus. O sacerdócio de Jesus é eterno Em Hebreus 4,14-7,28, o autor defende a superioridade do sacerdócio de Jesus. Ele compara Jesus com os sacerdotes da tribo de Levi: ao contrário destes, o Messias tem um sacerdócio eterno. O sacrifício de Cristo é superior Hebreus 8,1-10,18 demonstra a superioridade do sacrifício de Cristo, o que torna desnecessários os sacrifícios e demais ritos judaicos. Logo em seguida (Hb 10,19-12,20), o autor explana as explicações da obra de Cristo, advertindo para o perigo da apostasia. Após dar algumas instruções sobre a vida comunitária (Hb 13,1-19), o escritor conclui com uma benção e alusões a Timóteo e saudação por parte dos cristãos da Itália (Hb 13,20-25). Tiago Os primeiros testemunhos da existência da epístola de Tiago só são datados do século III, Com Clemente de Alexandria, Orígenes, o Papiro P20 e Eusébio de Cesareia, que a menciona como tendo sido escrita pelo irmão de Jesus. Mas ela não aparece no Cânon de Muratori e não é citada por Irineu, Cipriano e Hipólito. Comentário Na Síria, a Igreja a incluiu na Peshitta, mas Teodoro de Mopsuéstia a rejeitou. As igrejas gregas somente a aceitaram após o Sínodo da Laodiceia em 360 d.C. Os Sínodos de Roma e Cartago, em 482 e 397 respectivamente, a reconheceram como canônica devido à in�uência de Jerônimo e Agostinho. Porém, as controvérsias acerca da autenticidade dessa carta não cessaram. Página 155 de 183 Durante a Reforma, Lutero a chamou de “epístola de palha”, já que acreditava que ela contradizia a doutrina da justi�cação pela fé. De Wette, já no século XIX, demonstrou que a Epístola não poderia ter sido escrita por um irmão de Jesus, devido ao seu grego so�sticado. Os seguidores da Escola de Tübingen sustentavam que a carta foi escrita como uma tentativa de refutação ao ensino paulino da justi�cação somente pela fé, datando-a do século II. (KÜMMEL, 1982) Martinho Lutero, �gura central da Reforma Protestante. Wilhelm Martin Leberecht de Wette, teólogo alemão e estudioso da Bíblia. Página 156 de 183 Ferdinand Christian Baur, teólogo fundador da Escola de Tubinga. Na história da pesquisa, foram apresentadas várias teses sobre o autor da epístola. O escritor identi�ca-se no texto como “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo” (Tg 1,1). Mas qual Tiago seria esse? Foram sugeridos como o autor: 1 Tiago, �lho de Zebedeu 2 Tiago, �lho de Alfeu 3 Tiago, irmão de Jesus 4 Tiago, o Menor 5 Tiago, pai do Apóstolo Judas Comentário Kümmel (1982), Carson, Moo e Morris (1997) consideram improvável que o autor seja o Filho de Zebedeu, pois este foi martirizado em 44 d.C. , data anterior à escrita da epístola. Página 157 de 183 Pintura representando Tiago, irmão de Jesus. Os autores citam o irmão de Jesus como o mais provável dessas alternativas, por ser conhecido dos cristãos, ocupando, inclusive, a liderança da igreja de Jerusalém. Outro argumento a favor dessa teoria é a posição de Tiago em defesa da Lei, no debate com Paulo (At 15), o que é coerente com a posição demonstrada na epístola. Mas muitos estudiosos, como Köester (2005), Brown (2012), Vielhauer (2015), Vouga (apud MARGUERAT, 2008) e o próprio Kümmel (1982) consideram essa hipótese improvável, devido ao grego culto do texto. 1 Carson, Morris e Moo (1997) Atacam o argumento que a�rma ser improvável Tiago ter escrito a epístola devido ao grego culto utilizado no texto. Atacam esse argumento, a�rmando que o estilo linguístico da carta é semelhante às obras judaico-helenistas da época e que o grego era uma língua muito empregada na Palestina, não podendo subestimar a capacidade de Tiago, irmão de Jesus. Brown (2012) Em sua Introdução ao Novo Testamento, enumera vários paralelos entre os textos de Tiago e do Evangelho de Mateus, principalmente o sermão do Monte. Ele ressalta, porém, que apesar das semelhanças, não há correspondência exata, o que pode apontar que o autor de Tiago na verdade conhecia o documento Q, que foi utilizado como fonte pelo Evangelho de Mateus. Para teólogos como A. Lindemann e Martin Hengel, a carta foi escrita com o propósito de ser um ataque à doutrina de Paulo da justi�cação pela fé, ou seja, seria um fruto da controvérsia entre o cristianismo judaico e o paulino. Já para outros, como Kümmel e Vielhauer, o que é atacado é a apropriação da doutrina da justi�cação por um grupo hiperpaulino. (SCHNELLE, 2017) Se o autor da epístola foi Tiago, irmão de Jesus, então deve ser datada dos anos 50 d.C., pois o líder da Igreja de Jerusalém foi martirizado em 62 d.C. Porém, como lembra Brown (2012), a estrutura eclesiástica implícita na epístola supõe uma datação do �nal do século I. E, se for uma reação aos escritos de Paulo, essa data é a mais provável. Comentário O local da escrita da carta também é objeto de muita controvérsia. Quem defende Tiago, irmão