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Geralmente, realiza-se este tipo de exame utilizando a primeira urina da manhã, jato médio; e, é um auxiliar valioso para fins diagnósticos. Sua finalidade é detectar e identificar os elementos insolúveis, para cuja presença na urina contribuem o sangue, os rins, a parte inferior do sistema urogenital e a contaminação externa. Esses elementos são células epiteliais, hemácias, leucócitos, bactérias, leveduras, parasitas, muco, espermatozoides, cilindros, cristais e artefatos. Como alguns não tem significado clínico e outros são considerados normais, a menos que presentes em quantidades muito grandes, o exame do sedimento urinário deve compreender tanto a identificação quanto a quantificação dos elementos encontrados. Metodologia: A análise microscópica está sujeita a várias variações, entre as quais como o sedimento é preparado, a quantidade de sedimento a ser analisado, os métodos e equipamentos utilizados e a maneira como os resultados são registrados. Atualmente a metodologia recomendada é: ABNT NBR 15268:2005 (padrão nacional); recomenda-se que os laboratórios adotem metodologia exposta abaixo: 1. As amostras devem ser recentes e corretamente conservadas 2. Centrifugar 10 mL em tubo cônico: 1500 a 2000 rpm por 5 minutos 3. Após a centrifugação deixar no tubo 0,5 a 1,0 mL 4. Põe 20 µL da suspensão numa lâmina que será coberta com a lamínula 5. Observar no mínimo 10 campos em pequeno (100 x) e grande (400 x) aumento, com iluminação reduzida 6. Calcular a média 7. Registrar os resultados 8. E, fazer correlação dos resultados com os exames físicos e químicos, as amostras cujas não apresentarem correlação deverão ser reexaminadas O uso de corantes é opcional, mas pode ajudar na identificação. O corante mais usado é o de Sternheimer Malbin (violeta cristal + Safranina O), seguido por azul de tolueno a 0,5% ou eosina azul de metileno Hemácias Como as hemácias não podem entrar no filtrado dos néfrons íntegros, achados de mais de 0 a 5 hemácias por campo é considerado anormal; o seu número também ajuda a determinar a extensão da lesão renal. Sua presença na urina tem relação com lesões na membrana glomerular ou nos vasos do sistema urogenital; grandes quantidades de hemácias costumam decorrer de: Glomerulonefrites, infecções agudas, reações tóxicas e imunológicas, neoplasias, distúrbios circulatórios, cálculos renais e contaminação menstrual Na urina concentrada: hemácias crenadas Na urina diluída e alcalina: hemácias lisadas As hemácias vazias são consideradas células fantasmas; o exame de sedimento é valioso, pois nem sempre a urina é vermelha ou há positividade na fita reagente As hemácias aparecem na urina como discos incolores, sem estruturas características e com tamanhos variáveis Leticia Micaely - Biomedicina Leucócitos: Geralmente, são encontrados menos de 5 leucócitos por campo, mas em mulheres podem ser encontrados até 10; sendo os neutrófilos mais predominantemente encontrados; O número elevado de leucócitos na urina é denominado piúria e indica presença de infecção ou inflamação no sistema urogenital. Entre as causas frequentes de piúria estão: Infecções bacterianas: pielonefrite, cistite, prostatite e uretrite Glomerulonefrites, lúpus e tumores Lesão glomerular ou capilar Eles são maiores que as hemácias; com grânulos citoplasmáticos e núcleos lobulados; O uso de corantes ou ácido acético evidencia os detalhes do núcleo, o que é útil para distinguir os leucócitos (quem tem núcleo lobulado) das células epiteliais do túbulo renal; cora-se com o Sternheimer Malbin (azul claro); células epiteliais do túbulo renal são maiores, poliédricas e núcleo excêntrico; e, os leucócitos lisam-se rapidamente em urina alcalina; A presença de eosinófilos na urina tem relação principalmente com nefrite intersticial medicamentosa, infecções urinárias e na rejeição de transplantes renais; pra fazer a contagem é necessário corar com Hansel (azul de metileno + eosina Y) ou corante de Wright; Células epiteliais: Elas provêm dos tecidos de revestimento