Prévia do material em texto
PROFESSORAS Dra. Paula Marçal Natali Esp. Luana Biembengut Biato da Costa Quando identificar o ícone QR-CODE, utilize o aplicativo Unicesumar Experience para ter acesso aos conteúdos online. O download do aplicativo está disponível nas plataformas: Acesse o seu livro também disponível na versão digital. Google Play App Store JOGOS, BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS 2 NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jd. Aclimação Cep 87050-900 - Maringá - Paraná - Brasil www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 DIREÇÃO UNICESUMAR Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva, Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin, Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes, Tiago Stachon Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho Diretoria de Cursos Híbridos Fabricio Ricardo Lazilha Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Diretoria de Design Educacional Paula R. dos Santos Ferreira Head de Graduação Marcia de Souza Head de Metodologias Ativas Thuinie M.Vilela Daros Head de Recursos Digitais e Multimídia Fernanda S. de Oliveira Mello Gerência de Planejamento Jislaine C. da Silva Gerência de Design Educacional Guilherme G. Leal Clauman Gerência de Tecnologia Educacional Marcio A. Wecker Gerência de Produção Digital e Recursos Educacionais Digitais Diogo R. Garcia Supervisora de Produção Digital Daniele Correia Supervisora de Design Educacional e Curadoria Indiara Beltrame Coordenador(a) de Conteúdo Mara Cecília Rafael Lopes, Projeto Gráfico José Jhonny Coelho, Editoração Arthur Cantareli Silva, Designer Educacional Patrícia Peteck, Revisão Textual Ana Caroline Canuto de Sousa Baniogli, Ilustração André Azevedo, Fotos Shutterstock. C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; NATALI, Paula Marçal; COSTA, Luana Biembengut Biato da. Jogos, Brinquedos e Brincadeiras Paula Marçal Natali; Luana Biem- bengut Biato da Costa. Maringá - PR.:Unicesumar, 2022. 164 p. ISBN 978-65-5615-886-0 “Graduação em Educação Física - EaD”. 1. Jogos. 2. Brinquedos. 3. Brincadeiras. 4. EaD. I. Título. CDD - 22ª Ed. 372.3 Ficha Catalográfica Elaborada pelo Bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Impresso por: Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não somente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão integral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 500 polos de educação a dis- tância espalhados por todos os estados do Brasil e, também, no exterior, com dezenas de cursos de gradua- ção e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educadores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compro- misso com a qualidade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é pro- mover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! Wilson Matos da Silva Reitor da Unicesumar boas-vindas Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Comunidade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a Unicesumar tem sido conhecida pelos nossos alunos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhe- cimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâmico, renovável em minutos, atemporal, global, democratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da educação por meio da conectividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets aceleraram a informação e a produção do conhecimento, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transfor- mou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modificou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecnologias atuais e suas novas ferramentas, equipa- mentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transformando a todos nós. Então, priorizar o conhe- cimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em informações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer. Willian V. K. de Matos Silva Pró-Reitor da Unicesumar EaD Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está ini- ciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunida- des e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desa- fios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con- tribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competên- cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mer- cado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvol- vimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendi- zagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica. boas-vindas Paula R. dos Santos Ferreira Diretoria de DesignEducacional Janes Fidélis Tomelin Pró-Reitor de Ensino de EAD Kátia Solange Coelho Diretoria de Graduação e Pós-graduação Leonardo Spaine Diretoria de Permanência minha história meu currículo Esp. Luana Biembengut Biato da Costa Olá, aluno(a)! Espero encontrá-lo(a) bem! Antes de iniciarmos os nossos estudos, quero dividir com você um pouco da minha relação com o brincar. Eu sempre fui muito brincante. Minha formação pessoal se iniciou na infância, num quintal com mais 4 crianças e uma rua cheia de gente que gostava de brincar. A garagem de casa era o palco, a rampa de entrada era o auditório, e toda vizinhança vinha brincar de fazer de conta. O asfalto era o nosso papel e a extensão do nosso quintal, eram todas as idades num só lugar. Você deve estar pensando em uma cidadezinha do interior, pois bem, isso se passou em São Paulo, dá para acreditar?! Ainda na minha infância, conheci a que viria ser a minha profissão, a Recreação. Nas férias, nós passávamos 7 dias com os Recreadores, brincando, jogando e tudo mais que um evento recreativo tem direito. E foi esse encantamento que me levou a ingressar na graduação em Educação Física, quando já no primeiro ano de faculdade busquei cursos de jogos e brincadeiras, comecei a estagiar em um local pedagógico de recreação, logo já estava trabalhando em um Hotel Fazenda e em um Resort. No meu quarto ano de graduação, comecei a ministrar cursos de recreação para compartilhar os conhecimentos sobre os jogos e as brincadeiras. Atualmente, para somar a esse meu repertório de experiências, me dedico aos estudos sobre o desenvolvimento infantil por meio da Psicomotricidade. Aqui você pode conhecer um pouco mais sobre mim, além das informações do meu currículo. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/10303 minha história meu currículo Dra. Paula Marçal Natali Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM/2016). Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Pon- ta Grossa (UEPG/2009). Especialista em Políticas Sociais para Infância e Adolescência pela Universidade Estadual de Maringá (UEM/2006). Graduação em Educação Física pela Universidade Estadual de Maringá (UEM/2003). Atualmente, é professora da Universidade Estadual de Maringá, no Campus Regional do Vale do Ivaí, no curso de Educação Física. Membro da equipe coordenadora do Programa Multidisciplinar de Estudos, Pesquisa e Defesa da Criança e do Adolescente PCA/ UEM. Atua principalmente com os temas dos direitos das crianças, educação social e cultura lúdica. Aqui você pode conhecer um pouco mais sobre o meu currículo lattes. http://lattes.cnpq.br/3738805977157385 provocações iniciais JOGOS, BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS “O homem só é inteiro quando brinca, e é só quando brinca que ele existe na completa acepção da palavra homem. ” “Lydia Hortélio costuma citar essa fala do ensaísta e poeta alemão Friedrich Schiller, quando se refere ao papel fundamental do brincar na vida de uma pessoa. ” (ITAÚ CULTURAL, 2019). Ela que é fundadora da ‘Casa das Cinco Pedrinhas’, educadora e etnomusicóloga, apresenta por meio dos seus trabalhos, o conceito de que as brincadeiras tradicionais e as canções popu- lares são patrimônio imaterial brasileiro. E segundo o Itaú Cultural (2019): “A pesquisadora apresentou seu trabalho pioneiro de desenvolvimento dos conceitos de Cultura da Criança e de Música Tradicional da In- fância, que contribuiu para a elaboração de uma nova concepção de infância, de educação e de educação musical, com ênfase no protagonismo infantil”. Estudiosos e pesquisadores de diferentes áreas têm se dedicado ao tema dos jogos e das brincadei- ras tradicionais, muitos deles com o propósito de valorizar e preservar a cultura nacional brasileira. Até certo tempo atrás, o brincar era transmitido de geração em geração num processo natural, porém podemos perceber uma “quebra” nesse ciclo, quan- do os equipamentos eletrônicos assumem o papel do mediador da infância. Você já havia parado para pensar a esse respeito? Nesse cenário, comumente, emergem alguns questionamentos, e te convido a responder alguns deles: quando foi a última vez que você brincou de algum jogo ou brincadeira tradicional da sua infância? Você já ensinou brincadeiras da sua infância para alguma(s) criança(s)? Em tempos no qual não se vê mais crianças e jovens brincando nas ruas e nas praças, alguns estudos da psicologia, filosofia, educação etc., buscam compreen- der a importância daquele brincar coletivo e livre, que não vemos com tanta frequência, ou quase nenhuma frequência. E o que as novas gerações perdem com a falta dessas experiências que o brincar possibilita? Po- demos listar juntos: como a criatividade, a convivência em grupo, a liberdade de agir e pensar, o enfrentamento de conflitos e a resolução deles, a alegria de viver e a criação de laços de amizade, as experiências corporais e motoras, o desenvolvimento e a descoberta de habi- lidades e do autoconhecimento. Portanto nós iremos, por meio desse material, te apresentar alguns conceitos, características, legislações e conteúdos que permeiam as temáticas jogos, brinque- dos e brincadeiras, pois quando graduados em Educação Física, somos agentes do brincar, em especial, na área da educação escolar ou da recreação. E quando conhe- cedores dos nossos compromissos, podemos assumir o papel de valorizar as brincadeiras e concretizar ações que viabilizem essas experiências para as crianças e jovens, e por que não para adultos e idosos?! “É brincando que a criança – ou o adulto que não chegou a abandonar sua porção infantil – evidencia seu estado de abertura para o mundo, sua irrestrita e contínua curiosidade e a naturalidade com que funde o pensar e o agir” (ITAÚ CULTURAL, 2019). Sejam bem-vindos ao universo de possibilidades dos Jogos, Brinquedos e Brincadeiras! Bons estudos! sumário UNIDADE I 10 FUNDAMENTOS DOS JOGOS, BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS UNIDADE II 42 LEGISLAÇÕES E O DIREITO A BRINCAR UNIDADE III 72 JOGOS E BRINCADEIRAS: CARACTERÍSTICAS E CLASSIFICAÇÕES UNIDADE IV 100 O BRINQUEDO: ASPECTOS CONTEMPORÂNEOS UNIDADE V 126 JOGOS, BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS: DIFERENTES INFÂNCIAS, CONTEXTOS E INTERVENÇÕES Esp. Luana Biembengut Biato da Costa Oportunidades de aprendizagem Na Unidade 1, você terá a oportunidade de aprofundar os seus estudos sobre os conceitos de Jogos, Brinquedos e Brincadeiras, as mudanças sofridas no decorrer da história, as diferenças conceituais entre diversos teóricos da área; além de poder refletir sobre os seus próprios conceitos e vivências no campo da ludicidade. É importante entendermos todas essas questões na hora de desenvolver uma intervenção com crianças, jovens ou mesmo adultos e idosos. FUNDAMENTOS DOS JOGOS, BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS unidade I 12 Quando pensamos sobre o brincar, nossos con-ceitos estão em estreita relação com a nossa cultura, com os espaços em que vivemos e com o tempo em que fomos crianças, e como você pode perceber e facilmente constatar, esse conceito do brincar vem se alterando de forma veloz em razão das mudanças dos nossos costumes, rotinas, hábitos ou estilo de vida. Qual é o conceito de brincar dos dias atuais? Falar do brincar é falar de: quem brinca? onde brin- ca? com quem brinca? quanto tempo brinca? e final- mente: do que brinca? O curta-metragem “O Fim do Recreio” do diretor Vinicius Mazzon e Nélio Spréa, premiado na 11ª Mos- tra de Cinema Infantil de Florianópolis, nos convida a reflexionar sobre essas mudanças, que ao longo do tem- po, vem sofrendo a cultura infantil, ou melhor, a nossa cultura como um todo, e a minha pergunta é: estamos esquecendo de como é importante brincar? O enredo do filme traz a problemática de um pro- jeto de lei que pretende acabar com o recreio escolar e, ao mesmo tempo, a mobilização das crianças diante des- sa realidade. Te convido agora paraassistir essa história https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14670 13 EDUCAÇÃO FÍSICA que mesmo sendo uma ficção, infelizmente, pode se as- semelhar muito com a realidade. Diante dessa problemática, o brincar e a atualidade, precisamos olhar para a nossa própria história e tam- bém para a história da humanidade, a fim de ampliar- mos nossa compreensão a respeito das mudanças e os seus impactos. Está aí, a maneira de compreendermos de onde viemos como indivíduos sociais e culturais, qual percurso trilhamos ao longo dos séculos e décadas, o que conquistamos, o que produzimos e para onde esta- mos indo enquanto organização social. Esse olhar para a nossa história nos revela que o brin- car e o jogar não são expressões unicamente da infância, essa atividade humana faz parte de todas as fases da vida e, durante muito tempo, diferente de hoje, era uma atividade essencialmente da vida adulta, em que as crianças podiam tomar parte na medida que fossem crescendo e se tornan- do capazes de participar da vida na comunidade. Um outro aspecto do brincar é a sua relação estreita com o estilo de vida dos adultos, pois nas brincadeiras as crianças assumem papéis, como uma forma de criar, recriar e reviver as situações observadas do dia a dia dos seus pais, familiares, professores etc. Eu te desafio a refletir sobre a sua própria história como indivíduo brincante e proponho que você faça essa reflexão preenchendo os quadros, a seguir, a fim de criar uma linha do tempo do seu brincar. Para isso, no item “ONDE?” descreva em quais espaços você brincava, como escola, praça, rua, quintal etc. “COM QUEM?” des- creva com quem você brincava, como irmãos, primos, pais, avós, vizinhos, amigos da escola etc. “QUANDO?” descreva com que frequência você brincava, quantas horas por dia, quantas vezes por dia, quantas vezes por semana etc. “DO QUE?” descreva do que você brincava, por exemplo, de correr, jogar bola, de “faz de conta” como casinha, de jogos eletrônicos etc. Vamos lá? 14 Até os 7 anos Onde? Com quem? Quando? Do que? Até os 12 anos Onde? Com quem? Quando? Do que? Até os 18 anos Onde? Com quem? Quando? Do que? A PARTIR Dos 25 anos Onde? Com quem? Quando? Do que? 15 EDUCAÇÃO FÍSICA Após esse registro da sua própria história, eu ainda te de- safio a fazer essas mesmas perguntas para alguém, pelo menos 30 anos mais velho que você, e comparar as mu- danças de experiências com o brincar que vocês tiveram. Esse exercício que acabamos de fazer é necessário para todos aqueles que um dia irão trabalhar com a in- fância ou com os conteúdos dos jogos e brincadeiras. Nosso objetivo aqui, é buscar em nossa própria memória recursos e experiências que nos deem base para a com- preensão do papel do brincar no desenvolvimento de uma criança, os impactos dessas experiências para toda uma vida. Nessa etapa do nosso estudo, você já começa a construir o seu próprio repertório, o qual se tornará seu material de trabalho para a sua vida profissional. Pensar em nossa própria história, também nos sensibili- za para que compreendamos a criança que vive na sociedade de hoje, e nesse sentido faço a seguinte questão: como é o brincar das crianças dos tempos atuais? Há espaços e tem- pos na rotina delas para brincar? Elas brincam com outras crianças? Quais mudanças também sofreram os brinquedos? Compare as mudanças que você consegue perceber da nossa cultura do brincar ao longo das décadas, pensando no seu brincar com o brincar das crianças de hoje e ainda, se possí- vel, compare com o brincar de gerações anteriores a sua. 16 Caro(a) aluno(a), nesta primeira unidade, iremos viajar um pouco pelo tempo por meio dos jogos, brinquedos e brincadeiras, para termos um panorama histórico geral do nosso assunto principal, mas, em especial, iremos compre- ender que o papel da criança na sociedade sempre sofreu mudanças e naturalmente o brincar também se modificou. A história do brinquedo, do jogo e da brincadeira é tão antiga quanto possamos ter acesso ao registro da história da humanidade. Se tivermos acesso aos museus, podemos identificar objetos que são considerados brinquedos de tempos longínquos como piões, bonecas e bolas, o que nos mostra que muitas manifestações desta natureza se man- têm nos tempos e são transmitidas de geração em geração. Kishimoto (1995) remonta à Antiguidade o registro do homem e do brincar, a autora nos conta que Platão exaltava o valor da aprendizagem a partir do brincar em detrimento da utilização da violência neste processo, ape- sar de que naquela época, atividades lúdicas e jogos, ainda não eram reconhecidos como uma linguagem apropriada para o ensino da leitura e do cálculo. Aristóteles nos diz sobre a possibilidade de ensinar às crianças pequenas, por meio de jogos, as atividades e ocupações dos adultos, con- sideradas mais sérias que as típicas infantis. Philippe Ariès (1981), um pioneiro nos estudos so- bre as concepções de infância, desenvolve em sua obra os elementos que nos contam sobre a infância e seu brincar. Diversos autores utilizam a obra deste historiador fran- cês como base para tratar dos jogos, das brincadeiras e dos brinquedos por meio dos séculos. Ariès desenvolve seus estudos a partir de diversos documentos da Idade Média e Moderna, especialmente, o contexto da França neste período, destacando a utilização de quadros e gra- vuras em suas pesquisas (CAMPOS, 2012). O autor parte da história das crianças e nos conta so- bre o brincar no século XVII com a história de uma criança da corte (que futuramente se tornaria o Rei Luís XIII), mas também se trata da história de outras crianças, pois, neste período, ainda não havia uma diferença tão marcada, como posteriormente haveria, entre as brincadeiras das crianças bastardas, nobres e as brincadeiras que envolvessem adultos. Muitas são as atividades lúdicas relatadas por Ariès (1981) como: jogos de malha, raquetes, xadrez, jogos de imitação, de rima, jogos de cartas, prática de arco e jo- gos de salão. Sobre os brinquedos, narra atividades com miniaturas de diversos objetos, bonecas, cavalos de pau, cata-vento, pião e atividades com recortes. 17 EDUCAÇÃO FÍSICA Tomando como exemplo a educação de uma criança no- bre – que não representa a totalidade da cultura lúdica infantil no período, mas nos fornece dados importantes sobre ela –, destacamos que, por volta dos sete anos, al- guns elementos da vida dos pequenos modificavam-se e eles passavam a se dedicar às atividades mais próximas ainda da vida adulta, “um pouco mais de bonecas e de brinquedos alemães antes dos sete anos, um pouco mais de caça, cavalos, armas e talvez teatro após essa idade: a mudança se faz insensivelmente nessa longa sequência de divertimentos que a criança toma emprestada dos adultos ou divide com eles” (ARIÈS, 1981, p. 72). de crianças pequenas, menores de seis anos e não entre crianças maiores ou adultos. As crianças menores tinham brincadeiras mais ca- racterísticas e, por volta dos quatro anos, já passavam a desenvolver suas brincadeiras mais relacionadas ao mundo adulto, podendo vivenciá-las com os adultos ou apenas entre os grupos de crianças. De acordo com Ariès, este cenário é possível de nos ser revelado, pois da Idade Média até o século XVIII, era corriqueiro, nas obras de arte, serem retratadas cenas de jogos, o que nos mostra o “[...] índice do lugar ocupado pelo divertimen- to na vida social do Ancien Régime” (ARIÈS, 1981, p. 77). Esta idade das crianças era marcada por mudanças em suas atividades, que eram recomendadas pela literatura educacional e moralista do período. As orientações afir- mavam que esta seria a idade ideal para o início dos es- tudos e do trabalho. É muito importante esclarecermos um traço que caracteriza o jogar e brincar neste período da história: crianças, adolescentes e adultos comparti- lhavam essas vivências, não havia um limite tão claro, como temos agora, entre atividades maisapropriadas para a infância e as mais apropriadas para os adultos no que se referia à ludicidade. Até o início do século XVII, a diferença no brincar era mais explícita quando se tratava O quadro anterior, datado de 1560, recebe o nome Kin- derspiele, que traduzido para o português, será Jogos In- fantis que é uma pintura do holandês Pieter Bruegel e está exposto no Museu de História da Arte de Viena - Áustria. A pintura impressiona pelas mais de 230 pessoas envolvidas em 83 diferentes jogos. Pieter Bruegel é co- nhecido por apresentar em suas obras a vida camponesa Descrição da Imagem a figura apresenta uma obra, datada de 1560, é uma pintura do holandês Pieter Bruegel. Na pintura são ilustrados diversos jogos, brinquedos e brincadeiras infantis. Figura 1 - Kinderspiele (Jogos Infantis) de Pieter Bruegel Fonte: Wikiart (1560, on-line). 18 da época e podemos observar também nos detalhes os materiais utilizados como brinquedos, bem característi- cos da realidade retratada. O Museu de História da Arte nos convida para um passatempo prazeroso: decifrar de forma minuciosa cada jogo presente na pintura. E ainda se refere a este trabalho como uma “enciclopédia” pinta- da, além de ser único na história da arte. Quantas brincadeiras e brinquedos (ou objetos usa- dos como brinquedos), você consegue reconhecer nesse quadro de Pieter Bruegel? Jogos/Brincadeiras Brinquedos O que você pensaria, hoje, como futuro(a) professor(a), se alguém afirmasse que as crianças com quais você tra- balha apostam dinheiro em seus jogos? Possivelmen- te, entenderia como uma atividade inapropriada para crianças. Entretanto, até o século XVII e início do XVIII, essa ação era completamente corriqueira, da mesma for- ma que se tem registros de adultos brincando entre eles e as crianças em uma forma de cabra-cega. Fazia parte do cotidiano que crianças apostassem e participassem dos chamados jogos de azar, que “[...] não provocavam nenhuma reprovação moral, não havia razão para proi- bi-los às crianças: daí as inúmeras cenas de crianças jo- gando cartas, dados, gamão etc., que a arte conservou até nossos dias” (ARIÈS, 1981, p. 89). Sendo assim, na atualidade, podemos ter a noção de que estes jogos de azar não são próprios para as crianças e que brincar de cabra-cega não é uma atividade própria da vida adulta. Podemos explicar a mudança desse pensa- mento pela modificação no sentido de infância e educa- ção que começa a se constituir especialmente a partir da orientação do âmbito religioso, e os preceitos da organi- zação social em formação, os princípios da Modernidade. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, porém, estabe- leceu-se um compromisso que anunciava a atitude moderna com relação aos jogos, fundamentalmen- te diferente da atitude antiga. Esse compromisso nos interessa aqui porque é também um teste- munho de um novo sentimento da infância: uma preocupação, antes desconhecida, de preservar sua moralidade e também de educá-la, proibindo-lhe os jogos então classificados como maus, e reco- mendando-lhe os jogos então reconhecidos como bons (ARIÈS, 1981, p. 92). Assim, caro(a) aluno(a), em nome da constituição mo- derna de educação em busca de um comportamento moralmente aceito e de uma infância que necessitava de educação – que é a base da educação vigente até hoje –, inicia-se um processo de regulação mais rígida dos comportamentos em relação ao jogo e a brincadeira. As atividades lúdicas e coletivas têm diminuído sua impor- tância na vida comunitária, sendo denotada a elas uma importância secundária, ao ponto de passarem a ser mais características de uma única fase da vida: a infân- cia. Neste contexto, insere-se a atividade, que passa a ter mais valor na vida dos adultos, o trabalho. O estilo de vida e a organização social que fomos modificando ao longo dos séculos, como um exemplo marcante dessas mudanças, a separação do local de tra- balho com o local de convivência e lazer - o contrário do que tínhamos na vida camponesa e rural -, sendo agora 19 EDUCAÇÃO FÍSICA o local de trabalho cheio de regras e de comportamentos pré-estabelecidos, nos levou a uma concepção de que a vida é coisa séria e brincar não nos levará a nada. religiosos dançavam em comemorações e celebrações, pois a dança tinha uma conotação de integração. É tão evidente o distanciamento que atingimos com rela- ção a presença da dança em nossas comunidades, que até mesmo a cultura da infância, perdeu o seu caráter de dança e música dentro das brincadeiras, sem falar, é claro, dos adultos que não vivenciam mais as danças de caráter lúdico e coletivo em comemoração a uma boa colheita, em comemoração às estações do ano, às datas festivas religiosas, culturais, ancestrais etc. Sendo assim, até aqui, explicitamos o processo de valoração dos jogos, dança, música e brincadeiras na vida comunitária, e como tinham papel de destaque no cotidiano das pessoas. Com o advento da Idade Média e um aumento do sentido de privação e regulação de mui- tas expressões da vida do homem, o jogo e a brincadeira, que estudamos neste tópico, passaram a ter seu desen- volvimento orientados por um novo paradigma de mo- ralidade, a partir do entendimento de que os impulsos gerados por esta prática deveriam ser controlados para que os homens fossem mais obedientes e educados. [...] essa paixão que agitava todas as idades e todas as condições, a Igreja opôs uma reprovação absolu- ta. Ao lado da Igreja, colocaram-se também alguns leigos apaixonados pelo rigor e pela ordem, que se esforçavam para domar uma massa ainda selvagem e para civilizar costumes ainda primitivos. A Igreja medieval também condenava o jogo sob todas as suas formas, sem exceção nem reservas, e parti- cularmente nas comunidades de clérigos bolsistas que deram origem aos colégios e às universidades do Ancien Régime (ARIÈS, 1981, p. 92). Diante de tantas proibições e regulações da Idade Média, como a constituição do Renascimento, emergem outras concepções pedagógicas. Baseado no fato de que a fe- licidade é importante, e o corpo não é apenas fonte de Você já pensou a esse respeito? Como seria a nossa sociedade, na sua opinião, se destinás- semos algum tempo para o brincar, não só com as crianças, mas também entre os adul- tos, com atividades lúdicas desinteressadas de um resultado como vencer ou ganhar, apenas com fim na convivência e no prazer de brincar? Deixamos de lado um aspecto essencial do ser humano, que é brincar para conviver de forma saudável, lúdica, criativa, e que talvez, pudesse resultar disso, uma sociedade mais bem organizada, mais justa e respeitosa. Retomando nosso percurso histórico dos jogos, os con- siderados jogos de azar são, ainda, desenvolvidos nos dias de hoje, não sem deixar de lado o entendimento de que são jogos potencialmente perigosos. Essa noção de imoralidade, segundo Ariès (1981), foi sendo moldada e modificada na forma de desenvolver esses jogos, dimi- nuindo o papel do azar, da aposta a dinheiro e valorizan- do o aspecto do desenvolvimento intelectual do jogador, como no caso dos jogos de xadrez e cartas. De acordo com o autor, outra atividade que teve seu paradigma de desenvolvimento modificado, junto às novas exigências ao homem que se constitui como mo- derno, foi a dança. Tanto a dança quanto os jogos de azar eram expressões lúdicas e comunitárias, desenvolvidas por crianças e adultos, que tiveram suas manifestações alteradas com o tempo. Na Idade Média, os próprios 20 pecado e objeto de castigos, o jogo volta à cena. Jogar volta a ser incorporado ao cotidiano dos jovens como uma tendência natural (KISHIMOTO, 1995). Podemos afirmar que a atitude radical de proibição do jogar e do brincar, instituída na Idade Média, não foi atendida em absoluto e foi perdendo força ao lon- go do século XVII. Segundo Ariès, essa diminuição foi ocorrendo, especialmente, sob influência de um grupo da própria Igreja, os jesuítas, que destacavam o poten- cial educativodos jogos. É importante apontarmos que, nos colégios jesuítas, os jogos eram desenvolvidos com o sentido de educar, de empregar à expressão humana do jogar uma funcionalidade, jogar com fim de educar. Os padres com a função de educar compreenderam que não era possível inibir totalmente o desejo pelo jogar, pelo brincar. Desta forma, passaram a permiti-lo desde que o controle de seu desenvolvimento fosse realizado pelas autoridades das escolas. Assim, o jogo dentro das escolas passou a ser admitido, com a condição de que fossem reco- mendados alguns tipos de jogos reconhecidos como bons e que passassem pelo crivo e regulamentação para que ocorressem de forma disciplinada. Neste novo paradigma, o jogo constitui-se como um meio de educar as pessoas. Podemos compreender que atividades, até então condenadas como imorais pelos afoitos moralistas do período, começaram a ser admitidas em uma nova rou- pagem e sentido com mais rigor e disciplina: Reconhecemos as salas de aula, a biblioteca, mas também a aula de dança, e o jogo da péla e de bola. Um sentimento novo, portanto, apareceu: a educa- ção adotou os jogos que até então havia proscrito ou tolerado como um mal menor. Os jesuítas edita- ram em latim tratados de ginástica que forneciam as regras dos jogos recomendados. Admitiu-se cada vez mais a necessidade dos exercícios físicos (ARIÈS, 1981, p. 95). Podemos perceber que, neste momento da história do conteúdo que estamos estudando, os jogos passam a ter um status de conhecimento, de aprendizagem e têm mais valoração na nova organização social: ensinar e su- prir as necessidades educativas dos jovens. Os tratados educacionais que orientam a boa educação do período contêm orientações a respeito de exercícios físicos e jo- gos indicados para os jovens em formação. Na relação entre educação e jogos, no fim do sécu- lo XVIII, foi atrelada uma função importante: preparar os corpos e os espíritos dos jovens para as guerras, para constituir-se como um bom defensor da nação e de traba- lhador de excelência, eficiente para contribuir com a força de trabalho desta nação. Os exercícios físicos, os jogos e o que passou a ser chamado de Educação Física foram com- preendidos e utilizados como uma maneira eficiente para forjar o corpo do combatente e do jovem trabalhador. Assim, caro(a) aluno(a), temos um cenário de dis- tanciamento do caráter lúdico e de produção de sentidos que deveriam estar atrelados às expressões do jogar e do brincar, que são as bases e fundamentos desta expressão. Temos em detrimento dessas características uma fun- cionalidade empregada ao jogo de preparação do corpo e do espírito para o combate e para o trabalho. Assim, sob as influências sucessivas dos pedagogos humanistas, dos médicos do Iluminismo e dos pri- meiros nacionalistas, passamos dos jogos violen- tos e suspeitos da tradição antiga à ginástica e ao treinamento militar, das pancadarias populares aos clubes de ginástica. Essa evolução foi comandada pela preocupação com a moral, a saúde e o bem co- mum (ARIÈS, 1981, p. 95). Paralela a essa especialização dos jogos atrelados à fun- ção de treinamento educativo, temos também, no desen- volvimento da história dos jogos, brincadeiras e brin- 21 EDUCAÇÃO FÍSICA quedos, a realocação do sentido do jogo relacionado à idade das pessoas e da condição social que elas têm. Como já afirmamos, na Idade Média, esta distinção entre classes e idades no que se referia aos jogos era mui- to sutil. Segundo Ariès, uma das poucas distinções mar- cadas era em relação à prática dos jogos de cavalaria, que era reservada aos cavaleiros e aos adultos, sendo proibi- dos aos plebeus e aos petizes, mesmo que fossem nobres. Ariès (1981) afirma que este é um dos fatos que marcam, pela primeira vez, o hábito de proibir crian- ças e plebeus de participar de jogos coletivos. Esta di- visão social do hábito de jogar ocorre no contexto da constituição do entendimento de que a infância deve ser educada e que nobres e plebeus não devem parti- lhar dos mesmos hábitos. Entretanto, esta divisão entre nobres e plebeus em diversas atividades cotidianas não se constituiria como uma realidade por completo até que a função social dos nobres acabasse e tivéssemos a ascensão da “[...] burgue- sia, no século XVIII. No século XVI e no início do século XVII, numerosos documentos iconográficos compro- vam a mistura das classes sociais durante as festas sazo- nais” (ARIÈS, 1981, p. 98). As festas sazonais são realizadas em determinadas épocas do ano, podendo estar relacionadas ao calen- dário da agricultura ou religioso, como Natal, Festas de Reis etc. Há registros de diferentes idades e classes reu- nidas nestas festividades em torno de música, danças e jogos, como arremesso da barra, lutas, corridas e com- petições de saltos. Na sociedade antiga, o trabalho não ocupava tanto tempo do dia, nem tinha tanta importância na opi- nião comum: não tinha o valor existencial que lhe atribuímos há pouco mais de um século. Mal po- demos dizer que tivesse o mesmo sentido. Por ou- tro lado, os jogos e os divertimentos, estendiam-se muito além dos momentos furtivos que lhes dedi- camos: formavam um dos principais meios de que dispunha uma sociedade para estreitar seus laços coletivos, para se sentir unida (ARIÈS, 1981, p. 79). A divisão social das classes e o valor do trabalho consti- tuem-se como centrais com o advento da burguesia. Nes- 22 te contexto, no âmbito que estamos estudando, o brincar e jogar entre crianças e adultos não pode mais ocorrer da mesma forma e a separação entre estes grupos fica mais evidente no desenvolvimento da cultura lúdica. Sobre os jogos praticados por adultos e a evolução para serem jogos típicos do repertório infantil, Ariès (1981) nos ilustra com muitos exemplos, entre eles o arco, que na Idade Média não era um utensílio de crian- ças pequenas e sim de crianças maiores - que atualmente chamamos de adolescentes -, que aparecem em registros utilizando o artefato em diversas situações, inclusive em danças. Entretanto, no fim do século XVII, o arco começa a ser retratado nas mãos de crianças cada vez menores, até o seu desaparecimento como brinquedo predominante. O autor relaciona essa diminuição da brincadeira com arco entre as crianças ao fato de que, para a brincadeira existir, é preciso estabelecer uma re- lação entre o brincar da criança e a atividade do adulto, que há muito, no caso do arco (com exceção da expres- são esportiva), não ocorre cotidianamente. Podemos indagar a respeito do que move estas alte- rações no curso de apropriação e desenvolvimento do jogo, do brinquedo e da brincadeira, e como afirmamos no início deste tópico, são os fenômenos sociais e a for- ma de organização social vigente. A partir de agora, caro aluno(a), com base nessa dis- cussão que traçamos até aqui, quando você ver crianças maiores ou adolescentes nos seus momentos de lazer, faça a sua própria análise e observe se há semelhanças entre essas atividades com as atividades do dia a dia dos adultos. Reflexionar sobre essa questão, talvez, nos leve a compreender o quanto é importante a experiência lúdica como uma forma de valorização e transmissão da nossa cultura de uma geração para a outra, o que inclui a neces- sidade de continuarmos brincando mesmo na fase adulta. Philipe Ariès nos brinda com uma análise extensa sobre o brincar e a concepção de infância e educação da sociedade antiga, passando pela Idade Média e chegan- do à modernidade, dentro dos padrões e população que ele se dedicou a estudar, a francesa. Iniciamos com uma análise que, entre crianças e adultos, e em todas as clas- ses, os jogos e brincadeiras eram muito semelhantes. Ele destaca que, gradativamente no desenvolvimento histó- rico, os adultos das classes mais abastadas vão abando- nando os jogos e estes se mantêm entre as pessoas mais pobres e as crianças de todas as classes sociais: É verdade que na Inglaterra os fidalgos não abandonaram,como na França, os velhos jogos, mas transformaram-os, e foi sob formas modernas e irreconhecíveis que esses jogos foram adotados pela burguesia e pelo “esporte” do século XIX. É no- tável que a antiga comunidade dos jogos se tenha rompido ao mesmo tempo entre as crianças e os adultos e entre o povo e a burguesia. Essa coinci- dência nos permite entrever desde já uma relação entre o sentimento da infância e o sentimento de classe (ARIÈS, 1981, p. 105). 23 EDUCAÇÃO FÍSICA A infância e o seu desenvolvimento atrelado ao brincar passam a ser alvo de estudos, destacando-se fortemente, a partir das pesquisas de Rousseau, no século XVIII - em sua obra Emílio -, uma educação que deve corresponder às características infantis. Posteriormente, temos a as- censão, no século XIX, dos estudos da psicologia infan- til, que procuraram entender as representações infantis e o brincar. Influenciando inúmeras teorias e reflexões so- bre o ensinar e a infância, podemos destacar os estudos de Piaget e Vygotsky, entre outros pesquisadores. Neste contexto, desenvolvendo debates sobre a infân- cia e o brincar, temos ainda pesquisas que consideram o brincar como uma construção cultural e que sofre a influ- ência do contexto histórico e cultural para a constituição de suas formas, significados e desdobramentos na socieda- de. Esta forma de compreender a linguagem lúdica, segun- do Kishimoto (1995, p. 41), “[...] faz emergir a valorização dos brinquedos e brincadeiras tradicionais como nova fonte de conhecimento e de desenvolvimento infantil”. Temos a ascensão de jogos e brincadeiras com fins peda- gógicos, como os jogos históricos, científicos e educativos. Dentro do desenvolvimento da história que conta- mos aqui sobre o brincar e o jogar, temos que destacar a trajetória dos brinquedos. Lembrando do quadro Jo- gos Infantis, de Pieter Bruegel, quantos brinquedos você pôde identificar? Ou melhor, quantos objetos utilizados como brinquedos podemos encontrar naquela pintura? Podemos resgatar em nossa história, nos períodos antes da Revolução Industrial, que a produção era pre- dominantemente artesanal, e a lógica de consumo era completamente diversa da atual, os brinquedos eram produzidos, pelos adultos ou pelas próprias crianças, com os materiais que tinham disponível naquele contex- to. O marceneiro, com os restos de material do seu tra- balho, produzia brinquedos de madeira para seus filhos e talvez vizinhos, já a costureira, transformava os reta- lhos em bonecas, o ferreiro por sua vez, fazia miniaturas de instrumentos de trabalho, sem falar dos brinquedos feitos de palha, pedra, galhos, barro etc. Dessa forma, o brinquedo tinha um valor profundo com a cultura da- quele que o produziu, e características da comunidade no qual o indivíduo vivia. E para compreendermos essas mudanças de signi- ficado e valor do brinquedo, partimos da compreensão que a expansão dos brinquedos está atrelada - assim como o brincar e o jogar - à forma de organização social e econômica vigente. A história do brinquedo, no con- texto do século XIX e XX, está fortemente relacionada à busca pela expansão do capital e do comércio europeu. Walter Benjamin nos conta que, antes do século XIX, os brin- quedos não eram fabricados por especialistas nesta produção, eles eram construídos com materiais nobres, como madeira e estanho, feitos de maneira artesanal. Isto conferia ao brinque- do uma característica única, construído por profissionais de outras áreas, “[...] assim como se podiam encontrar animais 24 talhados em madeira com o marceneiro, assim também sol- dadinhos de chumbo com o caldeireiro, figuras de doce com o confeiteiro” (BENJAMIN, 2002, p. 90). Por outro lado, na constituição de um comércio mais organizado, existia a figura do exportador de brin- quedos, que reunia, inicialmente em Nuremberg, os brinquedos originários das manufaturas e das indústrias domésticas e os distribuía no comércio pequeno. Esta forma de comércio impulsionou a fabricação de obje- tos menores, para decoração das casas e admiração de crianças e adultos pelas miniaturas (BENJAMIN, 2002). Na segunda metade do século XIX, com o objetivo de atender à nova forma de escala de produção, houve a diminuição da produção dos brinquedos pequenos para a produção de brinquedos maiores, com menos detalhes, com materiais e formas mais padronizadas. Os brinque- dos, então, são produzidos e têm sua disseminação esti- mulada pela associação entre brincar e instruir, ressaltan- do a funcionalidade deste objeto nos jogos pedagógicos. Sobre sua composição, passam a ficar mais adapta- dos aos gostos da criança, que é reconhecida como uma consumidora em formação. Os materiais utilizados são mais diversificados que anteriormente, produzidos em larga escala e com restrições relacionadas à segurança que o objeto oferece (KISHIMOTO, 1995). A história do brinquedo e do brincar, nos séculos XV ao XIX, passa a estar atrelada à lógica mercantil, no in- tuito de moldar o consumo destes bens. Contudo, então, devemos negar a apropriação dos brinquedos neste con- texto capitalista? Arruda (2011) explicita que não, mas que precisamos ter a dimensão de que estes brinquedos industrializados, muitas vezes, em nome de construir um imaginário adaptado ao modo de produção capita- lista, retiram das crianças a verdadeira potencialidade da criatividade, coletividade, ludicidade e da educação. Movidos pelo intuito de alavancar sempre a dinâmi- ca do consumo - não são poucos os exemplos de quando a criança conquista um brinquedo visto em uma propa- ganda e logo deseja outro -, os brinquedos e brincadeiras são constituídos como um elemento chave para nutrir este mercado. Entretanto, reivindicamos aqui uma histó- ria destes elementos como construções humanas e for- mas de expressão durante as diferentes épocas. Questões conceituais dos Jogos, Brinquedos e Brincadeiras Para compreender melhor as diversas possibilidades de intervenção e atuação profissional no campo dos jogos e brincadeiras, faz-se necessário elucidar as compreensões conceituais desses fenômenos a partir dos pesquisado- res e do nosso contexto atual. Essa temática faz vibrar a alegria não só da infância, mas de muitos estudiosos e professores como eu, e convido você a se permitir envol- ver por essa valiosa ferramenta de fazer cultura, educa- ção e desenvolvimento como um todo. Antes de investigarmos o que os pesquisadores abor- dam sobre esses fenômenos culturais, eu gostaria de dis- cutir com você, para pensarmos juntos, sobre as defini- ções que construímos ao longo das nossas experiências de vida. Durante o nosso estudo, te convido a desconstruir alguns conceitos que você já traz, para dar espaço a novas reflexões sobre os jogos, brinquedos e brincadeiras. Qual tipo de jogo você mais gosta? Jogo de cartas, de tabuleiro, com bola, com peteca, com raquete, com corda, jogo de amarelinha, jogos de rua, jogos de salão, jogos peda- gógicos.... Você consegue lembrar mais algum tipo de jogo? Essa relação de jogos que acabamos de fazer, nos mostra como é difícil definir o que é jogo, pois o mesmo termo pode ser utilizado em diversas situações e com distintos significados. Entretanto, ao longo desse mate- rial dentro do nosso contexto, a Educação Física, fare- mos o esforço em definir algumas características, para que possamos didaticamente elaborar nosso próprio re- 25 EDUCAÇÃO FÍSICA pertório de jogos, o que se tornará nosso instrumento de trabalho nos diversos espaços de atuação. Será necessário também, definirmos juntos, o que é brincar, ou melhor, o que são brincadeiras, e da mesma maneira, como o jogo, não é possível limitar o seu signi- ficado a um único sentido. Podemos brincar de casinha, boneca, carrinho, esconde-esconde, pega-pega, de roda cantada, de cabra-cega, de imitação, brincar no parquinho, brincar com areia. E no final das contas, muitas brincadei- ras também serão chamadas de jogos, isso porque, quando falamos decultura popular, cultura local, produção cultu- ral, não há regras, não há certo ou errado, pois se trata da cultura do jogar e brincar, da cultura lúdica daquele povo, daquela localidade, que surgiu e se produziu por meio da história, sendo passada de geração em geração. Ao falar em geração, não podemos desconsiderar a importância dessa transmissão dos mais velhos para os mais novos. Se não fosse isso, muitos brinquedos da an- tiguidade não teriam sobrevivido aos séculos, como te- mos até hoje. A respeito do brinquedo, apesar do concei- to atual, como material industrializado produzido para o público infantil, podemos também entrar nos mesmos questionamentos, o que é brinquedo? Nas mãos das crianças, um pneu, uma tampa de panela, um pente de cabelo, um cabo de vassoura, uma garrafa plástica vazia, uma cadeira, um pedaço de tecido, ou mesmo um galho de árvore, se transformam em brinquedo. SOBRE O JOGO Segundo Kishimoto (2016, p.7), jogo, brinquedo e brin- cadeira têm sido utilizados com o mesmo significado, com a hipótese de que isso se deva ao pouco avanço dos estudos sobre o tema. E a autora, com base nos estudos de diversos autores, reúne um grupo de pontos comuns que caracterizam uma atividade como jogo, e esses são: 26 JOGO liberdadede ação dojogador o caráter voluntário episódico de ação lúdica o prazer o "não sério" as regras - implícitas ou explícitas a incerteza de seus resultados a relevância do processo de brincar (o caráter improdutivo) a representação da realidadea não literalidade contextualização no tempo e no espaço a imaginação Descrição da Imagem: Estas estão representadas através de um fluxograma, no centro há um círculo com a palavra “jogo”, ao redor há 12 círcu- los pequenos com as características do mesmo cada circulo tem uma seta que aponta para o centro. Começando pelo círculo a cima da palavra jogo, seguindo o sentido horário temos, a característica “o prazer”, seguida por “o não sério”, “as regras implícitas ou explicitas”, “ a incerteza de seus resultados”, seguida pelo círculo “a relevância do processo de brincar (o caráter improdutivo)”, “ a representação da realidade”, “a não literalidade”, “ contextualização no tempo e no espaço”, a seguir temos a característica “a imaginação”, depois a “ liberdade de ação do jogador”, a penúltima característica é “o carácter voluntário”, sendo a última o “episódio de ação lúdica”. Figura 2 - Características do jogo / Fonte: a Autora. Refletindo a respeito de cada uma dessas características, iremos identifica-las em todas aquelas atividades da ca- tegoria de brincadeiras. Somos provocados, por estudos como esse, a analisar cada atividade infantil nos diversos espaços que possibilitam o brincar, em busca da com- preensão do que é realmente brincadeira e o que não é. Para avançarmos nos nossos estudos, chamo a aten- ção para o aspecto que, alguns autores vão concordar entre si em alguns pontos, enquanto em outros poderão divergir completamente. E é a partir disso, que podere- mos tirar as nossas próprias conclusões sobre os termos e definições dessa temática tão rica e tão diversa. Bruhns (1996) explicita que, para considerarmos uma atividade como jogo, devemos, pelo menos, considerar cin- 27 EDUCAÇÃO FÍSICA co critérios para esta reflexão. O primeiro critério exposto pela pesquisadora trata do aspecto desinteressado do jogo, que pode ser questionado, pois durante seu desenvolvi- mento há muita preocupação e interesse dos participantes em torno de diversos elementos, por exemplo: as regras, as conquistas, a vitória e a derrota no jogo. O caráter de serie- dade distancia-se do que seria sério na lógica do consumo. O jogo apresenta relações consideradas sérias, pelo menos naquele momento, para os envolvidos no jogar. O segundo critério que temos que levar em conside- ração, para Bruhns (1996), é a relação entre jogo e prazer. Muitas possibilidades e vivências de jogo podem resultar em prazer, assim como outras que não envolvem o jogar e que resultam neste sentimento. Entretanto, para a auto- ra, esta não é uma certeza em todas as situações de jogo. O jogo pode provocar sentimentos desagradáveis, frustrações, assim como outras atividades desenvolvidas pelos homens. A desorganização é outro elemento atribuído com frequência ao jogo. Esta característica pode ser destacada por uma pessoa que observa superficialmente a situação de jogo e presencia a agitação, barulho e movimentação. No entanto, nesta vivência, estão implicados diversos ele- mentos organizacionais para que ocorra o jogo. Bruhns (1996) aponta que nestas situações de identificação de de- sorganização, quando um adulto pretende corrigir a situ- ação impondo mais ordem, “[...] a quebra da espontanei- dade é nítida e os movimentos antes soltos e dinâmicos, preenchendo um espaço determinado, tornam-se ‘presos’, com a mobilidade reduzida, assim ocorrendo também com a dinamicidade” (BRUHNS, 1996, p. 29). Este tipo de intervenção buscando uma ordem, muitas vezes, não atenta para as regras já estabelecidas e a organização própria daquela ação. O quarto critério que temos que considerar é a afirma- ção de que o jogo é espontâneo. Este critério origina-se na diferenciação que alguns fazem entre [...] ‘jogos superiores’, constituídos por meio da ciência e da arte, e os “não supe- riores”, aqueles simples e puros. Tal postura conduziria a um polo de atividades controladas pela sociedade e pela realidade, e outro de atividades verdadeiramente espontâ- neas porque não-controladas” (BRUHNS, 1996, p. 30). Bruhns (1996) aponta como último critério, comu- mente utilizado na constituição do debate conceitual sobre o jogo, o da libertação dos conflitos, que estaria relacionado, na situação de jogo, à supressão e resolução naquela ação de possíveis problemas ou conflitos. Este entendimento é muito utilizado em técnicas de ludoterapia na psicologia “nessa perspectiva, na área do jogo, a criança utilizaria seu domínio sobre os objetos, organizando-os de tal forma, su- pondo-se proprietária dos destinos da viola, transforman- do passividade em atividade” (BRUHNS, 1996, p. 30). Tendo isso em vista, o jogo precisa ser problematiza- do em sua dimensão de significação individual e coletiva. Descrição da Imagem Bruhns (1996) explicita que, para conside- rarmos uma atividade como jogo, devemos, pelo menos, consi- derar cinco critérios para esta reflexão. Aspecto desinteressado, a relação jogo e prazer, a desorganização, o jogo é espontâneo, e libertação dos conflitos. Figura 3 - 5 critérios para uma atividade ser considerada como jogo Fonte: a Autora. 