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AULA 2 AUDITORIA TRABALHISTA E PREVIDENCIÁRIA Prof. Érico Luz 2 CONVERSA INICIAL O auditor trabalhista, além do conhecimento em técnicas de auditoria (especialmente a interna), deve, obviamente, dominar os conceitos principais atinentes à legislação do trabalho. Parte-se do pressuposto de que o conhecimento desse conteúdo normativo é condição essencial para que os profissionais desse ramo de auditoria executem seu trabalho de maneira técnica e com a melhor assertividade possível. Nesse sentido, esse será o tema desta aula. Nela, serão abordados os principais conceitos doutrinários e legais da norma trabalhista. Utilizaremos uma linguagem mais objetiva e concisa, tendo em vista que esse é um estudo que deverá ser efetuado em separado por parte dos profissionais auditores, na mesma intensidade com que se estudam os conceitos e a prática da auditoria trabalhista. TEMA 1 – CONCEITOS DE EMPREGADOR E EMPREGADO As relações trabalhistas se classificam em relação de trabalho e relação de emprego. É importante destacar as peculiaridades de cada uma delas, pois, embora ambas possam ser objeto de auditoria interna ou trabalhista, elas possuem características específicas e trazem consequências diferentes para seus sujeitos contratantes. Pode-se dizer que toda relação de emprego é uma relação de trabalho, porém, nem toda relação de trabalho é uma relação de emprego. A relação de emprego está presente quando se confirmam os requisitos do art. 3o da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho – Decreto-Lei n. 5.452, de 1o de maio de 1943). Haverá relação de emprego quando ocorrer a prestação de serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário. Destaca-se que a prestação de serviços tem que ser intuitu personae, ou seja, apenas aquela pessoa pode fazer, sendo a mesma insubstituível para aquela tarefa. Desse modo, estando presentes todos os requisitos previstos no art. 3o da CLT, haverá uma relação de emprego com o correspondente vínculo empregatício. O auditor deve conhecer os requisitos para caracterização do vínculo empregatício, que são: https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10634289/artigo-3-do-decreto-lei-n-5452-de-01-de-maio-de-1943 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/111983249/consolida%C3%A7%C3%A3o-das-leis-do-trabalho-decreto-lei-5452-43 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/111983249/consolida%C3%A7%C3%A3o-das-leis-do-trabalho-decreto-lei-5452-43 3 • pessoalidade – característica que se faz presente quando o empregado ficar impedido de se fazer substituir por um terceiro na realização de seu trabalho. Sendo assim, a relação entre empregado e empregador é de natureza pessoal; • habitualidade – essa característica está relacionada com o fato de que o trabalho sob responsabilidade do profissional contratado não é eventual, sendo realizado de forma habitual. Nesse quesito, o auditor deve tomar cuidado ao analisar a habitualidade, pois nem sempre é fácil verificar sua ocorrência; • subordinação – juridicamente, a subordinação se caracteriza pela relação hierárquica entre o empregado e o empregador, ou seja, o colaborador está sujeito aos comandos do empregador e este assume os riscos do negócio; • onerosidade – a onerosidade implica que haverá um pagamento como remuneração pelos serviços prestados nessa relação de emprego. Claro fica, portanto, que, sendo gratuita a prestação do serviço, não se aventará em relação de emprego, inexistindo vínculo empregatício. Tabela 1 – Relação de emprego versus relação de trabalho Rel. de Trabalho Rel. de Emprego Há trabalho Sim Sim Há subordinação Não Sim É eventual Sim Não É pessoal Não Sim Onerosidade Sim Sim Fonte: Luz, 2021. De acordo com a tabela 1, percebe-se que não é tarefa difícil classificar a relação em relação de emprego ou relação de trabalho. Outros conceitos que devem ser de domínio do auditor trabalhista estão relacionados à caracterização de empregado e empregador, conforme disposto na citada norma jurídica (CLT). 