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Primeiras abordagens sobre a sociedade Esta unidade identificará as primeiras teorias sobre a sociedade. Para isso irá destacar as principais metodologias de análise social, as teorias positivista e organicista e outras contribuições clássicas para a análise das sociedades. Objetivo Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: • Explicar a origem da sociologia no âmbito da lógica de funcionamento da sociedade. Conteúdo Programático Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas: • Tema 1 - Abordagens metodológicas • Tema 2 - As teorias de Comte e Spencer • Tema 3 - Outras contribuições ao pensamento sociológico Você sabe a importância da metodologia para uma ciência? Ou melhor, você sabe o que é metodologia? Pense na seguinte situação: Tema 1 Abordagens metodológicas Quais as principais abordagens metodológicas para a análise social? A Sociologia analisa o homem de modo particular, criando a perspectiva sociológica (olhar sociológico) dos fatos observados. Mas o que é pensar sociologicamente? O que é construir um olhar sociológico? A Sociologia não é opinião nem expressão do senso comum. Ela busca a verdade dos fatos desenvolvendo senso crítico. Leitura Para aprofundar seu conhecimento sobre a diferença entre senso comum e senso crítico e como entender a Sociologia como uma ciência que usa a estratégia para a busca da verdade, estude, agora, no livro: DIAS, Reinaldo. Sociologia. São Paulo: Pearson/Prentice Hall. 2012 - ISBN 978-85-64574-35-9, a unidade 1 “A sociologia em busca da verdade” (p.27-35). Você poderá encontrá-lo na Biblioteca Virtual. Por isso transforma questões, fatos, problemas sociais em sociológicos na medida em que mobiliza um aparato metodológico e conceitual a fim de investigar as causas e as consequências dos temas abordados. Saiba Mais Como diz Barreira (2009, p.30): Um tema não pode ser tratado sem o recurso a conceitos e a teorias sociológicas, senão se banaliza, vira senso comum, conversa de botequim. (BRASIL, 2008, p. 117). Talvez, uma das tarefas mais difíceis (...) da Sociologia seja a de romper com a ideia sedimentada de que lidar com pessoas carentes e ter sensibilidade para “problemas sociais” não conferem créditos suficientes para o exercício e o domínio dessa área do conhecimento. A Sociologia exige, como toda ciência, o manejo de conceitos e posturas teóricas capazes de explicar o funcionamento da sociedade, em diversos aspectos históricos e cotidianos. Visa contribuir, através de: Na época de sua formação, os primeiros teóricos da Sociologia combatiam as posições idealista e individualista do século XIX, que colocavam em jogo a própria existência de um ente chamado sociedade como meio de influência do comportamento dos indivíduos e de ordenação da vida coletiva. Não aceitavam que tudo que existia na sociedade era produto das ideias e dos desejos individuais. Deveria haver outra explicação. Isso permitiu a construção de duas grandes linhas de compreensão da vida social e, com elas, diversas abordagens sobre a sociedade e seus problemas. Importante Todos os sociólogos são unânimes em considerar que existe um padrão coletivo de ação, ou seja, uma sociedade organizada, porém divergem quanto à forma. Por isso é possível identificar entre os autores clássicos, modernos e contemporâneos da Sociologia, duas grandes linhas do pensamento sociológico, duas correntes metodológicas: a coletivista e a individualista, e que poderiam ser desmembradas em três grandes correntes e diversas teorias, diferenciadas a partir de temas e conceitos- chave. Conheça as principais abordagens metodológicas da sociedade conforme temas e autores. Temas Linhas metodológicas do pensamento sociológico Coletivista Individualista Sociedade Existe independente de ações individuais racionais. Ela não pode reduzir-se à soma da vontade particular de cada indivíduo que dela faz parte. É um produto novo e diferente. É a soma das ações (e motivações) de múltiplos indivíduos. Neste caso, as ações dos indivíduos e suas motivações são importantes para definir a forma que terá uma sociedade, pois ela só existe através da conexão dos indivíduos. Indivíduo Está sujeito às regras da sociedade. Grande parte de suas ações é resultado de forças