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A QUÍMICA DO DIA A DIA
 
Copyright © 2018 by Damião Boreti Carvalhal
 
Todos os direitos reservados
 
Projeto Gráfico
 
Damião Boreti Carvalhal
 
Capa
 
Clauton Santiago
 
 
Impresso no Brasil
 
Printed in Brazil
 
DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO AO CLUBE DE AUTORES
 
www.clubedeautores.com.br
 
AGRADECIMENTOS
 
Primeiramente a Deus, por permitir que eu tenha tido tempo disponível para
conseguir concluir este livro, que era um desejo latente desde pelo menos,
cinco anos atrás. Agradeço também a Damiana, minha companheira de longa
data, que me apoiou de forma incondicional desde o primeiro momento da
ideia da confecção deste livro, inclusive, me ajudando e revisando os erros
que eu ia cometendo no caminho, mesmo que alguns ainda assim, possam ter
passado de forma desapercebida, e também a minha mãe Creuza e ao meu
irmão Cosme que sempre me apoiaram e me moldaram no ser humano que
sou hoje.
 
SUMÁRIO.
 
Conteúdo
 
pH. 15
 
ÁLCOOL. 28
 
BOLOS. 38
 
CÁRIES. 50
 
GORDURA TRANS. 58
 
PÃO. 66
 
PILHA. 72
 
PLÁSTICO. 81
 
REFRIGERANTES. 92
 
SAL DE FRUTAS. 99
 
TRATAMENTO DE ÁGUA. 104
 
USINA NUCLEAR. 115
 
REFRESCOS. 125
 
MORTE. 132
 
ÁCIDO ACETILSALICÍLICO. 141
 
CHUMBINHO. 148
 
ADOÇANTE. 155
 
CIMENTO. 164
 
FOGOS DE ARTIFÍCIOS. 168
 
SÓDIO, FLÚOR, CLORO E AFINS. 173
 
PALITO DE FÓSFORO. 182
 
AMÔNIA E A REVOLUÇÃO VERDE. 188
 
FÍGADO........................................................ 195
 
CONCLUSÃO. 200
 
PREFÁCIO
 
Caro Leitor, espero que você não goste de Química! Assim, você será prova
viva do poder transformador dessa obra intitulada “A Química do dia a dia”
que tenho o prazer de prefaciar!
 
Falar sobre Química é sempre um desafio. Entretanto, o jovem autor Damião
Carvalhal conseguiu apresentar um texto cativante, que aborda vários
aspectos desta Ciência em nosso cotidiano.
 
Lúdico, direto e atual, esse livro merece toda a atenção dos educadores
empenhados em transformar o ensino da Química em algo prazeroso e
atraente para as novas gerações.
 
Boa leitura!
 
Fernando Gomes
 
Professor Associado IMA/UFRJ
Laboratório de Biopolímeros e Sensores / LaBioS
 
Se a introdução ao ensino da Química fosse realizada com exemplos práticos
comuns em uso no dia a dia, talvez esta disciplina, assim como todas as
outras da área de ciências exatas fossem mais palatáveis, de aceitação mais
fácil. Cálculos de pH, diagrama de Pauling e números de oxidação são
tópicos inseridos sem o mínimo cuidado no sentido de evitar um desinteresse
prematuro pelo assunto. Isso acaba influenciando em uma baixa contribuição
do Brasil na área de ciências. Poucas pessoas dispõem-se a se aprofundar, se
aperfeiçoar nesta área de ciências, acreditando que seja um setor de
conhecimento inacessível justamente por ser introduzido de forma tão crua.
Aplicações da Química no dia a dia são tão frequentes que o simples fato de
percebê-la já torna a tarefa seguinte de aprender o porquê muito mais fácil.
Aprendendo e questionando forma conhecimento que gera mais
questionamento e, por conseguinte, mais conhecimento, e, como parafraseou
Oliver Wendell Holmes: “- Uma mente que se abre a uma nova ideia, jamais
retorna ao seu tamanho original.” Não, a frase não é de Albert Einstein como
você já deve ter visto inúmeras vezes na internet. Ele se estivesse vivo,
provavelmente citaria algo parecido com “- Eu não falei nem a metade das
coisas que supostamente dizem que eu falei.” Viu? Essa é a importância de
questionar.
 
"Se enxerguei mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes."
 
(Isaac Newton)
 
DAMIÃO BORETI CARVALHAL
 
A QUÍMICA DO DIA A DIA
 
Um pequeno manual prático sobre alguns porquês da Química
para você, com você e em torno de você.
 
1° EDIÇÃO
 
Magé
 
2018
 
APRESENTAÇÃO
 
Desde a nossa mais tenra idade escutamos: “-Não come isso porque está
cheio de Química.”; ou mesmo: “-Isso não é natural, é Química braba.”.
 
Desde o princípio somos levados automaticamente a acreditar que a Química
será sempre algo não natural e nocivo, quando na verdade, ela faz parte do
nosso dia a dia sem que sequer nos demos conta disso. Respiramos,
comemos, digerimos e excretamos diariamente utilizando para isso, vários
processos químicos e físicos. Até para enxergar estes pequenos caracteres
nesse texto, utilizamos várias reações Químicas utilizando processos, que
apesar de complexos para a proposta no qual este livro se dispõem, que é o
de demonstrar as ocorrências de processos químicos de entendimento mais
simples no dia a dia, ainda assim fazem parte do cotidiano.
 
Um copo de água, por mais simples que possa parecer, passa por processos
de tratamentos diversos até o destino final na torneira de nossas casas,
culminando com a adição de Cloro (na forma de cloreto) e Flúor (na forma
de fluoreto) que entram na história por vários motivos – alguns controversos
(alguns estudos associam a presença de Flúor na água como causador de
autismo), mas que no final das contas, ajudam a diminuir a incidência de
algumas doenças, como a cárie (sim, a cárie é uma doença!), além de
também prevenir a proliferação de muitas outras.
 
Outro exemplo é a simples preparação de uma refeição que requer o uso de
fogo. Pela cocção, o alimento sofre degradação, sendo assim, transformado
em algo de mastigação e digestão mais fáceis. No processo de cozimento
ocorre uma reação conhecida como reação de Maillard, onde aminoácidos,
proteínas e carboidratos reagem entre si e conferem o aspecto dourado de
determinados alimentos. Outro exemplo? O preparo de um bolo, ou um pão
onde através do fermento, ocorre a liberação de gás carbônico para a
formação das cavidades que você observa na massa, fazendo assim, com que
fiquem mais macios. Cada qual em mecanismos diferentes – o bolo através
de reação do Bicarbonato de Sódio e um sal ácido presente em sua
formulação, que na presença de água libera o gás carbônico (o calor do forno
acelera a reação). O pão através do consumo de glicose por um micro-
organismo que a consome e libera o mesmo gás carbônico (por isso que em
receitas onde leva o fermento biológico, sempre tem a adição de um
punhado de açúcar – para “alimentar” vamos assim dizer, a levedura). Meios
diferentes para a mesma finalidade: Produzir o tal gás, o mesmo que nós
também produzimos e eliminamos através da nossa respiração.
 
Alimentamo-nos e aí começa todo o processo digestivo. Por mais “natureba”
que seja a sua alimentação, as etapas não diferem muito das de uma pessoa
que se alimenta na maior parte do dia com “junk-food”. O alimento vai ser
umedecido com a saliva, atravessar o esôfago e parar no estômago onde toda
a magia ocorre: degradação com ácido clorídrico, em maior quantidade, com
uma quantidade mínima de ácido lático, para a absorção dos nutrientes pelo
intestino. Até aí, ocorreu uma mudança tremenda de pHs. Começa neutro na
saliva (a menos que você tenha câncer no aparelho digestivo, que pode fazer
com que a saliva apresente um pH ácido), passa a ficar ácido no estômago
(tão ácido que até pouco tempo, imaginava-se que nenhum organismo
pudesse sobreviver nesse ambiente. Infelizmente, o Helicobacter pylori –
bactéria que causa a úlcera mostrou que estávamos errados...) e finalmente,
fica básico (com pH alto) no intestino, onde a presença de enzimas que
requerem um pH mais alto para realizar suas funções acabam por terminar o
ciclo químico em nossos corpos.
 
Até no banho, ocorre essa variação de pHs. A pele é levemente ácida.
Tomamos banhos com sabonetes que são na maioria das vezes, básicos. Por
isso que algumas propagandas enfatizam o tal sabão neutro, justamente para
evitar essa variação brusca que deixa a pele sem seus mecanismos de
proteção durante um determinado tempo (ela volta ficar levemente ácida um
tempo depois, não se preocupe).
 
A genitália feminina possui pH ácido para barrar a entradade micro-
organismos nocivos a seu sistema. O sêmen possui caráter básico justamente
para sobreviver a esse ambiente ácido e vencer a corrida para a concepção
(inclusive, ele possui em sua composição a presença de duas aminas
chamadas putrescina e cadaverina que lhe conferem o odor característico,
que são as mesmas aminas encontradas em um cadáver em decomposição).
Até mesmo depois de morrer, não paramos de produzir processos químicos.
 
A Química ocorre no dia a dia de forma tão corriqueira, que nem nos damos
conta disso. Não tem como negar que às vezes, ela é bem nociva mesmo,
mas daí, atribuir a ela toda essa má fama seria injusto.
 
Veremos nesses capítulos, diversas histórias de vários usos durante variadas
épocas (várias mesmos, pois há inúmeros usos conhecidos dela por diversas
civilizações ao longo dos tempos).
 
Lidavam com ela e nem sequer sabiam seu nome ao certo. Alguns chegaram
a chamar de Alquimia, mas o termo foi acabou sendo abandonado, pois as
práticas envolviam crenças místicas que acreditavam fazer parte dos
processos. Até hoje, quando não conseguimos explicar determinado evento,
creditamos a crenças. Com a Química, no início também não foi diferente.
 
Depois disso, após tomar conhecimento dos fatos citados neste livro, pode
culpar ou não, a Química.
 
A Química assusta. Desde que somos apresentados a ela no ensino médio, no
primeiro instante, com suas fórmulas e números, com seus desenhos de
estruturas e mais números. Neste livro tentei evitar o uso de fórmulas
estruturais por entender que para um leigo, elas mais atrapalham e
distanciam do entendimento do que propriamente ilustra e ensina. Assusta,
eu reconheço. E o assombro é proporcional ao tamanho da estrutura. Quanto
maior, maior é a rejeição a tentar aprender. Uma imagem vale mais do que
mil palavras, eu sei, mas, se a imagem for objeto de espanto, assombro, é
melhor evitá-la. Que cada capítulo reforce a curiosidade de saber cada vez
mais sobre determinado assunto. Escolha um favorito e busque erros que eu
possa ter cometido. Instigue-se a ponto de não ficar somente nos tópicos
propostos pelo livro. Descubra outros porquês. Se ao final da leitura, uma
dúvida mínima ao menos tiver sido desfeita, o objetivo primordial do livro já
terá sido alcançado. Boa leitura!
pH.
 
"Nada na vida deve ser temido, somente compreendido. Agora é hora de
compreender mais para temer menos."
 
(Marie Curie –cientista polonesa e primeira mulher a ganhar um prêmio
Nobel, em 1903.)
 
Com certeza você já ouviu falar em escala de pH (com “p” minúsculo e “H”
maiúsculo mesmo). Em comerciais na TV que ressaltam o pH neutro do
xampu, detergente ou em sabonetes, entre vários outros produtos. Mas, ele
está presente em nossas vidas no dia a dia de formas que você nem imagina.
Utilizamos também esta escala para mensurar os diferentes equilíbrios
químicos que nosso corpo possui ou deveria possuir, além é claro, dos
diversos insumos que fazem parte do uso diário de todos nós, seja ele como
alimento ou mesmo como material de limpeza, por exemplo. Nosso corpo
funciona como uma fábrica, com enorme diversidade de ambientes, cada
um com sua particularidade e cada um, às vezes, completamente diferente
um do outro. É magnífico como essa fábrica se comporta, com tudo
funcionando como uma engrenagem de um relógio perfeito. Para uma
compreensão melhor dessa diversidade, precisamos ter uma noção básica a
respeito dessa tal escala de pH. O assunto é amplo e um pouco extenso, mas
cortando a parte toda de cálculos matemáticos que é maçante, reconheço, e
mesmo desnecessário para o nosso entendimento, fica mais fácil.
 
A escala foi criada no começo de 1900 para facilitar o controle em
processos industriais para diferenciar o que era ácido (o que conhecemos
como azedo, apesar de nem todo ácido poder ser levado à boca, a grande
maioria, para falar a verdade) do que era alcalino, básico (que assim como
os ácidos, a grande maioria também não deve ser levado à boca). Dessa
forma, ficava mais fácil saber só de conhecer o pH, se a substância era
ácida, neutra (o meio da escala) ou básica.
 
Por padrão, a escala começa em zero onde estão as substâncias
extremamente ácidas, sobe até 7 onde estão as substâncias neutras e
continua de forma crescente até chegar a 14, o topo da escala, onde estão as
substâncias básicas. Existem alguns poucos casos onde o pH de tão ácido
pode chegar a um valor negativo, mas ocorre de forma e ocasião tão rara
que não consideraremos neste estudo. No caminho inverso, temos também a
escala de pOH, que é o inverso a de pH, dando ênfase ao OH- ao invés do
H+ que utilizamos como base para a escala da qual falamos. Como seu uso
é pouco difundido fora do mundo da Química, vamos simplesmente ignorá-
la.
 
Apesar de várias histórias a respeito da origem no nome, pode se considerar
como o “p” para potencial e “H” para hidrogeniônico como o mais aceito.
Potencial hidrogeniônico diz respeito à quantidade de íons H+ que
encontramos em uma determinada substância. Os valores de H+ estão
sempre em equilíbrio com os íons de OH-. Quanto maior a concentração de
H+, menor será a de OH-. Íons H+ são as espécies presentes em um meio
ácido, o que quer dizer que quanto maior a concentração desses íons, maior
a acidez e seguindo a escala, menor será o pH. A obtenção dos valores
matemáticos é realizada utilizando uma escala logarítmica, o que significa
que um pH de valor 1 será 10 vezes mais ácido que o de valor 2 que será
100 vezes mais ácido que o de valor 3 e assim por diante. Isso significa que
uma substância de pH 1 será um milhão de vezes mais ácido que uma com
pH 6! Conforme a escala vai subindo, os valores vão ficando menos ácidos,
passando por neutro e chegando a básico, onde a concentração de íons H+
vão diminuindo e, consequentemente, a concentração de íons OH- vai
aumentando. Podemos portanto, associar os íons H+ com ácidos e íons OH-
com básicos.
 
Começando do 0 da escala, temos como exemplo comum no dia a dia, a
solução que fica no interior de uma bateria de carro. Essa solução é
composta de ácido sulfúrico em concentração de mais ou menos 35% de
ácido para 65% de água. É forte o suficiente para degradar matéria
orgânica. Esse é um bom motivo para escolher baterias seladas onde você
não precisará abrir a mesma para realizar a sua manutenção. O simples
vapor que é liberado ao abrir uma bateria é suficiente para observar alguns
orifícios que surgem na roupa de quem realiza a sua abertura, provocada
pela ação corrosiva do gás ácido liberado. Esse ácido também está presente
na composição da chuva ácida, que ocorre em locais com poluição
ambiental acentuada. Existem vários ácidos que vão apresentar pH
parecido. Várias tabelas são encontradas na internet. Alguns conteúdos
variam de uma para outra, já que apresentam alguns exemplos, sem citar a
concentração da solução que é o que regularia uma lista absoluta. Em geral,
soluções concentradas de ácidos fortes apresentam uma faixa próxima a 0.
Uma solução de ácido forte, como o ácido clorídrico, por exemplo, que é
um dos ácidos que compõem o suco gástrico do estômago, necessário para
quebrar as moléculas dos alimentos e torná-los possíveis de serem
absorvidos pelo intestino tem pH próximo a 1, ou seja, 10 vezes menos
ácido que a solução de bateria. Apesar de ser composto por ácido clorídrico,
um ácido igualmente forte, a concentração dele no suco gástrico é bem
menor, mas, ainda sim, bastante ácida. Um caso interessante é que até a
algum tempo atrás, era consenso na área médica que nenhum organismo
conseguiria sobreviver em um ambiente com pH tão ácido quanto o
estômago. Em estudo realizado em 1979, dois médicos australianos, Barry
Marshall e Robin Warren, provaram que bactérias do tipo Helicobacter
pylori eram responsáveis por lesões na mucosa gástrica que provocavam
gastrite e eram tratáveis apenas com o uso de antibióticos. Após Marshall
ingerir propositalmente uma solução repleta de culturas da bactéria e
realizar nele mesmo o procedimento proposto para tratamento, ele
conseguir provarseu ponto de vista. Após publicarem o estudo em 1984,
vieram a ganhar um prêmio Nobel de Medicina pelo feito em 2005.
 
Com pH próximo a 2 temos como exemplo, o caldo de limão que é
composto na maior parte por ácido cítrico e em menor quantidade, ácido
ascórbico, que você já deve ter ouvido falar, conhecido pelo seu apelido
usual de vitamina C. Com faixa de pH aproximado temos uma solução bem
diluída de ácido acético que utilizamos no dia a dia na cozinha e
conhecemos pelo nome de vinagre. Esse ácido é um ácido orgânico, o que
quer dizer na Química que é um ácido bem mais fraco do que o sulfúrico e
o clorídrico, que são o top de acidez. Ele é formando quando se oxida o
vinho. Você pode observar esse efeito em uma garrafa de vinho que esteja
quase vazia. Sempre sobra um pouco. Esse pouco que fica, mesmo com a
garrafa fechada, oxida devido à presença de Oxigênio residual, vindo a
fermentar e se transformar em ácido acético. Diluído vira o vinagre.
 
No intervalo entre 2 e o 3, temos o refrigerante. Você pode se perguntar
como pode se ele é tão doce, quando na verdade, deveria ser tão azedo
quanto o vinagre. O segredo é o açúcar. O vinagre tem uma concentração
muito baixa de ácido acético (cerca de 4 a 6% do volume apenas é ácido. O
resto é água). O refrigerante tem uma concentração bem pequena também,
já que cerca de 88 a 90% desta bebida é água. O restante se divide entre os
outros tantos compostos presentes na fórmula desde extratos para sabores,
sal, conservantes e açúcar, muito açúcar. Isso mascara o gosto de azedo e
salgado que o refrigerante deveria ter. Esse meio ácido conserva os demais
ingredientes da fórmula e o açúcar esconde a prova do “crime”.
 
Como exemplo de pH 3 temos o suco de laranja, de uva e até alguns
refrigerantes menos ácidos que podem apresentar essa média. Como foi
dito, suco de fruta pode variar de uma fruta para outra. Algumas podem ser
mais azedas, menos azedas, portanto, vão ficar com pH por volta de 3 a 3,5.
 
Na faixa de pH 4, temos como exemplo suco de tomate. O suco puro
apresenta certa acidez, por isso é classificado nessa faixa. Os extratos
industrializados não apresentam um sabor tão azedo ao consumirmos
devido a adição de açúcar em sua formulação para camuflar o azedume do
sabor.
 
Em uma faixa intermediária, a cerveja, que pode apresentar em torno de 4,5
o seu pH. Ela possui esse caráter levemente ácido pelo mesmo motivo do
refrigerante: conservação. Não apresenta sabor ligeiramente azedo por
causa de entre outros ingredientes, o lúpulo que com amargor acentuado
anula o gosto azedo que ela poderia apresentar, conferindo o sabor amargo,
característico da bebida.
 
O café apresenta pH de valor 5 ou próximo disto. Tem acidez considerável
devido à presença do ácido Clorogênico em concentração que varia entre 7
a 10%. Por ser um ácido orgânico, possui acidez relativa não tão alta, e, por
causa disso, o café não é tão ácido. Na maior parte das vezes, a dor no
estômago que pode ocorrer pelo consumo exagerado de café se dá mais por
causa da cafeína, que está em quantidade bem menor que o ácido
Clorogênico. A cafeína irrita a mucosa gástrica ocasionando desconforto e
até mesmo, em alguns casos, dor abdominal.
 
A saliva humana pode possuir valores baixos de pH se a pessoa apresentar
alguma patologia, como câncer no trato digestivo, por exemplo, com valor
próximo a 5 a 5,7. A chuva ácida é outro exemplo de pH na mesma faixa e
pode apresentar valores intermediários na escala, indo de 5,5 a 6.
 
A urina e o leite (apesar de ser estranho citar os dois juntos) possuem valor
de pH próximo a 6. O ácido que contribui para acidez do leite é o ácido
lático que está presente em quantidade bem pequena, sendo este ácido
utilizado inclusive, como componente em formulações de sabonetes
íntimos, já que preserva o ambiente levemente ácido da genitália feminina.
Voltando ao leite, à medida que ele fermenta e azeda, mais ácido lático é
produzido e, com isso, o pH do leite azedo é consequentemente menor. Esse
ácido lático é o mesmo que o nosso corpo produz quando fazemos atividade
física em intervalos maiores do que o tempo que o organismo leva para
produzir energia. Como resultado dessa produção, às vezes ocorre acúmulo
desse ácido nos músculos, o que faz com que ocorra sensação de queimação
nos locais do corpo onde esse esforço extra foi exigido.
 
A urina possui uma certa quantidade de ácido úrico dissolvido, mas quando
ocorre uma queda do valor do pH dela, a solubilidade deste ácido na urina
diminui, o que acarreta a formação de cálculos. O ácido úrico insolúvel
forma cristais alaranjados que são expelidos ou não através do ato de urinar.
Quando se tornam grandes demais para serem excretados pelo trato urinário
são removidos somente através de ato cirúrgico. Uma urina com pH
próximo a 5,5 já é suficiente para iniciar a formação desses cálculos.
 
No intervalo entre pH 6 e 7, temos a saliva humana de uma pessoal
saudável. A saliva funciona como uma solução tampão, assim como o
sangue. Em Química, definimos como solução tampão uma solução que
mantém o pH de forma constante, mesmo com a adição de elementos de
caráter ácido ou alcalino nela em quantidades toleráveis, claro. Esse tipo de
solução é importante, pois possibilita que o balanço natural do corpo seja
mantido. Homeostase é a palavra que define esse equilíbrio perfeito das
condições para o corpo realizar sua gama de tarefas. No caso da saliva, em
meio relativamente neutro, ocorre ainda que em quantidade relativamente
baixa, uma troca entre a saliva e o esmalte dentário de sais minerais que
formam a estrutura dos dentes, já que esses sais são solúveis na saliva.
Acontece que depois da ingestão de alimentos, principalmente os ricos em
açúcar, após a fermentação por bactérias presentes na boca, essas dão
origem a ácidos que vão fazer com que a hidroxiapatita que é um mineral
que forma o esmalte dos dentes seja dissolvido, já que este sal é mais
solúvel em meio ácido. Os dentes vão se dissolvendo literalmente,
formando as famosas cavidades. Em contrapartida, um ambiente bucal com
pH alto, básico, colabora com a deposição desses sais sob a superfície dos
dentes, em cima do biofilme formado por bactérias presentes na boca, vindo
a ocorrer a formação do tártaro. Por isso a importância da escovação e fio
dental para ajudar a manter a saliva com caráter próximo ao neutro, já que
só fato do meio permanecer ácido por um curto intervalo de tempo já é o
suficiente para trazer danos aos dentes. O corpo faz esse equilíbrio
naturalmente. A demora que pode ocorrer entre uma mastigação e outra
sem a higiene adequada é que prejudica a integridade, podemos assim dizer,
dos dentes.
 
Outra solução tampão com faixa de pH próxima é o sangue humano. Com
pH aproximado de 7,4, podendo variar de 7,35 a 7,45, ou seja: uma faixa
bem estreita. Embora tenha uma certa difusão, ainda não existe nada
realmente comprovado a respeito de dietas que vão alterar o pH do sangue
para mais ou para menos. O corpo faz o balanço de forma natural de forma
que o que for ingerido não vai lá fazer algum efeito considerável no final
das contas. Qualquer desbalanceamento que possa ocorrer vem de alguma
possível patologia que leva à acidose ou alcalose que é respectivamente a
baixa e a alta da faixa de pH do sangue e que pode se tornar perigosa se
persistir por tempo prolongado, mas no exercício normal das suas funções,
o sangue apresenta mesmo um valor constante.
 
A água presente em um curso de água, ou em uma garrafa de água mineral,
mesmo sendo limpa, própria para consumo não apresenta pH neutro de 7.
Quimicamente não podemos sequer dizer que ela é pura, já que dissolvido
nela estão diversos sais minerais provenientes de metais que chamamos na
tabela periódica (o mapa-múndi do químico) de metais alcalinos, como
Sódio e Potássio, e alcalino-terrosos como o Cálcio e o Magnésio. Com
essa classificação, não teria como a água estar neutra. Como o próprio
nome diz, esses metais alcalinos e alcalino-terrosos aumentam o pH da
água, fazendo com que elafique com valor em torno de 7,5. A água
quimicamente pura, seria aquela destilada em laboratório onde seria
aquecida, transformada em vapor e resfriada em outro recipiente, passando
portanto, por um processo de destilação. Desta forma ela fica livre de
quaisquer sais minerais que possam estar dissolvido nela. Assim, este tipo
de água tratada possui pH 7. Isso quer dizer que os íons H+ e OH- estão em
perfeita igualdade e equilíbrio. Esses dois íons formam a fórmula Química
da água: H2O, percebeu?
 
Após a ingestão de alimentos, estes ficam um breve intervalo de tempo no
estômago, onde depois são direcionados ao intestino que fará o trabalho de
digestão e absorção dos nutrientes ingeridos. Na forma de quimo, que é o
nome que damos ao conjunto formado pelos alimentos em meio ácido com
ácido clorídrico, ácido lático, suco gástrico e com a enzima pepsina, o que
confere a ele o desagradável aspecto de uma massa pastosa, este conjunto é
então direcionado ao intestino delgado. Esse quimo possui pH
extremamente ácido com algo próximo de 2. Após a saída do estômago, em
direção ao duodeno, a primeira seção do intestino delgado onde não é mais
necessário um pH tão ácido, ele é bombardeado com suco pancreático e bile
com a função de elevar o pH para 8, onde as enzimas farão a absorção dos
nutrientes presentes. Essas enzimas dependem de um ambiente alcalino
para atuarem, além do que, se o quimo não recebesse esse tratamento para
alcalinizar, atacaria a mucosa intestinal de forma severa, já que ela possui
uma estrutura bem mais frágil do que em comparação com a do estômago,
capaz de suportar a carga ácida que lhe é imposta. Esse suco pancreático
possui pH alcalino, algo em torno de 8,5. Somente desta forma ele consegue
neutralizar e alcalinizar algo tão ácido quanto o quimo.
 
A água do mar, devido a sua salinidade, isto é, devido à sua considerável
quantidade de sais dissolvidos, possui pH próximo de 8. Como já foi dito,
não são valores absolutos, já que sempre vai apresentar concentrações
diferentes. Os sais dissolvidos na água (sais de Flúor, Cálcio, Sódio,
Potássio, Magnésio, sulfatos e carbonatos, entre outros) elevam o pH. Pode
se tomar como, por exemplo, a água do mar presente no Golfo da Finlândia
que possui cerca de 1 grama de sais dissolvidos em 1 quilo de água.
Compare com a água do mar presente no mar de Aral, entre o Uzbequistão
e o Cazaquistão com suas 348 gramas de sais por quilo de água. Por isso, é
difícil que mesmo apesar de, ser de forma genérica, água do mar, apresentar
o mesmo pH.
 
Com pH próximo de 9 temos como exemplo clássico, que você vai
encontrar em muitas tabelas: a pasta de dentes. Entre os vários ingredientes
que a composição de um dentifrício pode apresentar, embora com
compostos diferentes, vão na maioria das vezes, possuir uma formulação
que permitirá que esteja sempre nesta faixa de pH. Sempre terá um
detergente, normalmente um sabão neutro, como o que usamos para lavar
louças em casa. Ele é o agente espumante. Um carbonato para funcionar
como agente de abrasão e polimento, para auxiliar na remoção mecânica do
biofilme que as bactérias formam em torno do dente. O sabão ajuda a fazer
esse arraste pela água. A glicerina entra para não deixar a pasta endurecer
dentro do tubo, funcionando como umectante, mantendo a pasta úmida por
mais tempo. Entra também na composição Sorbitol, um adoçante, que
possui sabor adocicado e ao contrário do açúcar, não favorece a proliferação
da cárie, até porque seria meio ilógico adicionar açúcar em um produto
criado justamente para combater os efeitos causados por ela. Fluoreto é
adicionado para liberar o Flúor nos dentes. É feita também a adição de
Bicarbonato de Sódio que é um sal que é oriundo da reação de uma base
forte (hidróxido de Sódio, a soda cáustica) com um ácido fraco (ácido
carbônico), tendo no final caráter básico. Ele reage com a saliva,
neutralizando qualquer ácido residual que tenha porventura sobrado, sendo,
portanto, o principal responsável pelo pH relativamente alto da pasta de
dente. O pH relativamente alto da pasta de dentes é suficiente para
neutralizar qualquer possível acidez que possa haver na boca após a
fermentação de alimentos em meio a bactérias presentes.
 
Com pH 10 temos o antigamente conhecido, hoje nem tanto, Hidróxido de
Magnésio ou leite de Magnésio. Era o tipo de produto que quase toda casa
tinha. Utilizado como antiácido (por ter pH relativamente alto, reage com o
ácido clorídrico do suco gástrico, neutralizando-o. Mais a respeito sobre
esse mecanismo, pode ser encontrado no capítulo sobre o sal de frutas),
desodorante para axilas (pelo mesmo motivo do pH alto, neutraliza o meio
ácido onde micro-organismos agem, não possibilitando sua ação e
proliferação), solução limpante para o rosto (reage com a gordura
proveniente da pele, tornando-a solúvel em água, possibilitando a sua
remoção por arraste) e mesmo como medicamento para a prisão de ventre
(reage com o ácido clorídrico presente no estômago da mesma forma como
quando é ingerido para diminuir ou eliminar os sintomas da azia, mas nesse
caso, ingere-se em excesso, já que o cloreto de Magnésio que é formado
após a reação com o ácido clorídrico tem uma propriedade chamada
deliquescência, que é a capacidade de absorver muita umidade do ambiente
onde se encontra, dessa forma, lubrifica o intestino em excesso provocando
a diarreia).
 
A partir daí, escala à cima, com pH de 11 em diante, os exemplos
conhecidos serão majoritariamente relacionados a produtos de limpeza,
principalmente os de limpeza mais pesada, onde, inclusive, é recomendável
o uso de luvas para manuseá-los. Pegue como exemplo uma solução de
Hidróxido de Amônia, conhecido como amoníaco, muito utilizado como
limpador de azulejos e pisos de banheiro em geral. Outra solução de
limpeza com faixa de pH bem próximo a 12 é a do hipoclorito de Sódio,
que é usualmente empregado para alvejamento de peças de roupas brancas
ou de cor mais clara. Conhecido simplesmente como Cloro, o que é uma
inverdade, já que o Cloro em si, é um gás altamente tóxico, utilizado
inclusive, como arma Química na época da Primeira Guerra Mundial entre
1914-1918 pelas tropas alemãs, e como gás que é, fica praticamente
impossível manuseá-lo em meio caseiro.
 
Acontece que durante a execução de limpezas pesadas, a dona ou o dono de
casa, as vezes deixam aflorar o seu lado químico, misturando os vários
produtos de limpeza disponíveis a fim de potencializar as propriedades de
um ou de outro. Quando ocorre a mistura de amoníaco com o hipoclorito
ocorrem várias reações Químicas entre eles. Uma inicial que gera dois
produtos: o hidróxido de Sódio ou soda cáustica que é uma base forte e
corrosiva que faz estragos quando em contato com a pele. O pH de uma
solução dessa base pode chegar ao pH 14, o mais alto da escala! Gera
também cloramina, que é responsável pelo cheiro de Cloro que aparece em
piscinas quando o Cloro reage com matéria orgânica (sujeiras) e ureia
proveniente de suor ou urina. Essa cloramina continua reagindo com
hipoclorito de Sódio gerando mais soda cáustica e mais cloramina, que no
estágio final das reações, gera Tricloreto de Nitrogênio que além de ser
extremamente irritante para os olhos e os pulmões, sendo inclusive,
utilizado como componente para gás lacrimogêneo, ainda é altamente
explosivo a ponto do coitado que teve a infelicidade de descobri-lo entre
1812 e 1813, ter ficado sem dois dedos e um olho como prêmio pela
descoberta. Portanto, é melhor evitar esse tipo de mistura em casa. Ou usa
um ou usa outro. E em separado. Esse seria, sem dúvida, o conselho de
Pierre Louis Dulong (o francês, infeliz descobridor do Tricloreto de
Nitrogênio).
 
Chegando ao topo da escala, limpadores de forno clássicos no mercado são
basicamente uma solução de soda cáustica, e, mesmo com baixa
concentração, atingem pH 13. Para se ter uma ideia, com apenas 4 gramas
do Hidróxido de Sódio para 1 litro de água já se alcança esse pH. A soda
cáustica possui aplicações em uma faixa muito grande de variedades, que
vai desdeindústrias Químicas, de papel, biodiesel e até alimentos (sim!
Alimentos! Existe um prato típico na Finlândia que é preparado com um
peixe, quase sempre um bacalhau, embebido em soda cáustica por alguns
dias onde sua proteína é degradada, formando um gel, muito apreciado para
ser consumido em países frios, já que peixes gordurosos são uma excelente
forma de obter energia). Aumentando ainda que muito pouco a quantidade
de NaOH (a forma como representamos o hidróxido de Sódio na Química),
dissolvido na água, obtém se pH 14 facilmente. Utilizamos essa base
também em produtos para limpeza de fornos, onde a gordura incrustada no
metal e submetida a altas temperaturas forma uma camada de difícil
remoção por métodos com sabões convencionais. A soda reage fortemente
com as gorduras presentes, formando uma espécie de sabão, que se
solubiliza na água, tornando mais fácil sua remoção. Não sem antes você ler
uma série de recomendações no rótulo: use luvas, óculos, fones, máscaras,
capa, escudo, a rainha da Inglaterra, etc. Mas falando sério, uma gota de um
produto deste no olho, por exemplo, já é o suficiente para transformá-lo em
um modelo caricato de pirata (com direito a tapa-olhos e tudo!), portanto,
por que se arriscar?
 
Conhecer o mínimo básico a respeito dessa escala já é o suficiente para
entender a maior parte dos conceitos apresentados neste livro. Não dá para
dizer que você tenha se tornado um especialista em pH, mas tenho certeza
que já sabe mais a respeito disso do que antes de ler o capítulo. Já é alguma
coisa…
ÁLCOOL.
 
"O álcool não faz as pessoas fazerem melhores as coisas; ele faz com que
elas fiquem menos envergonhadas de fazê-las mal"
 
(William Osler – médico canadense.)
 
Apesar de ser tão conhecido mundo afora, o álcool é o que na Química
Orgânica chamamos a função onde há a presença de, pelo menos, um
grupamento hidroxila (OH) – quando ocorre a presença de um átomo de
Oxigênio ligado a um átomo de Hidrogênio na extremidade de uma cadeia
de átomos de Carbono.
 
Existem diversos tipos de álcoois presentes no nosso dia a dia, sendo
notadamente o mais conhecido, o álcool ou como conhecemos na Química,
etanol.
 
É convencional na Química chamar os álcoois com nomes que terminam
em “–ol”. Além do etanol, que é o álcool mais comum no cotidiano, temos
a glicerina ou glicerol que é usado em sabonetes, cremes de cabelos e até
em alimentos na forma de umectante, conferindo o aspecto de molhado.
Etileno glicol que tem aplicação em líquidos de arrefecimento para carros e
muito, muitos outros tipos e usos que se fossemos listar, daria outro livro.
 
O próprio etanol possui tantas aplicações que fica até extenso citar. É
utilizado como combustível, bebida, perfumaria, solvente, reagente para
sínteses industriais, material de limpeza e antisséptico. Chega a ser
controverso quando ouvimos dizer que o álcool mata, por que ele também
ajuda a curar, fazendo parte de procedimentos de assepsia em ferimentos,
por exemplo. Na verdade, o que vai determinar o benefício ou o malefício
do álcool ou mesmo de alguma outra substância Química vai ser mesmo a
forma como fazemos uso desta, ou, como diz um antigo provérbio latino, o
que faz o veneno é a dose (ou a aplicação correta, neste caso).
 
O álcool tem um uso muito antigo por parte do homem, que desde muito
cedo descobriu que algumas frutas fermentadas produziam um líquido de
cheiro forte e irritante ao nariz. Esse líquido sequer era separado do meio
onde era fermentado, sendo consumido junto com o próprio meio
fermentativo mesmo. À medida que descobriam as propriedades do álcool
quando ingerido como bebida, cada povo dava seu jeito e se virava para
produzi-lo de acordo com a disponibilidade dos materiais que tinham
inicialmente, claro, produzindo de forma artesanal mesmo. Na China e na
Índia, usavam o arroz. Na Babilônia e na Grécia usavam o mel para
produzir o que eles chamavam de hidromel. Povos pré-colombianos
utilizavam milho, uva e maçã. Os índios brasileiros também não ficavam
atrás. Produziam bebidas a partir do milho e da mandioca. Existiam mais de
80 tipos diferentes de bebidas produzidas pelas várias tribos. Eram sem
dúvida, diversificados. Os brasileiros depois, utilizaram a cana-de-açúcar
para participar de forma efetiva nesta história. Sem falar também no álcool
produzido pela fermentação da uva que veio a ser produzido por vários
povos: o vinho. Atualmente, produzem álcool de uma variedade tão grande
de cereais que é cansativo ficar listando um por um. Até da batata-doce se
produz álcool. Nessa história de cada um se vira do jeito que pode para
confeccionar sua fonte de bebida alcoólica, até detentos do Carandiru,
famoso presídio de São Paulo onde ocorreu um massacre na década de 90
que virou até filme homônimo algum tempo depois, faziam seu próprio
destilado através da fermentação de arroz e açúcar com a adição de cascas
de frutas cítricas, cravo e café para aromatizar. A destilação era realizada
com uma serpentina resfriada pela água de um vaso sanitário. De fama
abastada no círculo da população carcerária, era chamada de Maria louca e
valia um bom dinheiro para quem quisesse (e pudesse pagar o preço, claro)
se embriagar com a iguaria.
 
Apesar de ser utilizado como combustível em mais de 40 países, somente
no Brasil é utilizado em motores 100% a álcool, além de 25 a 27%
misturado na gasolina. Nos outros países são utilizados proporções de no
máximo 10%, inclusive em países frio onde o álcool em temperaturas
abaixo de 13° C por ficar abaixo do seu ponto de fulgor (temperatura
mínima onde o combustível libera vapores suficientes para que com a
mistura do Oxigênio do ar forme uma mistura inflamável. Em outras
palavras: está frio o suficiente para o álcool não queimar). Por isso que nos
carros movidos a álcool e em motores flex é utilizado o sistema de partida a
frio, com gasolina para ligar o motor independente de qual combustível
estiver dentro do tanque.
 
Na perfumaria utiliza-se normalmente o álcool de cereais obtido a partir da
fermentação do milho, arroz ou soja. É utilizado como veículo para a
aplicação da essência de perfume, já que solubiliza bem os óleos essenciais
que compõem a formulação. Como é um líquido volátil, evapora ao ser
aplicado, carreando a essência no corpo.
 
Utiliza-se também como material de limpeza, dada a sua facilidade em
remover gorduras.
 
É utilizado como material antisséptico na proporção de 77° GL (diz-se
setenta graus GL – referência a Gay Lussac, químico francês que criou essa
escala onde é expressa a quantidade de álcool presente em uma solução. Por
exemplo, 70° GL quer dizer que a quantidade de álcool contida em 100
mililitros da solução é de 70 mililitros a 15° C), já que nessa proporção
consegue penetrar na parede celular de micro-organismos e desnaturar suas
proteínas. Em uma proporção acima disto, apenas desidrata a parede celular,
absorvendo a água presente e inativando-o temporariamente. Quando ocorre
uma posterior hidratação, o micro-organismo volta a sua atividade. Por isso
que não devemos usar álcool 96% para limpeza de ferimentos em geral.
 
O Brasil junto com os Estados Unidos respondem a mais de 80% da
produção mundial de etanol. O Brasil com a cana-de-açúcar como maior
parte de insumo, enquanto que, os americanos com o milho como matéria-
prima.
 