5 critérios segundo Bruhns(1996) Aspecto desinteressado A relação jogo e prazer A desorganização O jogo é espontâneo Libertação dos con�itos 28 Diante dos critérios que precisamos levar em conside- ração na análise conceitual de um jogo, podemos agora elucidar para você, prezado(a) aluno(a), alguns elemen- tos conceituais sobre o jogo. Para Huizinga (2000), autor da obra clássica Homo Ludens, o jogo é parte constituinte da cultura do ho- mem. Entretanto, para o autor, o jogo é anterior à pró- pria cultura e essa afirmação dá-se devido ao fato de que até os animais brincam, ou seja, eles não dependeram do homem para que sua atividade lúdica fosse desenvol- vida. O jogo não é um fenômeno apenas fisiológico ou psicológico, ele ultrapassa essas esferas. O jogo está relacionado a nossa esfera irracional, “Se brincamos e jogamos, e temos consciência disso, é por- que somos mais do que simples seres racionais, pois o jogo é irracional” (HUIZINGA, 2000, p. 7). O jogo também é considerado uma atividade volun- tária que nos dispomos a realizar e também se caracte- riza pela liberdade. Para o autor, “[...] o jogo não é vida ‘corrente’ nem vida ‘real’. Pelo contrário, trata-se de uma evasão da vida ‘real’ para uma esfera temporária de ativi- dade com orientação própria” (HUIZINGA, 2000, p. 10). Assim, o homem tem total noção dequando rea- liza uma ação por estar brincando ou quando é uma ação da vida “real”. Entretanto, este entendimento de que a situação do jogo “é de mentira” ou de “faz de conta” não o limita a não ser sério. O jogo tem muita relevância para seu execu- tor e a possibilidade de jogar pode ser uma experiência muito intensa, ao ponto de que, para Huizinga (2000, p. 10), “Todo jogo é capaz, a qualquer momento, de absor- ver inteiramente o jogador”. O jogo em seu caráter desinteressado caracteriza-se pelo fato de ser exterior à vida comum, como uma ativida- de temporária, um intervalo e “tem uma finalidade autô- noma e se realiza tendo em vista uma satisfação que con- siste nessa própria realização” (HUIZINGA, 2000, p. 10). Outra referência importante quando tratamos de jogos é Caillois (1967), antropólogo e ensaísta francês que desenvolve teorias sobre o homem, o jogo, o lúdico, o profano e o sagrado, o mito, o ritual, a festa e as dife- rentes culturas. No livro “Os jogos e os homens: a más- cara e a vertigem”, de 1967, estrutura uma importante contribuição na nossa área a respeito dos jogos (LARA; PIMENTEL, 2006). Para Caillois (1967), inúmeras atividades são atri- buídas à nomenclatura jogo, como os de destreza, de azar, ao ar livre, de paciência, entre outros. O jogo, no entendimento do autor, está atrelado às inúmeras carac- terísticas, como a diversão, a atmosfera de descontração, facilidade, riso ou liberdade, distanciamento da serie- dade e das consequências que pode ter na vida real. O jogo nesta concepção é oposto ao trabalho e à produção, constitui-se como estéril. Todas estas características conferem, segundo Cail- lois (1967), um de seus eixos mais importantes: a gratui- dade. A gratuidade que entramos para jogar é seu cerne, que permite que nos entreguemos ao jogo com indife- rença, distanciando-o do que seriam atividades produti- vas, como o trabalho. Caillois (1967) também designa as diversas possibili- dades do jogo e que este basicamente pode ser chamado assim, entre outras proposições, pois têm definido se é ou não um jogo a partir do estabelecimento de um agrupa- mento de regras e normas que não podem ser quebradas. Se as regras forem quebradas, fundamentalmente o pró- prio jogo acaba. E o que faz a regra ser imposta no ato do jogo? O próprio desejo de jogar, de respeitar as regras da atividade, de entrar em acordo voluntariamente. Outro traço que caracteriza o jogo, para o autor, é que ele estimula qualquer capacidade humana, seja ela física, seja intelectual. Este estímulo é possível, pois pode tornar mais acessível e fácil, por meio do prazer e obs- tinação que o jogo proporciona, o que poderia a prin- 29 EDUCAÇÃO FÍSICA cípio ser considerado difícil ou inacessível para quem joga. Exemplifica que o jogo competitivo, por exemplo, leva ao desporto; que os jogos de azar e de combinação serviram de base para muitos “[...] desenvolvimentos matemáticos, de cálculos de probabilidades à topologia” (CAILLOIS, 1967, p. 15). Sobre as contribuições do jogo, Caillois (1967) aponta que este é muito fecundo para o desenvolvimen- to cultural, como também ao desenvolvimento de cada indivíduo, e nos conta que os estudos da psicologia de- tectaram este potencial: “[...] reconhecem-lhes um papel vital na história da autoafirmação da criança e na forma- ção de sua personalidade” (CAILLOIS, 1967, p. 15). O jogo, na teoria desenvolvida por Caillois, não pre- para o sujeito para o trabalho que desenvolverá na vida adulta, ele é apenas, aparentemente, uma experimenta- ção do trabalho. O jogo introduz a pessoa na sua vida de maneira geral, no todo, levando-o a desenvolver capaci- dades frente às dificuldades da vida, não para preparar o indivíduo para uma profissão definida. Assim, uma criança que brinca de ser professora e se posiciona em frente a seus amigos para ministrar uma aula não vai, necessariamente, ser professora. Para Caillois (1967, p. 16), O jogo supõe, sem dúvida, a vontade de ganhar, pela utilização plena dos recursos e pela exclusão das jogadas proibidas. Mas exige mais: é preciso ser cortês para com o adversário, dar-lhe confian- ça, por princípio, e combatê-lo sem animosidade. É preciso aceitar antecipadamente uma eventual derrota, o azar ou a fatalidade, admitir a derrota sem cólera nem desespero. Desta forma, o jogo nos convida a desenvolver o auto- domínio relatado anteriormente, pressupõe que, para ser um jogador, precisamos compreender estes acordos. Se ocorrer a derrota, pode ser realizada uma nova joga- da, o jogo pode recomeçar e, em um novo jogo, existe a oportunidade de aperfeiçoar sua performance ao invés de desanimar frente ao jogo. A lei do jogo, para o autor, implica acolher uma der- rota como um contratempo e a vitória sem excessiva vaidade, valorizando como se joga em detrimento da vitória em si e mais importante que o que se aposta. Esta lei que recusa a mesquinhez e o ódio é “praticar um ato de civilização” (CAILLOIS, 1967, p. 17). Caillois (1967) afirma que “o jogo assenta indubita- velmente no prazer de vencer o obstáculo, mas um obs- táculo arbitrário, quase fictício, feito à medida do joga- dor e por ele aceito. A realidade não tem estas atenções” (CAILLOIS, 1967, p. 18). Deste modo, o jogar é colocado com transposições a serem superadas, mas estas são quase inventadas, com um traço importante: as regras são aceitas pelas partes que compõem o jogo para que este se desenvolva. Destarte, o autor nos aponta, prezado(a) aluno(a), que o jogo caracteriza-se por ser “[...] uma atividade livre e voluntária, fonte de alegria e divertimento. Um jogo em que fôssemos forçados a participar deixaria imediatamente de ser jogo” (CAILLOIS, 1967, p. 26). Se o jogo fosse realizado de forma coercitiva, ou ape- nas recomendado, perderia sua essencialidade. Quando nos impõem que façamos algo, temos a necessidade de nos livrarmos rapidamente daquela tarefa e se assim for no jogo, para Caillois, perde-se uma de suas principais características: a liberdade de escolha, de se entregar li- vremente àquela atividade por puro prazer. O jogo, para o autor, também ocorre em um deter- minado tempo e espaço. Desenvolvendo-se como uma atividade separada do restante da vida dos indivíduos. Por exemplo, em relação ao espaço, se uma bola sai da área determinada para se jogar em duplas (espaço), o jogo é paralisado (tempo) e são aplicadas as penalidades determinadas, então o jogo é retomado no local deter- 30 minado (espaço) e tem sua duração determinada por algum sinal, como um apito (tempo). Podemos ir além e refletir sobre os espaços e tempos que nós dispo- nibilizamos para jogar ou brincar. Falar do brincar da criança, dentro desse as- pecto, é ainda mais urgente, sem o elemento tempo e es- paço não há jogo. Assim, Caillois (1967, p. 29) nos apresenta as princi- pais características do jogo em seis elementos: O autor expõe que a característica de ser regu- lamentada e fictícia é con- traditória e quase mutua- mente excludente. O jogo é, anteriormente ao seu de- senvolvimento, ou regula- mentado ou fictício, consti- tuindo, para Caillois, como pontos incongruentes. Porque não gera bens, nem riquezas, nem elementos novos de espécie alguma; e, salvo alteração de propriedade no interior do círculo dos jogadores, conduz a uma situação idêntica à do início da partida. Circunscrita a limites de espaço e de tempo, rigorosa e previamente estabelecidos. Acompanhada de uma consciência especí�ca de uma realidade outra, ou de franca irrealidade em relação à vida normal. Uma vez que, se o jogador fosse a ele obrigado, o jogo perderia de imediato a sua natureza de diversão atraente e alegre. Já que o seu desenrolar não pode ser determinado nem o resultado obtido previamente, e já que é obrigatoriamente deixada à iniciativa do jogador uma certa liberdade na necessidade de inventar. Sujeita a convenções que suspendem as leis normais e que instauram momentaneamente uma legislação nova,a única que conta. LIVRE DELIMITADA INCERTA IMPRODUTIVA REGULAMENTADA FICTÍCIA Descrição da Imagem as principais características do jogo em seis elementos: livre, delimitada, incerta, improdutiva, regulamenta- da, fictícia Figura 4 - Principais caracterís- ticas do jogo em seis elementos Fonte: a Autora. 31 EDUCAÇÃO FÍSICA Prezado(a) aluno(a), frente a estes conceitos elementa- res do jogo, baseados na contribuição de Roger Caillois, podemos destacar que o jogo não se forja apenas de uma maneira. Suas características são fruto de inúme- ras combinações, nos permitindo afirmar que não é um fenômeno simples, pois é composto de inúmeros deter- minantes desde sua origem. Na busca pela conceituação de jogo, temos também a construção desenvolvida na Teoria Histórico-Cultural, que discute o desenvolvimento humano e, neste proces- so, também o jogo e a brincadeira. Uma das contribui- ções mais expressivas da área para a compreensão do jogo é desenvolvida por Daniil B. Elkonin, psicólogo, que estudou especialmente a educação escolar infantil e escreveu, entre outras obras, a “Psicologia do Jogo”. O autor trata da linguagem do jogo apoiado nos estudos e pesquisas de Lev Semenovitch Vygotsky, que assim como Elkonin, era psicólogo. Os estudos eram relacionados à brincadeira e ao desenvolvimento das crianças. Tratavam também de disseminar a compreen- são da necessidade de superarmos concepções que natu- ralizam essa linguagem humana e que o jogo e a brinca- deira são construções histórico-sociais. Elkonin (1998, p. 19) explica que o jogo “[...] é uma atividade em que se reconstroem, sem fins utilitários di- retos as relações sociais”. Compreendendo que o jogo é a reconstrução de uma atividade relacionada à vida social, tarefas e normas destas relações. O autor assinala que existe uma afinidade entre o jogo e a arte. Na moderni- dade, não existem constituições evoluídas de jogo entre os adultos, elas foram substituídas pelas inúmeras for- mas de arte ou pelos diferentes esportes. Por outro lado, na infância, o jogo de papéis persiste, ocorre nas mais diversas esferas na contemporaneidade. 32 Roger Caillois e Daniil Elkonin, deve ser entendida por você como um estímulo para que busque outras referên- cias neste vasto universo do jogo. SOBRE A BRINCADEIRA Assim como afirmamos no início desta unidade, não exis- te uma separação tão estanque como realizamos aqui en- tre o jogo, a brincadeira e o brinquedo e nos organizamos assim para um melhor processo de aprendizagem. Iremos nos debruçar sobre algumas especificidades do brincar, considerando que muitos conceitos trabalhados anterior- mente sobre o jogo correspondem também ao brincar. Se pudéssemos apontar uma diferença entre jogo e brincadeira - que é destacada por diversos pesquisado- res da área -, seria o fato de a brincadeira ter regras me- nos complexas e estruturadas que o jogo. Os jogos, para os autores que apontam esta divisão, têm na sua organi- zação regras estabelecidas e formas mais sistematizadas a serem praticadas em detrimento da brincadeira. Por exemplo, brincar de “veterinário” pode ter re- gras modificadas e definidas na hora, se assim os par- ticipantes quiserem; se observarmos um jogo de três- -corta (jogo que, em círculo, os participantes jogam a bola de voleibol e no terceiro toque o jogador corta com a bola objetivando “queimar” algum adversário e eliminá-lo do jogo), existe uma complexidade maior nas regras e que foram acordadas entre os participantes antes, senão o jogo não iniciaria. Com base nesse raciocínio, poderíamos arriscar di- ferenciar da seguinte forma: O jogo protagonizado “[...] nasce no decorrer do de- senvolvimento histórico da sociedade como resultado da mudança de lugar da criança no sistema de relações sociais. Por conseguinte, é de origem e natureza sociais” (ELKONIN, 1998, p. 80). A sua origem não tem relação com o instinto e na- tureza humana e sim com condições concretas que a criança vive. Os papéis que as crianças assumem nos jogos são o cerne destes, o que deve ser observado na evolução do jogo. Com diferentes idades, a criança compreende, se relaciona e desempenha diferentes papéis na situação de jogo. O jogo tem como eixo central as relações humanas e não os objetos, pois são as relações com o adulto que motivam o jogo em si e não o artefato que a criança tem acesso (MARCOLINO et al., 2014). Elkonin (1998) também afirma que o jogo pressu- põe uma ação lúdica abreviada e sintética. O que signi- fica isso? Que a criança, quando reproduz uma situação no jogo, não a desenvolve em todos seus passos e carac- terísticas, ela se apropria de elementos que compreende e desenvolve a ação lúdica. O que é mais relevante neste processo é que todos os envolvidos compreendam o sentido do jogo protagonizado. Assim, no desenvolvimento do jogo de papéis, a criança re- estrutura seu pensamento e estabelece seu desenvolvimento psíquico e sua personalidade (MARCOLINO et al., 2014). Prezado(a) aluno(a), temos inúmeras contribuições sobre a conceituação dos jogos. Esta abordagem reali- zada na disciplina, com três principais contribuições tão díspares uma das outras, a saber, de Johan Huizinga, 33 EDUCAÇÃO FÍSICA JOGO CAÇA AO TESOURO BOLA QUEIMADA BETS BASE 4 PEGA-PEGA Descrição da Imagem: relação de atividades consideradas como jogos. Figura 5 - Jogos / Fonte: a Autora. 34 Brincadeira Carrinho de rolimã Perna de Pau Imitação Pipa/ Papagaio Roda Cantada Descrição da Imagem: relação de atividades con- sideradas como brincadeiras. Figura 6 - Brincadeiras / Fonte: a Autora. 35 EDUCAÇÃO FÍSICA Contudo, essa diferenciação entre jogo e brincadeira aqui, em nosso processo de aprendizagem, é secundária. Consideramos que ela reduz estas expressões humanas e classifica algo que tem sua riqueza justamente pautada na diversidade. Pois, uma brincadeira ou um jogo pode ter outra nomenclatura em um local distinto, pode ter suas regras modificadas, pode não ser jogado com o material que conhecemos, entre outros elementos. Quanto à brin- cadeira de veterinário, os brincantes podem definir várias regras e normas para a brincadeira ser desenvolvida. Vamos nos atentar aqui a debater a partir do que já aprendemos sobre o conceito de jogo, elementos que nos enriqueçam como professores(as) em formação, para a compreensão da cultura lúdica da criança. Debortoli (2004), a partir da multiplicidade que é própria da brin- cadeira, a define como: Uma das formas mais sutis e sofisticadas de parti- lha de regras, por mais tácitas que sejam. Uma brin- cadeira entrecruza histórias, tempos e espaços. Não se brinca apenas com um objeto. Brinca-se com uma memória coletiva que muitas vezes transcen- de quem brinca e o próprio momento da brinca- deira: objetos, tempos, substâncias, regiões, épocas, cidades, países, estações do ano, rituais, os mais amplos e ricos contextos humanos. Prefiro dizer que toda brincadeira consiste num jogo, no sentido mais pleno da construção de regras e instauração de uma dinâmica coletiva de significação de suas relações (DEBORTOLI, 2004, p. 20). O brincar que se observa tem em si elementos atuais, re- presenta as marcas da sociedade em que está ocorrendo. No mundo contemporâneo, com características de pra- zer imediato, consumo, rapidez, relações superficiais e descartáveis, a brincadeira pode ser utilizada como ins- trumento para moldar comportamentos dos brincantes. Ela pode ser utilizada como ferramenta que reproduz este sentido de sociedade e não a característica da brin- cadeira em si como expressão de criação e produção do mundo (DEBORTOLI, 2004). O brincar, assim como afirmamos em algumas pro- posições sobre o jogo, tem ligação expressa na e com a realidade. No brincar ocorre a reconstrução da realidade e durante esta atividade a criança formula hipóteses, “[...] Num espaço à margem da vida comum, obedecendo as regras criadas pelos sujeitos brincantes diantedas situa- ções inesperadas que vão surgindo, as crianças brincam com o sentido da realidade mudando-o, transforman- do-o” (SILVA, 2004, p. 26). Desvelando o potencial imaginativo e criador do brin- car é que o destacamos como seu elemento constitutivo. Vygotsky (1991) nos apresenta a brincadeira como uma possibilidade de compreender e assimilar o mundo pela criança brincante. Na brincadeira, a criança enfrenta desafios e conflitos e nestas situações vai desenvolvendo a capacidade de aprender e assimilar as normas da sociedade. Assim, a brincadeira, para o psicólogo, contribui como mediadora do processo de desenvolvimento infan- til. Na brincadeira, a criança experimenta, imita e aprende sobre situações que vão além do seu cotidiano. Ela avança em outros territórios que ainda não podem vivenciar na infância, cria papéis e formula estratégias de como lidar com as situações geradas por aquela atividade. Estamos até agora tratando da brincadeira em si. Discutimos com você, prezado(a) aluno(a), significados e desdobramentos da brincadeira com seu significado nela. Entretanto, esse não é o sentido atrelado, muitas ve- zes, à brincadeira. Em geral, para a brincadeira ser reco- nhecida como importante na sociedade, ela tem seu sig- nificado relacionado a outro fator, um elemento externo. Neste sentido, para Debortoli (2004), a brincadeira, para ter importância, precisa erroneamente, especialmen- te na visão do adulto, estar atrelada à algo sério e de valor, como conteúdos ou habilidades. Desta forma, justifica-se a ocorrência delas em ambientes educacionais, por exemplo. 36 Dizer que o brincar e a brincadeira são coisas sérias reforça uma tentativa de dar um estatuto de impor- tância a partir da referência daquilo que o olhar adulto considera importante, como o trabalho e a ciência; ou outros conhecimentos, como a ma- temática, a leitura e a escrita, ou comportamentos disciplinados e considerados como adequados. O brincar, assim, adquire importância por subsidiar outras aprendizagens, mas não por seus temas, linguagem, tensões e suas relações específicas (DE- BORTOLI, 2004, p. 23). Os significados, historicidade e sentidos da brincadei- ra precisam ser mais bem compreendidos pelo mundo adulto. Esta busca desenfreada por dar um significado externo à brincadeira do que a ela é motivada por uma lógica de que, para valer a pena, uma situação deve gerar um produto imediato. Por exemplo, considere que as crianças brinquem de amarelinha, mas que devem resolver equações ma- temáticas para avançarex’m na brincadeira. Um adulto poderia olhar a situação e dizer: isso sim é uma brin- cadeira boa para a criança, esta brincadeira se justifica na escola. Enquanto em outra situação, se as crianças brincarem de amarelinha com sua própria organiza- ção, sem elementos exteriores (por exemplo, as equa- ções matemáticas), podem não ter a mesma relevância a partir do olhar de um adulto. Alves et al. (2011), a partir da leitura de Benjamin, nos aponta que na compreensão do mundo adulto sobre a brincadeira está implicada também o processo de me- mória. A relação e o olhar do adulto para com o brincar são influenciados pelas experiências vivenciadas por ele com o brincar em sua constituição como pessoa aliada às condições concretas que um adulto vivencia. É nesse processo que podemos compreender como brinquedos e brincadeiras infantis documentam o modo de o adulto se colocar em relação ao mundo da criança, uma vez que significativas interações da criança com o adulto e seu universo social passam pelo brincar e uso de brinquedos. A memória do brincar é, portanto, um substrato que pode estabelecer liames entre passado e presente, entre distintas realidades espaciais e temporais, individuais e sociais (ALVES et al., 2011, p. 49). Esta contribuição sobre a influência da memória do adulto e a relação com o brincar da criança é baseada nos estudos de Walter Benjamin, filósofo e sociólogo alemão que aponta que as diversas vivências do brincar na infância constituem e fazem parte do adulto e de sua subjetividade. Benjamin (2002) também assinala outro traço per- tinente ao brincar, que são os hábitos que a criança se apropria nesta atividade, como o dormir, o vestir-se, o pentear-se, entre outros hábitos que podem ser aprendi- dos no brincar e no jogar. Segundo o autor, “o hábito entra na vida como brin- cadeira, e nele, mesmo em suas formas mais enrijecidas, sobrevive até o final um restinho da brincadeira” (BEN- JAMIN, 2002, p. 102). Assim, mesmo os adultos mais enrijecidos pela vida tiveram a constituição de sua sub- jetividade na brincadeira. Mesmo que se negue e bus- que outros significados ao brincar, como no exemplo da amarelinha. 37 EDUCAÇÃO FÍSICA Em seus estudos, Benjamin evidencia a relevância da repetição da brincadeira pelas crianças. A repetição: [...] rege a totalidade do mundo do jogo [...]. Sabemos que para a criança ela é a alma do jogo; que nada a torna mais feliz do que o “mais uma vez”. [...] A criança volta a criar para si todo o fato vivido, começa mais uma vez do início. [...] A essência do brincar não é um “fazer como se”, mas um “fazer sempre de novo”, transformação da experiência mais comovente em hábito (BENJAMIN, 2002, p. 102-103). Nesta oportunidade de repetir a brincadeira, de fazer tudo novamente, iniciam-se zeradas as relações estabelecidas até então no brincar. Com este eco das ações na brincadeira, o brincante ressignifica e desenvolve a possibilidade de aprendizagem a partir das experiências vivenciadas, construindo hábitos. Assim, prezado(a) aluno(a), podemos afirmar que a brincadeira e o jogo são, diante das proposições até agora elu- cidadas em nossa caminhada, formas importantes e imprescindíveis para a constituição e organização da sociedade. Essas expressões refletem as relações dadas na contemporaneidade, não devendo ser consideradas ações menores ou de pouca relevância. O brincar precisa ser desvelado em seus meandros constitutivos, visando que a linguagem lúdica seja mais bem compreendida e garantida nos mais diversos espaços formativos, entre eles, a escola. SOBRE O BRINQUEDO Quando nos dispomos a refletir sobre brinquedo, em nosso imaginário é possível que apareça uma infinida- de de objetos: bola, carrinho, pipa, pião, quebra-cabeça, arco, boneca, trenzinho, ursinho de pelúcia, avião. Quan- ta coisa, não? Mas esta pequena lista é apenas uma parte ínfima da relação que podemos trazer de brinquedos existentes e que podem vir à cabeça de alguém quando pensamos nos brinquedos. Nunca será possível que esta A Professora Kishimoto, organizadora do livro, mantém um grupo de pesquisa no Brasil, em rede com grupos internacionais para discutir a infância e as pe- dagogias. Relaciona-se com grupos de pesquisadores na Itália e na França para estudar as especificidades do brincar e da infância. Entre outros interesses, pesquisa a cultura da infância em diferentes países, entre os quais o Japão, a França e Portugal. O livro O Brincar e suas teorias nos traz artigos que referendam concepções sobre o brincar provenientes de três campos de estudo: sociocul- turais, filosóficos e psicológicos que subsidiam trabalhos de pesquisa do grupo interinstitucional sobre o jogo na educação. Tais referenciais certamente serão de grande utilidade para os que buscam paradigmas para justificar pesquisas e reflexões a respeito do brincar. 38 lista seja exata. Os brinquedos estão diretamente relacio- nados aos elementos da cultura constituída e em consti- tuição, por isso são múltiplos e diversificados. Se pretendermos estabelecer uma conceituação do brinquedo, segundo Silva (2004), podemos encontrar diversas concepções, mas o autor destaca que o brinque- do, em geral, é visto como um suporte da brincadeira, ou como artefato industrializado confeccionado ou não por crianças e que apresenta uma referência à infância. Silva (2004) assinala que esta maneira de analisar o brinquedo não podeser realizada de forma estanque, pois, [...] a criança brinca tanto com os brinquedos que constrói quanto com os “brinquedos” propriamen- te ditos, e mesmo quando o brinquedo traz uma imagem impregnada de sugestões para o brincar, a criança ainda assim o subverte e lhe atribui novo sentido [...]. Os significados entrecruzados no brin- quedo não estão descolados do processo de inser- ção da criança no mundo da cultura e das imagens que o adulto constrói sobre a infância, a criança e seu brincar (SILVA, 2004, p. 25). Desta forma, mesmo utilizando brinquedos pensados e construídos para crianças (produção para a criança), ela pode produzir outra forma de utilizar o brinquedo (produção da criança). Por exemplo, a criança ganha uma corda colorida e ao invés de pular corda, a utiliza para colocar em volta do corpo dela e dos colegas para brincar de trenzinho. O artefato continua sendo um brinquedo nas duas situações. Perceberam o potencial da criança na apropriação do brinquedo? Ela tem a possibilidade de subverter a lógica destinada à utilização dele. Isto é imprescindível a compreensão de Infância e Brinquedo para apreender esta dinâmica relação. Walter Benjamin assinala que a infância e o brinque- do não podem ser compreendidos de maneira isolada. As crianças, antes de qualquer análise, estão incluídas na sociedade em que vivem e carregam consigo as marcas, características e anseios deste grupo. Assim como “[...] os seus brinquedos não dão testemunho de uma vida autônoma e segregada, mas são um diálogo de sinais en- tre a criança e o povo” (BENJAMIN, 2002, p. 94). Assim, o brinquedo e a criança trazem em si caracte- rísticas e relações que estão mutuamente ligadas e que de- vem ser consideradas quando tratamos de conceituá-las. Kishimoto (2016) refere-se, também, à relação entre o contexto vivenciado pela criança e o brinquedo quan- do afirma que o brinquedo se distancia da concepção de jogo. Com este não existe uma organização de re- gras predeterminadas para brincar, como normalmen- te ocorre com o jogo. O modo como se brinca com um brinquedo é influenciado pelo contexto vivenciado pela criança, entretanto não está preso apenas a esse contex- to. A criança pode recorrer à liberdade para utilizar o brinquedo da maneira que desejar. Benjamin afirma que brinquedos e brincadeiras têm a marca da sociedade atual, a sociedade do consumo. Chegou a antever em seus escritos o processo de avanço tecnológico nos brinquedos, vividos com mais intensi- dade nas últimas décadas (ALVES et al., 2011). Benjamin se refere ao processo de mercantilização do brinquedo e da criança, que, a seu modo críti- co de observar, pode ser percebido tanto nos tipos de materiais (da madeira ao plástico, por exemplo) quanto na forma de produção e formato dos brin- quedos, que impõem novas configurações em ter- mos de relação entre estes e as crianças, por vezes doutrinada e condicionada pelos adultos que os produzem (ALVES et al., 2011, p. 52). Entretanto, mesmo o brinquedo artesanal ou indus- trializado podendo ser produção para a criança - ad- vinda de um adulto -, existem diferenças pontuais entre eles. Como afirmamos anteriormente nesta uni- dade, a partir do estabelecimento da indústria cultu- 39 EDUCAÇÃO FÍSICA ral, temos também, na área dos brinquedos, estabele- cida uma nova forma de produção. Esta lógica do lucro, da compra desenfreada e da formação de consumidores em potencial insere-se também no brincar das crianças e em seu objeto, o brinquedo. Nessa relação, que predomina no consu- mo dos brinquedos, ficam marcadas as profundas diferenças de sentido do brinquedo artesanal e in- dustrializado. Não é difícil conhecermos uma criança que deseja muito um brinquedo que viu na televisão, que é um lan- çamento no mundo todo, e que, logo ao ser presenteada com o brinquedo, se desinteressa por ele e “passa” a dese- jar o próximo brinquedo anunciado. Este ciclo alimenta a dinâmica do mercado da mesma forma que potencia- liza a formação de consumidores. Entretanto, diante desse contexto que pode nos fa- zer desanimar, temos que lembrar o traço de resistência A produção em série dos brinquedos exclui a possibi- lidade da singularidade dos traços culturais do grupo ao qual a criança pertence em detrimento de um objeto estéril, distante do reconhecimento dos materiais, das cores e texturas diferenciadas. Ao brinquedo artesanal, feito pelo artesão, pai, irmão mais velho ou pela própria criança, único (porque nenhum ficava igual ao outro e porque traziam a marca autoral do seu criador), em que a criança reconhecia em seu conjunto os mate- riais com que foi produzido, despertando, com isso, sensações estéticas singulares, do brinque- do tradicional que traduzia os valores culturais, estéticos e espirituais do grupo cultural ao qual a criança pertencia, contrapomos a visão do brin- quedo industrializado: feito de plástico, colorido produzido em série, em grande quantidade, produto pasteurizado, homogêneo, milhares de brinquedos iguais, traduzindo valores culturais de um mundo globalizado (SILVA, 2004, p. 27). da cultura da criança. Elas, muitas vezes, subvertem a lógica empregada no brinquedo. As crianças brincando podem, facilmente, transformar uma glamorosa bone- ca que foi feita para representar uma jovem modelo de passarela, em uma mãe de família que tem três ursinhos 40 de pelúcia como filho e então brincar de casinha, e essa casinha pode ser uma gaveta de um armário que não se utiliza mais. A criança determina o conteúdo da brinca- deira e não o brinquedo que ela tem em mãos. Walter Benjamin assinala que a criança reconstrói as relações com o brinquedo e a brincadeira o tempo todo e não atende fielmente ao propósito que o adulto pen- sou, quando criou o brinquedo. A partir desta afirmação, fica expresso que “na brincadeira da criança é o conteúdo imaginário e simbólico que determina sua atividade lú- dica e não os objetos-brinquedos que utilizam (na sua dimensão material) ”. (ALVES et al., 2011, p. 51). Esta compreensão de que a criança não está subordi- nada ao brinquedo nos leva a reconhecer que entre criança e brinquedo existe uma relação em que ela utiliza o objeto para satisfazer suas necessidades, de expressar formas, de se reconhecer no mundo e de se comunicar com o mundo. Assim, a regra é intrínseca à atuação da criança com o brinquedo. Criança que brinca estabelece e cria regras. Estas regras são provenientes da própria situação que a criança imagina na brincadeira e não determinadas an- teriormente mesmo que o criador do brinquedo o tenha criado com um conjunto de regras. Para finalizar nossa discussão conceitual sobre o brin- quedo, veremos um princípio que orienta essa discussão: o brinquedo influencia o desenvolvimento das crianças. Esta ideia é central para quem está em formação para ser um(a) professor(a), especialmente como professor(a) de Educação Física. O brinquedo precisa estar presente na vida da crian- ça, ele é fundamental para seu pleno desenvolvimento. Na relação com o brinquedo está impregnada a cul- tura em que a criança está inserida. O brinquedo auxi- lia na potencialidade de sua capacidade imaginativa, ela cria com este objeto, pode apropriar-se dele e assim res- significar o mundo e suas experiências. Estudando conceitos, teorias e princípios que orien- tam o debate sobre o brinquedo, o jogo e a brincadeira, nos deparamos com uma enorme diversidade de elemen- tos imprescindíveis em nossa constituição como profes- sores(as). Quanta riqueza envolvida no brincar, não? A partir desse apanhado histórico e das discussões em torno do brincar em nossa cultura, podemos ampliar nossa compreensão sobre o nosso campo de atuação, a Educação Física, e avistar por meio desses elementos da cultura possibilidades de intervenção com diferen- tes públicos, podendo ser eles, escolares, atletas, adultos, idosos. É compreender que a nossa bagagem lúdica, a partir de agora, se torna um dosmais ricos materiais de trabalho em diversos espaços e contextos. Saber brincar é um requisito básico para transmitirmos nossas expe- riências de infância e aliar a elas nossos conhecimentos específicos sobre o desenvolvimento infantil, ou melhor, sobre o desenvolvimento do ser humano, considerando os aspectos motor, cognitivo, afetivo e social. Conceitos do brincar Nossas reflexões sobre os conceitos do brincar, do jogar e dos brinquedos não se encerram por aqui, esse é só o começo de uma jornada que trará cada vez mais elementos para a sua atuação profissional. Reflexionar e compreender, como esses conceitos contribuem no dia a dia no campo da Educação Física, é a proposta do nosso podcast. Vamos lá! https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/10298 41 atividades de estudo Ao longo da Unidade 1 foram citados diversos autores que buscam conceituar e caracterizar os jogos, brin- quedos e brincadeiras. Todas essas definições vão nos auxiliar a construir os nossos próprios conceitos, e a compreender melhor a riqueza desse campo de estudo para a nossa vida profissional. Para sintetizar os prin- cipais conceitos, elabore um Mapa Mental a partir dos termos abaixo, registre as características, os conceitos, os tipos, e finalmente, apresente elemento(s) em comum entre os três temas. JOGOS BRINCADEIRAS BRINQUEDOS Esp. Luana Biembengut Biato da Costa Oportunidades de aprendizagem Com o intuito de auxiliar na reflexão e compreensão do nosso papel como agentes do brincar e do educar, nesse momento, iremos tratar sobre as legislações e o direito ao brincar ao longo da história e os avanços no contexto atual. LEGISLAÇÕES E O DIREITO A BRINCAR unidade II 44 Nossa, como o nosso Planeta é lindo... e melhor que isso... é que todo mundo sabe que brincar é um direito de todas as crianças. Mas bem poucagente lembra que alguémprecisa fazeralguma coisa paragarantir essedireito. Para brincar, além do direito - da lei, nós precisamos de um lugar seguro para brincar: praça, parque etc. -, • precisamos de outras crianças para brincar, • precisamos de brinquedos para brincar, •precisamos de adultos para brincar, •precisamos de tempo para brincar... do quevocê está falando? é... Ele é lindo... mas ainda falta muita coisa mesmo… Será que nos outros Planetas os adultos já entenderam que não basta fazer uma lei para garantir o direito ao brincar a todas as crianças? 45 EDUCAÇÃO FÍSICA Você já parou para pensar se o direito ao brincar benefi- ciou a sua infância? E se sua resposta for sim, de que for- ma o contexto onde você viveu - casa, escola, rua, bairro, cidade - sofreu influências desta lei? Quais ações práti- cas e quem foram as pessoas que fizeram e garantiram esse direito para você enquanto criança? Nem sempre o direito ao brincar, ou mesmo os direi- tos das crianças estiveram em pauta. Por muito tempo na nossa história, as crianças eram vistas como seres imatu- ros, ainda não prontos e sem direitos garantidos pela le- gislação. Nesse contexto, as crianças também não tinham a proteção necessária para o seu desenvolvimento, como entendemos hoje ser tão necessário. Essa falta de compre- ensão da condição da infância tinha como consequência, entre muitas outras situações, a exposição ao mundo do trabalho que ia além das capacidades físicas e intelectuais, privação ao acesso à educação, permissão aos jogos e fes- tividades dos adultos incompatíveis com a infância, casa- mentos arranjados ainda no final da infância. A partir do olhar histórico das conquistas a nível de leis nacionais e internacionais - que não teriam aconteci- do sem o progresso das ciências e filosofias sociais - po- demos compreender quantos avanços tivemos, e ainda, descortinar caminhos que ainda precisamos percorrer enquanto garantia desses e de novos direitos. Vamos pensar juntos em uma situação - bem fácil de imaginar devido a semelhança com a realidade - em um bairro de uma cidade de médio porte no qual a maio- ria dos adultos trabalham período integral, esses por sua vez têm filhos, e as crianças estudam meio período na escola próximo de suas casas, e no outro período do dia, a grande maioria, fica em casa entretidas com equi- pamentos eletrônicos e programas de tv. Por meio de uma percepção dos professores dessas crianças, foram iniciados debates para discutir a falta de oportunidade das crianças conviverem e brincarem entre si no e fora do espaço escolar. Com o intuito de ampliar os diálogos sobre a problemática, esse tema foi levado para a asso- ciação de pais, para a associação do bairro, associação comercial local, para uma universidade local, para a se- cretaria de educação e lazer, para a câmara de vereadores e até mesmo para o prefeito da cidade. Pensando nesse contexto, você irá realizar esse exer- cício de cidadania e pensar em soluções para a situação apresentada. Agora é sua vez de propor ações para o con- texto apresentado anteriormente, e também, para o seu contexto, seu bairro, sua cidade. Como promover mais oportunidades para as crianças brincarem entre elas e com os adultos? Seja dentro ou fora da escola, usufruin- do assim do direito ao lazer e ao brincar. Elenque suas opiniões, ideias e considerações em seu diário de bordo. O que está sendo proposto anteriormente é com- preendermos que, independente do espaço ocupado por nós dentro da sociedade, sendo como professor, pais, vizinhos da escola, empresário, estudante universitário etc., nós temos a responsabilidade social de garantir e viabilizar o direito das crianças por meio de ações e ini- ciativas práticas, concretas. Mas diante da atividade proposta, imagino que alguns questionamentos ainda se perpetuam. Qual a minha res- ponsabilidade no tocante a garantia desse direito ao lazer e o brincar? E como, para além do ambiente escolar, posso contribuir para que este direito seja efetivado? Vamos descobrir juntos? 46 Prezado(a) aluno(a), nesta etapa da nossa disciplina, vamos tratar da brincadeira na dimensão do direito. Isto é, o brincar em relação à garantia dos direitos das crianças e adolescentes. Entretanto, questionamos mais uma vez, será que é necessário legislar sobre o brincar? Compreendemos que sim, pois se entendemos que a brincadeira é parte constituinte da vida humana, ela precisa ser garantida, assim como estão nas legislações o direito à saúde, à educação, à moradia, à liberdade, à dignidade, entre outros. Partindo do entendimento de que criança é sujeito de direitos e que a cultura que a criança produz é a cultu- ra lúdica, esta precisa ser assegurada nesta esfera. Nos úl- timos anos, esta concepção orientou diversas legislações no mundo que tem a infância como elemento central, sendo assim, se existem leis que tratam de infância, elas também devem garantir o brincar e o jogar. O século XX foi um marco, no que se refere à legisla- ção sobre a infância por avanços. Nesse século, reconhe- ce-se que a criança é uma pessoa em condição peculiar de desenvolvimento e que necessita de uma legislação própria para ter seus direitos garantidos. É na segunda parte do século XX que o direito a brincar começa a aparecer nas declarações e legislações. Segundo Tomás e Fernandes (2014), esse direito tem difi- culdade de ser entendido como um direito fundamental pela sociedade. Esse fato ocorre, pois quando colocado em par com outros direitos, como educação, segurança, 47 EDUCAÇÃO FÍSICA alimentação, em uma escala de hierarquia, o brincar não tem tanta prioridade para a maioria das pessoas. Entretanto, há de se reconhecer que quando um direito não é garantido, como o direito a brincar, ou- tros em consonância também não são, como o direito à saúde, liberdade e desenvolvimento pleno. Entendemos que uma garantia de direito está imbricada com a outra. Temos ainda que estudar, discutir e agir para que esses direitos sejam reconhecidos e garantidos, assim como o direito a brincar. No desenvolvimento da garantia dedireitos, tivemos, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU,1948), que estabelece em seu artigo 24 “o direito ao repouso e ao lazer”. A declaração, entretanto, não tratava especificamente da criança, mas sim de todas as pessoas, e nem da expressão do brincar, e sim do lazer. Foi em 1959, com a Declaração dos Direitos da Criança (ONU,[2022a]), que o brincar apareceu ex- pressamente como um direito em seu princípio sete: “A criança terá ampla oportunidade para brincar e diver- tir-se, visando os propósitos mesmos da sua educação; a sociedade e as autoridades públicas empenhar-se-ão em promover o gozo deste direito”. Nesta dimensão, o brincar está atrelado a um sen- tido utilitário. Na Declaração Universal dos Direitos da Criança, o direito a brincar está relacionado à educação, ou seja, a brincadeira a ser desenvolvida para algum fim, no caso, a educação. A questão que orienta o direito a 48 brincar nesta declaração não compreende ou garante a brincadeira em seu sentido como uma forma de expres- são das pessoas e de vida, mas sim a brincadeira para outra finalidade, no caso a brincadeira para beneficiar a aprendizagem. Esse sentido utilitário dado à brincadei- ra persiste nas legislações até os dias de hoje (TOMÁS; FERNANDES, 2014). Após a declaração citada anteriormente, temos, em 1989, no âmbito internacional, a Convenção Internacio- nal dos Direitos da Criança (ONU, [2022a]), que trata do brincar em seu artigo 31: 1 – Os Estados Partes reconhecem o direito da criança ao descanso e ao lazer, ao divertimento e às atividades recreativas próprias da idade, bem como à livre participação na vida cultural e artística. 