sociais que não controla. Ou seja, seu comportamento em diversas situações sociais pode ser condicionado por forças políticas e econômicas, pelas relações sociais que estabelece e por padrões culturais. É considerado um agente criativo que controla ativamente sua vida. Os indivíduos é que determinam os rumos de uma sociedade. Suas ações e motivações influenciam a sociedade. Conceito- chave Estrutura/sistema Ação Meta Analisar como a sociedade mantém o consenso, a ordem social. Analisar o que causa o conflito entre as classes e grupos sociais. Analisar as motivações culturais contidas nas ações sociais/interações sociais dos indivíduos. Principais representantes Saint-Simon, Comte, Spencer, Émile Durkheim, Talcott Parsons, Robert Merton Karl Marx, Althusser, Gramsci, Habermas, Marcuse, Pierre Bourdieu Analisar as motivações culturais contidas nas ações sociais/interações sociais dos indivíduos. Na abordagem coletivista, a mais frequente entre os analistas sociais, também se destacam as abordagens sistêmica e holística. Leitura Para aprofundar seu conhecimento sobre as visões sistêmica e holística de analisar a sociedade, estude, agora, no livro: DIAS, Reinaldo. Sociologia. São Paulo: Pearson/Prentice Hall. 2012 - ISBN 978-85-64574-35-9, a unidade 1 “Abordagem sistêmica dos problemas sociais” (p.7-9). Você poderá encontrá-lo na Biblioteca Virtual. file:///C:/Users/Isabelle%20N%20Martins/Desktop/UVA/Nova%20graduacao/SOC/re/u2/tema-1.htm%23popup-1 Tema 2 As teorias de Comte e Spencer Qual a forma de abordar a sociedade presente nas teorias de Comte e Spencer? Desde as primeiras tentativas científicas de analisar as enormes transformações e desafios da sociedade capitalista, cada pensador clássico desenvolveu sua própria visão da realidade, de modo sistemático, metódico, coerente e guiado por um aparato teórico-conceitual. Assim Foi o caso dos estudos do francês Auguste Comte (1798-1857) e do inglês Herbert Spencer (1820-1903). Auguste Comte questionava os rumos da sociedade capitalista do século XIX, considerando que os valores familiares e religiosos haviam perdido a força diante da intensa busca por um desenvolvimento tecnológico e econômico que vinha acompanhado por diversos problemas sociais. Isso poderia provocar a desintegração social. Saiba Mais A importância na atualidade desses pensadores ainda reside no fato de que suas visões, tidas como conservadoras sobre a sociedade – pela busca da ordem, do controle e da estabilidade social –, ainda fundamentam a forma como diversas institituições e organizações sociais lidam com os problemas, os indivíduos e com sua atuação no ambiente social. É o caso, por exemplo, de algumas entidades vinculadas à segurança e à educação, que buscam a ordem como sustentação, e à economia e suas organizações produtivas, que visam o equilíbrio sistêmico e a sobrevivência em seu contexto de referência. Vale também lembrar que ambos usam termos como “equilíbrio”, “homogeneidade”, “heterogeneidade”, “crescimento” e “aperfeiçoamento”, ainda vigente na atualidade. Em sua concepção, era importante que a sociedade fosse em busca da promoção de valores para satisfazer: 1º Ordem necessária 2º Progresso do capitalismo “o amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim” Em termos material, intelectual, moral eafetivo – como a busca pelo altruísmo. Isso seria identificado em instituições sociais modernas, como a educação e a lei. Leitura Para aprofundar seu conhecimento sobre o papel do positivismo e a sociologia no Brasil, estude, agora, no livro: DIAS, Reinaldo. Sociologia. São Paulo: Pearson/Prentice Hall. 2012 - ISBN 978-85- 64574-35-9, a unidade 1 (p.20-27). Você poderá encontrá-lo na Biblioteca Virtual. Segundo Comte, a sociedade estava desorganizada e os problemas sociais eram produtos da ausência de valores coletivistas, solidários e altruístas. Era preciso, portanto, modificar as seguintes instituições sociais: Era preciso aumentar a presença de autoridade, hierarquia, tradição e valores morais nas relações sociais. Vale destacar que Comte era um pensador que valorizava o planejamento para chegar ao bem-estar social e considerava que a elite dirigente da sociedade deveria ser formada por cientistas. Vídeo Para saber mais sobre a o vínculo da teoria positivista de Comte com o modelo de sociedade e organizações sociais formais disciplinadoras, assista agora ao vídeo: Uma sociedade da ordem e do progresso. Clique na imagem para visualizar o vídeo. Então, segundo Comte, na lógica positivista, o que fazer para evitar o caos social? Resposta: Investigar a causa dos fenômenos. A valorização do saber sistematizado como meio para responder aos problemas sociais (e como tal para reorganizar a sociedade) também foi uma contribuição do pensador. E como ele chegou a isso? https://player.vimeo.com/video/344799132?badge=0&autopause=0&player_id=0&app_id=58479 Para Comte, a humanidade passou por três estados (estágios) de concepção abstrata sobre os fenômenos: Teológico Marcado pela presença de Deus/agentes sobrenaturais. Estes eram a resposta e a explicação para todos os fenômenos que aconteciam na sociedade e na vida do homem. Envolvia ideias como “ As coisas acontecem dessa forma porque foi Deus quem quis assim. ” Esse estado se apresentou em seu aspecto de animismo (objetos que têm força interna), politeísmo (crença em mais de uma divindade) e monoteísmo (crença em uma única divindade). Metafísico Marcado pela descrença em uma divindade. Os fenômenos são explicados por suas próprias causas internas ou por uma única causa, tais como forças ocultas, entidades metafísicas, qualidades ocultas, e que geram verdades absolutas, com o uso de abstrações e pensamentos circulares. Assim, se reificam ideias como: “ O fenômeno acontece dessa forma porque sempre foi assim, é parte dele e não por uma causa divina ou natural. ” Reificam - Transformam ideias em coisas, ou seja, ganham força material, autonomia diante do sujeito que a cria. Elas se tornam mais importantes do que o contexto ou quem as criou. Positivo Fase do declínio de formas não científicas de conhecimento e que busca uma visão global da realidade, trabalhando mediante hipóteses e leis gerais. Busca também investigar os fenômenos através de um mecanismo de observação da estática social e da dinâmica social. Nesse sentido, a ideia que se coloca é: “ O fenômeno acontece dessa forma porque sempre foi assim, é parte dele e não por uma causa divina ou natural. ” Estática social - Primeiro era preciso analisar a organização ou a ordem social (ou seja, observando quais seriam as condições da vida social, como ela se caracterizava). Dinâmica social - Depois o pesquisador deveria estudar a mudança ou o progresso social (verificando como evoluía uma sociedade). Outro importante pensador da realidade social foi Herbert Spencer. Ele foi adepto do biologismo sociológico, que compreendia, em termos de analogia, a sociedade como um organismo. Daí o uso de termos como: Função social Regulação Assimilação Circulação Diferenciação Divisão do trabalho Equilíbrio Órgãos Organismos Corpo Saiba Mais O pensamento positivista propagava uma grande crença no poder do saber sistematizado e no ensino especializado. Por isso as reformas educacionais no início da república brasileira (como a Reforma Benjamin Constant) tiveram grande orientação positivista com uma organização curricular que privilegiava as ciências como astronomia, física, química, matemática, biologia, sociologia e moral, em detrimento de um currículo humanista. Durante o Regime Militar no Brasil a presença da disciplina Moral e Cívica expressava também essa ideia de busca da ordem social. Por isso Spencer buscou investigar como funcionava, crescia e se diferenciava esse “organismo”. Ele entendia que era preciso estabelecer de forma equilibrada a interdependência funcional entre as partes especializadas da sociedade, cada qual atuante em sua tarefa, coordenando sua área de atuação com outras partes. Isso porque Spencer via a sociedade como um “corpo social”, formado por unidades- chave: Organizações, instituições sociais = órgãos (reunião de células). Indivíduos = células que se concentram em suas funções para manter a regularidade do organismo. A ideia é que cada parte existe para atender a uma necessidade. Uma parte depende da outra, criando uma interdependência, na qual uma pode gerar – por não executar bem sua função – a disfuncionalidade da outra e de todo o corpo. Fala-se hoje da importância de Spencer na fundamentação do pensamento neoliberal na economia e na política, em função de sua visão evolucionista e darwinista no aspecto social. Saiba Mais Marcado pelo pensamento evolucionista do século XIX, Spencer era contribuinte da ideia de um darwinismo social, segundo a qual as sociedades (e suas partes, como as organizações econômicas) com características vantajosas, ou seja, as mais aptas – tal qual os elementos da natureza e os indivíduos na teoria de Charles Darwin – passavam por um processo de seleção natural de sobrevivência das mais fortes, que reproduziam seus modelos, a outras menos aptas. Nessa competição de sociedades, grupos e indivíduos sobreviviam os mais fortes. Por isso era favorável ao mercado, ao liberalismo e ao individualismo e crítico da interferência do Estado, retratado em seu clássico O homem contra o Estado, de 1884. Para maior aprofundamento da relação de Spencer com o neoliberalismo de Heik e Friedman, leia a seção 4 – O darwinismo social ou Darwin submetido à luneta de Spencer, de Alceu Ravanello Ferraro, em Neoliberalismo e políticas sociais: a naturalização da exclusão. Estudos Teológicos. Vol. 45, nº 1, 2005, p. 99. http://est.tempsite.ws/periodicos/index.php/estudos_teologicos/article/view/532/493 http://est.tempsite.ws/periodicos/index.php/estudos_teologicos/article/view/532/493 Tema 3 Outras contribuições ao pensamento sociológico Que outras teorias sociológicas contribuíram para o entendimento da sociedade nessa fase de desenvolvimento do capitalismo? Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, muitos sociólogos investigaram problemas que afetavam a realidade social urbana, produzindo tanto estudos de: Saiba mais Sociedade organizacional Formada por organizações formais (empresas, escolas, presídios, hospitais) criadas para atender a necessidades individuais e sociais. Um desses primeiros trabalhos é do alemão Ferdinand Tonnies (1855-1936). Fundador da Sociedade Alemã de Sociologia (em 1909), destaca em seu estudo “Comunidade e Sociedade” (1887) dois tipos básicos de “relações sociais”: Comunidade Formada por laços mais naturais, afetivos e espontâneos, dando o sentido de pertencimento, como a família. Sociedade Fundada em laços de racionalidade, mais impessoais, objetivos e formais, como o Estado, a empresa.Leitura Para aprofundar seu conhecimento sobre comunidade e sociedade, estude, agora, no livro: DIAS, Reinaldo. Sociologia. São Paulo: Pearson/Prentice Hall. 2012 - ISBN 978-85-64574-35-9, a unidade “Comunidade e sociedade?” (p.107-108). Você poderá encontrá-lo na Biblioteca Virtual. Tonnies, inclusive, caracterizava a sociedade como uma estrutura social. Veja o esquema explicativo: Segundo Tonnies, a frágil coesão social que ele verificava na época era produto do declínio da ideia de comunidade em detrimento da sociedade em franco crescimento. Esses conceitos nos permitem analisar um fenômeno contemporâneo que se refere ao crescimento das relações sociais informais, dentro de organizações formais (empresas, hospitais, organismos públicos) quando estas tendem a se burocratizar e privilegiar as estruturas formais, impersonalistas, generalistas, presas a regulamentos, procedimentos e regras. Na medida em que há a presença do excesso de formalismo, como a buropatologia, os indivíduos tendem a criar grupos informais e fortalecer o laço de comunidade dentro de um cenário societário e estruturado. Isso pode colocar o grupo em conflito com os interesses gerais da organização. Não é por menos a presença hoje de variadas estratégias de gestão para disseminar entre todos os membros da organização sua cultura, procurando unificar valores, crenças, normas e interesses (cultura organizacional). Saiba mais Relações sociais informais Grupos informais nos quais há laços pessoais de amizade, cumplicidade e fidelidade. Impersonalistas Quando a estrutura formal de um ambiente de trabalho tende a tratar seus membros como números e não como pessoas com suas necessidades. Buropatologia Um excessivo apego à burocracia. Interacionistas simbólicos Também merecem destaque, no corpo da Sociologia norte-americana, os estudos dos chamados interacionistas simbólicos. Dica Esses estudos se iniciaram na chamada Escola de Chicago, com os trabalhos de George Herbert Mead (1863-1931), Charles M. Cooley (1864- 1929) e Herbert G. Blumer (1900-1987). A esse grupo soma-se o trabalho do canadense Erving Goffman (1922-1982). Para saber mais leia: • FREHSE, Fraya. Erving Goffman, sociólogo do espaço. Revista brasileira de Ciências Sociais. Vol.23, nº68, São Paulo: outubro, 2008. • MARTINS, Carlos Benedito. A contemporaneidade de Erving Goffman no contexto das ciências sociais. Revista brasileira de Ciências Sociais Vol.26, nº77, São Paulo: outubro, 2011. • CARVALHO, V.D.; BORGES, L.O.; RÊGO, D.P. Interacionismo simbólico: origens, pressupostos e contribuições aos estudos em Psicologia Social. Psicologia: Ciência e profissão. Vol.30, nº1, Brasília: 2010. De acordo com os interacionistas, as pessoas interagem a partir da interpretação e dos significados que dão aos gestos simbólicos, ou seja, o que falamos, nossas expressões faciais e corporais e toda uma gama de sinais que emitimos devem ser interpretados, pois carregam um significado. A vida em sociedade é mediada por gestos e símbolos. Dependendo do significado que expressam no cotidiano, eles geram um tipo de relação social com consequências na vida social como um todo. Precisamos então compreender: O sentido de cada gesto simbólico. O sentido de cada gesto simbólico. O sentido de cada gesto simbólico. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092008000300014 http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092008000300014 http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092011000300019 http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092011000300019 http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932010000100011 “ Estamos constantemente criando imagens de nós e dos outros. TURNER, 1999 ” Considere a importância dessas reflexões em um mundo pleno de símbolos, uma sociedade marcada pelo contato social virtual e cercada por imagens. Como agir? E no ambiente de trabalho? Como lidar com isso? É importante compreender o que está por trás das “máscaras sociais” que criamos em nossos espaços sociais e de trabalho. Ler as “impressões” que o outro quer deixar em seus gestos (amizade, autoridade, respeito etc.) durante as interações. Mesmo os pequenos gestos, como fitar excessivamente alguém, podem gerar efeitos inesperados. Observação Essa interpretação dos gestos nas interações sociais é destacada por Erving Goffman em seu livro A Representação do Eu na Vida Cotidiana (1959), para quem o mundo é um teatro e cada um de nós, individualmente ou em grupos, somos atores que atuamos em roteiros/scripts abertos, seguinto ritos interpessoais. Diz que: No exercício dessa cortesia (...) Quando duas pessoas polidas passam na rua, a desatenção à civilidade pode tomar a forma especial de olhar dois metros acima do outro, espaço de tempo durante o qual a vista corre entre os dois lados da rua e, então, baixam-se os olhos, enquanto o outro passa – uma espécie de “baixar os faróis”(...). (GOFFMAN, 1963, p. 84 apud BROOM, Selznick; 1979, p. 22). Em cada situação carregamos crenças, estado de espírito e interpretações que influenciam a forma como significamos nossas ações e as de outros. A interpretação é sempre contextual e parte da subjetividade. Assim, a pessoa interpreta e age criando normas de ação que podem se repetir em situações similares. Nesse processo interpretativo o perigo é a manipulação da interpretação do outro, ou seja, dar significado a certas ações e gestos e, a partir disso, catalogar as pessoas por esses critérios e atributos. Segundo Erving Goffman, podemos acabar criando um modelo social de indivíduo com o qual interagimos, marcando um “estigma” em sua conduta. Nos anos de 1960, a abordagem da etnometodologia se vinculou aos interacionistas, tendo Harold Garfinkel (1917-2011) como principal expressão. Importante Goffman distingue três tipos de estigma: as deformações físicas (deficiências motoras, auditivas, visuais, desfigurações do rosto), os desvios de caráter (distúrbios mentais, vícios, dependências, doenças associadas ao comportamento sexual, reclusão prisional) e estigmas tribais (relacionados com a pertença a uma raça, nação ou religião). (...) interessa sobretudo analisar as relações que se estabelecem entre os estigmatizados e os "normais". Os contatos sociais com o portador de um estigma tendem a enfermar de (...) por exemplo, não saber como reagir, se olhar ou não diretamente para o defeito visível, se auxiliar ou não a pessoa, se contar ou não uma anedota acerca desse "tipo" de pessoa. Qualquer que seja a conduta adotada, por ambas as partes, haverá, muitas vezes, a sensação de que o outro é capaz de ler significados não intencionais nas nossas ações. Verbete Estigma (Sociologia). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. Para esses autores a questão central envolve as interações sociais, tanto nos grupos primários como nos secundários, e como as pessoas lidam no dia a dia com as relações que estabelecem em diversas situações. http://www.infopedia.pt/$estigma-%28sociologia%29 http://www.infopedia.pt/$estigma-%28sociologia%29 Saiba mais O interesse maior [...] se volta para as atividades práticas e, em particular, o raciocínio prático, quer seja profissional ou não. A etnometodologia é a pesquisa empírica dos métodos que os indivíduos utilizam para dar sentido e ao mesmo tempo realizar as suas ações de todos os dias: comunicar-se, tomar decisões, raciocinar. Para os etnometodólogos, a etnometodologia será, portanto, o estudo dessas atividades cotidianas, quer sejam triviais ou eruditas (...). (GARFINKEL, 1967 apud COULON, 1995, p.30). Leitura Para aprofundar seu conhecimento sobre as interações sociais, estude, agora, no livro: DIAS, Reinaldo. Sociologia. São Paulo: Pearson/PrenticeHall. 2012 - ISBN 978-85-64574-35-9, a unidade 3 “Grupos primários e grupos secundários” (p.105-107). Você poderá encontrá-lo na Biblioteca Virtual. Encerramento Quais as principais abordagens metodológicas para a análise social? A Sociologia desenvolveu duas grandes abordagens metodológicas: a coletivista e a individualista, que diferem entre si quanto à visão do papel do indivíduo na sociedade. Enquanto a primeira tende a colocar o indivíduo subordinado à estrutura e ao sistema social em que vive, a outra garante maior autoria ao sujeito, considerando a motivação de suas ações sociais no ambiente coletivo. Também se destacam na coletivista uma abordagem sistêmica que analisa o todo e as partes com igual valor e uma abordagem holística preocupada com a visão geral da sociedade. Qual a forma de abordar a sociedade presente nas teorias de Comte e Spencer? Comte analisa a sociedade a partir da busca do progresso mediante um processo de integração social através da ordem. Era, pois, preciso conhecer – mediante a ciência – e identificar as formas de manter a ordem social. O pressuposto é que a sociedade vive um consensus, ou seja, seus fenômenos sociais estão intimamente ligados e interligados. Para isso seria preciso investigar a sociedade em seu aspecto estático e dinâmico. Para Spencer, era preciso observar a sociedade como um organismo no qual cada parte cumpre uma função social. Ele também considerava que as partes estavam interligadas em interdependência funcional. Que outras teorias sociológicas contribuíram para o entendimento da sociedade nessa fase de desenvolvimento do capitalismo? Diversas teorias foram e ainda são produzidas pela Sociologia. Mas merecem destaque aquelas no âmbito da microssociologia, por sua presença ainda na contemporaneidade, mesmo que sob outra roupagem: como o caso dos estudos do alemão Tonnies e dos interacionistas simbólicos norte-americanos. Resumo da Unidade Nesta unidade, foi apresentada a Sociologia como uma ciência que gerou diversas teorias e pensadores, a partir de duas grandes linhas metodológicas: a coletivista (que aborda os fenômenos sociais a partir do critério coletivo) e a individualista (que confere ao indivíduo maior participação na sociedade). Também se destacam na corrente coletivista: a abordagem sistêmica (que analisa o todo e as partes com igual valor) e a holística (preocupada com a visão geral da sociedade). Como parte da perspectiva coletivista estão os trabalhos de Auguste Comte (que criou o Positivismo, um saber fundamentado na valorização da ciência) e de Herbert Spencer (que trata a sociedade como um organismo que precisa estar em constante processo de regulação de suas partes, cada qual cumprindo uma função no corpo social). Finalmente foram identificadas outras abordagens teóricas como o interacionismo simbólico, a etnometodologia e o estudo de comunidade de Tonnies.