O primeiro pensamento é de que a cana-de-açúcar por ser mais volumosa,
gerando uma quantidade considerável de caldo vai render muito mais do
que o milho que quase não tem nada para se extrair, certo? Errado. O
rendimento de produção de etanol do milho x cana-de-açúcar é muito
superior. Para se ter uma ideia, uma tonelada bruta da cana rende em torno
de 90 litros de etanol, enquanto que o milho, com a mesma quantidade,
rende mais de quatro vezes, chegando a mais de 400 litros por tonelada. A
cana tem 50% menos açúcar do que o milho, já que a sua composição é
majoritariamente água, e, como é essa quantidade de açúcar presente no
meio que vai determinar a carga de etanol produzido, isso influencia
bastante. Em compensação,o processo que é utilizado com a cana é muito
mais curto. O caldo da cana fermenta com micro-organismos semelhantes
ao utilizado para fermentar uma massa de pão. Esse fungo é obtido
facilmente, e quebra de forma rápida as moléculas da glicose.
 
O açúcar presente inicialmente no caldo de cana é a sacarose – basicamente
uma molécula de glicose combinada com uma outra de frutose, que pela
presença da água é quebrada, em um processo chamado hidrólise que
separa estas duas moléculas, deixando a glicose pronta para servir de
banquete para o fungo que estará presente no meio fermentativo. Esse
processo de fermentação dura ao todo menos de 12 horas, o que é de longe
muito mais rápido do que o processo utilizado na fermentação do milho que
pode durar três dias! Isso se explica devido ao tamanho das moléculas de
amido que devem ser quebradas para gerar açúcar (neste caso, a glicose,
não se esqueça, até porque tecnicamente, sacarose, frutose e glicose são
todos açúcares também), para aí então começar a fermentar. Além de um
processo mais demorado, as enzimas utilizadas são de custo mais elevados,
em relação às Saccharomyces cerevisiae utilizadas para fermentar o caldo
de cana.
 
O espaço físico utilizado no cultivo das duas plantas também determina
qual será o mais vantajoso: enquanto que em um hectare (10.000 m2)
utilizado para cultivar cana-de-açúcar gera em torno de 80 a 90 toneladas da
espécie, o que gera em torno de 8.000 litros de etanol como produto, o
milho no mesmo espaço gera apenas cerca de 10 toneladas e, apesar do seu
alto rendimento, acaba gerando pouco mais de 4.500 litros por hectare.
 
Existem outras formas de se obter álcool além do método da fermentação
de cereais, apesar de não serem utilizados no Brasil, já que a
disponibilidade da cana-de-açúcar é muito alta, então, acaba não sendo
viável. Um deles é a hidratação do etileno, um gás que também está
presente em frutas, sendo liberado para provocar o amadurecimento delas.
É por isso que se tem o costume de embrulhar a banana, por exemplo, assim
como qualquer outro tipo de fruta, em jornais para forçar o
amadurecimento. Desta forma, o etileno liberado não se dissipa, ficando
concentrado e amadurecendo a fruta de forma mais rápida, pois o acetileno
(outra forma como nos referirmos ao etileno) liberado fica concentrado no
entorno da fruta. Em uso industrial, obtém-se o etileno a partir do petróleo.
Países onde a produção agrícola de cana-de-açúcar não é possível por causa
do clima (países de clima mais frio) ou a do milho não é viável pela
limitação de espaço para cultivo, obtém-se o etanol por esse processo. Cada
um se vira do jeito que pode. Tem também a produção de etanol através da
redução de acetaldeído (outro tipo de composto orgânico), que gera etileno
para depois hidratar para gerar álcool. Como o livro se trata da Química do
dia a dia voltado para o Brasil, não convém falar muito desses outros dois
métodos. Vamos focar mesmo na obtenção pela fermentação da cana-de-
açúcar.
 
Tudo começa na extração da cana-de-açúcar, claro. Mas, nem tudo vai ser
transformado em álcool. Uma parte da extração vai para a produção de
açúcar. Para cada tonelada colhida de cana-de-açúcar, se não forem
utilizados totalmente para produção de etanol, fracionando, pode chegar a
gerar cerca de 70 quilo de açúcar e 40 quilo de álcool. O processo inicial
para produção de álcool e açúcar não diferem em nada. A cana colhida é
direcionada para a usina onde sofrerá processamento. Antes de serem
trituradas para gerar o caldo que vai vir a fermentar (ou não, no caso do
açúcar), as varas de canas passam por um processo de limpeza para retirar
sujidades que podem estar presentes nas cascas. Para que não ocorra perda
de sacarose durante uma lavagem, atualmente é muito difundida a limpeza a
seco com jatos de ar para evitar essa perda. Ela segue nas esteiras passando
por facas em alta rotação que picam as varas de canas reduzindo-as ao
aspecto semelhante ao de uma palha molhada. Toda essa trituração visa
melhorar o rendimento da próxima etapa do processo, a moagem. Essa
palha é enviada para uma espécie de moenda onde será esmagada e terá seu
suco extraído. Após a passagem da palha por uma sequência de rolos da
moenda, ainda é adicionado água nos últimos estágios numa manobra
chamada de embebição que faz com que o rendimento de extração de
sacarose chegue a quase 100%. O resíduo dessa extração, o bagaço, é
separado e armazenado para ser utilizado como combustível nas caldeiras
de vapor gerando eletricidade para a própria usina de processamento,
aumentando o rendimento da cana-de-açúcar, já que por enquanto, até essa
parte do processo, quase não é gerado resíduo. Essa quantidade de bagaço
gerada pode chegar até a 300 dos 1000 quilos iniciais de cana-de-açúcar.
 
O caldo resultante agora é chamado de caldo misto. Nessa etapa ele é
separado proporcionalmente para a produção de açúcar e para fermentação
para geração do etanol. Nessa parte, o tratamento pelo qual o caldo misto
passa é bem parecido com o de tratamento de água. Este caldo passa por
uma filtração onde são retidas as impurezas maiores. Depois sofre um
tratamento químico que visa coagular e flocular qualquer contaminante que
possa estar solúvel no meio. O caldo é então aquecido a uma temperatura
acima de 100° C para diminuir a chance de alguma contaminação ainda
estar presente. É então submetido à decantação onde será separado o caldo,
agora chamado de caldo clarificado e o lodo que é como nos referimos a
parte que precipitou. Esse lodo passa pelo mesmo processo novamente, de
forma a extrair a sacarose residual, passando depois por prensa onde o
líquido passa sob pressão, deixando apenas a torta de filtro, que é a parte
sólida que resta após a prensagem e é direcionada para a lavoura onde vai
atuar como adubo, já que é rico em matéria orgânica e Nitrogênio, que é o
principal elemento presente em adubos. O material líquido proveniente
desta prensagem é acrescentado ao caldo clarificado. A maior parte do
processo é sustentável, quase nada se perde no processo até aqui durante o
percurso da cana-de-açúcar na usina.
 
Esse caldo é aquecido até chegar a 115° C onde ocorre evaporação. Com a
perda de água, esse caldo aumenta sua concentração para cerca de 20° Brix
(lê-se vinte graus brix – é uma escala utilizada para determinar a quantidade
de sacarose presente na solução. Quer dizer que para 100 partes da solução,
20 são de sacarose). Com esse aumento de temperatura o caldo clarificado é
praticamente esterilizado, já que qualquer tipo de bactéria ou outro micro-
organismo que possa competir na fermentação com o Saccharomyces
cerevisiae é eliminado. É adicionado também ao caldo, o melaço que é uma
substância viscosa residual do processo de produção do açúcar, muito
utilizado também para a produção de rum e cachaça. Nesse estágio adquire
um novo nome: mosto, que é então resfriado a 30° C e levado a espécies de
piscinas em forma de tacho chamados de dornas. O fermento é adicionado
ao mosto e levado à agitação e temperatura constante de 28 a 30° C, já que
temperaturas acima disso podem matar o micro-organismo e abaixo disso
tem baixo rendimento ou mesmo ficam inativas. Nessas condições, a
fermentação alcoólica tem início, com a ação dos micro-organismos, que
consomem a glicose presente no meio, e como resultado, gerando gás
carbônico e álcool. Essas dornas são fechadas e diversos controles são
realizados para acerto de processo. Além do controle de temperatura,
também é realizado o controle de vazão para liberação do gás carbônico
gerado, desta forma evitando a formação de pressão no interior do
recipiente. Durante cerca de 8 horas, o mosto é fermentado e então
chamado de vinho. Nessa etapa ele possui quase 10% de álcool em sua
composição. Dependendo do local onde é processado, esse vinho pode
passar por uma etapa de centrifugação onde as leveduras utilizadas podem
ser recuperadas, já que o processo seguinte é a destilação onde a alta
temperatura, com certeza, destruirá os micro-organismos que porventuraainda possam estar presentes neste vinho. Dessa maneira, grande parte das
leveduras utilizadas é reaproveitada para uso em um novo processo,
melhorando assim, ainda mais o rendimento da produção.
 
Com a separação das leveduras do vinho, ele é levado para a parte final de
processamento. Após a transferência para os tanques de destilação, o vinho
é aquecido até 78,4° C que é a temperatura do ponto de ebulição do etanol.
Nessa temperatura, o álcool evapora passando para o estado gasoso,
separando-se do restante do vinho. Esse vapor é direcionado para ser
resfriado em tubos onde a água circula em volta, resfriando-o e com isso,
fazendo com que este vapor retorne a forma líquida novamente em um
outro recipiente, separado do vinho. Esse destilado possui 95% de etanol.
Os 5% são formados por uma mistura de água e etanol que se comportam
como se fossem uma substância pura, como o etanol, no caso. Essa mistura
recebe o nome de azeótropo, que é como chamamos quando uma
determinada mistura se comporta como se fosse uma substância pura, com
ponto de ebulição constante e fixo. O álcool presente nesta fração não pode
ser separado por destilação, pois a mistura apresenta temperatura de ponto
de ebulição de 78,2° C. A proximidade dessa temperatura com a do etano
de 78,4° C é tão pequena que não há como separar por destilação. Por este
motivo, após esse processo, o etanol com concentração de 95% é acrescido
de óxido de Cálcio, a cal virgem. Esse óxido reage com a água residual
presente no álcool formando a cal hidratada, o hidróxido de Cálcio, que é
insolúvel no meio alcoólico precipitando na forma de grânulos brancos. O
rendimento final da reação proporciona um álcool de concentração de até
99,5%, o chamado álcool anidro.
 
A vinhaça ou vinhoto é um material pastoso de cheiro ruim, rico em
Potássio, que sobra após o aquecimento do vinho e separação do etanol por
destilação. Geralmente em uma proporção de 10 a 15 quilos de vinhaça por
litro de álcool destilado. Esse material é utilizado como carga em ração de
uso animal ou em fertilizantes para a própria lavoura de cana de açúcar,
para desta forma, evitar o descarte no meio ambiente, já que esse material
apresenta grande potencial poluidor se não tratado da maneira correta.
 
Assim como diversas outras substâncias químicas ao longo dos anos, o
álcool foi culpado de diversos tipos de enfermidades, acidentes e mortes,
fora os vexames que ele provocou em situações onde era consumido sem
moderação, entretanto, nos últimos anos seu consumo moderado foi
associado a, veja só você, uma melhora na diminuição dos índices de
doenças cardíacas. Tudo associado a um consumo relativamente moderado,
claro. Portanto, para se manter saudável siga o conselho presente em
comerciais na TV que advertem: aprecie com moderação.
BOLOS.
 
"Com papas e bolos, se enganam os tolos."
 
(Antigo provérbio português.)
 
Inicialmente a ideia era um capítulo conjunto chamado de pães e bolos, mas
como na verdade, não diferem somente no fermento que cada um usa, mas
também na enorme quantidade de insumos diferentes que podem ou não
entrar na composição de um bolo, assim como na composição de um pão,
por bem, ficou mais didático que cada um tivesse o seu capítulo em
separado.
 
O diferencial crucial entre um pão e um bolo está no tipo de fermentação
que é aplicado. Enquanto que no pão é utilizado o fermento biológico
(literalmente biológico, o troço está vivo!), no bolo é utilizado o fermento
químico que tem como ingrediente principal o Bicarbonato de Sódio.
Apesar das diferenças entre si, basicamente como resultado do processo
fermentativo, ocorre geração de gás carbônico, o CO2 que vai ajudar a
massa a se expandir antes e durante o cozimento.
 
O uso de Bicarbonato de Sódio vem desde a época do Egito antigo, quando
utilizavam um mineral conhecido como natrão que era encontrado no Vale
do mesmo nome que tinha na sua composição além de cloretos e sulfatos, o
bicarbonato. O uso inicial do sal não foi em confeitarias ou outra aplicação
para fins alimentícios. O natrão era utilizado para desidratar os cadáveres
submetidos ao processo de mumificação, já que o mineral possui também o
Carbonato de Cálcio que age como pó secante devido ao seu alto poder de
absorção de água. O Bicarbonato de Sódio ajudava aumentando o pH,
inibindo assim a ação de micro-organismos que decompõem o corpo em
condições normais. Existe um lago com o mesmo nome do mineral situado
na África, mais precisamente na Tanzânia, que possui uma quantidade tão
grande de natrão que os animais que morrem no seu entorno não sofrem
degradação, ficando como o corpo conservado como se tivessem sido
empalhados, com um aspecto no mínimo curioso. Os antigos egípcios
utilizavam também esse mineral no alvejamento de tecido, já que reagia
com a sujeira, solubilizando-a e tornando a remoção mais fácil. O uso dele
mesmo como fermento para confecção de bolos veio só em torno dos anos
de 1800. Antes disso, era costume utilizar como artifício para o crescimento
do bolo, bater por bastante tempo a manteiga na mistura, fazendo com que a
massa ficasse mais aerada, com bolhas de ar provocadas pela agitação dos
insumos. Certo dia notaram que a adição do bicarbonato com leite azedo na
massa fazia esse trabalho de aeração, já que a presença do bicarbonato no
meio acidificado pela presença do ácido lático encontrado no leite azedo
formava gás carbônico. O processo tinha lá suas variáveis, já que o leite
azedo às vezes não era tão azedo assim. A acidez variava muito, fazendo
com que as quantidades de ora bicarbonato, ora leite azedo mudasse com
frequência. Este problema foi resolvido quando por volta de 1800 e alguma
coisa, alguém, não se sabe ao certo quem, teve a brilhante ideia de adicionar
ao Bicarbonato de Sódio o “diamante do vinho”. Também conhecido como
cremor tártaro, é um pó que se apresenta na forma de pequenos cristais que
se formam no entorno do processo de fermentação da uva que dá origem ao
vinho. Esse subproduto atualmente pode ser observado no entorno das
garrafas ou mesmo no interior delas, apesar de ser mais difícil, já que a
bebida passa por um processo de resfriamento próximo ao seu ponto de
congelamento que força a insolubilidade desse sal no vinho, onde depois ele
é filtrado e esses cristais são retirados. Pode se dizer que esse foi um dos
primeiros usos de algo próximo ao fermento químico que usamos hoje em
casa para fazer um bolo caseiro em alguns poucos minutos.
 
O problema nisso tudo (sempre existe um porém) é que após essa mistura
desses dois ingredientes na massa do bolo em preparo, a reação é imediata.
Logo após a mistura, o produto da reação já começa a ser gerado. É preciso
a adição rápida dele na massa para que o efeito não seja perdido, já que
depois que ele gera o gás carbônico, sua presença se torna sem efeito. É
desejável que essa liberação de gás seja feita no interior da massa para que
ela possa ser aerada, aumentando de tamanho e após assada, fique com
aquele aspecto macio que conhecemos. Desde que estejam em meio seco, a
reação não ocorre, somente quando a umidade age sobre os ingredientes, e
de forma espontânea, provocando a liberação do tão desejado CO2 e que se
não estiver no meio da massa nesse momento, acaba por perder a ação do
produto e seu consequente uso.
 
Dessa forma, diversas formulações foram sendo desenvolvidas para que o
fermento químico tenha chegado da forma como conhecemos hoje. Apesar
claro, de haver diferenças entre uma marca e outra, o princípio vai ser
bastante parecido. O Bicarbonato de Sódio continua presente na fórmula.
Como é um sal básico, de pH relativamente alto, em meio com certa
quantidade de água como o da massa, ele vai precisar de algo ácido (de pH
baixo) para que a reação tenha início. O cremor tártaro reagia muito rápido
com o bicarbonato, com isso, o rendimento era comprometido, já que uma
quantidade maior era adicionada para compensar a perda que ocorria antes
mesmo da massa ir ao forno.
 
Nas formulações atuais sempre estará presente o amido, seja elena forma
de amido de milho ou fécula de mandioca. Esse amido tem função de
absorver qualquer umidade que venha a entrar em contato com o fermento,
por causa de armazenamento em local úmido, por exemplo. Claro, esse
amido tem certa limitação, conseguindo reter essa umidade até certo ponto.
Se o acondicionamento do fermento for feito de forma descuidada, em local
com umidade alta, a água absorvida pode vir a estragar ele. Por isso,
algumas pessoas fazem o teste do fermento na água antes de fazer uso dele
na massa, adicionando uma colher de café em uma pequena porção de água
para observar se ele apresenta o efeito de efervescência, liberando o gás
carbônico, mostrando assim que se encontra em boas condições para uso.
 
A maioria dos fermentos químicos disponíveis no mercado hoje são o que
chamamos de fermento de dupla ação. São assim denominados porque
funcionam num primeiro momento quando são umedecidos e depois
quando são submetidos a aquecimento. Isso é desejável pelo fato de a
primeira reação acontecer com a massa ainda fria de forma a dar mais
volume. A segunda reação ocorre durante o cozimento do bolo dentro do
forno.
 
Os sais ácidos que se encontram presentes na formulação do fermento são
utilizados como uma garantia de que o bicarbonato vai encontrar algo ácido
para reagir, já que dependendo da receita do bolo, pode ser que a quantidade
necessária de ácido não seja suficiente. Bolos de frutas cítrica como a
laranja ou o limão por exemplo, possuem boa quantidade de ácido cítrico,
não sendo necessária qualquer outro acréscimo de fermento. Outros tipos de
bolos podem ter pouca ou nenhuma quantidade de ingrediente acidificado
presente na massa. O fermento entra aí, para assegurar que o bolo tenha
aeração o bastante para aumentar de volume de forma satisfatória, para
evitar a ocorrência do que conhecemos como “solado”, com a consistência
socada, densa e maciça. Além de um resultado ruim esteticamente falando,
ainda tem o sabor prejudicado, já que não assa por igual da forma correta,
com algumas partes ainda cruas deixando gosto de farinha na boca.
 
Dependendo da marca do fermento, vários sais ácidos podem ser
adicionados para garantir a correta liberação de gás carbônico. A lista é
extensa: monoidrato de fosfato monocálcio, diidrato de fosfato dicálcico,
sulfato de Alumínio e Sódio ou fosfato de Alumínio e Sódio ou algum
pirofosfato. A base é que será sempre a mesma: bicarbonato de Sódio e
amido ou fécula de mandioca.
 
Esses sais ácidos possuem a reatividade bem mais lenta se comparados ao
cremor tártaro utilizado originalmente. Por serem menos reativos, só vai dar
início à reação quando forem submetidos a determinadas temperaturas, já
que o calor acelera a reação. Quando presentes na massa sob aquecimento,
vão reagindo lentamente e liberando o gás carbônico de forma gradual.
Dessa maneira, à medida que vão expandindo a massa, acabam por reagir
por completo quando a massa já apresenta uma textura firme o suficiente
para se manter por si só. Dessa forma, o bolo adquire textura condizente e
não murcha. Isso, se levar em conta que a quantidade de fermento tenha
sido adicionada em uma proporção adequada. O excesso dele na massa
pode deixar resíduos no sabor do bolo no final. Excesso de ácido pode
deixar um leve gosto de azedo. No caso do pirofosfato, o excesso dele em
um bolo com pouco ácido na formulação, tipo um bolo sem leite ou
elementos cítricos em sua composição, pode deixar um gosto levemente
amargo no final.
 
Um bolo não se faz somente com farinha de trigo, água e fermento como
um pão. Existem outros ingredientes assim ditos, básicos para formar o
“esqueleto” da iguaria.
 
Sempre que você pega uma receita de bolo (digo pega por que eu mesmo
nunca consigo decorar as quantidades corretas, nem que eu faça o mesmo
bolo todo dia até o final do meu tempo na terra), sempre deve se questionar
o porquê de adicionar a tal pitada de sal, mesmo quando o bolo é doce.
Acontece que a adição de cloreto de Sódio em uma receita não tem nada a
ver com o sabor do sal. Ele não entra na história para salgar (se você
apostou que ele serve para balancear o sabor, errou) ou minimizar o gosto
doce. Para isto, basta diminuir a quantidade de açúcar, não acha? Na
verdade, o sal entra como realçador de sabor. Ele age nas papilas
degustativas, dilatando-as e com isso aumentando a percepção de sabor,
embora, ele não aja sobre os diferentes tipos de sabor (amargo, doce,
salgado e azedo) da mesma maneira.
 
Existe o Instituto Monell, uma instituição localizada nos Estados Unidos
cuja fachada possui um busto com a aparência parcial de um rosto com
boca e nariz, criado justamente para fins de estudo da Química do olfato e
do paladar (sim. Existem pessoas muito preocupadas com isso!) e tem como
um dos seus trabalhos justamente estudar e discutir os vários efeitos do sal
no paladar. Em 1997 um dos seus pesquisadores apresentou um objeto de
estudo mostrando que em sabores ruins como o amargo, o sal tem atuação
mais destacada para diminuir o sabor do que para aumentar em sabores
como o doce. Bom saber disso…
 
Chegou a vez dos ovos. Não só como em bolos, mas em muitas receitas
pedirá um ou dois ovos pelo menos. Como se sabe, o ovo tem duas partes
distintas dentro da casca que é a clara e a gema. A clara em um bolo entra
na forma de neve, após agitação vigorosa em batedeira ou por agitação
manual mesmo. Dessa forma, ela contribui na aeração do bolo. Uma
proteína chamada albumina sob agitação constante forma bolhas de ar cada
vez menores. Com essa aeração adicional junto com a que ocorre pela ação
do fermento, o bolo apresenta textura mais porosa, o que faz com que ele
fique muito mais macio. É uma explicação bem simples. A gema é muito
mais interessante nesse aspecto. Ela possui em sua composição uma
molécula chamada lecitina. Essa molécula possui em sua estrutura uma
ponta, assim podemos dizer que consegue interagir com os ingredientes
gordurosos da receita e na outra ponta, uma parte que interage com a água.
Quimicamente falando, temos um lado polar e outro lado apolar, similar a
um sabão que junta água com gordura, duas substâncias de natureza
opostas. Com o uso do ovo é possível emulsionar, assim dizemos, os
ingredientes do bolo trazendo estabilidade na mistura. Sem ele, após a
preparação da massa, um pequeno intervalo de tempo já seria suficiente
para trazer separação entre as fases do bolo. A fase composta pela água,
açúcar, e sal, por exemplo, ficariam separadas da fase composta pela
manteiga ou óleo. A lecitina presente na gema do ovo traz essa estabilidade.
Essa propriedade também é aproveitada em outra emulsão da cozinha muito
conhecida: a maionese, onde a fase aquosa interage com fase gordurosa de
forma a produzir o produto com o aspecto cremoso que conhecemos.
 
A água ou o leite entra na receita com uma função primordial: a de
umidificar a massa de trigo e tornar possível o processamento do pré-bolo.
Imagine que seria muito mais difícil, senão impossível, preparar um bolo
com todos os ingredientes sólidos. A massa não poderia sequer ser chamada
de massa, pois o aspecto mais aproximado dos ingredientes misturados seria
ao de uma farinha. O fermento não conseguiria fazer algum trabalho
decente. Por não apresentar o aspecto elástico resultante da mistura da
farinha com água, a massa não poderia se expandir sob a ação do gás
carbônico. Não teria aspecto sequer semelhante a um biscoito, pois o
biscoito também leva água na sua composição. Com a adição da água na
massa, aliada aos ovos, a fase aquosa interage com a fase gordurosa
formando após agitação uma espécie de emulsão onde todos os ingredientes
interagem formando uma mistura homogênea onde apenas uma fase pode
ser observada. Diz-se uma fase visível quando não apresenta separação na
mistura. Apenas um líquido de aspecto contínuo pode ser observado.
 
A água, como você sabe, possui ponto de ebulição muito próximo a 100° C
enquanto estamos ao nível do mar, que é a temperatura onde ela passa do
seu estado líquido para o estado gasoso transformando-seem vapor. Temos
por padrão o nível do mar como parâmetro de comparação porque nesta
altitude, consideramos que a pressão é de 1 atm. (diz 1 atmosfera). A
medida que a altitude vai aumentando, a pressão atmosférica vai
diminuindo, e, com isso, a temperatura que a água ferve também diminui.
Com adição do açúcar, essa temperatura do ponto de ebulição aumenta
fazendo com que a água demore a evaporar. Esse é um fenômeno que
ocorreria mesmo que no lugar do açúcar, fosse adicionado sal na mesma
quantidade, por exemplo. A presença de um soluto (seja o sal ou açúcar) em
uma solução (o conjunto água + soluto) aumenta seu ponto de fervura. O
que influencia esse aumento de temperatura de ebulição para mais ou para
menos seria a concentração da solução, isto é, maior quantidade de soluto
para solvente (nesse caso, a água). Com isso a água fica retida no bolo por
mais tempo. Além de contribuir para o cozimento da massa, o que resta dela
ao término do processo faz com o que o bolo fique ligeiramente úmido, o
que é desejável também, no final das contas, já que bolo seco não é
agradável ao paladar de ninguém.
 
Seria simples demais pensar que em um bolo, o açúcar entraria somente
para adoçar a iguaria. Claro, ele vai adoçar sim, ainda mais com a presença
do sal que vai acentuar o doce dele (a papilas degustativas dilatadas,
lembra?), mas ele possui outros papéis importantes no escopo. Dependendo
da receita, o açúcar pode participar em até 25% do volume total. Isso
significa que uma em quatro partes de um bolo pode ser açúcar. Os grandes
mestres confeiteiros (falando assim, parece até uma organização secreta)
costumam recomendar que a quantidade total de açúcar de uma receita não
exceda em proporção a de farinha de trigo. Isso faz aumentar a carga de um
bolo (ingrediente sólido) dando corpo a massa, encorpando-a. A massa com
aspecto mais ou menos viscoso é desejável por ser de manuseio mais fácil.
Imagine que ao fim do processamento dos ingredientes e ao transferir a
massa para a forma onde ele vai ser assado, uma substância fluida, rala
sendo despejada, espirrando tudo para fora. Ruim não? Além do que
também, uma massa nessa condição não vai apresentar estrutura firme o
suficiente para expandir o seu tamanho. A grande quantidade de líquido faz
com que o bolo não apresente sustentação o suficiente. Por outro lado, o
contrário, uma massa viscosa demais não vai ser inflada pelo CO2 liberado
pelo fermento. O peso da massa pode ficar tão grande que o gás carbônico
não vai conseguir “levantar” o bolo. Dessa forma, em vez de bolo, no
máximo sairá um brownie (espécie de iguaria semelhante a um bolo,
comum nos países de língua inglesa, onde a maior parte de sua formulação
é chocolate. Fica bem denso e praticamente não cresce).
 
A quantidade de açúcar em uma receita deve ser criteriosa. Se uma
formulação apresenta um excesso de açúcar, acima da proporção que eu
mencionei acima (seguindo novamente o conselho dos grandes mestres
confeiteiros), na hora do cozimento, com a liberação de parte da água, sob
aquecimento, ele sofre degradação da sua matéria que é essencialmente
orgânica. Essa degradação faz com que ele recristalize quando resfria na
forma de caramelo. Com raríssimas exceções, todo mundo gosta de
caramelo, mas nesse caso, nem sempre vai ser desejável. No caso do bolo,
pode acarretar a formação de crosta dura e escura na parte superior do bolo,
e se a temperatura do forno estiver muito alta, pode ainda trazer junto do
“pacote desastre”, um gosto amargo. Quando você ver um bolo com casca
dura e brilhante em cima, já pode apostar que “pesaram a mão” no açúcar.
Esse efeito também costuma ocorrer no interior do bolo. Como o açúcar não
tem as propriedades do glúten presente na farinha de trigo, de formar uma
rede de proteínas para reter o gás carbônico que é liberado no processo, o
açúcar acaba por endurecer a estrutura do bolo, já que está ligado de forma
coesa ao glúten, engessando-o ao esfriar.
 
Apesar de parecer seco ao primeiro toque, um bolo possui uma carga
gordurosa considerável. Em tempos antigos era costume ser preparado com
quantidades generosas de manteiga, que é basicamente gordura do leite.
Hoje, até por ser mais rentável, usa-se muito mais a margarina. Exigiria um
capítulo inteiro para explicar sobre como foi desenvolvida (felizmente, o
livro apresenta este capítulo. Leia mais a respeito em gordura trans),
explicando sobre as vantagens e desvantagens no uso dela. Para encurtar a
história, vale dizer que foi desenvolvida principalmente para facilitar o
transporte, já que ela apresenta aspecto mais sólido do que as gorduras
similares a ela e para diminuição de custos, pois é muito mais barata. Outro
fato que desaprova o consumo também é o sabor em comparação com a
manteiga. E também, como se trata de um produto artificial, com grande
quantidade de gordura trans que o corpo humano não processa muito bem
ainda, pode acarretar danos à saúde, principalmente ao coração.
Recentemente, junto com o processo original de hidrogenação de gordura
vegetal, outro método de produção foi criado, chamado de
transesterificação, que pode ainda ser mais danoso ao ser humano. Em
suma, não tem como defender um cara desses ou apontar alguma qualidade.
Pode associar ele a aquele parente distante chato que ninguém gosta e chega
do nada para o almoço. A diferença é que o parente chato não prejudica a
saúde de ninguém.
 
A manteiga confere sabor característico ao bolo, coisa que a margarina
ainda que seja daquelas flavorizadas, aromatizadas para ficar com sabor
aproximado ao da manteiga (e falham miseravelmente nesse quesito) não
chegue nem perto. A manteiga, margarina, óleo de soja ou outros similares
como girassol, canola ou milho entram em uma receita de bolo para
contribuir com a maciez final dele. Ajuda com a aeração no momento que a
massa está sob agitação. Essa agitação permite que a manteiga envolva o
glúten assim como o açúcar, inibindo a formação da rede de proteínas da
farinha. É sempre dito nas receitas que a entrada dos ingredientes desse ser
realizada com estes em temperatura ambiente. Isso se deve ao fato de que
dessa maneira, a interação entre os insumos é facilitada. Deve-se somente
pela facilidade de processamento. Uma manteiga retirada direto da
geladeira para o recipiente onde será processada, por apresentar aquele
aspecto solidificado, vai levar mais tempo para incorporar na massa e fazer
o seu trabalho de aerar esta. Acabam for ficar vários pedaços que
atrapalham a correta homogeneização dos ingredientes. Por isso que em
receitas, pode ser observado a recomendação para agitar até que a massa
apresente aspecto homogêneo. Essa é uma maneira de evitar que pedaços de
manteiga ou margarina não deixem de serem dispersadas na massa,
apresentando no final do preparo da massa um aspecto liso e uniforme.
 
E no final de tudo, quando o bolo fica pronto, fica ótimo com um cafezinho
quente. Esse porquê eu ainda não sei.
CÁRIES.
 
“E se tirar o dente do seu servo, ou o dente da sua serva, o deixará ir livre
pelo seu dente.”
 
(Êxodo 21:27)
 
Por mais duro que possa parecer à primeira vista, sendo capaz de quebrar
materiais duros como milho de pipoca, osso de galinha e rapadura e,
podendo até mesmo abrir a tampa de uma garrafa, os dentes são vulneráveis
e se não forem manutenidos da forma correta, fracos. Tudo bem que os
exemplos que eu utilizei não foram lá modelos de dureza extrema, mas,
ainda assim, servem como parâmetros para comparação, já que pedra e aço
ficariam meio que fora de contexto.
 
A cárie que ataca os dentes é um processo patológico (sim, é considerada
uma doença), e ao contrário do que possa parecer, não é exclusividade dos
países pobres. Nos Estados Unidos, onde a renda per capita é bem acima da
nossa, de país subdesenvolvido, e cujos padrões higiênicos são bem altos, a
incidência de cáries na população beira a 95%! Existe uma frase impressa
em embalagens de um famoso enxaguante bucal, cujo detentor da marca é
norte-americano que diz alguma coisa parecida com “Se escovar os dentesfosse suficiente, o homem teria chegado à lua?”. Confesso que demorei a
entender a mensagem que eles queriam passar, mas, aparentemente, não.
Não é o suficiente, já que eles possuem uma incidência tão alta de cáries
entre eles.
 
Uma pesquisa realizada em 2013 no Reino Unido revelou que entre o povo
daquelas ilhas, 11% não têm o costume de escovar os dentes. É um número
assustador, que chega a quase 7 milhões de pessoas que não têm o hábito de
praticar uma higiene bucal mínima, que dirá usar fio dental. Nos países de
língua inglesa existe o costume de caçoar dos ingleses pelo estado de seus
dentes, pois se tem a crença de que eles possuem os dentes podres, tortos ou
faltando. Meio que não podemos criticar essa forma de traquinagem. Com
tanta gente sem escovar os dentes...
 
Dentes cariados não são exclusividades do homem moderno. Existem
registros de 500 000 anos atrás de restos humanos encontrados onde já
haviam vestígios dos famosos dentes furados. Não era e nunca foi
exclusividade de um ou outro grupo étnico ou cultura. Pegava geral. Existe
um manuscrito egípcio de séculos A.C. que fazem referência a uma pasta
composta por flores, pimenta e folhas que era utilizada para amenizar as
dores causadas pela formação de cáries. Relatos não tão antigos assim
também dão conta do uso de pão queimado, sal, giz ou carvão na esperança
de minimizar o sofrimento causado pela enfermidade. Tudo remete ao uso
de algo suficientemente abrasivo para, por fricção retirar alguma impureza
que porventura pudesse vir a ficar retido nos dentes, já que naquela época,
ainda não sabiam qual o motivo pelo qual os dentes ficavam ocos e
quebradiços. Demorou um tempo até que começassem a observar que
determinado tipo de alimentação contribuía para a incidência maior de
cáries nas pessoas. Digo que contribui porque não é causada
exclusivamente pelo consumo de um ou outro grupo específico de
alimentos. Até porque pode ocorrer ainda que em menor escala, em pessoas
que não possuam grandes quantidades de açúcar e carboidratos, os
principais responsáveis pelo aparecimento de cáries, na sua dieta. Algumas
pessoas podem ser geneticamente mais suscetíveis a incidência de cáries do
que outras. Jesus certa vez, disse que o que mata não é o que entra na boca,
mas o que sai dela. Mas que pode causar cáries, isso com certeza pode.
 
Cárie é uma patologia transmissível e infecciosa causado por ácidos que são
produzidos pela fermentação de carboidratos (pães, batatas e arroz entre os
mais consumidos) e, principalmente o açúcar, presentes na alimentação.
Essa fermentação ocorre devido à presença de bactérias que se alimentam
dos resíduos destes carboidratos e/ou açúcares que ficam na boca.
 
Em tempos remotos, era mais difícil ter acesso ao açúcar da forma como
temos disponível hoje. Alguns povos utilizavam mel para adoçar suas
iguarias. Na falta dele, os romanos para adoçar o vinho, aqueciam-no
lentamente em tachos feitos de chumbo, que por ser um metal relativamente
macio e maleável, era fácil de moldar no formato de recipientes para
armazenar desde a água e vinho, a frutas e outros alimentos. O problema é
que esse aquecimento provocava uma reação que tinha como produto o
acetato de chumbo. Esse acetato era um pó cristalino com aspecto
semelhante ao açúcar cristal. De sabor levemente adocicado, ao solubilizar
no vinho, conferia a este um sabor mais doce e agradável, além de melhorar
a conservação da bebida. Como o fato do chumbo ser altamente tóxico para
o corpo humano provocando danos severos ao cérebro entre outras
afecções, era desconhecido naquela época, esse metal era utilizado inclusive
em encanamentos de casas de cidadão mais abastados financeiramente. Há
quem diga que a demência de alguns imperadores romanos famosos como
Calígula e Nero se deva à contaminação por chumbo, mas, se formos
levados a observar o lado positivo em tudo, pelo menos não provocava
cáries. Loucos sim, mas dentes cariados, jamais.
 
Basicamente, hoje tudo tem açúcar. E o pior: em excesso. Sejam eles em
sucos, refrigerantes, pães, bolos ou biscoitos. Saturamo-nos diariamente
com essa doçura. E ele é o combustível primordial para que bactérias do
tipo Streptoccocus presentes no trato bucal façam uso dela e, através da
fermentação produzam ácidos que vão desde ao ácido acético (o ácido do
vinagre), ácido lático (presente em leite coalhado), até o ácido butírico
(composto que dá o cheiro característico entre outras coisas, do vômito, de
alguns queijos e em manteigas vencidas). Esses ácidos gerados acabam
também por contribuir para que o hálito dentro de algumas horas após uma
refeição sem uma escovação não fique lá muito agradável. O ácido, ao
contrário do que muita gente possa pensar, é o que no final das contas, ataca
o esmalte dos dentes, formados em sua maior parte por fosfatos (compostos
com átomos de Fósforo) e sais de Cálcio. Esses ácidos presentes na flora
bucal, diminuem o pH do meio, solubilizando os sais do qual o dente é
formado, dissolvendo-o lentamente na saliva. O ataque à estrutura do dente
é realizado pela parte externa, onde os ácidos atacam a estrutura dura do
dente, ocasionando uma erupção ou fissura deste.
 
Esse tipo de bactéria Streptoccocus faz parte da chamada flora bucal. Ela
estará no interior da boca o tempo todo, na forma de um filme biológico sob
os dentes. Se pudesse sinalizar com um aviso, ele seria na forma de uma
placa com os dizeres: “Por favor, não alimente a bactéria.”. Se os conselhos
do dentista forem seguidos à risca (e eles nunca são), e logo após as
refeições a escovação com gel ou creme dental for realizada da forma
correta, a ocorrência da cárie pode ser evitada, pois ele funciona como um
sabão, retirando as impurezas que possam ter restado e possam vir a
fermentar depois.
 
Qualquer creme dental encontrado hoje no mercado basicamente vai diferir
um do outro pela embalagem, sabor ou cor, pois todos vão apresentar em
sua composição compostos capazes de realizar as mesmas funções:
promover uma leve esfoliação na camada mais superficial do dente, de
forma a, pela ação dessa fricção, remover o máximo de bactérias que
possam ter restado adsorvidas aos dentes. O carbonato de Cálcio é
largamente utilizado para essa finalidade como abrasivo, com a ação
parecida com a de uma lixa. Bicarbonato de Sódio entra para elevar o pH da
flora bucal. Como o meio ácido faz com que as camadas do dente fiquem
mais solúveis ainda na saliva, contribuindo para a dissolução dos sais que
fazem parte dessa camada provocando a cárie, esse reagente é adicionado
para que o meio fique com pH neutro, que é originalmente o pH que a
saliva deve apresentar (entre 7 a 7,4 em uma pessoa saudável). A adição de
fluoreto de Sódio no creme dental se faz por dois motivos. Esse reagente ao
entrar em contato com um composto que forma o esmalte do dente, a
hidroxiapatita, reage produzindo fluorapatita que substitui a camada
original da qual o dente é formado. A fluorapatita é mais resistente ao meio
ácido provocado pela fermentação das bactérias, melhorando desta forma a
resistência dos dentes, funcionando quase como um upgrade. A presença do
fluoreto também contribui com sua ação bactericida e bacteriostática. Isso
significa que ele elimina as bactérias que causam as cáries e também
impede a proliferação destas. Como o Flúor também está integrado à água
que bebemos (em locais abastecidos por uma estação de tratamento),
incorpora-se à saliva, prolongando o seu efeito por mais tempo.
 
