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Antropologia em Moçambique: análise crítica da etnografia de Henri Junod *Produzido por Hermínio Sérgio Manhiça Este trabalho foi produzido no âmbito da cadeira de Problemáticas Teóricas-Epistemológica de Antropologia,curso de antropologia da Universidade Eduardo Mondlane. O trabalho procura fazer uma análise crítica a um dos capítulos da obra de Junod intitulado “evolução de uma mulher desde o nascimento até a morte”, a partir do diálogo com os textos discutidos na cadeira. No trabalho pretende-se discutir a ideia de que Junod, na sua monografia “Uso e Costumes dos Bantos”, não fez o exercício de reflexividade, e não teve a consciência de si e nem do objecto da sua pesquisa, apenas só fez a recolha de dados das populações Tsongas, e não tendo interpretados. O seu trabalho está carregado de subjectividades etnocêntricas. Junod exclui os seus informantes do seu texto final, e segundo Clifford (2002) os dados assim reformulados não precisam ser entendidas como a comunicação de pessoas específicas. Neste trabalho serão apresentados vários contributos de autores pós-modernos que desdenharam a forma de fazer etnografia clássica, que esta presente na obra em analise. Estes autores procuram discutir os aspectos epistemológicos e metodológicos da disciplina e traçar novas formas de fazer a etnografia na contemporaneidade. O trabalho está estruturado em três partes. Na primeira parte apresenta-se um breve resumo do capítulo em análise; a segunda parte apresenta-se as respectivas críticas feitas ao capítulo; na terceira apresenta-se a conclusão deste caminhar, e na última parte apresenta-se as referências bibliográficas usadas no trabalho. Análise crítica da etnografia de Henri Junod Antes de iniciar a analisa crítica da postura metodológica de Junod importa resumir em linhas gerais o capítulo, e que servirá de análise neste ensaio. Este capítulo versa sobre "evolução de uma mulher desde o nascimento até a morte". Junod faz uma descrição a partir de uma rapariga indígena que era uma das suas alunas. Segundo a sua descrição, sempre que uma rapariga nasce entre os Tsongas as pessoas vão felicitar a mãe pelo acontecimento. Nesse período a criança não deve sair da palhota até ser submetida a certas cerimónia e medicação de modo que fortifique o corpo da criança. Depois destes sucedidos, a criança já e permitida sair da palhota. Depois de ter saído da palhota começa a receber alguns cuidados e ensinamentos até no momento em que é capaz de desempenhar actividades familiares. Quando esta já é crescida e capaz de fecundar, é disposta a ser casada com um homem de outra aldeia. Esse casamento é denominado de lobolo cujo é pago pela família do homem. Ausência de reflexividade e o objecto inconsciente na etnografia de Junod Henri Junod, na sua descrição etnográfica não faz o exercício de reflexividade e nem tem a consciência de si e do seu objecto etnográfico. Quando Junod (1996: 65) diz que no ritual ntehe (durante o período da amamentação duma criança na tribo Tsonga) deve-se usar a pele dum cabrito do mato, duma cabra ou duma impala, não se percebe quem está falando. No entanto, nesta descrição etnográfica Junod não valoriza os seus informantes. Segundo Clifford (2002), os informantes são intermediários cruciais, mas são excluídos em maiorias das etnografias (principalmente de Junod). Segundo Etkinson (citado por Porto, 1993: 150), “a noção de reflexividade reconhece que os textos não se reportam transparente e simplesmente, a uma ordem independente da realidade”. Nesta secção, os informantes são excluídos no inquérito etnográfico. Sobre este prisma, Clifford (2002: 41) afirma que a tradução da experiencia da pesquisa num corpus textual separados de suas ocasiões discursivas de produção tem consequências para autoridade etnográfica. Os dados assim reformulados não precisam ser entendidas como a comunicação de pessoas especificas. Segundo Clifford (2002), uma melhor maneira de produção etnográfica é citar os informantes regularmente. As citações são sempre colocadas pelo citador, e tendem a servir meramente como exemplos ou testemunhos confirmadores. Segundo autor a antropologia moderna tenta pôr os informantes nativos como construtores activos dessa realidade, quebrando o poder legítimo do etnógrafo baseado na observação pessoal. O que se verifica nesta secção da obra de Junod é a ausência de citação dos