de Jesus, como o autor, acredita que seu lugar de origem foi Jerusalém. Contudo, o uso da Septuaginta e a alusão à diáspora pressupõem um local fora da Palestina. O livro de Tiago se apresenta da seguinte forma: Introdução da epístola de Tiago (1,1) Página 158 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/aula9.html Faz uma breve citação de Jesus Cristo, o que levou alguns a pensar que anteriormente se tratava de um escrito judaico que foi editado pelos cristãos. Instrução acerca do sofrimento Logo após (Tg 1,2-27), o autor instrui acerca do sofrimento e pede que os cristãos sejam perseverantes diante das provações. Tiago 2,1-13 – Sobre privilégios O autor chama a atenção para algo que estava acontecendo na comunidade. Os ricos estavam sendo privilegiados, sentando nos melhores lugares, enquanto os pobres estavam sendo excluídos. Ele lembra ainda que foram os ricos que os arrastam para os tribunais e que a lei é resumida no amor ao próximo. Problema da justi�cação Por meio de uma diatribe — o autor discorre acerca do problema da justi�cação (Tg 2,14-26). Citando o exemplo de Abraão e Raabe, ataca a ideia de que as obras seriam desnecessárias para a salvação. Sua tese é de que a fé sem obras é morta. 2 Pecados x comunhão cristã Tiago 3,1-5,6 enumera pecados que podem levar à destruição da comunhão cristã. Adverte sobre os danos que a língua pode causar, capaz de dar vida e de destruir. Logo após, instrui os cristãos a evitar a cobiça e a levar uma vida simples. Última parte (Tg 5,12-20) O escritor lembra a proibição dos juramentos, instrui acerca da oração pelos enfermos e da unção com óleo e pede uma atenção especial aos desviados. Pedro Página 159 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/aula9.html Na 1 Carta de Pedro, o autor se identi�ca como o Apóstolo de Jesus Cristo (1,1), mas a autoria petrina da epístola tem sido questionada. Kümmel (1982) enumera alguns argumentos contra essa tese: 1 O grego da epístola é culto e bem elaborado, com a retórica remetendo à Septuaginta, o que seria improvável para um pescador da Galileia como Pedro. 2 A epístola tem muitos paralelos com a teologiapaulina. 3 A carta não apresenta nenhum sinal de familiaridade com o Jesus terreno, sendo improvável que uma testemunha ocular de Jesus não evocasse sua proximidade com o Mestre. 4 Por último, o contexto da epístola pressupõe uma grande perseguição aos cristãos, o que, para Kümmel, só ocorreu com Domiciano no �nal do século I. Assim também pensa Vielhauer (2015). Köester (2005) a�rmava que essa epístola tem sua origem nos círculos paulinos, lembrando que o amanuense da carta, Silvano, é citado várias vezes nas cartas de Paulo. Carson, Morris e Moo (1997) defendem a autoria petrina, argumentando que o próprio Silvano foi quem deu os retoques ao texto. Comentário Segundo eles, o argumento de que, se Pedro tivesse escrito a epístola, faria mais menções ao ministério de Jesus é subjetivo. O contexto da perseguição da epístola também é compatível com a empreendida por Nero, por volta de 64 d.C. Em 1 Pedro 5,13, o lugar onde o autor está é chamado de Babilônia, o que, segundo a maioria dos estudiosos, se refere a Roma. Seus destinatários são identi�cados como: Estrangeiros da Dispersão do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia (1 Pd 1,1) Comentário Todos esses locais citados estão localizados na Ásia Menor. Para os que acreditam na autoria petrina da carta Ela é anterior a 64 d.C, pois este foi o ano em que Pedro foi martirizado em Roma. Para os que defendem que não foi Pedro o autor da epístola É mais provável que ela tenha sido escrita no �nal do século I. Página 160 de 183 Introdução A introdução da carta (1 Pd 1,1-2) contém uma saudação semelhante às paulinas. 1ª Parte Na primeira parte (1 Pd 1,3-2,10), o autor declara que os cristãos, a exemplo de Israel no Êxodo, devem cingir as mentes. Ele lembra o mandamento para serem santos, assim como Deus o é. Logo em seguida, Cristo é descrito com pedra angular, escolhido por Deus e rejeitado pelo mundo. 2ª Parte Na segunda parte (1 Pd 2,11-3,12), ele instrui acerca de como deve ser o comportamento dos cristãos perante o mundo pagão. Trata das relações sociais, como entre maridos e mulheres e servos e senhores. 3ª Parte Na terceira parte (1 Pd 3,13-5,11), o autor discorre sobre a perseguição que os cristãos estão sofrendo. Ele os encoraja a con�ar em Cristo, amar e servir uns aos outros. Segue-se a isso uma série de admoestações (1 Pd 5,5-9). Conclusão Na conclusão (1 Pd 5,12-14), há várias saudações, em que os cristãos de Roma e Silvano são citados. 