1.1 Empregador (art. 2o, CLT) O Decreto-Lei n. 5.452 (Brasil, 1943) assim se expressa com referência ao conceito de empregador: 4 Art. 2º – Considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço. § 1º – Equiparam-se ao empregador, para os efeitos exclusivos da relação de emprego, os profissionais liberais, as instituições de beneficência, as associações recreativas ou outras instituições sem fins lucrativos, que admitirem trabalhadores como empregados. Sendo assim, empregador é pessoa física ou jurídica que, assumindo os riscos da atividade econômica, admita pessoal, pague salários e efetivamente comande. A CLT, em seu art. 2o, parágrafo 2o, esclarece que haverá responsabilidade solidária dos grupos de empresa, estabelecendo que: sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma delas, personalidade jurídica própria, estiver sob a direção, controle ou administração de outra, constituindo grupo industrial, comercial ou de qualquer atividade econômica, serão, para os efeitos da relação de emprego, solidariamente responsáveis à empresa principal e cada uma das subordinadas. Graficamente, pode-se visualizar os direitos do empregador na relação empregatícia: Figura 1 – Direitos do empregador Fonte: Luz, 2021. • Poder de direção – ao empregador cabe o poder de determinar como será executada a atividade por parte do empregado, sempre em consonância com o que foi pactuado no contrato de trabalho; • Poder de organização – consiste na ordenação das atividades do empregado, inserindo-as no conjunto das atividades da produção, visando a obtenção dos objetivos econômicos e sociais da empresa. A empresa poderá ter um regulamento interno para tal, decorrendo dele a faculdade de o empregado definir os fins econômicos visados pelo empreendimento; 5 • Poder de controle – poder que o empregador possui de fiscalizar as atividades profissionais dos seus empregados tendo como objetivo a melhor execução das tarefas sob responsabilidade do empregado; • Poder disciplinar – poder que permite ao empregador impor sanções disciplinares ao empregado, de forma convencional (previstas em convenção coletiva) ou estatutária (previstas no regulamento da empresa), subordinadas à forma legal. No direito brasileiro, as penalidades que podem ser aplicadas são a suspensão disciplinar e a advertência, além de que o atleta profissional é ainda passível de multa. Com relação ao conceito de empregado, a CLT, em seu art. 3o, reza que: “Art. 3o – Considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário”. Empregado, dessa forma, é a pessoa física que presta pessoalmente a outrem serviços não eventuais, subordinados e assalariados. É importante que o auditor verifique a existência de outros tipos de trabalhadores, para que possa aplicar os procedimentos de auditoria respectivos. Nesse sentido, existem as seguintes classificações de trabalhadores: a) Trabalhador autônomo – trabalha sem subordinação, por conta própria; b) Trabalhador eventual – trabalhador admitido numa empresa para um determinado evento, em fins de semana ou não; c) Trabalhador avulso – nesse tipo de trabalho, existe a intermediação do sindicado do trabalhador na colocação da mão de obra. É característico dos portuários; d) Trabalhador temporário – é aquele prestado por pessoa física a uma empresa para atender à necessidade transitória de substituição de seu pessoal regular e permanente ou acréscimo extraordinário de serviços (Art. 2o da Lei n. 6.019/74); e) Estagiário – não é empregado, portanto, não existe relação de emprego com a entidade em que atua; f) Empregado doméstico – é qualquer pessoa física que prestaserviços contínuos a um ou mais empregadores, em suas residências, de forma não-eventual, contínua, subordinada, individual e mediante renumeração, sem fins lucrativos; 6 g) Empregado rural – é o trabalhador que presta serviços em propriedade rural, continuadamente e mediante subordinação ao empregador. 