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Indaial – 2021 Psicologia da Educação E da aPrEndizagEm Prof. Kevin Daniel dos Santos Leyser 2a Edição Copyright © UNIASSELVI 2021 Elaboração: Prof. Kevin Daniel dos Santos Leyser Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: L685p Leyser, Kevin Daniel dos Santos Psicologia da educação e da aprendizagem. / Kevin Daniel dos Santos Leyser – Indaial: UNIASSELVI, 2021. 333 p.; il. ISBN 978-65-5663-661-0 ISBN Digital 978-65-5663-662-7 1. Educação. - Brasil. 2. Psicologia. – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 370 aPrEsEntação Caro acadêmico, este Livro Didático é sobre a psicologia da educação e da aprendizagem. É um campo de estudos relativamente jovem que experimentou um enorme crescimento nos últimos anos. A psicologia educacional envolve o estudo de como as pessoas aprendem, incluindo métodos de ensino, processos instrucionais e diferenças individuais na aprendizagem. O objetivo é entender como as pessoas aprendem e retêm novas informações. Esse ramo da psicologia envolve não apenas o processo de aprendizagem da primeira infância e adolescência, mas inclui os processos sociais, emocionais e cognitivos que estão envolvidos na aprendizagem ao longo de toda a vida. O campo da psicologia educacional e da aprendizagem incorpora uma série de outras disciplinas, incluindo psicologia do desenvolvimento, psicologia comportamental e psicologia cognitiva. Como acontece com outras áreas da psicologia, os pesquisadores da psicologia educacional e da aprendizagem tendem a assumir diferentes perspectivas ao considerar um problema. Essas perspectivas se concentram em fatores específicos que influenciam como uma pessoa aprende, incluindo comportamentos aprendidos, cognição, experiências e muito mais. Desde os materiais que os professores usam até as necessidades individuais dos alunos, um psicólogo educacional se aprofundará nessas questões para compreender mais plenamente o processo de aprendizagem. Na unidade 1 deste Livro Didático, você aprenderá, no primeiro tópico, a identificar atributos de professores eficazes, a descrever o papel da pesquisa educacional em informar a prática de sala de aula e a discutir como você pode se tornar um professor intencional. No segundo tópico, sobre o desenvolvimento cognitivo, você aprenderá as teorias de desenvolvimento humano de Piaget, Vygotsky e Bronfenbrenner e discutir como elas podem ser aplicadas em sala de aula. Além disso, você aprenderá os distintos estágios de linguagem e explicar como pode configurar sua sala de aula para promover o desenvolvimento do letramento. Já no terceiro tópico, você estudará diferentes visões sobre o desenvolvimento social, emocional e moral. Nessa jornada de aprendizagem, identificaremos os estágios do desenvolvimento social e emocional das crianças e aplicaremos este conhecimento para resolução de problemas em sala de aula. Todos esses conhecimentos visam informar uma prática de ensino intencional. Na unidade 2, Psicologia da Aprendizagem, você aprenderá sobre as teorias comportamentais e sociais da aprendizagem. O objetivo desse tópico é definir a aprendizagem e, em seguida, apresentar teorias de aprendizagem comportamentais e sociais, explicações para a aprendizagem que enfatizam comportamentos observáveis. No segundo tópico, o foco será as teorias cognitivas da aprendizagem que descrevem como as informações são recebidas e processadas na mente, como funcionam a memória e o esquecimento e como você pode ajudar seus alunos a compreender e lembrar informações, habilidades e ideias críticas. No terceiro tópico, você conhecerá as abordagens de ensino-aprendizagem centrada no aluno e construtivista. A última unidade deste Livro Didático é sobre os elementos de ensino- aprendizagem efetivos, a motivação e o ambiente. No primeiro tópico, você estudará os agrupamentos e a diferenciação. Vamos explorar juntos vários modelos de ensino-aprendizagem que orientam estratégias de agrupamento dos alunos e diferenciação nas instruções. No segundo tópico, o foco será a motivação para a aprendizagem. Esse tópico apresenta muitas maneiras pelas quais você pode aumentar o desejo dos alunos de aprender o material acadêmico e as teorias e pesquisas por trás de cada método. Finalmente, no terceiro tópico, exploraremos os ambientes de aprendizagem efetiva. Esse tópico enfoca o uso eficaz do tempo, a criação de ambientes de aprendizagem eficazes, o gerenciamento da sala de aula e a disciplina. Desejo uma boa jornada a todos, rumo à edificação da educação e sucesso frente aos desafios intelectuais, éticos e pessoais proporcionados pelo estudo da Psicologia da Educação e da Aprendizagem. Prof. Kevin Daniel dos Santos Leyser Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novi- dades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagra- mação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilida- de de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assun- to em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complemen- tares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE sumário UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO ............................................................................ 1 TÓPICO 1 — PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO ....................... 3 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 3 2 O QUE FAZ UM BOM PROFESSOR? ............................................................................................. 5 2.1 CONHECIMENTO DO CONTEÚDO E HABILIDADES PEDAGÓGICAS .......................... 6 2.2 DOMÍNIO DE HABILIDADES PEDAGÓGICAS ...................................................................... 7 2.3 O BOM ENSINO PODE SER ENSINADO? ................................................................................ 8 2.4 O PROFESSOR INTENCIONAL ..................................................................................................9 2.5 HABILIDADES DO SÉCULO XXI .............................................................................................. 13 3 QUAL É O PAPEL DA PESQUISA EM PSICOLOGIA EDUCACIONAL? ............................ 15 3.1 O OBJETIVO DA PESQUISA EM PSICOLOGIA EDUCACIONAL ..................................... 16 3.2 O IMPACTO DA PESQUISA NA PRÁTICA EDUCACIONAL ............................................ 20 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 23 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 24 TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO .................................................................... 27 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 27 2 COMO AS CRIANÇAS SE DESENVOLVEM COGNITIVAMENTE? ................................... 28 3 COMO PIAGET COMPREENDEU O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO? .................... 30 3.1 COMO OCORRE O DESENVOLVIMENTO ............................................................................. 31 3.2 ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO DE PIAGET ............................................................... 32 3.3 COMO O TRABALHO DE PIAGET É VISTO HOJE? ............................................................. 40 4 COMO VIGOTSKI COMPREENDEU O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO? .............. 42 4.1 COMO OCORRE O DESENVOLVIMENTO ............................................................................. 43 5 COMO BRONFENBRENNER COMPREENDEU O DESENVOLVIMENTO? ..................... 45 6 COMO SE DESENVOLVEM A LINGUAGEM E O LETRAMENTO? .................................... 47 RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 52 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 54 TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL ............................. 57 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 57 2 ALGUMAS PERSPECTIVAS SOBRE DESENVOLVIMENTO PESSOAL E SOCIAL ......................................................................................................................... 58 2.1 ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL DE ERIKSON .............................. 59 2.1.1 Estágio I – Confiança versus Desconfiança (do nascimento aos 18 meses) .................. 59 2.1.2 Estágio II – Autonomia versus vergonha/dúvida (18 meses a 3 anos) .......................... 59 2.1.3 Estágio III – Iniciativa versus culpa (3 a 6 anos) ............................................................... 60 2.1.4 Estágio IV – Diligência versus inferioridade (6 a 12 anos) ............................................. 60 2.1.5 Estágio V – Identidade versus confusão de identidade/papel (12 a 18 anos) .............. 60 2.1.6 Estágio VI – Intimidade versus isolamento (19 a 40 anos) .............................................. 61 2.1.7 Estágio VII – Generatividade versus estagnação/autoabsorção (meia-idade, 41 a 65 anos)................................................................................................... 61 2.1.8 Estágio VIII – Integridade versus desespero (velhice, após os 65 anos) ....................... 61 2.2 IMPLICAÇÕES E CRÍTICAS DA TEORIA DE ERIKSON ...................................................... 62 3 ALGUMAS PERSPECTIVAS SOBRE O DESENVOLVIMENTO MORAL ........................... 62 3.1 TEORIA DO DESENVOLVIMENTO MORAL DE PIAGET ................................................... 63 3.2 ESTÁGIOS DE RACIOCÍNIO MORAL DE KOHLBERG ....................................................... 65 4 COMO AS CRIANÇAS SE DESENVOLVEM SOCIAL E EMOCIONALMENTE? .................................................................................................................... 69 4.1 DESENVOLVIMENTO SOCIOEMOCIONAL DURANTE OS ANOS PRÉ-ESCOLARES ....................................................................................................... 70 4.2 DESENVOLVIMENTO SOCIOEMOCIONAL DURANTE OS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL ............................................................. 72 4.3 DESENVOLVIMENTO SOCIOEMOCIONAL DURANTE OS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO .................................................... 77 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 87 RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 91 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 93 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 95 UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM .............................................................. 105 TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM .............................................................................................. 107 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 107 2 O QUE É A APRENDIZAGEM? .................................................................................................... 108 2.1 O QUE SÃO AS TEORIAS DA APRENDIZAGEM DO COMPORTAMENTO? ............................................................................................................... 110 2.1.1 Pavlov: condicionamento clássico ................................................................................... 110 2.1.2 Skinner: condicionamento operante ............................................................................... 111 2.2 QUAIS SÃO ALGUNS PRINCÍPIOS DA APRENDIZAGEM COMPORTAMENTAL? ............................................................................................................. 112 2.2.1 O papel das consequências ............................................................................................... 112 2.2.2 Reforçadores ....................................................................................................................... 113 2.2.3 Punidores ............................................................................................................................ 117 2.2.4 Imediatismo das consequências ...................................................................................... 119 2.2.5 Modelagem ......................................................................................................................... 119 2.2.6 Extinção ............................................................................................................................... 120 2.2.7 Esquemas de reforçamento .............................................................................................. 122 2.2.8 Manutenção ........................................................................................................................ 125 2.2.9 O papel dos antecedentes ................................................................................................. 125 3 COMO A TEORIA DA APRENDIZAGEM SOCIAL CONTRIBUIU PARA A NOSSA COMPREENSÃO DA APRENDIZAGEM HUMANA? ........................... 128 3.1 BANDURA: MODELAGEM E APRENDIZAGEM OBSERVACIONAL ............................ 128 3.2 MODELO DE APRENDIZAGEM AUTORREGULADA DE MEICHENBAUM ............... 132 4 PONTOS FORTES E LIMITAÇÕES DAS TEORIAS DE APRENDIZAGEM COMPORTAMENTAL ...................................................................................................................133 RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 135 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 137 TÓPICO 2 — TEORIAS COGNITIVAS DE APRENDIZAGEM ............................................... 139 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 139 2 O QUE É UM MODELO DE PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÕES?........................... 141 2.1 PROCESSAMENTO EXECUTIVO ........................................................................................... 142 2.2 REGISTRO SENSORIAL ............................................................................................................ 143 2.3 MEMÓRIA DE TRABALHO (OU DE CURTO PRAZO) ...................................................... 145 2.4 MEMÓRIA DE LONGO PRAZO ............................................................................................. 147 2.4.1 Memória episódica ........................................................................................................... 149 2.4.2 Memória semântica .......................................................................................................... 150 2.4.3 Memória procedural ......................................................................................................... 151 2.5 FATORES QUE MELHORAM A MEMÓRIA DE LONGO PRAZO.................................... 152 3 O QUE FAZ AS PESSOAS LEMBRAREM OU ESQUECEREM? ........................................... 152 3.1 ESQUECENDO E LEMBRANDO ............................................................................................ 153 3.2 A PRÁTICA.................................................................................................................................. 156 4 ENSINANDO ESTRATÉGIAS DE MEMÓRIA E METACOGNITIVAS ............................ 157 4.1 APRENDIZAGEM VERBAL ..................................................................................................... 158 4.2 COMO AS HABILIDADES METACOGNITIVAS AJUDAM OS ALUNOS A APRENDER? ................................................................................................... 159 4.3 QUE ESTRATÉGIAS DE ESTUDO AJUDAM OS ALUNOS A APRENDER? ........................................................................................................................... 160 5 COMO AS ESTRATÉGIAS DE ENSINO COGNITIVO AJUDAM OS ALUNOS A APRENDER? ....................................................................................................... 163 5.1 TORNANDO O APRENDIZADO RELEVANTE E ATIVANDO O CONHECIMENTO PRÉVIO ................................................................................................. 164 5.2 ORGANIZAÇÃO DE INFORMAÇÕES .................................................................................. 167 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 169 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 172 TÓPICO 3 — ABORDAGENS DE ENSINO-APRENDIZAGEM CONSTRUTIVISTAS E CENTRADAS NO ALUNO ......................................... 175 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 175 2 QUAL É A VISÃO CONSTRUTIVISTA DE APRENDIZAGEM? ......................................... 177 2.1 RAÍZES HISTÓRICAS DO CONSTRUTIVISMO ................................................................... 177 2.2 PROCESSAMENTO TOP-DOWN ............................................................................................ 179 2.3 INTERAÇÃO ENTRE PARES ................................................................................................... 181 2.4 APRENDIZAGEM POR DESCOBERTA ................................................................................. 181 2.5 APRENDIZAGEM AUTORREGULADA ................................................................................ 182 2.6 ANDAIME ................................................................................................................................... 182 3 COMO A APRENDIZAGEM COOPERATIVA É USADA NO ENSINO? ........................... 183 3.1 MÉTODOS DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA............................................................. 184 3.2 PESQUISA SOBRE APRENDIZAGEM COOPERATIVA ...................................................... 189 4 COMO SÃO ENSINADAS AS HABILIDADES DE RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS? .. 191 4.1 O PROCESSO DE RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS .............................................................. 191 4.2 ENSINANDO SOLUÇÃO CRIATIVA DE PROBLEMAS ..................................................... 193 4.3 ENSINANDO HABILIDADES DE PENSAMENTO ............................................................. 195 4.4 PENSAMENTO CRÍTICO ......................................................................................................... 198 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 199 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 204 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 206 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 209 UNIDADE 3 — ELEMENTOS DE ENSINO-APRENDIZAGEM EFETIVOS: MOTIVAÇÃO E AMBIENTE ........................................................ 219 TÓPICO 1 — AGRUPAMENTOS E DIFERENCIAÇÃO ............................................................ 221 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 221 2 QUAIS SÃO OS ELEMENTOS DE UM ENSINO EFICAZ ALÉM DE UMA BOA AULA? ....................................................................................................... 222 2.1 MODELO DE APRENDIZAGEM ESCOLAR DE CARROLL E MODELO QAIT ....................................................................................................................... 223 3 COMO OS ALUNOS SÃO AGRUPADOS PARA ACOMODAR AS DIFERENÇAS DE DESEMPENHO? ..................................................................................... 227 3.1 AGRUPAMENTO DE HABILIDADES ENTRE TURMAS ................................................... 229 3.2 DESRASTREAR .......................................................................................................................... 231 3.3 REAGRUPAMENTO PARA LEITURA E MATEMÁTICA ................................................... 232 3.4 AGRUPAMENTO POR HABILIDADES DENTRO DA TURMA ........................................ 232 3.5 RETENÇÃO ................................................................................................................................. 234 4 QUAIS SÃO ALGUMAS FORMAS DE DIFERENCIAR O ENSINO? ................................. 235 4.1 ENSINO DIFERENCIADO E PERSONALIZADO ................................................................ 235 4.2 TUTORIA ENTRE PARES ......................................................................................................... 236 4.3 TUTORIA POR PROFESSORES ............................................................................................... 237 5 QUE PROGRAMAS EDUCACIONAIS EXISTEM PARA OS ALUNOS EM RISCO? ............................................................................................................. 239 RESUMO DO TÓPICO 1...................................................................................................................243 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 245 TÓPICO 2 — MOTIVANDO OS ALUNOS PARA A APRENDIZAGEM ............................... 247 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 247 2 O QUE É MOTIVAÇÃO? ............................................................................................................... 249 3 QUAIS SÃO ALGUMAS TEORIAS DA MOTIVAÇÃO? ....................................................... 250 3.1 MOTIVAÇÃO E TEORIA DE APRENDIZAGEM COMPORTAMENTAL ........................ 250 3.2 MOTIVAÇÃO E NECESSIDADES HUMANAS .................................................................... 252 3.3 A MOTIVAÇÃO E A TEORIA DA ATRIBUIÇÃO ................................................................. 254 3.4 MOTIVAÇÃO E MINDSET ....................................................................................................... 257 3.5 MOTIVAÇÃO E APRENDIZAGEM AUTORREGULADA .................................................. 258 3.6 MOTIVAÇÃO E TEORIA DA EXPECTATIVA ....................................................................... 258 4 QUE FATORES AFETAM A MOTIVAÇÃO DOS ALUNOS? ................................................. 260 4.1 MOTIVAÇÃO E ORIENTAÇÕES PARA METAS .................................................................. 261 4.2 DESAMPARO APRENDIDO .................................................................................................... 263 4.3 EXPECTATIVAS E REALIZAÇÕES DO PROFESSOR .......................................................... 265 4.4 ANSIEDADE E REALIZAÇÃO ................................................................................................ 266 5 COMO OS PROFESSORES PODEM AUMENTAR A MOTIVAÇÃO DOS ALUNOS PARA APRENDER? ................................................................ 267 5.1 MOTIVAÇÃO INTRÍNSECA E EXTRÍNSECA ...................................................................... 267 5.2 AUMENTAR A MOTIVAÇÃO INTRÍNSECA ....................................................................... 270 5.3 PRINCÍPIOS PARA FORNECER INCENTIVOS EXTRÍNSECOS PARA APRENDER ........... 273 5.4 USANDO ELOGIOS EFETIVAMENTE ................................................................................... 276 5.5 ENSINANDO OS ALUNOS A SE ELOGIAREM ................................................................... 277 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 279 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 281 TÓPICO 3 — AMBIENTES DE APRENDIZAGEM EFETIVA................................................... 283 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 283 2 QUAL É O IMPACTO DO TEMPO NA APRENDIZAGEM? ................................................. 286 2.1 USANDO O TEMPO ALOCADO PARA O ENSINO ............................................................ 286 2.2 USANDO O TEMPO DE ENGAJAMENTO DE FORMA EFICAZ ..................................... 289 2.3 EXCESSO DE TEMPO NA TAREFA ........................................................................................ 292 2.4 GESTÃO DA SALA DE AULA NA SALA DE AULA CENTRADA NO ALUNO ........... 292 3 QUE PRÁTICAS CONTRIBUEM PARA UMA GESTÃO EFICAZ DA SALA DE AULA? ..................................................................................................... 293 3.1 COMEÇANDO O ANO ADEQUADANENTE ...................................................................... 294 3.2 DEFININDO REGRAS DA TURMA ........................................................................................ 295 4 ALGUMAS ESTRATÉGIAS PARA GERENCIAR O COMPORTAMENTO DE ROTINA ............................................................................................. 296 4.1 O PRINCÍPIO DA INTERVENÇÃO MÍNIMA ....................................................................... 297 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 302 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 305 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 307 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 309 1 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • identificar atributos de professores eficazes; • descrever o papel da pesquisa educacional em informar a prática de sala de aula; • discutir como se tornar um professor intencional; • descrever a teoria de desenvolvimento humano de Piaget e discutir como ela pode ser aplicada em sala de aula; • descrever as teorias de desenvolvimento apresentadas por Vygotsky e por Bronfenbrenner e discutir como elas se aplicam na sala de aula; • descrever os distintos estágios de linguagem e letramento e explicar como se pode configurar sua sala de aula para promover o desenvolvimento do letramento; • descrever como o conhecimento do desenvolvimento social, moral e emocional informa o ensino intencional; • discutir as diferentes visões do desenvolvimento social, emocional e moral; • identificar as fases do desenvolvimento social e emocional das crianças; • aplicar o conhecimento do desenvolvimento social, emocional e moral ao considerar como resolver problemas em sala de aula; • descrever como o conhecimento do desenvolvimento social, moral e emocional informa o ensino intencional. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO TÓPICO 2 – DESENVOLVIMENTO COGNITIVO TÓPICO 3 – DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 — UNIDADE 1 PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, iniciaremos a introdução deste tópico com um relato de um caso que alude muito bem acontecimentos reais nas escolas e enfatiza o propósito desta disciplina que você está agora estudando, a Psicologia da Educação e da Aprendizagem. Vamos lá? Eliane Medeiros, uma nova professora, está tentando ensinar redação criativa para sua turma do quarto ano, mas as coisas simplesmente não estão indo como ela esperava. Seus alunos não estão produzindo muito, e o que eles escrevem não é muito imaginativo e está repleto de erros. Por exemplo, ela recentemente solicitou uma redação sobre "Minhas férias de verão" e tudo o que seus alunos escreveram foi algo do tipo: "Nas minhas férias de verão, ganhei um cão e nós fomos nadar e eu fui picado por uma abelha”. Eliane se pergunta se seus alunos simplesmente não estão prontos para escrever e precisam de vários meses de trabalho em habilidades como letras maiúsculas e o uso de pontuação antes de tentar outra tarefa de redação. No entanto, um dia Eliane nota algumas redações no corredor fora da sala aula da professora Lídia Weber. Os alunos da Lídia, do quarto ano, são como os de Eliane, mas suas composições são fabulosas. Os alunos escreveram páginas de material interessante sobre uma variedade surpreendente de tópicos.No final do dia, Eliane encontra com Lídia no corredor. “Como você faz para que seus alunos escrevam redações tão boas?”, ela pergunta. Lídia explica como ela primeiro solicitou que seus alunos escrevessem sobre tópicos de seu interesse e, em seguida, introduziu gradualmente “miniaulas” para ajudá-los a se tornarem melhores autores. Ela organizou para que os alunos trabalhassem em pequenos grupos e ajudassem uns aos outros a planejar as composições de suas redações. Em seguida, os alunos criticaram e ajudaram a editar os rascunhos uns dos outros, antes de finalmente "publicar" as versões finais. "Eu vou te dizer uma coisa," Lídia diz, “vou agendar minha próxima aula de redação durante o período de planejamento. Venha ver o que estamos fazendo”. Eliane concorda. Quando chega a hora, ela entra na aula de Lídia e fica maravilhada com o que vê. As crianças escrevem em todo lugar: no chão, em grupos, nas mesas. Muitos estão conversando com seus pares. Lídia está conversando com as crianças individualmente. Eliane olha por cima dos ombros das crianças e vê um aluno escrevendo sobre seus animais de estimação, outro escrevendo uma história sangrenta sobre zumbis e outro escrevendo sobre um sonho. Marta García, UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 4 uma estudante da Argentina, está escrevendo uma história engraçada sobre as tentativas de sua professora do terceiro ano de falar espanhol. Enquanto isso, uma aluna está até escrevendo uma história muito boa sobre suas férias de verão! Depois da aula, Eliane se encontra com Lídia, explodindo de tantas perguntas. “Como você conseguiu que os alunos escrevessem tanto? Como você pode gerenciar todo esse ruído e atividade? Como você aprendeu a fazer isso?”. “Participei de uma série de workshops sobre ensino de redação”, admite Lídia. “Mas se você pensar bem, tudo o que estou fazendo é psicologia educacional e da aprendizagem básica”. Eliane está maravilhada. "Psicologia Educacional e da Aprendizagem? Eu fiz essa disciplina na faculdade. Eu tirei nota 10 nela! Mas não vejo o que isso tem a ver com o seu programa de redação”. "Bem, vamos ver", disse Lídia. “Para começar, estou usando muitas estratégias motivacionais que aprendi em psicologia educacional e da aprendizagem. Por exemplo, quando comecei minhas aulas de redação este ano, li para os alunos algumas histórias engraçadas e intrigantes escritas por outras turmas, para despertar sua curiosidade. Eu os motivei permitindo que escrevessem sobre o que quisessem, e, também, pela organização de "celebrações pela escrita", em que os alunos liam suas composições finalizadas para a classe e recebiam aplausos e comentários. Meu professor de psicologia educacional e da aprendizagem estava sempre falando sobre adaptação às necessidades dos alunos. Faço isso conversando com eles e ajudando-os com os problemas específicos que estão enfrentando. Aprendi, primeiro, sobre aprendizagem cooperativa em psicologia educacional e, mais tarde, fiz alguns workshops sobre o assunto. Eu uso grupos de aprendizagem cooperativa para permitir que os alunos deem feedback imediato uns aos outros sobre sua escrita, para que eles modelem a escrita eficaz uns dos outros e para fazer com que eles se encorajem a escrever. Os grupos também resolvem muitos dos meus problemas de gestão mantendo-se uns aos outros concentrados e lidando com muitas rotinas de sala de aula. Lembro que aprendemos sobre avaliação em psicologia educacional e da aprendizagem. Eu uso uma forma flexível de avaliação. Todo mundo acaba tirando uma nota muito boa, mas apenas quando sua composição atende a um alto padrão, o que pode exigir muitos rascunhos”. Eliane está impressionada. Ela e Lídia combinam de visitar as aulas uma da outra mais algumas vezes para trocar ideias e observações e, com o tempo, os escritores de Eliene são quase tão bons quanto os de Lídia. Mas o que mais a impressiona é a ideia de que a psicologia educacional e da aprendizagem pode ser útil em seu ensino do dia a dia. Ela pega seu antigo livro didático e descobre que conceitos que pareciam teóricos e abstratos em suas aulas de psicologia educacional realmente a ajudam a pensar sobre os desafios atuais do ensino. TÓPICO 1 — PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO 5 Com base na explicação de Lídia sobre suas instruções de redação, faça um brainstorm com um ou mais de seus colegas sobre a psicologia educacional e da aprendizagem – o que é e o que você aprenderá neste semestre? Diretrizes: (1) Quanto mais ideias você gerar, melhor; (2) Construa e combine sobre as ideias uns dos outros; e (3) Não faça avaliação de ideias neste momento. Faça esta lista algumas vezes durante o decorrer da disciplina para revisar, avaliar ou até mesmo adicionar ideias. UNI A psicologia educacional e da aprendizagem não pode dizer a você, como futuro professor, o que fazer, mas pode fornecer os princípios a serem usados para tomar uma boa decisão e uma linguagem para discutir suas experiências e pensamentos. Considere o caso de Eliane Medeiros e Lídia Weber. Nada neste ou em qualquer outro texto de psicologia educacional dirá exatamente como ensinar escrita criativa a um determinado grupo de alunos do quarto ano. No entanto, Lídia usa conceitos de psicologia educacional e da aprendizagem para considerar como ela vai ensinar a escrever e, então, interpretar e resolver os problemas que ela encontra, bem como para explicar a Eliane o que ela está fazendo. Os psicólogos educacionais realizam pesquisas sobre a natureza dos alunos como aprendizes e sobre métodos eficazes de ensino, a fim de ajudar os educadores a compreenderem os princípios da aprendizagem e dar-lhes as informações de que precisam para pensar criticamente sobre seu ofício e tomar decisões de ensino que funcionarão para seus alunos. A seguir, neste tópico, você aprenderá a identificar atributos de professores eficazes, a descrever o papel da pesquisa educacional em informar a prática de sala de aula e a discutir como você pode se tornar um professor intencional. Vamos lá? 2 O QUE FAZ UM BOM PROFESSOR? Todo mundo sabe que o bom ensino é importante. Mas o que torna um bom professor eficaz? É cordialidade, humor e capacidade de se preocupar com os alunos e valorizar sua diversidade? É planejamento, trabalho árduo e autodisciplina? E quanto à liderança, entusiasmo, um amor contagiante pelo aprendizado e habilidade para falar? A maioria das pessoas concordaria que todas essas qualidades são necessárias para ser um bom professor, e certamente estariam corretas. Mas essas qualidades não são suficientes. UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 6 2.1 CONHECIMENTO DO CONTEÚDO E HABILIDADES PEDAGÓGICAS De modo geral, o conhecimento de como transmitir informações e das habilidades é pelo menos tão importante quanto o conhecimento das próprias informações e desenvolver tais habilidades. Todos nós, provavelmente, já tivemos professores que eram brilhantes e totalmente versados em suas áreas, mas que, infelizmente, não sabiam ensinar. A Eliene Medeiros pode saber tanto quanto a Lídia Weber sobre o que é considerado ser uma boa escrita, mas ela precisou aprender mais sobre como fazer os alunos do quarto ano escreverem bem. Para um ensino eficaz, o conhecimento do conteúdo não é uma questão de ser uma enciclopédia ambulante. Os livros das bibliotecas e a “magia” da internet tornam grande quantidade de conhecimento (informação) disponível, portanto, enciclopédias ambulantes não são muito procuradas atualmente. O que torna os professores eficazes é que eles não apenas conhecem suas disciplinas, mas também sabem comunicar seus conhecimentos aos alunos. Um célebre professor de matemática do ensino médio, o boliviano-estadunidense chamado Jaime Escalante, ensinou o conceito de números positivos e negativos a alunos em um bairro de Los Angeles, nos Estados Unidos, explicando que, quando você cava um buraco, pode chamar a pilha de sujeira de +1, e o buraco de -1. O que você ganha quando você coloca a sujeira de volta no buraco? Zero. A capacidade de Escalante de relacionar o conceito abstrato de números positivos e negativos à experiência cotidiana é um exemplo de como a capacidade de comunicar conhecimento vai muito além de simplesmente conhecer os fatos. Assista ao filme “O Preço do Desafio” que fala da história de Jaime Escalante, um professor de matemática em uma escola em um bairro hispânico que está convencido de que seus alunos têm potencial para crescer na vida. A partir disso, ele cria métodos não convencionais de ensino para tentar ajudar jovens membros de gangues a passar no temeroso Exame Nacional de Cálculos Avançados. FONTE: <https://bit.ly/3y16F0P>. Acesso em: 28 jun. 2021. DICAS TÓPICO 1 — PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO 7 2.2 DOMÍNIO DE HABILIDADES PEDAGÓGICAS O elo entre o que um professor deseja que os alunos aprendam e a aprendizagem real dos alunos é chamada de instrução ou pedagogia. A instrução eficaz não é uma simples questão de uma pessoa com mais conhecimento transmitir esse conhecimento para outra (BAUMERT et al., 2010; PERRENOUD, 1993). Se apenas dizer algo fosse ensinar, este livro seria desnecessário. Em vez disso, a instrução eficaz exige o uso de muitas estratégias. Por exemplo, suponha que Paula Santos queira dar uma aula de estatística para uma turma diversificada de alunos do quinto ano escolar. Para fazer isso, Paula deve realizar muitas tarefas relacionadas. Ela deve certificar-se de que a aula seja ordeira e que os alunos saibam o comportamento que se espera deles. Ela deve descobrir se os alunos têm as habilidades de pré-requisito; por exemplo, os alunos precisam ser capazes de somar e dividir para encontrar as médias. Caso contrário, Paula deve encontrar uma maneira de ensinar essas habilidades aos alunos. Ela deve envolver os alunos em atividades que os levem a uma compreensão das estatísticas, como fazer com que os alunos joguem dados, joguem cartas ou coletem dados de experimentos; e ela deve usar estratégias de ensino que ajudem os alunos a lembrar o que lhes foi ensinado. As aulas também devem levar em consideração as características intelectuais e sociais dos alunos do quinto ano escolar e as características intelectuais, sociais e culturais desses alunos em particular. Paula deve certificar-se de que os alunos estão interessados na aula e motivados para aprender estatística. Para ver se os alunos estão aprendendo o que está sendo ensinado, ela pode fazer perguntas ou usar questionários ou fazer com que os alunos demonstrem sua compreensão criando e interpretando experimentos, e ela deve responder apropriadamente se essas avaliações mostrarem que os alunos estão tendo problemas. Após o término da série de lições sobre estatística, Paula deve revisar esse tópico de vez em quando para garantir que seja lembrado. As tarefas mencionadas – motivar os alunos, administrar a sala de aula; avaliar o conhecimento prévio; comunicar ideias de maneira eficaz; levar em consideração as características dos alunos; avaliar os resultados da aprendizagem e revisar as informações – devem ser realizadas em todos os níveis de ensino, dentro ou fora das escolas. A maneira como essas tarefas são realizadas, entretanto, difere amplamente de acordo com a idade dos alunos, os objetivos da instrução e outros fatores. O que torna bom um professor é a capacidade de realizar todas as tarefas envolvidas em uma instrução eficaz. Calor humano, entusiasmo e carinho são essenciais (MARZANO, 2011; ALVES, 1994), assim como o conhecimento do conteúdo e a compreensão de como as crianças aprendem (BAUMERT et al., 2010; TOUGH, 2017). Mas é a realização bem-sucedida de todas as tarefas de ensino que contribui para a eficácia instrucional. UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 8 Uma excelente leitura é o livro “Como as Crianças Aprendem”, de Paul Tough (2017). O autor aborda com grande clareza o problema e alerta: não estamos dando a devida atenção ao desenvolvimento de qualidades não cognitivas, como curiosidade e a capacidade de lidar com o estresse. FONTE: https://m.media-amazon.com/images/I/41X9ExN4o4L.jpg. DICAS 2.3 O BOM ENSINO PODE SER ENSINADO? Algumas pessoas pensam que bons professores nascem assim. Professores excelentes, às vezes, parecem ter uma magia, um carisma que meros mortais nunca poderiam esperar alcançar. Ainda assim, a pesquisa começou a identificar os comportamentos e habilidades específicas que tornam um professor “mágico” (BORMAN; KIMBALL, 2005). Um professor excelente não faz nada que outro professor não possa fazer – é apenas uma questão de conhecer os princípios do ensino eficaz e como aplicá-los. Veja um pequeno exemplo: em uma aula de história do ensino médio, dois alunos no fundo da sala de aula estão sussurrando um para o outro e não estão discutindo o Tratado de Paris! O professor caminha lentamente em direção a eles sem olhar, continuando sua lição enquanto caminha. Os alunos param de sussurrar e prestam atenção. Se você não soubesse o que procurar, poderia perder esse breve e crítico intercâmbio, e acreditar que o professor tem jeito com os alunos, um jeito para prender a atenção deles. Porém, o professor está simplesmente aplicando princípios de gestão ou administração da sala de aula que qualquer pessoa pode aprender: mantenha o ritmo na aula, lide com problemas de comportamento usando a intervenção mais branda que funcione e resolva problemas menores antes que se tornem graves. Quando Jaime Escalante TÓPICO 1 — PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO 9 deu o exemplo de cavar um buraco para ilustrar o conceito de números positivos e negativos, ele também estava aplicando vários princípios importantes da psicologia educacional e da aprendizagem: torne concretas as ideias abstratas usando muitos exemplos; relacione o conteúdo da instrução com as vivências dos alunos; declare claramente as regras ou conceitos e princípios; dê exemplos e, em seguida, declare novamente as regras, conceitos e princípios. O bom ensino pode ser ensinado? A resposta é definitivamente sim (BALL; FORZANI, 2010). O bom ensino deve ser observado e praticado, mas existem princípios do bom ensino que os professores precisam saber e que podem ser aplicados em sala de aula. Os principais componentes do ensino eficaz estão resumidos na Figura 1. FIGURA 1 – COMPONENTES DO BOM ENSINO FONTE: O autor 2.4 O PROFESSOR INTENCIONAL Não existe uma fórmula para um bom ensino, nem sete passos para o ser o Professor do Ano. O ensino envolve planejamento e preparação e, em seguida, dezenas de decisões a cada momento. No entanto, um atributo parece ser característico de professores notáveis: a intencionalidade. Intencionalidade significa fazer as coisas por uma razão, com um propósito. Os professores intencionais pensam constantemente sobre os resultados que desejam para seus alunos e sobre como cada decisão que tomam move as crianças em direção a esses resultados (FISHER; FREY, 2011). Os professores intencionais sabem que o aprendizado máximo não acontece por acaso. Sim, as crianças aprendem de maneiras não planejadas o tempo todo, e muitas aprenderão até mesmo com UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 10 a aula mais caótica. Mas para realmente desafiar os alunos, para obter seus melhores esforços, para ajudá-los a dar saltos conceituais e organizar e reter novos conhecimentos, os professores precisam ser intencionais:propositais, atenciosos e flexíveis, sem nunca perder de vista seus objetivos para cada criança. A ideia de que os professores devem sempre fazer as coisas por uma razão parece óbvia. No entanto, na prática, é difícil garantir constantemente que todos os alunos estejam envolvidos em atividades que levem a resultados de aprendizagem importantes. Os professores frequentemente adotam estratégias que eles próprios reconheceriam, após uma breve reflexão, como apenas preenchimentos de tempo, em vez de atividades instrucionais essenciais. Por exemplo, uma professora do quarto ano escolar atribuiu um trabalho a um de seus grupos de leitura. As crianças receberam duas folhas de papel com palavras em quadrados. A tarefa deles era recortar os quadrados de uma folha e colá- los em sinônimos na outra folha. Quando todas as palavras foram coladas corretamente, as linhas nos quadrados colados formaram o contorno de um gato que as crianças deveriam colorir. Depois que as crianças colaram alguns quadrados, o quebra-cabeça ficou claro para que pudessem colar o restante sem prestar atenção nas próprias palavras. Por quase uma hora de precioso tempo de aula, essas crianças alegremente cortaram, colaram e coloriram – habilidades que não são de alta prioridade para alunos do quarto ano escolar. A professora teria dito que o objetivo era que as crianças aprendessem ou pratiquem sinônimos, é claro; mas, na verdade, a atividade não poderia ter levado as crianças adiante nessa habilidade. Da mesma forma, muitos professores fazem com que uma criança trabalhe laboriosamente um problema na lousa, enquanto o resto da classe não tem nada importante para fazer. Alguns professores do Ensino Médio passam a maior parte do período de aula repassando os deveres de casa e da aula e acabam ensinando muito pouco o novo conteúdo. Esses professores, é claro, podem ser excelentes em outros momentos, mas, às vezes, perdem de vista o que estão tentando alcançar e como o farão. Os professores intencionais estão constantemente se perguntando quais objetivos eles e seus alunos estão tentando alcançar. Cada parte da aula é apropriada para o conhecimento, habilidades e necessidades dos alunos? Cada atividade ou tarefa está claramente relacionada a um resultado acadêmico valioso? Cada minuto de instrução é sabiamente bem utilizado? Um professor intencional que tenta desenvolver as habilidades no uso de sinônimos com alunos pode fazê- los trabalhar em pares para dominar um conjunto de sinônimos em preparação para questionários individuais. Um