Prévia do material em texto
Objetivos 1. Descrever o mecanismo de desencadeia a dor torácica a partir de processos infecciosos. Referência: Dor Torácica – Manual MSD Coração, pulmões, esôfago e grandes vasos propiciam estimulação visceral aferente pelos mesmos gânglios autônomos torácicos. O estímulo doloroso nesses órgãos é caracteristicamente percebido como oriundo do tórax, mas, como as fibras nervosas aferentes se sobrepõem no gânglio dorsal, a dor pode ser sentida (como dor referida) em qualquer local entre a região umbilical e a orelha, incluindo os membros superiores. Estímulo doloroso de órgãos torácicos pode causar desconforto descrito como pressão, dilaceração, gases com ânsia para eructar, indigestão, queimação ou sensação dolorosa. Excepcionalmente, outras descrições da dor torácica são dadas como dor em punhalada e, às vezes, dor lancinante como uma agulhada. Quando a sensação tem origem visceral, muitos pacientes negam que estejam tendo dor e insistem que é simplesmente “desconforto”. Entre as etiologias infecciosas de dor torácica, podemos ter: ➢ Pericardite Pericardite é a inflamação do pericárdio, geralmente com acúmulo de líquido. Pode ser causada por muitos distúrbios (p. ex., infecção, infarto do miocárdio, trauma, tumores e doenças metabólicas), mas com frequência é idiopática. Os sintomas incluem dor ou compressão torácica exacerbada muitas vezes por respiração profunda. O débito cardíaco pode ser significativamente reduzido se houver tamponamento cardíaco ou pericardite constritiva. Dor aguda constante ou intermitente, muitas vezes agravada pela respiração, deglutição de alimentos ou na posição supina e é aliviada ao sentar-se ou inclinar-se para a frente O mecanismo da dor está associado ao atrito pericárdico e da distensão venosa jugular. OBS: Como a inervação do pericárdio e do miocárdio é a mesma, a dor torácica da pericardite é, às vezes, semelhante à da inflamação ou isquemia miocárdica: a dor precordial ou subesternal, vaga ou lancinante, pode irradiar-se para pescoço, linha do trapézio (especialmente à esquerda) ou ombros. A dor varia de leve a grave. Ao contrário da dor torácica isquêmica, a dor decorrente da pericardite é, em geral, agravada por movimentação torácica, tosse, respiração ou ao engolir a comida, podendo ser aliviada ao sentar-se e inclinar- se para frente. ➢ Miocardite Miocardite é a inflamação do miocárdio com necrose dos miócitos cardíacos. Miocardite pode ter várias causas (p. ex., infecção, cardiotoxinas, fármacos e doenças sistêmicas como sarcoidose), mas com frequência é idiopática. Sintomas podem variar e incluem fadiga, dispneia, edema, palpitação e morte súbita. Febre, dispneia, fadiga, dor no peito (se miopericardite), infecção viral recente ou outra. Às vezes, achados de insuficiência cardíaca, pericardite ou ambos. Alguns sintomas de insuficiência cardíaca são fadiga, dispneia e edema. Pacientes podem apresentar sinais de sobrecarga hídrica com estertores, pulsos venosos jugulares elevados e edema. Exame cardíaco pode mostrar uma terceira bulha cardíaca (B3) ou quarta (B4). Sopros sistólicos da regurgitação mitral e regurgitação tricúspide podem estar presentes em pacientes com aumento ventricular. ➢ Pancreatite É a inflamação do pâncreas, que pode ser aguda ou crônica. A pancreatite aguda está associada à destruição aguda de tecido do pâncreas. Pancreatite crônica é a lesão persistente de tecido pancreático, com compromisso da função pancreática e está associada à fibrose. A dor é causada pela inflamação do pâncreas. Dor na região epigástrica ou parte inferior do tórax que muitas vezes piora ao se deitar e é aliviada ao inclinar-se para a frente. Outros sintomas associados incluem vômitos, sensibilidade abdominal superior e choque. Muitas vezes, história de abuso de álcool ou doença do trato biliar. ➢ Pneumonia A pneumonia é a inflamação aguda dos pulmões causada por infecção. Se apresenta com febre, calafrios, tosse e catarro purulento. Muitas vezes, dispneia, taquicardia, sinais de consolidação pulmonar. Frequentemente causa dor pleurítica, que é uma condição na qual a pleura, que é a membrana que cobre os pulmões e o interior do tórax, fica inflamada, gerando sintomas como dor na região do peito e costelas, tosse e dificuldade para respirar, por exemplo. ➢ Infecção por Herpes-Zoster Herpes-zóster é uma infecção que resulta da reativação do vírus da varicela zóster de seu estado latente em um gânglio da raiz dorsal posterior. Os sintomas geralmente começam com dor ao longo do dermátomo afetado, seguida por uma erupção vesicular em 2 a 3 dias que, com frequência, fornece o diagnóstico. Dor aguda, em faixa, unilateralmente no tórax. Exantema vesicular linear clássica. A dor pode preceder o exantema por vários dias. 2. Descrever o mecanismo que desencadeia a dispneia nos processos infecciosos do pulmão. Referência: HARRISON A American Thoracic Society define dispneia como uma “experiência subjetiva de desconforto ao respirar, que consiste em sensações qualitativamente diferentes com intensidades variáveis. Essa experiência é causada por interações de vários fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e ambientais e pode desencadear respostas fisiológicas e comportamentais secundárias”. A dispneia é um sintoma e pode ser percebida apenas pela pessoa que a experimenta, devendo ser diferenciada dos sinais de aumento do trabalho respiratório. → Mecanismos da Dispneia As sensações respiratórias são geradas por interações entre os estímulos motores eferentes (que saem) que partem do cérebro e chegam aos músculos respiratórios (feedforward) e os estímulos sensoriais aferentes (que chegam) desencadeados pelos receptores presentes em todo o corpo (feedback), assim como pelo processamento integrativo dessas informações, que, em nossa opinião, deve ocorrer no cérebro (Fig. 47e.1). Ao contrário das sensações dolorosas, que geralmente podem ser atribuídas à estimulação de uma única terminação nervosa, as sensações de dispneia são entendidas mais comumente como holísticas, algo semelhante à fome ou à sede. Determinada doença pode causar dispneia por um ou mais mecanismos, que podem atuar em algumas circunstâncias (p. ex., esforço físico), mas não em outras (p. ex., mudança de posição). → Eferentes motores: Os distúrbios da bomba ventilatória – mais comumente aumentos da resistência ou da rigidez das vias respiratórias (diminuição da complacência) do sistema respiratório – estão associados à acentuação do trabalho respiratório ou a uma sensação de esforço exagerado para respirar. Quando os músculos estão fracos ou fatigados, é necessário realizar mais esforço, mesmo que a mecânica do sistema esteja normal. A estimulação neural acentuada proveniente do córtex motor é percebida por uma descarga corolária (um sinal neural) enviada ao córtex sensorial ao mesmo tempo em que os estímulos motores são enviados aos músculos respiratórios. → Aferentes sensoriais: Os quimiorreceptores localizados nos corpos carotídeos e no bulbo são ativados por hipoxemia, hipercapnia aguda e acidemia. A estimulação desses receptores e de outros que resultam no aumento da ventilação, produz a sensação de falta de ar. Os mecanorreceptores situados nos pulmões, quando são estimulados pelo broncoespasmo, geram uma sensação de constrição torácica. Os receptores J sensíveis ao edema intersticial e os receptores dos vasos sanguíneos pulmonares, quando são ativados por alterações agudas da pressão arterial pulmonar, parecem contribuir para a sensação de falta de ar. A hiperinsuflação está associada à sensação de esforço mais acentuado para respirar e à incapacidade de obter uma respiração profunda ou satisfatória. Os metaborreceptores localizados nos músculos esqueléticos parecem ser ativados por alterações da composição bioquímica local dos tecidos ativos durante o exercício e, quando estimulados, contribuempara a angústia respiratória. → Integração: desproporção eferente-reaferente: A discrepância ou desproporção entre os estímulos anterógrados enviados aos músculos ventilatórios e o feedback gerado pelos receptores que monitoram a resposta da bomba ventilatória aumenta a intensidade da dispneia. Essa desproporção é particularmente importante quando há um desequilíbrio mecânico na bomba ventilatória, como ocorre na asma ou na DPOC. → Contribuição de fatores emocionais ou afetivos para a dispneia: A ansiedade ou o medo agudo podem agravar a dispneia por alterarem a interpretação dos estímulos sensoriais ou gerarem padrões respiratórios que acentuam as anormalidades fisiológicas do sistema pulmonar. Por exemplo, nos pacientes com limitação do fluxo expiratório, a frequência respiratória acelerada provocada pela ansiedade aguda causa hiperinsuflação, aumentos do trabalho e do esforço para respirar e sensação de respiração insatisfatória. 3. Descrever o mecanismo que desencadeia a dispneia nos quadros de ansiedade. Referência: Principais Causas para Falta de Ar (Dispneia) A queixa de falta de ar pode ser real, quando paciente realmente tem alguma dificuldade de oxigenar o sangue, ou pode ser apenas uma sensação, quando o paciente refere dificuldade para respirar, mas ele efetivamente não apresenta nenhuma dificuldade de oxigenar os tecidos. Esse último caso costuma ocorrer nas crises de ansiedade. Referência: Manifestações respiratórias do transtorno de pânico: causas, consequências e implicações terapêuticas Múltiplas anormalidades respiratórias podem ser encontradas em pacientes com transtornos de ansiedade, particularmente no transtorno de pânico (TP). A anormalidade respiratória mais citada em pacientes com TP é a sensibilidade aumentada para o CO2, que originou a hipótese de uma disfunção fundamental nos mecanismos fisiológicos de controle da respiração no TP. Há evidências de que pacientes com TP com sintomas respiratórios predominantes são mais sensíveis a testes respiratórios do que aqueles sem a manifestação de tais sintomas, representando um subtipo distinto. Pacientes com TP tendem a hiperventilar e a reagir com pânico como resposta a estimulantes respiratórios como o CO2, gerando uma ativação de um circuito de medo hipersensível. Apesar de a fisiologia respiratória desses pacientes permanecer normal, algumas evidências recentes apontam a presença de disfunções subclínicas na respiração e em outras funções relacionadas à homeostase corporal. O circuito do medo, composto pelo hipocampo, córtex pré-frontal medial, amígdala e projeções do tronco cerebral, pode estar hipersensível em pacientes com TP. Essa teoria pode explicar por que os medicamentos e a terapia cognitivo-comportamental são claramente eficazes. → Síndrome da hiperventilação Na síndrome da hiperventilação, há complexas interações entre distúrbios orgânicos, respiratórios, psiquiátricos e fisiológicos. Transtornos de ansiedade, tais como o transtorno de pânico, estão associados a leve hiperventilação e outros padrões respiratórios anormais. A hipótese predominante para explicar a sobreposição entre os sintomas da hiperventilação aguda e os do transtorno de pânico é que pacientes com transtorno de pânico sofrem de episódios crônicos de hiperventilação, nos quais tendem a apresentar alcalose hipocápnica causada por hiperventilação aguda induzida por estresse, o que gera os ataques de pânico. Há 3 principais achados experimentais que confirmam tal idéia. Primeiro, os ataques de pânico e a síndrome da hiperventilação causam dispneia, palpitações, tremores, parestesia e tonturas. Segundo a síndrome da hiperventilação é encontrada em cerca de 40% dos pacientes com transtorno de pânico. Terceiro, no teste de indução de hiperventilação aguda, no qual os pacientes são induzidos a hiperventilar (30 ciclos/min) por 4 min, sintomas semelhantes ao pânico são observados em parcela significativa dos pacientes com transtorno de pânico. A hiperventilação por estresse gera sintomas frequentemente interpretados como risco de morte por pacientes que não sabem as consequências da ventilação excessiva. A interpretação equivocada desses sintomas aumenta o medo e ativa o sistema nervoso autônomo, dessa forma aumentando a frequência respiratória, o que causa maior redução de CO2 e intensifica os sintomas hipocápnicos. Isso cria um feedback positivo, o que aumenta a reação de pânico e leva a um ataque de pânico. 4. Caracterizar pneumonias adquiridas na comunidade e pneumonia nosocomial quanto a: → PNEUMONIA ADQUIRIDA NA COMUNIDADE OU PNEUMONIA COMUNITÁRIA Referência: MEDCURSO Já em 1901, Sir William Osler, em sua obra “Os Princípios e a Prática da Medicina”, reconheceu a pneumonia como “a mais universal e fatal entre as doenças agudas”, sendo considerada a “capitã da morte humana”. Muitas décadas se passaram, a medicina evoluiu, os antibióticos foram descobertos, mas a pneumonia continua entre as principais causas de morte no mundo. Nos EUA, por exemplo, a pneumonia bacteriana é a sexta causa de morte. DENIFIÇÃO O termo “pneumonia” pode ser definido sob 2 pontos de vista diferentes. Pelo enfoque histopatológico, pneumonia significa preenchimento do espaço alveolar por infiltrado necroinflamatório – os alvéolos encontram-se totalmente ocupados por leucócitos (geralmente neutrófilos) e exsudato purulento, contendo debris celulares, neutrófilos e bactérias – Figura 2. Neste aspecto, a pneumonia deve ser diferenciada da “pneumonite” ou “alveolite”, lesão caracterizada por um infiltrado inflamatório localizado principalmente (mas não exclusivamente) nos septos alveolares, que representam o interstício do órgão. Sob o ponto de vista clínico, quando o médico usa o termo “pneumonia”, está se referindo à infecção aguda do pulmão. Usando este conceito, consideramos pneumonia todo e qualquer processo inflamatório agudo do parênquima pulmonar decorrente da infecção por algum micro-organismo (bactéria, vírus ou fungo). O Consenso Brasileiro de Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC) define esta entidade da seguinte maneira: OBS: Vale dizer que a definição acima atualmente é considerada DESATUALIZADA, e deve mudar em breve, quando sair a próxima versão do consenso de PAC. OBS: Até pouco tempo atrás, definia-se uma entidade chamada Pneumonia Associada aos Cuidados de Saúde (PACS), que seria uma pneumonia adquirida na comunidade por pacientes com história de contato recente ou frequente com o sistema de saúde (ex.: moradia em asilo, home care, tratamento em clínica de diálise). O novo consenso de Pneumonia Nosocomial, entretanto, recomenda que o conceito de PACS seja ABANDONADO!!! Os motivos para isso serão vistos com maiores detalhes no capítulo seguinte. EPIDEMIOLOGIA Segundo dados do SIH (Sistema de Informações Hospitalares