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(
Aula
 
2:
 
Introdução
 
geral
 
do
 
Antigo
 
Testamento
Disciplina:
 
Introdução
 
ao
 
Antigo
 
Testamento
)
Apresentação
Na aula anterior, apresentamos a Bíblia Hebraica: seu nome, sua divisão e estruturação. Agora, nós nos aprofundaremos no Antigo Testamento.
A chamada Introdução Geral do Antigo Testamento é o estudo da formação dos textos, da consideração progressiva de sua sacralidade e autoridade religiosa (canonicidade), e da transmissão do Antigo Testamento.
Para esse estudo, faremos a análise de como a Bíblia Hebraica foi redigida, entenderemos como tais textos foram canonizados, e como os manuscritos foram transmitidos em papiros e pergaminhos, os quais são a origem do Antigo Testamento, traduzidos nas várias línguas para a leitura e a devoção de cristãos, judeus e muçulmanos.
Objetivos
Explicar o processo de formação dos livros do Antigo Testamento
(Redaktiongeschichte);
Definir o conceito de cânon – desde a formação dos livros até seu agrupamento e sua sacralização;
Identificar os principais manuscritos do Antigo Testamento, as edições críticas da Bíblia Hebraica e as principais traduções em língua portuguesa.
Redação
O processo de composição do Antigo Testamento e de definição do cânone foi longo e gradual. Em nenhum momento, algum conselho ou alguma autoridade religiosa decretou os livros que os hebreus deveriam aceitar ou rejeitar.
A Bíblia Hebraica surgiu, cresceu e foi organizada lentamente: seus conteúdos foram redigidos e se expandiram de forma intermitente, em um processo complexo de redação e incorporação de novos documentos.
Durante muitas gerações, escritores registraram e interpretaram as experiências políticas e espirituais de sua nação, mas sem a pretensão de que tais registros fossem se transformar em sagrados.
 (
Livro
 
antigo com uma
 
pena de pássaro.
)
O exílio babilônico (564-539 a.C.) é o episódio que explica muito a razão por que os escritos legais e proféticos de Israel foram se tornando cada vez mais importantes.
A destruição do templo e da cidade de Jerusalém, o fim da monarquia israelita e o desterro destituíram os judeus de elementos fundamentais para a constituição de sua identidade étnica e religiosa.
Logo, a identidade coletiva do povo de Israel passou a ser mantida e divulgada por sua memória traditiva, posta cada vez mais na forma escrita.
Esses textos foram:
 (
1
)
Citados, debatidos e lidos publicamente em festivais nacionais.
 (
2
)
Ensinados com o objetivo de formar os mais jovens na fé judaica.
 (
3
)
Recitados para explicar a própria razão do exílio.
Isso tornou tais escritos, tanto por uso quanto por hábito, livros sagrados para Israel.
É provável que, no século IV a.C. – época em que os administradores persas encorajavam ativamente a publicação das leis religiosas da Judeia –, as tradições legais de Moisés tenham sido reformuladas, editadas e publicadas nos cinco livros da Torah, e, em seguida, proclamadas como vinculativas para todos os judeus.
Essa coleção (Pentateuco) foi a primeira parte da Bíblia Hebraica a alcançar o status autoritativo.
No tablete de argila, está o mais antigo texto conhecido a documentar o exílio de Judá na Babilônia (Bible Lands Museum, Jerusalém)
As linhas 11 a 18 afirmam:
“Testemunhas: Tub-shalam, filho de Ahiqar; Azar-Yama, filho de Yahu-Kullu; Ah-lumur, filho de Balassu, e o escriba, Nabu Na’id, filho de Nabu-zar-iqisha. [Escrito em] Al-Yahudaia (Cidade dos Judeus), no dia 20 de Nizã, ano 33 de Nabucodonosor, rei da Babilônia”.
 (
Tablete
 
de
 
argila
 
de
 
572
 
a.C.
 