2 – Os Estados Partes promoverão oportuni- dades adequadas para que a criança, em condi- ções de igualdade, participe plenamente da vida cultural, artística, recreativa e de lazer. (ONU, [2022a], on-line). A Convenção avança na garantia do direito, no sentido de que é um direito autônomo, não está atrelado ao di- reito à educação, como a Declaração de 1959. Garante também a questão das especificidades da geração que trata a Convenção, a infância. O artigo versa também sobre a questão da garantia ao repouso e tempo livre. Este ponto é muito relevante frente às inúmeras violações que ocorrem no âmbito do tempo das crianças. Em muitos locais, as crianças têm cada vez menos tempo livre e têm negado seu direito à convivência comunitária: algumas passam suas vidas institucionalizadas, e outras, por conta da violência, não desfrutam da vida em comunidade. A Convenção Internacional dos Direitos da Criança de 1989 foi um marco na defesa de direitos de crianças e adolescentes. Essa convenção estabelece para o mundo todo que criança é sujeito de direito e que devem ser dis- ponibilizados mecanismos para essa garantia. Segundo Rosemberg e Mariano (2010, p. 709), 193 países foram signatários da CDC e este é “[...] o instrumento de di- reitos humanos mais ratificado em escala mundial”. O Brasil também ratificou a Convenção Internacional dos Direitos da Criança. No Brasil, temos leis que versam sobre a infância desde o início do século XX, o Código de Menores de 1927 e, posteriormente, o Código de Menores de 1979. Essas legislações tinham um viés punitivo e não trata- vam do direito das crianças como as legislações mais atuais, e sim sobre encaminhamentos e procedimentos a respeito da criança pobre, órfã ou em conflito com a lei. A institucionalização da rotina das crianças é tema bem atual e necessário para nossas discussões no âmbito da atuação profissional na área da Educação Física. Essa situação se refere à forma como o tempo integral das crianças tem sido ocupado por atividades dirigidas, além do espaço escolar, dentro de locais como: escola de idiomas, de iniciação esportiva como natação e futebol, escola de música e artes, e mais atualmente em ativi- dades chamadas de personal kids que de alguma forma tenta adaptar atividades dos adultos para as crianças. 49 EDUCAÇÃO FÍSICA Com o progresso da democracia no país, após o perí- odo ditatorial, novos ideais tomam força. Nos anos 80 do século XX, no Brasil, constituem-se muitos avanços nos direitos humanos depois de tempos difíceis e de repressão. Temos, neste contexto, uma nova legislação, a Cons- tituição Federal de 1988. No artigo 227, sobre a criança e o adolescente brasileiro, aponta que: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988, on-line). A Constituição Federal coaduna com o movimento in- ternacional a respeito dos direitos humanos e dos direitos das crianças. O artigo 227 trata da criança e adolescente como sujeitos de direitos, elencando diferentes elemen- tos que partem de um conceito de infância e adolescên- cia que, até então, era vigente na legislação brasileira. No mesmo movimento que levou aos termos no país uma nova Constituição em 1988, temos a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em 1990. O ECA foi fruto de intensos debates em defesa da criança e do adolescente brasileiro, em um processo em que estiveram envolvidos políticos, professores e movi- mentos sociais, como a Pastoral da Criança, Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, Movimento de Mulheres na Luta por Creches (NATALI, 2009). O ECA institui em seu conteúdo um paradigma educa- tivo para a garantia de direitos das crianças e adolescentes, contrariando o paradigma punitivo das legislações anterio- res que tratavam da infância. Este estatuto considera todas as crianças e adolescentes, independentemente de sua situ- ação econômica e social, pessoas em situação peculiar de desenvolvimento. Desta forma, precisam de uma legislação específica que verse sobre essa fase especial da vida. Art. 4º. É dever da família, da comunidade, da so- ciedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos refe- rentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária (BRASIL, 1990, on-line). Anteriormente ao ECA, tínhamos instituído na legisla- ção a concepção da “situação irregular”. Na legislação an- terior dos Códigos de Menores, a criança e o adolescente eram alvos de ações judiciais: quando se pensava em di- reitos neste contexto, se relacionava com a punição. Por outro lado, o ECA trabalha com a noção de universali- zação de direitos, com a “doutrina da proteção integral” e de que a criança e o adolescente são prioridade absoluta nos atendimentos e nas determinações das políticas pú- blicas (MAGER et al., 2011). No Estatuto da Criança e do Adolescente está garan- tido o direito a brincar, pois segundo Mager et al. (2011, p. 125), “[...] esta é uma característica da natureza infantil e a brincadeira, uma das principais formas de expressão da criança”. Por isso, para a criança e o adolescente, o brincar é uma necessidade e é ainda um direito. Temos então, no Brasil, uma legislação que garante o brincar em seu artigo 16 – que trata do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dig- nidade no inciso IV –, no qual fica estabelecido o direito a “brincar, praticar esportes e divertir-se” (BRASIL, 1990). 50 No ECA está presente, ainda, um capítulo inteiro dedicado ao esporte, lazer, educação e cultura, que es- tabelece relação com o conteúdo jogos, brinquedos e brincadeiras. Nesta parte do estatuto se garante como direito que sejam propiciados recursos e espaços para desenvolver atividades que devem assegurar programa- ções esportivas, educativas, de lazer e culturaispara a infância e juventude. Trata também de que sejam garantidas atividades nes- tas áreas voltadas para a infância e juventude e que estas atendam sua condição peculiar de desenvolvimento. Isto é, que sejam desenvolvidas programações culturais, educa- cionais e de lazer que respeitem os anseios e necessidades destas categorias geracionais, a infância e adolescência. para que o direito a brincar seja concretizado. Entre- tanto, precisamos também avançar na compreensão do valor do brincar para o desenvolvimento humano para que estas ações sejam materializadas. A garantia do brincar depende também de se con- siderar as características particulares de cada grupo que se trata. Não existe apenas uma forma e expectativa a respeito da efetivação deste direito. Sobre as análises a respeito das legislações sobre a infância, Tomás e Fer- nandes (2014, p. 18) alertam que: [...] deverão ser cautelosas face a um pretenso al- cance global que o direito a brincar pretende assu- mir, uma vez que terão de ser considerados os mar- cos estruturantes, nomeadamente os relacionados com as dimensões culturais, sociais, econômicas que atribuem e carregam de diversidade a catego- ria geracional da infância, as formas de vida das crianças e as formas de (não) brincar das mesmas. Caso contrário, correremos o risco de colonizar e replicar de um modo homogêneo. Desta forma, quando debatemos sobre o direito ao brin- car, não podemos considerá-lo como uma coisa única e igual para todas as crianças. A efetivação deste direito deve estar profundamente relacionada às características, diversidade, expectativas e necessidades do brincar das diferentes crianças e grupos sociais. Em 2016, tivemos novas alterações e avanços nas políticas públicas específicas para a primeira infân- cia - crianças até 6 anos de idade – por meio da lei nº 13.257, de 06 de março, e percebemos essa preocupação no documento quando orienta que as políticas públicas devem ser elaboradas e executadas respeitando “a indi- vidualidade e os ritmos de desenvolvimento das crian- ças e valorizar a diversidade da infância brasileira, assim como as diferenças entre as crianças em seus contextos sociais e culturais” (BRASIL, 2016, on-line). Apesar de estar garantido na lei vigente, o brincar ainda precisa ser compreendido e exercido como um direito no país. Precisamos, ainda, avançar muito nas condições concretas, como em praças, espaços nas escolas, ruas mais sinalizadas, espaços na cidade e tempo disponível https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14865 51 EDUCAÇÃO FÍSICA Entre muitos outros aspectos, gostaríamos de chamar a atenção, sob o ponto de vista da ciência, que é possível perceber, com esse panorama histórico das leis sobre a infância, que houveram avanços, entre outros fatores, em decorrência dos estudos sobre o desenvolvimen- to infantil, como ele se processa no aspecto biológico, psicológico, social, cognitivo e cultural. Compreenden- do dessa maneira, somos chamados à responsabilidade em darmos continuidade aos estudos e pesquisas, a fim de produzirmos ciência que justifique a necessidade de cada vez mais proteção e garantia dos direitos ao desen- volvimento integral nas primeiras fases da vida. Neste breve panorama estudado até aqui sobre o di- reito a brincar, podemos observar um avanço considerá- vel no entendimento de direito e de infância. Entretanto, segundo Müller (2007), temos concretamente um pro- gresso no âmbito da garantia de direitos das crianças e adolescentes, mas precisamos ainda evoluir no âmbito da participação infantil nas instâncias políticas. Essa par- ticipação reconhecida no texto do documento da lei da primeira infância nº 13.257/2016, quando nos diz que: Parágrafo único. A participação da criança na for- mulação das políticas e das ações que lhe dizem respeito tem o objetivo de promover sua inclusão social como cidadã e dar-se-á de acordo com a especificidade de sua idade, devendo ser realizada por profissionais qualificados em processos de es- cuta adequados às diferentes formas de expressão infantil.(BRASIL, 2016, on-line). Foram muitos os avanços e mudanças na forma como a lei tratou e hoje trata a infância, porém é ainda impres- cindível que professores, pais, políticos, pesquisadores, a sociedade em geral, busquem cada vez mais elementos que levem concretamente à garantia de uma vida mais digna e com desenvolvimento pleno das crianças e ado- lescentes. O conhecimento sobre este âmbito, como bus- camos explicitar aqui, visa colaborar com esta efetivação. Os direitos das crianças Em todas as áreas de atuação, é possível trabalhar e realizar ações concretas no sentido de constituirmos uma sociedade mais justa e, em especial, que garanta os direitos das crianças e dos adolescentes. Um exem- plo disso é a autora e professora Ruth Rocha, que traz com seu olhar próprio, por meio de um lindo poema, os direitos das crianças e esse é o tema do nosso Podcast, vamos lá!? https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/10299 52 OLHAR CONCEITUAL Principais marcos nos avanços das leis sobre a Infância Código de Menores. Essas legislações tinham um viés punitivo e não tratavam do direito das crianças, e sim sobre encaminhamentos e procedimentos a respeito da criança pobre, órfã ou em con�ito com a lei. d e pr ã o d e p ã o d e p ã o e p fã o e p fã o e p fã e p fã e p fã e p fã e p fã e p rfã e rfã e rfã e rfã e rfã e rfã e órfã e órf e órf e órfórfórfóróróróróróróóóóóóóóóó 19 27Brasil Internacional 1948 Declaração Universal dos Direitos Humanos: • Direito ao repouso e ao lazer. • Não tratava especi�camente da criança, mas sim de todas as pessoas, e nem da expressão do brincar, e sim do lazer. 19 59Interna cio na l Declaração dos Direitos da Criança: “A criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se, visando os propósitos mesmos da sua educação; a sociedade e as autoridades públicas empenhar-se-ão em promover o gozo deste direito.” A brincadeira para bene�ciar a aprendizagem. 19 79Brasil Código de Menores. Essas legislações tinham um viés punitivo e não tratavam do direito das crianças, e sim sobre encaminhamentos e procedimentos a respeito da criança pobre, órfã ou em con�ito com a lei. 19 88Brasi l Constituição Federal de 1988. Artigo 227, sobre a criança e o adolescente brasileiro. A Constituição Federal coaduna com o movimento internacional a respeito dos direitos humanos e dos direitos das crianças. 19 89Interna cio na l Convenção Internacional dos Direitos da Criança: • Essa convenção estabelece para o mundo todo que criança é sujeito de direito e que devem ser disponibilizados mecanismos para essa garantia. 193 países foram signatários da CDC. 19 90 Estatuto da Criança e do Adolescente. Foi fruto de intensos debates em defesa da criança e do adolescente brasileiro, em um processo em que estiveram envolvidos políticos, professores e movimentos sociais, como a Pastoral da Criança, Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, Movimento de Mulheres na Luta por Creches. 53 EDUCAÇÃO FÍSICA A escola nem sempre foi compreendida como um es- paço para brincar. As instituições educacionais, indis- cutivelmente, por muito tempo foram espaços de edu- car, instruir e disciplinar crianças e jovens. No entanto, brincar era atividade usufruída naturalmente por mui- tas dessas em outros espaços, como já discutimos, em praças, ruas, quintais etc., pois haviam espaços, tempo e crianças para compartilhar desses momentos. E diante de tantas mudanças ao longo das últimas décadas na ro- tina infantil, a escola passa a ser considerada como um espaço para essas experiências em decorrência da es- cassez de oportunidades com essas condições - espaço, tempo e crianças para brincar - fora do ambiente escolar. Naturalmente, você poderá questionar: os profissio- nais que não atuam na escola, isso é, os que não optaram por atuar como professores de educaçãofísica escolar, esses também precisam compreender a importância desse espaço e os conteúdos que ali são desenvolvidos? Registre, a seguir, argumentos favoráveis e/ou contrários. Esse como muitos outros questionamentos que tra- remos ao longo dos nossos estudos, não tem uma única resposta, nem mesmo uma resposta correta ou errada. A provocação das nossas reflexões nos leva a pensar em aspectos não antes questionados ou a desconstrução de velhos conceitos que necessitam ser reformulados. O que podemos corroborar por meio das nossas ex- periências profissionais, é que na medida que nos pro- pomos a trabalhar com a infância, seja em que área for, ao nos apropriarmos dos conteúdos escolares, es- tamos tomando conhecimento das experiências, que provavelmente, as crianças já tenham vivenciado. Um outro aspecto importante é a clareza que teremos em distinguir as intenções pedagógicas desses conteúdos no espaço escolar em relação às demais áreas de atuação, inclusive facilitando a definição de objetivos para os nossos trabalhos, sejam eles em clubes, hotéis, espaços recreativos, programas de lazer etc. PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO FÍSICA QUE NÃO ATUAM NA ESCOLA PRECISAM SABER QUAIS SÃO OS CONTEÚDOS VIVENCIADOS PELAS CRIANÇAS NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA? SIM NÃO JUSTIFIQUE: Você já parou para pensar na importância da escola nas ações concretas de garantia do direito ao brincar? Entre os espaços que as crianças acessam no dia a dia, quantos deles garantem condições para as brinca- deiras coletivas? 54 Neste sentido, convido a todos para mais reflexões a respeito dos jogos, brinquedos e brincadeiras na Escola e na Educação Física Escolar, como local de ação para a garantia dos direitos das crianças. Na Educação Básica brasileira, a Educação Física é considerada uma disciplina que tem como conteúdo e objeto de conhecimento a cultura corporal. Dentre a imensa gama de conteúdos estão os esportes, jogos e brincadeiras, lutas, danças e ginásticas. Iremos, aqui, ca- ro(a) aluno(a), refletir sobre o desenvolvimento das ex- pressões dos jogos, brinquedos e brincadeiras nas aulas de Educação Física Escolar. O conteúdo de jogos e brincadeiras desenvolvido na escola está intrinsecamente relacionado aos outros conteúdos da disciplina, ao perfil da escola que trabalha- mos, às características regionais do local em que se está inserido, às condições materiais que a escola disponibili- za, entre outros inúmeros fatores. Todos esses elementos compõem a disciplina, os conteúdos e seu desenvolvi- mento no ambiente escolar. Assim, no desenvolvimento do brincar e jogar na es- cola, como em outros conteúdos, estão envolvidos diver- sos processos, conceitos e significados que dão sentido e ressignificam a prática educativa e a compreensão da realidade em que se vive. O conteúdo a ser trabalhado junto aos alunos – no nosso caso, temos foco nos jogos, brinquedos e brincadei- ras – está inserido e é produzido na sociedade e compõe os conteúdos da Educação Física. A escola precisa acessar os conteúdos na realidade dada, que é um local de apren- dizagem que está em interação e é composto pelos acon- tecimentos, características e anseios da sociedade. Desta forma, podemos afirmar que “[...] cabe à escola promover a apreensão da prática social. Portanto, os conteúdos de- vem ser buscados dentro dela” (SOARES et al., 1992, p. 42). Utilizaremos a partir daqui, muitas contribuições do documento da Base Nacional Comum Curricular, que vem nos auxiliar na compreensão desse espaço tão fundamental que é a escola, e para que compreendamos do que se trata o documento em questão, faz necessário esclarecer que a BNCC: [...]é um documento de caráter normativo que de- fine o conjunto orgânico e progressivo de apren- dizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, de modo a que tenham assegu- rados seus direitos de aprendizagem e desenvol- vimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE) (BRASIL, 2021, on-line). Quando nos referimos a valorização da cultura local e da criança, encontramos em diversos es- tudos e na própria BNCC respaldo para essa afir- mação, segundo Brasil (2021), quando se tratan- do da Educação Infantil, as creches e pré-escolas deverão em suas propostas pedagógicas levar em consideração e “acolher as vivências e os conhe- cimentos construídos pelas crianças no ambien- te da família e no contexto de sua comunidade” e por meio dessa ação haverá a possibilidade de ampliarmos as aprendizagens e experiências das crianças em complemento à educação familiar (BRASIL, 2021, on-line). E ainda de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil - DCNEI “as práticas pedagógicas que compõem a proposta curricular da Educação Infantil devem ter como eixos norteadores as interações e a brincadeira” (BRASIL, 2021, on-line). Seguindo com as contribuições da BNCC, a respeito da Educação Física no Ensino Fundamental afirma que: 55 EDUCAÇÃO FÍSICA A vivência da prática é uma forma de gerar um tipo de conhecimento muito particular e insubstituível e, para que ela seja significativa, é preciso proble- matizar, desnaturalizar e evidenciar a multiplicida- de de sentidos e significados que os grupos sociais conferem às diferentes manifestações da cultura corporal de movimento (BRASIL, 2021, on-line). A partir desta afirmação, é possível indagarmos sobre o modo como desenvolveremos os conteúdos dos jogos e brincadeiras na escola. considerável, em especial, com relação aos outros espa- ços de atuação da Educação Física com o tema jogos e brincadeiras. Quando se tratando do ambiente escolar, nós temos a responsabilidade de aprofundar os conheci- mentos em torno das vivências desenvolvidas. Ao elen- carmos um jogo ou uma brincadeira para as nossas au- las, temos que dar a oportunidade aos nossos alunos de conhecerem mais profundamente aspectos históricos e culturais relacionados àquela atividade. Muito provavel- mente, a escola será um dos poucos espaços que tratará de temas mais profundos e culturais diretamente com a infância, mesmo pelas suas características e responsabi- lidades com a formação integral dos alunos. Com o exemplo da brincadeira escravos de Jó, tam- bém remetemos ao sentido do trabalho educativo na esco- la, que não pode ser neutro ou deixar passar despercebido elementos que necessitam de uma reflexão mais apro- fundada. A ação educativa responsável constitui-se como uma “[...] prática docente crítica, implicante do pensar cer- to, envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer” (FREIRE, 1998, p. 42). Paulo Freire nos alerta que o professor precisa de- senvolver, em sua ação educativa crítica, a destreza de que enquanto trabalha com seus alunos e faz sua prática educativa, deve ser capaz de, ao mesmo tempo, refletir sobre sua tarefa. Esta ação-reflexão deve ser desenvol- vida a tal ponto que seja a mesma, ao mesmo tempo e junto aos alunos. Como no exemplo citado, são muitos elementos envolvidos no desenvolvimento da brinca- deira “Escravos de Jó”; o professor não pode se furtar em analisá-lo e trabalhá-lo sem considerá-lo em sua totali- dade e complexidade. Outro ponto importante é considerarmos, na ação educativa escolar, a questão do respeito aos saberes dos alunos e a escuta a estes com qualidade. Paulo Freire É sempre muito importante compreender que no espaço escolar, o trato com os conteúdos se modifica de forma Como podemos brin- car cantando “Escra- vos de Jó” (veja no QR Code) sem debater- mos, aprendermos, problematizarmos, nos posicionarmos sobre o conteúdo, origem e reflexos sociais da letra da música que canta- mos junto aos nossos alunos e, possivelmen- te, modificarmos a forma como brincamos, em detrimento de apenas observarmos as- pectos como o ritmo, a coordenação motora dos participantes e os materiais utilizados? O desenvolvimento do conteúdopotenciali- zado por esta brincadeira ficaria incompleto se priorizássemos apenas um dos inúmeros aspectos que compõem a brincadeira em si e não trabalhássemos em sua totalidade. Para acessar, use seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14897 56 (1998) afirma que esse princípio constitui os processos educativos efetivos. Temos, na nossa sala de aula, inúmeras experiências e anseios a respeito dos conteúdos e não seria diferente a respeito dos jogos, brincadeiras e brinquedos. Sem dúvida, vivenciamos nos mais diversos ambientes estas expressões. Como ignorá-las no desenvolvimento deste conteúdo? Como não considerar que jogar e brincar estão, de alguma forma, presentes em toda nossa vida? Segundo Rangel e Darido (2014), podemos, no senso comum, entender que os conteúdos de jogos e brincadeiras são próprios da educação infantil. Esta afirmação pode ser contrariada, haja vista a possibi- lidade do desenvolvimento destas expressões duran- te toda a vida. Como afirmamos na unidade anterior deste livro, o jogar e brincar são expressões da vida, formas de criação e recriação que deveriam perpassar toda nossa existência. O cuidado no desenvolvimento deste conteúdo na Educação Física escolar em diferentes séries, segundo as autoras, passa pelos debates das regras do jogo e pela complexidade e temas dos jogos e brincadeiras desen- volvidos em relação à faixa etária que se trabalha na es- cola. Este cuidado deve ser uma orientação e não uma limitação para o desenvolvimento do conteúdo. Sobre as regras dos jogos na escola, estas são impor- tantes e devem ser desenvolvidas e trabalhadas no am- biente escolar; precedem e representam muito do mun- do do trabalho que temos configurado na sociedade, em um jogo. Segundo Soares et al. (1992, p. 45), “Quanto mais rígidas são as regras dos jogos, maior é a exigência de atenção da criança e de regulação da sua própria ati- vidade, tornando o jogo tenso”. O jogo precisa, então, em seu desenvolvimento, passar por intensos processos de problematizações: as regras não são elementos neutros 57 EDUCAÇÃO FÍSICA e que devem ser seguidas sem questionamentos prévios no desenrolar da atividade. Refletindo sobre a organização dos conteúdos dos jogos nas diversas séries da escola, Soares et al. (1992, p. 46) afirmam que é imprescindível “[...] que os conteúdos dos mesmos sejam selecionados, considerando a memó- ria lúdica da comunidade em que o aluno vive e ofere- cendo-lhe ainda o conhecimento dos jogos das diversas regiões brasileiras e de outros países”. educativos. Entretanto, muitas vezes, os educadores di- zem “vamos trabalhar na escola com atividades lúdicas!” e apropriam-se desse conceito sem debater ou precisá-lo. O lúdico não é um sinônimo exato para diversão, jogos, brincadeiras e brinquedos que são característicos da infância. Essa compreensão pode ser utilizada pelo senso comum, mas temos que avançar dela quando so- mos professores que trabalhamos com o conteúdo, pois o lúdico não é exclusivo da infância e nem ocorre apenas nestas manifestações. Segundo Gomes (2004), esta concepção é errônea, pois associar o lúdico apenas à infância reforça a com- preensão de que os adultos não se dedicam à ludicidade, pois estão trabalhando, pensando em ocupações mais importantes e sérias, destacando uma concepção “inú- til-improdutiva” para a ludicidade. Outro ponto é que quando determinamos o lúdico como sinônimo de alguma atividade, como a brincadei- ra, não conferimos o sentido amplo que tem a ludicida- de, pois esta é composta de inúmeras: [...] manifestações culturais construídas social- mente pela humanidade. As manifestações cons- tituem patrimônio cultural e refletem os valores, regras, tradições e costumes de determinado grupo social em diferentes contextos e épocas (GOMES, 2004, p. 142). Ressaltamos então, a multiplicidade de manifestações que o lúdico representa, o que nos leva a expandir esta compreensão, pois ele materializa a cultura dos grupos sociais em suas diversas expressões. Lúdico não é só brincadeira e jogo, prezado(a) aluno(a). Apontamos, assim como Gomes (2004), que o en- tendimento de lúdico como uma das dimensões da linguagem humana e como uma forma de expressão, desenvolvido por José Alfredo Debortoli, contempla, de uma forma muito satisfatória, o seu real sentido. Devemos, entretanto, ao falar dos jogos e brincadeiras, nos atentar para a compreensão do conceito de lúdico que se faz importante aqui, como afirmamos previamente, ela precisa ser acessada e estimulada dentro dos processos Uma dose de encan- tamento pelas brin- cadeiras somada com uma dose de pesquisa, podemos encontrar muitos materiais sobre as brincadeiras regionais de todo o nosso país. Os nomes mudam, a músi- ca e as regras também, o que nunca muda é a vontade de brincar. Nesse curto vídeo, somos apresentados às brincadeiras regionais, uma delas chamada de “7 Pecados” é também co- nhecida em outras regiões com o nome de “Alerta” no qual ao invés dos próprios nomes, as crianças adotam uma fruta para serem chamadas. Nesse mesmo canal do YouTube, vocês encontrarão vídeos de brincadeiras de outras regiões do Brasil. Para acessar, use seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14909 58 A autora nos aponta que o lúdico por ser constituído dos inúmeros elementos que compõem a realidade, po- dendo contribuir para que tenhamos uma manutenção da alienação das pessoas, como também podendo cola- borar para sua emancipação. O desenvolvimento da ex- pressão lúdica pode estimular o reforço de estereótipos, de preconceitos entre as pessoas e grupos, bem como pode incitar o diálogo e a reflexão crítica. São possibili- dades bem contraditórias que podem ser estimuladas a partir da expressão lúdica. Tais constatações sobre o lúdico são muito importan- tes, pois estamos aqui aprendendo sobre o desenvolvimen- to de um conteúdo na escola que é reconhecido não como o único, mas como um dos principais referenciais do que é a ludicidade: o jogar e o brincar. Se trabalhamos com esta linguagem que tem incutido todo este potencial transfor- mador, devemos desenvolvê-lo com todas as suas possibili- dades, com responsabilidade, partindo desse entendimen- to amplo de ludicidade como expressão humana. A clareza sobre este princípio no desenvolvimento do trabalho com jogos e brincadeiras relaciona-se com o entendimento de educação que se tem. A compreen- são da ludicidade como uma expressão humana que se concretiza em diversas manifestações relaciona-se ao princípio da educação democrática e da participação dos alunos no processo de ensino. A participação social pode ser entendida como “[...] a possibilidade dos sujeitos intervirem no que diz respeito às suas vidas” (MÜLLER, 2012, p. 15); essa possibilidade de abertura ou expansão da participação social dos agen- tes da educação pode propiciar um movimento potencia- lizador do bom trabalho desenvolvido com a ludicidade. Vamos pensar, por exemplo, na riqueza, no quanto pode-se aprender em um trabalho desenvolvido com os alunos e comunidade escolar sobre o lazer que é desen- volvido no bairro da escola, os lugares de encontro entre as pessoas, as festas comunitárias, os jogos que ocorrem neste ambiente; em um trabalho de pesquisa com os alu- nos que pode chegar à elaboração de propostas e vivên- cias a respeito da ludicidade, mesclando experiências acumuladas neste projeto coletivo. Não seria um traba- lho de aprendizagens possíveis e de simples execução envolvendo a linguagem do jogo e da brincadeira? Estes conteúdos, segundo Rangel e Darido (2014), apresentam uma grande facilidade de serem desenvol- vidos na escola. As autoras elencam diversos pontos que se referem a esta facilidade e que nos estimulam a traba- lhar esta linguagem: os jogos, brinquedos e brincadeiras de alguma forma são conhecidos das crianças e estas já vivenciaram esta linguagem em diferentes situações. As- sim,não são totalmente desconhecidos para elas e, em geral, também não exigem materiais muito sofisticados. Podemos desenvolver jogos e brincadeiras com mate- riais diversos e sem materiais também. As regras dos jogos podem, também, ser variadas, apresentando-se como extremamente complexas, como em um jogo de localização com mapas, bússolas, tarefas a serem cumpridas e pistas a serem desvendadas; podem Podemos compreender o lúdico como: [...] expressão humana de significados da/ na cultura referenciada no brincar consi- go, com o outro e com o contexto. Por essa razão, o lúdico reflete as tradições, os valores, os costumes e as contradições presentes em nossa sociedade. Assim, é construído culturalmente e cerceado por vários fatores: normas políticas e sociais, princípios morais, regras educacionais, condições concretas de existência (GO- MES, 2004, p. 145). 59 EDUCAÇÃO FÍSICA ter regras simples, como um pega-pega em que a regra é “passar o arco ao participante que será o pegador”. As duas situações podem ser chamadas de jogos ou brincadeiras e têm graus de complexidade de regras completamente dife- rentes. Esta característica do jogo também nos leva a outro elemento que facilita o seu desenvolvimento na Educação Física escolar: podemos brincar e jogar com/entre qual- quer faixa etária, o que contempla a diversidade de idades que temos nas escolas (RANGEL; DARIDO, 2014). O trabalho com jogos também pode ser promovido na escola se considerarmos que muitos desses jogos po- dem configurar-se como prazerosos para os participan- tes – mas isto não é uma característica presente o tempo todo e em todos os jogos – e que se aprendem: [...] pelo método global, diferentemente do esporte, que geralmente é aprendido/ensinado por partes. Ao contrário, em um grande jogo, aprendemos jogando, não se explica e se “treina” as partes para depois se jogar; a graça de se aprender o jogo está justamente em jogá-lo. Não se aprende a arremes- sar para depois se aprender a jogar queimada, o arremesso é aprendido no jogo (RANGEL; DARI- DO, 2014, p. 162). O que vamos experimentando e aprendendo no jogo e na brincadeira faz parte do próprio processo do jogar. Esta expressão de brincar e jogar, de certa forma, pode se tornar mais participativa na medida em que os acordos e regras podem modificar-se de acordo com as pessoas que estão na situação do jogo. As estratégias utilizadas na brincadeira também podem transformar-se e apri- morar-se, não se caracterizando, necessariamente, como uma violação de regras e assim podemos continuar jo- gando e brincando. O respeito às regras durante o processo educativo está presente na BNCC desde a Educação infantil em seus objetivos de aprendizagem para as crianças de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses, orientando que as crianças devem “respeitar regras básicas de convívio so- cial nas interações e brincadeiras” (BRASIL, 2021, p. 46). Na BNCC, a Educação Infantil está organizada da seguinte forma: CRECHE PRÉ-ESCOLA • BEBÊS (0 A 1 ANO E 6 MESES) • CRIANÇAS BEM PEQUENAS 1 ANO E 7 MESES A 3 ANOS E 11 MESES) • CRIANÇAS PEQUENAS (4 ANOS E 5 ANOS E 11 MESES) E para todo esse ciclo da Educação Básica é relevante considerar a importância do brincar onde no próprio texto do documento diz: A interação durante o brincar caracteriza o coti- diano da infância, trazendo consigo muitas apren- dizagens e potenciais para o desenvolvimento in- tegral das crianças. Ao observar as interações e a brincadeira entre as crianças e delas com os adul- tos, é possível identificar, por exemplo, a expressão dos afetos, a mediação das frustrações, a resolução de conflitos e a regulação das emoções. (BRASIL, 2021, p. 36). Quando nos referimos às brincadeiras e brinquedos como material de trabalho para todos aqueles que atu- Figura 1- Organização da Educação Infantil Fonte: Ministério da Educação ([2022], on-line). Descrição da Imagem: observa-se a divisão da Educação Infantil de acordo com a BNCC. Foram utilizadas caixas de textos na cor verde para criar a organização. Primeiro, há o termo “Creche” em uma caixa de texto grande, retangular, de tamanho que contem- ple abaixo dela, outras duas menores lado a lado, com os dizeres “Bebês (zero a 1 ano e 6 meses)” e “Crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses)”. Separadamente, ao lado, temos uma caixa de texto grande, com o termo “Pré-escola” e abaixo dela, outra menor com os dizeres “Crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses)”. 60 farão compreender um pouco mais o nosso papel nas vivências dos nossos alunos, e que “É funda- mental frisar que a Educação Física oferece uma sé- rie de possibilidades para enriquecer a experiência das crianças, jovens e adultos na Educação Básica, permitindo o acesso a um vasto universo cultural” (BRASIL, 2021, p. 213). am com a infância, é com a segurança de que esse é o meio de atingirmos os nossos objetivos em promover situações de desenvolvimento integral para essa faixa etária. E mesmo isso ficando muito claro no documento citado anterior- mente, por diversas vezes encontraremos os termos brincadeira e brinquedo nas diretrizes para as instituições de educação infantil. Logo, relacionamos alguns desses encontrados na BNCC. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO Bebês (zero a 1 ano e 6 meses) Crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) Crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses) Perceber as possibilidades e os limites de seu corpo nas brin- cadeiras e interações das quais participa. Respeitar regras básicas de conví- vio social nas interações e brincadeiras. Inventar brincadeiras cantadas, poemas e canções, criando rimas, aliterações e ritmos. Interagir com crianças da mesma faixa etária e adultos ao explorar espaços, materiais, objetos e brinquedos. Resolver conflitos nas interações e brincadeiras, com a orientação de um adulto. Demonstrar controle e adequação do uso de seu corpo em brincadeiras e jogos, escuta e reconto de histórias, atividades artísticas, entre outras pos- sibilidades. Reconhecer seu corpo e expres- sar suas sensações em momen- tos de alimentação, higiene, brincadeira e descanso. Apropriar-se de gestos e movi- mentos de sua cultura no cuidado de si e nos jogos e brincadeiras. Criar movimentos, gestos, olhares e mímicas em brincadeiras, jogos e ati- vidades artísticas como dança, teatro e música. Experimentar as possibilidades corporais nas brincadeiras e interações em ambientes acolhe- dores e desafiantes. Deslocar seu corpo no espaço, orientando-se por noções como em frente, atrás, no alto, embaixo, dentro, fora etc., ao se envolver em brincadeiras e atividades de diferentes naturezas. Criar com o corpo formas diversifica- das de expressão de sentimentos, sen- sações e emoções, tanto nas situações do cotidiano quanto em brincadeiras, dança, teatro, música. Quadro 1 - Objetivos de Aprendizagem e desenvolvimento / Fonte: Ministério da Educação ([2022], on-line). Porém mesmo quando o termo brincadeira não é ex- presso em algum dos objetivos presentes no documento, fica explícito que é por meio dessas atividades que o ob- jetivo de aprendizagem poderá ser alcançado. Quando avançamos para o Ensino Fundamental, temos a disciplina específica de Educação Física e nela encontraremos temáticas e objetivos que nos 61 EDUCAÇÃO FÍSICA Mas não podemos deixar de discutir aqui um aspecto que interessa a todos profissionais que atuarão com crian- ças e adolescentes por meio do brin- car. Faz se necessário distinguirmos “o jogo como conteúdo específico e jogo como ferramenta auxiliar de ensino” (BRASIL, 2021, p. 214). Jogos e brincadeiras são uma das unidades temáticas para o Ensino Fundamental e o documento explica que essa, deve explorar: [...]aquelas atividades voluntárias exercidas dentro de determinados limites de tempo e espaço, caracteri- zadas pela criação e alteração de regras, pela obediência de cada participante ao que foicombinado cole- tivamente, bem como pela apreciação do ato de brincar em si. Essas práticas não possuem um conjunto estável de regras e, portanto, ainda que possam ser reconhecidos jogos similares em diferentes épocas e partes do mundo, esses são recriados, constantemente, pelos diversos grupos culturais. Mesmo assim, é possível reconhecer que um conjunto grande dessas brincadeiras e jogos é difundido por meio de redes de sociabilidade informais, o que permite denominá-los populares. (BRASIL, 2021, p. 214). Somos convidados a compreender os jogos de forma ampla por meio das suas diversas possibilidades e de maneira a valorizar sempre a cultura local. JOGOS E BRINCADEIRAS Conteúdo especí�co da Educação Física Ferramenta auxiliar de ensino Tem valor em si Precisam ser organizados para serem estudados Ampliar o repertório Valorizar a cultura local, regional e nacional Provocar interações sociais especí�cas Fixar conteúdos especí�cos Meio para se aprender outras coisas Figura 2 - Jogos e Brincadeiras Fonte: adaptado de Ministério da Educação ([2022], on-line). Descrição da Imagem: a imagem apresenta um fluxograma dos Jogos e Brincadeiras sob um fundo amarelo e verde, com desenhos de aviões de papel. O Fluxograma apresenta as ramificações dos Jogos e Brincadeiras, que primeiramente podem ser definidos como Conteúdo específico da Educação Física, tendo valor em si, precisam ser organizados para serem estudados e podem ampliar o repertório, valorizando a cultura local, regional e nacional. Os jogos e brincadeiras também são definidos como ferramenta auxiliar de ensino, tendo como objetivo provocar interações sociais específicas, fixar conteúdos específicos, além de ser um meio para se aprender outras coisas. Quer compreender melhor esse assunto? No vídeo, a seguir, irei trazer mais alguns elementos para compreendermos as di- ferentes formas no trato dos jogos e das brincadeiras na escola e em outros campos de atuação. Vamos lá! https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14896 62 Para avançarmos no entendimento do que significa falar dos jogos e brincadeiras como um conteúdo específico da Educação Física, devemos refletir sobre os objetos de conhecimento e as habilidades presentes na BNCC para essa unidade temática no Ensino Fundamental Anos Iniciais, que vai do 1º ao 5º ano escolar. Contudo, as discussões a respeito da temática de- vem ir além dos documentos que dão as diretrizes atual- mente para a Educação Básica Nacional, pois há muitos avanços por fazer quando se trata do currículo escolar, e não podemos nos conformar com aquilo que está posto. Essa preocupação em debatermos os conteúdos até aqui discutidos, se justifica, pois a partir do sexto ano do ensi- no Fundamental a única referência, na BNCC, aos jogos e as brincadeiras, diz respeito aos jogos eletrônicos. Compreendendo o papel da Educação Física na escola e, em especial, os riquíssimos conteúdos dos jogos e das brincadeiras, capazes de promover situações singulares em relação às experiências necessárias ao desenvolvimen- to das crianças e dos jovens, não podemos deixar de ques- tionar: por que no documento que dá as bases para a edu- cação nacional, considera os jogos eletrônicos como um objeto de conhecimento para as aulas de Educação Física? A motivação do nosso questionamento, não é uma negação em relação a necessidade da inserção das crian- ças e dos jovens no universo digital, pelo contrário, é ne- cessário que haja ações concretas para que eles tenham conhecimento e desenvolvam habilidades com as tec- nologias a fim de diminuir as desigualdades de acesso, entretanto, isso nos parece um conteúdo para alguma outra disciplina escolar, e não para a Educação Física. Há experiências fora do Brasil que utilizam uma fer- ramenta chamada de Playground Inteligente, que “é um ambiente com objetos interativos que, usando tecnolo- gia avançada como sensores, reagem à interação com as crianças e as estimulam ativamente a brincar” (STURM, 2008, p.258). Ela se aproxima muito de uma proposta de jogos eletrônicos, mas ainda se distancia muito da rea- lidade do Brasil, e não podemos deixar de questionar: até que ponto estaremos abrindo mão de estimular a criatividade, a iniciativa, a autonomia, a socialização, os valores culturais, na adoção dessas ferramentas? Quem não gosta de um jogo eletrônico? É inegável que as ferra- mentas tecnológicas são superatrativas e interessantes, até mesmo pelo excesso de estímulo que elas geram aos nossos olhos com muitas cores e aos ouvidos com sons animados, mas de- vemos ainda assim estudar os benefícios e os prejuízos desse uso, em especial, no es- paço escolar. Para compreender melhor do que estamos falando, acesse pelo QR Code, a seguir, um vídeo comercial de uma empre- sa canadense que desenvolve e comercializa essa ferramenta para escolas. Para acessar, use seu leitor de QR Code. O conteúdo jogos, brincadeiras e brinquedos na Educa- ção Física escolar precisa ter seu desenvolvimento pau- tado em princípios que valorizem suas especificidades e suas características. A forma que se trabalha nas diferentes séries da escola é muito variável, não existe uma maneira única e correta. O que deve nos orientar neste trabalho são os conceitos e princípios fundamentais do conteúdo. Alguns fundamentos do trabalho com jogos, brinque- dos e brincadeiras foram aqui citados, como: o trabalho com as regras, com os conhecimentos previamente acu- https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14011 63 EDUCAÇÃO FÍSICA mulados pelos alunos, com a cultura da escola e regional do local em que se trabalha, com os anseios e desejos dos alunos em relação a esta linguagem, com os diferentes graus de complexidade dos jogos, com a diversidade de BNCC - EDUCAÇÃO FÍSICA – 1º E 2º ANO UNIDADES TEMÁTICAS OBJETOS DE CONHECIMENTO HABILIDADES Brincadeiras e jogos Brincadeiras e jogos da cultura popular presentes no con- texto comunitário e regional • Experimentar, fruir e recriar diferentes brincadeiras e jogos da cultura popular presentes no contexto comunitário e regional, reconhecendo e respeitando as diferenças individuais de desempenho dos colegas. • Explicar, por meio de múltiplas linguagens (corporal, visual, oral e escrita), as brincadeiras e os jogos populares do contexto comunitário e regional, reconhecendo e valorizando a importância desses jogos e brincadeiras para suas culturas de origem. • Planejar e utilizar estratégias para resolver desafios de brincadeiras e jogos populares do contexto comunitário e regional, com base no reconhecimento das características dessas práticas. • Colaborar na proposição e na produção de alternativas para a prática, em outros momentos e espaços, de brincadeiras e jogos e demais práticas corporais tematizadas na escola, produzindo textos (orais, escritos, audiovisuais) para divulgá-las na escola e na comunidade. BNCC - EDUCAÇÃO FÍSICA – 3º AO 5º ANO Brincadeiras e jogos Brincadeiras e jogos populares do Brasil e do mundo Brincadeiras e jogos de matriz indígena e africana • Experimentar e fruir brincadeiras e jogos populares do Brasil e do mundo, incluindo aqueles de matriz indígena e africana, e recriá-los, valorizando a importância desse patrimônio histórico cultural. • Planejar e utilizar estratégias para possibilitar a participação segura de todos os alunos em brincadeiras e jogos populares do Brasil e de matriz indígena e africana. • Descrever, por meio de múltiplas linguagens (corporal, oral, escrita, audiovisual), as brincadeiras e os jogos populares do Brasil e de ma- triz indígena e africana, explicando suas características e a importân- cia desse patrimônio histórico cultural na preservação das diferentes culturas. • Recriar, individual e coletivamente, e experimentar, na escola e fora dela, brincadeiras e jogos populares do Brasil e do mundo, incluindo aqueles de matriz indígena e africana, e demais práticas corporais te- matizadas na escola, adequando-asaos espaços públicos disponíveis. Quadro 2 - Educação Física - 1º e 2º Ano / Fonte: Ministério da Educação ([2022], on-line). materiais, com a expansão do conceito de lúdico e tam- bém com a potencialização da participação social dos alu- nos na construção das aprendizagens a respeito dos jogos, brincadeiras e brinquedos na Educação Física Escolar. 