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Dermatozoonoses O professor inicia a aula fazendo uma breve apresentação das matérias de Saúde do Adulto II e III. As queixas dermatológicas são a 5ª maior causa de busca por atendimento médico nas unidades básicas de saúde. A etimologia da palavra consiste basicamente em doenças de pele causadas por outros animais. ➽ Sarna A escabiose ou sarna é causada por um ácaro, o Sarcoptes scabiei homini. Trata-se de um parasita humano obrigatório, e isso significa que a doença se passa de um ser humano para outro ser humano. Caso você esteja se perguntando se a sarna canina (tão famosa) não poderia causar sarna em humanos, temos o seguinte: É possível ter contato com a sarna canina, entretanto, diferente do que aconteceria com o cão, ele irá te picar mas não chegará a completar o ciclo. Isso quer dizer que se você se afastar do cão com sarna (ou tratá-lo, né), você não seguirá tendo sarna porque o parasita não consegue completar o ciclo em humanos. O máximo que ocorrerá será a formação de pápulas, que acabam ganhando escoriações devido à coceira. ➧ Quadro Clínico O aspecto de apresentação mais clássico da sarna são, como já dito anteriormente, pápulas¹ eritematosas escoriadas, que aparecem principalmente em região abdominal (periumbilical). Para facilitar o diagnóstico, é muito importante ficar de olho na topografia, pois o ácaro da sarna tem predileção por regiões de dobras, interdígitos e periumbilical, por serem áreas mais aquecidas. ¹ Pápulas são alterações de relevo, eritematosas, que desaparecem à digitopressão Pensando em pacientes pediátricos, ao avaliar a criança com suspeita de sarna, avaliar também os braços de seus cuidadores, que se infectados apresentam as benditas pápulas. Eventualmente as crianças podem apresentar vesículas e pústulas associadas à presença de pápulas. Em lactentes, as lesões se apresentam em regiões de pés e mãos (incomuns no adulto). A grande questão preocupante quando pensamos em sarna é que a escarificação que ocorre devido ao prurido² gera portas de entrada para infecções bacterianas associadas. O professor cita inclusive a existência de insuficiência renal crônica graças a infecções recorrentes de sarna que culminam com glomerulonefrite pós estreptocócica. ➧ Diagnóstico A forma ideal de diagnosticar a sarna seria encontrando o ácaro, através da obtenção de um raspado das pápulas superficiais com lâmina de bisturi ou lamínula. O material obtido é avaliado em microscópio, onde é possível observar o ácaro. Em indivíduos com poucas lesões acaba sendo muito raro obter ácaros no raspado. Outra possibilidade diagnóstica é o uso da fita adesiva sobre as pápulas, com análise microscópica posterior. Já na dermatoscopia o médico faz uso do dermatoscópio, que funciona como uma lupa com luz polarizada. A luz polarizada permite visualizar estruturas mais profundas da pele, tendo em vista que a visualização não se torna comprometida pelo reflexo da luz. ² Ocorre tanto por questões alérgicas, quanto pelo próprio processo mecânico de “caminhada” da fêmea. A alergia e coceira podem piorar no início do tratamento, já que os ácaros serão fragmentados e terão suas proteínas liberadas na pele. É interessante associar antialérgico. O professor explica que, na dúvida, trate (porque sarna é muito comum e a chance daquilo ser sarna é grande). ➧ Ciclo de Vida Pensando no ciclo do Sarcoptes scabiei homini, temos a fase do ovo, larva, ninfa e animal adulto. Machos e fêmeas apresentam tamanhos diferentes, sendo a fêmea muito maior (e por isso é geralmente ela que vemos no exame diagnóstico). A fêmea percorre a camada córnea enquanto realiza a deposição dos seus ovos (oviposição), que ocorre geralmente no período noturno (e é por isso que a coceira é pior durante a noite). A maior parte dos medicamentos utilizados na sarna são escabicidas, matando apenas o ácaro adulto. Por isso, é essencial que o paciente repita o tratamento cerca de 7-10 dias após o fim do tratamento inicial, que é o tempo que leva para o bicho completar o seu ciclo até a fase adulta e finalmente ser morto pelo remédio. ➨ Escabiose Crostosa / Escabiose Norueguesa É basicamente uma superinfestação por (insira aqui o nome do bicho). É mais recorrente em pacientes imunossuprimidos (portadores do HIV e HTLV, leucemia, imunodeficiência primária, pacientes desnutridos, acamados e com demência). As pápulas e crostas estão presentes em todo o corpo do indivíduo, inclusive em couro cabeludo. O quadro de eritrodermia esfoliativa está presente em outras questões dermatológicas, como