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A Educação, a Pedagogia e a Didática José Ramos Barbosa da Silva A Educação Diferentemente dos outros animais, a espécie humana desenvolve pouco o seu instinto, mas em compensação apresenta grande capacidade de aprender. Essa capacidade estabelece diferenças entre homens e mulheres e os outros animais. Se o gato, a tartaruga, o cavalo, o passarinho são capazes de desenvolver comportamentos específicos, onde o instinto responde com mais altivez, a espécie humana terá o seu comportamento determinado muito mais pelas coisas aprendidas do que pelo instinto. Segundo Fromm (s/d, p.48): “Quanto menos complexo e rígido for o equipamento instintivo dos animais, tanto mais desenvolvido será o cérebro e, por conseguinte, sua capacidade de aprendizagem. O aparecimento do homem pode ser definido como tendo ocorrido no ponto do processo da evolução em que adaptação instintiva atingiu o seu mínimo”. Nascemos frágeis e indefesos. Não sabemos falar, nem andar, nem procurar comida. Nossa sobrevivência depende da ajuda de outras pessoas, que, ao nos ajudar, nos ensinam a sobreviver. Desde que nascemos, aprendemos sobre cheiros, texturas, sabores, sons, cores, nomes, estruturas, funcionamentos, utilidades, linguagens, aparências, essências, sentidos, possibilidades de combinações; aprendemos a ser; a conviver com costumes de determinados lugares; a lidar com pessoas; a compreender e a labutar com os fenômenos naturais e com os decorrentes da ação humana. A cada fase da vida e a cada tempo, novas aprendizagens nos são exigidas de tal maneira que a vida, em todos os seus momentos, confunde-se com aprendizagem. Segundo Maria Valéria Rezende[1], “Quando nascemos, reparem bem, apenas temos alguns neurônios a mais do que um file:///C:/Users/Particular/Documents/DIDÃ�TICA/DIDÃ�TICA/aulas%20virtuais/AULAS%20EAD/AULA%201%20EAD%20perÃodo%202014%20DIDÃ�TICA.docx%23_ftn1 macaquinho e somos menos aparelhados de instintos do que ele. De tal maneira que ao nascermos somos mais frágeis e muito pouco diferentes dele. Mas, aos seis anos, uma criança já é capaz de saber se o que dizemos é sério ou se é brincadeira; já é capaz de distinguir gestos, representações, o que é figurado do que é real. Ela conhece os nomes e as funções das coisas, o que pode ser perdido ou guardado, ela é uma soma sofisticada de milhares de anos de criação cultural, que é transmitida a todas as crianças, resultado de um processo de construção de cultura e educação, feito pela sociedade inteira. São tantos saberes que a criança adquire nos primeiros seis anos de vida que, a cada semana, causa espanto. Nesse curto tempo, ela passa a dominar uma língua, o idioma de uma cultura complexa, ela aprende em seis anos mais do que oferece qualquer curso de doutorado. E quem a educou? Quem fez esse processo de transmissão de conhecimento e educação? Foi a sociedade inteira. Aonde se chega com uma criança tem sempre alguém que dirige a palavra a ela, há sempre uma criança mais velha que a chama para mostrar a boneca, para ensiná-la como se brinca. E assim por diante [...]”. Assim, desde cedo, aprendemos e ensinamos. Aprendemos pelos caminhos mais inesperados. Quando acertamos, quando erramos, tudo nos ensina. Aprendemos com o outro, conosco mesmo, em casa, no campo, na rua, com amigos, com colegas de trabalho, com experiências planejadas, com situações do acaso, a nossa vida é feita o tempo todo de aprendizagens. Tudo o que aprendemos na vida determina o nosso comportamento no mundo. Ação que envolve condições biológicas e se amolda ao ambiente de convivência e de relações sociais. Somos uma relação indivíduo-meio. Nossa aprendizagem não se explica nem se esgota na integridade biológica dos genes e dos cromossomos, nela influenciam as crenças, habilidades, valores culturais, esperanças, experiências, motivações, desejos e informações obtidas pelo nosso convívio social. Nossa aprendizagem