64 Falar dos jogos e das brincadeiras no espaço escolar é falar também da hora do recreio, apesar de alguns casos de escolas mais preocupadas com a disciplina do que com a autonomia dos alunos, ainda é este um tempo e espaço de muita brincadeira, descobertas e socialização. Não podemos deixar de discutir esse tempo escolar, em especial, quando temos à nossa vista a necessidade da garantia do direito ao brincar dos nossos alunos. Por- tanto, vamos refletir um pouco sobre as relações entre a escola na atualidade e o brincar e jogar no recreio, apre- sentando essa conexão entre este tempo e espaço, com os jogos, brinquedos e brincadeiras. Quando falamos de “recreio”, tenho certeza que você já relembrou muitos momentos da sua vida escolar, e não poderia ser diferente. Quem não traz boas memórias e momentos marcantes que envolveram a hora do recreio? Com base em todas as nossas discussões até aqui e a partir da sua experiência de vida escolar, qual seria na sua visão o modelo ideal de Recreio Escolar, se é que podemos chamar de modelo. Será que é necessário tomar alguma decisão em relação ao recreio escolar, pensando nessa garantia do direito ao brincar, quando fazemos parte da equipe pedagógica? Que tipo de decisão podem ser essas? Talvez enquanto alunos, nunca havíamos pensado nisso, mas como professores algumas reflexões devem vir à tona a fim de compreendermos melhor esse momento e a sua importância na vida escolar dos nossos alunos. O que poderíamos fazer, ou mesmo, não fazer, para que esse pudesse ser um espaço rico em experiências? Para o avanço das nossas reflexões, eu te convido a refletir: quais os benefícios do re- creio na vida das crianças e jovens, imaginan- do todos os tipos de situações que podemos vivenciar no recreio escolar, em especial as brincadeiras? 65 EDUCAÇÃO FÍSICA Este tradicional momento do cotidiano educacional é re- conhecido, de forma geral, como um momento prazeroso e de liberdade. O recreio não ocorre apenas na escola e com crianças, ele é uma etapa da organização educacional coti- diana que acontece na universidade, em cursos diversos e nas instituições de contra turno escolar, entre outros locais. Podemos, também, nos recordar do recreio como um momento na escola em que a atividade predomi- nante é o brincar. Este pode ocorrer em grupo ou indi- vidualmente, mas com brincadeiras que comumente são eleitas pelas próprias crianças e adolescentes brincantes. Um momento em que a linguagem do jogo, a brincadei- ra e o brinquedo podem estar presentes – reforçamos: podem estar presentes ou não no recreio. No Dicionário de Língua Portuguesa, Olinto (2000, p. 763) nos apresenta a definição de recreio da seguinte for- ma: “1- Divertimento, prazer; 2- lugar onde se recreia; 3- tempo de descanso concedido entre as aulas aos alunos; recreação” atrelando a compreensão de recreio ao tempo em que ocorre, ao local em que ocorre e ao que ele pode proporcionar. Entretanto, segue aqui uma reflexão que problematiza essas características e que visa a expandir nossa compreensão sobre esta etapa do cotidiano escolar. Guzzoni (1998, p. 01) ilustra que o recreio pode ter uma compreensão mais ampliada que essa, pois confi- gura-se como: [...] um ambiente muito rico de manifestações cultu- rais, onde pode haver espaço para o exercício da li- berdade e da criatividade, ambas relativas, é claro, pois limitadas por fatores tais como o espaço, a estrutura física, geralmente escassos ou impróprios para as ativi- dades e o tempo que muitas vezes se torna insuficiente. Diante da complexidade que apresenta o ambiente es- colar, o recreio, apesar de nos dar a impressão de ser fruto de relações mais livres e simples, também expressa a mesma complexidade e questões pertinentes ao am- biente escolar. O recreio não está à parte da organização escolar, não é um momento extraescolar e, por isso, me- rece ser fruto de reflexões e estudos assim como toda a prática educativa desenvolvida neste ambiente. O recreio está garantido como parte do tempo es- colar. “Na legislação, o recreio e os intervalos de aula são horas de efetivo trabalho escolar”, conforme conceituou o CNE, no Parecer CEB n.º 05/97 (BRASIL, 2003, p. 03). A legislação preconiza a formação integral do aluno; sendo assim, o recreio está contemplado neste aspecto. O fato do recreio ser considerado “efetivo trabalho escolar” não é um entendimento novo. Já foi adota- do quando da implantação da Lei 5.692/71 e o CFE, no Parecer 792/73, de 5-6-73, concluiu: “o recreio faz parte da atividade educativa e, como tal, se inclui no tempo de trabalho escolar efetivo...; e quanto à sua duração,[...] parece razoável que se adote como refe- rência o limite de um sexto das atividades (10 minu- tos para 60, ou 20 para 120, ou 30 para 180 minutos, por exemplo)”. (BRASIL, 2003, p. 3). Entretanto, cada Estado regulamenta seu intervalo a partir de sua interpretação da legislação disponível. No Brasil, temos diversas conformações de recreio, com es- colas que buscam até suprimir este tempo ou outras que buscam estimular a cultura lúdica infantil no recreio, por vezes com oferta de atividades dirigidas por educa- dores ou oferecendo brinquedos e espaços para estimu- lar os jogos e brincadeiras. 66 É importante ressaltar a característica da liberdade que as crianças buscam no recreio e do potencial espaço de se relacionarem entre elas e com o local neste tempo tão breve. Em geral, é nestes momentos na escola que diferentes grupos etários se encontram e interagem. No recreio, as crianças estão um pouco mais distantes do olhar do adulto quando desenvolvem e determinam quais serão suas brincadeiras. O modelo predominante da nossa educação escolar, que é, em geral, tradicional, disciplinadora dos corpos e comportamentos, não reflete às característica e necessi- dade da cultura infantil, que tem como particularidade a liberdade e a criatividade. Assim, recreios formatados dentro deste modelo disciplinador não privilegiam o de- senvolvimento da cultura lúdica infantil e juvenil. Segundo Guzzoni (1998), esta característica de compensar um tempo com outro é mais comum entre os adultos e suas relações no trabalho do que entre as crianças, mas ela acaba ocorrendo na escola. No recreio, o sentido compensatório está relacionado ao fato de que: O grande período que as crianças permanecem sentadas em sala de aula e concentradas nos con- teúdos ministrados precisa ser compensado por alguns momentos nos quais as energias contidas possam ser extravasadas de forma a possibilitar nova concentração quando da volta à sala (GUZ- ZONI, 1998, p. 77). Isto é, o recreio é concebido como um período que as crianças utilizam para descansar e voltar para a sala de aula. O recreio, a partir desta análise da organização es- colar tradicional, toma um sentido compensatório das atividades da sala de aula para os alunos, ou seja, é uti- lizado como mecanismo de descansar e compensar o tempo de trabalho – que seria a atividade de aula. Seria este o sentido real do recreio escolar? O recreio tem um tempo determinado para ocorrer e caracteriza-se, também, por ser um momento em que os professores descansam e se encontram e que todos podem se alimentar para retornar às atividades de aula. Todas essas características apresentadas aqui sobre o re- creio são importantes e nos levam a compreender me- lhor esse tempo da organização escolar que, muitas vezes, não é alvo de pesquisas e estudos como os momentos de aula são. Entretanto, dentre os vários enfoques possíveis para refletirmos sobre o recreio, vamos nos dedicar, neste momento,ao brincar e jogar no recreio escolar. O recreio representa uma possibilidade de as crian- ças e adolescentes desenvolverem atividades e constru- írem laços coletivos, vivências e conflitos, que como já discutimos, são essenciais para a constituição da cultura lúdica destas categorias geracionais. Assim, as relações desenvolvidas no recreio refle- tem, também, valores e princípios da sociedade em que estamos inseridos. Desta forma, Souza (2014, p. 64) assinala que, no recreio, “As crianças vivenciam experiências semelhantes às que vivem fora da escola. É uma parte do todo, que reflete e refrata a sociedade Ao pensar o pátio da escola como a rua da instituição, todos passam e nela permanecem por um tempo, tenho esse espaço como a alma da escola. É ali que as crianças se en- contram, conversam, fazem acordos. Brigam, se isolam, trocam coisas, comem, brincam, correm, fogem. Se desencontram. O amor das crianças pela hora do recreio concreti- za-se no toque do sinal, quando todos saem de suas salas gritando, correndo, ávidos pelo tempo e pelo espaço fora da sala de aula (SOUZA, 2014, p. 58). 67 EDUCAÇÃO FÍSICA do tempo presente”. Essa afirmação nos leva à com- preensão de que o tempo do recreio, entendido dentro da dinâmica escolar, reflete as mesmas contradições e relações inerentes à realidade na qual a criança e o adolescente estão inseridos. Assim, o tempo do recreio, traduzindo as relações hu- manas atuais, resulta no significado que o brincar tem no recreio. Esta linguagem do jogo, da brincadeira e do brin- quedo é inerente ao significado do recreio no cotidiano in- fantil e do seu exercício criativo neste ambiente. No recreio, [...] elas conseguem transitar com imensa rapidez e habilidade entre o real e o imaginário, sendo essa capacidade o ponto comum entre as brincadeiras dos meninos e das meninas. Contudo, essa capa- cidade não substitui ou apaga os constantes can- celamentos do recreio, o pouco tempo de duração, as restrições do pátio e da pracinha, bem como os desejos das crianças de ampliar e transformar o espaço lúdico da escola. Pelo contrário, tudo isso se transforma em resistência coletiva das crianças para garantir o direito de expressar a cultura lúdica com plenitude (WÜRDIG, 2010, p. 103). O autor anteriormente citado nos faz recordar do ví- deo que assistimos logo no início da unidade 1 deste livro, o curta metragem “O Fim do Recreio”, além de toda problemática apresentada nesta ficção, somos presenteados pelos diretores do filme com a oportu- nidade de relembrar diversas brincadeiras que podem acontecer no recreio escolar. E como exercício para começarmos a estruturar e registrar nosso repertório pessoal de brincadeiras, proponho que você relacione jogos e brincadeiras que você considera possível para serem realizadas no recreio escolar e deixe em desta- que aquelas que você já vivenciou. JOGOS E BRINCADEIRAS PARA O RECREIO ESCOLAR JÁ BRINQUEI DE: AINDA NÃO BRINQUEI DE: 68 Devemos refletir a respeito do espaço que as crianças têm garantido na participação sobre as decisões carac- terísticas do tempo do recreio e da própria escola. A utilização do recreio como mecanismo de controle dos comportamentos infantis nega a sua própria essência, a da constituição da sua cultura lúdica. Se partirmos do princípio de que na organização es- colar o recreio é o espaço e tempo destinado à categoria geracional da infância, a criança deveria ser elemento participante das decisões sobre o espaço destinado à brincadeira e a ela. O que temos, em considerável parte das escolas, são construções distanciadas da realidade e anseios dos petizes, ou construções pensadas por adul- tos que supõem conhecer o que a criança deseja. Würdig (2010), em sua pesquisa sobre o recreio, relata que o pátio não era planejado para a interação entre os alunos, não beneficiava o brincar e que era pequeno para o número de alunos, bem como o piso de brita que a esco- la tinha não era apropriado para os jogos e brincadeiras. Assim, a partir de um relato como este, podemos nos re- meter, caro(a) aluno(a), aos diversos pátios de escolas que conhecemos e compreender que o espaço é um elemento essencial no sentido de garantir o desenvolvimento mais digno e a participação mais efetiva das crianças e adoles- centes no recreio, configurando-se como um espaço esco- lar a ser problematizado na comunidade escolar. Outro elemento importante para observarmos no recreio escolar é a possibilidade de estabelecimento de laços de amizade e formação de grupos nesse espaço. Este, segundo Souza (2014), é um momento importante para que os adultos identifiquem e compreendam como os grupos de crianças se organizam e como esse arranjo está pautado no brincar e jogar. O recreio é uma das possibilidades cotidianas dos membros da comunidade escolar relacionarem-se fora da sala de aula. Desta forma, “É no recreio da escola que se constituem como grupo, alguns com diferentes faixas etárias criam laços de amizade através da distribuição dos papéis no brincar e do lugar que cada um ocupa nesse contexto” (SOUZA, 2014, p. 74). Aprendem, nestas situações, uns com os outros, en- tram, criam e estabelecem conflitos e relações impres- cindíveis para seu desenvolvimento. Como no caso do alerta de Neuenfeld (2003, p. 37) a respeito do recreio e a forma que está sendo utilizado Em face de um lazer de mercado, que impõe os brin- quedos que conduzem o brincar da criança e, da mí- dia, que exalta o esporte de alto rendimento como modelo a ser seguido, será que as crianças realmente estão conseguindo se recrear durante o recreio? É imprescindível a problematização e o olhar para apren- dizagem e relações emancipatórias e de respeito neste tempo da organização escolar. As crianças andam, neste espaço educativo tão potente, dedicando-se a reproduzir modelos de exclusão? Como devemos intervir é uma re- flexão pertinente para professores, alunos e gestores. O recreio, para vigilantes da ordem e pessoas que não re- conhecem seu potencial criativo, pode ser considerado um momento negativo do cotidiano escolar, ao ponto de existirem propostas para sua supressão. Entretanto, a extinção dele pode impedir importantes vivências no cotidiano escolar para as crianças e adolescentes. O recreio, nos dias em que não há Educação Física, tornou-se o único momento que as crianças possuem para se movimentar. Por isso, ao saírem das salas de aula, [...], elas “explodem” em movimento. (NEUENFELD, 2003) 69 EDUCAÇÃO FÍSICA Segundo Guzzoni (1998, p. 52), as experiências que ocorrem no recreio podem ser: [...] agradáveis ou não, porque permitem que eles se encontrem e resolvam os problemas que se apre- sentam naquele momento, é agradável porque eles podem escolher entre fazer ou não fazer ou porque precisam entender que às vezes é necessário se fa- zer aquilo que não se quer, em função de um grupo ou em função de sua aceitação no grupo. É nas inúmeras brincadeiras, jogos, histórias, aventuras, partilhas de alimentos e brinquedos e nas relações estabelecidas entre os pares que se constitui o cerne da riqueza do recreio. Temos, ainda, a questão de que mui- tos destes processos não são mediados por adultos, são as crianças e adolescentes que, sozinhos, decidem as “regras deste jogo”; os conflitos e aceites das regras são reflexo de suas vivências em toda sua vida e não são ape- nas próprias do recreio. As vivências lúdicas que ocorrem na escola, inclusive no recreio, precisam ser alvo de reflexão da comunidade escolar e estimuladas visando seu desenvolvimento pleno, múltiplo nas possibilidades e privilegiando a autonomia dos alunos. Afinal, o recreio e a escola em si são momen- tos de aprendizagem, de brincadeiras e de laços coletivos. Toda a nossa discussão, realizada ao longo da unidade 2, em torno do direito ao brincar e também da escola como es- paço de garantia de direitos, nos instrumentaliza para a prá- tica profissional, seja em que área for,quando na intervenção direta com crianças e adolescentes. Podemos também relem- brar nossas próprias experiências, o que nos faz compreen- der com mais profundidade todas as reflexões propostas. E finalmente, você teve a oportunidade de começar a elaborar um material de trabalho para a sua vida profissional. Preten- demos ao longo de todo o estudo nesta disciplina, ampliar e te estimular a buscar, cada vez mais, elementos que enri- queçam o seu material de trabalho como futuro professor de Educação Física, que você será muito em breve. 70 atividades de estudo Sem dúvida, não esgotamos nessa unidade todas as possibilidades de reflexão sobre a garantia do direito ao brincar de crianças e adolescentes. Mas, para esse momento, a melhor forma de concluirmos as nossas discussões é revisitando cada aspecto do tema até aqui abordado, e relacioná-lo com aquilo que pensamos sobre o assunto, reflexionar sobre o que vemos acontecer no nosso dia a dia no contexto onde vivemos, bus- car tudo aquilo que já ouvimos a esse respeito, importa também pensar no que fazemos para que haja essa garantia, e finalmente, o que poderia ser feito como solução no seu contexto. Registre, na imagem a seguir, os seus conhecimentos práticos e teóricos sobre o tema central da figura. Vamos lá! Sobre a garantia do direito de brincar de crianças e adolescentes: O QUE VOCÊ PENSA? O QUE VOCÊ ESCUTA? O Q UE VO CÊ VÊ ? O QUE VOCÊ FAZ? O QUE PODERIA SER FEITO? ? 71 meu espaço Esp. Luana Biembengut Biato da Costa Oportunidades de aprendizagem na Unidade 3, você terá a oportunidade de compreender as questões pertinentes às classificações e características dos jogos e brincadeiras. Também iremos refletir sobre o nosso próprio repertório de atividades com o objetivo de analisar e considerar como podem ser classificadas essas brincadeiras. Ainda, você terá a chance de conhecer algumas classificações a partir de diferentes autores, que nos auxiliarão a ampliar nossa visão sobre as possibilidades de intervenção com esses conteúdos. JOGOS E BRINCADEIRAS: CARACTERÍSTICAS E CLASSIFICAÇÕES unidade III 74 Qual a sua brincadeira favorita? Essa pergunta pode ser o começo de uma relação de confiança entre nós e as crianças. Ela traz muitos valores, sentimentos, sig- nificados e poderíamos dizer que é uma boa pergunta para um “quebra gelo”, em especial, porque ela eviden- cia uma intenção de brincar, ou ser o próprio convite para brincar. E é por isso, que iniciamos mais uma eta- pa do nosso estudo fazendo essa conexão entre a mi- nha história e a sua história, e para isso eu te pergunto: qual a sua brincadeira favorita? A minha infância foi marcada por muita brinca- deira na rua, no quintal, no sítio e na escola. Entre as que eu mais gostava estão: “Alerta”, “Gato mia”, “Escon- de-esconde”, “Bets” e “Base 4”. Cada uma delas teve re- lação mais forte com alguma fase da minha infância, isso é, com a idade, com o tipo de local que eu tinha acesso, com a quantidade de crianças que brincavam comigo. “Base 4” era a minha brincadeira favorita na escola, “Gato mia” era a brincadeira para brincar em casa, quando recebíamos primos ou amigos, “Escon- de-esconde” era brincadeira para qualquer lugar até os meus 8 ou 9 anos de idade e, finalmente, o jogo “Bets” e “Alerta” eram as minhas favoritas para se brincar na rua com os amigos e vizinhos. Mas como as brincadeiras da nossa infância podem nos auxiliar no aprofundamento dos nossos estudos? Levando em consideração que o conhecimento profundo de uma brincadeira só é possível para aque- les que brincaram e vivenciaram todas as situações possíveis desta, a partir deste entendimento, vamos avançar para compreender essas atividades como ma- terial de trabalho, como instrumento de intervenção com pessoas de todas as idades. Considerando como metodologia mais eficiente, vamos adotar a estratégia de iniciar esse processo de classificar e compreender as características das brin- cadeiras, partindo daquilo que já conhecemos, para mais a frente avançarmos para novos conhecimentos, sendo essa a estratégia normalmente adotada com os nossos alunos, independente do conteúdo, sendo eles crianças, jovens, adultos ou idosos. A partir do momento que o jogo ou a brincadeira passam a ser utilizados como instrumento de traba- lho na nossa vida profissional, devemos compreen- der quais são as experiências que aquele jogo propõe aos participantes: que tipo de relação é gerada entre todos? As regras são simples ou complexas de serem compreendidas? Que tipo de raciocínio, sentimento e experiência motora será requisitada ou despertada? Dessa forma, vamos identificando as características da atividade, o que vai nos possibilitar criar a nossa própria classificação. Proponho nesse momento, que façamos esse exer- cício a partir de uma brincadeira que faz parte do meu repertório, desde a minha infância, e que talvez também faça parte do seu, que será a brincadeira “Alerta”. 75 EDUCAÇÃO FÍSICA Nome da atividade: alerta Número de participantes: mínimo 6, mas é melhor com bastante participantes. Materiais: uma bola, de preferência de borracha macia. Local: espaço amplo como quadra esportiva, pátio descoberto, rua, campo de futebol etc. Objetivo dos participantes: quem possui a bola tem como objetivo queimar algum participante acer- tando a bola em alguma parte do corpo da pessoa. Os demais participantes têm o objetivo de evitar serem queimados. O objetivo de todos é se manter no jogo até o final, isso é, não ser eliminado do jogo. Organização da atividade: cada participante deverá escolher o nome de uma fruta e adotar esse como seu nome durante toda a atividade. Todos devem dizer o nome da sua fruta, para que os demais memo- rizem, não podendo haver frutas repetidas. Todos reunidos em um local central do espaço escolhido, e um participante com a bola em mãos irá iniciar a brincadeira jogando a bola para cima e bem alto, e gritar o nome de alguma fruta. Como se joga: quando o participante for chamado - pelo nome da fruta - ele deve correr em direção a bola, ao conseguir pegar e segurar a bola deverá ficar parado e dizer “ALERTA”. Quando a bola for jogada para o alto, os demais participantes que não forem chamados deverão correr para o mais longe possível, e só irão parar de correr quando ouvirem “ALERTA” e então deverão ficar parados onde estão. A pessoa que foi chamada - após pegar a bola e gritar “alerta” deverá tentar queimar algum participante, para isso ela pode dar até 3 passos na direção de algum participante e jogar a bola, caso a bola acerte alguma parte do corpo da pessoa, esse participante terá sido queimado, mas se a pessoa conseguir pegar a bola com as mãos, quem será considerado queimado é a pessoa que jogou a bola. Quando alguém for queimado, todos devem se reunir novamente, de preferência, numa região mais central do espaço utilizado, e aquele que foi queimado deverá por sua vez lançar a bola para o alto e gritar o nome de alguma fruta e sair correndo, e assim é dada a continuidade ao jogo. Regras: cada participante pode ser queimado até 4 vezes para se manter no jogo, quem for queimado pela 5ª vez estará fora do jogo. Essas vezes são contadas por meio de RA, RÉ, RI, RÓ, RUA, está com RA a pessoa que foi queimada apenas uma vez, está com RÉ a pessoa que foi queimada duas vezes, e assim por diante, até que a pessoa esteja com RUA porque foi queimada pela quinta vez e nesse momento sai do jogo. Nesse jogo, não há o papel do juiz ou do árbitro, sendo cada participante responsável por controlar a quantidade de vezes que foi queimado com a ajuda dos demais participantes. O jogo ter- mina quando tiver apenas um participante. Quando ninguém for queimado, os participantes poderão definir quem irá dar continuidade ao jogo, se é quem tentou queimar e não conseguiu, ou se será aquele que teve a bola lançada em sua direção. Mas é importante que todas as regras sejam decididas em conjunto no iníciodo jogo. 76 Sobre a sua organização, ela é uma atividade: em equipe individual Sobre a lógica e intencionalidade do jogo, ela é: de integração competitiva cooperativa Sobre as regras, podemos considerar: simples complexas Sobre a origem, história e contexto, podemos chamá-la de: contemporânea tradicional Sobre os objetivos, podemos utilizá-la como: pré-esportiva com música-ritmo aquática A partir da leitura da ficha dessa atividade, proponho que vejamos ela como um material de trabalho - intervenção, e para isso iremos pensar em aspectos que estão além das informações contidas na ficha, começando por: como você classificaria essa atividade? Além desses conceitos questionados anteriormen- te, podemos observar muitos outros elementos que os participantes podem vivenciar nessa atividade. A exemplo disso, há uma relação de que todos devem cumprir as regras, pois sem isso, o jogo se torna invi- ável. É exigido no decorrer da atividade o raciocínio rápido para identificar quando a sua fruta for chama- da, a memorização das frutas dos colegas, a agilidade em sair correndo quando não for chamado, a noção de espaço para decidir em qual direção irá dar os três passos a fim de queimar alguém, são essas habilida- des necessárias e desenvolvidas. Falando em habili- dade, poderíamos analisar a atividade a respeito das questões motoras, como a corrida, o lançamento de bola, a recepção da bola, e essas desenvolvem, por exemplo, a coordenação viso-motora, a coordenação motora global, o equilíbrio. A relação do jogo e do brincar está intima- mente ligada à cultura local, e no nosso contexto nacional, temos a riqueza de identificar as mesmas brincadeiras em diferentes regiões. Mas claro, sem deixar de ter suas regras, nomes e características diferentes pela questão mesma da cultura local. Nesse vídeo, entre outras brincadeiras, você po- derá ver a explicação e vivência da brincadeira “ALERTA” porém com algumas diferenças, come- çando pelo nome, chamada no vídeo de “SETE PE- CADOS”. Vamos assistir?! 77 EDUCAÇÃO FÍSICA A partir dessa experiência que tivemos juntos, em descrever uma atividade e buscar compreender como podemos classificar, é importante considerar que é ca- racterístico dos jogos e das brincadeiras a flexibilidade de alterar regras a partir do contexto, dos anseios e das necessidades dos participantes. E nesse momento, eu te desafio a fazer esse mesmo exercício, porém agora, com uma outra brincadeira e que de preferência faça parte do repertório de jogos e brincadeiras da sua infância, que seja praticada por 4 ou mais participantes. Para isso: descreva a atividade com detalhes e, em seguida, liste todas as características e elementos presen- tes na atividade que vão além da descrição, como fize- mos anteriormente. Bom trabalho! 78 Após essa nossa experimentação prática em identificar os elementos das brincadeiras das nossas infâncias, faz-se ne- cessário aprofundarmos nossos conhecimentos por meio de estudos já realizados na área. Dessa forma, vamos expli- citar características das brincadeiras e jogos para além da dimensão conceitual já exposta no livro, vamos estabele- cer uma reflexão entre as características da brincadeira e do jogo na atualidade e sua relação com a educação. Se considerarmos que o brincar e jogar infan- to-juvenil têm a marca do contemporâneo, vamos debater questões pertinentes a essa relação, como a compreensão equivocada de que todas as culturas lúdicas e infâncias são iguais; a falta de lugar apropriado para a brincadeira e para o jogo no espaço urbano, o brincar e jogar na escola e sua relação com a cultura, e adjetivações ao brincar. Uma das questões mais relevantes entre os estudio- sos da infância na atualidade é a necessidade de se supe- rar a compreensão de infância como uma categoria ge- racional com características únicas, ou seja, que todas as crianças aspiram, necessitam e pensam elementos iguais. Esse entendimento homogeneizado de infância li- mita a compreensão dos reais e múltiplos traços das in- fâncias. Tornando-se imprescindível, especialmente, nos âmbitos educativos, evidenciar e valorizar “[...] a criança como ator social, que produz e é produzido pela cultu- ra – uma criança inventiva, criativa, rica em potencial, intérprete do mundo e protagonista de sua história e que traz consigo a marca da diversidade social e cultural” (PORTILHO; TOSATTO, 2014, p. 739). Reconhecemos que, para o desenvolvimento efetivo e respeito aos saberes infanto-juvenis, é necessária a com- 79 EDUCAÇÃO FÍSICA preensão da premissa de que temos múltiplas infâncias, pois, segundo Arruda e Muller (2010, p. 2), as crianças “[...] vivem em diferentes contextos com determinadas condi- ções sociais, econômicas, políticas, culturais e ideológicas. Assim, a infância é considerada uma categoria plural, de- vido às particularidades dos mundos das crianças”. Isto também pode ser compreendido no período da adolescência, marcada no senso comum como uma fase difícil da vida das pessoas. Esta conotação tão taxativa deixa de lado a riqueza, a multiplicidade dessa fase da vida, afinal, os adolescentes, assim como a infância, não são uma coisa só. Essa limitação dos entendimentos sobre as catego- rias geracionais que aqui tratamos revela o distancia- mento do mundo adulto, especialmente, do educativo, da capacidade de ressignificação do mundo e da produ- ção cultural infanto-juvenil. Sendo uma categoria geracional múltipla, complexa e produtora de cultura lúdica, este olhar para/ sobre a infância e adolescência deve orientar, caro(a) aluno(a), nossas ações educacionais. Refletir e desenvolver o con- teúdo de jogos e brincadeiras desvela a necessidade de conhecer e valorizar a cultura lúdica do grupo com que trabalhamos. Podemos, assim, avançar na participação infantil e na ampliação do conhecimento sobre o vasto repertório dos jogos e brincadeiras possíveis, criados e construídos pelos nossos alunos. Borba (2005) trata de características inerentes ao brincar no espaço da escola e destaca quais elementos orientavam a escolha de uma determinada brincadeira pelas crianças e, partindo do princípio elucidado ante- riormente, há múltiplos determinantes nesta escolha. Tais escolhas no brincar são orientadas por: [...] um complexo processo de negociação entre as crianças, no qual entram em jogo: (i) as caracterís- ticas do contexto onde a brincadeira ocorre: espaço físico, objetos disponíveis, quem são os participan- tes, número de participantes etc.; (ii) as relações sociais entre os participantes – marcadas, como ve- remos mais adiante, por hierarquias existentes no grupo, relações de gênero, além de valores como a amizade e o desejo de brincar com outros; (iii) os conhecimentos e experiências que os participantes trazem para a cena interativa; (iv) e os estilos pes- soais de brincadeira (BORBA, 2005, p. 124). O brincar e o jogar, assim como a infância e adolescên- cia, apresentam-se como um fenômeno complexo. Se buscamos sua efetivação nos espaços educativos, for- mais ou informais, além dos espaços como clubes, aca- demias etc., a brincadeira e o jogo precisam ser fruto de investimentos materiais e no exercício relacional entre os pares que brincam juntos; professores devem dedi- car-se a refletir e estudar sobre esta expressão tão valiosa ao desenvolvimento infanto-juvenil. Desta forma, para empreendermos no sentido de pri- vilegiar as vivências com a ludicidade no espaço escolar, prezado(a) aluno(a), temos que ampliar nosso âmbito analítico e propositivo. Por exemplo, pouco adianta ad- quirir inúmeros brinquedos para a escola e não se atentar para outros fatores, como contexto da escola, gosto e pre- ferência das crianças, tempo e espaço para o brincar, entre outros fatores que podem influenciar no brincar do grupo. 80O brincar e jogar no ambiente escolar, assim como nos demais locais - apesar de terem muitas caracterís- ticas imprevisíveis e dinâmicas - apresentam rotinas características: em relação ao número de vezes que elas se repetem, preferência por uma ou outra brin- cadeira ou jogo, e em relação aos comportamentos desencadeados por estes (BORBA, 2005). Podemos observar essa rotina do brincar, por exemplo, quando as crianças definem muitas vezes pela mesma cantiga ou ritmo ao pular corda e a forma como desafiam-se nessa brincadeira. O brincar em seu significado, como já afirmamos an- teriormente, tem muitas leituras. Umas delas traz à tona a necessidade de adjetivar o brincar, como se a brincadeira tivesse pouco significado. Debortoli (2004), a partir de uma classificação a respeito de brincadeiras, nos alerta para as questões pertinentes de equívocos a algumas ad- jetivações do brincar: brincadeira pedagógica, brincadei- ra recreativa, brincadeiras livres, brincadeiras dirigidas e brincar pelo brincar. Vamos às reflexões do autor: BRINCADEIRAS LIVRES Partem da ideia de que as crianças não precisam da in- terferência de adultos para brincarem; entretanto, em muitos casos, a autonomia a que este tipo de brincadei- ra está baseado não acompanha uma real compreensão desse sentido. Segundo Debortoli (2004, p. 22), na brincadeira, os grupos de crianças conseguem cons- truí-las, elaborar regras e estabelecer relações, entre- tanto, “expressam as relações que conhecem; há tensões e relações de poder e, muitas vezes, vê-se reforçado justamente algo que precisaria ser melhor trabalhado com as crianças na direção da construção de suas rela- ções e experiências” (DEBORTOLI, 2004, p. 22). BRINCADEIRA RECREATIVA Pautada no desenvolvimento de brincadeiras livres e es- pontâneas para as crianças, “[...] normalmente, está re- lacionada a uma ideia funcional de ocupação do tempo ou recuperação/desgaste de energias acumuladas” (DE- BORTOLI, 2004, p. 21). BRINCAR PELO BRINCAR Parte do princípio de ser o oposto ao sentido utilitá- rio da brincadeira; nesse âmbito, de acordo com De- https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13216 81 EDUCAÇÃO FÍSICA bortoli (2004, p. 22), “Sobressai uma concepção do brincar relacionada a uma ideia de relaxamento, prazer, distensão e autonomia individual”. BRINCADEIRA PEDAGÓGICA São brincadeiras desenvolvidas com as crianças visando a ensinar algum conteúdo escolar. Está relacionada ao fato de que o conteúdo escolar que a criança tem que aprender não é interessante e que este, para ficar mais atraente, deve ser trabalhado no formato de brincadeira (DEBORTOLI, 2004). BRINCADEIRAS DIRIGIDAS Relacionadas à compreensão de que a criança não sabe brincar e que existe uma ideia correta para executar aquela ação. A linguagem da brincadeira, tratada como um conteúdo que deve ser ensinado, “O objetivo prin- cipal ressaltado para essas ‘atividades’ é o de ensinar a brincadeira, mas não necessariamente o de brincar” (DEBORTOLI, 2004, p. 22). A crítica relacionada às adjetivações das brincadei- ras listadas anteriormente devem ser alvo de reflexão em relação ao próprio sentido do brincar como forma de expressão humana. Utilizá-las de forma corrente, caro(a) aluno(a), precede uma reflexão anterior que implica di- versos pontos, como os que Debortoli (2004) nos aponta. Os sujeitos envolvidos no brincar e jogar na escola necessitam, segundo Portilho e Tosatto superar: [...] a ideia de uma “intenção didática” se reveste de motivo maior para o uso do jogo, transfor- mando- o em uma atividade mecânica, dirigida e controlada pelas ações da professora que ensina (passa “conhecimento”) e das crianças que apren- dem (recebem o “conhecimento”) (PORTILHO; TOSATTO, 2014, p. 749). Esta característica atribuída ao brincar e jogar na escola traz consigo o distanciamento da compreensão da brin- cadeira e do jogo como produção de cultura, pois con- sidera em si que o brincar está relacionado a uma forma certa de ser executado, um tempo certo para ocorrer e grupos etários apropriados para temas de brincadeiras. Nesta produção cultural da criança e do adolescente, não podemos incorrer no erro de simplificar esse proces- so de significação do mundo pela criança e pelo jovem no brincar. Eles não reproduzem apenas o mundo em que vivem, mas reconstroem e ressignificam essas vivências. Segundo Portilho e Tosatto (2014, p. 742), a criança na brincadeira não repete de maneira “[...] simples e direta o mundo dos adultos, mas sim o transforma, modifica, contesta, amplia, confirma — enfim, ela pensa e elabora ideias próprias sobre esse mundo, revelando necessidades, interesses, conhe- cimentos e desejos” (PORTILHO; TOSATTO, 2014, p. 742). Está aí o potencial criativo e de aprendizagem que precisa ser evidenciado nos processos de reconhecimen- to e valorização da cultura lúdica infantil. Outro ponto que precisamos elucidar da cultura lúdica na atualidade versa sobre o brincar e jogar no espaço urbano. Nas médias e grandes cidades, a cultura lúdica não se evidencia de maneira homogênea e line- ar. Arruda e Muller (2010), que se dedicaram a estudar como crianças de diferentes classes sociais brincam e jo- gam em diferentes lugares da cidade, constataram essa heterogeneidade no brincar urbano. As pesquisadoras nos apresentam um quadro em que as crianças que moram em um bairro considerado rico (em que se pressupõe que as crianças tenham seus direitos garantidos) não foram encontradas nos espa- ços públicos de lazer brincando e se divertindo, o que se configura como uma violação de direitos. Por outro lado, as crianças do bairro pobre, em meio a tantas ou- 82 tras violações de direitos, estão nos espaços públicos e brincam entre si, tendo convivência comunitária (AR- RUDA; MULLER, 2010). Podemos nos questionar, caro(a) aluno(a), a respei- to de quem tem uma cultura lúdica garantida diante de uma constatação dessa natureza. Um dos principais en- traves dos centros urbanos nessa questão são as crianças e adolescentes, que não desfrutam de convívio com seus pares em espaços públicos, por diversos motivos: violên- cia, institucionalização e atividades excessivas, falta de opções de espaços públicos que estimulem a convivência. Em contrapartida, temos infâncias com inúmeras necessidades que não são garantidas e que, em relação a sua cultura lúdica, tem-se uma realidade mais garantida. Podemos ter, ainda, crianças e adolescentes que vivem em bairros medianos e que privilegiam de alguma forma a cultura lúdica de seus moradores. Assim, é possível compreender o cenário complexo da infância e adolescência frente aos jogos e brincadei- ras que conhecem, vivenciam e almejam. Estas questões são imprescindíveis de serem compreendidas por você, professor(a) em formação, que pretende desenvolver uma práxis educativa concreta e efetiva. Quando nos dedicamos a estudar a relação da ludicidade com a atualidade, não podemos nos furtar em debater os avanços tecnológicos nessa relação. Dornelles (2005) nos brinda com uma análise sobre a infância cyber (as das tecnologias) e ninja (dos que vivem à margem da socie- dade). Longe de ser uma análise dual dessas duas infân- cias na atualidade, essas concepções buscam estabelecer relações com os diversos determinantes que compõem a infância na atualidade, como a tecnologia, a cidade, a organização social e o modo de produção vigente. Sobre as crianças ninja, Dornelles (2005) faz uma analogia ao desenho das Tartarugas Ninjas (desenho de 1984 que trata da história de tartarugas que vivem nos bueiros da cidade e são guerreiras), considerando que essas crianças vivem na cidade, mas sem acesso aos bens disponíveis, muitas vivem em bueiros e pelas ruas. Vivem à parte dessa tecnologia, videogames e mídias que não podemos considerar que sejam acessíveis para to- das as infâncias, quando analisamos a organização social vi- gente extremamente produtora de desigualdades. A autora explicita queas crianças ninja não só brincam, mas também buscam sua sobrevivência e estão expostas aos perigos das ruas e da cidade sem o cuidado e orientação de um adulto. A diversidade cultural em nosso país nos proporciona uma multiplicidade de contextos que enriquecem a compreensão do brincar. Alguns estudos buscam identificar e valorizar essas realidades. O livro Jogos e Brincadeiras: tempos, espaços e diversidade, organizado pelas professoras Kishimoto e Santos é um desses trabalhos, que reunindo diversos autores, nos presenteia com estudos sobre o brincar de diferentes tempos e espaços, por exemplo, o brincar no qui- lombo, narrativas antigas japonesas, o lúdico na época de Anchieta entre outros temas. Para saber um pouco mais sobre o livro, leia a resenha disponível em nossa Biblioteca Virtual. 83 EDUCAÇÃO FÍSICA As crianças cyber são analisadas por Dornelles (2005) como uma categoria geracional das tecnologias, que são expostas à lógica do mercado. Essa característica leva a uma conformação social regulada pelo consumo, desejo e sonhos governados por essas instâncias, tanto de adultos quanto de crianças e adolescentes. A infância cyber consiste em crianças em seus quar- tos, com aparelhos tecnológicos com acesso ao mundo virtual, que ingressam nesse mundo a partir de seus computadores, tablets, televisores e celulares — o que não significa que devem ser deixadas sem a mediação de adultos nesse processo. É dever dos pais estimular outras vivências, como a convivência comunitária e os jogos e brincadeiras em grupos, pois, como já explicitamos aqui, não se constitui um ser humano privilegiando apenas uma dimensão, somos seres sociais e necessitamos de relação entre pares (DORNELLES, 2005). Assim, a constituição dessas infâncias é influenciada e determinada pelo que as crianças e adolescentes vivem em suas cidades, famílias e escolas, pelo que assistem na TV e pelos jogos eletrônicos que têm acesso ou desejam ter. É um desafio para a educação contemporânea rela- cionar a complexidade da vida atual com a cultura lúdi- ca produzida e que precisa ser aprendida na experiência do brincar e jogar. Até aqui, debatemos o entendimento de que o jogo é um fenômeno complexo e que está presente na vida das crianças e adolescentes de diversas maneiras, entre elas no ambiente escolar. Rangel e Darido (2014) partem da com- preensão de que o jogo está presente na escola e que na atu- alidade ocorre com frequência na forma de jogo desportivo. O jogo desportivo ocorre mais fortemente rela- cionado ao fazer, ao executar, do que atrelado ao seu sentido. Assim, “[...] os alunos eram (ainda são) estimu- lados a praticar os jogos, e não a compreender os sig- nificados e os valores que estão por trás deles” (RAN- GEL; DARIDO, 2014, p. 163). Desta forma, se anuncia a preeminência de ampliar os sentidos atribuídos aos jogos no ambiente escolar. As pesquisadoras apontam três dimensões para o desenvolvimento do trabalho na Educação Física escolar e atrelando ao objetivo de 84 aprendizagem da nossa unidade, vamos apresentar o trabalho educativo com os jogos nas dimensões con- ceitual, atitudinal e procedimental. A dimensão procedimental está relacionada ao executar. Rangel e Darido (2014, p. 163) exemplificam a possibilidade de na escola o trabalho com o jogo pos- sa ser realizado a partir da ressignificação, da transfor- mação de “[...] formas de jogo conhecidas, bem como serem realizadas pesquisas com pessoas da comuni- dade sobre as diferentes formas de jogar um mesmo jogo”. O trabalho poderia ser realizado a partir de uma pesquisa na comunidade sobre o que as crianças mais brincam (ou se brincam nas ruas) e sobre o que seus moradores mais antigos brincavam na comunidade, e vivenciar esses jogos na escola. dimensão, apesar de presente nas aulas, acontece quase sempre sem a intervenção do professor” (RANGEL E DARIDO, 2014, p. 163). A última dimensão apontada pelas pesquisadoras é a dimensão conceitual, que pode ser considerada como uma das que são menos trabalhadas no conteú- do jogo na escola e que mais se assemelham nos valores com outros conteúdos da cultura corporal. Rangel e Da- rido (2014, p. 163) exemplificam um trabalho visando a “Conhecer o repertório de jogos e brincadeiras dos fa- miliares de diferentes gerações e compreender a dinâmi- ca da produção de jogos na cultura”, podendo estimular os alunos a aprenderem sobre a constituição, origem e significados dos jogos na cultura. Essas dimensões nos expõem a amplitude de possi- bilidades de trabalharmos com os jogos na atualidade: são extensões do conteúdo jogos que inspiram e ins- trumentalizam os(as) professores(as) a refletirem sobre suas metodologias de trabalho e possibilidades educati- vas no trabalho com os jogos, considerados, aqui, como um patrimônio cultural. Sobre a dimensão atitudinal, Rangel e Darido (2014, p. 163) apontam que está relacionada aos valores, a postura e atitudes que são estimuladas e disparadas pela vivência dos jogos “[...] a cooperação, a solidarie- dade, a inclusão, a relação de gênero, a ética, a plura- lidade cultural e a resolução de conflitos. Esta última https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14013 85 EDUCAÇÃO FÍSICA Na figura a seguir, podemos visualizar as possibilidades de como enriquecer o trabalho com jogos e brincadeiras nas aulas de Educação Física, agregando valor e respeito à história de vida dos nossos alu- nos, familiares e comunidade onde vivem, por meio das brincadeiras. DIMENSÕES DOS JOGOS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR Dimensão Procedimental Como se joga? Variações de como se joga Dimensão Atitudinal Qual comportamento é estimulado? Valores, posturas e atitudes Dimensão Conceitual O que se sabe sobre os jogos? Estudar os repertórios de diferentes gerações. OLHAR CONCEITUAL 86 Arruda e Muller (2010) afirmam que, especialmente, o(a) professor(a) de Educação Física, tanto na escola quanto fora dela — pois processos educativos não ocorrem apenas no âmbito escolar —, tem na brincadeira e no jogo um de seus principais conteúdos de intervenção, pois estes compõem a cultura infantil e são manifestações da cultura corporal. O que apresentamos neste item são elementos que possibilitam a aprendizagem sobre o brincar e jogar na atualidade. O que significa que muitas reflexões expostas aqui, caro(a) aluno(a), têm marcadas o tempo histórico. Assim, consideramos que fundamentos para a reflexão sobre a cultura lúdica foram aqui apresentados e são importantes para nossa atuação educativa. Entretanto, temos que estar atentos ao dinamismo dos determinan- tes da constituição do brincar e jogar infanto-juvenil, se pretendemos constituir nossa ação educativa, seja na es- cola ou fora dela, de maneira efetiva. Neste tópico, elucidaremos classificações referen- tes aos jogos e brincadeiras que temos na atualida- de, categorizações que podem variar de infinitas formas. Podem ocorrer categorizações referentes ao tempo em que se desenvolve a atividade, objetivo que se pretende alcançar com os jogos e brincadeiras, o local que temos disponível, a faixa etária em que vamos desenvolver nos- sa ação educativa, entre outras possíveis classificações. Essas características podem, ainda, ser combinadas en- tre si e formar novas tipologias. Caro(a) aluno(a), a importância de estudarmos um fenômeno tão vasto quanto os jogos e brincadeiras e suas classificações constitui-se, especialmente, se visamos a ampliar nosso repertório de atividades e a oferecer um compilado de vivências vastas para nossos(as) alunos(as). Destarte, aprender sobre a categorização dos jogos e brincadeiras nos proporciona, como professores(as), re- fletir sobre as diversas possibilidades de trabalhar com a cultura lúdica, aprendendo sobre os diferentes processos analíticos e classificatórios dos jogos e brincadeiras. A classificação, que é uma característica tão cara em algumas formas de pesquisa, aqui será utilizada não para limitaros significados dos jogos e enquadrá-los em mol- des, mas sim para ampliar nosso conhecimento sobre esse patrimônio cultural. Podemos, neste debate, fazer uma re- lação importante nos jogos e brincadeiras, que as regras são mutáveis, não se limitam a uma forma correta e preci- sam ser ressignificadas no processo de vivência dos jogos e brincadeiras. Assim como seu processo de categorização é passível de diferentes interpretações e modulações. Você conhece ou já brincou de “balança-cai- xão”? Caso sua resposta seja sim: como é que se brincava, ou se ainda brinca, de “balan- ça-caixão” na sua região? Veja se há alguma diferença com a forma como eu brincava: As crianças elegem uma entre elas para ser a “vovó” e esta fica sentada em uma cadeira. As outras crianças formam uma fila de frente com a vovó, na qual a primeira é a “tampa do caixão”, e essa deve se ajoelhar e debruçar so- bre o colo da vovó de forma que fique com os olhos tampados, os demais irão formar uma fila atrás desse primeiro, na mesma posição que ele, debruçando uns nas costas dos ou- tros. A vovó fala: “Balança, caixão” As demais crianças respondem: “Balança você” A vovó fala: “Dá um tapa na bunda e vai se esconder” Então, o último da fila dá um “tapinha” no co- lega e sai pra se esconder. Todos repetem as falas e o gesto sucessivamente, até que fique apenas a criança que está no colo da vovó, e então ela deve sair para procurar todos que estão escondidos pelo espaço. 