1 Pedro O livro se apresenta da seguinte forma: 2 Pedro Assim como em 1 Pedro, o autor desta epístola também se identi�ca como Pedro, apóstolo de Jesus Cristo (1,1). Mas, segundo Kümmel (1982), o escritor não pode ter sido Pedro. Para ele, 2 Pedro dependeu literariamente da epístola de Judas e apresenta tantas in�uências helênicas na linguagem e retórica que tornam impossível ser obra de um judeu como Pedro. A maioria dos estudiosos, como Köester (2005) e Schlosser (apud MARGUERAT, 2008), concordam com esse argumento. Página 161 de 183 1 Brown (2012) A�rma que 60% do vocabulário de 2 Pedro não se encontra em 1 Pedro, concluindo que as duas epístolas não podem ter tido o mesmo autor. 2 Carson, Morris e Moo (1997) Tentam explicar esse fato recorrendo ao uso que Pedro fazia de vários secretários. Quanto à época da redação da carta, Kümmel (1982) a�rmava que 2 Pedro é posterior a Judas, pois dependeu desta última, tornando provável que a epístola tenha sido escrita no início do século II. Köester (2005) concorda com essa data. Brown (2012) ao defender esse ponto de vista, lembra que a carta já aparece no Papiro Bodmer 72, do �nal do século II, e Orígenes a menciona. Mas, para os que acreditam na autoria petrina, a carta foi escrita antes de 64 d.C., pois como já vimos, este foi o ano em que Pedro foi martirizado em Roma. O Papiro 72, ou P72, contém todo o texto de 1 Pedro, 2 Pedro e Judas. É datado entre o final do século II e início do século III. Comentário Para a maioria os estudiosos, 2 Pedro foi destinada ao mesmo público de 1 Pedro. Introdução (2 Pd 1,1-2) 2 Pedro 2,1-22 Conclusão (2 Pd 3,17-18) Define os destinatários como os que receberam a fé. No corpo da carta (2 Pd 1,3-3,16), o autor exorta a prosseguirem na busca da santificação. Lembra a eles da esperança da volta de Jesus Cristo. Ele condena falsos profetas que estariam ameaçando a Igreja. O autor usa 19 dos 25 versículos de Judas nessa discussão. Após isso, volta a falar da parousia de Jesus, justificando sua demora com o conceito de tempo divino, que é diferente do terreno. Utilizando a forma do discurso de despedida, o autor dá instruções acerca dos falsos mestres que podem afastar os cristãos do caminho do Senhor. Judas O autor da epístola de Judas se identi�ca como servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago. Acreditou-se por muito tempo que esse Tiago seria o irmão de Jesus, e por conseguinte, Judas também o seria. Comentário Kümmel (1982) a�rma que o autor era judeu, pois conhecia obras como a Ascenção de Moisés e o Apocalipse de Henoc. Ele, porém, também deixa claro que o escritor parece ser de uma geração bem posterior à dos Apóstolos e utiliza um grego culto. Por isso, conclui que o autor não pode ter sido Judas, irmão de Jesus, opinião esta que prevalece no campo de estudos do Novo Testamento atualmente. Página 162 de 183 Gabarito Clique nos botões para ver as informações. O autor apresenta-se como Judas, como já vimos, e identi�ca os destinatários como os que “foram chamados, isto é, aqueles a quem Deus ama e Jesus protege”. Introdução (Jd 1-2) Os cristãos são advertidos sobre falsos mestres que renegam o Senhor Jesus. O autor evoca vários exemplos de punição do Antigo Testamento: Primeiro, os rebeldes que, mesmo sendo libertados por Deus da opressão do Egito, O questionaram e foram mortos antes que chegassem a Israel; Segundo, os anjos que deixaram o céu em busca de mulheres e foram presos por Deus na escuridão até o dia do julgamento; Terceiro, Sodoma e Gomorra, cidades conhecidas por sua imoralidade, foram destruídas pelo fogo; Depois, ainda os compara com Caim, Balaão e Coré. Corpo da carta (Jd 3-23) O autor conclui com uma doxologia (24-25), provavelmente retirada da liturgia das Igrejas cristãs. Conclusão Atividade 1. Acerca das epístolas gerais, marque a alternativa correta: a) Hebreus têm todas as características, incluindo estilo e vocabulário, das cartas paulinas. b) A maioria dos estudiosos afirma que o autor da carta de Tiago é o Apóstolo que foi martirizado em 44 d.C. c) A primeira epístola de Pedro apresenta um grego culto, o que muitos estudiosos consideram uma evidência da não autoria petrina. d) A segunda epístola de Pedro é um tratado acerca da justificação pela fé. e) A epístola de Judas apresenta um grego bem informal, característico de um judeu sem muito conhecimento da língua. 2. Ainda sobre as epístolas gerais, correlacione as colunas: Hebreus Tiago 2 Pedro Judas 1 2 3 4 a) Epístola escrita para refutar e advertir mestres hereges que estavam ameaçando a doutrina, e para isso, o autor recorre a exemplos de castigo de Deus do Antigo Testamento. b) Epístola que, segundo alguns pesquisadores, foi escrita como reação ao pensamento paulino acerca da justi�cação. c) Epístola que tem como objetivo demonstrar a superioridade de Cristo comparado aos anjos, Moisés e cultos judaicos. d) Epístola escrita durante um contexto de perseguição, provavelmente a promovida por Nero em Roma. 