Em alguns casos, sempre associado à falta de cuidado na manutenção
correta dos “mordedores”, pode acontecer de aparecer o tártaro (se for
pesquisar o nome na internet, pode encontrar um monte de tópicos
associados a esse nome que vai desde a molho, a idioma e até mesmo a um
inferno mitológico. Melhor procurar por cálculo dental). Trata-se da
deposição de sais de Cálcio que estão presentes na saliva de forma natural,
e, se juntam também a alguns fosfatos que são dissolvidos quando os ácidos
das bactérias atingem o esmalte dos dentes como já falamos. Esses sais
acumulam-seem cima do chamado biofilme que é formado sob os dentes
pelas tais bactérias que habitam o meio, mineralizando e formando uma
camada dura e com tons que podem variar de amarelo a marrom escuro.
Ocorre quando a camada dessas bactérias que envolvem os dentes ficam em
contato permanente com estes sais por mais de vinte dias. Daí a importância
da escovação correta e o uso de fio ou fita dental. A palavra cálculo que
usamos para nos referir a essa deposição de minerais remete a origem da
palavra latina calculus que se referia a pequenas pedras que eram utilizadas
para ensinar matemática básica para as crianças na Roma antiga, portanto,
tudo a ver associar isso às “pedras” que se formam nos dentes. A
matemática aproveitou a deixa e pegou carona no termo utilizando como
sinônimo para operações matemáticas.
 
Os estragos provocados pela aparição da cárie podem ser remediados. E
dependendo do estágio em que se apresentarem, poderão ser reparados
como se nunca tivesse existido. Dentes podem ser reparados, mas nem
sempre apresentarão seu aspecto original após a intervenção de um dentista.
Atualmente já existem reparos como obturações que tem o tom bem
parecido com o aspecto da cor original dos dentes reparados. Outro, porém
também é que durante a existência da patologia, o hálito também é
comprometido. O odor apresentado por uma pessoa que padece dessa
enfermidade é característico, e, como se trata de uma doença onde existe
uma ferida aberta, aumenta também a chance de contrair alguma outra
doença utilizando essa ferida como porta de entrada. Em casos extremos
onde a estrutura do dente foi muito comprometida, torna-se necessário a
remoção completa do dente, em um processo onde ele é extraído, chamado
de exodontia. Essa extração é considerada somente em casos extremos onde
a estrutura funcional do dente foi comprometida, já que a perda de um só
dente pode alterar toda a estrutura da arcada dentária, acabando por permitir
uma maior mobilidade deles entre si devido ao espaço em aberto que
surgirá. A falta de, ainda que seja um só dente pode também afetar
seriamente a mastigação, prejudicando até mesmo a digestão dos alimentos.
 
Atualmente já existem implantes ósseos, onde pinos de Titânio ou outro
material cirúrgico inerte para o corpo humano são fixados direto na arcada
dentária, mas é ainda um processo de custo relativamente alto.
 
O outro aspecto prejudicial é o estético. Se você for vaidoso, é claro. Em
algumas culturas é apreciado o conjunto de dentes sobrepostos como no
Japão, por exemplo. Eles até têm uma palavra para designar isso: yaeba ou
dente duplo que é a palavra usada para designar quando os dentes caninos
sobrepõem os dentes laterais, dando o aspecto de “encavalados”. Segundo
eles, isso é kawaii (fofo, bonito). Por falar em estética, existe também a
crença por parte de algumas pessoas de que o uso de antibióticos durante a
fase de dentição temporária, o chamado dente de leite pode acarretar má-
formação destes. Pura lenda. O máximo que um medicamento desse tipo
como a tetraciclina pode provocar seriam manchas nos dentes, e ainda
assim, somente se fossem administrados durante uma fase específica da
dentição.
 
Em suma, a máxima que vale mais a pena prevenir do que remediar é
aplicável neste caso com todas as letras. O estrago provocado pela cárie,
dependendo do estágio em que a enfermidade estiver, pode ser grande,
desde a um simples tártaro, a uma erupção dentária ou no pior hipótese, a
extração do dente.
 
Um sorriso vazio é o preço que pode ser pago se não forem seguidas as
instruções daquele chato do dentista, ou uma dentadura, ou, viver de sopa
mesmo.
GORDURA TRANS.
 
“A pesquisa básica é como atirar uma flecha para o ar e, onde ela cair,
pintar um alvo”.
 
(Homer Adkins Burton – Químico norte-americano.)
 
Com certeza você já deve ter ouvido falar na tal gordura trans. Presente em
vários alimentos industrializados, desde biscoitos (ou bolachas, dependendo
de onde você for natural, não vamos discutir por causa disso), a margarinas,
bolos e muitíssimos outros. E certamente o que ouviu a respeito não foi lá
muito positivo, acredito eu.
 
O fato é que essa má fama, digamos assim, não é totalmente culpa dela.
Veja bem, este tipo de gordura foi idealizada como um alimento de fácil
manuseio, já que apresenta textura mais sólida do que possuía antes do
processo químico pelo qual ela é submetida, facilitando assim o seu
transporte, e também por permitir uma vida útil mais longa nas prateleiras
dos mercados. O grande problema é que esqueceram de avisar ao corpo
humano como processar essa novidade. Somos fruto de uma evolução
constante. Nosso DNA é praticamente um livro, onde geração após geração,
novas informações são adicionadas. O porém é que essas anotações
demoram tempo até serem processadas. No processo evolutivo atual, o
nosso organismo ainda não aprendeu a lidar com isso, digamos assim. E por
causa disso, a gordura trans age como vilã na história, ajudando a acumular
lipoproteína no corpo humano, aumentando a concentração de colesterol no
sangue, e consequentemente, aumentando as chances de formação de placas
de gorduras no interior de artérias e veias (ateroma) que podem entupi-las e
com isso, aumenta assim a chance de um infarto, que é justamente este
entupimento nas vias de circulação de sangue para o coração.
 
Para entender o que é uma gordura trans, é necessário saber de antemão o
que é uma gordura e as suas variáveis. Na Química, dizemos que gorduras
são ésteres de ácidos carboxílicos (ácidos formados por átomos de
Carbonos) de cadeia longa, os chamados ácidos graxos. O elemento mais
importante neste tipo de composto, o Carbono, pode fazer 4 ligações, sejam
elas entre outros átomos ou entre átomos de Carbono mesmo. Um ácido
graxo possui além do Carbono, Hidrogênio e Oxigênio em sua estrutura.
Quando o ácido apresenta ligações simples entre os átomos de Carbono
chamamos de gordura saturada. Esse é o tipo de gordura que encontramos
em carnes e manteiga. Costuma ser sólida em temperatura ambiente, uma
das característica pela qual é muito apreciada na indústria. Foi durante
muito tempo crucificada, sendo apontada como o vilão pelo acúmulo de
colesterol no nosso organismo, tendo sua má fama desfeita após estudos
recentes. O bicho-papão atualmente é o carboidrato. Aguardemos cenas dos
próximos capítulos...
 
Os óleos vegetais de soja, oliva, canola e uma enorme variedade presente
nas prateleiras dos supermercados, além de óleos presente em peixes
gordurosos como a truta e o salmão encaixam-se na categoria das chamadas
gorduras insaturadas. Possuem aspecto líquido à temperatura ambiente e
são muito bem recomendados na alimentação pois possuem a capacidade de
diminuir os índices de colesterol ruim no corpo (sim, tem colesterol bom e
tem o ruim. O ruim, chamado de LDL, de baixa densidade que pode se
acumular nas paredes internas das artérias, diminuindo o fluxo de sangue e
o bom, chamado de HDL, de alta densidade, que ajuda a retirar o LDL de
circulação, enviando-o para o fígado, onde será excretado do corpo). São
chamados de insaturado por apresentarem insaturações em suas estruturas.
A essa altura, você deve estar se perguntando: - “Mas o que diabos são
saturações e insaturações?”.
 
Como já foi dito, Carbonos são elementos que podem fazer até quatro
ligações com outros átomos diferentes de uma vez. Em algumas situações,
Carbonos utilizam duas ou até mesmo três dessas quatro ligações que ele
pode fazer, para se ligar a um mesmo átomo de Carbono. Quando isso
ocorre, utilizando duas ligações, dizemos que ele possui uma dupla ligação,
e, quando utiliza três ligações, dizemos que ele possui uma tripla ligação.
Isso é o que chamamos de insaturação.
 
Quando essa insaturação ocorre apenas uma vez na estrutura de um ácido
graxo, dizemos que ele é um ácido monoinsaturado e, quando ocorre mais
de uma vez, dizemos que ele é poli-insaturado. Esse tipo de gordura, assim
como a saturada são encontrados normalmente na natureza e utilizado de
forma abundante como alimentoa milhares de anos pelo homem. Existem
algumas poucas quantidades de gorduras trans naturais presentes em carnes
e leite, mas ainda são objetos de estudos, sem nenhuma conclusão
definitiva, e dada a sua tão pequena quantidade, nunca apresentou nenhuma
influência na alimentação que pudesse impactar de alguma forma, sendo
por isso ignorado por tanto tempo.
 
Resumindo: gorduras saturadas possuem aspecto sólido ou pastoso e
gorduras insaturadas possuem aspecto líquido e pouco viscoso, sendo
conhecidos também como óleos.
 
Visando obter melhora no transporte, armazenamento e durabilidade das
gorduras mono e poli-insaturadas, a indústria veio a desenvolver um
processo químico para transformar esse tipo de gordura em gorduras
saturadas, ou seja, eliminando algumas duplas-ligações (não se esqueça
delas) presentes nas estruturas dessas gorduras insaturadas. Digo algumas,
porque se todas as insaturações presentes em uma gordura poli-insaturada
fossem eliminadas, o produto final ficaria tão duro que apresentaria a
consistência semelhante a de uma vela, além do que, o próprio processo que
quebra essas duplas ligações, em si não é totalmente eficiente, eliminando
apenas algumas delas.
 
Através de um processo chamado de hidrogenação parcial que consiste em
reagir as gorduras insaturadas com Hidrogênio e um catalisador metálico
para obter artificialmente gorduras saturadas, nasceu então a chamada
gordura hidrogenada. Esses Hidrogênios são adicionados à cadeia carbônica
na parte instável da estrutura, onde está a dupla-ligação entre dois
Carbonos, na tal insaturação da estrutura. Desta forma, a ligação é rompida,
dando lugar para dois átomos de Hidrogênio a mais na estrutura, cada um
entrando em um Carbono da antiga dupla-ligação. Desta maneira, a ligação
entre esses dois Carbonos passa a ser simples, com os átomos de
Hidrogênio completando as ligações de forma que cada Carbono faça as
suas quatro ligações a que tem direito. Acontece que assim como nem todas
as duplas-ligações são eliminadas, durante o processo ainda ocorre algumas
alterações na estrutura da gordura que acarretam a formação da famigerada
gordura trans.
 
Quando falamos em trans na Química, significa que existe o outro lado da
moeda, o cis. As gorduras insaturadas originais possuem em sua
configuração, o tipo cis.
 
Na Química, nem sempre as moléculas se apresentam em um plano reto. Na
maioria das vezes, as estruturas formam arranjos tridimensionais. Isso quer
dizer que podem apresentar partes de suas estruturas que vão se organizar
em posições por vezes acima do plano reto, por vezes abaixo, ou mesmo,
dos lados. Imagine uma estrutura plana desenhada na folha de um caderno e
imagine um lápis furando a folha. No caso da configuração cis, nos
Carbonos onde ocorre a dupla-ligação, os dois Hidrogênios que estão
ligados a eles estão no mesmo lado da ligação, seja para cima, seja para
baixo, mas sempre do mesmo lado. Essa configuração apesar de não ser a
forma mais estável, ainda assim é a encontrada naturalmente em óleos
naturais e em gordura de alguns peixes. A gordura trans, a vilã, ocorre
quando no processo de hidrogenação, durante a reação, a dupla-ligação em
vez de ser rompida e receber os átomos de Hidrogênio gerando a ligação
simples, acabam “empurrando” a dupla-ligação para o Carbono seguinte ao
lado. Quando essa ligação é formada nesse Carbono vizinho, acaba por
remanejar os encaixes dos átomos de Hidrogênios na configuração menos
energética e consequentemente mais estável para a estrutura: a configuração
trans onde na dupla-ligação, um átomo de Hidrogênio fica para cima e o
outro átomo de Hidrogênio para baixo, numa posição atravessada. Se
fôssemos utilizar o exemplo da folha de papel, um átomo de Hidrogênio
ficaria pendurado para baixo e o outro ficaria virado para cima da folha.
Isso ocorre devido as moléculas, de modo a obter maior estabilidade, se
organizarem em formas onde ficam, assim digamos, mais confortáveis. Essa
forma, apesar de energeticamente ser mais estável, acarreta o monte de
estrago para o organismo que você ouve falar por aí.
 
Pode parecer pouca coisa apenas esses Hidrogênios em posições diferentes,
mas é o suficiente para modificar algumas propriedades básicas da gordura.
A gordura trans possui uma molécula mais rígida em comparação com a do
tipo cis, por causa disto, o ponto de fusão, a temperatura que a gordura
passa do seu estado sólido, no caso, do seu aspecto pastoso para o líquido,
de uma gordura trans é mais alto do que em relação ao da mesma gordura
com configuração cis.
 
Quando falam em gordura trans, provavelmente a primeira imagem que
vem à cabeça é a da margarina. Curioso é que a margarina original não
tinha nada de gordura trans nela. Um imperador francês, Napoleão III (não
o famoso, esse em questão era o sobrinho dele) em 1860, com o intuito de
conseguir um genérico para substituir a manteiga, que era cara e por isso, de
difícil acesso para a população mais pobre, incentivou a produção de um
substituto. Era produzida a partir de gordura bovina e aromatizada com
gordura de manteiga, ou seja, não tem nada parecido com a margarina
produzida atualmente na indústria desde os idos de 1920, que é produzida a
partir de óleos vegetais hidrogenados.
 
Depois que a massa reacional é produzida através do processo de
hidrogenação, a margarina ainda não está pronta. Ainda é realizada a adição
de diversos aditivos para melhorar o paladar, tipo o leite em pó, além de
outros flavorizantes para deixar o sabor próximo ao de manteiga, e também
para melhorar o aspecto, já que uma margarina acinzentada não teria um
aspecto muito apetitoso à primeira vista. Água também é adicionada sob
agitação para deixar o produto com a textura mais leve (em algumas marcas
ditas light é adicionado ainda mais água, dessa forma o produto realmente é
menos calórico, já que a água, como todos sabem, não possui calorias).
 
Algumas marcas ainda adicionam compostos para aumentar a durabilidade
do produto como antioxidantes, alguns inclusive utilizados também em
algumas marcas de tintas e vernizes com a mesma finalidade que é, no caso
das margarinas é evitar a oxidação que traz junto com ela o ranço, aquele
cheiro e gosto ruim frequentemente encontrado em manteiga velha.
 
Com toda a má fama da gordura hidrogenada, a indústria buscou uma outra
maneira de continuar produzindo suas gorduras de forma menos polêmica,
com isso foi criado o processo de transesterificação. Ainda é muito pouco
utilizado no mundo, não chegando nem a 10% do total de óleos e gorduras
consumidos. Na Europa onde é mais utilizado, chega a 30%. No Brasil
apenas alguns poucos fabricantes utilizam atualmente o processo. Esse
processo possui várias rotas de sínteses, mas, basicamente, consiste em
trocar as posições de alguns grupos funcionais presentes na molécula do
triglicerídeos (a molécula de gordura propriamente dita que é formada por 3
grupamentos do éster de ácido graxo unidos em uma só molécula, por isso o
prefixo –tri) e com isso conferir uma melhora nas propriedades, ou seja, o
mesmo objetivo da hidrogenação, só que através de uma técnica diferente.
Já existem também estudos realizados na área que apontam para malefícios
resultantes no consumo desse tipo de produto, tanto quanto aos relacionados
ao consumo da gordura hidrogenada, nada ainda conclusivo, até mesmo
devido ao menor tempo de produção industrial. E veja só como são as
coisas, apesar da reação de hidrogenação ser considerada como culpada
pelos crimes de conspiração contra o coração, tem sido proposta como
viável para possibilitar missões tripuladas para Marte, já que pelo processo
utilizando gás carbônico no lugar de gordura insaturada obtém-se água.
Mais um exemplo de que nada pode ser considerado um mal absoluto,
desde que seja empregado de uma maneira conveniente.
 
O certo é que ainda deve demorar mais algum tempo para avaliar algum
potencial estrago no organismo. A única coisa certa é: está cada vez mais
difícil agradar ao corpo humano.
PÃO.
 
“Panis et circense.”– Política do Império Romano onde segundo eles, garantir comida e
diversão era o suficiente para manter o povo sob jugo do Estado.
 
O consumo de pão pelo homem é um costume bem antigo e difícil de
precisar quando foi iniciado. Escrito a muito tempo atrás, já aparece em
Deuteronômio, um dos livros que compõem a Bíblia, uma citação a terras
de trigos e a alguns anos atrás, em 1991, para ser mais preciso, através de
análises realizadas no intestino de uma espécie de múmia com cerca de
5300 anos (digo dessa forma – espécie – porque esse corpo que foi
encontrado não passou por um processo de mumificação propriamente dito,
mas ficou conservado graças à ação do frio intenso ao qual ele ficou
submetido durante todo esse tempo) encontrada congelada na fronteira entre
a Áustria e a Itália, que os arqueólogos chamaram de Ötzi, onde foram
encontrados vestígios de pães, que podemos perceber o quanto é antigo para
o homem o consumo desse derivado em especial do trigo. Seja ele na forma
de pães ázimos (forma simples de pão produzido sem fermento), até alguns
mais elaborados, seja pela adição de fermento, ou seja, pela adição de
vários outros ingredientes para lhe conferir diversas texturas e sabores tais
como frutas, gordura, condimentos, etc. A receita básica do pão não foi
muito alterada até os dias atuais. Trata-se de uma massa produzida a partir
da mistura de água, levedura (fermento), açúcar e sal na farinha do trigo.
 
Ainda assim, dizer que o pão que comemos hoje é praticamente igual ao
que nossos ancestrais comiam a milhares de anos atrás seria uma heresia, já
que os insumos utilizados no processo, apesar de serem quase os mesmo,
sofreram significativas mudanças, melhoramentos ao longo dos tempos.
 
Tudo começou com povos antigos que realizavam uma seleção quando
colhiam o trigo. O trigo com maior facilidade de plantio, resistência a
pragas e melhor rendimento tinha suas sementes selecionadas e separadas
para que no plantio seguinte fossem plantadas. Dessa forma, garantiam que
o melhor trigo fosse cultivado. Isso sem mencionar os diversos cruzamentos
mais recentes, feitos a partir da década de 60. Processo parecido pelo qual
passou o milho, que há muito tempo atrás passou por uma melhora, onde as
espigas mirradas de teosinto que apresentavam maior quantidade de grão
ganhavam preferência na hora do plantio. Era uma espiga com bem menos
sementes que o milho atual que após estas constantes seleções, chegou às
espigas como conhecemos hoje. Pode se dizer a mesma coisa também dos
processos para se obter o pó do trigo e chegar ao pão. São adicionados
inúmeros aditivos que buscam obter desde a branqueamento até o
melhoramento das qualidades nutritivas dele (já viu farinha de trigo com
ácido fólico no mercado?). Naquela época a posição social de uma pessoa
inclusive podia ser observada pelo pão que ela consumia, já que a farinha
de aspecto clarificado, que passava por uma quantidade maior de refino era
de preço mais elevado. Restava, portanto, às camadas inferiores da
sociedade, um pão mais escuro, feito com farinha de trigo de menor refino,
em uma tendência contrária a que temos hoje, onde os pães de cor mais
acentuada são apreciados por causa do seu valor nutricional supostamente
mais elevado.
 
O preparo da massa também passou por diversas mudanças nesse período.
Antes era tudo mais demorado. A sova e o tempo de fermentação eram
maiores. Hoje, com a necessidade crescente de abastecer o mercado com
maior quantidade e rapidez, reduziu-se a algumas horas um processo que
inicialmente podiam durar até 72 horas só para fermentação! Além de, na
época também utilizarem os chamados fermentos naturais cuja cultura de
micro-organismos era cuidadosamente passada de pai para filho. Existem
hoje algumas padarias especializadas nesse processo antigo, mas se trata de
algo muito mais caro do que o custo de um pão normal.
 
O trigo era cultivado nos campos e após a colheita era processado
inicialmente pelo atrito de duas pedras de forma manual mesmo, mais tarde
em moinhos, onde era reduzido a um pó fino esbranquiçado. Esse pó era
inicialmente misturado a água e sal e agitado vigorosamente (sovado).
Como os primeiros relatos a respeito da confecção do pão não
mencionavam fermento, era só água, farinha de trigo e sal mesmo. Com
essa sova, um agrupamento de proteínas, composto por gliadina e glutenina,
presente no trigo e conhecido como glúten, (o nome vem do latim e
significa cola. Você provavelmente já ouviu falar nele) é ativada. Essa
proteína, após o ato de sovar a farinha com água conferia à massa uma
textura elástica livre de porosidades. A massa era aberta e espalhada em
forma de círculo, com o formato semelhante ao das pizzas atuais. Essa
massa era levada a fornos onde era então assada. Esses pães após o
cozimento ficavam com uma textura dura e quebradiça como a de biscoitos.
Segundo o costume judeu, os pães ázimos (como chamamos os pães
produzidos sem fermentos) foram produzidos pelo povo israelita às pressas,
antes da fuga do Egito, por esse motivo, não houve tempo suficiente para
que os pães fermentassem. Ainda hoje o preparo desse tipo de pão para a
festa do Pessach (a Páscoa dos judeus) não pode exceder os 18 minutos, que
é o tempo mínimo necessário para que o pão fermente espontaneamente
devido a ação de microorganismos presentes no ar mesmo e, portanto, deixe
de ser ázimo. Mas, ainda que se possivelmente tivessem tempo para se
preparar, é bem provável que não usariam fermento, pois o associavam à
impureza, putrefação, devido ao seu aspecto, que realmente até hoje não é
lá muito belo (é tecnicamente falando, um bloco de fungos).
 
Com o tempo, notaram que a massa que era confeccionada para o pão, se
demorasse um certo tempo após sovada, fermentava com certa facilidade.
Essa massa após passar por esse período de fermentação não estragava, mas
conferia ao pão feito com ela além de sabor, textura diferente, ficando
muito mais volumoso e macio. Daí foi só melhorando. Culturas diversas
foram adicionando vários tipos de condimentos, grão e especiarias com
intenção de produzir tipos diferentes de pães, variando de acordo com a
disponibilidade do local. Europeus diversificaram o consumo com carnes e
queijo. Alguma coisa parecida com os sanduíches atuais, ainda que muito
mais rústicos e grosseiros em comparação aos que temos hoje, claro. Na
Roma Antiga era costume associar a produção de bons pães aos gregos,
assim como hoje temos o estereótipo do português padeiro. O seu Manoel
da padaria era uma espécie de “Papadopoulos da pistrinae”.
 
Salvo algumas poucas modificações, a massa é preparada com farinha de
trigo, água, açúcar, sal e levedura que é utilizado como fermento. A mais
utilizada é o tipo Saccharomyces cerevisiae. Para iniciar o processo é
adicionado uma quantidade desse fungo de modo a iniciar essa
fermentação. Por esse motivo, a massa do pão após sovada precisa ficar um
certo tempo no que chamamos de repouso. Na verdade, esse tempo é dado
para que haja tempo para que enzimas presentes na farinha, oriundas do
próprio trigo possam quebrar as moléculas de amido em glicose, que servirá
como alimento para que as leveduras do fermento possam então agir,
consumindo essa glicose e liberando gás carbônico e álcool. Por se tratar de
um organismo vivo, esse descanso deve ser realizado em temperatura entre
27° a 35° C. Abaixo disso, praticamente não reage e acima dessa
temperatura, acaba morrendo. A levedura utilizada para a fermentar a massa
do pão pode ser a mesma utilizada para a produção de vinho e de álcool.
 
Toda a produção de álcool seja ele, para bebidas, combustível ou como
insumo industrial vai seguir processo parecido de fermentação, por isso que
chamamos o processo de fermentação alcóolica. A diferença básica está no
produto de interesse. No caso da obtenção do álcool, o gás carbônico é
dispensado, e no caso do pão, o gás carbônico é desejado para expansão da
massa e o álcool descartado – no caso, evaporado (mais sobre a obtenção do
álcool está no capítulo específico sobre ele).Com a sova da massa, ela adquire o aspecto elástico parecido com ao de
uma borracha amolecida. O amido que constitui quase 70% da composição
da qual a farinha é constituída, como já observado acima, sofre degradação
através de enzimas presentes naturalmente na farinha de trigo sendo
quebrado e dando origem a moléculas de glicose que vão funcionar como
combustível para os fungos da levedura fermentarem na massa, gerando
como produto gás carbônico e álcool. Esse gás é liberado e tenta escapar
por entre as camadas elásticas da massa, formando o aspecto repleto de
cavidades que o tornam mais macio, dando a ele a textura fofa característica
do pão. O álcool que também é produzido pelo processo (a quantidade é
bem pequena, já que não há uma quantidade muito grande de glicose
disponível como na cana de açúcar), durante o cozimento do pão evapora
contribuindo com também com o efeito de formação de bolhas. É por isso
que, apesar de ter uma certa quantidade de álcool na massa do pão, ele não
apresenta nenhum gosto nem cheiro residual no pão pronto e também não
corre o risco de explodir quando exposto a aquecimento no forno, já que
como foi dito, a quantidade de álcool gerado no processo é muito pequena.
Senão, poderíamos até imaginar notícias frequentes do tipo: “Pão explode
em casa e mata três.”
 
No início eram assados em cima de pedras ou cinzas aquecidas. A forma de
assar foi também sendo melhorada de forma gradual com o passar dos anos.
Atualmente existem fornos que borrifam água em tempos pré-determinados,
como forma de fazer a casca do pão ficar mais crocante.
 
Egípcios e romanos usavam, junto com a cerveja (que alguns chamavam de
pão líquido em alusão a fermentação que também ocorre com a bebida) o
pão como forma de pagamento em uma prática que se estendeu até a Idade
Média. Hoje saímos de casa para trabalhar visando garantir o pão de cada
dia. Se você notar, parece que não mudou muita coisa de lá para cá, embora
alguns sintam falta da cerveja.
 
PILHA.
 
"Para mim, é muito melhor compreender o universo como ele realmente
é do que persistir no engano, por mais satisfatório e tranquilizador que
possa parecer."
 
(Carl Sagan – físico norte-americano.)
 
Algumas coisas fazem parte do nosso cotidiano de um modo tão enraizado
que as vezes, é impossível dissociar do nosso dia a dia. O uso de pilhas é
uma dessas coisas. Imagine apenas que você não poderia sequer usar o seu
celular na rua, no banheiro ou no ônibus sem o auxílio de um carregador,
por exemplo. Um carro sequer poderia ser ligado sem uma bateria (que é
basicamente um conjunto de pilhas ligadas em série ou em paralelo).
 
O domínio da técnica de funcionamento da pilha possibilitou as diversas
variantes que são conhecidas hoje. A pilha galvânica foi o precursor dessa
história toda. O nome galvânica foi atribuído em homenagem ao anatomista
italiano Luigi Galvani que foi o primeiro a observar correntes elétricas que
eram conduzidas através dos músculos de uma rã, por volta de 1750 (e na
época ele erroneamente achou que esses músculos é que produziam a
corrente elétrica). Ainda associado ao anatomista, temos a palavra
galvanismo que é relacionada à produção de eletricidade através de
fenômenos químicos. Isso define bem o conceito de pilha.
 
A corrente elétrica que é gerada em uma pilha flui sempre em uma mesma
direção, no caso, indo sempre do polo ou terminal negativo (chamado de
ânodo) para o polo ou terminal positivo (chamado de cátodo). Por isso,
dizemos que uma pilha gera uma corrente contínua, sempre no mesmo
sentido. A pilha é então um dispositivo que transforma energia química em
energia elétrica. O funcionamento, apesar de simples, é fascinante.
 
O modelo básico de uma pilha que ainda hoje utilizamos o princípio de
funcionamento, vem desde o começo de 1800, quando o italiano Alessandro
Volta, descobriu que dois metais diferentes um do outro ao serem disposto
em contato, reagiam entre si, gerando uma pequena corrente elétrica. Esse
efeito era potencializado com a adição de uma solução aquosa no meio que
permitia a passagem dos elétron nos eletrodos (o movimento de elétrons de
um eletrodo para o outro é que gera a eletricidade). No caso da pilha
voltaica (em homenagem a Volta), uma solução de ácido sulfúrico embebia
tecidos que eram dispostos entre os discos de zinco e cobre. Esses discos
eram organizados um sobre os outros formando uma pilha de quase um
metro de altura. Imagine uma pilha dessas hoje para fazer funcionar um
simples controle remoto. Por sorte, várias aperfeiçoamentos foram sendo
realizados até chegar a pilha seca que utilizamos hoje.
 
Uns 40 anos depois, um inglês, John Daniell criou a sua versão de pilha.
Desta vez, menor, mas utilizando o mesmo princípio. O aparato consistia de
um tubo onde era acondicionado uma placa de zinco mergulhado em uma
solução aquosa de sulfato de cobre. Recomendo que leia essa parte de
forma bem lenta. Pode ser que você tenha que ler mais de uma vez, e não
estou menosprezando o seu intelecto. Essa parte é bem fácil de se confundir
mesmo. Em outro tubo havia uma placa de cobre mergulhado em uma
solução aquosa de sulfato de zinco. Consegue perceber o mecanismo? Um
metal mergulhado em sulfato do outro metal. Esses dois metais são ligados
por um fio metálico que é por onde vai passar a eletricidade gerada. Chama-
se oxirredução a reação que ocorre em uma pilha. Isso significa que um dos
eletrodos que a compõem vai oxidar (significa que ele perderá elétron, a
partícula com carga negativa) enquanto que o outro vai reduzir (vai receber
elétron daquele que perdeu). É meio complicado entender, eu sei. Quem
perde fica positivo e quem ganha fica negativo. Enrolado, não é mesmo?
Compreensível, mas tome como norte que estamos falando de um elétron
que apresenta carga negativa, se perder ele, fica menos negativo, portanto,
positivo.
 
Para compreensão mais fácil o polo negativo da pilha é chamado de anodo.
Esse polo sofre oxidação, perdendo elétron para o polo positivo. Durante a
utilização deste tipo de pilha é visível essa oxidação, já que o eletrodo fica
com o aspecto de “enferrujado”, com pequenos orifícios que ocorrem
devido à perda de elétrons para o outro eletrodo que reduz (apesar de
quimicamente dizermos que ele reduz, no aspecto ele aumenta de volume,
devido ao inverso da oxidação ocorrer nele, captando elétrons, portanto,
ocorre uma redução). O polo negativo da pilha de Daniell é constituído pelo
terminal de Zinco e o polo positivo é constituído pelo terminal de Cobre. As
soluções de sulfato em que os terminais ficam mergulhados constituem o
meio onde o fluxo de íons mantém-se constante, formando um círculo de
forma a manter a concentração de íons positivos dos metais constantes entre
as duas soluções que ficam ligadas uma a outra através do que chamamos
de ponte salina. Essa ponte é constituída por um tubo que permite que
quando o meio que oxidou, isso é, perdeu elétrons, possa “reabastecer” sua
carga de íons da outra solução que reduziu e tem excesso deles. Neste tipo
de pilha, o zinco por ser mais reativo do que o cobre, tem tendência a
oxidar, perdendo elétrons para o cobre que é menos reativo. A adição de um
meio aquoso possibilita essa reação, já que os íons positivos metálicos e os
íons negativos do sulfato faz com estejam sempre em constante movimento.
Movimento esse que ocorre sempre do ânodo, o terminal negativo, para o
cátodo, o terminal positivo. As pilhas atuais funcionam, com algumas
diferenças, algumas otimizações, de forma parecida até hoje.
 
Com o tempo, foram abandonando os eletrodos de cobre e zinco e sendo
utilizados outras combinações de metais de forma a potencializar as
propriedades da pilha.
 
A variável da pilha que utilizamos nos dias atuais é derivada da chamada
pilha de Leclanché, que tem esse nome em homenagem ao engenheiro
francês Georges Leclanché, inventor desta que também é conhecida
usualmente também como pilha seca criada no ano de 1865. Ela é chamada
assim porque é…seca. Ao contrário das criadas nos primórdios, ela não
apresentafase aquosa. Em um corpo constituído de zinco, uma pasta
ligeiramente úmida de cloreto de amônio, que é um sal ácido, óxido de
Manganês e Carbono envolvem um bastão de Carbono. Nesse exemplo, o
ânodo é o revestimento de zinco, onde ocorre oxidação transferindo seus
elétrons para a pasta de manganês. Esse fluxo é direcionado para o bastão
de Carbono, fazendo dele o polo positivo. Tudo isso é envolto em uma
plaqueta de aço que envolve o corpo de Zinco como forma de proteger tanto
os componentes internos da pilha como quem a manuseia, já que esses
elementos são venenosos e potencialmente perigosos se manipulado por
crianças, algo muito fácil de acontecer. Por vezes, essa parte de zinco oxida
de tal forma que essa placa fura, fazendo com que a pilha tenha a sua pasta
interior vazada, danificando a parte interna dos aparelhos na qual ela está
inserida, já que esse composto ácido da pilha ataca o metal presente nos
terminais do compartimento da pilha. Isso acontece frequentemente em
aparelhos que ficam com pilhas velhas por muito tempo. E ao contrário do
que muitos pensam, não, ela não vai durar mais se você deixá-la na
geladeira por algum intervalo de tempo ou coisa parecida. Conforme o uso,
o óxido de Manganês vai oxidando a trióxido de Manganês e quando todo o
óxido é consumido, acaba-se a carga de forma irreversível e acaba-se a
utilidade da pilha, devendo ser descartada em locais apropriados, já que o
descarte como lixo convencional pode fazer com que os componentes
danosos da pilha venham a poluir lençóis de água futuramente se expostos
ao tempo, vazando e vir a contaminar a população próxima onde o descarte
inapropriado foi realizado, entre outros prejuízos.
 
Com certeza você já deve ter feito uso de pilhas alcalinas. Elas costumam
durar de três a quatro vezes mais do que em relação as pilhas
convencionais, apresentando por isso, um custo um pouco mais elevado.
Tem esse nome de alcalinas, porque, ao contrário das pilhas convencionais
produzidas com cloreto de amônio que é um sal ácido, esse tipo de pilha é
confeccionada com uma solução de hidróxido de Sódio ou de Potássio que
são metais alcalinos cujo pH gira em torno de 14. Essa simples substituição
já produz uma diferença severa: em meio alcalino, o ânodo de zinco corroe
de forma mais lenta, fazendo assim com que a pilha tenha sua vida útil
aumentada, além de possibilitar que este tipo de pilha possa ficar mais
tempo armazenada, ficando com até 80% da sua carga original. Esse
hidróxido, seja ele de Sódio ou de Potássio tem condutividade elétrica
muito melhor do que o cloreto de amônio, tendo por isso, melhor
rendimento. Até um tempo atrás, outro ponto positivo a favor da pilha
alcalina, é que após o uso, o descarte dela podia ser realizado em lixo
convencional mesmo, já que esse tipo de pilha não possui em sua
composição metais pesados que possa a vir prejudicar cursos de água.
Entretanto, de qualquer forma, desde 1999, o Brasil já não faz mais uso
destes tipos de metais perigosos, mesmo em pilhas convencionais, assim,
qualquer tipo de pilha comercializada no país hoje não possui quaisquer
tipos de metal pesado em sua confecção.
 
Esses tipos de pilhas têm como limitação o fator de liberar uma quantidade
de energia relativamente baixa. Mesmo a alcalina, vai sempre apresentar
valor próximo a 1,5 volts (unidade que foi criada homenageando, de novo,
Alessandro Volta). Você pode se perguntar “- Mas e a bateria de 9 volts?”
Trata-se de um conjunto de seis pilhas com 1,5 volts ligadas internamente
em série, ou seja: com cada polo negativo ligado a um polo positivo da
pilha seguinte, restando um polo positivo e um polo negativo livre nas
pontas que são os terminais da bateria. Se você é bom de contas, sabe que 6
X 1,5 = 9. Problema resolvido.
 
Com o crescente uso de dispositivos eletrônicos que requerem uma
quantidade maior de energia para o seu funcionamento, tais como aparelhos
celulares, notebooks, tablets e outros, foram desenvolvidos outros tipos de
pilhas para poder suprir essa demanda, tanto em voltagem como em
duração, já que de nada adiantaria uma bateria com boa quantidade de carga
se ela durasse por pouco tempo. Utilizando sempre uma solução alcalina
como eletrólito (a solução onde ficam os íons), já que o conceito de uma
pilha alcalina veio para ficar, vieram as baterias de Níquel-Cádmio. Com a
vantagem de serem recarregáveis, já que o processo de transferência de
elétrons do ânodo de Cádmio para o cátodo de Níquel após o esgotamento
do fluxo desses elétrons podia mediante uma carga elétrica, percorrerem o
caminho inverso fazendo com que a bateria retomasse a sua capacidade
inicial de carga. Depois de mais de 4 mil vezes realizando esse tipo de
operação, finalmente ela vinha a “falecer” devido ao acúmulo de produtos
que a reação inversa produzia, se depositando sobre os eletrodos e
impedindo a reação reversa. Outro inconveniente a respeito desse tipo de
bateria era a alta toxicidade do Cádmio, que se não for descartado em local
correto, polui o meio ambiente, e, entrando em contato com cursos de água,
mesmo em concentração muito baixa pode entre outras enfermidades mais,
causar câncer, além de diversos danos nos rins, fígado, estômago e pulmões.
Cada vez menos você verá esse tipo de bateria em dispositivos atuais, pois
foram substituídas pelas de hidreto metálico de Lítion (Ni-MH) por um
breve período. A vantagem deste tipo de bateria era que era bem menos
tóxicas do que as fabricadas com Cádmio.
 
Atualmente, as baterias utilizadas são do tipo Íons de Lítio. Essas baterias
são de longe muito mais leves que as anteriores, já que o Lítio é o metal
menos denso conhecido atualmente. Sua densidade é tão pequena que a
nível de comparação, ele é duas vezes menos denso do que a água. Sua
capacidade de carga pode chegar a cerca de duas vezes mais em relação as
de Ni-MH e até três vezes em relação a de Ni-Cd. Sua tensão é de mais de
duas vezes a de uma pilha convencional, podendo chegar a 3,5 volts. Como
se tudo isso não fosse motivo suficiente, ela ainda é atóxica, ou seja, não
apresenta perigo algum tanto para o homem como para o meio ambiente.
 
Depois de falar tanto de pilhas de 1,5 volts e baterias de celular de 3,5 e 9
volts, tire as crianças da sala. Vamos falar de baterias com cargas de
verdade. Poderosos 12 volts! As chamadas baterias automotivas,
conhecidas como baterias de ácido-chumbo, que por motivos óbvios, utiliza
eletrodos de chumbo, como o seu nome bem diz, em um meio bem ácido.
Uma bateria desse tipo possui na sua parte interna, seis células ou pilhas
que são ligadas em série (o que significa que o polo positivo de uma célula
é conectado ao polo negativo de outra célula seguinte. A extremidade
positiva de um lado e a negativa do outro formam os polos onde estarão os
12 volts) de forma semelhante ao utilizado para produzir uma bateria de 9
volts. A diferença é que esse tipo de bateria consegue produzir em cada
célula interna, cerca de 2 volts e não 1,5 como as pilhas convencionais,
dessa forma, a voltagem final são 12 e não 9 volts. Basicamente ela é
formada de chumbo, água destilada e ácido sulfúrico. Cada uma das células
é composta de placas de chumbo metálico que funcionam como polo
negativo, o ânodo, intercaladas com placas de chumbo revestidas com
óxido de chumbo que funcionam como polo positivo, o cátodo. Tudo isso
funciona mergulhado em uma solução diluída de 30% de ácido sulfúrico
para 70% de água destilada em média. A placa de chumbo vai oxidando,
isto é, perdendo elétrons para a placa de óxido de chumbo que reduz. Essa,
assim como todas as reações de oxirredução que foram citadas neste
capítulo ocorrem naturalmente de forma espontânea, sem que precise algum
tipo de auxílio ou estímulo. Quando o fluxo de elétrons cessa, a carga da
bateria acaba. Ao ser induzida uma corrente elétrica no sentido oposto ao da
carga, produzida pelo dínamo ou alternador do automóvel, o movimento de
elétrons é forçado a percorrer o caminho inverso, restaurando a carga da
bateria para que ela possa realizar a reaçãoespontânea outra vez. Com isso,
temos a recarga da bateria, que por isso são chamadas de baterias
recarregáveis ou secundárias. O nome meio que faz sentido
mesmo. 
PLÁSTICO.
 
“O começo de todas as ciências é o espanto de as coisas serem o que são”.
 