do SUS), a pneumonia é uma das principais causas de internação no Brasil (perdendo apenas para parto/puerpério, não considerados doença). O sexo masculino foi predominante, e a maioria dos casos ocorreu nos meses de outono-inverno, em particular nos extremos de idade (menores de 5 anos e maiores de 65 anos). Embora a pneumonia bacteriana possa ocorrer em indivíduos previamente hígidos, ela incide principalmente nos pacientes debilitados por alguma patologia de base. O avanço da medicina trouxe uma série de mudanças que, “paradoxalmente”, fortaleceram a pneumonia como importante entidade mórbida dos tempos atuais. Exemplificaremos algumas delas: (1) permitiu à população envelhecer, aumentando o percentual de idosos, um grupo mais suscetível à infecção pulmonar; (2) aumentou a sobrevida média de certas patologias debilitantes, como neoplasias malignas, DPOC, insuficiência cardíaca, diabetes mellitus e doença cerebrovascular; (3) intensificou o uso de drogas que deprimem a imunidade, como os quimioterápicos; (4) desenvolveuas técnicas invasivas de suporte terapêutico, que servem como “porta de entrada” para bactérias no organismo (ex.: intubação traqueal, cateter venoso profundo etc). PADRÕES HISTOPATOLÓGICOS – Pneumonia Lobar versus Broncopneumonia A primeira pneumonia descrita sob o ponto de vista clínico e histopatológico foi a pneumonia pneumocócica. O “pneumococo” ou Streptococcus pneumoniae é um coco Gram-positivo que, ao atingir os alvéolos, é capaz de desencadear uma reação inflamatória neutrofílica com grande rapidez e agressividade. A bactéria se multiplica nos espaços alveolares (que se comunicam entre si através dos poros de Kohn) e libera substâncias com efeito vasodilatador e alto poder quimiotáxico para neutrófilos. O processo pneumônico se instala e evolui em 4 fases sucessivas: (1) congestão; (2) “hepatização” vermelha; (3) “hepatização” cinzenta; (4) resolução ou organização – ver Tabela. A ocupação total do espaço alveolar pelo exsudato neutrofílico pode ocorrer numa grande área do parênquima, ao que podemos chamar de consolidação (ou condensação) alveolar. Quando praticamente todo (ou quase todo) um lobo pulmonar é consolidado, surge o termo Pneumonia Lobar – Figuras 3 e 4. Sabemos que cerca de 90-95% dos casos de pneumonia lobar comunitária têm o Streptococcus pneumoniae como patógeno. É importante ressaltar, entretanto, que a pneumonia lobar não é o tipo mais comum de pneumonia, mesmo no caso do “pneumococo”. O achado mais típico da pneumonia bacteriana é definido pelo termo Broncopneumonia – Figuras 5 e 6 – caracterizado pela presença de múltiplos focos coalescentes de consolidação alveolar, distribuindo-se na região peribrônquica. Cada um desses focos ocupa o volume aproximado de um ácino ou lóbulo pulmonar. O próprio “pneumococo”, o Staphylococcus aureus, e as bactérias Gram-negativas costumam acometer o pulmão desta forma. Vale ressaltar que se a coalescência dos focos broncopneumônicos atingir um grande volume, o infiltrado pode transformar-se em uma pneumonia lobar ou sublobar. PNEUMONIA “TÍPICA” VERSUS PNEUMONIA “ATÍPICA” Antes do advento dos antibióticos, na década de 40 do século XX, a pneumonia era uma doença muito grave e com frequência levava ao êxito letal. Os médicos podiam reconhecê-la facilmente, pois se tratava de uma síndrome clinicorradiológica de características bem marcantes: início hiperagudo de febre alta com calafrios; dor pleurítica; queda do estado geral; tosse com expectoração esverdeada e imagens de consolidação alveolar na radiografia de tórax. O estudo bacteriológico do escarro frequentemente revelava um agente bacteriano conhecido, geralmente o “pneumococo”. Com o surgimento das sulfonamidas, e posteriormente das penicilinas, grande parte dos pacientes com pneumonia obtinha uma excelente resposta ao tratamento e evoluía para cura completa. A doença aparentemente estava sendo “vencida”. Entretanto, existia um grupo de pacientes com quadro pulmonar infeccioso que não respondia a estes antibióticos. O escarro desses indivíduos não revelava nenhum agente bacteriano conhecido (que aparecesse na coloração pelo Gram ou na cultura para germes comuns). O quadro clinicorradiológico era diferente do que se esperava para uma pneumonia “típica”: o início era subagudo, a febre não era tão alta, os calafrios eram infrequentes, a tosse seca era o sintoma predominante e a radiografia de tórax mostrava um infiltrado intersticial ou broncopneumônico (em vez de grandes consolidações alveolares). Nesse momento, criou-se o termo “pneumonia atípica” para esta afecção, em contrapartida ao termo “pneumonia típica”, fazendo referência à pneumonia pneumocócica ou à pneumonia por outras bactérias identificáveis no Gram ou cultura. Inicialmente, a pneumonia “atípica” foi encarada como uma pneumonia branda, com curso arrastado, porém autolimitado e de ótimo prognóstico. Mais tarde, identificou-se o principal agente desta pneumonia – o Mycoplasma pneumoniae, que, na verdade, não era uma bactéria. A pneumonia por este agente ocorria em surtos epidêmicos, acometendo adultos jovens. Diversos outros patógenos foram descobertos como causadores de quadros pneumônicos semelhantes, como é o caso da Chlamydia pneumoniae, Chlamydia psittaci (psitacose) e a Coxiella burnetii (parente próxima das riquétsias). Passaram a ser os agentes da pneumonia “atípica”. Em 1976, foi descoberto um agente que veio para modificar toda a definição de “pneumonia atípica”. É a Legionella pneumophila, um pequeno bastonete Gram-negativo causador de uma pneumonia ainda mais grave e dramática do que a pneumocócica. O curso clínico é o de uma pneumonia “típica”. No entanto, trata- se de uma bactéria muito difícil de ser visualizada no Gram de escarro, além de não responder aos antibióticos betalactâmicos convencionalmente utilizados para o tratamento das pneumonias “típicas”. Por isso, foi colocada no mesmo grupo do Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae, sendo também chamada de “germe atípico”. Antigamente, a maioria dos autores denominava pneumonia “atípica” qualquer pneumonia causada por um “germe atípico”, ou seja: Legionella pneumophila, ou Mycoplasma pneumoniae, ou Chlamydia pneumoniae, ou ainda qualquer outro agente que não seja uma bactéria identificável pelo Gram e que cresça em meios de cultura para germes comuns. Depois, um pouco mais recentemente, começaram a dizer que o que era típico ou atípico não era o germe, e sim a apresentação clínica. As PACs atípicas seriam caracterizadas por progressão mais lenta e predominância de sintomas sistêmicos sobre os respiratórios. A temperatura não seria tão alta, a tosse, pouco produtiva e com expectoração mucoide; haveria pouca dor pleurítica. A semiologia respiratória seria pobre. Uma vez com este quadro clínico atípico – pois é diferente da pneumonia mais típica de todas: a pneumocócica –, poderíamos suspeitar de germes atípicos (M. pneumoniae, C. pneumoniae, Legionella spp. e vírus). Vários trabalhos recentes têm demonstrado que a apresentação clínica de uma PAC depende muito mais do estado imunológico de um paciente do que do agente etiológico. Vamos raciocinar juntos? Se um paciente com Aids e imunossupressão grave for infectado pelo pneumococo ele vai ter os achados típicos de uma PAC por pneumococo? Esse paciente vai ter febre com calafrios, dor pleurítica, tosse purulenta? Provavelmente não!! E não precisamos ir tão longe!! Um paciente idoso com pneumonia tem clínica igual a de um paciente jovem? Assim, as diretrizes de diferentes sociedades de pneumologia recomendam o abandono dessa classificação, utilizando apenas o termo “germes” ou “agentes atípicos” (M. pneumoniae, C. pneumoniae, Legionella spp.). Por questões didáticas usaremos também os termos quadro clínico típico ou atípico – que não necessariamente significam que sejam causados por germes típicos ou atípicos. Etiologia e fisiopatologia Qual é o mais comum? O agente etiológico mais comum da pneumonia comunitária é o Streptococcus pneumoniae – o “pneumococo”, um diplococo Gram-positivo. Isso é verdadeiro para todas as faixas etárias, exceto recém- natos. Estima-se que o pneumococo seja responsável por 30-40% das pneumonias em adultos. Quais são os outros patógenos? Os outros agentes da pneumonia comunitária em adultos podem ser separados em grupos, de acordo com o seu comportamento biológico. Eles estão listados na Tabela 1, em conjunto com o pneumococo. Nas Tabelas 2A e 2B estão as características especiais e importantes de cada agente. Mais adiante, descreveremos resumidamente cada um deles. PATOGÊNESE Na grande maioria dos casos, o micro-organismo causador da pneumonia atinge os alvéolos pulmonares através da microaspiração do material proveniente das vias aéreas superiores (orofaringe, nasofaringe). Ou seja, para infectar o pulmão, o agente primeiro precisa colonizaro epitélio faríngeo e depois ser aspirado para as vias aéreas inferiores. Menos comumente, o germe atinge os alvéolos por inalação de aerossol contaminado do ambiente (Legionella) ou por via hematogênica (S. aureus). 1. Colonização das Vias Aéreas Superiores O conceito de “colonização” é bem diferente do conceito de “infecção”. As bactérias que se multiplicam na superfície do epitélio das vias aéreas superiores não entram em contato com o meio interno do organismo e, portanto, não provocam resposta imunológica nem sequer lesão celular ou tecidual – os elementos fundamentais de uma infecção. Sendo assim, dizemos que esses micro-organismos são simplesmente colonizadores, componentes da flora local. As principais bactérias que compõem esta flora não são capazes de infectar indivíduos imunocompetentes, recebendo a denominação “saprófitas”. Os agentes que podem eventualmente causar infecção e doença no ser humano são denominados “patogênicos”. A colonização das vias aéreas superiores por bactérias patogênicas geralmente é transitória, durando semanas. As bactérias anaeróbias são os principais colonizadores do epitélio faríngeo, presentes numa concentração 10 vezes maior que a de aeróbios. São as mesmas bactérias encontradas na cavidade oral, especialmente, no sulco gengival, nas placas dentárias, nas criptas da língua e nas amígdalas. Pertencem aos seguintes gêneros: Peptostreptococcus, Bacteroides, Prevotella, Porphyromonas e Fusobacterium. Excetuando-se o coco Gram-positivo Peptostreptococcus, as demais bactérias são bastonetes Gram-negativos anaeróbios. Como veremos, estas bactérias são importantes agentes etiológicos da “pneumonia bacteriana aspirativa”. Em termos de concentração bacteriana na faringe, depois dos anaeróbios vêm os Gram-positivos aeróbios – a maioria deles saprófita, como os do gênero Corynebacterim (ou difteroides) e os estreptococos do grupo viridans. O epitélio faríngeo dos indivíduos hígidos é revestido por uma camada de fibronectina – uma proteína que serve como receptor para a adesão dos aeróbios Gram-positivos. Eventualmente, “aparece” um agente patogênico, como o Streptococcus pneumoniae. Segundo pesquisas, o “pneumococo” é encontrado na nasofaringe de 5-10% dos adultos e de 20-40% das crianças. Estima-se que até 60% das pessoas albergarão esta bactéria na nasofaringe em algum momento de suas vidas. Outro exemplo de bactéria patogênica – o Staphylococcus aureus – coloniza a porção anterior das narinas de 20-40% da população (os chamados “carreadores nasais” do estafilococo). A idade avançada e determinadas afecções debilitantes, como DPOC, diabetes mellitus e alcoolismo, podem modificar a flora colonizadora por reduzir a quantidade de fibronectina do epitélio, permitindo a exposição de receptores das células epiteliais para agentes Gram-negativos aeróbios. Assim, bactérias como Haemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis e Klebsiella pneumoniae começam a sobressair e colonizar as vias aéreas superiores (e eventualmente as inferiores) destes pacientes. Você acabou de compreender por que este grupo de indivíduos tem propensão à infecção respiratória por Gram-negativos. Um outro exemplo é o das pneumopatias estruturais, como a fibrose cística e as bronquiectasias, que permitem a colonização das vias aéreas inferiores por S. aureus e P. aeruginosa. 2. Virulência Bacteriana versus Defesas do Hospedeiro A ocorrência da pneumonia depende muito da competição entre a bactéria e as defesas do hospedeiro. Para ocorrer pneumonia 1 ou mais das seguintes situações tem que estar presente: (1) contato do alvéolo com um agente de alta virulência; (2) contato do alvéolo com um grande inóculo de bactérias; (3) defeito nos mecanismos de defesa do hospedeiro. As defesas naturais do aparelho respiratório conseguem manter as vias aéreas infraglóticas estéreis, apesar de uma grande concentração de bactérias na faringe, cavidade oral e nasal. As partículas “infectantes” medindo mais de 2 micra geralmente são depositadas no muco do epitélio traqueobrônquico e então conduzidas pelo movimento ciliar das células epiteliais até a orofaringe, onde são deglutidas. O reflexo da tosse e outros reflexos epiglóticos podem eliminar abruptamente uma grande quantidade dessas partículas. A secreção de IgA específica é um importante meio de defesa das vias aéreas superiores contra agentes infecciosos. Uma pequena quantidade desta imunoglobulina também pode ser encontrada nas vias aéreas inferiores. As partículas “infectantes” muito pequenas, com menos de 2 micra, conseguem atingir os bronquíolos terminais e os alvéolos, estruturas desprovidas de cílios. Entretanto, o surfactante alveolar é rico em substâncias de efeito antibacteriano, como IgG, IgM, complemento, fibronectina, lisozimas e proteínas ligadoras de ferro. Os anticorpos antibacterianos específicos agem de duas formas: (1) o IgM ativa o sistema complemento capaz de destruir a bactéria pelo seu poder lítico; (2) o IgG reveste a superfície bacteriana, permitindo o seu reconhecimento pelos fagócitos alveolares. No interior dos alvéolos encontram-se alguns macrófagos, responsáveis pelo primeiro ataque fagocítico às bactérias. Se a virulência do agente for alta, ele consegue se multiplicar mesmo na presença de macrófagos alveolares. Algumas bactérias podem se proteger do sistema humoral (anticorpos, complemento) pela liberação de exotoxinas e pela presença de uma cápsula polissacarídica, como no caso do “pneumococo”. A defesa contra este tipo de germe depende muito da presença de anticorpos específicos contra os antígenos capsulares (o que pode ser obtido com a vacina antipneumocócica polivalente). Quando os macrófagos não conseguem conter a proliferação bacteriana, passam a servir de mediadores da resposta inflamatória, liberando citoquinas, como o TNF-alfa, a IL-1 e fatores de quimiotaxia para neutrófilos, como o IL-8, o C5a e o leucotrieno B4. Estes fatores, chamados quemoquinas, também são liberados pelas células do endotélio e do epitélio alveolar. Os neutrófilos então são recrutados no local, desencadeando e perpetuando o processo inflamatório agudo. Existem várias condições que inibem um ou mais mecanismos de defesa contra os agentes da pneumonia comunitária. Algumas delas aumentam a chance de pneumonia por quase todos os germes, como é o caso da idade avançada, das doenças respiratórias e cardíacas – Tabela 3. Outras estão mais relacionadas à pneumonia por agentes específicos. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 1. Quadro Clínico “Típico” O quadro clínico clássico da pneumonia comunitária “típica” é representado pela pneumonia pneumocócica. A doença se apresenta de forma hiperaguda (2-3 dias), com uma história de calafrios com tremores, seguidos de febre alta (39-40° C), dor torácica pleurítica e tosse produtiva com expectoração purulenta (esverdeada). O exame físico pode revelar prostração, taquipneia (FR > 24 ipm), taquicardia (FC > 100 bpm) e hipertermia (TAx > 38° C). Os achados positivos no exame do aparelho respiratório podem variar desde simples estertores inspiratórios até uma síndrome de consolidação e/ou de derrame pleural. A síndrome de consolidação é caracterizada pela presença do som bronquial (“sopro tubário”), aumento do frêmito toracovocal, submacicez, broncofonia e pectorilóquia fônica. A síndrome do derrame pleural é identificada pela abolição do murmúrio vesicular e do frêmito toracovocal, submacicez e egofonia. Ver Tabela 4. Os exames laboratoriais inespecíficos geralmente revelam uma leucocitose neutrofílica entre 15.000- 35.000/mm³, com desvio para esquerda. A ativação dos neutrófilos pode ser notada à hematoscopia pela presença de granulações grosseiras no citoplasma e/ou corpúsculos de Dohle – Figura 7. O hematócrito, os índices hematimétricos e as plaquetas costumam estar normais no início do quadro. A leucopeniapode ocorrer e é considerada um importante sinal de mau prognóstico. A bioquímica na maioria das vezes está normal, mas pode mostrar hiponatremia leve a moderada em alguns casos. A hiponatremia grave e a elevação das enzimas hepáticas são mais comuns na pneumonia por Legionella pneumophila. O aumento agudo das escórias renais sugere sepse grave ou nefrite intersticial pelo antibiótico utilizado. A gasometria arterial depende da gravidade e extensão da pneumonia, bem como da reserva cardiopulmonar prévia do paciente. Os achados mais frequentes são a hipoxemia e a alcalose respiratória. O encontro de hipoxemia grave (PaO2 < 60 mmHg), acidose metabólica ou respiratória são importantes sinais de mau prognóstico. O quadro clinico-laboratorial descrito acima é muito comum quando a pneumonia bacteriana comunitária acomete adultos de meia-idade previamente hígidos. Entretanto, sabemos que a pneumonia é uma patologia predominante nos idosos e nos pacientes que apresentam comorbidades (DPOC, insuficiência cardíaca, diabetes mellitus, alcoolismo, neoplasia, uremia, doença cerebrovascular etc.). OBS: IMPORTANTE!!! Grave o seguinte conceito: quanto mais idoso e mais debilitado for o paciente por alguma doença de base, mais o quadro clínico se afasta do que foi descrito acima! A febre pode estar ausente ou, se presente, ser mais baixa (38-38,5o C). Podem faltar outros comemorativos, como a tosse, a expectoração purulenta e a leucocitose. Às vezes, o único sinal de pneumonia nesses pacientes pode ser a prostração, a desorientação ou a taquidispneia. OBS: Todo paciente idoso debilitado, ou qualquer indivíduo previamente doente, que evolui com um quadro inexplicado de desorientação e queda do estado geral ou simplesmente taquidispneia, mesmo na ausência de febre, tosse produtiva ou leucocitose, deve ter a pneumonia bacteriana como um de seus diagnósticos diferenciais. Uma radiografia de tórax deve ser prontamente solicitada e, se mostrar um infiltrado sugestivo de pneumonia, um curso de antibioticoterapia empírica deve ser logo iniciado, visando os agentes mais prováveis. Radiografia de Tórax no Quadro Clínico “Típico” Existe pneumonia com radiografia de tórax normal? Existe, mas não é um achado comum na prática médica. Três situações podem explicar a radiografia normal na pneumonia: (1) o infiltrado é retrocardíaco, não sendo visualizado na incidência PA; (2) o infiltrado é muito tênue para ser identificado pela radiografia – mas pode ser visualizado na TC (este fenômeno é mais comum na pneumocistose e na neutropenia grave); (3) a técnica da radiografia foi incorreta, exagerando-se na kilovoltagem dos raios X (“muito penetrado”). O que costumamos visualizar na radiografia de tórax em um paciente com pneumonia? Resposta: um “infiltrado pulmonar”. Este infiltrado, no caso da pneumonia bacteriana, geralmente é do tipo alveolar broncopneumônico: múltiplas condensações lobulares coalescentes – Figura 8. A presença do “broncograma aéreo” caracteriza o infiltrado alveolar, pois os alvéolos em volta do brônquio estão preenchidos de exsudato, contrastando com o ar em seu interior. Algumas vezes, podemos ter uma grande área de consolidação alveolar, constituindo a pneumonia lobar ou sublobar – Figura 9. OBS: Todo infiltrado pulmonar visto na radiografia de tórax significa pneumonia? Claro que não! Existe uma infinidade de doenças não infecciosas que podem se manifestar como infiltrado pulmonar na radiografia. Como exemplos, podemos citar o edema pulmonar da insuficiência cardíaca congestiva descompensada, a síndrome de Mendelson (pneumonite química aspirativa), o tromboembolismo pulmonar, a SDRA por causas não infecciosas, a pneumonia eosinofílica, a hipersensibilidade medicamentosa, a síndrome de Löeffler, a BOOP (ou COP), colagenose, vasculites, etc. Muitas vezes, estas entidades são confundidas com pneumonia na prática médica, e o diagnóstico diferencial exige uma análise abrangente do caso clínico e de outros exames complementares. OBS: O exame clínico não é definitivo para o diagnóstico embora seja bastante sugestivo. Por isso, a radiografia de tórax é fundamental para confirmação ou exclusão de pneumonia. O RX pode determinar a presença de outros quadros infecciosos do trato respiratório inferior e superior, onde a sintomatologia, embora semelhante, traz imagem radiológica normal. O RX também pode definir a gravidade do quadro pela extensão do acometimento pulmonar e identificar complicações, como derrame pleural, atelectasias, tuberculose etc. Existem padrões radiológicos sugestivos de um determinado agente etiológico? Sim, existem padrões radiológicos sugestivos de alguns agentes etiológicos. A pneumonia lobar quase sempre é causada pelo “pneumococo”, apesar de que pode eventualmente surgir evolutivamente de uma pneumonia estafilocócica ou por Gram-negativos. Um tipo especial de pneumonia lobar – a “pneumonia do lobo pesado” – é causada pela Klebsiella pneumoniae (pneumonia de Friedlander), geralmente em alcoólatras ou diabéticos. O lobo comprometido costuma ser o superior, e na radiografia observa-se abaulamento da cisura (pelo edema lobar inflamatório). A formação de cistos com paredes finas, geralmente múltiplos, denominados pneumatoceles, é comum na pneumonia por Staphylococcus aureus. São decorrentes da passagem de ar para o interstício subpleural, através de pequenas roturas bronquiolares e revertem completamente com o tratamento medicamentoso da pneumonia, sem a necessidade de drenagem. Uma pneumonia que se manifesta no RX com uma condensação de formato arredondado (pseudotumor) é chamada de “pneumonia redonda” (round pneumonia). É uma entidade típica de crianças, causada quase sempre pelo Streptococcus pneumoniae. A propensão à necrose parenquimatosa, com formação de cavitações, caracteriza a pneumonia pelos seguintes agentes: anaeróbios (pneumonia aspirativa), Klebsiella pneumoniae, Staphylococcus aureus e Streptococcus pneumoniae sorotipo 3 (raro). Quando as lesões cavitárias são pequenas (< 2 cm), usamos a denominação pneumonia necrosante, e quando a lesão cavitária é grande (> 2 cm), contendo nível hidroaéreo, chamamos de abscesso pulmonar. Na verdade, a pneumonia necrosante e o abscesso pulmonar são gradações do mesmo tipo de processo patológico. 2. Quadro Clínico “Atípico” O quadro clínico atípico de pneumonia se parece com uma virose respiratória prolongada. O principal agente é o Mycoplasma pneumoniae, incidindo geralmente numa faixa etária jovem, acima dos 5 anos e abaixo dos 40 anos de idade. Ao contrário da pneumonia bacteriana “típica”, a instalação é subaguda (tempo de início médio dos sintomas = 10 dias), abrindo com sintomas gerais de uma “síndrome gripal”: dor de garganta; mal-estar; mialgia; cefaleia; tosse seca; febre entre 38-39o C. A tosse costuma piorar após a 1° semana, passando a ser o principal sintoma; às vezes persiste por várias semanas. Costuma ser uma tosse seca, que atrapalha o sono do paciente, mas também pode mostrar-se produtiva. Neste caso, a expectoração geralmente é branca, mas em 30-50% dos casos é descrita como purulenta. O laboratório só mostra leucocitose neutrofílica em 20% dos casos, o que difere da pneumonia bacteriana “típica”, na qual a leucocitose com desvio para esquerda é a regra. O grande marco da síndrome da pneumonia “atípica” é a importante dissociação clinicorradiológica encontrada nesses pacientes. Enquanto o exame do aparelho respiratório é totalmente normal ou revela apenas discretos estertores crepitantes ou sibilos, a radiografia de tórax mostra um infiltrado pulmonar maior do que o esperado. O infiltrado pode ser do tipo broncopneumônico (típico das infecções por micoplasma ou clamídia) ou do tipo intersticial reticular ou reticulonodular (típico das viroses). Observe as Figuras 15 e 16. A pneumonia por Chlamydiapneumoniae se manifesta de forma muito semelhante à pneumonia por micoplasma, porém predomina numa faixa etária mais velha, geralmente entre 65-80 anos. É o 2° agente mais comum de pneumonia “atípica”. Embora a pneumonia por Legionella pneumophila (legionelose) seja considerada uma causa de pneumonia “atípica”, o motivo certamente não é o quadro clínico semelhante à pneumonia por micoplasma e clamídia, mas sim o fato de esta bactéria não ser identificada com facilidade no Gram de escarro, não crescer em cultura para germes comuns e não responder aos antibióticos betalactâmicos. Na verdade, a legionelose é uma doença bastante grave, muito mais do que a infecção pneumocócica, e de início agudo, com febre alta e evolução para grandes áreas de condensação pulmonar de pneumonia lobar (ver adiante). OBS: Pacientes tabagistas com > 50 anos (e também aqueles com persistência dos sintomas ou achados focais ao exame físico pós-tratamento) devem repetir o raio X de tórax em 6 semanas (para avaliar a possibilidade de câncer de pulmão – pneumonia pós-obstrutiva). CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS O diagnóstico de pneumonia comunitária geralmente é feito pelo quadro clinicolaboratorial em conjunto com a radiografia de tórax nas incidências PA e perfil. O exame de escarro pode revelar dados que corroboram o diagnóstico e sugerem o agente etiológico. Exames invasivos e semi-invasivos (ex.: broncofibroscopia) não devem ser solicitados de rotina, mas podem ser necessários em casos selecionados. Aí está a grande dúvida: vale a pena solicitar um exame de escarro de um paciente com suspeita de pneumonia? Pois é. A mesma dúvida que você tem também passa pela cabeça dos principais especialistas no assunto! Apesar de ser um exame relativamente barato, a espera de um resultado poderia retardar o início da antibioticoterapia e, além disso, como destacaremos adiante, nem sempre podemos confiar neste exame. 1. Abordagem Inicial Se você pesquisar a literatura internacional, verá que existem diferentes recomendações – publicadas por diferentes sociedades médicas – para o tratamento empírico da pneumonia comunitária. O motivo é que o grau de resistência do pneumococo é variável em diversas partes do mundo, assim, os antibióticos de primeira escolha nem sempre serão os mesmos que no Brasil. Vamos mesclar aqui as informações do último consenso americano (IDSA/ ATS) com as informações do último consenso brasileiro da SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia). 2. Diagnóstico Etiológico Procurar ou não procurar o agente etiológico na PAC é uma dúvida que ainda paira na cabeça dos maiores especialistas no assunto. O tratamento inicial inapropriado pode aumentar a mortalidade e o risco de falência orgânica, o que seria minimizado com a pesquisa do agente etiológico na admissão. Por outro lado, o rendimento dos exames complementares não é muito bom. A recomendação atual é a procura do agente etiológico somente se houver motivo para acreditar que o resultado possa alterar o antibiótico que você selecionou empiricamente. Por exemplo: pneumonia sem critérios de gravidade, com apresentação típica, em adulto jovem, sem comorbidade = pneumococo (não há necessidade de lançar mão de propedêutica diagnóstica cara e invasiva para tentar confirmar um dado que já tem alta probabilidade pré-teste). Assim, na PAC, em especial nos casos que serão tratados em regime ambulatorial, a escolha do antibiótico é empírica, com base nos agentes mais frequentemente identificados em estudos epidemiológicos, eventualmente com algum ajuste em função de fator de risco específico ou situação epidemiológica (influenza aviária, Legionella, tuberculose). Segundo a ATS/IDSA, nos pacientes que serão internados, deve-se colher hemoculturas e escarro (Gram + cultura) se houver indicação (ver Tabela 5). Pacientes com pneumonia grave deverão ser avaliados por hemocultura, cultura do escarro (aspirado endotraqueal se for intubado) e dosagens de antígenos urinários para Legionella pneumophila e Streptococcus pneumoniae. ➢ Teste do Antígeno Urinário Pneumocócico VANTAGENS: rapidez, simplicidade, capacidade de detectar mesmo após início da antibioticoterapia. Sensibilidade de 50-80% e especificidade de mais de 90%. DESVANTAGENS: custo, ausência de antibiograma, falso-positivo em crianças com doença respiratória crônica colonizada pelo S. pneumoniae e em pacientes com episódio de PAC nos últimos três meses. Não há restrição em pacientes DPOC. ➢ Teste do Antígeno Urinário da Legionella Sensibilidade de 70-90% e especificidade de 99%. Desde o primeiro dia de doença já se encontra positivo e permanece por semanas. Segundo o Consenso Brasileiro, veja na Tabela 6 as indicações para solicitação de exames para diagnóstico etiológico, de acordo com o local de tratamento. Antes