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ANTROPOLOGIA AULA 2 Prof. Rafael Pons Reis A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com CONVERSA INICIAL Nesta etapa, veremos na primeira seção o surgimento do campo de estudo da antropologia a partir de uma perspectiva histórica, dando destaque para os desdobramentos das Grandes Navegações, em face de relatos e livros escritos por viajantes que haviam tido contato com povos e culturas exóticas até então desconhecidas. Na segunda seção, apresentaremos as contribuições do etnocentrismo e do relativismo cultural sobre os estudos da antropologia. Na sequência, daremos ênfase ao evolucionismo, também chamado por darwinismo social, em que pese as diferenças entre as culturas em relação aos estágios de desenvolvimento. Na quarta seção, apresentaremos a importância assumida pelo trabalho de campo sobre a construção de um novo método de estudo antropológico, qual seja, a etnografia. E, por fim, evidenciaremos os limites da pesquisa de campo e a construção da antropologia pós-moderna. TEMA 1 – SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA O termo Antropologia, conforme vimos na etapa passada, deriva dos substantivos que a compõem, ambos de origem grega: anthropos (homem) e logos (estudo, razão, lógica). Em linhas gerais, podemos definir Antropologia como o “estudo do homem” ou a “lógica do homem”, duas definições que apesar de distintas, são convergentes. No primeiro caso, a Antropologia faz parte do campo de estudo das ciências humanas, como a Economia e a Sociologia; na segunda definição, ela está relacionada a temas que estão presentes no campo da Filosofia, da Metafísica e da Lógica. Apesar de a derivação do termo vir do grego, não foram os gregos1 que inventaram a Antropologia. “Eles [os gregos] se consideravam tão superiores aos povos e nações vizinhos, seus contemporâneos, a quem chamavam de ‘bárbaros’, que mal tinham olhos para os ver e os apreciar” (Gomes, 2008, p. 11). Na Antiguidade Clássica é possível encontrar vários relatos de gregos e romanos sobre “curiosidades” dos povos conquistados. Contudo, foi na Idade Média que a produção da mirabilia (relatos maravilhosos) se constituiu como forma de produção literária e passou a ser consumida pela nobreza. Importante 1 Importante lembrarmos que os gregos são considerados os precursores da História e da Filosofia. A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com ressaltarmos que nesse período não havia uma delimitação clara entre ciência e religião: o imaginário geográfico e a visão de mundo dos europeus à época eram permeados pela doutrina católica cristã2. A partir do século XV com o advento das Grandes Navegações, foi possível obter o estabelecimento de contato entre povos além-mar, momento em que cada vez mais se conhecia relatos e livros escritos por viajantes que haviam estado com povos até então desconhecidos. O alargamento dos limites geográficos e, por extensão, da maior interação entre as culturas, que vinha se expandindo desde a Idade Média ganhou especial atenção com a descoberta das Américas (Novo Mundo), o que, por sua vez, contribuiria significativamente para a construção de uma nova base filosófica na Europa, que veremos nas seções seguintes. TEMA 2 – ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL Vimos até aqui que a cultura, metaforicamente, pode ser entendida como uma lente pela qual enxergamos o mundo e damos sentido a ele, o que inclui a construção de uma dada percepção sobre outros povos e sociedades distantes da nossa. Quando a realidade do modo de vida (valores, ética, estética, hábitos, rituais) de outros povos nos causa certo estranhamento, fazendo com que “nosso olhar” classifique e rotule outros grupos e sociedades com base em nossos valores, damos nome a isso de etnocentrismo. Em outras palavras, etnocentrismo pode ser definido como a tendência em observar o mundo a partir da lente cultural a que pertence o observador. O etnocentrismo é universal, ele está presente em todas as culturas e, consequentemente, faz parte do comportamento dos seus membros. Segundo Gomes (2008, p. 54), o etnocentrismo é “[...] o modo incontornável de autovalorização de cada cultura que faz com que seus membros acreditem que o que é próprio de sua cultura é o ‘natural’, o certo, o real e o racional”. Em uma perspectiva histórica, a mentalidade dos países europeus em julgar sua cultura superior às demais serviu como justificativa para políticas de colonização e extermínio de povos e civilizações inteiras, como aconteceu com a extinção de 2 Neste período, um exemplo bastante ilustrativo deste contexto consistia na percepção de que os homens, filhos de Adão (ver o livro de Gênesis, na Bíblia), não poderiam existir em outras