do sistema urogenital. A menos que estejam presentes em grande número ou em formas anormais, representam uma descamação normal de células velhas. Sendo classificadas em: células epiteliais escamosas ou pavimentosas, células epiteliais transicionais e células epiteliais dos túbulos renais CÉLULAS EPITELIAIS ESCAMOSAS OU PAVIMENTOSAS São as mais frequentes e menos significativas; provê do revestimento da vagina e das porções inferiores da uretra; São consideradas as maiores do organismo, com citoplasma abundante, núcleo central com aproximadamente o tamanho de uma hemácia São registradas como: raras (0 a 3), poucas (4 a 10), numerosas (+ 10); e raramente tem significado clínico CÉLULAS EPITELIAIS TRANSICIONAIS Originam-se do revestimento da pelve renal, da bexiga e da porção superior da uretra; são menores que as pavimentosas, esféricas, caudadas ou poliédricas, com núcleo central; Raramente tem algum significado clínico! Leticia Micaely - Biomedicina CÉLULAS EPITELIAIS DOS TÚBULOS RENAIS São as mais importantes, pois quando sua quantidade é grande, há indicio de necrose tubular; são principalmente importantes na rejeição do enxerto renal; Sua presença traduz a existência de doenças causadoras de lesão tubular, entre as quais pielonefrite, reações tóxicas, infecções virais, rejeição de transplante e glomerulonefrite; São redondas e ligeiramente maiores que os leucócitos, para diferenciar-se pode corar com Sternheimer Malbin ou de Papanicolau Esses elementos devem ser registrados em números por campo de grande aumento Cilindros: São os únicos elementos urinários exclusivamente renais; formam-se principalmente no interior da luz do túbulo contorcido distal e do ducto coletor, possibilitando a visão microscópica das condições existentes no interior dos néfrons; com exceção dos cilindroides que se formam na junção da alça ascendente de Henle e do túbulo contorcido distal, mas tem o mesmo significado dos cilindros; existem as inclusões na matriz dos cilindros que são: hemáticos, leucocitários, de células epiteliais, granulares, hialinos, céreos, adiposos e largos. O principal componente dos cilindros é a proteína de Tamm-Horsfall, excretadas pelas células dos túbulos renais. Observar com objetiva de pequeno aumento; CILINDROS HIALINOS São os mais frequentes, constituídos quase inteiramente por Tamm-Horsfall. A presença de 0 a 2 por campo de pequeno aumento é considerada normal, assim como o achado de quantidade elevada após exercício físico intenso, desidratação, exposição ao calor e estresse emocional. Assumem significado clínico quando seu número é elevado: glomerulonefrite, pielonefrite, doença renal crônica e insuficiência cardíaca congestiva. Pode-se encontrar células epiteliais. Os cilindros hialinos são incolores, e pode-se corar com corante de Sternheimer Malbin, sua coloração será rósea; CILINDROS HEMÁTICOS Os cilindros celulares podem conter hemácias, leucócitos ou células epiteliais. A presença de cilindros celulares geralmente indica grave doença renal. A existência de cilindros hemáticos na urina indica sangramento no interior do néfron; sua presença tem relação principalmente com a glomerulonefrite, lesões nos glomérulos, túbulos ou capilares renais; Eles são facilmente reconhecidos por serem refringentes e terem uma cor que varia do amarelo ao marrom; podendo-se ter lise celular – hemoglobina no interior do cilindro; Os sedimentos que contêm cilindros hemáticos também devem conter hemácias livres; Leticia Micaely - Biomedicina CILINDROS LEUCOCITÁRIOS O aparecimento de cilindros leucocitários na urina significa infecção ou inflamação no interior dos néfrons. São observados com frequência na pielonefrite, mas ocorrem em qualquer doença que cause inflamação dos néfronsacompanhados também de cilindro hemáticos na glomerulonefrite; eles, são granulados e refringentes. Os sedimentos que contêm cilindros leucocitários também devem conter leucócitos livres; a presença desses cilindros indica a necessidade de se realizar urocultura; CILINDROS GRANULARES, CÉREOS, ADIPOSOS Os granulares