de passarmos para o tratamento, vamos lembrar quais seriam os agentes mais envolvidos na PAC (Tabela 7). A importância deste conhecimento é cobri-los nos esquemas empíricos de tratamento. Além disso, algumas correlações têm sido feitas entre determinados fatores de risco e agentes etiológicos específicos, embora nem todas tenham comprovação científica rigorosa. A Tabela mostra correlações consideradas importantes pelas diretrizes da IDSA e da ATS que podem influenciar no tratamento empírico a ser instituído, quando o agente em questão não é coberto pelo antibiótico que seria inicialmente recomendado. É importante lembrar que a frequência destes agentes varia de acordo com a idade, comorbidades, ou seja, a condição clínica do paciente. Analise e memorize as Tabelas 8 e 9. CRITÉRIOS DE TRATAMENTO AMBULATORIAL E HOSPITALAR 1. Tratamento Ambulatorial X Internação? A internação hospitalar faz-se necessária nos casos mais graves. Cerca de 20% dos pacientes com pneumonia são internados para receber o tratamento adequado. Será que os clínicos sabem decidir corretamente quem deve ser tratado em casa e quem deve se internar? Pois é. Segundo as pesquisas, os clínicos tendem a superestimar a gravidade da pneumonia, indicando internação para pacientes que cariam muito bem caso fossem tratados em casa. Numa tentativa de objetivar e uniformizar a decisão médica no atendimento a pacientes com pneumonia, os estudiosos desenvolveram formas de classicação e estadiamento da pneumonia comunitária, de acordo com critérios de gravidade previamente testados. Neste aspecto, um sistema que foi muito aceito e conceituado na literatura é o PSI (Pneumonia Severity Index), dividindo os pacientes em 5 classes de prognóstico, de acordo com um escore de pontos desenvolvido pelo grupo PORT (Pneumonia Patient Outcomes Research Team) – o escore PORT. Esta classicação foi feita para avaliar o risco de óbito e não a gravidade dos pacientes, mas como não havia outra maneira melhor, foi a mais utilizada para os pacientes com pneumonia comunitária até pouco tempo. Contudo, esse escore possui diversas variáveis, de forma que nem sempre é fácil para o médico calculá-lo em meio a uma emergência lotada, por exemplo. Atualmente, como veremos adiante, utilizamos um escore bem mais simples, o critério CURB65, para avaliar a gravidade, indicando ou não internação e em que setor: enfermaria ou terapia intensiva. Veremos que é muito mais prático que a classicação PSI. Antes de conhecer os escores, uma informação importante: nenhum deles é completamente perfeito para indicar internação em enfermaria ou unidade de terapia intensiva. Vamos usá-los apenas como uma ferramenta para ajudar na nossa decisão clínica (em outras palavras, os escores não controlam a nossa decisão, eles apenas auxiliam ou reforçam uma decisão que tomamos por conta própria). ➢ PSI (Pneumonia Severity Index) – Escore PORT Vejamos como utilizar este sistema de classicação prognóstica da pneumonia comunitária. O 1° passo é definir os pacientesna classe I, isto é, de excelente prognóstico com antibioticoterapia domiciliar. A sua letalidade é baixíssima (entre 0,1 e 0,4%). Como definimos este primeiro grupo? São aqueles < 50 anos, com estado mental preservado, FC < 125 bpm, FR < 30 irpm, PAS > 90 mmHg, temperatura entre 35 e 40°C e sem história de neoplasias, ICC, doença cerebrovascular, doença renal ou doença hepática. Se qualquer uma destas características estiver presente, o indivíduo não pertence mais à classe I e deve ser classificado segundo a tabela a seguir. Uma vez devidamente classificado, a conduta deveria ser a seguinte: ■ Pacientes classes I e II devem ser tratados ambulatorialmente. ■ Pacientes classe III devem ser avaliados individualmente e podem ser tratados ambulatorialmente ou internados em unidade de observação, geralmente necessitando de hospitalização breve (1-3 dias) até estabilizarem. ■ Pacientes classes IV e V devem ser internados e tratados no hospital (nos classe V, pensar em UTI). OBS: Duas críticas podem ser feitas a este sistema prognóstico: 1. Falha em alguns casos individuais, ao dar a mesma pontuação para graus diferentes de uma complicação – por exemplo, um paciente com PA sistólica = 40 mmHg recebe a mesma pontuação de outro com PA sistólica = 85 mmHg; e 2. Dá trabalho ao médico e pode atrasar o atendimento. A principal vantagem é que esse sistema foi validado em diversos estudos de grande porte randomizados, sendo o método recomendado pela Infectious Diseases Society of America (IDSA). ➢ CURB-65 O Harrison coloca a indicação de internação um pouco diferente dos guidelines: pacientes com escore 1 ou 2 devem ser internados, a não ser que um dos pontos seja devido à idade, situação na qual a avaliação deve ser feita caso a caso. As diretrizes da ATS/IDSA e o Harrison sugerem necessidade de internação em terapia intensiva em caso de CURB-65 ≥ 3. OBS: *Algumas referências podem trazer o ponto de corte da ureia como 42 mg/dl. Existem algumas diferenças no CURB-65 publicado pela SBPT: são elas o valor da ureia (> 50 mg/dl) e as indicações de internação – considerar internação se CURB-65 = 2 e internar se ≥ 3. **O Harrison considera o ponto de corte para a PA sistólica menor OU IGUAL a 90 mmHg (os guidelines consideram apenas < 90 mmHg). A letalidade também pode ser estimada pelo valor do escore CURB65. Veja a seguir: Você já deve ter percebido que a medicina não é uma ciência exata. Portanto, a visão do médico deve ir além de uma simples pontuação! Ele deve considerar a idade do paciente, a possibilidade de o paciente tomar ou não medicação via oral, o apoio familiar que o indivíduo terá durante seu tratamento ambulatorial e a presença de comorbidades que podem ser "descompensadas" pela pneumonia (diabetes, insuciência cardíaca, DPOC). Dessa forma, mesmo com um escore CURB-65 de 0 ou 1, pode ser indicada a internação hospitalar, caso o paciente não conte com apoio em casa, principalmente se for idoso ou se apresentar comorbidades agravadas pela infecção. Também é preciso pesar que as internações têm um custo muito maior, prolongam o retorno às atividades do dia a dia, além de encerrarem maior risco de tromboembolismo pulmonar e infecção por agentes mais virulentos e resistentes. Estas informações devem ser consideradas de modo a não haver internações desnecessárias. OBS: O ponto de corte da ureia no escore CURB-65 é 43 mg/dl segundo a maioria das referências e 50 mg/dl segundo o Consenso Brasileiro de Pneumonias (SBPT). 2. Internação em Enfermaria X CTI Embora os escores anteriores possam sugerir internação em terapia intensiva para os pacientes com pontuação mais alta, existe um escore que foi validado especialmente para isso. Novamente chegamos ao mesmo ponto – critérios objetivos foram idealizados (tabela a seguir) e devem ser memorizados, mas, qualquer que seja o caso, precisam ser ponderados pelo médico responsável. Objetivamente, a indicação para internação em CTI será dada de acordo com a tabela a seguir, segundo a recomendação do consenso da IDSA/ATS: 1 critério MAIOR ou 3 critérios MENORES » TERAPIA INTENSIVA. OBS: Existe um outro escore, mais simples, com o mesmo objetivo. Neste, são necessários apenas 2 critérios menores (ou 1 maior) para indicação de internação em CTI. São os "critérios de Ewig". Conheça-os: OBS: NOVOS ESCORES PARA PREDIÇÃO DA OCORRÊNCIA DE PAC GRAVE SCAP (Severe Community-Acquired Pneumonia) - Os critérios maiores são pH do sangue arterial < 7,30 (13 pontos) e PA sistólica < 90 mmHg (11 pontos). - Os critérios menores são FR > 30 ciclos/min (9 pontos); PaO₂/FiO₂ < 250 (6 pontos); ureia > 30 mg/dl (5 pontos); alteração do nível de consciência (5 pontos); idade ≥ 80 anos (5 pontos); e presença de inltrado radiológico multilobar ou bilateral (5 pontos). - Uma pontuação ≥ 10 pontos prediz um maior risco de uso de ventilação mecânica e necessidade de uso de droga vasoativa. SMART-COP (Systolic blood pressure, Multilobar involvement, Albumin, Respiratory rate, Tachycardia, Confusion, Oxygenation and pH) - Os critérios são: PA sistólica < 90 mmHg (2 pontos); envolvimento multilobar (1 ponto); albumina < 3,5 g/dl (1 ponto); FR ≥ 25 ciclos/min (1 ponto); FC > 125 bpm (1 ponto); confusão mental (1 ponto); SpO₂ < 93% ou PaO₂ < 70 mmHg (2 pontos); e pH < 7,30 (2 pontos). - Uma pontuação superior a 3 identificou 92% dos pacientes que necessitaram de uso de ventilação mecânica invasiva ou de drogas vasoativas na evolução da PAC. TRATAMENTO Como já conversamos, o tratamento inicial para a maioria dos pacientes permanece empírico. O antibiótico deve ser escolhido de acordo com o quadro clínico do paciente. TRATAMENTO EMPÍRICO Vamos dividir o tratamento da mesma maneira que fizemos a abordagem inicial: ambulatório, enfermaria e terapia intensiva. Acompanhe nas Tabelas a seguir as indicações para cada tipo de situação. Primeiro no ambulatório, segundo a ATS/IDSA. O que diz o Consenso Brasileiro? Ver Tabela 14. No paciente internado, veja na Tabela 15 as recomendações, também segundo a ATS/IDSA. O que diz o Consenso Brasileiro sobre tratamento empírico para pacientes internados? Ver Tabela 16. E no CTI, como tratar segundo a ATS/IDSA? Ver Tabela 17. ANTIBIOTICOTERAPIA 1. Por quanto tempo devo manter o tratamento? A pneumonia comunitária deve ser tratada por 7 a 10 dias em quadros clínicos brandos e 10 a 14 (alguns autores citam 21) dias em casos mais graves. A tendência atual é diminuir estes tempos. Para isso, algumas regras devem ser obedecidas. O paciente deve estar afebril por, no mínimo, 3 dias. A pneumonia por micoplasma ou clamídia deve ser tratada sempre por 2 semanas (14 dias). 2. Quando eu posso passar a antibiótico para via oral e quando dar alta? Veja o que diz o Consenso Brasileiro da SBPT na Tabela 19. 3. Em quanto tempo o paciente começa a melhorar? E se não der certo? O que pensar? A ausência de resposta ao tratamento ou piora clínica/radiológica em 48 ou 72 horas é considerada como fracasso precoce. Quando ocorre piora do quadro clínico após as 72 horas iniciais de tratamento é considerada falha tardia. As principais causas de fracasso são: 1) Antibioticoterapia errada; 2) Não era pneumonia: embolia pulmonar, vasculites, pneumonia eosinofílica, de hipersensibilidade etc.; 3) É pneumonia, mas por agentes pouco usuais: infecções fúngicas, pneumocistose, nocardiose, leptospirose, hantavirose, psitacose etc.; 4) Aconteceram complicações: pulmonares (abscesso) ou extrapulmonares (empiema). OBS: Pneumonia de Resolução Lenta ou Não Responsiva Espera-se que o paciente com pneumonia bacteriana responda aos antibióticos, tornando-se afebril em até 72h! O estado geral melhora rápido, porém os achados do exame físico podem demorar semanas para resolver, e o infiltrado radiológico4-8 semanas. O que fazer quando o paciente não responde aos antibióticos? Existem 5 opções: (1) a bactéria é resistente ao esquema utilizado; (2) existe coleção purulenta (empiema, abscesso) ou uma pneumonia obstrutiva; (3) trata-se de um germe não coberto: Mycobacterium tuberculosis, Pneumocystis jiroveci, fungo, Nocardia asteroides, Actinomyces israelii, etc.; (4) febre do antibiótico; (5) o infiltrado não é infeccioso – TEP, vasculite, colagenose, BOOP, pneumonia eosinofílica etc. A melhor conduta é indicar a broncofibroscopia com coleta de material (LBA ou ECP) para cultura quantitativa, BAAR (Ziehl-Neelsen), coloração para P. jiroveci e fungos (prata), e, nos casos duvidosos, biópsia transbrônquica. O anti-HIV deve ser pesquisado. Se com esses métodos o diagnóstico não for dado e o paciente permanecer doente, devemos partir para a biópsia toracoscopia guiada ou a céu aberto. OUTRAS CONSIDERAÇÕES Nos pacientes com PAC e choque séptico persistente (após ressuscitação volêmica agressiva), podemos utilizar a proteína C ativada (drotrecogina alfa ativada) dentro das primeiras 24h de internação (reduz a mortalidade por reduzir a inflamação na sepse). Pacientes com hipoxemia ou disfunção respiratória devem ser colocados em Ventilação Não Invasiva (VNI), a menos que eles necessitem de intubação imediata por hipoxemia grave (relação PaO2 /FiO2 < 150) ou infiltrados alveolares bilaterais. Nos pacientes intubados com pneumonia bilateral difusa ou SDRA, devemos ventilar com baixo volume- corrente (6 ml/kg do peso ideal). OBS: Cada vez mais se fala na terapia adjuvante com glicocorticoides para pacientes hospitalizados com pneumonia adquirida na comunidade, sobretudo os mais graves. O grande objetivo é reduzir a resposta inflamatória à pneumonia! Até o momento, os resultados dos ensaios clínicos foram heterogêneos – alguns estudos demonstraram melhora no desfecho clínico, mas sem reduzir mortalidade. A última diretriz da SBPT afirma que o uso de corticoides na PAC grave mostrou-se tanto seguro como benéfico em diversos desfechos clínicos importantes. Entretanto, são necessários novos estudos que confirmem o impacto dessa terapia sobre a mortalidade relacionada à PAC. Já a IDSA (2019) recomenda apenas nos pacientes com choque séptico refratário. PREVENÇÃO ➢ Vacina Anti-Influenza (vírus inativado) Todas as pessoas com mais de 60 anos, indivíduos com alto risco* para complicações da influenza, contatos íntimos de pessoas com alto risco e profissionais de saúde. *Doença cardiovascular, renal, hepática ou pulmonar crônica (incluindo asma), doença metabólica crônica (incluindo diabetes), hemoglobinopatias, gestantes, imunocomprometidos por doença ou medicamento (HIV, pós-transplante), indivíduos com menos de 18 anos em tratamento crônico com aspirina. ➢ Vacina Antipneumocócica Indicada em pacientes com 60 anos ou mais, necessitando de dose de reforço cinco anos após, e em situações especiais de alto risco*. Pessoas que receberam a primeira dose após os 65 anos e/ou que não têm asplenia/imunodepressão não necessitam reforço. *Doença cardiovascular, renal, hepática e pulmonar crônica, diabetes mellitus, fístula liquórica, alcoolismo, asplenia, imunocomprometidos por doença ou medicamento. COMPLICAÇÕES (BRONQUIECTASIA, PNEUMATOCELE, DERRAME PLEURAL, ABCESSO, EMPIEMA, SDRA, SEPSE) ➢ Abscesso Pulmonar O abcesso pulmonar apresenta-se como uma cavidade com mais de 2 cm, de paredes espessas, contendo material purulento proveniente da destruição aguda do parênquima pulmonar, por inflamação, necrose e cavitação. A maioria dos abscessos pulmonares (80%) são considerados primários, o que significa que são decorrentes da aspiração do patógeno, sem a presença de qualquer pneumopatia estrutural ou imunodepressão. Incluímos neste grupo os abscessos associados à broncoaspiração, que possuem diversos fatores de risco, tais como alteração do estado mental, alcoolismo, overdose de