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Análise do Comportamento e Aprendizagem Pierce & Cheney Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições1 1 1 • Compreender o que é aprendizagem, uma ciência do comportamento e da análise do comportamento. • Compreender como seleção por consequências se estende desde a evolução até o comportamento dos organismos. • Focar em análise do comportamento e neurociência. • Aprofundar nos primórdios da análise do comportamento e aprendizagem. • Investigar alguns dos pressupostos básicos de uma ciência da análise do comportamento e aprendizagem. Aprendizagem refere-se à aquisição, manutenção e mudança de comportamento de um organismo resultante de acontecimentos da vida. O comportamento de um organismo é tudo aquilo que ele faz, incluindo ações privadas e encobertas como pensar e sentir (veja a sessão sobre suposições neste capítulo). Um aspecto importante da aprendizagem humana diz respeito às experiências organizadas por outras pessoas. Desde os primórdios da história pessoas tem agido de forma a influenciar o comportamento de outros indivíduos. Argumentação racional, recompensas, subornos, ameaças e força são usados na tentativa de promover aprendizado ou mudança do comportamento do indivíduo. Dentro da sociedade é requerido que as pessoas aprendam maneiras socialmente apropriadas de agir. Contanto que uma pessoa faça o que é esperado, ninguém prestará atenção. Mas é só a conduta da pessoa variar um pouco das normas culturais para que as outras pessoas se sintam incomodadas e tentem forçar a conformidade prévia. Todas as sociedades tem normas de conduta e leis que as pessoas dentro dela devem aprender; pessoas que quebram os códigos morais ou leis civis devem enfrentar penalidades que vão desde pequenas multas à pena capital. 1 Pierce, W. D.; & Chenney, C. D. (2008). A science of behavior: perspective, history and assumptions. In Behavior analysis and learning. 4ª Ed. New Jersey: Psychology Press. Capítulo traduzido por Victor Raniery de Souza Matos (Univasf) e revisado Ana Paula Cardoso Vichi e Christian Vichi (Univasf) para fins didáticos da disciplina de Análise do Comportamento I do Curso de Psicologia da Univasf. Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 2 Claramente, todas as culturas estão preocupadas com a aprendizagem humana e o controle da conduta humana. Teorias de aprendizagem e comportamento variam desde a filosofia às ciências naturais. Quando Sócrates foi informado que novas descobertas em anatomia provaram que o movimento do corpo era causado pelo arranjo dos músculos, ossos e juntas, ele respondeu “Isso dificilmente explica porque eu estou sentado aqui em uma posição curvada falando com você” (Millenson, 1967, p.3). Cerca de 2300 anos depois, o filósofo Alfred North Whitehead perguntou ao famoso behaviorista B. F. Skinner uma pergunta similar. Ele disse, “Deixe-me ver sua explicação para o meu comportamento enquanto eu sento aqui dizendo, ‘Não há nenhum escorpião negro caindo sobre essa mesa’” (Skinner, 1957, p. 457). Embora não havia nenhuma explicação satisfatória para o comportamento no tempo de Sócrates, a ciência do comportamento vem fazendo tais perguntas enigmáticas. Comportamento humano tem sido atribuído a uma grande variedade de causas. As causas do comportamento humano têm sido localizadas tanto dentro como fora do indivíduo. Causas internas variam desde entidades metafísicas, como a alma, até estruturas hipotéticas do sistema nervoso. Causas externas do comportamento sugeridas incluem o efeito da lua e marés, a organização das estrelas, os caprichos dos deuses. Algumas dessas teorias ainda permanecem populares nos dias de hoje. Por exemplo, o uso de previsão astrológica é até mesmo encontrada em corporações modernas, como demonstrado na seguinte passagem tomada do O Economista (n.t. The Economist): Será a astrologia a chave para o sucesso nos negócios? É isso que a Divinitel, uma companhia francesa especializada em consultas celestiais, diz fazer. Por FFr350 ($70) uma seção, os astrólogos da firma oferecem conselhos sobre tudo, desde quando fazer aquisições à exorcismos. Para o executivo ocupado, a galáxia de serviços da Divinitel pode ser acessado via Minitel, o sistema de teletexto francês. A firma está mesmo planejando uma flutuação no mercado de ações francês em março de 1991. Então quem é maluco o suficiente para pagar por tal mambo-jumbo místico? Cerca de 10% das empresas francesas são, de acordo com um estudo feito pela HEC, uma escola de negócios francesa. Um cliente típico é o chefe de uma pequena ou média empresa que deseja uma segunda, astrológica, opinião sobre candidatos a uma vaga de emprego. O chefe de uma empresa de plásticos usa os conselhos da Divinitel em signos para formar equipes de vendedores. (“Teinkle, twinkle,” p. 91, January 1991) Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 3 O problema com astrologia e outras explicações místicas e primitivas para o comportamento é que elas não são científicas. Isto é, estas teorias não conseguem ser comprovadas quando expostas a testes científicos. Ao longo do século passado, foi desenvolvida uma teoria científica de aprendizagem e comportamento. A teoria do comportamento afirma que todo comportamento se deve à complexa interação entre a influência genética e a experiência ambiental. A teoria é baseada na observação e experimentação controlada, e fornece uma explicação baseada na ciência natural da aprendizagem e comportamento dos organismos, incluindo os humanos. Este livro está focado em tal explicação. CIÊNCIA E COMPORTAMENTO A Análise Experimental do Comportamento é uma abordagem para compreender o controle do comportamento por uma perspectiva de ciência natural. A análise experimental se preocupa em controlar e alterar os fatores que afetam o comportamento dos seres humanos e outros animais. Por exemplo, um pesquisador comportamental em uma sala de aula pode usar um computador para organizar comentários para o desempenho matemático de um estudante. A condição relevante que é manipulada ou alterada pelo experimentador pode envolver apresentar os comentários em alguns dias e suprimir os mesmos em outros. Neste caso, o pesquisador provavelmente iria observar um desempenho matemático mais preciso em dias que os comentários são disponibilizados. Este simples experimento ilustra um dos princípios mais básicos do comportamento – o princípio do reforçamento. O princípio do reforço (e outros princípios comportamentais) fornece uma explicação cientifica sobre como as pessoas e animais aprendem a realizar ações complexas. Quando um pesquisador identifica um princípio básico que governa um comportamento, ele está realizando uma análise de comportamento. Assim, a análise experimental do comportamento envolve a especificação dos processos e princípios básicos que governam o Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 4 comportamento dos organismos. Experimentos então são usados para testar a adequação da análise. Análise experimental ocorre quando, por exemplo, um pesquisador nota que há mais gaivotas voando ao redor de uma praia quando a mesma está ocupada por pessoas do que quando a praia esta deserta. Depois de checar as alterações, no clima, temperatura,hora do dia, e outras condições que não afetam o comportamento das gaivotas, o pesquisador chega a seguinte análise: Pessoas alimentam os pássaros e isso reforça seus comportamentos de