regiões. A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com algumas civilizações pré-colombianas com a chegada dos espanhóis. Importante mencionarmos que o etnocentrismo europeu ultrapassa o período colonial, pois encontramos elementos de etnocentrismo na Alemanha nazista, em face da defesa da superioridade da raça ariana branca em relação às demais, justificando a perseguição e o extermínio de povos de outras origens, em especial os judeus. Em outra perspectiva de análise, quando procuramos nos distanciar de nossos valores a fim entender o outro a partir dos seus próprios termos, damos nome a esse processo de relativismo cultural. Isso significa dizer que ao relativizarmos uma dada cultura, não estamos procurando enquadrar o que outros grupos estão fazendo, mas entender por que estão se comportando daquela maneira. Segundo Ribeiro (2016, p. 73), “[...] procuramos por um sentido, pois entendemos que há lógica e coerência nas ações daqueles grupos que, para nós, parecem diferentes”. De forma resumida, podemos entender os conceitos de etnocentrismo e de relativismo cultural da seguinte forma: i) ambos são faces da mesma moeda, ou seja, são produzidos a partir de uma relação de estranhamento (choque cultural); ii) enquanto no etnocentrismo procuramos entender o outro a partir de nosso próprio julgamento (nosso sistema de crenças e valores); iii) no relativismo cultural, por sua vez, procuramos entender o outro a partir do estudo de suas próprias crenças, valores e visões de mundo. Dentre os autores evolucionistas mais importantes, destacamos James Frazer (1854-1941), autor da famosa obra O ramo de ouro, publicada em 1890, que discutia os meios pelos quais se poderia considerar a magia primitiva como antecessora da ciência, por pretender controlar as forças e os fenômenos da natureza. Igualmente relevante é a obra A sociedade antiga, publicada por Lewis Morgan (1818-1881), que tinha como cerne a evolução das relações sociais tendo como base o grau de parentesco. A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com TEMA 3 – EVOLUCIONISMO Em meados do século XIX, os estudos da antropologia ganharam uma nova perspectiva quando Charles Darwin publicou o livro A Origem das Espécies, em 1859. Darwin foi um geólogo, naturalista e biólogo britânico, e ficou mundialmente conhecido em divulgar a tese do evolucionismo nas ciências biológicas. Em síntese, Darwin defende o argumento de que todos os seres vivos descendem de um ancestral em comum, tese amplamente aceita pela comunidade científica, e de que os ramos evolutivos são resultantes do processo de seleção natural e sexual em face da luta pela sobrevivência. O evolucionismo foi a principal linha investigativa das pesquisas antropológicas no final do século XIX e começo do século XX. De acordo com essa perspectiva, a humanidade passaria por estágios evolutivos partindo do primitivo, passando pela barbárie (que seria um estágio intermediário), até chegar ao modelo decivilização tal como a conhecemos: monogâmica, quando um indivíduo tem apenas um parceiro amoroso; patriarcal, sistema social em que os homens exercem o controle e autoridade sobre várias áreas da vida em sociedade; com modelo político formado por Estados nacionais, voltados para o crescimento e desenvolvimento econômico, aos avanços tecnológicos e às descobertas científicas. Nesse sentido, as demais sociedades (primitivas e tribais) localizadas nas colônias estariam em estágios inferiores na escala da evolução social, fato esse que servia de justificativa para os colonizadores “ajudá-las” em seu desenvolvimento (Ribeiro, 2016). No período de predominância do darwinismo social (1860-1910), as pesquisas partiam do método comparativo entre o estágio de desenvolvimento de culturas estrangeiras (localizadas em regiões nas quais o colonialismo se fazia presente) com o passado das culturas europeias. O método comparativo permitia que, caso alguns elementos fundamentais de uma determinada cultura fossem conhecidos, se saberia em que fase ela se encaixaria, uma vez que determinados costumes e práticas seriam próprias de tais ou quais fases, respectivamente (Gomes, 2008). A despeito do mérito das teorias evolucionistas terem contribuído para a consolidação da ideia de unidade lógica da espécie humana, elas não se desvencilharam da visão etnocêntrica, isto é, daquela percepção equivocada segunda a qual o modelo de sociedade europeia seria considerado superior em A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com relação às demais. No início do século XX, Franz Boas (conforme mencionado em conteúdos anteriores), utilizando o conceito de cultura, fez duras críticas à história conjectural do evolucionismo, uma vez que, por meio de sua pesquisa de campo, defendeu o argumento sobre