(Fonte:
)
https://goo.gl/oD6Ron
<https://goo.gl/oD6Ron> )
De acordo com certos indícios, na esteira da formação, organização e redação da Torah, a segunda divisão principal da Tanak – os Profetas (Nevî’îm) – pode ter sido aceita por volta de 200 a.C. Isso deve ter acontecido, ao menos, com alguns grupos influentes dentro da comunidade judaica.
A referência mais antiga a todas as três partes da Tanak como livro imbuído de autoridade ocorre no prefácio do Sirácida (Eclesiástico):
Em grego
 (
πλὴν το
ῦ
 
ἐ
πιδιδόντος τὴν ψυχὴν α
ὐ
το
ῦ
 
καὶ
 
διανοουμένου
 
ἐ
ν
 
νόμ
ῳ
 
ὑ
ψίστου
 
σοφίαν
 
πάντων
 
ἀ
ρχαίων
 
ἐ
κζητήσει καὶ 
ἐ
ν
 
προφητείαις
 
ἀ
σχοληθήσεται.
διήγησιν 
ἀ
νδρ
ῶ
ν 
ὀ
νομαστ
ῶ
ν συντηρήσει καὶ 
ἐ
ν
 
στροφα
ῖ
ς παραβολ
ῶ
ν συνεισελεύσεται.
ἀ
πόκρυφα παροιμι
ῶ
ν 
ἐ
κζητήσει καὶ 
ἐ
ν α
ἰ
νίγμασι
 
παραβολ
ῶ
ν 
ἀ
ναστραφήσεται.
Sirácida
 
39.1-3
)
Em português
 (
Mas de quem dá a sua vida e reflete na LEI do
 
Altíssimo, investigará a sabedoria de todos os antigos e
 
se
 
dedicará nas
 
PROFECIAS.
preservará os ESCRITOS dos homens célebres e
 
penetrará na sutileza das parábolas.
procurará o segredo dos provérbios e ocupa-se do
 
sentido oculto dos provérbios e viverá o enigma das
 
parábolas.
Sirácida
 
39.1-3
)
Embora alguns dos Escritos (como os Salmos) tenham sido usados no culto de Judá por gerações, essa parte da Escritura pode ter permanecido aberta até o primeiro século. Afinal, alguns grupos judeus, como aqueles que viviam no Egito, aceitavam livros que, em última instância, não estavam incluídos na Tanak.
A atividade literária de Israel ocorre não só no âmbito da religião mas também no contexto mais amplo das práticas do Antigo Oriente Próximo. É fato que a elite dos escribas de Israel, em alguma extensão, transmitiram, revisaram e expandiram os textos bíblicos.
O Antigo Testamento é, em grande parte, resultado da atuação dos escribas profissionais de Israel. Em vez de meros copistas de materiais mais antigos, os escribas israelitas preservaram as tradições e as leis ancestrais de Israel por escrito. O processo de produção desse material escrito envolveu revisões, edições e reedições.
 (
Tradicionalmente, Esdras – o escriba sacerdote – publicou a edição
 
autorizada da 
Torah 
durante o período de dominação persa. Basta
 
analisarmos
 
os
 
livros
 
de
 
Esdras
 
e
 
Neemias,
 
que
 
correspondem
 
à
 
memória
 
da
 
atuação de Esdras.
É
 
bem
 
provável,
 
ainda,
 
que
 
escribas
 
tenham
 
adicionado,
 
posteriormente,
 
coleções de oráculos proféticos e outros livros sagrados – como Salmos,
 
Jó e Eclesiastes.
Saiba mais
)
Ao produzirem e reproduzirem cópias escritas da Torah, dos Profetas e dos Escritos, de alguma forma, os escribas orientaram o processo de compilação de livros sagrados, dando a eles alguma aprovação prévia.
Entretanto, ao que tudo indica, outros grupos judeu-helenísticos não estritamente vinculados ao templo de Jerusalém (como os essênios) aceitaram outros textos para além dos que entraram na Tanak.
Selo de Elishama, escriba citado em Jeremias
41.1 e 2 Reis 25.25. Analisado por: Avigad, 1997,
p. 53. (Fonte: https://goo.gl/eBsD3t
<https://goo.gl/eBsD3t> )
Ainda assim, os escribas da Judeia parecem ter contribuído muito para a organização, redação, revisão e determinação do conteúdo final da Bíblia Hebraica. Esse processo, do qual os escribas podem ter participado, é a canonização.
Ruínas do Scriptorium dos escribas na Comunidade de Qumran (Fonte:
https://goo.gl/7HZ2hH
<https://goo.gl/7HZ2hH> )
Cânon
Cânon1 é a lista de livros incluídos nas várias Bíblias.
Como já foi possível constatar, quando se trata do Antigo Testamento, há várias extensões diferentes para o cânon e listas distintas de livros que compõem as Escrituras hebraicas – consideradas, por judeus e cristãos, autoritativas em matéria de fé e religião.
As distinções entre os vários cânones remontam às diferenças entre:
 (
As
 