(Aristóteles)
 
O lado curioso da história do plástico, é que apesar de na Química ele ser
notadamente um produto originário de uma reação artificial realizada com
derivados de petróleo, no sentido de ser provocada pelo homem, se
enquadra na parte da Química que estuda os produtos derivados de átomos
de Carbono, a chamada Química Orgânica, enquanto que para a maioria das
pessoas a palavra “orgânica” tem o significado de natural, que encontramos
na natureza. Não estão errados em um todo.
 
Plásticos ou polímeros como são conhecidos na Química são
macromoléculas, assim chamadas devido ao seu alto peso molecular e
grande tamanho de estrutura, formados a partir de estruturas menores
chamadas de monômeros. Essas estruturas de repetem em um padrão
contínuo. Na natureza existem outras macromoléculas que ocorrem
naturalmente como o DNA humano que é uma molécula de grande peso
molecular, mas não é um polímero, já que suas partes constituintes não se
repetem de forma contínua e repetida com um padrão. Como exemplo de
macromolécula que é um polímero, temos a borracha natural que é formado
de partes que se repetem continuamente. Existe a máxima na Química a
respeito dos polímeros que diz que todo polímero é uma macromolécula
enquanto que nem toda macromolécula é um polímero. Confuso? Deixe me
tentar simplificar.
 
Para entendimento básico, como você já sabe a esta altura, átomos de
Carbono, assim como todos os átomos, podem fazer o que chamamos de
ligação com outros átomos formando compostos. Cada Carbono pode fazer,
salvo em algumas raras exceções, quatro ligações. Essas ligações podem ser
com átomos de outros elementos ou com átomos de Carbono mesmo.
Acontece que em algumas situações, esses átomos de Carbono deixam de
fazer essas quatro ligações com quatro átomos diferentes, vindo a conectar-
se a outro átomo de Carbono, duas vezes, (até mesmo três vezes, mas não se
aplica para esse nosso estudo em questão) se ligando no que chamamos de
dupla-ligação. Essa ligação dupla que ocorre, fica tensionada, sendo mais
energética e instável do que uma ligação simples. Com essa tensão entre os
átomos, através de algum iniciador químico que gera um radical livre, essa
ligação é rompida dando início a uma reação em cadeia que quebra essa
dupla-ligação, transformando a em ligação simples. A energia liberada gera
outro radical livre que vai atacar a dupla-ligação do Carbono seguinte e
assim por diante. Essas ligações vão sendo rompidas e os átomos de
Carbono vão se ligando formando uma estrutura de grande tamanho e peso
molecular. A essa molécula inicial com dupla ligação chamamos de
monômero. Esse monômero é que doa o seu nome para nome do polímero
gerado com adição do prefixo “poli”. Após a reação de polimerização, essa
parte menor que se repete é chamada de “meros”. Esse mecanismo é
conhecido como polimerização por adição e é um dos métodos mais
utilizados hoje para a produção de polímeros no mundo.
 
Os tais radicais livres, que eu mencionei acima e você, provavelmente já
deve ter ouvido falar nele alguma vez, são moléculas altamente instáveis
que se formam espontaneamente quando possuem números de elétrons, a
parte negativa do átomo, em quantidade ímpar na última camada de sua
eletrosfera, a chamada camada de valência. Esse número ímpar de elétrons
faz com que a molécula para adquirir estabilidade, simplesmente se livre
desse elétron excedente de forma a permanecer em um estado energético
mais brando ou tente capturar algum elétron de algum componente vizinho.
Em ambos os casos, é altamente reativo e quando ocorre em processos
naturais pelo funcionamento normal do organismo, este possui formas de
neutralizar o processo produzindo moléculas que funcionam como
antioxidante, que doam elétrons para este radical de forma que ele fique
estável, sem que, no entanto, este antioxidante fique instável devido à perda
de elétrons para o radical livre.
 
Diversos processos realizados pelo corpo humano produzem radicais livre.
A respiração é um deles. O organismo como mecanismo de defesa possui
meios de neutralizar a ação destes radicais produzindo outras moléculas
para eliminar o dano produzido por estes radicais livres, os antioxidantes.
Acontece que algumas vezes, por interferência do meio externo, radicais
livres agridem o organismo, fazendo que somente a proteção natural do
corpo não seja suficiente, ocorrendo envelhecimento precoce e
enfermidades devido a estas agressões. A poluição, o álcool e o cigarro são
exemplos clássicos de fatores que influenciam na produção de radicais
livres que podem vir a agredir o corpo humano.
 
Um fato curioso a respeito de antioxidantes é que esta propriedade de doar
elétrons para radicais livres, fazendo-os estáveis só se faz presente quanto
estão em meio com substâncias oxidantes. Em suma, quer dizer que um
antioxidante em outra situação pode também se comportar como um
oxidante. Tudo vai depender da situação a qual ele for submetido.
 
Voltando a polímeros, quando é utilizado apenas um determinado tipo de
monômero na reação de polimerização, dizemos que é um homopolímero
(nome conveniente, já que foi utilizado apenas um monômero), e,
chamamos de copolímero quando utilizamos dois ou mais monômeros
diferentes para gerar o polímero.
 
Chamamos de plásticos, os produtos oriundos de sínteses de polimerização
onde é gerada a maioria quase absoluta de embalagens, borrachas,
brinquedos e até mesmo em vestuários utilizados atualmente.
 
Como já foi dito, alguns polímeros ocorrem naturalmente como o caso do
DNA, a celulose (matéria-prima do papel), o amido, as proteínas, a
borracha e muitos outros.
 
Em meados de 1800, visando melhorar as propriedades da borracha, um
polímero natural que era muito sensível ao calor, amolecendo ao menor
aquecimento a que era submetido, dificultando até mesmo o transporte das
enormes bobinas que eram extraídas das seringueiras, foi adicionado por
Charles Goodyear (o nome não lhe é estranho, certo?) enxofre e levadas a
aquecimento em altas temperaturas gerando a borracha vulcanizada (em
homenagem ao deus romano do fogo, Vulcano), o que possibilitou o
endurecimento e resistência a altas temperaturas da borracha, já que este
aquecimento e adição de enxofre faz com que a borracha sofra um processo
conhecido como reticulação onde suas cadeias se intercruzam formando
uma estrutura rígida que lhe confere as propriedades melhoradas contra o
calor e atrito.
 
O primeiro polímero sintético, produzido pela ação do homem só veio a ser
criado no começo de 1900, onde através da reação entre fenol e
formaldeído, Leo Baekeland veio a criar o baquelite. Polímero de grande
dureza e resistência que foi de grande importância para os esforços de
guerra dos Estados Unidos na época, fazendo parte de componentes de
armamentos e chegando até mesmo a fabricar moedas em uma época onde
os metais estavam escassos devido a grande procura por causa dos tempos
de conflito. Ainda hoje você encontra o polímero de Baekeland em cabos de
panela devido à sua grande resistência térmica.
 
De lá para cá, a quantidade de polímeros que foram e são gerados é tão
grande e assunto fácil para um livro inteiro. Se você reparar, desde o
primeiro momento do seu dia, já faz uso de polímeros e nem se dá conta,
tamanha a importância e gama de aplicações dele no dia a dia.
 
Ao acordar, quando você toma um banho para ir trabalhar, lava a cabeça
com xampu, a embalagem é um polímero – o polietileno. Repare que todo
polímero apresentará esse poli precedendo o nome do monômero a partir do
qual ele foi gerado, nesse caso, o etileno ou eteno. É um gás a temperatura
ambiente que após sofrer a reação de polimerização, se torna um plástico
que pode vir a ser duro ou flexível apartir da densidade que for produzido.
Imagine que a estrutura do etileno são dois Carbonos ligados por duplas-
ligações. O restante das ligações que o Carbono faz são com dois átomos de
Hidrogênio cada em Carbono. Isso faz do polietileno o polímero mais
simples existente. Seus “meros” são formados por dois átomos de Carbono
apenas.
 
Imagine que, acabando o banho, ao se secar usa uma toalha de algodão – a
celulose que compõe as fibras da toalha, apesar de ser natural, ainda sim é
um polímero. Ao se vestir, existe uma probabilidade muito grande de estar
vestindo uma peça de poliéster – outro polímero cuja reação é um pouco
diferente em comparação ao polietileno que é produzido através da
chamada polimerização por adição, onde os monômeros são adicionados e a
reação ocorre segundo o mecanismo citado anteriormente onde duplas
ligações são quebradas gerando duas ligações simples. Para se produzir um
poliéster, ocorre uma reação de condensação onde um reagente orgânico
(como você sabe, formado por átomos de Carbono) chamado éster reage
com outro reagente com um grupo funcional similar ao álcool. Esses dois
reagentes possuem esses grupos reativos nas “pontas” das suas estruturas,
vindo a reagir entre si em uma reação em cadeia gerando poliéster e água,
que é descartada do processo. Essa reação é chamada de polimerização por
condensação.
 
Continuando, ao se dirigir para a cozinha para tomar café, não importa onde
ele será feito, no coador de pano ou no filtro de papel, tem celulose na
parada. O copo que você usa, tem, adivinhe, polímero. Sempre o “poli”
acompanhando. Polipropileno, similar ao polietileno, com a diferença que
seu mero apresenta um átomo de Carbono a mais. Por possuir ponto de
amolecimento mais alto (na Química, isso é chamado tecnicamente de
temperatura de transição vítrea, que é a temperatura onde ele deixa de ser
rígido e se deforma, característica de polímeros termoplásticos, que podem
ser moldados através do calor), é utilizado para armazenar substâncias
quentes sem se deformar, como o seu café, por exemplo.
 
Ao escovar os dentes, a escova de dentes tem o cabo fabricado com
polipropileno e cerdas de poliéster. Até os canos da parte hidráulica da casa
tem... polímeros. Formados de policloreto de vinila, o PVC, a partir de um
monômero clorado, ou seja, com um átomo de Cloro pendurado na estrutura
além dos já convencionais átomos de Carbono e Hidrôgenio. Esse tipo de
polímero possui uma faixa de aplicação muito ampla devido ao uso de
aditivos em sua composição final, que altera suas propriedades de acordo
com a necessidade de onde ele vai ser aplicado, sendo também utilizado
além dos canos, em brinquedos, variando de dureza conforme a adição dos
aditivos em maior ou menor escala.
 
Se você tiver a ideia de fritar um ovo para acompanhar o café, pode usar
uma frigideira anti-aderente, forrada com politetrafluoretileno, conhecido
pelo nome comercial de teflon, um polímero assim como o PVC, não
exclusivamente produzido a partir do petróleo. O etileno do nome vem da
molécula do etileno com todos os Hidrogênios que deveriam estar ligados
ao Carbono substituídos por átomos de Flúor. Esses átomos de Flúor
formam uma camada inerte sobre os Carbonos fazendo com que
praticamente nada reaja com eles. Por isso a impermeabilidade das panelas
e frigideiras forradas com esse material que faz com que praticamente nada
grude na sua superfície. Você pode ainda, durante o processo de fritura do
ovo, vir a utilizar algum utensílio de nylon, que é o nome comercial de um
polímero produzido por polimerização de condensação utilizando ácidos
carboxílicos e aminas (outros dois grupos funcionais orgânicos – no caso
das aminas, contando com a presença de átomos de Nitrogênio).
 
Continuando, você pega suas coisas para trabalhar, celular (vários tipos de
polímeros vão compor sua estrutura, variando de acordo com marca e
modelo) e o chaveiro de casa e/ou do carro (mais polímero). Se você for
fazer uso de um automóvel, saiba que os bancos (assim como o colchão
onde você dormiu), tem espuma de poliuretano (outro tipo de polímero
produzido a partir de poliéster e um outro grupo funcional orgânico
chamado de isocianato), assim como o painel, volante e alguns
componentes do motor, como coxins e calços. Os pneus são de borracha,
um polímero natural, lembra? Como se não fosse o suficiente, os faróis e
lanternas são compostos de polimetacrilato, um tipo de polímero produzido
com monômeros acrílicos que possuem assim como o etileno, duplas
ligações em sua estrutura, mas apesar da estrutura ser a de um éster,
possuindo os grupos funcionais que o caracterizam, não sofrem reação de
condensação, mas sim de adição, já que a reação ocorre justamente nestas
duplas ligações presentes em suas estruturas. Possuem estrutura
ramificadas, quer dizer, não são lineares e simples. Para visualizar melhor, é
como se a cadeia principal fosse uma árvore e as ramificações seriam os
galhos. Essas ramificações conferem ao polímero uma estrutura
intercruzada que faz com que ele apresente dureza elevada, sendo inclusive
conhecido como “vidro plástico”. Por causa disso são chamados de
termofixos ou termorígidos pois não amolecem ou deformam quando
submetidos a altas temperaturas como os termoplásticos. Ao serem
expostos a temperaturas acima do seu ponto de transição vítrea se
decompõem, sendo destruído, e por este motivo, sendo até mais difícil de
reciclar.
 
Outro exemplo parecido é o do PET, o mesmo das garrafas de refrigerantes.
O Politereftalato de Etileno (por isso chamam pela abreviação. O nome
original é um trava-língua). A tinta que reveste o carro, o ônibus, as paredes
da casa, tudo polímero – O PVA, poliacetato de vinila, com grupos
funcionais semelhantes aos acrilatos, está presente na composição de tintas
para formar aquele filme protetor quando ela seca. Está presente também na
cola branca. Essa mesma de colar papel e madeira.
 
Se por acaso, no caminho do trabalho vier a comprar alguma coisa que
venha em embalagem de isopor, saiba que ele também é um polímero. O
poliestireno (de sigla PS). O estireno, o monômero utilizado para a
fabricação do isoportem em sua estrutura o que chamamos de anel
aromático, que é um anel fechado composto de 6 átomos de Carbono
ligados entre si em formato de um hexágono que ficam literalmente
alternando entre simples e duplas ligações para garantir sua estabilidade.
Apesar de toda essa alternância de ligações, a reação ocorre em um
Carbono com dupla ligação que fica fora desse anel, estando apenas ligado
à ele. No final das contas, a reação é parecida com a que ocorre em etileno,
propileno e acrílicos.
 
Computador, TV, geladeira, micro-ondas e qualquer outro eletrodoméstico
que você possa imaginar vai ter um ou mais tipo diferente de polímero em
sua composição. Todo tipo de embalagem que estiver no armário
acondicionando alimento, lá estará o polímero presente. Qualquer tipo de
calçado vai ser composto basicamente de polímero. Até mesmo um calçado
de couro, vai apresentar polímero. O couro é todo tratado com resinas que
vão desde o tratamento inicial até o acabamento final. Existe polímero até
mesmo, quem diria, em medicamentos que usamos. São utilizados com
várias funções, tais como aumentar a solubilidade do princípio ativo do
medicamento em determinado fluido corporal ou revestir esse princípio de
forma a permitir que ele chegue o mais longe possível no organismo para
que seja liberado no local apropriado. Leia algumas bulas. Em algumas
você vai descobrir algum “poli” utilizado.
 
Na industria alimentícia também é feito o uso de polímeros. São utilizados
como espessantes para diversos tipos de alimentos, tais como sopas
instantâneas e sorvetes, assim como na indústria de cosmético com a
mesma finalidade: espessar xampus e géis de cabelo.
 
Na área de higiene, outro polímero, o poliacrilato de Sódio utilizado como
gel em absorventes íntimos e fraldas possui a propriedade de absorver até
800 vezes a sua massa em água. Por apresentar essa propriedade, ele é
utilizado parareter fluidos aquosos formando um gel. Ao absorver a água, o
polímero forma uma rede tridimensional que aprisiona as moléculas de
água em seu interior.
 
Difícil, para não dizer impossível, passar um dia da vida sem fazer uso de
polímeros. O inconveniente agora é o que fazer para descartar um produto
que pode chegar de 50 a 200 anos para poder ser degradado, destruído pela
natureza. Assim como o caso de espécies de animais que são introduzidos
pelo homem em determinados locais e, por não apresentar predadores
naturais no novo ambiente, acabam por se reproduzirem de forma
descontrolada, já que não possuem uma espécie que os consumam,
introduzindo-os no ciclo alimentar local, os plásticos ainda não possuem um
micro-organismo específico responsável por consumi-lo assim como as
diversas espécies orgânicas existentes que são degradadas rapidamente.
Enquanto isso não acontece (deve demorar alguns milhares de anos), a
estrutura de um polímero que não se degrada naturalmente, acaba por
infestar os aterros sanitários e os mares. Por possuírem baixo valor
comercial para reutilização e reciclagem, fica ainda mais difícil estimular o
correto descarte desses tipos de embalagens. Com esse esforço, foi
desenvolvido na década de 70 (a preocupação não é recente) um polímero
que fosse suscetível ao ataque bacteriológico,e,portanto degradado pelo
meio ambiente. O Polihidroxibutirato desenvolvido tem tempo estimado de
degradação entre seis e doze meses. Comparado aos 50 anos do polímero
tradicional com menor biodegradabilidade, já que alguns podem levar até
200 anos para serem degradados, alguns meses não são nada. O porém vem
do custo final do Polihidroxibutirato que pode chegar a cinco vezes o valor
de um polímero convencional, além de não apresentar a mesma
flexibilidade de um plástico normal, limitando assim a sua utilização, já que
não possui aplicação tão diversificada.
 
Além da preocupação com o espaço físico para destinar o descarte final das
embalagens, ainda ocorre a poluição de curso de água com esse material
que pode acabar por interferir no ecossistema deste local, já que alguns
animais acabam por consumir fragmentos destas embalagens, confundindo-
os com alimento. O resto de embalagens acaba por sufocar ou mesmo travar
o intestino do animal, o que acaba acarretando a morte de várias espécies.
Pensando nisto, alguns pesquisadores japoneses vem realizando estudos
utilizando micro-organismos como o ideonellasakaiensis que podem
degradar embalagens produzidas até mesmo com o PET em seis meses.
Como se trata apenas de estudos iniciais, os resultados ainda podem
demorar alguns anos a aparecer. E mais tempo ainda se leva para avaliar
algum possível estrago que esse micro-organismo pode produzir ao ser
introduzido em um meio ambiente diferente ao qual ele costumava habitar.
Ainda vai ser necessário muito tempo para poder ser introduzido como
resposta definitiva para o problema.
REFRIGERANTES.
 
"A ciência serve para nos dar uma ideia de quão extensa é a nossa
ignorância."
 
(Félicité Robert de Lamennais – Filósofo francês.)
 
Durante nossa vida esbarraremos em uma ou outra pessoa que não toma
refrigerante, seja lá qual for a convicção da pessoa. Seja pelo açúcar, seja
pelo adoçante ou mesmo pela acidez. A única certeza que você pode ter em
relação a essa pessoa é... Ela está certa. O refrigerante é uma bomba de
açúcar cuidadosamente formulada para não parecer isso. Dependendo do
sabor do refrigerante, alguns insumos utilizados destes citados acima
entrarão em maior ou menor quantidade. Menos o açúcar. Esse entra e
muito.
 
Uma lata de refrigerante de cola famoso no mercado, com 350 ml possui 37
gramas de açúcar. Considerando a densidade da bebida como próxima à da
água, é mais de 10% do total. Significa que em 100 partes, mais de 10 são
de açúcar. Preocupante não?
 
O excesso de açúcar no sangue é perigoso para pessoas com diabetes (que
não são as dançarinas do diabo, mas uma doença muito perigosa). Apesar
que, este excesso no sangue não é uma preocupação somente de diabéticos,
pois, se constante, pode acarretar problemas como cicatrização lenta, ganho
de peso, visão embaçada e muitos outros, além do que, o corpo o
metaboliza em gordura, que acaba acarretando entre outros danos, o
sobrepeso, além do acúmulo desta gordura em veias e artérias.
 
 
A parte boa disso tudo é que quando a pessoa não tem diabetes, cortando
alimentos ricos em açúcar já resolve boa parte do problema.
 
Não pense em tentar levar uma vida mais saudável migrando para
suquinhos prontos, destes que você encontra facilmente em prateleiras de
supermercados. Uma lata de 350 ml desse tipo de bebida, desses que você
encontra nas prateleiras, com suas caixas bonitinhas têm quase o dobro da
quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde. Melhor
procurar outra coisa, digamos assim, menos doce. Voltemos ao refrigerante,
que é do que se trata o capítulo.
 
Dizem que os primeiros refrigerantes foram fabricados na França por volta
de 1670, mas aquilo não podia ser chamado de refrigerante. Era apenas um
preparado com água, limão e açúcar. Era no máximo um refresco. Algo
próximo ao refrigerante como conhecemos hoje só veio a ser
comercializado uns 150 anos depois na Inglaterra. Inicialmente como
remédio (veja só a ironia), tanto que um dos mais famosos fazia uso, e
ainda faz até hoje, da pepsina, uma enzima presente no mecanismo da
digestão para justamente amenizar os efeitos de desconforto causado pela
ingestão de algum alimento mais pesado, mais gorduroso. Fez tanto sucesso
que foi mais tarde, difundido mundialmente em escala global. Você conhece
alguma cultura que não faça uso do refrigerante hoje?
 
Se o açúcar já é mal afamado, o Sódio também não fica atrás. O cloreto de
Sódio, a forma mais comum de Sódio que consumimos no dia a dia também
tem forte presença nesses bebíveis. O sal entra na fórmula do refrigerante
para aumentar a percepção dos sabores presentes. Como tem ação direta
sobre as papilas degustativas, a grosso modo, permite a abertura dessas
papilas e possibilita melhor apuração dos gostos dos diversos componentes
que lhe dão sabor. O sal ajuda a balancear o sabor adocicado da bebida. Se
não fosse por ele, o refrigerante teria sabor excessivamente doce e
enjoativo. A versão diet e light, que não possuem açúcar em sua
formulação, acabam por possuir mais Sódio, já que os edulcorantes
(adoçantes) presente para conferir o sabor doce são em sua maioria
compostos sódicos, isto é, com átomos do elemento Sódio pendurados em
suas estruturas. Em contrapartida, o sal quando presente no corpo humano,
por ser altamente polar e possuir grande afinidade com as moléculas de
água, as atrai, alterando o equilíbrio do corpo, aumentando a necessidade
corporal de água. Por isso sentimos sede quando comemos algo muito
salgado. Com a quantidade de Sódio alterada no corpo para mais, o corpo
demanda maior quantidade de água para digamos assim, casar com o sal.
Em média, apesar da recomendação da OMS de 2000 mg de Sódio, o que
dá em torno de 5 gramas diárias de sal comum, o brasileiro consome em
média 12 gramas! A cada 9 gramas consumidos o corpo retém cerca de 1
litro de água. Essa afinidade dele com a água aumenta o volume de sangue
circulando pelo corpo, daí a pressão alta. E se o corpo manda a mensagem
de que precisa de mais água – a sede – e a solicitação não for atendida, o
cérebro responde aos rins produzindo hormônio antidiurético que vão fazer
com que eles retenham a água. Se você não abastece da forma que ele
requisita, ele segura o que tem. Isso é vital se estivermos em um local sem
água, para não ocorrer desidratação. Às vezes, nossos próprios mecanismos
de defesas acabam agindo contra nós, apesar das boas intenções. Por isso
que um dos sintomas das pessoas que apresentam hipertensão é justamente
um inchaço no corpo, justamente por causa da retenção de líquidos. Os
medicamentos utilizados para tratar a hipertensão agem de forma a forçar o
corpo a eliminar água e com ela o excesso do Sódio presente. O nomediurético vem disso, significa que provoca a diurese, o ato de urinar.
 
Para avaliar a quantidade de Sódio em um refrigerante, devemos levar em
consideração não só o cloreto de Sódio, mas também os outros compostos
com Sódio presentes na formulação. Os refrigerantes ditos diet e light
possuem uma quantidade maior de Sódio, como já foi mencionado, pois
alguns dos adoçantes utilizados nessa indústria possuem o metal na
fórmula. Ciclamato e sacarina são alguns. Podem também estar na forma de
benzoato atuando como conservante. No meio aquoso e ácido do
refrigerante ele gera ácido benzoico que combate praticamente qualquer
micro-organismo que porventura poderia se desenvolver no líquido. Outro
problema gerado com a presença deste ácido é que pode reagir em pequenas
quantidades com o ácido ascórbico utilizado como antioxidante (a popular
vitamina C) que funciona de forma a evitar degradação de alguns
ingredientes da fórmula, formando benzeno, que é uma substância
cancerígena, que está presente, por exemplo, em gasolina e alguns solventes
de limpeza pesada. Era só o Sódio, agora estamos falando de câncer. Olha
só no que você se meteu.
 
Apesar do alarde que existe em torno da quantidade de Sódio presente nos
refrigerantes, principalmente nos de baixa caloria, seria necessário ingerir
uma quantidade muito grande da bebida para exceder a quantidade máxima
diária recomendada pela Organização Mundial de Saúde de 2000 mg por
dia. Nem em um dia mais empolgado de um abstêmio em um churrasco, ele
conseguiria beber 14 litros de refrigerante de cola diet ou 39 litros da versão
normal. Isso falando de exageros diários, já que um dia só não influenciaria
muita coisa. Bebendo uma quantidade dessas de refrigerantes, imagina-se lá
mais em que exageraria. Provavelmente morreria de outra coisa antes. Se
quiser parar de beber refrigerantes, pode culpar outro componente, porque o
Sódio não “cola”.
 
Quase 90% da fórmula de um refrigerante é constituída de água. Quanto a
isso não precisa se preocupar. A água é tratada e isenta de qualquer
impureza que possa comprometer o paladar e aspecto no futuro. Ela entra
no processo quase inerte, de forma a não interagir com os diversos
compostos que serão adicionados no decorrer da produção. Quanto a micro-
organismos, não sobreviverão no refrigerante pelo simples motivos deste
ser tão ácido que dificilmente vai haver alguma bactéria ou fungo que
consiga proliferar nesse meio (o Helicobacter pylori como você já sabe,
consegue, mas o que diabos ele faria dentro do refrigerante?). O pH médio
de um refrigerante de cola é algo em torno de 2,5. Para se ter uma ideia, é
tão ácido quanto o caldo de limão e o vinagre. O meio do refrigerante é
ácido justamente para evitar que algum organismo vivo venha a se
reproduzir e alterar o sabor ou o aspecto da bebida. Além de ajudar a realçar
o sabor dos compostos aromáticos que compõem o aroma da bebida. Esses
compostos são muito propensos a sofrer degradação pela ação de micro-
organismos, por isso justifica um meio tão ácido. Você deve estar se
perguntando como que com tanto ácido e sal o refrigerante não é azedo nem
salgado. A resposta é o açúcar. Ele torna possível a adição desses insumos
sem que o gosto deles seja notado. A lista é extensa: ácido fosfórico em
refrigerantes de cola (pesa também contra ele o fato de gerar íons fosfato
que podem atuar como sequestrante de Cálcio, enfraquecendo ossos e
dentes), ácido benzoico (age como antibactericida e antifúngico), ácido
ascórbico (funciona como antioxidante. Evita que alguns compostos
responsáveis pelo sabor sofram degradação e envelhecimento precoce. Pode
reagir com o ácido benzoico formando benzeno carcinogênico), ácido
tartárico (em refrigerantes sabor uva) e ácido cítrico (presente em
refrigerantes sabor limão). Em refrigerantes de cola é também feito uso da
cafeína para ajudar a acentuar o sabor.
 
Em relação aos sabores, segundo a quantidade e seguindo a lei que claro,
vai variar de local para local, são adicionados os compostos para conferir
sabores ao refrigerante. De acordo com o sabor, deve ser adicionada uma
mínima percentagem do extrato natural relativo ao sabor em questão. Pode
ser uma quantidade desprezível como a do guaraná que é de alguns
centésimos de grama de extrato da semente por 100 mililitros na bebida no
Brasil, até quantidades significativas como é o caso do refrigerante de maçã
que deve conter pelo menos 16% do extrato natural, isso em Portugal.
 
Por último e não menos importante é adicionado o gás carbônico, o CO2 à
água. Com isso ácido carbônico é gerado. Esse ácido é muito volátil, por
isso que uma garrafa de refrigerante que não é consumido em sua totalidade
acaba perdendo o gás depois de um determinado tempo. Conforme a garrafa
vai esvaziando, fica mais espaço vazio para o gás se desprender do líquido.
A ação do gás quando o refrigerante é consumido provoca sensação de
frescor provocado pela passagem do gás carbônico no esôfago. O ácido
carbônico tem sua solubilidade aumentada quando o refrigerante é
resfriado. Por isso que quando você pega uma garrafa com ele quente, tende
a sair mais gás quando você abre do que em relação a uma garrafa com ele
gelado. À medida que ele é resfriado, mais ácido carbônico é dissolvido.
Com isso, o pH diminui mais ainda, já que ele é um ácido. No momento do
envase ainda adicionam mais gás carbônico no vasilhame sob pressão.
Como esse ácido é muito volátil, ao abrir a garrafa, essa pressão é liberada,
e esse ácido começa a se decompor em água e CO2. Por isso a formação
das bolhas quando abre a garrafa. Team suco ou team refrigerante? De
repente pode ser melhor escolher ficar com o team água mesmo.
SAL DE FRUTAS.
 
“A ciência é o melhor instrumento para medir a nossa ignorância”.
(Paolo Mantegazza – neurologista, fisiologista e antropólogo italiano.)
 
Para começo de conversa, o sal de frutas tem fruta sim. Não a fruta em si,
mas um ácido que é encontrado em frutas cítricas como laranja e acerola. O
ácido adivinhe o nome – cítrico, faz parte da composição básica do sal de
frutas junto com o bicarbonato de Sódio; esse sim é um sal, quimicamente
falando. Juntos se transformam em um rápido e eficiente artefato para
eliminar o desconforto provocado por uma refeição mais pesada, de
digestão mais demorada, que demanda uma maior quantidade de ácidos
para ser processada, ou mesmo alguma patologia na região do esôfago. O
nome técnico vem do grego, pirose, que significa “ato de queimar”, mas
conhecemos mesmo pelo nome de azia.
 
A azia ocorre quando o organismo produz uma quantidade maior de ácido
clorídrico e de ácido lático no suco gástrico do que deveria para realizar a
digestão. Por diversos fatores ele pode ser levado a se “equivocar” desta
maneira. Pode ser devido a ingestão de comidas gordurosas, consumo de
determinado tipo de medicamento (como a aspirina, que irrita a mucosa
gástrica, por exemplo) ou mesmo por alguma patologia que a pessoa possa
apresentar como refluxo gastrointestinal ou úlcera.
 
O corpo humano se autorregula o tempo todo. A evolução fez e continua
fazendo um trabalho admirável (mesmo que você não acredite nela). O
sangue, por exemplo, possui pH 7,4. Ainda que o organismo seja
alimentado de forma errada, por mais que faça uso de drogas, lícitas ou não,
o corpo vai sempre manter esse balanço, a menos que ocorra alguma
condição patológica (doença), esse balanceamento sempre que possível,
será mantido.
 
Quando da ingestão de alimentos “pesados”, de difícil digestão que
demandam uma quantidade maior de ácido para quebrar as moléculas e
transformar em algo útil para o corpo humano, ou quando da ingestão de
alimentos ácidos tais como frutas cítricas, ou cafeína ou consumo acentuado
de bebidas alcoólicas ou, mais uma vez citando, a ocorrência de alguma
condição patológica, pode ocorrer a sensação nada agradável de queimação
no esôfago. Sim, porque apesar de ser o estômago o responsável por fazer a
“trapalhada” de produzir ácidos em excesso, nenhum dano vai ser sentido
naquela região, já quetoda ela é feita para suportar a carga pesada ácida que
lhe é imposta. Quem sofre os efeitos na verdade é o esôfago, que possui
uma estrutura bem mais modesta e não consegue suportar a carga de ácidos
que sobe para ele. Não se pode culpar o estômago por isso. Na maior parte
das vezes que isso ocorre, a culpa em si é da sobrecarga ao qual
submetemos o sistema, isso claro, excluindo os casos de doenças.
 
O organismo faz o que é necessário no momento – situações extremas
exigem medidas extremas – produz e entrega uma quantidade maior de
ácido clorídrico e ácido lático (apesar deste ser em quantidade bem
pequena), os ácidos do qual o suco gástrico é composto, para fazer o
trabalho. O grande problema é que essa quantidade em excesso provoca um
mal-estar tremendo. Sensação de ardência e queimação no esôfago quando
ocorre refluxo, ou seja, uma quantidade do suco gástrico sobe pelo esôfago,
que é um lugar digamos assim, mais sensível, nada comparado a mucosa
gástrica que já tem estrutura para aguentar essa agressão. Dependendo do
tempo e da intensidade, pode fazer um estrago considerável, sem contar que
a longo prazo pode acarretar até mesmo câncer de esôfago segundo
pesquisas recentes, pois as lesões mal curadas são perigosas nesse sentido.
 
O antiácido ou sal de frutas como é conhecido não é a única, mas é a forma
mais fácil e rápida de tratar os sintomas da azia. Existem outras formas
mais elaboradas que agem na chamada “bomba de prótons” que atuam
inibindo a produção de suco gástrico, em suma: demora mais para fazer
efeito e depois que faz, demora mais tempo para parar de fazer efeito. O
antiácido convencional entrega o serviço de forma rápida (o alívio rápido de
6 segundos prometidos na propaganda é real mesmo).
 
Pois bem, se o problema da azia consiste no excesso de ácido clorídrico,
então, o pensamento químico mais lógico seria neutralizar o ácido, ou seja:
transformar todo esse excesso em água e sal (de preferência o cloreto de
Sódio, o mesmo sal de cozinha que já é um sal presente no organismo),
mas, só isso na verdade, não resolveria o problema em si. Na Química,
quando queremos eliminar um ácido em uma situação, utilizamos a
chamada reação de neutralização onde adicionamos um reagente
(normalmente uma base) que após reagir com o ácido vai gerar como
produtos, água e um sal. A presença de uma base somente, como o
bicarbonato de Sódio reagiria com o ácido, gerando como produto o cloreto
de Sódio (o sal de cozinha mesmo), a água e o gás carbônico, o CO2 (na
forma de arroto). O alívio é sentido instantaneamente, mas com a
neutralização do ácido no estômago, o corpo em sua autor regulação
produziria uma quantidade adicional dos mesmos ácidos para repor o que
foi perdido. A sensação de alívio seria rápida, mas voltaria dentro de algum
tempo, só o tempo mesmo do organismo repor esses ácidos. O corpo é
muito inteligente para ser enganado desta forma tão frívola. Foi preciso
uma forma um pouco mais elaborada, digamos assim. Surgiu o antiácido.
 
Esse “remédio para azia” possui em sua formulação basicamente ácido
cítrico e bicarbonato de Sódio, todos em forma sólida, como pó. Apesar de
parecer que o bicarbonato resolveria a parada, ele reage e some antes
mesmo de entrar no organismo. Quer dizer, a maior parte, já que pode
ocorrer de no momento da reação “sobrar” uma ou outra molécula, que
nesse caso é absorvido e metabolizado sem problemas adicionais para os
rins ou outros órgãos em questão. Ocorre quando no momento da adição da
água, a reação entre o ácido cítrico e o bicarbonato gerando um sal
levemente alcalino ou básico (como o bicarbonato) chamado de citrato de
Sódio, gás carbônico que é levemente ácido, e água.
 
Lembrando que no momento do uso do sal de frutas diluído em água, já não
tem mais ácido cítrico e nem o bicarbonato (esse sim pode haver algum
resquício, mas como já foi dito anteriormente, em quantidade pequena,
quase desprezível). Ao ingerir a solução, o citrato de Sódio reage com o
ácido clorídrico gerando veja só: ácido cítrico! Utilizando a máxima
“fightfirewithfire” (fogo contra fogo), usamos ácido para resolver o
problema do excesso de ácido. Contraditório? Pode até parecer, mas claro,
tem um bom motivo, uma boa explicação. Como já foi dito, usar
bicarbonato e “acabar” com o ácido seria um “tiro na culatra”, pois geraria
mais ácido para repor a baixa causada. O citrato que é um sal levemente
básico, ao reagir com ácido clorídrico presente no suco gástrico, forma
cloreto de Sódio e ácido cítrico que é um ácido fraco que não provoca o
efeito reverso de produção de mais ácido, o chamado “efeito rebound”, pois
o ambiente continua levemente acidificado, fazendo com que o organismo
entenda que não é necessária a produção de mais solução gástrica ácida.
Com isso a azia cessa, e a sensação de alívio vem após um arroto que é
inevitável, já que além do próprio gás carbônico que foi ingerido na solução
(as bolinhas que efervescem quando a água é adicionada), mais desse gás é
gerado na reação que ocorre dentro do estômago. Qualquer excesso que
possa ocorrer de bicarbonato que porventura possa ter sobrado é absorvido
pelos rins e intestino delgado. Funcionamos na maioria das vezes como um
reator químico e nem nos damos conta disso.
TRATAMENTO DE ÁGUA.
 
"Enquanto o poço não seca, não sabemos dar valor à água."
 
(Thomas Fuller – Historiador britânico.)
 
Em um mundo perfeito, a água in natura chegaria perfeita para consumo nas
torneiras de casa. Mas não no mundo real e mau da Química! A água que
consumimos não é apenas H20 como aprendemos nos primeiros anos de
escola. Ela possui vários sais minerais dissolvidos nela, e a menos que você
destile ou deionize, esses sais minerais estarão lá, sendo inclusive,
necessários para o corpo humano. Esses sais têm uma afinidade tão grande
com a água que se uma pessoa consumir água destilada, que é água pura no
“sentido químico” da palavra, ou seja: dois átomos de Hidrogênio e um
átomo de Oxigênio, este tipo de água vai arrastar os sais disponíveis pelo
corpo e vindo a trazer mais prejuízo do que benefícios. Se estiver um dia
preso em uma ilha, cercado de água salgada, nada de destilar a água do mar
para beber. Vai ter o mesmo efeito prático de beber a água salgada. O corpo
ficará desidratado por causa do arrasto de sais minerais. A morte por
desidratação será poética. Melhor tentar procurar uma fonte de água doce,
ou ainda que não tão boa assim, uma fonte de água salobra. Vai ter uma
quantidade considerável de sal nela, que provoca um efeito diurético,
fazendo com que a desidratação seja um pouco maior do que seria se você
bebesse água doce, mas vai aumentar a chance de sobrevivência. Dá para
esperar mais tempo para que aquele sinal de fumaça consiga chamar a
atenção de alguém.
 
 
Em condições normais, na maioria das vezes, a água apresenta qualidades
organolépticas que indicam quando ela está própria para consumo (inodora,
ou seja: sem cheiro. Incolor, ou seja, transparente, sem apresentar coloração
adicional, ou mesmo turva e também insípida, ou seja, sem gosto). Ocorre
que, no meio ambiente ela pode, em alguns casos, sofrer contaminação.
Algumas vezes, simples, por impurezas insolúveis que são separados
fisicamente, outras vezes por contaminações mais severas como coliformes
(grupos de bactérias) que são invisíveis a olho nu. Essa contaminação torna
necessário o tratamento da água para a posterior distribuição e consumo.
 
Ainda que possa parecer uma preocupação recente, povos antigos já tinham
certa noção que a água poderia acarretar problemas futuro se consumida
sem o mínimo tratamento necessário. Na Índia foram encontrados
sânscritos antigos que relatam tratamentos dispensados a água, tais como
aquecimento, seja ele pelo fogo ou mesmo por aquecimento direto pelo sol
e posterior filtração com carvão, cascalho e areia. Com essa forma, ainda
que rudimentar, faziam um tratamento biológico e físico da água.
 
Desde os tempos antigos, por volta de 2500 a 2000 A.C, os egípcios já
tinham o costume de tratar suas águas comcinzas de origem vulcânicas,
cinzas essas que podem ter sido trazidas por comerciantes vindo de
caravanas estrangeiras dos países vizinho, já que as terras que compunham
o território do Egito na época não tinham nenhum vulcão em seus limites.
Há também a possibilidade de ser proveniente de uma possível erupção de
um vulcão na ilha grega de Santorini ocorrida há pelo menos 3500 A.C. e
que fica a aproximadamente 800 km do delta do rio Nilo, o famoso rio que
corta o Egito, já que algumas escavações arqueológicas foram encontrados
resto de pedra pome de origem vulcânica que ficaram comprovados serem
do tal vulcão. De uma forma ou de outra, não é certo saber como obtiveram
essas cinzas. O certo é que eles sabiam que o uso desse material, rico em
sulfato de Alumínio podia aglutinar, aglomerar as impurezas da água,
transformando as águas turvas em cristalinas ao adicionar esse material
nelas. Ainda hoje, esse é o método mais utilizado para tratamento de água
no mundo. Cerca de 90% do tratamento de água realizado hoje ainda utiliza
o sulfato de Alumínio.
 