drogas, convulsões, disfunção bulbar, doença neuromuscular, evento cerebrovascular ou cardiovascular prévio. Outros fatores implicados incluem dismotilidade ou estenose esofágica, distensão gástrica e DRGE. Na prática, a maioria dos portadores de abscesso pulmonar apresenta infecção por anaeróbios ou uma infecção mista por anaeróbios e estreptococos microaerólos da cavidade oral. Cerca de 20% dos abscessos são considerados secundários, isto é, associados a condições predisponentes, que podem ser locais (tumor ou corpo estranho endobrônquico, por exemplo) ou sistêmicas (HIV, imunodepressão etc.). Nesses casos, a mortalidade é mais alta. Outra causa que deve ser lembrada é a embolia séptica (associada à endocardite tricúspede, por exemplo). Observe a extensa lista de causadores de abscesso pulmonar a seguir: Geralmente os pacientes com abscesso pulmonar apresentam um quadro de evolução indolente, com febre baixa, sudorese noturna, fadiga e tosse produtiva (o escarro geralmente é purulento e fétido). Quando o agente é o S. aureus, geralmente a evolução costuma ser mais aguda. Nos quadros crônicos (> 4-6 semanas), que correspondem a cerca de 40%, podem ocorrer anemia e perda ponderal. O abscesso pulmonar pode suceder um quadro de pneumonia típica, assim como se associar a um empiema pleural (seja por extensão do abscesso, seja pela formação de uma fístula). O diagnóstico é dado por exame de imagem (RX simples ou TC). A TC geralmente permite um diagnóstico mais precoce, assim como visualiza melhor possíveis causas para abscesso secundário (ex.: tumor). Além disso, diferencia melhor os abscessos periféricos dos empiemas pleurais. O diagnóstico bacteriológico é difícil, já que os principais agentes etiológicos geralmente não crescem na cultura do escarro. Exames mais invasivos, como broncoscopia com lavado broncoalveolar e punção percutânea guiada, raramente são utilizados. Dessa forma, o resultado desses exames complementares não deve servir para deixarmos de cobrir anaeróbios no esquema antibiótico do paciente. Mesmo o LBA apresenta sensibilidade baixa para anaeróbios. No Brasil, devemos nos lembrar de um importante diagnóstico diferencial que é a tuberculose – estudaremos esta condição com detalhes no módulo de tosse crônica. O tratamento depende da etiologia mais provável. Nos pacientes com fatores de risco para broncoaspiração, grande maioria dos acometidos, o antibiótico de eleição é a clindamicina (dose inicial de 600 mg IV 8/8h, podendo ser diminuída para 300 mg VO 6/6h após defervescência e melhora clínica). Uma opção nesses casos é a associação betalactâmico/inibidor da betalactamase, como a amoxicilina + clavulanato. A duração ideal do tratamento é controversa, com alguns autores preconizando um período de 6 semanas, e outros preferindo manter o antibiótico até a involução quase completa do abscesso ao RX (o que pode levar de 3 a 14 semanas, em média). O metronidazol isoladamente não é adequado, pois cobre os anaeróbios mas não os estreptococos microaerólos da cavidade oral. ➢ Síndroma de dificuldade respiratória aguda (SDRA) Define-se pela existência de hipoxemia refractária à terapêutica com oxigénio suplementar, e ocorre após lesão pulmonar em que haja aumento da permeabilidade vascular e diminuição da complacência pulmonar. É o caso da pneumonia com sépsis, traumatismo torácico ou queimadura. A radiografia do tórax revela habitualmente opacidades bilaterais. Necessita habitualmente de ventilação mecânica. A mortalidade de SDRA que ocorre como complicação de pneumonia é de 5 a 10%, mais baixa que noutras situações. ➢ Sepse A generalização da infecção é menos frequente na população pediátrica que na adulta. Ocorre por resposta inflamatória sistémica à infecção, acompanhada de disfunção de órgãos alvo. O choque séptico surge quando há disfunção cardiovascular com necessidade de correção de volume e suporte inotrópico.A abordagem sistematizada destes doentes críticos deve incluir internamento em Unidade de Cuidados Intensivos. → PNEUMONIA NOSOCOMIAL Pneumonia Nosocomial (PN) é o quadro de pneumonia que se instala 48h ou mais após a internação hospitalar. Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM) é o quadro de pneumonia que se instala 48-72h após a intubação orotraqueal. É importante perceber que estamos falando de duas entidades distintas. Apesar de a PAVM também ser adquirida no hospital, não devemos nos referir a ela utilizando o termo “PN”! O motivo é que o perfil microbiológico, o diagnóstico, a estratégia terapêutica e o prognóstico não são idênticos para essas duas formas de pneumonia, conforme veremos adiante. EPIDEMIOLOGIA A PN e a PAVM figuram entre as mais frequentes e mais graves infecções adquiridas no hospital. Suas taxas de incidência e prevalência são amplamente variáveis conforme a região geográfica e o grau de complexidade do hospital. Seja como for, estima-se que tais eventos prolonguem a duração da internação, em média, em 1 a 2 semanas, além de aumentarem os custos. A mortalidade geral de pacientes que recebem um diagnóstico de PN ou PAVM varia entre 20-50%. PATOGÊNESE Na maioria das vezes, a via de aquisição de patógenos respiratórios no contexto nosocomial é semelhante àquela observada no contexto comunitário: primeiro o micro-organismo coloniza o epitélio da orofaringe, para depois chegar ao trato respiratório inferior (traqueia, brônquios e alvéolos) através da microaspiração de secreções. A ocorrência de uma infecção do parênquima pulmonar (pneumonia) dependerá então das interações entre o tamanho do inóculo, a virulência dos micro-organismos e a competência das defesas do hospedeiro. Estima-se que a microaspiração ocorra normalmente durante o sono em cerca de 45% das pessoas saudáveis, porém, em geral, a pneumonia não acontece graças à integridade das barreiras de defesa (mecânicas, humorais e celulares). Por outro lado, nos pacientes debilitados – em particular aqueles que se encontram agudamente enfermos – a frequência de microaspiração é ainda mais alta e, frente à diminuição das defesas (imunodepressão do paciente crítico), a chance de pneumonia aumenta sobremaneira. Um dado interessante é que, quanto mais grave for o paciente, mais rapidamente ocorrerá a colonização de sua orofaringe por germes do ambiente hospitalar. Já foi demonstrado que o estado crítico se acompanha de alterações na composição da saliva, observando-se um aumento na concentração de enzimas proteolíticas que modificam receptores na superfície das células epiteliais (ex.: fibronectina) de modo a facilitar a adesão de bactérias (especialmente as Gram-negativas). Alguns estudos sugerem que até 75% dos pacientes críticos mudam sua microbiota orofaríngea – ficando colonizados pelos germes do ambiente nosocomial – dentro das primeiras 48h de internação no CTI. A presença de um tubo traqueal não evita a microaspiração. Sabe-se que acima do cuff acumulam-se secreções contaminadas (chamadas de secreções subglóticas), mesmo quando o cuff é corretamente inflado. Com o passar do tempo, no dia a dia dos cuidados intensivos, a própria manipulação do paciente e do circuito acaba abrindo brechas entre o cuff e a parede da traqueia, o que permite que as secreções “escorram” e atinjam o trato respiratório inferior. Recomenda-se que a região subglótica seja aspirada diariamente. Existem tubos traqueais especiais dotados de dispositivos para aspiração contínua ou intermitente de tal área. Esses tubos são caros e pouco disponíveis, mas comprovadamente reduzem o risco de PAVM, devendo ser usados sempre que possível em pacientes cuja expectativa de duração da ventilação mecânica seja superior a 48-72h. O tubo também pode ter seu lúmen colonizado por germes produtores de biofilme, uma camada de proteínas e polissacarídeos secretada sobre material inerte, que serve de suporte e proteção para a proliferação bacteriana. Tal evento promove acesso direto aos pulmões (aspiração de microêmbolos). Como vimos, as bactérias contaminam os circuitos do respirador (tubos e conexões), principalmente por meio das mãos dos profissionais de saúde. Além de tudo o que já foi explicado, existe outro fator que aumenta a chance de pneumonia em pacientes hospitalizados (tanto PN quanto PAVM): o aumento do pH gástrico (que assim fica mais alcalino). O pH normal do estômago (< 2.0) torna a parte proximal do tubo digestivo essencialmente estéril: a única bactéria que consegue sobreviver nestas condições de extrema acidez é o H. pylori, que não causa pneumonia. Em pacientes hospitalizados, com frequência, múltiplos fatores concorrem para elevar o pH gástrico, por exemplo: (1) uso de antiácidos e antissecretores (ex.: BH2 e IBP) na profilaxia das úlceras de estresse; (2) dieta enteral com tempo de infusão longo; (3) existência de hipo/acloridria prévia, comum em pacientes idosos; (4) a própria doença grave de base, que pode reduzir a secreção ácida. OBS: As mãos dos profissionais de saúde representam uma das principais fontes de contaminação. É a chamada contaminação cruzada horizontal, isto é, as mãos funcionam como “vetores” para os micro- organismos nosocomiais, carreando-os de um paciente a outro! Uma das principais medidas para evitar as infecções hospitalares em geral é a higienização das mãos (uso de álcool gel) antes e após qualquer contato com o paciente e equipamentos correlatos, mesmo quando se adotam medidas de isolamento físico (ex.: uso de luvas e capote). Na pessoa saudável (ex.: profissional de saúde, visitas do paciente), a colonização das mãos pelos germes hospitalares é superficial e transitória, sem qualquer repercussão para a saúde do indivíduo. No doente grave, porém, essa colonização tende a ser persistente, acarretando aumento no risco de infecção. ETIOLOGIA Os principais patógenos implicados na gênese da PN são os Bastonetes Gram-Negativos (os “BGN”) e os Cocos Gram-Positivos (os “CGP”) de padrão nosocomial, isto é, germes selecionados pela pressão do uso corriqueiro de antimicrobianos no ambiente hospitalar, e que por isso apresentam um perfil de elevada resistência (MDR = Multidroga-Resistência). Inclusive, é bom lembrar que – graças à debilidade que tipicamente acompanha os pacientes mais graves – infecções POLIMICROBIANAS tendem a ser frequentes nesses doentes (ex.: BGN + CGP). Fungos e Vírus são causas menos comuns de PN e PAVM, exceto nos pacientes profundamente imunodeprimidos (ex.: Aids, receptores de transplante, quimioterapia). Dentre os BGN, os que mais se destacam são os bacilos aeróbios fermentadores de glicose (Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Enterobacter spp.) e não fermentadores de glicose (Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter baumannii, Burkholderia cepacea, Stenotrophomonas maltophilia). Dentre os CGP, o principal representante é o Staphylococcus aureus, que pode ser Sensível à Meticilina (MSSA) ou Resistente à Meticilina (MRSA). Este último está se tornando mais comum do que o primeiro. A distribuição das causas de PN e PAVM varia muito de uma região geográfica para outra, bem como de um hospital para outro ou mesmo dentro do próprio hospital, entre setores diferentes (ex.: enfermaria versus CTI) e ao longo do tempo. Logo, não há como definir um único ranking de etiologias que sirva para todos os serviços médicos. Assim, o conceito mais importante é: os principais patógenos causadores de PN e PAVM são os BGN e os CGP!!! FATORES DE RISCO PARA GERMES MULTIDROGA RESISTENTES (MDR) Como já dito, ao avaliarmos um paciente com suspeita de PN ou PAVM, é muito importante pesquisar fatores de risco específicos que aumentam a chance de infecção por germes MDR. Fatores que aumentam o risco de morte também devem ser levados em conta, pois, diante deles, é prudente instituir cobertura antimicrobiana empírica contra germesMDR, uma vez que no doente mais grave “não podemos errar” (a demora em iniciar tratamento antimicrobiano eficaz se associa à maior mortalidade em qualquer forma de pneumonia). Observe nas Tabelas 1 e 2 os principais fatores de risco para MDR identificados pela literatura, que servem para nos orientar na hora de escolher o esquema antimicrobiano empírico inicial. A exata definição do que vem a ser um germe “MDR” é relativamente controversa na literatura. Observe na Tabela 3 uma discussão sobre esta e outras definições correlatas. É importante salientar que esses termos costumam ser utilizados em referência apenas aos germes Gram-negativos. DIAGNÓSTICO O diagnóstico de PN nem sempre é fácil, pois os achados clinicorradiográficos são relativamente inespecíficos e existe uma gama de diagnósticos diferenciais possíveis na população de pacientes hospitalizados (ex.: TEP/infarto pulmonar, SDRA, pneumonite aspirativa, hemorragia alveolar, reação de hipersensibilidade a fármacos, câncer, BOOP, entre outros). Seja como for, recomenda-se que o diagnóstico seja fundamentado em bases clínicas. Em poucas palavras, 2 elementos essenciais devem compor o diagnóstico dessas entidades: (1) presença de infiltrado radiográfico novo ou progressão de infiltrado antigo; (2) evidências de que esse infiltrado possui origem infecciosa. Um diagnóstico clínico de PN pode ser estabelecido se o paciente apresentar infiltrado radiográfico novo ou progressão de infiltrado antigo e dois ou mais dos seguintes achados: febre ≥ 38°C, escarro purulento e leucocitose ou leucopenia. Um estudo que utilizou a autópsia como padrão-ouro encontrou sensibilidade de 70% e especificidade de 75% para o diagnóstico de PN com esses critérios. O guideline americano (2016) corrobora a utilização de critérios clinicorradiográficos para o diagnóstico inicial de PN. De acordo com este documento, escores tradicionais (ex.: CPIS – Clinical Pulmonary Infection Score) NÃO devem mais ser empregados no diagnóstico de PN, devido à sua acurácia limitada. Sempre que possível, pacientes que recebem um diagnóstico clínico de PN devem coletar culturas antes de iniciar o tratamento antimicrobiano, a fim de confirmar o diagnóstico etiológico e determinar o perfil de sensibilidade do(s) patógeno(s) envolvido(s). No caso da PN, recomenda-se coletar escarro e 2 amostras de hemocultura. O escarro deve ser preferencialmente obtido de forma não invasiva, isto é, através de expectoração espontânea, ou então, caso o paciente não expectore espontaneamente, por meio do escarro induzido (nebulização com salina hipertônica para aumentar o volume das secreções respiratórias de modo que o paciente consiga expectorar). A “qualidade” da amostra de escarro deve ser cuidadosamente avaliada antes que o mesmo seja enviado para cultura. Um escarro “confiável” deve conter < 10 células epiteliais escamosas por campo de pequeno aumento (10x) no exame microscópico. Tal critério indica que o material provém das vias aéreas inferiores, e não apresenta contaminação com secreções da cavidade oral. Nem sempre os germes encontrados na cavidade oral serão os mesmos que infectam o pulmão. Se o material passar no teste, semearemos uma alíquota em meio de cultura, e outra alíquota será submetida à bacterioscopia direta pelo método de Gram. O achado de um tipo morfológico predominante (ex.: CGP) não só corrobora o diagnóstico de PN como também pode orientar mudanças no esquema antimicrobiano empírico (ex.: acréscimo de cobertura contra MRSA, se a mesma não havia sido contemplada após avaliação clínica inicial). A cultura deve ser semiquantitativa, com o resultado padronizado numa escala de 1+ a 4+ (alguns laboratórios reportam o crescimento bacteriano como raro, discreto, moderado ou abundante). Considera-se como “positiva” a cultura com crescimento no mínimo moderado de bactérias, isto é, ≥ 3+. A cultura quantitativa é mais trabalhosa e cara, e não traz qualquer vantagem prática significativa. A coleta invasiva de secreções respiratórias (ex.: broncofibroscopia + lavado broncoalveolar) NÃO É indicada de rotina no diagnóstico de PN. Apesar de teoricamente ser mais acurada do que a coleta não invasiva, sabemos que ela acarreta riscos (ex.: piora da troca gasosa por efeito direto do lavado nos alvéolos e da hipoventilação secundária à sedação residual), além de aumentar os custos. Não obstante, em algumas situações, pode-se optar por realizá-la, como no paciente que não possui escarro ou quando se suspeita da coexistência de câncer de pulmão. A coleta invasiva também deve ser fortemente considerada quando se suspeita de infecção por patógenos oportunistas, como M. tuberculosis, P. jiroveci, fungos e vírus (ex.: paciente imunodeprimido). Após suspeita clínica (sinais e sintomas condizentes + exame de imagem “positivo”) e coleta de culturas (hemoculturas + escarro), inicia-se o tratamento antimicrobiano empírico da PN. TRATAMENTO Como vimos, o tratamento antimicrobiano da PN e da PAVM deve ser inicialmente empírico, isto é, após o diagnóstico clinicorradiológico e coleta de culturas, começa-se a tratar o paciente antes do conhecimento dos resultados da cultura e do antibiograma, com um esquema que contemple os germes mais provavelmente envolvidos e seu provável perfil de sensibilidade. A demora em iniciar tratamento adequado acarreta aumento da mortalidade. De posse dos resultados do antibiograma, o esquema pode ser mantido, ampliado ou de-escalonado, ou seja, pode-se mudar o tratamento de modo a selecionar a droga com menor espectro de ação (e de preferência menor toxicidade e custo) que “cubra”, adequadamente, o(s) patógeno(s) identificado(s). A manutenção desnecessária de esquemas antimicrobianos com espectro de ação excessivamente amplo aumenta a chance de paraefeitos (toxicidade, alergia, interações medicamentosas), superinfecção por Clostridium difficile, seleção de germes MDR e, claro, os custos da internação. Desse modo, um dos conceitos mais importantes acerca do tratamento é: cada unidade de internação, idealmente, deve ter suas próprias estatísticas relativas aos principais patógenos causadores de PN/PAVM e seu perfil de resistência aos antimicrobianos. Essas estatísticas devem ser elaboradas e divulgadas pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), sendo revisadas e atualizadas a intervalos regulares. Por causa disso, as recomendações para tratamento antimicrobiano empírico de PN/PAVM podem variar de um centro a outro, e podem ser diferentes das recomendações genéricas que faremos adiante. 1. Tratamento Empírico da PN A escolha do esquema antimicrobiano empírico para tratamento da PN depende da presença ou ausência dos fatores de risco descritos na Tabela 1. Estude atentamente a Tabela 4. 2. Tratamento Guiado por Cultura Em geral, as culturas ficam prontas em 48-72h. Neste momento, devemos reavaliar o tratamento, ajustando-o conforme os resultados do antibiograma e de-escalonando o espectro antimicrobiano sempre que possível. Uma importante regra é: se o MRSA não for encontrado, podemos suspender a cobertura empírica contra este germe! Quando verdadeiramente presente, o S. aureus (MRSA ou MSSA) costuma ser isolado em cultura, pois apresenta rápido crescimento. Observe na Tabela 6 algumas orientações gerais para ajuste da antibioticoterapia após identificação do agente causal. 3. Duração do Tratamento A duração do tratamento é de 7 dias, independentemente do agente causal. A critério clínico, no entanto, a duração do tratamento poderá ser prolongada, por exemplo: pacientes que respondem de forma lenta; ocorrência de complicações supurativas (ex.: abscesso, empiema); outras infecções associadas que necessitem de mais tempo de ATB. Muita atenção com este conceito, pois os guidelines antigos recomendavam duração mínima de 14-21 dias para o tratamentode PN/PAVM! Evidências recentes demonstraram não haver diferenças reais nas taxas de cura, sobrevida e recidiva da infecção com um tratamento mais curto. 5. Caracterizar o eletrocardiograma normal e taquicardia sinusal. → ELETROCARDIOGRAMA Referência: GUYTON Quando o impulso cardíaco passa através do coração, uma corrente elétrica também se propaga do coração para os tecidos adjacentes que o circundam. E pequena parte da corrente se propaga até a superfície do corpo. Se eletrodos forem colocados sobre a pele, em lados opostos do coração, será possível registrar os potenciais elétricos gerados por essa corrente: esse registro é conhecido como eletrocardiograma. A Figura 11-1 mostra o registro de dois batimentos cardíacos de um eletrocardiograma normal. CARACTERÍSTICAS DO ELETROCARDIOGRAMA NORMAL O eletrocardiograma normal (Fig. 11-1) é composto pela onda P, pelo complexo QRS e pela onda T. O complexo QRS apresenta com frequência mas não sempre três ondas distintas: a onda Q, a onda R e a onda S. A onda P é produzida pelos potenciais elétricos gerados quando os átrios se despolarizam, antes de a contração atrial começar. O complexo QRS é produzido pelos potenciais gerados quando os ventrículos se despolarizam antes de sua contração, isto é, enquanto a onda de despolarização se propaga pelos ventrículos. Portanto, tanto a onda P como os componentes do complexo QRS são ondas de despolarização. A onda T é produzida pelos potenciais gerados, enquanto os ventrículos se restabelecem do estado de despolarização. Esse processo no músculo ventricular normalmente ocorre 0,25 a 0,35 segundo após a sua despolarização, e a onda T é conhecida como onda de repolarização. Assim, o eletrocardiograma é formado por ondas de despolarização e por ondas de repolarização. Os princípios da despolarização e da repolarização foram discutidos no Capítulo 5. A distinção entre as ondas de despolarização e as ondas de repolarização é tão importante na eletrocardiografia que esclarecimento adicional se faz necessário. ONDAS DE DESPOLARIZAÇÃO VERSUS ONDAS DE REPOLARIZAÇÃO A Figura 11-2 mostra uma fibra muscular única do coração em quatro fases diferentes do processo de despolarização e de repolarização. Nessa figura, a cor vermelha indica a despolarização. Durante a despolarização, o potencial negativo normal presente no interior da fibra se inverte, ficando levemente positivo no interior, e negativo no exterior. Na Figura 11-2A, a despolarização representada pelas cargas positivas vermelhas, no interior, e pelas cargas negativas vermelhas, no exterior da fibra, está se deslocando da esquerda para a direita. A primeira metade da fibra já se despolarizou, enquanto a metade restante ainda está polarizada. Entretanto, o eletrodo esquerdo, situado no exterior da fibra, está em área negativa, e o eletrodo direito está em área positiva; isso faz com que o aparelho registre valor positivo. À direita da fibra muscular, é mostrado o registro das variações que ocorrem no potencial entre os dois eletrodos como mostra o aparelho registrador de alta velocidade. Na Figura 11-2A, observe que, quando a despolarização alcança a metade do comprimento da fibra, o registro sobe até o valor positivo máximo. Na Figura 11-2B, a despolarização já se estendeu por toda a fibra muscular, e o registro à direita retornou à linha de base zero porque ambos os eletrodos estão agora em áreas igualmente negativas. A onda completa é uma onda de despolarização, pois resulta da propagação da despolarização ao longo da membrana da fibra muscular. A Figura 11-2C mostra metade do trecho da mesma fibra muscular já repolarizada. A positividade está retornando para o lado externo da fibra. Nesse momento, o eletrodo esquerdo está em área positiva, e o eletrodo direito em área negativa. A polaridade agora é oposta à mostrada na Figura 11-2A. Como consequência, o registro mostrado à direita fica negativo. Na Figura 11-2D, a fibra muscular se repolarizou completamente, e ambos os eletrodos estão agora em áreas positivas, de modo que não existe diferença de potencial entre eles para ser registrada. Assim, no registro à direita o potencial retorna novamente ao zero. Essa onda negativa completa é uma onda de repolarização porque resulta da propagação da repolarização, ao longo da membrana da fibra muscular. RELAÇÃO ENTRE O POTENCIAL DE AÇÃO MONOFÁSICO DO MÚSCULO VENTRICULAR E AS ONDAS QRS E T DO ELETROCARDIOGRAMA PADRÃO O potencial de ação monofásico do músculo ventricular dura normalmente de 0,25 a 0,35 segundo. A parte superior da Figura 11-3 mostra um potencial de ação monofásico registrado por um microeletrodo inserido no interior de uma fibra muscular única ventricular. A deflexão inicial, ascendente e íngreme desse potencial de ação é produzida pela despolarização, e o retorno do potencial à linha de base é causado pela repolarização. Na parte inferior da figura, observa-se o registro eletrocardiográfico simultâneo desse mesmo ventrículo, que mostra as ondas QRS surgindo no início do potencial de ação monofásico e a onda T aparecendo no final. Observe, sobretudo, que nenhum potencial é registrado no eletrocardiograma quando o músculo ventricular está completamente polarizado ou completamente despolarizado. Somente quando o músculo está em parte polarizado e em parte despolarizado é que a corrente flui de uma parte dos ventrículos para outra e, consequentemente, flui também até a superfície do corpo, permitindo o registro eletrocardiográfico. RELAÇÃO ENTRE A CONTRAÇÃO ATRIAL E A VENTRICULAR E AS ONDAS DO ELETROCARDIOGRAMA Antes que a contração do músculo possa ocorrer, é preciso que a despolarização se propague pelo músculo para iniciar os processos químicos da contração. Voltando à Figura 11-1: a onda P ocorre no início da contração dos átrios, e o complexo QRS de ondas ocorre no início da contração dos ventrículos. Os ventrículos permanecem contraídos até que a repolarização tenha ocorrido, ou seja, até o final da onda T. Os átrios se repolarizam cerca de 0,15 a 0,20 segundo, após o término da onda P. Quase nesse mesmo instante, o complexo QRS está sendo registrado no eletrocardiograma. Como consequência, a onda de repolarização atrial conhecida como onda T atrial, é em geral encoberta pelo complexo QRS que é muito maior. Por essa razão, raramente se observa uma onda T atrial no eletrocardiograma. A onda de repolarização ventricular é a onda T do eletrocardiograma normal. Normalmente, a repolarização do músculo ventricular começa em algumas fibras, cerca de 0,20 segundo após o início da onda de despolarização (o complexo QRS), mas em muitas outras fibras demora até 0,35 segundo. Assim, o processo de repolarização ventricular se estende por período longo, cerca de 0,15 segundo. Por isso, a onda T do eletrocardiograma normal é uma onda de longa duração, mas sua voltagem é consideravelmente menor que a voltagem do complexo QRS, em parte por causa de sua duração prolongada. CALIBRAÇÃO DA VOLTAGEM E DO TEMPO DO ELETROCARDIOGRAMA Todos os registros ECG são feitos com linhas de calibração apropriadas no papel de registro. Essas linhas de calibração já podem estar traçadas no papel, como ocorre quando se utilizam aparelhos com pena inscritora, ou são registradas no papel ao mesmo tempo em que o ECG é registrado, como ocorre nos eletrocardiógrafos de tipo fotográfico. Como mostrado na Figura 11-1, as linhas de calibração horizontais do ECG padrão estão dispostas de tal modo que cada 10 linhas horizontais correspondem a 1 milivolt, as linhas horizontais acima da linha de base indicam valores positivos, e as que estão abaixo da linha de base indicam valores negativos. As linhas verticais do ECG são as linhas de calibração do tempo. Um ECG típico tem velocidade de impressão de 25 milímetros por segundo, embora às vezes sejam usadas velocidades maiores. Portanto, cada 25milímetros na direção horizontal correspondem a 1 segundo, e cada segmento de 5 milímetros indicado por linhas verticais escuras representa 0,20 segundo. Os intervalos de 0,20 segundo estão, por sua vez, divididos em cinco intervalos menores por linhas finas, e cada um desses intervalos menores corresponde a 0,04 segundo. Voltagens Normais do Eletrocardiograma As voltagens das ondas registradas no ECG normal dependem da maneira pela qual os eletródios são postos em contato com a superfície do corpo e de quão próximos eles estão do coração. Quando um eletródio é colocado diretamente sobre os ventrículos e um segundo eletródio é disposto em outro lugar do corpo, distante do coração, a voltagem do complexo QRS pode atingir 3 a 4 milivolts. Inclusive essa voltagem é pequena quando comparada com o potencial de ação monofásico de 110 milivolts registrado diretamente na membrana da fibra muscular cardíaca. Assim que ECGs são registrados por eletródios colocados nos dois braços ou em um braço e uma perna, a voltagem do complexo QRS é geralmente de 1,0 a 1,5 milivolt desde o pico da onda R até o ponto mais baixo da onda S. Já a voltagem da onda P permanece entre 0,1 e 0,3 milivolt, e a da onda T fica entre 0,2 e 0,3 milivolt. Intervalo P-Q ou P-R O tempo decorrido entre o início da onda P e o início do complexo QRS corresponde ao intervalo entre o começo da estimulação elétrica dos átrios e o começo da estimulação dos ventrículos. Esse período é denominado intervalo P-Q. O intervalo P-Q normal é de cerca de 0,16 segundo. Com frequência, esse intervalo é chamado intervalo P-R, porque é comum a onda Q estar ausente. Intervalo Q-T A contração do ventrículo dura aproximadamente do início da onda Q (ou da onda R, quando a onda Q está ausente) até o final da onda T. Esse período é denominado intervalo Q-T e tem normalmente cerca de 0,35 segundo. Determinação da Frequência dos Batimentos Cardíacos por meio do