Escrituras
 
que
 
se
 
tornaram
 
o
 
Antigo
 
Testamento
 
–
 
originalmente
 
escritas
 
em
 
hebraico (com
 
algumas porções
 
em aramaico);
)
 (
A
 
coleção
 
mais
 
ampla
 
que
 
circulava
 
em
 
língua
 
grega
 
–
 
majoritariamente
 
formada
 
por
 
traduções dos
 
textos hebraicos
 
e aramaicos.
)
A determinação dos livros do Antigo Testamento foi atribuída, durante muito tempo, ao chamado sínodo de Jâmnia.
Após a guerra dos judeus contra Roma (66-73 d.C.) e a vitória das tropas romanas, um grupo de rabinos teria se reunidona cidade costeira de Jâmnia (Yavneh) para consolidar e unificar o judaísmo pós-guerra.
De acordo com essa tradição, tal reunião (ocorrida em cerca de 90 d.C.) teria definido o cânon, decidindo, exatamente, quais livros eram sagrados. No entanto, não há evidências documentais que provem que rabinos em Jâmnia tenham se reunido para fechar o cânon. E há quem duvide que uma assembleia rabínica tenha, de fato, ocorrido.
Ao que parece, os limites precisos do cânon – especialmente dos Escritos (Nevî’îm) – só ocorreram mais tarde, com participação importante dos escribas. Foram eles que criaram um texto bíblico padrão – protótipo do Texto Massorético2 posterior.
Essa padronização dos manuscritos bíblicos ocorreu, aparentemente, durante o período compreendido entre as duas guerras dos judeus contra Roma:
 (
1
)
1ª guerra 66-73 d.C.
 (
2
)
2ª guerra 132-135 d.C.
Uma evidência da definição do cânon judaico no período entre as duas guerras é destacada pelo historiador judeu Flávio Josefo (37-100 d.C.). Ele parece assumir a existência de um cânone estabelecido em Contra Apião:
Em grego
 (
ο
ὐ
 