87 EDUCAÇÃO FÍSICA Outro fator importante a ser considerado, quando classificamos algo é a possibilidade de que essa ação dife- rencie os jogos e brincadeiras um dos outros e oriente nos- sas ações educativas. Por exemplo, uma brincadeira que pode ser considerada e classificada como tradicional em um grupo social, como o “balança-caixão”, pode, em outra realidade, ser enquadrado como uma brincadeira cantada, pois nessa realidade não é tradicionalmente realizado. Assim, podemos metodologicamente trabalhar o “balança-caixão” de formas diferentes com as crianças: no ambiente educativo em que a brincadeira é consi- derada tradicional, podemos trabalhar partindo das vivências lúdicas das próprias crianças ou de suas famí- lias e, assim, vivenciar a brincadeira e ressignificar suas regras. No ambiente educativo em que o “balança-cai- xão” é considerado uma brincadeira cantada, podemos apresentar a música e ensinar as regras e formas que se brinca para as crianças e, depois, trabalhar a ressignifi- cação das regras com elas. Destarte, a classificação a respeito do “balança cai- xão” como brincadeira tradicional ou cantada auxilia o professor no encaminhamento metodológico, relacio- nando a forma de trabalho com as características dessa brincadeira em cada realidade na qual estamos inseri- dos, e não considerando a classificação da brincadeira como algo inflexível e limitado. Como destacamos, exis- tem inúmeras formas de classificar os jogos e brincadei- ras, e todas elas nos fornecem elementos para sabermos mais sobre essa expressão humana. Vamos elucidar algumas formas de categorização de jogos e brincadeiras brevemente e posteriormente nos de- dicaremos a duas classificações pormenorizando-as, pois as consideramos mais completas e que podem auxiliar em nosso processo de aprendizagem sobre o conteúdo. Blumenthal (2005), pesquisando sobre a aprendiza- gem e a movimentação da criança de três a cinco anos na educação infantil, nos propõe uma classificação de brincadeiras e jogos partindo do princípio de idade e do desenvolvimento saudável da criança. Essa forma de classificação corrobora com o fato de que a criança deve ter seu desenvolvimento atrelado a uma boa educação, mas também deve ter o seu desen- volvimento e demandas próprias de sua idade respei- tadas. O autor trata da necessidade da brincadeira, da diversidade de oportunidade de movimento e da apren- dizagem para a infância (BLUMENTHAL, 2005). Partindo dessa ideia, Blumenthal (2005) sugere uma divisão para os educadores desenvolverem seu trabalho com a infância: Brincadeiras de Corrida e Salto 88 Brincadeiras de Cantar Brincadeiras de Esconder Brincadeiras de Força e Agilidade Brincadeiras com Bola 89 EDUCAÇÃO FÍSICA Você consegue pensar em brincadeiras que se enqua- drem em cada uma dessas classificações? Reflita e faça uma anotação ao lado de cada uma das classificações anteriores, com pelo menos uma brincadeira da sua infância ou dos dias de hoje, que seja corresponden- te. Considerando que temos aqui uma tipificação de brincadeiras pensadas a partir do movimento infantil e das aulas de educação física. Podemos apresentar outro modelo de classifica- ção de jogos e brincadeiras. Pimentel recorre à per- cepção de Veríssimo Melo e nos expõe uma classifica- ção que se divide em: Jogos de seleção: usados para escolher os partici- pantes de um jogo (ex: par ou ímpar, cara ou coroa, palitinho); jogos gráficos: realizados sobre algum traçado ou desenho (ex: amarelinha, xadrez, pala- vras-cruzadas); jogos de competição: envolve dis- puta física entre participantes (ex: braço de ferro, cabo de guerra, pega-pega); Jogos de salão: envolve motricidade mais fina em ambiente contido (ex: dominó, baralho, quebra-cabeças); Jogos com mú- sica: envolvem ritmo e memória auditiva (ex: can- tigas de roda, karaokê, bandinha) (MELLO, 1981 apud PIMENTEL, 2003, p. 16). Essas classificações expostas brevemente ilustram para você, caro(a) aluno(a), que esse universo é diverso e você, como professor(a), tem liberdade para se inspirar nestas ou em tantas outras disponíveis na literatura, podendo assim, ponderar sobre os caminhos metodológicos mais pertinentes para desenvolver sua ação educativa, abran- gendo as amplas possibilidades de jogos e brincadeiras disponíveis em nossa realidade. Marcellino (2012, p. 10), quando se propõe a apontar questões pertinentes à elaboração de um re- pertório de atividades, afirma que as classificações nessa área são muitas: Brincadeiras de Movimento Espontâneo Brincadeiras Educativas Especiais 90 As classificações disponíveis são inúmeras e fica praticamente impossível listar todas as propostas apresentadas, optando por uma delas. Além disso, as classificações, do nosso ponto de vista, só têm sentido quando fundamentadas em objetivos claros, relacionados ao desenvolvimento das atividades. Partindo dessa análise de Marcellino (2012), vamos de- talhar duas classificações sem deixar de lado a noção explicitada pelo autor de que este universo é amplo, e que a classificação de atividades e expressões humanas está atrelada aos objetivos e formas de desenvolvimento destas. Iremos desenvolver com mais detalhes essas duas categorizações, pois vemos nelas uma grande importân- cia analítica em sua profundidade, que se relaciona com a possibilidade de atuação no ambiente educativo. O autor que estudamos na primeira Unidade deste livro, Roger Caillois, nos apresenta em sua teoria uma classifi- cação a respeito de jogos. Segundo Lara e Pimentel (2006, p. 180), para Caillois “[...] não há perversão do jogo, mas extravio e desvio de um dos quatro impulsos primários que o regem”. O jogo é dividido, então, em quatro elemen- tos referentes à sua natureza social: agôn, competição; ilinx, vertigem; mimicry, simulacro; e alea, sorte. Elucidaremos com mais detalhes cada uma delas. Agôn: refere-se à competição. Em nossa socie- dade existe um número muito abundante de mani- festações dessa ordem, que parte de uma rivalidade entre os jogadores em uma situação em que a “[...] igualdade de oportunidades é criada artificialmente para que os adversários se defrontem em condições ideais, suscetíveis de dar valor preciso e incontestá- vel ao triunfo do vencedor” (CAILLOIS, 1990, p. 34). Caracteriza-se por uma experiência em que se des- taca o vencedor. Relaciona-se às provas esportivas que podem ser com dois times ou dois indivíduos oponen- tes, como: futebol, esgrima ou boxe. Com um númeroindefinido de pessoas disputando, como em algumas formas de corridas e concursos de tiro, e ainda jogos que os adversários iniciam com as mesmas condições e valo- res, como xadrez e dama (CAILLOIS, 1990). No jogo, é importantíssima a igualdade de oportunida- des, ao ponto de que, segundo Caillois (1990, p. 34), este é: [...] o princípio essencial da rivalidade ao ponto de ser restabelecida por um handicap entre jogadores de diferentes níveis, o que quer dizer que, na igual- dade de oportunidades inicialmente estabelecida, se cria uma desigualdade secundária, por propor- cional à suposta força relativa dos participantes. Caillois (1990) explicita que essa condição ocorre tanto em agôn muscular, por exemplo, com os desportos, quanto em agôn de característica mais cerebral, como uma partida 91 EDUCAÇÃO FÍSICA de xadrez. Podemos trazer o caso de um esporte realizado ao ar livre, em que a posição de uma das equipes pode ser prejudicada pela incidência do sol: de alguma forma tem- -se uma estratégia para minimizar essa desvantagem (que, nesse caso, representa uma vantagem para a outra equipe), e essa diferença deve ser minimizada no transcorrer do jogo e garantida nas regras preestabelecidas. A ideia do agôn relaciona-se a ser excelente, o me- lhor em algum domínio, o que exige do jogador destreza, persistência e treino. Para Caillois (1990, p. 35), “o agôn apresenta-se como a forma pura do mérito pessoal e ser- ve para o manifestar”. Para o autor, as crianças também experienciam o agôn quando estão em uma fase anterior à entrada no mundo das competições organizadas — vivenciam en- tre si desafios relacionados à resistência, como de quem consegue ficar mais tempo sem respirar, por exemplo, até desafios que podem ser mais perigosos que estes. Alea: classificação oposta ao agôn que se relaciona à sorte no jogo. Em situação de jogo, o jogador “[...] numa decisão que não depende do jogador, e na qual ele não poderia ter a menor das participações, e em que, conse- quentemente, se trata de vencer mais o destino do que um adversário” (CAILLOIS, 1990, p. 34). São os jogos que tratam do destino, isto é, ganhar está atrelado à sorte de um jogador em relação ao outro. O autor exemplifica Alea com os jogos de roleta, loterias, jogo de dados e cara ou coroa. Contrariando o que afirmamos sobre o agôn, nesses exemplos, o jogador não depende de sua destreza e treino para vencer e obter sucesso no jogo, ele é passivo nesse processo, delegando à sorte seu êxito: arrisca-se em uma aposta. 92 No agôn, o jogador conta com sua dedicação e desem- penho, enquanto na alea o jogador “[...] conta com tudo, com o mais ligeiro indício, com a mínima particulari- dade exterior, que ele encara logo como um sinal ou um aviso, com cada singularidade detectada, com tudo, em suma, exceto com ele próprio” (CAILLOIS, 1990, p. 37). Os jogos de azar são prioritariamente praticados por humanos e têm, no ganho financeiro (para alguns destes jogos), o centro do interesse. Receber dinheiro em alea relaciona-se a quanto mais sucesso no acaso e sorte o destino prioriza ao jogador e não atrelado ao êxito e o pagamento devido ao seu melhor desempenho ou inte- ligência (CAILLOIS, 1990). Segundo o autor, sobre alea e a infância fica explíci- to que as crianças não interagem com esses jogos, pois o jogar da criança está ligado ao agir, ao interferir. Não vivenciam esses jogos com características de alea, pois também não possuem independência financeira, o que não as atraem para esses jogos. Por vezes, as crianças po- dem se atrair por brindes distribuídos em jogos dessa natureza, mas levam em consideração mais o seu de- sempenho e habilidade que a sorte empregada no jogo. Mimicry: relacionado aos jogos imaginativos, de ilu- são e fantasia. Para Roger Caillois, é “[...] uma variada sé- rie de manifestações que têm como característica comum a de se basearem no fato de o sujeito jogar e crer, a fazer crer a si próprio ou a fazer crer aos outros que é outra pes- soa” (CAILLOIS, 1990, p. 39). Neste tipo de expressão, o jogador vive a ilusão de ser outra pessoa ou personagem durante o tempo de jogo. Esse tipo de jogo é representado, especialmente, pela mímica e pelo disfarce. Caillois dá o exemplo das crianças que imitam os adultos e sua preferência em usar fantasias e acessórios, brincar com miniaturas de ferramentas, utensílios. A classificação de mimicry diz respeito à “[...] toda a diversão a que nos entreguemos, mascarado ou travestido, bem como nas suas consequ- ências. E, finalmente, é claro que a representação teatral e a representação dramática entram de direito neste gru- po” (CAILLOIS, 1990, p. 41). Este tipo de jogo está relacionado ao prazer da fanta- sia e do mito, sabe-se que na realidade não se é com vera- cidade um personagem, por exemplo, de uma fantasia de carnaval, mas o jogo em si é jogar com o imaginário de que nos fizemos passar por e vivenciamos aquele personagem. Segundo Caillois (1990), a mimicry corresponde, em muitos pontos, aos outros tipos de jogos em diversos elementos, como no “[...] saber, liberdade, convenção, suspensão do real e espaço e tempo delimitados. Contu- do, a continuada submissão às regras imperativas e pre- cisas é algo que não se verifica” (CAILLOIS, 1990, p. 43). Assim, apesar de todas essas características semelhantes a outros jogos, a mimicry não é relacionada a um conjunto de regras preestabelecidas e nem que surgem durante o jo- gar, ela não se prende a essa organização de normas. Ilinx: relaciona-se aos jogos que levam à sensação de vertigem e êxtase, segundo Caillois (1990, p. 43), nesses jogos“[...] trata-se de atingir uma espécie de espasmo, de transe, de estonteamento que desvanece a realidade com uma imensa brusquidão. [...] A perturbação causada pela vertigem é procurada como um fim em si mesma”. O autor exemplifica com acrobacias de giro, como as de dervixes que desejam sentir [...] o êxtase, girando sobre si em um movimento que se acelera as batidas de tambor cada vez mais rápidas. O pânico e a hipnose da consciên- cia são alcançados pelo paroxismo de rotação frenética, contagiosa e partilhada (CAILLOIS, 1990, p. 43). O autor compara essa construção cultural à sensa- ção que a criança busca quando é girada sem parar, por exemplo, em um gira-gira num parquinho e depois para repentinamente, sentindo uma vertigem, ou mesmo en- cantar-se com o girar de um pião. São diversas as possibilidades de se alcançar essa sensação de “[...] atordoamento simultaneamente orgâ- 93 EDUCAÇÃO FÍSICA nico e psíquico, proponho o termo ilinx, nome grego para o turbilhão de águas e que deriva [...] o designativo de vertigem ίλιγγος, ilingos” (CAILLOIS, 1990, p. 45). Caro(a) aluno(a), como ressaltamos em toda esta uni- dade, a classificação de um jogo não o limita nem o analisa de forma estanque. Caillois (1990) apresenta que muitos jogos combinam as classificações aqui expostas, como: O agôn reivindica a responsabilidade individual, a alea a demissão da vontade, uma entrega ao destino. Determinados jogos como o dominó, o gamão e a maioria dos jogos de cartas, combinam agôn e alea: o acaso preside a composição ‘mãos’ de cada jogador e estes, em seguida, exploram, o melhor que puderem e com o vigor que tiverem o quinhão que uma sorte cega lhes reservou (CAILLOIS, 1990, p. 37). Assim, ressalta-se, nessa situação de jogo, a conjunção entre destino (alea) e destreza (agon) para o mesmo fim, ter sucesso, vencer a partida, que é o objetivo dos joga- dores. Os jogos não se resumem em um sentido apenas, são permeados pelo contexto dentro das diversas classi- ficações e relações entre si, mostram a riqueza de possi- bilidades de compreensão desse fenômeno. Expusemos até aqui uma classificação de jogos ela- borada por Roger Caillois, antropólogo e ensaísta, que se dedicou a refletir sobre os jogos na sociedade e so- bre a corrupção destes na contemporaneidade (LARA; PIMENTEL, 2006). Destarte,o escritor não refletiu ex- clusivamente sobre os jogos no contexto educacional, sua análise foi mais ampla, pois refletiu sobre os jogos, os homens e a sociedade. Visando estabelecer uma classificação de jogos e brincadeiras baseada em intervenções educativas, mais voltada para os contextos educativos, elucidare- mos uma classificação elaborada por um professor com experiência prática sobre jogos e brincadeiras. A partir da classificação elaborada por ele, faremos a interlocu- ção com exemplos de jogos e brincadeiras (meramente ilustrativos e passíveis de muitas alterações), - que Leão Junior (2013) lista em seu livro, jogos e brincadeiras que desenvolvemos em nossa ação educativa. Leão Junior (2013) no livro Manual de jogos e brin- cadeiras: atividades recreativas para dentro e fora da es- cola, elenca 12 possibilidades de organização dos jogos e brincadeiras: Jogos e Brincadeiras de Integração; Jogos e Brincadeiras Interdisciplinares; Jogos e Brincadeiras Adaptadas; Jogos e Brincadeiras Cooperativas; Jogos e Brincadeiras Competitivas; Jogos e Brincadeiras Pré-Es- portivas; Jogos e Brincadeiras de Aventura; Jogos e Brin- cadeiras Aquáticas; Jogos e Brincadeiras com Músicas; Jogos e Brincadeiras Tradicionais; Jogos e Brincadeiras Contemporâneas; Jogos e Brincadeiras de Improviso. 94 Jogos e Brincadeiras de Integração Atividades de Quebra-gelo, para aproximar o grupo; Jogos e Brincadeiras Interdisciplinares Promovem Aprendizagem Interdisciplinar; Jogos e Brincadeiras Adaptadas Inclusão de todos os participantes; Jogos e Brincadeiras Cooperativas Princípio da Coletividade; Jogos e Brincadeiras Competitivas Grupo ou indivíduo vencedor; Jogos e Brincadeiras Aquáticas Criados ou adaptados para água; Jogos e Brincadeiras com Músicas Combinam movimentos corporais e música; Jogos e Brincadeiras Tradicionais Partem das relações entre os mais velhos e mais novos, Cultura popular; Jogos e Brincadeiras Contemporâneas Ligados à tecnologia, jogos eletrônicos; Jogos e Brincadeiras Pré-Esportivas Integra elementos de algum esporte; Jogos e Brincadeiras de Improviso Buscam suas regras na ação do corpo no brincar; Jogos e Brincadeiras de Aventura Proporcionam risco e adrenalina; 95 EDUCAÇÃO FÍSICA 1. Jogos e Brincadeiras de Integração: são atividades para aproximar o grupo, objetivando com que eles se integrem: pode ser uma ação para apresentação entre as pessoas, para que o grupo conheça alguma característica delas, como a cor preferida do participante ou o objetivo de estar ali fazendo um curso (LEÃO JUNIOR, 2013). Exemplo de brincadeira: “Gato, Leão e Cachorro”, uma atividade que pode ser desenvolvida para formar grupos e integrar crianças que não se conhecem ou se conhecem pouco. Assim que as crianças entram no am- biente, recebem um papel ou são avisadas que são gatos, leões ou cachorros e ao sinal do professor devem imitar seu animal, corporalmente e sonoramente e, assim, loca- lizar seus amigos animais. Desta forma, ao final, teremos três grupos de crianças identificados pelos animais de- nominados no início da brincadeira. Essas atividades também podem ser classificadas como Atividades de Quebra-gelo, quando proporciona aos participantes um ambiente de descontração para que eles fiquem a vontade e queiram participar das demais ati- vidades a serem propostas dentro de uma programação. 2. Jogos e Brincadeiras Interdisciplinares: vivências que promovam alguma forma de aprendizagem inter- disciplinar, como conteúdos contemplados por áreas diferentes e desenvolvidos na escola ou em outro âmbito educativo no mesmo jogo ou brincadeira. Exemplo de jogo: “Alfabeto Móvel”, uma brincadeira desenvolvida junto à disciplina de português. O grupo deve ser dividido em dois e cada integrante deve segurar uma letra do alfabeto. Em uma situação de pega-pega, a criança deve tentar pegar letras do outro grupo para formar, em coletivo, palavras que fazem referência aos conteúdos aprendidos (LEÃO JUNIOR, 2013). 3. Jogos e Brincadeiras Adaptadas: são jogos e brincadeiras que objetivam “[...] a inclusão de todos os participantes, sejam eles com necessidades educativas especiais ou idosos, para que possam vivenciar ativa- mente, respeitando suas peculiaridades e limites, as ati- vidades propostas” (LEÃO JUNIOR, 2013, p. 25). Exemplo de jogo: com uma teia de barbantes montada dividindo o espaço, os alunos devem estar todos concen- trados de um lado do espaço, com alguns destes vendados. Os participantes têm o desafio de passar por dentro dos vãos da teia, encontrando maneiras de cumprir essa tarefa juntos e orientando as pessoas vendadas do grupo. O de- safio está cumprido quando todos passarem pelos espaços entre os barbantes e se revezarem na função de orientar os colegas que estão vendados. Nessa atividade, todos os participantes terão a oportunidade de vivenciar esse de- safio sem um dos sentidos que é a visão e receberão como suporte a orientação de um colega por meio da fala - au- dição ou mesmo o suporte físico quando necessário. Essa experiência poderá sensibilizar a todos quanto a necessi- dade de um mundo mais preparado para as pessoas cegas. 4. Jogos e Brincadeiras Cooperativas: jogos que par- tem do princípio da coletividade, das regras decididas em grupo, problemas gerados na brincadeira e que po- dem ser resolvidos em grupo. Privilegiam não ter um grupo vencedor, mas sim todos se divertirem juntos. Exemplo de jogo cooperativo: “Desfaça o Nó” (cha- mado também de macarrão humano). No início, todos os participantes ficam em círculo e após o sinal do pro- fessor devem caminhar aleatoriamente em um espaço reduzido. Após outro sinal, todos devem dar as mãos entre si, assim, é formado um “nó de gente”. O desafio é que todos desfaçam este nó humano sem soltar as mãos, dialogando e buscando saídas para o desafio estabeleci- do na brincadeira (LEÃO JUNIOR, 2013). 5. Jogos e Brincadeiras Competitivas: são jogos e brincadeiras que partem da premissa de haver um gru- 96 po ou indivíduo vencedor nas mais diferentes formas de jogar e brincar (LEÃO JUNIOR, 2013). Exemplo de brincadeira: “Palhaço Bexigudo”. A brincadeira necessita de duas calças largas de palhaço (podem ser feitas de TNT) com um arco costurado na cintura, bexigas e um alfinete. Com as crianças divididas em duas equipes, estas devem encher pelo menos uma bexiga para cada uma segurar (se forem poucas crianças participando elas podem encher duas por participante). Com duas crianças vestidas com a roupa do palhaço bexigudo e as outras organizadas em fila, devem ir uma a uma colocar a bexiga dentro da calça do palhaço até enchê-la ao máximo. No fim do tempo determinado, as crianças devem parar de colocar as bexigas, então o pro- fessor deve estourar as bexigas de cada palhaço. Vence o grupo que conseguiu colocar mais bexigas no palhaço. É possível classificar um jogo competitivo com característica de cooperativo, isso quando há duas ou mais equipes, porém a atividade exige a participação e cooperação interna dentro de cada equipe. Essa seria uma forma diferente de classificar um jogo como coo- perativo e ainda assim competitivo. 6. Jogos e Brincadeiras Pré-Esportivas: jogos que contém em seu desenvolvimento elementos ou habili- dades de algum esporte. Exemplo: “Voleibol com Rede Humana” - com os participantes divididos em três grupos, estes devem se posicionar na quadra da seguinte forma: um grupo no meio fazendo papel de rede (com os braços erguidos) e os outros dois grupos um de cada lado da rede humana. Os alunos devem jogar voleibol com as regras normais, com a diferença de que os alunos que são rede humana se bloquearem ou tocarem a bola deixam de ser rede, e o grupo que deixou a bola ser tocada passa a ser rede, e assim sucessivamente (LEÃO JUNIOR, 2013). 7. Jogos e Brincadeiras Aquáticas: são jogos e brincadeiras adaptados ou criados para brincar na água. Exemplo: “Pega Submarino”.Para essa brincadeira, é preciso uma tira de tecido TNT presa por um elástico no pulso de todos participantes, que devem estar espa- lhados pelo espaço da piscina. Ao sinal do professor, to- dos devem tomar o maior número de tiras de tecido dos colegas, e todos continuam participando, mesmo que percam sua tira de tecido. Vence quem terminar com o maior número de tiras de tecido (LEÃO JUNIOR, 2013). 97 EDUCAÇÃO FÍSICA 8. Jogos e Brincadeiras com Músicas: são muitas nomenclaturas para essa forma de brincar, como brincadeira cantada, rodas cantadas e cantigas de roda são brincadeiras que combinam movimentos corporais e música. Exemplo: “Escravos de Jó de bastão”. Todas as crianças em círculo, segurando um bastão em fren- te ao corpo, devem cantar juntas a música tradicio- nal “Escravos de Jó” e fazer a coreografia definida pelo grupo com o bastão na mão e não deixá-lo cair, quando realizarem a troca de local com o amigo que está ao seu lado. As crianças devem ser estimuladas a aprender a coreografia, ritmo e música e todas juntas não deixarem os bastões irem ao chão. 9. Jogos e Brincadeiras Tradicionais: são atividades aprendidas a partir das relações entre os mais velhos e mais novos, perpetuando a cultura popular, e que corres- pondem às experiências culturais de cada grupo social. Exemplo: “Mãe da Rua”. O grupo elege alguém para ser mãe da rua e esta fica entre duas riscas no chão que formam a rua. Os outros dois grupos ficam para fora dessas riscas, um de cada lado como se fosse nas calça- das. O desafio é atravessar a “rua” sem que a mãe da rua (o pegador) apanhe os jogadores, e quem for pego passa a ser a mãe da rua da próxima rodada. 10. Jogos e Brincadeiras Contemporâneas: o autor atribui a essa categoria os jogos ligados à tecnologia, jogos eletrônicos, como videogames, computadores e tablets. Essa forma de jogo se transforma e avança no ritmo das mudanças tecnológicas vigentes. Exemplo: “Mestre do Ar”. Com os participantes divi- didos em três grupos que devem estar identificados com cores diferentes, e cada um deles ser identificado pelos elementos fogo, água e terra: [...] quem estiver orientando deve ser o mestre do ar [...] Ao sinal cada equipe representará o seu ele- mento, todos juntos, em forma de gesto e som. As- sim que todos souberem os ‘gestos e sons referentes a cada elemento’, inicia-se um Jô Quei Pô Gigante, onde cada equipe poderá escolher um elemento para representar. A ‘água’ vence a ‘terra’, porque a transforma em lama. A ‘terra’ vence o ‘fogo’ por que o apaga. E o ‘fogo’ vence a ‘água’ porque faz ela evapo- rar. (Transposição do jogo último mestre do ar para o Nintendo Wii) (LEÃO JUNIOR, 2013, p. 141). 11. Jogos e Brincadeiras de Improviso: jogos que buscam suas regras na ação do corpo no brincar, a par- tir do improviso e, assim, desenvolvem jogos dramáticos (LEÃO JUNIOR, 2013). Exemplo: “Jogo da Etiqueta”. O educador deve pre- parar anteriormente etiquetas com diversas ações ou adjetivos e colar na testa dos participantes sem que eles vejam o que está escrito na etiqueta. Inicialmente em duplas, os participantes devem, por meio de mímica, de- monstrar o que está escrito na testa do parceiro, e se este adivinhar deve passar a ser o mímico. Quando a dupla descobrir entre si a palavra escrita na etiqueta em sua testa, deve auxiliar outras duplas que ainda não cum- priram o desafio, que finaliza quando todos souberem o que estava escrito em suas etiquetas. 12. Jogos e Brincadeiras de Aventura: são vivências que proporcionam “[...] risco e adrenalina, sejam no meio ter- restre (le parkour, patins, skate, slackline, corrida de orien- tação e escalada), marítimo (surfe, mergulho, canoagem e rafting) ou aéreo (tirolesa, ou experiências de voar, como paraquedismo e asa delta)” (LEÃO JUNIOR, 2013, p.26). Exemplo: “Travessia do Skatista”. Os participantes de- vem ter à disposição skates, e o desafio é atravessar de um ponto a outro definido previamente de diversas manei- ras, por exemplo, de joelhos, de costas, sobre um pé só... A 98 regra é que quando a travessia for completada, ninguém mais pode atravessar da forma que os participantes ante- riores já atravessaram (LEÃO JUNIOR, 2013). Podemos perceber que essa classificação proposta por Leão Junior parte do cotidiano vivenciado pelos professores que desenvolvem a linguagem dos jogos e brincadeiras. Essa noção explicitada aqui pode contri- buir para nossa prática educativa, bem como para a re- flexão sobre ela, que é uma etapa da construção de uma boa e efetiva intervenção essencial. Compreender as diversas possibilidades de como classificar ou categorizar as brincadeiras, nos qualifica para a atuação profissional em diferentes áreas e con- textos, por exemplo: no espaço escolar, na área da recre- ação e lazer pública ou privada, nos espaços de acade- mia voltados para a infância como a natação, na área da iniciação esportiva, entre muitas outras. Vale a pena nos aprofundarmos nos estudos de autores que publicam materiais a esse respeito, pois estes nos oferecem ele- mentos para compreendermos os jogos e as brincadeiras como fruto de uma cultura e também como material de trabalho rico em possibilidades. Os jogos e brincadeiras Nesse universo chamado jogos e brincadeiras dentro do contexto educativo ou esportivo, podemos explorar ain- da mais as possibilidades quando temos a intenção de favorecer o desenvolvimento integral e harmônico das crianças. Em alguns momentos, podemos olhar esses conteúdos a partir dos aspectos do desenvolvimento do equilíbrio, da noção de espaço e tempo, coordenação visual-motora, coordenação motora fina e finalmente a coordenação motora global. E para isso basta que faça- mos uma análise em cada um dos jogos e brincadeiras que conhecemos, e iremos identificar esses aspectos reunidos e combinados em muitos deles. Dessa forma, vamos discutir um pouco mais sobre os diversos aspectos aqui estudados no nosso Podcast. Vamos lá? https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/10300 99 atividades de estudo Ao longo da Unidade 3, podemos compreender um pouco mais sobre como classificar os jogos e as brincadei- ras a partir de diferentes visões e experiências de autores pesquisadores. Esses estudos buscam enriquecer o nosso entendimento sobre as diversas possibilidades, e nos convidam para criarmos as nossas próprias classificações a partir do nosso objetivo de trabalho. Para relembrar algumas dessas classificações, elabore um Mapa Mental a partir dos termos contidos na imagem a seguir. Pensada a partir do Movimento Infantil Baseada em intervenções educativas segundo Leão Junior, 2013 Classificação de Roger Caillois CLASSIFICAÇÃO DOS JOGOS E DAS BRINCADEIRAS Esp. Luana Biembengut Biato da Costa Oportunidades de aprendizagem nesta unidade, iremos propor diferentes reflexões sobre o brinquedo e a sua relação com a cultura da criança, para além da dimensão material, a fim de avançarmos no entendimento a respeito das possibilidades de intervenção na área da Educação Física. Vamos estudar também a respeito das classificações existentes e da história e instalação das brinquedotecas no Brasil e no mundo. O BRINQUEDO: ASPECTOS CONTEMPORÂNEOS unidade IV 102 Os brinquedos e as brincadeiras fazem parte da história pessoal de cada um de nós, e separar o que é brinquedo do que é brincadeira descaracteriza o brincar e transforma o brinquedo em simples objeto sem muito significado. O programa “Território do Brincar” é um trabalho de escuta, intercâmbio de saberes, registro e difusão da cultura infan- til. E por meio das pesquisas e registros, podemos viajar com eles pelo Brasil, relembrando e dando novos signifi- cados aos brinquedos para além de um mate- rial produzido em alta escala, compreendendo que a natureza nos fornece essa matéria-pri- ma que pode ser chamada de brinquedo. Te convido para assistir ao trailer ofi- cial do filme “Território do Brincar”, e a partirdele, te provoco a refletir sobre a nos- sa relação com os brinquedos ao longo das últimas décadas, como tem se configurado o papel do brinquedo na sociedade e na infância. E ainda, qual o papel da criança junto ao brinquedo? Qual o papel do brinquedo junto a criança? Vamos lá?! O estudo sobre o brinquedo vai além de uma clas- sificação, o que também é importante, entretanto, pre- cisamos compreender essas relações do indivíduo com o objeto, e nos percebermos como sujeitos de um pro- cesso de educação e estímulo ao desenvolvimento das crianças, e avançar na compreensão das potencialidades e limites do uso de objetos nesse contexto. A criança pode e deveria ser o agente idealizador e construtor dos materiais para o brincar. Os processos criativos de idealização, solução de problemas, tenta- tivas e erros, e realização pessoal - autoestima - são al- gumas das experiências possíveis de serem vivenciadas ao colocar a “mão na massa”. O que falta para que isso ocorra? Talvez apenas a oportunidade, um adulto facilitador, um ambiente propício e estimulante. Já a relação brinquedo-criança diz res- peito ao papel que cumpre o brinquedo jun- to ao brincar da criança, ele é esse estímulo ao brincar, pode ser chamado também de suporte para o brincar ou mesmo só uma razão para começar a brin- car. Cumpre com um papel importante, porém, não é o mais importante para que a brincadeira possa aconte- cer. E nesse ponto específico, precisamos compreender o brinquedo como um elemento que pode ou não exis- tir dentro da brincadeira, e ainda, que pode ser sempre https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14951 103 EDUCAÇÃO FÍSICA substituído ou improvisado com os recursos disponíveis no local do brincar. Dessa forma, a ausência dele, nunca pode ser a razão do não brincar. Quando nos propomos a classificar um brinquedo, podemos utilizar classificações já existentes na literatu- ra, como veremos mais à frente nos nossos estudos, mas devemos também refletir e idealizar a nossa própria classificação a fim de analisarmos todos os aspectos que um brinquedo pode oferecer. Nas imagens anteriores, temos um mini supercarro elétrico para criança, que imita um carro real e pode ser avaliado em torno de R$3.500,00. Já na outra imagem, vemos um carrinho de rolimã construído com madeira, cola, parafusos, barra de ferro e rodas, que em muitos ca- sos são materiais reutilizados, não tendo nenhum custo monetário na sua construção. Como você classificaria cada um desses brinque- dos? O que eles têm em comum e o que os diferencia? Quais experiências importantes eles irão promover no brincar da criança? Qual a relação do brinquedo- -criança, da criança-brinquedo, e ainda, quais relações sociais estão envolvidas e são promovidas/estimula- das nesse brincar? Muitas miniaturas, como bonecas e objetos varia- dos podem ser considerados brinquedos, entretanto não podemos deixar de considerar a especificidade da área da Educação Física, que tem como objeto de conhecimento, o movimento humano. Nesse sentido, propomos pensar em brinquedos que facilitem esse movimento corporal, que convide a criança a experi- mentar as suas capacidades físicas, e que se possível, estimule brincadeiras coletivas. A partir das reflexões propostas até aqui, relacione, a seguir, brinquedos que fizeram ou não parte da sua in- fância e que poderiam ser classificados como brinque- dos que nos convide a se movimentar. 104 Nesta etapa de nossa incursão sobre a cultura lúdica infantil, vamos nos dedicar a algumas questões impor- tantes na formação de profissionais que vão trabalhar com os brinquedos na atualidade. Explicitamos pontos, como: o brinquedo como objeto de ressignificação in- fanto-juvenil; a produção de brinquedos pelos adultos para as crianças; as relações de consumo e os brinque- dos; brinquedos industrializados e artesanais; a mídia, infância e os brinquedos; os brinquedos tecnológicos e as questões de gênero e os brinquedos. Quando afirmamos falar da atualidade, pensamos numa infância e adolescência situadas, assim como o con- ceito de educar aqui empregado. Destarte, não temos a pretensão de trabalharmos a atualidade e as relações com o brinquedo em todas as infâncias existentes. Seria um ob- jetivo impossível de cumprirmos e, também, uma contra- dição com a concepção de infância que tem como funda- mento a compreensão de diferentes infâncias decorrentes de tantas culturas e contextos existentes em nosso país. Assim, desenvolveremos o conteúdo a partir da infância e adolescência brasileira, urbana e que tem na escola um dos espaços de aprendizagem, mesmo assim, um conceito de infância que não é totalizante. Tratare- mos também da cultura infanto-juvenil da cidade e sua relação com o objeto que mais bem simboliza a cultura lúdica em toda a nossa história, o brinquedo. O brinquedo pode ser compreendido a partir de dois olhares sobre o objeto alvo do brincar pela criança. A pri- meira interpretação é advinda da ressignificação de qual- quer objeto que esteja com as crianças e estas transfor- mem em brinquedo. Essa apreensão mostra a capacidade infinita da criança de criar; por vezes, o brinquedo pode 105 EDUCAÇÃO FÍSICA ser o próprio corpo dela ou do outro (PEREIRA, 2009), quando, por exemplo, transforma seu corpo em uma pis- ta de corrida de carros com seus próprios dedinhos. Tal observação fornece pistas, ainda, sobre a impor- tância que pode ter a presença dos adultos – pais ou professores – nas brincadeiras infantis e sobre a necessária sensibilidade para saber diferenciar os momentos em que a intervenção do adulto pode potencializar a brincadeira, daqueles momentos onde essa intervenção pode representar o seu ani- quilamento (PEREIRA, 2009, p. 01). Dessa forma, quando nos colocamos a refletir sobre o lugar do brinquedo na vida das crianças, nos propo- mos, também, a pensar o papel de intervenção ou não do adulto nesse processo e a forma que o adulto, se for realizar a intervenção na brincadeira, deve realizá-la. industrializados (PEREIRA, 2009). Estes são produções de adultos para crianças e não produção realizada com as crianças, e destes emergem inúmeras relações externas ao próprio brincar, como o consumo, por exemplo, que não tem uma relação direta com o brincar infanto-juve- nil, mas o influenciam de forma contundente. Assim, segundo Pereira (2009, p. 2), “[...] é insufi- ciente tentar compreender a realidade dos brinquedos apenas a partir do espírito infantil, pois tanto sua pro- dução e circulação, quanto a atividade de brincar com eles, interligam-se a uma ampla rede social e cultural”, constituindo-se como uma análise efetiva, a qual se es- tende a realidade social - e não apenas o brincar como ação observada concretamente em si –, uma análise que contempla o contexto em que o brincar com o brinque- do é vivido e reproduzido. Na Unidade II deste livro, tratamos do contexto his- tórico dos brinquedos e suas diferentes significações na história da humanidade. Para realizar essa análise, esta- belecemos paralelos e relações com a forma de organi- zação social vigente, por exemplo, em Philippe Ariès e Walter Benjamin, no que se referia à questão da produ- A segunda possibilidade de pensar sobre o brinquedo e as crianças diz respeito aos brinquedos pensados e constru- ídos por adultos para as crianças, ou seja, os brinquedos “A respeito do brincar do professor junto com a criança, foi ressaltado por Kishimoto, o pensamento de Vygotsky, que afirma que uma prática pedagógica adequada não passa apenas por “deixar a criança brincar”, mas sim pela parceria com os mediadores, ou seja, os adultos e os materiais para brincar. As infor- mações nunca são absorvidas diretamente do meio, são sempre intermediadas explícita ou implicitamente, pelas pessoas que rodeiam a criança e carregam significados sociais e históricos” (LOMBARDI, 2016, p. 132). 106 ção artesanal dos brinquedos e à influência sobre o brin- car das criançascom o brinquedo. Assim, caro(a) aluno(a), nesta etapa de nosso estu- do, como pretendemos reflexionar sobre o brinquedo na atualidade, iremos elucidar as relações que emergem da organização social vigente que se baseia na produção de brinquedos em massa, industrializados, no consumo destes e no amoldamento dos desejos e vontades infan- to-juvenis pela mídia. Benjamin (2002, p. 91-92), sobre os brinquedos pro- duzidos em massa pela indústria, nos alerta de que “[...] quanto mais a industrialização avança, tanto mais deci- didamente o brinquedo se subtrai ao controle da família, tornando-se cada vez mais estranho não só as crianças, mas também aos pais”. O material utilizado na atualidade, que se distanciou dos iniciais na fabricação de brinquedos de pais para filhos, como a madeira, ossos, tecido, argila (BENJAMIN, 2002), hoje é tomado por materiais mais padronizados, como o plástico. Resultam em brinquedos que não têm identidade, são uni- formizados e são, em geral, pensados, no processo de globa- lização, a partir de uma concepção homogênea de infância. Configura-se, nesta relação com o brinquedo, um estra- nhamento, uma falta de vínculo que potencialmente po- deria ser concebido em um brinquedo artesanal. Esse entendimento parte do princípio que existe apenas uma infância, e não infâncias. Nessa compreensão está implícito que crianças de todos os cantos do mundo têm as mesmas expectativas, sonhos e referenciais culturais. O que já aprendemos, caro(a) aluno(a), que é um viés de análise sobre infância que precisa ser superado, a ca- tegoria geracional infância é complexa e precisa ter sua identidade pensada a partir dessa perspectiva. Essa análise complexa expande também as concep- ções dos âmbitos em que a educação ocorre e a diver- sidade de influências que as crianças sofrem nos pro- cessos de aprendizagem. Segundo Gonçalves (2005), a partir dos estudos de Henry Giroux, existem múltiplos espaços educativos, para além do espaço escolar. 107 EDUCAÇÃO FÍSICA [...] existem locais pedagógicos, por exemplo, bi- bliotecas, TVs, filmes, jornais, revistas, brinquedos, anúncios, videogames, livros, esportes, entre ou- tros, daí a necessidade de entendermos tais locais como influenciáveis na educação da criança. Indis- pensável ressaltar que, aliadas a esse currículo cul- tural, estão as intenções comerciais interessadas na vantagem individual (GONÇALVES, 2005, p. 15). Assim, configuram-se as influências e determinações projetadas a partir dos meios de comunicação e dos brinquedos e outros artefatos aos quais as crianças têm acesso. Essa aprendizagem midiática implica a padroni- zação não apenas do consumo de brinquedos, mas de alimentos, vestuário, de concepção de mundo, de ideais, de sonhos e comportamentos. Os profissionais de educação física precisam ampliar sua análise para esses determinantes sociais com os quais as crianças e adolescentes estão em relação cotidianamen- te. Levando em consideração que a influência midiática e do consumo, “[...] buscam colocar um ‘molde’, estipulando padrões de felicidade, e massificando a ideia de que é pre- ciso ter para poder ser” (GONÇALVES, 2005, p. 15). Os consumidores crianças e jovens sofrem um bombardeio mais intenso da mídia, pois ainda são con- sumidores em formação. Observe, caro(a) aluno(a), como as propagandas, desde carros até alimentação, têm as crianças e jovens como foco. Os adultos já estão com seus hábitos de consumo mais formados e, apesar de se- rem eles os detentores do poder aquisitivo para comprar, conta-se no mundo da publicidade com a influência dos pequenos nessas decisões. Nesse processo ferrenho de estímulo ao consumo que as crianças e jovens vivenciam, determina-se o que eles desejam consumir, inclusive em se tratando de seus jogos, brinquedos e de como desenvolvem seu tempo li- vre. Isso tem um impacto grande nas relações que crian- ças e jovens estabelecem, especialmente, nos espaços educativos (escolas, clubes, praças, entre outros), pois, nesse ambiente, eles estão em relação com os outros, aprendem, socializam e trocam experiências. Pereira (2009) nos alerta para a relação entre as mídias de massa e a produção dos brinquedos em uma cultura globalizada e a importância que algumas cultu- ras tomam nesse âmbito em detrimento de outras. Nesse cenário mundial, temos as referências norte-americanas que foram, por bastante tempo, hegemônicas na produ- ção de brinquedos; hoje, temos também as influências dos países asiáticos - especialmente no que se refere aos jogos eletrônicos – neste mercado do brinquedo e do jogo. Junto à produção de brinquedos com essas referên- cias, estão atreladas as produções de roupas, alimentos, materiais escolares, desenhos animados, que vão confi- gurando um emaranhado de influências e códigos que nem sempre detêm e correspondem aos valores e cultu- ras dos grupos de crianças e jovens que estão consumin- do ou desejando consumir aquele brinquedo. Conviver com a diversidade cultural é importan- te e nos ensina a perceber o mundo e a regrar a vida a partir de diferentes perspectivas e visões de mundo. Nesse sentido, todo diálogo cultural pode ser bem-vindo. Entretanto, nem sempre a relação entre as culturas é dialógica, uma vez que implica posturas valorativas e relações de poder (PEREI- RA, 2009, p. 9). Assim, da mesma forma que não devemos excluir o sentido educativo e imprescindível de que as diferentes culturas sejam valorizadas e que as aprendizagens sobre elas aconteçam junto às crianças e adolescentes, temos que analisar que nem todas as culturas estão contempla- das na produção globalizada dos brinquedos e, conse- quentemente, do brincar. Cada vez mais nos distanciamos do que é um brin- quedo - que é uma produção cultural, com característi- cas de uma localidade e qualidades dos diferentes gru- 108 pos sociais, gerando um processo de homogeneização desses artefatos. Essa padronização dos jogos e brinque- dos se harmoniza com o que as crianças e jovens vão construindo como referência de beleza, de valores. Um fato, entre inúmeros outros, que desvela estas re- lações resultantes dessa intensa padronização é elucida- do por Pereira (2009) quando trata da produção em mas- sa de bonecas, especialmente direcionada às meninas: [...] há uma hegemonia de bonecas brancas, louras ou morenas, com cabelos lisos, compridos e es- voaçantes. Será essa caracterização representativa da diversidade étnica brasileira? Essa hegemonia começou a ser posta em xeque a partir da organi- zação dos movimentos negros, na última virada de século. Entretanto, não se testemunha um cresci- mento significativo de bonecas negras, mas o sur- gimento muito pontual de alguns ícones da cultura negra (PEREIRA, 2009, p. 15). As características, valores, gostos e referências são úni- cas de cada grupo social e deveriam estar na centralida- de das aprendizagens infanto-juvenis. A frustração e a busca por atender esse padrão imposto e não real pode gerar uma insatisfação e falta de identidade das crianças e jovens a partir do que lhes é próprio, a partir de sua própria produção cultural: a lúdica. Um dos elementos que mais influencia essa cultura lúdica na atualidade ainda é a televisão, que estava pre- sente, em 2014, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), em 97,1% dos 67 milhões de domicílios brasileiros, ou seja, um número muito ele- vado. As crianças que têm acesso aos meios de comuni- cação estão expostas a eles, muitas vezes, sem supervisão de um adulto. A TV, como qualquer outro meio de co- municação, como celulares, tablets ou computadores, de- veria ser de acesso às crianças – considerando-os como pessoas em situação peculiar de desenvolvimento – com a mediação de um adulto e com limitação de tempo. Por que a diversidade das bonecas importa. Esse é o título de uma matéria sobre a produção de bonecas no Brasil, de uma emissora internacional da Alemanha. “No mercado brasileiro, ainda predominaa normalização do padrão loira, branca e magra desde a infância, o que reforça preconceitos e gera impacto na autoestima e na construção da identidade das crianças. Em Fevereiro de 2019, o Brasil também ganhou sua primeira loja física de bonecas negras, no Rio de Janeiro. As novidades representam algumas das mudanças do mercado de brinquedos em direção à representatividade, mas o setor ainda está longe de refletir a diversidade de crianças. Um levantamento de 2018 realizado pela Cadê nossa boneca?, campanha da ONG Avante sobre padrões estéticos e representatividade na infância, mostrou que os modelos de bonecas negras representam apenas 7% do total. Dos 762 tipos analisados, 53 eram negras. Brincar, explicam especialistas, também é uma forma com que as crianças aprendem sobre a cultura e o contexto em que estão inseridas. E os brinquedos, como parte desse processo de aprendizagem, têm efeitos na educação e na formação da criança. Modelos restritos de representatividade podem, por exemplo, gerar problemas de autoimagem e falta de empatia. ”Fonte: Oliveira (2019, on-line). 