Eletrocardiograma A frequência dos batimentos cardíacos pode ser determinada com facilidade no ECG, visto que a frequência cardíaca corresponde ao inverso do intervalo de tempo entre dois batimentos cardíacos sucessivos. Se, de acordo com as linhas de calibração do tempo, o intervalo entre dois batimentos for de 1 segundo, a frequência cardíaca será de 60 batimentos por minuto. O intervalo de tempo normal entre dois complexos QRS sucessivos de adulto é de cerca de 0,83 segundo, o que corresponde a uma frequência cardíaca de 60/0,83 vezes por minuto, ou 72 batimentos/min. O FLUXO DA CORRENTE AO REDOR DO CORAÇÃO DURANTE O CICLO CARDÍACO Registro de Potenciais Elétricos de uma Massa de Músculo Cardíaco Sincicial Parcialmente Despolarizada A Figura 11-4 mostra uma massa sincicial de músculo cardíaco que recebeu um estímulo na região central. Antes da estimulação, a parte externa das células musculares estava positiva, e a parte interna, negativa. Pelas razões apresentadas no Capítulo 5, durante a discussão sobre os potenciais de membrana, assim que uma área do sincício cardíaco fica despolarizada, cargas negativas escapam para o lado externo das fibras musculares despolarizadas, tornando essa parte da superfície eletronegativa, conforme representado pelos sinais negativos da Figura 11-4. O restante da superfície do coração ainda polarizado é representado pelos sinais positivos. Por isso, quando o terminal negativo de um medidor é conectado à área de despolarização e o terminal positivo é conectado a uma das áreas ainda polarizadas, como mostrado à direita na figura, o registro é positivo. A Figura 11-4 também evidencia as leituras de dois outros medidores com terminais em posições diferentes da anterior. Essas localizações de eletródios e leituras correspondentes devem ser estudados cuidadosamente, e o leitor precisa ser capaz de explicar as causas das leituras de cada medidor. Pelo fato de a despolarização se propagar em todas as direções pelo coração, as diferenças de potencial mostradas na figura só persistem por poucos milésimos de segundo, e as medições da voltagem real só podem ser realizadas com aparelho para registros de alta velocidade. O Fluxo das Correntes Elétricas no Tórax ao Redor do Coração A Figura 11-5 mostra o músculo ventricular dentro do tórax. Mesmo os pulmões, que estão, em sua maior parte, cheios de ar, conduzem eletricidade em grau surpreendente, e os líquidos presentes nos outros tecidos que circundam o coração conduzem eletricidade ainda com maior facilidade. Portanto, o coração está de fato suspenso em meio condutor. Quando parte dos ventrículos se despolariza e, como consequência, fica eletronegativa em relação ao restante, a corrente elétrica flui da área despolarizada para a área polarizada por meio de grandes curvas, como pode ser observado na figura. Vale lembrar aqui o que foi discutido sobre o sistema de Purkinje no Capítulo 10. O impulso cardíaco chega primeiro ao septo ventricular e, logo em seguida, propaga-se para as superfícies internas da parte restante dos ventrículos, como mostram as áreas vermelhas e os sinais negativos da Figura 11-5. Esse processo faz com que a parte interna dos ventrículos fique eletronegativa; e as paredes externas dos ventrículos, eletropositivas, com a corrente elétrica fluindo pelos líquidos que banham os ventrículos, seguindo percursos elípticos como mostrados pelas setas curvas da figura. Se for calculada algebricamente a média de todas as linhas do fluxo da corrente (as linhas elípticas), será constatado que o fluxo médio da corrente é negativo em direção à base do coração e positivo em direção ao ápice. Durante a maior parte do restante do processo de despolarização, a corrente também continua a fluir nessa mesma direção, enquanto a despolarização se propaga da superfície do endocárdio para o exterior do órgão pela massa do músculo ventricular. Em seguida, pouco antes de a despolarização completar seu curso pelos ventrículos, a direção média do fluxo da corrente se inverte durante cerca de 0,01 segundo, fluindo do ápice ventricular em direção à base, pois as paredes externas dos ventrículos, situadas junto à base do coração, são a última parte desse órgão a ser despolarizada. Assim, nos ventrículos normais, a corrente flui das áreas negativas para as áreas positivas, principalmente da base do coração para o ápice, durante quase todo o ciclo de despolarização, exceto bem próximo do final do processo. E, se um aparelho medidor for conectado a eletródios posicionados na superfície do corpo, como mostrado na Figura 11-5, o eletródio que estiver mais próximo da base ficará negativo, ao passo que o eletródio que estiver mais próximo do ápice ficará positivo, e o aparelho medidor mostrará registro positivo no ECG. DERIVAÇÕES ELETROCARDIOGRÁFICAS As Três Derivações Bipolares dos Membros A Figura 11-6 mostra as conexões elétricas entre os membros do paciente e o ECG, para obtenção dos registros eletrocardiográficos das chamadas derivações bipolares padrão (ou standard) dos membros. O termo “bipolar” quer dizer que o eletrocardiograma é registrado por dois eletródios posicionados em lados diferentes do coração — nesse caso, nos membros. Assim, uma “derivação” não é um só fio conectado ao corpo, mas a combinação de dois fios e seus eletródios para formar um circuito completo entre o corpo e o eletrocardiógrafo. Em cada exemplo, o eletrocardiógrafo está representado por aparelho elétrico de medida, embora o verdadeiro eletrocardiógrafo seja um sistema informático de alta velocidade, associado a mostradores eletrônicos. Derivação I. No registro da derivação I dos membros, o terminal negativo do eletrocardiógrafo é conectado ao braço direito, e o terminal positivo, ao braço esquerdo. Portanto, quando a área pela qual o braço direito se une ao tórax está eletronegativa, em relação à área pela qual o braço esquerdo se une ao tórax, o eletrocardiógraforegistra valor positivo, isto é, valor situado acima da linha de voltagem zero do ECG. Quando ocorre o oposto, o eletrocardiógrafo registra valor situado abaixo da linha. Derivação II. Para registrar a derivação II dos membros, o terminal negativo do eletrocardiógrafo é conectado ao braço direito, e o terminal positivo, à perna esquerda. Portanto, quando o braço direito está negativo em relação à perna esquerda, o eletrocardiógrafo exibe registro positivo. Derivação III. Para registrar a derivação III dos membros, o terminal negativo do eletrocardiógrafo é conectado ao braço esquerdo, e o terminal positivo, à perna esquerda. Essa configuração significa que o eletrocardiógrafo apresentará registro positivo quando o braço esquerdo estiver negativo em relação à perna esquerda. Triângulo de Einthoven. Na Figura 11-6, um triângulo, denominado triângulo de Einthoven, está traçado ao redor da área do coração. Essa figura geométrica mostra que os dois braços e a perna esquerda formam os ápices de um triângulo que circunda o coração. Os dois ápices da parte superior do triângulo representam os pontos pelos quais os dois braços se conectam eletricamente aos líquidos situados ao redor do coração, e o ápice inferior é o ponto pelo qual a perna esquerda se conecta a esses líquidos. Lei de Einthoven. A lei de Einthoven afirma que se os ECGs forem registrados simultaneamente nas três derivações dos membros, a soma dos potenciais registrados nas derivações I e III é igual ao potencial da derivação II: Potencial da derivação I + Potencial da derivação III = Potencial da derivação II Por outras palavras, se os potenciais elétricos de duas das três derivações eletrocardiográficas bipolares dos membros forem conhecidos em um dado momento, o potencial elétrico da terceira derivação poderá ser determinado pela simples soma dos dois primeiros. Note, entretanto, que os sinais positivo e negativo das diferentes derivações precisam ser levados em consideração quando a soma for realizada. Por exemplo, suponha-se que, momentaneamente, como mostrado na Figura 11-6, o braço direito apresente −0,2 milivolt (negativo) em relação ao potencial médio do corpo, o braço esquerdo apresente +0,3 milivolt (positivo) e a perna esquerda apresente +1,0 milivolt (positivo). Ao observarmos os medidores da figura, veremos que a derivação I registra potencial positivo de +0,5 milivolt, porque essa é a diferença entre −0,2 milivolt do braço direito e +0,3 milivolt do braço esquerdo. De modo semelhante, a derivação III registra potencial positivo de +0,7 milivolt, e a derivação II registra potencial positivo de +1,2 milivolt, porque essas são as diferenças instantâneas de potencial entre os respectivos pares de membros. Agora, note que a soma das voltagens das derivações I e III é igual à voltagem da derivação II, ou seja, 0,5 mais 0,7 são iguais a 1,2. Matematicamente, esse princípio, denominado lei de Einthoven, é válido em dado momento enquanto os três ECG bipolares “padrão” estão sendo registrados. Eletrocardiogramas Normais, Registrados pelas Três Derivações Bipolares Padrão dos Membros. A Figura 11-7 mostra os registros dos ECG nas derivações I, II e III. É óbvio que os ECG, obtidos por essas três derivações, são semelhantes entre si, porque todos eles registram ondas P e T positivas, e a parte principal do complexo QRS também é positiva. Quando se analisam os três ECG, é possível mostrar, por meio de medidas cuidadosas e da observação adequada das polaridades, que, em dado momento, a soma dos potenciais nas derivações I e III é igual ao potencial na derivação II, demonstrando assim a validade da lei de Einthoven. Pelo fato de os registros obtidos pelas derivações bipolares dos membros serem semelhantes entre si, não importa muito qual derivação está sendo registrada quando se quer diagnosticar diferentes arritmias cardíacas, pois o diagnóstico das arritmias depende principalmente das relações temporais entre as diferentes ondas do ciclo cardíaco. Entretanto, quando se busca diagnosticar lesão no músculo atrial ou ventricular ou no sistema de condução de Purkinje, é muito importante saber quais derivações estão sendo registradas, pois as anorma- lidades da contração do músculo cardíaco ou da condução do impulso cardíaco alteram muito os padrões de algumas derivações, porém podem não afetar outras. A interpretação ECG desses dois tipos de distúrbios — miopatias cardíacas e arritmias cardíacas — é discutida separadamente nos Capítulos 12 e 13. AS DERIVAÇÕES TORÁCICAS (DERIVAÇÕES PRECORDIAIS) Com frequência, os ECGs são registrados pela colocação de eletródio na superfície anterior do tórax, diretamente sobre o coração, em um dos pontos mostrados na Figura 11-8. Esse eletródio é conectado ao terminal positivo do eletrocardiógrafo, e o eletródio negativo, denominado eletródio indiferente, é conectado, simultaneamente, ao braço direito, ao braço esquerdo e à perna esquerda, por meio de resistências elétricas iguais, como mostrado na mesma figura. Em geral, faz-se o registro de seis derivações torácicas padrão, uma por vez, na parede anterior do tórax, colocando-se o eletródio torácico de forma sequencial nos seis pontos mostrados no diagrama. Os diferentes registros são conhecidos como derivações V1, V2, V3, V4, V5 e V6. A Figura 11-9 mostra ECG de coração saudável, registrados por essas seis derivações torácicas padrão. Pelo fato de as superfícies do coração estarem próximas da parede do tórax, cada derivação torácica registra principalmente o potencial elétrico da musculatura cardíaca situada imediatamente abaixo do eletródio. Por essa razão, anormalidades relativamente pequenas dos ventrículos, em especial na parede ventricular anterior, podem provocar alterações acentuadas nos ECG registrados pelas derivações torácicas individuais. Nas derivações V1 e V2, os registros do complexo QRS do coração normal são na maioria das vezes negativos, porque, como mostrado na Figura 11-8, o eletródio torácico dessas derivações está mais próximo da base cardíaca que do ápice, e a base do coração permanece eletronegativa durante a maior parte do processo de despolarização ventricular. De modo oposto, nas derivações V4, V5 e V6, os complexos QRS são em sua maior parte positivos, porque o eletródio torácico dessas derivações está mais próximo do ápice do coração que permanece eletropositivo durante a maior parte da despolarização. AS DERIVAÇÕES UNIPOLARES AUMENTADAS DOS MEMBROS Outro sistema de derivações muito utilizado consiste na derivação unipolar aumentada dos membros. Nesse tipo de registro, dois dos membros são conectados ao terminal negativo do eletrocardiógrafo por meio de resistências elétricas, e o terceiro membro é conectado ao terminal positivo. Quando o terminal positivo está no braço direito, a derivação é denominada aVR; quando está no braço esquerdo, aVL; e quando está na perna esquerda, aVF. A Figura 11-10 mostra registros normais das derivações unipolares aumentadas dos membros. Eles são semelhantes aos registros das derivações padrão dos membros, com exceção do registro da derivação aVR, que é invertido. (Por que ocorre essa inversão? Estude as conexões das polaridades com o eletrocardiógrafo para responder a esta questão.) Fonte: MARGARIDA NOMENCLATURA DAS ONDAS E INTERVALOS DO ELETROCARDIOGRAMA O ECG corresponde ao registro de variações de voltagem em função do tempo. Deste modo, a voltagem ou amplitude das ondas é indicada no eixo vertical e as durações dos processos elétricos, no eixo horizontal. Para a comparação de registros feitos em diversos momentos em um mesmo indivíduo, ou registros obtidos em indivíduos diferentes, há necessidade de se obter o ECG de modo padronizado. No ECG convencional, o paciente deve estar em repouso e deitado em decúbito dorsal. O registro é realizado na velocidade de 25 mm/s e a amplificação (ganho)é de 1 mV/cm. Como consequência, cada milímetro de registro corresponde à duração de 40 ms (ou 0,04 s) e à amplitude de 0,1 mV. Os principais elementos lidos no ECG podem ser vistos na Figura 29.4. Alguns parâmetros obtidos na leitura do ECG são importantes para entendimento do texto: - Intervalo PR: vai do início da onda P ao início do complexo QRS. - Segmento PR: vai do final da onda P ao início do complexo QRS. - Intervalo QT: vai do início do complexo QRS ao término da onda T. - Segmento ST: vai do final do complexo QRS (ponto J) ao começo da onda T. SISTEMA DE REGISTRO DO ELETROCARDIOGRAMA Como discutido no capítulo anterior, a ativação elétrica do coração é feita obedecendo a uma sequência, tanto temporal como espacial, que irá propiciar condições ótimas para o processo de ativação das câmaras cardíacas. O registro do ECG permite reconstruir os passos do processo de ativação das câmaras cardíacas, tanto