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 Página 163 de 183 3. Acerca da epístola aos hebreus e sua autoria, preencha as lacunas com: Hebreus / Vocabulário / Exortativa / Cartas paulinas / Instrução Enquanto que nas digite a resposta , existe uma seção principal onde se discutem questões doutrinárias ou de âmbito comunitário, sucedida por uma seção digite a resposta , em digite a resposta , os trechos de digite a resposta são intercalados por trechos exortativos. O digite a resposta também difere muito dode Paulo, revelando um autor que utilizava mais a retórica grega. 4. Acerca do que estudamos sobre as epístolas gerais, marque Verdadeiro ou Falso: a) A epístola de Tiago contém muitos paralelos com o texto do Evangelho de Mateus, principalmente do sermão do monte. b) 1 Pedro e 2 Pedro foram escritas em um grego so�sticado, tornando improvável que o apóstolo tenha escrito essas epístolas. c) Judas contém cerca de 90% dos versículos de 2 Pedro. d) Hebreus defende que os cristãos continuem indo ao templo de Jerusalém. 5. Discorra sobre a questão da autoria da epístola de Tiago, citando as hipóteses e argumentos apresentados na história da pesquisa. Notas Tiago, irmão de jesus 1 Tornou-se líder da Igreja de Jerusalém, exercendo in�uência sobre o Cristianismo. Foi martirizado em 62 d.C. pelo sinédrio de Israel. Diatribe 2 Técnica retórica que utiliza um diálogo imaginário para refutar uma ideia. Referências BROWN, R.E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. CARSON, D.A.; MOO, D.J.; MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova,1997. COLLI, G. Panorama Teológico do Novo Testamento. Curitiba: InterSaberes, 2017. DUNN, J. A nova perspectiva sobre Paulo. Santo André: Academia Cristã/ Paulus, 2011. FRANCISCO, Papa. O Evangelho da Vida Nova. Petrópolis: Vozes, 2015. FRIESEN, A. Teologia bíblica pastoral na pós-modernidade. Curitiba: InterSaberes, 2016. JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. KÖESTER, H. Introdução ao Novo testamento 1: história, cultura e religião do período helenístico. São Paulo: Paulus, 2005. ______. Introdução ao Novo Testamento 2: história e biteratura do Cristianismo primitivo. São Paulo: Paulus, 2005. KÜMMEL, W. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. MARGUERAT, D. Novo Testamento: história, escritura e teologia. São Paulo: Loyola, 2009. Página 164 de 183 MONASTERIO, R.A; CARMONA, A.R. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Ave-Maria, 2000. MURPHY-O’CONNOR, J. Paulo: biogra�a crítica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2015. RENNER, Roberto. História da Teologia. Curitiba: InterSaberes, 2017. SCHNELLE, U. Paulo: vida e pensamento. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2010. ______. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2017. VIELHAUER, P. História da literatura cristã primitiva. Santo André: Academia Cristã/Paulus, 2004. Próxima aula A autoria do Novo Testamento; O contexto do Novo Testamento; A recepção de textos neotestamentários; A transmissão dos textos do Novo Testamento até a sua formação. Explore mais Leia o artigo A autoria de Hebreus: uma breve incursão pelos vinte séculos de debate <//www.seer- adventista.com.br/ojs/index.php/hermeneutica/article/view/253> , de Fernando A. Silva et al., publicado na Revista Hermenêutica, Volume 11, n.2, 113-130, que fala acerca das teorias que já foram apresentadas no decorrer da história do Cristianismo sobre a identidade do autor de Hebreus que, como vimos, ainda é uma questão muito debatida, parecendo difícil se chegar a um consenso. Página 165 de 183 https://www.seer-adventista.com.br/ojs/index.php/hermeneutica/article/view/253 Disciplina: Introdução ao Novo Testamento Aula 10: Apocalipse Página 166 de 183 Apresentação O Livro de Apocalipse é um dos que mais despertaram debates na história do Cristianismo. Com inúmeras linhas de interpretação, muitos não se arriscam nem a lê-lo, por ser uma leitura difícil. Em muitos outros, o Livro desperta medo do futuro, já que é corrente no mundo cristão a interpretação de que ele se refere a eventos que acontecerão no mundo, em que a besta perseguirá os cristãos. Nesta aula, vamos analisar as hipóteses acerca da autoria do Apocalipse, seu gênero literário e seu signi�cado para a Teologia Cristã. Objetivos Descrever em linhas gerais a literatura apocalíptica cristã do século I; Examinar o conteúdo teológico e as temáticas do Apocalipse de João; Analisar a relação entre o Apocalipse de João e os outros textos apocalípticos do Novo Testamento. Página 167 de 183 Autoria, data e local de origem O autor de Apocalipse se identi�ca como João quatro vezes (1,1.4.9;22,8). No século II, este João foi identi�cado como o Apóstolo, �lho de Zebedeu, por Justino e Clemente de Alexandria, sendo considerado canônico desde então. Mas os