109 EDUCAÇÃO FÍSICA Entretanto, nessa relação, as crianças não são com- pletamente passivas e apenas receptoras de cultura, elas ressignificam os sentidos apreendidos nos meios de co- municação. Segundo Souza (2014), partindo dos estudos de Walter Benjamin e estudando o brincar das crianças no espaço do recreio escolar: Na frente da tela, as crianças acessam um mundo pictórico e fantasioso. Não o vivenciam, como es- pectadores passivos, e sim dão sentidos ao que veem e escutam diante da televisão. O pátio revela a auto- ria infantil a partir das brincadeiras com os pares e os brinquedos. As crianças produzem sentidos entre os pares, regras e vocabulários, que ampliam o re- pertório visto na tela da TV (SOUZA, 2014, p. 117). Destarte, as crianças e jovens desenvolvem outros sen- tidos a partir do aprendido na televisão, elas têm esse potencial de criação, recriam um personagem, por exemplo, em uma situação de brincadeira. Entretanto, nossa análise não pode deixar de lado que o estímulo inicial, o conteúdo oferecido para a criança, parte des- te meio de comunicação. Dá-se aí a importância de o adulto mediar o que as crianças têm acesso na televisão e nas diversas mídias. Sobre os brinquedos e jogos eletrônicos e tecnoló- gicos, estes estão presentes na vida de algumas gerações mais intensamente do que em outras, assim, pode-se configurar uma quebra entre diferentes gerações (SIL- VA; HOMRICH, 2010). Podemos exemplificar essa que- bra no que se refere à linguagem, por exemplo, presente nos videogames e que se torna corriqueira para quem os joga e o total estranhamento das expressões empregadas no game para quem não tem acesso aos jogos. Esse afastamento na linguagem, expressões e hábitos presentes no mundo dos jogos eletrônicos pode gerar até uma ruptura nas relações familiares e geracionais. A consequência da configuração atual dos jogos eletrôni- cos precisa ser alvo de debates e reflexões em diversos âmbitos educativos e na família. Dessa forma, o profissional não pode ficar alheio a estas relações que emergem do brincar e do consumo nos ambientes educativos, ele precisa se qualificar e proble- matizar essas questões com seus alunos. É imprescindível debater sobre o consumo, sobre a construção dos desejos pelo consumo e de como este influencia nossos gostos e modula nossas ações, oferecendo um maior repertório de brinquedos e atividades que se contraponham a essa lógica e nas quais as crianças e jovens sintam-se represen- tados e partícipes dos processos de construção. Outro elemento que devemos abordar quando tra- tamos de brinquedos e atualidade são as relações de gê- nero que emergem do brincar. Segundo Finco (2010), que pesquisou o brincar das crianças na Educação In- fantil, foi possível evidenciar que as crianças pequenas observadas, ainda não apresentam “[...] práticas sexis- tas em suas brincadeiras e, portanto, não reproduzem o sexismo presente no mundo adulto. [...] vão aprendendo a oposição e a hierarquia dos sexos ao longo do tempo que permanecem na escola” (FINCO, 2010, p. 9). Sendo assim, compreendemos que a reprodução de es- tereótipos e preconceitos é ensinada e reforçada a partir das produções culturais às quais as crianças têm acesso. As crian- ças subvertem, muitas vezes, as lógicas e padrões determina- dos pelos brinquedos, recriando e ressignificando os brinque- dos e as “funções” a ele atribuídas pelo adulto que o criou. [...] ao refletir sobre a utilização dos brinquedos pelas crianças, é possível afirmar que as categori- zações dos brinquedos são construções criadas por adultos e não tem significado para as crianças nos momentos das brincadeiras. [...] a norma cultural de que existem brinquedos certos para meninas e outros para menino pode estar relacionada à preo- cupação que se tem com a futura escolha sexual da criança (FINCO, 2010, p. 14). 110 Esta preocupação em relação à orientação sexual preci- sa ser problematizada no meio familiar e nos diferentes espaços educacionais. Necessita ser posta como meta de superação dessa estratégia normalizante de educação em relação às questões de gênero, que são uma realida- de em diversos ambientes e que não podem ser negadas pelo mundo adulto. Como fundamento das ações educacionais, é impor- tante um movimento que se proponha à desconstrução da: [...] lógica binária na apresentação do mundo para as crianças: enquanto os brinquedos e brincadeiras estiverem sendo associados a significados masculi- nos e femininos, que hierarquizam coisas e pesso- as, estaremos apresentando aos meninos e meninas significados excludentes (FINCO, 2010, p. 15). Partindo, então, da compreensão de que com o brincar e com o brinquedo as crianças e jovens estão em cons- tante processo de aprendizagem e ressignificação, apon- tamos que não pode ser papel do ambiente educativo o reforço de preconceitos e violências. Assim, faz-se necessária uma profunda reflexão e re- visão de procedimentos metodológicos e de princípios educativos com a intervenção com brinquedos, visando à superação dessa lógica que pode configurar-se como abu- siva e que desrespeita direitos fundamentais das pessoas. Em meio a tantas relações entre a cultura infanto- -juvenil e o brinquedo, reforçamos que o trabalho edu- cativo, no âmbito escolar ou não, precisa apostar no potencial transgressor das crianças e adolescentes na produção de sua cultura lúdica. As crianças usam os brinquedos à sua maneira, rein- ventam regras e normas e “[...] os destroem a fim de en- contrar sua alma. Nesse exercício de liberdade mostram que a cultura é plural, assim como as possibilidades de interpretação da cultura, feita de questões com matizes ideológicos, estéticos, afetivos etc.” (PEREIRA, 2009, p. 6). Assim, é possível analisar os brinquedos no contexto em que estão inseridos, haja vista que carregam as mar- cas de seu tempo, da organização social em que estão inseridos e são produzidos. Um brinquedo em si é fruto da sociedade em que é projetado e influencia seus brin- cantes, bem como é influenciado por eles. CLASSIFICAÇÕES DOS BRINQUEDOS Nesta etapa de nosso estudo, nos dedicaremos à classifica- ção e tipificação dos brinquedos. Da mesma forma que ex- plicitamos na unidade anterior, o objetivo de trazer aqui o tema das classificações dos brinquedos, que são uma pro- dução cultural do homem, é o de superar o fato de buscar uma rigidez ou inflexibilidade nessa caracterização. Aqui, vamos expor essa classificação com o intui- to de ampliar o repertório dos educadores(as) sobre os brinquedos e expandir nossa compreensão sobre esse artefato, visando potencializar nosso trabalho educativo com o brinquedo em diferentes espaços. Diante de tantas classificações que podemos encon- trar sobre brinquedos na literatura da área, um funda- mento exposto por Almeida (2011, p. 10) tem relação direta com os princípios explicitadosaté aqui sobre o brincar e o brinquedo: [...] para brincar efetivamente a criança ou qual- quer outro sujeito não precisa de brinquedos ou jogos. Para brincar necessitamos realmente é de estímulos, experiências e vivências significativas, inovadoras e transformadoras. Acreditamos que a qualidade e a intensidade lúdica não devem ser determinadas somente pelo material concreto ou estruturado. Assim, o brinquedo deve ser compreendido a partir de seu papel como um artefato que está no brincar e junto ao brincar, e não na centralidade do brincar. A pessoa que 111 EDUCAÇÃO FÍSICA brinca tem, no brinquedo, a possibilidade de reinventá-lo e não apenas seguir o determinado nele mesmo, atrelando à ludicidade uma das dimensões da vida, a criatividade. Existem inúmeras classificações a respeito do brin- quedo na literatura da área. Destacaremos, com base nos estudos e ações do Laboratório de Brinquedos e Mate- riais Pedagógicos (LABRIMP) - que pertence à Facul- dade de Educação da Universidade de São Paulo - duas possibilidades de classificação: a proposta por André Michelet, psicólogo Francês e um dos responsáveis pela coordenação do Sistema ICCP (Centro Nacional de In- formação sobre o Brinquedo); e de Péroni, que idealizou a Classement des Objets Ludiques (C.O.L). André Michelet, diante das diversas teorias que foram evoluindo sobre o brincar, apresenta quatro classificações basilares a respeito do brinquedo, elencadas como: classificação etnológica ou socio- lógica; filogenéticas ou históricas; psicológicas e pedagógicas. Segundo Almeida (2011, p. 5), essas quatro classificações básicas tratam dos aspectos apresentados a seguir. 2. Classificações filogenéticas ou históricas que analisam os brinquedos em função da evolução da humanidade, evolução esta reproduzida pela criança em seus jogos em diversos períodos; 1. Classificações etnológicas ou sociológicas que analisam os brinquedos em função do papel que lhes é atribuído (ou que a classificação lhes atribui) nas diversas sociedades; 3. Classificações psicológicas que se fundamen- tam na explicação do desenvolvimento da crian- ça e em função das quais se estabelece uma hie- rarquia dos jogos; 4. Classificações pedagógicas que distribuem os brinquedos segundo diferentes aspectos e op- ções dos métodos educativos. 112 Segundo Michelet (1992, p. 2), existem classificações que chegam a deixar de lado a função do jogo e classificam o brinquedo pelo objeto que ele representa em si, pelo mate- rial. O psicólogo é contra esse entendimento, pois entende que a classificação deve levar em conta que “[...] o jogo é fonte de alegria, de equilíbrio e de desenvolvimento”. Partindo desse entendimento, Michelet (1992, p. 2) expõe que a classificação pensada por ele para os brin- quedos pretende ser uma “[...] ferramenta de trabalho educacional ou de ação social, meio prático de classifi- cação nas brinquedotecas, ela é simples e genérica, apro- veitável no cotidiano pelos educadores”. O brinquedo, nessa classificação, pode ser analisado a partir de quatro qualidades, segundo Michelet (1992): O valor funcional É caracterizado pelas qualidades intrínsecas do brinquedo (dado retomado em parte pelas normas de segurança). Isto é válido para todo objeto visual, mas como o brinquedo se destina a seres em desenvolvimento, seu valor fun- cional diz respeito a sua adaptação ao usuário: em outros tempos, os primeiros jogos de construção eram minús- culos, adaptados à mão da criança, calmamente sentada frente a uma mesa; hoje, a maioria deles está na escala da mesma criança brincando no chão, com todo seu corpo. O valor experimental Diz respeito a aquilo que a criança pode fazer ou aprender com seu brinquedo, em todos os níveis: fazer ruído, ro- dar, encaixar, construir, medir, classificar… Engloba todas as caixas de conteúdo técnico ou científico (por exemplo, a maleta de médico, a montagem de modelos reduzidos) e os jogos didáticos. Estes últimos foram, durante muito tempo, uma das raras formas de jogo admitidas pela sociedade: o jogo de percurso da História da França, o loto das sílabas... nos séculos XVIII e XIX, reforçavam o ensino, mas ignoravam a educação pré-escolar. O valor de estruturação Relaciona-se com o desenvolvimento da personalidade da criança e abrange o “conteúdo simbólico” do jogo e do brinquedo: projeção, transferência e imitação. Vestir uma fantasia pode parecer absurdo, porém à criança é uma forma de experimentar um “modo de ser”. Essa função permite assimilar emoções e sensações (ninar a boneca), descarregar tensões (brinquedos ditos agressivos). Esse valor diz respeito a tudo que concorre à elaboração da área afetiva. O valor de relação Diz respeito à forma segundo a qual o jogo ou brinquedo facilitam o estabelecimento de relações com outras crian- ças e com os adultos, propondo o aprendizado de regras (jogos de loto), de comportamentos (jogo de comidinha), de simulação (jogos de papéis e de empatia). A função de relação de um brinquedo pode ser objeto de uma expe- riência direta (aprender a jogar cada um na sua vez), mas frequentemente, nesta área, como em todos os aspectos do jogo, a contribuição é, sobretudo, indireta (em segundo grau): o jogo de damas é o único campo em que um filho pode vencer o pai e resolver, assim, situações familiares conflituosas. OLHAR CONCEITUAL 113 EDUCAÇÃO FÍSICA Valor Funcional Valor experimental Valor de estruturação Valor de relação 114 Michelet (1992) aponta que os brinquedos se encaixam, de uma forma mais direta ou não, em cada uma destas qualidades. Entretanto, comumente o brinquedo se en- contra mais fortemente em uma delas, e é essa que deve- rá ser usada para classificá-lo. Segundo Kobayashi et al. (2009), no Sistema ICCP (baseado nesses quatro elementos elencados anterior- mente) são propostos esquemas analíticos dos brinque- dos fundamentados em critérios diversos como: zar objetos lúdicos como um instrumento para crianças e adultos, organizar e identificar brinquedos e jogos de for- ma simples e coerente” (KOBAYASHI et al. 2009, p. 7776). Este sistema de organização de brinquedos baseia- -se, segundo Kobayashi et al. (2009, p. 7776), em três pressupostos: “[...] simplicidade de utilização, ganho de tempo e valorização dos objetos lúdicos”. Essa classifi- cação de brinquedos tem seus elementos constitutivos fundamentados em Jean Piaget e Denise Garon. O brinquedo, analisado dentro do C.O.L., também pode ser classificado em quatro facetas, segundo Ko- bayashi et al. (2009, p. 7778): A partir desses critérios, o sistema ICCP, visando clas- sificar o brinquedo, pretende cruzar e relacionar essas qualidades listadas, chegando a uma maior compreen- são dos predicados relacionados ao brinquedo e sua me- lhor funcionalidade no espaço educativo. A outra forma de classificação que iremos explicitar chama-se C.O.L (Classement des objets ludiques), siste- ma idealizado na França. Esse instrumento é direcionado para “[...] profissionais, interessados em conhecer e utili- Brinquedos para jogos de exercício: esses objetos são utilizados para atividades sen- soriais e motrizes para o prazer de obter os efei- tos e resultados imediatos, e se apresentam em três subcategorias: brinquedos para o despertar sensorial – são aqueles utilizados nas atividades sensoriais, sonoras, visuais, tátil, sinestésica re- petidas pelo prazer de obter resultados imedia- tos, por exemplo, os tapetes de sensações nos quais o bebê toca vários objetos e está atento aos resultados; brinquedos de motricidade – são aqueles utilizados nas atividades motrizes que implicam o corpo na sua totalidade, por exemplo, bola de tecido; brinquedos de manipulação – são aqueles utilizados nas atividades repetidas por prazer e implicam as funções motrizes das mãos: agarrar, pegar, apertar, bater, lançar, enfileirar, empilhar, enfiar, como as bancadas para encaixar pinos, rosquear etc. Categorias/classes Brinquedos/jogos para primeiraidade; de descober- ta e compreensão; de descoberta da personalidade; criativos; esportivos; de sociedade. Idade média da utilização Primeira idade (0-15 meses); maternal (15 meses-3 anos); pré-escolar (3-6 anos); escolar (6-12 anos); adolescência (12-16 anos). Áreas constituintes da personalidade da criança Sensório-motor; inteligência; afetividade; criativi- dade; sociabilidade (KOBAYASHI et al., 2009, p. 4). 115 EDUCAÇÃO FÍSICA Essas duas classificações expostas aqui, caro(a) aluno(a), a ICCP e COP, partem do princípio da relação entre o brincar e o brinquedo, não o isolam como objeto, como um artefato. Assim, essas classificações valorizam o brin- car com o brinquedo, que é tarefa de quem tem no brin- quedo uma das facetas do trabalho educativo. Esse fundamento é importante, pois potencializa o movimento de ação reflexão, ação do(a) professor(a) frente ao brincar com o brinquedo, ampliando sua com- Jogos de acoplagem: são aqueles que os elementos do jogo re- unidos compõem um novo conjunto: jo- gos de construção – peças isoladas que, reunidas por diferentes técnicas, como superposição, entrelaçamento, formam objetos com três dimensões (Legos); jogos de encadeamento – peças isoladas que, reunidas por diferentes técnicas, como su- perposição, entrelaçamento, enfileiramen- to, formam objetos com duas dimensões (quebra-cabeça); jogos de experimentação – jogos cujos elementos isolados são reu- nidos para a experimentação dos fenôme- nos químicos; jogos de fabricação – jogos cujos elementos isolados são reunidos para a produção de culinária, artesanato ou ar- tístico (meus colares, meu tear etc.). Brinquedos para jogos simbólicos: são os objetos que possibilitam ao jogador reproduzir ou inventar ações, situações, eventos e cenas de acordo com sua ima- ginação e que ajudam no conhecimento e na compreensão da realidade. Apresen- tados em três subcategorias: brinquedos de papéis – são aqueles objetos utilizados para imitar personagens, animais, situações, eventos e os quais são proporcionais ao tamanho do jogador, por exemplo, a maleta do doutor; brinquedos de faz de conta – são aqueles que têm figuras e acessórios utili- zados para produzir uma cena específica, ações, situações ou eventos, sem cenários estabelecidos, esses objetos colocam o jo- gador em situação de dirigir a cena, a brinca- deira (Barbie e seus acessórios); brinquedos de representação – são aqueles utilizados para representar os objetos, personagens, situações, eventos pelo desenho, modela- gem, gravura (massa de modelagem). Jogos de regras: comportam um conjunto de convenções e de obrigações a que os participantes se submetem, trata-se frequentemente dos jogos coletivos, com uma variedade de subcategorias que a própria nomenclatu- ra aponta o objetivo: jogos de associação (loto, dominó, memória etc.), de percurso, de expressão, de combinação, de endereço e esporte, de reflexão e estratégia, de azar e de questões e respostas. 116 preensão para as inúmeras possibilidades interventivas, criadoras e de aprendizagem em situação de brincadeira. As características aqui explicitadas buscam estabe- lecer uma conexão com o brinquedo em situações de aprendizagem que extrapolam o ambiente escolar. São re- lações importantes do brincar e jogar no ambiente fami- liar e comunitário e em espaços, como a rua, a praça, nos programas de lazer, no hospital, nos museus, no recreio e, também, na brinquedoteca, que iremos aprofundar, na próxima etapa de nossa unidade, como um potencial es- paço de atuação profissional e de aprendizagens. BRINQUEDOTECA: O ESPAÇO DO BRINQUEDO E DO BRINCAR Vamos aprender sobre um espaço pensado para o brin- car: a brinquedoteca. Sobre esse lugar do brincar, vamos aprender sobre seus objetivos e histórico, os diversos es- paços em que temos brinquedotecas em nosso país, sua configuração no espaço escolar e a brinquedoteca como um direito na modernidade. Segundo Cunha (1992), as brinquedotecas são originá- rias do século XX. A autora cita a origem em alguns países, como Estados Unidos, Suécia, Inglaterra e Canadá. Nos Es- tados Unidos, a história está atrelada à crise econômica de 1934, quando um dono de uma loja de brinquedos relatou a um diretor de escola sobre os furtos de brinquedos que estavam ocorrendo em sua loja. O diretor compreendeu que, nesse contexto, o roubo estava atrelado ao desejo de brincar com brinquedos e a impossibilidade de adquiri-los na crise econômica. Então, ele criou um serviço de emprés- timo de brinquedos comunitário: o Los Angeles Toy Loan. O Museu Brinque- dim alberga um acervo de 500 pe- ças de autoria do artista plástico Dim Brinquedim: são brinquedos, esculturas e telas, de pequenas e grandes dimensões, criadas ao longo de 40 anos. Seu acervo é distribuído em sete núcleos internos e um conjunto externo. Programados dentro de um nexo estético, todos os núcleos exaltam a alegria e a brin- cadeira e criam um ambiente que desperta e motiva o visitante para a compreensão do valor do lúdico para o enriquecimento e fortalecimento da vida. Desde sua abertura pública, em 2002, o Museu Brinquedim vem se pautando por uma política cultural anco- rada nos princípios de democratização do seu acervo. Para isso oferece ao público, de forma permanente, o acesso a sua coleção. A sociedade vem manifestando interesse crescente pelas obras. Seu acervo é pesqui- sado por estudantes de diversas escolas e universidades brasileiras, que, a partir dessa coleção, abordam temas como design, brin- quedos tradicionais, arte e ludicidade. Faça a visita virtual por meio do Qr Code. Vamos lá?! https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13635 117 EDUCAÇÃO FÍSICA Na Suécia, a história das brinquedotecas se constrói a partir de 1963, quando duas mães de crianças excep- cionais, que eram também professoras, fundaram a Lekotek. Esse local tinha o objetivo de ensinar como as famílias de crianças com deficiência poderiam brincar com elas, a fim de estimulá-las em seu desenvolvimento e emprestar os brinquedos disponíveis (CUNHA, 1992). Na Inglaterra, passaram a funcionar, a partir de 1967, as Toy Libraries, com um sentido inicial de empréstimo de brinquedos. Posteriormente, com o desenvolvimen- to de trabalhos e pesquisas, o trabalho foi se ampliando como “[...] apoio às famílias, orientação educacional e de saúde mental, estimulação precoce, estímulo à socializa- ção e resgate da cultura popular de cada povo” (CUNHA, 1992, p. 39). No mundo todo, iniciou-se e perdura até hoje um movimento de oferecer brinquedotecas: Sempre com alguma dificuldade financeira, sem- pre recorrendo ao trabalho voluntário, mas alcan- çando nível técnico de uma nova especialidade. O que importa é que em todos os cantos desse nosso planeta está sendo sentida a necessidade de se criarem condições especiais para que todas as crianças tenham boas oportunidades de brincar (CUNHA, 1992, p. 43). No Brasil, o início das brinquedotecas também se rela- ciona ao estímulo por intermédio do brincar de crianças com deficiência. Em uma ação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE, vários brinquedos foram expostos visando a orientar os envolvidos com a temática, como pais e professores, em relação aos brin- Figura 1 - Imagens da Los Angeles Toy Loan - 1930 a 1940 Fonte: DPSS ([2022]a; [2022]b, on-line). Descrição da Imagem: crianças brincando na Los Angeles Toy Loan - 1930 a 1940. 118 quedos, o que despertou muito interesse e resultou em um novo setor para a instituição voltado para os brin- quedos (CUNHA, 1992). Em 1973, esse setor se transformou em uma biblioteca de brinquedos circulante, que levou a uma “[...] maior va- lorização da utilização dos brinquedos e passou a ser ob- jeto do interesse do grande número de profissionais e es- tudantes das mais diferentes áreas” (CUNHA, 1992, p. 45). A APAE continuou a estimular o desenvolvimen- to das crianças a partir da valorização dos brinquedos.Nessa busca pelo aperfeiçoamento do trabalho com o brinquedo, foram elaborados estudos e eventos que vi- savam, especialmente, destacar a importância do brin- quedo no desenvolvimento humano. Em 1981, foi instalada no país oficialmente a pri- meira brinquedoteca, “[...] que diferia das Toy Libraries por priorizar a brincadeira e não apenas o empréstimo de brinquedos” (CUNHA, 1992, p. 46). Houve um pro- cesso de ampliação de brinquedotecas no país a partir dessa iniciativa e da criação da Associação Brasileira de Brinquedotecas, que fortaleceu as ações na área. Assim, podemos afirmar que esses espaços, que garantem, de alguma forma, o direito a brincar da criança em nosso país, são um movimento recente. Esse fato nos leva à principal finalidade da brinque- doteca: em última instância, ela busca garantir o direito à brincadeira. Ela parte de uma leitura da realidade so- bre o brincar, por exemplo, “[...] nas cidades as crianças convivem com falta de segurança nas ruas, extinção dos quintais e falta de espaço para brincar. A necessidade de espaço contribuiu para que o número de brinquedotecas se expandisse no Brasil” (MONTAGNINI, 2014, p. 15). Assim, unida a essa meta mais ampla no âmbito do direito, segundo Cunha (1992, p. 37), a brinquedoteca deve objetivar: Valorizar o brinquedo e as atividades lúdicas e criativas; possibilitar o acesso à variedade de brinquedos; emprestar brinquedos; dar orienta- ção sobre adequação e utilização de brinquedos; estimular o desenvolvimento global das crianças; enriquecer as relações familiares; desenvolver hábitos de responsabilidade e trabalho; dar con- dições para que as crianças brinquem esponta- neamente; despertar o interesse por uma nova forma de animação cultural que pode diminuir a distância entre as gerações; criar um espaço de convivência que propicie interações espontâneas e desprovidas de preconceitos; provocar um tipo de relacionamento que respeite as preferências das crianças e assegure seus direitos; oferecer às crianças a oportunidade de experimentar os jogos antes de comprá-los; favorecer o encontro daque- les que apreciam as trocas afetivas, as brincadeiras e a convivência alegre e descontraída; desvincular o valor lúdico do brinquedo do seu valor monetá- rio ou afetivo, possibilitando à criança a aprendi- zagem de que não precisa possuir com exclusivi- dade, pode usufruir partilhando com outros; dar oportunidade às crianças de se relacionarem com adultos de forma agradável e prazerosa, livre de formalismo decorrente das situações estruturadas em escolas ou outro tipo de instituições. A partir de tantos objetivos que podem ser atrelados ao espaço educativo da brinquedoteca, mostra-se o poten- cial desse local que deve primar pela liberdade. Montag- nini (2014, p. 100) afirma que na brinquedoteca pode-se alcançar a “[...] autonomia da criança pela liberdade de 119 EDUCAÇÃO FÍSICA um local “[...] preparado para estimular a criança a brin- car, possibilitando o acesso a uma grande variedade de brinquedos, dentro de um ambiente especialmente lúdi- co. É um lugar onde tudo convida a explorar, a sentir, a experimentar” (CUNHA, 1992, p. 36). A brinquedoteca, então, não deve ser apenas um espaço com brinquedos disponíveis para se desfrutar; esses locais devem transcender essa concepção utilita- rista e serem constituídos e reconstruídos constante- mente em direção a desvelar a cultura lúdica do grupo de crianças que ali brinca. Para Kishimoto (1992, p. 51), cada brinquedoteca: [...] apresenta o perfil da comunidade que lhe dá origem. Tais características dependem do sistema de educação, dos valores adotados e dos serviços oferecidos por cada país à sua população. Apesar da diversidade das brinquedotecas, há um obje- tivo comum que as une e as diferencia de outras instituições sociais: o desenvolvimento de ativi- dades lúdicas e o empréstimo de brinquedos e materiais de jogo. Destaca-se, então, o princípio da inserção comunitária do professor(a) que desenvolve o trabalho nesta área educacional. Assim, o agente dessa ação educativa, ob- jetivando um bom resultado para seu trabalho, precisa estar inserido em sua comunidade e, com isso, apreen- der os meandros culturais, sociais e expectativas da co- munidade para montar e atuar na brinquedoteca. Isto é, esse espaço não pode ter suas características apartadas da realidade em que está inserido. Kishimoto (1992) nos apresenta diversas possibili- dades de espaços em que se constituem brinquedotecas escolher com o que deseja brincar, o que também favo- rece a iniciativa, a criatividade, a imaginação, o senso crítico e a responsabilidade de manter o ambiente orga- nizado, como um princípio ético”. O espaço da brinquedoteca precisa ser preparado para ser um ambiente agradável e acolhedor, afinal, as crian- ças devem se sentir parte desse espaço e identificar-se com ele. Assim, uma forma de configurar uma brinque- doteca que seja realmente efetiva passa pela participação infantil nessa construção. Este é um importante princípio que deve ser respei- tado para que a brinquedoteca seja constituída como Diante do conheci- mento da história das brinquedotecas no Brasil e no mun- do, passamos a ser responsáveis pela divulgação desses trabalhos tão importan- tes que acontecem por todo o nosso país. Por isso é importante que saibamos onde as brinquedotecas estão, e para isso, podemos acessar o site da Associação Brasileira de Brinquedotecas - ABBri, lá nós iremos encon- trar todas as brinquedotecas cadastradas. Acesse o link através do Qr Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13636 120 em nosso país, como: brinquedotecas nas escolas e em comunidades ou bairros; brinquedotecas para crianças com deficiência; brinquedotecas em hospitais; brinque- dotecas em universidades; brinquedotecas para testa- gem de brinquedos; brinquedotecas circulantes; brin- quedotecas em clínicas psicológicas; brinquedotecas em centros culturais; brinquedotecas junto a bibliotecas; e brinquedotecas temporárias. Explicitamos aqui, com mais detalhes, o trabalho desenvolvido com a brinquedoteca em dois desses espa- ços citados pela autora: Brinquedoteca em universidades: podemos exem- plificar essa ação educativa a partir dos estudos de Arruda et al. (2017), que explicitam as características da Brinque- doteca Universitária do campus do Pantanal da Universi- dade Federal do Mato Grosso do Sul. Essa brinquedoteca “[...] tem dois importantes pa- péis, são eles: a contribuição no processo de formação de educadores/professores e o acesso de crianças ao brincar” (ARRUDA et al., 2017 p. 1). A brinquedoteca tem seu aten- dimento voltado para crianças de três a sete anos da comu- nidade acadêmica, como filhos de professores, funcionários e acadêmicos, e da comunidade externa à instituição; quem realiza a intervenção educativa são acadêmicos(as) dos cur- sos de Educação Física e Pedagogia da universidade. Nessa brinquedoteca, a metodologia de trabalho considera a “[...] brincadeira como o meio, tanto no sen- tido de atender e oferecer às crianças o acesso ao direito de brincar, quanto no processo formativo de quem lá atua como educadora” (ARRUDA et al., 2017, p. 2). As educadoras planejam as atividades, mas as crianças são livres para escolher em que estação vão brincar e do que vão brincar. Segundo Arruda et al., (2017, p. 3), a brin- quedoteca é organizada em estações como: [...] vídeo e música, cantinho da leitura, brinque- dos de montagem e industrializados, cantinho do faz de conta, espaço pedagógico com atividades de desenho, pintura, jogos de tabuleiros e outros e o de brincadeiras livres, temos no espaço de brinca- deiras livres alguns brinquedos como arco, corda, bola, bonecos de papelão. Todos esses espaços organizados visam o brincar. É im- portante ressaltar que essa ação educativa é fundamen- tal tanto para as crianças dessa comunidade vivencia- rem o brincar quanto para as educadoras em formação profissional.A brinquedoteca não conta com nenhum tipo de financiamento e desenvolve seus trabalhos com materiais advindos de doações de professores, dos aca- dêmicos e da população da cidade. Nas imagens, a seguir, compartilho um pouco do que foi a minha vivência na construção de brinquedo para uma brinquedoteca universitária. Nessa ocasião, os acadêmicos de Educação Física foram convocados para a construção de brinquedos que gerassem alguma reflexão crítica, ou que estimulasse algumas discussões em relação ao consumismo. Após a construção, nós rea- lizamos um evento com as crianças de escolas públicas da região, para que elas pudessem brincar com todos os materiais construídos por nós. 121 EDUCAÇÃO FÍSICA A partir dessa experiência, convido você a ouvir o nosso Podcast sobre os brinquedos construídos artesanalmen- te com fins educativos e acadêmicos. Vamos lá? Brinquedoteca em hospitais: desde 2005, em nosso país, com a Lei Federal 11.104 (BRASIL, 2005), é obrigatória a presença de brinquedotecas em hospitais. Segundo Paula e Foltran (2007, p. 22), a lei foi constituída por meio de “[...] movimentos de humanização nos hos- pitais e simboliza que a inclusão do brinquedo neste am- biente tem sido concebida como parte da assistência e da terapêutica às crianças e aos adolescentes hospitalizados”. No ambiente hospitalar, as crianças e adolescentes encontram-se frágeis e distantes de seu cotidiano, assim, a brinquedoteca hospitalar constitui-se como essencial para a garantia de seu direito a brincar e um recurso a mais para sua recuperação plena. Paula e Foltran (2007) contam sobre uma experi- ência de uma brinquedoteca hospitalar mantida em parceria com um projeto de extensão da Universidade Estadual de Ponta Grossa - PR. A experiência ocorreu em um hospital da cidade de Ponta Grossa e desenvolvia suas atividades com as crianças e adolescentes interna- dos na instituição. Os pacientes que podiam movimen- tar-se iam até o espaço da brinquedoteca brincar com os educadores e os que não podiam sair do leito recebiam os educadores no quarto. A intervenção educativa era realizada por acadê- micos da universidade dos cursos de Pedagogia, Artes, Informática e Letras, que além do tempo que passa- vam com as crianças e adolescentes na brinquedoteca tinham formação semanal para atuarem e também produziam relatórios diários de suas intervenções, o que constituiu, também, como um dos objetivos do projeto: a formação para o trabalho educativo em brinquedotecas. O projeto de extensão da brinquedo- teca hospitalar visava realizar: Figura 2 - Construção de Brinquedo Fonte: a Autora. Descrição da Imagem: brinquedo idealizado e construído para discutir o lazer e o consumismo. 122 [...] ações recreativas, artísticas, de literatura e educa- cionais na brinquedoteca. Visando oferecer possibi- lidades aos pacientes internados, de brincar de for- ma livre ou dirigida. Por meio das brincadeiras, de contação de histórias infantis, de lendas, de mitos, de adivinhas populares e de atividades artísticas reali- zadas na brinquedoteca, também são observadas as pressões externas que bloqueiam os comportamen- tos dos pacientes, que buscam ajustar-se às expecta- tivas sociais, familiares e até mesmo dos profissio- nais do hospital (PAULA; FOLTRAN, 2007, p. 23). Nessa brinquedoteca, o hospital oferecia a estrutura fí- sica, mas a maioria dos brinquedos e livros eram frutos de doação, assim como na brinquedoteca da universida- de supracitada. De acordo com Paula e Foltran (2007, p. 23), este é um espaço educativo de partilha de múltiplas vivências por meio do brincar e constituía-se como um “[...] espaço lúdico, terapêutico e político, pois além de garantir o direito da criança poder brincar, divertir-se, também é um espaço de formação de cidadania”. Nessas ações com as brinquedotecas fica eviden- te a necessidade da valorização do brincar com acesso aos brinquedos para seu desenvolvimento pleno, afinal, crianças produzem cultura lúdica. Bomtempo (1992) nos aponta que este é um dos espaços mais propícios para o adulto conhecer profundamente a criança e sua relação com o brincar, ou seja, um espaço privilegiado para os educadores que trabalham com essa categoria geracional. Outro fator muito importante relacionado a esse espaço é a questão do brinquedo compartilhado por diversas crianças. Afinal, na brinquedoteca, os brinque- dos pertencem ao espaço e não a cada criança, assim, se brinca e logo outra criança pode brincar. [...] além de desvincular o brinquedo do seu aspec- to de posse e consumo, a brinquedoteca desperta na criança o sentido de responsabilidade coletiva. Ela aprende que um brinquedo pode pertencer a muitas pessoas, que é necessário separar-se deles para que 123 EDUCAÇÃO FÍSICA outras crianças também possam brincar e que ele não deve ser destruído (BOMTEMPO, 1992, p. 77). Esse princípio, quando incentivado e aprendido pelas crianças, pode estimular aprendizagens que diferem to- talmente da lógica de consumo desenfreado dos brin- quedos infantis. Assim, como já explicitamos aqui, esta é uma das questões mais atuais e preocupantes no que se refere aos brinquedos e à infância. Destarte, o trabalho na brinquedoteca pode ser uma das formas mais con- tundentes para problematizar as relações de consumo de brinquedos na atualidade. Os brinquedos eletrônicos no espaço da brinquedo- teca não podem ser a maioria, em geral, eles remetem à criança um papel secundário no brincar. Assim, esses brinquedos, “embora despertem interesse, esse mesmo interesse é bastante passageiro, enquanto brinquedos que permitem maior manipulação e transformação são muito mais apreciados por elas” (BOMTEMPO, 1992, p. 81). Os objetos pensados para compor a brinquedoteca precisam, então, respeitar essa característica e serem potencializadores do brincar e não limitadores. Não é recomendado que a brinquedoteca seja composta ape- nas de brinquedos industrializados ou de espaços com atividades muito formalizadas, ela precisa ser um espa- ço para o exercício da partilha e da criatividade para as vivências infanto-juvenis. Um dos espaços onde mais temos brinquedotecas em nosso país é nas escolas. São espaços em que as crianças estão inseridas e nada mais propício que eles para propor- cionar ambientes visando fomentar o brincar. Entretanto, existem algumas características desse ambiente formal de educação que precisam ser problematizadas quando se objetiva o trabalho com a brinquedoteca. Segundo Montagnini (2014), ter brinquedotecas na escola é importante, mas merece uma reflexão se este seria o melhor espaço para essa ação educativa. A questão seria a superação da configuração das práticas pedagógicas escolares, por vezes opressoras e distantes da produção cultural infanto-juvenil, também no espa- ço da brinquedoteca. A pesquisadora afirma que, nesse sentido, “A política da brinquedoteca não deve ser uma reprodução da políti- ca de sala de aula” (MONTAGNINI, 2014, p. 96). Isto é, a brinquedoteca é um outro espaço, que deve se constituir com uma proposta metodológica diferenciada da propos- ta escolar hegemônica, caso pretenda avançar na sua pro- posta de se basear em ações criativas e coletivas. Montagnini (2014, p. 95) aponta que estando a brin- quedoteca no espaço escolar, nela deve estar contida a “[...] possibilidade de torná-la um ambiente propício à formação que incentiva a participação infantil junto ao exercício lúdico promovido por tal espaço”. Evidencia- mos, então, uma das características mais importantes das ações educativas na brinquedoteca, distanciando-se da caracterização escolarizante da brinquedoteca por estar ocupando esse ambiente. A autora, que pesquisou as crianças e a brinquedo- teca, nos mostra que as crianças, quando escutadas, têm a nos ensinar sobre o ideal para esse espaço, que para elas “[...] deve ocupar os espaços da cidade, acolhendo a todas as crianças. Quando lhes é atribuído o poder de gerenciaresse acolhimento às crianças, pensam nas necessidades de alimentação, atendimento médico, sos- sego para leitura e momentos em paz com as famílias” (MONTAGNINI, 2014, p. 108). Essas proposições da infância para a brinquedote- ca, trazidas pela pesquisadora, evidenciam que as crian- ças têm ideias e planos para esse espaço educativo que contemplam diferentes crianças e espaços e o direito ao brincar na brinquedoteca com dignidade. Partindo do princípio da participação infantil nesse am- biente, a brinquedoteca é um dos espaços que garantem um dos direitos mais importantes das crianças, o direito a brin- car. Não apenas de acesso ao brinquedo, mas um lugar pen- 124 sado para a criança desenvolver plenamente sua ludicidade individualmente, interagindo com outras crianças e adultos. No sentido de garantia do direito ao brincar na modernidade, diante da infância que vive nas cidades, a brinquedoteca tornou-se uma alternativa para estas questões de negação ao lúdico. Assim, na triste realidade de “[...] escassez de segurança, resta à criança o espaço da escola, por conseguinte a brinquedoteca, espaço pensa- do e projetado pelos adultos, para atender à necessidade dos adultos” (MONTAGNINI, 2014, p. 93). Essa centralidade nos objetivos e expectativas do adulto no ambiente da brinquedoteca precisam ser supe- rados quando pensamos sobre a constituição desse espa- ço. As normas e ações educativas ali presentes devem: [...] existir para que se possam garantir as liberda- des individuais e que também se tornam coletivas quando a liberdade de uma criança só é legítima se não agredir a liberdade de outra criança, que usufrui do mesmo espaço lúdico e tem o mesmo direito à liberdade de expressão. Os princípios da brinquedoteca explicitam os aspectos éticos, o desenvolvimento moral e a liberdade de brincar (MONTAGNINI, 2014, p. 100). Sendo assim, destacamos aqui a importância desse espaço educativo para o desenvolvimento da cul- tura lúdica a partir da relação com o brinquedo. A brinquedoteca, quando desenvolvida a partir de princípios educativos democráticos e de alto grau de participação infantil, pode ser um excelente po- tencializador do direito ao brincar infantil, um bom ambiente de formação profissional e de atuação de professores(as) que desenvolvem a linguagem dos jo- gos, brinquedos e brincadeiras. Os brinquedos e os espaços do brincar constituem a nossa trajetória enquanto profissionais que atuam di- retamente com crianças em movimento, a preocupação em atuar a favor do desenvolvimento integral das crian- ças nos faz considerar esses fatores como elementares para a nossa atuação profissional. Se apropriar desses conhecimentos teóricos e poste- riormente dos práticos, ampliará o nosso repertório de ação e intervenção em diferentes espaços, além de nos proporcionar um diferencial e uma atuação mais efetiva de melhor qualidade, seja ela na escola, no clube, num centro de treinamento etc. 125 atividades de estudo 1. O processo de fabricação dos brinquedos passou por diversas transforma- ções durante a história da humanidade. Quais são as consequências das mu- danças que ocorrem na fabricação dos brinquedos, por exemplo, os mate- riais utilizados? 2. Aprendemos, no decorrer desta unidade, que as crianças estão imersas e sendo bombardeadas por propagandas e mídias que induzem o consumo a todo momento. No que se refere ao conteúdo de Jogos, Brinquedos e Brin- cadeiras, qual deve ser a atitude e posicionamento do professor referente a essa realidade? 3. Existem inúmeras classificações a respeito do brinquedo na literatura da área. Um dos autores que propõem uma classificação é André Michelet, psicólogo Francês e um dos responsáveis pela coordenação do Sistema ICCP (Centro Nacional de Informação sobre o Brinquedo). Sobre as classificações desse autor, assinale a alternativa correta. a. Classificações filogenéticas ou históricas que analisam os brinquedos em função da evolução da humanidade, reproduzida pela criança em seus jo- gos em diversos períodos. b. Classificações etnológicas ou sociológicas que distribuem os brinquedos segundo diferentes aspectos e opções dos métodos educativos. c. Classificações filogenéticas ou históricas que se fundamentam na explica- ção do desenvolvimento da criança e em função das quais se estabelece uma hierarquia dos jogos. d. Classificações psicológicas que analisam os brinquedos em função da evo- lução da humanidade, reproduzida pela criança em seus jogos em diver- sos períodos. e. Classificações pedagógicas que analisam os brinquedos em função do pa- pel que lhes é atribuído (ou a classificação lhes é atribuída) nas diversas sociedades. Esp. Luana Biembengut Biato da Costa Oportunidades de aprendizagem vamos percorrer por diferentes contextos da infância, para compreender a ludicidade em várias situações, além de construirmos uma visão crítica sobre as diversas realidades de atuação a fim de reflexionarmos sobre o nosso papel. Iremos também conhecer algumas intervenções sistematizadas e ampliar nosso repertório por meio de alguns jogos e brincadeiras. Buscaremos, aqui, a ampliação de conhecimentos pertinentes à formação do(a) profissional(a) que trabalha com essa linguagem, visando a compreensão mais apurada da cultura lúdica infanto-juvenil. JOGOS, BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS: DIFERENTES INFÂNCIAS, CONTEXTOS E INTERVENÇÕES unidade V 128 Quantos tipos de infâncias - vivências - podem haver em uma só cidade? Como elas se configuram na área urbana ou na rural? No centro da cidade ou na periferia? Nos es- paços privados ou nos públicos? Em grupos ou solitárias? Nós podemos afirmar, quando já na fase adulta, que somos quem somos, entre vários fatores, um resumo de uma história de vida que passou por diferentes tempos, experiências e espaços, e que esses tiveram papel funda- mental nas nossas construções/características motoras, emocionais, cognitivas e sociais. Nesse contexto, falar do brincar é falar também do espaço onde se brinca, as nos- sas experiências lúdicas trazem marcas profundas dos locais nos quais essas vivências ocorreram, se foi na rua, na escola, no quintal, na praça, no sítio, na praia e por- que não lembrar das colônias e acampamentos de férias, clubes, associações etc. Me recordo com muita clareza da minha admiração pelos professores/recreadores que realizavam as brinca- deiras durante uma das minhas férias escolares em uma associação de funcionários, e como aqueles momentos enriqueceram a minha infância em muitos aspectos, em especial, o da socialização com outras crianças e as diversas experiências lúdicas corporais e criativas. Para compreendermos esse tipo de espaço do brincar, po- demos encontrar vários exemplos em todo território nacional, vamos ver um exemplo por meio do vídeo, a seguir, de uma colônia de férias do Sesc Sergipe. A valorização e o conhecimento dos diversos lo- cais nos quais o brincar acontece é essencial para o profissional que trabalha com a infância e a adoles- cência, e entre esses, devemos compreender as diver- sas possibilidades de espaços nos quais poderemos atuar com essa ferramenta que é o brincar enquan- to profissionais do campo da Educação Física. O li- vro Recreação Total, que tem como organizadores os professores e pesquisadores Awad e Pimentel (2019) apresenta em vários capítulos os diferentes espaços de intervenção do brincar, por exemplo, a escola, os condomínios, o hospital, as academias, os clubes, na natureza, nos acampamentos e hotéis. Nessa etapa dos nossos estudos sobre os jogos e as brincadeiras, podemos iniciar a construção do nosso repertório pessoal de atividades para intervenção em diferentes espaços. Essa construção deve ter por base as suas vivências de brincadeiras e jogos durante toda a sua trajetória até aqui. Faça uma visita ao seu passado lúdico e busque na memória todos os espaços que você brinca- va, desde a vizinhança, a escola, e até locais específicosdurante as férias, a fim de não deixar passar nenhuma brincadeira que possa a vir compor o seu repertório de trabalho. Você deve também inserir nesse levantamento, jogos e brincadeiras aprendidos atualmente por meio das suas leituras, pesquisas e das aulas na graduação. É hora de estruturar e registrar o seu primeiro repertório de jogos e brincadeiras como futu- ro profissional da Educação Física. Vamos lá? Registre: o nome da brincadeira; o número mínimo e máximo de participantes para que a brincadeira seja pos- sível de ser realizada; no item no qual se brinca podem ser registradas as diferentes possibilidades como escola, campo, quadra, pátio, salão, quintal, rua, colônia de fé- rias, acampamento de férias, empresa, academia, piscina, gramado etc,; e finalmente em materiais, faça uma breve relação de materiais essenciais para que essa atividade aconteça ou mesmo registre “nenhum material” quando a sua atividade não necessitar de equipamentos. 