μυριάδες βιβλίων ε
ἰ
σὶ παρ
᾽
 
ἡ
μ
ῖ
ν 
ἀ
συμφώνων καὶ
 
μαχομένων δύο δὲ μόνα πρὸς το
ῖ
ς ε
ἴ
κοσι βιβλία το
ῦ
 
παντὸς... πέντε μέν 
ἐ
στι Μωυσέως... ο
ἱ
 
μετὰ Μωυσ
ῆ
ν
 
προφ
ῆ
ται τὰ κατ
᾽
 
α
ὐ
τοὺς πραχθέντα συνέγραψαν 
ἐ
ν
 
τρισὶ
 
καὶ
 
δέκα
 
βιβλίοις
 
α
ἱ
 
δὲ
 
λοιπαὶ
 
τέσσαρες
 
ὕ
μνους
 
ε
ἰ
ς
 
τὸν θεὸν καὶ το
ῖ
ς 
ἀ
νθρώποις 
ὑ
ποθήκας το
ῦ
 
βίου
 
περιέχουσιν.
Josefo,
 
Contra
 
Apião
,
 
1.38-40
)
Em português
 (
Não
 
temos
 
miríades
 
de
 
livros
 
junto
 
a
 
nós,
 
discordando
 
e
 
lutando
 
uns
 
com
 
os
 
outros,
 
mas
 
vinte
 
e
 
dois
 
livros
 
que têm tudo [...] cinco são de Moisés [...] os profetas
 
depois de Moisés anotaram o que foi feito em seus
 
tempos em treze livros. Os quatro livros restantes
 
contêm hinos para Deus e preceitos para a condução da
 
vida humana.
Josefo,
 
Contra
 
Apião
,
 
1.38-40
)
A referência de Josefo a um total de 22 livros na Bíblia Hebraica traz algumas dificuldades. Ao que parece, os 24 livros presentes na atual Tanak são divididos de forma distinta por Josefo: o livro de Rute foi adicionado ao livro de Juízes, e o livro de Lamentações foi adicionado a Jeremias. Mas tal inferência é apenas uma hipótese.
Portanto, é praticamente impossível identificar a data precisa em que os conteúdos do Antigo Testamento assumiram a forma em que se encontram no chamado Texto Massorético medieval.
Ainda assim, a presença de manuscritos contendo material apócrifo – ou deuterocanônico, na perspectiva católico-romana –, como os Manuscritos do Mar Morto e as listas cristãs dos primeiros séculos do cristianismo, mostra que a questão dos conteúdos precisos da Bíblia Hebraica ainda não foi resolvida.
 (
Atividade
1.
 
Defina o conceito de 
cânon
.
)
Principais manuscritos
As traduções modernas da Bíblia baseiam-se em edições impressas da Bíblia Hebraica. Essas edições, por sua vez, são o resultado do trabalho de crítica textual3crítica textual sobre manuscritos do passado.
No caso da Bíblia Hebraica, os manuscritos mais importantes são dos séculos X e XI d.C., ou seja, os medievais.
O texto hebraico presente nesses manuscritos é chamado de Texto Massorético, que utiliza o alfabeto quadrado e adiciona às consoantes sinais diacríticos para representar as vogais, os acentos e as orientações para a leitura – prosódicas, métricas, pontuação etc.
Os massoretas4 pertencem à família de Ben Asher, de Tiberíades (Galileia).
Bíblia Hebraica (Fonte: Shutterstock / Alexander Dvorak)
 (
Leitura
)
 (
Para
 
aprofundar-se
 
no
 
assunto,
 
leia
 
mais
 
sobre
 
O
 
Texto
 
Massorético
 
e
 
os massoretas <
g
aleria/aula2/anexo/a02_doc1.
p
df>
 
.
)
O primeiro manuscrito medieval importante para a reconstituição do texto
hebraico do Antigo Testamento é o Códice de Aleppo (באוֹצ ָרם א
do século X d.C.
תרכֶּ ), do início
Esse manuscrito foi mantido pela comunidade judaica da cidade de Aleppo, na Síria, e é proveniente da tradição de Ben Asher. Em 1947, perdeu 1/4 de seu conteúdo em um incêndio na sinagoga5 que o conservava e, hoje, está guardado no Israel Museum (Jerusalém).
Os esforços para a recuperação6 do que se perdeu do Códice de Aleppo estão sendo feitos desde que o manuscrito passou a ser cuidado pelas autoridades de Israel.
Os esforços para reconstituição do Códice de Aleppo continuam pelas consultas às citações do manuscrito em obras rabínicas.
Página do Códice de Aleppo, com destaque aos sinais massoréticos (Fonte:
https://goo.gl/zfavfK
<https://goo.gl/zfavfK> )
Outro manuscrito fundamental para a reconstituição do Antigo Testamento é o Códice de Leningrado B19A, do século XI d.C. (ano 1008 ou 1009). Esse manuscrito é a fonte mais completa de todos os livros bíblicos veterotestamentários. Sabe-se que foi corrigido de acordo com um manuscrito de Ben Asher e escrito por Samuel Ben Jacob Jam’a – tanto as consoantes quanto as vogais e notas massoréticas.
O Códice de Leningrado foi emprestado à Universidade de Leipzig e analisado por Paul Kahle, que o utilizou na edição da Biblia Hebraica Sttutgartensia (BHS) – a mais importante já impressa, que serve de base para as traduções modernas do Antigo Testamento.
Desde a terceira edição da BHS (1937) – hoje, está em execução a quinta –, o texto apresentado é a publicação diplomática do Códice de Leningrado, que representa o impresso de um manuscrito.
 (
Página
 