aglomerar-se na praia. Quando as pessoas deixam a praia, as gaivotas não são mais alimentadas por se aglomerar na praia. Esta é uma suposição racional, mas só pode ser comprovada por um experimento. Vamos supor que o analista do comportamento é dono da praia e tem total controle sobre a mesma. O experimento envolve alterar a relação entre a presença de pessoas e comida. Dito isso, as pessoas não são mais permitidas à alimentar os pássaros, e a comida é depositada quando as pessoas não estão mais na praia. Com o tempo, o analista do comportamento nota que aos poucos o número de gaivotas diminuí, quando as pessoas estão presentes, e aumenta quando a praia esta deserta. O comportamentalista, conclui que as pessoas controlam a vindas das gaivotas à praia alimentando os pássaros, ou reforçando o comportamento das gaivotas somente quando as pessoas estão presentes. Este é um exemplo de uma análise experimental do comportamento. Análise do Comportamento: Uma Ciência do Comportamento Embora a análise experimental seja o método fundamental para uma ciência do comportamento, pesquisadores contemporâneos preferem descrever sua disciplina como análise do comportamento. Este termo implica uma abordagem mais generalista, que inclui suposições sobre como estudar comportamento, técnicas para a realização da análise, um corpo de conhecimentos sistemático, e implicações práticas para a sociedade e para a cultura (Ishaq, 1991). Análise do comportamento é uma abordagem compreensiva para se estudar o comportamento dos organismos. Os objetivos primários da análise do Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 5 comportamento são a descoberta de princípios e leis que governam o comportamento, a ampliação desses princípios entre espécies, e o desenvolvimento de uma tecnologia aplicável gerenciamento do comportamento. No exemplo das gaivotas, o princípio implícito é chamado discriminação. O princípio de discriminação afirma que um organismo irá responder de forma diferente quando exposto a duas situações (e.g., presença ou não de pessoas) se seu comportamento é reforçado em uma situação, mas não na outra. O princípio de discriminação pode ser estendido ao comportamento humano e reforço social. Você pode discutir assuntos amorosos com Carmem, mas não com Tracey, porque Carmem se interessa por tal assunto, enquanto Tracey não se interessa. Em uma sala de aula, o princípio de discriminação pode ser usado para melhorar o ensino e a aprendizagem. O uso de princípios comportamentais para resolver problemas práticos é chamado análise aplicada do comportamento e é discutido ao longo do Capitulo 13. Como você pode ver, a análise do comportamento tem um forte foco na relação ambiente-comportamento. O foco está em como organismos alteram seus comportamentos para atenderem às demandas do ambiente que estão em constante mudança. Quando um organismo aprende novas formas de se comportar em reação as mudanças que ocorrem no ambiente, isto é chamado de condicionamento. Os dois principais tipos de condicionamento são chamados respondente e operante. Dois Tipos de Condicionamento Condicionamento Respondente Um reflexo é um comportamento que é eliciado por um estímulo biológicamente relevante. Quando um estímulo (S) automaticamente elicia (→) uma resposta estereotipada (R), a relação S → R é chamada reflexo. Este comportamento e a relação reflexa tem valor de sobrevivência, no sentido de que os animais que podem responder de forma rápida e confiável a um estímulo em particular têm maior chance de sobreviver e reproduzir do que outros organismos. Para ilustrar, animais que se assustam e correm quando Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 6 ouvem um ruído súbito podem escapar de um predador, e o reflexo de se assustar pode prover uma vantagem adaptativa sobre os organismos que não correm, ou demoram a correr por causa do ruído. Assim, reflexos são selecionados pela história da espécie. É claro, porém, que diferentes espécies de organismos apresentam diferentes tipos de reflexos. Condicionamento respondente ocorre quando um estímulo neutro ou sem sentido é emparelhado com um estímulo incondicionado. Por exemplo, o zunido de uma abelha (estímulo neutro) é emparelhado com a dor de uma picada (estímulo incondicional). Depois dessa experiência de condicionamento, o zunido da abelha faz com que as pessoas fujam ao seu som. O fisiologista Russo Ivan Petrovich Pavlov fez explícita essa forma de condicionamento no século XX. Ele observou que cachorros salivavam quando a comida era colocada em suas bocas. Essa relação entre o estímulo comida e a salivação é um reflexo incondicionado, e este ocorre por causa do histórico biológico do animal. Contudo, quando Pavlov tocava um sino momentos antes de alimentar os cachorros, os mesmos começavam a salivar ao escutar o sino. Dessa forma, um nova característica do ambiente (o som do sino) começou a controlar o comportamento respondente dos cachorros (salivação). Como demonstrado na Figura 1.1, um comportamento respondente é um comportamento que é eliciado por um novo estímulo condicionado. Condicionamento respondente é uma forma na qual os organismo lidam com os desafios das alteração em seus ambientes. Um animal que habita em pastagens e se torna condicionado ao som do farfalhar da grama e foge é menos propenso a se tornar uma refeição do que aquele animal que espera para ver o predador. Todas as espécies que têm sido testadas, incluindo seres humanos, demonstram este tipo de condicionamento. Em termos de comportamento humano, várias coisas que dizemos que gostamos ou não gostamos são baseadas em condicionamento respondente. Quando coisas Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 7 boas ou ruins acontecem conosco, usualmente temos uma reação emocional. Estas respostas emocionais podem ser condicionadas a outras pessoas que estão presentes quando ocorrem os eventos negativos ou positivos (Byrne, 1971). Assim, condicionamento respondente desempenha um papel importante nas nossas relações sociais – determinando, em grande escala, como nos sentimos sobre nossos amigos tão quanto aos nossos inimigos. Condicionamento Operante Condicionamento operante envolve o controle do comportamento pelas suas consequências. B. F. Skinner chamou esse tipo de controle do comportamento de condicionamento operante porque, numa dada situação ou contexto (Sᴰ), o comportamento (R) opera no ambiente para produzir determinados efeitos ou consequências (Sʳ). Qualquer comportamento que opera no ambiente para produzir um efeito é chamado de operante. Durante o condicionamento operante, um organismo emite comportamento que produz um efeito que aumenta (ou diminuí) a frequência do operante numa dada situação (Skinner, 1938, p. 20). No laboratório, um rato privado de comida numa câmara pode receber alimento se ele pressionar uma barra quando a luz é acionada. Se pressionar a barra aumenta na presença de luz, então ocorreu o condicionamento operante (veja Figura 1.2). Muito do que comumente chamamos de ação voluntária, intencional, ou proposital é analisada como um comportamento operante. Condicionamento operante ocorre quando um bebê sorri para o rosto humano e é erguido (pego no colo). Se sorrir para as faces, aumenta a frequência por causa da atenção social, então sorrir é um comportamento operante e o efeito é resultado de Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 8 condicionamento. Em um exemplo mais