129 EDUCAÇÃO FÍSICA Nome da Brincadeira nº mínimo de participantes nº máximo de participantes Onde se pode brincar Materiais necessários Quanto mais experiências e quanto mais afinidade com o tema brincar, maior é o nosso repertório inicial. Esse repertório não acaba aqui, pelo contrário, se inicia. O momento da graduação é o princípio da construção de uma jornada profissional que será sempre mais rica na medida que nos colocarmos no lugar da criança que deseja brincar. Como foi para você buscar na memória os seus momentos de brincadeira na infância? Acredito que você tenha se envolvido num sentimento de alegria e de saudade, não foi?!. Pois bem, esses sentimentos de- vem nos mover ao longo de cada etapa da nossa vida profissional, durante cada planejamento de intervenção. Trabalhar com os jogos e as brincadeiras com qualquer faixa etária, é estimular nas pessoas os sentimentos de prazer, liberdade etc. Ao longo de toda a nossa trajetória de estudo na disciplina de Jogos, Brinquedos e Brincadeiras podemos compreender a importância de se conhecer e valorizar a cultura local e da criança, e que cada infância traz suas próprias marcas referentes ao lugar que se vive, a cultura local, aos costumes, ao nível de segurança ou falta dela, ao acesso à educação e em que condições ela acontece, estrutura familiar etc. Todos são aspectos que vão im- pactar a formação dessa criança e vão nos direcionar en- quanto profissionais que devem compreender da forma mais abrangente possível o seu próprio local de trabalho. Então antes de adentrarmos mais aos conteúdos do repertório, vamos ampliar ainda mais nossa visão sobre diferentes infâncias e seus contextos. Nesta etapa de nos- so estudo, caro(a) aluno(a), iremos retratar uma parte do imenso universo que se pode encontrar na relação entre as configurações de infância e cultura lúdica infanto-ju- venil. O brincar e o jogar não se encerram em uma expe- riência fechada e determinada, são múltiplos, mutáveis e sua riqueza está nessa diversidade de expressões. Essa proposta de estudo parte do princípio que os jogos, brinquedos e brincadeiras são produções cultu- rais, frutos dos vários determinantes citados anterior- 130 mente, como os fatores sociais, culturais, geográficos, econômicos e históricos. Podemos aprender muito so- bre os diferentes grupos sociais a partir da convivência com seu brincar. Assim, essa aprendizagem nos instru- mentaliza como professores(as) e profissionais para atuar com essa linguagem, ela torna-se um fundamento do qual devemos nos aproximar para desenvolvermos nossa ação educativa. Para alcançarmos o objetivo de tratar das diferentes infâncias e seu brincar, utilizaremos como base quatro produções brasileiras sobre o brincar em realidades di- versas. Todos os livros selecionados para esta nossa con- tação fogem da lógica de caracterizar os grupos sociais apenas por dados estatísticos ou oficiais dos locais e das crianças e avançam para uma análise das características culturais e das contradições e belezas de cada ambiente ou grupo social pesquisado. Estas produções são: o livro Trama doce-amarga: (exploração do) trabalho infantil e cultura lúdica de Mau- rício Roberto da Silva, lançado em 2003; o livro Brincar, brinquedos e brincadeiras: modos de ser criança nos pa- íses de língua oficial portuguesa, de 2014, organizado por Catarina Tomás e Natália Fernandes; o mais recente, lan- çado em 2017, Crianças em Fronteiras: histórias, culturas e direitos, organizado por Verônica Regina Müller; e por último, o livro Jogos e brincadeiras tempos, espaços e di- versidade (Pesquisa em Educação), de 2016, organizado por Tizuko Morchida Kishimoto e Maria Walburga dos Santos. Vamos conhecer mais sobre o mundo do brincar? O livro Trama doce-amarga: (exploração do) tra- balho infantil e cultura lúdica, segundo Demartini et al. (2003, p. 7), trata da criança “[...] sujeita à exploração pelo capital, no trabalho, a que tem o lúdico subsumido de sua vida cotidiana [...] a preocupação é com esse pro- cesso sonegador/ limitador do tempo livre para o lúdico”. Um livro que nos ensina sobre os meandros do cruel cotidiano de crianças trabalhadoras dos canaviais de 131 EDUCAÇÃO FÍSICA Pernambuco, no Brasil e, especialmente, da constituição de sua cultura lúdica como espaço de resistência. No ce- nário do trabalho inserido na lógica neoliberal, temos, entre outras mazelas, o trabalho infantil, que é a: [...] inclusão precoce e criminosa de crianças no mercado de trabalho, especialmente nos países de industrialização intermediária e subordinada, como por exemplo, nos países asiáticos, latino americanos e outros, onde se vem deteriorando prematuramente a força humana de trabalho das crianças e jovens, me- diante a exploração invisível do trabalho e da infor- malidade do mundo do trabalho (SILVA, 2003, p. 25). Esse contexto nos apresenta as diferentes infâncias, que te- mos na sociedade e o criminoso contexto a que muitas estão submetidas. Em consequência, temos diversas conforma- ções dessa categoria geracional e como afirmamos, ante- riormente, que resultam em produções culturais múltiplas, e não temos, então, uma única infância e um único brincar. Silva (2003) aponta que todas as formas de explo- ração do trabalho infantil podem prejudicar a vivência da cultura lúdica e, também, o direito à escolarização da criança e do adolescente, resultando em problemas de constituição identitária. Essa realidade de exploração do trabalho pode ser entendida como um tempo furtado de chances e sonhos arruinados “[...] que impõe às crianças possíveis sequelas nutricionais (envelhecimento pre- coce, desnutrição), cognitivas, psicossociais e culturais, comprometendo de maneira marcante o presente e o futuro das gerações” (SILVA, 2003, p. 28). Para Silva (2003), a exploração do trabalho infantil, além do furto do lúdico na vida dessas crianças e ado- lescentes, promove um degradante processo de roubo do tempo de “[...] usufruto da cultura lúdica, a escola- rização e a sociabilidade, como possibilidade de forta- lecimento das relações sociais lúdicas infantis” (SILVA, 2003, p. 209). Portanto, a exploração do trabalho infantil promove diversos procedimentos de alienação na vida das crianças que trabalham na produção de cana. Sobre a ludicidade, o autor afirma que estes momen- tos de brincadeira entre as crianças e os adolescentes tra- balhadores não podem ser vistos como diversão, entre- tenimento ou possibilidade de afastar o sentimento de tédio, e sim como uma postura de resistência em meio a um ambiente de tanto sofrimento e injustiça. A sociedade que se anuncia por meio do brincar nes- ses terrenos adversos, baseia-se em valores lúdicos, tais como: a lentidão e a preguiça como virtude, em detri- mento da aceleração para a acumulação de capital; a liberdade; a criatividade; a gratuidade; a fantasia; o faz de conta e outros valores estéticos (SILVA, 2003, p. 29). Em toda essa cultura lúdica, constituídano contexto investigado por Silva (2003), configuram-se diferentes possibilidades para essas manifestações culturais do brincar e jogar, que buscam a ruptura e a posição de re- sistência frente aos ditames da desigualdade social ine- rentes à realidade investigada. O pesquisador elabora uma forte e contundente crí- tica ao capital e aos programas assistencialistas e paliati- vos diante da exploração do trabalho infantil, trazendo o contexto dessa degradação humana na região do açúcar da Zona da Mata Pernambucana. Para estudar essa re- alidade, Silva (2003, p. 59) recorre ao diálogo junto às crianças e nesta convivência brincam, jogam, leem e es- cutam histórias, cantam, realizam paródias e conversam sobre o lazer “[...] dos adultos, sobre o folclore e a cultura naqueles rincões”, estabelecendo-se uma relação profun- da entre o pesquisador e as crianças. No livro, o lúdico é tomado em seu potencial de ex- pressão de subversão frente às imposições cruéis da socie- dade capitalista, e a infância é compreendida “[...] a partir de horizontes emancipatórios, que leva em conta os direitos das crianças, a partir da produção cultural que elaboram, 132 ensejando intervir ativamente no processo sociocultural e político de construção de cidadanias” (SILVA, 2003, p. 184). Assim, nessa produção, a cultura lúdica infantil nos é apresentada com sua premissa alinhada à participação social de crianças e adolescentes em direção à potencialização de sua identidade. O lúdico entendido como expressão crítica é apresentado como uma lógica que não corresponde às ca- racterísticas predominantes na atualidade que são orientadas pelo consumo, individualidade, volatilidade e exploração. O brincar das crianças canavieiras, nessa lógica per- versa de inserção precoce no trabalho, ocorre também nas pequenas oportunidades que esta dinâmica permi- te. O autor traz, ainda, outros exemplos de estudos com crianças que têm uma vida dura e injusta e que têm na expressão das brincadeiras e jogos uma forma de resis- tência à vida a qual são submetidas. A degradante realidade das crianças trabalhadoras brincando em meio aos canaviais, segundo Silva (2003, p. 221), explícita aos que conhecem este contexto que: [...] o contraditório de tudo isso é que essas crian- ças arranjem forças e elementos em meio à dor, ao constrangimento do trabalho forçado e ao des- potismo dos patrões, mediante a manifestação da alegria e do prazer do jogo como instrumentos de luta. De posse desses artifícios, entre os liames da resistência e do conformismo, as crianças manifes- tam seus impulsos lúdicos nas brechas que permi- tem o gozo de uma liberdade ainda que passageira. Esta capacidade de resistir das crianças e adolescentes trabalhadores e o jogo presente entre a necessidade de brincar e a obrigação imposta no trabalho compõem o cotidiano dessas infâncias. Este contexto impiedoso configura-se como uma realidade atroz que necessita de uma profunda reestruturação social, ainda mais se tomarmos como parâmetro o avanço nas discussões e leis que foram elaboradas no século XX sobre o direito infanto-juvenil, como também sobre o brincar. A restrição aos direitos básicos dessas crianças tam- bém resvala no escasso lazer que têm à disposição na re- gião canavieira. A região pesquisada carece de parques, praças e centros culturais, e o autor aponta também a dificuldade de transporte e deslocamento da população rural como fatores que impedem vivências amplas de la- zer, haja vista que as atividades de lazer se concentram, cada vez mais, nas grandes cidades, atreladas ao lazer- -consumo. Silva (2003) também aponta diversos fatores que compõem o cenário de diferenciação entre o brin- car de meninas - que desde novas têm mais tarefas no âmbito doméstico -, e de meninos canavieiros. Sobre os brinquedos, o brincar e o consumo, Silva (2003) nos relata que via nas crianças canavieiras - im- pedidas de adquirir os brinquedos industrializados e que são expostos na mídia - um potencial criativo e de ressignificação desenvolvido em relação ao improviso dos brinquedos e do brincar, e nisto analisou algum viés Existem movimentos nacionais e interna- cionais que buscam o fim do trabalho in- fantil, e nesse vídeo da Fundação Abrinq somos convidados a conhecer a história de João, um menino de apenas 9 anos que passa todas as tardes trabalhando na roça. No final do dia, cansado, não consegue se dedicar aos estudos. Assim como João, milhões de crianças e adolescentes estão em situação de trabalho infantil. Materiais como esses buscam informar e fortalecer o combate ao trabalho infantil. Vamos assistir! https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13639 133 EDUCAÇÃO FÍSICA positivo na composição de sua cultura lúdica. Identifi- cou, também, que os pais das crianças trabalhadoras desejavam implicitamente que seus filhos tivessem aces- so aos brinquedos industrializados, apresentando mais uma contradição inerente a essa realidade. Nos engenhos, Silva (2003, p. 258) encontrou como brinquedo mais comum entre as crianças réplicas de ca- minhões que elas conheciam: os que transportam cana. Os adultos contaram mais sobre seus brinquedos e brin- cadeiras de infância - “[...] foguete, flecha e ioiô, improvi- sados com a palha e nós da cana”. A pesquisa desenvol- vida mostrou que, “[...] apesar da miséria em que vivem, possuem humor, fazem festa, brincam de roda, inventam histórias, causos e jogos, talvez para reinventar essa vida cotidiana tão cruel, opressiva e vilipendiada, mas também vivida com luta, desejo e utopia” (SILVA, 2003, p. 258). Configura-se um contexto em que se desenvolvem, especialmente, jogos e brincadeiras tradicionais, produ- ção cultural da humanidade que existe e resiste na vida das crianças canavieiras. Assim, com diversas posições de contraposição a essa realidade, como a elucidada por Silva (2003), no brincar das crianças, a população luta por uma vida digna, lutam para a conquista de um tempo livre. Essas análises a respeito do enfrentamento da vida cotidiana e do potencial lúdico nessas relações, não ex- cluem e nem pormenorizam, caro(a) aluno(a), o fato de que esta é uma realidade desumana e que o trabalho infantil leva à consequências cruéis, como o envelheci- mento precoce. As crianças exploradas no trabalho que foram entrevistadas são submetidas a vastas horas de trabalho em seu cotidiano, e contam sobre “[...] acordar muito cedo e renunciar ou diminuir o tempo destinado às brincadeiras, o tempo para que o corpo pudesse com plenitude e sem pressão entregar-se as conjecturas lúdi- cas” (SILVA, 2003, p. 295), delineando-se que brincavam, jogavam, cantavam e liam histórias, apesar de todo so- frimento a que eram expostas, confirmando a análise do pesquisador da cultura lúdica como ponto e movimento de resistência destes corpos infanto-juvenis. Contarmos sobre essa infância canavieira, objetivando evidenciar as diferentes infâncias e o potencial da dimen- são lúdica em suas vidas, revela que “[...] apesar de suas insistentes e comoventes resistências lúdicas, de que são crianças privadas de suas infâncias, assim como os jovens são cerceados de suas juventudes” (SILVA, 2003, p. 295). O autor evidencia ainda que a questão da exploração do trabalho infantil está atrelada ao modo de produção ca- pitalista e que sua extinção não seria possível dentro dessa forma de organização social. A resistência que as crianças apresentaram no brincar é uma questão de sobrevivência, que desde pequenas são obrigadas a lutar para obter. [...] o furto do lúdico atinge as crianças indepen- dente de classes sociais, gênero e cultura. Assim, todo este processo é resultante do fato de que a sociedade burguesa instrumentaliza a cultura, priorizando a sua faceta produtiva e sua mani- festação apenas como produto. Dessa maneira, a criança é desvalorizada, pois não é vista como sujeito das relações sociais e produtora de uma cultura infantil, mas como mera consumidorados produtos da Indústria Cultural. [...] é preciso mais uma vez ressaltar que a morte do lúdico não sig- nifica a morte do sujeito, considerando que este, provavelmente, procurará sempre ressignificar o tempo e o espaço para a vivência da cultura lú- dica em qualquer circunstância em que estejam envolvidos. Quanto a isso basta ver as crianças brincando em espaços hostis, por exemplo, nas favelas com esgotos a céu aberto. Fonte: Silva (2003, p. 206–207). 134 Diante da ampla diversidade de vivências do brincar e de suas múltiplas influências na constituição da cultura, va- mos agora, prezado(a) aluno(a), aprender sobre o brin- car de algumas crianças de países que falam oficialmente a língua portuguesa. O conteúdo organizado por Tomás e Fernandes (2014) no livro Brincar, brinquedos e brin- cadeiras: modos de ser criança nos países de língua ofi- cial portuguesa, desvela categorias sobre o brincar que aproximam e também distanciam essas culturas unidas pela língua oficial de seus países e sobre a compreensão da centralidade do brincar na vida das crianças. Vamos elucidar algumas características do brincar das crianças do Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Mo- çambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, que são países que falam a língua portuguesa. Além da língua, o princípio que uniu os pesquisadores da infân- cia que estudaram o brincar dessas crianças foi a convic- ção de que elas “[...] têm formas próprias de interpretar o mundo, de agir, de pensar e de sentir, nas quais o brincar assume uma centralidade inquestionável, ainda que pos- sa adotar diferentes facetas decorrentes das ‘latitudes’ em que ocorre” (TOMÁS; FERNANDES, 2014, p. 13). Essa obra, estimado(a) aluno(a), está orientada por um princípio que é muito caro para compreendermos o mundo em sua diversidade, na valorização dessa am- plitude de experiências: o princípio da Epistemologia do Sul, desenvolvido pelo sociólogo português Boaventura de Souza Santos, que propõe a superação do modelo he- gemônico de visão de mundo que tem o norte do globo terrestre como referência, evidenciando assim que: [...] a experiência social em todo o mundo é mui- to mais ampla e variada do que o que a tradição científica ou filosófica ocidental conhece e consi- dera importante. [...] esta riqueza social está sendo desperdiçada. É deste desperdício que se nutrem as ideias que proclamam que não há alternativa, que a história chegou ao fim e outras semelhantes. [...] para combater o desperdício da experiência para tornar visíveis as iniciativas e os movimentos alter- nativos e para lhes dar credibilidade, de pouco ser- ve recorrer à ciência social (SANTOS, 2010, p. 94). Essa busca por desvelar e conhecer outras experiências, no caso dessas obras que estamos estudando, coaduna com o princípio de estudarmos outras vivências e nuan- ces do brincar e do jogar, como no que debatemos no li- vro de Silva (2003), tratando do potencial de resistência da cultura lúdica das crianças exploradas no trabalho. O livro de Tomás e Fernandes (2014, p. 13), sobre as crianças que falam a língua portuguesa, busca su- perar a tendência hegemônica “[...] de olhar as crian- ças do Sul, a partir de temáticas constantes, como a exclusão e a vulnerabilidade”. Assim, a partir do prin- cípio da Epistemologia do Sul, as autoras pretendem ampliar o conhecimento e contribuir para a supe- ração de estereótipos analíticos sobre as crianças e adolescentes dos países periféricos e semiperiféricos, objetivando que todos possam aprender mais sobre o brincar das crianças de alguns países que falam ofi- cialmente a língua portuguesa. O brincar toma centralidade nessa obra, pois a lu- dicidade é imprescindível na vida das crianças - assim como sua análise -, pois se pretendemos compreender a cultura infantil, temos que “[...] brincar é uma atividade sociocultural muito importante para as crianças e é nu- clear para a (re) construção das suas relações sociais e das formas individuais e coletivas que lhes possibilita inter- pretar o mundo” (TOMÁS; FERNANDES, 2014, p. 15). Vamos, aqui, elucidar as principais considerações construídas pelos pesquisadores que se dedicaram a refletir sobre o brincar nesses países, nos afastando da pretensão de empregar a complexidade analítica de cada produção que compõe o livro. Buscaremos, assim, pin- celar a riqueza lúdica de cada um dos países que falam oficialmente a língua portuguesa. 135 EDUCAÇÃO FÍSICA Sobre o Brasil, Morelli et al. (2014) ressalta que devido à imensa dimensão geográfica do país e à diversidade de populações que formam uma grande combinação cultu- ral, há uma amplitude da cultura lúdica de nosso país. “A forma, o conteúdo, o lugar e o tempo de brincar de cada cultura dentro do território brasileiro, são por um lado muito próprios e por outro, mostram o híbrido entre o que era antes e o que foi assimilado nas inter-relações ét- nicas e culturais em geral” (MORELLI et al., 2014, p. 27). Assim, os autores não têm a pretensão de represen- tar a realidade brasileira, mas sim evidenciar experiên- cias localizadas sobre o brincar das crianças brasileiras. Em um resgate histórico, a partir dos anos 1960, de uma cidade pequena, evidenciam um brincar com muita disponibilidade de espaço, variadas brincadeiras e pou- co acesso aos brinquedos e quando há, na maioria das vezes, são brinquedos artesanais. Contudo, em um con- texto do fim dos anos 1990, com crianças pobres, encon- traram uma cultura infantil construída sem acesso aos brinquedos, em meio às violências constantes em um bairro extremamente inseguro. Esse recorte, com um viés para o brincar localizado dessa infância brasileira, desvela a necessidade do brincar como direito garantido. Sobre Cabo Verde, Elias e Lima (2014) apontam que o maior problema desse arquipélago é a desigualdade social. Dentre as inúmeras consequências desse contex- to explicitadas no texto, ressaltamos as diferenças entre as infâncias e culturas lúdicas dentro do país, atreladas às desiguais condições socioeconômicas, e os fatores im- plicados no processo de globalização às quais são sub- metidas as crianças cabo-verdianas. A compreensão que se tem nesse contexto é de uma criança “[...] situada dentro de uma cultura específica re- sultante de influências africanas e europeias – heranças coloniais, como também norte-americana e brasileira via produtos de consumo tais como filmes infantis e te- lenovelas” (ELIAS; LIMA, 2014, p. 56). Uma infância que tem sua cultura lúdica constituída nesse contexto de diversidade de influências mediada pelo contexto da desigualdade. As crianças cabo-verdianas que vivem em meio a pobreza têm, na rua, um espaço para o brincar, apesar da violência a que são expostas; por outro lado, as crianças que têm maior poder aquisitivo; brincam ou em espaços privados ou em ambientes públicos e são mais cuidadas pelos pais. Existe no país, para as crianças mais ricas, a possibilidade de pagar para vivenciar experiências lúdi- cas com uma tendência a mercantilizar essas relações. Sobre a escola das crianças cabo-verdianas, os autores afirmam que: Não se encontram preparadas pedagogicamente de forma a utilizarem as brincadeiras no processo de aprendizagem, uma vez que os professores pre- ocupam-se mais em ensinar o ler e escrever do que promover o lúdico, mesmo em períodos destina- dos a tal. O fato do sistema escolar ser demasiado formal, contribui para a desvalorização da cultu- ra da infância, o que limita a criatividade infantil (ELIAS; LIMA, 2014, p. 67). Assim, esse olhar sobre o brincar das crianças cabo-ver- dianas teve seu viés analítico baseado nas consequências das desigualdades sociais e efeitos da globalização sobre a cultura lúdica infantil no país. Outro país incluído no livro foi Guiné-Bissau. Sobre o contexto desse país, Otinta (2014) aponta que necessi- ta de muitos avanços nos índices da educação oferecida para as crianças e maior atenção aos níveis de mortali-dade infantil do país. Considerando que a brincadeira na vida da criança é essencial e constrói suas relações com o mundo, destaca-se, nessa cultura, um ditado: “Como se diz no kriol Bissau-guineense: mininu ku sibi brinka i ta sibi tchiu sempre. Isto quer dizer que é a brincar que mininu aprende o que mais ninguém lhe pode ensinar” (OTINTA, 2014, p. 81). 136 Nessa análise é destacada a essência do brincar na infância elencada na ludicidade, criatividade, ensino e aprendizagem. No brincar da infância do país, Otinta (2014) afirma que a mininesa tem diversos mecanismos para perpetuar o brincar e ampliar sua cultura lúdica, buscando sempre renová-lo e reinventá-lo. Sobre o brincar em Moçambique, Colonna e Antó- nio (2014) afirmam que este acontece muito frequente- mente no espaço público, na rua, muito em função das altas temperaturas. Com os olhares voltados para o es- paço periférico da cidade de Maputo, constatam que as brincadeiras são entre as crianças e, em geral, sem brin- quedos. Afirmam que a constante atenção dada à divul- gação dos problemas sociais do país, que são sem dúvida urgentes, muitas vezes encobrem a possibilidade funda- mental de olhar outros elementos da cultura, como, por exemplo, a brincadeira, destacada no texto. Além do brincar, os pesquisadores também observa- ram, no cotidiano das crianças, o tempo dividido entre a escola e os trabalhos domésticos e, assim, brincam no entremeio e durante essas tarefas. Relatam também que nessa realidade não existem construções próprias, como praças para o brincar e jogar infanto-juvenil; então, apro- priam-se dos espaços disponíveis. As crianças apresen- tam em seu dia a dia desde pequeninas um alto grau: [...] de autonomia e liberdade, o que faz com que os seus momentos lúdicos se desenvolvam principal- mente fora da supervisão e do controle dos adul- tos. Esta ausência dos adultos é contrabalanceada por uma presença significativa de outras crianças, sendo que as meninas e meninos das periferias de Maputo brincam quase sempre em grupos, que po- dem ser mais ou menos numerosos (COLONNA; ANTÓNIO, 2014, p. 103). Nesse ambiente, apesar de prevalecerem as brincadeiras, jogos e brinquedos tradicionais, as crianças e adoles- centes mostraram-se abertas e dispostas a inovações no desenvolvimento de suas brincadeiras, englobando ele- mentos que têm acesso, por exemplo, na televisão. A respeito do brincar em Portugal, Silva (2014) ana- lisa esse brincar no tempo, destacando a mudança da ro- tina das crianças portuguesas e a diminuição do tempo livre dessa população durante décadas. Para a realização dessa análise, o autor dedica-se a estudar quatro gera- ções de dez famílias a respeito de seu brincar. O cenário português revela a transformação da vida das crianças, no qual parte de um cotidiano: [...] muito igual (escola uma parte do dia e o para ser vivido informalmente, entremeado pela catequese e ou os escuteiros ao fim de semana e o tempo de apro- visionamento pessoal), as duas décadas que findam e iniciam a recente passagem de milênio conhecem a paulatina cassação do tempo verdadeiramente livre das crianças à mercê de uma saga institucionalizada [...] ditada por condicionamentos de ordem familiar, pela gestão de expectativas escolares e consequente alargamento da oferta de serviços públicos potencia- dos, uns, e empurrados, outros, por e para essa nova realidade emergente (SILVA, 2014, p. 108). Assim, sobre a cultura lúdica infantil portuguesa no desenvolvimento do tempo, revelou um período em que as crianças já tiveram mais autonomia em seu co- tidiano e no seu brincar, tendo mais comando do seu tempo e do espaço para isso. Na atualidade, revelam uma intensa vigilância e institucionalização do brincar em sua dimensão temporal e espacial, e uma paulatina ausência das manifestações de brincadeiras e brinque- dos tradicionais (SILVA, 2014). Em São Tomé e Príncipe, a pesquisa foi ampla, com crianças das comunidades urbanas, periféricas e rurais, contemplando cerca de 800 crianças das duas ilhas. O cenário de pobreza atinge, especialmente, as crianças e adolescentes, pois eles representam mais da metade da população do país. 137 EDUCAÇÃO FÍSICA As brincadeiras das crianças santomenses foram ca- racterizadas por ocorrer antes e depois do tempo escolar e, frequentemente, nos deslocamentos e também du- rante o tempo escolar. Crianças também brincam entre e durante as tarefas domésticas, como deveres pessoais do cotidiano, por exemplo “[...] as meninas fazem bobô mina (ato de levar o bebê nas costas com o auxílio de um pano, muito usual nos países africanos) com as bonecas quando vão lavar roupa” (BARRA, 2014, p. 139). Sobre os espaços, as crianças brincam na escola e também nos espaços públicos. Apresentam brincadei- ras vigorosas fisicamente e gostam muito de jogar, es- pecialmente bola, e de brincadeiras de faz de conta. Os brinquedos estão presentes, mas não de forma central ou contundente para o brincar, sendo alguns industriali- zados - os mais comuns, como bicicletas, bolas, bonecas - ou construídos pelas crianças. No Timor Leste, Oliveira et al. (2014) desvelam a cultura lúdica timorense a partir do estudo das memó- rias das brincadeiras no ambiente escolar. O Timor-Les- te é um país que se tornou independente em 1999 e que tem a população jovem em sua maioria, um alto grau de analfabetismo adulto e uma característica multilinguís- tica, a última por influenciar no processo educacional, pois os professores precisam dominar diversas línguas. A respeito do brincar, devido ao pouco acesso aos brinquedos industrializados, predominam os brinque- dos produzidos e criados pelas crianças timorenses. Des- taca-se, também, a transmissão de diversas brincadeiras entre as crianças e adultos preservados pela tradição oral do local. Os autores ainda apresentam um repertório de brincadeiras características, do país preservado pela cul- tura local em meio ao intenso contato que tiveram com diversas outras culturas, que também influenciaram a composição da cultura lúdica. Todo esse contexto apresentado no livro organizado por Tomás e Fernandes (2014) traz à tona o valor da brin- cadeira, jogos e brinquedos na cultura infantil e na cons- tituição da identidade de tantos países. A cultura lúdica permeada pela diversidade de características fica explícita nessa obra, como um direito infanto-juvenil fundamental. Vamos, agora, nos aventurar por outro olhar sobre a infância e a cultura lúdica e a vida nas fronteiras entre países, que é o foco do livro Crianças em Fronteiras: his- tórias, culturas e direitos, organizado por Verônica Regi- na Müller (2017). Vamos tratar do Chile na fronteira da Cordilheira dos Andes, na região do Maule, e do Brasil e Paraguai na região fronteiriça entre as cidades de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. A obra busca caracterizar a infância distanciando-se da lógica de que são, em geral, “[...] mostradas caracterís- ticas estáticas, inteiras, inflexíveis, localizadas em um e somente um lugar físico ou subjetivo” (MÜLLER, 2017, p. 17). Partindo dessa possibilidade de expandir o olhar sobre a infância, a obra busca elucidar “[...] diferentes la- titudes e longitudes para a ampliação da navegação nas infâncias do mundo” (MÜLLER, 2017, p. 17). Sobre a região de fronteira do Chile, Torres e Lara (2017) trazem relatos sobre a infância em escolas de fronteira na Cordilheira dos Andes, na região do Maule, consideradas escolas rurais. A cultura lúdi- ca nesse contexto escolar evidencia que ela é muito influenciada pelas condições naturais do ambiente, cercado pelo perigo iminente da erupção do vulcão e por períodos intensos de neve, neblina e fortíssimos ventos; assim, o brincar adapta-se e acomoda-se nessa intensa realidade natural. O brincar e jogar nesse contexto foram retratados com ausência de materiais desportivos e as crianças brincam com os elementos da natureza disponíveis, por exemplo: pedaços de madeirae materiais recicláveis, interagindo fortemente com a natureza local. Em seu tempo livre costumam observar a natureza, pássaros e correm e brincam entre eles. 138 Nessa realidade, “[...] a criatividade e imaginação resultam ser os principais recursos para as atividades de recreação, aproveitando tudo que lhes oferece a natureza e os recursos de resíduos” (TORRES; LARA, 2017, p. 34, tradução minha). As crianças acabam tendo uma proximidade com a natureza e uma relação positiva e harmoniosa com esse contexto educativo. No livro também é relatado sobre o brincar das crian- ças moradoras na fronteira entre Brasil, na cidade de Pon- ta Porã, e Paraguai, na cidade de Pedro Juan Caballero. Os autores nos contam sobre esse aspecto cultural, especial- mente, a partir das especificidades de uma região frontei- riça e a da inserção das crianças paraguaias nas escolas brasileiras e seu brincar (NUNES et al., 2017). Os autores partem do entendimento de que as fron- teiras podem ser compreendidas como estabelecimento de limites entre culturas, e estas não são contínuas e li- neares. Assim, as fronteiras têm a possibilidade de “[...] proporcionar elos de integração, de forma concomitante podem circunscrever ou produzir segregação na distri- buição de populações ou de atividades dentro das socie- dades” (NUNES et al., 2017, p. 111). No contexto escolar, é possível observar essas carac- terísticas das fronteiras não só quando as crianças brin- cam e cantam em guarani, mas também relatam brinca- deiras paraguaias, realizadas na língua portuguesa, por exemplo, Voté, em português é pé na lata, e Kañy, escon- de-esconde. As brincadeiras no recreio foram identifica- das, nessa escola de fronteira, com predominância das brincadeiras e jogos da cultura brasileira. Apesar de fre- quentarem essa escola um número maior de crianças pa- raguaias, é a cultura brasileira que predomina no espaço. As crianças paraguaias saem de seu território para estudar em escolas brasileiras, buscando mais quali- dade no ensino, e foi constatado que a maioria das(os) professoras(es) não fala guarani. Os pesquisadores não acharam que encontrariam um cenário em que as crianças paraguaias “[...] brincavam tão somente com brincadeiras brasileiras. Compreendemos dessa ma- neira, que elas ficam destituídas de liberdade de expres- são enquanto cidadãs de um espaço transfronteiriço” (NUNES et al., 2017, p. 118). Afinal, a brincadeira como expressão da cultura des- vela as relações estabelecidas no cotidiano das crianças paraguaias que estudam no Brasil e precisa ser valoriza- da e vivenciada nesse espaço em que elas estão inseridas. No livro Jogos e Brincadeiras: tempos, espaços e di- versidade, organizado por Tizuko Morchida Kishimoto e Maria Walburga dos Santos, temos a oportunidade de conhecer algumas pesquisas na área da educação com diferentes temáticas, contextos e culturas. E trazemos como contribuição para os nossos estudos a pesqui- sa sobre o brincar no quilombo intitulada “Felicidade Guerreira: brincar no quilombo’’, que é uma adaptação da tese de doutorado da Maria Walburga dos Santos sob orientação da professora Kishimoto. O texto é construído a partir de um breve histórico dos Quilombos no Brasil e traz dados sobre a constituição desses na contemporaneidade. Santos (2016) traz que os quilombos “são coletivos espalhados em todo o territó- rio brasileiro, majoritariamente composto por população negra” e que esses grupos surgiram não só no Brasil, mas por toda América, como forma de resistência, organiza- ção social, preservação da cultura africana em busca da dignidade humana e liberdade (SANTOS, 2016). A pesquisa foi realizada na comunidade quilombo- la de Bombas, e um dado relevante é que para se che- gar a comunidade pode levar até 6 horas de caminhada por trilhas, nos ilustrando um pouco da realidade que pode ser positivo no aspecto da preservação cultural e, em contrapartida, como aspecto negativo em relação a escassez e dificuldade de acesso aos bens, espaços e ser- viços que todo cidadão tem direito. 139 EDUCAÇÃO FÍSICA entre o que ocorre no interior da comunidade e com o mundo que a cerca. (SANTOS, 2016, p. 50) Durante o estudo foram identificados e categori- zados quatro grupos sendo eles: - os jogos e as brinca- deiras; os brinquedos; as situações lúdicas - os diverti- mentos; e as narrativas. E Santos (2016, p. 51) com base nos autores da sua pesquisa entende que “o brincar não é involuntário ou natural, mas prerrogativa das relações de convívio, de grupos” e que o brincar da criança tem relação direta com o papel do adulto e de outras crianças em inseri-la nesse universo (SANTOS, 2016). A autora apresenta por meio de três quadros as ca- tegorias, e cada uma delas traz a Tipologia que se refere ao nome dado a brincadeira; a Ocorrência Temporal e Espacial que se refere quando e onde eram vivencia- das, utilizando o ontem para indicar o início do século XX até os anos 80 e o hoje para as brincadeiras ainda presentes na comunidade; os sujeitos que brincam; e observações sobre as atividades. No quadro referente à categoria jogos e brincadei- ras foram relacionados um total de 47 jogos e brinca- deiras, entre elas: Nessa pesquisa de campo foi realizado um estudo etno- gráfico, foi identificado que: (...) jogos e brincadeiras peculiares, que dialogam com o tempo e o espaço que ocupam na atualidade, apontando um processo de resistência cultural, expres- sa no cotidiano, contando com acervo de ordem con- temporânea que realiza interface com a ancestralidade do grupo e as muitas relações estabelecidas no trânsito Podemos encontrar no site Quilombos do Ribeira mais informações sobre a comunidade e os projetos ali desenvol- vidos. O acesso à comunidade de Bombas, uma trilha que corta morros cobertos de Mata Atlântica, fica no Km 6 da Rodovia Antonio Ho- nório da Silva, mais conhecida como Estrada Iporanga/Apiaí, no município de Iporanga-SP. Dividida em dois núcleos, Bombas de Baixo fica a 5 km da Estrada e Bombas de Cima a 10 km. Vivem em Bombas 21 famílias, em um total de 90 pessoas. A grande maioria só estuda até a 4ª. Série do ensino fundamental, disponível na comunidade. Para continuar os estudos é preciso se deslocar o Bairro da Serra ou a área urbana de Iporanga, só viável se ficar em casa de conhecidos, já que não é possível se des- locar todos os dias. Por isso, apenas uma pe- quena parte terminou o ensino fundamental. As pessoas dão um grande valor à educação e aproveitam a escola existente na comunidade, tanto que só há analfabetos entre as pessoas com mais de 50 anos. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13640 140 TIPOLOGIA OCORRÊNCIA TEMPORAL E ESPACIAL SUJEITOS OBSERVAÇÕES A Mãe Ontem e hoje. Terreiro das casas. Jogo de pegador. Jovens e crianças. Tipo de “pega-pega” que pode ocorrer tanto em solo como nas árvores. Bandeirinha (Pique-bandeira) Ontem e hoje. Terreiro das casas e na escola. Jogo de pegador. Jovens e crianças. Usam chinelos na brincadei- ra ou outros objetos. Brincar com bichos Ontem e hoje. Terreiro das casas. Jovens e crianças. As crianças gostam de obser- var galinhas, patos, pintinhos, imitando-lhes os movimen- tos. Cabra-cega Ontem e hoje. Terreiro das casas. Jogo de pegador. Jovens e crianças. Um participante tem os olhos vendados e sai à procura dos outros, que correm. Ao “pe- gar” alguém, deve o vendado dizer quem é ainda com os olhos vendados. Coelhinho sai da toca Hoje. Escola. Brincadeira dirigida/pedagógica. Crianças. Atividade assimilada do coti- diano escolar. Passa-passa gavião Ontem (memória). Terreiro das casas e festas (bailes). Crianças (de ontem) e adultos. Foi relatada apenas por adultos. Modalidade: jogo cantado. Pular de galho em galho Ontem e hoje. Terreiros, mata e trilha. Jovens e crianças. Em árvores de portes dife- rentes. Vilão do lenço Ontem. Casas da comunidade. Terreiros Jovens e adultos. Brincadeira tradicionaldos bailes e festividades reli- giosas da região. Hoje em desuso. zação da brincadeiras, “que pode levar a descaracterização do lúdico e transformar brincadeiras apenas em ‘recursos didáticos’” (BROUGÈRE, 1998 apud SANTOS, 2016, p. 57). Na categoria dos brinquedos, a autora nos apresenta, organizado no quadro, 32 diferentes tipos, e nos esclare- ce que “Brinquedos, nesta pesquisa, são os suportes físi- cos, materiais para o ato de brincar” (SANTOS, 2016, p. 59). Entre eles estão: Santos (2016, p. 57) traz para a discussão a relação dos jo- gos e brincadeiras com o espaço escolar e com base em Brougère (1998) afirma que, esses ocupam um espaço na aprendizagem “seja no formato de jogos oferecidos ao gru- po de crianças como dirigidos ou coletivos ou ainda como jogos educativos” e que na maioria dos casos não ocorre as brincadeiras livres em desconsideração a ação da criança, e nos alerta para o cuidado que devemos todos ter na didati- Quadro 1 - Jogos e Brincadeiras na comunidade de Bombas. /Fonte: adaptado de Santos (2016, p. 52-55). 141 EDUCAÇÃO FÍSICA TIPOLOGIA OCORRÊNCIA TEMPORAL E ESPACIAL SUJEITOS OBSERVAÇÕES Brinquedos artesanais Ontem e hoje. Crianças e jovens. Pássaros em madeira. Pás- saros e animais em argila. Espingardas de madeira. Canjém Ontem e hoje. Crianças e jovens. Balanço no original em cipós em árvores, mas podendo ser adaptados nos terreiros (com corda). Canoinhas Ontem e hoje. Crianças e jovens. Elaboradas pelas próprias crianças (utilizam pau de fumo e outros). Carrinho com rodas Ontem. Crianças e jovens. Carrinhos em madeira “fabricados” na comunida- de e com rodas. Serviam para subir e descer morros, andar pelo terreiro. Celular Hoje. Crianças e jovens. Domínio de jogos eletrôni- cos via celular. Matraca de taquara Ontem. Crianças, jovens e adultos. Instrumento de taquara uti- lizado em romarias e festas religiosas, confeccionado na comunidade. Piquá (picoá) Ontem e hoje. Crianças e jovens. Sacolinha confeccionada pe- las crianças ou jovens para guardar estilingues. Pipa Ontem e hoje. Crianças e jovens. Confeccionados com qual- quer papel usado, recurso escasso na região. Às vezes, sem varetas (lembra capu- cheta). Sementes Ontem e hoje. Crianças e jovens. Suporte para “faz de conta” e malvadezas. Objeto para adornos. Tilimbuque Ontem e hoje. Crianças e jovens. Gangorra montada a partir de troncos caídos. Quadro 2 - Brinquedos na comunidade de Bombas. / Fonte: adaptado de Santos (2016, p. 60-61). 142 A autora ainda nos apresenta a uma classificação dos brin- quedos com base em diversos autores da seguinte forma: Artesanais são os brinquedos feitos por artesãos, que também são tidos como tradicionais, mas sua produ- ção vincula-se ao comércio. Industrializados são os brinquedos produzidos pela indústria, com grande expansão ainda no século XIX e voltados às vendas, às massas, podendo ser considerados reflexos de como os adultos enxergam e idealizam as crianças. Brinquedos populares são os que as crianças constro- em com seus pais, familiares, amigos e são utilizados para servir de diversão e podem ser considerados também tradicionais (SANTOS, 2016, p. 62). E na categoria das situações lúdicas são apresentadas 22 e entre elas as cantorias, confecção de brinquedos e objetos para casa, confraternizações, contação de his- tórias, preparação de comidas para festas e reuniões, recitação de versos etc. Ao final do capítulo, a autora faz um destaque para o parecer de 2012 sobre a Educação Escolar Quilombola que traz o aspecto do conhecimento e valorização do contexto vivenciado pelos estudantes quilombolas e esclarece que: Na interface entre Educação e Educação Escolar Quilombola, (...) o lúdico e suas manifestações como jogo, brinquedo e brincadeira ou nas demais situações lúdicas, constitui-se como linguagem que “abre caminhos”, dinamizam as relações entre ensinar e aprender e fortalece a pesquisa e os elos epistemológicos entre História, Memória, Cultura e Educação (SANTOS, 2016, p. 72). Neste item, caro(a) aluno(a), buscamos ampliar nosso olhar sobre o brincar infantil em diferentes vertentes, transitamos do viés analítico do trabalho infantil, das particularidades e essencialidades das crianças que fa- lam a mesma língua em territórios tão diversos, das crianças que vivem em fronteiras e, finalmente, da cul- tura quilombola. Buscamos elucidar, até aqui, quantas possibilidades de intervenção educativa e diversidades de princípios teórico-metodológicos se abrem no traba- lho com jogos, brinquedos e brincadeiras com a infância em tantos contextos e vivências. Vamos, aqui, falar sobre as intervenções com Jogos, Brinquedos e Brincadeiras, ilustrar experiências de ações educativas com a linguagem dos jogos, brinquedos e brincadeiras com diferentes grupos sociais, objetivos e temas. Essas possibilidades são apenas indicações de que podemos, junto com nossos(as) alunos(as), criar e recriar para vivenciarmos a cultura lúdica de múltiplas formas. Ilustramos experiências de uma corrida orientada em uma instituição de contra turno escolar com ado- lescentes; uma caça ao tesouro pelo espaço de um bair- ro com crianças e adolescentes; criação de brinquedos com adultos na universidade para ação educativa com crianças e uma caça aos pássaros com crianças peque- nas em uma escola. Todas essas ações educativas têm como fundamento para a sua realização o entendi- mento de que somos pessoas em constante processo de aprendizagem e que a ludicidade, apesar de, em nossa cultura, ser vivenciada mais na infância, pode e precisa ser potencializada nas diversas gerações. Outra ques- tão importante é que as regras são mutáveis e devem ser assim, se pretendemos que a atividade seja viven- ciada a partir do viés da participação social. Assim, vamos ilustrar algumas práticas que não são fechadas em si, metodologicamente, mas que esperamos que gerem aprendizagens e novas vivências de jogos, brinquedos e brincadeiras. 