antimontanistas da Ásia Menor e Gaio atribuíram sua autoria ao gnóstico Cerinto no século III. Comentário Também nesse período, Dionísio de Alexandria a�rmou ter sido João, o Ancião, o escritor de Apocalipse. A partir daí, o caráter apostólico desse Livro foi questionado no ocidente. Ele não consta em listas canônicas da Ásia menor e da Palestina. Só foi amplamente aceito quando foi incluído na lista de Atanásio e da Igreja latina. No século XVI, Erasmo volta a questionar a autoria de Apocalipse. Lutero não o considerava “profético nem apocalíptico”, sendo que até hoje a identidade do autor é debatida. (Kümmel, 1982) Os que defendem o Apóstolo João como autor, além de recorrer à tradição, utilizam como argumento as semelhanças entre Apocalipse e as obras joaninas. Brown (2012) cita as designações de Jesus como: 1 Cordeiro, fonte de água viva (Jo 7,37-39; Ap 22,1) 2 Luz (Jo 8,12; Ap 21,23-24) 3 Verbo (Jo 1,1.14; Ap 19,13) 4 “Eu sou” (Jo 8,58; Ap 1,8.17-18) Porém, Kümmel (1982) e o próprio Brown (2012) concordam que também há muitas diferenças na linguagem. Kümmel ainda a�rma que a escatologia de Apocalipse é futurista, enquanto que no Evangelho de João não se encontram esses elementos. Segundo ele, do autor de Apocalipse não podemos saber nada, exceto que era um profeta judeu-cristão chamado João. Página 168 de 183 Vejamos o que dizem outros autores. Clique nos botões para ver as informações. Também sustenta esse argumento, a�rmando que o autor do Evangelho de João era originário da Palestina e o de Apocalipse parece ser da Ásia Menor. Ele levanta a possibilidade de ser o líder da Igreja de Éfeso, a primeira a ser citada no livro, e que pode ser o mesmo “João de Éfeso” mencionado por Papias. Köester (2005) A�rma que o autor não pode ser um apóstolo, pois ele se distingue do grupo dos doze, e também concorda que se trata do presbítero João de Éfeso. Philipp Vielhauer (2015) Não concorda com essa identi�cação, descrevendo o autor somente como membro de um círculo de profetas itinerantes. Cuvillier (apud MARGUERAT et al, 2008) O Apocalipse foi escrito durante o reinado de Domiciano, que durou de 81 a 96 d.C. O autor aponta que estava escrevendo em um contexto de perseguição aos cristãos, o que se encaixaria com a época do domínio de Domiciano. Irineu, que viveu no século II Na Ásia, estava sendo promovido o culto imperial, com Domiciano exigindo ser chamado de Senhor e Deus. (SCHNELLE, 2017) 1 Saiba mais Página 169 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/aula10.html Moeda romana trazendo a imagem de Domiciano. Na outra face, seu �lho falecido no ano 81 é chamado de Divindade. Domiciano provavelmente foi o Imperador que condenou João ao exílio, já que promoveu uma ferrenha perseguição aos cristãos. A maioria dos estudiosos concorda que Apocalipse foi escrito durante esse período. O autor declara estar exilado na Ilha de Patmos , localizada no Mar Egeu, a cerca de 100 quilômetros a oeste de Éfeso.2 Gênero e estilo literário Para a maioria dos estudiosos, o Apocalipse de João se enquadra no gênero apocalíptico judaico. São características desse tipo de literatura a numerologia, as visões e a dependência em relação ao Antigo Testamento. (KÜMMEL, 1982). Köester (2005) não concordava com essa designação, a�rmando que na verdade Apocalipse era uma crítica às ideias e especulações apocalípticas da época. Ele ressalta ainda que, ao contrário dos escritos judaicos, que eram pseudônimos, o autor do Apocalipse se identi�ca claramente. E continua: Na tradição do apocaliptismo, sua linguagem servira de instrumento parainterpretar o mundo e sua história de tal modo que eventos futuros eram situados a uma distância apropriada [...]. João, porém, é mais um profeta do que um autor apocalíptico. Sua mensagem é um apelo a compreender o tempo presente como o começo dos eventos apocalípticos finais, que são desencadeados pelo confronto com o culto ao Imperador. (KÖESTER, 2005, p.271) Página 170 de 183 https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0021/aula10.html Carson, Moo e Morris (1997), assim como Vielhauer (2015), também identi�cam João como um profeta; porém, veem no livro tanto elementos apocalípticos como proféticos. Comentário O grego de Apocalipse é informal, contendo inclusive erros gramaticais. Para Kümmel (1982), isso é re�exo de um autor que pensava em hebraico e escrevia em grego, assim como também pensa Brown (2012). Já na opinião de Köester (2005), isso se deve a uma escolha deliberada do autor, que queria imprimir uma linguagem arcaizante, de livro profético. Na questão do estilo, o autor utiliza inúmeras alusões ao Antigo Testamento e à literatura apócrifa. William Bousset propôs, seguido por Vielhauer (2015), que o autor utilizou de fragmentos anteriores para compor seu livro. Alguns exemplos desses