complexo,pressionar uma sequência de botões enquanto joga-se um videogame vai aumentar em frequência se este padrão de resposta resultar em atingir o alvo. Outros exemplos de comportamentos operantes incluem dirigir um carro, falar ao telefone, fazer anotações em sala, andar até a loja da esquina, ler um livro, escrever um trabalho, e conduzir um experimento. Em cada caso, o comportamento operante é selecionado pelas suas consequências. Seleção como um Processo Causal B. F. Skinner (1938) via a psicologia como o estudo do comportamento dos organismos. A partir deste ponto de vista, psicologia é uma subdivisão da biologia. O princípio central da biologia contemporânea é a seleção natural (Dawkins, 1996). Skinner generalizou este conceito de forma mais ampla para o princípio da seleção por consequências. Seleção por consequências se aplica em três níveis: (1) a seleção de características de uma espécie (seleção natural ou Darwinista); (2) a seleção de comportamentos ao longo da vida de um organismo individual (seleção por condicionamento operante); e (3) a seleção de padrões de comportamento (práticas, tradições, rituais) de um grupo de seres humanos que perduram além do tempo de vida de um indivíduo (seleção cultural). Nos três casos, são as consequências decorrentes do ambiente que selecionam a favor (ou contra) a frequência das entidades genéticas, comportamentais e culturais (veja Capitulo 14). Seleção por consequências é uma forma de explicação causal. Em ciência fala-se em dois tipos de causa: imediata e remota. Causa imediata é o tipo de mecanismo estudado por físicos e químicos: o tipo de processo “bola de bilhar” onde se procura isolar a cadeia de eventos que resulta diretamente determinado efeito. Por exemplo, reações químicas são explicadas descrevendo as interações moleculares. No estudo do comportamento, uma explicação de causa imediata pode se referir à fisiologia e bioquímica do organismo. Por exemplo, o pressionar a barra de um rato para obter comida ou um apostador jogando roleta podem envolver a liberação de endógenos opiáceos e dopamina no hipotálamo (Shizgal & Arvanitogiannis, 2003) Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 9 Em contraste, causa remota é típica de ciências como biologia evolutiva, geologia e astronomia. Neste caso, os fenômenos são explicados apontando-se para eventos remotos que fizeram com que tal fenômeno fosse possível. Assim, a explicação causal das características de uma espécie (e.g., tamanho, cor, visão excepcional, etc.) envolve o trabalho da seleção natural dentro do acervo de genes (pool genético) da população. Uma explicação evolucionária para a definição da cor de uma espécie, por exemplo, poderia envolver em mostrar como essa característica aumenta a taxa de sucesso na reprodução dos organismos num determinado ambiente ecológico. Isto é, seleção natural por cor explica a frequência atual dessa característica na população. No nível comportamental, o princípio de seleção por consequências é uma forma de explicação por causa remota chamada análise funcional. Quando um rato aprende a pressionar a barra por comida, nós explicamos o comportamento do rato apontando para as consequências passadas (a função do comportamento). Assim, a frequência atual do pressionar da barra é explicada pela contingência entre a pressão à barra e a comida no passado. O comportamento do rato foi selecionado por sua história de reforçamento. Ambas as explicações de causa remota e imediata são aceitas pela ciência. Analistas do comportamento tem posto ênfase na análise funcional e seleção por consequências (causa remota), mas também se interessam por análise direta dos processos neuroquímicos e fisiológicos (causa imediata). Ultimamente, ambos os tipos de explicação causal irão fornecer uma descrição mais completa sobre aprendizagem e comportamento. NOVOS RUMOS: Análise do comportamento e neurociência Análise do comportamento está se envolvendo com a análise cientifica do cérebro e do sistema nervoso (neurociência). Isto é, pesquisadores que primariamente estudavam o comportamento de organismos, estão, frequentemente, interessados nos processos cerebrais que participam na controle do comportamento (veja a edição especial sobre Relação entre Comportamento e Neurociência (2005) na Revista de Análise Experimental do Comportamento (n.t. Journal of the Experimental Analysis of Bahavior), 84, Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 10 305-667). Por exemplo, mecanismos do cérebro (neurônios ou grupos de neurônios) obviamente participam no controle do comportamento (pressionar da barra) pelas suas consequências (comida). Descrever como os neurônios codificam e respondem ao reforçamento é uma importante e excitante adição à análise do comportamento – dizendo-nos mais sobre o que acontece quando o comportamento é modelado pelos seus efeitos ou consequências (Fiorillo, Tobler & Schultz, 2003). A nível prático, conhecer as contingências de reforçamento (arranjos do ambiente) para o pressionar da barra é suficiente para nos permitir prever e controlar o comportamento do rato. Isto é, nós podemos fazer com que o rato aumente ou diminua o pressionar da barra através de fornecimento de comida como reforçador para este comportamento – sem ter a necessidade de observar o sistema neural. Mas nós ganhamos detalhes sobre como o comportamento do rato aumenta quando a ação de neurônios (e do sistema nervoso) é combinada com a análise do comportamento. Por exemplo, em alguns casos, é possível “sensibilizar” ou “dessensibilizar” o rato para as contingências comportamentais através de drogas que ativam ou bloqueiam a ação de determinados neurônios (e.g., Bratcher, Farmer-Dougan, Dougan, Heidenreich & Garris, 2005). Pesquisas ao nível neural poderiam, dessa forma, enriquecer o controle prático ou a regulação do comportamento pelas suas consequências (Hollerman & Schultz, 1998). Processos neurais também podem participar como consequências imediatas (contingência local) para o comportamento que oferece benefícios de longo prazo para o organismo (contingências remotas, como na evolução e seleção natural) (Tobler, Fiorillo & Schultz, 2005). A assim chamada base neural de recompensa envolve a inter-relação entre os sistemas de opiáceos endógenos e dopamina (assim como outros processos neurais) (Fiorillo et al., 2003). Por exemplo, ratos que se encontram em restrição de comida e são permitidos a correr nas rodas de exercício aumentam a sua capacidade de correr significativamente – até 20,000 voltas. Correr na roda de exercício leva à liberação de opiáceos neurais que reforçam este comportamento (Pierce, 2001). Se correr na roda de exercícios é vista como uma viajem em busca de comida, uma das funções do reforçamento neural é a de promover a locomoção em condições de escassez de comida. A contingência de longo Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 11 prazo ou remota (locomoção produz comida: locomoção→ comida) é momentaneamente mantida pela liberação de opiáceos endógenos (atividade física → liberação de endógenos opiáceos) que “mantêm o rato” em ação em condições de escassez de comida (e.g., fome, seca, etc.). Veremos que este processo também desempenha um papel chave na anorexia humana nos próximos capítulos. A integração da ciência do comportamento com a neurociência (neurociência comportamental) é um campo de pesquisa em expansão. Áreas de interesse incluem os efeitos de drogas