professor intencional pode fazer com que todos os alunos trabalhem em um determinado problema enquanto um trabalha no quadro, para que todos possam comparar respostas e estratégias juntas. Um professor intencional pode rapidamente dar respostas da tarefa de casa para que os alunos verifiquem por si mesmos, pedir que levantem as mãos para verificar as respostas corretas e, em seguida, revisar e voltar a ensinar apenas os exercícios que tiveram erros por muitos alunos, a fim de economizar tempo para ensinar novos conteúdos. Um professor intencional usa uma ampla variedade de métodos de ensino, experiências, tarefas e materiais para ter certeza de que as crianças estão TÓPICO 1 — PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO 11 alcançando todos os tipos de objetivos cognitivos, do conhecimento à aplicação à criatividade, e que, ao mesmo tempo, as crianças estão aprendendo objetivos afetivos importantes, como amor pelo aprendizado, respeito pelos outros e responsabilidade pessoal. Um professor intencional reflete constantemente sobre suas práticas e resultados (FISHER; FREY, 2011; MARZANO, 2011). A pesquisa descobriu que um dos indicadores mais poderosos do impacto de um professor sobre os alunos é a crença de que o que ele faz a diferença. Essa crença, chamada de crenças de eficácia dos professores (THURLINGS; EVERS; VERMEULEN, 2015; WOOLFOLK-HOY; HOY; DAVIS, 2009), está no cerne do que significa ser um professor intencional. Os professores que acreditam que o sucesso na escola se deve quase inteiramente à inteligência inata das crianças, ao ambiente doméstico ou a outros fatores que os professores não podem influenciar, provavelmente não ensinarão da mesma forma que aqueles que acreditam que seus próprios esforços são a chave para o aprendizado das crianças. Um professor intencional, aquele que acredita fortemente em sua eficácia, tem mais probabilidade de fazer um esforço consistente, de persistir em face de obstáculos e de continuar tentando incansavelmente até que todos os alunos tenham sucesso. Os professores intencionais alcançam um senso de eficácia avaliando constantemente os resultados de sua instrução; tentando novas estratégias se sua instrução inicial não funcionar; e buscando continuamente ideias de colegas, livros, recursos on-line, revistas, workshops e outras fontes para enriquecer e solidificar suas habilidades pedagógicas. O senso de eficácia é um dos principais fatores por trás dos professores que são inovadores e abraçam a mudança (THURLINGS; EVERS; VERMEULEN, 2015). A eficácia coletiva pode ter um impacto particularmente forte no desempenho dos alunos (WOOLFOLK-HOY; HOY; DAVIS, 2009). Grupos de professores, como todo o corpo docente de uma escola de Ensino Fundamental ou todos os professores do departamento acadêmico, podem atingir eficácia coletiva trabalhando juntos para examinar suas práticas e resultados, buscando desenvolvimento profissional e ajudando uns aos outros a ter sucesso (YORK- BARR; SOMMERNESS; HUR, 2008). Os países que são particularmente bem-sucedidos em ajudar todas as crianças a terem sucesso são aqueles que oferecem oportunidades para os professores trabalharem juntos e assumirem responsabilidade coletiva por seus alunos (SAHLBERG, 2012). Sugerimos a leitura do artigo “Crenças de eficácia de professores: validação da escala de Woolfolk e Hoy”, de José Aloyseo Bzuneck e Sueli Édi Rufini Guimarães (2003), no qual discutem a validação a escala de Woolfolk e Hoy – entre diversos instrumentos elaborados para medir o senso de eficácia do professor. Esta escala contém vinte itens que DICAS UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 12 avaliam dois aspectos distintos, que são: o senso de eficácia pessoal e senso de eficácia do ensino. Este trabalho objetivou levantar as propriedades psicométricas de uma versão da escala para o português, com uma grande amostra brasileira. Acesso ao artigo neste link: https://bit.ly/3CXMeFP. Acesso em: 28 jun. 2021. O propósito mais importante deste livro didático é oferecer a você, acadêmico, a base intelectual em pesquisa, teoria e sabedoria prática de que você precisa para se tornar um professor eficaz e intencional. Para planejar e realizar aulas, discussões, projetos e outras experiências de aprendizagem eficazes, das quais os professores precisam saber muito. Além de conhecer seus conteúdos, você precisa entender os níveis de desenvolvimento e as necessidades de seus alunos. Você precisa entender como o aprendizado, a memória, a habilidade de resolução de problemas e a criatividade são adquiridos e como promover sua aquisição. Você precisa saber como definir objetivos, organizar atividades destinadas a ajudar os alunos a atingir esses objetivos e avaliar o progresso dos alunos em direção a eles. Você precisa saber como motivar as crianças, como usar o tempo das aulas com eficácia e como responder às diferenças individuais entre os alunos. Os professores intencionais estão continuamente experimentando estratégias para resolver problemas de ensino e, em seguida, observando os resultados de suas ações para ver se foram eficazes (SCHUNK, 2016). Eles prestam atenção àpesquisa sobre o ensino eficaz e incorporam os resultados da pesquisa em seu ensino diário (FLEISCHMAN, 2006). Como Lídia Weber na vinheta que abriu este tópico, os professores intencionais estão constantemente combinando seu conhecimento dos princípios da psicologia educacional e da aprendizagem, sua experiência e sua criatividade para tomar decisões instrucionais e ajudar as crianças a se tornarem alunos entusiasmados e eficazes. Este livro destaca as ideias que são centrais para a psicologia educacional e as pesquisas relacionadas. Também apresenta muitos exemplos de como essas ideias se aplicam na prática, enfatizando práticas de ensino, não apenas teorias ou sugestões que foram avaliadas e consideradas eficazes. O conteúdo deste livro foi projetado para ajudá-lo a desenvolver habilidades de pensamento crítico para o ensino: uma abordagem lógica e sistemática para os muitos dilemas encontrados na prática e na pesquisa. Nenhum texto pode fornecer todas as respostas certas para o ensino, mas este tenta fazer as perguntas certas e envolvê-lo, apresentando alternativas realistas e os conceitos e pesquisas por trás delas. Muitos estudos analisaram as diferenças entre professores experts e novatos e entre professores mais e menos eficazes. Um tema perpassa esses estudos: professores experts são pensadores críticos (GUZZO, 2015). Os professores intencionais estão constantemente atualizando e examinando suas próprias práticas de ensino, lendo e participando de conferências para aprender novas ideias e usando as respostas de seus próprios alunos para orientar suas decisões de ensino. Há um velho ditado que diz que existem professores com 20 anos de experiência e existem professores com 1 ano de experiência 20 vezes. Os professores que melhoram a cada ano são aqueles que estão abertos a novas TÓPICO 1 — PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO 13 ideias e que olham para o seu próprio ensino de forma crítica. Talvez o objetivo mais importante deste livro seja criar o hábito de usar a reflexão informada para se tornar um dos professores experts de amanhã. A importância do ensino intencional e do pensamento crítico torna-se ainda mais clara quando você reflete sobre as mudanças que ocorrerão no ensino nos próximos 10-20 anos. Em 2030 ou 2040, o trabalho dos professores estará totalmente transformado (BERRY et al., 2011). Durante sua carreira de professor, haverá mudanças dramáticas no papel da tecnologia, especialmente à medida que o acesso à internet se torna universal. Novas formas de escolarização além da escola física, e formas de ensino que mesclam o ensino tecnológico com o tradicional, já estão aqui e irão se expandir. O papel da pesquisa certamente crescerá e, nos próximos anos, os professores poderão escolher entre uma variedade de programas, cada um dos quais terá sido avaliado cientificamente e considerado eficaz (SLAVIN, 2013). Novos modelos de preparação de professores e de oferta de serviço se tornarão comuns (ROSE, 2010). Os professores estão sendo cada vez mais responsáveis pela aprendizagem de seus alunos (SCHMOKER, 2012). Todas essas mudanças significam que os professores nos anos de 2030 e 2040 terão que ser flexíveis, resilientes e capazes de usar novas abordagens para novos problemas. Por muito tempo, os professores sempre puderam recorrer a suas próprias experiências como alunos e ensinar como seus próprios professores lhes ensinaram. Esses dias acabaram. 2.5 HABILIDADES DO SÉCULO XXI Quando a nossa geração era criança, esperava-se que o século XXI fosse totalmente diferente do século XX. Os Jetsons (um desenho animado que foi lançado em 1962, veja a Figura 2) por exemplo, projetaram uma imagem de carros voadores, robôs em todas as casas e todos os tipos de tecnologia incrível. Futurologistas sérios esperavam mais ou menos o mesmo. A realidade acabou se revelando um pouco mais prática, mas, no entanto, os desenvolvimentos na tecnologia e na globalização mudaram dramaticamente aspectos-chave de nossa economia e sociedade. Em particular, a segurança econômica, tanto para indivíduos quanto para nações, depende mais do que nunca de inovação, criatividade e design. A capacidade de trabalhar cooperativamente com outras pessoas, de ver muitas soluções para os problemas e de ser flexível e responsivo a mudanças rápidas estão se tornando a chave para o sucesso, à medida que os empregos tradicionais de "costas fortes" desaparecem e são substituídos por carreiras de "mente forte". UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 14 FIGURA 2 – OS JETSONS FONTE: <https://www.mostardanerd.com.br/os-jetsons>. Acesso em: 30 jun. 2021. Todas essas mudanças têm um significado profundo para a educação. Elas levam os educadores a valorizar as habilidades, atitudes e formas de trabalho que mais se assemelham às novas condições da força de trabalho. Nem é preciso dizer que os alunos precisam de ampla experiência com tecnologia, mas isso não é suficiente. Eles também precisam de ampla experiência de trabalho em grupos, resolvendo problemas e aprendendo a ler criticamente e pensar criativamente (MARZANO; HEFLEBOWER, 2012). Ironicamente, esse tipo de experiência está no cerne da filosofia progressista de John Dewey e de muitos outros, que datam do início do século XX. O que mudou é que essas ideias não são mais opcionais, porque correspondem muito às necessidades de hoje. Além disso, essas habilidades agora são necessárias para todos, do escritório executivo ao chão de fábrica. Uma educação do século XXI significa dar aos alunos as habilidades que precisam para ter sucesso neste novo mundo e ajudá-los a aumentar a confiança para praticar essas habilidades. Com tantas informações disponíveis para eles, as habilidades do século XXI se concentram mais em dar sentido a essas informações, compartilhando-as e usando-as de maneiras inteligentes. Consistente com esta linha de raciocínio, a Partnership for 21st Century Skills (P21) foi criada para promover políticas que definem e apoiam os resultados dos alunos que se alinham com as necessidades de hoje (P21, 2009). A P21 criou uma estrutura que organiza as habilidades do século 21 em quatro categorias: criatividade; pensamento crítico; comunicação; e colaboração. Esses quatro temas não devem ser entendidos como unidades ou mesmo disciplinas, mas como temas que devem ser superpostos a todo o mapeamento curricular e planejamento estratégico. Eles devem fazer parte de todas as aulas da mesma forma que o letramento e numeramento. A criatividade é pensar nas informações de novas maneiras, fazer novas conexões e encontrar soluções inovadoras para os problemas. O pensamento crítico trata de analisar informações e criticar afirmações. Comunicação é entender as coisas bem o suficiente para compartilhá-las claramente com outras TÓPICO 1 — PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO 15 pessoas. Colaboração é trabalho em equipe e a genialidade coletiva de um grupo que é mais do que a soma de suas partes. Existem outras habilidades que são importantes, que se enquadram nessas quatro áreas. O empreendedorismo pode ser considerado uma habilidade própria. A investigação e a resolução de problemas são essenciais. A inteligência emocional (IE) é uma das chaves mais importantes para um trabalho e relacionamentos bem-sucedidos. A educação precisa ter como foco o empoderamento dos alunos com habilidades transferíveis que resistirão a um mundo em rápida mudança e não com conteúdo prescrito que foi escolhido por sua relevância no passado. 3 QUAL É O PAPEL DA PESQUISA EM PSICOLOGIA EDUCACIONAL? Os professores que são pensadores críticos intencionais tendem a entrar nas salas de aula equipados com conhecimentos sobrepesquisas em psicologia educacional e da aprendizagem. Todos os anos, psicólogos educacionais descobrem ou refinam princípios de ensino-aprendizagem que são úteis para professores em atividade. Alguns desses princípios são apenas bom senso apoiado em evidências, mas outros são mais surpreendentes. Um problema que os psicólogos educacionais enfrentam é que quase todo mundo tem ideias sobre o conteúdo da psicologia educacional. A maioria dos adultos passou muitos anos nas escolas observando o que os professores fazem. Adicione a isso certa quantidade de conhecimento da natureza humana, e voilà! Todos se tornam um psicólogo educacional amador. Por esta razão, psicólogos educacionais profissionais são frequentemente acusados de estudar o óbvio (BALL; FORZANI, 2007). No entanto, como aprendemos penosamente, o óbvio nem sempre é verdade. Por exemplo, a maioria das pessoas presume que, se os alunos são atribuídos a turmas de acordo com suas habilidades, a gama mais estreita de habilidades resultante em uma turma permitirá que o professor adapte a instrução às necessidades específicas dos alunos e, assim, aumente o desempenho do aluno. Essa suposição é falsa. Muitos professores acreditam que repreender os alunos por mau comportamento melhorará a sua conduta. Muitos alunos realmente responderão a uma repreensão comportando-se melhor, mas, para outros, a repreensão pode ser uma recompensa por seu mau comportamento, o que, na verdade, acaba aumentando-o. Algumas verdades “óbvias” até entram em conflito umas com as outras. Por exemplo, a maioria das pessoas concordaria que os alunos aprendem melhor com as instruções de um professor do que trabalhando sozinhos. Essa crença apoia estratégias de instrução direta centradas no professor, nas quais o professor trabalha ativamente com a turma como um todo. No entanto, a maioria das pessoas também concordaria que os alunos geralmente precisam de uma instrução adaptada às suas necessidades individuais. Essa crença, também correta, exigiria que os professores dividissem seu tempo entre indivíduos, ou, pelo menos, entre UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 16 grupos de alunos com necessidades diferentes, o que faria com que alguns alunos trabalhassem independentemente enquanto outros recebessem sua atenção. Se as escolas pudessem fornecer tutores para todos os alunos, não haveria conflito; instrução direta e individualização podem coexistir. Na prática, entretanto, as salas de aula costumam ter de 20 a 30 alunos; como resultado, uma instrução mais direta (a primeira meta) quase sempre significa menos individualização (a segunda meta). Sua tarefa como professor intencional é equilibrar esses objetivos concorrentes de acordo com as necessidades de alunos e situações específicas. 3.1 O OBJETIVO DA PESQUISA EM PSICOLOGIA EDUCACIONAL O objetivo da pesquisa em psicologia educacional é examinar cuidadosamente as questões que parecem "óbvias" e as menos que óbvias, usando métodos objetivos para testar ideias sobre os fatores que contribuem para a aprendizagem (LEVIN; O'DONNELL; KRATOCHWILL, 2003). Os produtos desta pesquisa são princípios, leis e teorias. Um princípio explica a relação entre fatores, bem como os efeitos de sistemas alternativos de notas na motivação dos alunos. As leis são simplesmente princípios que foram exaustivamente testados e se aplicam a uma ampla variedade de situações. Uma teoria é um conjunto de princípios e leis relacionados que explica um amplo aspecto da aprendizagem, do comportamento ou outra área de interesse. Sem teorias, os fatos e princípios descobertos seriam como manchas desorganizadas em uma tela. As teorias unem esses fatos e princípios para nos dar uma visão geral. No entanto, os mesmos fatos e princípios podem ser interpretados de maneiras diferentes por diferentes teóricos. Como em qualquer ciência, o progresso na psicologia educacional é lento e desigual. Um único estudo raramente é um avanço, mas, com o tempo, evidências se acumulam sobre um assunto e permitem que os teóricos refinem e estendam suas teorias. Provavelmente é verdade que o conhecimento mais importante que os professores adquirem é aprendido no trabalho – em estágios, enquanto os acadêmicos ensinam ou durante os primeiros anos na sala de aula. No entanto, você, como professor, toma centenas de decisões todos os dias, e cada decisão tem uma teoria por trás dela, independentemente de você estar ciente disso. A qualidade, precisão e utilidade dessas teorias determinam, em última análise, o seu sucesso. Por exemplo, um professor pode oferecer uma recompensa ao aluno com a melhor assiduidade, baseado na teoria de que recompensar a assiduidade a aumentará. Outro professor pode recompensar o aluno cuja assiduidade teve maior melhora, com base na teoria de que são os alunos com mais dificuldades que precisam de maiores incentivos para vir às aulas. Um terceiro professor pode não recompensar ninguém pela frequência, mas, em vez disso, tenta aumentá-la ministrando aulas mais interessantes. Qual plano de professor tem mais chances de sucesso? Isso depende em grande parte da habilidade de cada professor em compreender a combinação única de fatores que moldam o caráter de sua turma e, portanto, aplicar a teoria mais adequada. TÓPICO 1 — PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO 17 O objetivo da pesquisa em psicologia educacional é testar as diversas teorias que norteiam as ações dos professores e demais envolvidos na educação. Existem muitas situações comuns, como o exemplo a seguir, em que um professor pode usar psicologia educacional. Vejamos a seguinte situação hipotética. O professor Haroldo ministra aula de História no oitavo ano. Ele tem um problema com o aluno Thomas, que frequentemente se comporta mal. Hoje, quando o professor Haroldo virou as costas, Thomas fez um avião de papel e o atirou para voar pela sala de aula para o deleite de toda a turma. O que o professor Haroldo deve fazer? Como um professor intencional, ele considera uma série de opções para resolver esse problema, cada uma delas proveniente de uma teoria sobre por que Thomas está se comportando mal e o que o motivará a se comportar de maneira mais adequada. Veja, agora, o Quadro 1. QUADRO 1 – AÇÕES E SUAS RESPECTIVAS TEORIAS FONTE: O autor Ação Teoria 1. Repreenda o Thomas. 1. A reprimenda é uma forma de punição. Tomas vai se comportar bem para evitar punições. 2. Ignore o Thomas. 2. A atenção pode ser gratificante para Thomas. Ignorá-lo o privaria dessa recompensa. 3. Envie o Thomas à sala da supervisora. 3. Ser mandado para a sala da supervisora é punitivo. Também priva Tomas do (aparente) apoio de seus colegas de classe. 4. Diga à turma que é responsabilidade de todos manter um bom ambiente de aprendizagem e que se algum aluno se comportar mal, 5 minutos serão subtraídos do recreio. 4. Tomas está se comportando mal para chamar a atenção de seus colegas. Se toda a turma perder quando ele se comportar mal, a turma o manterá na linha. 5. Explique à turma que o comportamento de Thomas está interferindo nas aulas que todos os alunos precisam saber e que seu comportamento vai contra as regras que a turma estabeleceu para si mesma no início do ano. 5. A turma possui padrões de comportamento que conflitam tanto com o comportamento de Thomas em sala de aula quanto com a reação da turma a ele. Ao relembrar a classe de suas próprias necessidades (aprender o conteúdo da aula) e de suas próprias regras estabelecidas no início do ano, o professor pode fazer com que Thomas veja que a turma realmente não apoia seu comportamento. Cada uma dessas ações apresentadas no Quadro 1 é uma resposta comum ao mau comportamento. Mas qual teoria (e, portanto, qual ação) seria a correta?UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 18 A chave pode estar no fato de que seus colegas riem quando Thomas se comporta mal. Essa resposta é uma pista de que Thomas está procurando sua atenção. Se o professor Haroldo repreender o aluno, isso pode aumentar o status dele aos olhos de seus colegas e, assim, recompensar seu comportamento. Ignorar o mau comportamento pode ser uma boa ideia se um aluno estiver agindo para chamar sua atenção, mas, neste caso, é aparentemente a atenção da turma que Thomas está procurando. Mandar este aluno para a sala da supervisora priva-o da atenção de seus colegas de classe e, portanto, pode ser eficaz. Mas, e se o Thomas estiver procurando uma maneira de sair da aula para evitar a tarefa? E se ele ficar ostentando que enfrentou os poderes constituídos, com a aprovação óbvia de seus colegas? Tornar toda a classe responsável pelo comportamento de cada aluno provavelmente privará Thomas do apoio de seus colegas e melhorará seu comportamento; mas alguns alunos podem pensar que é injusto puni-los pelo mau comportamento de outro aluno. Por fim, lembrar à turma (e ao Thomas) seu próprio interesse em aprender e seus padrões usuais de comportamento pode funcionar se a turma, de fato, valorizar o desempenho e o bom comportamento. A pesquisa em educação e em psicologia influencia diretamente na decisão que o professor Haroldo deve tomar. A pesquisa sobre desenvolvimento humano indica que, à medida que os alunos entram na adolescência, o grupo de pares torna-se muito importante para eles, e eles tentam estabelecer sua independência do controle adulto, muitas vezes desrespeitando ou ignorando as regras. Pesquisas básicas sobre teorias de aprendizagem comportamental mostram que, quando um comportamento é repetido muitas vezes, alguma recompensa deve encorajá-lo e que, para que o comportamento seja eliminado, a recompensa deve primeiro ser identificada e removida. Esta pesquisa também sugere que o professor Haroldo considere os problemas com o uso de punição, como a repreensão, para impedir um comportamento indesejável. Pesquisas sobre estratégias específicas de gerenciamento de sala de aula já identificaram métodos eficazes para usar tanto na prevenção de um mau comportamento como o de Thomas, quanto para lidar com seu mau comportamento quando ele ocorrer. Finalmente, pesquisas sobre o estabelecimento de regras e padrões de sala de aula indicam que a participação do aluno no estabelecimento de regras pode ajudar a convencer cada aluno de que a classe como um todo valoriza o desempenho acadêmico e o comportamento adequado, e que essa crença pode ajudar a manter os alunos individuais na linha. De posse dessas informações, o professor Haroldo pode escolher uma resposta ao comportamento com base no entendimento do porquê Thomas está fazendo o que está fazendo e quais estratégias estão disponíveis para lidar com a situação. Ele pode ou não fazer a escolha certa, mas porque ele conhece várias teorias que poderiam explicar o comportamento de Thomas, ele será capaz de observar os resultados de sua estratégia e, se for ineficaz, aprender com isso e tentar algo diferente que funcionará. A pesquisa não oferece ao professor uma solução específica; isso requer sua própria experiência e julgamento. Mas a pesquisa oferece ao professor Haroldo conceitos básicos do comportamento humano para ajudá-lo a entender as motivações de Thomas e uma série de TÓPICO 1 — PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO 19 métodos comprovados que podem resolver o problema. Usar a pesquisa para ajudá-lo a tomar decisões pedagógicas é uma maneira de Haroldo ter uma noção de sua própria eficácia como professor. Como o caso do professor Haroldo ilustra, nenhuma teoria, nenhuma pesquisa, nenhum livro poderão dizer aos professores o que fazer em uma determinada situação. Tomar as decisões certas depende do contexto em que o problema surge, dos objetivos que você tem em mente e de muitos outros fatores, todos os quais devem ser avaliados à luz do bom senso. Por exemplo, pesquisas em ensino de matemática geralmente descobrem que um ritmo rápido de instrução aumenta o desempenho (GOOD; GROUWS; EBMEIER, 1983). Ainda assim, você pode legitimamente desacelerar e despender muito tempo em um conceito que é particularmente crítico ou pode permitir que os alunos descubram um princípio matemático por conta própria. Normalmente, leva menos tempo ensinar, diretamente, habilidades ou informações aos alunos do que deixá-los fazer descobertas por si próprios, porém, se você quiser que os alunos tenham uma compreensão mais profunda de um tópico ou aprendam como encontrar informações ou descobrir as coisas por si mesmos, as descobertas da pesquisa sobre o ritmo podem ser temporariamente arquivadas. A questão é que, embora a pesquisa em psicologia educacional possa, às vezes, ser traduzida diretamente para a sala de aula, é melhor aplicar os princípios com uma boa dose de bom senso e uma visão clara do que está sendo ensinado a quem e com qual propósito. A pesquisa em psicologia educacional fornece evidências não apenas sobre os princípios da prática eficaz, mas também sobre a eficácia de programas ou práticas específicas (FLEISCHMAN, 2006). Por exemplo, no caso apresentado no início deste tópico, Lídia Weber usa uma abordagem específica para o ensino da escrita criativa que foi avaliada extensivamente como um todo (HARRIS; GRAHAM; PRESSLEY, 2001). Em outras palavras, há evidências de que, em média, as crianças cujos professores usam esses métodos aprendem a escrever melhor do que aquelas cujos professores usam abordagens mais tradicionais. Há evidências sobre a eficácia de dezenas de programas amplamente usados, desde métodos em disciplinas específicas até estratégias para reformar escolas inteiras. Um professor intencional deve estar ciente das pesquisas sobre programas para sua disciplina e nível de escolaridade e deve estar disposto a buscar oportunidades de desenvolvimento profissional em métodos conhecidos por fazer a diferença para as crianças. UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 20 Ensino como tomada de decisão Se não houvesse problemas educacionais para resolver, não haveria necessidade de os professores atuarem como profissionais. Os profissionais se diferenciam dos não profissionais em parte pelo fato de que devem tomar decisões que influenciam o curso de seu trabalho. Você deve decidir (1) como reconhecer problemas e questões, (2) como considerar as situações de múltiplas perspectivas, (3) como usar conhecimento profissional relevante para formular ações, (4) como tomar a ação mais apropriada, e (5) como julgar as consequências. Diante disso, reflita sobre a seguinte situação: a professora Mara tem uma aluna chamada Anita em sua aula de geografia. Na maioria das vezes, Anita é bastante quieta e retraída. Suas notas indicam considerável habilidade acadêmica, mas um observador casual nunca saberia disso. A professora Mara faz a si mesma as seguintes perguntas: 1. Que problemas eu percebo nesta situação? Anita está entediada, cansada, desinteressada ou tímida, ou sua participação pode ser inibida por algo que eu ou outros estamos fazendo ou não? Que teorias da psicologia educacional devo considerar? 2. Eu me pergunto o que Anita pensa sobre estar nesta turma. Ela se sente excluída? Ela se preocupa com o conteúdo? Ela está preocupada com o que eu ou outras pessoas pensamos sobre sua falta de participação? Por que ou por que não? Que teorias de motivação me ajudarão a tomar uma decisão? 3. O que sei da teoria, pesquisa ou prática que pode guiar minhas ações para envolver a Anita mais diretamente nas atividades de aula com a turma? 4. O que eu realmente posso fazer nesta situação para aumentar o envolvimento de Anita?5. Como saberia se tive sucesso com Anita? Se a professora Mara perguntar e tentar responder a essas perguntas – não apenas no caso de Anita, é claro, mas também para outros alunos – ela aumentará suas chances de aprender sobre seu trabalho ao fazer o seu trabalho. O filósofo John Dewey (1953) ensinou que os problemas enfrentados pelos professores são os próprios estímulos naturais para a investigação reflexiva. Os professores intencionais aceitam desafios e pensam de forma produtiva sobre eles. UNI 3.2 O IMPACTO DA PESQUISA NA PRÁTICA EDUCACIONAL Muitos pesquisadores e educadores lamentaram o impacto limitado da pesquisa em psicologia educacional nas práticas dos professores (KENNEDY, 2008). Na verdade, a pesquisa em educação não tem um impacto tão grande na prática educacional quanto a pesquisa em medicina tem na prática médica (RIEHL, 2006). No entanto, a pesquisa em educação tem um impacto indireto profundo na prática educacional, mesmo que os professores não tenham consciência disso. A pesquisa afeta políticas educacionais, programas de desenvolvimento profissional e materiais pedagógicos. Por exemplo, estudos como os de Finn, Pannozzo e Achilles (2003) sobre a quantidade de alunos em uma única turma revelaram que há o tamanho das tur- mas nas séries iniciais gera efeito no desempenho dos alunos. Tais pesquisas tiveram impactos diretos nas propostas estaduais e federais para a redução do tamanho das TÓPICO 1 — PSICOLOGIA EDUCACIONAL: UMA BASE PARA O ENSINO 21 turmas, nacional e internacionalmente. Pesquisas sobre o início da leitura, por exem- plo, transformaram dramaticamente o currículo, a instrução e o desenvolvimento profissional para esse conteúdo (KLEIMAN, 2002; KLEIMAN, 2004). É importante que você se torne um consumidor inteligente de pesquisa e não tome todas as descobertas ou declarações de todos os especialistas como verdades absolutas (FLEISCHMAN, 2006). Como ser um consumidor inteligente de pesquisas em psicologia educacional Digamos que você esteja procurando um carro novo. Antes de gastar seu dinheiro, você provavelmente revisará as descobertas de vários relatórios de pesquisas de consumo. Você pode querer saber algo sobre o desempenho de vários carros em testes de colisão, quais carros têm o melhor consumo de combustível ou quais são os valores de troca de modelos específicos. Antes de embarcar neste grande investimento, você quer se sentir o mais confiante possível sobre sua decisão. Se você já esteve nessa situação antes, provavelmente se lembra de que toda a sua pesquisa o ajudou a tomar uma decisão informada. Agora que você está prestes a entrar na profissão de professor, deve aplicar uma orientação semelhante ao consumidor em sua tomada de decisão. Como professor, você será chamado a tomar centenas de decisões todos os dias. Sua decisão de compra de carro é influenciada por uma combinação de achados de pesquisas sólidas e bom senso, e suas decisões sobre ensino e aprendizagem devem seguir esse mesmo padrão. Ensino-aprendizagem é parte de conceitos complexos sujeitos a uma ampla variedade de influências, portanto, seu conhecimento de pesquisas relevantes servirá para orientá-lo na tomada de decisões informadas. Como o conhecimento da fórmula simples de: pesquisa + senso comum = ensino eficaz, pode ajudá-lo a ser um consumidor mais inteligente da pesquisa em psicologia educacional? As recomendações a seguir mostram como você pode colocar essa fórmula em prática: 1. Seja um consumidor de pesquisas relevantes. Como profissional, você deve manter um conhecimento prático de pesquisas relevantes. Além dos textos do curso, que serão excelentes recursos para você no futuro, você deve se familiarizar com as revistas profissionais da sua área. Periódicos orientados para professores, sites especializados em educação e aprendizagem devem ser constantemente consultados. Além disso, não subestime o valor do networking com outros professores, cara a cara ou via internet. O exemplo de Eliane Medeiros e Lídia Weber é uma excelente ilustração de como a colaboração pode expandir seu conhecimento sobre o que funciona. 2. Ensine intencionalmente. Conforme declarado anteriormente neste tópico, não há receita para os ingredientes que constituem uma abordagem de bom senso para o ensino. No entanto, comportamentos consistentes com ser um professor intencional são o mais próximo que podemos chegar. Os professores intencionais são atenciosos. Como o professor Haroldo, você deve considerar várias perspectivas sobre as situações da sala de aula. Quando você agir, seja determinado e pense sobre o porquê você faz o que faz. Como outros professores intencionais, você pode acompanhar suas ações com reflexão cuidadosa, avaliando se suas ações resultaram nos resultados desejados. Você provavelmente aprendeu sobre o “método científico” em algum momento durante o ensino médio. Os professores intencionais empregam esse método no ensino, formulando uma hipótese de trabalho com base em observações e conhecimento antecedente, coletando dados para testar a hipótese, organizando e analisando os dados de maneira eficaz, tirando conclusões sólidas IMPORTANT E UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 22 com base nos dados e tomando um curso de ação com base nas conclusões. Para muitos professores experientes, esse ciclo se torna automático e internalizado. Quando aplicadas de forma sistemática, essas práticas podem servir para validar pesquisas e teorias e, como resultado, aumentar o seu crescimento profissional com base no conhecimento. 3. Compartilhe suas experiências. Ao combinar conhecimento de pesquisa com seu bom senso profissional, você se verá engajado em práticas mais eficazes. Conforme você e seus alunos experimentam o sucesso, compartilhe suas descobertas. As vias de disseminação são infinitas. Além de publicar artigos em fontes tradicionais, como periódicos profissionais e boletins informativos organizacionais, não negligencie a importância de preparar demonstrações e oficinas para a própria a escola, artigos para conferências profissionais estaduais e nacionais e apresentações para conselhos escolares. Além disso, através da internet, você poderá acompanhar notícias e se envolver em discussões contínuas sobre seu trabalho. 23 Neste tópico, você aprendeu que: • Bons professores conhecem o assunto e dominam habilidades pedagógicas. • Professores eficazes realizam todas as tarefas envolvidas em uma instrução eficaz com calor humano, entusiasmo e carinho. • Professores intencionais usam os princípios da psicologia educacional em suas decisões e ensino, combinam pesquisa e bom senso. • A psicologia educacional é o estudo sistemático dos alunos, aprendizagem e ensino. • A pesquisa em psicologia educacional concentra-se nos processos pelos quais informações, habilidades, valores e atitudes são comunicados entre professores e alunos em sala de aula e nas aplicações dos princípios da psicologia às práticas de ensino. • A pesquisa em psicologia educacional molda as políticas educacionais, os programas de desenvolvimento profissional e os materiais pedagógicos. • Você pode desenvolver ainda mais suas habilidades como professor intencional procurando mentores, buscando desenvolvimento profissional e conversando com colegas e amigos sobre suas experiências. RESUMO DO TÓPICO 1 24 1 A pesquisa descobriu que um dos indicadores mais poderosos do impacto de um professor sobre os alunos é a crença de que o que ele ou ela faz a diferença. Essa crença está no cerne do que significa ser um professor intencional, pois se o professor desenvolve esta crença, ele tem mais probabilidade de fazer um esforço consistente, de persistir em face de obstáculos e de continuar tentando incansavelmente até que todos os alunos tenham sucesso. Como denominamos este tipo de crença? a) ( ) Crença do Esforço Consistente Docente. b) ( ) Crençada Intencionalidade Convergente. c) ( ) Crença de Eficácia dos Professores. d) ( ) Crença da Persistência dos Professores Significativos. 2 Existe um elemento primordial no processo de instrução e ensino- aprendizagem, este é o domínio de certas habilidades específicas. O ensino eficaz depende do que chamamos de habilidades pedagógicas. No contexto do domínio de habilidades pedagógicas para um ensino eficaz, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O professor deve certificar-se de que a aula seja ordeira e que os alunos saibam o comportamento que se espera deles. ( ) O professor deve descobrir se os alunos têm as habilidades de pré- requisito, caso contrário, deve encontrar uma maneira de ensinar essas habilidades aos alunos. ( ) O professor deve ter domínio do conteúdo e saber expor suas ideias, pois não importam as características dos alunos e seus conhecimentos prévios, uma boa exposição das ideias é suficiente para uma aprendizagem eficaz. ( ) O professor deve envolver os alunos em atividades diversas que os levem a uma compreensão do conteúdo específico e usar estratégias de ensino que ajudem os alunos a lembrar o que lhes foi ensinado. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – V – F. b) ( ) V – V – F – V. c) ( ) F – V – F – V. d) ( ) F – F – V – V. 3 Um dos principais objetivos do estudo em psicologia da educação e aprendizagem na formação de professores é que o desenvolvimento do pensamento crítico para a formação de professores intencionais. Desenvolver habilidades de pensamento crítico para o ensino é uma abordagem lógica e sistemática para os muitos dilemas encontrados na prática e na pesquisa. Sobre as habilidades de pensamento crítico, analise as afirmativas a seguir: AUTOATIVIDADE 25 I- Constantemente atualizar e examinar suas próprias práticas de ensino. II- Continuamente ler e participar de conferências para aprender novas ideias. III- Utilizar os livros textos e manuais, nunca as respostas de seus próprios alunos, para orientar suas decisões de ensino. IV- Estar centrado nas próprias ideias e manter o seu próprio ensino constante e invariável. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I e III estão corretas. b) ( ) As afirmativas II e IV estão corretas. c) ( ) As afirmativas III e IV estão corretas. d) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. 4 A psicologia educacional enfrenta um problema muito sério a respeito das verdades sobre a profissão. Pelo fato de todos terem tido alguma experiência sobre aprendizagem na vida, seja como aluno ou educador, muitas pessoas acreditam saber quais são os melhores caminhos, as melhores metodologias e as melhores formas de se avaliar um aluno. Por esta razão, psicólogos educacionais profissionais são frequentemente acusados de estudar o óbvio. No entanto, o óbvio nem sempre é verdade. Disserte sobre situações educacionais em que o óbvio não é a verdade. 5 O principal objetivo da psicologia educacional é o de examinar de forma cautelosa as questões “óbvias” da educação, usando métodos objetivos para testar ideias sobre os fatores que contribuem para a aprendizagem. Os produtos desta pesquisa são princípios, leis e teorias. Nesse contexto, disserte acerca do que representa esses três elementos: princípios, leis e teorias. 26 27 TÓPICO 2 — UNIDADE 1 DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, iniciaremos este tópico com mais um relato de um caso hipotético. Agora o nosso foco é o desenvolvimento cognitivo e a personagem central será a Patrícia Assis. Você está curioso para saber em quais situações pedagógicas a personagem vai se envolver? Vamos lá? A professora Patrícia Assis tem muito orgulho de sua turma do quarto ano. Os alunos dela se saíram muito bem em todas as provas e estão tendo sucesso em todas as matérias, especialmente Ciências, a favorita de Patrícia. Ela decide, então, dar aos alunos um desafio de que eles realmente gostem. “Turma”, diz ela, “estou muito animada para ver o bom trabalho que vocês fizeram em Ciências. Hoje, vou dar a vocês um problema para resolver em suas equipes que vai expandir suas mentes, mas sei que vocês podem resolvê-lo. “Em cada uma de suas mesas vocês têm um pêndulo, vários pesos e um cronômetro. Vocês podem mudar os pesos do pêndulo, o comprimento da corda, o impulso que você dá, o peso para começar a balançar, ou qualquer coisa que você quiser. Minha pergunta é a seguinte: o que determina quantas vezes o pêndulo vai e volta em um minuto?” Os alunos começam a trabalhar com entusiasmo. Tentam resolver atividade com mais peso e menos peso, mais impulso e menos impulso, cordas mais longas e cordas mais curtas. Cada equipe designa um cronometrista que anota quantas oscilações ocorrem em um minuto. Os alunos discutem entre si: “É o peso!” “É o impulso!” “É a corda!” Os grupos estão trabalhando duro, mas ao acaso. Nenhum deles obteve a resposta certa (que é que apenas o comprimento da corda é importante). Patrícia fica surpresa. Os alunos sabem muito sobre Ciências, se esforçam e trabalham bem juntos, mas não conseguem resolver o problema. Por que você acha que a turma da Patrícia Assis não consegue resolver o problema do pêndulo? O que a experiência dela sugere a você sobre o porquê os professores devem considerar os estágios de desenvolvimento das crianças em seu ensino? UNI 28 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Ao longo de seus primeiros 18 anos de vida, as crianças passam por mudanças surpreendentes. Muitas dessas mudanças são óbvias, por exemplo, as crianças ficam maiores, mais inteligentes e mais aptas socialmente. No entanto, muitos aspectos do desenvolvimento não são tão óbvios. Cada criança se desenvolve de maneiras diferentes e em ritmos diferentes, e o desenvolvimento é influenciado pela biologia, cultura, parentalidade, educação e outros fatores. Todo professor precisa entender como as crianças crescem e se desenvolvem para poder entender como as crianças aprendem e como melhor ensiná-las. Caro acadêmico, neste tópico, você vai aprender as teorias de desenvolvimento humano de Piaget, Vygotsky e Bronfenbrenner e discutir como elas podem ser aplicadas em sala de aula. Além disso, você aprenderá os distintos estágios de linguagem e explicar como pode configurar sua sala de aula para promover o desenvolvimento do letramento. Vamos lá? 2 COMO AS CRIANÇAS SE DESENVOLVEM COGNITIVAMENTE? O termo desenvolvimento refere-se a como as pessoas crescem, se adaptam e mudam ao longo de suas vidas, por meio do desenvolvimento da personalidade, desenvolvimento socioemocional, desenvolvimento cognitivo (pensamento) e desenvolvimento da linguagem. Este tópico começa com dois grandes teóricos do desenvolvimento cognitivo cujas ideias são amplamente aceitas: Jean Piaget e Lev Vygotsky. As crianças não são adultos em miniatura. Elas pensam de forma diferente e veem o mundo de forma diferente. Um dos primeiros requisitos do ensino eficaz é que você entenda como os alunos pensam e veem o mundo. Estratégias de ensino eficazes devem levar em consideração a idade dos alunos e os estágios de desenvolvimento. Um aluno brilhante do quarto ano escolar pode parecer capaz de aprender qualquer tipo de matemática, porém, na verdade, pode não ter maturidade cognitiva para trabalhar com o pensamento abstrato necessário para álgebra. Na vinheta de abertura, a aula da professora Assis é inteligente e motivada, mas a tarefa do pêndulo é um exemplo clássico de um tipo de pensamento que geralmente não aparece até a adolescência, quando a maioria das crianças desenvolve a capacidade de pensar logicamente sobre problemas desse tipo e a proceder de forma metódicaem direção a uma solução. Duas questões centrais têm sido debatidas por décadas entre os psicólogos do desenvolvimento: o grau em que o desenvolvimento é afetado pela experiência e se o desenvolvimento ocorre em estágios. O desenvolvimento é predeterminado no nascimento, pela hereditariedade e fatores biológicos, ou é afetado pela experiência e outros fatores ambientais? Hoje, a maioria dos psicólogos do desenvolvimento (BEE; BOYD, 2011; BERK, TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 29 2013; FELDMAN, 2015) acredita que a natureza e a experiência se combinam para influenciar o desenvolvimento, com fatores biológicos desempenhando um papel mais forte em alguns aspectos, tais como o desenvolvimento físico. O argumento sobre a natureza versus a criação (experiência), hereditariedade versus ambiente, remonta aos gregos (pelo menos). O filósofo comportamentalista ambientalista John Watson colocou sua posição da seguinte maneira: Deem-me uma dúzia de crianças saudáveis e bem formadas e meu mundo específico para criá-las, e eu me comprometo a escolher uma delas ao acaso e treiná-la para que chegue a ser qualquer tipo de especialista que escolher: médico, advogado, artista, comerciante, e inclusive mendigo ou ladrão, sem levar nem um pouco em conta seus talentos, capacidades, tendências, habilidades, vocação ou a raça de seus antepassados (WATSON, 1930, p. 104). Embora poucos cientistas hoje cheguem ao extremo de Watson, ainda há muito debate sobre as influências relativas dos genes e do ambiente. Um problema é que os dois interagem. Por exemplo, se uma criança é um pouco melhor nos esportes do que outras crianças da mesma idade, ela pode receber muito mais prática, incentivo e treinamento nos esportes e, portanto, tornar-se um atleta excepcional. Então, esse resultado foi devido à natureza ou à criação? Da mesma forma, uma criança que se mostra promissora em ciências em uma idade jovem pode receber muito incentivo, levando-a a desenvolver motivação para aprender ciências e buscar experiências relacionadas a ciências. Natureza ou criação? Obviamente, natureza e ambiente estão misturados em qualquer pessoa ou população em particular. Para os educadores, o ponto-chave é que, embora nada possa ser feito sobre os genes de uma criança, muito pode ser feito em relação ao ambiente para desenvolver habilidades, motivação e autoconfiança. Não há dúvida de que professores e pais fazem uma enorme diferença na aprendizagem das crianças, além de quaisquer que sejam as predisposições genéticas das crianças. Por sua vez, uma questão gira em torno da noção de como a mudança ocorre. Conforme as teorias do desenvolvimento contínuo, como modelos de processamento de informação (MUNAKATA, 2006), pressupõe-se que o desenvolvimento ocorre em uma progressão suave à medida que as habilidades se desenvolvem e as experiências são fornecidas pelos cuidadores e pelo ambiente. Teorias do desenvolvimento contínuo enfatizam a importância do meio ambiente ao invés da hereditariedade na determinação do desenvolvimento. Uma segunda perspectiva assume que as crianças progridem por meio de um conjunto de estágios de desenvolvimento previsíveis e invariáveis. Nessa perspectiva, grandes mudanças acontecem quando as crianças avançam para um novo estágio de desenvolvimento. Acredita-se que todas as crianças adquirem habilidades na mesma sequência, embora as taxas de progresso difiram de 30 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO criança para criança. As habilidades que as crianças ganham em cada estágio subsequente não são simplesmente “mais do mesmo”. Em cada estágio, as crianças desenvolvem compreensões, habilidades e crenças qualitativamente diferentes. Pular estágios é raro ou impossível, embora em qualquer ponto a mesma criança possa exibir comportamentos característicos de mais de um estágio (DEVRIES, 2008). Em contraste com as teorias do desenvolvimento contínuo, essas teorias do desenvolvimento descontínuo enfocam fatores inatos em vez de influências ambientais para explicar as mudanças ao longo do tempo. As condições ambientais podem ter alguma influência no ritmo de desenvolvimento, mas a sequência das etapas de desenvolvimento é essencialmente fixa. Nessa perspectiva, as crianças de nove anos idade da turma não poderiam ter resolvido o problema do pêndulo por mais que tenham sido ensinadas, pois não tinham atingido um estágio de desenvolvimento que possibilita a resolução de problemas envolvendo muitos fatores ao mesmo tempo. Teóricos do estágio, como Piaget e Vygotsky, compartilham a crença de que estágios distintos de desenvolvimento podem ser identificados e descritos. No entanto, suas teorias diferem significativamente no número de estágios e em seus detalhes (DEVRIES, 2008). 