fragmentos seriam um pan�eto da época da guerra judaica, que foi usado em Apocalipse 11,1-13; visões da rainha do céu, da criança e do dragão que seriam baseados na mitologia oriental (Ap 12) e a lenda do Nero redivivo (Ap 17). Essa tese, contudo, não encontrou muito apoio. Kümmel (1982) a�rmou que essa e outras teorias contra a integralidade do Apocalipse não são convincentes. As visões de João incluem simultaneamente o céu e a terra. Elas se desenrolam através de imagens que lembram a liturgia dos cultos cristãos. A adoração ao Senhor predomina. Várias foram as hipóteses para o contexto de origem dessas imagens. Já foram propostos: 1 O templo de Jerusalém e seus rituais 2 As festas judaicas, a cerimônia batismal cristã 3 As celebrações da páscoa e os cultos semanais Página 171 de 183 1 Brown (2012) considera todas as alternativas prováveis, tendo o autor utilizado hinos e liturgias para mostrar uma simultaneidade entre a adoração celeste e a terrena da Igreja de Jesus. 2 Para Schnelle (2017), o autor fez isso para “fortalecer com essa criação de sentido a identidade ameaçada de suas comunidades e lhes oferecer orientação” (p.987). 3 James L. Ressenguie, em seu Revelation unsealed: a narrative critical approach to John's Apocalypse (1998), nota que João justapõe em suas cenas o que é visto com o que é escutado, sendo que os sons interpretam as imagens. Exemplo Um exemplo disso é que, em Apocalipse 5, o autor vê um cordeiro, mas escuta sobre um leão e, em Apocalipse 13, vê a segunda besta, que parece um cordeiro, mas tem voz de dragão. O simbolismo é outro recurso literário largamente usado por João. Próprio da literatura apocalíptica e profética, seu objetivo, segundo Cuvillier (apud MARGUERAT et al, 2008), é “dar acesso a uma realidade mais profunda do discurso” (p.392). Para Marguerat e Bourquin (2009), as imagens simbólicas foram retiradas do Antigo Testamento, como por exemplo, as duas bestas, que lembram as de Daniel 7. O livro, como lembram esses autores (2009), também tem o enredo organizado em torno de sequências chamadas setenários (sete selos, sete trombetas, sete taças), sendo cada uma introduzida durante o andamento de outra. Texto Página 172 de 183 No prólogo (Ap 1,1-3), o livro é descrito como “revelação de Jesus Cristo”, entregue por um anjo a João, que está exilado na Ilha de Patmos. Logo em seguida (Ap 1,4-3,22), o leitor é introduzido às sete cartas enviadas a Igrejas da Ásia Menor. A Doxologia de Apocalipse 1,5-6, segundo alguns, re�ete a linguagem batismal. Cristo é apresentado como o Alfa e o Ômega e o Todo-Poderoso. Na visão inaugural (Ap 1,9-20), João vê Cristo, que é identi�cado como um “�lho do Homem”. O cenário remete ao templo de Jerusalém e a simbolismos imperiais. As cartas propriamente ditas (Ap 2,1-3,22) são endereçadas às Igrejas de Éfeso, Pérgamo, Tiatira, Esmirna, Filadél�a, Sardes e Laodiceia. Essas comunidades estão sofrendo com a perseguição, com o desânimo e com falsas doutrinas que têm se in�ltrado em seu meio. Comentário Nas cartas, o autor faz referências a aspectos históricos e geográ�cos das cidades. Templo de Ártemis A promessa a Éfeso, por exemplo, lembra o fato de que o templo de Ártemis na cidade foi construído sobre a raiz de uma árvore sagrada. Ruínas do Templo a Trajano, na cidade de Pérgamo A referência a Pérgamo como o lugar do trono de Satanás é porque a cidade era o centro do culto imperial na época. Quanto às heresias referidas nas cartas, pouco sabemos. Os nicolaítas podiam ser um grupo que pregava a libertinagem sexual, da mesma forma que os que davam ouvidos a Jezabel. Na carta a Esmirna e Filadél�a, o autor menciona “os que se consideram judeus”, mas na verdade, “pertencem à Sinagoga de Satanás” (Ap 2,9; 3,9). Página 173 de 183 A partir de Apocalipse 4,1, João narra suas visões do céu. O autor primeiro vê a corte celestial, que consiste em um trono, onde está Deus, rodeado de quatro seres vivos e 24 anciãos, que estão entoando louvores ao Senhor. Em Apocalipse 5, a visão concentra-se no Cordeiro, que é apresentado como o único capaz de abrir o livro com sete selos. Com a abertura dos primeiros quatro selos abertos (Ap 6,1-8), aparecem quatro cavaleiros montados em cavalos de cores diferentes. O branco representa a conquista, o vermelho a luta sangrenta, o preto a fome e o verde a peste. Segundo Brown (2012) e outros autores, a imagem é derivada das visões de Zacarias 1,8-11 e 6,1-7. Com a abertura do quinto selo (Ap 6,9- 11), são apresentados os mártires que morreram por amor ao Evangelho, talvez na perseguição promovida pro Nero, em 64 d.C. No sexto selo (6,12-17), acontecem perturbações cósmicas, que não devem ser tomadas literalmente pois re�etem as imagens utilizadas pelas literaturas profética e apocalíptica e simbolizam o julgamento de Deus