influi e determina a nossa educação, para a qual, nos dias atuais, de um modo geral, se difunde e se aceita um conceito amplo que se relaciona à existência humana, em toda a sua duração e em todos os seus aspectos. “A educação é a transmissão integrada da cultura em todos os seus aspectos, segundo os moldes e pelos meios que a própria cultura existente possibilita. O método pedagógico é função da cultura existente. O saber é o conjunto dos dados da cultura que se têm tornado socialmente conscientes e que a sociedade é capaz de expressar pela linguagem. Nas sociedades iletradas não existe saber graficamente conservado pela escrita e, contudo, há transmissão do saber pela prática social, pela via oral e, portanto, há educação”. (PINTO, 2000: 30). Não há quem fuja da educação, vivemos sendo educados, o tempo todo. O mundo cuida da nossa educação, fazendo uso de suas instituições e pessoas. A igreja, a família, a escola, os clubes, os amigos, os shoppings, a política, tudo atua para a nossa conformação ao mundo existente. A educação declara as influências que recebemos, revela o nosso gosto estético pelas coisas, às crenças vividas, os conceitos e preconceitos cultivados, as habilidades desenvolvidas, a nossa preferência política, nosso procedimento social e privado. Ela é a cultura entranhada nos nossos hábitos, competências e costumes, é o resultado de tudo o que a gente aprende, de modo formal ou informal. Ela atua no nosso comportamento social e individual. Por isso não há pessoa sem educação. Há educações diferentes, com a probabilidade de existência de conflitos entre elas. Os modelos de educação A educação sempre esteve presente em qualquer forma de sociedade. Nas sociedades primitivas não havia escolas, nem métodos de educação. O ajustamento das pessoas era feito pela aquisição da experiência de gerações passadas, como ação prática. As crianças aprendiam por imitação, sem que houvesse uma consciência de processos de educação. A vida era largamente dedicada à sobrevivência: alimento, vestuário e abrigo. Mesmo assim havia rituais, que envolviam crenças, que se somavam ao lado prático da vida. Acreditava-se em duplos, em espíritos, e na necessidade de sobreviver sem ofender aos duplos. Tudo isso fazia parte de um modelo de educação. “Para o selvagem, e para o bárbaro, toda pedra, toda árvore, canoa, cachorro, enfim toda forma de existência material, quer animada, quer inanimada, possui uma alma semelhante à sua própria alma, chamada duplo. Essa crença não é resultado de reflexão, mas é devida ao fato de ele não estabelecer diferença nítida entre sua própria existência e a existência de todas as outras coisas animadas ou inanimadas”. (MONROE, 1988, p.5). Havia as cerimônias, nas quais era evidenciado o domínio dos mais velhos no controle da sociedade. Havia a preservação dos mitos, das danças, da ordem social, das crenças religiosas. Dessa forma, a sociedade, sem ter uma instituição própria de educação, assumia para si essa tarefa. Tão logo a sociedade passou a ser organizada em categorias ou classes sociais, cuidou também de zelar para que a educação incorporasse a manutenção da estabilidade social, deixando nas suas próprias matrizes a formação dos homens e das mulheres. Buscou isso através das “castas” e das “classes”, instituições que incorporavam a família, as crenças religiosas, as habilidades, os costumes, oferecendo formações próprias para uma vida previsível e conservadora. O artesão ensinava o seu ofício a seus iguais; o camponês se ocupava de trazer a seus descendentes o ofício de cuidar da terra e fazê-la produzir; o guerreiro era treinado para tarefas que exigiam bravura. Assim, a formulação dos objetivos educacionais estava dada para os modos pelos quais a sociedade se organizava e se fazia. Mas a educação é, conforme nos instrui Chauí (1986), um polo de conformismo, mas também de resistência. Por isso, apesar das instituições e das pessoas