a impossibilidade de se pensar na existência de uma histórica universal das sociedades humanas. Em tese, o referido autor ressaltou a ideia de que cada cultura detinha desenvolvimento e história próprios, e que o estudo de sua evolução deveria ser compreendido no interior de cada cultura, analisada de forma independente. Importante lembrarmos que nesse período a antropologia era caracterizada pelo trabalho de gabinete, isto é, o pesquisador não saía de seu gabinete (escritório) para conhecer outras culturas, ele não fazia trabalho de campo. Sendo assim, era comum o estudioso fazer uso de fontes secundárias (relatos de viajantes e missionários), cuja base de dados não era confiável, por possuir considerações e pontos de vista do observador (etnocêntrica), que veremos com mais detalhes no próximo tópico. TEMA 4 – TRABALHO DE CAMPO À medida que avançavam os estudos de pesquisadores nas populações das colônias inglesas na África e na Oceania, a antropologia britânica começava a estabelecer uma crítica contundente ao evolucionismo, contestando a história conjectural. Dentre os principais opositores ao método histórico, destaca-se Radcliffe-Brown, que fazia pesquisas de campo em algumas ilhas próximas da Índia e na Austrália. Pelo fato de as sociedades tribais não possuírem documentos escritos, não era possível realizar a pesquisa histórica. Nesse contexto, o famoso antropólogo polonês, Bronislaw Malinowski, questionou também o método histórico e defendeu o argumento de que cabia ao pesquisador de campo procurar desenvolver uma linha de raciocínio capaz de compreender a totalidade da sociedade estudada, bem como ser capaz de estabelecer a relação de cada uma das partes (parentesco, economia, política, rituais etc.) como um todo (Ribeiro, 2016). Sua obra publicada em 1922, Argonautas do Pacífico Ocidental, contribuiu por sistematizar o método para a pesquisa de campo, sendo assim, Malinowski criou a etnografia, que consiste no método utilizado pela antropologia na coleta de dados. Segundo Ribeiro (2016, p. 79), o livro Argonautas, “[...] aponta para a necessidade de imersão no A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com universo do outro, para que seja possível conhecê-lo e compreendê-lo. Além disso, esclarece que desvendar outras realidades não é uma tarefa fácil, uma vez que a vida social é complexa e composta por várias camadas”. Por meio da etnografia, o antropólogo seria capaz de desvendar as múltiplas camadas da realidade social, de modo a compreender os variados aspectos da vida social em sua totalidade. Mas de que modo ele conseguiria proceder essa análise? Ele deveria fazer uma imersão na sociedade estudada, isto é, participando e vivenciando o dia a dia do nativo, não apenas dos momentos solenes, mas também das atividades corriqueiras, que, por sua vez, também indicam dimensões e aspectos importantes da vida social. Sendo assim, chamamos de observação participante o nome do convívio prolongado com a sociedade estudada. TEMA 5 – LIMITES DA PESQUISA DE CAMPO À medida que se desenvolvia a produção acadêmica dos estudos antropológicos, as pesquisas revelavam que a totalidade social de que falavam os primeiros pesquisadores de campo consistia apenas em mais um modelo analítico para analisar a realidade. Para o antropólogo estadunidense, Clifford Geertz, a análise do antropólogo é sempre incompleta, uma vez que a realidade não está plenamente acessível. Em outras palavras, o autor defende o argumento que o antropólogo faz uma leitura da realidade de forma incompleta, com base nas interpretações que os nativos fazem da própria realidade. A fim de resolver esse impasse metodológico, Geertz propõe na substituição da ideia de observação participante por interpretação. A mudança proposta por Geetz abriu caminho para a emergência de uma nova e mais avançada antropologia, a antropologia pós-moderna, uma proposta de ciência reflexiva de si mesma e, portanto, crítica quanto à sua neutralidade em relação à produção de saber e ao seu alcance para a compreensão da realidade. O desenvolvimento de um novo olhar pela antropologia pós-moderna permitiu levantar alguns questionamentos sobre as relações de poder existentes entre pesquisador e pesquisado, e de um olhar mais atento sobre as questões éticas do trabalho de campo. Dentre as preocupações sentidas pela antropologia pós-moderna, a escrita etnográfica trazia um desafio substancial para os antropólogos A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com resolverem, pois implicava problema que surge da relação de “estar lá, escrever aqui”, no sentido de como se o antropólogo, e apenas ele (por meio da pesquisa de campo), tivesse acesso àquele conhecimento. Para o antropólogo estadunidense, Roy Wagner, a questão crucial