Para o tratamento, a água é captada em seu meio mesmo, que normalmente
se trata de um rio, lago ou cachoeira. Preferencialmente, uma fonte da
chamada água doce, até porque, para a água do mar que é salgada se tornar
potável, pode acarretar um aumento do custo final do tratamento da água
em até 70% em relação ao tratamento convencional. A dessalinização é um
processo caro. Algumas cidades no mundo onde a água potável é escassa ou
inexistente utilizam essa tecnologia. O lado ruim disso é que nesse
processo, acaba sendo retirados também outros sais minerais como os de
Cálcio, Potássio e Magnésio que são essenciais para o bom funcionamento
do corpo humano. Outro porém é que se consegue em média um terço do
volume original da água tratada, ou seja: são necessários 3 litros de água do
mar para se obter 1 litro de água própria para consumo.
 
Um outro inconveniente que surge é o descarte dos outros 2 litros de água
que sobram para cada litro produzido. Por se tratar de uma água com
altíssima concentração de sais, não pode ser descartada em leitos de água
doce, por alterar o ecossistema do meio, tornando a água salobra. A
quantidade de sais presente nela também torna o descarte em solo
desaconselhável, pois além de acabar indo contaminar lençóis freáticos,
pode também prejudicar o crescimento de plantas. Inclusive, o Brasil na
época do Império, fez uso deste tipo de procedimento ao aplicar salmoura
no quintal de Tiradentes, justamente para que não nascesse mais nada
durante um tempo como forma de intimidar quem atentasse contra o
Império. Mas, voltando ao tópico água salobra, o menos impactante para o
meio ambiente seria jogar a água com alta concentração de sais de volta ao
mar mesmo. Levaria muito tempo para algum efeito devido à alta
concentração de sais começar a ser evidente.
 
O fator mais justificável que torna desaconselhável o uso de água do mar é
no final das contas o alto custo do processo mesmo. No Brasil se torna
ainda mais inviável porque, por enquanto, as reservas de água doce ainda
são consideráveis.
 
Ainda que possa diferir de uma estação de tratamento para outra,
basicamente a água passa por etapas distintas, a saber:
 
Captação
 
Tranquilização
 
Floculação e Coagulação
 
Decantação
 
Filtração
 
Distribuição
 
A água é captada da sua fonte através de enormes canos com alta vazão de
fluxo. Para evitar o que os químicos chamam de corrosão por cavitação, que
é um tipo de corrosão que ocorre devido ao atrito de bolhas de ar que são
formadas quando a água passa através desses enormes canos em grande
velocidade e encontra o que é conhecido como acidente, que é qualquer tipo
de desvio que possa diminuir a velocidade na qual o líquido escoa, podendo
ser desde a uma curva acentuada no encanamento como um joelho ou até
mesmo uma válvula (Corrosão, é um assunto levado tão a sério na Química,
que existe uma disciplina só para ela em cursos de graduação), e que
quando ocorre em uma linha de distribuição, acaba por enfraquecer, pode se
assim dizer, o material do qual o cano é constituído. Com isso o risco de ter
uma tubulação rompida ganha corpo e a única solução é parar toda a planta
de tratamento para a troca dessa tubulação comprometida. Esse é um dos
piores cenários possíveis já que essa interrupção gera perdas, pois a estação
deixa de funcionar (já sentiu o drama de ficar sem água justamente por
causa de um cano rompido na rua?), sem falar no custo em si do reparo.
Canos dessa dimensão não são lá muito baratos, tampouco a mão de obra
especializada necessária para realizar esse tal reparo.
 
A captação da água costuma ocorrer em tanques que são dispostos de forma
que as etapas iniciais do tratamento sejam realizadas sempre indo de um
local mais elevado para um menos elevado. Dessa forma, a água captada é
bombeada para um local mais alto e as etapas seguintes são realizadas
descendo o nível do terreno. Dessa forma, gasta-se menos energia, já que as
etapas seguintes utilizam a gravidade para completar o percurso.
 
O local onde a água fica após a captação tem convenientemente o nome de
tanque ou bacia de tranquilização. Em locais onde a captação é realizada de
uma fonte com água que são recolhidas com baixa velocidade, como um
açude, por exemplo, essa fase é descartada, mas em locais onde a água a ser
recolhida não chega dessa maneira, ainda é necessário esse procedimento.
A água é captada e passa um período de descanso onde perde sua
turbulência, com as possíveis impurezas presentes em tamanho maiores se
depositam no fundo do tanque, facilitando a tarefa do próximo tanque para
o qual ela será transferida, passando por uma filtração básica através de
grades onde os resíduos maiores que a água porventura possa apresentar tais
como galhos, folhas, e, até mesmo peixes ou outras sujidades como
embalagens plásticas possam ser retidos. A separação nessa etapa visa
capturar os resíduos de granulometria considerável, de maior tamanho. Às
vezes, existem contaminantes dissolvidos na água que esse tipo de filtração
não tem condições de reter, fazendo que por vezes a água apresente aspecto
de turbidez, perdendo seu aspecto cristalino. Esse tipo de contaminante é
removido no tanque seguinte: o tanque de floculação.
 
No tanque de floculação ou coagulação, assim como se fazia a milhares de
anos atrás com as cinzas de origem vulcânicas (com os egípcios, lembra?),
faz-se hoje com o uso do sulfato de Alumínio industrial. É adicionado junto
ao meio, o óxido de Cálcio, também conhecido como cal virgem ou
barrilha, o mesmo cal que a algum tempo atrás era largamente usado como
tinta de baixo custo. Bastava usar o pó de cal, um pouco de água mais um
corante e voilá, obtinha-se tinta da mais baixa qualidade, diga-se de
passagem. A esses dois tipos de reagentes que são adicionados a água,
referimo-nos também como agentes de floculação ou floculantes. A adição
do óxido de Cálcio faz-se necessário para aumentar o pH do sistema, pois
se o meio estiver com o pH baixo, ou seja, ácido, isso dificultará a formação
de hidróxido de Alumínio através do sulfato de Alumínio, que no final das
contas, é quem vai ser o responsável por aglutinar as partículas de sujidades
que estão presentes na água, não o sulfato. Basicamente, o hidróxido de
Alumínio formado, para facilitar o entendimento, estará carregado
positivamente, enquanto que a sujeira dissolvida na água estará com carga
negativa. Como cargas diferentes se atraem, esse hidróxido “segura” as
partículas de sujeira, tornando-as visíveis mesmo a olho nu após
aglutinarem-se em partículas maiores. Com essa sujeira acumulada, a
turbidez da água desaparece e ela volta a ter o aspecto cristalino. Nessa
etapa, o meio apresenta duas fases distintas: o meio aquoso límpido
formado pela água na parte superior, também chamado de sobrenadante e, a
sujidade física aglutinada na parte inferior, também chamado de
precipitado. Após a adição dos insumos e de agitação para que esse material
seja dissolvido de formaadequada, a água junto com o precipitado é
transferida para a bacia ou tanque de decantação, onde o próprio nome já
diz, ocorrerá a decantação do material orgânico que aglutinou.
 
No tanque de decantação não ocorre muita coisa. A água é transferida e lá
chegando, permanece em repouso onde o material aglutinado vai indo
lentamente para o fundo do bacia. Nessa etapa, a água já não apresenta o
aspecto de turbidez inicial, já que a maior parte das impurezas que estavam
solúveis já decantaram. A água passa para o tanque de filtração através de
bombas que captam a água que está na parte de cima do tanque. O material
residual que fica no fundo do tanque tem um aspecto viscoso, semelhante
ao de uma lama. Esse material comumente chamado de lodo é transformado
em tortas através da ação de prensas hidráulicas, onde o excesso de
umidade é retirado, sobrando apenas o material orgânico sólido. Apesar de
alguns estudos correntes sobre a disposição final em termos de
aproveitamento como adubo ou até mesmo na incorporação de material
cerâmico na construção civil, o destino final desse lodo costuma ser mesmo
o esgoto.
 
Chegando ao final do percurso do tratamento, a água é levada para grandes
filtros, compostos de diversas camadas para finalizar a retirada de partículas
sólidas que ainda tenham sobrado mesmo após o processo de floculação e
coagulação. As camadas que compõem o filtro podem variar de estação
para estação, mas sempre seguirá o conceito de camadas grosseiras logo na
entrada, para em seguida ir diminuindo o tamanho dos grânulos do
elemento filtrante. Isso se faz necessário para que não ocorra uma
contaminação prematura dos elementos filtrantes, já que uma quantidade de
sujidade logo de início sendo retido por camadas mais finas acabaria do
saturar o elemento filtrante logo no começo do processo de filtração.Com
isso, seria necessária uma interrupção para a troca de filtros de forma
precoce, ocasionando a parada da planta, e, como já foi citado antes, isso
provoca perda de recursos e não é desejável. Por isso, o elemento filtrante
utilizado na entrada do tanque de filtração normalmente é composto de
areia ou cascalho grosso. As impurezas de partículas maiores são facilmente
retidas logo na entrada, pois a areia forma uma barreira espessa com
espaços estreitos entre si, barrando sujidades maiores. As camadas
seguintes vão sequencialmente diminuindo de forma a conseguir retirar
cada vez mais, quantidades de impurezas de tamanhos menores. A última
camada é formada de carvão ativado. Esse carvão é extremamente poroso,
ou seja, possui cavidades em sua estrutura de dimensões microscópicas,
podendo adsorver sujidades menores (com “d” mesmo, não confundir com
absorver. O termo adsorver quer dizer neste caso, que as partículas de
sujeira de tamanho minúsculo ficam agarradas na superfície do carvão).
Funciona como uma peneira, onde a água escoa, mas qualquer partícula
sólida fica retida nesses poros. Por possuírem uma estrutura tão pequena,
conseguem com louvor reter até mesmo a menor sujeirinha que possa
porventura ter passado pelas camadas de elemento filtrante anterior. Após a
passagem no último filtro, a água apresenta finalmente as características
que ela nunca deveria ter deixado de ter: inodora, incolor e insípida. É uma
experiência muito gratificante quando chega nesta etapa. A água que havia
chegado em condições muitas vezes de ruim a péssima, até mesmo
apresentando odor acentuado devido à presença de material orgânico em
processo de decomposição, chega nessa etapa do tratamento com aspecto de
pronta para consumo (apesar de nesse instante ainda não poder se afirmar
que a qualidade da água está totalmente garantida). Ainda falta passar para
a última etapa do tratamento, sendo enviada a um tanque onde será feita a
correção de pH (de novo ele), já que dependendo da quantidade de reagente
de floculação que tenha sido adicionado, uma vez que essa operação não
possui valores absolutos de volume, pois sempre será a quantidade de
impurezas o determinante para a quantia de agente de floculação necessário
para tratar a água – uma água mais suja demandará maior carga de agente
de floculação. O óxido de Cálcio, ou cal que foi adicionado na água a ser
tratada no tanque de coagulação e floculação para aumentar o pH volta à
cena novamente. Na etapa anterior a adição dele foi para aumentar o valor
do pH para possibilitar a formação do hidróxido de Alumínio. Acontece que
após essa sucessão de eventos, pode sobrar um excesso de íons do sulfato
de Alumínio que não foi transformado em hidróxido que acabam por deixar
o pH da água ácido, ou seja, com o pH com um valor baixo. Esse valor
pode variar em decorrência do estado da água que chegou à estação de
tratamento, pois como já foi dito anteriormente, esse estado é que vai
determinar que a adição dos reagentes seja realizada em maior ou menor
quantidade. A água com pH ácido contribui para a corrosão dos canos e
dutos metálicos por onde a água percorrerá até o destino dela no
consumidor final. Já falamos o prejuízo acarretado por esse tipo de ação que
interrompe o abastecimento de água. O óxido de Cálcio é adicionado em
quantidade suficiente após análise da água, para elevar o pH da água em um
valor próximo a 8. A água normalmente deveria ter o pH no valor de 7 em
uma escala que vai de 0 a 14, ou seja, teria um valor no que chamamos de
pH neutro. Acontece que a presença de diversos sais minerais presentes
nela altera esse valor, elevando ele para mais ou menos 8 (pode parecer uma
variação pequena, mas de pH com valor 7 para 8 significa ser 10 vezes mais
básico. De valor 7 para 9 significa ser 100 vezes mais básico!).
 
Com o acerto de pH, a água fica em processo final para ser enfim liberada
para consumo. Ocorre antes a inclusão de aditivos para melhorar a condição
dela. Uma dessas aditivações é a fluoretação. A adição de Flúor, que desde
1975 é obrigatória no Brasil em locais onde existem estações de tratamento.
Quando se fala em adicionar Flúor, não falamos de forma literal, pois o
Flúor como um gás é corrosivo e tóxico, e até a inalação de pequenas
quantidades desse gás seria extremamente prejudicial para o ser humano.
Por ser um gás, é extremamente volátil, e, isso é outro fator que tornaria
difícil o manuseio deste. Em sua forma estável, o gás possui dois átomos de
Flúor ligados um ao outro. Neste estado, ele está relativamente estabilizado
e não reage facilmente, por isso, quando falamos em adicionar Flúor na
água, é, na verdade, adicionado um composto que depois de dissolvido na
água, vai liberar o Flúor na sua forma reativa. No Brasil, dependendo da
região, vai variar o uso de ácido fluorsilícico ou o Flúorsilicato de Sódio.
De uma forma ou de outra, o resultado será o mesmo, a liberação do Flúor.
 
O Flúor em quantidade muito pequena como é aplicado, ao ser absorvido
pelo corpo, além do contato imediato com os dentes no momento da
ingestão, incorpora-se também à saliva, fazendo com que mesmo em
quantidade tão pequena, ele atue como agente bacteriostático, dificultando a
proliferação de micro-organismos que ao fermentarem, produzem ácido
lático que ataca o esmalte dos dentes (não. Não é o açúcar que apodrece os
dentes, mas o ácido que é gerado pelas bactérias que se alimentam do
açúcar e carboidratos que fica nos dentes e corroem o esmalte dentário
como você já sabe). Mais sobre o conceito da cárie você viu no capítulo
específico sobre ela.
 
Por fim, ocorre a adição do Cloro. Da mesma forma que o Flúor, trata-se de
um gás, portanto, apresentaria as mesmas dificuldades relacionadas a ele.
Utiliza-se neste caso o hipoclorito de Sódio. Na forma de um sal solúvel em
água que, quando dissolvido em meio aquoso, libera o Cloro na sua forma
reativa que vai atuar como microbicida. O pH levemente básico da água que
já foi corrigido anteriormente contribui para potencializar o efeito
germicida do Cloro liberado. A adição final do Cloro é tão ínfima que para
ser sentido, por exemplo, o odor do Cloro adicionado no meio, seria
necessário quase sete vezes maisa adição da quantidade que é normalmente
empregada. Aquele cheirinho que dizemos que é o cheiro do Cloro na
piscina, por exemplo, na verdade é o cheiro das cloraminas que são geradas
através da reação do Cloro presente na água com a amônia presente no suor
humano e na urina. Se sentir esse cheiro quando estiver mergulhando,
alguém provavelmente entrou na piscina suado, ou pior...
USINA NUCLEAR.
 
“As usinas nucleares são confiáveis, as pessoas é que não são.”
 
(John George Kemeny)
 
“Quem espera conseguir obter uma fonte de energia da fissão de átomos
está falando bobagem.”
 
(Ernest Rutherford, descobridor do núcleo do átomo e vencedor do
Prêmio Nobel de Química)
 
O Brasil não encabeça a lista de países que fazem uso de energia nuclear
para geração de eletricidade. Isso se deve ao fato de o Brasil possuir uma
grande capacidade hídrica para produzir energia elétrica da forma mais
convencional, através de usinas hidrelétricas. O país possui hoje em
funcionamento, duas usinas nucleares no complexo de Angra dos Reis no
Estado do Rio de Janeiro. Para se ter uma ideia, a França, que é o país com
maior dependência desse tipo de geração no mundo, possui atualmente 58
reatores distribuídos em 19 usinas em funcionamento. Devido à grande
quantidade de rios de grande porte existentes no país, e ainda, apesar de
utilizar apenas 25% da sua capacidade hidráulica, a maior parte da energia
elétrica gerada no Brasil vem de usinas hidrelétricas que são responsáveis
por quase 70% da energia elétrica consumida no país. Apesar de possuir um
grande potencial hidráulico (o país é o terceiro lugar no mundo na produção
de energia elétrica através de usinas hidrelétricas, ficando atrás apenas de
Rússia e China), com a maior usina hidrelétrica das Américas – A usina de
Itaipu, o Brasil ainda compra energia elétrica de países vizinhos. A própria
usina de Itaipu dá direito a 50% apenas da sua capacidade de produção de
energia elétrica ao país. Por ser construído na divisa com o Paraguai, esse
país tem direito a outra metade da energia produzida. Como eles não
utilizam essa quantidade toda ao qual têm direito, vendem o excedente ao
Brasil que ainda compra energia elétrica da Argentina. A outra parte
complementar vem da geração através de usinas termoelétrica que apesar de
estarem presentes de forma abundante, com muito mais unidades existente
no território nacional, contribuem com menos de 30% da produção,
incluindo nessa porcentagem em cerca de 1,5% destes quase 30%, a energia
elétrica gerada por aquelas duas usinas nucleares de Angra. A geração de
energia através do aproveitamento dos ventos – eólica, responde por menos
de 1%, sendo portanto, assim como a geração através de usinas nucleares,
em termos percentuais, um valor quase desprezível.
 
A geração de energia elétrica através de usinas hidrelétricas é limpa, pois
não emite nenhum tipo de poluente como subproduto no ambiente. O porém
se dá quando da instalação desta, já que uma série de modificações podem
se fazerem necessárias. Se o rio não possuir uma vazão forte o suficiente
para justificar a instalação da usina no local, pode ser preciso realizar
ajustes que vão desde a represagem do rio para que o volume deste se torne
turbulento o suficiente para mover as pás das turbinas que vão gerar a
energia elétrica ou, dependo do caso, a dragagem do canal. Nestas
adaptações, cidades ribeirinhas e o entorno destas podem vir a serem
alagadas devido ao represamento do rio, acabando com a fauna e flora do
local e fazendo com que populações inteiras tenham que ser remanejadas.
 
Já as usinas termoelétricas, apresentam como maior empecilho o fato de
usar combustível fóssil como responsável por gerar uma fonte de calor para
aquecer a água, gerando vapor que será direcionado para mover as pás da
turbina que vai gerar a energia elétrica. Com essa queima de combustível,
uma quantidade considerável de poluentes é despejada no meio ambiente,
contribuindo para o efeito estufa e, no final das contas, a quantidade de
energia elétrica gerada é bem menor em relação a quantidade gerada pelas
usinas hidrelétricas. Algumas usinas deste tipo também funcionam
utilizando álcool como fonte de energia para funcionarem. Ainda assim,
apesar de, em menor quantidade, emitem poluentes na atmosfera.
 
A geração eólica é muito vantajosa por não gastar nenhum recurso e não
trazer nenhuma contaminação com poluentes. Não tem muito o que dizer
sobre ela. É explícito que o vento age sobre as grandes pás dos geradores,
fazendo com que as turbinas através desse movimento possam gerar energia
elétrica. Tem o pequeno entrave de poder afetar a rota de migração de
determinados tipos de aves e há quem diga que até o barulho que elas
emitem possam perturbar a fauna local. O lado ruim é que a intermitência
de ventos é incontrolável, podendo faltar vento justamente quando mais for
preciso a geração de eletricidade. Até que seja inventado uma máquina de
movimento perpétuo (procure a respeito na internet. É muito interessante.
Não me alongarei a respeito, até porque diz respeito a Física, e não a
Química) estaremos sujeitos as vantagens e desvantagens destes diversos
tipos de geração de energia elétrica.
 
A respeito de uma usina nuclear, ela tem o funcionamento básico com
similaridades entre as usinas termoelétricas e entre as usinas hidrelétricas,
apesar de ser considerada como uma usina termoelétrica. Tem como
princípio o acionamento de pás ligadas a turbinas que virão a gerar a
energia elétrica. Usinas nucleares são consideradas usinas termoelétricas
por utilizar também água aquecida que gera vapor para mover as pás dessas
turbinas geradoras. A maneira utilizada para aquecer a água em vez de
caldeiras e combustível fóssil é que é realizada através de fissão nuclear de
átomos no centro de um reator. Para se ter ideia da quantidade de energia
liberada nesse tipo de processo, ela é mais potente cerca de 25.000.000 (25
milhões!) de vezes em relação à energia liberada pela combustão do
metano, o gás natural que também é usado como combustível em usinas
termoelétricas e em carros adaptados ao GNV (gás natural veicular, um
nome mais pomposo e menos técnico, na minha opinião).
 
Para iniciar o funcionamento de um reator nuclear, é feito o uso de um
metal pesado chamado Urânio. O tipo mais abundante desse metal
encontrado na natureza é o isótopo de Urânio-238, (isótopo é quando o
elemento apresenta diferentes números de nêutrons, apesar do mesmo
número de prótons em seu núcleo). Para entender como essa energia é
liberada, é necessário uma breve introdução à fissão nuclear. Como forma
de simplificar a explanação, basicamente o átomo possui um núcleo
composto por nêutrons de carga neutra e prótons de carga positiva e
circulando em sua volta na chamada eletrosfera, elétrons de carga negativa.
Existem muitas outras partículas que podem fazer parte do átomo, mas
seriam irrelevantes para elucidar esse nosso tópico, por isso, vamos ficar
com essa explicação simplista mesmo. Desta forma, o Urânio-238 é assim
chamado por possuir em seu núcleo atômico a presença de 92 prótons
(lembrando: a parte positiva de um átomo) em conjunto com 146 nêutrons
(a parte neutra), fazendo com que sua assim chamada massa atômica seja
238 (92+146, fácil!). A presença de nêutrons no núcleo de um átomo se faz
necessária para evitar a repulsão que os prótons sofreriam entre eles se não
tivessem esse tipo de partícula no meio, já que cargas iguais, como você
sabe, se repelem. Sem eles, os prótons repelir-se-iam uns aos outros
despedaçando o núcleo do átomo. Os nêutrons servem para manter o núcleo
do átomo coeso, firme, evitando essa repulsão. Energeticamente falando, os
átomos sempre buscarão permanecer no seu menor estado energético, pois
isso fará com que eles alcancem um nível de energia estável. O Urânio-238
é o exemplo disso. Utilizando a ideia de que quanto menor a energia, maior
a estabilidade e quanto maior a energia, menor será a estabilidade do meio.
Portanto, esse tipo de Urânio apesar de até ser possível, nãoé utilizado para
reações nucleares em usinas, justamente por precisar de muita energia para
conseguir realizar a fissão do seu núcleo, já que nesta forma ele é estável
demais. Para essa finalidade é utilizado um tipo mais raro do metal, que é
encontrado na natureza em proporção menor que 1% em relação ao isótopo
238, que é o isótopo do Urânio-235. Vamos às somas: para que possamos
chamá-lo de Urânio, ele deve apresentar obrigatoriamente a quantidade de
92 prótons em seu núcleo, então, se a soma final deve ser 235, teremos 235-
92 que é 143. Pronto, temos como 143 o número de nêutrons presentes no
núcleo do Urânio-235.
 
A quantidade existente de Urânio-235 no minério de dióxido de Urânio
encontrado na natureza é muito pequena (menos de 1% como foi dito
anteriormente) e insuficiente para ser utilizado como combustível para
abastecer o núcleo do reator. A maior parte de Urânio nesse minério é o
abundante isótopo 238. Para que possa ser utilizado como combustível, é
necessário que entre 3 a 5% seja do tipo reativo, o Urânio-235. Para nível
de conhecimento, submarinos nucleares precisam de cerca de 20% deste
isótopo e em bombas é necessário algo próximo de 90% (para obter o
caos!). Como essa quantidade não é obtida direto do dióxido encontrado na
natureza, faz-se necessário enriquecer o Urânio de forma artificial para
obtenção da quantidade necessária do isótopo desejado.
 
Após o processamento do minério, ele é enriquecido e transformado em
pastilhas cerâmicas que serão depositadas dentro do reator, funcionando
como combustível para a reação nuclear em tubos ocos, onde são dispostas
uma em cima da outra, de forma sequencial, acondicionados, a grosso
modo, podemos dizer que da mesma forma que balas drops em sua
embalagem.
 
O núcleo do reator possui vários desses elementos que trabalham imersos
em água de forma isolada. A água não entra em contato direto com as
pastilhas.
 
A reação tem início quando um átomo do Urânio-235 é bombardeado com
um nêutron. Lembre-se que ele tem esse nome por possuir 235 nêutrons em
seu núcleo. Nesse estado ele já é por si só muito reativo. Com o bombardeio
deste nêutron adicional no núcleo, este núcleo absorve esse nêutron ficando
ainda mais reativo. Com essa quantidade de energia alta, ele fica menos
estável. Como já vimos anteriormente, para buscar esta estabilidade, o
átomo vai buscar um estado energético mais baixo, mais estável, vindo a
romper o seu núcleo, se transformando em dois átomos menores e mais
estáveis, com menos energia, que são o Bário-141 e Criptônio-92. Se você
fizer as contas, vai perceber que faltam alguns nêutrons na história. O
Urânio-236 (com o nêutron que bombardeou o núcleo e foi absorvido, ele
passou de Urânio-235 para Urânio-236.) que foi o isótopo que “abriu no
meio” teve os nêutrons de seu núcleo divididos entre esses dois elementos
que foram gerados, mas se os 141 nêutrons do bário somados com os 92
nêutrons do criptônio dá 233, ainda faltam três nêutrons. Onde foram parar?
A resposta é bombardeando mais outros três núcleos de Urânio-235, que se
tornarão Urânio-236, ficando instáveis, “quebrando-se” em Bário-141 e
Criptônio-92, liberando três nêutrons e por aí vai sucessivamente, se
repetindo no que chamamos de reação em cadeia. Quando a reação se
autossustenta, isto é, se mantém sozinha, dizemos que ela atingiu o ponto
crítico. Essa reação ocorre apenas naqueles 5% de Urânio 235. Os outros
95% de Urânio das pastilhas é composto por Urânio-238 que ao absorver
um nêutron se converte em plutônio-239, que é o componente em maior
quantidade presente no que chamamos de lixo radioativo, o resíduo final.
Os apenas 5% do Urânio-235 são suficientes para manter o reator nuclear
em funcionamento de forma segura, para que quando for desejável, a reação
possa ser interrompida de forma segura, algo impossível de ser realizado
em uma bomba, com seus quase 90% de Urânio-235.
 
Um fato curioso que é observando quando o átomo de Urânio-235 se
“quebra” gerando os outros dois átomos menores de Bário e Criptônio é que
a conta da soma das massas não “bate” no final. Uma diferença de cerca de
0,1% da massa original desaparece quando a massa total dos dois átomos
resultantes é somada. Isso pode ser explicado com a aplicação de uma
fórmula que com certeza você já viu alguma vez na vida, até mesmo em
desenhos animados, séries ou filmes. Ela diz respeito a equivalência massa-
energia, e apesar de já ter quase 100 anos desde a sua descoberta, utiliza um
conceito ainda mais antigo como base que diz respeito sobre a lei da
conservação de energia que prega que energia não pode ser destruída nem
criada, apenas transformada. Era isso que Isaac Newton quis dizer em sua
frase sobre enxergar mais longe por ter se apoiado sobre ombros de
gigantes. Com um conceito de séculos anteriores, Albert Einstein
aperfeiçoou a ideia que explica o que acontece com os 0,1% de massa que
desaparece após a fissão de um átomo. Se ela não pode ser destruída, então
ela foi transformada. Ele conseguiu enxergar por ter se apoiado na antiga lei
da conservação de energia, um ombro de gigante, no caso. Esta fórmula é
E=m.c².
 
Significa que Energia (E) é igual amassa (m) vezes (c) velocidade da luz no
vácuo (o c vem do latim celeritas que significa velocidade) ao quadrado.
Acontece que ainda que a massa tenha um valor pequeno (muito pequeno
como no caso dos 0,1% da massa de um átomo), quando ela é multiplicada
pelo valor de c que é estupidamente grande de 299 792 458 metros por
segundo! Arredondando, são 300 milhões de metros por segundo. Na
fórmula este valor ainda é elevado ao quadrado, ou seja, multiplica-se este
valor por ele mesmo. Explica-se então o que aconteceu com os tais 0,1%
que faltaram na soma da massa dos dois núcleos dos átomos resultantes da
fissão: transformaram-se em energia. E em muita energia, diga-se de
passagem.
 
Esta energia é liberada em forma de calor. Este calor desprendido pela
reação nuclear aquece as varas compostas pelas pastilhas de Urânio que
estão imersas na água. Essa água aquece, transformando-se em vapor
d’água que passa sob pressão pelas pás das turbinas, movendo-as e gerando
energia elétrica. Com a liberação acelerada e energética de nêutrons que
bombardeiam os átomos de Urânio-235, é necessário uma forma de frear
essa reação. O reator é resfriado, assim como o vapor d’água após sua
passagem pelas turbinas, com água de uma fonte próxima, por isso, esse
tipo de usina costuma ser instalado em locais próximos a grandes fontes de
água corrente, da mesma forma que usinas hidrelétricas. A própria água em
que as varas estão imersas absorve uma quantidade desses nêutrons que são
liberados. Quando essas medidas não são suficientes para resfriar o reator,
são inseridas na parte interna do sistema, barras compostas por grafite e/ou
berílio e/ou boro que são chamados de varas moderadoras ou de controle.
Esse material do qual essas varas são constituídas absorvem os nêutrons
liberados sem, no entanto, sofrer fissão. Com isso a reação é controlada a
níveis seguro de trabalho.
 
Um dos motivos aceitáveis hoje como explicação para um dos maiores
acidentes utilizando reatores nucleares, ocorrido em Chernobyl, hoje parte
integrante da Ucrânia e que na época fazia parte da antiga União Soviética,
foi justamente uma suposta falha no projeto dessas varas moderadoras. Diz-
se que eram grandes varas de quase um metro, constituídas de um composto
de grafite-boro, sendo que grande parte da sua estrutura eram ocas e
preenchidas com água. A água apesar de ser um bom absorvedor de
nêutrons, não se compara em eficiência ao grafite combinado com o boro
ou outro elemento específico absorvedor de nêutrons, portanto, ao inserir as
varas moderadoras, elas não conseguiam absorver de forma satisfatória os
nêutrons que eram liberados pela reação nuclear. Com isso, a temperatura
interna do reator aumentava, formando bolhas na água de resfriamento que
dessa forma diminuíam ainda mais a capacidade de refrigerar a parte interna
do núcleo do reator. O resultado dessa falha foia explosão do reator,
resultando na maior tragédia envolvendo esse tipo de energia até hoje,
transformando a cidade de Chernobyl ainda em tempos atuais em uma
cidade fantasma. O projeto utilizado nesta usina foi abandonado e não mais
utilizado depois do acidente.
 
O montante de material que sobra da reação nuclear é então resfriado,
classificado e separado de acordo com o seu grau de reatividade. Existem os
de alta, média e baixa reatividade. São depois armazenados em espécies de
piscinas fortemente revestidas com várias barreiras de aço, chumbo e
concreto. A capacidade dessas piscinas normalmente costuma ser o
suficiente para o funcionamento total da usina, já que o reator de uma usina
nuclear costuma ter uma vida útil que varia de 40 a 50 anos.
 
Ainda hoje, não se sabe ao certo os impactos finais de uma usina nuclear no
meio ambiente, já que se trata de uma tecnologia relativamente nova. Muita
coisa ainda terá de ser avaliada no decorrer dos anos que seguirão.
 
Falando em fissão nuclear, outro fato curioso que se espalhou no mundo
nos anos que ocorreu a chamada guerra fria, com o aumento da tensão de
uma possível guerra nuclear entre as chamadas potências mundiais era a
crença que ao avistar ao longe o cogumelo formado pela detonação de uma
bomba nuclear, se você ao levantasse o braço apontando para a frente em
direção ao cogumelo e fizesse o gesto de “joinha” e tentasse tampar a
explosão da ogiva com o dedo polegar observando com um olho tapado
como se estivesse mirando, teria a noção se seria contaminado pela onda de
radiação emitida pela bomba ou não. Se conseguisse tampar com o dedo,
você teria escapado. Se não, era só encomendar a alma, pois o corpo já
estaria comprometido. Vai saber...
REFRESCOS.
 
“Deveríamos julgar os homens mais pelas suas perguntas que pelas suas
respostas.”
(Voltaire.)
 
Para nomear esse capítulo foi complicado. Dentre os diversos tipos de
bebidas ou preparados em pó, que é do que se trata este tópico, poderia se
chamar de sucos, mas segundo a legislação brasileira, para ser considerado
como um suco, a bebida em questão precisa ter 100% de sua composição de
polpa da fruta do qual ele alegar ser suco (a lei diz “não diluída”). Na
intermediária estão os néctares que possuem cerca de 20 a 30% de polpa,
variando a quantidade de acordo com a fruta. São os sucos de caixinha que
você encontra nas prateleiras dos mercados. E os refrescos em pó perto de
simplório 1% da polpa, sendo portanto, uma quantidade ínfima em sua
pequena embalagem. A ciência por trás de um simples copo de refresco é
fascinante. Para se ter uma ideia, podem existir até 18 ingredientes
diferentes em um simples pacotinho de 4,5 gramas que rende cerca de 500
ml segundo a sugestão de preparo.
 
O que move o desenvolvimento deste tipo de produto na indústria é
justamente a necessidade de algo prático e fácil de preparar para agilizar as
diversas tarefas do dia a dia. Foi justamente essa ideia que foi vendida para
a criação de um pó para reproduzir uma bebida de frutas sem o
inconveniente de limpar, descascar e processar a fruta. Imagine o quão
conveniente é utilizar um pó mágico adicionando em água e após alguns
segundos de agitação a bebida está pronta para beber. Tão prático que nem
mesmo precisa adoçar. Era tudo que a dona de casa fadigada precisava após
um dia agitado no trabalho, chegando em casa e tendo de preparar o jantar
para a família. Antes que você venha a pensar o quanto machista isso possa
parecer, foi realmente com esta apelativa que o primeiro refresco em pó foi
anunciado.
 
Após desenvolvido do projeto desse tipo de refresco ficar pronto, ficou
ainda engavetado por dois anos após a sua criação. Só veio a ficar famoso
mesmo após o anúncio na época de que a agência espacial americana, a
NASA, estava utilizando o produto na tentativa de melhorar o gosto da água
que era gerada na missão em pleno espaço, isso com o fato de não possuir
fibras em sua composição, se tornando perfeito para a missão, já que com
isso, praticamente não gerava resíduos sólidos (o chamado “número dois”
dos astronautas). Isso, em um local com restrição de espaço era quase
perfeito. John Glenn, o astronauta que fez uso do refresco na época chegou
a afirmar que a única coisa boa das refeições em pleno espaço era o tal
refresco. Com uma propaganda destas, as vendas estouraram e chegamos
hoje com uma quantidade impressionante de variedades de sabor
disponíveis no mercado.
 
Vários ingredientes participam da composição de um refresco em pó.
Alguns para conferir sabor, outros para conferir conservação e outros para
garantir que o produto não vá ficar empapado de umidade dentro da
embalagem. Nesse montante ainda entram aditivos para melhorar a cor e até
mesmo para espessar a bebida, dando um aspecto de alto teor de frutas.
 
A regra é de que os ingredientes em maiores quantidades são indicados de
forma decrescente nos rótulos. Isso significa que aqueles mais abundantes
na composição do refresco vão vir sempre na frente. Isso vale para todo e
qualquer produto alimentício que você encontrar nas prateleiras dos
supermercados. Isso não se trata de um favor dos fabricantes para os fiéis
consumidores. É lei. Simples assim. Dessa forma, na maioria das vezes
neste tipo de produto, o primeiro ingrediente será o açúcar. Em alguns pós
para refresco que são vendidos como zero açúcar, o ingrediente mais
abundante será a maltodextrina, que não é tecnicamente um açúcar, mas um
polímero (mais a respeito sobre o que é um polímero você pode consultar
no capítulo sobre plásticos) dele que é rapidamente convertido em glicose
após consumido, e, no final, tendo o mesmo efeito do açúcar.
 
Em segundo lugar costuma vir a polpa da fruta desidratada em questão que
dá o nome do sabor do refresco. São adicionados por volta de 1% de polpa
(desidratada, claro) em relação ao peso total do pó. Com uma quantidade
tão pequena de extrato da fruta, torna-se quase impossível cobrar que o
refresco após diluído na água venha a ter a cor original da fruta, mas,
convenhamos, seria frustrante preparar um refresco dito de morango na
embalagem e após o preparo constatar que ao invés da cor avermelhada da
fruta, a bebida apresenta aspecto incolor como o de um copo de água com
açúcar. Para solucionar este entrave, são adicionados substâncias capazes de
conferir cor ao refresco, os ditos corantes, que são adicionados associando a
cor a fruta desejada, claro. Imagine por exemplo, um refresco de manga na
cor azul. Além de ser bizarro, passaria a imagem de que é um produto
totalmente artificial, afastando o consumidor (e até é, mas não é a imagem
que o fabricante quer associar.).
 
Em algumas marcas de refrescos pode também ser observado em sua
formulação, a adição de corante natural, como o fabricante gosta de
enfatizar, já que isso traz uma imagem de menos danoso pelo fato de não
ser artificial. O corante vermelho de cochonilha é um exemplo. Realmente,
se trata de um corante natural, pois não é sintetizado em laboratório, mas
sim extraído de pequenos insetos (você leu certo. Insetos) que possuem o
mesmo nome do corante. Sua utilização como corante vem desde os povos
astecas que já conheciam o colorido que o corpo do inseto triturado
produzia. Com cerca de 70 mil cochonilhas torradas e trituradas é capaz de
se obter mais ou menos meio quilo de um pó de cor avermelhada, ou
carmim. As pessoas ficam receosas com aditivos químicos em produtos,
mas na maioria das vezes não sabem que consumiram ou consomem ainda
que em quantidade bem pequena, pequenos inseto torrados.
 
Dependendo da cor que é desejada, são adicionados outros corantes também
de origem natural como as antocianinas que pode ter cor avermelhada a
arroxeada, mas, na maioria das vezes, corantes artificiais também são
adicionados em quantidades proporcionais a formação da cor desejada, de
forma parecida com a que fazíamos combinando cores em aulas de
educação artística (nas embalagens você deve encontrar por exemplo,
amarelo tartrazina e azul brilhante, este último, sintético – produzidosatravés de reações químicas na indústria, para formar a cor verde ).
 
Temos também, utilizado como pigmento branco o dióxido de titânio, que é
largamente utilizado como corante industrial em tintas, pasta de dente,
tecidos e construção entre outros usos.
 
Seguindo o Sistema Internacional de Numeração de Aditivos (com a sigla
INS) adotado pela ANVISA, a nossa agência de vigilância sanitária,
responsável por regulamentar esse tipo de caso, em alguns produtos você
pode não encontrar o nome real da substância, mas apenas uma numeração
especifica e, através dele, é possível conhecer a função que exerce na
fórmula. Esse código foi introduzido para padronizar o sistema de
informação presente nas embalagens, principalmente nos países da União
Europeia, onde vários idiomas diferentes são falados. Dessa forma, os
produtos exportados não precisam de rótulos diferentes para cada país.
 
Ácido cítrico, por exemplo, (INS 330) pode ser adicionado funcionando
como acidulante que ajuda a conservar o produto por mais tempo saudável
na prateleira do mercado, já que como é ácido, mantém o pH baixo o
suficiente para que determinados micro-organismo não consigam proliferar
no meio. Não se preocupe com a adição deste ácido porque o açúcar sempre
vai garantir o adocicado da bebida, sendo acrescentado o suficiente, assim
como em refrigerantes, para mascarar o gosto azedo.
 
Encontra-se também na composição do produto, substâncias chamadas de
antiumectantes. São adicionadas para evitar que o refresco em pó continue
em pó por bastante tempo, já que alguns dos componentes da fórmula
costumam apresentar propriedades higroscópicas, ou seja, absorvem a
umidade presente no meio. Se não fosse adicionado, você poderia ter uma
surpresa ao abrir a embalagem e ver que ao invés do pó, o refresco estaria
empedrado ou se armazenado em local de acentuada umidade, com aspecto
de lama, facilitando a formação de micro-organismos como fungos.
Antiumectantes possuem a capacidade de absorver a umidade do meio sem
no entanto, apresentar o aspecto de úmido, a grosso modo podemos dizer
que absorvem e escondem a água. Carbonato de Cálcio (INS 170) é um dos
mais utilizados. É inclusive, utilizado comumente também para absorver
umidade em dessecantes de ambientes, destes que você vê nas prateleiras
dos mercados.
 