a psoríase disseminada, farmacodermia, linfoma cutâneo, dermatite atópica grave e dermatite de contato. ➧ Tratamento O fármaco tópico de primeira escolha (e disponível no SUS) para o tratamento da escabiose é a permetrina (5%). Esse fármaco também atinge as fases imaturas do ácaro e, tecnicamente, não precisa de um segundo uso. Outras medicações são o benzoato de benzila (1:3 em adultos, 1:10), monossulfiram 25% (1:2 adultos e 1:3 crianças), enxofre 5-10% (principalmente em lactente < 6m e gestantes)… Mas, foco na permetrina. A aplicação deve ser feita no período noturno, por cerca de 2-3 dias. Todos os moradores da casa devem fazer uso da medicação, que deve ser aplicada principalmente nas regiões de escolha do ácaro, mas preferencialmente no corpo todo (pescoço pra baixo). Como os ácaros tendem a “fugir” para a roupa de cama, a roupa de cama deve ser isolada por cerca de três dias ou ser lavada pela manhã (não precisa ferver), outra opção é passar ferro na roupa, pois são seres termossensíveis e morrem em temperaturas acima de 60º.Mesmo a permetrina afetando as fases imaturas do bicho, o professor recomenda repetir o tratamento após 7-10 dias, justamente por conta dessa questão dos fômites. Pensando em medicamento oral temos ela, a medicação com recordes de uso equivocado since 2020: a ivermectina. É utilizada a muito tempo no tratamento da escabiose, sendo extremamente eficaz. A adesão medicamentosa costuma ser superior ao tratamento tópico, pois envolve um processo menos trabalhoso (engolir o comprimido). A dose padrão preconizada é de 200 mcg/kg (dica básica: a cada 30 kg, um comprimido), dose única. O professor afirma que, na prática, costuma-se utilizar permetrina para o paciente, que geralmente apresenta mais prurido e ivermectina para os contactantes, pois isso costuma aumentar a adesão e evita reinfecção. Sobre o uso para covid…. O professor explica que a eficácia contra o SARS-Cov-2 só foi alcançada in vitro, em doses 10x maiores do que a dose utilizada no tratamento da sarna (sendo recomendada somente a quem deseja perder o fígado). Orientar o paciente sobre a possível persistência do prurido por cerca de 2-4 semanas. Tratar os contactantes também é muito importante, principalmente os mais íntimos. Lembrar de tratar todos os indivíduos quando o paciente acometido está no hospital ou frequentam creches, no caso de crianças pequenas e escolas, pensando em crianças maiores. Como já dito antes, é importante lembrar de ter cuidado com os fômites. ➽ Pediculoses Agora o professor passou a falar do maior inimigo da criança: os piolhos. O ser humano é acometido pelo Pediculus humanus capitis e o Pediculus humanus corporis. ➧ Ciclo de Vida Assim como na escabiose, o piolho apresenta mais de um estágio de vida, levando cerca de 8-9 dias até se tornar adulto (e por isso também é necessário repetir o tratamento, assim como na escabiose). Os ovos dos piolhos são as lêndeas, que ficam aderidas na parte lateral da haste do pelo por uma substância gelatinosa. É importante saber diferenciar as lêndeas de outro acometimento capilar comum em crianças, que é a piedra branca³. O prurido costuma ser mais intenso em região occipital (no caso do capitis), por ser uma região mais quente.Assim como na escabiose, a grande preocupação é a infecção secundária que pode ocorrer graças às escarificações (Streptococcus, Staphylococcus). É comum em meninas, principalmente as que possuem cabelos volumosos (é quentinho, o piolho se sente bem). Nessescasos podemos ver até mesmo lesões com máculas e escoriações na região interescapular, por conta do contato do piolho com as costas da criança. Em relação ao corporis, vemos muito pouco e está associado a condições precárias de higiene (nômades, pessoas em situação de rua, soldados em serviço). Em indivíduos acometidos por esse tipo de piolho vemos máculas cerúleas. O professor particularmente nunca viu. ³ A piedra branca é um fungo que acomete a haste do fio em toda a sua circunferência. É comum em crianças que ficam com os cabelos úmidos em penteados com frequência. ➨ Fitiríase Trata-se de uma pediculose causada pelo Phthirus pubis, o famoso “chato” (pra quem curte o podcast Não Inviabilize tem um ep com esse nome inclusive, muito bom). A infestação ocorre em região púbica e a transmissão pode ocorrer com o contato púbis-púbis (por isso pode ser considerado uma IST). É um quadro associado a um grau inadequado de higiene e promiscuidade (segundo o prof), mas também pode ocorrer em imunossuprimidos. É incomum, mas pode aparecer em outras regiões do corpo, como pálpebras, por