3 COMO PIAGET COMPREENDEU O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO? Jean Piaget, nascido na Suíça em 1896, é o psicólogo do desenvolvimento mais influente da história da psicologia (WADSWORTH, 2004). Depois de receber seu doutorado em biologia, ele se interessou mais por psicologia, baseando suas primeiras teorias na observação cuidadosa de seus próprios três filhos. Piaget pensava em seu contexto aplicando princípios e métodos biológicos ao estudo do desenvolvimento humano, e muitos dos termos que introduziu na psicologia foram extraídos diretamente da biologia. Piaget explorou por que e como as habilidades mentais mudam com o tempo. Para Piaget, o desenvolvimento depende em grande parte da manipulação e da interação ativa da criança com o seu ambiente. Na visão de Piaget, o conhecimento vem da ação (DEVRIES, 2008; WADSWORTH, 2004). A teoria de desenvolvimento cognitivo de Piaget propõe que o intelecto de uma criança, ou habilidade cognitiva, progride por quatro estágios distintos. Cada estágio é caracterizado pelo surgimento de novas habilidades e formas de processamento de informações. Muitos dos detalhes das teorias de Piaget foram desafiados em pesquisas posteriores. Em particular, muitas das mudanças no funcionamento cognitivo que ele descreveu são, agora, conhecidas por ocorrerem antes do que ele afirmou, pelo menos sob certas circunstâncias. No entanto, o trabalho de Piaget constitui uma base essencial para a compreensão do desenvolvimento infantil. TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 31 3.1 COMO OCORRE O DESENVOLVIMENTO Piaget (1970) acreditava que todas as crianças nascem com uma tendência inata de interagir e dar sentido a seus ambientes. Crianças pequenas demonstram padrões de comportamento ou pensamento chamados de esquemas, que crianças mais velhas e adultos também usam ao lidar com objetos no mundo. Usamos esquemas para descobrir e agir no mundo e cada esquema trata todos os objetos e eventos da mesma maneira. Quando os bebês encontram um novo objeto, como eles podem saber do que se trata esse objeto? De acordo com Piaget, eles usarão os esquemas que desenvolveram e descobrirão se o objeto faz um som alto ou baixo quando é batido, qual é o gosto, se dá leite e se ele faz um baque quando cai, conforme podemos observar na Figura 3. FIGURA 3 – ESQUEMAS FIGURA 3 – ESQUEMAS De acordo com Piaget (1970), a adaptação é o processo de ajustar esquemas em resposta ao ambiente por meio de assimilação e acomodação. A assimilação é o processo de compreensão de um novo objeto ou evento em termos de um esquema existente. Se você der a bebês pequenos objetos que eles nunca viram antes, mas que se assemelham a objetos familiares, eles provavelmente os agarrarão, morderão e baterão. Em outras palavras, eles tentarão usar os esquemas existentes para aprender essas coisas desconhecidas (Figura 3). Da mesma forma, uma aluna do ensino médio pode ter um esquema de estudo que envolve colocar informações em cartões e memorizar o conteúdo dos cartões. Ela pode ter tido sucesso comisso em um conteúdo ou disciplina e, depois, aplicado o mesmo esquema a outros conteúdos ou disciplinas. Às vezes, quando as velhas maneiras de lidar com o mundo simplesmente não funcionam, uma criança pode modificar um esquema existente à luz de novas informações ou de uma nova experiência, um processo chamado acomodação. Por exemplo, se você der um ovo a um bebê que tem um esquema de bater para pequenos objetos, o que acontecerá com o ovo é óbvio (Figura 3). Menos óbvio, 32 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO no entanto, é o que acontecerá com o esquema de bater do bebê. Por causa das consequências inesperadas de bater o ovo, o bebê pode mudar o esquema. No futuro, o bebê pode bater alguns objetos com força e outros suavemente. O aluno do ensino médio que estuda apenas por meio da memorização pode aprender a usar uma estratégia diferente, como discutir conceitos difíceis com um amigo, para estudar conteúdos ou tópicos nos quais a memorização não funciona muito bem. O bebê que bateu o ovo e o aluno que tentou memorizar em vez de compreender tiveram de lidar com situações que não podiam ser totalmente resolvidas pelos esquemas existentes. Isso, na teoria de Piaget, cria um estado de desequilíbrio, ou um desequilíbrio entre o que é compreendido e o que é encontrado. As pessoas naturalmente tentam reduzir esses desequilíbrios concentrando-se nos estímulos que causam o desequilíbrio e desenvolvendo novos esquemas, ou adaptando os antigos, até que o equilíbrio seja restaurado. Este processo de restauração do equilíbrio é chamado de equilibração. Segundo Piaget, o aprendizado depende desse processo. Quando o equilíbrio é alterado, as crianças têm a oportunidade de crescer e se desenvolver. Eventualmente, novas maneiras qualitativas de pensar sobre o mundo surgem e as crianças avançam para um novo estágio de desenvolvimento. Piaget acreditava que as experiências físicas e a manipulação do ambiente são essenciais para que ocorram mudanças no desenvolvimento. No entanto, ele também acreditava que a interação social com os pares, especialmente argumentos e discussões, ajuda a esclarecer o pensamento e, eventualmente, torná-lo mais lógico. A pesquisa enfatizou a importância de confrontar os alunos com experiências ou dados que não se encaixam em suas teorias atuais de como o mundo funciona como um meio de promover seu desenvolvimento cognitivo. Fazer com que os alunos resolvam o desequilíbrio trabalhando com os colegas é particularmente eficaz (SLAVIN, 2014). A teoria do desenvolvimento de Piaget representa o construtivismo, uma visão do desenvolvimento cognitivo como um processo no qual as crianças constroem ativamente sistemas de significado e compreensão da realidade por meio de suas experiências e interações (BERK, 2013; SCHUNK, 2016). Nessa visão, as crianças constroem ativamente o conhecimento, continuamente assimilando e acomodando novas informações. 3.2 ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO DE PIAGET Piaget dividiu o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes em quatro estágios: sensório-motor, pré-operatório, operacional concreto e operacional formal. Ele acreditava que todas as crianças passam por esses estágios nesta ordem e que nenhuma criança pode pular um estágio, embora crianças diferentes passem pelos estágios em taxas um tanto diferentes. Os mesmos indivíduos podem realizar tarefas associadas a diferentes estágios ao mesmo tempo, especialmente em pontos de transição para um novo estágio. O Quadro 2 resume as idades aproximadas em que crianças e adolescentes passam pelos quatro estágios de Piaget. Também mostra as principais realizações de cada TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 33 etapa. Para o autor referido, as pessoas progridem por meio de quatro estágios de desenvolvimento cognitivo entre o nascimento e a idade adulta. Cada estágio é marcado pelo surgimento de novas habilidades intelectuais que permitem às pessoas compreenderem o mundo de maneiras cada vez mais complexas. QUADRO 2 – ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DE PIAGET FONTE: Adaptado de Piaget (1970) ESTÁGIO IDADE APROXIMADA PRINCIPAIS REALIZAÇÕES Sensório-Motor Do nascimento aos 2 anos Formação do conceito de permanência do objeto” e progressão gradual do comportamento reflexivo para o comportamento direcionado a um objetivo. Pré-Operatório De 2 a 7 anos Desenvolvimento da capacidade de usar símbolos para representar objetos no mundo. O pensamento permanece egocêntrico e centrado. Operacional Concreto De 7 a 11 anos Melhoria na habilidade de pensar logicamente. Novas habilidades incluem o uso de operações reversíveis. O pensamento é descentralizado e a resolução de problemas é menos restrita pelo egocentrismo. O pensamento abstrato ainda não é possível. Operacional Formal A partir dos 11 anos O pensamento abstrato e puramente simbólico é possível. Os problemas podem ser resolvidos com o uso de experimentação sistemática. O estágio inicial é chamado de sensório-motor (do nascimento aos dois anos de idade) porque, durante esse estágio, bebês e crianças pequenas exploram o mundo usando seus sentidos e habilidades motoras. Mudanças dramáticas ocorrem à medida que os bebês progridem no período sensório-motor. Inicialmente, todos os bebês têm comportamentos inatos chamados reflexos. Toque os lábios de um recém-nascido e ele começará a sugar; coloque seu dedo na palma da mão de um bebê e ele o agarrará. Esses e outros comportamentos inatos são os blocos de construção a partir dos quais os primeiros esquemas do bebê se formam. Os bebês logo aprendem a usar esses reflexos para produzir padrões de comportamento mais interessantes e intencionais. Esse aprendizado ocorre inicialmente por acidente e, em seguida, por esforços mais intencionais de tentativa e erro. De acordo com Piaget, no final do estágio sensório-motor, as crianças progrediram de sua abordagem anterior de tentativa e erro para uma abordagem mais planejada de resolução de problemas. Pela primeira vez, eles podem representar mentalmente objetos e eventos. O que a maioria de nós 34 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO chamaria de “pensamento” aparece agora. Este é um grande avanço porque significa que a criança pode pensar e planejar o comportamento. Por exemplo, suponha que uma criança de dois anos esteja na cozinha vendo sua mãe preparar o jantar. Se a criança souber onde fica o banquinho, ela pode pedir para que ele seja montado para ter uma visão melhor do balcão e uma chance melhor de mordiscar. A criança não tropeçou nesta solução acidentalmente. Em vez disso, ele pensou sobre o problema, descobriu uma possível solução que usava o banquinho, experimentou a solução mentalmente e só então tentou a solução na prática (TRAWICK-SMITH, 2014). Outro desenvolvimento marcante do período sensório-motor é a capacidade de compreender a permanência do objeto. Piaget argumentou que as crianças devem aprender que os objetos são fisicamente estáveis e existem mesmo quando os objetos não estão na presença física da criança. Por exemplo, se você cobrir a mamadeira com uma toalha, a criança não pode removê-la, acreditando que a mamadeira acabou. Aos dois anos de idade, as crianças entendem que os objetos existem mesmo quando não podem ser vistos. Uma vez que percebem que as coisas existem fora da vista, as crianças podem começar a usar símbolos para representar essas coisas em suas mentes para que possam pensar sobre elas (COHEN; CASHON, 2003). Durante o estágio pré-operatório (2 a 7 anos de idade), as crianças têm maior capacidade de pensar sobre as coisas e podem usar símbolos para representar objetos mentalmente (MASSEY, 2008). Sua linguageme conceitos se desenvolvem em um ritmo incrível. No entanto, muito de seu pensamento permanece surpreendentemente primitivo. Uma das primeiras e mais importantes descobertas de Piaget foi que as crianças pequenas não compreendem o princípio da conservação. Por exemplo, se você derramar suco de um recipiente alto e estreito em um recipiente raso e largo, e vice-versa, na presença de uma criança pré-operatória, a criança acreditará firmemente que o copo alto contém mais suco (ver Figura 4). Do mesmo modo, é provável que uma criança pré-operatória acredite que duas bolas iguais de argila, sendo uma enrolada na forma mais alongada que a outra, a criança responda que a mais alongada tem mais argila. Ou, por exemplo, um sanduíche cortado em quatro pedaços é mais sanduíche do que um inteiro, ou que uma linha de peças de damas que está espalhada contém mais peças do que uma linha que está comprimida, mesmo depois de ser mostrado que o número de peças é idêntico. Vários aspectos do pensamento pré-operatório ajudam a explicar o erro nas tarefas de conservação. Uma característica é a centralização: prestar atenção a apenas um aspecto de uma situação. No exemplo ilustrado na Figura 4, as crianças podem ter afirmado que havia menos suco depois que ele era colocado no recipiente largo porque elas se centraram na altura do suco, ignorando sua largura. Na parte inferior da Figura 4, as crianças focaram no comprimento da linha de peças e ignoraram sua densidade ou o número real de blocos. TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 35 FIGURA 4 – TAREFAS DE CONSERVAÇÃO PIAGETIANA FONTE: <https://bit.ly/2W64v32>. Acesso em: 30 jun. 2021. Crianças no estágio pré-operatório ainda não conseguem elaborar conservação de quantidade. Essas tarefas são dominadas gradualmente ao longo do estágio operacional concreto. A maioria das crianças adquire conservação de número, massa e líquido em algum momento entre seis e sete anos e de peso entre oito e nove anos de idade. A reversibilidade, a capacidade de mudar a direção do pensamento para voltar a um ponto de partida, é outra faceta do pensamento que ainda não foi desenvolvida em crianças pré-operatórias (GOULART, 2005). Como adultos, por exemplo, sabemos que se 7 + 5 = 12, então 12 - 5 = 7. Se adicionarmos 5 itens a 7 itens e depois retirarmos os 5 itens (inverter o que fizemos), ficamos com 7 itens novamente. Se as crianças no período pré-operatório pudessem pensar dessa maneira, então poderiam reverter mentalmente o processo de despejar o leite e perceber que, se o leite fosse despejado de volta no copo alto, sua quantidade não mudaria. Outra característica do pensamento da criança pré-operatória é o foco nos estados, a conservação (PIAGET, 1970). No problema do leite, o leite é derramado de um recipiente para outro. Os pré-escolares ignoram esse processo de derramar o leite e se concentram apenas no estado inicial (leite em um copo alto) e no estado final (leite em um prato raso). Ao contrário dos adultos, o jovem pré-escolar forma conceitos que variam em definição de situação para situação e nem sempre são lógicos. De que outra forma podemos explicar a capacidade da criança de dois 36 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO anos de tratar um bicho de pelúcia como um objeto inanimado em um minuto e como um objeto animado no próximo? Eventualmente, porém, os conceitos da criança se tornam mais consistentes e menos privados. As crianças ficam cada vez mais preocupadas que suas definições correspondam às de outras pessoas. Mas elas ainda não têm a capacidade de coordenar um conceito com outro. Finalmente, as crianças pré-operatórias são egocêntricas em seu pensamento. As crianças nesta fase acreditam que todos veem o mundo exatamente como elas. Por exemplo, Piaget e Inhelder (2002) sentaram crianças em um lado de uma exibição de três montanhas e pediram que descrevessem como a cena parecia para uma boneca sentada do outro lado. Crianças com menos de seis ou sete anos de idade descreveram a visão da boneca como idêntica à sua, embora fosse evidente para os adultos que não poderia ser assim. Como as crianças pré- operatórias são incapazes de assumir a perspectiva dos outros, muitas vezes interpretam os eventos inteiramente em referência a si mesmas. Embora as diferenças entre as habilidades mentais de pré-escolares pré- operatórios e de alunos operacionais concretos do ensino fundamental sejam dramáticas, as crianças operacionais concretas ainda não pensam como adultos. Elas estão muito enraizadas no mundo como ele é e têm dificuldade com o pensamento abstrato. Flavell (1986, p. 43) descreve a criança operacional concreta como tendo “um tipo de abordagem de solução de problemas presa à terra, concreta, de espírito prático, que se fixa persistentemente na realidade perceptível e inferível bem ali à sua frente. Teórico, a criança do ensino fundamental não é”. O termo estágio operacional concreto (7 a 11 anos de idade) reflete essa abordagem terrestre. Nesse estágio, as crianças podem formar conceitos, ver relacionamentos e resolver problemas, mas apenas na medida em que envolvam objetos e situações familiares. Durante os anos do ensino fundamental, as habilidades cognitivas das crianças passam por mudanças dramáticas. As crianças do ensino fundamental não têm mais dificuldades com problemas de conservação porque adquiriram o conceito de reversibilidade. Por exemplo, eles agora podem ver que a quantidade de leite no recipiente curto e largo deve ser a mesma que no recipiente alto e estreito, porque se o leite fosse despejado de volta no recipiente alto, estaria no mesmo nível como antes. Outra diferença fundamental entre a criança pré- operatória e a criança operacional concreta é que a criança pré-operatória responde às aparências percebidas, enquanto a criança mais velha, operacional concreta, responde à realidade inferida. Flavell (1986) demonstrou esse conceito mostrando às crianças um carro vermelho e então, enquanto elas ainda estavam assistindo, cobrindo-o com um filtro que o fazia parecer preto. Quando questionadas sobre a cor do carro, as crianças de três anos responderam "preto"; e as de seis anos responderam "vermelho". A criança mais velha, operacional concreta, é capaz de responder à realidade inferida, vendo as coisas no contexto de outros significados; os pré-escolares veem o que veem, com pouca capacidade de inferir o significado por trás do que veem. TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 37 Uma tarefa importante que as crianças aprendem durante o estágio operacional concreto é a seriação, ou organizar as coisas em uma progressão lógica – por exemplo, alinhar gravetos do menor ao maior (PIAGET, 1972). Para fazer isso, elas devem ser capazes de ordenar ou classificar os objetos de acordo com algum critério ou dimensão, neste caso, o comprimento. Uma vez que essa habilidade é adquirida, as crianças podem dominar uma habilidade relacionada conhecida como transitividade, a habilidade de inferir uma relação entre dois objetos com base no conhecimento de suas respectivas relações com um terceiro objeto (PIAGET, 1972). Por exemplo, se você disser a crianças em idade pré-operatória que Thomas é mais alto que Beatriz e que Beatriz é mais alta que Fernando, elas não verão que Thomas é mais alto que Fernando. Inferências lógicas como essa não são possíveis até o estágio de operações concretas, durante o qual as crianças em idade escolar desenvolvem a capacidade de fazer duas transformações mentais que requerem pensamento reversível. A primeira delas é a inversão (+ A é revertido por - A), e a segunda é a reciprocidade (A < B é retribuído por B > A). Ao final do estágio operacional concreto, as crianças têmas habilidades mentais para aprender como somar, subtrair, multiplicar e dividir; colocar os números em ordem por tamanho; e classificar objetos por qualquer número de critérios. As crianças podem pensar “o que aconteceria se ...”, desde que os objetos estivessem à vista, por exemplo, "O que aconteceria se eu puxasse esta mola e a soltasse?" As crianças podem entender o tempo e o espaço bem o suficiente para desenhar um mapa de sua casa para a escola e estão construindo uma compreensão dos eventos do passado. As crianças do ensino fundamental também estão passando do pensamento egocêntrico para o pensamento descentralizado ou objetivo. O pensamento descentralizado permite que as crianças vejam que os outros podem ter percepções diferentes das suas. Por exemplo, crianças com pensamento descentralizado serão capazes de entender que crianças diferentes podem ver padrões diferentes nas nuvens. As crianças cujos processos de pensamento são descentralizados podem aprender que os eventos podem ser governados por leis físicas, como as leis da gravidade. Essas mudanças não acontecem todas ao mesmo tempo. Em vez disso, elas ocorrem gradualmente durante o estágio operacional concreto. Por volta do início da puberdade, o pensamento das crianças começa a se desenvolver na forma que é característica dos adultos (PACKARD; BABINEAU, 2008). O pré-adolescente começa a ser capaz de pensar abstratamente e ver possibilidades além do aqui e agora. Essas habilidades continuam a se desenvolver na idade adulta. Com o estágio operacional formal (11 anos até a idade adulta), vem a capacidade de lidar com situações potenciais ou hipotéticas; a forma agora está separada do conteúdo. Piaget e Inhelder (2002) descreveram uma tarefa que é abordada de maneira diferente por alunos do ensino fundamental no estágio operacional concreto do que por adolescentes no estágio operacional formal – o problema do pêndulo que Patrícia Assis deu a seus alunos do quarto ano escolar. As crianças e adolescentes receberam um pêndulo composto por uma corda com um peso na ponta. Eles 38 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO podiam mudar o comprimento da corda, a quantidade de peso, a altura da qual o pêndulo foi lançado e a força com a qual o pêndulo foi empurrado. Eles foram questionados sobre quais desses fatores influenciam a frequência (o número de oscilações por minuto). Somente o comprimento da corda faz alguma diferença na frequência do pêndulo: quanto mais curta a corda, mais oscilações por minuto. Este experimento é ilustrado na Figura 5. FIGURA 5 – O PROBLEMA DO PÊNDULO FONTE: Slavin (2018, p. 30) O adolescente que atingiu o estágio de operações formais provavelmente procederá de maneira bastante sistemática, variando um fator de cada vez (por exemplo, deixando o barbante do mesmo comprimento e tentando pesos diferentes). Por exemplo, no experimento de Piaget e Inhelder (2002), um garoto de 15 anos selecionou 100 gramas com um barbante longo e um barbante médio, depois 20 gramas com um barbante longo e um curto e, finalmente, 200 gramas com um e uma corda curta e concluiu que era o comprimento da corda que a torna mais rápida e mais lenta e que o peso não desempenha nenhum papel (PIAGET; INHELDER, 2002). Em contraste, crianças de 10 anos, que estão no estágio operacional concreto, procederam de uma forma caótica, variando muitos fatores ao mesmo tempo e se agarrando a preconceitos. Um menino variava simultaneamente o peso e o impulso; depois o peso, o impulso e o comprimento; então o impulso, o peso e a elevação; e assim por diante. Ele primeiro concluiu: "É mudando o peso e o impulso, não a corda." O problema da transitividade também ilustra os avanços trazidos pelo pensamento formal. Lembre-se da criança operacional concreta que, quando disse que Thomas era mais alto que Beatriz e que Beatriz era mais alta que Fernando, entendeu que Thomas era mais alto que Fernando. No entanto, se o problema tivesse sido formulado da seguinte maneira, apenas uma criança mais velha que tivesse entrado no estágio operacional formal o teria resolvido: “Beatriz é mais baixa que Tom e Beatriz é mais alta que Fernando. Quem é o mais alto dos três?” Aqui, a criança mais jovem, operacional concreta, pode se perder nas combinações de relacionamentos maiores e menores. Os adolescentes no estágio operacional formal podem imaginar vários relacionamentos diferentes entre as TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 39 alturas de Beatriz, Thomas e Fernando e podem descobrir a precisão de cada um até encontrar o relacionamento correto. Este exemplo ilustra outra habilidade de pré-adolescentes e adolescentes que alcançaram o estágio operacional formal: eles podem monitorar ou pensar sobre seu próprio pensamento. Gerar relações abstratas a partir das informações disponíveis e, em seguida, comparar essas relações abstratas entre si é uma habilidade amplamente aplicável subjacente a muitas tarefas nas quais a competência dos adolescentes salta à frente. Piaget (1999) descreveu uma tarefa em que os alunos no estágio operacional concreto recebiam um conjunto de dez provérbios e um conjunto de afirmações com os mesmos significados dos provérbios. Eles foram convidados a combinar cada provérbio com a afirmação equivalente. Novamente, crianças operacionais concretas podem compreender a tarefa e escolher as respostas. No entanto, suas respostas costumam ser incorretas porque muitas vezes não entendem que um provérbio descreve um princípio geral. Por exemplo, solicitada a explicar o provérbio "Não chore sobre o leite derramado", uma criança pode explicar que, uma vez que o leite é derramado, não há motivo para chorar, mas pode não perceber que o provérbio tem um significado mais amplo. É provável que a criança responda à situação concreta do leite derramado em vez de entender que o provérbio significa "não se preocupe com eventos passados que não podem ser mudados." Adolescentes e adultos têm pouca dificuldade com esse tipo de tarefa. Outra habilidade que Piaget (1999) e outros reconheceram no jovem adolescente é a aptidão para raciocinar sobre situações e condições que não foram vivenciadas. O adolescente pode aceitar, para fins de argumentação ou discussão, condições que sejam arbitrárias, que não se saiba que existem, ou mesmo que se saiba serem contrárias aos fatos. Os adolescentes não estão presos às suas próprias experiências da realidade, portanto, podem aplicar a lógica a qualquer conjunto de condições. Uma ilustração da capacidade de raciocinar sobre situações hipotéticas é encontrada no debate formal, no qual os participantes devem estar preparados para defender qualquer um dos lados de uma questão, independentemente de seus sentimentos ou experiências pessoais, e seu sucesso é julgado com base em sua documentação e consistência lógica. Para uma ilustração dramática da diferença entre crianças e adolescentes na capacidade de suspender suas próprias opiniões, compare as reações dos alunos do quinto e do décimo ano escolar quando você pede que apresentem um argumento a favor da proposição de que as escolas deveriam estar funcionando 6 dias por semana, 48 semanas por ano. É muito mais provável que o adolescente seja capaz de deixar de lado suas próprias opiniões e pensar em motivos pelos quais mais dias de escola podem ser benéficos. As habilidades que constituem o pensamento operacional formal – pensar abstratamente, testar hipóteses e formar conceitos que são independentes da realidade física – são críticas para adquirir habilidades de ordem superior. Por exemplo, aprender álgebra ou geometria abstrata requer o uso de pensamento operacional formal, assim como a compreensão de conceitos complexos em ciências, estudos sociais e outros assuntos. 40 UNIDADE 1 — PSICOLOGIADA EDUCAÇÃO As características de pensamento do estágio de operações formais geralmente aparecem entre as idades de 11 e 15 anos, mas há muitos indivíduos que nunca alcançam esse estágio (PACKARD, BABINEAU, 2008). Até dois terços dos alunos do ensino médio em vários países não têm sucesso nas tarefas de operações formais de Piaget (MEECE; DANIELS, 2008). A maioria dos indivíduos tende a usar o pensamento operacional formal em algumas situações, mas não em outras, e isso permanece verdadeiro na idade adulta. 3.3 COMO O TRABALHO DE PIAGET É VISTO HOJE? A teoria de Piaget revolucionou, e de muitas maneiras ainda domina, o estudo do desenvolvimento humano. No entanto, alguns de seus princípios centrais foram questionados em pesquisas mais recentes, e as descrições modernas de desenvolvimento revisaram muitas de suas visões (FELDMAN, 2015; SCHUNK, 2016). Um importante princípio piagetiano é que o desenvolvimento precede o aprendizado. Piaget sustentava que os estágios de desenvolvimento eram em grande parte fixos e que conceitos como conservação não podiam ser ensinados. No entanto, a pesquisa estabeleceu muitos casos em que as tarefas piagetianas podem ser ensinadas a crianças em estágios iniciais de desenvolvimento (FELDMAN, 2015). Vários pesquisadores descobriram que crianças pequenas podem ser ensinadas a ter sucesso em formas mais simples das tarefas de Piaget antes de atingirem o estágio em que essa tarefa é normalmente realizada (GELMAN, 2000). Piaget compreendeu que as crianças não passam, por exemplo, de não conservadoras para conservadoras de uma só vez. Em vez disso, elas normalmente dominam a conservação do número (blocos reorganizados ainda são o mesmo número de blocos) um ou dois anos antes de dominarem a conservação do peso (o peso de uma bola de argila não muda quando você a achata). Essa observação torna o conceito de estágios definidos de desenvolvimento mais difícil de justificar (MILLER, 2011). Da mesma forma, em contextos simples e práticos, as crianças demonstraram sua capacidade de considerar o ponto de vista dos outros (SIEGLER, 2006), e os bebês demonstraram aspectos da permanência do objeto muito antes do previsto por Piaget (BAILLARGEON, 2002). O resultado desta pesquisa foi o reconhecimento de que as crianças são mais competentes do que Piaget originalmente tinha pensado, especialmente quando seu conhecimento prático está sendo avaliado, e que a experiência e o ensino direto afetam o ritmo de desenvolvimento (FELDMAN, 2015). Piaget (1977) respondeu a demonstrações desse tipo argumentando que as crianças já deviam estar à beira do próximo estágio de desenvolvimento, mas permanece o fato de que algumas das tarefas piagetianas podem ser ensinadas a crianças bem abaixo da idade em que geralmente aparecem sem instrução. TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 41 Outro ponto de crítica vai ao cerne da teoria dos "estágios" de Piaget. Muitos pesquisadores, atualmente, duvidam que existam amplos estágios de desenvolvimento afetando todos os tipos de tarefas cognitivas; em vez disso, eles argumentam que as habilidades das crianças se desenvolvem de maneiras diferentes em tarefas diferentes e que sua experiência pode ter uma forte influência no ritmo de desenvolvimento (MILLER, 2011; SIEGLER, 2006; TRAWICK-SMITH, 2014). A evidência é particularmente forte de que as crianças podem ser ensinadas a ter um bom desempenho nas tarefas piagetianas de avaliação de operações formais, como o problema do pêndulo ilustrado na Figura 3. Claramente, a experiência é importante. Observe um adulto inteligente aprendendo a velejar. Inicialmente, é provável que ele ou ela se envolva em muitos comportamentos operacionais concretos, tentando tudo em uma ordem caótica, antes de começar a aprender sistematicamente como ajustar a cana do leme e a vela ao vento e à direção, como no pensamento operacional formal. As teorias neopiagetianas são modificações da teoria de Piaget que tentam superar suas limitações e resolver os problemas que os críticos identificaram. Em particular, os neopiagetianos demonstraram que as habilidades das crianças para operar em um determinado estágio dependem muito das tarefas específicas envolvidas (MASSEY, 2008); que o treinamento e a experiência, incluindo as interações sociais, podem acelerar o desenvolvimento das crianças (SIEGLER, 2006) e que a cultura tem um impacto importante no desenvolvimento (GELMAN, 2000). Os neopiagetianos veem o desenvolvimento cognitivo em termos de tipos específicos de tarefas, em vez de estágios gerais. Por exemplo, diferentes tarefas descritas como indicadores do pensamento operacional concreto aparecem em idades muito diferentes (COHEN, CASHON, 2003). Os neopiagetianos referem- se ao “pensamento dialético”, a capacidade de ver que os problemas da vida real não têm necessariamente uma solução única (STERNBERG, 2008). Influenciados por Vygotsky, os neopiagetianos colocam ênfase muito maior do que o próprio Piaget no impacto da cultura, do contexto social e da educação no processo de desenvolvimento (CRISP; TURNER, 2011). Implicações educacionais da teoria de Piaget As teorias de Piaget tiveram um grande impacto nas práticas da educação (DEVRIES, 2008; SCHUNK, 2016). As teorias focalizaram a atenção na ideia de educação apropriada ao desenvolvimento – uma educação com ambientes, currículo, materiais e instrução que são adequados para os alunos em termos de suas habilidades físicas e cognitivas e suas necessidades sociais e emocionais. A teoria piagetiana tem sido influente nos modelos construtivistas de aprendizagem. Berk (2013) resume as principais implicações de ensino extraídas de Piaget da seguinte forma: 1. Um foco no processo de pensamento das crianças, não apenas em seus produtos. Além de verificar a exatidão das respostas das crianças, os professores devem compreender IMPORTANT E 42 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO os processos que as crianças usam para chegar à resposta. As experiências de aprendizagem apropriadas se baseiam no nível atual de funcionamento cognitivo das crianças, e somente quando os professores apreciam os métodos das crianças para chegar a conclusões específicas é que eles estão em posição de fornecer tais experiências. 2. Reconhecimento do papel crucial do envolvimento ativo e auto iniciado das crianças nas atividades de aprendizagem. Em uma sala de aula piagetiana, a apresentação do conhecimento pré-fabricado não é enfatizada e as crianças são encorajadas a descobrir por si mesmas por meio da interação espontânea com o ambiente. Portanto, em vez de ensinar didaticamente, os professores oferecem uma rica variedade de atividades que permitem às crianças agirem diretamente no mundo físico. 3. Uma redução da ênfase nas práticas destinadas a tornar as crianças parecidas com os adultos em seus pensamentos. Piaget referiu-se à questão “Como podemos acelerar o desenvolvimento?” como “a questão americana”. Entre os muitos países que visitou, psicólogos e educadores nos Estados Unidos pareciam mais interessados em quais técnicas poderiam ser usadas para acelerar o progresso das crianças através dos estágios. Os programas educacionais baseados em Piaget aceitam sua firme convicção de que o ensino prematuro pode ser pior do que nenhum ensino, porque leva à aceitação superficial de fórmulas para adultos, em vez de ao verdadeiro entendimento cognitivo. 4. Aceitação das diferenças individuais no progresso do desenvolvimento. A teoria de Piaget assume que todas as crianças passam pela mesma sequência de desenvolvimento, mas que o fazem em ritmos diferentes. Portanto, os professores devem fazer um esforço especial para organizar as atividades em sala de aula para indivíduos e pequenos grupos de crianças, em vez de para o grupototal da turma. Além disso, como as diferenças individuais são esperadas, o progresso educacional das crianças deve ser avaliado em termos do curso de desenvolvimento anterior de cada criança, e não em termos do desempenho de colegas da mesma idade. 4 COMO VIGOTSKI COMPREENDEU O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO? Lev Semionovich Vygotsky foi um psicólogo russo que morreu em 1934. Embora Piaget e Vygotsky nunca se tenham conhecido, eles eram contemporâneos que sabiam dos primeiros trabalhos um do outro (DEVRIES, 2008). A obra de Vygotsky não foi amplamente lida em português até a década de 1980 e 1990 (em Portugal, a primeira obra traduzida foi em 1979, e, no Brasil, em 1987), no entanto, e somente a partir de então, suas teorias se tornaram influentes globalmente. A teoria vygotskiana é agora uma força poderosa na psicologia do desenvolvimento, e muitas das críticas que ele fez à perspectiva piagetiana há mais de 90 anos vieram à tona hoje (JOHN-STEINER, MAHN, 2003). O trabalho de Vygotsky é baseado em duas ideias-chave. Primeiro, ele propôs que o desenvolvimento intelectual pode ser entendido apenas em termos dos contextos históricos e culturais que as crianças vivenciam. Em segundo lugar, ele acreditava que o desenvolvimento depende dos sistemas de signos com os quais os indivíduos crescem, ou seja, a linguagem: os símbolos que as culturas criam para ajudar as pessoas a pensar, comunicar e resolver problemas. Os exemplos incluem o idioma de uma cultura, seu sistema de escrita e seu sistema de contagem. Focar apenas em sistemas de símbolos ocidentais, ele argumentou, subestima muito o desenvolvimento cognitivo em diversas culturas (TRAWICK-SMITH, 2014). Em contraste com Piaget, Vygotsky propôs que o desenvolvimento cognitivo está fortemente ligado aos dados recebidos (input) aos quais a criança é exposta. TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 43 4.1 COMO OCORRE O DESENVOLVIMENTO Lembre-se de que, na teoria de Piaget, sugere-se que o desenvolvimento precede a aprendizagem. Em outras palavras, estruturas cognitivas específicas precisam se desenvolver antes, para que certos tipos de aprendizagem possam ocorrer. Já na teoria de Vygotsky, é a aprendizagem que precede o desenvolvimento. Para Vygotsky, a aprendizagem envolve a aquisição da linguagem. O desenvolvimento ocorre à medida que a criança internaliza as diferentes linguagens para poder pensar e resolver problemas sem a ajuda de outras pessoas, habilidade chamada de autorregulação. O primeiro passo no desenvolvimento da autorregulação e do pensamento independente é aprender que as ações e os sons têm um significado. Por exemplo, um bebê aprende que o processo de estender a mão em direção a um objeto é interpretado por outras pessoas como um sinal de que a criança deseja o objeto e, em seguida, estende a mão em direção a objetos fora de alcance como um sinal de que deseja ajuda para obter o objeto. No caso da aquisição da linguagem, as crianças aprendem a associar certos sons a significados. A segunda etapa no desenvolvimento de estruturas internas e autorregulação envolve a prática. O bebê pratica gestos que chamarão a atenção. A criança em idade pré-escolar conversa com outras pessoas para dominar a linguagem. A etapa final é o uso de signos, ou seja, de diferentes linguagens, para pensar e resolver problemas sem a ajuda de outras pessoas. Nesse ponto, as crianças se autorregulam e o sistema de signos é internalizado. Vygotsky propôs que as crianças incorporam a fala de outras pessoas e, então, usam essa fala para se ajudarem a resolver problemas. A fala privada é fácil de ver em crianças pequenas, que frequentemente falam sozinhas, especialmente quando confrontadas com tarefas difíceis. Mais tarde, a fala privada silencia, mas ainda é muito importante. Estudos descobriram que crianças que fazem uso extensivo da fala privada aprendem tarefas complexas com mais eficácia do que outras crianças (AL-NAMLAH; FERNYHOUGH; MEINS, 2006). Vygotsky (2007) acreditava que a aprendizagem ocorre de maneira mais eficaz quando as crianças estão trabalhando em sua Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). As tarefas dentro da zona de desenvolvimento proximal são aquelas que uma criança ainda não consegue realizar sozinha, mas poderia realizar com a ajuda de colegas ou adultos mais competentes. Ou seja, a zona de desenvolvimento proximal descreve tarefas que uma criança ainda não aprendeu, mas é capaz de aprender em um determinado momento. Alguns educadores referem-se a um “momento ensinável” quando uma criança ou grupo de crianças está exatamente no ponto de prontidão para um determinado conceito (BERGER, 2012). Vygotsky acreditava, ainda, que o funcionamento mental superior geralmente existe na conversa e na colaboração entre os indivíduos, antes de existir dentro do indivíduo. 