no comportamento (farmacologia comportamental), imagem neural e relações de estímulos complexos, escolha e atividade neural, e os circuitos cerebrais responsáveis por aprendizagem e dependência. Nós vamos examinar algumas dessas pesquisas nos próximos capítulosem seções que focarão em análise do comportamento e neurociência (seções FOCO EM) ou em seções que enfatizam aplicações (seções NO CAMPO APLICADO). A Evolução da Aprendizagem Quando organismos, em seu passado evolucionário, foram confrontados por ambientes mutáveis e imprevisíveis, a seleção natural favoreceu aqueles indivíduos que poderiam ter seu comportamento condicionado. Organismos que podiam se condicionar de forma mais flexível, no sentido que poderiam atender a novas exigências e aprender novas formas de se relacionar com o ambiente. Tal flexibilidade comportamental deve refletir uma mudança estrutural oculta no organismo. Códigos genéticos para as características anatômicas e fisiológicas do indivíduo. Tais mudanças da estrutura física permitem diferentes graus de flexibilidade comportamental funcional. Assim, diferenças nas estruturas dos organismos baseadas em variação genética dão abertura para diferenças no controle do comportamento. Processos de aprendizagem, como condicionamento operante e respondente, levam à uma maior ou menor chance de reprodução. Presumivelmente, estes organismos que mudaram seus comportamentos como resultado de experiências durante suas vidas, sobreviveram e deixaram descendentes – já aqueles menos Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 12 flexíveis, provavelmente não sobreviveram. Em suma, isto significa que a capacidade de aprender é hereditária. A evolução do processo de aprendizagem teve uma consequência importante. Comportamentos que estavam intimamente ligados à sobrevivência e reprodução poderiam ser influenciados pela experiência. Processos fisiológicos específicos normalmente controlam o comportamento relacionados com a sobrevivência e reprodução. Contudo, para os organismos comportamentalmente flexíveis, este controle pela fisiologia pode ser modificado por experiências durante o tempo de vida do indivíduo. A extensão de tal modificação depende da quantidade e do âmbito da flexibilidade comportamental (Baum, 1983). Por exemplo, o comportamento sexual está intimamente ligado ao sucesso reprodutivo e é controlado por processos fisiológicos distintos. Para muitas espécies, o comportamento sexual é rigidamente controlado por mecanismos genéticos. Nos seres humanos, no entanto, o comportamento sexual também é influenciado por experiências mediadas socialmente. Isto é, essas experiências, não genes, é que irão ditar quando a relação sexual vai ocorrer, como vai ser realizada, e quem pode ser um parceiro sexual. Controles sociais ou religiosos poderosos podem fazer com que as pessoas se abstenham de sexo. Este exemplo ilustra que até mesmo os comportamentos biologicamente relevantes dos seres humanos é parcialmente determinado pela experiência de vida. Contexto Biológico do Comportamento Analistas do comportamento reconhecem e promovem a importância da biologia e da evolução, mas se focam mais na relação entre os organismos e seus ambientes. Para manter este foco, a história evolutiva e as condições biológicas de um organismo são examinadas como parte do contexto do comportamento (veja Morris, 1988, 1992). Esta visão contextualizada é vista na análise de B. F. Skinner de um “imprinting” em patinhos: Condicionamento operante e seleção natural são combinados no chamado “imprinting” de um pato recém-eclodido. No seu ambiente natural, o pequeno patinho se move no sentido da mãe, e a segue para onde quer que ela vá. Esse comportamento obviamente tem caráter de sobrevivência. Quando não há nenhum pato, os patinhos se comportam da mesma forma com outros objetos. Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 13 Recentemente tem sido mostrado que um patinho se aproxima e segue qualquer objeto que se mova, particularmente se for do mesmo tamanho que um pato – por exemplo, uma caixa de sapato. Evidentemente a sobrevivência pode ser suficientemente atendida mesmo se o comportamento não esteja sob o controle das características visuais especificas de um pato. Meramente se aproximar e seguir é o suficiente. Mesmo assim, esta não é uma afirmação correta do que ocorre. O que o patinho herda é a capacidade de ser reforçado através da manutenção ou redução da distancia entre ele e um objeto móvel (grifo nosso). No seu ambiente natural, e no laboratório onde o processo de “imprinting” é estudado, aproximar- se e seguir tem essas consequências, mas as contingências podem ser alteradas. Um sistema mecânico pode ser construído de tal forma que a movimentação para o objeto faça com que o mesmo se mova para longe mais rápido, enquanto que o movimento de se afastar do objeto faça com que o mesmo se aproxime. Dentro dessas condições, o patinho vai se mover para longe do objeto em vez de se aproximar e seguir. O patinho vai aprender a bicar um ponto na parede se o ato de bicar trouxer o objeto para perto. Somente ao saber o que e como o patinho apende durante sua vida é que podemos ter certeza do que o patinho é equipado ao nascer. (Skinner, 1974, pp. 40-41) A história biológica do patinho, em termos de prover a capacidade de reforçamento pela proximidade de um objeto do tamanho de um pato, é o contexto para o controle de seu comportamento. Claro que e anatomia e fisiologia do pato permitem essa capacidade. Contudo, a forma que o ambiente é organizado determina o comportamento do organismo. Em análise do comportamento, experimentos de laboratório identificam os princípios gerais que controlam o comportamento dos organismos, os eventos específicos que controlam o comportamento de diferentes espécies, e a disposição desses eventos durante o período de vida de um indivíduo. A Seleção do Comportamento Operante Os primeiros Behavioristas como John Watson (1903) usaram a terminologia de estímulo-resposta (S-R) na psicologia. A partir desta perspectiva, o estímulo produz uma resposta, como a carne elicia (ou produz) a salivação em cachorros. De fato, Watson baseou sua teoria do comportamento estímulo- resposta nos experimentos de condicionamento de Pavlov. Teorias de estímulo-respostas são mecanicista no sentido de que um organismo é compelido a responder quando um estímulo é apresentado. Isto é similar a descrição física do movimento de bolas de bilhar. O impacto da bola branca (estímulo) determina o movimento e trajetória (resposta) da bola alvo. Embora Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 14 os conceitos de estímulo-resposta sejam úteis para analisar comportamentos reflexos e outros padrões de respostas rígidas (i.e., mecânica newtoniana), o modelo “empurra e puxa” (n.t., push-pull) se mostra menos eficaz quando aplicado em ações voluntárias ou operantes. Para ser justo, Watson pregava sobre “hábitos” de forma que soa como comportamento operante, mas lhe faltava as evidências experimentais e um vocabulário capaz de distinguir entre condicionamento operante e condicionamento respondente. Foi B. F. Skinner (1935, 1937) quem fez a distinção entre os dois tipos de reflexo condicionado, correspondendo à diferença entre comportamento operante e respondente. Em 1938, Skinner introduziu o termo operante em um de seus clássicos, O Comportamento dos Organismos (n.t. The Behavior of Organism). Eventualmente, Skinner