do
 
Códice de
 
Leningrado (fólio
 
474a)
)
(Fonte: https://goo.gl/3h7irp
<https://goo.gl/3h7irp> )
 (
Há, ainda, outros manuscritos hebraicos – como o Códice do Cairo,
 
contendo os 
Profetas 
(896 d.C.) – e outros manuscritos datados a partir
 
do século X, inclusive os manuscritos iluminados (ilustrados), presentes
 
na 
Biblioteca Di
g
ital da Universidade de Cambrid
g
e
<htt
p
://cudl.lib.cam.ac.uk/collections/hebrew>
 
.
Saiba mais
)
 (
Esses manuscritos são as mais antigas evidências do texto hebraico
 
vocalizado.
 
Na
 
Antiguidade,
 
a
 
língua
 
hebraica
 
era
 
escrita
 
sem
 
vogais.
 
As
 
evidências fragmentárias mais antigas de textos vocalizados pertencem
 
ao
 
século VI ou, talvez, ao século V d.C.
)
Manuscritos do Mar Morto
A descoberta dos Pergaminhos do Mar Morto nas cavernas perto de Qumran, ao sul de Jericó, a partir de 1947, trouxe à luz manuscritos de livros bíblicos datados 1.000 anos antes do Códice de Aleppo.
Todos os livros bíblicos, exceto Ester, são atestados na coleção de Qumran, mas muitos manuscritos estão em fragmentos. Analisá-los exigiu – e ainda exige – grande esforço dos críticos textuais.
Não há, nos manuscritos de Qumran, sinais massoréticos, uma vez que o sistema foi desenvolvido séculos mais tarde. Sendo assim, esses manuscritos ajudam a reconstituir a história do texto consonantal.
Ainda que a maioria dos textos esteja fragmentada, há textos praticamente integrais, como o rolo de Isaías (1QIsaª). Esse pergaminho contém todo o livro de Isaías e data de cerca de 100 a.C.
Há manuscritos bíblicos em Qumran que datam do século III a.C.
A maioria dos rolos compreende apenas um livro bíblico, mas três manuscritos da Torah continham dois livros consecutivos. Os Doze Profetas – chamados, também, de Profetas Menores – estavam em um único rolo. Muitos desses textos concordam, substancialmente, com o texto copiado pelos massoretas
1.000 anos depois.
Reprodução fotográfica de 1QIsaª (rolo de Isaías). O mais preservado manuscrito encontrado
nas Cavernas de Qumran (Fonte:
https://goo.gl/za9dZz
<https://goo.gl/za9dZz> )
Apesar da concordância em um âmbito mais geral, há textos entre os Manuscritos do Mar Morto que contêm outras formas de textos bíblicos. Vários destes, incluindo uma cópia importante do livro de Êxodo (4QpaleoExodm), estão mais próximos da forma do texto preservada na tradição samaritana.
Atenção
Há uma tradição do Pentateuco utilizada em Samaria – cidade do centro da Palestina (Pentateuco Samaritano) – que é, muitas vezes, mais longa do que oTexto Massorético – representado pelo Códice de Leningrado –, porque adiciona frases ou citações de outras passagens bíblicas, ou, ainda, uma declaração para indicar o cumprimento de algo escrito.
Os manuscritos de Qumran que utilizam o texto próximo ao Pentateuco Samaritano mostram não apenas a antiguidade dessas versões mas também sua circulação. Em outros casos, alguns livros bíblicos se assemelham mais à versão do texto na Septuaginta do que à versão do Texto Massorético.
Outros manuscritos
As cópias mais antigas dos textos do Antigo Testamento são as traduções em grego, exceto os Manuscritos do Mar Morto. Há fragmentos de manuscritos bíblicos gregos do século II a.C.
Os manuscritos completos mais antigos datam do século IV d.C.: Códice Vaticanus e Códice Sinaiticus. Outro importante manuscrito (Códice Alexandrinus) data do século V d.C. Esses manuscritos são conhecidos como unciais, pois se utilizam apenas vogais e consoantes maiúsculas.
Geralmente, os manuscritos da Antiguidade, com traduções gregas dos livros bíblicos, são muito literais e refletem o texto hebraico de perto. No entanto, há casos em que a LXX difere do Texto Massorético7.
Portanto, não há uma cópia perfeita do texto autógrafo8, e sim cópias feitas séculos depois que os livros foram originalmente compostos, as quais, geralmente, divergem entre si.
Entretanto, o número de textos disponíveis proporciona a possibilidade de reconstituir o bíblico em termos bem razoáveis: um escrito que sirva de base para as traduções do texto hebraico do Antigo Testamento nas muitas línguas modernas.
 Reprodução fotográfica do Códice Vaticanus contendo Esdras 2.1-8 (Fonte: https://goo.gl/axGiDx
<https://goo.gl/axGiDx> )
 (
Atividade
2. Veja a relação de livros, na ordem em que aparecem no 
Códice de
 