sobre a terra. Página 174 de 183 Em Apocalipse 7, o autor abre um parêntese e narra outra visão, no qual quatro anjos que seguram os quatros ventos recebem a ordem divina de não causar nenhum dano até que os �éis a Deus sejam identi�cados com um selo na testa. Com a abertura do sétimo selo (Ap 8,1), revelam-se sete anjos com sete trombetas. Após meia hora de silêncio, são tocadas as quatro primeiras trombetas, acontecendo catástrofes que lembram as pragas do Êxodo: granizo, mar transformado em sangue, estrela caindo sobre a terra e corpos celestes escurecendo. Na quinta trombeta (Ap 9,1-11), são libertados do abismo gafanhotos semelhantes a cavalos de guerra. No toque da sexta trombeta (Ap 9,13-21), outra horda de cavaleiros. (Fonte: IgorZh / Shutterstock). Página 175 de 183 Comentário Novamente, o autor introduz uma visão intermediária (Ap 10,1-2), descrevendo a descida de um anjo até a Ilha de Patmos, trazendo um livro, e dá a ordem para que João o coma, lembrando o episódio da vocação profética de Ezequiel (Ez 2,8-33). Ele contém as doces notícias de vitórias dos �éis e as amargas notícias sobre as consequências do julgamento de Deus. Em Apocalipse 11, são introduzidas as visões acerca de duas testemunhas que pregam no templo de Jerusalém durante 1.260 dias até serem mortos pela besta que sobe do abismo. São várias as hipóteses sobre a identidade dessas testemunhas, com alguns defendendo uma referência a Pedro e Paulo, mártires em Roma, e outros a�rmando que são Tiago, �lho de Zebedeu, e Tiago, irmão de Jesus. Depois que são martirizados, eles ressuscitam e são elevados ao céu. Em seguida temos: Página 176 de 183 Clique nos botões para ver as informações. A visão de Apocalipse 12 descreve uma mulher vestida de sol e que tem a lua sob seus pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, representando Israel, e que dá a luz um �lho. Elae o �lho acabam sendo perseguidos pelo dragão, que é Satanás, inimigo do povo de Deus. O dragão tenta devorar a criança, o Messias, que é salvo por Deus. Satanás, enfurecido, declara guerra à descendência da mulher. A guerra entre ele e os �lhos da mulher, representando a Igreja, dura 1.260 dias. Apocalipse 12 A partir de Apocalipse 13, entram em cena duas bestas convocadas pelo dragão. A primeira sobe do mar e possui dez chifres e sete cabeças. Ela simboliza o Império Romano, e as sete cabeças representam as sete colinas de Roma (Ap 17,9-11) e também os sete reis, dos quais cinco já caíram. O sexto rei está reinando, e o sétimo está por vir e durará pouco, seguido do oitavo, que “era e já não é mais”, talvez fazendo referência à lenda do Nero redivivo, na qual o Imperador iria retornar dos mortos e reinar outra vez. A maioria dos estudiosos crê que, para João, esse Nero personi�cado se tratava de Domiciano. Logo após, a segunda besta surge da terra, sendo uma imitação de Cristo. Parece um cordeiro, mas fala como um dragão. Ele representa o culto imperial, bem difundido principalmente na Ásia Menor. Também exige que os habitantes da terra sejam selados com o número da besta: 666. O signi�cado desse número é bem debatido até hoje. É majoritária no campo da pesquisa a opinião de que se trata de um código, utilizando o sistema numérico das letras hebraicas, para o nome Nero Cesar. Apocalipse 13 O cordeiro e a multidão de selados reaparecem em Apocalipse 14. Em Ap 14,6-13, três anjos proclamam o Evangelho por todo o mundo e advertem que aqueles que adoram à besta serão castigados. Apocalipse 14 Em Apocalipse 15,1-16,21, aparecem sete anjos trazendo sete taças para serem derramadas sobre a terra, simbolizando o julgamento �nal. Antes disso, na corte celestial é entoado o Cântico de Moisés. Apocalipse 15 e 16 Página 177 de 183 Após o derramamento das taças, segue-se a destruição da “Babilônia”, a prostituta, que é identi�cada como Roma em Ap 17,7. Posteriormente, no capítulo 18, os anjos noticiam a destruição da grande cidade. Apocalipse 17 e 18 Apocalipse 19,1-16 narra as bodas do cordeiro com sua noiva, a Igreja, seguido de uma batalha em que Cristo, liderando um exército composto pelos anjos e santos, derrota as bestas. Apocalipse 19 Agora, Jesus estabelece seu reino milenar (Ap 20), em que o dragão é encarcerado no abismo. Durante esse período, os �éis a Cristo são sacerdotes e têm a vida eterna. No �m do milênio se dá a última investida do dragão que, liberto, reúne as nações da terra para marchar contra Jerusalém. Deus envia fogo do céu e consome o exército inimigo, e Satanás é lançado no lago de fogo. Apocalipse 20 Um novo céu e uma nova terra são descritos nos capítulos 21 e 22. A Nova Jerusalém desce do céu, em formato cúbico, com doze portas que levam os nomes dos doze apóstolos. É dito que a morte, o sofrimento e a noite não existem mais. No Epílogo (Ap 22,6-21), Jesus