Na categoria edulcorantes pode ser adicionado quaisquer tipos de adoçantes
que são conhecidos, desde aspartames, ciclamatos, acessulfames a
sacarinas. Desta forma, garante-se o adocicado do sabor sem espantar os
consumidores que buscam menos calorias nos rótulos.
 
Para conferir o aspecto de alta concentração de polpa de frutas é adicionado
espessante que aumenta a viscosidade do refresco que interage com a água
quando esta é adicionada. Em alguns casos, mais de um espessante é
adicionado à fórmula para garantir que o produto será espessado
independente de temperatura, já que alguns funcionam mesmo em baixas
temperaturas como a goma guar (INS 412), enquanto que a xantana (INS
415) funciona melhor em temperaturas mais altas, assim como em meios de
alta acidez, já que neste tipo de ambiente, a goma guar perde boa parte das
suas propriedades de espessamento.
 
Em alguns casos é adicionado também um elemento antioxidante. Esse tipo
de reagente funciona como um antienvelhecedor, o que vai garantir maior
vida útil do produto. Salvo alguns casos particulares, o de maior uso no
mercado é o ácido ascórbico, a conhecida vitamina C (INS 300) ou algum
derivado dela.
 
Como a quantidade de extrato da fruta desidratada é bem pequena, as vezes
quase desprezível, as vezes em quantidade que varia que pode ficar com
valores de 1 a 3% do peso total do pó do refresco na embalagem. Na maior
parte das vezes, pode vir indicando que o aroma se deve a adição de
flavorizantes artificiais. Neste caso, comumente o sabor do refresco pode
vir acompanhado da expressão: “aroma sintéticoidêntico ao natural” ou
mesmo “sabor artificial”. Nestas situações, grupos funcionais orgânicos
conhecido como ésteres, são adicionados, conferindo o sabor artificial ao
refresco. De acordo com cada sabor, um éster diferente é adicionado. Para o
sabor artificial de abacaxi, é utilizado o butanoato de etila. Acetato de
propila no caso do sabor de pera. Sempre obedecerão nomes
compreendendo o radical –ato acompanhado de –ila, já que esta é a
nomenclatura utilizada na Química Orgânica para nomear esta função éster.
Se você observar algum nome na embalagem do refresco ou qualquer outro
alimento seguindo esta lógica, já pode associar ao aroma do produto.
 
Então, sempre que estiver com sede, e atarefado a ponto de não poder
descascar, cortar e processar uma fruta, já sabe. Utilize um pacote de
refresco em pó, dilua-o em água gelada e pronto. Você tem um belo de um
refresco pronto para o consumo, quase igual ao original…Ou
não. 
MORTE.
 
"Morrer é transitar de um estado para outro. Quem morre transforma-se.
Continua a viver inorganicamente, transmutado em gases e sais, ou
organicamente, feito lucílias, necróforas e uma centena de outras
vidinhas esvoaçantes."
 
(Monteiro Lobato – escritor brasileiro, no conto "Pollice verso")
 
Antes sequer de abrir o livro para ler a primeira folha de rosto deste, a única
semelhança que qualquer um poderia assegurar que poderia existir entre eu,
a pessoa que escreveu este livro e entre você, a pessoa que está lendo é (e
eu sinto ter que lhe informar isso), que você, assim como eu, vamos morrer.
Pode parecer cruel ter que lhe informar isso de forma tão crua, mas é
verdade. De como diria Clarice Lispector, “- na infâmia de nascer para
morrer não se sabe quando nem onde”. O lado bom de tudo isto é, ainda
assim, continuaremos com a Química ao nosso redor, inclusive,
produziremos reações químicas em nossos corpos até mesmo depois de
mortos!
 
Antes mesmos de nascer, na relação sexual de nossos pais (por mais
estranho que possa parecer, sim, eles fizeram e, provavelmente ainda fazem
sexo) em que fomos gerados, já havia Química. O órgão sexual feminino
possui uma entrada relativamente protegida através de uma barreira ácida
que evita a entrada e proliferação de micro-organismos nocivos ao meio
(digo nocivos porque no interior existe a chamada flora bacteriana que é
composta por micro-organismos bonzinhos, podemos assim dizer, que
protegem o ambiente). A acidez é garantida através da produção de ácido
lático pelo organismo feminino, o mesmo presente no leite coalhado e
também em sabonetes íntimos que visam proporcionar a acidez natural do
dito ambiente feminino de maneira que fique com o pH abaixo de 4,5, que é
mais ou menos o valor que uma mulher saudável apresenta naquela região.
Desta maneira, é garantido o equilíbrio corporal e tudo funciona de forma
perfeita.
 
O homem, por apresentar um design menos invasivo, podemos assim dizer,
não necessita do mesmo aparato de segurança do organismo feminino. Os
casos específicos de contaminação se dão ele é exposto a um “ambiente”
contaminado. Diferenciando-se portanto, da mulher, que apresenta um
ambiente que é de forma habitual, úmido, relativamente quente e também
escuro, ou seja, condições perfeitas para cultura de micro-organismos,
sejam eles bons ou maus.
 
No momento da cópula, o coito, a relação, ou qualquer outro nome que
você queira empregar para definir o ato, o mecanismo de reprodução
masculino tem seus meios de garantir que sua descendência possa ser
efetuada com sucesso. Nada tão drástico como as aranhas vespas, uma
espécie de aracnídeo, onde o macho após o depósito do seu sêmen assim
que finda o ato sexual, simplesmente “quebra” o seu membro para
funcionar como um tampão, para que nenhum outro macho possa vir a
copular e fecundar sua parceira, que logo em seguida, acaba por devorar o
infeliz. Desta forma genial ele garante sua prole (apenas uma vez, é
verdade) e perpetua sua descendência. Por sorte, o exemplar masculino do
homo sapiens tem uma forma de vencer a dificuldade que lhe é imposta na
forma de barreiraácida pelo exemplar feminino e garantir sua reprodução
de uma maneira bem mais pacífica.
 
Os espermatozoides, o gameta masculino responsável pela reprodução, são
bem frágeis, podendo sobreviver no mundo externo por apenas alguns
poucos minutos após serem expelidos pelo organismo. Se essas células
fossem inseridas no canal do órgão feminino de forma simples, apenas os
espermatozoides, eles sequer passariam do útero, já que a acidez do meio já
seria suficiente para destrui-los e com isso, a raça humana poderia estar
comprometida, pois após a entrada no aparelho reprodutor feminino, eles
ainda teriam um longo percurso a percorrer e desta forma, eles nem sequer
chegariam na metade do caminho. Felizmente, a coisa toda é resolvida de
forma simples, e é tão eficiente, que é muito mais fácil concluir o caminho
reprodutivo com sucesso do que o contrário.
 
O corpo humano com todo conhecimento de Química que ele possui, sabe
que ácido se combate com base. Pois bem, o sêmen é excretado do
organismo envolto em uma solução composta na maior parte por frutose, o
açúcar presente em frutas e cereais. Este líquido contém 3 compostos de
uma função orgânica chamada de amina (além dos já conhecidos
Hidrogênio e Oxigênio, esta função conta ainda com a presença do
Nitrogênio). Estes compostos possuem caráter básico, sendo conhecido
como bases orgânicas. Possuem como principal característica, o odor que
remete ao cheiro de peixe. As tais aminas presentes no líquido seminal são
a saber, putrescina e cadaverina (os nomes remetem a respectivamente, a
podre e cadáver, e tem este nome porque também são encontradas em
corpos em estado de decomposição). Por último, aparece ainda a espermina.
Esta, possui esse nome por motivos óbvios, não necessitando de
explicações adicionais. Essas aminas garantem que os espermatozoides
estarão protegidos da acidez que vão encontrar no canal feminino neste
meio levemente básico (o pH fica em torno de 8 a 8,4, valor suficiente para
proteger os espermatozoides do meio ácido do canal vaginal) e, por
consequência, possam ir mais longe na grande odisseia da reprodução. Isso
é vida. Isso é Química.
 
No capítulo sobre pH você pode ter uma ideia sobre alguns processos
químicos que o corpo realiza durante nossa vida, sempre mantendo o
equilíbrio químico. Equilíbrio esse que vamos apresentar até o fim dos
nossos dias. Esse capítulo é a respeito do que acontece quimicamente
falando quando acaba a nossa cota de dias no universo. Ou como a lei da
conservação da energia prega, é o momento onde nossa energia é convertida
em outro tipo de energia, já que ela não pode ser criada ou destruída, apenas
transformada. É disso que se trata a morte.
 
Em um belo dia de domingo, você após o almoço, deita no sofá esperando o
“jogo do time do qual você é fã”, como reza a música. Imagine que você
durma e não acorde mais. A vida continua, não para você, mas para seus
entes e para as várias formas de vida que habitam o seu interior. Para elas
(as várias formas de vidas, não seus entes), é hora de começar o trabalho.
 
Assim que “adentramos na balsa de Caronte”, deixando para trás nosso
último suspiro, o nosso corpo começa a pôr em prática o plano
maquiavélico que ele esteve tramando a vida inteira. Órgãos que empregam
enzimas para realizar as suas funções em vida são os primeiros a se
degradarem, utilizando para isso, as próprias enzimas neste processo e
literalmente digerirem os próprios órgão. Um efeito notável que ocorre é
que o pH do sangue diminui. Com a falta de Oxigênio, ele adquire um
aspecto mais escuro do que o normal. Após cerca de 10 horas depois de
morto, o sangue começa a coagular, ganhando um aspecto gelificado. Como
a pequena concentração de dióxido de Carbono que deixou de ser expelido
no momento final é distribuído pelo sangue, ele é acidificado levemente.
 
Os músculos sofrem efeito de acidificação também, pois o mecanismo de
obtenção de energia que quebra a glicose continua funcionando por algum
tempo, mesmo após a morte. Com a falta de Oxigênio, esse mecanismo
produz ácido lático que contribui para a diminuição do pH também nos
músculos.
 
Imagine a cena: milhares de fãs esperando a abertura dos portões para o
show de um ídolo teen. Pense no momento em que os portões são abertos e
essa multidão escoando em ritmo alucinado por pequenos portões abertos.
Com a multidão de micro-organismos que habitam o corpo humano após o
óbito ocorre algo semelhante. Com a interrupção do funcionamento do
sistema imunológico, esses micro-organismos não encontram nenhuma
barreira para realizar o que tentaram na maior parte de nossas vidas, e
algumas vezes, até podem ter conseguido, ainda que por um pequeno
espaço de tempo: proliferar. Um exemplo clássico é o bacilo de Koch, o
responsável por causar uma doença que ainda hoje mata, principalmente em
países subdesenvolvidos, a Tuberculose. Este bacilo está presente no
organismo de todas as pessoas, no entanto, em condições normais de saúde,
permanece contido em uma proporção suficiente para não causar qualquer
dano ao ser humano. Quando por algum motivo, a imunidade do indivíduo
é comprometida, esse bacilo prolifera, reproduzindo-se e iniciando o seu
trabalho de destruição, afetando o tecido pulmonar consumindo-o e
diminuindo a sua eficiência, podendo provocar até mesmo a morte. Com a
extinção da atividade do sistema imunológico do organismo, assim como os
muitos outros trilhões de micro-organismos presentes, ele fica livre para
atacar.
 
Com a parada do coração, o corpo começa a perder calor. Os 36,5° que
inicialmente o corpo possui em média (ou um pouco acima disso, se a
pessoa tiver morrido com febre) vão se perdendo a uma taxa de
aproximadamente 1,5°C a cada hora até atingir a temperatura ambiente
do local, isso levando-se em conta um clima moderado. Em locais muito
frio, essa taxa de perda de calor, claro, é bem maior.
 
Os cerca de 100 trilhões de bactérias que habitam o nosso organismo (tente
digitar esse valor em uma calculadora. A quantidade de zeros é assustadora)
encontram um ambiente propício para realizar as suas atividades, agora sem
moderação. A diversidade de micro-organismos presente é tão vasta que
seguramente podemos dizer que se trata de um ecossistema. Nesta etapa,
podemos dizer de tudo, menos que não há vida presente no corpo do
falecido.
 
Um dos efeitos que se nota rápido, é que após cessar as atividades do
coração, e, por consequência, todo o movimento do sangue pelo corpo, este
se deposita seguindo a gravidade, ou seja, se o corpo se encontrar em pé
(como em uma morte por enforcamento, por exemplo), o sangue se
concentrará na região de pernas e pé. Quando o corpo estiver na posição
horizontal, ou seja, deitado, a tendência é que ele se acumule nas costas,
isso se estiver de barriga para cima, se estiver de costas para o chão ocorre
o acúmulo na barriga mesmo. Esse acúmulo de fluidos e sangue provoca
manchas arroxeadas no entorno da pele e é conhecido como livor mortis.
 
Os músculos sofrem o que é conhecido como rigor mortis, onde adquirem
uma certa rigidez que acontece devido ao desequilíbrio dos processos de
obtenção de energia das células. Com esse desequilíbrio, ocorre uma
concentração de íons de Cálcio nos tecidos musculares, que faz com que
eles adquiram uma certa rigidez que desaparece algumas horas depois
quando começa efetivamente o processo de decomposição do tecido. O
rigor mortis e o livormortis são observados por legistas em cenas de crimes
para determinar a hora aproximada de óbitos das vítimas.
 
Certamente você já deve ter observado em alguns velórios a presença de
pequenos chumaços de algodão no nariz e na boca do finado. Como os
pulmões estão no topo da lista de prioridades de decomposição por
possuírem tecidos bem finos, começam a decompor rápido, liberando
fluidos de cor avermelhada que podem vir a ser expelido por causa da
pressão interna causada pela liberação de gases provenientes da
decomposição como metano (o mesmo gás do GNV) ou mesmo gás
sulfídrico (o mesmo que confere ao ovo podreseu odor característico). Em
alguns dias, o cérebro formado majoritariamente por água, também sofre o
seu revés, vindo a se liquefazer em um líquido acinzentado e seguir o
mesmo caminho que o cérebro dos antigos faraós, que tinha seu miolos
extraídos através de um gancho, saindo pelas narinas.
 
Conforme o organismo vai se auto digerindo pelas mesmas bactérias que
outrora o ajudavam a se manter vivo, as tais duas aminas que citamos
anteriormente vão aparecendo. A putrescina e a cadaverina são produzidas a
partir de aminoácidos que estão presentes no próprio organismo, que as
utiliza como matéria prima, pela ação de enzimas, degradando-as. Estas
aminas começam a impregnar o corpo e junto com os gases vão conferindo
o péssimo odor, característico de matéria orgânica degradada.
 
A pele passa por um processo de perda de água, assim como todo o corpo
que pode chegar a perder 1,5 quilo de água em 24 horas, ficando com um
aspecto de enrugada. Com a decomposição do material orgânico por
debaixo dela, ocorre em alguns pontos, formação de bolhas devido ao
desprendimento de gás metano que por si só, não possui odor, mas, que
combinado com compostos de enxofre, assume o mau cheiro característico
e, que por não ter por onde ser liberado, levanta parte da pele junto. Como a
maior parte de material de primeira ordem para decompor como pulmões
(pela pequena espessura dos tecidos que o compõem), o pâncreas (por
apresentar enzimas no seu interior que ajudam no processo de
decomposição), o estômago (por possuir um considerável número de micro-
organismo em seu interior) e o fígado (rico em enzimas como o pâncreas,
sendo o último a se decompor entre os órgão devido ao seu maior tamanho),
encontram-se situados no abdômen e este não possui nenhuma estrutura
óssea para conter a dilatação devidos à liberação dos tais gases, acaba por
ganhar o mórbido aspecto de “barriga inchada”, que em alguns casos,
podem vir até mesmo a estourar, liberando o “mingau” interno.
Dependendo ainda do local onde o corpo estiver disposto, pode ocorrer um
processo de saponificação das gorduras que desprendem do corpo com
alguns sais de Potássio disponíveis no solo, isto claro, se o finado estiver
em contato direto com o chão. Desta forma, algumas partes do corpo
apresentam aspecto ceroso ou saponáceo (com aspecto ensaboado), devido
a formação de sabão mórbido no local.
 
Osso e dentes não se degradam como o restante dos tecidos, já que são
formados na maior parte por minerais inorgânicos, e portanto, não sofrem
degradação da mesma maneira que as outras partes, pois o processo de
apodrecimento ocorre na parte chamada rica em matéria orgânica. Com isto,
o processo de extinção deste tipo de material leva muito mais tempo,
podendo ser preservado por até mesmo milhares de anos. E por isso que em
descobertas arqueológicas sempre é encontrado pelo menos os ossos. Com
um mínimo de proteção é possível conservá-los relativamente em boas
condições.
 
Tudo no final, depende mesmo das condições do local onde o corpo estiver,
já que fatores externos presentes no meio ambiente influenciam e muito a
velocidade com que o corpo humano se deteriora. Locais frios podem, por
exemplo, retardar o processo por tempo indefinido, enquanto que locais
com umidade mais alta facilitam a proliferação de moscas e insetos (as tais
lucílias e necróforas que foram citadas na frase no início do capítulo) que
vão trabalhar no sentido de esvaziar a carcaça que sobra. Larvas assumem o
aspecto repugnante que as pessoas chamam de “ferver de bicho”. Para
evitar o calor provocado pela grande quantidade destas larvas, elas ficam
em constante movimento em direção ora para a borda do orifício onde estão
depositadas, ora para o centro, como forma de arrefecerem, esfriarem, já
que a atividade delas é tão energética que pode chegar a ficar até 10 ° C
mais quente que o resto do corpo em decomposição.
 
A única certeza na vida é essa. Um dia o jogo acaba. Pena que para a
questão do que acontece após isso tudo, a Química ainda não tem resposta.
Mas, isso tudo não é motivo para ficar com medo de tirar um cochilo depois
do almoço de domingo.
ÁCIDO ACETILSALICÍLICO.
 
"A ciência é ensinada de uma maneira tão chata que é um milagre as
pessoas desejarem ser cientistas"
 
(Marcelo Gleiser – físico brasileiro.)
 
Imagine o primeiro ser humano que viu uma colmeia de abelhas e imaginou
que valeria o risco de ficar todo picado para provar o gosto que tinha aquela
substância viscosa que existia dentro dela (claro que isso é só uma alusão,
uma alegoria, já que o primeiro a fazer isso, provavelmente encontrou uma
colmeia abandonada - assim eu espero). Ou mesmo qual o pensamento do
primeiro a provar o leite de uma vaca pela primeira vez (e passar maus
bocados, já que a tolerância à lactose, uma espécie de açúcar do leite foi
fruto de evolução constante, os primeiros a consumirem leite
provavelmente faziam de teimosos, já que sofriam as consequências, tais
como dor de barriga severa e gases). Da mesma forma, imagine qual foi o
desespero do primeiro infeliz enfermo que após padecer de dores e febre,
tenha vindo a imaginar algo como: “-Vou fazer um chá da casca desta
árvore (no caso, a árvore de salgueiro) para ver se esta dor e febre
diminuem.”. Ou diminuía a dor ou morria, já que ao contrário do que prega
uma determinada canção, uma erva natural pode sim te prejudicar. Inúmeras
plantas venenosas estão aí para provar isso.
 
Há mais de 2000 anos, o grego Hipócrates, o pai da medicina já era
conhecido por recomendar as mulheres a fazer uso de infusões com folhas
de salgueiro para aplacar as dores do parto.
 
Você deve se perguntar o porquê de tudo envolver romanos, egípcio ou
gregos. Isso se dá porque foram povos que tiveram o interesse de
documentar esses tipos de descobertas que provavelmente já vieram muito
antes deles, já que em descobertas de fósseis de neandertais foram
encontrados vestígios de ervas amargas em seus dentes, o que sugere que
eles utilizavam estas ervas como terapêuticos, já que pelo gosto,
provavelmente não era.
 
Desde aquele tempo, já era de conhecimento geral que a infusão feita de
cascas do tronco da árvore de salgueiro, espécie muito comum por aquelas
bandas era excelente para aplacar os efeitos de determinadas enfermidades
comuns desde aquele tempo como dores de cabeça e febre. Raspavam as
cascas, adicionavam em água fervente e deixavam apurar até o tempo de
esfriar mesmo. Com este procedimento, conseguiam extrair um composto
chamado de salicilina presente na casca e a água quente se encarregava de
solubilizar o extrato. De gosto extremamente amargo, apesar de possuir
uma molécula de glicose atrelada a ela, provavelmente, é um dos muitos e
diferentes responsáveis existentes por consolidar o dito popular de que o
gosto ruim é o que cura.
 
A salicilina presente na casca do salgueiro, ao ser ingerida, é metabolizada
pelo organismo, transformando-a em ácido salicílico que no final das contas
é quem vai exercer real ação sobre dores e febres. Nos meados de 1820, a
salicilina foi enfim isolada da casca da árvore. Com ela como matéria-
prima, o ácido salicílico foi sintetizado e, desde então, utilizado como
medicamento. Nesta forma, o princípio ativo teve sua ação potencializada,
sendo muito mais eficiente ao ser ingerido na forma do ácido pronto do que
na forma anterior de salicilina. Com o benefício ocasionado pelo
medicamento, veio também alguns efeitos indesejados, já que o ácido
salicílico era capaz de atacar de forma severa a mucosa estomacal
provocando dores e/ou desconforto. Como não tinha nada melhor na
ocasião, era melhor sentir um desconforto gástrico e sanar as outras dores.
Na prática, meio que trocava uma dor por outra.
 
Isso mudou quando um jovem químico alemão, Félix Hoffmann, cujo pai
fazia uso corrente do ácido salicílico para amenizar as dores relativas a
artrite-reumatoide que ele possuía, já que a salicilina pouco fazia para
diminuir o martírio do pobre homem, começou a trabalhar no caso. A
enfermidade deste senhor infeliz foia motivação para o desenvolvimento de
um medicamento que ainda hoje é de grande valia para a humanidade. O
ácido acetilsalicílico.
 
Basicamente a molécula do ácido salicílico é composta de 3 diferentes
grupos funcionais orgânicos. Um anel aromático composto por 6 átomos de
Carbonos ligados de forma cíclica onde suas ligações entre estes Carbonos
se alteram entre ligações simples e duplas em um efeito que conhecemos
como ressonância. Essa alternância entre as ligações faz com que este anel
possua uma grande estabilidade. Como sabemos que cada Carbono faz 4
ligações, ainda sobra espaço para mais 6 átomos de Hidrogênios ligados a
este anel, fazendo com que a fórmula molecular deste anel seja C6H6(seis
Carbonos e seis Hidrogênios). Ligado a este anel aromático, temos um
grupamento funcional de ácido carboxílico que dá nome ao composto ácido.
Em outra parte do anel temos ligado diretamente a ele um Oxigênio e ligado
a este, um átomo de Hidrogênio. Quando ocorre uma ligação de Oxigênio e
Hidrogênio na ponta de uma cadeia carbônica sem nada mais ligado a eles,
chamamos este grupamento de hidroxila. Podemos portanto dizer que temos
uma hidroxila ligada ao anel aromático e, quando ocorre esta associação em
particular, temos um grupamento que chamamos na Química de Fenol.
Recapitulando, temos um anel aromático (que chamamos usualmente de
Benzeno.), um ácido carboxílico “pendurado” de um lado e uma hidroxila
logo ao lado (o que configura um fenol).
 
Além de possuir um grupamento de ácido carboxílico em sua estrutura,
acontece do grupamento fenol também ser bastante ácido. O fenol possui
acidez considerada, tanto que já tinha uso conhecido como antisséptico em
limpezas de ferimentos e assepsia de locais e instrumentos cirúrgicos. O
entrave na utilização deste era que era tóxico e corrosivo. Imagine o que
essa acidez poderia fazer na mucosa gástrica irritada e ferida de uma
pessoa? Foi com este pensamento que a “lâmpada” na cabeça de Hoffmann
se acendeu. O próximo passo era como esconder ou arrancar essa hidroxila
(do grupamento fenol.) do anel sem que a molécula perca as suas
propriedades analgésicas (capaz de aliviar a dor.) e antipiréticas (capaz de
aliviar a febre).
 
O grupamento funcional do ácido carboxílico que fica pendurado no anel
aromático é o responsável pela ação do medicamento no corpo humano que
o processa e provoca no corpo o efeito relativo à diminuição ou extinção de
dores e febres. A salicilina original extraída da casca do salgueiro, possuía
efeitos bem mais brandos do que o ácido salicílico, que era de longe, bem
mais potente que o extrato in natura da árvore, mas possuía o defeito de
atacar a mucosa gástrica do estômago de algumas pessoas. Por isso, se fez
necessário a resolução de um problema: como continuar com os benefícios
do ácido salicílico mas sem causar problemas adicionais, da mesma forma
como a salicilina fazia? Deste esforço, surgiu o objeto de estudo deste
capítulo.
 
Tendo em mãos esse princípio de raciocínio, Hoffman pôs em prática sua
ideia visando preservar o grupamento de ácido carboxílico da molécula, já
que pressupostamente era a parte interessante do medicamento. Com o
propósito de eliminar o grande vilão da molécula, a hidroxila do fenol
pendurada, Hoffmann utilizou da reação conhecida como acetilação, que
consistia em inativar o fenol transformando-o em algo menos nocivo ao
organismo. A acetilação permitia a entrada de um grupamento acetila,
característico de éster na molécula em substituição ao nocivo, tóxico e
irritante fenol. Para empreender tal tarefa, ele utilizou anidrido acético
como reagente junto ao ácido salicílico mais a adição de uma quantidade
mínima de ácido sulfúrico que participa da reação como catalisador,
garantindo que o meio fique suficientemente ácido para que a reação
ocorra. O anidrido consiste de forma resumida em duas moléculas de ácido
acético desidratadas unidas por um Oxigênio. Esse anidrido no meio
reacional é hidrolisado (o nome hidrólise significa “quebrado pela água”.)
transformando-se em duas moléculas de ácido acético. O ácido gerado ataca
a hidroxila do fenol, arrancando-a e se instalando no local onde outrora ela
habitava. Depois de tudo, ainda sobra uma molécula de água que o ácido
sulfúrico carrega, fazendo com que a reação não consiga fazer o caminho
inverso, já que se a água continuar no meio, pode ocorrer que algumas
hidroxilas possam retomar seu lugar anterior em algumas moléculas do
ácido salicílico, perdendo o rendimento da reação. Com isto, o ácido
salicílico é convertido em ácido acetilsalicílico e comercializado com
nomes comerciais variados tais como AAS, Aspirina e muitos outros que
você já deve ter ouvido por aí.
 
Com o resultado final da acetilação, o medicamento continua com suas
propriedades analgésicas, antipiréticas e anti-inflamatórias mantidas sem o
incômodo severo que o grupamento fenol proporcionava. A acidez dele
continua, afinal de contas, é um ácido, que apesar de orgânico, ainda assim
apresenta relativa acidez, podendo trazer incômodos em pessoas com maior
sensibilidade, mas o nem de longe se compara aos problemas anteriores que
o corrosivo fenol apresentava.
 
Tem uso tão comum, que é atualmente o terceiro analgésico mais vendido
no mundo, perdendo apenas para o paracetamol e o ibuprofeno.
 
Outro fator que justifica todo esse consumo mundo afora é que dependendo
da quantidade de princípio ativo, o ácido acetilsalicílico pode atuar em duas
frentes. A primeira é como citamos durante todo este capítulo, como
analgésico, antipirético e anti-inflamatório quando é recomendado o
consumo igual ou acima de 500 mg.
 
De 100 a 200 mg, ele funciona como antiagreganteplaquetário, já que nessa
proporção, ele se liga de forma irreversível às plaquetas do sangue,
inativando a propriedade destas de coagularem, isto é, de se aglomerarem.
Desta maneira, o sangue não consegue formar coágulos, propriedade
desejada quando se deseja evitar a formação de trombos em pessoas com
problemas de circulação ou trombose. Esses coágulos quando formados no
interior de vasos sanguíneos de alto calibre, grossas, têm tamanho suficiente
para obstruir vasos, artérias e capilares de menor calibre como os
encontrados no cérebro, por exemplo, vindo a causar a obstrução destes
ocasionando problemas graves como AVC (acidente vascular cerebral),
onde a falta de Oxigênio no cérebro acarreta até mesmo morte dos tecidos,
podendo levar ao óbito o indivíduo portador da enfermidade. Por este
motivo o ácido acetilsalicílico é administrado em pessoas com taxa de
colesterol elevado no sangue, já que este colesterol pode formar placas de
gordura nos vasos sanguíneos, diminuindo sua eficiência circulatória, já que
a circulação fica comprometida. Desta maneira, qualquer possível coágulo
que possa a vir ser formado já é perigoso, pois pode obstruir uma veia de
maior calibre e com isso forçar em excesso a bomba circulatória, o coração,
que por causa desse excesso pode ter uma de suas paredes rompidas pela
pressão ocasionando a sua ruptura (infarto) ou a ruptura de alguma outra via
circulatória. A grosso modo quando este medicamento é administrado,
dizemos que faz o sangue ficar ralo, já que ele perde a sua capacidade de
coagular, ou seja, de aglomerar seus glóbulos vermelhos. Você deve estar se
perguntando por que diabos o sangue faz isso, se sabotando, certo?
Acontece que este mecanismo de coagulação é útil quando o corpo humano
sofre algum dano onde a pele é rompida, assim como algum vaso ou capilar.
O corpo humano sem esta capacidade sangraria até que o sangue esgotasse.
Quando ocorre algum tipo de ruptura, o sangue como mecanismo de defesa
do corpo humano, a grosso modo, acumula os glóbulos vermelhos na
tentativa de fazer uma espécie de rede ou tampão para impedir o
escoamento do sangue pela ruptura. Por inativar a propriedade do sangue de
produzir essa rede, a utilização deste tipo de medicamento é contraindicado
em pessoas que venham a apresentar quadro clínico de contágio por
Dengue, justamente por causa de uma variante destadoença que é a dita
hemorrágica. A utilização do ácido acetilsalicílico pode potencializar a
hemorragia que ocorre em pessoas com esta patologia.
 
Incrível como o afeto de um filho por seu pai produziu um medicamento de
uso tão vasto e por tanto tempo, sendo utilizado até hoje. E você querendo
trocar de canal quando seu pai quer ver o futebol...
CHUMBINHO.
 
"A ciência é o grande antídoto contra o veneno do entusiasmo e da
superstição"
 
(Adam Smith – filósofo britânico.)
 
Alguma vez na vida você pode ter visto sendo vendido em feiras livres ou
em algum estabelecimento, ainda que de forma informal, somente para
algumas poucas pessoas, ou pior: você mesmo pode ter comprado para
utilizar em casa, talvez sem imaginar o tamanho do risco no qual estava
sendo exposto, já que a toxicidade dele é tão grande que apenas 1 grama é
capaz de matar uma pessoa em poucas horas (e uma morte bem dolorosa, só
para constar). Sim, estou falando do que conhecemos comumente como
“chumbinho”. Apesar do aspecto engraçado em forma de bolinha,
assemelhando-se ao chumbinho utilizado em armas de tiros de pressão, é
um produto muito perigoso. E acaba tendo sua periculosidade aumentada
justamente por ter seu emprego da forma como acaba sendo utilizado, sem
qualquer proteção e sem qualquer cuidado.
 
Originalmente, o princípio ativo do chumbinho, é na maioria das vezes,
composto de um potente agrotóxico para ser utilizado em lavouras de
feijão, cana-de-açúcar, algodão e batata entre outros, com a finalidade de
eliminar as diversas pragas que porventura possam atacar o cultivo, como
insetos ou fungos. O grande problema é que esse agrotóxico acabava
chegando nas mãos de pessoas que sabendo do grau de toxicidade do
produto, utilizavam-no para matar ratos, e ainda pior, também para matar
além de outros animais como cães e gatos, e pasmem, até mesmo pessoas.
principal componente do veneno é o Aldicarbe, que é encontrado em mais
da metade os chumbinhos comercializados de forma clandestina. É uma
substância altamente danosa para o corpo humano, que provoca danos
severos e de forma rápida. Por onde passa no organismo vai provocando
danos em rins, fígados e pulmões que se não forem tratados de forma
adequada, rapidamente leva a pessoa ou animal desafortunado que o ingeriu
a óbito.
 
Desde 2012, a ANVISA, o órgão nacional que cuida destes tipos de casos,
proibiu de forma irrestrita a comercialização pela Bayer, a única empresa
que produzia o agrotóxico que continha o Aldicarbe em sua composição, de
nome comercial Temik 150, fazendo com que a empresa tivesse que além
de interromper o fornecimento, ainda tivesse que recolher qualquer
resquício do produto que porventura ainda tivesse em mãos de agricultores.
O maior problema em si não era o produto sendo utilizado para a finalidade
para o qual foi desenvolvido, como agrotóxico para o controle de pragas,
mas sim a utilização dele como veneno de rato. Por se tratar de um produto
que era vendido de forma clandestina, sequer tinha informações de como
manipulá-lo sem se expor ao risco de ser contaminado, já que uma simples
manipulação ou inalação deste já era exposição suficiente para ser
contaminado. A Alemanha, país original da empresa que o fabricava e
comercializava já tinha banido o produto a mais de uma década antes.
 
O mecanismo de ação do Aldicarbe no corpo humano, assim como no de
animais doméstico, incluindo o rato, é semelhante ao ocorrido quando
exposto a compostos orgânicos com o elemento Fósforo (não o de cozinha,
que na verdade nem fica no dito palito, mas sim na caixa onde riscamos ele
para acender. O palito na verdade tem pólvora. O certo seria palito com
pólvora em caixa, essa sim, com Fósforo.) utilizado como pesticida,
chamados de organofosforados.
 
Armas Químicas como o gás Sarin utilizado na Segunda Guerra Mundial e
o veneno de algumas cobras possuem ação semelhante no corpo humano.
Em seu mecanismo de ação, lesa cérebro, paralisa pulmões e coração.
 
O despreparo para utilização do composto sempre gerou preocupação, já
que contaminações podem ocorrer quando no contato com a pele, apesar
deste tipo de contaminação ser mínima, já que por ser apresentado na forma
de grânulos, a área de contato é reduzida. Outra preocupação também era
com o armazenamento, já que um possível contato com o solo poderia a
longo prazo, acarretar a contaminação de leitos de água.
 
O chumbinho sempre foi associado a fama de um bom veneno para ratos,
porque, como tem rápida ação, o roedor dificilmente ia muito longe do local
onde era administrada a dose mortal. Como até mesmo em pequenas
quantidades é fatal, quando era consumido de forma voraz pelos ratos, o
efeito era potencializado e dificilmente ao acordar, o dono da casa não tinha
a surpresa de ver um exemplar da espécie deitado ao lado da associação
comida + veneno. Não era muito eficaz a longo prazo, porque, segundo
alguns estudo a respeito do comportamento da espécie, obedecem uma
espécie de hierarquia do tipo “antiguidade é posto” onde os mais velhos se
alimentam primeiro antes dos mais jovens. Isso não é difícil de perceber
quando o veneno é empregado em local com infestação de ratos, onde são
encontrados mortos os de maior tamanho, ou seja, justamente os mais
velhos. Nem tudo é vantagem neste sistema, já que se alimentam primeiro
da refeição envenenada e morrem sozinho. Digo sozinho porque assim que
os mais jovens vêm que o antigão deitou perto da comida e aparentemente
começou a dormir de vez, eles abandonam a refeição e partem para outra.
Por causa disto, a eficácia do veneno é comprometida em infestações muito
grandes onde apenas alguns vão sendo eliminados por vez, e isso demanda
maior tempo de uso e quantidade do veneno. Para isso então, foram
recomendados o uso de anticoagulantes. Esses sim, regulamentados pela
ANVISA.
 
Anticoagulantes são substâncias que como o próprio nome sugere, evitam
que o sangue realize suas funções coagulantes, isto é, não permitem que as
plaquetas do sangue formem aglomerações entre elas. Este tipo de
aglomeração é útil quando ocorre ruptura da pele ou outro tecido do corpo
humano ocasionando hemorragia. Essa associação das células sanguíneas é
chamado de coagulação e ocorre de forma a produzir trombos, coágulos
para atuar como se fossem tampões, evitando assim que o sangue seja
derramado para fora do corpo humano. Pois bem, ocorrem por vezes,
situações onde estes coágulos são formados espontaneamente no interior
dos vasos sanguíneos. Em vasos de grande porte, com formação de placas
de gordura, encontrado em pessoas com colesterol alto que diminui a
eficiência da circulação destes vasos, por exemplo, isso pode ser um
problema sério. Mesmo em pessoas sem este histórico, ainda sim pode ter
um potencial perigo, pois este coágulo pode vir a obstruir um vaso de
pequeno porte, vindo a causar um acidente vascular cerebral (conhecido
pela sua abreviação, AVC), por exemplo, devido ao pequeno diâmetro dos
vasos que irrigam a região do cérebro. Como vimos no capítulo a respeito
do AAS, anticoagulantes também podem ser empregados como tratamento
para evitar esse tipo de problema. Os anticoagulantes utilizados como
veneno para contenção de pragas funcionam evitando a coagulação do
sangue de forma similar. A diferença entre as ações destes dois tipos de
coagulantes é que no AAS, ele se associa a algumas plaquetas do sangue de
forma irreversível se ligando a elas e após o final de sua vida útil em cerca
de 10 dias, são destruídas pelo baço. Morrem sem conseguir coagularem de
novo. Os anticoagulantes utilizados em venenos para contenção de pragas
agem de forma a impedir a síntese de vitamina K no fígado do roedor. Essa
falta deste tipo de vitamina provoca uma série de efeitos a longo prazo que
provocam a morte do animal.
 
A vitamina K age sobre os mecanismos de coagulação do sangue, o que faz
que o organismo seja inibido a produzir enzimas que auxiliariam no
processo de formação de coágulos. Com isso, uma rede fibrosa de proteínas
chamada convenientemente de fibrina ou é deixadade produzir ou é
produzida em quantidade menor do que o necessário. Essa proteína quando
ocorre a ruptura da pele ou outro tecido é ativada e forma uma espécie de
rede que não permite a passagem das hemácias que se unem formando os
tais coágulos. Com a falta da fibrina, o sangue não consegue estancar o
processo de hemorragia. A falta de vitamina K no organismo acarreta ainda
a permeabilidade dos vasos e capilares. Isto significa que estes se tornam
frágeis e até mesmo porosos. Com isto, não conseguem conter o sangue e
outros fluidos em seu interior, vindo a “vazar”, de forma a ocorrer perda dos
fluidos que transportam. Processo semelhante ocorre em alguns órgãos,
fazendo com que literalmente o sangue vaze internamente, vindo a ocorrer
falência por hemorragia severa.
 
Como este processo é muito mais lento do que o realizado com a ajuda do
chumbinho, podendo levar alguns dias até que a intenção final ocorra, o
rato não consegue perceber o que está dizimando a comunidade. Com isto,
exemplares velhos e novos da espécie são atacados de forma igual. Até
mesmo os filhotes mais novos são alcançados desta maneira, pois os ratos
costumam levar a isca coagulante para o local onde costumam se abrigar,
servindo como alimento até mesmo para seus rebentos.
 
A parte triste acontece quando um animal doméstico de estimação ataca um
rato que tenha consumido o veneno, seja ele o chumbinho, seja ele um
anticoagulante, já que nestes casos, o roedor pode estar mais lento por causa
da ação do veneno, facilitando o ataque do cão, gato ou seja lá o que você
cria em casa. Por este motivo é importante em primeiro lugar, evitar o uso
deste tipo de substância em casa ou no quintal onde porventura tenha um
animal de estimação. Em segundo lugar, saber se algum vizinho possa estar
fazendo uso de alguma substância deste tipo, já que ratos têm grande
facilidade para escalar muros e paredes. Em alguns casos onde o animal de
estimação apenas morde o roedor e apresenta ao dono como um “presente”
é menos preocupante (sim, alguns deles fazem isso). Os casos onde o rato é
consumido são piores, por causa da maior quantidade de veneno ingerido.
 
O conhecimento de qual tipo de veneno possa ter contaminado o animal de
estimação é útil para empregar o melhor método de recuperação. O
chumbinho é de longe o pior deles, justamente por possuir uma ação rápida.
Anticoagulantes possuem ação mais lenta e também um tratamento mais
simples. Como agem inibindo a produção da vitamina K que atua em
diversos processos pelo organismo, a simples administração desta vitamina
já é suficiente para restaurar o funcionamento normal das funções, isto em
casos não tão avançados, claro.
 