levantada pela antropologia pós-moderna não consistia apenas em um problema de escrita, mas de criação. As múltiplas camadas da realidade não podem ser entendidas em sua totalidade, uma vez que o antropólogo, ao fazer sua pesquisa (etnografia), interpreta a realidade social com base em suas próprias crenças, visões de mundo e sistema simbólico. Importante mencionarmos que o campo de estudos da antropologia nasceu nas sociedades coloniais em face do choque cultural estabelecido com o exótico, com o diferente. Apesar de até meados de 1930 as pesquisas antropológicas não terem recebido aportes financeiros se comparados com os de outras áreas (agricultura e medicina), a criação de vários centros de pesquisa (com financiamento de fundações prestigiosas como a Rockefeller) sinalizou um interesse pelo desenvolvimento de pesquisas ligadas aos objetivos coloniais, quais sejam, a de produzir um conjunto de conhecimentos descritivos sobre a organização política, social e econômica. Pensava-se, à época, que conflitos entre agentes coloniais e populações locais eram oriundos de equívocos, falta de comunicação ou mal-entendidos. Sendo assim, os antropólogosacreditavam que a etnografia poderia contribuir no sentido de servir como ferramenta para auxiliar a administração colonial. O surgimento da primeira geração de antropólogos “nativos” permitiu uma significativa mudança na epistemologia dos estudos antropológicos, isto é, uma mudança na forma de produção de conhecimento da ciência. Os estudos realizados passaram a ser rigorosamente questionados e, segundo Ribeiro (2016, p. 85), “[...] a autoridade da escrita etnográfica se tornou foco de discussão”. O resultado prático da revisão dos estudos antropológicos traduziu- se na criação de uma divisão na área de pesquisa, uma antropologia da metropolitana e outra da periferia. A antropologia passou a ser uma disciplina plural, isto é, tornaram-se múltiplas antropologias, pois cada uma delas trabalhava com diferentes objetos de estudo em relação aos diferentes contextos históricos, geográficos e sociais de cada localidade. Nesse sentido, os objetivos da antropologia metropolitana A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com eram substancialmente distintos, por exemplo, dos da antropologia da periferia. Como exemplo dos objetivos de pesquisa desta última, citamos o Brasil, dada a preocupação para entender os processos de construção de identidade, e as relações entre as comunidades locais com o governo central. NA PRÁTICA A partir das importantes contribuições da Antropologia para o estudo da cultura, recomendamos fortemente a leitura do segundo capítulo de nosso livro- base, a saber, Teoria e prática em antropologia. Além disso, recomendamos a leitura do livro de Mércio Pereira Gomes, com o título Antropologia: ciência do homem: filosofia da cultura, especificamente do capítulo intitulado “Metodologia”. E, por fim, não poderíamos deixar de indicar a leitura do livro de Allan de Paula Oliveira, Antropologia: questões, conceitos e histórias, especificamente o item “2.1” relacionado ao Etnocentrismo. FINALIZANDO Ao longo do presente texto foi possível conhecer mais sobre o surgimento da antropologia a partir de uma perspectiva histórica, em que pese a importância dos desdobramentos das Grandes Navegações para o incremento de contato entre povos além-mar. Vimos na primeira seção que por meio de relatos e obras escritas por viajantes que haviam estado em regiões até então desconhecidas, surge no início do século XIX um novo método de estudo da antropologia, conhecido por etnocentrismo. Na segunda seção apresentamos a distinção entre o etnocentrismo e o relativismo cultural, e na seção seguinte, o evolucionismo, a partir dos argumentos defendidos por Charles Darwin, dada a importância assumida pelo darwinismo social sobre os estudos antropológicos de povos e sociedades tidas como exóticas pelo olhar europeu. Na quarta seção discutimos a importância atribuída ao trabalho de campo em relação ao método de pesquisa da antropologia, momento em que surge a etnografia, que consiste em uma nova perspectiva pela antropologia na coleta de dados. E, por fim, na última seção, delineamos os limites da pesquisa de campo em relação aos estudos antropológicos, fato esse que permitiu a emergência de uma nova e avançada antropologia, a antropologia pós-moderna. A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com REFERÊNCIAS GOMES, M. P. Antropologia: ciência do homem: filosofia da cultura. São Paulo: Contexto, 2008. OLIVEIRA, A. de P. Antropologia: questões, conceitos e histórias. Curitiba: Intersaberes, 2018. RIBEIRO, A. S. P. Teoria e prática em antropologia. Curitiba: Intersaberes, 2016. A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com