44 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Vygotsky acreditava que habilidades complexas, como raciocínio e resolução de problemas, são desenvolvidas por meio da mediação com adultos e colegas de alto desempenho (VYGOTSKY, 2007). Ou seja, crianças mais velhas e adultos ajudam os alunos explicando, modelando ou simplificando habilidades, conhecimentos ou conceitos complexos. Dessa forma, eles ajudam os alunos a obter ferramentas psicológicas, como quando as crianças estão dando dicas umas às outras em um jogo de computador ou modelando o uso de estratégias de debate. Os colegas ou adultos com mais conhecimento ajudam o aluno a dar o próximo passo de aprendizagem, mas também contribuem para o "kit de ferramentas culturais" do aluno. Por exemplo, imagine que dois jovens amigos estão dirigindo juntos e o motorista (involuntariamente) berra em uma esquina. O passageiro observa: “Eu sempre desacelero quando estou virando para evitar que isso aconteça”. Este conselho, de um colega no momento exato em que provavelmente será significativo, não apenas ajudará melhor o motorista na curva, mas adicionará ao "kit de ferramentas culturais" do motorista soluções para problemas de direção e senso de domínio de uma tarefa de enorme importância cultural nas sociedades ocidentais. Em uma cultura tradicional, em que jovens adolescentes passam pelos ritos da puberdade, os colegas podem compartilhar ideias sobre maneiras de se preparar para um rito de passagem, como sobreviver sozinho na selva. Assim como no exemplo de direção, esse compartilhamento adiciona ao “kit de ferramentas culturais” do aluno; é apenas um kit diferente, projetado para uma cultura diferente. O ponto de Vygotsky é que cada cultura veste cada um de seus membros com esse kit por meio de um processo de mediação, passando conhecimento, habilidades e experiência dos membros mais velhos para os mais jovens da sociedade. Uma ideia-chave derivada da noção de Vygotsky de aprendizagem social é a de andaime (JOHN-STEINER, MAHN, 2003): a assistência fornecida por pares ou adultos mais competentes. Normalmente, andaime significa fornecer à criança um grande apoio durante os primeiros estágios de aprendizagem e, em seguida, diminuir esse apoio e fazer com que a criança assuma responsabilidades crescentes assim que ela puder. O andaime pode ser pensado como uma mediação proposital, ajudando planejadamente o aluno a passar de um nível atual de habilidade para a capacidade independente de usar uma nova habilidade. Os pais usam andaimes quando ensinam os filhos a jogar um novo jogo ou a amarrar os sapatos. Um conceito relacionado é a aprendizagem cognitiva, que descreve todo o processo de modelagem, treinamento, andaime e avaliação que é tipicamente visto sempre que ocorre uma instrução individual (JOHN-STEINER, MAHN, 2003). Por exemplo, em A Vida no Mississippi, Mark Twain (2020) descrevecomo foi ensinado a ser piloto de barco a vapor. No início, o piloto experiente o orientou em todas as curvas do rio, mas, aos poucos, foi deixado para resolver as coisas por si mesmo, com o piloto ali para intervir apenas se o barco estivesse prestes a encalhar. As teorias de Vygotsky apoiam o uso de estratégias de aprendizagem cooperativa nas quais as crianças trabalham juntas para ajudar umas às outras a aprender (SLAVIN, 2014). Como os pares geralmente operam nas zonas de desenvolvimento proximal uns dos outros, eles costumam fornecer modelos um TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 45 para o outro de pensamento um pouco mais avançado. Além disso, a aprendizagem cooperativa torna a fala interior das crianças disponível para os outros, para que possam ter uma visão sobre o processo de raciocínio uns dos outros. Ou seja, as crianças se beneficiam de ouvir umas às outras “pensando em voz alta”, especialmente quando seus colegas de grupo conversam entre si sobre um problema. Aplicações da teoria de Vygotsky em sala de aula As teorias de educação de Vygotsky têm importantes implicações práticas na sala de aula. O conceito de zona de desenvolvimento proximal implica que apenas as instruções e atividades que se enquadram nessa zona podem ser aprendidas. O conteúdo de ensino que é muito fácil ou muito difícil não adiciona ao aprendizado. Além disso, de acordo com uma abordagem vygotskiana de instrução, o ensino deve enfatizar o andaime, com os alunos assumindo cada vez mais responsabilidade por sua própria aprendizagem. Finalmente, os alunos podem se beneficiar de arranjos de aprendizagem cooperativa entre grupos de alunos com diferentes níveis de habilidade. A tutoria por pares mais competentes pode ser eficaz na promoção do crescimento dentro da zona de desenvolvimento proximal, assim como as interações em torno de tarefas complexas. Você pode usar informações sobre a zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky para organizar as atividades em sala de aula das seguintes maneiras: • A instrução pode ser planejada para fornecer prática dentro da zona de desenvolvimento proximal para crianças individuais ou para grupos de crianças. Por exemplo, dicas e sugestões que ajudaram as crianças durante uma pré-avaliação podem formar a base das atividades de ensino. • O andaime fornece dicas e sugestões em diferentes níveis. No andaime, o adulto não simplifica a tarefa, mas o papel do aluno é simplificado “através da intervenção graduada do professor”. • Atividades de aprendizagem cooperativa podem ser planejadas com grupos de crianças em diferentes níveis que podem ajudar umas às outras a aprender. O andaime está diretamente relacionado ao conceito de zona de desenvolvimento proximal. Por exemplo, uma criança pode ver moedas representar cada som em uma palavra (três moedas para os três sons em "homem"). Para dominar essa palavra, a criança pode ser solicitada a colocar uma moeda na mesa para mostrar cada som em uma palavra e, finalmente, a criança pode identificar os sons sem as moedas. As moedas fornecem um andaime para ajudar a criança a passar do sucesso assistido para o não assistido na tarefa. Em uma aula de ciências de laboratório do ensino médio, um professor pode fornecer um andaime, primeiro dando aos alunos guias detalhados para a realização de experimentos, em seguida, fornecendo resumos que eles podem usar para estruturar experimentos e, finalmente, pedindo-lhes que configurem experimentos inteiramente por conta própria. IMPORTANT E 5 COMO BRONFENBRENNER COMPREENDEU O DESENVOLVIMENTO? Urie Bronfenbrenner, psicólogo que nasceu na Rússia e mudou-se quando criança para os Estados Unidos, descreveu um modelo “bioecológico” de desenvolvimento humano (BRONFENBRENNER, MORRIS, 2006). O foco de 46 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO seu modelo está nas influências sociais e institucionais no desenvolvimento de uma criança, desde a família, escolas, locais de culto e bairros, até influências sociais e políticas mais amplas, como mídia de massa e governo. Seu modelo está resumido na Figura 6. FIGURA 6 – MODELO BIOECOLÓGICO DE BRONFENBRENNER FONTE: Portugal (1992, p. 40) A principal contribuição de Bronfenbrenner (1996) foi mostrar como o desenvolvimento é influenciado em cada um dos níveis. Bronfenbrenner critica a visão piagetiana por seu foco limitado além da criança (o microssistema). Ele nota a enorme influência do lar e da família e as influências mútuas entre a criança e a família. Este mesossistema também liga crianças a pais, alunos a professores e amigos a amigos. O exossistema (por exemplo, comunidade, governo local, igreja) afeta o desenvolvimento diretamente e por meio de sua influência nas famílias, e o macrossistema, incluindo valores culturais e religiosos, bem como a mídia de massa, define um contexto importante para todo o desenvolvimento. Finalmente, o cronossistema consiste na passagem do tempo e nos eventos históricos imediatos que mudam todos os fatores que cercam a criança. Bronfenbrenner enfatiza que todos esses fatores estão em constante mudança e que a própria criança influencia muitos deles, principalmente a família. A importância da abordagem bioecológica está em enfatizar a interconexão dos muitos fatores que influenciam o desenvolvimento de uma criança. Uma mudança na família, como um divórcio ou perda do emprego, não só influencia a criança diretamente, mas também pode causar mudanças na vizinhança, escola, local de culto e amigos da criança. TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 47 A abordagem bioecológica é descritiva e filosófica, e não tem o extenso suporte de pesquisa dedicado às perspectivas de Piaget ou Vygotsky. No entanto, constrói a partir da ênfase de Vygotsky nos fatores socioculturais um modelo mais completo de influências além da biologia no desenvolvimento infantil (BRONFENBRENNER, 1996). 6 COMO SE DESENVOLVEM A LINGUAGEM E O LETRAMENTO? Os aspectos do desenvolvimento que provavelmente mais preocupam os educadores são a linguagem e o letramento. Crianças que desenvolvem grandes vocabulários e se tornam oradores, leitores e escritores eficazes têm probabilidade de ter sucesso na escola e além (OWENS, 2016). O desenvolvimento da linguagem e do letramento é um objetivo fundamental do ensino, mas também existem padrões característicos de desenvolvimento ao longo do tempo, observados em todas as culturas, que não são resultados diretos do ensino. Embora existam diferenças individuais nas taxas em que as crianças adquirem habilidades de linguagem, a sequência de realizações é semelhante para todas as crianças, independentemente da língua que estão aprendendo. Por volta de um ano de idade, as crianças produzem enunciados de uma palavra, como “oi” e “mãe”. Essas palavras geralmente representam objetos e eventos que são importantes para a criança. Ao longo do segundo ano de vida, as crianças começam a combinar palavras em frases de duas palavras (por exemplo, “mais leite”). Durante os anos pré-escolares, o vocabulário das crianças aumenta, junto com seu conhecimento das regras da língua falada. No momento em que se inicia a educação básica, as crianças dominam a maioria das regras gramaticais da língua e seu vocabulário consiste em milhares de palavras. O desenvolvimento da língua oral, ou língua falada, requer não apenas o aprendizado de palavras, mas também o aprendizado das regras de construção de palavras e frases (OWENS, 2016). Curiosamente, as crianças muitas vezes aprendem as formas corretas de verbos irregulares e depois os substituem por construções incorretas, porém baseadas nas regras dos verbos regulares, o que chamamos de hipercorreção. Assim como aprendem regras para formar palavras, as crianças aprendem regras para frases. Suas primeiras frases geralmente contêm apenas duas palavras, mas logoaprendem a formar frases mais complexas e a variar o tom de voz para indicar perguntas ou para indicar ênfase. Crianças de três anos geralmente podem expressar pensamentos bastante complexos, embora suas frases ainda possam carecer de algumas palavras. Crianças em idade pré-escolar costumam brincar com a linguagem ou fazer experiências com seus padrões e regras. Essa experimentação frequentemente envolve a mudança de sons, padrões e significados. As crianças costumam reorganizar os sons das palavras para criar novas palavras, rimas e frases engraçadas. 48 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO O desenvolvimento da linguagem oral é fortemente influenciado pela quantidade e qualidade da fala dos pais com seus filhos. Um estudo clássico de Hart e Risley (1995) descobriu que os pais da classe média falavam muito mais com os filhos do que os pais da classe trabalhadora, e que seus filhos tinham números substancialmente diferentes de palavras em seus vocabulários. A quantidade de palavras dos pais era tão importante quanto o status socioeconômico; filhos de pais de baixa renda que falavam muito com os filhos também tinham vocabulários extensos. Numerosos estudos também mostraram que programas escolares direcionados à construção de vocabulário podem ser muito eficazes (HINDMAN, WASIK, 2012). Embora o desenvolvimento da linguagem seja semelhante para crianças que falam todos os idiomas, as crianças que falam outros idiomas além do português nas escolas do Brasil têm desafios adicionais. Estratégias de ensino para auxiliar no desenvolvimento de uma segunda língua são discutidas no Livro Didático “Fundamentos da Neurofisiologia e Neuropsicologia” de Kevin Daniel dos Santos Leyser (2018), que você pode acessar em sua Biblioteca Virtual: https://bibliotecavirtual.uniasselvi.com.br/livros/livro/28539. DICAS Aprender a ler nos primeiros anos do ensino fundamental é uma das mais importantes de todas as tarefas de desenvolvimento, tanto porque outras disciplinas dependem da leitura quanto porque, em nossa sociedade, o sucesso escolar é frequentemente equiparado ao sucesso na leitura. Crianças que não aprendem a ler bem até o quarto ano estão em grande risco de problemas de longo prazo. As crianças costumam ter habilidades de linguagem complexas que são críticas para a leitura, e o processo de aprender a ler pode começar bem cedo se as crianças leem para elas (GIORGIS; GLAZER, 2009). TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 49 Pesquisas sobre o letramento emergente, ou conhecimentos e habilidades de pré-escolares relacionados à leitura mostraram que as crianças podem entrar na escola com um grande conhecimento sobre leitura e que esse conhecimento contribui para o sucesso na instrução formal de leitura (MORROW; ROSKOS; GAMBRELL, 2015). Por exemplo, crianças pequenas costumam aprender conceitos de texto, como que o texto é organizado da esquerda para a direita, que os espaços entre as palavras têm significado e que os livros são lidos da frente para trás. Muitos pré-escolares podem “ler” livros do início ao fim, interpretando as imagens em cada página. Eles entendem os enredos da história e geralmente podem prever o que acontecerá a seguir em uma história simples. Eles podem reconhecer logotipos em lojas e produtos familiares. As crianças que leem em casa começam com uma vantagem na leitura, mas todas as crianças podem aprender conceitos de textos, trama e outros conceitos de pré-leitura se frequentarem pré-escolas ou jardins de infância que enfatizarem a leitura e a discussão de livros em sala de aula. Da mesma forma, crianças pequenas podem ser ensinadas a ouvir sons específicos dentro das palavras, uma habilidade chamada consciência fonêmica, o que contribui para o sucesso posterior na leitura. É importante, também, aproveitar todas as oportunidades possíveis para construir o vocabulário das crianças apontando novas palavras em muitos contextos (NEUMAN, 2014). A escrita das crianças também segue uma sequência de desenvolvimento. Ela surge de rabiscos iniciais e, a princípio, é espalhada aleatoriamente por uma página. Essa característica reflete uma compreensão incompleta dos limites das palavras, bem como uma incapacidade de criar mentalmente uma linha para colocar as letras. As crianças inventam grafias fazendo julgamentos sobre os sons e relacionando os sons que ouvem com as letras que conhecem. Ao tentar representar o que ouvem, elas normalmente usam nomes de letras em vez de sons de letras; vogais curtas são frequentemente omitidas porque não estão diretamente associadas aos nomes das letras (MORROW, ROSKOS, GAMBRELL, 2015). Promovendo o desenvolvimento do letramento em crianças pequenas Muitas das implicações educacionais derivadas de pesquisas sobre o desenvolvimento do letramento das crianças transferem os resultados de duas fontes: comportamentos dos pais e dos professores que incentivam o desenvolvimento da língua oral e estudos de crianças pequenas que aprendem a ler sem instrução formal em sala de aula. As recomendações mais frequentes incluem leitura para crianças; cercá-los de livros e outros materiais impressos; disponibilizando vários materiais de escrita; incentivo à leitura e escrita; e responder às perguntas das crianças sobre letras, palavras e grafias. Você pode, também, usar vários locais na sala de aula. As salas de aula podem ter centros de redação que disponibilizam computadores com programas de redação, letras magnéticas, quadros-negros, lápis, giz de cera, marcadores e papel. Você pode incentivar IMPORTANT E 50 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO o envolvimento das crianças com livros, lendo em pequenos grupos, fazendo com que voluntários leiam para as crianças individualmente e permitindo que as crianças escolham livros para ler. As experiências íntimas de leitura permitem que as crianças virem as páginas, parem para ver fotos ou façam perguntas e leiam junto com um adulto. Livros de histórias infantis permitem que os leitores iniciantes confiem no que já sabem sobre letramento enquanto aprendem as relações entre letras e sons. As histórias são previsíveis se uma criança conseguir lembrar o que o autor vai dizer e como será dito. Estruturas repetitivas, rima e ritmo, e uma combinação entre imagens e texto aumentam a previsibilidade. A compreensão das crianças sobre a alfabetização é aprimorada quando os adultos destacam as características importantes do texto. Declarações como “Começamos na frente, não no final do livro”; “Mova o dedo; você está cobrindo as palavras e não consegue enxergar para lê-las”; e “Aponte para cada palavra que você disser, não para cada letra, assim” ajudam a esclarecer o processo de leitura. Você pode indicar os recursos do texto que são significativos e chamar a atenção para padrões de letras, sons ou frases. Programas que incentivam os pais a ler com seus filhos em idade pré-escolar mostraram que as crianças se beneficiam. A linguagem e o letramento se desenvolvem em um ritmo rápido para as crianças do ensino fundamental e médio. Por exemplo, Graves (2007) estima que o aluno médio adiciona 3.000 palavras a cada ano ao seu vocabulário. No entanto, essas palavras variam, conforme as motivações, o interesse, a cultura e o grupo de pares de um aluno passam a ter um grande impacto. Por exemplo, uma garota que fala sobre esportes com seus amigos e família, pratica esportes, lê sobre esportes e assiste a esportes na televisão desenvolve um enorme vocabulário esportivo. Uma garota que ama ciências e faz parte de um grupo familiar e de colegas que falam sobre ciências constrói um vocabulário de ciências igualmente enorme. Mas qual desses – esportes ou ciências – estará nos conteúdos escolares? Obviamente, a garota imersa em ciências leva uma grande vantagem na escolapor causa de seus interesses e contexto social. O letramento também se desenvolve rapidamente nos anos escolares elementares e intermediários. Considerando que a ênfase nos primeiros anos do ensino fundamental é principalmente na decodificação e fluência, os alunos do terceiro ano escolar em diante estão cada vez mais focados na construção de compreensão, vocabulário e habilidades de estudo. Bons leitores usam estratégias como prever, revisar, resumir e gerar suas próprias perguntas, e, se essas estratégias forem ensinadas diretamente a alunos do ensino fundamental e médio, sua compreensão melhora (BIANCAROSA; SNOW, 2006). Para finalizar este tópico, aqui vão algumas dicas para os professores intencionais quanto ao ensino dirigido por princípios do desenvolvimento cognitivo, da linguagem e do letramento. Os professores intencionais usam o que sabem sobre padrões previsíveis de desenvolvimento cognitivo, de letramento e de linguagem para tomar decisões de ensino: • Eles estão cientes do que as crianças da idade em que ensinam são capazes de fazer agora e nos próximos passos em seu desenvolvimento, e ajudam a dar aos alunos oportunidades de crescer em novas formas de pensar. TÓPICO 2 — DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 51 • Eles avaliam os processos de pensamento de seus alunos, usando a observação, bem como medidas formais, para compreender seus níveis cognitivos e as barreiras ao seu crescimento. • Eles modificam sua instrução se eles descobrem que não é um desafio para seus alunos realizarem um crescimento conceitual, ou se eles acham que muitos alunos estão lutando devido à falta de preparação. • Eles oferecem aos alunos muitas oportunidades de trabalhar com diversos colegas, para que possam experimentar regularmente como colegas em níveis cognitivos ligeiramente diferentes procedem para resolver problemas. • Eles oferecem aos alunos muitas oportunidades para resolver problemas práticos complexos que os forçam a encontrar questões cognitivas adequadas aos seus níveis de desenvolvimento, como experimentos científicos intrigantes e problemas matemáticos intrigantes. • Eles levam em consideração fatores culturais, familiares e comunitários em seu ensino, sem usar esses fatores como desculpa para exigir menos de alguns alunos. • Eles convidam proativamente os pais e membros da comunidade a se envolverem com o ensino, para que os alunos possam ver uma consistência de expectativas entre a escola, o lar e a comunidade, e para que as famílias e os membros da comunidade possam reforçar melhor os objetivos da escola para as crianças que compartilham. 52 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A maioria dos psicólogos do desenvolvimento acredita que a natureza e a criação se combinam para influenciar o desenvolvimento cognitivo. • Teorias do desenvolvimento contínuo focam nas experiências sociais pelas quais uma criança passa, enquanto teorias do desenvolvimento descontínuo enfatizam fatores inatos em vez da influência ambiental. • Piaget postulou quatro estágios de desenvolvimento cognitivo por meio dos quais as pessoas progridem entre o nascimento e a idade adulta. • As pessoas ajustam seus esquemas para lidar com o mundo por meio da assimilação e da acomodação. • Os estágios de desenvolvimento de Piaget incluem o estágio sensório-motor (nascimento até dois anos de idade), o estágio pré-operatório (dois a sete anos de idade) e o estágio operacional concreto (idades de sete a 11). Durante o estágio operacional formal (dos 11 anos até a idade adulta), os jovens desenvolvem a habilidade de lidar com situações hipotéticas e monitorar seu próprio pensamento. • A teoria de Piaget foi criticada por se basear exclusivamente em estágios amplos, fixos e sequenciais através dos quais todas as crianças progridem e por subestimar as habilidades das crianças. • As teorias neopiagetianas colocam maior ênfase nas influências sociais e ambientais no desenvolvimento cognitivo. • A teoria de Piaget tem implicações importantes para a educação. • Os princípios piagetianos estão embutidos no currículo e nas práticas de ensino eficazes, e os conceitos influenciados por Piaget, como o construtivismo cognitivo e a instrução apropriada ao desenvolvimento, têm sido importantes na reforma educacional. • Vygotsky via o desenvolvimento cognitivo como uma consequência do desenvolvimento social por meio da interação com os outros e o meio ambiente. • A aprendizagem mediada ocorre nas zonas de desenvolvimento proximal das crianças, em que elas podem realizar novas tarefas que estão dentro de suas capacidades apenas com a ajuda de um professor ou de seus pares. 53 • As crianças internalizam o aprendizado, desenvolvem autorregulação e resolvem problemas por meio da fala privada ou silenciosa. • Os professores fornecem contextos interacionais, como aprendizagem cooperativa, mediação e estrutura de apoio, para ajudar as crianças a desenvolver a compreensão de habilidades apropriadas para o desenvolvimento. • Bronfenbrenner criou um modelo bioecológico para descrever como a família, a escola, a comunidade e os fatores culturais afetam o desenvolvimento de uma criança. • A linguagem das crianças se desenvolve em padrões previsíveis conforme as crianças usam e brincam com a linguagem. • O desenvolvimento do letramento precoce depende das experiências das crianças em casa e de seu aprendizado sobre livros e palavras. • Os alunos progridem rapidamente em vocabulário e compreensão de leitura. • A motivação é a chave para a aquisição da linguagem, assim como as oportunidades de usar novas palavras e habilidades de leitura com os colegas e em novas formas. 54 1 As pesquisas na área do desenvolvimento da aprendizagem não são recentes. Muitos teóricos que se debruçaram sobre os estudos do desenvolvimento cognitivo chegaram a inúmeras conclusões. Mas, podemos encontrar na literatura autores como Piaget que acreditavam que todas as pessoas nascem com uma tendência natural a se relacionarem e a dar sentido aos seus ambientes, apresentando alguns padrões de comportamentos no qual o autor citado chamou de esquemas. A respeito dos esquemas e seus processos, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A adaptação é o processo de ajustar esquemas em resposta aos estímulos internos do organismo independente do ambiente externo. b) ( ) A acomodação é o processo de compreensão de um novo objeto ou evento em termos de um esquema existente. c) ( ) A assimilação é um processo no qual a criança pode modificar um esquema existente à luz de novas informações ou de uma nova experiência. d) ( ) A equilibração é o processo no qual as pessoas naturalmente tentam reduzir os desequilíbrios concentrando-se nos estímulos que causam o desequilíbrio e desenvolvendo novos esquemas, ou adaptando os antigos, até que o equilíbrio seja restaurado. 2 O educador ao desenvolver o seu ensino precisa saber que as crianças não são pequenos adultos, e que a forma que cada um interpreta o mundo vai determinar a forma que ela aprenderá. Psicólogos do desenvolvimento vêm discutindo por décadas duas grandes questões: 1) se o desenvolvimento da criança ocorre em estágios e; 2) em que grau o desenvolvimento dessa criança é afetado por sua experiência. Com relação ao desenvolvimento cognitivo das crianças, assinale V para verdadeiro e F para falso nos itens que seguem: I- Os psicólogos do desenvolvimento acreditam que a experiência do indivíduo e a sua natureza se combinam para instigar o desenvolvimento, nesse sentido, fatores de caráter biológico desempenharão um papel mais significativo em alguns aspectos,como por exemplo o desenvolvimento físico. II- Os psicólogos do desenvolvimento acreditam que não existe relação entre fatores biológicos para o desenvolvimento cognitivo infantil. III- Apenas aspectos de experiências culturais irão determinar o desenvolvimento cognitivo da criança. IV- É necessário investigar os estágios de desenvolvimento e a idade da criança para desenvolver boas estratégias de ensino. AUTOATIVIDADE 55 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e IV estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 John Watson, comportamentalista que tinha uma posição ambientalista radical da educação, quando escreveu sobre o argumento da natureza versus a criação, afirmava que se lhes dessem uma dúzia de crianças saudáveis e bem formadas e o seu mundo específico para criá-las, ele se comprometeria a escolher uma delas ao acaso e treiná-la para que chegue a ser qualquer tipo de especialista que escolhesse. De acordo com a teoria de Watson, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Apesar de poucos pesquisadores chegarem a este extremo de Watson, há pouca dúvida atualmente de que o ambiente é o fator determinante e singular em qualquer situação de aprendizagem e que os genes, a biologia não tem qualquer influência significativa. ( ) Para os educadores, o ponto-chave é que, embora nada possa ser feito sobre os genes de uma criança, muito pode ser feito em relação ao ambiente para desenvolver habilidades, motivação e autoconfiança. ( ) Ambiente, genes e oportunidades não possuem efeito promissor para o desenvolvimento de habilidades. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) F – V – F. c) ( ) F – V – V. d) ( ) V – F – V. 4 Embora o próprio Vygotsky nunca tenha mencionado o termo, o andaime foi desenvolvido pela primeira vez por Jerome Bruner, David Wood e Gail Ross, ao aplicar o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) de Vygotsky a vários contextos educacionais. O conceito de andaime é utilizado para explicar aspectos da aprendizagem social. Nesse contexto, descreva qual era a proposta principal deste conceito: 5 Piaget, em sua teoria do desenvolvimento cognitivo, dividiu o desenvolvimento de crianças e adolescentes em quatro estágios: sensório motor, pré-operatório, operacional concreto e operacional formal. Nesse contexto, disserte acerca dos quatro estágios, especificando em qual idade eles ocorrem. 56 57 TÓPICO 3 — UNIDADE 1 DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, novamente iniciaremos o tópico com um caso hipotético. Vamos lá? Na Escola de Ensino Básico E.E.B. Anísio Teixeira, os alunos do nono ano escolar são incentivados a se tornarem tutores para os alunos do segundo ano. Eles os ajudam com leitura, matemática e outras matérias. Como parte desse programa, Samuel Silva, aluno do nono ano, está trabalhando há cerca de um mês com Bruno Almeida, aluno do segundo ano. "Ei, baixinho!" diz Samuel um dia quando encontra Bruno para uma sessão de tutoria. "Ei, Samuel!" Como sempre, Bruno está encantado em ver seu grande amigo. Mas hoje sua saudação amigável se transforma em um olhar de espanto. "O que você tem em seu lábio?". "Você nunca viu um piercing labial?" Bruno está impressionado. "Incrível!" “Muitos caras estão usando”. "Não doeu abrir um buraco no lábio?" “Um pouco, mas sou forte! Rapaz, minha mãe estava brava, no entanto. Eu tenho que tirar meu piercing antes de ir para casa, mas eu o coloco de volta enquanto estou caminhando para a escola. ". "Mas sua mãe não ...". “Chega disso, tampinha! Você tem um pouco de matemática para fazer. Vamos lá!" A interação entre Samuel e Bruno ilustra as enormes diferenças entre o mundo do adolescente e o da criança. Samuel, aos 13 anos, é um adolescente clássico. Seu idealismo e profundo compromisso com o que é positivo são mostrados em seu voluntariado para servir como tutor e no relacionamento carinhoso e responsável que estabeleceu com Bruno. Ao mesmo tempo, Samuel está afirmando sua independência com um piercing no lábio e usando-o em seu lábio, contra a vontade de sua mãe. Essa independência é fortemente apoiada por seu grupo de colegas, portanto, é realmente apenas uma mudança de dependência de pais e professores para os colegas. Seu principal objetivo ao usar um piercing labial é demonstrar conformidade com os estilos e normas de seus colegas, e não com os dos adultos. Mesmo assim, Samuel ainda depende de seus pais e de outros adultos para conselhos e apoio ao tomar decisões que ele sabe que têm sérias consequências para seu futuro, e ele tira o piercing em casa para evitar uma batalha realmente séria com seus pais. Bruno vive em um mundo diferente. Ele pode admirar a audácia de Samuel, mas ele nunca iria tão longe. O mundo de Bruno tem regras mais simples. 58 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Ele está chocado com a ousadia de Samuel em usar um piercing no lábio. Ele está igualmente chocado com a disposição de Samuel de desobedecer diretamente a sua mãe. Bruno pode se comportar mal, mas dentro de limites muito mais estreitos. Ele sabe que regras são regras e espera ser punido se as violar. PENSAMENTO CRÍTICO Os adolescentes afirmam sua independência de maneiras que muitas vezes são apoiadas por seu grupo de pares, mas não por seus pais. Diante disso, que tipos de confrontos você pode esperar encontrar em uma sala de aula do ensino médio e como pretende lidar com eles? Quais estratégias você poderia usar para evitar confrontos em primeiro lugar? IMPORTANT E Neste tópico, você estudará diferentes visões sobre o desenvolvimento social, emocional e moral. Nesta jornada de aprendizagem, podemos identificar os estágios do desenvolvimento social e emocional das crianças e aplicar este conhecimento para resolução de problemas em sala de aula. Todos estes conhecimentos visam informar uma prática de ensino intencional. Vamos lá? 2 ALGUMAS PERSPECTIVAS SOBRE DESENVOLVIMENTO PESSOAL E SOCIAL À medida que as crianças melhoram suas habilidades cognitivas, elas também desenvolvem autoconceitos, maneiras de interagir com outras pessoas e atitudes em relação ao mundo. Compreender o desenvolvimento pessoal e social é fundamental para sua capacidade de motivar, ensinar e interagir com sucesso com alunos em várias idades (SQUIRES et al., 2013). O desenvolvimento cognitivo, o desenvolvimento pessoal e o desenvolvimento social são frequentemente descritos em termos de estágios. Diante destas mudanças, muitas vezes, quando alguém está reagindo de forma irracional e egoísta, acusamos essa pessoa de "se comportar como uma criança de dois anos". Por outro lado, a palavra adolescente está associada na cultura ocidental com rebeldia, crises de identidade, adoração ao herói e despertar sexual. Essas associações refletem estágios de desenvolvimento pelos quais todos passam. Esta seção concentra-se em uma teoria do desenvolvimento pessoal e social proposta por Erik Erikson (1998), que é uma adaptação das teorias do desenvolvimento do neurologista e psiquiatra Sigmund Freud. O trabalho de Erikson é frequentemente chamado de teoria psicossocial, porque relaciona princípios de desenvolvimento psicológico e social. TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 59 2.1 ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL DE ERIKSON Assim como Piaget, Erikson não teve treinamento formal em psicologia, mas quando jovem foi treinado por Freud como psicanalista. Erikson levantou a hipótese de que as pessoas passam por oito estágiospsicossociais em suas vidas. Em cada estágio, existem crises ou problemas críticos a serem resolvidos. A maioria das pessoas resolve cada crise psicossocial de forma satisfatória e deixa-as para trás para assumir novos desafios, no entanto, algumas pessoas não resolvem completamente essas crises e devem continuar a lidar com elas mais tarde na vida. Conforme as pessoas crescem, enfrentam uma série de crises psicossociais que moldam a personalidade, de acordo com Erik Erikson (1998). Cada crise se concentra em um aspecto particular da personalidade e envolve o relacionamento da pessoa com outras pessoas. 2.1.1 Estágio I – Confiança versus Desconfiança (do nascimento aos 18 meses) O objetivo da infância é desenvolver uma confiança básica no mundo. Erikson (1976) definiu a confiança básica como uma confiança essencial dos outros, bem como um senso fundamental da própria confiabilidade. A mãe, ou a figura materna, geralmente é a primeira pessoa importante no mundo da criança. A mãe é quem deve satisfazer a necessidade de alimento e afeto do bebê. Se a mãe for inconsistente ou rejeitadora, ela se torna uma fonte de frustração para o bebê ao invés de uma fonte de prazer (CUMMINGS; BRAUNGART-RIEKER; DU ROCHER-SCHUDLICH, 2003). O comportamento da mãe cria no bebê um sentimento de desconfiança em relação ao seu mundo que pode persistir ao longo da infância e na idade adulta. 2.1.2 Estágio II – Autonomia versus vergonha/dúvida (18 meses a 3 anos) Aos dois anos, a maioria dos bebês pode andar e ter aprendido o suficiente sobre a linguagem para se comunicar com outras pessoas. As crianças na casa dos dois anos – a fase chamada de adolescência do bebê, na qual a criança se dá conta de que é um indivíduo e luta para conquistar o seu espaço, manifestando traços de rebeldia – não querem mais depender totalmente dos outros. Em vez disso, elas se esforçam para obter autonomia, a capacidade de fazer as coisas por si próprios. Os desejos de poder e independência da criança muitas vezes se chocam com os desejos dos pais. 60 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Erikson (1998) acreditava que as crianças neste estágio têm o desejo duplo de se apegar e de se desapegar. Os pais que são flexíveis o suficiente para permitir que seus filhos explorem livremente e façam as coisas por si próprios, mas ao mesmo tempo fornecem uma mão orientadora sempre presente, encorajam o estabelecimento de um senso de autonomia. Os pais que são excessivamente restritivos e severos dão aos filhos uma sensação de impotência e incompetência, o que pode levar à vergonha e à dúvida sobre as habilidades de uma pessoa. 2.1.3 Estágio III – Iniciativa versus culpa (3 a 6 anos) Durante este período, as habilidades motoras e de linguagem das crianças em contínuo amadurecimento permitem que elas sejam cada vez mais agressivas e vigorosas na exploração de seu ambiente social e físico. As crianças de três anos têm um senso crescente de iniciativa, que pode ser incentivado pelos pais e outros membros da família ou cuidadores que permitem que as crianças corram, pulem, brinquem, escorreguem e joguem. Estando firmemente convencida de que é uma pessoa por si mesma, a criança deve agora descobrir que tipo de pessoa ela pode se tornar (ERIKSON, 1976). Os pais que punem severamente as tentativas de iniciativa dos filhos farão com que os filhos se sintam culpados por seus impulsos naturais, tanto durante esta fase quanto mais tarde na vida. 2.1.4 Estágio IV – Diligência versus inferioridade (6 a 12 anos) Nesse estágio, o ingresso na escola apresenta uma grande expansão no mundo social da criança. Professores e colegas assumem uma importância cada vez maior para a criança, enquanto a influência dos pais diminui. As crianças agora querem fazer coisas. O sucesso na escola e na vida pessoal suscita um senso de diligência, um bom sentimento sobre si mesmo e suas habilidades (ERIKSON, 1998). O fracasso relaciona-se a uma autoimagem negativa, uma sensação de inadequação que pode atrapalhar o aprendizado futuro. E o “fracasso” não precisa ser real; pode ser meramente uma incapacidade de corresponder aos próprios padrões ou aos dos pais, professores ou irmãos e irmãs. 2.1.5 Estágio V – Identidade versus confusão de identidade/papel (12 a 18 anos) A pergunta "Quem sou eu?" torna-se importante durante a adolescência. Para respondê-la, os adolescentes cada vez mais se afastam dos pais e se voltam para grupos de pares. Erikson acreditava que, durante a adolescência, a fisiologia TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 61 em rápida mudança do indivíduo, juntamente com as pressões para tomar decisões sobre educação e carreira futuras, cria a necessidade de questionar e redefinir a identidade psicossocial estabelecida durante os estágios anteriores. A adolescência é uma época de mudança. Os adolescentes experimentam vários papéis sexuais, ocupacionais e educacionais enquanto tentam descobrir quem são e quem podem ser. Esse novo senso de si mesmo, ou “identidade do ego”, não é simplesmente a soma das identificações anteriores, mas uma remontagem ou um alinhamento dos impulsos básicos do indivíduo (ego) com sua herança (resoluções das crises anteriores) e suas oportunidades – necessidades, habilidades, objetivos e demandas da adolescência e da idade adulta próxima (ERIKSON, 1998). 2.1.6 Estágio VI – Intimidade versus isolamento (19 a 40 anos) Uma vez que os jovens sabem quem são e para onde vão, está montado o cenário para a partilha da sua vida com outra pessoa. O jovem adulto está, agora, pronto para formar uma nova relação de confiança e intimidade com outro indivíduo, um parceiro de amizade, sexo, competição e cooperação. Esse relacionamento deve realçar a identidade de ambos os parceiros, sem sufocar o crescimento de nenhum deles (ERIKSON, 1998). O jovem adulto que não busca essa intimidade ou cujas repetidas tentativas fracassam pode se isolar. 2.1.7 Estágio VII – Generatividade versus estagnação/ autoabsorção (meia-idade, 41 a 65 anos) Generatividade é o interesse em estabelecer e guiar a próxima geração (ERIKSON, 1998). Normalmente, as pessoas atingem a generatividade criando seus próprios filhos. No entanto, a crise dessa fase também pode ser resolvida com sucesso por meio de outras formas de produtividade e criatividade, como o ensino. Durante esta fase, as pessoas devem continuar a crescer; do contrário, desenvolve-se uma sensação de estagnação e empobrecimento interpessoal, levando à estagnação, autoabsorção ou autoindulgência (ERIKSON, 1998). 2.1.8 Estágio VIII – Integridade versus desespero (velhice, após os 65 anos) No estágio final do desenvolvimento psicossocial, as pessoas fazem uma retrospectiva de sua vida e resolvem sua crise final de identidade. A aceitação de realizações, fracassos e limitações finais envolve um senso de integridade, ou plenitude, e uma compreensão de que a vida de uma pessoa tem sido sua própria responsabilidade (ERIKSON, 1998). 62 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO A finalidade da morte também deve ser enfrentada e aceita. O desespero pode ocorrer naqueles que lamentam a maneira como levaram suas vidas ou como suas vidas acabaram. 2.2 IMPLICAÇÕES E CRÍTICAS DA TEORIA DE ERIKSON Assim como acontece com os estágios de Piaget, nem todas as pessoas vivenciam as crises de Erikson no mesmo grau ou ao mesmo tempo. As faixas etárias indicadas aqui podem representar os melhores momentos para uma crise ser resolvida, mas não são os únicos momentos possíveis. Por exemplo, crianças que nasceram em lares caóticos que não lhes deram segurança adequada podem desenvolver confiança depois de serem adotadas ou levadas para um ambiente mais estável. Pessoas cujas experiências escolares negativas lhes deram um sentimento de inferioridade podemdescobrir, ao entrar no mundo do trabalho, que podem aprender e que têm habilidades valiosas – uma compreensão que pode ajudá-las a finalmente resolver a crise da diligência versus inferioridade que outros resolveram em seus anos iniciais do Ensino Fundamental. A teoria de Erikson (1998) enfatiza o papel do meio ambiente tanto em causar as crises quanto em determinar como elas serão resolvidas. Os estágios de desenvolvimento pessoal e social são realizados em constantes interações com os outros e com a sociedade como um todo. Durante os três primeiros estágios, as interações são principalmente com os pais e outros membros da família, mas a escola desempenha um papel central para a maioria das crianças no Estágio IV (Diligência versus Inferioridade) e no Estágio V (Identidade versus confusão de Identidade/Papéis). A teoria de Erikson descreve os problemas básicos que as pessoas enfrentam ao longo da vida. No entanto, sua teoria tem sido criticada porque não explica como ou por que os indivíduos progridem de um estágio para outro e, também, porque é difícil de confirmar por meio de pesquisas (MILLER, 2011). 3 ALGUMAS PERSPECTIVAS SOBRE O DESENVOLVIMENTO MORAL A sociedade não poderia funcionar sem regras que ensinassem às pessoas como se comunicar, como evitar magoar os outros e como se dar bem na vida em geral. Se você convive muito com crianças, deve ter notado que muitas vezes elas são rígidas quanto a regras. As coisas estão certas ou erradas; não há meio-termo. Se você pensar em seus próprios anos no ensino fundamental ou médio, pode se lembrar de ter ficado chocado ao descobrir que as pessoas às vezes quebram as regras de propósito e que as regras que se aplicam a algumas pessoas podem não TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 63 se aplicar a outras. Essas experiências provavelmente mudaram seu conceito de regras. Sua ideia de leis também pode ter mudado quando você aprendeu como elas são feitas. As pessoas se encontram, debatem e votam; as leis que são feitas em um ano podem ser alteradas no próximo. Quanto mais complexidade você pode ver, mais complexidade você descobre que existe. Assim como as crianças diferem dos adultos no desenvolvimento cognitivo e pessoal, também diferem no raciocínio moral. Primeiro, examinaremos os dois estágios do raciocínio moral descritos por Piaget e, em seguida, discutiremos teorias relacionadas desenvolvidas por Lawrence Kohlberg. Piaget propôs que existe uma relação entre os estágios cognitivos de desenvolvimento e a capacidade de raciocinar sobre questões morais. Kohlberg acreditava que o desenvolvimento das estruturas lógicas propostas por Piaget é necessário, embora não suficiente para avanços na área de julgamento e raciocínio moral. 3.1 TEORIA DO DESENVOLVIMENTO MORAL DE PIAGET A teoria de desenvolvimento cognitivo de Piaget inclui uma teoria sobre o desenvolvimento do raciocínio moral. Piaget (1977) acreditava que as estruturas e habilidades cognitivas se desenvolvem primeiro. As habilidades cognitivas, então, determinam as habilidades das crianças para raciocinar sobre as situações sociais. Tal como acontece com as habilidades cognitivas, Piaget propôs que o desenvolvimento moral progride em estágios previsíveis, neste caso de um tipo de raciocínio moral muito egocêntrico para um que reflete um sistema de justiça baseado na cooperação e reciprocidade. À medida que as pessoas desenvolvem suas habilidades cognitivas, sua compreensão dos problemas morais também se torna mais sofisticada. Crianças pequenas são mais rígidas em seus pontos de vista sobre o que é certo e errado do que as crianças mais velhas e adultos tendem a ser. Para explorar o desenvolvimento moral, Piaget (1977) contou duas histórias para crianças mais velhas e mais novas. Na primeira história, um menino quebrou 15 xícaras completamente por acidente. Na segunda história, um menino quebrou uma xícara enquanto tentava roubar um biscoito. Piaget perguntou às crianças quem era mais travesso e quem deveria ser mais punido. Crianças mais novas de cinco a 10 anos se concentraram nos resultados de uma ação para fazer seus julgamentos, independentemente das intenções de cada criança – mais xícaras se quebraram, então a primeira criança foi mais travessa. Esse tipo de raciocínio é chamado de moral ou moralidade heterônoma. Já as crianças mais velhas, no experimento de Piaget, foram capazes de fazer julgamentos com base na intenção de uma ação – a segunda criança estava se comportando mal, então, ele era mais travesso. Esse tipo de raciocínio é chamado de moral ou moralidade autônoma. Piaget observou que essas duas fases se sobrepõem. 