no domínio do tempo (por medidas precisas de duração das ondas, dos intervalos e dos segmentos) como do espaço (pelo cálculo dos vetores médios de ativação das câmaras cardíacas). Para tanto, há necessidade de registrar a atividade elétrica cardíaca a partir de diversos pontos do corpo para se atingir o segundo objetivo. Usando uma linguagem figurada, pode-se dizer que cada eletrodo “enxerga” o coração de um ângulo diferente. A partir das “imagens” (ondas) assim obtidas, pode-se reconstruir a ativação elétrica do órgão em uma perspectiva tridimensional. Denomina-se derivação eletrocardiográfica ao eixo elétrico que une os eletrodos usados para captar os sinais elétricos originados pelo coração. Inicialmente, Einthoven definiu 3 derivações, que ficaram conhecidas como as derivações bipolares (D1, D2 e D3), pois medem, a cada instante, a diferença de potencial entre dois eletrodos situados em membros diferentes. Os princípios da eletrocardiografia, vistos anteriormente neste capítulo, referem-se ao ECG registrado nessas três derivações. Posteriormente, foram propostas e padronizadas várias derivações unipolares, que medem a diferença de potencial entre um ponto da superfície corporal e outro ponto de potencial nulo. No ECG convencional, além das derivações bipolares, são registradas três derivações unipolares dos membros e seis derivações precordiais. Em registros eletrocardiográficos especiais, como no mapeamento precordial, por exemplo, o número de derivações unipolares registradas pode ser bem maior. Derivações do plano frontal São as derivações que captam as flutuações do campo elétrico no plano frontal, isto é, considerando apenas o eixo lateral (direita/esquerda) e vertical (superior/inferior) do coração. No plano frontal, são registradas as três derivações bipolares definidas por Einthoven e as três derivações unipolares dos membros. Derivações bipolares Para o registro das derivações D1, D2 e D3, os eletrodos são posicionados nos braços direito e esquerdo e na perna esquerda. O aterramento do sistema é feito por outro eletrodo situado na perna direita (Figura 29.14). A disposição dos eletrodos na entrada do amplificador é feita de tal modo que a amplitude de um vetor registrado em D2 seja igual à soma das amplitudes registradas em D1 e D3. Essa igualdade é conhecida como a Lei de Einthoven: É importante ressaltar que essa disposição foi proposta de maneira arbitrária, visando obter ondas positivas e de maior amplitude no complexo QRS registrados em indivíduos saudáveis. A validade desta relação é feita ao se analisar a Figura 29.15. A ativação ventricular pode ser representada pela resultante dos vetores 1, 2, 3 e 4, que formam o complexo QRS, mostrados na Figura 29.8. Na maioria dos indivíduos saudáveis, o vetor resultante da ativação ventricular aponta para a esquerda e ligeiramente para baixo no plano frontal (ver Figura 29.15). Sendo assim, esse vetor se projeta para o braço esquerdo em D1 e para a porção inferior (perna esquerda) das derivações D2 e D3. Observe que, para D2 ser igual à soma de D1 + D3, como preconizado na lei de Einthoven, a disposição dos eletrodos deve obedecer ao seguinte esquema: D1 = VL – VR D2 = VF – VR D3 = VF – VL Em que: VL = potencial do braço esquerdo (L vem de left arm) VR = potencial do braço direito (R vem de right arm) VF = potencial da perna esquerda (F vem de foot). Então, de acordo com a equação 29.1, pode-se escrever: Esta é a origem da convenção de sinais no triângulo de Einthoven, apresentada na Figura 29.14, ou seja, para se registrar D1, a entrada negativa do amplificador deve ser ligada ao eletrodo situado no braço direito e a entrada positiva, ao braço esquerdo. A mesma regra deve ser seguida para se obterem os registros de D2 e D3, que deve seguir o preconizado na equação 29.2. Detalhes adicionais sobre a montagem e padronização de registros eletrocardiográficos devem ser vistos em textos mais específicos. No esquema da Figura 29.15, o vetor médio de ativação ventricular origina um complexo QRS positivo e com a maior amplitude em D2, pois é praticamente paralelo a este plano de derivação. Esse mesmo vetor originaria um complexo QRS positivo em D1, pois se projeta em direção ao eletrodo explorador posicionado no braço esquerdo. Em D3 seria registrada uma onda de amplitude bem pequena, uma vez que o vetor elétrico é praticamente perpendicular ao plano da derivação D3. Vale ressaltar que, quando uma onda eletrocardiográfica é nula ou isoelétrica (a parte positiva é igual à parte negativa), isso indica que o vetor original está a 90° do plano de derivação. Derivações unipolares dos membros Visando estabelecer o potencial elétrico absoluto de cada extremidade do corpo, Wilson, em 1934, desenvolveu um dispositivo, cujo potencial elétrico é nulo, que pode ser considerado um “terra virtual”, denominado central terminal de Wilson. Portanto, registrando-se a diferença de potencial entre qualquer ponto da superfície corporal e a central terminal, consegue-se um registro unipolar, ou seja, o potencial captado pelo eletrodo explorador é igual à variação absoluta do potencial elétrico daquele local. O ponto de potencial nulo é conseguido pela ligação dos três eletrodos conectados aos membros em um nó comum do circuito elétrico, obtendo-se assim um sistema fechado. Pela segunda lei de Kirchoff, a soma de potenciais em circuito elétrico fechado é igual a zero. Então: Tendo em vista que os potenciais registrados no braço direito, no braço esquerdo e na perna esquerda apresentam baixa amplitude, o que dificulta a interpretação das ondas do ECG, Goldberger propôs uma modificação no circuito construído por Wilson. Na configuração proposta por Goldberger, o registro do potencial unipolar de um membro (p. ex., perna esquerda) é feito conectando-se apenas os eletrodos dos outros dois membros ao ponto de potencial nulo, como mostrado na Figura 29.16. Com isso, os potenciais unipolares registrados nos membros têm maior amplitude, sendo mais fácil analisá-los. Essas novas derivações foram incorporadas definitivamente aos registros do ECG basal, sendo denominadas aVR, aVL e aVF (a letra a indica augmented). Os eixos elétricos das derivações unipolares dos membros são definidos por linhas imaginárias que ligam o membro onde se situa o eletrodo explorador e o coração, ou seja, o centro do triângulo de Einthoven (Figura 29.17 A). Círculo de Einthoven | Plano frontal do eletrocardiograma As 6 derivações registradas no plano frontal são comumente representadas em um círculo, chamado de círculo de Einthoven (Figura 29.17 B). Os ângulos do círculo são divididos em positivos (parte inferior) e negativos (parte superior). O círculo é dividido em 4 quadrantes, sendo o primeiro quadrante (I) compreendido entre 0 e +90°, e o segundo quadrante (II), entre +90 e ± 180°. Os quadrantes III e IV localizam-se na parte superior do círculo, entre ± 180e –90° e entre –90 e 0°, respectivamente. Como cada derivação está separada da outra por um ângulo de 30°, torna-se muito útil, na interpretação do ECG, a análise de derivações perpendiculares. Assim, se o QRS é positivo nas derivações D1 e aVF, isso indica que o eixo médio de ativação ventricular situa-se entre 0 e +90°, ou seja, o vetor médio de ativação dos ventrículos está direcionado para a esquerda e para baixo. Se for positivo em D1 e negativo em aVF, deve estar entre 0 e –90° (quadrante IV), portanto direcionado para a esquerda e para cima. Derivações do plano horizontal O ECG convencional é complementado pelo registro de seis outras derivações unipolares, em que a entrada negativa do amplificador é conectada a um ponto de potencial nulo e a positiva ao eletrodo explorador, o qual deve ser colocado em contato com seis pontos específicos da região precordial, conforme mostrado na Figura 29.18. Os registros assim obtidos denominam-se derivações unipolares precordiais, que são numeradas de V1 a V6. Desta maneira, quando uma onda de despolarização se aproxima do eletrodo explorador, este irá registrar uma onda positiva (deflexão para cima na linha de registro). Ao contrário, será registrada uma onda negativa quando a onda de despolarização se afasta da posição em que está localizado o eletrodo explorador. Os locais onde deve ser posicionado o eletrodo explorador são os seguintes: Comparando-se a posição ocupada pelo coração na caixa torácica e o posicionamento dos eletrodos na mesma (ver Figura 29.18), observa-se que as derivações precordiais permitem visualizar a ativação cardíaca no eixo anteroposterior. Sendo assim, as derivações V1 e V2 são mais adequadas para identificar o processo de ativação do ventrículo direito, enquanto V5 e V6 refletem de modo mais seletivo a ativação do ventrículo esquerdo. LEITURA E INTERPRETAÇÃO DO ELETROCARDIOGRAMA A leitura cuidadosa do ECG permite a reconstrução dos processos de despolarização e repolarização das câmaras cardíacas. Para atingir este objetivo, entretanto, há necessidade de se verificarem, sistematicamente, os vários componentes do traçado. Atualmente são disponibilizados cada vez mais eletrocardiógrafos digitais acoplados a computadores com programas customizados para fazer a leitura automatizada de certos parâmetros do ECG (Figura 29.19). A leitura automatizada, entretanto, não prescinde da análise individual feita pelo médico, pois detalhes no padrão de ondas só podem ser detectados por meio da análise manual do registro. Para isso, há necessidade de registros de boa qualidade, sem interferência da rede elétrica (60 Hz) e sem a interferência do eletromiograma. Esta é a principal razão pela qual o ECG convencional é obtido com o paciente deitado, pois nessa condição a musculatura esquelética encontra-se relaxada. Caso o paciente esteja tenso, com a musculatura contraída, ou se fizer movimentos durante o registro, o traçado eletrocardiográfico capta o registro do eletromiograma, dificultando a visualização das ondas elétricas geradas pelo coração. A leitura e a interpretação do ECG dependem de conhecimento da eletrofisiologia cardíaca e de experiência clínica do médico. Não existe uma única maneira de se fazer essa leitura. Entretanto, alguns passos são essenciais na coleta de informações, como será visto a seguir. ➢ Determinação do ritmo Apesar de a duração de cada ciclo cardíaco não ser exatamente a mesma, o intervalo entre as ondas do ECG é, aproximadamente, igual em distintos batimentos. A variação da frequência cardíaca em repouso depende de vários fatores, inclusive da respiração (aumento da frequência na inspiração e diminuição na expiração), como indicado no registro C da Figura 29.20. Quando há regularidade entre os intervalos das ondas, ocorre ritmo cardíaco regular. Se os intervalos entre as ondas variam de modo importante, ou seja, além daqueles valores esperados pela variação respiratória (que geralmente não ultrapassa 10 a 15 batimentos por minuto), tem-se ritmo irregular. Exemplos de ritmo cardíaco regular podem ser vistos nos registros eletrocardiográficos mostrados nas Figuras 29.10 e 29.12. A presença de extrassístoles determina irregularidade no ritmo que pode, muitas vezes, ser detectada apenas com a palpação do pulso arterial. É importante ressaltar que na ativação cardíaca normal as câmaras atriais são ativadas antes dos ventrículos. Portanto, no ECG a onda P deverá preceder o complexo QRS em todos os batimentos. Assim, no ritmo cardíaco fisiológico, também chamado de ritmo sinusal, a sequência onda P, complexo QRS e onda T é mantida em todos os ciclos cardíacos. ➢ Frequência cardíaca No ECG convencional, o registro é realizado na velocidade de 25 mm/s. Desta maneira, em 1 min há registro de 1.500 mm. Portanto, se dividirmos o número 1.500 pelo intervalo entre duas ondas simétricas, teremos a frequência de aparecimento desta onda em particular. Quando ritmo cardíaco é regular, usa-se o intervalo entre os picos de duas ondas R como o intervalo entre os batimentos. Dividindo-se 1.500 pelo espaço em milímetros entre duas ondas R, tem-se a frequência cardíaca instantânea, em batimentos/min. ➢ Duração das ondas e dos intervalos Como discutido anteriormente, em cada região do coração há uma velocidade de propagação específica, em função das características locais do potencial de ação, do acoplamento elétrico no tecido, além de outros fatores. O aumento de duração de uma onda (ou de um intervalo) indica diminuição da velocidade de propagação no segmento específico que o ECG representa. O Quadro 29.2 mostra as durações mínima e máxima das diversas ondas e intervalos no ECG registrado em repouso. Assim, por exemplo, o aumento de duração do segmento PR está associado à dificuldade de propagação do estímulo ao longo do nodo AV. A duração do complexo QRS reflete o tempo de ativação ventricular e, quando esta é feita em condições fisiológicas, a duração do complexo QRS não deve ultrapassar 110 ms. O aumento de duração deste complexo pode decorrer de 2 situações: bloqueio no sistema de condução intraventricular (bloqueios nos ramos direito e/ou esquerdo etc.) ou propagação da ativação ventricular por vias não fisiológicas. Observe, por exemplo, o registro da Figura 29.11, em que os ciclos cardíacos são normais na maior parte do registro, pois obedecem à sequência onda P, complexo QRS e onda T. Nestes ciclos, as durações das ondas e intervalos também são normais e regulares, com a duração do complexo QRS de cerca de 100 ms. Entretanto, em determinado ponto há um complexo QRS fora da sequência, o que corresponde a uma extrassístole ventricular. O aparecimento dessa extrassístole indica que existe um foco anômalo (foco ectópico) no ventrículo, que dispara um estímulo que se propaga para a massa ventricular. O batimento ectópico propaga-se para os ventrículos por vias não fisiológicas que são, em sequência, o feixe de His, os ramos esquerdo e direito e o sistema periférico de Purkinje. Neste caso, a excitação das fibras do miocárdio ventricular se faz por vias retrógradas, nas quais a resistência à propagação do estímulo elétrico é mais elevada. Portanto, o tempo de ativação ventricular aumenta, e este fato é registrado no ECG como um aumento da duração do complexo QRS (alargamento do complexo QRS). No caso da extrassístole observada na Figura 29.11, a duração do QRS é de, aproximadamente, 160 ms. O simples fato de a morfologia do complexo QRS extrassistólico ser totalmente diferente da morfologia dos complexos QRS normais indica que a ativação ventricular ocorreu por caminhos diferentes nas duas situações. 6. Identificar as políticas públicas de prevenção e promoção de saúde relacionadas as doenças respiratórias infecciosas nas diferentes faixas etárias (criança, adulto, idoso).