rejeitou o modelo mecanista (S-R) de Watson e baseou seu conceito de condicionamento operante no princípio de seleção de Darwin. A ideia básica é que um indivíduo emite comportamentos que produzem efeitos, consequências e resultados. Baseando-se nessas consequências, os desempenhos que são apropriadas aumentam – tornando- se mais frequentes dentro da população ou dentro da classe de resposta para a situação; ao mesmo tempo, formas inapropriadas de respostas diminuem ou se tornam extintas. A professora de análisecomportamental Julie Vargas, filha de B. F. Skinner, comentou sobre o modelo de causalidade do pai: O paradigma de Skinner é um paradigma selecionista, diferente da teoria selecionista da evolução das espécies de Darwin. Onde Darwin encontrou uma explicação para a evolução das espécies, Skinner procurou por variáveis funcionais que se relacionam com as mudanças no comportamento de um indivíduo durante seu tempo de vida. Ambas as explicações assumem variação; Darwin em características herdadas, e Skinner em ações individuais. Skinner, em outras palavras, não se preocupa com o porquê da variação do comportamento, somente em como os padrões do comportamento são traçados a partir das variações que já existem. Ao olhar para as relações funcional entre ações e seus efeitos no mundo, Skinner rompe com o modelo transformacional S-R, de entrada e saída. (Vargas, 1990, p.9) Skinner reconheceu que o operante é selecionado pelas suas consequências. Ele também notou que comportamento operante naturalmente varia em forma e frequência. Até mesmo algo tão simples como abrir a porta da sua casa não é feito exatamente da mesma forma. A pressão na maçaneta, a Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 15 força com que você empurra a porta, e a mão que é usada varia em cada ocasião. Se a porta trava e se torna difícil de ser aberta, uma resposta que envolva força eventualmente irá ocorrer. Essa resposta pode ser bem sucedida em abrir a porta e se torna a performance mais provável para a situação. Outras formas de respostas vão variar em diferentes frequências, dependendo em como as mesmas se mostram eficazes em abrir a porta. Assim, operantes são selecionados por suas consequências. Similarmente, é de conhecimento geral que bebês produzem uma variedade de sons chamados “balbucio”. Essa variação natural na produção de som é importante para a aprendizagem da linguagem. Quando sons ocorrem, os pais geralmente reagem a eles. Quando o bebê produz um som familiar, os pais frequentemente o repetem de forma mais precisa. Sons não familiares são normalmente ignorados. Eventualmente, o bebê começa a produzir sons (nós dizemos fala) como outras pessoas em sua comunidade ou cultura verbal. A seleção do comportamento verbal pela sua consequência social é um processo importante, fundamental a comunicação humana (Skinner, 1957). Cultura e Análise Comportamental. Embora muitas das pesquisas básicas na análise experimental do comportamento sejam baseadas em animais de laboratórios, analistas do comportamento contemporâneos estão cada vez mais interessados em comportamento humano. O comportamento das pessoas ocorrem em um ambiente social. Sociedade e cultura remetem aos aspectos do ambiente social, o contexto, que controlam o comportamento humano. Uma das tarefas principais da análise do comportamento é mostrar como o comportamento individual é adquirido, mantido, e alterado através da interação com outros indivíduos. Uma tarefa adicional seria considerar as praticas do grupo, comunidade ou sociedade que afetam o comportamento de um indivíduo (Lamal, 1997). Cultura é usualmente definida em termos de valores e idéias de uma sociedade. Contudo, analistas do comportamento definem cultura como todas as condições, eventos, e estímulos organizados por outras pessoas que controlam as ações humanas (Glenn, 1988; Skinner, 1953). Os princípios e leis Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 16 da análise do comportamento fornecem uma descrição de como a cultura controla o comportamento de um indivíduo. Uma pessoa em uma cultura de língua inglesa aprende a falar de acordo com as práticas vocais da comunidade. As pessoas da comunidade aplicam constante reforço para uma determinada maneira de falar. Dessa maneira, uma pessoa começa a falar como aquelas da comunidade, compartilhando a linguagem para outros membros do público e, ao fazê-lo, contribui para a perpetuação da cultura. Os costumes ou praticas de uma cultura são, portanto, mantidos através do condicionamento social do comportamento do indivíduo. Outro objetivo é explicar a evolução das práticas culturais. Analistas do comportamento sugerem que o princípio da seleção (pelas consequências) também ocorre no nível cultural. Portanto, práticas culturais aumentam (ou diminuem) baseadas nas consequências produzidas no passado. A prática cultural de construir recipientes para reter água é uma vantagem para o grupo porque dessa forma permite o transporte e armazenamento da água. Dentro dessa prática pode-se incluir a construção ou uso de conchas, folhas ocas, ou recipientes de argila. A forma cultural que é selecionada (e.g., jarros de argila) é a que se prova mais eficiente. Em outras palavras, a comunidade valoriza aqueles recipientes que duram mais, retêm mais água, e são mais facilmente armazenados. Assim, a comunidade manufatura jarros de argila, ou a produção de outras formas menos eficientes entram em declínio. Analistas do comportamento se interessam em evolução cultural porque mudanças culturais alteram o condicionamento social do comportamento individual. Análise da evolução cultural sugere como o ambiente social é organizado e reorganizado para acomodar formas específicas de comportamento humano. No nível mais prático, analistas do comportamento sugerem que a solução para muitos problemas sociais requerem uma tecnologia de planejamento cultural. B. F. Skinner (1948) sugeriu essa possibilidade em seu livro utópico, Walden Two. Embora esse romance idealista tenha sido escrito cinco décadas atrás, analistas do comportamento contemporâneos estão conduzindo experimentos sociais em pequena escala, baseados nas idéias de Skinner (Komar, 1983). Por exemplo, tecnologias comportamentais tem sido usadas para administrar poluição ambiental, Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 17 encorajar a conservação de energia e controlar a superpopulação (Glenwick & Jason, 1980) FOCO EM: B. F. Skinner B. F. Skinner (1904-1990) foi a força intelectual por trás da análise do comportamento. Burrhus Frederic Skinner nasceu em 20 de março de 1904 em Susquehanna, Pensilvânia. Quando era um garoto, Skinner passou grande parte do seu tempo explorando a região rural com seu irmão mais novo. Ele possuía uma paixão pela literatura inglesa e invenções mecânicas. Dentre seus hobbies incluía-se escrever estórias e desenhar modelos de máquinas de movimento perpétuo. Ele queria se tornar romancista, foi para a Faculdade de Hamilton (n.t. Hamilton College), em Clinton, Nova York, onde se graduou em Inglês (n.t. curso de Letras no Brasil). Depois de se graduar em 1926, Skinner comentou que não era um grande romancista porque não tinha nada a dizer. Começou então a ler sobre behaviorismo, um novo movimento intelectual, e como resultado, entrou em Harvard em 1928 para aprender mais sobre a ciência do comportamento. Skinner conquistou seu mestrado em 1930 e seu doutorado no ano seguinte. Skinner (Figura 1.3) começou a escrever sobre o comportamento dos organismos na década de 30 quando a disciplina (Análise do Comportamento) estava em seu início , e continuou a publicar trabalhos até a sua morte em 1990. Durante a sua longa carreira, Skinner escreveu e pesquisou sobre temas que vão desde sociedades utópicas, filosofia da ciência, aparelhos de Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 18 ensino, pombos que controlavam a direção de mísseis, berços de ar para crianças, e técnicas para melhorar a educação. Muitos o consideravam um gênio, enquanto outros se chateavam com suas teorias. Skinner sempre foi uma figura controversa. Ele propôs uma abordagem de ciência natural para comportamentohumano. De acordo com Skinner, o comportamento dos organismos, incluindo humanos, era determinado. Embora o senso comum sugira que agimos por causa dos nossos sentimentos, pensamentos, e intenções, Skinner afirmou que comportamento é resultado dos genes e do ambiente. Esta posição incomodou várias pessoas que acreditavam que os seres humanos possuem certo grau de autonomia. Mesmo quando era constantemente confrontado com argumentos contra a sua posição, Skinner sustentou que os fatos científicos requerem a rejeição de sentimentos, pensamentos, e intenções como causa do comportamento. Ele afirmou que esses eventos internos não eram explicações para o comportamento; ao invés disso, esses eventos são atividades adicionais que necessitam ser explicadas: A prática de olhar para dentro do organismo para encontrar uma explicação do comportamento tende a obscurecer as variáveis as quais são imediatamente disponíveis para uma análise cientifica. Essas variáveis se encontram fora do organismo em seu ambiente imediato e na história do ambiente. Eles possuem uma propriedade física com a qual as técnicas usuais da ciência são adaptadas, e tornam possível explicar comportamento como outros assuntos são explicados através da ciência. Essas variáveis independentes (causas) são de vários tipos, e sua relação com o comportamento geralmente é sutil e complexa, mas não podemos esperar dar um tratamento adequado ao comportamento sem analisa- las. (Skinner, 1953, p. 31) Uma das conquistas mais importantes de Skinner foi sua teoria de comportamento operante. As implicações da teoria do comportamento foram delineadas em seu livro, Science and Human Behavior (1953). Neste livro, Skinner discute os princípios operantes básicos e suas aplicações em comportamento humano. Dentre os tópicos incluem: autocontrole, pensamento, o self, comportamento social, controle, religião e cultura. Skinner defende o princípio do reforço positivo e argumenta contra o uso da punição. Ele notou como governos e outras agências sociais geralmente recorrem a punição como meio de controle do comportamento. Embora punição funcione em curto prazo, Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 19 Skinner notou que isso acarreta vários efeitos colaterais negativos. O reforço positivo, acreditava Skinner, é um meio mais efetivo de mudar o comportamento – pessoas agem bem e ficam felizes quando o comportamento é mantido por reforço positivo. Muitos tem mal interpretado muitas das coisas que Skinner disse ou realizou (Catania & Harnard, 1988; Wheller, 1973). Um equívoco popular é que Skinner criou suas filhas dentro de uma câmara experimental – o tão chamado bebê na caixa. Muitos ainda afirmam que Skinner usou sua filha como cobaia para testar suas teorias. Um mito popular é que esses experimentos levou sua filha à loucura. Sua filha, Julie, quando confrontada com esse mito, recorda o seguinte: Eu tive uma aula chamada “Teorias da Aprendizagem” ensinada por um agradável cavalheiro idoso. Ele começou com Hull e Spence, e então chegou em Skinner. Naquela época eu tinha lido pouco sobre Skinner e não poderia julgar a acurácia sobre o que estava sendo dito sobre as suas teorias. Mas quando um estudante perguntou se Skinner tinha tido filhos, o professor disse que sim. “Ele condicionou suas crianças?” perguntou outro estudante. “Eu ouvi dizer que um dos seus filhos era louco”. “O que aconteceu com as crianças?”. As questões vieram densas e rápidas. O que eu fiz? Eu tinha uma amiga na sala, e ela me olhou, esperando claramente uma ação. Eu não queria demolir a confiança do professor dizendo quem eu era, mas eu não podia só ficar sentada. Então eu levantei minha mão e fiquei de pé. “Dr. Skinner teve duas filhas e eu acredito que elas acabaram relativamente normais”. Eu disse, e então me sentei. (Vargas, 1990, pp. 8-9) Na verdade, a “caixa” que Skinner desenvolveu para suas filhas nada tinha a ver com um experimento. Era um berço de ar fechado que permitia controlar a temperatura para ser ajustada. Além disso, a capa do colchão podia ser facilmente trocada quando suja. O berço de ar foi desenvolvido para que as crianças ficassem quentes e secas; e livres para se mover. Mais importante, o bebê não passava mais tempo no berço de ar do que outra criança em camas normais (Skinner, 1945). Embora Skinner não tenha feito experimentos com suas crianças, ele foi sempre interessado na aplicação dos princípios de condicionamento para as questões humanas. Seus vários livros e trabalhos em tecnologia comportamental aplicada o levaram ao campo da análise do comportamento aplicada. Análise do comportamento aplicada preocupa-se com a extensão dos princípios do comportamento para os problemas de importância social. Na Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 20 primeira edição da Revista de Análise do Comportamento Aplicada (n.t. Journal of Applied Behavior Analysis), Baer, Wolf, and Risley (1968) esboçaram um programa de pesquisa baseado no ponto de vista de Skinner. A afirmação (dos princípios comportamentais) estabelece a possibilidade de sua aplicação em problemas comportamentais. Uma sociedade disposta a considerar uma tecnologia de seu próprio comportamento, aparentemente é mais provável de dar suporte a essa aplicação quando se trata de problemas socialmente importantes, tais como retardo mental, crime, doenças mentais ou educação. Espera-se que melhores aplicações irão levar a uma sociedade melhor, na extensão em que os comportamentos de seus indivíduos contribuam para o bem estar da sociedade. As diferenças entre as pesquisas básicas e as aplicadas não são diferenças entre quais “descobrem” e quais meramente “aplicam” o que é conhecido. Ambos os esforços perguntam-se o que controla o comportamento estudado. ... Pesquisas [básicas] são mais prováveis de procurar qualquer comportamento, e quaisquer variáveis que podem ser concebivelmente relaciondas com ele. Pesquisa aplicada se concentra em procurar as variáveis que podem ser efetivas em melhorar o comportamento estudado. (p.91) Uma área de aplicação que Skinner escreveu extensivamente foi sobre ensino e aprendizagem. Embora Skinner reconhecesse a importância dos princípios de comportamento para ensinar pessoas com dificuldade de aprendizagem, ele alegava que a mesma tecnologia poderia ser usada para melhorar o sistema de ensino geral. Em seu livro, A Tecnologia do Ensino (n.t. The Technology of Teaching), Skinner (1968) oferece um sistema personalizado de reforço positivo para o desempenho acadêmico de estudantes. Nesse sistema, ensinar envolve organizar materiais, planejar a sala de aula, e programar as lições para modelar e manter o desempenho dos estudantes. Aprendizagem é objetivamente definida em termos de responder questões, resolver problemas, usar formas gramaticais corretas, e escrever sobre o assunto. Um aspecto da história de Skinner que geralmente não é conhecida é o seu humor e rejeição aos seus títulos formais. Ele preferia ser chamado de “Fred” do que Burrhus e a única pessoa que assim o chamava era seu amigo intimo e colega Fred Keller, que sentia que possuía prioridade ao uso do nome Fred (ele era alguns anos mais velho que Skinner). Um dos primeiros alunos de Skinner, C. B. Ferster, conta que quando se conheceram, Skinner tentou forçar Ferster a chama-lo de “Fred”. A história conta (Ferster, em comunicação Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 21 pessoal com Paul Brandon) que um dia Ferster entrou na sala de estar da casa de Skinner e viu o próprio Skinner sentado no sofá com um grande cartaz envolto no pescoço dizendo “FRED”. Mais tarde em sua vida, Skinner trabalhou com Margareth Vaughan (Skinner & Vaughan, 1983) em abordagens positivaspara os problemas da velhice. Seu livro, Viva Bem a Velhice (n.t. Enjoy Old Age: A Program os Self- Management), é escrito para os leitores idosos e fornece conselhos práticos de como lidar com a vida diária. Por exemplo, os nomes das pessoas são fáceis de se esquecer e ainda mais na velhice. Skinner e Vaughan sugerem que você pode melhorar suas chances de relembrar um nome por ler uma lista das pessoas que é mais provável que você encontre antes de ir à um evento especial. Se tudo falhar “você sempre pode apelar para a sua idade. Você pode agradar o amigo cujo nome você esqueceu dizendo que sempre se esquece dos nomes que você mais deseja recordar” (p.52). Skinner, que ocupou a Cadeira de A. E. Pierce em Psicologia, se aposentou oficialmente na Universidade de Harvard em 1974. Seguindo sua aposentadoria, Skinner continuou uma rotina ativa de pesquisa e trabalhos. Todo dia, ele andava 3,2 km para o William James Hall, onde dava aulas para estudantes de graduação e conduzia experimentos. Oito dias antes de sua morte em 18 de agosto de 1990, B. F. Skinner recebeu a primeira (e única) citação dada por extraordinária contribuição durante sua vida para a psicologia dada pela Associação Psicológica Americana (n.t. American Psychological Association). As contribuições de Skinner para a psicologia e para a ciência do comportamento estão documentadas em um recente filme, B. F. Skinner: A Fresh Appraisal (1999). Murray Sidman, um renomado pesquisador em análise experimental do comportamento, narrou o filme (disponível através da livraria do Cambridge Center for Behavioral Studies, www.behavior.org). UMA BREVE HISTÓRIA DA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO A análise do comportamento contemporânea é baseada em idéias e pesquisas que se tornaram proeminentes na virada do século XX. O cientista Russo Ivan Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 22 Petrovich Pavlov descobriu o reflexo condicionado (um reflexo que só ocorre sob um conjunto particular de condições tais como o pareamento de estímulos), e este foi um passo significante para o entendimento científico do comportamento. Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) Pavlov (Figura 1.4) nasceu filho de um pastor de um vilarejo em 1849. Ele entrou no seminário com o objetivo de seguir os passos de seu pai no sacerdócio. Entretanto, depois de estudar fisiologia, ele decidiu seguir carreira em ciências biológicas. Embora sob protesto de sua família, Pavlov ingressou na University of St. Petersburg, onde se graduou em 1875 com o diploma em fisiologia. Depois de completar seus estudos em fisiologia, Pavlov foi aceito como um estudante avançado de medicina. Ele se destacou, assim obtendo uma bolsa para continuar seus estudos em fisiologia na Alemanha. Em 1890, Pavlov foi indicado para duas posições proeminentes de pesquisador na Rússia. Ele foi Professor de Farmacologia na Academia Médica de São Petersburgo (n.t. St. Petersburg Medical Academy) e Diretor do Departamento de Fisiologia. Pelos próximos 20 anos, Pavlov estudou a fisiologia da digestão, e em 1904 ganhou o Prêmio Nobel por seu trabalho, no ano em que B. F. Skinner nasceu. Ivan Pavlov trabalhou no reflexo salivar e seu papel na digestão. Pavlov tinha cachorros cirurgicamente preparados para expor as glândulas salivares na boca dos cachorros. Os animais eram trazidos ao laboratório e colocados em cintos de contenção. Como mostrado na Figura 1.5, comida era colocada na boca dos cachorros e a ação das glândulas salivares eram observadas. A análise do reflexo salivar era baseada em noções prevalecentes do comportamento dos animais. Nesta época, muitas pessoas pensavam que Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 23 animais, com exceção dos seres humanos, eram máquinas biológicas complexas. A idéia era que um estímulo específico evoca uma resposta particular, da mesma forma como o girar da chave liga um motor. Em outras palavras, animais reagem ao ambiente de maneira simples, estímulo-resposta. Humanos, por outro lado, eram vistos de forma diferente dos outros animais, de forma que suas ações são intencionais. Humanos são conhecidos por antecipar eventos futuros. Pavlov notou que seus cachorros começavam a salivar ao sinal de um jaleco do experimentador antes que a comida fosse depositada em sua boca. Isso sugeria que os cachorros antecipavam a comida. Pavlov reconheceu que tal resultado desafiava a sabedoria convencional. Pavlov fez uma observação importante em termos de estudo do comportamento. Ele propôs que reflexos antecipatórios eram aprendidos ou condicionados. Em adição, Pavlov concluiu que esses reflexos condicionados eram uma parte essencial do comportamento dos organismos. Embora alguns comportamentos tenham sido descritos como reflexos inatos, outras ações eram baseadas em condicionamento que ocorriam durante a vida dos animais. Esses reflexos condicionados (denominados Reflexos Condicionais em Pavlov, 1960) estão presentes em determinados níveis em todos os animais, mas mais predominante nos humanos. A questão era como estudar de forma sistemática os reflexos condicionados. A resposta de Pavlov para essa questão representa um grande avanço em análise experimental do comportamento. Se seguramente os cachorros salivavam quando viam o jaleco laboratorial, então qualquer estímulo arbitrário que precedesse a comida poderia ser condicionado e evocar a salivação. Pavlov substituiu o jaleco por um estímulo que poderia ser sistematicamente manipulado e seguramente controlado. Em alguns experimentos, um metrônomo (um aparelho usado para manter o ritmo ao tocar o piano) era apresentado para um cachorro pouco antes de alimentá-lo. Este Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 24 procedimento resultou no cachorro eventualmente salivando ao som do metrônomo. Se uma determinada batida precedesse à alimentação enquanto outros ritmos não , o cachorro salivava mais frequentemente ao som associado com a comida. Embora Pavlov fosse um fisiologista e acreditava em associações mentais, sua pesquisa era dirigida a estímulos e respostas observáveis. Ele descobriu vários princípios do reflexo condicionado. Estes princípios incluem recuperação espontânea, discriminação, generalização, e extinção. A última parte da sua carreira envolveu a análise experimental da neurose em animais. Ele continuou com essas investigações até sua morte, em 1936. John Broadus Watson (1878-1958) A pesquisa de Pavlov se