64 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Recentemente, quando apresentado a uma história semelhante, uma criança de cinco anos respondeu: “Ambos são maus porque quebraram xícaras”, enquanto uma criança de 10 anos respondeu: “O primeiro menino não fez isso de propósito”. O Quadro 3 resume as características da moralidade heterônoma e autônoma, de acordo com Piaget. QUADRO 3 – ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO MORAL DE PIAGET FONTE: O autor MORALIDADE HETERÔNOMA MORALIDADE AUTÔNOMA Regras inflexíveis são feitas por autoridades como a polícia, pais e professores. As intenções são mais importantes do que os resultados de seu comportamento. As regras são permanentes, não mudam e devem ser seguidas. Há momentos em que não há problema em quebrar regras. O egocentrismo na infância faz com que as crianças acreditem que os outros veem suas ideias de seguir regras da mesma forma que elas. As pessoas podem ver “o que é certo” de maneira diferente. O grau de punição deve depender de quão ruins foram os resultados de suas ações. O grau de punição deve depender das intenções e do grau de mau comportamento. O mau comportamento sempre será punido. Por exemplo, se você faz algo ruim e depois cai e machuca o joelho, é porque você se comportou mal. Isso é chamado de "justiça imanente". Resultados ruins coincidentes não são vistos como punições por mau comportamento. Para entender o raciocínio moral das crianças, Piaget (1977) passou muito tempo observando as crianças jogando bolinhas de gude e perguntando sobre as regras do jogo. A primeira coisa que ele descobriu foi que, antes dos seis anos, as crianças brincavam de acordo com suas próprias regras idiossincráticas e egocêntricas. Piaget acreditava que as crianças muito pequenas eram incapazes de interagir de forma cooperativa e, portanto, incapazes de se engajar no raciocínio moral. Piaget descobriu que, aos seis anos, as crianças reconheciam a existência de regras, embora fossem inconsistentes em segui-las. Frequentemente, várias crianças que supostamente estavam jogando o mesmo jogo foram observadas jogando de acordo com diferentes conjuntos de regras. As crianças dessa idade também não entendiam que as regras do jogo são arbitrárias e algo que um grupo pode decidir por si mesmo. Em vez disso, eles viam as regras como impostas por alguma autoridade superior e imutáveis. O primeiro estágio do desenvolvimento moral foi rotulado por Piaget (1977) de moralidade heterônoma; também tendo sido chamado de estágio de "realismo moral" ou "moralidade de restrição". Heterônomo significa estar sujeito a regras impostas por outros. Durante este período, as crianças pequenas TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 65 são constantemente confrontadas com os pais e outros adultos dizendo-lhes o que fazer e o que não fazer. Acredita-se que as violações das regras trazem punição automática; pessoas que são más acabarão sendo punidas. Piaget também descreveu as crianças neste estágio como julgando a moralidade do comportamento com base em suas consequências. Eles julgam o comportamento como ruim se resultar em consequênciasnegativas, mesmo que as intenções originais do ator sejam boas. Piaget (1977) descobriu que as crianças não usavam e seguiam as regras conscienciosamente até a idade de 10 ou 12 anos, quando as crianças são capazes de operações formais. Nessa idade, todas as crianças que jogam o jogo seguem o mesmo conjunto de regras. As crianças entenderam que as regras existiam para orientar o jogo e minimizar as disputas entre os jogadores. Eles entenderam que as regras eram algo com que todos concordavam e que, portanto, se todos concordassem em mudá-las, elas poderiam ser mudadas. Piaget (1977) também observou que as crianças dessa idade tendem a basear os julgamentos morais nas intenções do ator, e não nas consequências das ações. As crianças costumam se envolver em discussões sobre circunstâncias hipotéticas que podem afetar as regras. Este segundo estágio é denominado moralidade autônoma ou "moralidade da cooperação". Surge à medida que o mundo social da criança se expande para incluir mais e mais colegas. Por meio da interação e cooperação com outras crianças, as ideias da criança sobre as regras começam a mudar. As regras, nesse momento, são as feitas pelos indivíduos cooperativamente. A punição por transgressões não é mais automática, mas deve ser administrada levando-se em consideração as intenções do transgressor e quaisquer circunstâncias atenuantes. De acordo com Piaget (1977), as crianças progridem do estágio de moralidade heterônoma para o de moralidade autônoma com o desenvolvimento de estruturas cognitivas, mas também por causa de interações com colegas em igualdade de condições. Ele acreditava que a resolução de conflitos com colegas enfraquecia a confiança das crianças na autoridade dos adultos e aumentava sua consciência de que as regras são mutáveis e devem existir apenas como resultado de consentimento mútuo. A pesquisa sobre os elementos das teorias de Piaget geralmente apoia suas ideias, com uma exceção chave. Pensa-se que Piaget subestimou o grau em que mesmo as crianças muito pequenas consideram as intenções ao julgar o comportamento. No entanto, a progressão de um foco nos resultados para um foco nas intenções ao longo do desenvolvimento foi documentada muitas vezes. 3.2 ESTÁGIOS DE RACIOCÍNIO MORAL DE KOHLBERG A teoria dos estágios de raciocínio moral de Kohlberg (1969) é uma elaboração e refinamento da teoria de Piaget. Assim como Piaget, Kohlberg estudou como as crianças (e adultos) raciocinam sobre as regras que governam 66 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO seu comportamento em certas situações. Kohlberg não estudou jogos infantis, mas sondou suas respostas a uma série de situações estruturadas ou dilemas morais, o mais famoso dos quais é o seguinte: Na Europa, uma mulher estava quase morrendo de câncer. Uma droga poderia salvá-la, uma forma de rádio que um farmacêutico da mesma cidade havia descoberto recentemente. O farmacêutico estava cobrando US$ 2.000, dez vezes o que a droga custou para fazer. O marido da mulher doente, Heinz, procurou todos que ele conhecia para pedir o dinheiro, mas ele só conseguiu juntar cerca de metade do que custou. Ele disse ao farmacêutico que sua esposa estava morrendo e pediu-lhe que vendesse mais barato ou o deixasse pagar depois. Mas o farmacêutico disse “Não”. O marido ficou desesperado e invadiu a loja do homem para roubar a droga para sua esposa. O marido deveria ter feito isso? Por quê? (KOHLBERG, 1969, p. 379) Com base nas respostas que recebeu, Kohlberg propôs que as pessoas passam por uma série de seis estágios de julgamento ou raciocínio moral. Os níveis e estágios de Kohlberg estão resumidos no Quadro 4. Ele agrupou esses seis estágios em três níveis: pré-convencional, convencional e pós-convencional. Esses três níveis são diferenciados pela definição que a criança ou adulto atribui como comportamento correto ou moral, algo como acontece com outras teorias de estágios, nas quais cada estágio é mais sofisticado e complexo do que o anterior, e a maioria dos indivíduos passa por eles na mesma ordem (COLBY; KOHLBERG, 1984). Como Piaget, Kohlberg estava preocupado não tanto com a resposta da criança, mas com o raciocínio por trás dela. As idades em que as crianças e adolescentes passam pelos estágios do Quadro 4 variam consideravelmente; na verdade, o mesmo indivíduo pode se comportar de acordo com um estágio em alguns momentos e de acordo com outro em outros momentos. No entanto, a maioria das crianças passa do nível pré-convencional para o convencional aos nove anos de idade (KOHLBERG, 1969). QUADRO 4 – ESTÁGIOS DE RACIOCÍNIO MORAL DE KOHLBERG I. NÍVEL PRÉ- CONVENCIONAL II. NÍVEL CONVENCIONAL III. NÍVEL PÓS- CONVENCIONAL As regras são estabelecidas por outros. O indivíduo adota regras e às vezes subordina as próprias necessidades às do grupo. Expectativas de família, grupo ou nação são vistas como valiosas por direito próprio, independentemente das consequências imediatas e óbvias. As pessoas definem seus próprios valores em termos de princípios éticos que decidiram seguir. TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 67 FONTE: o autor Estágio 1 – Punição e Orientação para a Obediência. As consequências físicas da ação determinam sua bondade ou maldade. Estágio 3 – Orientação “Bom Menino/Boa Menina”. Bom comportamento é tudo o que agrada ou ajuda os outros e é aprovado por eles. Alguém ganha aprovação por ser “legal”. Estágio 5 – Orientação para o contrato social. O que é certo é definido em termos de direitos individuais gerais e em termos de padrões acordados por toda a sociedade. Em contraste com o Estágio 4, as leis não são “congeladas”, elas podem ser alteradas para o bem da sociedade. Estágio 2 – Orientação Relativista Instrumental. O que é certo é tudo o que satisfaz as próprias necessidades e, ocasionalmente, as necessidades dos outros. Elementos de justiça e reciprocidade estão presentes, mas são principalmente interpretados em um estilo “você coça minhas costas, eu coço as suas”. Estágio 4 – Orientação “Lei e Ordem”. Certo é cumprir o dever, mostrar respeito pela autoridade e manter a ordem social dada para seu próprio bem. Estágio 6 – Orientação do Princípio Ético Universal. O que é certo é definido pela decisão da consciência de acordo com princípios éticos escolhidos por nós mesmos. Esses princípios são abstratos e éticos (como a Regra de Ouro), não prescrições morais específicas (como os Dez Mandamentos). O estágio 1, que está no nível pré-convencional de moralidade é muito semelhante em forma e conteúdo ao estágio de moralidade heterônoma de Piaget. As crianças simplesmente obedecem a figuras de autoridade para evitar serem punidas. No estágio 2, as próprias necessidades e desejos das crianças tornam- se importantes, mas elas estão cientes dos interesses de outras pessoas. Em um sentido concreto, elas pesam os interesses de todas as partes ao fazer julgamentos morais, mas ainda estão se preocupando mais com as suas necessidades (COLBY, KOHLBERG, 1984). O nível convencional de moralidade começa no estágio 3. Aqui a moralidade é definida em termos de cooperação com os pares, assim como era no estágio de moralidade autônoma de Piaget. Este é o estágio em que as crianças têm uma crença inquestionável de que se deve "fazer aos outros o que você gostaria que fizessem a você". Por causa da diminuição do egocentrismo que acompanha as operações concretas, as crianças são cognitivamente capazes de se colocar no lugar de outra pessoa. Elas podem levar em consideração os sentimentos dos outros ao tomar decisões morais. Elas não fazem mais simplesmente o que não as punirá (estágio 1) ou o que as faz se sentir bem (estágio 2). No estágio 4, asregras 68 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO e leis da sociedade substituem as do grupo de pares. O desejo de aprovação social não determina mais julgamentos morais. As leis são seguidas sem questionamento e infringir a lei nunca pode ser justificado. A maioria dos adultos provavelmente está neste estágio (COLBY; KOHLBERG, 1984). O estágio 5 sinaliza a entrada no nível pós-convencional de moralidade, um nível de raciocínio moral alcançado por menos de 25 por cento dos adultos, de acordo com Kohlberg, no qual há uma compreensão de que as leis e os valores de uma sociedade são um tanto arbitrários e particulares àquela sociedade. As leis são vistas como necessárias para preservar a ordem social e garantir os direitos básicos de vida e liberdade. No estágio 6, nossos princípios éticos são escolhidos por nós mesmos e baseados em conceitos abstratos, como justiça e a igualdade e o valor dos direitos humanos. As leis que violam esses princípios podem e devem ser desobedecidas porque “a justiça está acima da lei”. Mais tarde, Kohlberg (1980) especulou que o estágio 6 não é realmente separado do estágio 5 e sugeriu que os dois fossem combinados. Kohlberg (1969) acreditava que dilemas morais podem ser usados para avançar o nível de raciocínio moral de uma criança, mas apenas em um estágio de cada vez. Ele teorizou que a maneira pela qual as crianças progridem de um estágio para o próximo é interagindo com outras pessoas cujo raciocínio é um ou, no máximo, dois estágios acima do seu. Os professores podem ajudar os alunos a progredir no raciocínio moral, entrelaçando as discussões sobre justiça e questões morais nas aulas, especialmente em resposta a eventos que ocorrem na sala de aula ou na sociedade em geral. Kohlberg (1980) descobriu que seus estágios de habilidade de raciocínio moral ocorriam na mesma ordem e aproximadamente na mesma idade nos Estados Unidos, México, Taiwan e Turquia. Outras pesquisas em todo o mundo geralmente encontraram a mesma sequência de estágios, embora haja claramente fortes influências da cultura no raciocínio moral, bem como no comportamento moral (NUCCI, 2009). Pesquisas posteriores geralmente apoiam a sequência principal de desenvolvimento de Kohlberg (NUCCI, 2009), mas também houve muitas críticas. Uma limitação do trabalho inicial de Kohlberg era que a pesquisa envolvia principalmente meninos, e algumas pesquisas sobre o raciocínio moral das meninas encontram padrões que são um pouco diferentes daqueles propostos por Kohlberg. Enquanto o raciocínio moral dos meninos gira principalmente em torno de questões de justiça, as meninas estão mais preocupadas com questões de cuidado e responsabilidade pelos outros (GILLIGAN, 1982). Gilligan argumentou, por exemplo, que homens e mulheres usam critérios morais diferentes: o raciocínio moral masculino é focado nos direitos individuais das pessoas, enquanto o raciocínio moral feminino é mais focado nas responsabilidades dos indivíduos para com outras pessoas. É por isso que, argumentou ela, as mulheres tendem a sugerir altruísmo e autossacrifício, em vez de direitos e regras, como soluções para dilemas morais (GILLIGAN, 1982). Kohlberg (LEVINE; KOHLBERG; TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 69 HEWER, 1985) revisou sua teoria com base nessas críticas. No entanto, a maioria das pesquisas não conseguiu encontrar quaisquer diferenças entre homens e mulheres na maturidade moral (BEE; BOYD, 2011). Outra crítica ao trabalho de Piaget e Kohlberg é que crianças pequenas podem muitas vezes raciocinar sobre situações morais de maneiras mais sofisticadas do que uma teoria de estágio poderia sugerir (ARNOLD, 2000). Por exemplo, embora crianças pequenas muitas vezes considerem as consequências como mais importantes do que as intenções ao avaliar a conduta, em certas circunstâncias, crianças de três e quatro anos de idade usam as intenções para julgar o comportamento dos outros. Além disso, foi demonstrado que crianças de seis a 10 anos, no estágio de moralidade heterônoma, fazem distinções entre regras que os pais têm justificativa para fazer e aplicar e regras que estão sob jurisdição pessoal ou de pares (KEENAN; EVANS, 2010). Finalmente, Turiel (2006) sugeriu que as crianças pequenas fazem uma distinção entre regras morais, como não mentir e roubar, que são baseadas em princípios de justiça, e regras sociais convencionais, como não usar pijama na escola, que são baseadas sobre consenso social e etiqueta. A pesquisa apoiou essa visão, demonstrando que crianças de anos e meio a três anos fazem distinções entre regras morais e sociais convencionais. A limitação mais importante da teoria de Kohlberg é que ela lida com o raciocínio moral e não com o comportamento real (ARNOLD, 2000). Muitos indivíduos em diferentes estágios se comportam da mesma maneira, e indivíduos no mesmo estágio frequentemente se comportam de maneiras diferentes. Além disso, o contexto dos dilemas morais é importante. Por exemplo, um estudo de Einerson (1998) descobriu que os adolescentes usavam níveis muito mais baixos de raciocínio moral quando os dilemas morais envolviam celebridades do que quando envolviam personagens inventados. Da mesma forma, a ligação entre o raciocínio moral das crianças e seu comportamento moral pode não ser clara. Por exemplo, um estudo de Murdock, Hale e Weber (2001) descobriu que trapacear entre alunos do ensino médio foi afetado por muitos fatores, incluindo motivação na escola, sucesso acadêmico e relacionamento com professores, que pouco têm a ver com estágios de desenvolvimento moral. 4 COMO AS CRIANÇAS SE DESENVOLVEM SOCIAL E EMOCIONALMENTE? Como outros aspectos do desenvolvimento, o desenvolvimento social e emocional depende das experiências fornecidas pelas escolas e famílias, mas também seguem padrões previsíveis. As seções a seguir discutem essas áreas críticas de desenvolvimento. 70 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 4.1 DESENVOLVIMENTO SOCIOEMOCIONAL DURANTE OS ANOS PRÉ-ESCOLARES A vida social de uma criança evolui de maneiras relativamente previsíveis (CUMMINGS; BRAUNGART-RIEKER; DU ROCHER-SCHUDLICH, 2003). A rede social cresce a partir de um relacionamento íntimo com pais ou outros tutores para incluir outros membros da família, adultos não aparentados e colegas. As interações sociais estendem-se da casa à vizinhança e da pré-escola ou outros arranjos de cuidado infantil à escola formal. A teoria de desenvolvimento pessoal e social de Erik Erikson sugere que durante os anos pré-escolares, as crianças devem resolver a crise de personalidade de iniciativa versus culpa. A resolução bem-sucedida desse estágio pela criança resulta em um senso de iniciativa e ambição temperado por uma compreensão razoável do permissível. Os primeiros educadores podem encorajar esta resolução dando às crianças oportunidades de tomar iniciativas, ser desafiadas e ter sucesso (SQUIRES et al., 2013). É importante, também, enfatizar a autorregulação (BORUCHOVITCH, 2014). Durante os anos pré-escolares, os pares (outras crianças da mesma idade) começam a desempenhar um papel cada vez mais importante no desenvolvimento social e cognitivo das crianças (LADD; SECHLER, 2013). As relações das crianças com seus pares diferem de várias maneiras de suas interações com os adultos. As brincadeiras entre pares permitem que as crianças interajam com outros indivíduos cujo nível de desenvolvimento é semelhante ao seu. Quando os pares têm disputas entre si, eles devem fazer concessões e cooperar para resolvê-las se a brincadeira continuar; ao contrário das disputas entre adultos e crianças, em uma disputa entre pares ninguém pode alegar ter autoridade final. Os conflitos entre colegas também permitem que as crianças vejam queos outros têm pensamentos, sentimentos e pontos de vista diferentes dos seus. Os conflitos também aumentam a sensibilidade das crianças aos efeitos de seu comportamento nos outros. Desse modo, os relacionamentos com colegas ajudam as crianças pequenas a superar o egocentrismo que Piaget descreveu como característico do pensamento pré- operacional, ajudando-as a ver que os outros têm perspectivas diferentes das suas. Os comportamentos pró-sociais são ações voluntárias para com os outros, como cuidar, compartilhar, confortar e cooperar. A pesquisa sobre as raízes do comportamento prosocial contribuiu para o nosso conhecimento sobre o desenvolvimento moral e social das crianças. Vários fatores parecem estar associados ao desenvolvimento de comportamentos pró-sociais (EISENBERG, 2001), incluindo os seguintes: • Técnicas disciplinares parentais que enfatizam as consequências do comportamento da criança para os outros e que são aplicadas dentro de uma relação pais-filhos afetuosa e responsiva. • Contato com adultos que indicam que esperam a preocupação com os outros, que informam às crianças que soluções agressivas para os problemas são inaceitáveis e que fornecem alternativas aceitáveis. TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 71 • Contato com adultos que atribuem características positivas às crianças quando elas se comportam bem (por exemplo, “que menino prestativo você é!”). A maioria das interações de uma criança em idade pré-escolar com seus pares ocorre durante a brincadeira (HUGHES, 2010). No entanto, o grau em que as brincadeiras envolvem outras crianças aumenta ao longo dos anos pré-escolares. Em um estudo clássico com crianças em idade pré-escolar, Mildred Parten (1932) identificou quatro categorias de brincadeiras que refletem níveis crescentes de interação social e sofisticação. Brincadeiras solitárias são aquelas que ocorrem sozinhas, geralmente com brinquedos, e são independentes do que as outras crianças estão fazendo. Brincadeiras paralelas envolvem crianças envolvidas na mesma atividade lado a lado, mas com pouca interação ou influência mútua. A brincadeira associativa é muito parecida com a brincadeira paralela, mas com níveis aumentados de interação na forma de compartilhamento, tomada de turnos e interesse geral no que os outros estão fazendo. A brincadeira cooperativa ocorre quando as crianças se unem para atingir um objetivo comum, como construir um grande castelo com cada criança construindo uma parte da estrutura. As crianças se envolvem em tipos mais complexos de brincadeiras à medida que crescem, avançando de formas simples de brincadeiras paralelas para brincadeiras complexas de faz de conta em que as crianças cooperam no planejamento e na realização de atividades (BERK, 2013). Brincar é importante para as crianças porque exercita suas habilidades linguísticas, cognitivas e sociais e contribui para o desenvolvimento geral da personalidade (BERK, 2013; HUGHES, 2010). As crianças usam a mente quando brincam porque estão pensando e agindo como se fossem outra pessoa. Quando fazem essa transformação, as crianças estão dando um passo em direção ao pensamento abstrato, pois estão liberando seus pensamentos de um foco em objetos concretos. Brincar também está associado à criatividade, especialmente a capacidade de ser menos literal e mais flexível no pensamento. Brincar tem um papel importante nas teorias de desenvolvimento de Vygotsky, porque permite que as crianças explorem livremente formas de pensar e agir que estão acima de seu nível atual de funcionamento. Vygotsky (2007) afirma que, na brincadeira, a criança está sempre acima de sua idade média, acima de seu comportamento diário; na brincadeira, é como se ela fosse uma mente mais alta do que ela mesma. As brincadeiras dos pré-escolares parecem ser influenciadas por uma variedade de fatores. Por exemplo, as interações dos pré-escolares com seus pares estão relacionadas à forma como eles interagem com seus pais (HUGHES, 2010). Crianças de três anos que têm relacionamentos afetuosos e estimulantes com os pais têm maior probabilidade de se envolver em brincadeiras sociais e resolver conflitos com os pares do que as crianças que têm relacionamentos menos seguros com os pais. As crianças também brincam melhor com colegas que são familiares e do mesmo sexo. Fornecer brinquedos adequados à idade e atividades lúdicas pode apoiar o desenvolvimento de habilidades lúdicas e de interação com os pares. 72 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 4.2 DESENVOLVIMENTO SOCIOEMOCIONAL DURANTE OS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL No momento em que as crianças entram nos anos iniciais do Ensino Fundamental, elas desenvolveram habilidades para pensamentos, ações e influência social mais complexos. Até este ponto, as crianças eram basicamente egocêntricas e seu mundo era o lar, a família e, possivelmente, uma pré-escola ou creche. Os primeiros anos do ensino fundamental normalmente serão desenvolvidos trabalhando até o quarto estágio de Erikson (1971), diligência versus inferioridade. Assumindo que a criança desenvolveu confiança durante a infância, autonomia durante os primeiros anos (primeira infância) e iniciativa durante os anos pré-escolares (segunda infância), as experiências dessa criança nos anos escolares iniciais (terceira infância) podem contribuir para seu senso de diligência e realização. Nessa fase, as crianças começam a tentar provar que estão “crescidas”; na verdade, isso é frequentemente descrito como o estágio “eu consigo fazer tudo sozinha”. O trabalho se torna possível. À medida que o poder de concentração das crianças aumenta, elas podem passar mais tempo em tarefas escolhidas e, muitas vezes, têm prazer em concluir projetos. Este estágio também inclui o crescimento da ação independente, a cooperação com grupos e o desempenho de formas socialmente aceitáveis com uma preocupação com o fair play ou jogo limpo (MCHALE; DARIOTIS; KAUH, 2003). Tomados em conjunto, os fatores socioemocionais fazem uma diferença significativa no desempenho do aluno. Por exemplo, Miller, Connolly e Macguire (2013) encontraram um impacto do ajustamento psicológico, ajustamento escolar e relações entre pares e familiares no desempenho de alunos com idades entre 7-11 anos. Da mesma forma, Banerjee, Weare e Farr (2013) descobriram que os alunos que estiveram em um programa chamado Aspectos Sociais e Emocionais da Aprendizagem (SEAL) alcançaram um desempenho melhor do que os alunos que estavam em aulas com menos foco em aspectos da aprendizagem socioemocional. O desenvolvimento pessoal e social para crianças dos primeiros anos do Ensino Fundamental também inclui as ideias importantes de autoconceito e autoestima (SWANN; CHANG-SCHNEIDER; MCCLARTY, 2007). Esses aspectos do desenvolvimento infantil serão fortemente influenciados por experiências em casa, na escola e com os colegas. O autoconceito inclui a maneira como percebemos nossos pontos fortes, fracos, habilidades, atitudes e valores. Seu desenvolvimento começa no nascimento e é continuamente moldado pela experiência. A autoestima reflete como avaliamos nossas habilidades e aptidões. TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 73 Para saber mais sobre como fortalecer a autoestima das crianças, leia o livro “Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia da educação escolar”, vol. 2 de Coll, Marchesi e Palácios (2004) e o livro “Labirinto de espelhos”, de Assis e Avanci (2004). FONTE: <https://bit.ly/34DolU8>. Acesso em: 6 jul. 2021. FONTE: <https://bit.ly/3fWa7Tw>. Acesso em: 6 jul. 2021. DICAS À medida que as crianças progridem na terceira infância, suas formas de pensar se tornam menos concretas e mais abstratas.Essa tendência também fica evidente no desenvolvimento de seus autoconceitos. Os pré-escolares pensam sobre si mesmos em termos de suas características físicas e materiais, incluindo tamanho, gênero e bens. Em contraste, nos primeiros anos do ensino fundamental, as crianças começam a se concentrar em qualidades internas mais abstratas, como inteligência e gentileza, ao se descreverem. Eles também podem fazer uma distinção entre seu “eu privado” e seu “eu público”. Isso se torna especialmente evidente porque eles dependem mais das intenções e motivos e menos do comportamento objetivo em suas explicações de suas próprias ações e das de outros. Durante a terceira infância, as crianças também começam a se avaliar em comparação com as outras. Uma criança em idade pré-escolar pode se descrever dizendo: "Gosto de futebol", ao passo que, vários anos depois, essa mesma garota provavelmente dirá: "Gosto de futebol mais do que a Sandra gosta". A tendência de usar informações de comparação social para avaliar a si mesmo parece corresponder a mudanças no desenvolvimento da autoestima acadêmica. Pré-escolares e crianças pequenas tendem a se avaliar muito positivamente, de maneiras que não têm relação com seu desempenho escolar ou outros fatores objetivos. No primeiro ou segundo ano escolar, no entanto, as crianças que estão tendo dificuldades na escola tendem a ter autoconceitos mais fracos. 74 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Isso dá início a uma espiral decrescente. Os alunos com fraco desempenho no ensino fundamental correm o risco de desenvolver autoconceitos acadêmicos insatisfatórios e, consequentemente, baixo desempenho no ensino fundamental e médio (CHAPMAN; TUNMER; PROCHNOW, 2000). Os anos iniciais do Ensino Fundamental dão a muitas crianças a primeira chance de se comparar com outras crianças e de trabalhar e brincar sob a orientação de adultos fora de sua família. Esses adultos devem proporcionar experiências que permitam às crianças ter sucesso, sentir-se bem consigo mesmas e manter seu entusiasmo e criatividade. A palavra-chave em relação ao desenvolvimento pessoal e social é aceitação. O fato é que as crianças diferem em suas habilidades; não importa o que os professores façam, e os alunos terão descoberto no final dos anos iniciais do Ensino Fundamental quem é mais capaz e quem é menos capaz. No entanto, você pode ter um impacto substancial na maneira como os alunos se sentem sobre essas diferenças e no valor que os alunos com baixo desempenho atribuem à aprendizagem, mesmo quando sabem que nunca serão as estrelas da classe. Promovendo o Desenvolvimento da Autoestima Nossa sociedade promove a ideia de que as pessoas, incluindo os alunos, têm o mesmo valor. Essa também é a premissa em uma sala de aula. Mas os alunos tendo o mesmo valor não significa necessariamente que eles sejam igualmente competentes. Alguns alunos são bons em leitura e outros em matemática; alguns se destacam nos esportes e outros na arte. Algumas atividades em sala de aula podem dar a certos alunos a impressão de que eles, como indivíduos, têm menos valor ou estima do que outros alunos. A competição inadequada ou grupos de habilidades inflexíveis dentro da sala de aula podem ensinar a lição errada aos alunos. Os professores devem evitar práticas que podem desestimular as crianças. No entanto, não está claro que melhorar a autoestima resulte em maior desempenho escolar. Na verdade, a pesquisa sugere mais fortemente que à medida que um aluno se torna mais competente nas tarefas escolares, sua autoestima também melhora, e não o contrário (CHAPMAN; TUNMER; PROCHNOW, 2000). Não é necessário distorcer a verdade e dizer que todos os alunos são igualmente bons em leitura ou matemática. Você pode, no entanto, reconhecer o progresso ao invés do nível de habilidade, focando seu elogio no esforço do aluno e na competência crescente. À medida que o aluno experimenta o sucesso na escola, um sentimento de autoestima conquistada resultará. IMPORTANT E A influência da família da criança, a principal força durante os primeiros anos da infância, continua à medida que os pais fornecem modelos em termos de atitudes e comportamentos. Além disso, os relacionamentos com irmãos e irmãs afetam os relacionamentos com os pares, e as rotinas de casa são reforçadas ou devem ser superadas na escola. No entanto, o grupo de pares assume importância TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 75 acrescida. Falando sobre a entrada da criança no mundo fora da família, Gordon observa a importância dos pares: “Se o mundo todo é o palco que Shakespeare reivindicou, crianças e adolescentes estão tocando principalmente para um público de seus pares. Seus pares sentam-se nas primeiras filas e nos camarotes; pais e professores estão agora relegados às últimas filas e à varanda” (GORDON, 1957, p. 166) Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, os grupos de pares geralmente consistem em crianças do mesmo sexo que têm mais ou menos a mesma idade. Essa preferência pode surgir devido à variedade de habilidades e interesses entre as crianças pequenas. No entanto, no quinto ano escolar, os estudantes costumam formar grupos que incluem meninos e meninas. Qualquer que seja a composição dos grupos de pares, eles permitem que as crianças comparem suas habilidades e aptidões com as de outras pessoas. Membros de grupos de pares também ensinam uns aos outros sobre seus mundos diferentes. Por meio desse compartilhamento de atitudes e valores, as crianças aprendem como separar e formar os seus próprios valores e atitudes. Durante a terceira infância, as concepções de amizade das crianças também amadurecem. A amizade é a relação social central entre pares durante a infância e passa por uma série de mudanças antes da idade adulta. A compreensão das crianças sobre a amizade muda ao longo dos anos (MCHALE; DARIOTIS; KAUH, 2003). Entre as idades de três e sete anos, as crianças costumam ver os amigos como companheiros de brincadeira momentâneos. As crianças dessa idade podem chegar da escola exclamando: “Fiz um novo amigo hoje! A Jaqueline compartilhou sua boneca comigo” ou “O Roberto não é mais meu amigo porque ele não quer brincar de quebra-cabeça comigo”. Esses comentários revelam a visão da criança sobre a amizade como um relacionamento temporário baseado em uma determinada situação, e não em interesses ou crenças compartilhados. À medida que as crianças entram na terceira infância, as amizades se tornam mais estáveis e recíprocas. Nessa idade, os amigos são frequentemente descritos em termos de características pessoais (“minha amiga Maria é legal”), e as amizades são baseadas em apoio mútuo, carinho, lealdade e dar e receber mútuo. As amizades são importantes para as crianças por vários motivos. Durante os primeiros anos do Ensino Fundamental, os amigos são companheiros para se divertir e fazer coisas. Eles também servem como importantes recursos emocionais, proporcionando às crianças uma sensação de segurança em novas situações e quando surgem problemas familiares ou outros. Os amigos também são recursos cognitivos quando ensinam ou modelam habilidades intelectuais específicas. Normas sociais de conduta, habilidades de interação social e como resolver conflitos com sucesso também são aprendidas no contexto de amizades (MCHALE; DARIOTIS; KAUH, 2003). Um dos aspectos importantes das relações entre pares na terceira infância é a aceitação pelos pares, ou status dentro do grupo de pares (PARKE CLARKE-STEWART, 2011). Uma criança popular é aquela que é nomeada com 76 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO mais frequência pelos colegas como uma pessoa de quem gosta e, com menos frequência, como alguém de quem não gosta. Em contraste, uma criança rejeitada é aquela que é nomeada com mais frequênciapelos colegas como uma pessoa de quem não gosta e, com menos frequência, como alguém de quem gosta. Uma criança também pode ser classificada como negligenciada, não é frequentemente nomeada nem como de quem se gosta tampouco de quem não se gosta. Por outro lado, uma criança controversa é frequentemente citada como alguém de quem se gosta, mas também é frequentemente chamada como alguém de quem não se gosta. Crianças comuns são aquelas que são nomeadas como de quem se gosta e não se gosta com frequência moderada. Crianças que não são bem aceitas ou rejeitadas por seus colegas nos anos iniciais do Ensino Fundamental correm alto risco (WENTZEL; BARRY; CALDWELL, 2004). Essas crianças são mais propensas a abandonar a escola, a se envolver em comportamento delinquente e a ter problemas emocionais e psicológicos na adolescência e na idade adulta do que seus colegas que são mais aceitos. Algumas crianças rejeitadas tendem a ser altamente agressivas; outras tendem a ser muito passivas e retraídas, e essas crianças podem ser vítimas de bullying. Crianças que são rejeitadas, sejam agressivas ou retraídas, parecem estar em maior risco de dificuldades. Muitas características parecem estar relacionadas à aceitação pelos pares, incluindo atratividade física e habilidades cognitivas (WENTZEL; BARRY; CALDWELL, 2004). Crianças bem aceitas e populares tendem a ser cooperativas, prestativas e atenciosas e raramente são perturbadoras ou agressivas. Crianças que não são apreciadas por seus pares tendem a ser altamente agressivas e a não ter habilidades pró-sociais e de resolução de conflitos. Crianças negligenciadas e controversas exibem estilos de comportamento menos distintos e frequentemente mudam de status em curtos períodos (PARKE; CLARKE-STEWART, 2011). Como a aceitação dos pares é um forte preditor do ajuste atual e de longo prazo, é importante tentar melhorar as habilidades sociais das crianças. Isso pode ser feito modelando e elogiando habilidades pró-sociais, como habilidades de ajudar e de compartilhar. Desenvolvimento de habilidades socioemocionais Existem inúmeras abordagens para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais entre crianças e adolescentes (DURLAK et al., 2011). Muitas delas se concentram em particular na aprendizagem cooperativa, ensinando aos alunos estratégias para interações eficazes com os colegas e meios de resolver problemas interpessoais. Estudo de acompanhamento de longo prazo dessas abordagens descobriu que, na casa dos 20 anos, as pessoas que haviam participado destes programas no Ensino Médio tinham maior escolaridade e desempenho acadêmico do que aquelas que haviam pertencido a um grupo de controle. IMPORTANT E TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 77 Outra abordagem para a construção de habilidades socioemocionais que apoia a motivação para realizações é ajudar a criar “mentalidades” entre os alunos que as convençam de que o esforço, não apenas a inteligência, permite que tenham sucesso. Vários estudos nos quais os professores se concentraram no esforço e na disponibilidade de sucesso para todos os que tentaram, encontraram efeitos positivos na motivação e aprendizagem dos alunos (DWECK, 2013). Outra abordagem atraente enfatiza a construção da persistência dos alunos, ou "determinação", ensinando os alunos a se manterem em tarefas difíceis até que encontrem uma maneira de concluí-las e aprender o conteúdo (DUCKWORTH; STEINBERG, 2015). 4.3 DESENVOLVIMENTO SOCIOEMOCIONAL DURANTE OS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO Na adolescência, as crianças passam por mudanças significativas em suas vidas sociais e emocionais (RICE, DOLGIN, 2008). Em parte, como resultado das mudanças nas estruturas físicas e cognitivas, as crianças nos anos finais do ensino fundamental (do sexto ao nono ano escolar) procuram ser mais adultas. Essas crianças e pré-adolescentes querem que seus pais os tratem de maneira diferente, embora muitos pais não estejam dispostos a vê-los de novas maneiras. Elas também relatam que, embora acreditem que seus pais as amem, eles não acham que seus pais os compreendem. Tanto para meninos quanto para meninas, nos anos finais do ensino fundamental, a participação em grupos tende a promover sentimentos de autoestima. Não ser aceito pode trazer sérios problemas emocionais. Aqui está a principal causa da mudança no relacionamento do pré-adolescente com os pais. Não é que os pré-adolescentes se importem menos com os pais, mas, nessa fase do desenvolvimento, seus amigos são mais importantes do que nunca. Essa necessidade de aceitação por parte dos pares ajuda a explicar por que os pré- adolescentes costumam se vestir da mesma maneira. Os anos finais do Ensino Fundamental muitas vezes também trazem mudanças no relacionamento entre as crianças e seus professores. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, as crianças aceitam facilmente e dependem dos professores. Durante os anos finais do Ensino Fundamental, essa relação se torna mais complexa. Às vezes, os alunos contam aos professores informações pessoais que eles não contariam aos pais. Alguns pré-adolescentes até escolhem professores como modelos. Ao mesmo tempo, porém, alguns pré-adolescentes respondem aos professores de maneiras que nunca teriam considerado vários anos antes, e alguns desafiam os professores abertamente. Outros tornam-se profundamente alienados da escola, iniciando um padrão que pode levar à delinquência e ao abandono escolar (AUSTIN; SCIARRA, 2010). Um dos primeiros sinais do início da adolescência é o aparecimento de reflexividade, a tendência de pensar sobre o que está acontecendo em sua própria mente e de se estudar a si mesmo. Os adolescentes começam a se olhar mais de perto e a se definir de forma diferente. Eles começam a perceber que existem diferenças entre o que pensam e sentem e como se comportam. Usando o desenvolvimento de habilidades intelectuais que os capacitam a considerar 78 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO possibilidades, os adolescentes tendem a ficar insatisfeitos consigo mesmos. Eles criticam suas características pessoais, comparam-se aos outros e tentam mudar a maneira como são. Os adolescentes também podem se perguntar se outras pessoas veem e pensam sobre o mundo da mesma maneira que eles. Eles se tornam mais conscientes de sua separação de outras pessoas e de sua singularidade. Eles aprendem que outras pessoas não podem saber totalmente o que pensam e sentem. As questões “quem sou eu?” e “o que realmente sou eu?” dominam o desenvolvimento da personalidade na adolescência. De acordo com Erikson (1976), o palco está montado durante a adolescência para uma grande preocupação com a identidade. Com base no trabalho de Erikson (1976), James Marcia (1991) identificou, a partir de entrevistas com adolescentes, os quatro estados de identidade que refletem o grau em que os adolescentes assumem compromissos firmes com valores religiosos e políticos, bem como com uma ocupação futura. 