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GESTÃO DA SAÚDE PÚBLICA E PRIVADA Programa de Pós-Graduação EAD UNIASSELVI-PÓS Autoria: Leticia Ferreira Menezes CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Coordenador da Pós-Graduação EAD: Prof. Ivan Tesck Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Prof.ª Bárbara Pricila Franz Profª. Kelly Luana Molinari Prof.ª Kelly Luana Molinari Corrêa Prof. Ivan Tesck Revisão Gramatical: Iara de Oliveira Revisão Pedagógica: Ivan Tesck Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Copyright © UNIASSELVI 2017 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. 614 M541g Menezes, Letícia Ferreira Gestão da saúde pública e privada / Letícia Ferreira Menezes. Indaial : UNIASSELVI, 2017. 89 p. : il. ISBN 978-85-69910-40-4 1. Saúde Pública. I. Centro Universitário Leonardo da Vinci Leticia Ferreira Menezes Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), mestrado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Tratamento de Álcool e Drogas pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). É doutoranda em Saúde Pública na Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, trabalha na rede SUS, em um CAPS AD, e, também, como tutora de um curso EAD que visa capacitar profissionais da rede pública no atendimento a usuários de drogas. Sumário APRESENTAÇÃO ......................................................................7 CAPÍTULO 1 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) .................9 CAPÍTULO 2 Saúde Privada: Organização ................................................41 CAPÍTULO 3 Saúde Privada: Serviços .......................................................63 APRESENTAÇÃO Estudar os sistemas de saúde no Brasil é desafiar-se a penetrar em um campo ainda desconhecido, com uma grande quantidade de siglas, leis e portarias. Uma tarefa que pode assustar alguns, mas cuja recompensa ultrapassa os objetivos pedagógicos. Conhecer o funcionamento do SUS e do Sistema Privado de Saúde ajuda a fortalecer a conquista de direitos, como cidadão e como profissional dessa área. A proposta do SUS não é simples nem fácil: fornecer atendimento de saúde de qualidade para um país com aproximadamente 200 milhões de habitantes, com todas as especificidades de cada região. O processo histórico de implantação desse sistema foi permeado por lutas políticas e embates entre grupos que defendiam interesses distintos. Compreender essa construção é uma importante ferramenta para pensar e agir sobre o SUS de hoje, com todas as suas conquistas, falhas e potencialidades. O Sistema de Saúde Privado, incluindo a Saúde Suplementar e a Complementar, configura-se em outro formato, com outras prioridades e formas de atuação. Atuando por meio dos planos de saúde, o desafio aqui é fornecer um serviço que cubra as necessidades dos beneficiários e que seja economicamente viável, tanto para o cliente quanto para a operadora. Além de tudo, é preciso estar de acordo com as regulações da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Porém, apesar de serem instâncias distintas, os dois Sistemas - Público e Privado - dependem profundamente um do outro. Para garantir que o acesso seja de qualidade, as Operadoras de Saúde precisam que o SUS esteja possibilitando atendimento gratuito a uma grande parcela da população. E para que o SUS possa garantir o funcionamento da rede pública, ele depende que os convênios possibilitem os serviços oferecidos nos planos de saúde. Ser um profissional da saúde implica uma série de responsabilidades e definitivamente não é um trabalho simples. Por esse motivo o estudo e aprimoramento é necessário. Estar implicado com a saúde da população ultrapassa os limites de uma atividade laboral e atravessa questionamentos éticos, direitos humanos, desigualdades sociais e exige do profissional um grande investimento. Pensando nessa necessária capacitação, este caderno de estudos tem como objetivo formar os pós-graduandos nos estudos sobre a Gestão da Saúde Pública e da Saúde Privada. Utilizando referências consagradas na área, o material percorre o caminho histórico, dos antigos sistemas de saúde até a promulgação do SUS, passando pela criação da ANS até chegar nas atuais tendências do mercado da saúde suplementar. Para isso, o material foi dividido em três capítulos: • Capítulo 1 – Fundamentos do SUS: neste capítulo começamos a construir a base do estudo sobre a Gestão da Saúde. É um capítulo denso, pois será apresentado um breve histórico sobre a construção do SUS, seguido do estudo das leis que sustentam o seu funcionamento. Também serão apresentadas as bases da Gestão e Organização do SUS, as responsabilidades de cada esfera administrativa e os fluxos de financiamento. Por fim, o capítulo um discorre sobre a Política Nacional de Humanização do SUS. • Capítulo 2 – Saúde Privada, Organização: nele serão relembrados os modelos de saúde privada que existiam mesmo antes do SUS, afim de que você, acadêmico(a), tenha mais elementos para pensar a atual configuração desse sistema. Neste capítulo será apresentada a Gestão e Organização do Sistema de Saúde Suplementar, incluindo aí sua legislação e agências de fiscalização. Ao final do capítulo, entraremos em um interessante debate sobre a ética e bioética da saúde. • Capítulo 3 – Saúde Privada, Serviços: no último capítulo do caderno de estudos, o conteúdo irá focar a organização da Saúde Privada, enfatizando a diferença entre os serviços oferecidos, as especificidades de cada categoria de produto – operadora, plano de saúde, convênios - e a relação entre eles. Será abordado o papel decisório e regulatório da ANS e a sua importância nesse mercado. Por fim, serão abordadas as Tendências e Financiamentos do mercado de Saúde Suplementar, traçando um histórico das empresas de saúde até o momento atual e quais são os desafios encontrados na atualidade. Não será uma tarefa fácil, porém será gratificante e de grande valia para seus estudos. Espera-se que possa reconhecer elementos de suas práticas no material e que também possa aplicar os conhecimentos aqui adquiridos em suas esferas de atuação profissional. Desejo para todos bons estudos! Atenciosamente, A autora. CAPÍTULO 1 FUNDAMENTOS DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS) A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Apresentar o processo histórico de construção do Sistema Único de Saúde, os princípios, as diretrizes e a organização dos serviços. � Descrever a gestão, as responsabilidades e a legislação que define o funcionamento do SUS. � Explicar a política de controle e participação social e conhecer as políticas de humanização. � Comparar o Sistema Único de Saúde com políticas de saúde anteriores. � Identificar as principais leis e portarias referentes ao funcionamento do SUS. � Reconhecer as principais diretrizes e o funcionamento do SUS. 10 Gestão da Saúde Pública e Privada 11 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 Contextualização Olá, pós-graduando(a)! Este é o primeiro capítulo da disciplina de Gestão da saúde pública e privada. Esse módulo foi estruturado e escrito para que você tenha uma noção clara da forma como o sistema de saúde é estruturado no país, incluindo a saúde pública e a privada, e esse capítulo vai apresentar, também, o SUS. Conhecer o funcionamento do SUS, sua legislação, organização e gestão, princípios e diretrizes, é um processo que ultrapassa as propostas pedagógicas. Compreender e refletir sobre o sistema de saúde do seu país é uma ferramenta que pode ser útil em seu espaço de trabalho e garantir que seus direitoscomo cidadãos sejam garantidos. Este capítulo, intitulado Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS), vai introduzir e apresentar, para você, o modelo de organização de saúde pública no país, desde sua construção até a atualidade. Ele tem como objetivo oferecer um panorama do modelo de organização da saúde pública no país, fornecendo, assim, as bases sob as quais foram criados futuros desdobramentos, como a organização da saúde privada, que você verá no capítulo 2. O capítulo está dividido em quatro seções, no sentido de organizar o fluxo de informações. Na primeira seção, história e legislação, será feito um resgate histórico de como foi construído o Sistema Único de Saúde, quais eram os modelos vigentes anteriormente e quais os atores envolvidos nesse processo. Também serão apresentadas as principais leis que sustentam o SUS e que são a base para a construção do sistema. Após a apresentação da legislação existente, a segunda seção vai apresentar os princípios e diretrizes do SUS, que são os direcionamentos éticos, políticos e estratégicos desse modelo de saúde. Esse capítulo é muito importante, pois é sobre esses direcionamentos que serão fundamentadas a gestão e a organização do SUS. A terceira seção vai versar sobre as esferas de gestão, responsabilidades de cada ente federado, financiamento e divisão dos serviços e unidades de saúde. Por fim, na quarta seção, serão discutidos o controle social e as políticas de humanização, explorando de que forma se dá a participação da população no planejamento de atividades do sistema e apresentando uma prática relativamente atual do SUS, de forma a utilizar todo o conhecimento acumulado no capítulo. Você verá que esse capítulo contém bastantes leis, siglas, datas e outras informações que podem assustar alguns. Não se preocupe! Não é preciso decorar nenhum desses itens! Conforme você for avançando na leitura, perceberá que os processos estão intimamente ligados, e que, se você compreender o contexto de Conhecer o funcionamento do SUS, sua legislação, organização e gestão, princípios e diretrizes, é um processo que ultrapassa as propostas pedagógicas. 12 Gestão da Saúde Pública e Privada construção do SUS, atentar para os princípios e diretrizes expostos nas primeiras leis, será fácil entender o quadro geral. Durante o texto, serão destacados os assuntos de maior importância e indicadas as referências complementares para aqueles que desejam aprofundar-se na temática. Está pronto? Então, vamos lá! História do SUS e Legislação Neste tópico se fará uma breve introdução sobre como o Sistema Único de Saúde (SUS) foi efetivamente implantado no Brasil, qual era o cenário existente na época e quais os principais atores envolvidos nesse processo. Resgatar a história é um exercício importante para compreender a atual conjuntura e, principalmente, para buscar propostas e ações mais efetivas e resolutivas. Pretende-se que, ao ter contato com esse panorama, você possa compreender melhor as articulações entre os processos econômicos, políticos e a organização do atual sistema de saúde no país. Vamos lá? A efetivação do SUS é bem recente. A Lei n. 8.080, conhecida como Lei Orgânica da Saúde, foi aprovada apenas em 1990. É importante apontar que essa lei só foi efetivada após intensa pressão popular por parte da sociedade civil. O movimento pela reforma sanitária defendia um modelo de saúde que visava não apenas à solução dos problemas de ordem biológica, mas sim ao direito à saúde, entendendo a saúde como uma questão social, política e dever do Estado. Essas características vão se mostrar presentes nos princípios e formulações do SUS. Resgatar a história é um exercício importante para compreender a atual conjuntura e, principalmente, para buscar propostas e ações mais efetivas e resolutivas. A reforma sanitária foi um movimento que tinha como objetivo modificar as condições de saúde da população brasileira, com pautas a favor da democracia, gratuidade dos serviços de saúde e outros. Voltemos um pouco à história, então. O período compreendido entre o Colonialismo Português (1500 – 1822) e Império (1822 – 1889) foi marcado por pouco investimento na área da saúde por parte do Poder Público e pela falta de um sistema de saúde estruturado. As ações sanitárias eram bem pontuais e o acesso dependia do local social ocupado pelo indivíduo. Veja: 13 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 Dado que inexistia um sistema de saúde formalmente estruturado, as ações eram de caráter focal, sendo que grande parte da população se utilizava da medicina de "folk", enquanto que os senhores do café tinham acesso aos profissionais legais da medicina, que eram trazidos de Portugal (BERTOLOZZI; GRECO, 1996, p. 382). As ações coletivas eram feitas no formato de campanhas focais e ocorriam principalmente nas áreas de maior circulação de pessoas. Nessa época, começam a surgir as primeiras instituições de controle sanitário dos portos e das epidemias. O período da República Velha ou Primeira República (1889 – 1930) trouxe grandes mudanças, começando pela abolição da escravatura (1888), que intensificou o fluxo de imigrantes para o país, tornando as condições sanitárias e de saúde mais precárias e complexas. A partir desse quadro, a interferência estatal sobre a saúde da população aumentou, mas ainda seguia o modelo campanhista, com objetivos pontuais e sem a participação e envolvimento da população. A cidade do Rio de Janeiro foi palco de um dos grandes marcos sanitários da época, o evento que ficou conhecido como Revolta da Vacina, quando foi imposta uma vacinação obrigatória por conta da varíola, sancionada pelo conhecido Oswaldo Cruz. Em 1930, inicia a era Vargas com o rompimento da hegemonia presidencial pelos estados de Minas Gerais e São Paulo. Essa época é marcada por um crescimento industrial e uma maior preocupação com o estado de saúde dos trabalhadores. Importante citar, também, a construção da Previdência Social no Brasil, que vai estruturar os primeiros sistemas de saúde. Em 1923, foram instituídas as Caixas de Aposentadoria e Pensões (CAPS), sendo substituídas, em 1933, pelos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAP). É com a organização dessas entidades que é criado o SAMDU, Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência, em 1949: É a partir principalmente da segunda metade da década de 50, com o maior desenvolvimento industrial, com a consequente aceleração da urbanização, e o assalariamento de parcelas crescente da população, que ocorre maior pressão pela assistência médica via institutos, e viabiliza-se o crescimento de um complexo médico hospitalar para prestar atendimento aos previdenciários (POLIGNANO, 2001, p. 11). Prosseguindo na cronologia, no ano de 1953 é criado o Ministério da Saúde, ainda com uma estrutura frágil e que não se propunha a atender a todas as pessoas: O sistema de saúde era formado por um Ministério da Saúde subfinanciado e pelo sistema de assistência médica 14 Gestão da Saúde Pública e Privada da previdência social, cuja provisão de serviços se dava por meio de institutos de aposentadoria e pensões divididos por categoria ocupacional [...] cada um com diferentes serviços e níveis de cobertura. As pessoas com empregos esporádicos tinham uma oferta inadequada de serviços, composta por serviços públicos, filantrópicos ou serviços de saúde privados pagos do próprio bolso (PAIM et al., 2011, p. 17). Durante o mandato do presidente Juscelino Kubitschek (1956 – 1961), houve uma grande abertura ao capital estrangeiro e à iniciativa privada, aumentando a prestação privada de serviços de saúde e surgimento de empresas específicas desse ramo. Quanto à Previdência Social, em 1960 havia sido iniciado um processo de unificação das IAP, juntando todas as categorias profissionais sob um mesmo regime de Previdência. Em 1967, é oficialmente criado o INPS(Instituto Nacional de Previdência Social). Com essa unificação, o número de contribuintes e, consequentemente, de beneficiários aumentou de forma considerável, exigindo maior sofisticação dos aparelhos estatais. Em 1978, é criado, então, o INAMPS (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social). Neste período, já entramos na Ditadura Militar (1964 – 1985). Apesar de ter sido um período de intenso crescimento do setor privado, também é nessa época que começam as primeiras articulações as quais resultarão na criação do SUS. Devido ao regime de censura política implantado na época, o movimento sanitário começa a surgir dentro das universidades, espaço onde era possível contestar minimamente as imposições do governo. Esse movimento vai questionar, também, o modelo curativo da saúde, ou seja, equipamentos e profissionais de saúde que só intervém no caso de doença, ignorando propostas de prevenção e promoção: O movimento sanitário, que remonta aos primeiros anos da Ditadura Militar, difundia um novo paradigma científico com a introdução das disciplinas sociais na análise do processo saúde- doença. Através delas, o método histórico-estrutural passou a ser utilizado no campo da saúde, buscando compreender processos como a "determinação social da doença" e a "organização social da prática médica” (BERTOLOZZI; GRECO, 1996, p. 390). O fim da ditadura militar instaura um marco político, no qual as propostas dos direitos sociais voltam a ser discutidas. Em 1986, ocorreu a VIII Conferência Nacional de Saúde, que inovou ao envolver na discussão trabalhadores, pesquisadores, membros civis e outros. Em 1987, é criado o SUDS (Sistema Unificado e Descentralizado da Saúde), dando sinais de um novo modelo de Devido ao regime de censura política implantado na época, o movimento sanitário começa a surgir dentro das universidades, espaço onde era possível contestar minimamente as imposições do governo. 15 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 saúde, como transferência dos serviços de saúde para os estados e municípios e um gestor único em cada esfera de governo. A Constituição Federal de 1988 (CF), conhecida como Constituição Democrática, dita os rumos da saúde pública a partir do artigo 196: A saúde é direito de todos e dever do estado, garantindo mediante políticas sociais e econômicas que visem a redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL, 1988). Dois pontos são dignos de destaque. Primeiramente, o acesso à saúde é estendido a todos os cidadãos, independentemente de serem contribuintes da Previdência Social. A partir dessa constituição não é preciso estar empregado para ter acesso aos serviços. O outro ponto é o rompimento com um modelo exclusivamente curativo e hospitalocêntrico, sendo garantidas, também, as práticas de promoção, proteção e recuperação. Antes da criação do SUS, a assistência à saúde no Brasil tinha uma estreita conexão com as atividades previdenciárias, e o sistema de caráter contributivo gerava uma divisão da população brasileira em dois grandes grupos: previdenciários e não previdenciários. A realidade social era a exclusão da maior parte dos cidadãos do direito à saúde (NEVES, 2012, p. 14). Os valores de cidadania e de democracia, a inclusão da comunidade na participação e outros princípios incluídos no SUS são um reflexo do momento histórico, de um país que acabava de sair de um modelo regimental de ditadura, no qual os governantes não eram escolhidos por participação popular e a opinião da sociedade civil não era considerada. Porém, apesar dessa intensa mobilização social, a lei orgânica do SUS só foi aprovada em 1990, e, ainda assim, sofrendo importantes vetos, os quais só seriam recuperados na Lei n. 8.142/1990. Você percebe como o movimento de implantação de um regime nacional e unificado de saúde só foi conquistado após muitos anos? Ao longo da história, o sistema de saúde no Brasil sempre acompanhou os movimentos políticos e econômicos, sofrendo reveses e vitórias. A implantação do SUS se dá em um momento de grande agitação política, no qual diversos atores e setores sociais se mobilizam para garantir um sistema que obrigasse o Estado a cumprir seu dever de fornecer serviços de saúde para toda a população, independente da sua posição social. Os valores de cidadania e de democracia, a inclusão da comunidade na participação e outros princípios incluídos no SUS são um reflexo do momento histórico, de um país que acabava de sair de um modelo regimental de ditadura, no qual os governantes não eram escolhidos por participação popular e a opinião da sociedade civil não era considerada. 16 Gestão da Saúde Pública e Privada Para aquele que deseja conhecer mais a fundo o histórico da saúde pública no Brasil e o processo de construção do SUS, indico o seguinte livro: ROSEN, G. Uma história da saúde pública. São Paulo: Hucitec, 1994. Após esse longo processo, era preciso firmar uma legislação que assegurasse a implantação do sistema de saúde no país. São três os principais documentos que constituem o alicerce legal para a existência do SUS, além de direcionar seus princípios e diretrizes: a Constituição Federal de 1988, a Lei n. 8.080/1990 (também conhecida como Lei Orgânica da Saúde) e a Lei n. 8.142/1990. Na sequência, estudaremos com mais detalhe cada uma delas. A Constituição Federal de 1988, também conhecida como Constituição Cidadã, assegurou diversos direitos fundamentais. O texto que diz respeito à saúde pública se encontra no Título VII – Da Ordem Social, que traz a base da seguridade social no Brasil, composta pelos direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. Abaixo reproduzimos, na íntegra, alguns pontos importantes: Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. [...] Art. 198. As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes: I - descentralização, com direção única em cada esfera de governo; II - atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais; III - participação da comunidade. [...] Art. 199. A assistência à saúde é livre à iniciativa privada (BRASIL, 1988). A Constituição Federal de 1988, também conhecida como Constituição Cidadã, assegurou diversos direitos fundamentais. 17 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 O texto da Constituição Federal de 1988 foi a primeira ação legal no sentido de firmar as bases de construção do SUS. Podemos verificar a incorporação de um conceito mais abrangente de saúde do que o utilizado até agora, enfatizando as ações de prevenção, promoção e recuperação, além de um compromisso Estatal com o provimento de serviços de saúde gratuitos para toda a população. Porém, apesar do avanço conquistado, importantes questões não foram contempladas, como o financiamento do sistema, a política de medicamentos e outros. As leis, aprovadas na sequência, definiram, de forma mais detalhada, o funcionamento e a gestão do sistema. A Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990, foi sancionada dois anos após a Constituição Cidadã. A aprovação se deu durante o governo do presidente Fernando Collor de Melo, que chegou a vetar importantes pontos da lei, parcialmente recuperados na Lei n. 8.142/1990. Ela também é conhecida como Lei Orgânica do SUS, pois regula, em todo território nacional, as ações e os serviços de saúde. Para direcionar os estudos, serão expostos, aqui, os principais trechos,destacando os pontos que forem importantes para a compreensão do capítulo, porém é recomendado que você procure a lei e faça uma leitura do seu conteúdo completo. Vamos lá? O texto da Constituição Federal de 1988 foi a primeira ação legal no sentido de firmar as bases de construção do SUS. Podemos verificar a incorporação de um conceito mais abrangente de saúde do que o utilizado até agora, enfatizando as ações de prevenção, promoção e recuperação, além de um compromisso Estatal com o provimento de serviços de saúde gratuitos para toda a população. No site do Conselho Nacional de Saúde você encontra essa e outras leis importantes para o estudo do SUS. Veja: Disponível em: <http://www.conselho.saude.gov.br/legislacao/> Na Lei n. 8.080/1990, o Título I – Das Disposição Gerais vem reafirmar a posição já apontada na Constituição Federal de 1988, ou seja, a saúde é um direito e cabe ao Estado prover os serviços necessários para a população. Também vai reforçar os fatores que determinam e condicionam a saúde, baseando-se numa política pública comprometida com a atenção integral à saúde, com a qualidade de vida e com ações executadas a partir de uma perspectiva intersetorial (NEVES, 2012). Art. 2º. A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. § 1º. O dever do Estado de garantir a saúde consiste na 18 Gestão da Saúde Pública e Privada formulação e execução de políticas econômicas e sociais que visem à redução de riscos de doenças e de outros agravos e no estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção, proteção e recuperação. [...] Art. 3º. Os níveis de saúde expressam a organização social e econômica do País, tendo a saúde como determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, a atividade física, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais (BRASIL, 1990a). O Título II – Do Sistema Único de Saúde, Capítulo I versará sobre os objetivos do SUS, além de delimitar o conjunto de ações e serviços que são da sua competência: Art. 5º. São objetivos do Sistema Único de Saúde (SUS): I - a identificação e divulgação dos fatores condicionantes e determinantes da saúde; II - a formulação de política de saúde destinada a promover, nos campos econômicos e sociais, a observância do disposto no § 1º do art. 2º desta lei; III - a assistência às pessoas por intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, com a realização integrada das ações assistenciais e das atividades preventivas. Art. 6º. Estão incluídas ainda no campo de atuação do Sistema Único de Saúde (SUS): I - a execução de ações: a) de vigilância sanitária; b) de vigilância epidemiológica; c) de saúde do trabalhador; e d) de assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica; II - a participação na formulação da política e na execução de ações de saneamento básico; III - a ordenação da formação de recursos humanos na área de saúde; IV - a vigilância nutricional e a orientação alimentar; V - a colaboração na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho; VI - a formulação da política de medicamentos, equipamentos, imunobiológicos e outros insumos de interesse para a saúde e a participação na sua produção; VII - o controle e a fiscalização de serviços, produtos e substâncias de interesse para a saúde; VIII - a fiscalização e a inspeção de alimentos, água e bebidas para consumo humano; IX - a participação no controle e na fiscalização da produção, transporte, guarda e utilização de substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos; X - o incremento, em sua área de atuação, do desenvolvimento científico e tecnológico; XI - a formulação e execução da política de sangue e seus derivados (BRASIL, 1990a). 19 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 Você sabia que todas essas atribuições são responsabilidade do SUS? Além de cuidar de todo o sistema de saúde no país, ele também deve realizar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, controle e fiscalização de procedimentos e substâncias de interesse da saúde, fiscalizar e inspecionar alimentos e outros. O Capítulo II – Dos Princípios e Diretrizes tratará sobre aqueles que são os princípios norteadores do SUS, os eixos políticos e organizadores que direcionarão o funcionamento do sistema. Dada a relevância dos princípios e diretrizes, eles serão abordados de forma mais detalhada na próxima seção. O Capítulo III – Da organização, da Direção e da Gestão, e o Capítulo IV – Da Competência e das Atribuições se referirá à organização administrativa e decisória do SUS: Art. 8º. As ações e serviços de saúde, executados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), seja diretamente ou mediante participação complementar da iniciativa privada, serão organizados de forma regionalizada e hierarquizada em níveis de complexidade crescente. Art. 9º. A direção do Sistema Único de Saúde (SUS) é única, de acordo com o inciso I do art. 198 da Constituição Federal, sendo exercida em cada esfera de governo pelos seguintes órgãos: I - no âmbito da União, pelo Ministério da Saúde; II - no âmbito dos Estados e do Distrito Federal, pela respectiva Secretaria de Saúde ou órgão equivalente; e III - no âmbito dos Municípios, pela respectiva Secretaria de Saúde ou órgão equivalente (BRASIL, 1990a). O que significa afirmar que as ações e serviços serão organizados de forma regionalizada e hierarquizada? Os dois conceitos estão intimamente ligados. O princípio da regionalização visa garantir um maior acesso à saúde da população, fazendo com que os processos decisórios sejam feitos em um contexto mais próximo da população. Já a hierarquização se refere à organização dos serviços de saúde em nível de complexidade, de forma a garantir que os serviços básicos de saúde estejam localizados de forma próxima da comunidade. E o que quer dizer “a direção do SUS é única”? A direção única em cada esfera de governo significa que o Sistema Único de Saúde – embora conceitualmente uno, 20 Gestão da Saúde Pública e Privada porque informado pelos mesmos princípios e diretrizes na União, nos estados, no Distrito Federal e nos Municípios – deve ser operado, em cada uma dessas esferas de governo, segundo os interesses e peculiaridades de cada uma das entidades estatais, e nos termos da respectiva autonomia política e administrativa e da competência que a cada uma é atribuída pela Constituição da República, Lei Orgânica da Saúde e legislação suplementar federal, estadual, distrital ou municipal, conforme o caso (CARVALHO; SANTOS, 2006, p. 87). Os conceitos de descentralização, regionalização e hierarquização serão apresentados de forma mais detalhada na seção que tratará da Organização e Gestão do SUS. O Título III – Dos Serviços Privados de Assistência à Saúde abordará o funcionamento dos serviços privados de assistência em saúde: Art. 20. Os serviços privados de assistência à saúde caracterizam-se pela atuação, por iniciativa própria, de profissionais liberais, legalmente habilitados, e de pessoas jurídicas de direito privado na promoção, proteção e recuperação da saúde. Art. 21. A assistência à saúde é livre à iniciativa privada. Art. 22. Na prestação de serviços privados de assistência à saúde, serão observados os princípios éticos e as normas expedidas pelo órgão de direção do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto às condições para seu funcionamento (BRASIL, 1990a). A assistência à saúde é livre à iniciativa privada, ou seja, é permitido que instituições particulares ofereçam serviços, porém, nessa prestação de serviço, devem ser cumpridos os princípios éticos e as normas acordadas pelo SUS. Em casos nos quais os equipamentos públicos forem insuficientes,poderão ser feitos consórcios com os serviços privados. O Título V – Do Financiamento tratará do repasse de recursos e da manutenção financeira do sistema. Para contemplar a proposta de descentralização, é pressuposto um repasse financeiro dos recursos da União para os Estados e Municípios. Para definir o valor repassado, serão considerados o perfil demográfico da região, perfil epidemiológico da população, características da rede de saúde da área, níveis de participação do setor saúde nos orçamentos estaduais e municipais, entre outros critérios. Neste título, também é citada a questão do planejamento e do orçamento. O planejamento ocorrerá de forma ascendente, do Município até a União, e será a base das atividades e previsão orçamentária. 21 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 Como já foi mencionado, a Lei n. 8.080/1990 sofreu importantes vetos presidenciais na data do seu lançamento, afetando, principalmente, as deliberações de financiamento e de participação popular. Apesar disso, ela avança no sentido de decidir algumas das principais diretrizes e formas de funcionamento do SUS. Em seguida, veremos a Lei n. 8.142/1990, o último dos documentos aqui abordados, historicamente importante para a implantação efetiva do SUS. A Lei n. 8.142, de 28 de dezembro de 1990, foi aprovada alguns meses após a Lei n. 8.080/1990. Ela é mais sucinta e vai dispor principalmente de duas frentes: a participação popular na formulação, gestão e fiscalização do SUS e as transferências intergovernamentais de recursos financeiros. Mais uma vez, exporemos aqui os trechos importantes para nosso estudo, mas não deixe de fazer uma leitura cuidadosa da lei completa. A Lei n. 8.142/1990 encontra-se disponível na íntegra no seguinte endereço eletrônico: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ leis/L8142.htm>. Você se lembra de que uma das pautas principais da implantação do SUS foi a maior participação da população? O movimento da Reforma Sanitária surgiu durante a década de 70, época da ditadura militar, período onde as opiniões e a participação popular não tinham espaço, sobretudo nas decisões estatais. Sendo assim, uma das principais bandeiras do movimento foi justamente inserir a população nos espaços deliberativos, incluindo a saúde. A Lei n. 8.142/1990 vai fazer valer essa reivindicação, implantando o controle social: Art. 1°. O Sistema Único de Saúde (SUS), de que trata a Lei n° 8.080, de 19 de setembro de 1990, contará, em cada esfera de governo, sem prejuízo das funções do Poder Legislativo, com as seguintes instâncias colegiadas: I - a Conferência de Saúde; e II - o Conselho de Saúde (BRASIL, 1990b). Esses dois órgãos colegiados – conferência e conselhos – são os espaços deliberativos nos quais o planejamento, as decisões e a fiscalização dos serviços ocorrerão e, em cada um deles, é garantida a participação da população. A participação dos cidadãos é paritária em relação aos outros segmentos – representantes do governo, prestadores de serviços, profissionais e outros - visando garantir um processo democrático com a presença de todas as partes 22 Gestão da Saúde Pública e Privada envolvidas. Na seção sobre o Controle Social e Políticas de Humanização veremos, com mais detalhes, de que forma se dá esse controle social na prática. Em seguida, a lei vai tratar do repasse dos recursos do Fundo Nacional de Saúde (FNS): Art. 2°. Os recursos do Fundo Nacional de Saúde (FNS) serão alocados como: I - despesas de custeio e de capital do Ministério da Saúde, seus órgãos e entidades, da administração direta e indireta; II - investimentos previstos em lei orçamentária, de iniciativa do Poder Legislativo e aprovados pelo Congresso Nacional; III - investimentos previstos no Plano Quinquenal do Ministério da Saúde; IV - cobertura das ações e serviços de saúde a serem implementados pelos Municípios, Estados e Distrito Federal (BRASIL, 1990b). Os recursos do FNS serão destinados, pelo menos, setenta por cento aos Municípios e o restante aos Estados. Porém, para receber esse repasse, os Municípios e Estados devem cumprir com uma série de exigências: Art. 4°. Para receberem os recursos de que trata o art. 3° desta lei, os Municípios, os Estados e o Distrito Federal deverão contar com: I - Fundo de Saúde; II - Conselho de Saúde, com composição paritária de acordo com o Decreto n° 99.438, de 7 de agosto de 1990; III - plano de saúde; IV - relatórios de gestão que permitam o controle de que trata o § 4° do art. 33 da Lei n° 8.080, de 19 de setembro de 1990; V - contrapartida de recursos para a saúde no respectivo orçamento; VI - comissão de elaboração do Plano de Carreira, Cargos e Salários (PCCS), previsto o prazo de dois anos para sua implantação (BRASIL, 1990b). Essas são as principais leis que formam a base de funcionamento e organização do SUS. Para você que deseja aprofundar seus estudos, segue, na sequência, um conjunto de outras leis, portarias e emendas que também versam sobre pontos importantes da saúde pública: • Norma Operacional Básica do Sistema Único de Saúde (1996) – redefine o modelo de gestão do SUS. • Portaria GM/MS n. 1.882 (1997) – Estabelece o piso de atenção básica (PAB) e sua composição. 23 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 • Portaria GM/MS n. 1.886 (1997) – Aprova normas e diretrizes do Programa de Agentes Comunitários de Saúde e do Programa de Saúde da Família. • Portaria GM/MS n. 3.916 (1998) - Define a Política Nacional de Medicamentos. • Lei n. 9.782 (1999) - Define o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária e cria a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. • Lei n. 9.961 (2000) - Cria a Agência Nacional de Saúde Suplementar ANS. Princípios e Diretrizes do SUS Agora que já estudamos o histórico de construção do SUS e as principais leis que dão suporte para seu funcionamento, prosseguiremos com um estudo mais detalhado de outros aspectos importantes. Nesta seção, estudaremos os Princípios e as Diretrizes do SUS. Você provavelmente já deve ter ouvido essas palavras, mas sabe o que significam? A escolha dos princípios e das diretrizes não se deu de forma aleatória e desarticulada, todos foram construídos levando-se em consideração situações históricas que culminaram na necessidade de criá-los. Os princípios e diretrizes constituem a base do funcionamento do SUS, são os eixos que ordenarão toda a organização do sistema. Os princípios representam uma finalidade, objetivos. São as metas que devem ser alcançadas, representando os valores e preceitos do SUS. Já as diretrizes se referem às estratégias, os meios utilizados para alcançar os objetivos traçados pelos princípios: “[...] a denominação princípios é dada para a base filosófica, cognitiva e ideológica do SUS, e a designação diretrizes se refere à forma, às estratégias e aos meios de organização do sistema para a sua concretização” (MATTA, 2007, p. 248). O primeiro princípio é o da universalidade, expresso pelo Artigo 196 da Constituição Federal: “A saúde é direito de todos e dever do Estado [...]” (BRASIL, 1988). Como você já aprendeu, antes da criação do SUS os serviços públicos de saúde só eram fornecidos a uma parcela da população, aquela que possuía carteira assinada. O SUS afirma, então, como princípio que todos os cidadãos – sem distinção de raça, gênero, religião ou qualquer outra forma de discriminação – têm direito ao acesso aos serviços de saúde disponibilizados pelo Estado. Outro princípio é o da equidade. Apesar do acesso à saúde ser universal, sabemos das desigualdades sociais que fazem com que certos Todos os cidadãos – sem distinção de raça, gênero, religião ou qualquer outra forma de discriminação – têm direito ao acesso aos serviços de saúde disponibilizados pelo Estado. 24 Gestão da Saúde Pública e Privada estratos sociais tenham maior dificuldade em conseguir um determinado serviço, emimplantar práticas de prevenção e promoção no seu território, e outros. Como alguns autores mencionam, o princípio da equidade diz respeito a “tratar desigualmente os desiguais”. A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. Os apetites humanos conceberam inverter a norma universal da criação, pretendendo não dar a cada um, na razão do que vale, mas atribuir o mesmo a todos, como se todos se equivalessem. Fonte: BARBOSA, Rui. Oração aos moços. 5. ed. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 1999. Como coloca Carmem Teixeira (2011, p. 5): O ponto de partida da noção de equidade é o reconhecimento da desigualdade entre as pessoas e os grupos sociais e o reconhecimento de que muitas dessas desigualdades são injustas e devem ser superadas. Em saúde, especificamente, as desigualdades sociais se apresentam como desigualdades diante do adoecer e do morrer, reconhecendo-se a possibilidade de redução dessas desigualdades, de modo a garantir condições de vida e saúde mais iguais para todos. Um exemplo de práticas que visam promover a equidade são os programas voltados especificamente para grupos vulneráveis, como indígenas, população LGBT e mulheres. 25 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 Atividade de Estudo: 1) Analise a imagem abaixo e aponte em qual de suas partes está sendo aplicado o princípio da equidade. Figura 1 – Princípio da equidade Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/z9thl4>. Acesso em: 22 jul. 2016. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Por fim, temos o princípio da integralidade. A noção de integralidade pode ser compreendida em vários níveis no campo da saúde, representando um esforço para oferecer um sistema de saúde que supra as necessidades do cidadão em todas as esferas necessárias. O princípio integralidade diz respeito à nova configuração do SUS, que agrupa em apenas um sistema organizativo as práticas de prevenção, de cuidado e de promoção: Um modelo “integral”, portanto, é aquele que dispõe de estabelecimentos, unidades de prestação de serviços, 26 Gestão da Saúde Pública e Privada pessoal capacitado e recursos necessários, à produção de ações de saúde que vão desde as ações inespecíficas de promoção da saúde em grupos populacionais definidos, às ações específicas de vigilância ambiental, sanitária e epidemiológica dirigidas ao controle de riscos e danos, até ações de assistência e recuperação de indivíduos enfermos, sejam ações para a detecção precoce de doenças, sejam ações de diagnóstico, tratamento e reabilitação (TEIXEIRA, 2011, p. 6). A integralidade diz respeito também ao oferecimento de serviços em diversos níveis de atenção, considerando que o ser humano não é composto por “partes”, mas sim um ser integral, biopsicossocial e que deve ser atendido em todas as suas demandas. De forma resumida, a integralidade pode ser definida como “[...] o homem é um ser integral, biopsicossocial, e deverá ser atendido com esta visão integral por um sistema de saúde também integral, voltado a promover, proteger e recuperar sua saúde” (BRASIL, 1990b). Agora, apresentados os princípios, vamos para as diretrizes. Como já foi explicado, as diretrizes são as estratégias e as ferramentas que serão utilizadas para que os princípios sejam garantidos. A descentralização diz respeito à transferência de poder político, de responsabilidade e recursos, da esfera Federal para os Estados e Municípios. Por meio das Leis n. 8.080/1990 e n. 8.142/1990, e das chamadas NOBS (Normas Operacionais) serão estabelecidas quais as responsabilidades pertinentes à cada esfera administrativa. A regionalização e hierarquização se referem à forma de organização dos serviços, tanto territorialmente quanto por especificidade das práticas ofertadas. A regionalização introduz a noção de território, que determina o perfil da população a ser atendida em um determinado espaço físico delimitado. Essa divisão espacial contempla tanto o espaço político-administrativo – como um bairro ou uma cidade – quanto as especificidades de determinada população – como demarcações indígenas, populações ribeirinhas. A hierarquização classifica os diversos equipamentos de saúde em níveis de oferta de serviços, por meio do estabelecimento de uma rede que conecta unidades mais simples – como as Unidades Básicas de Saúde – com as que demandam mais recursos tecnológicos – como os Hospitais Especializados. Essa rede se organizará de forma a garantir acesso a todas as demandas do usuário do SUS, desde ações de prevenção até procedimentos complexos. Por fim, temos a diretriz que contempla a participação da comunidade, representada aqui pelos Conselhos e Conferências de Saúde. Como forma A integralidade diz respeito também ao oferecimento de serviços em diversos níveis de atenção, considerando que o ser humano não é composto por “partes”, mas sim um ser integral, biopsicossocial e que deve ser atendido em todas as suas demandas. 27 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 O SUS é um sistema orgânico, vivo e em constante construção. A busca popular por um sistema de saúde que atendesse a toda a população, de forma gratuita e integral, levou à formulação de princípios e diretrizes que visam garantir esse acesso. de garantir os princípios do SUS, é pressuposta a participação da população e comunidade nas deliberações e fiscalização do sistema. Como você deve recordar, o Sistema Único de Saúde foi criado justamente por demanda dos cidadãos, que exigiam um modelo de saúde que contemplasse a todos. Essa diretriz vem, então, reforçar esse movimento, garantindo uma representatividade popular nas decisões e no planejamento dos serviços de saúde no país. O SUS é um sistema orgânico, vivo e em constante construção. A busca popular por um sistema de saúde que atendesse a toda a população, de forma gratuita e integral, levou à formulação de princípios e diretrizes que visam garantir esse acesso. A partir dessas formulações, foram sendo criadas ferramentas e mecanismos que fizessem valer as leis. Organização e Gestão do SUS Imagine um sistema de saúde gratuito responsável por atender a um país do tamanho do Brasil. Não parece simples, não é? Para garantir que os princípios de universalidade, equidade e integralidade sejam cumpridos, são necessários mecanismos de organização e gestão, envolvendo os entes federados – União, Estados e Municípios. Agora será apresentado, de forma mais aprofundada, como a gestão e organização do SUS é realizada, partindo das diretrizes de descentralização, regionalização e hierarquização. Vamos lá? O princípio da descentralização opõe-se a uma forma de gestão que concentrava todas as decisões em um único órgão, muitas vezes distante da região foco das ações. A nova estratégia proposta é justamente atender melhor às demandas populacionais, aproximando os órgãos gestores da comunidade alvo. Nesse sentido, foram divididas funções entre os entes federados, privilegiando a municipalização: A noção de que o município é o mais adequado âmbito para tratar a questão da saúde de maneira direta, uma vez que é o ente federado mais próximo da população, capaz, portanto, de identificar as peculiaridades e as diversidades locais e adaptar as estratégias para a superação dos problemas de saúde, de forma integral (BARATA; TANAKA;MENDES, 2004, p. 15). Essa nova forma de organização vem também para sanar um problema do antigo sistema, em que diversos órgãos ditavam as decisões e os rumos da saúde. Como você deve lembrar, anteriormente, as decisões referentes à área da 28 Gestão da Saúde Pública e Privada O processo de descentralização no país pode ser classificado, então, como político- administrativo, ou seja, envolve não só a transferência de serviços, mas também de poder, de responsabilidade e de recursos. saúde eram responsabilidade do Ministério da Previdência Social, que, ao mesmo tempo, também compreendia as funções do Ministério da Saúde. Quando a Lei n. 8.080/1990 coloca “descentralização, com direção única em cada esfera de governo” é justamente para impedir que órgãos distintos versem sob a gestão do SUS, promovendo uma gestão mais organizada. O processo de descentralização no país pode ser classificado, então, como político-administrativo, ou seja, envolve não só a transferência de serviços, mas também de poder, de responsabilidade e de recursos. Para que isso seja efetivo, é preciso estar bem claras as competências cabíveis a cada esfera organizativa. O texto Princípios Organizativos e Instâncias de Gestão do SUS (MACHADO; LIMA; BAPTISTA, 2011, p. 55) divide em quatro categorias as funções que cabem a elas: • Formulação de políticas/planejamento; • Financiamento; • Regulação, coordenação, controle e avaliação (do sistema/redes e dos prestadores, públicos ou privados); • Prestação direta de serviços de saúde. Cada uma dessas funções se divide em outras, que serão separadas, de acordo com suas características, entre os entes federados: Compreender as atribuições dos gestores do SUS nos três níveis de governo requer, portanto, uma reflexão sobre as especificidades da atuação de cada esfera no que diz respeito a essas funções gestoras, de forma coerente com as finalidades de atuação do Estado em cada nível de governo, com os princípios e objetivos estratégicos da política de saúde e para cada campo de atuação do Estado na saúde (assistência à saúde, vigilância sanitária, vigilância epidemiológica, desenvolvimento de insumos para a saúde e recursos humanos, entre outros) (MACHADO; LIMA; BAPTISTA, 2011, p. 15) Quais são, então, as responsabilidades referentes à cada ente federado? O que cabe à União, aos Estados e aos Municípios? 29 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 Segue, na sequência, uma relação que aponta algumas dessas competências, referente a cada núcleo gestor. Lembrando que, no caso do Distrito Federal, as responsabilidades do nível Estadual e Municipal se somam. Veja: Esfera de Governo: Federal Gestor: Ministério da Saúde Atribuições: • Formulações das políticas nacionais de saúde; • Planejamento e desenvolvimento de políticas nos campos de tecnologias, insumos e recursos humanos; • Financiamento das ações de saúde por meio de distribuição dos recursos públicos arrecadados, papel redistributivo dos recursos; • Coordenação de redes de referência de caráter interestadual/ nacional. Esfera de Governo: Estadual Gestor: Secretaria Estadual de Saúde Atribuições: • Promoção da regionalização; • Apoio e incentivo às secretarias municipais de saúde; • Definir as prioridades estaduais; • Definição dos critérios de alocação de recursos federais e estaduais entre municípios; • Responsabilidade sob áreas estratégicas: serviços assistenciais de referência estadual/regional, ações de maior complexidade de vigilância epidemiológica ou sanitária. Esfera de Governo: Municipal Gestor: Secretaria Municipal de Saúde Atribuições: • Identificação de problemas e definição de prioridades no âmbito municipal; • Organização da oferta de ações e serviços públicos e contratação de privados, quando necessário; • Organização das portas de entrada do sistema, estabelecimento de fluxos de referência e integração da rede de serviços à nível estadual; 30 Gestão da Saúde Pública e Privada • Gerência das unidades de saúde, contratação, administração e capacitação de profissionais de saúde. Passemos, então, para os princípios de regionalização e hierarquização. O Artigo 198, da Constituição Federal de 1988, institui que “As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único [...]” (BRASIL, 1988). Ou seja, esses dois conceitos estão intimamente ligados e dirão respeito à forma como os serviços de saúde se organizarão nos territórios. Como já foi colocado anteriormente, território é um espaço político- administrativo que se constituiu na unidade mínima onde se organizará a rede de serviços de saúde. Rede pode ser definida como “[...] um conjunto de unidades, de diferentes funções e perfis de atendimento, que operam de forma ordenada e articulada no território, de modo a atender às necessidades de saúde de uma população” (MACHADO; LIMA; BAPTISTA, 2011, p. 132). A construção da rede é organizada de forma a suprir as demandas dos territórios e garantir o acesso a todos os tipos de serviços necessários para aquela população. Ou seja, esses dois conceitos estão intimamente ligados e dirão respeito à forma como os serviços de saúde se organizarão nos territórios. 31 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 Figura 2 – Rede de Atenção à Saúde Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/RnVSdU>. Acesso em: 18 maio 2016. É possível observar a presença de equipamentos de saúde distintos, cada um com sua especificidade. As unidades se conectam de forma a atender às demandas de cada indivíduo de forma integral. Assim, caso determinada unidade não seja suficiente para suprir certa necessidade, o usuário é encaminhado para outra, conectada na rede, que garantirá o serviço: Existe uma relação intrínseca entre a organização da atenção à saúde em rede e os objetivos da universalidade, equidade e integralidade. Em uma rede, os equipamentos e serviços não funcionam de forma isolada, responsabilizando-se conjuntamente pelo acesso, atenção integral e continuidade do cuidado à saúde das pessoas (MACHADO; LIMA; BAPTISTA, 2011, p. 124). Com essa discussão, já podemos entrar na definição de hierarquização dos serviços. A necessidade de hierarquizar e classificar os serviços de saúde se dá pela necessidade de fazer cumprir os princípios: Universidade, Equidade e Integralidade. Você se recorda que um dos pilares do Movimento da Reforma Sanitária – responsável pela construção do SUS – foi a reinvindicação de um modelo de saúde que não focasse apenas nas práticas curativas, mas também nas práticas de prevenção, promoção e recuperação? Voltemos ao Artigo 196 da Constituição Federal de 1988: 32 Gestão da Saúde Pública e Privada A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL,1988). Para garantir a efetivação dessas práticas, foi planejado um modelo de organização no qual os serviços são divididos de acordo com suas especificidades, não privilegiando apenas hospitais e prontos-socorros - que têm uma ação mais pontual sobre a doença - mas também equipamentos que promovessem uma saúde integral do usuário. Essa estratégia de organização é a hierarquização: os serviços são divididos em diferentes níveis de atenção e complexidade. O primeiro nível é o de atenção primária, que envolve os serviços e equipamentos básicos da saúde, como Unidades Básicas de Saúde e Estratégia de Saúde da Família, portas de entrada para o SUS. Ou seja, são os primeiros serviços que o usuário vai procurar, e que vão inseri-lo na rede. Para compreendermos melhor o que é um serviço da atenção primária, veja a descrição da Estratégia da Saúde da Família: A Estratégiada Saúde da Família (ESF) é entendida como uma estratégia de reorganização do modelo de assistência, possibilitada por meio da locação de equipes multiprofissionais em unidades básicas de saúde (UBS). [...] Este modelo visa superar a antiga concepção centrada na doença, desenvolvendo-se por meio de práticas gerenciais e sanitárias participativas que possibilitam o compromisso e a corresponsabilidade destes profissionais com os usuários e a comunidade (NEVES, 2012, p. 35). Fazem parte dos equipamentos da atenção secundária os estabelecimentos de média complexidade, como ambulatórios e clínicas especializadas. Por fim, na atenção terciária são incluídos os equipamentos de alta complexidade, como hospitais gerais e procedimentos de alto custo, como hemodiálise, quimioterapias e outros. Você pode perceber que a rede de saúde – construída a partir dos princípios de regionalização e hierarquização – é extremamente importante para o bom funcionamento do SUS. Em um município com poucos habitantes não é necessária a presença de um grande hospital, com procedimentos de alta tecnologia, uma vez que não haveria demanda para tal. Porém, caso um usuário desse município precise acessar esse serviço, deve ser garantido a ele um equipamento referenciado que possibilite o atendimento. Para isso, são efetuados pactos e acordos entre os diversos territórios para a construção de uma rede que garanta a efetivação dos princípios do SUS: A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL,1988). 33 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 A construção de uma rede baseia-se na constatação de que os problemas de saúde não se distribuem uniformemente na população, no espaço e no tempo, e envolvem tecnologias de diferentes complexidades e custos. Assim, a organização dos serviços é condição fundamental para que estes ofereçam as ações necessárias de forma apropriada (MACHADO; LIMA; BAPTISTA, 2011, p. 124). Atividade de Estudo: 1) Olhe para a imagem abaixo, já vista nesta seção. Você consegue identificar quais serviços seriam de atenção primária, secundária e terciária? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 34 Gestão da Saúde Pública e Privada Controle Social e Políticas de Humanização Neste último item do capítulo, abordaremos o Controle Social, de que forma se dá a participação popular na formulação de fiscalização do SUS e quais são os instrumentos e espaços utilizados para isso. Por fim, apresentaremos a Política Nacional de Humanização do SUS, inaugurada em 2004, 15 anos após a Constituição Federal de 1988. Essa Política será apresentada como um exemplo dos vários desdobramentos do Sistema Único de Saúde ao longo desses anos. Comecemos, então, pelo Controle Social e Participação Popular no SUS. Essa é uma das diretrizes do SUS: a garantia de que a população e a comunidade possam participar dos processos decisórios do SUS, contribuindo para que o sistema atenda às suas demandas e garantindo um processo mais amplo e democrático. Vale apontar que o SUS é a única política pública a adotar constitucionalmente a participação popular em seus princípios, sendo, assim, não apenas um projeto pioneiro, mas também apontando a necessidade de que outras políticas sigam essa prática. A participação popular e o controle social em saúde, dentre os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), destacam-se como de grande relevância social e política, pois se constituem na garantia de que a população participará do processo de formulação e controle das políticas públicas de saúde. No Brasil, o controle social se refere à participação da comunidade no processo decisório sobre políticas públicas e ao controle sobre a ação do Estado (ROLIM; CRUZ; SAMPAIO, 2013). Conforme a Lei n. 8.142 de 1990, essa participação se dará principalmente em duas instâncias: Conselhos de Saúde e Conferências de Saúde. Ambos são órgãos colegiados, compostos por representantes do governo, prestadores de serviços, profissionais e, de forma especial, pelos usuários do SUS. Vejamos as especificidades de cada um: a) Conselhos de Saúde: hoje, além do Conselho Nacional, existem vinte e seis Conselhos Estaduais, um Conselho Distrital e mais de cinco mil Conselhos Municipais. Têm como tarefa atuar na formulação de estratégias e no controle da execução da política de saúde na instância correspondente. Além disso, um Conselho de Saúde é um órgão: • colegiado, ou seja, é composto por pessoas que representam diferentes grupos da sociedade, sendo 50% delas representantes de usuários do SUS; • permanente, isto é, tem sua existência garantida em qualquer circunstância e para ser extinto é preciso haver uma lei; 35 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 • deliberativo, ou seja, toma decisões que devem ser cumpridas pelo poder público (BRASIL, 2013). Para conhecer a fundo o funcionamento e as atribuições dos Conselhos de Saúde, acesse a Resolução n. 333, de 04 de novembro de 2003, do Ministério da Saúde, disponível em: <http://conselho. saude.gov.br/biblioteca/livros/resolucao_333.pdf>. b) Conferência de Saúde: ocorre a cada quatro anos, em cada esfera do governo, e tem como objetivo avaliar a situação da saúde e propor as diretrizes para a formulação da Política de Saúde nas instâncias correspondentes. Vale recordar as transformações históricas proporcionadas para a gestão da saúde no Brasil, como o caso da 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, cujo relatório final serviu de base para a elaboração do capítulo sobre saúde da Constituição Federal de 1988, resultando na criação do SUS. Para se aprofundar na temática, você pode consultar o seguinte documento: As Conferências Nacionais de Saúde: Evoluções e Perspectivas, disponível no seguinte endereço eletrônico: <http:// www.conass.org.br/conassdocumenta/cd_18.pdf>. http://conselho.saude.gov.br/biblioteca/livros/resolucao_333.pdf http://conselho.saude.gov.br/biblioteca/livros/resolucao_333.pdf http://www.conass.org.br/conassdocumenta/cd_18.pdf http://www.conass.org.br/conassdocumenta/cd_18.pdf 36 Gestão da Saúde Pública e Privada Figura 3 – 8ª Conferência Nacional de Saúde Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/JhMuqQ>. Acesso em: 22 jul. 2016. Apesar do aporte jurídico, que institui a existência do Controle Social na saúde, e dos manuais e documentos que regulamentam sua organização, a participação social ainda está longe do ideal. Em alguns Municípios, os Conselhos de Saúde são inexistentes e, em outros, existem muitos entraves que dificultam sua efetivação. Cabe à população organizar-se em torno dessa criação, pressionando os órgãos públicos para que ofereçam espaço e suporte para sua existência: É preciso que o controle social aconteça na prática, para que não fique apenas em lei e que a sociedade civil ocupe de modo pleno e efetivo esses diversos espaços de participação social. A sociedade no acompanhamento/fiscalização/participação da gestão pública em saúde se faz de forma importantíssima, pois pela primeira vez na história reuniram-se experiências exitosas na área do controle social (ROLIM; CRUZ; SAMPAIO, 2013, p 33). Passemos, então, para as Políticas de Humanização, aqui representadas pela Política Nacional de Humanização. Mas o que significa humanização? Vejamos: 37 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 Por humanização entendemos a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção desaúde: usuários, trabalhadores e gestores. Os valores que norteiam esta política são a autonomia e o protagonismo dos sujeitos, a co-responsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários e a participação coletiva no processo de gestão (BRASIL, 2004, p. 8). A Política de Humanização é mais do que um programa, com práticas focais e localizadas. Deve ser entendida como uma ética de trabalho, uma diretriz transversal, “entendida como um conjunto de princípios e diretrizes que se traduzem em ações nas diversas práticas de saúde e esferas do sistema, caracterizando uma construção coletiva” (BRASIL, 2004, p. 7). Ela é uma construção que visa reordenar os processos de trabalho com vistas a fazer valer a universalidade, a equidade e a integridade do SUS. Para isso, são estabelecidos alguns princípios norteadores da PNH (Política Nacional de Humanização): • Valorização da dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção e gestão no SUS, fortalecendo o compromisso com os direitos do cidadão, destacando-se o respeito às questões de gênero, etnia, raça, orientação sexual e às populações específicas; • Fortalecimento de trabalho em equipe multiprofissional, fomentando a transversalidade e a grupalidade; • Construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos e coletivos implicados na rede do SUS; • Fortalecimento do controle social com caráter participativo em todas as instâncias gestoras do SUS; • Compromisso com a democratização das relações de trabalho e valorização dos profissionais de saúde, estimulando processos de educação permanente (BRASIL, 2004). Com alguns dos objetivos práticos dessa política, espera-se diminuir o tempo de fila nas unidades de saúde, efetivar o controle e participação social, garantir que o usuário conheça seu profissional de referência, além de ter acesso a todas as informações pertinentes ao seu atendimento, fornecendo maior suporte aos trabalhadores e outros. 38 Gestão da Saúde Pública e Privada Para conhecer mais a fundo a Política Nacional de Humanização, acesse o documento HumanizaSUS no seguinte endereço eletrônico: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/humanizasus_2004. pdf>. Encerramos aqui nosso tópico sobre a Política de Humanização do SUS. Como você pode perceber, ainda temos um longo caminho a ser trilhado para garantirmos a todos os cidadãos brasileiros um acesso gratuito, integral e humanizado à saúde. A Política de Humanização é um esforço que deve ser implantado em todos os espaços, inclusive nas pesquisas e estudos teóricos. Como foi explicitado no começo deste capítulo, conhecer sobre a saúde pública ultrapassa os objetivos educativos, mas também nos envolve, na condição de pessoas políticas, na situação do nosso país e na melhoria das condições de vida da população. Algumas Considerações Caro(a) pós-graduando(a), como foi a leitura do material? Esperamos que tenha conseguido aguçar seu interesse e curiosidade para o estudo sobre a Gestão em Saúde no Brasil. Em caso de dúvidas, releia o material com calma e consulte as referências disponibilizadas logo abaixo. Aguardo você no próximo capítulo, no qual estudaremos a Organização da Saúde Privada. Até breve! Referências BARATA, L. R. B.; TANAKA, O. Y.; MENDES, J. D. V. Por um processo de descentralização que consolide os princípios do Sistema Único de Saúde. Epidemiologia e Serviços de Saúde, São Paulo, v. 13, n. 1, p.15-24, mar. 2004. BERTOLOZZI, M. R.; GRECO, R. M. As políticas de saúde no Brasil: reconstrução histórica e perspectivas atuais. Revista escola de enfermagem da USP, São Paulo, v. 30, n. 3, p. 380-398, dez. 1996. 39 Fundamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) Capítulo 1 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. _______. Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, 19 set. 1990a. Seção 1, p. 18055. _______. Lei 8.142, de 28 de dezembro de 1990. Dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde e dá outras providências. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, 31 dez. 1990b, p. 25694. _______. Ministério da Saúde. HumanizaSUS: política nacional de humanização: documento base para gestores e trabalhadores do SUS. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2004. _______. Ministério da Saúde. Para entender o controle social na saúde/ Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. CARVALHO, G. I. de; SANTOS, L. Sistema Único de Saúde: Comentários a Lei Orgânica da Saúde. 4. ed. Campinas: Unicamp, 2006. MACHADO, C. V.; LIMA, L. D. de; BAPTISTA, T. W. de F. Princípios organizativos e instâncias de gestão do SUS. In: GRABOIS, V. et al. Qualificação de gestores do SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2011. p. 47-72. MATTA, G. C. Princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde. In: PONTES, A. L. de M.; MATTA, G. C. Políticas de saúde: organização e operacionalização do Sistema Único de Saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007. p. 61-80. NEVES, A. V. de M. Políticas públicas de saúde. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. PAIM, J. et al. O sistema de saúde brasileiro: história, avanços e desafios. The Lancet, Rio de Janeiro, p.11-31, maio 2011. POLIGNANO, M. V. História das políticas de saúde no Brasil. Cadernos do Internato Rural-Faculdade de Medicina/UFMG, Belo Horizonte, v. 35, n. 1, p. 1-35, 2001. 40 Gestão da Saúde Pública e Privada ROLIM, L. B.; CRUZ, R. de S. B. L. C.; SAMPAIO, K. J. A. de J. Participação popular e o controle social como diretriz do SUS: uma revisão narrativa. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 37, n. 96, p. 139-147, jan. 2013. TEIXEIRA, C. Os princípios do Sistema Único de Saúde. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia, 2011. CAPÍTULO 2 SAÚDE PRIVADA: ORGANIZAÇÃO A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Definir a saúde privada e suplementar, apontando como ela é caracterizada dentro do SUS. � Conhecer a legislação referente à saúde privada e suplementar. � Apresentar os princípios da ética e da bioética envolvendo a saúde privada. � Diferenciar os modelos da saúde pública e privada, articulando suas especificidades. 42 Gestão da Saúde Pública e Privada 43 Saúde Privada: Organização Capítulo 2 Contextualização Olá, pós-graduando(a)! Como estão os estudos? No primeiro capítulo, fizemos uma leitura aprofundada sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), suas particularidades, seu processo histórico de construção, sua legislação fundamental, gestão, princípios, diretrizes e outros. No entanto, precisamos nos lembrar de que a saúde no país é composta, também, pelos sistemas privados, conhecidos como saúde suplementar. É esse o tema deste e do próximo capítulo. A saúde privada já existia no Brasil antes da organização do SUS e era ela que garantia aos trabalhadores acesso aos serviços de saúde. Porém, algumas pessoas ficavam de fora, como os profissionais informais e os desempregados. A construção do SUS vem no sentido de ampliar e garantir acesso gratuito a todos os cidadãos brasileiros, sem, no entanto, restringir o acesso aos serviços privados de saúde. Para exemplificar melhor, podemos dividir os modelos de saúde existentes no mundo em três tipos: inteiramente ou majoritariamente públicos, sistemas de seguro social obrigatório e sistemas de caráter totalmente privado. Até a promulgação da Constituição Federal de 1988 e da Lei 8.080/1990, o Brasil se encaixava no modelo de seguro social privado. Você lembra do modelo das IAPs, das Caixas de Assistênciae do INAMPS? No Brasil, a saúde suplementar começou sua estruturação após a revolução industrial, momento em que surgiram os Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs), que pertenciam a diversas categorias e representavam os trabalhadores urbanos e que compravam as prestações de serviços de saúde. Paralelamente, nos anos 40, apareceram também as Caixas de Assistência, como a dos funcionários do Banco do Brasil (Cassi), que beneficiavam os empregados de algumas empresas por meio de empréstimos ou reembolso pela utilização de serviços de saúde externos à previdência social. Nos anos 50, surgem os sistemas assistenciais próprios fornecidos pelas empresas estatais e multinacionais que prestavam assistência médica de forma direta. Os IAPs, no ano de 1966, são então unificados, formando o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Essa unificação forçou a expansão dos credenciamentos de prestadores de serviços privados de saúde, privilegiando hospitais e multinacionais de medicamentos. Portanto, a década de 60 foi um marco na história da saúde suplementar, pelo fato de boa parte dos trabalhadores já possuir planos de saúde e, ainda, por serem observadas diversas possibilidades de assistência médica: a rede INPS, com unidades próprias e credenciadas; serviços A saúde privada já existia no Brasil antes da organização do SUS e era ela que garantia aos trabalhadores acesso aos serviços de saúde. 44 Gestão da Saúde Pública e Privada credenciados para atendimento a trabalhadores rurais; serviços credenciados das empresas médicas; e autogestões de empresas com planos próprios (PIETROBON; PRADO; CAETANO, 2008, p. 770). Após a consagração do SUS, passa a vigorar no país um sistema gratuito de saúde, porém ainda contando com a existência dos sistemas privados. Apesar de todos os avanços obtidos, é sabido que o SUS não consegue dar cobertura para todos os cidadãos, tanto em termos de abrangência quanto em qualidade de atendimento. As filas de espera, a distância geográfica e a possibilidade de escolha de profissionais e serviços são alguns dos motivos que levam mais pessoas a escolherem um plano de saúde privado. Saúde Suplementar Segundos dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), no mês de março de 2016, 25,2% dos brasileiros possuíam planos privados de assistência médica (ANS, 2016). O site da ANS possui diversas informações importantes sobre a saúde suplementar no Brasil, como, por exemplo, estudos, estatísticas, novas resoluções e outros. Confira essas e outras informações no seguinte endereço eletrônico: <http://www.ans.gov. br>. É importante também diferenciar o que seria a saúde complementar e a saúde suplementar. A saúde será considerada de caráter complementar quando o serviço suprir alguma demanda do SUS, sendo realizado, então, um convênio ou contrato público. Esses serviços, apesar de executados por instituições privadas, oferecerão atendimentos gratuitos e serão ressarcidos com dinheiro público. O Estado utiliza-se da iniciativa privada para aumentar e complementar a sua atuação em benefício da saúde da população. Ao firmar convênios e contratos com diversas pessoas jurídicas de direito privado que realizam ações e serviços de saúde o Estado brasileiro as insere no âmbito das ações e serviços públicos de saúde, igualando-as àquelas prestadas diretamente por seus órgãos e entidades. Por firmarem contratos ou convênios com o Sistema Único de 45 Saúde Privada: Organização Capítulo 2 Saúde, integram esse sistema e submetem-se a todas as suas diretrizes, princípios e objetivos, notadamente a gratuidade, integralidade e universalidade (SOUSA, 2010, p. 25). Já a saúde suplementar, refere-se aos serviços privados, compostos por operadoras, convênios, planos e outros, mediante contratação. Esses serviços não seguem os princípios e diretrizes do SUS, mas são regulados por órgãos públicos, como o Ministério da Saúde e a ANS. O quadro abaixo, retirado do site do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), apresenta algumas características básicas do SUS e da Saúde Suplementar. Veja: Quadro 1 - Características do SUS X Saúde Suplementar Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/vivzqu>. Acesso em: 30 maio 2016. Na sequência, estudaremos a gestão e a legislação do sistema suplementar de saúde. Para isso, serão apresentadas as leis que dão as bases para seu funcionamento, o processo de fiscalização e de gestão. Vamos lá! Gestão e Legislação do Sistema Suplementar de Saúde Para fins didáticos, podemos dividir a gestão do sistema suplementar de saúde no Brasil em três momentos: antes da construção do SUS, após a aprovação da Constituição Federal de 1988 e da Lei n. 8.080 de 1990, e depois das Leis n. 9.656 de 1998 e n. 9.961 de 2000, que criam a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). 46 Gestão da Saúde Pública e Privada Até o advento da nova Constituição Federal de 1988 não existia um sistema de saúde que garantisse saúde pública e gratuita a todos os cidadãos. O que estava disponível era um sistema que permitia atendimentos pontuais a pessoas que possuíam carteira assinada, ou seja, trabalhadores regulados. Profissionais autônomos, informais e desempregados não possuíam assistência gratuita à saúde, sendo preciso que pagassem pelos serviços de forma individual. Com a construção do SUS, são criadas as bases legislativas para regular também o sistema privado da saúde. Vamos recapitular aqui a redação do Artigo 199 da Constituição Federal de 1988, que trata da saúde privada: Art. 199. A assistência à saúde é livre à iniciativa privada. § 1º. As instituições privadas poderão participar de forma complementar do sistema único de saúde, segundo diretrizes deste, mediante contrato de direito público ou convênio, tendo preferência as entidades filantrópicas e as sem fins lucrativos (BRASIL, 1988). E na Lei n. 8.080, de 1990, temos, no Título III - Dos serviços privados de assistência à saúde, os principais artigos: Art. 20. Os serviços privados de assistência à saúde caracterizam-se pela atuação, por iniciativa própria, de profissionais liberais, legalmente habilitados, e de pessoas jurídicas de direito privado na promoção, proteção e recuperação da saúde. Art. 21. A assistência à saúde é livre à iniciativa privada. Art. 22. Na prestação de serviços privados de assistência à saúde, serão observados os princípios éticos e as normas expedidas pelo órgão de direção do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto às condições para seu funcionamento. [...] Art. 24. Quando as suas disponibilidades forem insuficientes para garantir a cobertura assistencial à população de uma determinada área, o Sistema Único de Saúde (SUS) poderá recorrer aos serviços ofertados pela iniciativa privada (BRASIL, 1990). Entende-se, a partir dessas leis, que apesar de ser construído um Sistema Único de Saúde, que se propõe a garantir serviços gratuitos a toda população, a assistência à saúde também é liberada para a iniciativa privada. Inclusive, esta última poderá ser contratada pelo próprio SUS quando os equipamentos deste forem insuficientes. Porém, havia também a necessidade de regular a oferta desses serviços para a população. Partindo do entendimento de que o bem Entende-se, a partir dessas leis, que apesar de ser construído um Sistema Único de Saúde, que se propõe a garantir serviços gratuitos a toda população, a assistência à saúde também é liberada para a iniciativa privada. 47 Saúde Privada: Organização Capítulo 2 saúde não é meramente um produto, mas sim um bem e um serviço que deve ser oferecido com ética e qualidade, havia a necessidade de mais legislações que estabelecessem critérios mínimos de funcionamento e agências fiscalizadoras que garantissem seu cumprimento. Regulação ocorre quando o governo controla ou deliberadamente influencia determinada atividade, pela manipulação de variáveiscomo preço, quantidade e qualidade. Dessa forma, é necessário ter em mente o significado da regulação; é preciso sempre manter foco no objetivo, que é assegurar o desempenho do sistema de saúde, ou seja, prestar uma assistência eficiente e equitativa e atender às necessidades de saúde da população (PIETROBON; PRADO; CAETANO, 2008, p. 770). Após a promulgação da Lei n. 8.080/1990, iniciou-se, então, um debate nacional sobre qual a melhor forma de se fazer essa regulação. Durante a década de 90, o país teve um grande crescimento de diferentes planos de saúde, de forma desregulada, sem apresentar critérios mínimos de funcionamento, gerando descontentamento nos consumidores e nos profissionais. Dois fatores conjugados desencadearam o processo de regulamentação, sendo por um lado o aumento da concorrência com a entrada no mercado de duas grandes seguradoras para disputar os clientes, exigindo regras de competição mais claras que permitissem a entrada de empresas de capital estrangeiro; por outro lado a convergência de demandas de consumidores, entidades médicas e secretarias de saúde, para a garantia de superação de restrições assistenciais existentes em contratos, como era o caso da negativa de atendimento a pacientes portadores de HIV, idosos e pacientes que requeriam hospitalização mais prolongada (CONASS, 2011, p. 19). Existia um consenso acerca da necessidade de intervenção estatal sobre os planos e convênios, porém se divergia sobre a forma como essa intervenção deveria ser feita, seus limites e objetivos (TEIXEIRA; BAHIA; VIANNA, 2002). De um lado, existia uma posição, que pode ser representada pelo Ministério da Fazenda, a qual defendia uma regulação que levasse em conta os aspectos financeiros, considerando os planos de saúde como um produto concorrente no mercado. Do outro lado, existia o posicionamento de que o regulamento de serviços de saúde deveria ser diferente de regulamentações de outros tipos de produtos, posição representada pelo Ministério da Saúde. Após amplas discussões e embates, foram promulgadas duas importantes leis: a Lei n. 9.656, em 1998, e a Lei n. 9.961, de 2000, além Após amplas discussões e embates, foram promulgadas duas importantes leis: a Lei n. 9.656, em 1998, e a Lei n. 9.961, de 2000, além de outras medidas provisórias acrescentadas posteriormente, que estabelecem critérios mínimos para o funcionamento e gestão da saúde suplementar no Brasil e criam a Agência Nacional de Saúde Suplementar. 48 Gestão da Saúde Pública e Privada de outras medidas provisórias acrescentadas posteriormente, que estabelecem critérios mínimos para o funcionamento e gestão da saúde suplementar no Brasil e criam a Agência Nacional de Saúde Suplementar. Agora, vamos analisá-las mais a fundo! A Lei n. 9.656 de 1998 trará importantes definições sobre as operadoras de planos privados da saúde. Veja: Art. 1o. Submetem-se às disposições desta Lei as pessoas jurídicas de direito privado que operam planos de assistência à saúde, sem prejuízo do cumprimento da legislação específica que rege a sua atividade, adotando-se, para fins de aplicação das normas aqui estabelecidas, as seguintes definições: I - Plano Privado de Assistência à Saúde: prestação continuada de serviços ou cobertura de custos assistenciais a preço pré ou pós estabelecido, por prazo indeterminado, com a finalidade de garantir, sem limite financeiro, a assistência à saúde, pela faculdade de acesso e atendimento por profissionais ou serviços de saúde, livremente escolhidos, integrantes ou não de rede credenciada, contratada ou referenciada, visando a assistência médica, hospitalar e odontológica, a ser paga integral ou parcialmente às expensas da operadora contratada, mediante reembolso ou pagamento direto ao prestador, por conta e ordem do consumidor; II - Operadora de Plano de Assistência à Saúde: pessoa jurídica constituída sob a modalidade de sociedade civil ou comercial, cooperativa, ou entidade de autogestão, que opere produto, serviço ou contrato de que trata o inciso I deste artigo; III - Carteira: o conjunto de contratos de cobertura de custos assistenciais ou de serviços de assistência à saúde em qualquer das modalidades de que tratam o inciso I e o § 1o deste artigo, com todos os direitos e obrigações nele contidos. (BRASIL, 1998). A partir do Artigo 10 da Lei n. 9.656 de 1998, é definido o Plano- Referência de Assistência à Saúde, estabelecendo o plano contratual mínimo a ser oferecido pelos planos de saúde: Art. 10. É instituído o plano-referência de assistência à saúde, com cobertura assistencial médico-ambulatorial e hospitalar, compreendendo partos e tratamentos, realizados exclusivamente no Brasil, com padrão de enfermaria, centro de terapia intensiva, ou similar, quando necessária a internação hospitalar, das doenças listadas na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, da Organização Mundial de Saúde [...] (BRASIL, 1998). Fica instituído que todo plano e serviço de saúde suplementar deve fornecer o Plano-Referência, como requisito mínimo. Na continuação do Artigo 10 da Lei n. 9.656 de 1998 são descritos os casos de exceção, como tratamentos A partir do Artigo 10 da Lei n. 9.656 de 1998, é definido o Plano-Referência de Assistência à Saúde, estabelecendo o plano contratual mínimo a ser oferecido pelos planos de saúde. 49 Saúde Privada: Organização Capítulo 2 experimentais, procedimentos para fins estéticos, inseminação artificial, tratamentos de rejuvenescimento ou de emagrecimento com finalidade estética e outros. Já no Artigo 12 da mesma lei são dispostas as exigências mínimas, ou seja, os serviços que devem obrigatoriamente ser oferecidos. Entre eles se incluem: • Atendimento ambulatorial (consultas médicas e serviços de apoio diagnóstico); • Internação hospitalar (vedada a determinação de prazos, valor máximo de gastos e quantidade); • Em caso de atendimento obstetrício, cobertura assistencial ao recém- nascido; • Reembolso caso não seja possível que o consumidor use os serviços do plano contratado; • Fixação dos períodos de carência (trezentos dias para partos a termo, cento e oitenta para demais casos e vinte e quatro horas para casos de urgência e emergência). O Artigo 13 da Lei n. 9.656 de 1998 trata da renovação do contrato, que se dá de forma automática após um ano, sem a cobrança de taxas e recontagem das carências. O Artigo 14 da mesma lei estabelece que ninguém pode ser impedido de contratar um plano, em razão da idade ou de deficiência. Isso significa que nenhum plano ou convênio pode recusar um usuário idoso ou recém-nascido ou alguém que apresente qualquer tipo de deficiência. Por fim, no Artigo 35-A da Lei n. 9.656 de 1998 fica estabelecida a criação do Conselho de Saúde Suplementar (CONSU), com competência para estabelecer e supervisionar a execução das políticas e diretrizes gerais de saúde suplementar; supervisionar e acompanhar as ações e o funcionamento da ANS; fixar diretrizes gerais sobre aspectos econômico-financeiros para implementação no setor e deliberar sobre a criação de câmaras técnicas, de forma a subsidiar as decisões. Como você pode perceber, a Lei n. 9.656 de 1998 trouxe grandes avanços para a regulação da saúde suplementar, definindo quais são as instituições que podem oferecer seguros e planos, diferenciando as modalidades de operadoras, assunto do próximo capítulo desta Como você pode perceber, a Lei n. 9.656 de 1998 trouxe grandes avanços para a regulação da saúde suplementar, definindo quais são as instituições que podem oferecer seguros e planos, diferenciando as modalidades de operadoras, assunto do próximo capítulo desta disciplina, assegurando maiores direitos e garantias aos usuários dos serviços de saúde. 50 Gestão da Saúde Pública e Privada disciplina, assegurandomaiores direitos e garantias aos usuários dos serviços de saúde. Por exemplo, antes do advento da lei, algumas operadoras estabeleciam previamente dias máximos de internações na UTI e não atendiam alguns transtornos psiquiátricos. Após o advento dessa lei, a cobertura para casos de AIDS e câncer é obrigatória, mesmo quando o usuário já é portador da doença, devendo ser notificado no momento do contrato. Passemos, então, para a Lei n. 9.961 de 2000, marco legal da criação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS): Art. 1º. É criada a Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS, autarquia sob o regime especial, vinculada ao Ministério da Saúde, com sede e foro na cidade do Rio de Janeiro - RJ, prazo de duração indeterminado e atuação em todo o território nacional, como órgão de regulação, normatização, controle e fiscalização das atividades que garantam a assistência suplementar à saúde. Parágrafo único. A natureza de autarquia especial conferida à ANS é caracterizada por autonomia administrativa, financeira, patrimonial e de gestão de recursos humanos, autonomia nas suas decisões técnicas e mandato fixo de seus dirigentes (BRASIL, 2000). O que é uma autarquia sob regime especial? Autarquia de regime especial é toda aquela em que a lei instituidora conferir privilégios específicos e aumentar sua autonomia comparativamente com as autarquias comuns, sem infringir os preceitos constitucionais pertinentes a essas entidades de personalidade pública. O que posiciona a autarquia de regime especial são as regalias que a lei criadora lhe confere para o pleno desempenho de suas finalidades específicas. Sob a forma de autarquias de regime especial, o Estado criou as agências reguladoras, no sentido de tentar fiscalizar as atividades das iniciativas privadas. Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/6tKkCo>. Acesso em: 30 maio 2016. 51 Saúde Privada: Organização Capítulo 2 A ANS tem como finalidade institucional promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde, regulando as operadoras setoriais e, para isso, tem uma ampla gama de competências, dentre as quais se incluem (BRASIL, 2000): • Propor políticas e diretrizes gerais ao Consu para a regulação do setor de saúde suplementar; • Elaborar o rol de procedimentos e eventos em saúde, que constituirão referência básica para os fins do disposto na Lei n. 9.565 de 1998, e suas excepcionalidades; • Estabelecer normas para ressarcimento ao Sistema Único de Saúde - SUS; • Estabelecer normas relativas à adoção e utilização, pelas operadoras de planos de assistência à saúde, de mecanismos de regulação do uso dos serviços de saúde; • Monitorar a evolução dos preços de planos de assistência à saúde, seus prestadores de serviços, e respectivos componentes e insumos; • Adotar as medidas necessárias para estimular a competição no setor de planos privados de assistência à saúde; • Zelar pela qualidade dos serviços de assistência à saúde no âmbito da assistência à saúde suplementar. A estrutura organizacional da ANS será definida no Capítulo II da referida lei, estabelecendo que ela será dirigida por uma Diretoria Colegiada – composta por cinco diretores e um Diretor-Presidente, indicados pelo Presidente da República, após consulta ao Senado Federal – um Procurador, um Corregedor e um Ouvidor. Além disso, conta-se, também, com a criação da Câmara de Saúde Suplementar, com participação de diversos atores envolvidos nas questões regulatórias, de caráter permanente e consultivo – a composição dessa câmara é definida pelo Artigo 13 da mesma lei. Para se ter uma dimensão da importância do papel da ANS, destacamos o trabalho da ouvidoria, cujo objetivo é tirar dúvidas dos consumidores quanto aos planos, recolher reclamações e encaminhá-las, sendo um canal aberto de comunicação entre os usuários de serviços de saúde suplementar e os prestadores. Abaixo é reproduzido o gráfico apresentado no Relatório de Atividades da Ouvidoria da ANS de 2015 em relação às demandas recebidas. Veja: A ANS tem como finalidade institucional promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde, regulando as operadoras setoriais e, para isso, tem uma ampla gama de competências. 52 Gestão da Saúde Pública e Privada Figura 4 - Demandas pertinentes à ANS e próprias de ouvidoria segundo tipo de manifestação Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/BSX7Sc>. Acesso em: 30 maio 2016. Para consultar na íntegra o Relatório de Atividades da Ouvidoria da ANS de 2015 e também dos anos anteriores, acesse o seguinte endereço eletrônico: <http://goo.gl/VRNyDT>. A implantação da ANS é um importante marco na história da saúde no Brasil, pois garante que o sistema suplementar seja devidamente acompanhado e fiscalizado, garantindo maiores direitos e segurança aos consumidores e aos prestadores: A ANS regula relações privadas, tendo como base a relevância pública de seu objeto: a saúde. O entendimento, relativamente recente, de que o segmento das operadoras de planos e seguros privados de assistência à saúde, seus beneficiários, prestadores, fornecedores etc. têm impacto na saúde em geral e confere à regulação setorial um importante balizador. Não se trata apenas de contar com empresas viáveis economicamente, ou de reduzir as assimetrias de informação, trata-se, na verdade, de incluir essa parcela das ações em saúde no sistema de saúde nacional (CONASS, 2011, p. 28). Alguns dos principais ganhos para o sistema de saúde suplementar, após o início de funcionamento da ANS, foram: maior conhecimento sobre o setor de saúde suplementar, funcionamento e acompanhamento do A implantação da ANS é um importante marco na história da saúde no Brasil, pois garante que o sistema suplementar seja devidamente acompanhado e fiscalizado, garantindo maiores direitos e segurança aos consumidores e aos prestadores. 53 Saúde Privada: Organização Capítulo 2 mercado; fiscalização que assegura melhor qualidade dos serviços e garantia aos direitos dos consumidores e, por fim, aumento da visibilidade dos problemas e desequilíbrios, tanto no setor suplementar quanto no SUS, incentivando melhorias (PIETROBON; PRADO; CAETANO, 2008). Nesta seção, estudamos a legislação e a gestão da saúde suplementar no Brasil. Após a aprovação da Lei n. 8.080 em 1990, foram necessários mais dez anos até a construção de uma legislação que regulamentasse o funcionamento das operadoras de saúde. Esse arcabouço legal é composto principalmente pela Lei n. 9.656 de 1998, que define quais sãos as modalidades possíveis de operadoras, quais são os serviços mínimos que devem ser oferecidos, elimina alguns critérios de exclusão que eram utilizados para selecionar usuários e outros, bem como pela Lei n. 9.961 de 2000, que determina a criação da ANS, agência de autarquia especial, fiscalizadora dos serviços de saúde suplementar, promovendo a defesa do interesse público e do consumidor. O processo de regulação ainda é incipiente e torna-se necessário o enfrentamento de temas mais complexos e estruturantes como o desafio de entender a natureza dessa regulação, seus avanços e limites, a dimensão da organização do subsetor, o financiamento da oferta de serviços, as modalidades assistenciais, suas redes e a complexidade dessas relações (MALTA et al., 2004, p. 435). Ética e Bioética Neste item, trataremos da ética e da bioética aplicadas aos sistemas de saúde no país, tanto no SUS quanto nos serviços privados. O debate se faz necessário para que possamos apresentar alguns dos pontos mais importantes conduzidos por teóricos e estudiosos da área. Como pode ser percebido, pelo material já estudado, a regulação da saúde no Brasil se dá de forma diferenciada a de outros serviços. A saúde, entendida pela Constituição Federal de 1988 como um direito, deve ser estendida a todas as pessoas, de forma integral, gratuita e equitativamente (vocêlembra dos princípios do SUS?). É também dever do Estado prover os recursos mínimos para que os procedimentos e serviços gratuitos sejam fornecidos, além de regular e fiscalizar os serviços privados. Vamos explorar, então, o que significa ética e bioética e quais as implicações para o campo da saúde! 54 Gestão da Saúde Pública e Privada Ética é uma palavra de origem grega que significa caráter, sendo traduzida para o latim como costume e utilizada como uma ‘ciência da moral’ ou ‘ciência do costume’, um “[...] conjunto de princípios morais que regem os direitos e deveres de cada um de nós e que são estabelecidos e aceitos numa época por determinada comunidade humana” (KOERICH; MACHADO; COSTA, 2005, p. 107). A ética permeia nossas relações, nossas escolhas e nossa vida em sociedade, modificando-se de acordo com a região e o momento histórico. Falar em ética implica também falar em responsabilidade em relação a alguém e em direção a algo. Veja abaixo alguns exemplos de responsabilidades éticas: • Ética da responsabilidade individual: assumida por cada um de forma a garantir uma vida coletiva justa e ética. Por exemplo, pagar corretamente os impostos, de forma a garantir que toda a sociedade brasileira possa usufruir dos serviços públicos; • Ética da responsabilidade pública: referente aos deveres do Estado e órgãos públicos. Por exemplo, garantir o repasse de verbas destinadas à saúde, à educação, à segurança e outros; • Ética da responsabilidade planetária: compromisso com nosso ecossistema como um todo, independente das fronteiras. Por exemplo, diminuir a emissão de poluentes na atmosfera, reciclar o lixo, etc. A bioética é um campo do conhecimento que surgiu nas últimas décadas, decorrente da crescente necessidade de se aplicar os princípios éticos no campo da biologia e da saúde em geral. O comportamento ético em relação à saúde não se restringe ao alcance do indivíduo, mas influencia o social como um todo, devendo ser estudado e aplicado de forma mais responsável. Por exemplo, um foco de Doença de Chagas não afeta apenas o sujeito infectado, mas sim toda a região em volta, envolvendo questões de vigilância sanitária, acesso às moradias adequadas e contaminação de outras pessoas. A discussão da bioética é muito presente também nos laboratórios e centros de pesquisas, pois todo experimento que trata da saúde do ser humano deve antes ser aprovado em diversas instâncias para garantir que não estão sendo violados direitos e princípios éticos. Ética é uma palavra de origem grega que significa caráter, sendo traduzida para o latim como costume e utilizada como uma ‘ciência da moral’ ou ‘ciência do costume’, um “[...] conjunto de princípios morais que regem os direitos e deveres de cada um de nós e que são estabelecidos e aceitos numa época por determinada comunidade humana”. A bioética é um campo do conhecimento que surgiu nas últimas décadas, decorrente da crescente necessidade de se aplicar os princípios éticos no campo da biologia e da saúde em geral. 55 Saúde Privada: Organização Capítulo 2 Aprofundando a discussão da bioética, ela se sustenta em quatro grandes princípios os quais norteiam as ações e os procedimentos na saúde, desde a pesquisa até as práticas nos serviços. São eles: • Beneficência: princípio que visa fazer o bem ao outro, produzir o máximo de benefícios e minimizar os danos e riscos. Por exemplo, incentivar a capacitação dos profissionais de saúde para que os pacientes sempre possam contar com profissionais que entendam sobre a sua condição e possam ser mais bem atendidos; • Não-Maleficência: evitar produzir danos e procedimentos que façam mal ao outro, ainda que não haja intenção. Por exemplo, ao definir um procedimento médico padrão, investigar qual vai trazer menos dor, sofrimento e malefícios em geral ao paciente; • Autonomia: relacionada ao direito de decidir sobre si mesmo, tendo acesso a todas as informações necessárias ao processo decisório e levando em conta suas crenças e valores. Vale ressaltar que o princípio da autonomia esbarra diretamente com o bem coletivo, ou seja, uma decisão individual não pode provocar mal a um próximo ou ao coletivo. Pensando na aplicação das práticas de saúde, um paciente pode optar por práticas alternativas de medicina, como, por exemplo, a acupuntura, quando não interferir no tratamento formal. • Justiça: relaciona-se à distribuição adequada e justa de deveres e benefícios sociais. Por exemplo, a defesa de uma saúde pública, gratuita e de qualidade para todos. Os conceitos de ética e bioética, portanto, não se limitam à discussão na saúde, mas são princípios e formulações que transpassam nosso cotidiano, nossas práticas, nosso conhecimento, em busca de uma vida social mais justa e com qualidade para todos. As discussões e reflexões da Bioética não se limitam aos grandes dilemas éticos atuais como o projeto genoma humano, o aborto, a eutanásia ou os transgênicos, incluem também os campos da experimentação com animais e com seres humanos, os direitos e deveres dos profissionais da saúde e dos clientes, as práticas psiquiátricas, pediátricas e com indivíduos inconscientes e, inclusive, as intervenções humanas sobre o ambiente que influem no equilíbrio das espécies vivas, além de outros. A Bioética não está restrita às Ciências da Saúde. Ela desde que surgiu abrange todas as áreas do conhecimento. A sua atuação tem a ver com a vida. Tem enfoque interdisciplinar ou, talvez até, transdisciplinar (KOERICH; MACHADO; COSTA, 2005, p. 108). Os conceitos de ética e bioética, portanto, não se limitam à discussão na saúde, mas são princípios e formulações que transpassam nosso cotidiano, nossas práticas, nosso conhecimento, em busca de uma vida social mais justa e com qualidade para todos. 56 Gestão da Saúde Pública e Privada Atividade de Estudo: 1) Considerando o que foi exposto até o momento e resgatando o que já foi estudado sobre o SUS e a saúde suplementar, qual a relação entre a bioética e os sistemas de saúde no Brasil? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Como você deve recordar, a construção do SUS foi resultado de um movimento de reforma sanitária composto por pesquisadores, trabalhadores e usuários, reivindicando uma saúde pública e gratuita para todos os cidadãos brasileiros. A saúde era entendida como direito humano fundamental e se relacionava diretamente com o desenvolvimento social e econômico de um país. O Brasil reproduz esse princípio ao incluir na sua Constituição Federal de 1988 que a saúde é um direito e dever do Estado. Outra grande influência na proposta de construção do SUS foi a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, realizada em 1978, em Alma- Ata, elaborando a famosa Declaração de Alma-Ata, que deliberou como princípios: I) A Conferência enfatiza que a saúde - estado de completo bem- estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de doença ou enfermidade - é um direito humano fundamental, e que a consecução do mais alto nível possível de saúde é a mais importante meta social mundial, cuja realização requer a ação de muitos outros setores sociais e econômicos, além do setor saúde. II) A chocante desigualdade existente no estado de saúde dos povos, particularmente entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento, assim como dentro dos países, é política, social e economicamente inaceitável e constitui, por isso, objeto da preocupação comum de todos os países. III) O desenvolvimento econômico e social baseado numa ordem econômica internacional é de importância fundamental [...] para a redução da lacuna existente entre o estado de saúde dospaíses em desenvolvimento e o dos desenvolvidos. A promoção e proteção da saúde dos povos é essencial para o contínuo desenvolvimento econômico e social e contribui para a melhor qualidade de vida e para a paz mundial (CONFERÊNCIA INTERNACIONAL ..., 1978, p. 1). 57 Saúde Privada: Organização Capítulo 2 O professor Volnei Garrafa (2005) propõe a construção de uma bioética interventiva, estudo e práticas voltados especificamente para países com crescente desigualdade social verificada – como é o caso do Brasil. Essa bioética defende como princípios a priorização de políticas e tomadas de decisão que privilegiem o maior número de pessoas e que tragam as melhores consequências, bem como a busca de soluções viáveis e práticas resolutivas para conflitos identificados no mesmo contexto onde ocorrera (GARRAFA, 2005). Você consegue identificar qual o princípio do SUS que está implícito nesses aspectos? Você certamente se recorda do princípio da equidade, que discorre sobre ‘tratar de forma diferente os ‘desiguais’, de reconhecer as desigualdades e priorizar aquelas que seriam mais urgentes: A equidade é, então, a base ética que deve guiar o processo decisório da alocação de recursos. É somente através deste princípio, associado aos princípios da responsabilidade (individual e pública) e da justiça, que conseguiremos fazer valer o valor do direito à saúde. A equidade, ou seja, o reconhecimento de necessidades diferentes, de sujeitos também diferentes, para atingir direitos iguais, é o caminho da ética prática em face da realização dos direitos humanos universais, entre eles o do direito à vida representado, neste debate, pela possibilidade de acesso à saúde. A equidade é o princípio que permite resolver parte razoável das distorções na distribuição da saúde, ao aumentar as possibilidades de vida de importantes parcelas da população (GARRAFA; OSELKA; DINIZ, 1997, p. 4). A equidade é, então, o princípio ético que deve nortear nossas ações em saúde. Porém e a saúde suplementar? Quando discutimos ética e bioética não estamos apenas nos referindo às responsabilidades do Estado e do Poder Público, mas de todas as instituições, grupos e pessoas que compõem uma sociedade, incluindo-se, aí, as empresas privadas de saúde. A regulação da saúde suplementar, com as Leis n. 9.656, de 1988, e n. 9.961, de 2000, vêm no sentido de fazer cumprir alguns desses princípios, com normas como a não- exclusão de certos segmentos nos planos de saúde – como os deficientes – não estabelecer máximo de dias de internação ou de consultas, regulação das taxas e aumentos e outros. Uma forma de a saúde suplementar participar dessa luta pela equidade – e consequentemente futura igualdade – é de expandir a cobertura de assistência à população, fornecendo mais leitos, mais medicamentos e até mais conforto para a parcela da população que pode escolher entre o público e o privado. É importante pensarmos, também, na possibilidade de a saúde suplementar se expandir para regiões que não recebem uma quantidade suficiente de serviços de saúde, demandando maior atenção: 58 Gestão da Saúde Pública e Privada [...] essas questões encerram uma série de interesses, conflitos e divergências, que devem ser explicitados e debatidos, bem como as proposições e os acordos possíveis, pois são inerentes à própria vida humana. Não é aceitável, portanto, expor parte da sociedade a maiores gastos, sofrimento e dor, em função da falta de acesso aos serviços, porquanto existam duas formas de assistência à saúde no país, que não alcançam as necessidades concretas da população globalmente considerada (CARVALHO; FORTES; GARRAFA, 2013, p. 604). Por fim, o estudo da ética e da bioética, e, particularmente, no caso brasileiro, da bioética da intervenção, são importantes instrumentos para pensarmos nossa atuação em saúde, tanto a pública quanto a privada. No campo legislativo, atualizarmos e revisarmos as leis, procurando maior garantia legal para melhorias e mudanças. No campo de gestão, priorizar políticas e práticas que busquem a equidade, diminuindo as desigualdades sociais e promovendo a saúde. No nível mais local, estimular a capacitação dos profissionais de saúde para que estejam cada vez mais habilitados a resolver de forma eficiente os problemas de saúde, minimizando, assim, os danos e otimizando os benefícios. Cobrar, também, das prestadoras e convênios privados o cumprimento das leis, denunciar práticas abusivas e defender o seu direito de consumidor. São inúmeras práticas que podem ser aplicadas e cabe a nós, profissionais, pesquisadores e usuários de saúde, garantir que elas sejam cumpridas. Algumas Considerações Caro(a) pós-graduando(a), como foi a leitura desse capítulo? Esperamos ter contribuído com seu estudo, apresentando as bases legislativa da saúde suplementar, as especificidades de cada lei, os avanços e quais os pontos que ainda precisam de atenção. Também foi apresentada a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), seu papel regulatório, de fiscalização e o processo que gerou sua implantação. Em seguida, partimos para a ética e bioética, temática obrigatória nos estudos sobre a saúde. Foram abordados os quatro princípios clássicos da bioética e, também, o campo da bioética interventiva, que trata de forma mais específica a realidade brasileira. Esperamos ter contribuído para a construção do seu conhecimento. Caso existam dúvidas, abaixo é disponibilizada a lista de referências utilizada, além de outros sites que foram apontados no decorrer do texto. No próximo capítulo, trataremos da saúde privada, estudando de forma mais detalhada as operadoras e planos de saúde, bem como as tendências desse mercado. Até lá! 59 Saúde Privada: Organização Capítulo 2 Referências ANS. Agência Nacional de Saúde Suplementar. Dados gerais: beneficiários de planos privados de saúde, por cobertura assistencial (Brasil-2006-2016). Disponível em: <http://goo.gl/oiWXAG>. Acesso em: 30 maio 2016. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. _______. Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, 19 set. 1990. Seção 1, p. 18055. _______. Lei n. 9.656, de 3 de junho de 1998. Dispõe sobre os planos e seguros privados de assistência à saúde. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, 04 jun. 1998, p.1. _______. Lei n. 9.961, de 28 de janeiro de 2000. Cria a Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 19 jan. 2000, p. 5. CARVALHO, R. R. P.; FORTES, P. A. de C.; GARRAFA, V. A saúde suplementar em perspectiva bioética. Associação Médica Brasileira, Brasília, v. 59, n. 6, p. 600-606, nov./dez. 2013. CONASS. Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Coleção Para Entender a Gestão do SUS 2011. Brasília: CONASS, 2011. v. 12. CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE CUIDADOS PRIMÁRIOS DE SAÚDE. Declaração de Alma-Ata. Alma-Ata, URSS, 6-12 de setembro de 1978. Disponível em: <http://goo.gl/mvoic9>. Acesso em: 30 maio 2016. GARRAFA, V. Da bioética de princípios a uma bioética interventiva. Bioética, Brasília, v. 13, n. 1, p.125-134, 2005. GARRAFA, V.; OSELKA, G.; DINIZ, D. Saúde Pública, Bioética e Equidade. Bioética, Brasília, v. 5, n. 1, p. 1-6, 1997. KOERICH, M. S.; MACHADO, R. R.; COSTA, E. Ética e Bioética: para dar início à reflexão. Contexto Enfermagem, Florianópolis, v. 1, n. 14, p. 106-110, jan./mar. 2005. 60 Gestão da Saúde Pública e Privada MALTA, D. C. et al. Perspectivas da regulação na saúde suplementar diante dos modelos assistenciais. Ciência & Saúde Coletiva, Belo Horizonte, v. 2, n. 9, p. 433-444, abr./jun. 2004. PIETROBON, L.; PRADO, M. L.do; CAETANO, J. C. Saúde suplementar no Brasil: o papel da Agência Nacional de Saúde Suplementar na regulação do setor. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 4, n. 18, p. 767- 783, 2008. SOUSA, J. F. de. Diário Sanitário Moderno. São Paulo: Clube de Autores, 2010. TEIXEIRA, A.; BAHIA, L.; VIANNA, M. L. W. Nota sobre a regulação dos planos de saúde de empresasno Brasil. In: TEIXEIRA, A. (Org.). Regulação e Saúde: estrutura, evolução e perspectivas da assistência médica suplementar. Rio de Janeiro: Ministério da Saúde/ANS, 2002. CAPÍTULO 3 SAÚDE PRIVADA: SERVIÇOS A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Descrever a organização dos serviços privados em saúde. � Apresentar as principais tendências do mercado e diferentes modalidades de serviço. � Identificar a estrutura e o funcionamento das operadoras dos planos de saúde. � Classificar e identificar os diferentes serviços da saúde privada. � Esquematizar as modalidades atuais e examinar as principais tendências do mercado privado. 62 Gestão da Saúde Pública e Privada 63 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 Contextualização Olá, pós-graduando(a)! Enfim, encaminhamo-nos para o último capítulo deste caderno de estudos, que trata da Gestão da Saúde Pública e Privada no Brasil. Vamos revisar o que já foi visto até agora? O primeiro capítulo focou no estudo da saúde pública. Foi feita uma breve revisão sobre o histórico da saúde no Brasil, passando pelos diferentes períodos da história e os modelos assistenciais existentes, como a Previdência Social e o INAMPS. Reforçamos a importância do Movimento da Reforma Sanitária, responsável por pressionar o Poder Público para a criação de um Sistema Único de Saúde, o SUS. Depois, aprofundamo-nos na legislação criada para sustentar esse novo sistema, a Constituição Federal de 1988 - também conhecida como Constituição Cidadã - que trouxe a base da seguridade social ao Brasil, incluindo os direitos referentes à saúde, à previdência e à assistência social. Dois anos depois, foi sancionada a Lei n. 8.080 de 1990 – também conhecida como Lei Orgânica do SUS – e a Lei n. 8.142 de 1990, que trata das transferências intergovernamentais e da participação social. Ainda no primeiro capítulo, passamos pelos princípios e diretrizes do SUS, eixos que norteiam a organização do sistema. Ambos são baseados na legislação, porém divergem quanto à função: os princípios se referem aos objetivos, às metas que devem ser alcançadas; enquanto as diretrizes dizem respeito às estratégias que serão utilizadas para alcançar esses fins. Depois, abordamos a organização e gestão do SUS, as responsabilidades de cada esfera (Federal, Estadual e Municipal) e a hierarquização dos serviços de acordo com sua complexidade - Atenção Primária ou Básica, Secundária e Terciária. E, por fim, falamos da participação social, dos Conselhos e Conferências de Saúde e da Política de Humanização, que remodela os serviços, atendimentos e filosofia do SUS, sendo compreendida como uma ‘ética de trabalho’. Já no capítulo 2, nosso tema foi a Saúde Privada e sua organização. Destacamos o papel da Saúde Suplementar no Brasil, que coexiste com o SUS, ofertando maior gama de serviços e equipamentos. Iniciamos o capítulo com a legislação que dá suporte para o funcionamento da Saúde Privada, regulamentando as ofertas e delimitando sua área de atuação. Dentre as leis, destacam-se a Lei n. 9.656 de 1988, que define o que são as operadoras de plano de saúde e o plano-referência, indicador do contrato mínimo estabelecido entre operadora e usuário. Outra lei importante é a Lei n. 9.961 de 2000, marco legal de 64 Gestão da Saúde Pública e Privada As Operadoras são as organizações que viabilizam o contato dos usuários de saúde com os prestadores de serviço. criação da Agência Nacional de Saúde Suplementar, a ANS. Por último, tratamos da ética e bioética aplicadas aos sistemas de saúde no país, tanto o público quanto o privado. Neste último capítulo, abordaremos a organização da Saúde Privada e suas particularidades. No primeiro tópico, sobre as Operadoras de Plano de Saúde, serão apresentadas as chamadas Operadoras de Saúde, suas distintas modalidades e as especificidades de cada uma. Também abordaremos os Planos e Prestadores de Saúde, atentando para a relação que se estabelece entre essas entidades. No tópico seguinte, falaremos sobre a Política e Organização dos Serviços de Saúde, aprofundando mais o conteúdo sobre o papel regulatório da ANS e os mecanismos utilizados para exercer tal fiscalização. Por fim, serão abordadas as Tendências e Financiamentos do Mercado de Saúde Suplementar, traçando um histórico das empresas de saúde até o momento atual e quais são os desafios encontrados. Vamos lá! Operadoras de Plano de Saúde: Estrutura e Funcionamento Iniciaremos este tópico falando sobre o que são as Operadoras de Plano de Saúde, como se organizam e funcionam. Para isso, abordaremos três conteúdos: as Operadoras de Saúde, os Planos de Saúde e os Prestadores. Ao final do tópico, você será capaz de compreender a associação entre as três entidades. Como já vimos anteriormente, uma grande parcela da população opta por contratar serviços de saúde de forma particular, ainda que utilizando o SUS. As Operadoras são as organizações que viabilizam o contato dos usuários de saúde com os prestadores de serviço. Esse encontro tem como objetivo tanto organizar os serviços, agrupando os prestadores, quanto diminuir os custos individuais para os usuários. Vale destacar a diferença entre Operadora e Plano de Saúde. A Operadora é a entidade jurídica, a empresa, que pode operar diferentes tipos de planos. O Plano é um serviço, que será escolhido e acordado no momento do contrato. Vejamos a definição na Lei n. 9.656 de 1998, que dispõe sobre os planos e seguros privados de assistência à saúde: A Operadora é a entidade jurídica, a empresa, que pode operar diferentes tipos de planos. O Plano é um serviço, que será escolhido e acordado no momento do contrato. 65 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 Art. 1º. Submetem-se às disposições desta Lei as pessoas jurídicas de direito privado que operam planos de assistência à saúde, sem prejuízo do cumprimento da legislação específica que rege a sua atividade, adotando-se, para fins de aplicação das normas aqui estabelecidas, as seguintes definições: I - Plano Privado de Assistência à Saúde: prestação continuada de serviços ou cobertura de custos assistenciais a preço pré ou pós estabelecido, por prazo indeterminado, com a finalidade de garantir, sem limite financeiro, a assistência à saúde, pela faculdade de acesso e atendimento por profissionais ou serviços de saúde, livremente escolhidos, integrantes ou não de rede credenciada, contratada ou referenciada, visando a assistência médica, hospitalar e odontológica, a ser paga integral ou parcialmente às expensas da operadora contratada, mediante reembolso ou pagamento direto ao prestador, por conta e ordem do consumidor; II - Operadora de Plano de Assistência à Saúde: pessoa jurídica constituída sob a modalidade de sociedade civil ou comercial, cooperativa, ou entidade de autogestão, que opere produto, serviço ou contrato de que trata o inciso I deste artigo (BRASIL, 1998). As Operadoras são classificadas pela ANS de acordo com sua forma de organização, apresentando características próprias quanto à sua atuação no mercado. De acordo com a Resolução RDC n. 39 de 2000 (BRASIL, 2000), as Operadoras podem ser classificadas em oito modalidades. Veja: a) Administradora: segundo a RN n. 196 de 2009, a administradora de benefícios é a pessoa jurídica que realiza a contratação de planos privados de assistência à saúde coletivos (BRASIL, 2009). Segundo a Associação Nacional de Administradoras de Benefícios (ANAB):A Administradora de Benefícios é uma pessoa jurídica, devidamente regulada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que atua como estipulante ou prestadora de serviço de empresas, órgãos públicos ou entidades representativas que desejam contratar um plano de saúde coletivo, auxiliando-os a proporcionar acesso à saúde a população a eles vinculada. Por serem especializadas em planos de saúde coletivos, as Administradoras de Benefícios ampliam ainda mais o poder de negociação desses contratantes, na medida em que eles passam a ter maior compreensão sobre os direitos garantidos pela legislação que rege o setor, além de poderem contar com o suporte logístico e a infra-estruturar de serviços que elas oferecem. (ANAB, 2016). 66 Gestão da Saúde Pública e Privada Atualmente, existem aproximadamente 110 administradoras de benefícios registradas na ANS. b) Cooperativa Médica: são sociedades de pessoas sem fins lucrativos, que operam planos privados de saúde. Nessa modalidade, os profissionais médicos são, ao mesmo tempo, sócios e prestadores de serviço e recebem proporcionalmente à sua produção. Um exemplo dessa modalidade é o sistema UNIMED, que hoje reúne cerca de 350 cooperativas. c) Cooperativa Odontológica: segue a mesma lógica que a Cooperativa Médica, oferecendo, exclusivamente, planos odontológicos. Um exemplo é a Uniodonto. d) Autogestão: destinada a atender apenas uma determinada classe de usuários, como, por exemplo, empregadores de uma empresa e seus beneficiários. Podem ser patrocinadas, caso possuam gestão própria, inclusive, possuindo mais de um patrocinador. O objetivo desse modelo organizativo é fornecer um atendimento de qualidade aos seus usuários com menor custo para o patrocinador. É uma organização que não visa ao lucro. São exemplos o Cassi (dos funcionários do Banco do Brasil e seus dependentes) e a Cemig Saúde (para funcionários da Cemig). Atualmente, existem cerca de 180 Operadoras de Autogestão no Brasil. e) Medicina de Grupo: empresas com fins lucrativos que operam e administram planos de assistência para empresas ou indivíduos mediante pagamentos. Essa modalidade de Operadora se apoia, principalmente, em uma estrutura de profissionais credenciados. São exemplos a Amil e a Golden Cross. 67 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 O site da ABRAMGE (Associação Brasileira de Planos de Saúde) mantém uma lista atualizada das Operadoras da Modalidade Medicina de Grupo no seguinte endereço eletrônico: <http://goo.gl/ xcKUpx>. f) Odontologia de Grupo: segue o mesmo funcionamento das Operadoras da Modalidade Medicina de Grupo, mas operando, exclusivamente, com planos odontológicos. São exemplos a Amil Dental e Dr. Sorriso. g) Filantropia: são entidades sem fins lucrativos que operam Planos Privados de Assistência à Saúde. Para isso, devem ter obtido certificado de entidade filantrópica junto ao Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) e declaração de utilidade pública federal junto ao Ministério da Justiça ou uma declaração de utilidade pública estadual ou municipal. Além disso, é necessário comprovar que destinam pelo menos 60% das suas instalações aos usuários do SUS. Um exemplo são as conhecidas Santas Casas. h) Seguradoras: funcionam como seguradoras de outros serviços, porém específicas para a assistência à saúde. A seguradora realiza a intermediação entre o usuário e o prestador, mediante sistema de reembolso. A diferença em relação às outras operadoras é que o usuário pode escolher livremente o prestador. Exemplos: Porto Seguro, Bradesco Saúde, Sul América, Allianz Saúde. Você pode verificar a situação de uma administradora de benefícios ou operadora de saúde diretamente no site da ANS. A consulta é pública e realizada no seguinte endereço eletrônico: <http://goo.gl/M7xXmo>. O gráfico abaixo foi retirado do Caderno de Informação da Saúde Suplementar, lançado pela ANS em dezembro de 2015, mostrando a quantidade de beneficiários em cada modalidade de Operadora de Saúde - nas categorias médicas - durante as variações de setembro de 2010 até setembro de 2015. 68 Gestão da Saúde Pública e Privada Figura 5 – Beneficiários de planos de assistência médica por modalidade da operadora (Brasil – setembro/2010 – setembro/2015) Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/AVbKZt>. Acesso em: 15 jun. 2016. O Caderno de Informação da Saúde Suplementar, lançado pela ANS em dezembro de 2015, está disponível no seguinte endereço eletrônico: <http://goo.gl/AVbKZt>. A forma de organização e de funcionamento das Operadoras de Saúde melhorou muito nos últimos anos, em parte devido às novas legislações que definiram as especificidades e os campos de atuação. A fiscalização da ANS também contribuiu para isso, garantindo o direito de acesso dos beneficiários. Nas palavras de Silva (2003, p. 3): As Operadoras de Planos De Saúde, é preciso considerar e registrar, a partir de uma visão empreendedora e extremamente arrojada, ao longo do seu processo de evolução prestaram e prestam um grande serviço à população brasileira, permitindo o seu acesso aos serviços de saúde. Em especial porque ocuparam uma fatia enorme do espaço deixado pela ineficiência, pela ausência efetiva de determinação política e pela incapacidade de financiamento do setor público. A forma de organização e de funcionamento das Operadoras de Saúde melhorou muito nos últimos anos, em parte devido às novas legislações que definiram as especificidades e os campos de atuação. A fiscalização da ANS também contribuiu para isso, garantindo o direito de acesso dos beneficiários. 69 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 Falemos, agora, um pouco sobre os Planos de Saúde. Voltemos ao Artigo 1º, Inciso I, da Lei n. 9.656 de 1998: I - Plano Privado de Assistência à Saúde: prestação continuada de serviços ou cobertura de custos assistenciais a preço pré ou pós estabelecido, por prazo indeterminado, com a finalidade de garantir, sem limite financeiro, a assistência à saúde, pela faculdade de acesso e atendimento por profissionais ou serviços de saúde, livremente escolhidos, integrantes ou não de rede credenciada, contratada ou referenciada, visando a assistência médica, hospitalar e odontológica, a ser paga integral ou parcialmente às expensas da operadora contratada, mediante reembolso ou pagamento direto ao prestador, por conta e ordem do consumidor (BRASIL, 1998). O plano é estabelecido por meio de um contrato entre a Operadora e o usuário e diz respeito aos serviços que poderão ser acessados. Os planos irão diferenciar-se de acordo com a modalidade de contratação, a data de assinatura, a cobertura assistencial, a abrangência geográfica e outros. Quanto aos tipos de abrangência, a Lei n. 9.656 de 1998 estabelece dois tipos de coberturas que o Plano pode oferecer: a cobertura integral do Plano-Referência ou a cobertura integral por segmento – hospitalar, ambulatorial, hospitalar com obstetrícia e odontológico. O Plano- Referência estabelece quais os serviços obrigatoriamente devem constar nessas modalidades específicas. Abaixo, estão sintetizadas as principais exigências contidas no Plano-Referência, retiradas do Artigo 12, da Lei n. 9.656 de 1998. Veja: I - Quando incluir atendimento ambulatorial: cobertura de consultas médicas em número ilimitado, em clínicas básicas e especializadas; cobertura de serviços de apoio diagnóstico, tratamentos e demais procedimentos ambulatoriais solicitados pelo médico assistente; cobertura de tratamentos antineoplásicos domiciliares de uso oral, incluindo medicamentos para o controle de efeitos adversos relacionados ao tratamento e adjuvantes; II - Quando incluir internação hospitalar: cobertura de internações hospitalares, vedada a limitação de prazo, valor máximo e quantidade, em clínicas básicas e especializadas; cobertura de internações hospitalares em centro de terapia intensiva, ou similar,vedada a limitação de prazo, valor máximo e quantidade, a critério do médico assistente; cobertura de exames complementares indispensáveis para o controle da evolução da doença e elucidação diagnóstica, fornecimento de medicamentos, anestésicos, gases medicinais, transfusões e sessões de quimioterapia e radioterapia, conforme prescrição do médico assistente, realizados ou ministrados durante Quanto aos tipos de abrangência, a Lei n. 9.656 de 1998 estabelece dois tipos de coberturas que o Plano pode oferecer: a cobertura integral do Plano- Referência ou a cobertura integral por segmento – hospitalar, ambulatorial, hospitalar com obstetrícia e odontológico. 70 Gestão da Saúde Pública e Privada o período de internação hospitalar; cobertura de toda e qualquer taxa, incluindo materiais utilizados, assim como da remoção do paciente, comprovadamente necessária, para outro estabelecimento hospitalar, dentro dos limites de abrangência geográfica previstos no contrato, em território brasileiro; cobertura de despesas de acompanhante, no caso de pacientes menores de dezoito anos; III - Quando incluir atendimento obstétrico: cobertura assistencial ao recém-nascido, filho natural ou adotivo do consumidor, ou de seu dependente, durante os primeiros trinta dias após o parto; inscrição assegurada ao recém-nascido, filho natural ou adotivo do consumidor, como dependente, isento do cumprimento dos períodos de carência, desde que a inscrição ocorra no prazo máximo de trinta dias do nascimento ou da adoção; IV - Quando incluir atendimento odontológico: cobertura de consultas e exames auxiliares ou complementares, solicitados pelo odontólogo assistente; cobertura de procedimentos preventivos, de dentística e endodontia; cobertura de cirurgias orais menores, assim consideradas as realizadas em ambiente ambulatorial e sem anestesia geral; V - Quando fixar períodos de carência: prazo máximo de trezentos dias para partos a termo; prazo máximo de cento e oitenta dias para os demais casos; prazo máximo de vinte e quatro horas para a cobertura dos casos de urgência e emergência (BRASIL, 1998). Considerando essas especificidades, os Planos de Saúde ainda podem se diferenciar quanto à forma de contratação. Os planos contratados por pessoas físicas podem ser individuais ou familiares, ou, ainda, operados na modalidade de Autogestão. Os planos contratados por pessoa jurídica são também conhecidos como planos coletivos e correspondem aos planos de empresas, oferecidos aos seus empregadores. O individual garante a cobertura para o titular e seus dependentes, enquanto o coletivo é assinado entre uma pessoa jurídica e a Operadora, garantindo a assistência a seus empregados. Os contratos coletivos podem ser empresariais – quando o empregado é automaticamente incluído – ou por adesão, quando a assistência é opcional (ALBUQUERQUE et al., 2008). Também existem as diferenciações quanto à área de abrangência coberta pelo plano. Alguns garantem cobertura nacional, outros apenas na área municipal, com alguns serviços de referência na esfera estadual. No momento da contratação, todos esses itens devem estar especificados de forma clara e descritiva. O Artigo 16, da Lei n. 9.656 de 1998, delimita quais as informações devem obrigatoriamente conter nos contratos: Considerando essas especificidades, os Planos de Saúde ainda podem se diferenciar quanto à forma de contratação. Os planos contratados por pessoas físicas podem ser individuais ou familiares, ou, ainda, operados na modalidade de Autogestão. Também existem as diferenciações quanto à área de abrangência coberta pelo plano. Alguns garantem cobertura nacional, outros apenas na área municipal, com alguns serviços de referência na esfera estadual. 71 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 Art. 16. Dos contratos, regulamentos ou condições gerais dos produtos de que tratam o inciso I e o § 1o do art. 1o desta Lei devem constar dispositivos que indiquem com clareza: I - as condições de admissão; II - o início da vigência; III - os períodos de carência para consultas, internações, procedimentos e exames; IV - as faixas etárias e os percentuais a que alude o caput do art. 15; V - as condições de perda da qualidade de beneficiário; VI - os eventos cobertos e excluídos; VII - o regime, ou tipo de contratação: a) individual ou familiar; b) coletivo empresarial; ou c) coletivo por adesão; VIII - a franquia, os limites financeiros ou o percentual de co- participação do consumidor ou beneficiário, contratualmente previstos nas despesas com assistência médica, hospitalar e odontológica; IX - os bônus, os descontos ou os agravamentos da contraprestação pecuniária; X - a área geográfica de abrangência; XI - os critérios de reajuste e revisão das contraprestações pecuniárias. XII - número de registro na ANS. Parágrafo único. A todo consumidor titular de plano individual ou familiar será obrigatoriamente entregue, quando de sua inscrição, cópia do contrato, do regulamento ou das condições gerais dos produtos de que tratam o inciso I e o § 1o do art. 1o, além de material explicativo que descreva, em linguagem simples e precisa, todas as suas características, direitos e obrigações (BRASIL, 1998). Por fim, cabe abordar o papel das prestadoras de serviços. A Operadora é a entidade responsável por disponibilizar e organizar os Planos de Saúde, que são compostos por uma série de serviços disponíveis, e a Prestadora seria a responsável por oferecer aos beneficiários esses serviços. Segundo o Artigo 20, da Lei n. 8.080/1990, os serviços privados da saúde “[...] caracterizam-se pela atuação, por iniciativa própria, de profissionais liberais, legalmente habilitados, e de pessoas jurídicas de direito privado na promoção, proteção e recuperação da saúde” (BRASIL, 1990). Segundo Novaes (2004, p. 147): Os serviços de saúde são hoje estruturas organizacionais e técnicas extremamente diversificadas, incluindo desde consultórios individuais e unidades básicas até hospitais terciários e especializados, bem como serviços de apoio diagnóstico e terapêutico. A condição essencial para sua identificação é ser o espaço onde se localizam os profissionais e as tecnologias materiais responsáveis pela realização da atenção à saúde da população. Segundo o Artigo 20, da Lei n. 8.080/1990, os serviços privados da saúde “[...] caracterizam-se pela atuação, por iniciativa própria, de profissionais liberais, legalmente habilitados, e de pessoas jurídicas de direito privado na promoção, proteção e recuperação da saúde” (BRASIL, 1990). 72 Gestão da Saúde Pública e Privada É estabelecida a obrigatoriedade de celebração de um contrato entre a Operadora de Saúde e os prestadores de serviço, garantindo, assim, os direitos tanto do consumidor quanto do prestador. O contrato deve estabelecer com clareza as condições para a sua execução, expressas em cláusulas que definam direitos, obrigações e responsabilidades das partes, incluídas, obrigatoriamente, aquelas que determinem: • Objeto; • Natureza do contrato, com descrição de todos os serviços contratados; • Valores dos serviços contratados; • Identificação dos atos, eventos e procedimentos assistenciais que necessitem de autorização da operadora; • Prazos e procedimentos para faturamento dos pagamentos e pagamento dos serviços prestados; • Critérios, forma e periodicidade dos reajustes dos preços a serem pagos pelas operadoras, que deverá ser obrigatoriamente anual; • Penalidades pelo não cumprimento das obrigações estabelecidas; • Vigência do contrato; • Critérios para prorrogação, renovação e rescisão. Esses serviços de saúde podem ser desde a clínica particular de um médico até um centro de reabilitação de fisioterapeutas e uma empresa de tratamento Home Care. Eles devem ser constantemente fiscalizados – inclusive os particulares – garantindo, assim,um bom serviço e atendimento. A Organização Nacional de Acreditação (ONA) é a instituição competente e autorizada a operacionalizar o desenvolvimento do Processo de Acreditação Hospitalar. A ONA é uma organização não governamental e sem fins lucrativos, e não substitui o papel da fiscalização oficial do Estado, porém confere um título de certificação a determinados serviços de saúde. 73 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 Define-se Acreditação como um sistema de avaliação e certificação da qualidade dos serviços de saúde. Tem um caráter eminentemente educativo, voltado para a melhoria contínua, sem finalidade de fiscalização ou controle oficial/governamental, não devendo ser confundida com os procedimentos de licenciamento e ações típicas do Estado. Ainda sobre a Acreditação Hospitalar, Silva (2003, p. 21) afirma: Mesmo com os avanços verificados, em benefício da qualidade médico-assistencial e hospitalar, é preciso avançar de forma mais intensa na Acreditação Hospitalar. Este é um desafio que poderá ser rápida e eficazmente vencido se as Operadoras de Planos de Saúde e os Prestadores de Serviços estiverem envolvidos. Entretanto, ainda que a Acreditação Hospitalar por si só não garanta a qualidade da assistência, criar, a partir dela, incentivos pelo desempenho clínico e das condições de infraestrutura, é um caminho que precisa ser perseguido. Esses incentivos poderão ser de ordem econômica, de reconhecimento no mercado, de diferenciais comerciais e de relacionamento. É possível encontrar formas bastante satisfatórias para fortalecer a Acreditação Hospitalar como um instrumento de valorização da qualidade da assistência médico-assistencial e hospitalar. Para saber mais sobre a Acreditação Hospitalar, consulte o Manual Brasileiro de Acreditação Hospitalar, disponível no seguinte endereço eletrônico: <http://goo.gl/9DNFo1>. Encerramos aqui este item, no qual fizemos um recorte sobre as Operadoras de Saúde, suas diferentes modalidades e especificidades, a relação com os Planos de Saúde, apontando as diferenças e obrigações que devem seguir os contratos e, por fim, o papel das Prestadoras de Serviços. 74 Gestão da Saúde Pública e Privada Política e Organização dos Serviços em Saúde: O Papel Regulatório da ANS Neste item, aprofundaremo-nos no trabalho regulatório da ANS, assunto que já abordamos no capítulo 2, quando falamos da Lei n. 9.961 de 1998, que trata da sua criação. Agora, aproveitaremos este conhecimento acumulado em outras questões, como, por exemplo, a mistura do sistema Público e Privado em alguns serviços, a questão do ressarcimento e outros pontos importantes. Como já foi colocado anteriormente, a Saúde Privada existe antes da criação do SUS e sua regulação/fiscalização só veio a ser concretizada alguns anos adiante. A criação da Lei n. 9.961/2000 modificou o modo como a Saúde Suplementar se organizava no mercado, que, a partir dela, teve que se adaptar às novas exigências, como a ampliação da cobertura assistencial, o ressarcimento ao SUS, o registro das operadoras, o acompanhamento de preços pelo governo, a obrigatoriedade da comprovação de solvência, reservas, técnicas e outros (MALTA, 2004). O debate sobre o papel regulatório da ANS permanece intenso até hoje. Em um campo com diversos atores com diferentes interesses – consumidores querendo fazer valer seu poder de compra e seus direitos, prestadores de serviços buscando reconhecimento e valorização do trabalho, o Estado que deve cuidar da saúde da população em geral – os embates seguem até hoje. Dentre os motivos que justificam essa regulação por parte da ANS em um serviço privado - as Operadoras de Saúde - estão os seguintes: • O setor de bens e serviços de saúde são bens credenciais, ou seja, precisam passar por uma certificação que ateste sua qualidade. Por exemplo, um remédio deve passar por uma série de pesquisas e testes até ser aprovado para consumo. Nesse caso, o consumidor não tem como atestar se determinado serviço ou medicação não irá lhe fazer mal, necessitando de uma fiscalização por órgão competente; • Por se tratar de especialidades técnicas, o consumidor, muitas vezes, não tem capacidade de atestar se determinada indicação realmente tem valor terapêutico. Por exemplo, um profissional poderia indicar um exame apenas para arrecadar mais dinheiro. Para isso, é importante que existam frequentes auditorias e controle da quantidade dos serviços solicitados; O debate sobre o papel regulatório da ANS permanece intenso até hoje. Em um campo com diversos atores com diferentes interesses – consumidores querendo fazer valer seu poder de compra e seus direitos, prestadores de serviços buscando reconhecimento e valorização do trabalho, o Estado que deve cuidar da saúde da população em geral – os embates seguem até hoje. 75 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 Considerando essas pontuações, entende-se que a regulação da Saúde Suplementar se dá para além de uma questão apenas de preços e mercado, mas também influencia nos serviços de saúde que são diretamente oferecidos aos consumidores. • Geração de externalidades difusas, em consequência do consumo de diversos produtos de saúde, sobre o resto da sociedade. Por exemplo, se determinada parcela de uma comunidade receber uma vacina e a outra não, isso pode acarretar maiores chances de um indivíduo não vacinado contrair a doença, além de sobrecarregar o sistema público e aumentar a desigualdade social; • O fato de alguns bens e serviços de saúde em alguns países serem considerados meritórios, ou seja, direitos plenos de cidadania. Outro exemplo seria a educação, que também é entendida como um direito de todos (CONASS, 2011) Considerando essas pontuações, entende-se que a regulação da Saúde Suplementar se dá para além de uma questão apenas de preços e mercado, mas também influencia nos serviços de saúde que são diretamente oferecidos aos consumidores: Após a aprovação da Lei 9.656/1998, abriu-se uma disputa dentro do aparelho do Estado, onde alguns setores defendem uma nova perspectiva no processo regulatório do Estado, entendendo uma nova atribuição no papel regulatório, ou seja, a regulação da produção do cuidado à saúde. Esses setores entendem que as operadoras podem ser gestoras da saúde dos seus beneficiários, ou não, e que essa prática precisa ser regulada pelo Estado. Essa perspectiva abre uma nova frente de ação do Estado. No que se praticava até então no processo regulatório, amplia-se para o entendimento que se deve intervir também na regulação do cuidado à saúde, praticado pelas operadoras (MALTA, 2004, p. 14). Um exemplo da necessidade de regulação também nos modelos de saúde, nos fluxos e nos serviços oferecidos são mecanismos microrregulatórios que as Operadoras criam para lidar com a fiscalização e com a demanda do mercado. Esses mecanismos podem gerar uma quantidade excessiva de encaminhamentos, ou consultas de duração muito curta, ou seja, práticas centradas na lógica da demanda e da oferta e que não têm uma proposta de um cuidado contínuo. Prevenção e promoção da saúde são práticas que ainda não são prioridades, apesar de alguns esforços por parte da ANS e de algumas operadoras. Atuando, também, nesse espaço, a ANS garante uma maior proteção às prestadoras de serviço que não ficam reféns de uma lógica de mercado na qual devem fornecer atendimentos que priorizem melhor custo-benefício, mas sim uma maior qualidade e atenção. 76 Gestão da Saúde Pública e Privada Nas práticas de promoção da saúde, a ANS criou o Projeto Idoso Bem Cuidado, cuja adesão das operadoras é voluntária. Para conhecer mais sobre essa iniciativa, acesse o seguinte endereço eletrônico: <http://goo.gl/tdcIeV>. É possível que você já tenha ouvido falar do termo Ressarcimento ao SUS, pois esse mecanismo é previsto desde a Lei n. 9.656/1998, que, em seu Artigo32, delimita: Art. 32. Serão ressarcidos pelas operadoras dos produtos de que tratam o inciso I e o § 1o do art. 1o desta Lei, de acordo com normas a serem definidas pela ANS, os serviços de atendimento à saúde previstos nos respectivos contratos, prestados a seus consumidores e respectivos dependentes, em instituições públicas ou privadas, conveniadas ou contratadas, integrantes do Sistema Único de Saúde - SUS (BRASIL, 1998). O ressarcimento, então, é um pagamento que deve ser feito das Operadoras de Saúde para o SUS cada vez que um usuário/ beneficiário de algum Plano Particular de saúde utiliza serviços do SUS. Também pode ser justificado se o procedimento não for coberto pelo plano de saúde do paciente e, nesse caso, o pedido de ressarcimento deve ser analisado por meio do prontuário para comprovar a não-cobertura. Por exemplo, se determinado usuário possui um Plano Hospitalar privado e, por algum motivo, interna-se em um hospital público, a Operadora é notificada e deve ressarcir o SUS por esse serviço que deveria ter sido fornecido por ela. O ressarcimento do SUS configura um instrumento regulatório, impedindo que os equipamentos públicos sejam utilizados de forma abusiva, garantindo o acordado nos contratos dos Planos de Saúde. Esse dinheiro arrecadado, ao final, é partilhado entre o Fundo Nacional de Saúde (FNS) e os equipamentos públicos que prestaram os serviços. Abaixo é reproduzido o fluxograma do ressarcimento do SUS, disponível no Caderno de Informação de Ressarcimento e Integração com o SUS, lançado pela ANS em 2008: O ressarcimento, então, é um pagamento que deve ser feito das Operadoras de Saúde para o SUS cada vez que um usuário/beneficiário de algum Plano Particular de saúde utiliza serviços do SUS O ressarcimento do SUS configura um instrumento regulatório, impedindo que os equipamentos públicos sejam utilizados de forma abusiva, garantindo o acordado nos contratos dos Planos de Saúde. 77 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 Figura 6 – Fluxo simplificado do processo de ressarcimento ao SUS Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/zgxsc8>. Acesso em: 16 jun. 2016. A partir do mês de junho de 2015, passaram a ser ressarcidos também os procedimentos de alta e média complexidade, como quimioterapia, hemodiálise, cirurgias de catarata e outros. Cabe apontar que a medida de Ressarcimento do SUS é uma questão polêmica, que levanta embates entre as Operadoras e a ANS. Por um lado, as Operadoras afirmam que esse ressarcimento seria inconstitucional, pois a saúde deve ser pública e gratuita a todos, independentemente do usuário pagar um plano de saúde ou não. Esse Cabe apontar que a medida de Ressarcimento do SUS é uma questão polêmica, que levanta embates entre as Operadoras e a ANS. Considerando essas pontuações, entende-se que a regulação da Saúde Suplementar se dá para além de uma questão apenas de preços e mercado, mas também influencia nos serviços de saúde que são diretamente oferecidos aos consumidores. 78 Gestão da Saúde Pública e Privada Essas e outras informações complementares você encontra no Boletim Informativo - Utilização do Sistema Público por Beneficiários de Planos de Saúde e Ressarcimento ao SUS – Abril/2016, no seguinte endereço eletrônico: <http://goo.gl/rLto92>. Apesar de ser uma medida criada pela Lei n. 9.656/1998, até hoje a cobrança desse ressarcimento ocorre de forma incipiente. Segundo pesquisa realizada pelo IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), 63% das dívidas cobradas às Operadoras ainda não foram quitadas, o que corresponde a um valor de aproximadamente 740 milhões de reais. Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/LbyDCU>. Acesso em: 16 jun. 2016. Você imagina quais são os procedimentos mais utilizados no SUS por usuários de planos de saúde privados? Abaixo segue a tabela disponibilizada pela ANS de Autorização de Procedimento Hospitalar (AIH). Veja: pagamento também seria responsável pelo aumento dos preços dos planos, uma vez que é responsabilidade da Operadora pagar essa dívida (MARTINS; LEITE; NOVAIS, 2010). Por outro lado, a ANS e os órgãos públicos afirmam que este pagamento é uma forma de evitar que as Operadoras forneçam um atendimento de baixa qualidade, não garantindo os serviços acordados em contrato e fazendo com que os usuários procurem o SUS para suprir suas demandas. Se o usuário contratou um serviço com plano hospitalar, a Operadora deve fornecer um equipamento de qualidade para que ele possa ser atendido neste plano, fazendo valer o seu investimento. 79 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 Tabela 1 - Autorização de Procedimento Hospitalar (AIH) Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/x4z6nk>. Acesso em: 16 jun. 2016. Dentre os diversos procedimentos, a hemodiálise é responsável por aproximadamente 40% de toda a arrecadação do ressarcimento, demonstrando a grande busca de usuários de planos privados por este serviço nos equipamentos públicos. Chegamos ao final deste tópico, no qual se discutiu o papel organizativo da ANS dentro da Saúde Suplementar, a necessidade da fiscalização, a proteção aos usuários/prestadores de serviços e o mecanismo de ressarcimento do SUS. 80 Gestão da Saúde Pública e Privada Financiamento e Tendências do Mercado No último tópico, estudaremos o mercado da Saúde Suplementar, as tendências atuais, as dificuldades e os setores que estão recebendo maiores investimentos. Para iniciar esse estudo, traçaremos um breve histórico sobre como as Operadoras e os planos e saúde se posicionam no mercado desde a regulação da ANS (1998). O mercado de Saúde Suplementar é ligado diretamente às questões como urbanização – cidades com maior infraestrutura têm mais usuários de planos privados – industrialização, renda e taxas de desemprego – quanto maior o número de pessoas empregadas maior o número de planos comercializados (ALBUQUERQUE et al., 2008). Ou seja, assim como outros produtos, é um mercado ligado diretamente à situação econômica e social do país. Apesar do Sistema de Saúde Privado ser mais antigo que o SUS, existem poucos dados para conseguirmos ter uma visão sobre como funcionava a comercialização de Planos antes da criação da ANS. Isso ocorre justamente pela falta de regulação da época, dificultando a sistematização de dados. Porém, como já foi dito, a criação das Operadoras de Saúde foi um importante mecanismo no sentido de suprir uma demanda dos trabalhadores da época, os quais ainda não contavam com um Sistema Único de Saúde e demandavam um serviço de qualidade. A industrialização crescente levou à criação de empresas e esquemas próprios de assistência médico-hospitalar, também motivada pelo empresariamento e pela capitalização da medicina, que ocorreu por meio de financiamentos governamentais que fortaleceram o setor privado na prestação de serviços de saúde. Profissionais de saúde e prestadores de serviços identificaram a possibilidade de oferecer acesso a serviços de saúde a uma importante parcela da população das regiões urbanas e industrializadas, que possuía vínculo formal de trabalho nas indústrias de transformação, metalurgia e química. Estes fatores estimularam o credenciamento de serviços, contribuindo para a expansão do mercado, particularmente de empresas de medicina de grupo e cooperativas médicas (ALBUQUERQUE et al., 2008, p. 1423). O surgimento da ANS criou uma solução, mas também gerou um problema. Por um lado, veio regulamentar um mercado desordenado, que possuía uma grande quantidade de planos e operadoras irregulares e sem critérios e padrões de qualidade. Por outro lado, veio atuar em um mercado que já existia e funcionava de O surgimento da ANS criou uma solução, mas também gerou um problema. Por um lado, veio regulamentar um mercado desordenado, que possuía uma grande quantidade de planos e operadoras irregulares e semcritérios e padrões de qualidade. Por outro lado, veio atuar em um mercado que já existia e funcionava de determinada forma. Houve um período de adaptação para que a lei e as novas regras fossem incorporadas pelas empresas. 81 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 determinada forma. Houve um período de adaptação para que a lei e as novas regras fossem incorporadas pelas empresas. A regulação trouxe mudanças importantes, atuando nos planos criados após a Lei n. 9.961/2000, mantendo os planos antigos sua estrutura (BRASIL, 2000). Um dos grandes benefícios da regulação da ANS para as Operadoras e para o mercado de Saúde Suplementar foi a possibilidade de estabelecer um perfil de usuário, estimar a abrangência dos planos de saúde no Brasil, quais os insumos e procedimentos mais usados e outros dados. A partir do ano 2003, após o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubar a limiar que solicitava a suspensão da Lei n. 9.656/1998, as Operadoras começaram a enviar dados de forma mais sistemática, além de adaptar seus planos às novas exigências. Para aprofundar nossa discussão, apresentamos alguns dados oficiais da ANS, os quais possibilitam pensar o mercado atual de Saúde Suplementar. A tabela abaixo mostra a quantidade de beneficiários em planos privados de saúde desde 2006. Interessante notar a variação entre os anos, que teve um crescimento constante até 2014, quando, então, começa a diminuir. Veja: Tabela 2 - Beneficiários de planos privados de saúde, por cobertura assistencial (Brasil - 2006-2016) ANO BENEFICIÁRIOS EM PLANOS PRIVADOS DE ASSISTÊNCIA MÉDICA COM OU SEM ODONTOLOGIA Dez/2006 37.248.388 Dez/2007 39.316.313 Dez/2008 41.468.019 Dez/2009 42.561.398 Dez/2010 44.937.350 Dez/2011 46.027.108 Dez/2012 47.722.948 Dez/2013 49.346.927 Dez/2014 50.394.741 Dez/2015 49.441.541 Mar/2016 48.824.150 Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/oiWXAG>. Acesso em: 16 jun. 2016. 82 Gestão da Saúde Pública e Privada Outro dado importante é sobre a forma de contratação dos planos, ou seja, individuais ou coletivos. Entre os individuais ou familiares, estão cadastrados um total de 9.558.718 beneficiários, enquanto entre os planos coletivos/empresariais ou por adesão – o total é de 38.974.608, mostrando um número expressivamente maior do que o outro modelo. Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/oiWXAG>. Acesso em: 16 jun. 2016. O mapa que segue demonstra a distribuição dos beneficiários de Planos privados de Assistência Médica entre os Estados brasileiros, apontando maior concentração na região Sudeste-Sul. Figura 7 - Taxa de cobertura dos planos de assistência médica por Unidades da Federação (Brasil - Junho/2016) Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/oiWXAG>. Acesso em: 16 jun. 2016. 83 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 O número de Operadoras diminui consideravelmente após a criação da ANS, em virtude das expressivas exigências, fiscalização e regulação do setor. Dentre as Operadoras que foram fechadas estão as que não tinham beneficiários e as que não tinham condições de competir com as outras. A quantidade total de Operadoras também diminuiu por conta das fusões e aquisições. O gráfico abaixo demonstra essa queda. Veja: Figura 8 – Quantidade de operadoras (1977 – 2009) Fonte: Cechin (2010a, p. 6). Já a tabela que segue sintetiza o crescimento por modalidade de Operadora entre os anos 2007 e 2008, dividindo planos individuais e coletivos: 84 Gestão da Saúde Pública e Privada Tabela 3 – Quantidade planos individuais e coletivos PLANOS INDIVIDUAIS TAXA ANUAL (%) 2007 2008 Brasil 2,0 0,1 Unimed 2,5 2,8 Medicina de Grupo 3,3 -0,6 Seguradoras -9,4 -10,1 PLANOS COLETIVOS 2007 2008 Brasil 6,7 8,6 Unimed 12,5 10,7 Medicina de Grupo 2,7 6,6 Seguradoras 11,1 17,7 Fonte: Cechin (2010a, p. 24). Quais as conclusões ou reflexões que podemos extrair dos resultados apresentados na tabela anterior? Percebemos que o mercado de planos coletivos tem maior crescimento que o de planos individuais. Por serem planos geralmente ligados às empresas, eles acabam sendo mais acessíveis aos beneficiários. Nos planos individuais a opção pela modalidade Seguradora é mínima, ao contrário dos planos coletivos, em que ela ocupa a maior porcentagem de beneficiários. É importante, também, tocar no tópico do Envelhecimento da População, um assunto recorrente quando falamos na questão de Operadoras e Planos de Saúde. É sabido que, por conta do aumento da qualidade de vida, a população em geral tem vivido mais anos. Isso representa um desafio para as Operadoras de saúde, que precisam lidar com essa realidade e apresentar um serviço de qualidade para essa população, sem a cobrança de um preço abusivo, mas, ao mesmo tempo, mantendo sua margem de lucro. O gráfico abaixo mostra o aumento do número de pessoas acima de 60 anos que procuraram planos de saúde, demonstrando o interesse dessa faixa etária em se tornar beneficiária do Sistema Suplementar. Veja: 85 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 Figura 9 – Distribuição da população por faixas etárias Fonte: Cechin (2010b, p. 18). Ao mesmo tempo em que é interessante para as Operadoras o aumento de clientes, essa é a faixa etária que demanda procedimentos mais custosos. Veja o gráfico que compara quantidade de internações – por faixa etária – em um intervalo de quatro anos (2006 a 2010). O gráfico da direita mostra que o custo das internações também aumenta conforme a idade do beneficiário avança. Veja: Figura 10 - Frequência e custo de internações Fonte: Cechin (2010b, p. 8). Como anunciado no início deste tópico, o mercado de Saúde Suplementar segue o movimento social e econômico do país. Considerando isso, mas também as mudanças expostas aqui, cabe lançar algumas perspectivas. 86 Gestão da Saúde Pública e Privada Em primeiro lugar, é visível que existe um consumo muito maior de planos coletivos em detrimentos dos individuais. Isso ocorre pelo fato de os planos coletivos serem ligados às empresas e aos seus colaboradores, facilitando a contratação. Observando as taxas de crescimento, é perceptível, também, que o setor de planos individuais sofre uma queda, provavelmente em decorrência da situação econômica desfavorável do país nos últimos anos. As Operadoras devem se ajustar a esse novo quadro, pensando em alternativas para que os beneficiários voltem a procurar esse bem. Outro fato a ser discutido é a questão da competição entre as Operadoras, pois se percebe que, apesar do grande número de Operadoras cadastradas na ANS, são poucas as que concentram a maioria dos beneficiários no mercado. Uma discussão muito contemporânea é a dos modelos assistenciais oferecidos pelos Planos de Saúde. A maioria ainda é centrada na demanda espontânea, ou seja, quando o beneficiário identifica uma necessidade e procura por conta própria um atendimento. Discute-se a possibilidade de Promoção de Saúde, inclusive nos planos privados, ou seja, a incorporação de técnicas como Prevenção, preceitos como Qualidade de Vida e outros mecanismos que promovam a saúde como um todo, e não centrado apenas em atendimentos pontuais. Nisso se incluem ferramentas pouco utilizadas, como o home care, as técnicas de grupo, maior inserção de outros profissionais da saúde, tais como psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e outros. As Operadoras devem se ajustar a esse novo quadro, pensando em alternativas para que os beneficiários voltem a procurar esse bem. Uma das ferramentas criadas pela ANS para mapear os Programas de Promoção e de Prevenção à Saúde, que visa justamente modificar esses modelos assistenciais oferecidos, é um buscador online, acessível no seguinte endereço eletrônico: <http:// goo.gl/dxHMw3>. Com esses apontamentos, encerramos o presente tópico. Para você que deseja conhecer mais sobre as tendências do mercado de saúde suplementar - inclusive as especificidades,como operadoras de menor porte, entidades filantrópicas e outros – recomendamos acessar as publicações disponíveis do IESS (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar), conforme indicado a seguir. http://www.ans.gov.br/gestao-em-saude/promoprev 87 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 Acesse as publicações do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) no seguinte endereço eletrônico: <http://goo.gl/ SsssXx>. Algumas Considerações Finalizamos aqui o último capítulo da disciplina de Gestão da Saúde Pública e Privada, com a proposta de aprofundar os estudos sobre a Saúde Suplementar, que já haviam sido iniciados no Capítulo 2. Na primeira seção, intitulada Operadora de Plano de Saúde: Estrutura e Funcionamento, apresentamos a definição e a diferença entre Operadora, Plano e Prestadora de Saúde, focando na função e na relação entre elas. Entre as Operadoras, destacamos as modalidades existentes e as especificidades de cada uma. Em seguida, abordamos os Planos, relembrando o Plano-Referência, que estipula os serviços mínimos presentes em cada tipo de cobertura e os diferentes tipos de contratos que podem ser estabelecidos. Por fim, falamos das Prestadoras e Serviços de Saúde, que são responsáveis por prestar os serviços contratados. Na segunda seção, chamada de Política e Organização dos Serviços em Saúde, foram apresentadas a ação de fiscalização da ANS, as justificativas e as leis que sustentam essa ação e o mecanismo de Ressarcimento ao SUS, que garante um pagamento ao Sistema Público toda vez que um usuário de plano privado utiliza os serviços públicos. Por fim, na terceira seção, foram expostas as tendências do Mercado, o perfil dos beneficiários, os fatores que influenciam a aquisição de planos de saúde, o envelhecimento da população e outros assuntos pertinentes ao tema. Esperamos que você tenha conseguido assimilar os conceitos e entender o fluxo de organização da Saúde Suplementar. Bons estudos! Referências ALBUQUERQUE, C. et al. A situação atual do mercado da saúde suplementar no Brasil e apontamentos para o futuro. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 5, n. 13, p. 1421-1430, set./out. 2008. 88 Gestão da Saúde Pública e Privada ANAB. Associação nacional das administradoras de benefícios. O que é. Disponível em: <http://goo.gl/OS92ZM>. Acesso em 15 jun. 2016. BRASIL. Lei n. 9.656, de 3 de junho de 1998. Dispõe sobre os planos e seguros privados de assistência à saúde. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, 04 jun. 1998, p.1. _______. Lei n. 9.961, de 28 de janeiro de 2000. Cria a Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 19 jan. 2000, p. 5. _______. Resolução – RDC n. 39, de 27 de outubro de 2000. Dispõe sobre a definição, a segmentação e a classificação das operadoras de planos de assistência à saúde. Disponível em: <http://goo.gl/sua1sS>. Acesso em: 15 jun. 2016. _______. Resolução normativa – RN n. 196, de 14 de julho de 2009. Dispõe sobre a administradora de benefícios. 2009. Disponível em: <http://goo.gl/ Rm5L77>. Acesso em: 15 jun. 2016. CECHIN, J. Mercado de saúde, tendências e perspectivas. 1º Seminário de integração técnica, 2010. Disponível em: <http://goo.gl/dpYpcC>. Acesso em: 16 jun. 2016a. _______. Envelhecimento populacional, uma nova realidade social. Instituto de Estudos de Saúde Complementar, 2010. Disponível em: <http://goo.gl/ PCcWiJ>. Acesso em: 16 jun. 2016b. CONASS. Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Coleção Para Entender a Gestão do SUS 2011. V. 12. Brasília: CONASS, 2011. MALTA, D. C. Saúde suplementar e modelos assistenciais. 2004. Disponível em: <http://goo.gl/EZ01Fj>. Acesso em: 16 jun. 2016. MARTINS, C. B.; LEITE, F.; NOVAIS, M. Principais pontos do ressarcimento ao SUS. Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, 2010. Disponível em: <http://goo.gl/Y7a8r1>. Acesso em: 16 jun. 2016. NOVAES, H. M. D. Pesquisa em, sobre e para os serviços de saúde: panorama internacional e questões para a pesquisa em saúde no Brasil. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 20, n. 2, p. 147-173, maio/jun. 2004. 89 Saúde Privada: Serviços Capítulo 3 SILVA, A. A. da. Relação entre operadoras de planos de saúde e prestadores de serviços – um novo relacionamento estratégico. 2003. Disponível em: <http://goo.gl/KQ8ilI>. Acesso em: 16 jun. 2016.