informantes, e tomando como base observações pessoais. Durante toda esta secção, Junod não faz nenhuma interpretação dos seus dados. Entretanto, na pesquisa etnográfica é preciso interpretar e o “trabalho de campo deve ser desenvolvido num sistema de símbolos partilhados, através de auto-reflexão, auto-observação, apresentação e posterior explicação” (Rabinow, citado por Porto, 1993: 159). O trabalho etnográfico de Junod se caracteriza por uma transcrição da vida quotidiana dos Tsongas. Segundo De Moura et al (2016), o trabalho do antropólogo não se caracteriza apenas por uma transcrição do conhecimento do nativo, mas sim um diálogo desse conhecimento (emic) com o conhecimento do pesquisado (etic). E é a partir do diálogo entre o conhecimento do nativo e o conhecimento do pesquisador que se compõe o trabalho do antropólogo. Segundo De Moura at all (2016), no texto etnográfico “ninguém tem o poder de dar feição final das histórias contadas colectivamente, nas quais todas vozes devem ser igualmente ouvidas e consideradas”. Neste caso, o trabalho etnográfico deve ser uma negociação de diálogos, uma expressão das trocas numa multiplicidade de vozes onde fique evidente o outro no texto etnográfico, além de uma única voz de etnógrafo. Dos paradigmas discutidos por Clifford apenas pode-se verificar na etnografia de Junod o modelo experiencial. Segundo Clifford (2002: 54), neste modelo apenas o etnógrafo procura comprovar o “eu estive lá”. É o que pode ser verificado na etnografia de Junod, que apenas só há a comprovação dum eu estava lá como um membro integrante e participante. Clifford discutiu também um outro modelo, que é polifónico, e este modelo rompe com as etnografias que pretendem conter uma única voz, geralmente a do etnógrafo. Este modelo, segundo autor, propõe a produção colaborativa do conhecimento etnográfico, e exige que se cita os informantes regularmente. Clifford (citado por Marques) assinala as vantagens que o etnógrafo profissional alcançava em relação a viajantes e missionários. Em primeiro lugar, aquele teria uma atitude de relativismo cultural, enquanto missionários e demais etnógrafos amadores não conseguiriam escapar da sua atitude etnocêntrica. Em segundo lugar, para os etnógrafos profissionais, dotados de autoridade científica, treinados nas mais modernas técnicas analíticas, não seria necessário realizar um exaustivo inventário de costumes e de crenças. Descrições etnocêntricas e o princípio émico e ético Esta secção da obra de Junod está carreteada de juízos de valor e etnocentrismo. Quando Junod diz que os Tsongas não fazem nenhuma ideia de refeições e horas certas de amamentar o filho, está atribuindo estados subjectivos a cultura destes, e segundo Clifford (2000) são questões equivocadas [e etnocêntricas]. Neste caso, Junod analisa a cultura dos Tsongas a partir da sua própria cultura sem nenhum relativismo. Quando Junod diz que a indústria dos Tsongas é atrasada e extravagante percebe-se que não analisa primeiro a cultura dos Tsongas nos seus próprios termos, mas faz comparações carregadas de etnocentrismo. Rowland (1987) chama atenção para uma postura de relativismo cultural. Nesta perspectiva, Augé e Colleyn (2004: 17-18) afirmam que o investigador deve questionar as suas predefinições e colocar-se numa posição de aprendizagem (…), o etnógrafo deve impedir-se de macular as suas observações com ideias preconcebidas tendo em conta a sua própria cultura. Numa das passagens desta secção, Junod descreve que quando uma rapariga nasce entre os Rhongas, as pessoas vem felicitar dizendo-lhe: que água venha. No rodapé da páginadeste trecho, Junod escreve que esta é uma forma de bênção que significa: não basta plantar, não basta que o caule do milho saia da terra, é preciso ainda que a água da chuva faça crescer a planta (Junod 1996: 164). No trecho acima citado, dificilmente pode se perceber se é Junod ou é um nativo falando, neste caso, em toda esta secção fica muito difícil distinguir a questão e émico ético. Segundo Batalha (1998: 325) a questão émico e ético na antropologia é problemática. Segundo autor, esta perspectiva foi criada há já alguns anos, com base na afirmação de que os nativos normalmente não possuem uma consciência do seu sistema émico. Nem todos os etnógrafos são suficientemente claros quanto a natureza do seu discurso e alguns misturam mesmo as suas categorias e as do nativo, por vezes não se percebe