1. Pré-fechamento. Indivíduos em estado de pré-fechamento nunca experimentaram uma crise de identidade. Em vez disso, eles estabeleceram prematuramente uma identidade com base nas escolhas de seus pais, e não nas suas próprias. Eles assumiram compromissos ocupacionais e ideológicos, mas esses compromissos refletem uma avaliação por parte dos pais ou figuras de autoridade mais do que um processo autônomo de autoavaliação. O pré- fechamento indica um tipo de "pseudoidentidade" que geralmente é muito fixa e rígida para servir de base para enfrentar as crises futuras da vida. 2. Difusão de identidade. Os adolescentes que vivenciam a difusão de identidade não encontraram uma direção ocupacional nem um compromisso ideológico de qualquer tipo, e fizeram pouco progresso nessa direção. Eles podem ter passado poruma crise de identidade, mas não foram capazes de resolvê-la. 3. Moratória. Os adolescentes em estado de moratória começaram a experimentar escolhas ocupacionais e ideológicas, mas ainda não assumiram compromissos definitivos com nenhuma delas. Esses indivíduos estão diretamente no meio de uma crise de identidade e atualmente examinam opções alternativas de vida. 4. Identidade estabelecida. A identidade estabelecida significa um estado de consolidação da identidade no qual os adolescentes tomaram suas próprias decisões claras e conscientes sobre ocupação e ideologia. O indivíduo está convencido de que essas decisões foram tomadas de forma autônoma e livre e que refletem sua verdadeira natureza e seus profundos compromissos internos. No final da adolescência (18 a 22 anos de idade), a maioria dos indivíduos desenvolveu um estado de identidade estabelecida. No entanto, o desenvolvimento emocional dos adolescentes parece estar ligado ao seu estado de identidade. Por exemplo, os níveis de ansiedade tendem a ser mais altos para adolescentes em moratória e mais baixos para aqueles em pré-fechamento. A autoestima também varia; adolescentes em identidade estabelecida e moratória relatam os níveis mais altos e aqueles em pré-fechamento e difusão de identidade relatam os níveis mais baixos (MARCIA, 1991). TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 79 Em geral, os adolescentes precisam experimentar e permanecer flexíveis se quiserem encontrar sua própria identidade com sucesso. Ao experimentar maneiras de ser, depois testá-las e modificá-las, o adolescente pode escolher as características que são mais confortáveis e abandonar as outras. Para fazer isso, o adolescente deve ter autoconfiança para experimentar e declarar o término de um experimento, para variar o comportamento e para abandonar características que não se encaixam, mesmo que as características sejam apoiadas por outros. Ajuda ter um conjunto estável e receptivo de pais, professores e colegas que responderão positivamente à sua experimentação. Muitos são os programas destinados a melhorar o desenvolvimento socioemocional de crianças e adolescentes. Uma revisão de Durlak et al. (2011) descobriu que programas de aprendizagem socioemocional (ASE) baseados na escola podem fazer uma diferença significativa nos resultados desse tipo de aprendizagem e, em alguns casos, também melhoram o desempenho acadêmico. Esses programas incluíam programas para o dia letivo e pós-escolar, e programas preventivos para todos os alunos, bem como para alunos que já estavam passando por dificuldades, cobrindo todas as idades e todos os tipos de escolas. O foco na aprendizagem socioemocional pode ter impactos duradouros nas crianças. Um estudo de Hawkins et al. (2008) descobriu que as crianças que receberam uma intervenção de ASE com foco em gestão proativa de sala de aula, ensino interativo e aprendizagem cooperativa, bem como desenvolvimento de habilidades sociais da criança e treinamento dos pais, tiveram efeitos que ainda eram importantes 15 anos depois, quando os alunos estavam na casa dos 20 anos. O estudo citado relatou níveis mais elevados de realização educacional e econômica e níveis mais elevados de saúde mental, entre outros resultados. Outras intervenções de ASE também mostraram efeitos positivos em uma variedade de aspectos socioemocionais e resultados acadêmicos (BROWN, EMMONS, COMER, 2010). O autoconceito e a autoestima também mudam à medida que as crianças entram e passam pela adolescência. A mudança em direção a representações de si mais abstratas que iniciaram na terceira infância continua, e as autodescrições dos adolescentes frequentemente incluem traços pessoais (amigável, desagradável), emoções (deprimido, empolgado) e crenças pessoais (liberal, conservador). Além disso, o autoconceito torna-se mais diferenciado. O trabalho de Susan Harter identificou oito aspectos distintos do autoconceito de adolescentes: competência escolar; competência profissional; competência atlética; aparência física; aceitação social; amizades íntimas; apelo romântico e onduta (HARTER, 1998). A autoestima também sofre flutuações e mudanças durante a adolescência. A autoestima comumente está mais baixa quando as crianças entram nos anos finais do ensino fundamental e com o início da puberdade. Meninas que amadurecem precocemente tendem a sofrer as reduções mais dramáticas e duradouras em sua autoestima. Em geral, as meninas adolescentes têm autoestima mais baixa do 80 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO que os meninos (SANTROCK, 2014). A autoestima global ou os sentimentos de autoestima parecem ser influenciados mais fortemente pela aparência física e, em seguida, pela aceitação social por parte dos colegas. Melhorar a autoestima é principalmente uma questão de dar a todos os alunos a sensação de que são valorizados e bem-sucedidos (SANTROCK, 2014). Também é essencial evitar baixas expectativas e comparações com outras pessoas que têm mais sucesso. À medida que as crianças entram na adolescência, ocorrem mudanças na natureza das relações sociais, as amizades. Em geral, a quantidade de tempo gasto com amigos aumenta dramaticamente; os adolescentes passam mais tempo com os pares do que com os familiares ou sozinhos. Adolescentes que têm amizades satisfatórias e harmoniosas também relatam níveis mais altos de autoestima, são menos solitários, têm habilidades sociais mais maduras e se saem melhor na escola do que adolescentes que não têm amizades de apoio (SANTROCK, 2014) Durante a adolescência, a capacidade de compreensão mútua e o conhecimento de que os outros são indivíduos únicos com sentimentos próprios também contribuem para um aumento dramático na autorrevelação, intimidade e lealdade entre amigos. À medida que os recém-adolescentes se esforçam para estabelecer identidades pessoais independentes de seus pais, eles também procuram cada vez mais seus pares em busca de segurança e apoio social. Enquanto as crianças nos primeiros anos do ensino fundamental procuram os pais para esse apoio, no sexto ano escolar, amigos do mesmo sexo são percebidos como tão apoiadores quanto os pais, e no nono ano, eles são percebidos como a principal fonte de apoio social (SANTROCK, 2014). Além de seus amigos íntimos, a maioria dos adolescentes também valoriza muito o grupo maior de colegas como fonte de ideias e valores, bem como companheirismo e entretenimento. A natureza das relações entre pares na adolescência foi caracterizada em termos de status social e grupos de pares. O status social, ou níveis de aceitação pelos pares, é estudado em relação aos mesmos grupos de status que são identificados na terceira infância. Assim como acontece com crianças nos primeiros anos do Ensino Fundamental, adolescentes populares e bem aceitos tendem a apresentar resolução positiva de conflitos e habilidades acadêmicas, comportamento prosocial e qualidades de liderança, enquanto crianças rejeitadas e mal aceitas tendem a exibir comportamento agressivo e antissocial e baixos níveis de desempenho acadêmico (WENTZEL; BARRY; CALDWELL, 2004). Essas crianças socialmente rejeitadas parecem estar em grande risco de problemas acadêmicos e sociais posteriores. Wentzel, Barry e Caldwell (2004) descobriram, no entanto, que crianças rejeitadas nos anos finais do Ensino Fundamental que eram socialmente submissas não exibiam os mesmos problemas relacionados à escola que suas contrapartes agressivas rejeitadas. Essas descobertas sugerem que a rejeição dos pares e o comportamento negativo juntos colocam essas crianças em risco. TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 81 As relações entre pares na adolescência também foram estudadas em termosde “panelinhas” (grupos exclusivos ou subgrupos) e o grupo amplo com as quais os adolescentes se associam (BARBER; ECCLES; STONE, 2001). Uma panelinha é um grupo bastante pequeno e íntimo definido pelos interesses, atividades e amigos comuns de seus membros. Em contraste, um grupo amplo é um grupo maior definido por sua reputação. A fidelidade a uma panelinha ou grupo amplo é comum durante a adolescência, mas não é necessariamente duradoura ou estável. Embora a pressão para se conformar possa ser muito poderosa dentro desses grupos, apenas adolescentes que são altamente motivados a pertencer parecem ser influenciados por essas normas de maneiras significativas. Panelinhas de amizades. Indivíduos que se dão bem e que compartilham atributos semelhantes tendem a se aglutinar em pequenos grupos informais de colegas com os quais interagem com frequência e que conhecem bem. Esses grupos são conhecidos como panelinhas de amizade. Eles incluem cerca de três a dez indivíduos, muitas vezes, com diferentes status hierárquicos (por exemplo, líderes, membros periféricos). Por sua vez, cada panelinha tem um status específico no grupo de pares mais amplo. No início da adolescência, as panelinhas são relativamente exclusivas e, na maioria das vezes, segregadas por gênero. Elas são um importante contexto de socialização até o final da adolescência, quando se tornam mais inclusivos, sem segregação de gênero e mais abertas, e, então, eventualmente se dissolvem, abrindo espaço para relacionamentos que são mais adaptáveis às demandas sociais dos adultos emergentes. IMPORTANT E Uma distinção importante entre a dinâmica diádica ou de subgrupos e a dinâmica de grupo amplo é a quantidade de controle que os jovens têm sobre esses fenômenos. Amizades e experiências em pequenos grupos surgem de interações interpessoais que permitem um controle mais direto. Em redes maiores, as percepções, opiniões e sentimentos que os indivíduos têm sobre outros membros podem ser baseados em informações obtidas indiretamente, em vez de por meio de interações diretas. Pode ser difícil para os alunos mudar seu status social ou reputação, o que pode ser angustiante se alguém acreditar que as percepções dos outros sobre si mesmo são negativas ou se essas percepções forem a base para interações indesejadas, como o bullying (VÉRONNEAU et al., 2014). Quanto ao desenvolvimento emocional, a maioria dos adolescentes experimenta conflitos emocionais em algum momento. Isso não é surpreendente; eles estão passando por mudanças rápidas e dramáticas na imagem corporal, nos papéis esperados e nos relacionamentos com os pares. As transições dos anos iniciais para anos finais do Ensino Fundamental ou deste para o Ensino Médio também podem ser bastante estressantes. Para a maioria dos adolescentes, 82 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO o sofrimento emocional é temporário e é administrado com sucesso, mas, para alguns, o estresse leva à delinquência, abuso de drogas ou tentativas de suicídio. A saúde emocional também é um fator chave para o sucesso acadêmico na escola (FISHER, 2006). Problemas emocionais relacionados ao desenvolvimento físico, cognitivo e social de crianças em idade escolar são comuns. Embora os pré-adolescentes sejam geralmente felizes e otimistas, eles também têm muitos medos, como medo de não serem aceitos em um grupo de pares, de não ter um melhor amigo, de serem punidos pelos pais, de seus pais de divorciarem ou de não se darem bem em escola. Outras emoções dessa faixa etária incluem raiva (e medo de não ser capaz de controlá-la), culpa, frustração e ciúme. Os pré-adolescentes precisam de ajuda para perceber que essas emoções e medos são uma parte natural do crescimento. Os adultos devem deixá-los falar sobre essas emoções e medos, mesmo que pareçam irrealistas para um adulto. Sentimento de culpa, muitas vezes, surge quando há um conflito entre as ações das crianças, com base nos valores do grupo de pares, e os valores de seus pais. A raiva é uma emoção comum nessa idade, e é exibida com mais intensidade do que muitas outras emoções (SANTROCK, 2014). Assim como costumam dizer aos pré-adolescentes que não devem ter medo, os pais costumam dizer-lhes que não devem ficar com raiva. Infelizmente, essa é uma expectativa irreal, mesmo para adultos. Outro ponto importante a ressaltar é o que comumente nos referimos como “problemas da adolescência”. A adolescência pode ser um período de grande risco para muitos, porque os adolescentes agora são capazes, pela primeira vez, de se envolver em comportamentos ou tomar decisões que podem ter consequências negativas de longo prazo (SANTROCK, 2014). Entre estes problemas, comuns ao período da adolescência, há os transtornos emocionais. Os professores dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio devem ser sensíveis ao estresse que os adolescentes enfrentam e devem perceber que os transtornos emocionais são comuns (SANTROCK, 2014). Eles devem compreender que o comportamento deprimido, desesperançado ou inexplicavelmente zangado pode ser uma pista de que o adolescente precisa de ajuda e devem tentar colocar esses alunos em contato com orientadores escolares ou outros adultos psicologicamente treinados (FISHER, 2006). Existem várias abordagens comprovadas para melhorar o ajuste emocional entre adolescentes. O bullying ocorre em todos os níveis de idade e se manifesta como provocações, assédios e agressões contra pares mais fracos ou sem amigos, mas podem se tornar particularmente graves quando as crianças entram no início da adolescência (LOPES, 2005). Na verdade, a quantidade de bullying que os alunos pensam que existe em sua escola é um indicador-chave de evasão e abandono escolar. TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 83 O PROFESSOR INTENCIONAL Levando em consideração o desenvolvimento social, moral e emocional no ensino intencional Os professores intencionais estão cientes das características de desenvolvimento esperadas dos alunos a quem ensinam e são sensíveis à diversidade entre seus alunos. • Eles estão cientes das principais tarefas de desenvolvimento que seus alunos estão tentando realizar e os ajudam a resolver com sucesso essas tarefas. • Eles estão cientes dos níveis de desenvolvimento moral de seus alunos e dão aos alunos oportunidades de discutir e lidar com dilemas morais apropriados para suas idades. • Eles trabalham para criar práticas de sala de aula que apoiem o desenvolvimento socioemocional positivo e minimizem comparações sociais desnecessárias ou competição prejudicial à saúde. • Eles ajudam seus alunos a desenvolver amizades positivas, dando-lhes muitas oportunidades de trabalhar em grupos produtivos e reforçando um comportamento amigável e altruísta. • Eles encontram maneiras de os pais se envolverem na escola para vincular os esforços entre a casa e a escola para construir comportamentos socioemocionais positivos entre todas as crianças. • Eles observam o bullying e outras interações negativas entre os alunos e intervêm para estabelecer normas com toda a turma contra esse comportamento. IMPORTANT E A evasão e abandono escolar podem colocar os adolescentes em risco considerável, uma vez que a maioria dos evadidos acaba ficando sujeito a ocupações de baixo nível, desemprego e pobreza. Claro, os fatores que levam ao abandono começam cedo na carreira escolar dos alunos; fracasso escolar, retenção (ficar para trás), baixa frequência e sintomas de depressão são indicadores de abandono escolar. Silva Filho e Araújo (2017, p. 35) afirmam que “o Brasil tem a terceira maior taxa de abandono escolar entre os 100 países com maior IDH” e que “a ‘evasão’ pode ser considerada um ‘ato solitário’ e pode denotar o próprio fracasso das relações sociais; não tem uma origem definida e por issonão terá um fim por si só”. As taxas de evasão entre alunos em risco podem ser bastante reduzidas por programas que dão a esses alunos atenção individual, papéis de alto status e assistência aos déficits acadêmicos. Os alunos adolescentes de escolas menores e com foco acadêmico tendem a desistir em taxas mais baixas do que outros alunos e programas projetados para envolver os alunos em atividades pró-sociais podem melhorar as taxas de graduação (BATTISTICH, 2010). O uso de substâncias psicoativas continua disseminado entre os adolescentes. Malta et al. (2018) relata os resultados da Pesquisa Nacional de Saúde dos Escolares (PeNSE) de 2015: 84 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO A PeNSE 2015 apontou que o álcool é a substância psicoativa mais frequentemente usada por cerca de um quarto dos adolescentes e principalmente entre as meninas. Por outro lado, um leve declínio foi observado nesse indicador desde 2009. O tabagismo foi descrito por cerca de 5% dos escolares, enquanto a experimentação de drogas ilícitas alguma vez na vida foi o dobro. Não foram observadas mudanças significativas para o uso dessas duas substâncias no período, nem diferenças por sexo, em 2015. [...] A análise multivariada apontou como protetor o contexto familiar: morar com os pais, supervisão familiar e fazer refeições frequentes com os pais (cinco vezes ou mais). Ao contrário, faltar às aulas sem consentimento aumentou a chance de uso de substâncias. A maior chance do uso de substâncias entre os estudantes esteve associada ao trabalho, idade mais avançada e cor branca. Adicionalmente, escolares que relataram solidão e insônia também usam mais substâncias. Não ter amigos foi associado ao uso de tabaco e experimentação de drogas, enquanto o uso de álcool esteve associado a ter mais amigos (MALTA et al., 2018, p. 7-12) Não é de surpreender que o abuso de álcool e outras drogas esteja fortemente relacionado ao fracasso escolar, mas o sucesso social e acadêmico na escola reduz muito a probabilidade do abuso destas substâncias. Um dos problemas mais perigosos da adolescência é o início de uma grave delinquência. O problema é muito mais comum entre os homens do que entre as mulheres. Os delinquentes são geralmente pessoas com baixo desempenho a quem foram dadas poucas razões para acreditar que podem ter sucesso seguindo o caminho traçado para eles pela escola. A delinquência na adolescência é predominantemente um fenômeno de grupo; a maioria dos atos delinquentes é praticada em grupos ou com o apoio ativo de um subgrupo delinquente (SILVA; BAZON, 2014). Por esse motivo, programas bem-sucedidos de prevenção da delinquência e violência entre adolescentes geralmente envolvem intervenções em grupo. O risco de gravidez é um problema sério entre todos os grupos de adolescentes do sexo feminino, mas particularmente entre aquelas de famílias de baixa renda. Assim como muitos adolescentes se envolvem em comportamentos delinquentes para tentar estabelecer sua independência do controle adulto, as adolescentes frequentemente praticam sexo e, em muitos casos, têm filhos, para forçar o mundo a vê-las como adultas (CARD; BENNER, 2008). Como a gravidez precoce torna difícil para as adolescentes continuarem seus estudos ou conseguirem empregos, é a principal causa da continuação do ciclo de pobreza em que nasceram muitas mães adolescentes. Claro, o outro lado da gravidez adolescente é a paternidade adolescente. Os pais adolescentes também sofrem de problemas comportamentais e acadêmicos na escola. Existem muitos programas destinados a atrasar a relação sexual e reduzir a gravidez. Pesquisas sobre esses programas descobriram que os programas de educação sexual que enfatizam a abstinência e o uso de preservativos e outros métodos de controle de natalidade são mais eficazes do que aqueles que enfatizam apenas a abstinência (CERQUEIRA-SANTOS, 2010). TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 85 Somando-se aos riscos tradicionais da atividade sexual precoce está o aumento de infecções sexualmente transmissíveis (IST), entre elas, o vírus da imunodeficiência humana (HIV). A AIDS, causada pelo HIV, ainda é rara durante a adolescência, no entanto, como a doença pode levar anos para aparecer após o contágio com o HIV, o sexo desprotegido, o compartilhamento de seringas e outros comportamentos de alto risco entre adolescentes contribuem para as altas taxas de AIDS entre jovens adultos (CARVALHO; PINTO; SANTOS, 2018). O surgimento da AIDS tornou a necessidade de educação sexual e precoce uma questão crítica. No entanto, o conhecimento por si só não é suficiente; e adolescentes sexualmente ativos devem ter acesso a preservativos e incentivos realistas e psicologicamente sofisticados para usá-los. É durante a adolescência que as pessoas começam a explorar sua diversidade sexual em questões como expressão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual. FIGURA 7 – MANDALA DA DIVERSIDADE SEXUAL FONTE: <https://bit.ly/2Ra65hW>. Acesso em: 1 jul. 2021. Adolescentes que não se identificam como heterossexuais, cisgêneros e binários, em nossa sociedade atual, podem vivenciar grande estresse e dificuldades com seus pais. Eles podem ter problemas especialmente com seus pares, que podem ter normas rígidas heteronormativas e podem sofrer insultos, rejeição ou até mesmo comportamento violento (ROBINSON; ESPELAGE, 2011). 86 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Os professores precisam estar preparados, tanto no aspecto de compreensão da diversidade sexual, assim como atuação efetiva na educação sexual na escola para que o ambiente seja de fato inclusivo, acolhedor e respeitoso a todos. TEORIA EM PRÁTICA Prevenção dos problemas da adolescência Nem todos os adolescentes enfrentam problemas graves, mas, entre aqueles que estão em risco, é muito melhor prevenir os problemas antes que eles apareçam. Muitos programas têm demonstrado sucesso com uma ampla gama de comportamentos problemáticos ao incorporar estratégias preventivas ao currículo regular. Por exemplo, vários programas reduziram comportamentos de alto risco ao introduzir “treinamento de habilidades para a vida”, com foco em habilidades como tomar boas decisões e resistir à pressão dos pares (STIPEK; DE LA SOTA; WEISHAUPT, 1999); outros se concentram na construção de normas de cooperação, altruísmo e responsabilidade social (BATTISTICH et al., 1999). Envolver agências comunitárias para envolver crianças em comportamentos pró-sociais é outra prática frequentemente recomendada (KIDRON; FLEISCHMAN, 2006). Modelos abrangentes de reforma de toda a escola podem ter um impacto sobre comportamentos de alto risco, especialmente evasão e abandono escolar. UNI TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 87 LEITURA COMPLEMENTAR PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO: HOJE E AMANHÃ José Fernando Bitencourt Lomonaco […] Psicologia e Educação: Hoje Nosso século testemunhou o aparecimento de três grandes conjuntos de teorias psicológicas que refletem a maneira pela qual os psicólogos veem o papel da escola no desenvolvimento psicológico das crianças. Um primeiro conjunto vê a escola como um local privilegiado para a aplicação de conhecimentos derivados de estudos e pesquisas realizados fora do âmbito escolar. Inserem-se neste grupo, a meu ver, as concepções behavioristas e piagetianas. De acordo com essas concepções, embora o desenvolvimento possa ocorrer fora da escola, pois o fundamental não é o local, mas os princípios e sua correta aplicação, a escola, face a sua organização que permite reunir muitas e diferentes crianças num mesmo espaço, possibilita avaliar a aplicação de princípios psicológicos a um grande número de sujeitos. Uma segunda maneira de encarara relação entre a Psicologia e a Educação, acredita que a escola promove o desenvolvimento psicológico. Ou seja, o trabalho realizado dentro das salas de aulas no processo ensino-aprendizagem, favorece o desenvolvimento psicológico em vários aspectos sociais, afetivos e cognitivos. Um exemplo desse tipo de concepção é, a meu ver, a teoria sócio-histórica de Vigotski, que salienta a importância do ensino escolar para o desenvolvimento de conceitos científicos. Finalmente, a terceira maneira de ver a relação Psicologia-Educação, defende que a escola não é um elemento decisivo para o desenvolvimento psicológico, podendo até mesmo atrapalhá-lo. Inserem-se claramente dentro desta concepção as críticas de Rogers que ele denomina de escola tradicional e algumas vertentes da psicanálise. Esta maneira de encarar a atuação da psicologia dentro das escolas, em nossos dias, refletiu-se no aparecimento de três grupos de teorias psicológicas aplicadas ao ensino, quais sejam: o behaviorismo, o cognitivismo e o humanismo. Vejamos, brevemente, algumas de suas características e implicações. A abordagem behaviorista, fiel a suas origens históricas, enfatiza grandemente o papel do ambiente no desenvolvimento dos organismos, limitando- se ao estudo dos comportamentos manifestos e mensuráveis, descartando à consideração de eventos internos que ocorrem na mente do indivíduo e atuariam como mediadores entre os estímulos e as respostas. Não há dúvida de que as implicações desta teoria para o ensino escolar foram muito grandes e diretas. Ela estimulou o aparecimento de uma tecnologia educacional que desenvolveu um conjunto variado de instrumentos para auxiliar o professor a resolver os múltiplos problemas de sala de aula. Como exemplos ilustrativos temos a Instrução 88 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Programada e o Sistema Personalizado de Instrução, que buscaram dar ao professor instrumentos que garantissem a aprendizagem efetiva de informações por todos os alunos, respeitando-se as diferenças individuais refletidas no ritmo de aprendizagem de cada aluno. Propiciou também o desenvolvimento de variadas técnicas de controle do comportamento, tal como o Sistema de Vales, que visam dar ao professor recursos para enfrentar problemas comuns de sala de aula – a indisciplina, a falta de motivação dos alunos, a ausência de hábitos desejáveis de higiene, limpeza, pontualidade etc. Contrapondo-se a formulações extremamente vagas e imprecisas de objetivos educacionais características dos manuais escolares, esta tecnologia exige que o psicólogo e/ou professor explicitem claramente os objetivos a serem atingidos, os comportamentos a serem modificados e a maneira pela qual os resultados serão avaliados. Em função da grande influência e do prestígio que o comportamentalismo desfrutou na psicologia mundial e brasileira alguns anos passados, tais instrumentos difundiram-se rapidamente em nosso meio. Livros-texto sob forma de Instrução Programada e manuais para professores eram abundantes, cursos de difusão eram ministrados a professores, artigos em revistas especializadas e de divulgação relatavam a aplicação de técnicas comportamentais em sala de aula. Fazendo-se hoje um retrospecto, caberia perguntar o porquê do relativo esquecimento de recursos e procedimentos outrora tão prestigiados. A concepção cognitivista enfatiza os processos internos através dos quais o mundo exterior é representado dentro do organismo. Contrariamente à abordagem compol1amentalista, enfatiza a importância dos eventos organísmicos que intervém entre o estímulo e a resposta, pois, como salientam Spinillo e Roazzi (1989): [...] a resposta dada a determinada situação-estímulo... não depende apenas do estímulo apresentado, mas de processos mentais internos presentes na mente de um indivíduo em um momento determinado do seu desenvolvimento e em função de elaborações anteriores que tenham sido efetua das (p. 22). Em termos de implicações para a educação, poderemos dizer que a concepção cognitiva foi tão ou até mais fértil do que a comportamentalista. É inegável a esmagadora influência que as ideias de Piaget tiveram e ainda têm como teoria explicativa dos vários aspectos do desenvolvimento infantil. Algumas pesquisas têm demonstrado que os professores, quando indagados a respeito de suas predileções teóricas, apontam predominantemente a concepção piagetiana como a que eles consideram mais adequada para orientar sua ação pedagógica (embora na prática, suas ações não pareçam ser orientadas por ela). Duas outras concepções, advindas da psicologia norte-americana, influenciaram também, ainda que menos intensamente que a teoria piagetiana, a educação escolar. Refiro-me às ideias de Jerome Bruner e David Ausubel sobre o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem em sala de aula. Em ambos os casos, é patente a preocupação em derivar do conhecimento psicológico princípios orientadores da ação do professor. Curiosamente, os princípios derivados não levaram esses autores a percorrer os mesmos caminhos e a fazer as mesmas TÓPICO 3 — DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MORAL E EMOCIONAL 89 recomendações. Se, de um lado, Bruner enfatiza a aprendizagem por descoberta, levando o aluno a indutivamente formular princípios e regras gerais, de outro lado, Ausubel defende a transmissão do conhecimento caminhando do geral para o particular, das definições para os exemplos, à moda de uma boa aula expositiva. Atualmente, esta abordagem vem se interessando grandemente pelos processos através dos quais a informação é transformada, armazenada, recuperada e aplicada. Parte substancial dos psicólogos cognitivos vem se dedicando desde a década de 50, a procurar entender os processos envolvidos no processamento da informação. Em função de tais estudos, têm sido postulados mecanismos responsáveis pela codificação, armazenamento e recuperação da informação. Os estudos são numerosos e sofisticados, porém, as conclusões de tais pesquisas, a meu ver, ainda não se concretizaram em princípios aplicáveis à escola. Finalmente, a orientação humanística preocupa-se fundamentalmente com os aspectos afetivos da aprendizagem. Embora afirmando uma preocupação com o ser humano como um todo, sem privilegiar o intelecto, na verdade a ênfase recai sobre aspectos não cognitivos. O ser humano é visto como possuindo um potencial a ser desenvolvido, com uma natureza que tende naturalmente para a autorrealização desde que possa desenvolver-se em ambiente não punitivo e não restritivo. De maneira geral tais concepções, dentre as quais a aprendizagem centrada no aluno postulada por Rogers, é o exemplo mais conspícuo, vê a escola tradicional como um ambiente que impede a autorrealização do aluno e o seu crescimento pessoal. Na verdade, a abordagem humanista não deu origem a qualquer teoria de aprendizagem. No máximo, e com alguma boa vontade, a concepção rogeriana poderia ser vista mais como uma teoria de personalidade do aluno que aprende, com ênfase especial à interação professor-aluno. O que esse tipo de abordagem produziu foram propostas, geralmente rotuladas como utópicas e/ou revolucionárias, de uma total reformulação na instituição escolar subvertendo completamente os papéis de professores e alunos. Até onde chega meu conhecimento, não tenho notícias de escolas que tenham aplicado integralmente a proposta rogeriana, com exceção da conhecidíssima Summerhill que, na verdade, é anterior ao próprio Rogers. Como se pode depreender desta breve exposição, tais orientações tenderam naturalmente a concentrar sua atenção preferencial em um dos três aspectos que fazem palie da natureza humana: a ação, a cognição e a emoção. Nisto reside, a meu ver, suas qualidadese suas limitações. Qualidades na medida em que isto conduziu naturalmente a uma análise aprofundada de cada uma das facetas privilegiadas pelas concepções em voga - o comportamento ou desempenho pelo behaviorismo, a cognição pelo cognitivismo e os aspectos afetivos pelas abordagens humanistas. Limitação porque, embora sem negar frontalmente a importância dos outros dois fatores, na prática, concentraram sua preocupação em apenas um deles. O resultado, como não poderia deixar de ser, é um retrato imperfeito e incompleto do aluno que aprende. Necessárias se fazem abordagens mais abrangedoras que, de maneira integrada e equilibrada, levem em conta esses três grupos interpenetrantes de fatores envolvidos na aprendizagem escolar. 90 UNIDADE 1 — PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO No que toca especialmente à Psicologia Escolar, estes últimos anos testemunharam uma acesa discussão entre visões conflitantes do papel do psicólogo nas escolas. Esta discussão dividiu a comunidade entre aqueles que esperam do psicólogo uma atuação de caráter mais técnico nas escolas, geralmente de avaliador das capacidades dos alunos, e aqueles mais atentos aos seus determinantes sociais e institucionais. Como uma decorrência do trabalho daqueles que advogam uma atuação de caráter mais técnico, temos os controvertidos laudos psicológicos que tanta celeuma têm provocado entre psicólogos e educadores pelas consequências nefastas para a vida futura dos alunos. Correspondendo frequentemente aquilo que as escolas esperam dos psicólogos, muitos profissionais têm se esmerado no trabalho de avaliação intelectual através de uma variedade de testes, nem sempre conscientes da imprecisão e da relatividade das medidas psicológicas, assim como do próprio conceito de inteligência. Ainda que o objetivo de tais esforços pareça, pelo menos à primeira vista meritórios, qual seja, o de colocar alunos em classes especiais nas quais eles tenham melhores condições de aprendizagem, na vida real o que frequentemente ocorre é a estigmatização de alunos para todo o restante de sua vida escolar. Contrapondo-se a esta visão tecnicista, uma outra vertente da Psicologia Escolar defende de maneira enfática que o psicólogo só pode entender realmente a escola e o aluno se estiver atento à dinâmica da instituição. Neste sentido, seu trabalho é muito menos o de um aplicador de testes e muito mais o de alguém voltado ao trabalho com professores, procurando entender e explicitar as expectativas dos mesmos em relação a alunos de classes economicamente desfavorecidas, analisando a forma pela qual a instituição se apropria da informação que lhe é trazida, discutindo com o corpo docente as múltiplas formas de queixa escolar, procurando facilitar o trabalho em equipes multidisciplinares, enfim, atuando muito mais junto ao professor do que no trabalho de avaliação dos alunos. Essas duas formas de atuação e de concepção do papel do psicólogo escolar coexistem, às vezes em franco antagonismo. Conciliar ambas as orientações, reduzindo o antagonismo latente, é tarefa urgente nesta área de estudo e aplicação do conhecimento psicológico. São essas, no meu entender, algumas interfaces entre a Psicologia e a Educação que podem ser atualmente identificadas nas escolas. Mas, e o amanhã? Que tendências se delineiam presentemente e quais os seus reflexos sobre a Psicologia Escolar, Educacional e da Aprendizagem no início do próximo século? [...] FONTE: LOMONACO, J. F. B. Psicologia e educação: hoje e amanhã. Psicol. Esc. Educ. (Impr.), Campinas, v. 3, n. 1, p. 11-20, 1999. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pee/v3n1/v3n1a02.pdf. Acesso em: 30 maio 2021. 91 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Erikson propôs oito estágios de desenvolvimento psicossocial, cada um dominado por uma crise psicossocial particular precipitada pela interação com o ambiente social. • No Estágio I de Erikson, confiança versus desconfiança, o objetivo é desenvolver um senso de confiança por meio da interação com os cuidadores. • No Estágio II de Erikson, autonomia versus dúvida ou vergonha (18 meses a 3 anos), as crianças têm um desejo duplo de apego e deixar-se ir. • No Estágio III de Erikson, iniciativa versus culpa (3 a 6 anos de idade), as crianças elaboram seu senso de identidade por meio da exploração do ambiente. • As crianças entram na escola durante o Estágio IV, diligência versus inferioridade (6 a 12 anos de idade), quando o sucesso ou fracasso acadêmico é central. • No Estágio V de Erikson, identidade versus confusão de identidade/papel (12 a 18 anos), os adolescentes se voltam cada vez mais para seu grupo de pares e começam suas buscas por parceiros e carreiras. • A idade adulta traz o Estágio VI (intimidade versus isolamento), o Estágio VII (generatividade versus estagnação/autoabsorção) e o Estágio VIII de Erikson (integridade versus desespero). • De acordo com Piaget, as crianças desenvolvem moralidade heterônoma (obediência à autoridade por meio do realismo moral) por volta dos seis anos de idade e, posteriormente, avançam para a moralidade autônoma (moralidade racional baseada em princípios morais). • Os estágios de raciocínio moral de Kohlberg refletem as respostas das crianças aos dilemas morais. • Nos estágios 1 e 2 (o nível pré-convencional) de Kohlberg, as crianças obedecem às regras estabelecidas por outros enquanto maximizam o interesse próprio. • Nas fases 3 e 4 (o nível convencional) de Kohlberg, o indivíduo adota regras, acredita na lei e na ordem e busca a aprovação dos outros. • Nos estágios 5 e 6 (o nível pós-convencional) de Kohlberg, as pessoas definem seus próprios valores em termos de princípios éticos abstratos que escolheram seguir. • O desenvolvimento socioemocional na primeira e segunda infância pode ser parcialmente descrito em termos do estágio psicossocial de iniciativa de Erikson versus culpa. 92 Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA • Os relacionamentos entre pares ajudam as crianças a superar o egocentrismo que Piaget descreveu como característico do pensamento pré-operacional. • O comportamento prosocial inclui cuidar, compartilhar, confortar e cooperar. • Parten identificou quatro categorias de brincadeiras que refletem níveis crescentes de interação social e sofisticação: solitária, paralela, associativa e cooperativa. • Brincar aprimora as habilidades linguísticas, cognitivas, sociais e criativas das crianças. • Na terceira infância, as crianças podem ser vistas como resolvendo a crise psicossocial que Erikson descreveu como diligência versus inferioridade. • A escola se torna uma grande influência no desenvolvimento na terceira infância, um lugar onde a criança desenvolve um eu público, desenvolve habilidades sociais e estabelece autoestima com base em competências acadêmicas e não acadêmicas. • Na pré-adolescência, entre as idades de 9 e 12 anos, a conformidade nas relações de pares, grupos de pares e desafios à autoridade adulta tornam-se mais importantes. • Os adolescentes podem ser vistos como resolvendo a crise psicossocial de identidade versus confusão de papéis de Erikson. • Os adolescentes prestam atenção em como as outras pessoas os veem, pesquisam o passado, experimentam papéis, agem de acordo com sentimentos e crenças e, gradualmente, buscam maior autonomia e intimidade nas relações com os pares. • A exclusão ocorre quando o indivíduo escolhe um papel prematuramente, mas, no final da adolescência, a maioria dos indivíduos já desenvolveu um estado de identidade estabelecida. • Muitosfatores, como abandono escolar, abuso de substâncias e IST, colocam os adolescentes em risco. 93 1 Através de uma adaptação das teorias do desenvolvimento do neurologista e psiquiatra Sigmund Freud, Erik Erikson desenvolveu uma teoria que relaciona aspectos psicológicos e sociais chamada de teoria psicossocial. Sobre essa respeitável teoria, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Erikson levantou a hipótese de que as pessoas passam por dez estágios psicossociais em suas vidas. Em cada estágio, existem crises ou problemas críticos a serem resolvidos. b) ( ) A maioria das pessoas resolve cada crise psicossocial de forma satisfatória e deixa-as para trás para assumir novos desafios, mas algumas pessoas não resolvem completamente essas crises e devem continuar a lidar com elas mais tarde na vida. c) ( ) Mesmo com o passar dos anos e das dificuldades enfrentadas pelos sujeitos, para Erikson a personalidade dessa pessoa se mantém a mesma. d) ( ) Umas das maiores desvantagens da teoria do desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson é que a mesma se limita apenas à infância e adolescência. 2 Em Autonomia versus vergonha/dúvida, Erikson descreve essa fase do desenvolvimento como ocorrendo aos dois anos de idade. Nesse período, ocorre um fenômeno chamado popularmente de adolescência do bebê, pois ele passa a perceber que é um indivíduo e com isso luta para conquistar o seu espaço, manifestando forte traços de rebeldia. Com base nesse período do desenvolvimento, analise as sentenças a seguir: I- Autonomia versus vergonha/dúvida encontra-se no estágio III do desen- volvimento. II- As crianças neste estágio têm o desejo duplo de apegar-se e de desapegar-se. III- Os pais que são excessivamente restritivos e severos dão aos filhos uma sensação de competência e impotência as crianças. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Piaget escreveu a teoria sobre o desenvolvimento do raciocínio moral, afirmando que as habilidades e as estruturas cognitivas se desenvolvem primeiro. No pensamento de Piaget, podemos identificar duas fases do desenvolvimento da moralidade, a moralidade heterônoma e a autônoma. Com base nessa teoria, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: AUTOATIVIDADE 94 ( ) Na moralidade autônoma, as pessoas podem ver “o que é certo” de maneira diferente. ( ) Na moralidade autônoma, o grau de punição deve depender de quão ruins foram os resultados de suas ações, ( ) Na modalidade heterônoma, as regras são permanentes, não mudam e devem ser seguidas. ( ) Na modalidade heterônoma, as intenções são mais importantes do que os resultados de seu comportamento. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – V – F – F. b) ( ) V – F – F – V. c) ( ) V – F – V – F. d) ( ) F – V – V – F. 4 Nos estudos do desenvolvimento socioemocional durante os anos finais do ensino fundamental e médio, James Marcia, com base nos estudos de Erikson, identificou a partir de entrevistas com adolescentes os quatro estados de identidade que refletem o grau em que os adolescentes assumiram compromissos firmes com valores religiosos e políticos, bem como com uma ocupação futura. Cite e explique cada um deles: 5 Urie Bronfenbrenner, psicólogo Russo, descreveu um modelo “bioecológi- co” de desenvolvimento humano para explicar sobre o desenvolvimento. O foco de seu modelo está nas influências sociais e institucionais no desen- volvimento de uma criança, desde a família, escolas, locais de culto e bair- ros, até influências sociais e políticas mais amplas, como mídia de massa e governo. Com uma crítica ao modelo piagetiano, ele inclui outras variáveis que devem ser investigadas nos estudos sobre o desenvolvimento que são além das crianças. Nesse contexto, disserte acerca dos cinco elementos des- critos por Bronfenbrenner. 95 REFERÊNCIAS AL-NAMLAH, A. S.; FERNYHOUGH, C.; MEINS, E. Sociocultural influences on the development of verbal mediation: private speech and phonological decoding in Saudi Arabian and British samples. Developmental Psychology, Washington, v. 42, n. 1, p. 117-131, 2006. Disponível em: https://dro.dur.ac.uk/2626/1/2626. pdf. Acesso em: 1. jul. 2021. ALVES, R. A alegria de ensinar. 3. ed. São Paulo: ARS Poética Editora,1994. ARNOLD, M. L. Stage, sequence, and sequels: changing conceptions of morality, post-Kohlberg. Educational Psychology Review, Berlim, v. 12, p. 365-383, 2000. ASSIS, S. G.; AVANCI, J. Q. Labirinto de espelhos: formação da autoestima na infância e na adolescência. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2004. AUSTIN, V. L.; SCIARRA, D. T. 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Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DA APRENDIZAGEM TÓPICO 2 – TEORIAS COGNITIVAS DA APRENDIZAGEM TÓPICO 3 – ABORDAGENS DE ENSINO-APRENDIZAGEM CENTRADA NO ALUNO E CONSTRUTIVISTA 106 Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 107 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, vamos introduzir este tópico com um caso que exemplifica os conceitos das teorias que estudaremos aqui. Convidamos você a ler este relato hipotético que aconteceu com a professora Julia Eller. Vamos lá? A professora Julia Eller, do segundo ano do Ensino Fundamental, está tentando ensinar a seus alunos um comportamento adequado em sala de aula. “Crianças”, diz ela um dia, “estamos tendo um problema nesta aula que gostaria de discutir com vocês. Sempre que faço uma pergunta, muitos de vocês gritam suas respostas em vez de levantar a mão e esperar serem chamados. Alguém pode me dizer o que você deve fazer quando eu fizer uma pergunta à classe?”. A mão de Rebeca dispara para o ar. "Eu sei, eu sei!" ela diz. “Levante a mão e espere em silêncio!”. A professora suspira para si mesma. Ela tenta ignorar Rebeca, que está fazendo exatamente o que lhe disseram para não fazer, mas Rebeca é a única aluna com a mão levantada, e quanto mais ela espera, mais freneticamente Rebeca acena com a mão e grita sua resposta. “Tudo bem, Rebeca. O que você pretende fazer?". “Devemos levantar as mãos e esperar em silêncio que você nos chame.”. “Se você conhece a regra, por que estava gritando sua resposta antes de eu chamar para você?”. "Acho que esqueci". "Tudo bem. Alguém pode lembrar a classe de nossa regra sobre falar fora de hora?”. Quatro crianças levantam as mãos e gritam juntas: "um por vez!"; "uma de cada vez!". “Não falar quando outra pessoa estiver falando!”. A professora pede ordem. “Vocês, crianças, vão me deixar louca!”. “Não acabamos de conversar sobre como levantar as mãos e esperar que eu chame por vocês?”. “Mas professora Eller”, diz Estevão, sem nem mesmo levantar a mão. "Você chamou a Rebeca e ela não estava quieta!". TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM Pensamento crítico e criativo: reflita sobre o que a professora Eller poderia fazer de diferente nessa situação para atingir seu objetivo. Aprendizado cooperativo: discuta com outro acadêmico o que deu errado aqui. Discuta também maneiras semelhantes pelas quais você viu o comportamento inadequado ser reforçado no passado. Compartilhe algumas dessas histórias com a classe. IMPORTANT E UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 108 As crianças são excelentes aprendizes. O que elas aprendem, no entanto, nem sempre é o que pretendemos ensinar. A professora Eller está tentando ensinar os alunos como se comportar em sala de aula, mas ao prestar atenção à explosão de Rebeca, ela está realmente ensinando a eles o oposto do que pretende. Rebeca anseia pela atenção de sua professora, então ser chamada (mesmo em um tom de voz exasperado) a recompensa por gritar sua resposta. Não apenas a resposta da professora Eller aumenta as chances de Rebeca dar respostas novamente, mas também Rebeca agora serve como um modelo para as próprias convocações de seus colegas. O que a professora Eller diz é menos importante do que a resposta real que ela dá aos comportamentos de seus alunos. O objetivo deste tópico é definir a aprendizagem e, em seguida, apresentar teorias de aprendizagem comportamentais e sociais, explicações para a aprendizagem que enfatizam comportamentos observáveis. Veremos que as teorias de aprendizagem comportamental enfocam as maneiras como as consequências agradáveis ou desagradáveis do comportamento mudam o comportamento dos indivíduos ao longo do tempo e as maneiras como os indivíduos modelam seu comportamento no comportamento de outras pessoas. A seguir, exploraremos as teorias de aprendizagem social, elas enfocam os efeitos do pensamento sobre a ação e da ação sobre o pensamento. O próximo tópico desta unidade apresentará as teorias de aprendizagem cognitiva, que enfatizam processos mentais não observáveis que as pessoas usam para aprender e lembrar novas informações ou habilidades. Nos últimos anos, entretanto, as fronteiras entre as teorias de aprendizagem comportamental e cognitiva tornaram-se cada vez mais indistintas, à medida que cada escola de pensamento incorporou as descobertas da outra. Muito bem, caríssimo acadêmico, você está pronto para iniciarmos nossa jornada nos estudos sobre a psicologia da aprendizagem? Vamos lá. 2 O QUE É A APRENDIZAGEM? O que é aprendizagem? Esta parece uma pergunta simples até que você comece a pensar a respeito. Considere os quatro exemplos a seguir. São exemplos de aprendizagem?1. Uma criança dá seus primeiros passos. 2. Um adolescente do sexo masculino sente uma forte atração por certas mulheres. 3. A criança fica ansiosa quando vê o médico chegando com uma agulha. 4. Muito depois de aprender a multiplicar, uma menina percebe por si mesma que outra maneira de multiplicar por 5 é dividir por 2 e multiplicar por 10 (por exemplo, 428 × 5 pode ser calculado da seguinte forma: 428/2 = 214 × 10 = 2.140). TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 109 A aprendizagem é geralmente definida como uma mudança em um indivíduo causada pela experiência. Mayer (2008a, p. 171) define aprendizagem como "mudança duradoura no conhecimento do aluno como resultado das experiências do aluno". Mudanças causadas pelo desenvolvimento (como ficar mais alto) não são exemplos de aprendizagem. Nem são as características dos indivíduos que estão presentes no nascimento (como reflexos e respostas à fome ou dor). No entanto, os humanos aprendem tanto desde o dia de seu nascimento (e alguns dizem antes) que aprendizagem e desenvolvimento estão inseparavelmente ligados. Aprender a andar (Exemplo 1) é principalmente uma progressão do desenvolvimento, mas também depende da experiência com engatinhar e outras atividades. O impulso sexual do adolescente (Exemplo 2) não é aprendido, mas a aprendizagem molda as escolhas dos indivíduos de parceiros desejáveis. A ansiedade de uma criança ao ver um médico com uma agulha (Exemplo 3) é definitivamente um comportamento aprendido. A criança aprendeu a associar a agulha à dor e seu corpo reage emocionalmente ao vê-la. Essa reação pode ser inconsciente ou involuntária, mas é aprendida mesmo assim. No Exemplo 4, o insight da menina sobre o atalho de multiplicação é uma instância de aprendizagem gerada internamente, mais conhecida como pensamento. Alguns teóricos não chamariam isso de aprendizagem, porque não foi causado diretamente pelo ambiente. Pode ser considerado um caso de aprendizagem retardada, no qual a instrução deliberada na multiplicação mais anos de experiência com números mais esforço mental por parte da menina produziu um insight. A aprendizagem ocorre de várias maneiras. Às vezes, é intencional, como quando os alunos adquirem informações apresentadas em uma sala de aula ou quando procuram algo na internet. Às vezes, não é intencional, como no caso da reação da criança à agulha. Todos os tipos de aprendizagem estão acontecendo o tempo todo. Ao ler este tópico, você está aprendendo algo sobre aprendizagem. No entanto, você também está aprendendo que a psicologia educacional é interessante ou enfadonha, útil ou inútil. Sem saber, você provavelmente está aprendendo sobre onde certas informações podem ser encontradas nas páginas do livro. Você pode estar aprendendo a associar o conteúdo deste tópico a aspectos sem importância de seu entorno à medida que o lê, como o cheiro dos livros em uma biblioteca ou a temperatura da sala em que está lendo. O conteúdo deste tópico, a colocação de palavras na página e os cheiros, sons e temperatura do ambiente são todos estímulos. Seus sentidos estão geralmente abertos a todos os tipos de estímulos, ou eventos ou condições ambientais, mas você está consciente de apenas uma fração deles por vez. O problema que você enfrenta como professor não é como fazer os alunos aprenderem, os alunos já estão empenhados em aprender a cada momento. Em vez disso, é como ajudá-los a aprender informações, habilidades e conceitos UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 110 específicos que serão úteis em suas vidas. Como apresentamos aos alunos os estímulos corretos nos quais concentrar sua atenção e esforço mental para que adquiram habilidades importantes? Esse é o desafio central do ensino. 