que cuidam de zelar pela preservação daeducação, considerada adequada para um determinado sistema de vida social, costume ou tradição local, há mudanças provocadas por novos fatos sociais, por descobertas, por insatisfações, ou por mutações ocorridas na natureza que levam às pessoas a repensarem suas ações individuais e sociais, seus hábitos, seus valores, promovendo mudanças de comportamento que interferem diretamente na educação. Assim a educação não é algo perene, varia de sociedade para sociedade, de época a época, atendendo conjunturas sociais, políticas e geográficas. Por ser algo desigual e de fundamental importância para a vida das pessoas, ela é um fenômeno que hoje é analisado. Visa-se cumprir a utopia de que é pelo estudo que chegaremos a propor ações que ocasionem melhores dias para as pessoas que hoje vivem ou para as que virão a viver, num futuro próximo. A Pedagogia Vivemos a educação sem nos dar conta de que ela é parte de nós, experimentamo-la de modo tão entrelaçado, que não nos preocupamos em observá-la. No entanto, pela importância que ela adquire no mundo social, com repercussões na vida pessoal e nos fenômenos ocorridos na natureza, passou-se a valorizá-la como objeto de estudo específico, próprio da Pedagogia. “A Pedagogia é um campo de conhecimentos que investiga a natureza das finalidades da educação numa determinada sociedade, bem como os meios apropriados para a formação dos indivíduos, tendo em vista prepará-los para as tarefas da vida social”. (LIBÂNEO, 1992, p.24). A Pedagogia, hoje ciência que estuda a educação, tem seu nome vinculado a palavras gregas: paidós, que significa criança; agein, que significa conduzir; logos, traduzido como tratado, ciência. Mas a origem da palavra nem sempre revela o significado que a palavra vai assumindo ao longo da História, pois as práticas sociais vão dando novos significados para ela, transformando-a em outras significações. Graças à origem do seu nome, pensou-se que a Pedagogia era uma ciência que se ocupava meramente da educação de crianças. Todavia, é necessário lembrar que a educação atinge a todas as pessoas, em qualquer circunstância social. Por isso não se pode reduzir a Pedagogia à educação de crianças. Ela é a ciência dedicada a estudar a educação em todas as suas formas. Ela dedica-se a educação formal, feita pelas instituições que planejam e definem cronogramas para a sua intervenção educativa, como por exemplo, a escola; também analisa as interferências educativas não-formais, relacionadas com a ação das igrejas, sindicatos, partidos políticos, associações de categorias esportivas, profissionais ou de outros interesses; observa ainda a educação informal, que acontece ocasionalmente no dia-a-dia das pessoas, no convívio com o trabalho, com os grupos de amigos, com a família, etc. Para perceber a amplitude alcançada pela educação na vida das pessoas, a Pedagogia, mesmo constituída em uma Ciência específica, necessitou de aportes teóricos oferecidos por outras ciências, classificadas de exatas ou de humanas. Ela necessita da Filosofia, da Sociologia, da História, da Geografia, da Estatística, da Psicologia, da Medicina, da Computação, etc. Isto para dar conta de conhecer melhor a educação em todas as circunstancias da vida humana. Destarte, ela hoje é uma ciência que oferece uma teoria geral da educação ou a ciência que cuida da formação humana. A Didática A Pedagogia ocupa-se da prática educativa e deixa que a Didática se especifique nas questões próprias do ensino- aprendizagem. Isso, dito por Libâneo e Alves (2012, p: 26): “Em termos simples: a didática cuida da formatação das aprendizagens, a pedagogia, das ações que podem assegurar as aprendizagens”. A Didática se ocupa de estudar o ensino, a partir das formas como ele é feito, dos objetivos que persegue, dos fundamentos nos quais ele se baseia. Ela é um esteio fundamental para a Pedagogia. Por ser uma ciência que investiga o ensino, está