Lenin
g
rado <
g
aleria/aula2/anexo/a02_doc2.
p
df>
 
(
Codex
 
Leningradendis
, 1009 d.C. – conhecido, também, pela letra L ou por
 
Firkovich B 19
). Depois, compare essa relação de livros e sua ordem com
 
os nomes dos livros e as respectivas ordens na 
Bíblia Almeida Revista
 
e Atualizada <
g
aleria/aula2/anexo/a02_doc3.
p
df>
 
, publicada
 
pela Sociedade Bíblica do Brasil. Os livros são os mesmos, mas a
 
organização é diferente.
)
Traduções em língua portuguesa
Vamos analisar, agora, uma linha do tempo que destaca os momentos marcantes das traduções do Antigo Testamento em português:
Séculos XIII-XIX
A primeira tradução é do século XIII. Dom Dinis (1261-1325), o poeta – Rei de Portugal entre 1279 e 1325 –, traduziu os 20 primeiros capítulos de Gênesis a partir da Vulgata Latina9. Um século depois, D. João I (1357-1433) traduziu os Salmos.
Em 1491, foi publicado o Pentateuco, mas as iniciativas de tradução foram encerradas em 1547, visto que a Inquisição, além de perseguir os judeus, proibia versões da Bíblia que não fossem a Vulgata. Ainda assim, o Pentateuco foi publicado nesse ano, em Constantinopla, por judeus portugueses.
A primeira tradução completa do Antigo Testamento foi feita por por João Ferreira de Almeida (1628-1691) até Ezequiel 48.12, a partir do Texto Massorético. A tradução foi completada por Jacobus op den Akker e concluída em 1694.
 (
Após
 
as
 
revisões,
 
a
 
edição
 
da
 
tradução
 
da
 
Bíblia
 
completa
 
(Antigo
 
e
 
Novo
 
Testamento)
 
foi publicada
 
em 1748.
Entre 1782 e 1790, António Pereira de Figueiredo traduziu o Antigo Testamento
 
a
 
partir
 
da
 
Vulgata
 
e
 
publicou-o
 
em
 
17
 
volumes.
 