143 EDUCAÇÃO FÍSICA Corrida de Orientação Nessa ação educativa, objetivamos desenvol- ver com os adolescentes de uma instituição de contra turno escolar, uma corrida orienta- da, com diversos desafios e jogos cooperati- vos, visando realizar atividades de integração e coletivas. Durante as semanas que antece- deram a corrida de orientação, os adolescen- tes decidiram o nome de suas equipes, gritos para a torcida e comemoração das provas, customizaram camisetas que seriam utiliza- das no dia do evento e aprenderam sobre a dinâmica da atividade em si. Na corrida de orientação, os alunos cum- prem uma determinada trilha, passando por pontos de controle indicados em um mapa montado previamente. O percurso de uma atividade de orientação indica os pontos do terreno em que os(as) alunos(as) devem pas- sar e a equipe decide os caminhos para che- gar até os pontos marcados no mapa dispo- nível para a equipe. Em nossa experiência, os(as) educadores(as) foram previamente conhecer o local da atividade e escolheram os pontos que os grupos passariam e cum- pririam as brincadeiras no desenvolvimento da corrida, fizeram o mapa do local e mar- caram os cinco pontos escolhidos. Nesses pontos, os educadores, visando o ob- jetivo geral da atividade, de ser uma vivência coletiva e integradora, escolheram desafios e jogos que envolvessem os grupos de adoles- centes. Cumprir essas provas e atividades ser- viu para que se comprovasse que passaram pelos pontos indicados no mapa. Na expe- riência educativa contada aqui, as atividades desenvolvidas foram: fazer uma pirâmide humana com todo o grupo; realizar a atividade “nó humano”, que consiste em um círcu- lo no qual todos devem dar as mãos entre si aleatoriamente, não podendo dar as mãos só para seu colega direto da realizar a atividade “navegar”: com os participantes um ao lado do outro e em cima de cadeiras, bancos ou pedaço de papelão, o educador deve desafiar o grupo a atravessar o o grupo todo deve atravessarum “gaveteiro”, feito de barbante entre duas árvores, com diversos tamanhos de passagem. O grupo deve montar estratégias para em um emaranhado de letras e objetos grandes recorta- dos, os participantes devem encontrar as letras e montar o nome da equipe no chão o mais rápido possível com todos os integrantes de mãos dadas; 2 1 3 4 5 Ponto Ponto Ponto Ponto Ponto esquerda ou da direita (única regra inicial). A partir daí tem-se um nó hu- mano e o grupo deve voltar a ser um círculo linear sem soltar as mãos; “mar” para chegar a uma “ilha” (lado oposto ao local onde os adolescen- tes estavam dispostos) que tem muitas coisas boas. Eles devem cumprir essa tarefa todos juntos e, principalmente, sem descer das cadeiras/ papelão (sem pisar no chão). Algumas dificuldades foram colocadas como um participante vendado e dois integrantes em completo silêncio; que todos atravessem os buracos sem que diferentes participantes passem duas vezes pela mesma abertura. Assim, a equipe que passar por cada ponto da atividade e cumpri-las, to- dos os integrantes receberão uma marcação no braço, por exemplo, uma cor de tinta (apropriada para pintura na pele) para cada ponto. Assim, ao final, cada equipe poderá comprovar que cumpriu todas as provas, passou por todos os pontos e que todos os integrantes participaram. 144 Caro(a) aluno(a), no desenvolvimento dessa ativi- dade, ressaltamos algumas questões a serem observadas pelos(as) educadores(as): estes devem conhecer bem o local em que será desenvolvida a corrida antes do even- to e reproduzir o mapa com exatidão; cada equipe, na largada, deve ser direcionada a um ponto diferente do mapa; o número de participantes deve ser checado du- rante a prova, para que a equipe permaneça unida até o final; cada equipe deve ter um mapa com trajetos diferentes e que passem pelos mesmos pontos. A pro- va é vencida pela equipe que cumprir todo o percurso, seguindo as regras estabelecidas e em menor tempo. Sugerimos que, de alguma forma, a premiação seja des- frutada de forma coletiva, no nosso caso, realizamos um grande piquenique com todos os participantes, batemos palmas e entregamos um livro para cada integrante da equipe vencedora. Essa atividade pode ser realizada de inúmeras for- mas, com a entrega de um cartão-ponto para a equipe marcar em cada ponto do mapa ou, ainda, se tiver dispo- nível, bússolas para orientação das equipes. Este livro reuniu 21 pro- fissionais que desenvol- vem trabalhos expres- sivos frente à temática. Os autores comparti- lham seus estudos e experiências, na busca de tornar as práticas recreativas mais amplas e acessíveis a todos. Ao longo deste é possível conhecer um rico repertório de atividades e brincadeiras. Os interessados em iniciar ou aprofundar seus conhecimentos frente à recreação poderão conhecer e recriar os conteúdos privilegia- dos para a ação formativa, junto aos grupos específicos e em diferentes espaços, desde escolas, clubes, hotéis até acampamentos, condomínios e empresas. 145 EDUCAÇÃO FÍSICA Caça ao tesouro Essa experiência ocorreu em um projeto de extensão universitária que tem o brincar como principal conteúdo e que desenvolve suas atividades em uma praça pública. Nesse projeto, participam crianças e adolescentes. A temática desenvolvida pelos educadores na ocasião foi sobre o Esta- tuto da Criança e do Adolescente, assim, esta foi também a temática do caça ao tesouro que ocorreu no bairro em que as atividades do projeto ocorrem, no qual as crianças e adolescentes moram. Há várias formas de realizar a atividade de caça ao tesouro, por exemplo: a cada pista encontrada, o grupo recebe um pedaço de uma história ou de uma figura; realiza uma atividade ou perguntas que devem ser respondidas. Na vivência relatada aqui, dividimos os grupos previamente e cada grupo escolheu um direito para sua equipe representar, por exemplo, saúde, educação, lazer e moradia. Com as equipes divididas e identificadas por fitas coloridas amarradas no pulso e um educador responsável por cada equipe (esse acompanhamento foi feito devido ao fato de que andamos pelo bairro e atravessamos algumas ruas), estas deveriam realizar o caça ao tesouro e, ao fim, montar um quebra-cabeça. Desta forma, antecipadamente, foram escondidas as pistas da caça ao tesouro, que levavam à leitura de um direito, por exemplo, à pista sobre o direito à educação, que estava escondida nas imediações da escola do bairro. Quando a equipe localizava a pista na escola, ela tinha como conteúdo o direito à saúde, que levava à unidade básica de saúde do bairro, e assim sucessivamente. Ao final, com todas as pistas em mãos, a equipe deveria montar um quebra-cabeça com o nome do Estatuto da Criança e do Adolescente e com um desenho representativo dos direitos infanto-juvenis. Esse quebra-cabeça foi montado pelas equipes em um encontro anterior do projeto, em que elas desenharam a respeito dos direitos do estatuto em uma cartolina que, posteriormente, foi plastificada e recortada pe- los(as) educadores(as), visando montar o quebra-cabeça. A equipe vencedora deveria cumprir as etapas da caça ao tesouro em menor tempo e montar o quebra-cabeça e, assim, receber o baú com o te- souro, que eram bombons para todos os integrantes de todas as equipes. 146 Criação/recriação de brinquedos Essa experiência foi realizada com adultos, em uma universidade, no curso de formação de professores de Edu- cação Física e aplicada com crianças. A proposta era que, a partir de suas experiências com os(as) alunos(as) no estágio obrigatório do curso, em qualquer âmbito (educação infantil, ensino fundamental I ou II, ensino médio ou, ainda, em projetos sociais), recriassem ou criassem um brinquedo com uma temática relevante para esses grupos sociais. Esse processo de criação e recriação implica, anteriormente, aprendizagens sobre o brinquedo e o trabalho educativo com ele, que foram desenvolvidos em sala de aula. Os(as) alunos(as) trouxeram de suas vivências no estágio temáticas que surgiram nesse espaço, como a mídia, o consumismo, a competição e a alimentação balanceada. A partir das leituras realizadas sobre brinquedos, das suas experiências e vivências com eles, estu- dando essas temáticas, criaram diversos brinquedos. Entre os brinquedos e jogos criados, podemos citar duas bonecas, que a cada imagem de propaganda (que estavam em fichas) que as crianças acertavam o nome da marca ou programa de TV, a boneca ganhava um acessório estranho, que não pertence a uma boneca comum, por exemplo, encaixar um parafuso na sua barriga, colocar um olho de mola ou um pé de pato, ao ponto que as bonecas ficavam irreconhecíveis, estranhas e não pareciam mais humanas. Estabeleceram debates com as crianças a partir da interação com o brinquedo, ressal- tando como essa relação desmedida e exagerada com o consumo e a mídia pode levar a uma vida distanciada de nossa própria humanidade e como esse estímulo molda nossos gostos e desejos. Outro exemplo de brinquedo recriado foi um tabuleiro grande de madeira com um labirinto e um buraco no meio, com o objetivo de que a bola corresse o labirinto e caísse no buraco. Para isso, as crianças deveriam realizar a tarefa juntas, segurando nas alças laterais para movimentar o tabuleiro, em harmonia e dialogando, a fim de atingir o objetivo de acertar o buraco no centro do tabuleiro. Nessa experiência com o brinquedo, foram realizados diálogos com os alunos sobre o valor da interação entre as pessoas e respeito ao tempo e ideias dos outros. Um jogo recriado nesta oportunidade foi realizado a partir do Twister (jogo em que os participantes obedecem ao que a roleta indica e, em um tabuleiro grande no chão com círculos coloridos, devem posicionar mãos e pés em cada círculo cada vez que for solicitado, até que fique impossível se posicionar sobre o tabuleiro de cores e o jogo recomece, como mostra a figura a seguir, com questões que as crianças deve- riam responder sobrealimentação balanceada e saudável; as crianças posicionavam-se no tapete até que não conseguiam mais se mover e o jogo recomeçava. Nessa intervenção, foi possível compreender o entendimento das crianças sobre a alimentação saudável e também ensinar algumas noções sobre essa temática. O trabalho com a criação e recriação dos brinquedos, neste caso, foi produzido por adultos para as crianças, a partir de demandas identificadas em uma ação educativa; entretanto, esta pode ser realizada com a crianças e adolescentes em diferentes ambientes educativos. 147 EDUCAÇÃO FÍSICA Corrida de Orientação Essa experiência é uma forma de realizar uma caça ao tesouro e ocorreu em uma escola de educação infantil bem ampla. Para a sua concretização, são necessários apenas apitos, um para cada “pássaro” (educador(a)), senhas ou códigos para cada equipe, para que comprovem que encontraram todos os pássaros. Divididas em equipes, as crianças devem localizar os pássaros escondidos (na nossa vivência, alguns se esconde- ram em cima das árvores) apenas pelo ruído que o apito fazia. Esses “pássaros” (educadores) tinham senhas ou códigos (no nosso caso, trechos de um poema sobre brincadeiras e infância) que eram entregues a cada equipe que descobria o esconderijo do pássaro. Venceu a caça aos pássaros a equipe que completou primeiro o poema, ou seja, que encontrou os pássaros escon- didos pela escola primeiro. Para completar a brincadeira, é interessante discutir com as crianças sobre a união do grupo durante a atividade, a concentração e o silêncio, afinal, a única pista que se tem são os sons emitidos pelos apitos dos pássaros. Possibilidades de intervenções Quais as possibilidades de intervenção com jogos, brinquedos e brincadeiras nos diferentes espaços e com diferentes públicos? Ampliar nossa visão sobre a área da Educação Física dentro dessa temática nos qualifica com um diferencial no nosso campo de atua- ção, e no nosso Podcast vamos falar de mais possibili- dades com base nos autores citados nesta unidade. Os exemplos de atividades são apenas possibilidades de ações educativas e que permitem muitos desdobramen- tos. Essas novas vivências e recriações relacionam-se aos objetivos da intervenção, ao público com que se trabalha, local, aos materiais disponíveis e à cultura do grupo com que se trabalha. Assim, essas experiências são um convite à imaginação e recriação para você, futuro(a) professor(a). É válido ressaltar que a intervenção com jogos e brincadeiras não acontecem exclusivamente em espaços recreativos e educacionais, e que o uso dessas estratégias e dos jogos tem uma relação íntima com a forma que o profissional de Educação Física conduz a sua prática. Adaptar e recriar faz parte do nosso trabalho, adequando sempre ao nosso objetivo, público e local de intervenção. A seguir, você poderá ampliar o seu repertório e pla- nejar as suas próprias adaptações das atividades dentro do seu contexto. Essas atividades fazem parte do livro Recreação Total, organizado por Hani Awad e Giuliano Pimentel. Na tabela, indicaremos o autor e o capítulo livro. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/10302 148 Capítulo 8: Recreação para a terceira idade Autor: Prof. Ms. Raúl Lorda FICHA DE ATIVIDADE 1: Nome da atividade: Apresentações Objetivo: Oportunizar a integração e socialização dos participantes. Local: Salão de festas, ao ar livre, campo delimitado. Nº de participantes: Quantos houver. Recursos materiais: Nenhum. Desenvolvimento: Caminhem em duplas - enquanto caminham, se apresentam. Logo o recreador sinaliza para que troquem de duplas, evitando repetir o mesmo companheiro. Depois de algum tempo, a dinâmica será mudada. Caminham agora em grupos de quatro integrantes, não se conhecem e cada um se apresenta. Uma vez apresentados, dificulta-se o jogo. Agora se juntam de oito em oito, mas nesta oportunidade ninguém se apresenta, será um dos companheiros que apresentará o colega que havia se apresentado quando estavam em grupo de quatro integrantes. A partir daqui pode-se aproveitar a formação em grupos para continuar com jogos que necessitam desse número de participantes. Nessas intervenções, aproveitar as formações anteriores facilita a administração do tempo disponível. FICHA DE ATIVIDADE 2: Nome da atividade: Arcos Musicais. Objetivo: Atenção, percepção espacial, estimulação auditiva. Local: Salão de festas, ao ar livre, campo delimitado, quadra. Nº de participantes: A partir de 8 pessoas. Recursos materiais: Um arco (bambolê) para cada pessoa; equipamento de som; músicas previamente selecionadas. Desenvolvimento: Parecido com a “dança das cadeiras”, porém adaptada para os idosos. Disponha, em forma circular, cada um dos participantes dentro de um arco. Quando começar a mú- sica todos irão circulZr dançando ao redor dos arcos. Enquanto se movem, retire um dos arcos. No momento que pausar a música, todos deverão entrar em um dos arcos, mesmo que já esteja ocupado. Siga a atividade retirando mais arcos, até que sobrem poucos e muito bem ocupados pelos participantes. Observação: Nenhum participante sairá do jogo, por isso a brincadeira deve seguir até o limite máxi- mo de pessoas dentro de cada arco, porém prezando pela segurança quando se trata de idosos. 149 EDUCAÇÃO FÍSICA Capítulo 9: Recreação para pessoas com deficiência Autor: Prof. Dra. Rosilene Moraes Diehl FICHA DE ATIVIDADE 3: Nome da atividade: Arco-íris / crianças e jovens surdos Objetivo: Desenvolver a atenção visual óculo-manual Local: Quadra, pátio, sala de aula. Nº de participantes: Livre Recursos materiais: Bolas de borracha coloridas - verde, amarela, vermelha - e cartões coloridos - da mesma cor que as bolas. Desenvolvimento: Os participantes ficarão em círculo cada um segurando uma bola de borracha. Ao comando do professor/recreador os participantes começam a quicar as bolas. Quando este mostrar o cartão da cor verde, por exemplo, somente as bolas verdes ficarão quicando, enquanto as demais serão seguradas. Poderão ser mostrados dois cartões ao mesmo tempo. Variação: A mesma atividade pode ser conduzida pelos gestos do professor e não por cartões. FICHA DE ATIVIDADE 4: Nome da atividade: Toque Retoque / crianças a partir de 7 anos com deficiência intelectual Objetivo: Desenvolver tempo de reação e atenção visual. Local: Quadra. Nº de participantes: A partir de 6 pessoas. Recursos materiais: Nenhum. Desenvolvimento: Um dos participantes, escolhido pelo professor/recreador, será o pegador. Os de- mais devem fugir dele. Ao comando do recreador, o pegador deverá correr para pe- gar os colegas. Quem for pego deverá cruzar os braços. Os demais deverão tentar salvar quem está com os braços cruzados tentando abraçá-lo. Se conseguir abraçar ele será salvo, voltando a fugir do pegador. O instrutor deverá trocar de pegador conforme achar necessário. Variações: Ao invés de cruzar os braços ao ser pego, ele deverá colocar as mãos na cabeça, depois alterar o comando para pôr as mãos nos joelhos, e assim mudando para diferentes partes do corpo. 150 Capítulo 22: Recreação em academias Autor: Prof. Ms. Carlos Gomes de Oliveira FICHA DE ATIVIDADE 5: Nome da atividade: Travessia do Ferry Boat (Aquática) Objetivo: Desenvolver o senso de equipe, agilidade, equilíbrio e estratégias. Local: Piscina Nº de participantes: No mínimo 3. Recursos materiais: Uma piscina, um bote inflável que pode ser feito da união de câmaras de ar, uma lava- dora de alta pressão, uma corda amarrada - bem esticada - a 1,5m altura da linha da água de um lado a outro da piscina Desenvolvimento: Um participante será o condutor e os demais deverão se equilibrar no bote (o con- dutor segurará a corda e a puxará, fazendo com que ocorra o deslocamento do bote até a outra margem, sendo que todos os integrantes deverão passar pela função de condutor). Os participantes serão incomodados a todo momento por um recreador/ professor que jogará o jato de alta pressão naintenção de derrubar as pessoas do bote. Caso uma ou mais pessoas caiam, o bote deve parar e esperar que todos subam a bordo novamente. Será declarada vencedora a equipe que realizar a travessia no menor tempo. Variação e Observações: A cada queda no trajeto, acrescentar um tempo de 10 segundos. Essa dinâmica po- derá ser feita com a utilização de máquina de fumaça e luzes especiais piscando com música de mistério, tornando o ambiente “hostil”. Ideal para trabalhar a imaginação, principalmente das crianças e adolescentes. Essa atividade foi inspirada no trabalho do professor de Educação Física Aldonei Reis da Estação Academia, de Maringá (PR). O profissional responsável pela condução dessa dinâmica poderá abordar temas do folclore brasileiro como saci-pererê mula sem cabeça, a cuca e utilizá-los como figuras atuantes para o desenvolvimento da atividade. FICHA DE ATIVIDADE 6: Nome da atividade: Gincana Copa do Mundo Objetivo: Desenvolver nos participantes o senso de equipe por meio de atividades socializado- ras, agilidade, equilíbrio corporal e tática, além de passar para os alunos as característi- cas dos países envolvidos na Copa do Mundo de Futebol. Local: Dependências da academia, ruas e praças da cidade. Nº de participantes: A definir pela organização (no mínimo cinco por equipe). Recursos materiais: Todos os equipamentos disponíveis da academia. 151 EDUCAÇÃO FÍSICA FICHA DE ATIVIDADE 6: Desenvolvimento: 1. Cada equipe receberá o nome de um dos países participantes da Copa do Mundo de Futebol e, a partir daí, deverão fazer um mural informativo apresentando as ca- racterísticas marcantes como língua, moeda, população, costumes, pratos típicos e outras que o grupo achar necessárias; 2. Verificada distância em km entre todas as cidades sedes exemplo: 30.000km; 3. Cada atividade que a academia oferece será determinado um valor em Km. Exem- plo: por hora-aula. Ciclismo indoor = 20 km, ginástica localizada = 10 km, muscula- ção = 10 km, natação = metragem nadada, aula de ritmos = 10 km. 4. Cada participante receberá uma ficha no início da atividade e esta será controlada e assinada pelo professor responsável pela atividade escolhida, que adotará a marca conseguida pelo aluno; 5. Os alunos deverão participar de, no mínimo três atividades diferentes, dependen- do do número de modalidades oferecidas pela academia; 6. A cada semana será atualizada a metragem feita pelas equipes, essa planilha ficará exposta em um quadro visível para todos e deverá servir de motivação para as demais equipes; 7. A primeira equipe que atingir a marca dos 30.000km será declarada vencedora; 8. Serão premiadas as cinco primeiras equipes; 9. Será determinado um prazo máximo para o cumprimento da tarefa. Caso os par- ticipantes não consigam cumprir, será declarada vencedora a equipe que estiver o mais próximo da marca final; 10. A premiação deverá ser entregue em um local que possua um campo de futebol, onde as equipes disputarão uma mini Copa do Mundo de futebol e após será servido um almoço com os pratos típicos dos cinco finalistas. Caro(a) aluno(a), nesta unidade, tratamos de diferentes in- fâncias, diversas culturas lúdicas e distintas experiências com os jogos, brincadeiras com diferentes grupos, faixas etárias e locais de atuação. Destacamos aqui o potencial de resistência do lúdico; da ocorrência deste em diferentes culturas; da su- peração da concepção de um ideal de infância e de cultura lúdica; e a possibilidade de recriar ações sistematizadas com jogos, brinquedos e brincadeiras, buscando ampliar o reper- tório de atividades educativas para todos os públicos. Essas proposições partem da concepção de que os jogos, brinquedos e brincadeiras precisam ser analisa- dos e trabalhados partindo de sua constituição histórica e social. Reiteramos que não existe uma forma homogê- nea de vivenciar a cultura lúdica - esta afirmação visa a suplantar a visão linear de existir uma maneira correta de brincar -, e que esta deve ser perseguida e implemen- tada na educação, como se este fosse o grande objetivo da educação com os jogos, brinquedos e brincadeiras. Desta forma, não existe uma cultura infanto-juvenil e um brincar global e único, como buscamos explicitar no texto com as múltiplas vivências e experiências re- lacionadas ao brincar. Desse modo, por que teríamos uma única maneira de trabalhar nos espaços educativos ou não, utilizando essa linguagem? Tomás e Fernandes (2014, p. 16) afirmam que é urgente “[...] o fato de estas ideias terem necessariamente de ser analisadas critica- mente e serem contextualizadas a partir das especifici- dades culturais nas quais acontecem”. 152 O que temos, na realidade, são princípios que orientam a prática e que pre- cisam ser introjetados pelos professores/recreadores, como o respeito à cultura do grupo em que se trabalha e o profundo sentido de ser um(a) educador(a) e pesquisador(a). As experiências e análises sobre cultura lúdica relatadas são frutos de um intenso processo de pesquisa e estudo no que se refere ao papel dos(as) adultos(as) nessa relação educativa com o brincar. Assim, elas nos pre- enchem de ideias para novas possibilidades de atuação. 153 atividades de estudo A estruturação de um repertório de jogos e brincadeiras é fundamental para que tenhamos um material de trabalho organizado e de fácil acesso para quando necessitarmos planejar uma intervenção nos diferentes espaços e com diferentes públicos. A seguir, preencha o mapa mental inserindo: - quadro azul, os jogos e as brincadeiras que você conheceu ao longo de todo o material didático e das aulas desta disciplina (escolha as 8 atividades que mais te chamaram a atenção); - quadro rosa, as faixas etárias que mais se adequam para uso das atividades informadas no quadro azul; - área amarela apresente sua proposta de variação e/ou adaptação das atividades relacionadas. Meu repertório de jogos e brincadeiras 154 meu espaço 155 meu espaço 156 referências APRESENTAÇÃO GERAL ITAÚ CULTURAL. Lydia Hortélio. Itaú Cultural, [2022]. Disponível em: https://www.itaucultural.org.br/ ocupacao/lydia-hortelio/. Acesso em: 16 mar. 2022. UNIDADE 1 ALVES, C. X.; SILVA, M.; OLIVEIRA, P. R. Memória, infância e brincar em escritos de Walter Benjamin: cul- tura lúdica, processo de formação e prática docente. Revista Ibero-americana de Estudos em Educação, v. 6, n. 3, 2011. Disponível em: http://seer.fclar.unesp.br/iberoamericana/article/view/5000. Acesso em: 17 mar. 2022. ARIÈS, P. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC , 1981. ARRUDA, F. M. Indústria cultural e brinquedos industrializados: as implicações para o imaginário infantil na sociedade contemporânea. Revista Espaço Acadêmico, n. 118, p. 92-99, mar. 2011. Disponível em: http:// www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/11689. Acesso em: 16 mar. 2022. BENJAMIN, W. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. São Paulo: Editora 34, 2002. BRUHNS, H. T. O jogo nas diferentes perspectivas teóricas. Revista Motrivivência, n. 9, p. 01-17, 1996. Dis- ponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/motrivivencia/article/view/5654. Acesso em: 16 mar. 2022. CAILLOIS, R. Os jogos e os homens. Lisboa: Cotovia, 1967. CAMPOS, R. D. de. Philippe Ariès: a paixão pela história. Cadernos de História da Educação, v. 11, n. 1, p. 269-284, jan./jun. 2012. Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/che/article/view/17542/9625. Acesso em: 15 mar. 2022. DEBORTOLI, J. A. O. Brincadeira. In: GOMES, C. L. (org.). Dicionário crítico do lazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. p. 19-24. ELKONIN, D. B. Psicologia do jogo. São Paulo: Martins Fontes, 1998. HUIZINGA, J. Homo Ludens. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2000. KISHIMOTO, T. M. O brinquedo na educação: considerações históricas. Série Ideias, São Paulo, n. 7, 1995. Disponível em: http://www.crmariocovas.sp.gov.br/dea_a.php?t=019. Acesso em: 15 mar. 2022. KISHIMOTO, T. M. O jogoe a educação infantil. Perspectiva, Florianópolis, UFSC/CED, NUP, n. 22, p. 105- 128, 1994. Disponível: https://periodicos.ufsc. br/index.php/perspectiva/article/view/10745/10260. Acesso em: 17 mar. 2022. KISHIMOTO, T. M. O jogo e a educação infantil. Ed. rev. São Paulo: Cengage Learning Brasil, 2016. Dis- ponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788522127245/. Acesso em: 17 mar. 2022. LARA, L. M.; PIMENTEL, G. G. de A. Resenha do livro: os jogos e os homens: a máscara e a vertigem, de Roger Caillois. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v. 27, n. 2, p. 179-185, jan. 2006. Dispo- https://www.itaucultural.org.br/ocupacao/lydia-hortelio/ https://www.itaucultural.org.br/ocupacao/lydia-hortelio/ 157 referências nível em: http://revista.cbce.org.br/index.php/RBCE/article/view/101/110. Acesso em: 16 mar. 2022. MARCOLINO, S. et al. A teoria do jogo de Elkonin e a educação infantil. Revista Quadrimestral da Associa- ção Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, v. 18, n. 1, p. 97-104, jan./abr. 2014. Disponível em: http:// www.scielo.br/pdf/pee/v18n1/v18n1a10.pdf. Acesso em: 17 mar. 2022. SILVA, R. C. Brinquedo. In: GOMES, C. L. (org.). Dicionário crítico do lazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004, p. 24-29. VYGOTSKY, L. S. A. Formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,1991. WIKIART. Children’s Games. 1560. 1 fotografia. Disponível em: https://www.wikiart.org/pt/pieter-bruegel- -o-velho/children-s-games-1560. Acesso em: 15 mar. 2022. UNIDADE 2 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 17 mar. 2022. BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 17 mar. 2022. BRASIL. Parecer 02/2003 da CEB/CNE – Recreio como atividade escolar. Brasília: Ministério da Educação, 2003. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CEB002_2003.pdf. Acesso em: 17 mar. 2022. BRASIL. Diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil / Secretaria de Educação Básica. Bra- sília: MEC, SEB, 2010. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/diretrizescurriculares_2012. pdf. Acesso em: 17 mar. 2022. BRASIL. Lei n° 13.257, de 08 de março de 2016. Dispõe sobre as políticas públicas para a primeira infância e altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), o Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal), a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, a Lei nº 11.770, de 9 de setembro de 2008, e a Lei nº 12.662, de 5 de junho de 2012. 2016. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/ l13257.htm. Acesso em: 17 mar. 2022. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Educação é a Base. Brasília: MEC/CONSED/UNDI- ME, 2021. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofi- nal_site.pdf. Acesso em: 17 mar. 2022. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 9. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1998. 158 referências GOMES, C. L. Lúdico. In: GOMES, C. L. (org.). Dicionário crítico do lazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004, p. 141-146. GUZZONI, C. V. Dimensão simbólica do recreio na escola de 1º grau: uma análise a partir das práticas coti- dianas. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1998. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/275267/1/Guzzoni_CristianeVianna_M. pdf. Acesso em: 17 mar. 2022. MAGER, M. et al. Práticas com crianças, adolescentes e jovens: pensamentos decantados. Maringá: EDUEM, 2011. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Base nacional comum curricular. Brasília: Ministério da Educação, [2022]. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 17 mar. 2022. MÜLLER, V. R. A participação social e a formação política: Territórios a desbravar. Bruxelas: Dynamo Inter- nacional – Street Work Training Institute, 2012. MÜLLER, V. R. História de crianças e infâncias: registros, narrativas e vida privada. Petrópolis: Vozes, 2007. NATALI, P. M. O Lúdico em instituições de educação não-formal: Cenários de múltiplos desafios, impasses e contradições. 2009. 196 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2009. Disponível em: https://tede2.uepg.br/jspui/handle/prefix/1262. Acesso em: 17 mar. 2022. NEUENFELD, D. J. Recreio escolar: o que acontece longe dos olhos dos professores? Revista da Educação Física/UEM, Maringá, v. 14, n. 1, p. 37- 45, 2003. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ RevEducFis/article/view/3479/2512. Acesso em: 17 mar. 2022. OLINTO, A. Minidicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Moderna, 2000. ONU. Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança. Unicef, [2022]. Disponível em: https://www. unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca. Acesso em: 17 mar. 2022. ONU. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Unicef, [2022]. Disponível em: https://www.unicef.org/ brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos. Acesso em: 17 mar. 2022. RANGEL, I. C. A.; DARIDO, S. C. Jogos e brincadeiras. In: DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação física na escola: implicações para a prática pedagógica. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. p. 158-178. ROSEMBERG, F.; MARIANO, C. L. S. A convenção internacional sobre os direitos da criança: debates e tensões. Cadernos de Pesquisa, v. 40, n. 141, p. 693-728, 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cp/a/ gvh6jf9BxZFWyZzcbSDWpzk/abstract/?lang=pt. Acesso em: 28 jul. 2021. RUTH ROCHA. Bibliografia. Blog Ruth Rocha, 2015. Disponível em: https://www.ruthrocha.com.br/biogra- fia. Acesso em: 17 mar. 2022. 159 referências SOARES, C. L. et al. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992. SOUZA, K. R. R. As crianças e o recreio: investigando as relações de pares nos primeiros anos do Ensino Fundamental. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2014. STURM, J. et al. Key issues for the successful design of an intelligent, interactive playground. In: Proceedings of the 7th international conference on Interaction design and children, 7., 2008, [S.l]. Anais [...]. [S.l]: ACM Digital Library, 2008, p.258-265. Disponível em: https://dl.acm.org/doi/abs/10.1145/1463689.1463764. Aces- so em: 17 mar. 2022. TOMÁS, C.; FERNANDES, N. Direitos da Criança, brincar e brincadeiras. In: TOMÁS, C.; FERNANDES, N. (org.). Brincar, brinquedos e brincadeiras: modos de ser criança nos países de língua oficial portuguesa. Maringá: Eduem, 2014. WÜRDIG, R. C. Recreio: os sentidos do brincar do ponto de vista das crianças. InterMeio: revista do Progra- ma de Pós-Graduação em Educação, Campo Grande, v. 16, n. 32, p. 90-105, jul./dez. 2010. Disponível em: https://periodicos.ufms.br/index.php/intm/article/view/2427. Acesso em: 17 mar. 2022. UNIDADE 3 ARRUDA, F. M.; MULLER, V. R. Brincadeiras e espaços urbanos: um estudo da prática lúdica de crianças de diferentes classes sociais da cidade de Maringá – PR. Licere, Belo Horizonte, v. 13, n. 4, p. 01-19, dez./2010. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/licere/article/view/787. Acesso em: 19 mar. 2022. BLUMENTHAL, E. Brincadeiras de movimento para a pré-escola: uma contribuição para estimular o desen- volvimento de crianças de 3 a 5 anos. Barueri: Manole, 2005. BORBA, A. M. Culturas da infância nos espaços-tempos do brincar: um estudo com crianças de 4-6 anos em instituição pública de educação infantil. 2005. 298f. Tese (Doutorado em Educação) — Universidade Fe- deralFluminense, Faculdade de Educação, 2005. Disponível em: https://periodicos.furg.br/momento/article/ view/749. Acesso em: 19 mar. 2022. CAILLOIS, R. Os jogos e os homens. Lisboa: Cotovia, 1990. DEBORTOLI, J. A. O. Brincadeira. In: GOMES, C. L.(org.). Dicionário crítico do lazer. Belo Horizonte: Au- têntica, 2004, p. 19-24. DORNELLES, L. V. Infâncias que nos escapam: da criança na rua à criança cyber. Petrópolis: Vozes, 2005. LARA, L. M.; PIMENTEL, G. G. A. Resenha do livro: os jogos e os homens: a máscara e a vertigem, de Roger Caillois. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v. 27, n. 2, p. 179-185, jan./2006. Disponível em: http://www.rbce.cbce.org.br/index.php/RBCE/article/view/101. Acesso em: 19 mar. 2022. LEÃO JUNIOR, C. M. Manual de jogos e brincadeiras: atividades recreativas para dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Wak, 2013. 160 referências MARCELLINO, N. C. Repertório de atividades de recreação e lazer: para hotéis, acampamentos, prefeituras, clubes e outros. 6. ed. Campinas: Papirus, 2012. PIMENTEL, G. G. A. Lazer: fundamentos, estratégias e atuação profissional. Jundiaí: Fontoura, 2003. PORTILHO, E. M. L.; TOSATTO, C. C. A criança e o brincar como experiência de cultura. Revista Diálo- go Educacional, Curitiba, v. 14, n. 43, p. 737-758, set./dez. 2014. Disponível em: https://www.redalyc.org/ pdf/1891/189132834006.pdf. Acesso em: 19 mar. 2022. RANGEL, I. C. A.; DARIDO, S. C. Jogos e brincadeiras. In: DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. p. 158-178. UNIDADE 4 ALMEIDA, M. T. P. Guia de classificação de jogos, brinquedos e materiais lúdicos. Ceará: UFC, 2011. Dis- ponível em: https://doczz.com.br/doc/639696/guia-de-classificao-de-jogos-e-brinquedos-do-labrinjo-2. Acesso em: 22 mar. 2022. ARRUDA, J. S.; SILVA, L.; SOUZA, C. R. T. Brinquedoteca na Universidade: Experiência Lúdico-Político-Pe- dagógica. In: Seminário De Estudos Do Lazer: Lazer, Globalização E Pós Modernidade, 7., 2017, Maringá. Anais […]. Maringá: Universidade Estadual de Maringá., 2017, p. 01-05. BENJAMIN, W. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. São Paulo: Editora 34, 2002. BOMTEMPO, E. Brinquedoteca: espaço de observação da criança e do brinquedo. In: FRIEDMANN, A. O direito de brincar: a brinquedoteca. São Paulo: E. Scritta, 1992. BRASIL. Lei n° 11.104, de 21 de Março de 2005. Dispõe sobre a obrigatoriedade de instalação de brinquedo- tecas nas unidades de saúde que ofereçam atendimento pediátrico em regime de internação. 2005. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11104.htm. Acesso em: 22 mar. 2022. CUNHA, N. H. S. Brinquedoteca: definição, histórico no Brasil e no Mundo. In: FRIEDMANN, A. O direito de brincar: a brinquedoteca. São Paulo: E. Scritta, 1992. DPSS. [Sem título]. [2022]a. 1 fotografia. Disponível em: https://my.dpss.lacounty.gov/dpss/toyloan/pho- tos/2009/1930_and_1940_Toy_Loan/096.jpg. Acesso em: 22 mar. 2022. DPSS. [Sem título]. [2022]b. 1 fotografia. Disponível em: https://my.dpss.lacounty.gov/dpss/toyloan/pho- tos/2009/1930_and_1940_Toy_Loan/098.jpg. Acesso em: 22 mar. 2022. FINCO, D. Educação Infantil, gênero e brincadeiras: das naturalidades às transgressões. In: Reunião da ANPED, 28., 2010, São Paulo. Anais […]. São Paulo: ANPED, 2010. Disponível em: http://www.anped.org. br/sites/default/files/gt07945int.pdf. Acesso em: 22 mar. 2022. GONÇALVES, A. C. G. Contextualização da infância no espaço urbano: os possíveis efeitos da globalização. 161 referências Momento, Rio Grande, n. 1, p. 17: 11-18, 2004/2005. Disponível em: https://www.seer.furg.br/momento/ article/view/607. Acesso em: 22 mar. 2022. KISHIMOTO, T. M. Diferentes tipos de Brinquedoteca. In: FRIEDMANN, A. O direito de brincar: A brin- quedoteca. São Paulo: E. Scritta, 1992. KOBAYASHI, M. do C. M.; KISHIMOTO, T. M.; SANTOS, S. A. Implantação de sistema de organização e classificação de brinquedos e jogos: a experiência do Laboratório de Brinquedos e Materiais Pedagógicos – LABRIMP. In: Congresso Estadual Paulista Sobre Formação De Educadores,1., São Paulo. Anais […]. São Paulo: Unesp, 2009. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/139786. Acesso em: 22 mar. 2022. LOJA DEDICADA A BONECAS NEGRAS É PIONEIRA NO BRASIL. [S. l.: s. n.], 2019. 1 vídeo (5 min). Pu- blicado pelo canal Jornal O Globo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JJlK3Avo0eo. Acesso em: 21 mar. 2022. LOMBARDI, L. M. S. S. O brincar na formação inicial de pedagogos. In: KISHIMOTO, T. M.; SANTOS, M. W. Jogos e Brincadeiras: tempos, espaços e diversidade. São Paulo: Cortez, 2016. p. 125-150. MICHELET, A. Classificação de jogos e brinquedos: a classificação ICCP. In: FRIEDMANN, A. O direito de brincar: a brinquedoteca. São Paulo: E. Scritta, 1992. MONTAGNINI, R. C. Das brinquedotecas de Londrina ao espaço/tempo lúdico, político e pedagógico do brincar infantil. Dissertação (Mestrado em Educação) — Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2014. Disponível em: www.ppe.uem.br/dissertacoes/2014%20-%20Rosely.pdf. Acesso em: 22 mar. 2022. OLIVEIRA, M. Por que a diversidade das bonecas importa. DW Made for minds, 20 fev. 2019. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/por-que-a-diversidade-das-bonecas-importa/a-47586054. Acesso em: 21 mar. 2022. PAULA, E. A. T.; FOLTRAN, E. P. Brinquedoteca hospitalar: direito das crianças e adolescentes hospitaliza- dos. Revista Conexões, v. 3, n. 01, p. 22-25, 2007. Disponível em: www.revistas2.uepg.br/index.php/conexao/ article/view/3828. Acesso em: 22 mar. 2022. PEREIRA, R. M. R. Uma história cultural dos brinquedos: apontamentos sobre infância, cultura e educação. Revista Teias, v. 10, n. 20, 2009. Disponível em: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revistateias/arti- cle/view/24079. Acesso em: 21 mar. 2022. SILVA, D. C.; HOMRICH M. T. Brincadeiras e brinquedos na atualidade: breve contribuição articulando a in- fância e a escola. Revista Reflexão e Ação, Santa Cruz do Sul, v. 18, n. 2, p. 198-213, jul./dez. 2010. Disponível em: https://online.unisc.br/seer/index.php/reflex/article/view/1561. Acesso em: 22 mar. 2022. SOUZA, K. R. R. As crianças e o recreio: Investigando as relações de pares nos primeiros anos do Ensino Fundamental. Tese (Doutorado em Educação) — Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/trabalhoConclusao/ viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_trabalho=2082216. Acesso em: 21 mar. 2022. 162 referências UNIDADE 5 AWAD, H. Z. A.; PIMENTEL, G. G. A. (orgs.). Recreação total. Várzea Paulista: Fontoura, 2019. BARRA, M. Brincar na latitude zero. In: TOMÁS, C.; FERNANDES, N. Brincar, brinquedos e brincadeiras: modos de ser criança nos países de língua oficial portuguesa. Maringá: Eduem, 2014. p. 131-154. COLONNA, E.; ANTÓNIO, R. A Hilwe, Yo Thlanga: o brincar das crianças nas periferias de Maputo. In: TOMÁS, C.; FERNANDES, N. Brincar, brinquedos e brincadeiras: modos de ser criança nos países de língua oficial portuguesa. Maringá: Eduem, 2014. p. 85-106. DIEHL, R. M. Recreação para pessoas com deficiência. In: AWAD, H. Z. A.; PIMENTEL, G. G. A. Recreação total. Várzea Paulista: Fontoura, 2019. p. 121-130. DEMARTINI, Z. B. F.; GUSMÃO, N. M. M.; WHITAKER, D. Apresentação. In: SILVA, M. R. Trama Doce- -Amarga: (exploração do) trabalho infantil e cultura lúdica. Ijuí: Ijuí; São Paulo: Hucitec, 2003. p. 07-12. ELIAS, H.; LIMA, R. W. ‘Nu Kre Brinka’: desconstruindo as brincadeiras de crianças em Cabo-Verde. In: TOMÁS, C.; FERNANDES, N. Brincar, brinquedos e brincadeiras: modos de ser criança nos países de língua oficial portuguesa. Maringá: Eduem, 2014. p. 51-70. LORDA, R. Recreação para a terceira idade. In: AWAD, H. Z. A.; PIMENTEL, G. G. A. Recreação total. Vár- zea Paulista: Fontoura, 2019. p. 111-120. MORELLI, A. J.; et al. Pipa, boneca, esconde e peteca: brinquedos e brincadeirasno Brasil. In: TOMÁS, C.; FERNANDES, N. Brincar, brinquedos e brincadeiras: modos de ser criança nos países de língua oficial por- tuguesa. Maringá: Eduem, 2014. p. 27-50. MÜLLER, V. R. (org.). Crianças em fronteiras: histórias, culturas e direitos. Curitiba: CRV, 2017. NUNES, J. S.; SILVA, S. F. M. S.; LORO, A. P. Brincar nas fronteiras: Paraguai e Brasil. In: MÜLLER, V. R. (org.). Crianças em fronteiras: histórias, culturas e direitos. Curitiba: CRV, 2017. p. 107-120. 163 referências OLIVEIRA, B.; et al. Valorizando a cultura timorense através de jogos e brincadeiras. In: TOMÁS, C.; FER- NANDES, N. Brincar, brinquedos e brincadeiras: modos de ser criança nos países de língua oficial portugue- sa. Maringá: Eduem, 2014. p. 85-106. OLIVEIRA, C. G.. Recreação em academias. In: AWAD, H. Z. A.; PIMENTEL, G. G. A. Recreação total. Vár- zea Paulista: Fontoura, 2019. p. 277-290. OTINTA, J. Mininesa Sabi: o lúdico e o criativo nas brincadeiras das crianças Guineenses. In: TOMÁS, C.; FERNANDES, N. Brincar, brinquedos e brincadeiras: modos de ser criança nos países de língua oficial por- tuguesa. Maringá: Eduem, 2014. p. 71-84. SANTOS, B. S. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2010. SANTOS, M. W. Felicidade Guerreira: brincar no quilombo. In: KISHIMOTO, T. M.; SANTOS, M. W. Jogos e Brincadeiras: tempos, espaços e diversidade. São Paulo: Cortez, 2016. p. 43-75. SILVA, A. N. Brincadeira: trajetos e trajetória em Portugal. In: TOMÁS, C.; FERNANDES, N. Brincar, brin- quedos e brincadeiras: modos de ser criança nos países de língua oficial portuguesa. Maringá: Eduem, 2014. p. 107-130. SILVA, M. R. Trama Doce-Amarga: (exploração do) Trabalho Infantil e Cultura Lúdica. Ijuí: Ijuí; São Paulo: Hucitec, 2003. TOMÁS, C.; FERNANDES, N. Brincar, brinquedos e brincadeiras: modos de ser criança nos países de língua oficial portuguesa. Maringá: Eduem, 2014. TORRES, D. F.; LARA, C. S. El transcurrir de la infancia en escuelas rurales de la región del Maule en Chile. In: MÜLLER, V. R. Crianças em fronteiras: histórias, culturas e direitos. Tradução de Paula Marçal Natali. Curitiba: CRV, 2017. p. 21-44. 164 gabarito UNIDADE 1 MAPA MENTAL. UNIDADE 2 MAPA MENTAL. UNIDADE 3 MAPA MENTAL. UNIDADE 4 1. O material utilizado na atualidade, que se distanciou dos iniciais na fabricação de brinquedos de pais para filhos, como a madeira, ossos, tecido, argila (BENJAMIN, 2002), hoje é tomado por materiais mais padronizados, como o plástico. Resultam em brinquedos que não têm identidade, são uniformizados e são, em geral, pensados, no processo de globa- lização, a partir de uma concepção homogênea de infância. Esse entendimento parte do princípio de que existe apenas uma infância e não infâncias. Nessa compreensão está implícito que crianças de todos os cantos do mundo têm as mesmas expectativas, sonhos e referenciais culturais. 2. O professor não pode ficar alheio a essas relações que emergem do brincar e do consumo nos ambientes educativos, ele precisa se qualificar e problematizar estas questões com seus alunos. É imprescindível debater sobre o consumo, sobre a construção dos desejos pelo consumo e de como este influencia nossos gostos e modula nossas ações, ofe- recendo um maior repertório de brinquedos e atividades que se contraponham a esta lógica e nas quais as crianças e jovens sintam-se representados e partícipes dos processos de construção. Outro elemento que devemos abordar quando tratamos de brinquedos e atualidade são as relações de gênero que emergem do brincar. A reprodução de estereótipos e preconceitos é ensinada e reforçada a partir das produções culturais às quais as crianças têm acesso. As crianças subvertem, muitas vezes, as lógicas e padrões determinados pelos brinquedos, recriando e ressignificando os brinquedos e as “funções” a ele atribuídas pelo adulto que o criou. Assim, faz-se necessária uma profunda reflexão e revisão de procedimentos metodológicos e de princípios educativos com a intervenção com brinquedos visando à superação desta lógica, que pode configurar-se como abusiva e que desrespeita direitos fundamentais das pessoas. 3. A. Classificações filogenéticas ou históricas que analisam os brinquedos em função da evolução da humanidade, repro- duzida pela criança em seus jogos em diversos períodos. UNIDADE 5 MAPA MENTAL. _heading=h.jnisd7hxuhk1 _heading=h.gjdgxs _heading=h.gjdgxs _GoBack UNIDADE I Fundamentos dos jogos, brinquedos e brincadeiras UNIDADE II Legislações e o direito a brincar UNIDADE III Jogos e Brincadeiras: Características e Classificações UNIDADE IV O brinquedo: aspectos contemporâneos UNIDADE V Jogos, Brinquedos e Brincadeiras: diferentes infâncias, contextos e intervenções Button 1: Botão 11: Botão 12: Button 5: Button 3: Button 7: Button 8: Button 10: Button 12: Button 31: Button 30: questão 1: Off questão 2: Off questão 3: Off questão 4: Off questão 5: Off Radio Button 13: Off Button 14: Button 17: Button 19: Button 25: Button 21: Button 23: Button 27: Button 28: Button 32: