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INTRODUÇÃO 60 a 85% → idiopática Possíveis causas: - Obstrutiva: cistite idiopática obstrutiva, plugs uretrais, urólitos, urólitos + infecções bacterianas. - Não obstrutiva: cistite idiopática não obstrutiva, urólitos, anormalidades anatômicas/neoplasias, alterações comportamentais, infecção bacteriana. Fatores predisponentes: Qualquer idade; Obstrutiva → machos; Sobrepeso; Sedentariedade; Gatos sem acesso à rua; Alimentados com ração seca; Viver em colônias → caixa de areia sempre suja ou ocupada; Castração → ociosidade → obesidade. ANATOMIA A bexiga urinária está localizada na cavidade pélvica quando vazia e, quando repleta, desvia-se cranialmente para a cavidade abdominal. A uretra nas fêmeas é curta e larga, com trajeto mais linear. Já nos machos, é fina, comprida e com trajeto mais tortuoso. Quanto mais próximo ao pênis, mais estreito é o diâmetro. FISIOPATOGENIA Etiologia multifatorial, complexa e indeterminada. → Inflamação neurogênica Camada de glicosaminoglicanos (GAG) → responsável por inibir a adesão bacteriana e proteger o uroepitélio da urina. Se houver comprometimento da camada GAG ou do uroepitélio, os constituintes nocivos da urina entram em contato com neurônios sensoriais da submucosa → inflamação neurogênica vesical. Os neurônios que inervam a bexiga são de fibras amielinizadas (fibras C) que, quando ativadas, levam a liberação de neuropeptídios acarretando → dor intrapélvica, vasodilatação intramural, aumento da permeabilidade vascular, e da parede vesical, edema de submucosa, contração da musculatura lisa e degranulação de mastócitos. Os mastócitos liberam mediadores inflamatórios → histamina, heparina, serotonina, prostaglandinas (petéquias na região subepitelial da bexiga). Essas terminações nervosas também podem ser ativadas em resposta ao estresse. → Infecções virais Calicivírus felino (CVF), vírus formador do sincício (VFS) e gama- herpes-vírus (GHV) foram isolados da urina e tecidos de gatos com DTUIF, sugerindo o envolvimento. Em estudo, ao infectar gatos sadios com CVF, 80% desenvolveram obstrução uretral → 4 dias depois não havia CVF, mas havia VFS. Hipótese → CVF não era agente primário, mas incita vírus latentes no TU a induzir obstrução uretral. Ainda há escassez de estudos que provem o real papel desses agentes na DTUIF. → Obstrução uretral Causas mais comuns → plugs e cristais (estruvita). Porém urólitos, estenose, massas extraluminais, neoplasias, inflamação da mucosa, espasmos musculares também são possíveis causas. Mais comum em machos → extremidade do pênis, caudalmente à glândula bulbouretral e entre a bexiga e a próstata. Obstrução prolongada: azotemia pós- renal, alterações hídricas, eletrolíticas e acidobásicas graves: acidose metabólica, hiperpotassemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia. A acidose metabólica decorre da inabilidade em excretar H+ pelo sistema urinário. Quando intensa (pH < 7,2), provoca efeitos deletérios no sistema cardiovascular (ex. arritmias) e nervoso (depressão e coma) → aumento da FR compensatória. A hiperpotassemia (↑K) é a alteração eletrolítica mais comum. Resulta da diminuição da excreção renal e da translocação de K do espaço intra para o extracelular em resposta à acidose. Observa-se fraqueza muscular generalizada e alterações hemodinâmicas. A hiperfosfatemia (↑ P) decorre da redução da depuração renal de fósforo. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Sem obstrução: Hematúria; Disúria/estrangúria; Polaciúria; Periúria – micção em locais inadequados (principal queixa dos proprietários); Com obstrução: Disúria/estrangúria ou incapacidade de urinar; Plugs → mucoproteínas, muco e debris inflamatórios. A matriz pode ser formada por debris celulares, sangue, células tubulares renais. Vocalização; Lambedura excessiva da região perineal; Pênis congesto estendendo-se do prepúcio; Uremia → letargia, anorexia, êmese, diarreia, desidratação, hipotermia, acidose, hiperventilação, bradicardia, distúrbios eletrolíticos. Exame físico → bexiga extremamente repleta à palpação, aumento da FR, pulso periférico fraco, bradi ou traquicardia, hipo ou hipertermia. DIAGNÓSTICO Baseia-se na anamnese – incluindo tempo de evolução da doença, epidemiologia e manifestações clínicas –, exame físico e exames complementares (exame de urina com avaliação do sedimento, cultura e antibiograma da urina e exame de imagem). No caso de obstrução, é importante glicemia, hemogasometria e eletrólitos. → Exame de urina NENHUM ACHADO É PATOGNOMÔNICO Hematúria e proteinúria – ausência de hematúria não exclui DTUIF. Poucos leucócitos; Cristalúria variável (se for observada na ausência de plugs ou urólitos, não haverá significado patológico); → Ultrassonografia Não oferece informações relevantes, exceto o espessamento da parede vesical, que é frequente. Importante para diagnóstico diferencial de pólipos vesicais, cálculos e neoplasias. TRATAMENTO AMBIENTE ENRIQUECIDO E ALIMENTAÇÃO PRÓXIMA DO NATURAL. Paciente não obstruído Redução do estresse: Evitar punição do gato; Enriquecer o ambiente com estruturas para escalar, arranhar e se esconder; Estimular o hábito da caça usando lasers ou escondendo comida; Aumentar interação proprietário- animal; Manter caixa de areia limpa e sem cheiro, em local calmo; Ter uma caixa de areia a mais da quantidade de gatos; Feromônio facial felino (Feliway®). → Alteração alimentar e aumento da ingestão hídrica O FATOR MAIS IMPORTANTE É O AUMENTO DA INGESTÃO HÍDRICA Isso pode ser obtido colocando-se mais recipientes espalhados pelo ambiente, potes de superfície ampla, uso de fontes ou trocar a água várias vezes ao dia, aumentar concentração de sal na dieta, oferecer dietas úmidas. Dieta: Consistência: refere-se à concentração de água no alimento. A alimentação natural é uma alternativa viável e eficaz, pois tem maior quantidade de água que a ração seca. Os sachês comerciais são altamente úmidos, porém apresentam altos níveis de proteína e gordura. Constância: refere-se a minimizar as alterações na dieta do gato. É importante que a escolha seja feita pelo próprio animal, oferecendo diferentes alimentos para que este escolha e se adapte à nova dieta. Composição: refere-se ao conteúdo nutricional. Deve-se aumentar a concentração de carboidratos e diminuir a concentração de proteínas da dieta. O aumento de NaCl pode ser realizado para se obter urina mais diluída – acredita-se que desde que tenha acesso ilimitado a água, os gatos são capazes de tolerar dietas com altos níveis de sódio (exceto pacientes com IRC, hipertensão). → Terapia medicamentosa SE PERMANECEREM OS SINTOMAS MESMO APÓS MEDIDAS ACIMA. Amitriptilina: não há resultado eficaz. É um antidepressivo tricíclico – inibe a receptação da serotonina, tem propriedades anti-inflamatórias, analgésicas, anti-α-adrenérgicas e antidepressivas. Suplementação com glicosaminoglicanos: não há comprovação científica. Teoricamente, se administradas por via oral, são excretadas na urina, atingem o uroepitélio e repõem a camada comprometida. Analgésicos e anti-inflamatórios: dipirona 25mg/kg a cada 24h, meloxicam 0,1mg/kg a cada 24h – no máximo 3 dias. Antibioticoterapia: fármacos que cheguem ativos na urina. Aminopenicilinas, cefalosporinas, penicilinas naturais + aminoglicosídeo (pentabiótico), quinolonas. Paciente obstruído Todos os anteriores, mais: → Fluidoterapia A fluidoterapia IV é a mais indicada. Porém, a SC pode ser realizada em felinos com obstrução recente. A solução de NaCl 0,9% era escolhida no passado devido a ausência depotássio; no entanto, ela pode contribuir para acidose metabólica. Atualmente, recomenda-se a solução de ringer com lactato. Concomitante com os métodos de desobstrução para não haver ruptura. → Restabelecimento do fluxo urinário Massagem peniana → pode auxiliar a eliminação de plugs ou pequenos cálculos. Compressão suave da bexiga. Hidropropulsão vesical → injeção de NaCl 0,9% estéril por meio de uma sonda uretral (TomCat) – pode utilizar lubrificantes, requer sedação, assepsia adequada. A cada sondagem, traumatiza-se o lúmen da uretra causando inflamação e estenose. Cistocentese → realizado em último caso. Deve ser feito tricotomia, assepsia, o animal deve estar sedado. TODA a urina precisa ser retirada, pois poderá vazar urina para a cavidade e desenvolver peritonite. No caso da colocação de “sondas de espera”, não se deve usar a TomCat, podendo-se usar a sonda humana. O animal fica sondado pelo tempo necessário até apresentar urina límpida e estar estável. O animal deve permanecer de fralda e colar elisabetano durante todo o tratamento. → Antibioticoterapia e analgésicos Semelhante ao paciente não obstruído. Karla Soares