2.1 O QUE SÃO AS TEORIAS DA APRENDIZAGEM DO COMPORTAMENTO? O estudo sistemático da aprendizagem é relativamente novo. Somente no final do século XIX a aprendizagem foi estudada de maneira científica. Usando técnicas emprestadas das ciências físicas, os pesquisadores começaram a conduzir experimentos para entender como as pessoas e os animais aprendem. Um dos primeiros e mais importantes pesquisadores foi Ivan Pavlov. Entre os pesquisadores posteriores, Skinner foi importante para seus estudos sobre relação entre comportamento e consequências. 2.1.1 Pavlov: condicionamento clássico No final dos anos 1800 e no início dos anos 1900, o cientista russo Ivan Pavlov e seus colegas estudaram o processo digestivo em cães (BORICH, 2014; ORMROD, 2016). Durante a pesquisa, os cientistas notaram mudanças no tempo e na taxa de salivação desses animais. Pavlov observou que se a carne fosse colocada na boca ou perto da boca de um cão faminto, o cão salivaria. Como a carne provocou essa resposta automaticamente, sem nenhum treinamento ou condicionamento prévio, a carne é chamada de estímulo não condicionado ou estímulo incondicionado. Da mesma forma, como a salivação ocorria automaticamente na presença de carne, também sem a necessidade de nenhum treinamento ou experiência, essa resposta de salivar é chamada de resposta não condicionada ou resposta incondicionada. Embora a carne produza salivação sem qualquer experiência ou treinamento prévio, outros estímulos, como o toque de um sino, não produzem salivação. Como esses estímulos não têm efeito sobre a resposta em questão, eles são chamados de estímulos neutros. Os experimentos de Pavlov mostraram que, se um estímulo previamente neutro for apresentado ao mesmo tempo que um estímulo não condicionado, o estímulo neutro se torna um estímulo condicionado e ganha o poder de solicitar uma resposta semelhante à produzida pelo estímulo não condicionado. Em outras palavras, depois que o sino e a carne são apresentados juntos várias vezes, só o toque do sino faz o cachorro salivar. Esse processo é conhecido como condicionamento clássico. Um diagrama da teoria de Pavlov é mostrado na Figura 1 (no condicionamento clássico, um estímulo neutro, como um sino, que a princípio não indica nenhuma resposta, torna-se pareado com um estímulo incondicionado, como carne, e ganha o poder desse estímulo para causar uma resposta, como a salivação). Em experimentos como esses, Pavlov e seus colegas mostraram como o aprendizado pode afetar o que antes se pensava ser comportamentos reflexos involuntários, como salivar. TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 111 FIGURA 1 – CONDICIONAMENTO CLÁSSICO FONTE: <https://bit.ly/3DWaiIM>. Acesso em: 13 out. 2021. 2.1.2 Skinner: condicionamento operante Alguns comportamentos humanos são claramente estimulados por estímulos específicos. Assim como os cães de Pavlov, salivamos quando estamos com fome e vemos comida apetitosa. No entanto, Skinner propôs que o comportamento reflexivo é responsável por apenas uma pequena proporção de todas as ações. Ele propôs outra classe de comportamento, que rotulou de comportamentos operantes, pois operam no ambiente na aparente ausência de qualquer estímulo não condicionado, como comida. O trabalho de Skinner focou na relação entre o comportamento e suas consequências (BORICH, 2014; ORMROD, 2016). Por exemplo, se o comportamento de um indivíduo é imediatamente seguido por consequências prazerosas, o indivíduo se envolverá nesse comportamento com mais frequência. O uso de consequências agradáveis e desagradáveis para mudar o comportamento é frequentemente referido como condicionamento operante. O trabalho de Skinner focou em colocar os sujeitos em situações controladas e observar as mudanças em seu comportamento produzidas por mudanças sistemáticas nas consequências de seu comportamento(ALBERTO; TROUTMAN, 2013). Skinner é famoso por seu desenvolvimento e uso da caixa de Skinner, um dispositivo que contém um aparato muito simples para estudar o comportamento de animais, geralmente ratos e pombos. Uma caixa Skinner para UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 112 ratos consiste em uma barra que é fácil para o rato apertar, um distribuidor de comida que pode dar ao rato uma bolinha de comida e um distribuidor de água. O rato não pode ver ou ouvir nada fora da caixa, então todos os estímulos são controlados pelo experimentador. Em alguns dos primeiros experimentos envolvendo caixas de Skinner, o aparelho foi primeiro configurado de forma que se o rato pressionasse a barra receberia uma bolinha de comida. Depois de algumas pressões acidentais na barra, o rato começava a pressionar a barra com frequência, recebendo uma bolinha a cada vez. A recompensa da comida condicionou o comportamento do rato, fortalecendo a pressão na barra e enfraquecendo todos os outros comportamentos (como vagar pela caixa). Nesse ponto, o experimentador pode fazer qualquer uma de várias coisas. O distribuidor de alimentos pode ser configurado das seguintes formas: • da forma que várias pressões sobre a barra sejam necessárias para obter comida; • da forma que algumas pressões sobre a barra possam produzir a comida, mas outras não; • da forma que as pressões sobre a barra não possam produzir mais comida. Em cada caso, o comportamento do rato seria registrado eletronicamente. Uma vantagem importante da caixa de Skinner é que ela permite um estudo científico cuidadoso do comportamento em um ambiente controlado. Qualquer pessoa com o mesmo equipamento pode repetir os experimentos de Skinner. 2.2 QUAIS SÃO ALGUNS PRINCÍPIOS DA APRENDIZAGEM COMPORTAMENTAL? A teoria da aprendizagem comportamental tem sua própria linguagem para descrever como as consequências do comportamento moldam o comportamento posterior. Vamos agora ver alguns dos princípios da aprendizagem comportamental. 2.2.1 O papel das consequências O trabalho pioneiro de Skinner com ratos e pombos estabeleceu um conjunto de princípios de comportamento que foram apoiados em centenas de estudos envolvendo humanos e animais. Talvez o princípio mais importante das teorias de aprendizagem comportamental seja que o comportamento muda de acordo com suas consequências imediatas. Consequências prazerosas fortalecem o comportamento; consequências desagradáveis enfraquecem-no. TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 113 Em outras palavras, as consequências agradáveis aumentam a frequência com que um indivíduo se envolve em um comportamento, enquanto as consequências desagradáveis reduzem a frequência de um comportamento. Se os alunos gostam de ler livros, provavelmente lerão com mais frequência. Se acharem as histórias chatas ou não conseguirem se concentrar, podem ler com menos frequência, optando por outras atividades. Consequências prazerosas são chamadas de reforçadores; consequências desagradáveis são chamadas de punidores. 2.2.2 Reforçadores Um reforçador é qualquer consequência que fortalece (ou seja, aumenta a frequência de) um comportamento. Observe que a eficácia do reforçador deve ser demonstrada. Não podemos presumir que uma determinada consequência seja um reforçador até que tenhamos evidências de que ela fortalece o comportamento de um determinado indivíduo. Por exemplo, doces podem geralmente ser considerados um reforçador para crianças pequenas, mas depois de uma grande refeição, uma criança pode não achar os doces agradáveis e algumas crianças não gostam de doces. Um professor que diz: “eu o reforcei com elogios por permanecer em seu lugar durante o período de matemática, mas não funcionou”, pode estar usando mal o termo reforço se não houver evidência de que o elogio seja de fato um reforçador para esse aluno em particular. Nenhuma recompensa pode ser considerada um reforço para todos em todas as condições (ZIRPOLI, 2016). Os reforçadores se enquadram em duas categorias amplas: primários e secundários. Os reforçadores primários satisfazem as necessidades humanas básicas. Alguns exemplos são: comida, água, segurança, calor e sexo. Os reforçadores secundários são reforçadores que adquirem seu valor por estarem associados a reforçadores primários ou outros reforçadores secundários bem estabelecidos. Por exemplo, o dinheiro não tem valor para uma criança pequena até que ela aprenda que o dinheiro pode ser usado para comprar coisas que são em si reforçadores primários ou secundários. As notas têm pouco valor para os alunos, a menos que suas famílias percebam e valorizem as boas notas, e o elogio das famílias tem valor porque está associado ao amor, cordialidade, segurança e outros reforços. Existem três categorias básicas de reforçadores secundários. Um são os reforçadores sociais, como elogios, sorrisos, abraços ou atenção. Quando a professora Eller reconheceu o comportamento da Rebeca, ela estava inadvertidamente dando à Rebecca um reforço social: sua própria atenção. Outros tipos de reforçadores secundários são reforçadores de atividade (como acesso a brinquedos, jogos ou atividades divertidas) e reforçadores simbólicos (como dinheiro, notas, estrelas ou pontos que os indivíduos podem trocar por outros reforçadores). UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 114 Na maioria das vezes, os reforçadores usados nas escolas são reforçadores positivos que incluem elogios, notas e estrelas. No entanto, um comportamento também é fortalecido se sua consequência for uma fuga de uma situação desagradável ou uma forma de evitar que algo desagradável ocorra. Por exemplo, um pai pode dispensar um filho de lavar a louça para fazer o dever de casa. Se lavar a louça é visto como uma tarefa desagradável, libertar-se disso será reforçador. As fugas de situações desagradáveis são chamadas de reforçadores negativos (ZIRPOLI, 2016). O termo reforçador negativo é, muitas vezes, mal interpretado como punição, como em: "reforcei-o negativamente por estar atrasado fazendo com que ele ficasse em sala durante o recreio" (MARTELLA et al., 2012). Uma maneira de evitar esse erro na terminologia é lembrar que os reforçadores (sejam positivos ou negativos) fortalecem o comportamento, enquanto a punição é projetada para desencorajar ou enfraquecer o comportamento (Quadro 1). Um importante princípio de comportamento é que podemos promover comportamentos tornando o acesso a algo desejável dependente de fazer algo menos desejável. Por exemplo, um professor pode dizer: “assim que terminar sua tarefa, você pode ir lá fora” ou “finalize seu projeto de arte e então eu lerei uma história para você”. Esses são exemplos do clássico Princípio de Premack (PREMACK, 1965), às vezes, chamado de "Regra da Vovó" a partir da antiga declaração "Coma seus vegetais e depois pode brincar". Você pode usar o Princípio de Premack alternando atividades mais agradáveis com as menos agradáveis e fazendo com que a participação em atividades divertidas dependa da conclusão bem-sucedida das menos agradáveis. Por exemplo, no Ensino Fundamental, pode ser uma boa ideia programar música, que a maioria dos alunos considera uma atividade agradável, depois de uma matéria difícil, para que os alunos saibam que não devem brincar durante a matéria difícil e correr o risco de perder parte do tempo musical desejado (BORICH, 2014). QUADRO 1 – CONSEQUÊNCIAS NA APRENDIZAGEM COMPORTAMENTAL FONTE: O autor FORTALECE O COMPORTAMENTO DESENCORAJA O COMPORTAMENTO Reforço positivo Sem reforço Exemplo: recompensa ou elogio Exemplo: Ignorando Reforço Negativo Punição de Remoção Exemplo:desculpar-se de uma tarefa ou situação indesejável Exemplo: Proibindo uma tarefa ou situação desejável Punição de Apresentação Exemplo: imposição de uma tarefa ou situação indesejável TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 115 Frequentemente, o reforçador mais importante que mantém o comportamento é o prazer inerente ao envolvimento no comportamento. Por exemplo, a maioria das pessoas tem um hobby no qual trabalham por longos períodos sem qualquer recompensa. As pessoas gostam de desenhar, ler, cantar, jogar, caminhar ou nadar sem nenhum motivo além da diversão. Os reforçadores desse tipo são chamados de reforçadores intrínsecos e as pessoas podem ser descritas como sendo intrinsecamente motivadas para se engajar em uma determinada atividade. Os reforçadores intrínsecos são contrastados com reforçadores extrínsecos, elogios ou recompensas oferecidas para motivar as pessoas a se envolverem em um comportamento que elas não teriam sem tais reforçadores. Usos de reforço em sala de aula O princípio de aprendizagem comportamental mais útil para a prática em sala de aula é também o mais simples: reforce os comportamentos que deseja ver repetidos. Esse princípio pode parecer óbvio, mas na prática não é tão fácil quanto parece. Por exemplo, alguns professores assumem a atitude de que o reforço é desnecessário, raciocinando: “por que devo reforçá-los? Eles estão apenas fazendo o que deveriam fazer!". Vamos ver algumas diretrizes para o uso de reforço para aumentar o comportamento desejado na sala de aula: 1. Decida quais comportamentos você deseja dos alunos e reforce esses comportamentos quando eles ocorrerem. Por exemplo, elogie ou recompense um bom trabalho. Não elogie ou recompense o trabalho que não está à altura das capacidades dos alunos. Conforme os alunos começam uma nova tarefa, eles precisam ser reforçados a cada passo ao longo do caminho. Aproximações mais próximas do que você espera realizar como produto final devem receber feedback positivo. Divida os novos comportamentos (atribuições de sala de aula) em partes menores e forneça recompensas adequadas ao longo do caminho. 2. Diga aos alunos quais comportamentos você deseja; quando eles exibirem os comportamentos desejados e você os reforçar, diga-lhes o porquê. Apresente aos alunos uma rubrica (um instrumento de avaliação apresentado na forma de tabela, construída e modificada com base nos critérios específicos, relacionados a uma atividade ou qualquer outra tarefa que se deseja avaliar) que descreva os critérios que você usará ao avaliar seu trabalho e inclua a pontuação de cada critério. Os alunos, então, serão capazes de discriminar seus próprios pontos fortes e fracos a partir do feedback que recebem de você. 3. Reforce o comportamento apropriado o mais rápido possível após sua ocorrência. O reforço atrasado é menos eficaz do que o reforço imediato. Ao avaliar uma tarefa, apresente feedback aos alunos o mais rápido possível. É importante que eles saibam como estão se saindo nas aulas, portanto, não perca tempo em fornecer suas notas. Ao elaborar uma tarefa, você deve sempre considerar o esquema de notas que usará e quanto tempo levará para fornecer o feedback pretendido. NOTA UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 116 Há evidências de que reforçar as crianças por certos comportamentos que elas teriam feito de qualquer maneira pode minar a motivação intrínseca de longo prazo (DECI; RYAN, 2002). Pesquisas sobre este tópico descobriram que o efeito destruidor de reforçadores extrínsecos ocorre apenas em um conjunto limitado de circunstâncias, em que recompensas são fornecidas às crianças por se envolverem em uma atividade sem qualquer padrão de desempenho e somente se a atividade for aquela que as crianças teriam feito por conta própria sem qualquer recompensa (CAMERON; PIERCE, 1994, 1996). Elogios verbais e outros tipos de feedback são reforçadores extrínsecos que aumentam, não diminuem, o interesse intrínseco. O que pesquisas sugerem para a prática é que você deve ser cauteloso ao dar reforçadores às atividades que elas fariam por conta própria. No entanto, para a maioria das tarefas escolares, que a maioria dos alunos não teria feito por conta própria, não há nenhuma base para a preocupação de que o uso de reforçadores extrínsecos prejudique a motivação intrínseca, especialmente se esses reforçadores forem sociais e comunicarem o reconhecimento do domínio e da independência crescentes dos alunos. Na verdade, argumentou-se que deixar de usar o reforço positivo quando ele teria sido eficaz para aumentar os comportamentos positivos é antiético (BAILEY; BURCH, 2005). Por exemplo, considere um aluno que corre o risco de ser expulso devido a uma briga. Se um programa de reforço positivo para evitar brigas pudesse ter eliminado a briga do aluno, os educadores seriam eticamente obrigados a tentar tal plano (ou outros) antes de considerar um passo tão sério como a expulsão. Reforçadores práticos Qualquer coisa de que as crianças gostem pode ser um reforço eficaz, mas existem limitações práticas óbvias sobre o que deve ser usado nas salas de aula. Um princípio geral de reforço positivo é que é melhor usar o reforçador menos elaborado ou tangível que funcione. Em outras palavras, se o elogio, o autorreforço ou o feedback sobre o progresso funcionam, não use certificados. Se os certificados funcionam, não use brinquedos pequenos. Se os brinquedos pequenos funcionam, não use comida. Uma forma de descobrir quais reforços usar é perguntar aos próprios alunos quem são mais propensos a trabalhar para um reforçador que eles selecionaram. No entanto, não hesite em usar qualquer reforço prático necessário para motivar as crianças a realizar tarefas importantes. Em particular, tente todas as estratégias de reforço possíveis antes mesmo de pensar em punição (descrito a seguir). Algumas categorias de reforçadores e exemplos de cada um aparecem aqui. Eles são organizados do menos para o mais tangível. 1. Autorreforço. Os alunos podem ser ensinados a elogiar a si mesmos, dar-se um tapinha nas costas mental, verificar o progresso em um formulário, fazer uma pequena pausa ou de outra forma se reforçar para completar uma tarefa ou permanecer na tarefa (SCHUNK, 2016). 2. Elogio. Frases como "Bom trabalho", "Muito bem", "Eu sabia que você conseguiria" e outros elogios verbais podem ser eficazes, mas a mesma mensagem pode, muitas vezes, NOTA TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 117 ser entregue com um sorriso, uma piscadela, ou um sinal como o polegar para cima ou um tapinha nas costas. Na aprendizagem cooperativa e na tutoria entre pares, os alunos podem ser encorajados a elogiar uns aos outros pelo comportamento apropriado (WALKER et al., 2011). 3. Atenção. A atenção de um adulto ou colega valorizado pode ser um reforço muito eficaz para muitas crianças. Ouvir, balançar a cabeça ou aproximar-se pode dar à criança a atenção positiva que ela está procurando. Para desempenho excepcional ou para cumprir metas por um longo período, os alunos podem ter um momento especial para visitar o zelador, ajudar no escritório ou dar um passeio com o diretor (ZIRPOLI, 2016). 4. Notas e reconhecimento. Boas notas e outras honras (por exemplo, certificados de realização) podem ser eficazes para dar aos alunos um feedback positivo sobre seus esforços e para comunicar o progresso às famílias, que provavelmente reforçarão eles próprios os bons relatórios. Exibições públicas de um bom trabalho, notas do diretor e outros elogios podem ter o mesmo efeito. As pontuações dos questionários, avaliações de comportamento e outros feedbacks fornecidos com frequência podem ser mais eficazes do que as notas do boletim cobrindo meses de trabalho. 5. Ligar para casa. Ligar ou enviar um bilhete para os cuidadores de uma criança parareconhecer o sucesso pode ser um reforçador poderoso. 6. Reforço domiciliar. As famílias podem ser parceiras eficazes em um sistema de reforço. Os professores podem chegar a um acordo com as famílias em que as crianças recebam privilégios especiais em casa quando atendem a padrões bem especificados de comportamento ou desempenho. 7. Privilégios. As crianças podem ter tempo livre, acesso a equipamentos especiais (como bolas ou jogos de futebol) ou funções especiais (como fazer recados ou distribuir materiais). Crianças ou grupos que se comportaram bem podem simplesmente ser autorizados a se alinhar primeiro para o recesso ou desfrutar de outros pequenos privilégios. 8. Reforçadores de atividade. Depois de atingir os padrões pré-estabelecidos, os alunos podem ganhar vídeos, jogos ou acesso a outras atividades divertidas. Os reforçadores de atividade se prestam particularmente bem a contingências de grupo, nas quais uma classe inteira pode ganhar tempo livre ou atividades especiais se os alunos coletivamente atingirem um padrão (SCHEUERMANN; HALL, 2016). 9. Reforçadores tangíveis. As crianças podem ser recompensadas por realizações ou bom comportamento com pontos que podem trocar por pequenos brinquedos, borrachas, lápis, bolas de gude, gibis, adesivos e assim por diante. Os reforçadores tangíveis geralmente funcionam melhor quando as crianças podem escolher entre várias opções (JONES; JONES, 2016). 10. Alimentos. Uvas, maçãs, cenouras, iogurte ou outros lanches saudáveis podem ser usados como reforçadores. 2.2.3 Punidores As consequências que enfraquecem o comportamento são chamadas de punidores. Observe que há o mesmo problema na definição de punição e na definição de reforço: se uma consequência aparentemente desagradável não reduz a frequência do comportamento que segue, não é necessariamente um punidor. Por exemplo, alguns alunos gostam de ser mandados para a sala do diretor ou para o corredor porque isso os libera da sala de aula, o que eles veem como uma situação desagradável (SCHEUERMANN; HALL, 2016). Alguns alunos gostam de ser repreendidos porque isso lhes chama a atenção e talvez aprimore seu status entre os colegas. Como acontece com os reforçadores, a eficácia de um punidor não pode ser presumida, mas deve ser demonstrada. A punição pode assumir duas formas principais. UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 118 O uso de consequências desagradáveis ou estímulos aversivos, caracteriza a punição de apresentação, como quando um aluno é repreendido. A retirada de uma consequência agradável descreve a punição de remoção. Os exemplos incluem a perda de um privilégio, ter que ficar em sala durante o recreio e receber detenção depois da escola. Outro exemplo, chamado de custo de resposta (LANDRUM; MCDUFFIE, 2008), envolve a cobrança de um custo aos alunos que estão se comportando de maneira inadequada, como um minuto de detenção depois da escola para cada minuto fora da tarefa. Uma forma frequentemente usada de punição de remoção em salas de aula é o time-out, técnica comportamental que tem por objetivo ajudar a criança a controlar-se internamente e a refletir nas suas ações, consiste em retirar a criança do local onde ocorreu o comportamento e levá-la para outro sítio, onde ficará sozinha durante alguns minutos, sem distrações. O aluno que se comporta mal é obrigado a sentar-se no canto ou no corredor por vários minutos. Os professores costumam usar o time-out quando acreditam que a atenção de outros alunos está servindo para reforçar o mau comportamento; o time-out priva o aluno que se comportou mal desse reforçador. O uso do time-out como consequência para mau comportamento geralmente reduz o mau comportamento (ZIRPOLI, 2016). Em um estudo clássico, White e Bailey (1990) avaliaram o uso de uma consequência de sentar-se e observar nas aulas de Educação Física. As crianças que se comportaram mal foram informadas do que haviam feito de errado, receberam um cronômetro de areia de três minutos e foram então solicitadas a sentar e observar até que a areia acabasse. O programa foi testado pela primeira vez em uma classe alternativa para alunos do quinto e sexto ano escolar com sérios problemas de comportamento. Depois que uma linha de base de até 343 comportamentos perturbadores em dez minutos foi observada, um programa de lista de verificação comportamental foi testado, no qual os professores avaliaram o comportamento de cada criança e enviaram crianças com mau comportamento para a sala do orientador ou as privaram de um período livre. Isso reduziu o mau comportamento, mas não o eliminou. No entanto, quando o procedimento se sentar e observar foi introduzido, o mau comportamento praticamente desapareceu. O mesmo método de sentar-se e observar foi usado em uma aula regular de Educação Física do quinto ano e os resultados foram semelhantes. A questão de saber se quando e como punir tem sido uma fonte de considerável controvérsia entre os teóricos da aprendizagem comportamental. Alguns alegaram que os efeitos da punição, especialmente a punição de apresentação (aversiva), são apenas temporários, que a punição produz agressão e que faz com que os indivíduos evitem os ambientes em que é usada (ZIRPOLI, 2016). Mesmo os teóricos da aprendizagem comportamental que apoiam o uso da punição concordam que ela deve ser usada apenas quando o reforço para o comportamento apropriado foi tentado e falhou; que quando a punição é necessária, ela deve assumir a forma mais branda possível; e que a punição deve sempre ser usada como parte de um plano cuidadoso, nunca de forma inconsistente ou por frustração. O castigo físico nas escolas (como palmadas) é ilegal na maioria TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 119 dos lugares (JONES; JONES, 2016) e é universalmente contestado por teóricos da aprendizagem comportamental em bases éticas e científicas (SCHEUERMANN; HALL, 2016). 2.2.4 Imediatismo das consequências Um princípio muito importante das teorias de aprendizagem comportamental é que as consequências que seguem os comportamentos de perto no tempo afetam o comportamento muito mais do que as consequências atrasadas. Elogiar um aluno imediatamente pode ser mais eficaz do que conceder- lhe um privilégio significativo mais tarde. Um reforçador menor que é dado imediatamente, geralmente tem um efeito muito maior do que um reforçador grande dado mais tarde (SCHEUERMANN; HALL, 2016). Esse conceito explica muito sobre o comportamento humano. Sugere, por exemplo, a razão pela qual as pessoas acham tão difícil parar de fumar ou de comer demais. Mesmo que os benefícios de parar de fumar ou de perder peso sejam substanciais e bem conhecidos, o pequeno, mas imediato, reforço de apenas um cigarro ou uma sobremesa geralmente supera o efeito comportamental dos grandes reforçadores, porém retardados. Na sala de aula, o princípio do imediatismo das consequências também é muito importante. Aproximar-se de um aluno que está se comportando mal, tocar seu ombro ou fazer um gesto (por exemplo, dedo nos lábios para pedir silêncio) pode ser muito mais eficaz do que uma repreensão ou advertência dada no final da aula (ZIRPOLI, 2016). O feedback imediato serve para, pelo menos, dois propósitos. Primeiro, torna clara a conexão entre comportamento e consequência. Em segundo lugar, aumenta o valor informativo do feedback. Ao lidar com o mau comportamento, você pode aplicar o princípio do imediatismo das consequências, respondendo imediata e positivamente quando os alunos não estão se comportando mal – na verdade, pegando-os no ato de serem bons! 2.2.5 Modelagem O imediatismo do reforço é importante para o ensino, mas também é importante à decisão sobre o que reforçar. Um professorda Educação Infantil deve reter o reforço até que uma criança conheça os sons de todas as 26 letras? Certamente não. Seria melhor elogiar as crianças por reconhecerem uma letra, depois por reconhecerem várias e, finalmente, por aprenderem os sons de todas as 26 letras. Um professor de música deve reter o reforço até que um jovem aluno tenha tocado uma peça de piano na perfeição? Ou o professor deve elogiar a primeira tentativa hesitante? A maioria dos alunos precisa de reforço ao longo do caminho. Quando você orienta os alunos em direção às metas reforçando as muitas etapas que levam ao sucesso, você está usando uma técnica chamada modelagem. UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 120 O termo modelagem é usado em teorias de aprendizagem comportamental para se referir ao ensino de novas habilidades ou comportamentos, reforçando os alunos para se aproximarem do comportamento final desejado (SCHEUERMANN; HALL, 2016). Por exemplo, ao ensinar as crianças a amarrar o cadarço, não deveríamos simplesmente mostrar-lhes como isso é feito e depois esperar para reforçá-las até que façam o trabalho sozinhas. Em vez disso, primeiro os reforçaríamos para dar o primeiro nó, depois para fazer os laços e assim por diante, até que eles possam fazer a tarefa inteira. Dessa forma, estaríamos moldando o comportamento das crianças, reforçando todos os passos que levam ao objetivo final. A modelagem é uma ferramenta importante na instrução em sala de aula. Digamos que queremos que os alunos sejam capazes de escrever parágrafos com um tópico frasal, três detalhes de apoio e uma frase de conclusão. Essa tarefa tem muitas partes: ser capaz de reconhecer e, em seguida, produzir um tópico frasal, detalhes de apoio e frases finais; ser capaz de escrever frases completas usando letras maiúsculas, pontuação e gramática corretamente; e ser capaz de soletrar. Se você desse uma aula sobre todas essas habilidades e depois pedisse aos alunos que escrevessem parágrafos, pontuando-os no conteúdo, gramática, pontuação e ortografia, a maioria dos alunos reprovaria e, provavelmente, aprenderia pouco com o exercício. Em vez disso, você pode ensinar as habilidades passo a passo, moldando gradualmente a habilidade final. Os alunos podem ser ensinados a escrever os primeiros tópicos frasal, depois os detalhes de apoio e, por fim, as frases finais. No início, eles podem ser responsabilizados apenas pelo conteúdo do parágrafo. Posteriormente, o requisito de reforço pode ser aumentado para incluir gramática e pontuação. Finalmente, a ortografia pode ser adicionada como um critério de sucesso. Em cada estágio, os alunos teriam uma boa chance de serem reforçados porque o critério de reforço estaria ao seu alcance. O princípio aqui é que eles devem ser reforçados por comportamentos que estão dentro de suas capacidades atuais, mas que também os levam a novas habilidades (lembre-se do Tópico 2 da Unidade 1, em que Vygotsky expressou a mesma ideia sobre ensinar na zona proximal de desenvolvimento). 2.2.6 Extinção Por definição, os reforçadores fortalecem o comportamento. O que acontece quando os reforçadores são retirados? Eventualmente, o comportamento será enfraquecido e, por fim, desaparecerá. Esse processo é denominado extinção de um comportamento previamente aprendido (BORICH, 2014). A extinção raramente é um processo tranquilo. Quando os reforçadores são retirados, os indivíduos frequentemente aumentam sua taxa de comporta- mento por um tempo. Por exemplo, pense em uma porta que você usou como um atalho para algum lugar que você vai com frequência. Imagine que um dia a porta TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 121 não abrirá. Você pode empurrar ainda mais forte por um tempo, sacudir a porta, girar a maçaneta para os dois lados, talvez até chutar a porta. Você provavelmen- te se sentirá frustrado e com raiva, porém, depois de um curto período, você per- ceberá que a porta está trancada e irá embora. Se a porta estiver trancada perma- nentemente (sem que você saiba), você pode tentar algumas vezes nos próximos dias e, talvez, uma vez após um mês; apenas eventualmente você desistirá disso. Seu comportamento quando confrontado com a porta trancada ilustra um padrão clássico de extinção. O comportamento se intensifica quando o reforçador é retirado pela primeira vez e, em seguida, enfraquece rapidamente até que o comportamento desapareça. Ainda assim, o comportamento pode retornar depois de muito tempo. Por exemplo, você pode tentar abrir a porta novamente um ano depois para ver se ela ainda está trancada. Se estiver, provavelmente você a deixará lá por mais tempo, mas talvez não para sempre. O jorro de extinção (extinction burst) característico, o aumento dos níveis de um comportamento nos estágios iniciais de extinção, tem consequências importantes para a gestão da sala de aula. Por exemplo, imagine que você decidiu extinguir o grito impróprio de uma criança em busca de respostas (em vez de levantar a mão para ser reconhecida), ignorando-a até que ela levante a mão silenciosamente. No início, ignorar a criança provavelmente aumentará seu comportamento de gritar, um clássico jorro de extinção. Você pode, então, erroneamente concluir que ignorar não está funcionando, quando na verdade continuar a ignorar chamadas inadequadas é exatamente a estratégia certa se você continuar (MARTELLA et al., 2012). Pior, você pode finalmente decidir ceder e reconhecer a criança após a terceira ou quarta chamada. Isso ensinaria a pior mensagem possível: que gritar funciona eventualmente se você continuar fazendo isso. Isso provavelmente resultaria em um aumento no próprio comportamento que você estava tentando reduzir, à medida que a criança aprende que “se a princípio você não conseguir, tente, tente novamente” (SCHEUERMANN; HALL, 2016). É o caso apresentado no início deste tópico. A professora Eller a princípio ignora os gritos de Rebecca, então, ela grita ainda mais alto. A professora chama Rebeca e, sem querer, comunica a ela que apenas gritos altos e persistentes serão reforçados. A extinção de um comportamento previamente aprendido pode ser acelerada quando algum estímulo ou pista informa ao indivíduo que os comportamentos que antes eram encorajados não serão mais reforçados. No caso da porta trancada, uma placa dizendo: “porta permanentemente trancada – use outra entrada” teria reduzido muito o número de vezes que você tentou abrir a porta antes de desistir dela. Os gritos de atenção teriam sido reduzidos muito mais rapidamente se a professora Eller dissesse à classe: “não vou mais responder às crianças, a menos que elas fiquem em silêncio e levantem a mão”, e, então, ignorasse todas as outras tentativas de chamar sua atenção. UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 122 2.2.7 Esquemas de reforçamento Os efeitos do reforço no comportamento dependem de muitos fatores, um dos mais importantes dos quais é o esquema de reforçamento (ALBERTO; TROUTMAN, 2013). Esse termo se refere à frequência com que os reforçadores são dados, a quantidade de tempo que decorre entre as oportunidades de reforço e a previsibilidade do reforço. Um esquema de reforçamento comum é o esquema de Razão Fixa (RF), em que um reforçador é dado após um número fixo de comportamentos. Por exemplo, você pode dizer: “assim que terminar dez problemas, você pode ir lá fora.”. Independentemente do tempo que demore, os alunos são reforçados assim que concluem dez problemas. Esse é um exemplo de esquema RF10 (dez comportamentos para um reforçador). Uma forma comum de esquema de razão fixa fornece reforço para cada comportamento. Isso é chamado de esquema de Reforçamento Contínuo (RFC) ou RF1. Colocar dinheiro em uma máquina de refrigerante é (normalmente)um exemplo de reforçamento contínuo porque um comportamento (inserir dinheiro) resulta em um reforço (um refrigerante). Dar respostas corretas em sala de aula também costuma ser continuamente reforçado. O aluno dá uma boa resposta e você diz: “certo! Boa resposta!” Um processo importante na instrução é aumentar gradualmente a razão de reforçamento. No início de uma sequência de aulas, pode ser necessário reforçar aos alunos todas as respostas corretas, como responder a todos os problemas de matemática bem-sucedidos. No entanto, isso é ineficiente no longo prazo. Assim que os alunos estiverem respondendo aos problemas de matemática corretamente, pode ser possível reforçar a cada cinco problemas (RF5), a cada dez (RF10) e assim por diante. Diluir o esquema de reforçamento desta forma aumenta a capacidade dos alunos de trabalhar de forma independente sem reforço e torna o comportamento mais resistente à extinção. Em última análise, os alunos podem ser solicitados a fazer projetos inteiros por conta própria, sem receber nenhum reforço até que os projetos sejam concluídos. Os esquemas de razão fixa são eficazes para motivar os indivíduos a fazerem uma grande quantidade de trabalho – especialmente se a razão fixa começar com reforçamento contínuo (RF1) para fazer o indivíduo prosseguir e então passar a requisitos mais elevados para o reforçamento. Uma razão pela qual altos requisitos de reforçamento produzem níveis mais elevados de comportamento do que requisitos baixos é que o reforçamento com muita frequência pode fazer o valor do reforço se desgastar. Os alunos que são elogiados por todos os problemas de matemática logo se cansarão de serem elogiados e o reforçador pode perder seu valor. Um esquema de reforçamento de Razão Variável (RV) é aquele em que o número de comportamentos necessários para o reforço é imprevisível, embora seja certo que os comportamentos acabarão por ser reforçados. Por exemplo, uma máquina caça-níqueis é um reforçamento de razão variável. Pode valer a pena TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 123 após uma puxada uma vez e após 200 puxadas na próxima vez, e não há como prever qual puxada vencerá. Na sala de aula, os professores costumam usar um esquema de razão variável quando os alunos levantam a mão para responder a perguntas. Embora nunca saibam quando serão reforçados por serem capazes de dar a resposta correta, os alunos podem esperar ser chamados cerca de uma em 20 vezes em uma classe de 20 alunos (um esquema RV20) porque, em média, 20 comportamentos são necessários para um reforçador. Os esquemas de razão variável tendem a produzir taxas de comportamento altas e estáveis. Na verdade, quase todos os jogos de azar envolvem esquemas de RV, então, podem ser literalmente viciantes. Da mesma forma, o uso de verificações aleatórias frequentes do trabalho do aluno pode ajudar a motivar um trabalho constante e cuidadoso. Os esquemas de razão variável são altamente resistentes à extinção. Mesmo depois que os comportamentos não são mais reforçados, as pessoas podem não desistir de trabalhar por muito tempo. Por terem aprendido que pode exigir muito trabalho para serem recompensados, eles continuam trabalhando na crença errônea de que o próximo esforço pode valer a pena. Em esquemas de reforçamento de Intervalo Fixo (IF), o reforçamento está disponível apenas em determinados horários periódicos. O exame final é um exemplo clássico. Os planejamentos de intervalo fixo criam um padrão interessante de comportamento. O indivíduo pode fazer muito pouco até um pouco antes do reforço estar disponível e, então, despender um jorro de esforço conforme o tempo para o reforço se aproxima. Esse padrão pode ser demonstrado com ratos e pombos em esquemas de intervalo fixo, mas é ainda mais aparente em alunos que estudam no último minuto antes de um teste ou que escrevem seus relatórios mensais de livros na noite anterior à data prevista. Essas características de esquemas de intervalo fixo sugerem que questionários curtos e frequentes podem ser melhores do que exames importantes infrequentes para incentivar os alunos a fazerem o seu melhor o tempo todo, em vez de passar a noite toda antes dos exames (SCHEUERMANN; HALL, 2016). Em um esquema de reforçamento de Intervalo Variável (IV), o reforço está disponível em alguns momentos, mas não em outros, e não temos ideia de quando um comportamento será reforçado. Um exemplo disso é fazer verificações pontuais de alunos que estão fazendo as tarefas em sala de aula. Os alunos são reforçados se estiverem trabalhando bem no momento específico em que você aparece. Como eles não podem prever quando você os verificará, os alunos devem estar fazendo um bom trabalho o tempo todo. As pessoas podem obedecer às leis de trânsito em respeito à lei e à responsabilidade cívica, mas também ajuda que a polícia verifique aleatoriamente o cumprimento da lei por parte dos motoristas. Os policiais que usam câmeras de velocidade geralmente se escondem em viadutos ou atrás de colinas para que possam obter uma amostra aleatória do comportamento dos motoristas. Se estivessem sempre à vista, sua presença seria um sinal para dirigir com cuidado, de modo que a necessidade de dirigir com cuidado em outros momentos seria reduzida. UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 124 Como os esquemas de razão variável, os esquemas de intervalo variável são muito eficazes para manter uma alta taxa de comportamento enquanto são altamente resistentes à extinção. Por exemplo, digamos que você tenha uma política de fazer com que os alunos entreguem suas tarefas todos os dias. Em vez de verificar cada tarefa, você pega três tarefas ao acaso e dá a esses alunos um crédito extra se o trabalho na carteira for bem-feito. Essa programação de intervalo variável provavelmente motivaria os alunos a fazerem seu trabalho com cuidado. Se você secretamente parou de checar no meio do ano, os alunos podem nunca saber disso, percebendo que seu próprio trabalho simplesmente não foi selecionado para ser verificado em vez de perceber que o reforço não estava mais disponível para ninguém. O Quadro 2 define e dá exemplos adicionais de esquemas de reforçamento. Os padrões de resposta específicos durante o reforço e a extinção caracterizam cada um dos quatro tipos de esquemas. QUADRO 2 – ESQUEMAS DE REFORÇAMENTO FONTE: O autor PADRÕES DE RESPOSTA ESQUEMA DEFINIÇÃO DURANTE O REFORÇAMENTO DURANTE A EXTINÇÃO Razão Fixa Número constante de comportamentos necessários para o reforço Taxa de resposta constante; pausa após reforço Queda rápida na taxa de resposta após o número necessário de respostas passar sem reforço Razão Variável Número variável de comportamentos necessários para o reforço Taxa de resposta alta e constante A taxa de resposta permanece alta, depois cai Intervalo Fixo Quantidade constante de tempo passa antes que o reforço esteja disponível Taxa desigual, com rápida aceleração ao final de cada intervalo Queda rápida na taxa de resposta após o intervalo passar sem reforço Intervalo Variável Quantidade variável de tempo passa antes que o reforço esteja disponível Taxa de resposta alta e constante Diminuição lenta na taxa de resposta TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 125 2.2.8 Manutenção O princípio da extinção afirma que, quando o reforço para um comportamento previamente aprendido é retirado, o comportamento desaparece. Isso significa que os professores devem reforçar os comportamentos dos alunos para sempre? Não necessariamente. Para ratos em uma caixa de Skinner, a retirada do reforço para prensagem da barra levará inevitavelmente àextinção da prensagem da barra. No entanto, os humanos vivem em um mundo muito mais complexo, cheio de reforçadores naturais para a maioria das habilidades e comportamentos que aprendemos na escola. Por exemplo, os alunos podem inicialmente exigir reforço frequente para comportamentos que levam à leitura. No entanto, uma vez que conseguem ler, eles têm uma habilidade que abre todo o mundo da linguagem escrita, um mundo que é altamente reforçador para a maioria dos alunos. A partir de certo ponto, o reforço para a leitura pode não ser mais necessário, pois o próprio conteúdo do material de leitura mantém o comportamento. Da mesma forma, alunos malcomportados podem precisar de reforço cuidadoso e sistemático para fazer os trabalhos escolares. Depois de um tempo, porém, eles descobrirão que fazer as tarefas escolares compensa nas notas, na aprovação da família, na capacidade de entender o que está acontecendo na aula e no conhecimento. Esses reforçadores naturais para fazer as tarefas escolares estavam sempre disponíveis, mas os alunos não podiam experimentá-los até que suas tarefas fossem aprimoradas por meios mais sistemáticos. O conceito de resistência à extinção, discutido anteriormente (na parte so- bre esquemas de reforçamento), é central para uma compreensão da manutenção do comportamento aprendido. Como foi observado, quando novos comportamen- tos estão sendo introduzidos, o reforço para respostas corretas deve ser frequente e previsível. No entanto, uma vez que os comportamentos são estabelecidos, o re- forço para respostas corretas deve se tornar menos frequente e menos previsível. A razão para isso é que esquemas variáveis de reforço e esquemas que requerem muitos comportamentos antes que o reforço seja dado são muito mais resistentes à extinção do que esquemas fixos ou fáceis. Por exemplo, se você elogiar um aluno toda vez que ele resolver um problema de matemática, mas depois parar de elo- giar, o aluno pode parar de resolver os problemas de matemática. Em contraste, se você aumentar gradualmente o número de problemas de matemática que um aluno deve fazer para ser elogiado e elogiar o aluno em intervalos aleatórios (uma programação de razão variável), então o aluno provavelmente continuará a fazer problemas de matemática por um longo tempo com pouco ou nenhum reforço. 