exemplo. ➧ Tratamento O tratamento pode ser feito com uma solução 1:1 de água morna e vinagre, que auxilia a remoção das lêndeas (pode ser usada uma touca de banho para abafar) e passar pente fino após 15 min. Em seguida, deve ser utilizado shampoo com solução de permetrina a 1% e passar pente fino novamente após 15 min. Os piolhos são termossensíveis, logo, é interessante secar o cabelo com secador ou fazer uso de alguma outra fonte de calor e pacientes refratários ao tratamento. Pode se associar com o uso de ivermectina. Outra opção do mercado é o bactrim (principalmente em pacientes com infecção secundária). ➽ Tungíase Causado pelo Tunga penetrans, estamos falando do famoso bicho de pé (ou bicho de porco). O contágio geralmente ocorre em solos quentes e secos, próximo a esterco. Parasita seres humanos, porcos, cães e gatos. Não se trata de um parasita intestinal, mantendo-se apenas na pele. A fêmea prende-se na pele deixando o ventre voltado para a superfície livre, a fim de realizar a oviposição enquanto o hospedeiro caminha por aí. A área mais acometida é a região interdigital, formando pápulas amareladas. O tratamento é feito com a excisão do parasita (até com a agulha). A retirada pode ser facilitada com o uso prévio de clorofórmio ou éter, que evita que o abençoado se mexa enquanto você tenta removê-lo. Em casos de infestação maciça, ivermectina (1 comp a cada 30 kg). Nesse caso não é necessário repetir o tratamento. ➽ Miíase Basicamente são larvas de moscas que estão presentes em duas formas principais: Na primeira delas, a furunculóide (ou primária), a mosca pousa na pele e realiza a oviposição. A larva passa a se desenvolver em tecido subcutâneo, eclodindo posteriormente como mosca. Esse tipo de miíase, também conhecido como berne, não é tão comum na nossa região. São lesões mais isoladas, geralmente únicas, muito similares a um furúnculo. Já a miíase secundária e a miíase cavitária decorrem da oviposição de moscas sobre feridas preexistentes. O mau cheiro da ferida atrai a mosca, que deposita seus ovinhos, que se alimentam do material necrótico das feridas. Moscas comuns, como a mosca doméstica, causam miíase, e é por isso que feridas ulcerosas e muito secretivas necessitam de oclusão. É algo muito comum, geralmente trabalho de interno (deus nos ajude). Ironicamente, existem tratamentos com larvas para a remoção de tecido necrótico. ➨ Tratamento No caso da miíase primária, realizamos oclusão do orifício de onde está o berne, impedindo que ele respire e morra. Isso facilita a remoção, pois quando ele ainda está vivo, fica preso à pele por espículas. Pode ser utilizado vaselina sólida, esparadrapo… Outra opção é a ivermectina oral, que nesse caso é utilizada com 2 comp a cada 30 kg. Na miíase cavitária e secundária, o tratamento consiste em éter, clorofórmio e catar as larvinhas. A associação com ivermectina também pode ser realizada, com a mesma dose preconizada para o tratamento da miíase primária. ➽ Larva migrans Causadora do bicho geográfico (um beijo pra todo munda da 105), o Ancylostoma brasiliensis ou Ancylostoma caninum são parasitas de cães e gatos e por isso, não conseguem completar o ciclo no ser humano (por isso ficam caminhando pela pele). São mais comuns em região de pé e glútea (às vezes barriga). Causam muito prurido. Ao lado temos o pé de Bia Holz. Para tratamento utilizamos anti-helmínticos, como tiabendazol, albendazol (cerca de 15 dias) e ivermectina (dose padrão). ➽ Paederus irritans Popularmente conhecido como “potó”, esse inseto causa uma dermatite vesicante/irritante devido a uma toxina cáustica presente em sua cauda, não parasitam o ser humano e não se trata de uma picada. As lesões são comuns em região cervical. O tratamento consiste em cuidar da lesão causada pela substância, através de compressas com água boricada (pode ser usada em qualquer faixa etária) e corticoide tópico (lembrar que não pode usar por período prolongado). ➽ Ixodíase São as lesões provocadas por picadas de carrapatos, mais comuns em zonas rurais e climas mais frios (carrapatos buscam animais com o sangue quente, como bois, cavalos, cães e ratos). Acometem com mais frequência os membros inferiores. Para tratamento é utilizado benzoato de benzila e ivermectina. ➽ Cimidíase Decorre de picadas de percevejo. Apresentam hábitos noturnos e ficam em frestas (colchão, móveis). Não parasitam o ser humano, mas alimentam-se dele, causando pápulas dispostas de forma linear (padrão de café-almoço-jantar). A resolução do problema consiste em eliminar o agente causador, através de dedetização.