Um caso típico onde a Química atua de forma severa para a morte e
também para restaurar a ordem e, consequentemente, a vida. Na dúvida,
para eliminar os roedores, uma alternativa são os papéis com cola.
Funcionam e ainda podem capturar mais de um por papel sem comprometer
nenhum animal de estimação. Falo por experiência própria.
ADOÇANTE.
 
” Vivemos em uma sociedade extremamente dependente da ciência e
tecnologia, na qual pouquíssimos sabem alguma coisa sobre ciência e
tecnologia.”
 
(Carl Sagan – físico norte-americano.)
 
Os infelizes povos antigos deveriam passar por maus bocados. Imagine um
mundo triste sem o açúcar. Depois que o primeiro aventureiro se atreveu a
provar o fluido que havia dentro de colmeias de abelhas e descobriu o gosto
agradável que ele tinha, tudo ficou mais fácil. Sabe-se lá o que passou pela
cabeça do primeiro a fazer isso.
 
Com a descoberta da cana-de-açúcar em países tropicais de onde
começaram a extrair o açúcar, posteriormente, o doce assumiu o seu papel
na alimentação global.
 
Os egípcios e romanos, já faziam relatos, ainda que em casos raros, de
pessoas acometidas de enfermidades que eram potencializadas com o
contínuo consumo de mel. Observando que algumas pessoas urinavam com
frequência maior do que o usual e também na presença de formigas em
torno da urina de alguns cidadãos, começaram a associar isso com o
consumo de produtos adocicados. Como na época, os costumes alimentares
eram muito diferentes em relação ao que temos nos tempos atuais, era
muito mais difícil casos de diabetes como temos atualmente.
 
Umas das primeiras associações do diabetes com o açúcar se deu devido ao
aparecimento de cristais de açúcar quando alguém teve a ideia de ferver a
urina de uma pessoa acometida pela doença. Se já não fosse o suficiente,
outro cientista teve a brilhante ideia de beber uma porção de urina e
constatar que era tão doce quanto mel. O que não fazemos pela ciência.
 
Como mecanismo de evolução, sentimos grande afinidade pelo sabor doce,
pois associamos o gosto com energia, já que o principal constituinte do
açúcar é a glicose, que é basicamente nossa fonte de energia pronta.Com a
restrição no consumo de açúcar de pessoas com este tipo de enfermidade,
um novo filão se abriu no mercado com produtos que além de trazerem o
gosto doce na boca, ainda não apresentavam ganhos energéticos para o
organismo, sendo também apreciado para pessoas que buscavam diminuir
seu peso corporal, seja por motivos de saúde, seja por motivos estéticos.
Com a necessidade de alguma coisa doce que não apresentasse ganho
energético e tampouco deixasse o sangue inundado de glicose se fez
presente. Surgiram os adoçantes.
 
O tipo de açúcar mais utilizado hoje que é o açúcar de mesa, é composto de
sacarose que possui em sua estrutura uma molécula de glicose de “mãos
dada” com um átomo de Oxigênio e na outra “mão” assim podemos dizer,
uma molécula de frutose, um outro tipo de açúcar. Essa frutose, que pelo
nome você já dever ter notado, é encontrado principalmente em frutas, no
mel e em cereais.
 
A glicose em excesso no corpo, com a baixa quantidade do hormônio
insulina, responsável por “quebrar” as moléculas de glicose e transformá-
las em energia para as células, faz com que o sangue seja inundado por
glicose, bruta, e, desta forma perde sua maior fonte de energia, já que deixa
de ser processada pelo organismo, ficando “boiando”, à deriva no sangue.
Além do mais, este excesso provoca vários outros sintomas prejudiciais ao
corpo como cicatrização ruim, problemas no coração, rins e até mesmo na
visão.
 
Até hoje não se sabe ainda qual o grupamento funcional específico que
provoca o gosto adocicado na boca de forma precisa, já que todos os
adoçantes comercialmente conhecidos hoje possuem talvez mais diferenças
entre si do que semelhança. Ainda não se tem um consenso preciso sobre
uma ou outra função orgânica que possa possuir essa propriedade de
apresentar o sabor doce, justamente por isso que a maioria das descobertas a
respeito de adoçante acaba sendo por acidente, quando o químico na
verdade, estava procurando outra coisa e por acaso acaba descobrindo um
edulcorante (um outro nome para adoçante).
 
A ideia não é nova. Antes de 1900, ainda que por acidente, a sacarina, o
primeiro de muitos adoçantes que vieram depois, foi descoberta. Com
caráter adoçante poderoso, podendo facilmente substituir o açúcar,
chegando a ser 300 vezes mais doce que a glicose. É um produto sintético,
isto é, produzido através de reações químicas conduzidas em laboratórios. É
derivado do petróleo, tendo em sua estrutura o tolueno, de uso comum em
vernizes e cola-de-sapateiro e utilizado por vezes como entorpecente, já que
provoca efeitos alucinógenos, inclusive, percorrendo pelo cérebro o mesmo
caminho que a cocaína faz, além de ser altamente cancerígeno, tendo seu
uso controlado e no caso da cola, vendido apenas a maiores de 18 anos (isso
tudo, a respeito do tolueno que é matéria prima da sacarina, e não a sacarina
em si, portanto, não se assuste).
 
A descoberta da sacarina em meados de 1897 é pautada em três coisas que
uma vez que a pessoa for trabalhar com reagentes químicos, não deveria
fazer em hipótese alguma.
 
A primeira seria, antes de qualquer coisa, não deixar de utilizar os
equipamentos de proteção individual, ou seja, trabalhar com os
equipamentosde proteção adequados a tarefa que está sendo realizada.
Neste caso em particular, o procedimento que estava sendo realizado
envolvia alcatrão de hulha, derivado do petróleo que pode conter mais de
trezentos composto diferentes, incluindo o tolueno do qual a sacarina é
derivada. Todos eles tóxicos. O líquido viscoso possui forte cheiro de
naftalina. Só estes detalhes já justificariam o uso de luva.
 
A segunda seria ainda relacionada a assepsia das mãos após a manipulação
de composto tão tóxico. Imagine que a descoberta foi possível porque um
dos pesquisadores sentiu o adocicado que a sacarina proporcionava ao se
alimentar após não lavar as mãos de forma correta, ou mesmo não lavá-las,
quem sabe.
 
A terceira seria não levar à boca um derivado de tolueno, solvente industrial
que além de tóxico, também é cancerígeno, como já foi dito. Estas pequenas
observações devem proporcionar uma vida mais longa no laboratório a
quem quiser se aventurar no universo dos químicos.
 
O mundo da Química está repleto de exemplos como este onde determinada
molécula que provoca um grande estrago em uma situação, quando
combinada com outra, perde quase que totalmente seus malefícios, podendo
até mesmo funcionar como medicamento. Aliado ao Sódio que fica
pendurado na estrutura, a sacarina ainda contribui para a retenção de
líquidos do corpo, que como já sabemos, provoca o aumento da pressão
arterial. Apresenta um gosto levemente amargo no paladar, e por isso, na
maioria das vezes é utilizado em associação com outro adoçante para
mascarar esse efeito. O lado bom é que o corpo humano nem mesmo toma
nota dele. Excreta sem metabolizá-lo. Em outras palavras, ele sai do mesmo
jeito que entrou.
 
O aspartame, o adoçante de maior uso no mundo atualmente, foi criado em
1965. Da mesma forma que a sacarina, sua descoberta se deu de forma
acidental, quando o norte americano James Schlatter na sua pesquisa para
obter um medicamento contra úlceras, contaminou o seu dedo indicador.
Dedo esse que ele mais tarde usou ao manusear um livro, naquele costume
que temos de molhar o dedo com saliva ao folhear as páginas, constatou o
adocicado no tal dedo indicador. O aspartame não possui Sódio em sua
estrutura, assim, não tem entrave para o consumo por hipertensos. Possui
valor energético quase desprezível, já que por possuir poder adoçante de até
200 vezes maior do que o açúcar de mesa, a quantidade utilizada para
adoçar alguma coisa é muito pequena. É frágil, sendo degradado quando
submetido a altas temperaturas por tempo prolongado.
 
O seu metabolismo no organismo gera uma quantidade pequena de metanol
no corpo humano, que utilizando este álcool é capaz de produzir ácido
fórmico e formaldeído que são extremamente tóxico para o organismo. O
lado bom é que a quantidade é muito pequena. Precisaria de uma dose cerca
de duzentas vezes maior para provocar algum dano real. O tomate mesmo
possui uma quantidade considerável de metanol e ainda assim não apresenta
risco algum o seu consumo neste sentido. Pelo menos até hoje, eu nunca
ouvi falar em alguém ficar cego de tanto comer tomate.
 
Existem várias restrições ao uso do aspartameque vão desde a possíveis
distúrbios mentais, até ao acúmulo do formaldeído que é gerado, nas
células. O formaldeído para quem não sabe, é o famoso formol, muito
utilizado para embalsamamento de cadáveres. Para quem queria apenas
adoçar um cafezinho, é risco demais para se correr.
 
Outro adoçante de amplo uso atualmente, o ciclamato de Sódio teve a sua
descoberta (para surpresa de todos) acidentalmente, após o também norte
americano Michael Sveda levar seu cigarro contaminado com o objeto de
sua pesquisa que era medicamentos contra febre, à boca. Mais
surpreendente que o fato dele estar fumando em um laboratório, foi o sabor
adocicado que ele encontrou no tal cigarro contaminado. O ciclamato
apresenta um poder adoçante não tão poderoso como a sacarina, adoçando
cerca de 30 vezes mais do que a sacarose presente no açúcar, mas em
compensação, ele não apresentava o leve amargor residual da sacarina
sódica.
 
Assim como sacarina e o acessulfame, ele possui em sua estrutura um
átomo de enxofre pendurado. O ponto positivo deste é que não apresenta
gosto residual significativo, além de também não ser degradado em altas
temperaturas, sendo portanto recomendado para uso em forno e fogão. O
ponto negativo é que como apresenta o Sódio na sua estrutura, vai possuir
os mesmos entraves em relação à sacarina sódica, tais como retenção de
líquidos e aumento da pressão arterial.
 
Se o Sódio é um problema previsível, este foi relativamente fácil de
resolver. O acessulfame K é um exemplo prático. A molécula adocicada
vem acompanhada de um Potássio pendurado na ponta no lugar do Sódio.
Metal da mesma família da tabela periódica, o K do nome vem do símbolo
do Potássio na tabela. Para variar, foi descoberto por acidente por
pesquisadores de uma indústria químico-farmacêutica alemã no final dos
anos 60. Não tem nada muito curiosos a respeito da sua descoberta (isso se
você não entende por curioso, o fato do pesquisador levar à boca o produto
da síntese que ele realizou).
 
Pode adoçar cerca de 200 vezes mais do que a sacarose. É estável a altas
temperaturas, não causa cáries assim como a sacarina e não apresenta ganho
energético. Outra propriedade apreciada neste adoçante é que ele continua
estável mesmo quando exposto a temperaturas mais altas, fazendo assim
com que ele seja mais apropriado para receitas de bolos ou outro produto
que tenha que ir a cozimento a temperaturas elevadas.
 
Ainda dentro dos esforços de pesquisas, alguém deve a curiosidade de
trocar alguns átomos de Hidrogênio presente na estrutura da sacarose por
átomos de Cloro. Como resultado, obtiveram um açúcar com a capacidade
de adoçar cerca de 600 vezes mais do que a do açúcar comum, e com o
benefício extra de não ter potencial energético. Em outras palavras, ele
adoça sem adicionar calorias, portanto, não engorda. Surgiu assim a
sucralose, que ainda apresenta como qualidade adicional o fato de não
provocar cáries, pois as bactérias não o reconhecem como açúcar e portanto
o desprezam, não metabolizando-o.
 
Durante algum tempo, pensou que a frutose pudesse desempenhar de forma
satisfatória em diabéticos o papel de açúcar. A resposta veio algum tempo
depois, já que estudos revelaram que seu consumo em quantidades elevadas
acarretavam prejuízos tão grandes ou maiores dos que os provocados pelo
consumo da sacarose. Hora de abandonar o barco.
 
Sendo um dos açucares presente na molécula da sacarose, a frutose foi
utilizada durante muito tempo como substituinte do açúcar comum,
utilizada inclusive como recomendação para substituição do açúcar para
diabéticos. Um adoçante natural, encontrado em frutas e mel, por exemplo,
e que podia adoçar até 160 a 170 vezes mais do que o açúcar comum. Como
possuía um processamento mais lento pelo organismo, que demorava mais
tempo para convertê-la em glicose, e, consequentemente fazia com que o
corpo não precisasse devolver o troco de maneira rápida na forma de
insulina, que é justamente a deficiência que a pessoa que possui diabetes
possui. Com essa conversão em glicose mais lenta, o organismo da pessoa
que padecia de diabetes conseguia liberar insulina em quantidades razoáveis
de forma que o sangue não ficasse inundado com excesso de glicose.
Durante muito tempo foi um porto seguro, digamos assim. O porém se deu
quando foi observado que com o excesso do consumo de frutose, o fígado
metabolizada a glicose em triglicerídeos, o colesterol que contribuía para
entupir as vias sanguíneas. A ciência e a medicina está repleta de casos
como esses onde a linha entre o que é bom e o que é mau é muito tênue,
fina. Por esse motivo em particular, a Anvisa não estabelece nenhuma
quantidade segura para consumo de frutose.
 
Outro adoçante natural que você pode encontrar em prateleiras dos
supermercados com tempo de comercialização relativamente recente é o
derivado de uma planta conhecida como Estévia, sendo inclusiveutilizado
para adoçar refrigerantes com zero calorias. Tem como grande qualidade o
fato de ser um produto natural, pois é extraído da planta Stévia Rebaudiana
Bertoni. Por apresentar um gosto residual característico, apesar de pequeno,
ainda sim possui certa resistência por causa disto.
 
Outro de uso comum que, com certeza, você já deve ter ouvido falar é o
sorbitol. Na contramão dos outros adoçantes que adoçam no mínimo 50
vezes mais do que o açúcar, o sorbitol adoça mais ou menos metade do que
a frutose. A essa altura, você deve ter percebido que pelo nome terminando
em “-ol”, ele é um álcool. Na verdade, é um poliálcool, pois na sua
estrutura possui seis grupamentos hidroxilas (OH) pendurados ao longo de
sua cadeia, que lhe dão a função orgânica de álcool. É muito utilizado em
chicletes sem açúcar e pasta de dentes, já que não provoca cáries. Possui
vários outros empregos, sendo utilizado como antiumectantes e por
apresentar também a propriedade de absorver água, retém umidade no
intestino, tendo portanto efeito laxativo se consumido em excesso.
 
Em alguns casos, principalmente em bebidas fria, é possível observar a
presença de pequenos grânulos brancos no fundo do vasilhame com o
líquido no qual ele foi dissolvido. Isso se deve a adição de dióxido de
titânio, que neste caso não é adicionado como pigmento branco (outra
função deste tipo de reagente), mas sim como antiumectantes, que entra
com a finalidade de evitar que os grânulos em pó do adoçante, não se
aglomerem sob condições de umidade, prejudicando a dissolução dele
quando no momento do uso. Esse reagente consegue absorver a umidade
que porventura possa atacar o adoçante, sem, no entanto, apresentar
aglomeração ou pastosidade.
 
Como são apresentados como alternativas, o certo é que não apresentarão o
gosto igual ao do açúcar. Cabe a cada um consumidor escolher o que mais
lhe agrada apesar dos poréns que cada um vai apresentar. Alguns vão
apresentar sabor residual amargo ou metálico. Uns vão apresentar
resistência ao calor, podendo ser utilizado para o que chamam de mesa e
fogão, outros só apresentarão utilidade em aplicações a frio. E os efeitos
que cada um pode acarretar após um tempo prolongado de exposição, bem,
esses podem demorar mais algum tempo, outros podem demorar menos,
como o caso da frutose onde sabemos o que pode acontecer após excesso e
tempo demasiado de uso.
 
Enquanto isso, você pode ir curtindo o lado doce da vida (sim, o trocadilho,
apesar de infeliz, foi proposital).
CIMENTO.
 
” A beleza de uma coisa viva não são os átomos que estão nela, mas a
forma como esses átomos são colocados juntos.”
 
(Carl Sagan – astrofísico norte-americano.)
 
Há muito tempo atrás, depois que o homem abandonou o modo “vida
louca” de sair por aí, vivendo de caça, e firmou os pés em um local fixo
para viver, que já existe o pensamento de construir uma morada, um local
para chamar de seu.
 
Com o domínio de técnicas de agricultura e domesticação de animais, ficou
mais fácil para o homo sapiens escolher um local mais conveniente e, fixar
seu alicerce. Literalmente.
 
Desde tempos remotos, onde se encontra o que chamamos hoje de Oriente
Médio, povos já tinham conhecimento de técnicas rudimentares de
utilização de gipsita, um tipo de rocha porosa que era encontrada
abundantemente no solo, composto na maior parte de sulfato de Cálcio, que
conhecemos popularmente como gesso. Através desta gipsita, após
aquecimento relativamente simples (cerca de 128°C já é suficiente), é
obtido uma pasta de aspecto pastoso que após perder a maior parte da água
que ela possui em sua composição, era utilizada para unir pedras e formar
construções de relativa resistência a intempéries naquela época. Não era tão
abundantemente encontrada como o calcário, que era muito mais farto, mas
em contrapartida, precisava de alta energia para obter o gesso a partir dele,
algo em torno de até 400°C. Naquele tempo, imagine só, era muito mais
difícil alcançar uma temperatura dessa, por isso a predileção pela gipsita.
Imagine a dificuldade para medir a temperatura em uma época que sequer
haviam inventado o termômetro. O controle era muito impreciso. Era de
quente, para mais quente, para mais quente ainda, até “não aguento mais
ficar perto”.
 
Existem várias outras rochas onde era possível realizar a extração de gesso,
tais como alabastro, anidrite e espato entre outras, só para citar algumas. Os
empecilhos iam desde dificuldade para extração do gesso a partir destas, até
a dificuldade de obtenção do mineral. Desde aquela época e até os tempos
atuais, prevalece sempre a lei da maior oferta. Algumas coisas, realmente
não mudam.
 
Antes da invenção do cimento, o gesso era o top da época. Misturado em
variadas proporções com outros materiais que iam de areia a argila. Desde
pirâmides, muralhas e coliseus, tudo que era construído buscando
durabilidade, e, inclusive, todas resistiram ao tempo, estando com a maior
parte das suas estruturas de pé até os tempos atuais era majoritariamente
construído utilizando compostos com gesso.
 
O mais próximo do cimento como conhecemos hoje, só veio a surgir no
final dos anos de 1700 na Inglaterra produzido pela calcinação (queima) de
calcários, apesar de o tipo Portland que utilizamos atualmente só vir a ser
fabricado a partir de 1824 (o nome veio quando após a obtenção do método
para fabricação, o responsável, o inglês Joseph Aspdin, achou parecido,
além da dureza que ele apresentava remetendo a dureza de pedras, também
a cor do seu composto com as pedras da ilha de Portland na Inglaterra).
 
O gesso que era utilizado outrora como composto prioritário, restou bem
pouco, entrando no máximo 3% da composição apenas para aumentar o
tempo de endurecimento (cura) da massa quando pronta, o que os pedreiros
chamam de “pega”.
 
O processo utilizado pelo inglês, é parecido com o realizado ainda hoje,
com adições feitas para melhorar a qualidade do cimento atual. A maior
parte do composto é formada de calcário que possui em sua composição
básica sais de Cálcio entre outros componentes, e argila, numa proporção
que pode chegar a 75% de calcário para 25% de argila. Junto a esta mistura,
são adicionados resíduos provenientes da indústria metalúrgica produtora de
ferro. Estes resíduos são obtidos após a fundição de minérios metálicos para
obtenção do ferro que após a purificação destes minérios, tem como sobra,
diversas outras substâncias agregadas como por exemplo, silicatos, que
apesar de ser considerada uma impureza para metais, tem o uso muito
apreciado para produção de cimento.
 
Essas chamadas impurezas são denominadas convenientemente de escórias.
É adicionado também uma quantidade mínima de algum composto de
Cálcio na forma de sulfato para aditivar o cimento fazendo com que o
tempo de secagem do produto seja satisfatório. Esse material após dosagem
correta das proporções é misturado, e finamente moído até se tornar um pó
fino, de processamento mais fácil, sendo adicionado a fornos rotativos a alta
temperaturas que podem chegar a 1450°C.
 
O material adicionado ao forno é chamado de clínquer, e constitui a maior
parte do cimento. A alta temperatura desses fornos possibilita a ocorrência
de várias reações químicas que vão formar a alita, que é um silicato de
Cálcio que confere a maior parte das propriedades do produto final.
 
Gradualmente, com o aumento da temperatura interna do forno, a água livre
é retirada. Isto acontece logo no início, e em seguida, as moléculas de água
que ainda possam estar adsorvidas, ou seja, presas dentro das estruturas dos
minerais que compõem a fórmula vão também sendo liberadas. Com
temperatura próxima a 1000°C, é formado entre outros componentes em
menor quantidade, o óxido de Cálcio conhecido como cal. Após a
combinação de temperatura e óxidos de metais, entre eles o Alumínio e o
Ferro presente na escória, é formado a alita, que é um composto de silício e
Cálcio que forma a maior parte do chamado clínquer. O processo de
produção deste clínquer possui um gasto energético considerável,além do
que, na sua produção, para cada uma tonelada de material produzido, a
mesma quantidade de CO2é liberada na atmosfera e, como sabemos, este
gás é um dos responsáveis pelo chamado efeito estufa, além do processo
também liberar outros gases contaminantes em menor quantidade do que
em relação ao CO2. No ritmo atual de produção de cimento no mundo, em
40 anos a produção mundial dobrará, e sendo assim, seria responsável por
20% de toda a emissão de CO2no mundo!
 
Após a queima do clínquer, o material calcinado apresenta grande
quantidade de grânulos que são direcionados a um moinho onde serão
exposto a nova moagem até alcançar o aspecto caraterístico que é
conhecido, de pó fino semelhante a um talco, e envasado para
armazenamento e vendas. E dessa forma, ser capaz de construir vários
“puxadinhos” pelo mundo afora.
FOGOS DE ARTIFÍCIOS.
 
“O alvo da ciência é procurar a mais simples explicação para fatos
complexos. Estamos aptos a cair no erro de pensar que os fatos são
simples porque simplicidade é o objetivo de nossa busca (...) Busque
simplicidade e desconfie dela.”
 
(Alfred North Whitehead – Matemático britânico.)
 
Por ser responsável por produzir fogo, um erro comum é associar a pólvora,
presente em bombinhas e fogos de artifícios com o palito de Fósforo.
 
Na China, onde foi inventada, a pólvora tinha seu uso empregado em armas
de fogo e fogos de artifícios onde até hoje é utilizada após alguns
melhoramentos na sua composição e associação com outros compostos
inflamáveis.
 
A pólvora na sua fórmula original consistia em sua maior parte de nitrato de
Potássio obtido através de fezes secas de morcegos e aves (nitrato este que
atualmente também é utilizado na composição de sal de cura para
embutidos como linguiça, salsichas e salames e conhecido como salitre;
mas, não se preocupe, pois os nitratos atuais são obtidos através de sínteses
industriais e, portanto, não têm nenhuma relação com os nitratos de
antigamente), enxofre e carvão.
 
A pólvora se enquadra na categoria de explosivos, que tem como definição
uma substância ou composto capaz de liberar uma quantidade expressiva de
energia na forma de gases e calor. Essas propriedades são largamente
utilizadas na confecção de fogos de artifícios e armas de fogo.
 
O nome do capítulo foi convenientemente escolhido, tendo em vista que na
Química do dia a dia é mais fácil, segundo as leis brasileiras em vigor
atualmente, que uma pessoa possua em casa fogos de artifícios do que uma
arma de fogo.
 
A capacidade de liberar energia em forma de luz é aproveitada no fabrico
de fogos de artifícios, enquanto que a capacidade de liberar energia na
forma de expansão do volume de gases é aproveitada para confecção de
bombas de uso militar e armas de fogo.
 
Além da pólvora, hoje são utilizadas diversas outras substâncias ou
compostos para gerar estas propriedades, sendo as de maior uso atualmente
a nitrocelulose, a nitroglicerina e o tri-nitro tolueno (o TNT, igual ao
observados em bananas de dinamite dos desenhos animados, que na
verdade não possuem o tri nitro tolueno em sua composição, mas são
fabricados com nitroglicerina, como você vai observar mais abaixo).
 
O prefixo nitro não é coincidência. Este grupamento é responsável por
liberar uma quantidade expressiva de Oxigênio, responsável por alimentar a
chama. Como nenhuma destas substâncias citadas acima são encontradas
prontas na natureza, é necessário para sua obtenção, realizar uma reação
conhecida como nitração onde os grupamentos hidroxilas (OH) presentes
nas estruturas do algodão (no caso da nitrocelulose), da glicerina (no caso
da nitroglicerina) e do tolueno (no caso do TNT) são substituídos por
grupamentos NO2, os grandes responsáveis pelo poder explosivo destas
substâncias. Como uma grande parte de compostos na Química, estes
produtos potencialmente perigosos, tem também sua aplicação em
determinadas situações “nada a ver”. No caso da nitrocelulose, ela é muito
utilizada na formulação de lacas e vernizes como promotor de aderência. A
nitroglicerina com seu alto poder explosivo é também utilizada, quem diria,
na medicina, como vasodilatador, já que ela atua sobre os vasos, alongando
as suas fibras musculares e com isso, aumentando a vazão do sangue que
passa por eles, sendo muito útil como tratamento para casos de infarto. Da
lista, só o TNT é utilizado apenas como explosivos, até que alguém
encontre outra utilidade para ele no futuro, quem sabe.
 
O TNT também ganha a fama muitas vezes devido a um erro comum que as
pessoas cometem ao associa-lo a dinamite, que na verdade, é nitroglicerina
(que é extremamente instável, podendo explodir se exposto ao menor
choque) misturado com dióxido de silício, graças ao seu alto poder de
absorção ou mesmo polpa de celulose, serragem ou argila, tudo na tentativa
de solidificar a nitroglicerina e desta forma faze-la alcançar uma maior
estabilidade. Alfred Nobel, químico sueco quem criou esta associação de
materiais com a nitroglicerina e fez fortuna com sua descoberta. O prêmio
Nobel, que é concebido a cientistas e pesquisadores veio da iniciativa dele
como forma de premiar trabalhos relevantes em várias áreas da ciência tais
como Química e medicina.
 
Liberação de gases é o maior responsável pela ação dos explosivos, fazendo
quase todo o serviço. Para o bem ou para o mal. No caso das armas de fogo,
essa liberação de gases em forma de explosão que ocorre em local fechado
como no interior da cápsula da munição é responsável por empurrar,
podemos assim dizer, o projétil (conhecido comumente como bala) para
longe da cápsula. Como o conjunto projétil-cápsula fica enclausurado na
câmara do armamento, não resta muita opção para se mover. A cápsula
encontra uma obstrução que impede o seu completo movimento para trás,
sendo expelido através de uma janela de ejeção para o lado (por isso que
vemos as cápsulas vazias voarem pelo ar quando os disparos com a arma de
fogo são efetuados) enquanto que o projétil se projeta para a frente
passando pelo cano da arma indo em direção ao seu alvo.
 
Os fogos de artifício utilizam as propriedades de rápida expansão do
volume dos explosivos, associadas a liberação de energia em forma de
calor, que acaba criando luz, que é no final das contas o que importa neste
tipo de artefato. O elemento Fósforo também é muito utilizado na
composição de fogos de artifícios como gerador de fumaça, sendo inclusive
utilizado em bombas defensivas para camuflar movimentos de tropas em
combate.
 
Diferentes sais de elementos químicos variados são utilizados para criar
diferentes cores, dando o bonito efeito que vemos em queimas de fogos.
Para cada cor desejada, determinado sal é adicionado no meio da pólvora e,
durante a queima, durante a liberação de gases e calor, a luz que é
produzida adquire a cor de acordo com o sal utilizado.
 
A forma como produzem luz é um efeito físico que ocorre com os elétrons
dos átomos que fazem parte do composto. A energia que é liberada pela
explosão na forma de calor é absorvida pelos elétrons. Com isso, estes
elétrons excitados abandonam os seus orbitais de origem (basicamente, é
aceito que elétrons orbitam em volta do núcleo do átomo em vários círculos
diferentes. Cada um com um nível de energia diferente), indo para orbitais
que comportem melhor a sua maior quantidade de energia momentânea.
Como são mais estáveis em seus orbitais de origem, assim que esta energia
cessa, os elétrons tendem a voltar para o seu orbital inicial. Neste trajeto de
volta o elétron devolve a energia que recebeu na forma de luz, no que
chamamos de fóton. Portanto, podemos dizer que neste retorno, o elétron
emite um fóton.
 
A coloração da luz que o fóton emite no caminho de volta varia em função
do sal utilizado em conjunto com a pólvora. Sais de Sódio (Na) produzem
luz de coloração amarelada. Isso pode ser observado em lâmpadas de Sódio
utilizadas em algumas localidades para iluminação urbana. Neste caso, os
elétrons são excitados por uma corrente elétrica e não por calor como nos
fogos de artifícios.A chama de cor azulada é produzida por sais de cobre (Cu). Esse tipo de sal
pode ser encontrado em bornes de baterias automotivas que se formam
devido a oxidação que ocorre no terminais destas. O sal de cor azulada é
conhecido popularmente como zinabre.
 
Sais de Cálcio (Ca) são utilizados para produzir a luz de cor alaranjada.
 
Estrôncio (Sr) e Lítio (Li) são os responsáveis por produzir luz de coloração
avermelhada.
 
A cor roxa é produzida com a mistura dos sais para produzir a cor vermelha
com os sais para produzir a cor azul.
 
A cor verde é obtida com a utilização de sais de bário, os mesmos presentes
na composição de alguns venenos para ratos.
 
Tudo isso para proporcionar aquele espetáculo de sons e cores que vemos
em festividades ao longo do ano, seja no carnaval, festas juninas, julinas e
agostinas, festas de santos padroeiros de determinada localidade ou data,
além de comemorações de final de ano, que eu e minha cachorra,
particularmente, odiamos.
SÓDIO, FLÚOR, CLORO E AFINS.
 
“O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.”
 
(Sir Isaac Newton – físico britânico.)
 
Uma coisa curiosa a respeito do Sódio é que quando falamos a respeito de
quantidade diária de ingestão, assim como quando falamos de Cloro e Flúor
adicionados na água, não estamos falando do elemento puro propriamente
dito (em alguns capítulos atrás, pudemos ver alguns exemplos a respeito, no
capítulo relacionado a tratamento de água). Diferente do Cloro e do Flúor,
que são gases quando substância pura em condições normais de pressão e
temperatura, o Sódio metálico, é sólido. Como se trata de um metal, possui
a cor característica prateada. Não é no entanto, duro como a maioria dos
metais, sendo tão maleável a ponto de ser possível cortá-lo mesmo com
uma faca. É extremamente reativo quando em contato com água, gerando
quase que instantaneamente o hidróxido de Sódio, conhecido pelo mundo
afora como soda cáustica, uma base extremamente forte que é utilizada para
entre outras coisas, limpeza pesada.
 
Sua reatividade com a água é tão grande que reage com a água presente no
ar atmosférico, sendo necessário seu armazenamento em local protegido do
contato com o ar, sendo normalmente armazenado embebido em querosene,
oque ajuda a mantê-lo protegido do contato com o ar.
 
Quando falamos a respeito de ingestão de Sódio, nos referimos, sobre este
metal na forma de íons dele associados a outros elementos, tendo como
exemplo clássico o cloreto de Sódio (um átomo de Sódio ligado a um átomo
de Cloro), ou na forma de nitratos e nitritos (ligados a Oxigênio e
Nitrogênio, muito utilizados como conservantes) por exemplo.
 
É fascinante observar como que elementos tão diferentes se combinam e
formam um produto cujas propriedades são ainda mais diferentes dos
reagentes iniciais. Tire como exemplo novamente, o sal de cozinha. O gás
Cloro que é extremamente irritante e tóxico, e que já foi utilizado até
mesmo como arma Química na primeira guerra mundial (o gás Cloro
provoca um ressecamento anormal nas vias respiratórias, fazendo com que
o organismo como resposta produza fluídos para combater o ressecamento,
vindo a provocar um acúmulo destes no pulmão. Isso faz com que a vítima
morra literalmente afogada em seus próprios fluídos), combinado com o
Sódio, um metal sólido extremamente reativo com a água, capaz de gerar
um hidróxido cuja solução pode alcançar um pH 14, o mais alto na escala
de pH e de grande poder corrosivo, e que quando combinados, formam o sal
de cozinha, relativamente inofensivo quando consumido em quantidades
moderadas, que utilizamos para temperar nossa comida.
 
Para se ter uma ideia do quão é reativo o Sódio metálico você pode conferir
em vídeos na internet que mostram o que ocorre quando pequenos
fragmentos deste metal são adicionados em água. Esses fragmentos se
movem sobre a superfície da água como se possuíssem vida própria,
reagindo de forma rápida e, gerando seu hidróxido correspondente. O
movimento que os fragmentos de Sódio reproduzem na água ocorre devido
ao desprendimento de gás Hidrogênio que a molécula de água libera. Como
a molécula da água possui dois átomos de Hidrogênio em sua estrutura,
durante a reação com o Sódio metálico, o metal “empurra” um átomo de
Hidrogênio para fora, que é liberado da molécula. O outro Hidrogênio junto
com um Oxigênio se juntam ao Sódio para formar o hidróxido de Sódio
(NaOH). Em quantidades maiores, pode até mesmo gerar explosões que são
muito divertidas se observados com o devido cuidado e relativa distância, já
que durante essas explosões, pode vir a espirrar hidróxido de Sódio
concentrado e não água, e este produto é extremamente irritantee corrosivo
quando em contato com a pele. No olho então, é cegueira quase certa, e,
extremamente dolorosa. No entanto, se você precisar lavar os olhos em
algum caso de possível contaminação, pode utilizar uma solução de soro
fisiológico que é nada mais nada menos do que água com menos de 1% de
cloreto de… Sódio.
 
O mesmo podemos dizer a respeito do Potássio e todos os elementos
localizados na mesma família da tabela periódica, os chamados metais
alcalinos. Mas com o porém que, à medida que vai descendo nesta tabela, a
reatividade do metal com água vai aumentando, sendo cada vez mais
exotérmica (quando libera calor) e, consequentemente, maior o efeito
explosivo possível.
 
A afinidade do Sódio com a água continua mesmo após as combinações
com outros elementos. Por isso, compostos com átomos de Sódio são
utilizados para desidratação em determinadas situações. O próprio cloreto é
utilizado para curar carnes, absorvendo água e interrompendo a atividade de
micro-organismos que não conseguem realizar suas atividades em meio
com pouca água, e portanto, não realizam a degradação da matéria orgânica
da qual é constituída a maior parte da carne.
 
Mecanismo semelhante era utilizado para conservar cadáveres em
processos de mumificação junto com o Bicarbonato de Sódio, outro
composto onde o Sódio se apresenta. O Cloreto para desidratar e o
Bicarbonato para aumentar o pH do meio e dificultar a ação de enzimas e
micro-organismos ávidos por destruir o corpo de faraós e outras
“celebridades” da época.
 
Uma molécula de Sódio apenas é capaz de adsorver várias moléculas de
água. Desta maneira, a água é agregada firmemente ao Sódio, e por isso, o
aspecto mais seco da carne seca (o nome é óbvio), já que a água se agrupa
em alguns poucos pontos junto com o Sódio deixando a peça de carne firme
e claro, seca.
 
Nitratos e nitritos de Sódio são também, junto com o cloreto, utilizados na
indústria alimentícia como conservantes, retardando a oxidação de carnes e
preservando a cor natural das peças, o que é desejável do ponto de vista
estético, já que preserva o aspecto mais próximo do original, além de
prevenir a formação de bactérias que possam vir a causar botulismo, por
exemplo.
 
O Sódio também pode ser encontrado pendurado em moléculas de alguns
adoçantes sem, no entanto, atribuir o paladar salgado a eles. Por sua já
falada grande afinidade com a água, ajuda a solubilizar estas substâncias, na
sua grande parte formadas de moléculas orgânicas apolares na água que é
um solvente polar e, portanto, com pouca ou nenhuma afinidade um com o
outro.
 
Outro metal que sofre de mal entendido parecido é o Ferro. Certamente
alguma vez você pode ter ouvido vindo de alguma pessoa com mais idade,
algo a respeito de botar pregos na panela junto com feijão para cozinhar, de
forma a obter o Ferro presente nestes pregos. O Ferro é essencial para o
organismo humano, já que é o principal responsável na formação da
hemoglobina, responsável por carrear Oxigênio do pulmão para os diversos
tecidos do corpo humano. Se houver algum Ferro que porventura possa ter
sido arrastado durante o cozimento do feijão, infelizmente não fará muita
diferença para a pessoa que o ingerir. Explico: o Ferro reativo necessário é
obtido através do Ferro que está em um número de oxidação +2 ou +3, o
chamado Ferro heme, que é deficiente de dois ou atétrês elétrons. Como
faltam elétrons em sua última camada de valência, este tipo de Ferro está
altamente reativo, ao contrário do encontrado no prego, parafuso ou em
qualquer outro pedaço de ferro que a receita de feijão venha a pedir, além
de possuir também algum possível metal pesado na composição de sua liga
metálica, o que o torna tóxico para consumo, e, também convenhamos,
quem produziu o prego jamais imaginaria que ele fosse usado para algo
além de prender pedaços de madeira entre si, ainda mais como ingrediente
digamos assim, culinário. O Ferro encontrado no prego é proveniente de
uma combinação com outros elementos como o Carbono, por exemplo,
formando uma liga metálica estável e, portanto, está com os elétrons da sua
última camada de valência, a camada onde as reações químicas acontecem,
completo, ou seja, em estado de estabilidade. Desta forma, não reagirá com
nada, já que está em um estágio energético muito baixo.
 
Ainda em relação ao Sódio, ao comprar sal nos mercados, na maioria das
vezes sequer nos damos conta do nome que é apresentado na embalagem:
sal iodado. Desde os idos de 1950, através de lei, um composto contendo o
elemento Iodo é adicionado em pequena quantidade no sal de cozinha
comercializado no Brasil. O Iodo em si, apesar de ser um elemento do
chamado grupo dos halogênios, assim como o Cloro e o Flúor, não é um gás
em condições normais. É um sólido de aparência metálica que lentamente
passa para o estado gasoso, se transformando em um gás de cor violeta (o
nome do elemento vem da palavra grega iodes que significa violeta) em um
processo que chamamos de sublimação que é quando determinada
substância ou composto passa do estado sólido para o estado gasoso.
Imagine que um elemento como este adicionado ao cloreto de Sódio
comercializado em um país como o Brasil cuja temperatura durante o ano é
na maior parte, acima dos 25 ºC, rapidamente escaparia da embalagem, logo
após a abertura dela, perdendo todo o Iodo nela presente. Por isso, o Iodo
presente em questão é o Iodeto de Potássio, que libera o íon Iodeto que é
quem vai ser utilizado pela tireoide, uma glândula responsável por produzir
hormônio que possui funções que vão desde a regular os batimentos
cardíacos, ao funcionamento dos pulmões e cérebro, até controlar o
metabolismo do corpo. Na falta de Iodo, a tireoide passa a não produzir ou
produzir em menor quantidade estes hormônios, o que além de prejudicar
os processos acima citados, também podem provocar o bócio que é o
aumento da glândula tireoide, doença que era muito comum nos anos antes
da criação da lei. O problema é que assim como a ausência, o excesso pode
provocar também problemas nesta glândula. Pensando nisto, desde 2013, a
quantidade de Iodo adicionado no sal de cozinha que pela lei original era de
20 a 60 miligramas de Iodeto diminuiu para 15 a 45 miligramas por quilo
de sal. Mais um exemplo clássico da frase de Paracelso: “-Dosis sola facit
venenum (O que faz o veneno é a dose).”
 
Outro que sofre de mal entendido frequentemente é o Oxigênio,
principalmente na forma de Ozônio. O elemento Oxigênio na sua forma
elementar, com apenas um átomo é extremamente reativo e instável, por
isso, ele se une a outro átomo do mesmo elemento formando o gás
Oxigênio (O2). Desta forma, ele adquire uma certa estabilidade e consegue
permanecer em um estado mais simples e consequentemente, menos
energético. Em diversos compostos químicos que vimos ao longo do livro,
notamos a presença do Oxigênio elementar, como em compostos orgânicos,
já que na forma solitária é extremamente reativo. O Ozônio é nada mais,
nada menos que três átomos de Oxigênio reunidos, em mais um caso de
alotropia, onde o mesmo elemento forma compostos diferentes
simplesmente pelo arranjo de seus átomos. É o exemplo perfeito para a
frase “um é pouco, dois é bom e três é demais. Com um átomo, é instável,
com dois alcança estabilidade e com três é extremamente reativo. Se forma,
principalmente no entorno do planeta, na estratosfera, uma das camadas que
envolvem e protegem o planeta de radiações que vêm do espaço. Nesta
camada, sob a ação de cargas elétricas, raios infravermelhos e UVs ( raios
ultravioleta, os mesmos que evitamos ao usarmos filtros solares em loções
para nos protegermos quando somos exposto ao sol por tempo prolongado),
as moléculas do gás O2 são o tempo todo desmembradas em Oxigênio
elementar e se unindo a outras moléculas do gás, se convertendo em O3, o
Ozônio, que sob estas mesmas condições, absorvem as ondas de UV-B
(ultravioleta B, outro tipo de radiação que atingem o planeta vindo do
espaço). Essa absorção de ondas quebram as moléculas de Ozônio, gerando
novamente o gás O2 e o Oxigênio elementar em uma redundância cíclica,
sendo portanto, infinito. Ozônio é gerado e destruído o tempo todo. Quando
você ouve falar a respeito da diminuição da camada que leva o mesmo
nome do composto contendo três Oxigênios, ela ocorre devido a entrada de
um elemento estranho ao meio, que desbalanceia o equilíbrio e
comprometendo a integridade da camada. Podemos compará-lo a uma
pessoa que entra em uma festa, anima, bebe e come, mas não contribui com
$ para continuar a manter a festa. Compostos contendo Carbono, Cloro e
Flúor largamente utilizados a partir da década de 30 como gases
refrigerantes em aparelhos de ar condicionados e geladeiras, além de
aerossóis, todo utilizados em grande quantidade, acabaram por atacar,
podemos assim dizer, a camada de Ozônio, já que estes compostos
contribuem para destruir o Ozônio e em contrapartida, não ajudam a
criarem mais deles, desbalanceando e por conseguinte, diminuindo a
concentração do Ozônio na camada, acarretando o que foi chamado de
buraco na camada de Ozônio. Esse “buraco” permite que as ondas nocivas
como infravermelho e UV cheguem de forma mais incisiva ao planeta,
provocando o aumento de temperatura (raios infravermelhos são sentidos na
forma de calor), que provoca danos na agricultura e em recifes de corais
afetando o planeta de forma global, e, como se não fosse o suficiente, ainda
aumenta a incidência de câncer de pele na população, já que as ondas
chegam sem muito impedimento ao planeta. O CFC (Cloro Flúor
Carboneto) desta forma, depois de comer, beber e animar a festa, não
contribui e, portanto, acaba terminando com ela.
 
Pelo fato do Brasil ser um país onde utilizamos muito apelidos para
simplificar a forma como nos dirigimos as pessoas, assim como utilizamos
também, na maioria das vezes o primeiro nome para nos referirmos a
alguém, ao contrário de outros países onde são mais utilizados o sobrenome
para se referir as pessoas (em jogos de futebol é fácil identificar isso. O
Brasil é o único, com raras exceções onde o jogador tem apelido na camisa,
já que os demais países utilizam o sobrenome na maioria dos casos),
acabamos levando isso para utilizar os nomes de compostos de forma mais
simples, onde na maioria dos casos, utilizamos o nome de um ou outro
elemento para nos referirmos a um composto. Sódio para compostos
contendo o metal, Cloro para cloretos (na maioria das vezes), Flúor para
fluoretos, Ferro para qualquer liga metálica contendo Ferro, ou mesmo o
Ferro heme, reativo, que utilizamos para carrear Oxigênio (o gás O2, não o
elemento).
 
Da próxima vez que ouvir alguém falar que o Sódio faz mal, já sabe que se
trata do íon Sódio, e não o elemento em si. Da mesma forma, o Flúor na
água e em pastas de dentes, se tratando do íon fluoreto, que é o átomo do
Flúor com um elétron a mais do que o átomo do elemento deveria possuir
(o Flúor, como o elemento mais eletronegativo da tabela periódica,
consegue melhor do que qualquer elemento, capturar elétrons de qualquer
um outro elemento que esteja na proximidade). Imagine que quando você
fosse comprar uma “garrafa de Cloro” para tirar manchas de roupa ou
limpar o chão da sua casa, o Cloro, como é um gás em condições normais,
ao abrir a garrafa, o conteúdo se esvairia, sendo dissipado no ar. Além de
não conseguir alvejar as roupas e limpar o chão da casa, você ainda correria
o risco de aspiraro gás e ter os mesmos sintomas que alguns combatentes
da primeira guerra mundial que eram atacados com o gás Cloro. Sintomas
estes que incluiriam entre outros, o ressecamento das vias respiratórias e
posteriormente, o acúmulo de fluidos nos pulmões e que poderiam até
mesmo levar a morte. Seria risco demais apenas para ser obter roupas
brancas e um chão limpo.
 
Caso parecido acontece com o Ozônio presente em águas ozonizadas. O
Ozônio é tão volátil que dificilmente vai apresentar algum traço residual na
água. Ele vai entrar e destruir os micro-organismos presentes na água, já
que é extremamamente oxidante e depois, como é extremamente volátil, vai
se perder no ar.
 
Assim, quando ouvir algum vocativo pomposo a respeito de alguém
mandando uma pessoa chupar um parafuso até virar prego, você já sabe que
isso não trará nenhum benefício a quem assim o fizer, pois o prego não
possui o tal Ferro heme.
PALITO DE FÓSFORO.
 
“Em algum lugar, algo incrível está esperando para ser descoberto.”
 
(Carl Sagan – Astrofísico norte-americano.)
 
Das descobertas e invenções realizadas pelo homem, entre tantas, pode-se
afirmar que o fogo foi uma das mais importantes para a humanidade. Por
vários aspectos, como tornar possível a cocção de alimentos, tornando o ato
de comer além de mais prazeroso, também mais completo do ponto de vista
nutricional, já que possibilitou o consumo de variedades de alimentos que
antes eram impensáveis serem consumidos, como alguns tubérculos e
leguminosas e também como forma de aquecer e proteger o local onde
habitavam, já que o fogo aceso em uma fogueira era útil para afastar
animais selvagens. Posteriormente, possibilitou também que o homem
forjasse ferramentas e armamentos, tanto para a caça como para a defesa do
seu território.
 
A pouco tempo atrás, no século passado, ainda éramos dependentes do fogo
até mesmo para iluminar as vias públicas. Antes da invenção da lâmpada
incandescente, os postes funcionavam através da queima de óleo de baleia,
coco ou mamona, entre outros, sendo aceso pouco antes do pôr do sol por
funcionários especialmente designados para tal tarefa. Era comum na época,
nos locais onde tinha iluminação pública, relatos de pessoas que acordavam
com as narinas e o rosto enegrecidos pela fuligem que era liberada pela
queima dos óleos que mantinham o fogo aceso.
 
No início, pedras e palhas era tudo que tinham para obter o fogo. Com o
atrito entre elas, as pedras geravam fagulhas, que eram depositadas em
palha seca e geravam a tão preciosa chama. Em locais onde havia
disponibilidade, utilizavam sílex, uma espécie de rocha dura que mesmo
molhada era capaz de gerar centelhas poderosas. Como forma de obter mais
facilidade no processo de obtenção da fagulha para iniciar o fogo,alguns
bons homens da época após empreenderem esforço neste sentido, obtiveram
sucesso, inicialmente descobrindo o elemento Fósforo (o nome
convenientemente significa em grego, o que traz luz, pois observaram que
ele brilhava no escuro). Daí, para chegar ao palito que leva junto o mesmo
nome do elemento foi um pulo.
 
Apesar de se chamar palito de Fósforo, mesmo os primeiros palitos
inventados não tinha neste elemento o principal responsável por gerar o
fogo. Na verdade, o Fósforo ficava em uma folha e era o responsável, após
a fricção de uma haste embebida em compostos com Enxofre em sua
formulação, de gerar uma fagulha inicial que ao ser exposto a atrito contra o
material presente na haste entrava em combustão e gerava o tão precioso
fogo.
 
Até chegar ao palito de Fósforo que conhecemos hoje, ainda aconteceram
muito percalços, já que no início era utilizado a forma mais reativa do
elemento conhecida como Fósforo branco que reage até mesmo na presença
do ar.
 
Além de tudo, trata-se de uma substância tão venenosa, que alguns anos
mais tarde, para se ter uma ideia do quanto era perigosa, veio a ser utilizado
como arma química, podendo causar queimaduras severas (hoje ainda é
utilizada no meio militar, mas como componente de bombas de fumaça,
empregada para camuflar movimento das tropas). Isso junto com o fato de
utilizarem os compostos necessários para ocorrer a combustão tudo junto na
ponta dos palitos. Quando ocorria o simples contato deles com algo áspero,
como o tecido de uma calça, por exemplo, já era possível acender o palito.
Em filmes de faroeste era possível ver o cowboy acender o cigarro apenas
riscando o palito na bota, justamente por causa desta facilidade dele ser
inflamado. Com um pequeno atrito já era possível acender o palito, e, com
isso, vários acidentes aconteciam, pois apenas um aceso já era o suficiente
para começar um pequeno incêndio dentro da caixa.
 
Com a descoberta do Fósforo vermelho, a forma menos reativa do
elemento, as coisas começaram a melhorar. O elemento Fósforo possui o
que na química chamamos de alotropia, que é a capacidade de um mesmo
elemento em sua forma pura formar substâncias diferentes. Convencionou-
se que o tipo branco possui uma estrutura com apenas quatro átomos de
Fósforo unidos em uma estrutura em forma de pirâmide, enquanto que o
tipo vermelho possui algo próximo como a de um polímero com vários
átomos de Fósforos unidos entre si. Este tipo é bem mais estável, tornado
mais seguro o seu uso em artefatos como o palito de Fósforo.
 
O uso do Fósforo vermelho aliado a ideia genial de separar o responsável
por gerar a fagulha do responsável por manter o fogo foi primordial para o
desenvolvimento do “palito de segurança”, desenvolvido pelo sueco Johan
Edvard Lundstrom em 1855 e cujo conceito é utilizado até hoje.
 
O modelo utilizado atualmente consiste de um palito embebido em parafina.
A mesma que é utilizada em velas e aqui no palito de Fósforo atua da
mesma forma, servindo como combustível, queimando inicialmente antes
do fogo consumir o palito. Logo acima desta camada de parafina é aplicado
uma solução de clorato de Potássio (você não leu errado. É clorato mesmo.
É parecido com o cloreto de Potássio (KCl), mas com o adicional de três
átomos de oxigênio no meio). Esse clorato é o responsável após sua
queima, por liberar Oxigênio que vai ser o responsável por abastecer a
chama que é gerada.
 
Os palitos em si, sem uma fonte de ignição não correm o risco de se
incendiarem por conta própria. Por isso o nome palitos de segurança. Sem
uma fagulha nada acontece. Ao riscar um palito contra a parte lateral da
caixa onde são armazenados, o atrito com o Fósforo vermelho presente
nesta parte da embalagem, que não está presente de forma solitária, mas
adicionado com pequenos fragmentos de areia ou vidro, são responsáveis
por gerar, após a fricção do palito contra eles, fagulhas que ao entrar em
contato com o clorato de Potássio, vão iniciar a queima destes, liberando
uma boa quantidade de Oxigênio vindo a iniciar a chama, que após gerada,
vai queimar a parafina do palito e posteriormente o próprio palito composto
de madeira ou em alguns casos, papelão.
 
A utilização de palitos de Fósforos é cada vez menor, pois atualmente é
cada vez mais empregado para a mesma finalidade isqueiros, que são de
longe muito mais práticos e não geram resíduos sólidos (o palito queimado,
no caso), sem contar que a maioria das casas utilizam fogões com
acendedores automáticos, o que faz com que o uso de palitos de Fósforos
sejam cada vez mais raros.
 
O isqueiro, apesar de ter seu emprego para a mesma finalidade, possui um
mecanismo de funcionamento, apesar de simples, diferente em comparação
ao de um palito. O combustível em um palito de Fósforo é o próprio palito,
enquanto que em um isqueiro é o gás butano, o mesmo que é utilizado em
botijão de gás que possuímos em casa. O botijão possui ainda o gás propano
em associação com o butano, compondo o que chamamos de GLP (gás
liquefeito de petróleo). Estes dois gases não possuem muita diferença entre
si, já que o butano apresenta quatro Carbonos em sua estrutura, enquanto
que o propano apresenta apenas três. Estes dois hidrocarbonetos (possuem
apenas Carbono e Hidrogênio em sua composição) são gasesem pressão
normal, mas ao serem comprimidos para serem armazenados em um
botijão, sobre uma pressão de sete atm (para comparação, a nível do mar
temos 1 atm de pressão atmosférica) se transformam em líquido, por isso o
liquefeito no nome (significa que transformaram-se em líquidos). Isso pode
ser observado facilmente em um isqueiro transparente onde o líquido no
interior dele é o gás butano. Ao ser liberado, o gás (ou os gases) em pressão
normal de um atm adquire (m) o aspecto gasoso novamente.
 
A pedra de isqueiro é composta de uma liga chamada de mischmetal onde a
maior parte dos metais presentes fazem parte da família dos lantanídeos.
Essa liga, ao ser friccionada, libera fragmentos que se incendeiam quando
exposto ao ar. Essa pequena faísca que é liberada é o suficiente para iniciar
a combustão no gás butano que é liberado.
 
Como resultado desta combustão, neste caso onde há apenas
hidrocarbonetos envolvidos, com quantidade de Oxigênio o suficiente para
alimentar a chama, ocorre a liberação de dióxido de Carbono e água (sim,
isso mesmo. Água!). Você pode confirmar isso direcionando a chama em
uma superfície, de preferência um vidro, por exemplo e observar que ele
embaça, por um breve intervalo de tempo, já que o calor evapora a água
rapidamente. Quando isso ocorre, temos o que na Química chamamos de
combustão completa. Na falta de Oxigênio, ainda no caso da queima de
hidrocarbonetos, ocorre uma combustão incompleta, gerando além da água
e dióxido de Carbono, ainda o monóxido de Carbono e o Carbono
elementar na forma de fuligem, aquele revestimento enegrecido em forma
de pó que enfeita os locais onde ocorreu incêndio ou em escapamentos de
automóveis.
 
Há algum tempo, foi noticiado o caso de pessoas que morreram após inalar
o gás propano e/ou butano utilizando-os, veja só você, como entorpecentes.
 
Ao contrário do que você possa estar pensando a respeito, é difícil, senão
impossível, uma pessoa vir a morrer por asfixia ao inalar estes gases de
forma acidental por dois motivos: apesar de serem substâncias inodoras,
estes gases, justamente por este motivo, sofrem a adição de compostos com
Enxofre para lhes conferir odor. Aquele cheiro característico que sentimos
quando o gás de cozinha está vazando é proveniente deste aditivo, pois
estes gases não apresentam nenhum odor para que seja possível identificar
qualquer tipo de vazamento dele, por isso a adição de um composto
fedorento.
 
Na Química, o Enxofre é conhecido por conferir cheiro ruim, por causa
disto, é comum ouvir no meio que se fede, é porque tem Enxofre. Por isso,
fica muito difícil uma pessoa inalar uma quantidade considerável de gás e
não perceber. O segundo motivo é que em local aberto ou mesmo espaçoso,
a concentração de gases é muito pequena para poder causar asfixia.
Precisaria de muito tempo e muito gás, já que o efeito entorpecente é
causado justamente pela privação do Oxigênio que é substituído pela
inalação dos gases.
AMÔNIA E A REVOLUÇÃO VERDE.
 
" Duvidar de tudo ou crer em tudo. São duas soluções igualmente
cômodas, que nos dispensam ambas de refletir.”
 
(Henri Poincaré – matemático e físico francês.)
 
Em absoluto, fica difícil, senão impossível, poder citar qual a mais
importante contribuição da Química para o homem. Mesmo uma lista, seria
deveras extensa, sem precisar pensar muito, de imediato, imagine que a
atual longevidade do homem moderno não seria tão alta se não fosse pelos
benefícios que a Química proporcionou a medicina moderna que
possibilitou diversas maneiras para o homem viver longamente e na medida
do possível, bem de saúde.
 
Claro, hoje podemos dizer que uma pessoa de classe média, vive em
condições muito mais confortáveis do que um rei na Idade Média.
Eletricidade, eletrodomésticos e saneamento de água e esgoto deixam até
mesmo uma pessoa com renda mensal razoavelmente baixa em condições
de conforto muito melhor até mesmo do que um antigo rei europeu do
século passado. A melhor compreensão do funcionamento do corpo
humano aliado a descoberta de medicamentos tornou possível uma maior
duração, uma maior expectativa de vida para o homem.
 
Tudo isso possibilitou uma vida mais confortável e longeva, mas,
seguramente podemos dizer que ainda assim, poderíamos estar até hoje sem
eles. Estaríamos vivendo sem toda esta alta expectativa de vida e menos
confortáveis, mas ainda assim, estaríamos vivendo. O maior problema a ser
resolvido seria mesmo como continuar se alimentando, já que com o
crescente aumento da população mundial, em um tempo qualquer, mais
cedo ou mais tarde, haveria de faltar alimento para custear populações cada
vez maiores. Apesar de não parecer, vivemos uma das mais pacíficas épocas
da história humana desde que é documentada. Mesmo com o noticiário
repleto de guerrilhas e violência, ainda assim, nada se compara a épocas
anteriores onde guerras para aumentar territórios e riquezas eram
frequentes, com matanças correspondentes onde povos eram dizimados e
subjugados, isso sem citar epidemias que chegavam a dizimar até 2/3 de
uma população local. Surtos de doenças como peste negra e gripe
espanhola, só para citar algumas que vitimaram milhares de pessoas e
consequentemente, diminuíram de forma considerável a população mundial
serão cada vez menos frequentes (salvo alguns casos recentes de cólera,
ebola, gripe do frango e gripe suína, para citar alguns, que apesar de um
alarde inicial, se mostraram relativamente controladas).
 
Talvez, já pensando no fato que uma nova praga ou guerra mundial teria e
tem cada vez menores chances de acontecer, um pastor inglês chamado
Thomas Malthus, já havia sinalizado naquela época (por volta de 1800) que
com o crescente aumento populacional, iria em determinado momento,
faltar alimentos para os víveres do planeta.
 
Matematicamente, com a elaboração de uma equação simples, que hoje é
chamada de teoria populacional malthusiana, o inglês mostrava que a
população crescia em uma progressão geométrica enquanto que a produção
mundial de alimentos crescia em uma progressão aritmética. Isso
significava que a grosso modo, enquanto a população mundial aumentasse
32 vezes em seis gerações, a geração de alimentos aumentaria apenas seis
vezes no mesmo período, ou seja: uma grande parte da população mundial
iria passar fome e acabar perecendo. A preocupação era legítima. Imagine
que a comida que você come durante o dia possui ingredientes que
demoram na sua maioria, meses para estar pronto para consumo.
 
O trigo do pão demora cerca de quatro meses para estar pronto para a
colheita, onde demora mais um tempo até ser processado até virar a farinha
para confeccionar o pão. O café, assim como o arroz e o feijão do almoço,
idem. E todos estes insumos que demoram meses para estar prontos, você
acaba com eles em menos de alguns minutos, mantendo-se alimentado por
algumas poucas horas. Se nada fosse realizado no sentido de otimizar estes
processos de obtenção de alimentos, a preocupação de Malthus realmente
iria fazer sentido.
 
Por sorte, contrariando a ideia do pastor pessimista, uma mente brilhante
dos idos de 1908, um alemão chamado Fritz Haber desenvolveu um
processo que até hoje é utilizado na obtenção de amônia através de reação
do ar atmosférico com Hidrogênio que possibilitou um upgrade nas
lavouras e tornou a teoria de Malthus furada, no que ficou conhecido como
revolução verde. Haber desenvolveu todo o processo teórico e pôs em
prática em laboratório, e alguns anos depois, outro alemão, Carl Bosch veio
a produzir a amônia adaptando todo o processo para escala industrial, sendo
o processo desde então conhecido como Síntese de Haber-Bosch em
homenagem aos dois químicos. Para se ter uma ideia da importância desta
síntese, imagine que hoje, é estimado que metade da população mundial
tenha sua subsistência associada a síntese de Haber. Faça as contas. Com
uma população atual com mais de sete bilhões e meio de habitantes, quantas
pessoas foram e são salvos diariamente graças a síntese de Haber. É mais
uma contribuição da Química no seudia a dia, tornando possível a
produção de comida que chega a sua mesa. De nada, ela diria.
 
Se tratando de Haber, de história controversa, a vida deste mancebo, apesar
de triste no final, daria um belo livro, mas vamos nos ater ao processo que
ele desenvolveu.
 
O elemento de interesse na amônia para as plantas, o Nitrogênio, que é um
gás, é necessário para que a planta possa absorver os nutrientes para o seu
desenvolvimento. As bactérias que fazem este trabalho ajudando a fixar o
nitrogênio só conseguem realizar a tarefa quando o Nitrogênio disponível
está na forma de nitrato, ou seja, como NO3. Este composto era obtido na
forma de nitrato de sódio ou potássio obtido na maior parte, em minas na
América do Sul, mais precisamente no Chile ou obtidos através de
depósitos de fezes de aves e/ou morcegos que são comumente chamados de
guanos, possuindo quantidades consideráveis de Nitrogênio na forma de
nitrato. Até hoje este tipo de material ainda é utilizado como fertilizante,
sendo muito apreciado em especial os obtidos em algumas ilhas do Pacífico
sul. Em épocas de guerra, onde este nitrato era também desejado para
produção de pólvora, ficava ainda mais escasso a sua utilização como
fertilizante de lavouras. Aparentemente, em épocas de guerra é mais
necessário matar do que prover vidas.
 
Após constatar que o ar atmosférico apresentava uma grande parcela de
Nitrogênio (que também era conhecido como azoto, que significa que não
reage com nada, inerte. Em temperatura ambiente, tem o comportamento
semelhante a um gás nobre, sendo completamente estável. Aparentemente o
nomearam cedo demais), com cerca de 78% de sua composição sendo
constituído por ele. Com isso, Haber adicionou o ar atmosférico em um
sistema fechado com 200 atmosferas de pressão (a nível do mar estamos
sob pressão de uma atmosfera) a 450ºC junto com gás Hidrogênio. Ainda
assim, com toda essa condição energética para a reação acontecer, ele ainda
adicionou um catalisador metálico para aumentar a velocidade e o
rendimento da reação. Desta forma, obteve a amônia (NH4+).
 
Pressão e temperatura são variáveis utilizadas para aumentar a reatividade
em uma reação química. Moléculas estão sob movimento constante o tempo
todo. O aumento deste movimento é sentido na forma de calor. Quanto
maior o movimento de moléculas, maior será a temperatura do sistema.
Quando calor é adicionado a este sistema, aumenta a agitação das
moléculas presentes neste meio. Com esta maior agitação, as moléculas
sofrem um aumento de colisões entre elas. Estas colisões de moléculas de
diferentes compostos presentes no ar atmosférico torna possível a reação
entre grupos que dificilmente a temperatura normal aconteceriam.
Grupamentos que em baixas temperaturas podem apresentar vários
impedimentos para acontecer, quando sofrem aquecimento e
consequentemente, maior agitação de suas moléculas, faz com que
grupamentos espacialmente impossíveis de se “encaixarem” consigam se
ajeitar e reagir entre si, justamente por esta adição extra de energia.
Grosseiramente, é como se chutasse uma bola em um buraco. Com pouca
força no chute, ela bate na entrada do buraco e quica de volta. Com um
pouco mais de força ela fica agarrada na “boca” do buraco. Com mais força
ainda, ela entra de vez no buraco. Com grupamentos funcionais e
temperatura acontece fato parecido. Uma maior pressão imposta ao meio
contribui para que as colisões entre as moléculas sejam ainda mais
frequente, afinal de contas, com espaço reduzido para as moléculas se
repelirem, ficam mais fácil as colisões ocorrerem e os encaixes entre elas
acontecerem. Com a associação de maior pressão e temperatura, o meio
reacional aumenta sua reatividade significativamente.
 
Por mais estático que possa parecer a olho nu, as moléculas de uma
substância estarão sob constante movimento. Até mesmo uma chapa de
ferro, a nível molecular, terá os seus átomos constituintes se movimentando
incessantemente. O aumento desta agitação pode ser sentido na forma de
calor. Isto significa que mesmo sob total marasmo, ainda assim, qualquer
coisa – literalmente qualquer coisa, estará com seus átomos se
movimentando. A única forma teórica proposta para cessar este movimento
seria alcançar o 0 absoluto, que seria submeter uma determinada substância
ou elemento a -273,15 graus Celsius, ou 0 grau Kelvin. Diz-se teoricamente
porque até hoje, conseguiu-se obter apenas temperaturas próximas a este 0
em laboratório. Obtendo este hipotético 0 grau Kelvin, alcançaria o
chamado Condensado de Bose-Einstein (de novo Einstein!) que junto com
os estados gasoso, líquido, sólido e plasma formam o conjunto do que
chamamos de estados físicos da matéria. Com estes hipotéticos -273,15 ºC,
até mesmo os elétrons que circundam os átomos cessam seu movimento,
ficando desta forma praticamente estáticos. Até mesmo a luz diminui a sua
velocidade de 300 000 000 metros por segundo para míseros 17 metros por
segundo quando submetido a este estado físico da matéria, mas, tirando este
caso tão especial, podemos dizer que sempre haverá movimento das
moléculas.
 
Resumindo, com a aplicação de pressão e temperatura ao meio reacional de
Haber, possibilitando a extração de Nitrogênio utilizando o ar atmosférico
como matéria-prima junto com o gás Hidrogênio, era o começo de uma
linda história para a agricultura mundial. Digo que era o começo porque a
história ainda não acaba aí. Para falar a verdade, estava longe de acabar.
 
A amônia produzida pelo processo era utilizada como reagente para gerar
ácido nítrico que depois era utilizada junto com a própria amônia que para
gerar como produto o altamente desejável nitrato, que tinha o Nitrogênio na
forma mais desejável e útil o cultivo de vegetais. Com isso, a agricultura
explodiu (no sentido figurado) e possibilitou que seus bisavós e avós
tenham sobrevividos e você tenha chegado com saúde e mantido até então.
 
Com esta síntese, Haber ganhou um prêmio Nobel. Se empolgou com sua
genialidade e ainda prestou diversos outros serviços para sua nação em
período de guerra. Utilizou o gás Cloro em trincheiras contra seu inimigos
na época, os franceses. Ajudou a desenvolver um pesticida chamado Ziklon,
que posteriormente foi aperfeiçoado para Ziklon B e utilizado como gás
para as câmaras da morte em campos de concentração para eliminar pessoas
da mesma etnia que ele, os judeus, um dos povos que foram perseguidos na
segunda guerra. Devido ao fato de ser judeu, Haber teve que fugir da nação
que tanto ajudou, para sobreviver. Perdeu a esposa que se suicidou segundo
relatos, por desgosto devido ao seu trabalho desenvolvendo armas químicas.
Não teve sequer tempo de comparecer ao enterro devido a seu trabalho,
deixando para o filho o trabalho de sepultar a mãe. Haber morreu no
caminho de volta da Inglaterra, país que tentou derrotar na primeira guerra
mundial, para a Basiléia na Suíça, pois Haber achava o país bretão muito
frio. Ufa! Que história amigos!
FÍGADO.
 
"Há verdadeiramente duas coisas diferentes: saber e crer que sabe. A
ciência consiste em saber; em crer que se sabe reside a ignorância.”
 
(Hipócrates – médico grego considerado o pai da medicina.)
 
Se lhe perguntassem qual o órgão mais importante do corpo humano, qual
seria a sua resposta?
 
Imagine se possível fosse, um debate entre eles, dissertando a respeito da
sua importância no funcionamento do organismo, como em um debate,
onde cada candidato enfatiza os seus prós e em contrapartida, ressalta os
contras do outro candidato. Seria possível ouvir diálogos do tipo:
 
“- Se não fosse por mim, nenhum de vocês teria sangue para realizar as suas
funções.” – diria o coração, tendo como provável resposta do cérebro, por
exemplo:
 
“- Mas, se eu não fizesse o meu serviço corretamente, nem bater você iria.”
– no que o pulmão prontamente poderia responder:
 
“- Já vi pessoa com morte cerebral, mas nunca vi ninguém com morte
pulmonar.” – diria, defendendo o seu lado. Uma coisa é certa: Embora cada
um tenha a sua devida importância, onde sem demagogia, quasetodos são
essenciais (digo quase todos, porque no caso de alguns, o corpo humano até
se vira sem, como no caso de amídala, apêndice e vesícula biliar, por
exemplo), algo pertinente a se afirmar é: o fígado, com tanta tarefa que ele
executa seria muito difícil de substituir.
 
Alguma vez na vida, você pode ter ouvido alguém se referir erroneamente a
ele como figo, a fruta, pela similaridade do nome, talvez. Relatos referente
a alguma pessoa com problema no “figo” uma vez ou outra pode ter sido
registrado por alguém. Por mais incrível que possa parecer, podemos
associar um ao outro, no caso, o fígado com o figo. Os romanos tinham o
costume de alimentar alguns animais com a fruta, o que fazia com que o
fígado, o orgão tivesse o sabor acentuado pela ingestão do figo, a fruta. A
iguaria acabou recebendo o nome da fruta, em uma associação ao seu sabor,
ficando com o nome de ficatum, que significava figo, e se tornou o nome do
órgão no final das contas.
 
Devido as funções que exerce no corpo humano, é considerado um
glândula, a maior do organismo, ficando em segundo no ranking de maior
órgão, perdendo para a pele (sim, eu também fiquei surpreso na primeira
vez que ouvi que a pele era um órgão). Devido ao seu grande tamanho,
como você pode ver no capítulo que trata a respeito dos processos químicos
envolvidos no corpo humano quando morremos, é o último dos órgãos
internos a se degradar por completo.
 
Uma das características mais curiosas a respeito deste órgão é que ele
possui uma grande capacidade de se regenerar. Os gregos já sabia disto
ainda naqueles tempos. Uma lenda da época, contava sobre o castigo que
Prometeu, um titã, que teve a audácia de roubar o fogo, exclusividade dos
deuses, e entregá-lo para os humanos, recebeu como castigo, ficar
acorrentado, preso a uma pedra onde todo dia uma águia vinha e comia um
pedaço do seu fígado que de noite se regenerava para ser devorado no dia
seguinte. O nome hepático vem de uma palavra grega que significa reparar,
provavelmente por se associar a esta capacidade singular deste órgão.
 
O fígado funciona como uma espécie de canivete suiço do corpo humano
com funções variadas. Para citar algumas delas:
 
Armazenamento de vitaminas e sais minerais essenciais para o organismo.
 
Produção de bile, através da vesícula biliar que funciona atrelado ao seu
lóbulo direto. A bile funciona como uma espécie de sabão que torna
possível a emulsão de gorduras na porção aquosa dos alimentos que serão
absorvidos pelo intestino, ajudando na sua digestão.
 
Destruição de hemácias, os glóbulos vermelhos, que são produzidas o
tempo todo pelo organismo. Com esta renovação constante, elas também
precisam ser destruídas para garantir o balanço correto do organismo, já que
assim como a sua deficiência é uma patologia, seu excesso também é.
 
Como parte do processo de digestão, a flora bacteriana presente no intestino
produz amônia, aquela mesma presente em produtos de limpeza, de odor
forte. O fígado realiza a conversão da amônia, que é altamente tóxica para o
corpo humano em uréia que é atóxico, sem efeito para o organismo. O
fígado funciona como uma espécie de reator químico onde processa
diversas substâncias, realizando sínteses e transformando-as em outras
substâncias. Alimentos ricos em Nitrogênio são a materia-prima para a
produção de amônia pelo corpo humano. A estrutura desta substância é bem
simples, constituída de um átomo central de Nitrogênio ligado a três átomos
de Oxigênio em uma estrutura que chamamos na Química de piramidal
trigonal, já que esta assume uma forma semelhante a uma pirâmide
tridimensional que depois de uma série de transformações que vai sofrendo
pelo organismo, é transformada na inerte uréia que é expelida na urina.
 
O sangue em estado “bruto” que vem do sistema digestivo chega ao fígado
por um sistema circulatório especial que fica separado do sistema
circulatório do restante do corpo. Explica-se: este sangue ao sair do sistema
digestivo, vem carregado tanto de nutrientes absorvido dos alimentos como
de toxinas produzidas ou absorvidas pelo organismo até aquele ponto,
incluíndo aí a já citada e famigerada amônia, conhecida também como
amoníaco. Por este motivo primordial, este sangue é separado da circulação
do resto do corpo, passando pela triagem do fígado, que funciona como um
segurança de boate, recebendo, vistoriando e separando o excesso de
algumas substâncias, filtrando, transformando ou simplesmente
direcionando-as para serem excretadas pelos rins.
 
Outra função do fígado é a de produzir colesterol. Este mesmo maldito, que
entope nossas veias. Ao contrário do se pensava durante muito tempo, a
maior parte deste álcool (como se sabe, na Química orgânica, a terminação
–ol é atribuída a álcoois, grupamentos constituídos de carbono que possuem
grupamentos hidroxilas – um átomo de Oxigênio ligado a um átomo de
Hidrogênio ligado a extremidade de uma cadeia carbônica) é produzido
pelo fígado, sendo apenas uma pequena porção proveniente de gorduras
vinda da alimentação. Pelo fato de a estrutura do colesterol apresentar um
tamanho considerável, contando com mais de vinte átomos de carbono, esta
possui caráter apolar, tendo característica semelhante a uma gordura, sendo
insolúvel em água, assim como também no sangue. O perverso colesterol
consegue se inflitrar, assim podemos dizer, no fluido sanguíneo graças a sua
interação com proteínas liposolúveis, e assim conseguindo se dissolver no
fluido sanguíneo. Apenas uma pequena parte do colesterol que é encontrado
na corrente sanguínea provém dos alimentos que ingerimos. A maior parte
dele é produzida pelo fígado que utiliza outros tipos de alimentos como
matéria-prima para sua síntese, tais como carboidratos e açúcares.
 
Como na vida real, onde não existem mocinhos ou vilões absolutos, onde
ninguém é totalmente mau ou totalmente bom, o colesterol também tem
algumas funções importantes no organismo. Apesar de ser o grande culpado
por entupir veias, ele ainda possui outras utilidades para o corpo humano,
em uma extensa lista que vai desde a síntese de vitamina D, até como
matéria prima para produção de hormônio sexuais como testosterona e
progesterona, por exemplo.
 
A gama de tarefas que o fígado é capaz de realizar é tão grande, que se for
elaborar uma lista, esta facilmente passaria da casa de dezena de funções. O
orgão hora se comporta como uma simples bolsa, armazenando vitaminas e
minerais, hora se comporta como um reator extraordinário, realizando
sínteses de colesterol e hormônios com funções no organismo de regular a
pressão sanguínea, além de também ser o responsável por metabolizar todo
medicamento que ingerimos ou injetamos no nosso organismo. Filtragem
do sangue para eliminação de toxinas, síntese de glicose e aminoácidos,
além de muitas outras tarefas. Muitas mesmo.
 
Este capítulo poderia facilmente se extender por pelo menos mais umas dez
folhas, mas tentei me ater da forma mais superficial possível, focando mais
superficialmente ainda em algumas tarefas químicas que ele realiza.
 
Você pode até não gostar de Química, mas o seu fígado, se pudesse falar, é
bem provável que teria uma opinião um pouco diferente. Se bem que, entre
tanta coisa que ele faz, só falou falar mesmo.
CONCLUSÃO.
 
Falar de ciências é complicado. Escolher uma das disciplinas de exatas e
tratar de forma intrínseca e absoluta é impossível. Comece dissertando a
respeito de Química e sem perceber, estará entrando no mundo da Física.
Quando falamos a respeito de átomos de um elemento, caímos no conceito
físico de elétrons, prótons e nêutrons. Isso sem falar nas partículas ainda
menores que a Física dia após dia ainda consegue extrair de um único
átomo e que felizmente para a Química, ainda pode se dar ao luxo de
simplesmente ignorá-la. Sabe-se lá até quando.
 
As reações químicas, assim como aqueles complicados cálculos de Física
podem ser previstas através de equações diferenciais, derivadas e integrais.
A partir daí já estamos no infinito universo da Matemática, o alicerce de
Químicae Física. A mesma matemática que desde tempos remotos,
possibilitou ao homem erigir suas construções colossais. Algumas delas,
resistem até hoje e nos fazem suspirar no sentido de: “- Como conseguiram
suspender e manter isso firme até hoje?”. Tudo isso documentado, seja na
parede das cavernas em rabiscos rudimentares, seja em papiros, seja em
blocos de pedras. Cada qual na sua linguagem, na sua forma as vezes únicas
de se expressar e expressar a sua experiência e resultados. Resultados estes
que após serem passados de geração em geração, trouxeram atalhos para o
futuro. Porque começar uma determinada tarefa do início, se pela
experiência dos mais antigos já se sabia que seria infrutífera? Posso
simplesmente continuar a partir de falhas anteriores. Até aí, além da área de
exatas, já experimentamos também as humanas. Linguagem e História se
aliam e nos poupam de experimentar fracassos anteriores e infrutíferos.
Quando se diz que a história previne que erros do passado possam voltar a
acontecer é justamente no sentido de poupar o erro para vislumbrar na
vanguarda o acerto. Para que errar mais de uma vez?
 
É este acerto após a utilização de atalhos que nos torna diferentes. Sem esta
distinção, estaríamos espalhados pela superfície do planeta em busca de
acertos isolados. Este ajuntamento de informações também é conhecimento.
 
Carl Sagan certa vez citou que um livro é definitivamente a prova de que o
homem é capaz de produzir magia. Literalmente conversamos com pessoas
que já morreram a até mesmo milhares de anos atrás, absorvendo cada
acerto produzido, até mesmo porque erros, esses podemos nos dar ao luxo
de descartar, ignorar, sem que por isso sejamos taxados de negligentes.
Podemos dizer que já, literalmente já erraram por nós.
 
Imagine que a milhares de anos, o grego Erastóstenes conseguiu perceber
que a terra não era plana como muitos acreditavam, e mais ainda, conseguiu
medir a circunferência total do globo terrestre com uma margem bem
pequena de erro de forma extraordinária, ainda mais levando-se em conta as
ferramentas disponíveis na época. Ainda tão surpreendente é o fato de
sabermos disto tudo, mesmo após tanto tempo com todos os detalhes de
como ele conseguiu realizar o feito.
 
O questionamento, a dúvida, a pesquisa, a percepção, a conclusão, a
documentação. As fases distintas em diferentes disciplinas, diferentes
engrenagens. Quando juntas formam o mecanismo final gerador de
respostas. A pergunta que sintetiza todos os anos de graduação não é “- Para
que vou utilizar isso na vida.”, mas “- Como e quando vou utilizar.”, já que
a utilização de uma ferramenta errada torna um reparo mais difícil ou
impossível. A ferramenta correta agiliza.
 
Isso tudo pode ser utilizado como arrimo para quebrar o paradigma, a frase
pronta que perpetua a ideia de que determinado conhecimento é inócuo.
Dependendo da situação, uma ou outra sabedoria poderá ser empregada
para mais ou para menos, mas, absolutamente pode se afirmar que uma ou
outra será inútil. Pode no momento, no mínimo ser negligenciada, mas
nunca desprezada de forma definitiva.
 
Que cada capítulo do livro possa ter formado novos questionamentos que
farão com que novos conhecimentos sejam assim gerados. Lembrando da
frase citada no início do livro que reza que a mente que se expandiu ao
conhecimento jamais retorna ao seu tamanho original. Desejo então, uma
boa expansão de conhecimentos a partir daqui. Obrigado!
 
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somos-nos-e-trilhoes-de-bacterias/>. Acesso em: 07 ago. 2017.
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	PALITO DE FÓSFORO
	AMÔNIA E A REVOLUÇÃO VERDE
	FÍGADO
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