2.2.9 O papel dos antecedentes Vimos que as consequências do comportamento influenciam fortemente o comportamento. No entanto, não é apenas o que segue um comportamento que tem influência. Os estímulos que precedem um comportamento também desempenham um papel importante (SCHUNK, 2016). UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 126 Estímulos antecedentes, eventos que precedem um comportamento, também são conhecidos como pistas porque nos informam quais comportamentos serão reforçados e quais serão ignorados ou punidos. As pistas vêm em muitas formas e nos dão dicas sobre quando devemos mudar nosso comportamento e quando não devemos. Por exemplo, durante a aula de música, um professor pode pedir aos alunos que cantem mais alto. Em uma atividade na biblioteca, as expectativas são obviamente diferentes. A capacidade de se comportar de uma maneira na presença de um estímulo – "Cante mais alto" – e de uma maneira diferente na presença de outro estímulo – "Você está na biblioteca, fale baixinho" – é conhecida como discriminação de estímulo. Qual é a melhor hora para pedir um aumento ao seu chefe? Quando a empresa está indo bem, o chefe parece feliz e você acaba de fazer algo especialmente bom? Ou quando a empresa acaba de obter um relatório de lucros insatisfatório, o chefe está carrancudo e você acaba de cometer um erro? Obviamente, a primeira situação tem mais probabilidade de levar ao sucesso. Você sabe disso porque aprendeu a distinguir entre os momentos bons e os ruins para pedir ao seu chefe que faça algo por você. Discriminação é o uso de pistas, sinais ou informações para determinar quando é provável que o comportamento seja reforçado. A condição financeira da empresa, o humor do chefe e seu desempenho recente são estímulos discriminativos com relação às chances de que seu pedido de aumento seja bem- sucedido. Por exemplo, se você disser "Responda em uma frase completa", você está estabelecendo um estímulo discriminativo: "frases completas com a resposta certa serão reforçadas, outras respostas não". Para que os alunos aprendam a discriminar, eles devem receber feedback sobre a correção ou incorreção de suas respostas. Estudos de aprendizagem de discriminação geralmente descobriram que os alunos precisam saber quando suas respostas estão incorretas, bem como quando estão corretas (SCHUNK, 2016). Aprender é, em grande parte, uma questão de dominar discriminações cada vez mais complexas. Por exemplo, todas as letras, números, palavras e símbolos matemáticos são estímulos discriminativos. Uma criança aprende a discriminar entre as letras b e d. Um aluno mais velho aprende a distinção entre as palavras eficaz e eficiente. Um acadêmico de psicologia educacional aprende a discriminar reforço negativo de punição. Um professor aprende a discriminar entre pistas faciais e verbais que indicam que os alunos estão entediados ou fascinados por uma aula ou algo entre as duas. Aplicar o conceito de estímulos discriminativos à instrução e gestão em sala de aula é fácil: você deve dizer aos alunos quais comportamentos serão reforçados. Em teoria, você poderia esperar até que eles fizessem algo que valesse a pena e, então, reforçá-lo, mas isso seria incrivelmente ineficiente. Em vez disso, você deve dar aos alunos mensagens que digam, na verdade, "para ser reforçado (por exemplo, com elogios, notas ou estrelas), essas são as coisas que você deve fazer". Dessa forma, você pode evitar que os alunos despendam tempo e esforço em atividades erradas. Quando os alunos sabem que o que estão fazendo valerá a pena, eles geralmente trabalharão com muito esforço. TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 127 Se os alunos aprenderem a permanecer sentados e a fazer um trabalho cuidadoso na aula de matemática, seu comportamento também melhorará na aula de ciências? Se os alunos podem subtrair 3 maçãs de 7 maçãs, eles também podem subtrair 3 laranjas de 7 laranjas? Se os alunos podem interpretar o simbolismo usado por Shakespeare, eles também podem interpretar o simbolismo usado nos contos populares africanos? Todas essas são questões de generalização ou transferência de comportamentos aprendidos sob um conjunto de condições para outras situações (BORICH, 2014). A generalização não pode ser tomada como certa. Por exemplo, quando um programa de gerenciamento de sala de aula é introduzido com sucesso em um ambiente, o comportamento dos alunos não melhora automaticamente em outros ambientes. Em vez disso, os alunos aprendem a discriminar as configurações. Até mesmo as crianças pequenas aprendem prontamente o que é encorajado e o que é proibido no jardim de infância, em sua casa e na casa de vários amigos. Seu comportamento pode ser bastante diferente em cada ambiente, de acordo com as diferentes regras e expectativas. Para que a generalização ocorra, geralmente deve ser planejado. Um programa de gerenciamento de sala de aula bem-sucedido usado em aulas de estudos sociais pode ser transferido para a aula de inglês para garantir a generalização para esse ambiente. Os alunos podem precisar estudar o uso do simbolismo por muitos autores em muitas culturas antes de adquirirem a habilidade de interpretar o simbolismo em geral. Obviamente, é mais provável que a generalização ocorra em ambientes ou conceitos semelhantes. É mais provável que um novo comportamento se generalize da aula de leitura para a aulade estudos sociais do que para o recreio ou ambiente doméstico. No entanto, mesmo nas configurações de aparência mais semelhante, as generalizações podem não ocorrer. Por exemplo, muitos alunos podem demonstrar domínio completo da ortografia ou mecânica da linguagem, mas não conseguem aplicar esse conhecimento as suas próprias composições. Você não deve presumir que, como os alunos podem ter um desempenho eficaz sob um conjunto de circunstâncias, eles também podem fazê-lo sob um conjunto diferente de circunstâncias. Existem muitas técnicas para aumentar as chances de que um comportamento aprendido em um ambiente, como em uma determinada sala de aula, generalize-se para outros ambientes, como em outras salas de aula ou, mais importante, aplicados na vida fora da escola (ALBERTO; TROUTMAN, 2013). Algumas dessas estratégias envolvem o ensino de uma forma que torna a generalização mais fácil. Por exemplo, aulas de aritmética envolvendo dinheiro provavelmente serão transferidas melhor para a vida real se envolverem a manipulação de moedas e notas reais ou simuladas do que se envolverem apenas problemas no papel. Outra estratégia de ensino conhecida por contribuir para a generalização é o uso de muitos exemplos de diferentes contextos. Por exemplo, os alunos são mais propensos a generalizar o conceito de oferta e demanda para novas áreas se aprenderem exemplos relacionados a preços de mantimentos, preços de recursos naturais, valores de itens colecionáveis (como cartões de beisebol) UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 128 e salários para habilidades comuns e raras do que se eles aprendessem apenas sobre preços de alimentos. Uma estratégia óbvia para aumentar a generalização é o “treinamento no trabalho”: ensinar uma determinada habilidade no ambiente real em que será usada ou em uma simulação de tal ambiente. Após a instrução inicial, há muitas maneiras de aumentar a generalização. Uma é repetir a instrução em uma variedade de ambientes. Por exemplo, depois de ensinar os alunos a usar uma determinada estratégia de fazer o teste em matemática, como "pule os problemas difíceis e volte para eles depois de responder os mais fáceis", você pode dar aos alunos a oportunidade de usar essa mesma estratégia em um teste de ciências, um teste de gramática e um teste de geografia. Outra técnica pós-ensino é ajudar os alunos a fazer a ligação entre uma nova habilidade e reforçadores naturais no ambiente, de modo a manter essa habilidade. Por exemplo, quando as crianças estão aprendendo a ler, elas podem receber uma tarefa regular de dever de casa para ler livros ou revistas de grande interesse para elas, mesmo que esses materiais não sejam "boa literatura". Inicialmente, as novas habilidades de leitura podem ser mais bem mantidas pelos quadrinhos do que pelos clássicos da literatura, porque para algumas crianças os quadrinhos vinculam sua nova habilidade mais imediatamente ao prazer de ler, tornando mais provável a generalização para ambientes não escolares. Finalmente, você pode aumentar a generalização reforçando diretamente a generalização – por exemplo, elogiando um aluno que conecta uma nova ideia a um contexto diferente ou usa uma habilidade em uma nova aplicação. 3 COMO A TEORIA DA APRENDIZAGEM SOCIAL CONTRIBUIU PARA A NOSSA COMPREENSÃO DA APRENDIZAGEM HUMANA? A teoria da aprendizagem social é uma consequência importante da tradição da teoria da aprendizagem comportamental. Desenvolvida por Albert Bandura (1997, 2006), a teoria da aprendizagem social aceita a maioria dos princípios das teorias comportamentais, mas se concentra em um grau muito maior nos efeitos das pistas sobre o comportamento e nos processos mentais internos, enfatizando os efeitos do pensamento sobre a ação e os efeitos da ação sobre o pensamento. 3.1 BANDURA: MODELAGEM E APRENDIZAGEM OBSERVACIONAL Bandura (1986) observou que a ênfase skinneriana nos efeitos das consequências do comportamento ignorou amplamente os fenômenos de modelagem – a imitação do comportamento dos outros – e da experiência vicária – aprender com os sucessos ou fracassos dos outros. Ele sentiu que muito da TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 129 aprendizagem humana não é moldada por suas consequências, mas é aprendida com mais eficiência diretamente de um modelo. O professor de Educação Física demonstra polichinelos e os alunos imitam. Bandura (1997) chamou isso de aprendizagem sem treino porque os alunos não precisam passar por um processo de modelagem, mas podem reproduzir a resposta correta imediatamente. A análise de Bandura (1997) da aprendizagem observacional envolve quatro fases: atenção, retenção, reprodução e motivacional. 1. Fase de atenção – A primeira fase da aprendizagem observacional é prestar atenção a um modelo. Em geral, os alunos prestam atenção aos modelos que são atraentes, bem-sucedidos, interessantes e populares. É por isso que tantos alunos copiam as roupas, o penteado e os maneirismos das estrelas da cultura pop. Na sala de aula, você chama a atenção dos alunos ao apresentar pistas claras e interessantes, ao usar novidades ou surpresas e motivar os alunos. 2. Fase de retenção – Depois que os professores têm a atenção dos alunos, é hora de modelar o comportamento que eles querem que os alunos imitem e, em seguida, dar aos alunos a chance de praticar ou ensaiar. Por exemplo, você pode mostrar como escrever a letra A. Em seguida, os alunos imitariam o seu modelo tentando escrever vários As para si próprios. 3. Fase da reprodução – Durante a fase de reprodução, os alunos tentam combinar seu comportamento com o do modelo. Na sala de aula, a avaliação da aprendizagem do aluno ocorre durante esta fase. Por exemplo, depois de ver a letra A modelada e praticá-la várias vezes, o aluno consegue reproduzir a letra de forma que se pareça com o seu modelo? 4. Fase motivacional – A fase final do processo de aprendizagem observacional é a motivação. Os alunos imitarão um modelo porque acreditam que isso aumentará suas chances de serem reforçados. Na sala de aula, a fase motivacional da aprendizagem observacional frequentemente envolve elogios ou notas dadas por corresponder ao seu modelo. Os alunos prestam atenção no modelo, praticando e reproduzindo-o porque aprenderam que é disso que você gosta e querem agradá-lo. Quando a criança faz um A reconhecível, você diz: "bom trabalho!" Embora a maior parte da aprendizagem observacional seja motivada por uma expectativa de que imitar corretamente o modelo levará ao reforço, também é importante notar que as pessoas aprendem ao ver os outros serem reforçados ou punidos por se envolverem em certos comportamentos, ou seja, por aprendizagem vicária (SCHUNK, 2016). É por isso que os anunciantes sempre incluem vencedores felizes em seus anúncios para induzir as pessoas a entrar em concursos promocionais. Podemos saber conscientemente que nossas chances de vencer são de uma em vários milhões, mas ver os outros tão bem reforçados nos faz querer imitar seu comportamento de entrar em competições. Os professores de sala de aula usam o princípio da aprendizagem vicária o tempo todo. Quando um aluno está brincando, os professores geralmente destacam outros que estão trabalhando bem e os reforçam por fazer um bom UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 130 trabalho. O aluno que se comporta mal vê que o trabalho é reforçado e (espera- se) volta a trabalhar. Essa técnica foi sistematicamente examinada em um estudo clássico de Broden et al. (1970). Dois turbulentos alunos da segunda série, Edwin e Greg, sentaram-se um ao lado do outro. Depois de um período de linha de base, o professor começou anotar e elogiar Edwin sempre que ele estava prestando atenção e fazendo suas aulas. O comportamento de Edwin melhorou significativamente sob essa condição. De maior interesse, no entanto, é que o comportamento de Greg também melhorou, embora nenhum reforço específico para o comportamento apropriado tenha sido direcionado a ele. Aparentemente, Greg aprendeu com a experiência de Edwin. No caso da professora Eller e da aluna Rebeca na abertura deste tópico, outros alunos viram Rebeca chamar a atenção da professora gritando respostas, então eles modelaram seu comportamento no de Rebeca. Um dos experimentos clássicos da teoria da aprendizagem social é um estudo feito por Bandura (1965), no qual crianças assistiam a um de três filmes. Em todos os três, um adulto modelou um comportamento agressivo. Em um filme, a modelo foi severamente punida. Em outro, a modelo foi elogiada e recebeu guloseimas. Em um terceiro, a modelo não teve consequências. Após assistir a um dos filmes, as crianças foram observadas brincando com brinquedos. As crianças que viram a modelo ser punida se envolveram em, significativamente, menos atos agressivos em suas próprias brincadeiras do que as crianças que viram a modelo ser recompensada ou assistiram ao filme sem consequências. Aprendizagem por observação Você já tentou ensinar alguém a amarrar os sapatos? Imagine explicar essa tarefa a alguém sem o uso de um modelo ou imitação! Aprender a amarrar os sapatos é um exemplo de como funciona a aprendizagem por observação. Adquirir novas habilidades observando o comportamento de outras pessoas é uma parte comum da vida cotidiana. Em muitas situações, as crianças observam os outros falando e agindo e testemunham as consequências dessas atividades. Essas observações fornecem modelos que ensinam às crianças estratégias para usar em outros momentos e lugares. Embora o foco principal da pesquisa sobre aprendizagem observacional tenha sido em comportamentos específicos, estudos mostraram que as atitudes também podem ser adquiridas por meio da observação (SCHUNK, 2016). Tanto professores como pais estão preocupados com os modelos emulados pelas crianças. O valor desses modelos vai além das habilidades específicas que possuem e inclui as atitudes que representam. Na sala de aula, você deve ter a certeza de exemplificar um padrão de comportamento consistente com as expectativas que você tem para os alunos. Por exemplo, se a atenção e a ser bem-educado são características que você deseja estimular nos alunos, certifique-se de ser atento e educado. NOTA TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 131 Outro conceito importante na teoria da aprendizagem social é a autorregulação. Bandura (1997) levantou a hipótese de que as pessoas observam seu próprio comportamento, julgam-no de acordo com seus próprios padrões e se reforçam ou se punem. Todos nós tivemos a experiência de saber que fizemos um bom trabalho e de nos dar tapinhas nas costas mentalmente, independentemente do que os outros tenham dito. Da mesma forma, todos nós sabemos quando fizemos menos do que o nosso melhor. Para fazer esses julgamentos, precisamos ter expectativas para nosso próprio desempenho. Um aluno pode ficar encantado em acertar 90% em um teste, enquanto outro pode ficar bastante desapontado. Os alunos podem ser ensinados a usar estratégias de autorregulação e podem ser lembrados a fazê-lo em uma variedade de contextos para que a autorregulação se torne um hábito. Por exemplo, pode-se pedir aos alunos que estabeleçam metas para a quantidade de tempo que esperam estudar todas as noites e registrem se cumprem suas metas. Crianças que estão estudando fatos da multiplicação podem ser solicitados a cronometrar a rapidez e a precisão com que podem completar um teste de fatos de 50 itens e, em seguida, tentar bater seu próprio recorde. Os alunos podem ser solicitados a avaliar suas próprias redações em termos de conteúdo, mecânica e organização, e para ver se eles podem corresponder as suas avaliações. Gureasko-Moore, DuPaul e White (2006) pediram a quatro meninos de 12 anos que frequentemente se atrasavam e esqueciam materiais e deveres de casa para manter um registro diário desses comportamentos. Eles se encontravam diariamente, definiam em conjunto metas para o grupo e, aos poucos, todos começaram a chegar às aulas na hora certa e preparados. Cada uma dessas estratégias coloca os alunos no controle de seus próprios objetivos de aprendizagem, e cada uma provavelmente construirá uma estratégia geral de definição e cumprimento de metas e padrões pessoais. Como acontece com qualquer habilidade, as habilidades de aprendizagem autorregulada provavelmente permanecerão limitadas a uma situação ou contexto, a menos que sejam aplicadas em muitos contextos. Por exemplo, crianças que aprendem a estabelecer metas de estudo para si mesmas quando trabalham sozinhas podem não transferir essas habilidades para situações em que estão trabalhando em grupos ou na sua presença como docente, embora possam aprender prontamente a fazer essas generalizações se elas são ensinadas ou lembradas de fazê-lo. Da mesma forma, as crianças não podem transferir estratégias de aprendizagem autorreguladas do português para a matemática, ou mesmo dos cálculos para a resolução de problemas (SCHUNK, 2016). Por esse motivo, os alunos precisam de muitas oportunidades para usar estratégias de definição de metas e de autoavaliação em uma variedade de contextos; monitorar e comemorar seu progresso; e entender como, quando e por que eles devem se autorregular. UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 132 3.2 MODELO DE APRENDIZAGEM AUTORREGULADA DE MEICHENBAUM Os alunos podem ser ensinados a monitorar e regular seu próprio comportamento. Estratégias de aprendizagem autorreguladas desse tipo são frequentemente chamadas de modificação cognitiva do comportamento (SCHUNK, 2016). Por exemplo, Meichenbaum (1977) desenvolveu uma estratégia na qual os alunos são treinados para dizer a si mesmos: “qual é o meu problema? Qual é o meu plano? Estou usando meu plano? Como eu me saí?” Essa estratégia tem sido usada para reduzir o comportamento perturbador dos alunos em muitos níveis de ensino (JONES; JONES, 2016). Manning (1988) ensinou autoafirmações para alunos do terceiro ano para ajudá-los a lembrar o comportamento apropriado e reforçá-lo para si mesmos. Por exemplo, para levantar as mãos de maneira apropriada, os alunos foram ensinados a dizer a si mesmos enquanto levantavam as mãos: “se eu gritar a resposta, os outros ficarão perturbados. Vou levantar minha mão e esperar minha vez. Bom para mim. Veja, eu posso esperar!” (MANNING, 1988, p. 197). Estratégias semelhantes foram aplicadas com sucesso para ajudar os alunos a monitorar suas próprias realizações. Por exemplo, leitores fracos foram ensinados a fazer perguntas a si mesmos enquanto leem e a resumir parágrafos para ter certeza de que compreenderam o texto (BORNSTEIN, 1985). As etapas envolvidas na autoaprendizagem são descritas por Meichenbaum (1977, p. 32) da seguinte forma: 1. Um modelo adulto executa uma tarefa enquanto fala consigo mesmo em voz alta (modelagem cognitiva). 2. A criança realiza a mesma tarefa sob a direção das instruções do modelo (orientação aberta e externa). 3. A criança realiza a tarefa enquanto se autoinstrui em voz alta (auto- orientação aberta). 4. A criança sussurra as instruções para si mesma à medida que realiza a tarefa (auto-orientação aberta). 5. A criança executa a tarefa enquanto orienta seu desempenho por meio de fala privada (autoinstrução encoberta). O incentivo à aprendizagem autorregulada é um meio de ensinar os alunos a pensar sobre seu próprio pensamento. As estratégias de aprendizagemautorregulada não apenas melhoram o desempenho nas tarefas ensinadas aos alunos, mas também generalizam para outras tarefas (SCHUNK, 2016). Um exemplo de uma forma de ajudar as crianças a se engajarem na aprendizagem autorregulada é fornecer aos alunos, quando são designados a uma tarefa longa ou complexa, um formulário para monitorar seu progresso. A ideia por trás desse formulário é que dividir uma tarefa complexa em partes menores incentiva os alunos a sentir que estão fazendo progresso em direção a seu objetivo maior. Marcar cada passo permite que eles se deem um tapinha mental nas costas que reforça seus esforços. Depois de ver muitas listas de verificação desse tipo, os alunos podem ser solicitados a fazer as suas próprias para aprender TÓPICO 1 — TEORIAS COMPORTAMENTAIS E SOCIAIS DE APRENDIZAGEM 133 como mapear seu progresso em direção a uma meta. Por exemplo, Reid e Lienemann (2006) ensinaram um grupo de alunos com transtornos de déficit de atenção a listar todas as tarefas necessárias para completar uma tarefa escrita e, em seguida, marcar essas tarefas à medida que as concluíam. Isso aumentou a duração e a qualidade de sua escrita. Seguindo linhas semelhantes, Trammel, Schloss e Alper (1994) descobriram que o fato de crianças com dificuldades de aprendizagem manterem registros e fazerem gráficos de sua conclusão de dever de casa aumentava significativamente a quantidade de lição de casa que elas faziam. Uma revisão feita por Robinson, Robinson e Katayama (1999) descobriu que as estratégias de modificação cognitiva do comportamento podem ter um impacto substancial, especialmente na redução de comportamentos hiperativos, impulsivos e agressivos. Vários estudos revisados descobriram que esses efeitos são duradouros. 4 PONTOS FORTES E LIMITAÇÕES DAS TEORIAS DE APRENDIZAGEM COMPORTAMENTAL Os princípios básicos das teorias de aprendizagem comportamental estão tão firmemente estabelecidos quanto qualquer outro na psicologia e foram demonstrados em muitas condições diferentes. Esses princípios são úteis para explicar muito do comportamento humano; eles são ainda mais úteis para mudar o comportamento na sala de aula. Autossuficiência No século XXI, o sucesso em empregos bem remunerados depende cada vez mais da capacidade de trabalhar independentemente ou com outras pessoas por longos períodos sem um superior monitorando de perto o trabalho. Mais do que nunca, os alunos precisam aprender como dividir as tarefas em pedaços pequenos e monitorar (e reforçar) suas próprias realizações. Os alunos que aprendem a se motivar têm uma habilidade que os ajudará a ter sucesso em qualquer desafio que a escola ou a vida traga. Por esse motivo, as avaliações tendem a enfatizar tarefas maiores (em vez de questões de múltipla escolha curtas) para garantir que os alunos possam organizar um conteúdo complexo. Os alunos que se sentem confiantes em sua capacidade de usar comportamentos metacognitivos e automotivadores tendem a ter alta autoeficácia – a crença de que os próprios esforços (ao invés da sorte ou de outras pessoas ou outros fatores externos ou incontroláveis) determinam o sucesso ou fracasso de alguém. As crenças de autoeficácia são talvez o fator mais importante (depois da habilidade) na determinação do sucesso dos alunos na escola (BANDURA, 2006). NOTA UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 134 É importante reconhecer, entretanto, que as teorias de aprendizagem comportamental são limitadas em escopo. Com exceção dos teóricos da aprendizagem social, os teóricos da aprendizagem comportamental focam quase que exclusivamente no comportamento observável. Esse é um dos motivos pelos quais tantos dos exemplos apresentados neste tópico envolvem o gerenciamento do comportamento. Processos de aprendizagem menos visíveis, como formação de conceitos, aprendizagem de texto, resolução de problemas e pensamento, são difíceis de observar diretamente e, portanto, têm sido estudados com menos frequência pelos teóricos da aprendizagem comportamental. Esses processos se enquadram mais no domínio da aprendizagem cognitiva. A teoria da aprendizagem social, que é uma consequência direta das teorias de aprendizagem comportamentais, ajuda a preencher a lacuna entre as perspectivas comportamentais e cognitivas. As teorias comportamentais e cognitivas de aprendizagem são frequentemente apresentadas como modelos opostos concorrentes. De fato, existem áreas específicas nas quais essas teorias assumem posições contraditórias. No entanto, é mais preciso vê-las como complementares do que concorrentes, ou seja, como lidando com problemas diferentes (SCHUNK, 2016). Usando princípios da teoria de aprendizagem comportamental e social para melhorar o ensino e a aprendizagem Os professores intencionais estão cientes dos princípios de aprendizagem comportamental e social e os usam de forma flexível para ajudar os alunos a se tornarem aprendizes produtivos e capazes. • Comunicam claramente aos seus alunos quais comportamentos são esperados e quais devem ser evitados. • Reforçam aos alunos a se envolverem em comportamentos que levam ao sucesso do aprendizado. • Moldam comportamentos dividindo tarefas complexas em tarefas menores e reforçam o progresso em direção ao objetivo complexo. • Evitam punição sempre que possível, nunca usam punição física e evitam usar modificação de comportamento para controlar excessivamente os alunos. • Reforçam o progresso dos alunos com frequência nos estágios iniciais de aprendizagem de uma nova habilidade e com menos frequência e menos previsíveis conforme novas habilidades são estabelecidas. • Usam muitos exemplos e simulações da vida real para ajudar os alunos a generalizar de uma situação para outra e da escola para a aplicação prática. • Ensinam os alunos a monitorar e reforçar seus próprios comportamentos, com a intenção de se tornarem alunos automotivados e autorregulados. • Envolvem os alunos na definição de seus próprios padrões e na elaboração de como organizar seu trabalho e dividir tarefas complexas para atender a esses padrões. DICAS 135 Neste tópico, você aprendeu que: • A aprendizagem envolve a aquisição de habilidades que não são inatas. A aprendizagem depende da experiência, incluindo feedback do ambiente. • As primeiras pesquisas sobre aprendizagem estudaram os efeitos dos estímulos nos comportamentos reflexivos. Ivan Pavlov contribuiu com a ideia do condicionamento clássico, no qual estímulos neutros podem adquirir a capacidade de evocar respostas comportamentais por meio de sua associação com estímulos não condicionados que desencadeiam reflexos. Skinner continuou o estudo da relação entre comportamento e consequências. Ele descreveu o condicionamento operante, no qual reforçadores e punidores moldam o comportamento. • Os reforçadores aumentam a frequência de um comportamento e os punidores diminuem sua frequência. O reforço pode ser primário ou secundário, positivo ou negativo. Os reforçadores intrínsecos são recompensas inerentes ao próprio comportamento. Os reforçadores extrínsecos são elogios ou recompensas concedidas por outras pessoas. A punição envolve o enfraquecimento do comportamento pela introdução de consequências aversivas ou pela remoção de reforços. O Princípio Premack afirma que uma maneira de aumentar as atividades menos apreciadas é vinculá-las a atividades mais apreciadas. • Moldar por meio de feedback oportuno em cada etapa de uma tarefa é uma prática de ensino eficaz com base na teoria de aprendizagem comportamental. Extinção é o enfraquecimento e o desaparecimento gradual do comportamento à medida que o reforço é retirado. • Os esquemas de reforçamento são usados para aumentar a probabilidade, frequênciaou persistência do comportamento desejado. Os esquemas de reforçamento podem ser baseados em razões ou intervalos e podem ser fixos ou variáveis. • Os estímulos precedentes servem como pistas que indicam quais comportamentos serão reforçados ou punidos. A discriminação envolve o uso de pistas para detectar diferenças entre as situações de estímulo, enquanto a generalização envolve responder às semelhanças entre os estímulos. A generalização envolve a transferência de comportamentos aprendidos sob um conjunto de condições para outras situações. RESUMO DO TÓPICO 1 136 • A teoria da aprendizagem social é baseada no reconhecimento da importância da aprendizagem observacional e da aprendizagem autorregulada. Bandura (1997) observou que aprender por meio da modelagem – direta ou indiretamente – envolve quatro fases: prestar atenção, reter o comportamento modelado, reproduzir o comportamento e ser motivado a repetir o comportamento. Bandura (1997) propôs que os alunos fossem ensinados a ter expectativas em relação ao próprio desempenho e a se reforçar. Meichenbaum (1977) propôs etapas para a aprendizagem autorregulada que representam uma forma de modificação cognitiva do comportamento. • As teorias de aprendizagem comportamental são centrais para a aplicação da psicologia educacional na gestão de sala de aula, disciplina, motivação, modelos instrucionais e outras áreas. As teorias de aprendizagem comportamental são limitadas em escopo, entretanto, na medida em que descrevem apenas o comportamento observável que pode ser medido diretamente. 137 1 Alguns comportamentos humanos são claramente estimulados por estímulos específicos. Assim como os cães de Pavlov, salivamos quando estamos com fome e vemos comida apetitosa. No entanto, Skinner propôs que o comportamento reflexivo é responsável por apenas uma pequena proporção de todas as ações. Com base na outra classe que Skinner propôs, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Comportamentos condicionados. b) ( ) Comportamentos operantes. c) ( ) Comportamentos aleatórios. d) ( ) Comportamentos reforçados. 2 Os reforçadores secundários são reforçadores que adquirem seu valor por estarem associados a reforçadores primários ou outros reforçadores secundários bem estabelecidos. Existem três categorias básicas de reforçadores secundários. Sobre um reforçador secundário, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Reforçadores sociais, como elogios, sorrisos, abraços ou atenção. b) ( ) Reforçadores que satisfazem as necessidades humanas básicas, como comida, água, segurança, calor e sexo. c) ( ) Reforçadores de atividade, como acesso a brinquedos, jogos ou atividades divertidas. d) ( ) Reforçadores simbólicos, como dinheiro, notas, estrelas ou pontos que os indivíduos podem trocar por outros reforçadores. 3 Um importante princípio de comportamento é que podemos promover comportamentos tornando o acesso a algo desejável dependente de fazer algo menos desejável. Por exemplo, um professor pode dizer: “assim que terminar sua tarefa, você pode ir lá fora” ou “finalize seu projeto de arte e então eu lerei uma história para você”. Com relação aos exemplos, assinale a alternativa CORRETA quanto ao tipo de princípio: a) ( ) Princípio de Pavlov. b) ( ) Princípio do reforço positivo. c) ( ) Princípio da consequência alternada. d) ( ) Princípio de Premack. 4 Quando estamos estudando sobre as teorias de aprendizagem comportamental nos deparamos com vários conceitos novos. Um desses conceitos é de reforçadores. Em nosso livro didático, vimos que entre os tipos de reforçadores há aqueles que são intrínsecos e aqueles que são extrínsecos. Disserte sobre estes dois tipos de reforçadores. AUTOATIVIDADE 138 5 As consequências que enfraquecem o comportamento são chamadas de punidores. Como acontece com os reforçadores, a eficácia de um punidor não pode ser presumida, mas deve ser demonstrada. A punição pode assumir duas formas principais. Descreva as duas formas principais de punição. 139 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, você lembra do relato da professora Eller do Tópico 1? Então, agora vamos introduzir este segundo tópico com um novo caso que também exemplifica os conceitos das teorias que estudaremos aqui, as teorias cognitivas de aprendizagem. Convidamos você a ler este relato hipotético que aconteceu com a professora Verônica Bispo. Vamos lá? A turma de Biologia da professora Verônica Bispo está estudando uma unidade sobre aprendizagem humana. No início de uma aula, a professora faz um experimento com seus alunos. Por três segundos, usando um quadro branco eletrônico, ela mostra um diagrama de um modelo de processamento de informações idêntico ao da ilustração da Figura 2. Em seguida, ela pede aos alunos que lembrem o que perceberam. Alguns mencionam que viram caixas e setas. Alguns viram as palavras memória e conhecimento e inferem que a figura tem algo a ver com aprendizagem. Um aluno até vê a palavra pensar, embora não esteja na figura. “Então”, diz a professora Bispo: “vocês perceberam muito mais do que isso! É que vocês podem não ter percebido o que perceberam. Por exemplo, que cheiro vocês sentiram?” A classe inteira ri. Todos eles se lembram de sentir o cheiro dos brócolis cozinhando no refeitório. Os alunos pegam a ideia e começam a se lembrar de todos os outros detalhes que perceberam que não tinham nada a ver com o diagrama: os sons de um caminhão passando, detalhes da sala de aula e das pessoas nela, e assim por diante. Após essa discussão, a professora disse: “o cérebro não é incrível? Em apenas três segundos vocês receberam uma enorme quantidade de informações. Vocês nem sabiam que estavam percebendo o cheiro dos brócolis até que eu lembrei você sobre isso, mas estava em sua mente da mesma forma. Além disso, em apenas três segundos sua mente já estava começando a entender as informações na figura.”. Charlene pensou ter visto a palavra pensar, que não estava lá, mas sua mente saltou para essa palavra porque ela viu palavras como memória que se relacionam com o pensamento. “Agora imagine que vocês pudessem manter em sua mente, para sempre, tudo o que ocorreu nos três segundos que vocês olharam para o diagrama: as setas, as caixas, as palavras, o caminhão, os brócolis, tudo. Na verdade, imagine que vocês pudessem manter tudo o que já passou pela sua mente. Como seria isso?" "Você seria um gênio!" exclama Samuel. "Você ficaria louco!" contrapõe Jamile. “Acho que a Jamile está mais perto da verdade”, diz a professora Verônica. “Se sua mente se enchesse de todo aqueles dados inúteis, vocês estariam em apuros! Uma das coisas mais importantes que vamos aprender sobre a aprendizagem é que é um processo ativo de foco em informações importantes, filtrando informações sem importância e usando o que já está em nossas mentes para decidir qual é qual.”. A TÓPICO 2 — TEORIAS COGNITIVAS DE APRENDIZAGEM 140 UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM professora liga o quadro branco eletrônico novamente. “Quando estudarmos este diagrama com mais detalhes, vocês usarão o que já sabem sobre aprendizagem, memória, esquecimento e diagramas para entendê-lo. Espero que vocês sempre se lembrem das ideias principais que ele está tentando mostrar. Vocês logo esquecerão as caixas e flechas e até mesmo o cheiro dos brócolis desaparecerá da sua memória, mas as partes deste diagrama que fazem sentido para vocês, e que respondem às perguntas que lhe interessam, podem ficar na sua memória por toda a vida!". FIGURA 2 – MODELO DE PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM E MEMÓRIA FONTE: Adaptada de Atkinson e Shiffrin (1968) Aprendizagem cooperativa Anote duas ou trêsmaneiras pelas quais você tenta memorizar listas e estudar novos conceitos. Compartilhe com outros alunos uma estratégia que você usa para aprender melhor as informações. Agora responda, qual é a sua imagem de aprendizagem, memória e esquecimento? Depois de esboçar sua própria imagem, reúna-se com quatro ou cinco colegas de classe para compor uma ilustração resumida ou diagrama da memória e cognição humana com base em suas ideias individuais. Após 10 minutos, compartilhe com a classe. DICAS Caro acadêmico, a mente humana é uma criadora de significado. Desde o primeiro microssegundo que você vê, ouve, prova ou sente algo, você inicia um processo de decidir o que é, como se relaciona com o que você já sabe e se é importante manter em sua mente ou deve ser descartado. Todo esse processo pode ocorrer de forma consciente, inconsciente ou ambos. Este tópico descreve TÓPICO 2 — TEORIAS COGNITIVAS DE APRENDIZAGEM 141 como as informações são recebidas e processadas na mente, como funcionam a memória e o esquecimento e como você pode ajudar seus alunos a compreender e lembrar informações, habilidades e ideias críticas. Este tópico também apresenta teorias cognitivas de aprendizagem, teorias que se relacionam a processos que ocorrem na mente dos alunos e maneiras de ajudar os alunos a usar suas mentes de forma mais eficaz para aprender, lembrar e usar conhecimentos e habilidades. 2 O QUE É UM MODELO DE PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÕES? A informação entra constantemente em nossas mentes por meio de nossos sentidos. Muitas dessas informações são descartadas quase que imediatamente e podemos nem mesmo estar cientes de muitas delas. Algumas ficam guardadas em nossas memórias por um curto período e depois são esquecidas. Por exemplo, podemos lembrar o número do assento em um ingresso de teatro até encontrarmos nossos assentos, momento em que esqueceremos deste número. No entanto, algumas informações são retidas por muito mais tempo, talvez para o resto de nossas vidas. Qual é o processo pelo qual as informações são absorvidas e como os professores podem tirar proveito desse processo para ajudar os alunos a reter informações e habilidades críticas? Essas questões foram abordadas por teóricos da aprendizagem cognitiva e levaram à teoria do processamento de informações, uma teoria dominante da aprendizagem e da memória desde meados da década de 1970. A pesquisa sobre a memória humana (ORMROD, 2016) ajudou os teóricos da aprendizagem a descrever o processo pelo qual as informações são lembradas (ou esquecidas). Por muitos anos, o modelo dominante do processo de aprendizagem foi o modelo Atkinson-Shiffrin de processamento de informações (ATKINSON; SHIFFRIN, 1968). O modelo ilustrado na Figura 2 é uma atualização desse modelo. O modelo resumido na Figura 2 tem três componentes principais: o registro sensorial, a memória de trabalho (às vezes, chamada de memória de curto prazo) e a memória de longo prazo. Os estímulos dos cinco sentidos entram no registro sensorial, cuja maioria é imediatamente esquecida. Aqueles que são importantes para nós por qualquer motivo são passados para a memória de trabalho, em que avaliamos os novos estímulos à luz do que já está em nossas memórias de longo prazo. A memória de trabalho é onde ocorre o “pensamento”. É a parte mais ativa do sistema de memória, em que tentamos dar sentido a novos estímulos e vinculá-los ao que já sabemos. Então, se as novas informações são consideradas úteis, nós as armazenamos em nossas memórias de longo prazo, possivelmente para sempre. 142 UNIDADE 2 — PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 2.1 PROCESSAMENTO EXECUTIVO Toda a progressão do processamento de informações não é uma esteira transportadora automática na qual os estímulos são transformados em conhecimento. Pelo contrário. Em cada etapa, o processo de aprendizagem é controlado pelo aluno. Esse controle pode ser muito consciente, como quando uma pessoa prova uma nova receita de molho de espaguete; concentra-se no sabor, cheiro e textura (nos registros de estímulos); e traz essas sensações para a memória de trabalho, com informações da memória de longo prazo sobre outros molhos de espaguete ou outras informações sobre especiarias, quantidade de sal ou ingredientes que ajudem a avaliar esse molho. Alternativamente, o processo executivo pode ser menos consciente, como quando uma pessoa ouve que seu amigo está com sarampo. Imediatamente, a pessoa que ouve a notícia, provavelmente, decidirá pensar a respeito, trazendo o novo estímulo (a notícia) para a memória de trabalho, com o conhecimento na memória de longo prazo sobre o sarampo e as emoções sobre o amigo e sobre o sarampo. Tudo isso leva a memórias de longo prazo sobre esse amigo em particular e este caso particular de sarampo, que se baseiam no corpo de conhecimento que existia antes sobre o sarampo (e esse amigo) em geral. Seja consciente ou inconsciente, voluntário ou não, o processo executivo é crucial (SCHUNK, 2016). É o que determina o que uma pessoa está interessada em colocar na memória de longo prazo e, então, determina o quanto a pessoa vai pensar sobre os estímulos e as informações na memória de longo prazo para formar memórias novas e duradouras. Quando uma pessoa estuda para seu teste de direção, o processo executivo é óbvio; ela usa as melhores estratégias de estudo que conhece para decorar o material. Quando uma pessoa acidentalmente tropeça e cai, todos os aspectos da experiência ainda são processados sob o controle da pessoa que está caindo. No momento em que atinge o solo, ela considerou maneiras de minimizar a dor, está se lembrando de aspectos-chave de quedas anteriores e está pensando nas explicações ou na culpa por essa queda. Pouco desse processo executivo é automático, embora aconteça muito rápido, sem muito tempo para deliberação! Os alunos abordam cada oportunidade de aprendizagem com um conjunto de motivações e orientações que determinam a energia mental que estão dispostos a dedicar à aprendizagem. Claramente, incentivos externos ou punidores podem aumentar a motivação para usar a energia mental para aprender como obter reforços e evitar punições (MAZUR, 2013). Os interesses intrínsecos desempenham um papel; um aluno está disposto a dedicar energia mental para aprender a cozinhar, enquanto outro está mais interessado em esportes. A facilidade de aprendizagem prevista é importante. Uma pessoa com um autoconceito positivo sobre o aprendizado de línguas estrangeiras colocará mais energia mental nesse aprendizado do que alguém que se orgulha de aprender matemática, mas não idiomas. Dê a essas duas pessoas matemática para aprender e o oposto acontecerá. Alguém que tem muito conhecimento prévio sobre um assunto presta mais atenção a informações adicionais, porque é provável que as novas informações sejam fáceis de aprender. TÓPICO 2 — TEORIAS COGNITIVAS DE APRENDIZAGEM 143 Os processos executivos são quase como comandos que uma pessoa dá ao seu cérebro: “cérebro, preste muita atenção aos estímulos desse tipo que chegam; observe cuidadosamente na memória de longo prazo as informações e habilidades relevantes já existentes; coloque os novos estímulos, conhecimentos e habilidades juntos para criar conhecimentos novos; e arquive esse conhecimento em um local onde possa acessá-lo facilmente sempre que precisar. Faça agora mesmo e ignore quase todo o resto até terminar!”. Não que alguém realmente tenha essas conversas com seu próprio cérebro, mas o processo executivo decide conscientemente o que vale a energia mental e então executa um plano para aprender algo que a pessoa considera útil. Os subtópicos a seguir descrevem os principais elementos e operações do processamento de informações. 2.2 REGISTRO SENSORIAL