1.2 Relação de trabalho A relação de trabalho se caracteriza como um gênero e compreende todo e qualquer trabalho executado a outra pessoa física ou jurídica, tendo ou não vínculo empregatício. Por força do disposto no art. 114 da Constituição Federal de 1988, as ações decorrentes das relações de trabalho serão processadas e julgadas pela Justiça do Trabalho. Como se vê: Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar: I – as ações oriundas da relação de trabalho, abrangidos os entes de direito público externo e da administração pública direta e indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; Relação de trabalho no sentido estrito, desta forma, é aquela que ocorre entre um tomador e um prestador de serviço. TEMA 2 – CONTRATO DE TRABALHO Dispõe o art. 442 do Decreto-Lei n. 5452 (Brasil, 1943) que: “Art. 442 – Contrato individual de trabalho é o acordo tácito ou expresso, correspondente à relação de emprego”. Haverá contrato de trabalho sempre que uma pessoa física se obrigar a realizar atos, executar obras ou prestar serviços para outra e sob dependência dessa, de forma não voluntária, durante um período determinado ou indeterminado de tempo, mediante o pagamento de uma remuneração. Conforme o art. 443 da mesma norma legal, o contrato pode ser verbal ou escrito, por prazo indeterminado ou determinado. Lembrando sempre que contrato por prazo determinado só será válido em se tratando de serviço cuja natureza ou transitoriedade justifique a predeterminação do prazo, como atividades empresariais de caráter transitório ou de contrato de experiência. TEMA 3 – JORNADA DE TRABALHO O art. 58 e seguintes da CLT tratam da matéria relativa à jornada de trabalho, compreendendo o tempo durante o qual o empregado deverá prestar serviço ou permanecer à disposição do empregador, com habitualidade, excetuadas as horas extras. Nos termos da Constituição Federal, art. 7o, XIII, sua duração deverá ser de até oito horas diárias e 44 semanais. 7 Classificação da jornada de trabalho: a) Quanto à duração – é ordinária ou normal (que se desenvolve dentro dos limites estabelecidos pelas normas jurídicas), extraordinária ou suplementar (que ultrapassa os limites normais), limitada (quando há termo final para sua prestação), ilimitada (quando a lei não fixa um termo final), contínua (quando corrida, sem intervalos), descontínua (se tem intervalos) ou intermitente (quando com sucessivas paralisações); b) Quanto ao período – diurna (entre cinco e 22 horas), noturna (entre 22 horas de um dia e cinco do outro), mista (quando transcorre tanto no período diurno como noturno) ou em revezamento (semanal ou quinzenal, quando num período há trabalho de dia, em outro à noite). No que diz respeito às horas extras, caso a jornada de trabalho ultrapasse as oito horas diárias ou 44 horas semanais, as horas suplementares deverão ser remuneradas com acréscimo de no mínimo 50% sobre o valor da hora normal. TEMA 4 – REMUNERAÇÃO Na CLT, o tema relativo à remuneração está contido no art. 457 e seguintes. O caput desse artigo determina que: “Art. 457 – Compreendem-se na remuneração do empregado, para todos os efeitos legais, além do salário devido e pago diretamente pelo empregador, como contraprestação do serviço, as gorjetas que receber”. A remuneração deve ser paga em moeda corrente do país compreendendo o conjunto de títulos e verbas pagas ao empregado, incluído o salário em razão do contrato de trabalho e em função da prestação de serviço, bem como as gorjetas que o empregado receber. As verbas pagas ao empregado devem ser discriminadas por eventos e valores, sendo proibido o denominado salário complessivo, ou seja, aquele que não é discriminado, sendo unificado numa única verba. É importante destacar também que deve ser pago em periocidade máxima mensal, até o quinto dia útil do mês seguinte ao do vencimento. TEMA 5 – ENCARGOS TRABALHISTAS Os encargos trabalhistas compreendem todos os eventos que são devidos pelo empregador ao empregado e representam acréscimos às verbas salariais. 8 São representados por encargos sociais (FGTS, por exemplo) e encargos sociais e tributários (INSS – contribuição sobre a folha de salários, por exemplo). Além das horas extras, são encargos trabalhistas os adicionais noturnos (aplicação de 20% sobre a hora diurna para o empregado urbano (art. 73, CLT) e de 25% sobre a remuneração normal para o empregado rural) e os adicionais de insalubridade – devido ao empregado que presta serviços em atividades insalubres, sendo calculado à razão de 10% (grau mínimo), 20% (grau médio) e 40% (grau máximo) sobre o salário mínimo (art. 192, CLT), e não sobre o salário profissional. Para uma melhor discriminação dos encargos trabalhistas, pode-se relacionar os seguintes eventos: • Férias: acrescidas de 1/3 constitucional; • Décimo terceiro salário; • Descanso semanal remunerado; • Horas extras; • INSS – contribuição sobre a folha de salários e incidentes sobre todas as verbas de natureza salarial; • Contribuições para entidades paraestatais que prestam serviços sociais autônomos (SESI, SENAI etc.); • Fundo de garantia pelo Tempo de Serviço (FGTS) – acréscimo da provisão para multa em demissões sem justa causa. O FGTS constitui-se num depósito efetuado em uma conta vinculada ao trabalhador com vínculo de emprego no montante de 8% sobre sua remuneração. Sendo uma espécie de poupança compulsória, o trabalhador somente poderá dispor desse recurso em situações especiais, como na despedida sem justa causa ou para aquisição de imóvel. Carrega consigo uma indenização no percentual de 40% sobre todos os depósitos efetuados em sua conta caso a rescisão de contrato se dê por iniciativa do empregador, sem justa causa. O décimo terceiro salário consiste em uma gratificação compulsória estabelecida pela Lei n. 4090 (Brasil, 1962). Tendo natureza salarial, também tem a incidência de outros encargos, como contribuição social (contribuições previdenciárias) sobre a folha e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). 9 Horas extras são aquelas que ultrapassam a jornada normal fixada por lei, convenção coletiva, sentença normativa ou contrato individual de trabalho. Significa, em primeiro lugar, o ajuste de vontade entre empregado e empregador, tendo por fim legitimar a prorrogação da jornada normal. Em segundo lugar, significa o documento escrito no qual se materializa a vontade das partes, para o fim acima mencionado. Em relação às férias, o empregador deve observar o disposto nos arts. 130 e seguintes da CLT (Brasil, 1943). Art. 130 – Após cada período de 12 (doze) meses de vigência do contrato de trabalho, o empregado terá direito a férias, na seguinte proporção: I – 30 (trinta) dias corridos, quando não houver faltado ao serviço mais de 5 (cinco) vezes; II – 24 (vinte e quatro) dias corridos, quando houver tido de 6 (seis) a 14 (quatorze) faltas; III – 18 (dezoito) dias corridos, quando houver tido de 15 (quinze) a 23 (vinte e três) faltas; IV – 12 (doze) dias corridos, quando houver tido de 24 (vinte e quatro) a 32 (trinta e duas) faltas; § 1º – É vedado descontar, do período de férias, as faltas do empregado ao serviço; § 2º – O período das férias será computado, para todos os efeitos, como tempo de serviço. Vale destacar que o encargo efetivo em relação às férias é o relativo a 1/3 sobre seu valor. Esse acréscimo foi determinado pela Constituição Federal de 1988, como se vê: Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos erurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: XVII – gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal. O período aquisitivo das férias se dá pelo trabalho do empregado por 12 meses, sendo que o período de concessivo ou de gozo será considerado o tempo de 12 meses subsequentes ao período aquisitivo. Os encargos trabalhistas são controversos e representam para a auditoria trabalhistas não apenas procedimentos de verificação relativos a cálculos e confirmação de recolhimentos, mas também à verificação de algumas obrigações acessórias que devem ser cumpridas pelo empregador, sob pena de multas. Esse assunto será desenvolvido em outra aula. 10 REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição (1988). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 22 jul. 2021. ______. Decreto-Lei n. 5.452, de 1 de maio de 1943. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, RJ, 1 maio 1943. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452.htm>. Acesso em: 22 jul. 2021. CRC-PR – Conselho Regional de Contabilidade do Paraná. Norma Brasileira de Contabilidade – NBC PG 1, de 7 de fevereiro de 2019. Código de ética profissional do contador. Disponível em: <https://www3.crcprorg.br/crcpr/fiscalizacao/codigo-de-etica-do-contador>. Acesso em: 22 jul. 2021. Conversa inicial