vinculada com a observação da aprendizagem. A Didática não se preocupa tanto com o conteúdo que vai ser ensinado, mas, principalmente, com a forma de repasse ou de compartilhamento desse conteúdo. Ela é um componente de planejamento e de monitoramento de situações de ensino- aprendizagem, podendo atender escolas, empresas, hospitais, sindicatos, igrejas, associações de profissionais, em ações específicas que requisitem ensino. Em suma, ocupa-se de contribuir com a formação profissional do professor de qualquer área. Por isso muitos a concebem como uma matéria técnica. No entanto, para que a Didática se dedique ao lado técnico do ensino, é necessário, antes, saber: para quem o ensino proposto se destina; sob qual propósito social e político; para quais objetivos; em que tempo; em que conjuntura; etc. Pois qualquer técnica de execução de ensino está subordinada a razões pelas quais o ensino foi tornado uma demanda. Assim como a Pedagogia, a Didática não pode sobreviver isolada das contribuições oferecidas por outras ciências. Ela depende da Filosofia, da Sociologia, da Psicologia, da Política, da História e de outras ciências, a depender da cobrança do ensino em questão. Por isso a Didática, hoje, é um componente que trabalha sob a lógica da interdisciplinaridade, mesmo sendo uma disciplina prática. São muitas as perguntas para quem se dedica ao ato de ensinar. A Didática é o componente curricular que pensa o que deve ser ensinado e propõe a maneira do como se pode fazê-lo. Uma tarefa difícil, pois o ensino está vinculado a contextos, a conteúdos, a linguagens, a sujeitos, a situações perenes ou datadas. Por isso a Didática é feita de planejamentos, vinculada às escolhas filosóficas e políticas, estruturada em ações que seguem etapas, para atingir os objetivos traçados. A Didática, por acompanhar situações de ensino em circunstâncias que envolvem pessoas que vivem imersas em situações sociais que incluem as condições humanas de vida, nunca pode ser concebida como ação técnica, definitiva e acabada, isolada em si mesma. Na Didática, alguns planos de trabalho pedem ajustes, incluindo a redefinição de objetivos, de metodologias, de conteúdos, de justificativas, a depender de cada caso. Pois nela tudo está sintonizado a contextos sociais, a situações políticas e históricas. Sua ação tem ao seu redor o mundo concreto com seus problemas e desafios. Ao pensar formas de uma atuação pedagógica de ensino para esse mundo, é preciso considerar as situações individuais de aprendizagem dos sujeitos e os envolvimentos desses sujeitos com o mundo político e social à sua volta. Assim, a Didática, como matéria que estuda e propõe o como ensinar, será sempre um componente ativo para quem vive deste ofício de ensinar. Em alguns casos, é preciso repensar a proposta de ensino em vias de acontecer ou a que está em processo de efetivação. De vez em quando, é preciso se reavaliar as estratégias adotadas para o ensino. Lembrando que o que mais o aluno aprende é o que ele mesmo estuda. Bibliografia citada: CHAUI, Marilena. Conformismo e resistência. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. FROMM, Erich. Análise do homem. São Paulo: Círculo do livro, s/d. LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1992. LIBÂNEO, José Carlos; ALVES, Nilda (orgs). Temas de pedagogia: diálogos entre didática e currículo. São Paulo: Cortez, 2012. MONROE, Paul. História da educação. 19 ed. São Paulo: Editora Nacional, 1988. PINTO, Alvaro Vieira. Sete lições sobre educação de adultos. 11 ed. São Paulo: Cortez, 2000. [1] Maria Valéria Rezende, em palestra proferida no “Seminário para Professores de EJA do Município de João Pessoa: Políticas Públicas e EJA no município de João Pessoa”. Hotel Netuanah - João Pessoa/PB, 19 de dezembro de 2006. file:///C:/Users/Particular/Documents/DIDÃ�TICA/DIDÃ�TICA/aulas%20virtuais/AULAS%20EAD/AULA%201%20EAD%20perÃodo%202014%20DIDÃ�TICA.docx%23_ftnref1