claramente quem esta falando, isso é o que pode ser verificado no texto etnográfico de Junod. O que Junod faz “é impor o sistema émico ao mudo do nativo e assumir que ele possui maior capacidade para desvendar os mistérios da cultura [dos Tsongas] ”. O lugar de Junod na antropologia Dianteill (2010) discutiu três tendências epistemológicas existentes na antropologia francesa. E essas tendências se originaram na famosa distinção entre antropologia, etnologia e etnografia. Segundo o autor, a primeira tendência é tida como antropologia da ciência natural, a segundo como antropologia experiencia da diferencia cultural, e a terceira como antropologia das dinâmicas entre as sociedades. Dessas tendências descritas, o trabalho etnográfico de Junod pode ser enquadrado na terceira tendência, porque Junod não fez antropologia mas apenas etnografia. Segundo Dianteill (2010), essa antropologia (que considero feita por Junod) toma a forma literária do relato de viagem, no diário, da descrição, de uma aventura exótica. A subjectividade prevalece sobre a objectividade. Neste tipo de antropologia, o etnógrafo apenas descreve os costumes das populações que visita, interroga-se sobre o sentido que possuem, compara-os com os costumes de seu próprio país, manifesta sua fascinação, sua indagação, seu espanto. Segundo Dianteill (2010), esta antropologia apresenta antes de tudo como etnografia. O importante é descrever como vivem as pessoas fora da europa. Entretanto, o que foi discutido aqui é o que pode ser verificado na etnografia de Junod. Entretanto, Junod tem um lugar na antropologia, porque seguiu alguns parâmetros exigidos na antropologia que vigorou no período clássico. Embora Junod tenha feito apenas etnografia, não é tirado a legitimidade de ser considerado antropólogo porque segundo Levis-Strauss (citado por Dianteill, 2010), a antropologia, etnologia e etnografia “são na verdade três etapas de uma mesma investigação, a preferência por um ou outro desses termos (…) jamais poderia excluir os outros dois”. Considerações Finais Neste capitulo Junod apenas só fez descrição dos dados, e não interpretou, ou seja, não fez antropologia defendida na pós-modernidade. Na pós-modernidade essa forma de fazer etnografia é bastante criticada. Esta forma de fazer etnografia foi o modelo que vigorou no período clássico e já foi ultrapassado. Os autores pós-modernos consideram que no texto etnográfico deve se valorizar a voz dos informantes. Estes autores têm desenvolvido modelos que rompem com as etnografias que pretendem conter uma única voz, geralmente a do etnógrafo Após estas discussões, aqui apresentadas, pode-se concluir que a obra de Junod não pode ser negligenciada de maneira alguma, pois, apresenta aspectos importantes para a história da antropologia em moçambique. Mas também, apresenta certas limitações na forma pelo qual Junod obtinha informações. “A obra de Junod é importante fonte de conhecimento sobre a história, a vida e cultura do sul de Moçambique e que pode ser uma preciosa ajuda para o debate dos grandes desafios da modernização e da identidade africana”. Referencias Bibliográficas Augé, Marc & Colleyn, Jean-Paul. 2004. “Introdução”. In A Antropologia. Lisboa: Edições 70, pp 7-23. Batalha, Luis. 1998. “Emics/Etics Revisitado: `Nativo´ e Antropólogo Lutam Pela Última Palavra”, Etnográfica, Vol II(2), pp 319-343. Clifford, James. 2005. “Sobre a Autoridade Etnográfica”. In Sanches, Manuela, Deslocalizar a Europa: Antropologia, Arte, Literatura e História na Pós-Colonialidade. Lisboa: Edições Cotovia Lda, pp 101-142. Dianteill, Erwan. 2010. “Depois de Lévi-Strauss: Um Olhar sobre a Antropologia Francesa Contemporânea”, Revista de Antropologia, Vol. 53, No. 1, pp 11-38. Junod, Henri. 1996. “Evolução de uma mulher desde o nascimento até a morte”. In Usos e Costumes dos Bantos: A Vida Duma Tribo do Sul da África. Maputo: Arquivo Histórico de Moçambique Jordão, Patrícia, “A Antropologia Pós-Moderna: Uma Nova Concepção da Etnografia e seus Sujeitos” Comunicação apresentada na 51ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, 11 a 16 de Julho de 1999. Marques, Rodrigo. Observação, Subjectividade e Epistemologia: A Renovação das Práticas Etnográficas. Rowland, Robert. 1987. Antropologia, História e Diferença. Porto: Afrontamento Porto, Nuno. 1993. “Reflexões Antropológicas: Um percurso bibliográfico”, Revista Crítica de Ciências Sociais, No 37, pp 149-157.