A
 
primeira
 
tradução
 
no
 
Brasil
 
a
 
partir do hebraico foi realizada por D. Pedro II, que traduziu Neemias e outras
 
porções do Antigo Testamento a partir do Texto Massorético, mas não publicou
 
seu
 
trabalho.
A
 
tradução
 
da
 
Bíblia
 
feita
 
por
 
João
 
Ferreira
 
de
 
Almeida
 
–
 
e
 
completada
 
por
 
Jacobus
 
op den Akker – foi revista e corrigida em 1898.
)
Século XX
Em 1917, Hugh Clarence Tucker, William Cabel Brown, Eduardo Carlos Pereira, Ruy Barbosa, José Veríssimo e Virgílio Várzea terminaram o trabalho de tradução e publicaram a chamada Tradução Brasileira. Nesse mesmo ano, Esteves Pereira traduziu o livro do profeta Amós a partir de um manuscrito etíope.
Traduções católicas a partir da Vulgata e de outras línguas foram realizadas em:
1950 – tradução de Manoel de Matos Soares;
1959 – tradução dos monges de Maredsous a partir da versão belga; 1976 – tradução da Bíblia de Jerusalém a partir da edição francesa.
Além disso, a tradução da Bíblia feita por João Ferreira de Almeida foi revista e atualizada em 1959.
O judaísmo produziu duas significativas edições da Bíblia Hebraica. A primeira é de Meir Matzliah Melamed – rabino que traduziu e publicou a Torah em 1962.
Os protestantes publicaram, ainda, em:
1967 – Versão Revisada, promovida pela Imprensa Bíblica Batista; 1981 – Bíblia Viva, feita a partir da versão inglesa de Kenneth Taylor;
1990 – Edição Contemporânea da Bíblia de Almeida, feita pela Editora Vida; 1994 – João Ferreira de Almeida Corrigida e Fiel, promovida pela Sociedade Bíblica Trinitariana.
Há, também, traduções católicas a partir do Texto Massorético. São elas:
 (
1982
 
–
 
Bíblia
 
Vozes,
 
traduzida
 
por
 
uma
 
comissão
 
presidida
 
por
 
Ludovico
 
Garmus;
1990
 
–
 
Edição
 
Pastoral,
 
traduzida
 
por
 
uma
 
comissão
 
presidida
 
por
 
Ivo
 
Storniolo.
A
 
versão
 
que
 
representa
 
o
 
esforço
 
ecumênico,
 
unindo
 
protestantes,
 
católicos,
 
ortodoxos
 
e
 
judeus,
 
é
 
a
 
Tradução
 
Ecumênica
 
da
 
Bíblia,
 
publicada
 
em
 
1997.
)
Século XXI
Uma versão da Torah Viva, publicada, originalmente, em inglês, foi feita por Adolfo Wesserman e divulgada em 2001.
Outras traduções católicas a partir da Vulgata e de outras línguas foram realizadas em:
2002 – Bíblia do Peregrino, traduzida por Luis Alonso Schökel; 2009 – Reina-Valera, traduzida a partir do espanhol.
A segunda edição da Bíblia Hebraica produzida pelo judaísmo foi a Tanak, traduzida por David Gorovits e Jairo Fridlin e publicada em 2006.
Os protestantes publicaram, ainda, em:
2007 – Bíblia Almeida Século XXI, publicada pelas editoras Vida Nova, Atos e Hagnos;
2012 (revisada em 2017) – Bíblia King James Atualizada; 2014 – Bíblia Viva revisada.
 (
Atividade
Quais
 