adverte João a não esconder as palavras do livro nem as modi�car. Ele segue dizendo que voltará e não tardará, no que João responde com a fórmula conhecida pela Igreja: “Vem, Senhor Jesus”. O autor conclui saudando seus destinatários. Apocalipse 21 e 22 Teologia Segundo Schnelle (2017), a�rmação fundamental de Apocalipse de João é que Deus é o Senhor da história. Imperadores autoproclamam-se divindade, mas Deus é o único Todo-Poderoso, termo recorrente no livro. Comentário Jesus é alvo de adoração em Apocalipse. Página 178 de 183 A doxologia de Apocalipse 1,5.6 se refere a Ele, que também é chamado de: 1 “O Vivente” (1,18) 2 Aquele-que-Vem (1,7; 2,5; 16,25; 3,11; 16.15; 22,7.12.20) 3 Cordeiro Imolado desde a fundação do mundo (5,9.9.12;13,8) A cristologia de Apocalipse tem como centro o sacrifício de Jesus na cruz. Como o autor identi�ca seus escritos como profecia, é pelo espírito que dá as visões. Em todo o texto do Apocalipse, é ressaltado o poder salví�co do sangue de Jesus. Como já vimos, o livro foi escrito durante um contexto de perseguição, provavelmente o de�agrado pelo Imperador Domiciano, no �nal do século I. A mensagem ética do Apocalipse é sobre a posição dos cristãos diante do culto imperial, que já tem feito mártires (Antipas em Ap 2,13; 6,9-11), além do perigo de falsas doutrinas que têm se in�ltrado nas comunidades. Ele exorta os cristãos a perseverar, pois Jesus premiará os vencedores. O tema do testemunho/ martírio também está presente. A primeira e grande testemunha é Jesus Cristo (Ap 1,5; 3,14;22,20), e os cristãos são testemunhas e devem demonstrar �delidade até mesmo diante da morte (Ap 14,13). Então, pode-se dizer que a ética de Apocalipse é uma ética de resistência. Comentário A escatologia do Livro é presente, ética e futurista ao mesmo tempo. Está baseada na morte sacri�cal do Cordeiro que ocorreu no passado, que re�ete nos acontecimentos futuros. O dragão, que representa Satanás, já foi derrotado por Cristo, e os cristãos somente aguardam a consumação dessa vitória. Segundo Schnelle: Página 179 de 183 Gabarito No tempo presente começa a se impor na terra, contra a oposição do mundo, o que João pode ver na esfera celestial como já consumado. SCHNELLE (2017), p. 1012) Atividade 1. Acerca do que estudamos sobre Apocalipse, assinale a alternativa correta: a) Quando escreveu o Livro do Apocalipse, João estava exilado na Ilha de Patmos. b) A maioria dos estudiosos sustenta que Apocalipse foi escrito pelo mesmo autor do Evangelho de João. c) O Apocalipse foi escrito em grego culto, o que leva a supor que foi escrito por um verdadeiro literato. d) A besta que sobe do mar em Apocalipse 13 simboliza os antigos impérios que caíram por julgamento divino. e) As cartas às sete Igrejas não falam sobre circunstâncias da época, mas predizem perigos futuros para aquelas comunidades. 2. Ainda sobre o Apocalipse, correlacione as colunas: Setenárias Cordeiro Dragão 90-100 d.C. 1 2 3 4 a) Imagem utilizada para descrever Satanás no Livro de Apocalipse. b) Animal utilizado para representar Cristo. c) Série de sete acontecimentos que são bem presentes no texto do Apocalipse. d) Provável data da escrita de Apocalipse. 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 Página 180 de 183 3. Sobre o gênero literário de Apocalipse, preencha as lacunas com: Presente / Apocalíptico / Culto ao Imperador / Profeta / Köester Para a maioria dos estudiosos, o Apocalipse de João se enquadra no gênero digite a resposta , mas para outros, como digite a resposta , João era mais um digite a resposta do que um autor apocalíptico. Sua mensagem seria um apelo a compreender o tempo digite a resposta como o começo dos eventos apocalípticos �nais, que são desencadeados pelo confronto com o digite a resposta . 4. Ainda sobre Apocalipse, marque verdadeiro ou falso: a) Para alguns teólogos, o grego em que Apocalipse foi escrito se trata de uma escolha feita pelo autor, pois este queria dar um aspecto arcaizante para o texto. b) O simbolismo usado em Apocalipse foi retirado do Antigo Testamento. c) Em Apocalipse, as descrições das imagens vêm acompanhadas de descrições dos sons escutados pelo autor, com estas reinterpretando as primeiras. d) João profetiza que Nero retornará dos mortos e governará novamente em Apocalipse 13. 5. Discorra sobre a cristologia apresentada no Livro de Apocalipse. Notas Domiciano1 Imperador que reinou de 80 a 96 d.C. Página 181 de 183 Fonte: cleofas <https://cleofas.com.br/qual-imperador-romano- comecou-a-segunda-perseguicao-aos-cristaos-no-primeiro-seculo/> Ilha de Patmos2 O autor de Apocalipse foi exilado nessa ilha, e nesse período teve as visões que são relatadas no Livro, por volta de 100 d.C. Referências BROWN, R.E. Introdução ao Novo Testamento. 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