estão associados a desintegração celular; os céreos estão associados à estase urinária extrema, que indica Insuficiência Renal Crônica; os adiposos estão associados à síndrome nefrótica e diabetes mellitus; mostrados respectivamente nas imagens a seguir: Bactérias, leveduras, parasitas, espermatozoides: Normalmente na urina não há presença de bactérias; a maioria dos laboratórios registra a presença de bactérias só quando estas forem observadas em amostras recém colhidas e em conjunto com leucócitos; A levedura mais comum é a Candida albicans; sendo observadas em pacientes com diabetes mellitus e mulheres com candidíase vaginal; deve-se observar se há brotamentos; O parasita mais comum é o Trichomonas vaginalis Espermatozoides não tem significado clínico Leticia Micaely - Biomedicina Muco: O muco é um material proteico produzido por glândulas e células epiteliais do sistema urogenital; não é considerado clinicamente significativo e sua quantidade é maior quando há contaminação vaginal; Seu principal componente é a proteína de Tamm-Horsfall; mas deve-se tomar cuidado para não confundir os grumos mucosos com cilindros hialinos; Cristais: É comum encontrar cristais na urina; embora raramente tenha qualquer significado clinico. Os cristais são formados pela precipitação dos sais na urina submetidos a alterações de pH, temperatura ou concentração, o que afeta sua solubilidade; tem seu formato de cristais verdadeiros ou de material amorfo; São formados nos túbulos e raramente na bexiga; sendo que a maioria se forma em amostras que foram deixadas em temperatura ambiente ou que foram refrigeradas, mas muitas vezes mascaram outros componentes de maior significado. Sua identificação é de suma importância para detectar alguns tipos relativamente anormais, que podem representar certos distúrbios, como doenças hepáticas, erros inatos do metabolismo ou lesão renal causada pela cicatrização de metabólitos de drogas nos túbulos. O recurso mais útil na identificação dos cristais é o conhecimento do pH, pois ele determinará o tipo de substâncias químicas precipitadas; os cristais podem ser considerados normais: urina ácida ou alcalina, e anormais: urina ácida e neutra. CRISTAIS NORMAIS: URINA ÁCIDA Uratos: são os cristais mais comumente encontrados, constituídos por: ácido úrico, uratos amorfos e urato de sódio; microscopicamente a coloração de todos os cristais de urato vai do amarelo ao castanho-avermelhado, sendo os únicos cristais normais coloridos em urina ácida; seus níveis são elevados em pacientes com leucemia e gota; Cristais de oxalato de cálcio: também podem ser encontrados em urina neutra; eles têm formas de envelope e são encontrados em pessoas que ingerem alimentos ricos em oxalato de cálcio e na intoxicação com produtos químicos, em pessoas geneticamente suscetíveis que ingerem grande doses de ácido ascórbico; C ri st ai s d e o xa la to d e cá lc io Leticia Micaely - Biomedicina CRISTAIS NORMAIS: URINA ALCALINA São encontrados os que são formados por fosfatos, como o fosfato triplo, o fosfato amorfo e o fosfato de cálcio; também são encontrados os de biurato de amônio e o carbonato de cálcio; CRISTAIS ANORMAIS: URINA ÁCIDA OU NEUTRA Os cristais anormais mais importantes são: cistina, colesterol, leucina, tirosina, bilirrubina, sulfonamidas; Cristais de cistina: Erro inato do metabolismo que impede a reabsorção de cistina pelo túbulo proximal. Portadores de cistinúria tendem a ter cálculos renais; Fosfato triplo Fosfato amorfo Biurato de amônio Carbonato de cálcio Fosfato de cálcio Leticia Micaely - Biomedicina Cristais de tirosina: relacionados com doença hepática (assim como os de bilirrubina) Cálculos renais: Existe pouca correlação entre a presença de cristalúria e a formação de cálculos renais; deve-se analisar os cálculos renais expelidos para redirecionar o tratamento (ex.: mudanças na dieta); sua análise é bioquímica e cristalográfica; Outros artefatos: Cristais de tirosina Cristais de colesterol Cristais de sulfonamidas Cristais de bilirrubina Leticia Micaely - Biomedicina