são
 
os
 
três
 
grupos
 
de
 
manuscritos
 
importantes
 
para
 
reconstituir
 
os
 
textos
 
do Antigo
 
Testamento?
Texto
 
Massorético,
 
Manuscritos
 
do
 
Mar
 
Morto
 
e
 
Septuaginta.
Pentateuco,
 
Profetas
 
e
 
Escritos..
Septuaginta,
 
Vulgata
 
e
 
1QIsaª.
Texto
 
Massorético,
 
Vulgata
 
Latina
 
e
 
Traduções
 
Siríacas.
Vulgata,
 
Manuscritos
 
do
 
Mar
 
Morto
 
e
 
Septuaginta.
)
Notas
Cânon 1
Em termos mais estritos e etimológicos, a palavra cânon provém do vocábulo grego kánṓn, que significa “regra” ou “vara de medir”. O termo foi usado no plural por bibliotecários e estudiosos da antiga Alexandria no período helenístico (terceiro e segundo séculos a.C.) para fazer referência aos clássicos literários em oposição às demais obras, como as tragédias gregas, por exemplo.
Na teologia cristã, o termo passou a ser usado no singular para designar as Escrituras como “regra da fé”, a partir do século IV d.C. Em seu uso teológico, portanto, cânon é um conceito cristão mais tardio. Logo, é anacrônico em relação ao contexto do judaísmo antigo ou mesmo do cristianismo mais antigo.
Em linguagem comum, no entanto, cânon passou a significar, simplesmente, o corpus (conjunto de textos) das Escrituras, que, como vimos, varia entre as Igrejas Cristãs – e entre as Igrejas Cristãs e o judaísmo.
Massorético 2
Do vocábulo aramaico massorah, que significa “tradição”.
Crítica textual 3
Análise, comparação e adoção de critérios científicos para reconstituição de textos.
Massoretas 4
Escribas responsáveis pelas cópias do Texto Massorético.
Incêndio na sinagoga 5
O fogo destruiu:
· As primeiras 7 páginas do manuscrito com comentários gramaticais dos massoretas;
· 118 páginas com o Pentateuco até Deuteronômio 28.17;
· 3 páginas do livro de Reis (de 2 Reis 14.21 a 2 Reis 18.13);
· 3 páginas do livrode Jeremias (de 29.9 a 31.34) – a página que as precede está parcialmente rasgada;
· 3 páginas de Doze Profetas – de Amós 8.13 a Miqueias 5.1 (incluindo os livros Obadias e Jonas);
· 4 páginas do fim dos Doze Profetas – do fim de Sofonias até Zacarias 9.17 (incluindo Ageu);
· 2 páginas de Salmos (de 15.1 a 25.1);
· 36 páginas dos Escritos – do Cântico dos Cânticos (3.11) até o fim dos Escritos
(incluindo Eclesiastes, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras e Neemias);
· 1 página com uma descrição do Códice de Aleppo;
· 20 páginas no final do Códice de Aleppo – como anotações dos massoretas.
Recuperação 6
Em 1982, foi recuperado um fólio do manuscrito com 2 Crônicas 35.7-36.19. Em 1988, sete ou oito linhas do livro de Êxodo (capítulo 8) foram restauradas. Duas fotografias centenárias do manuscrito continham mais três fólios do Pentateuco.
Casos em que a LXX difere do Texto Massorético 7
Os livros de Jeremias e de Jó, por exemplo, são mais breves na LXX. A ordem dos capítulos em Jeremias também difere da ordem no Texto Massorético – mas coincide com a ordem de alguns manuscritos de Jeremias de Qumran. Todavia, há outros que se assemelham ao Texto Massorético.
A história de Davi e Golias da LXX (1 Samuel 16-18) é muito mais curta. Daniel 4-6 tem, na LXX, um texto muito diferente do encontrado no Texto Massorético.
Os Manuscritos de Qumran ajudam a entender que as diferenças entre o texto grego da Septuaginta e o Texto Massorético não advêm de problemas de tradução, mas da circulação de um texto hebraico mais curto. Contudo, no caso de Jó, os Manuscritos do Mar Morto não apresentam uma versão abreviada de Jó nem um texto diferente de Daniel 4-6.
Texto autógrafo 8
Proveniente da mão do autor.
Vulgata Latina 9
Tradução do hebraico para o latim feita por Jerônimo.
Referências
AVIGAD, N. Corpus of West Semitic Stamp Seals. Jerusalém: Israel Academy of Sciences and Humanities, 1997.
FRANCISCO, E. F. Manual da Bíblia Hebraica. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2005.
GOTTWALD, N. K. Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1997.
HILL, A. E.; WALTON, J. H. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Acadêmica, 2006.
SCHMIDT, W. H. Introdução ao Antigo Testamento. 5. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2013.
Próximos Passos
Civilizações mesopotâmicas;
Civilização egípcia;
Israel e seus Vizinhos.
Explore mais
Acesse o site da Livraria Digital de Manuscritos do Mar Morto Leon Levy: The Leon Levy Dead Sea Scrolls Digital Library <https://www.deadseascrolls.org.il/>
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A página é mantida pela Israel Antiquity Authority – órgão do governo de Israel responsável pela fiscalização, pela administração, pelo estudo e pela divulgação de achados arqueológicos.
Nela, estão disponíveis textos encontrados nas grutas de Qumran, que foram analisados, editorados, fotografados em alta resolução e organizados.
Em língua portuguesa, há o projeto Biblioteca Digital Mundial, mantido com o apoio da UNESCO, que permite o download dos 340 fólios da Bíblia Hebraica consultada por Alfonso de Zamora – professor de hebraico de Salamanca e Alcalá de Henares.
Para saber mais a respeito do projeto, acesse o Manuscrito da Bíblia Hebraica
<https://www.wdl.org/pt/item/17841/#institution=complutense- university-madrid> .

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