tornou proeminente na América do Norte, e o reflexo condicionado foi incorporado numa teoria do comportamento mais abrangente pelo famoso behaviorista John B. Watson (Figura 1.6). Watson reconheceu a influencia de Pavlov: Eu tinha solucionado o problema (condicionamento) em termos de formação de Hábitos. Foi somente mais tarde quando comecei a pesquisar mais a fundo a palavra Hábito que me deparei com as grandiosas contribuições que Pavlov tinha feito, e como a resposta condicionada poderia ser facilmente compreendida se olhada pelo viés do que temos chamado Hábito. Eu certamente, a partir desse ponto, dei ao mestre o seu devido crédito. (Watson, comunicação pessoal com Hilgard & Marquis, 1961, p. 24) Watson passou a argumentar que não havia necessidade de criar associações mentais para explicar o comportamento humano e animal. Ele propôs que psicologia deveria ser uma ciência baseada no comportamento observável. Pensamentos, sentimentos, e intenções não tinham lugar em uma explicação cientifica e que os pesquisadores deveriam direcionar suas atenções para o movimento dos músculos e atividades neurais. Embora essa fosse uma posição extrema, Watson conseguiu direcionar a atenção dos psicólogos para a relação comportamento-ambiente.Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 25 Watson foi um jovem rebelde, que reprovou em seu ultimo ano na Universidade Furman (n.t. Furman University), porque entregou sua prova-final “de trás-pra-frente”. Ele se graduou em 1899, então com 21 anos. Depois de passar um ano como professor em uma escola pública, Watson decidiu avançar com sua educação e foi admitido na Universidade de Chicago (n.t. University of Chicago). Ali ele estudou filosofia com John Dewey, o famoso educador. Ele nunca realmente apreciou as idéias de Dewey, e mais tarde comentou, “Eu nunca entendi o que ele estava falando, e infelizmente para mim, eu ainda não entendo” (Watson, 1936, p. 274). Enquanto estudante de graduação em Chicago, ele estudou psicologia com James Angell e biologia e fisiologia com Henry Donaldson e Jacque Loeb (Pauley, 1987). Em 1903, obteve seu doutorado por pesquisas com ratos em laboratórios. Os experimentos focavam-se em aprendizagem e as correlativas mudanças nos cérebros dos animais. Watson (1903) públicou um livro chamado Educação Animal: Um Estudo Experimental sobre o Desenvolvimento Físico do Rato Branco, Correlacionado com o Crescimento do Sistema Nervoso (n.t. Animal Education: An Experimental Study on the Psychical Development of the White Rat, Correlated with the Growth of Its Nervous System) que foi baseado em sua pesquisa de doutorado. O livro demonstrava que Watson era um cientista capaz e que poderia apresentar claramente suas idéias. Dez anos depois, Watson (1913) públicou seu trabalho mais influente na A Psicologia tal como um Behaviorista a Vê (n.t. Psychological Review, “Psychology as the Behaviorist Views It”). Este trabalho delineou as idéias de Watson sobre o behaviorismo e argumentava que a objetividade era a única maneira de construir uma ciência da psicologia: Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 26 Eu sinto que behaviorismo é o único funcionalismo lógico consistente. Nele evita-se [o problema do dualismo mente-corpo]. Essas relíquias tradicionais da necessidade da especulação filosófica confundem os estudantes do comportamento tão pouco como confundem os estudantes de física. A consideração do problema mente-corpo não afeta nem o tipo de problema escolhido nem a formulação da solução de tal problema. Eu não posso afirmar minha posição de forma melhor do que dizendo que gostaria de levar meus estudantes à mesma ignorância de tais hipóteses que encontramos entre outros ramos da ciência. (Watson, 1913, p. 166) Neste trabalho, Watson também rejeita como dados científicos, o que as pessoas falam sobre seus sentimentos e pensamentos. Ademais, ele aponta para a inconfiabilidade das inferências psicológicas feitas sobre a mente de outra pessoa. Finalmente, Watson pontuou que a psicologia da mente tem pouco valor prático para o controle do comportamento e assuntos públicos. Talvez o experimento mais famoso de Watson seja o estudo do condicionamento do medo com o pequeno Albert (Watson & Rayner, 1920). O pequeno Albert era um bebê normal e saudável que frequentava uma creche. Watson e sua assistente usaram procedimentos de condicionamento clássico para condicionar medo de um rato branco. Da primeira vez, o pequeno Albert olhou para o rato e tentou tocá-lo. O estímulo incondicionado era o som de um martelo acertando uma barra de ferro. O som fez o pequeno Albert saltar, chorar, e cair. Após seis apresentações do som e do rato, o animal peludo também produzia as respostas de medo. A próxima fase do experimento envolveu uma série de testes para ver se a reação de medo da criança poderia transferir para estímulos similares. Albert também ficava com medo quando apresentado a um coelho branco, um cachorro, e um casaco de pele. Neste ponto, Watson e Rayner discutiram várias técnicas que poderiam ser utilizadas para eliminar o medo da criança. Infelizmente, o pequeno Albert foi retirado da creche antes que qualquer método de contra-condicionamento pudesse ser realizado. Em sua maneira característica, Watson posteriormente usou o desaparecimento do pequeno Albert para zombar do método psicanalítico de Freud. Ele sugeriu que quando Albert crescesse, ele poderia ir para um analista por causa dos seus estranhos medos. Essa análise provavelmente iria tentar convencer Albert que seus problemas eram resultado de um complexo de Épico não resolvido. Mas, comentou Watson, nós Christian Vichi Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 27 saberíamos que os medos de Albert eram causados por condicionamento – o que não se pode dizer da análise freudiana. Watson tinha vários interesses e investigou e escreveu sobre etologia, comportamento animal comparado, funções neurais, fisiologia e filosofia da ciência. Baseado em suas visões controversas e carisma, Watson foi eleito presidente da Associação Psicológica Americana em 1915, quando ele estava apenas com 37 anos de idade. Depois de deixar a Johns Hopkins University, se tornou bem sucedido no ramo industrial por aplicar princípios de condicionamento no ramo publicitário e de relações publicas (Buckley, 1989). Watson implementou o uso de mensagens subliminares e o pareamento de símbolos escondidos em propagandas – técnicas ainda hoje utilizadas. Edward Lee Thorndike (1874-1949) O behaviorismo de Watson enfatizava o reflexo condicionado. Este tipo de análise focava-se nos eventos que precedem a ação e é normalmente chamado de abordagem estímulo-resposta. Outro psicólogo americano, Edwards Lee Thorndike (Figura 1.7), era mais preocupado em como sucesso e fracasso afetam o comportamento dos organismos. Suas pesquisas enfatizaram os eventos e consequências que seguem o comportamento. Em outras palavras, Thorndike foi o primeiro cientista a sistemicamente estudar comportamento operante, embora ele chamasse as alterações ocorridas de aprendizagem por tentativa-e-erro (Thorndike, 1898). Edward L. Thorndike nasceu em 1874 em Williamsburg, Massachussetts. Filho de um pastor Metodista, não possuía conhecimentos de psicologia até ingressar na Universidade de Wesleyan. Na universidade, leu o livro que teve grande impacto sobre ele, Princípios de Psicologia (n.t. Principles of Psychology) de William James (1890). Após ler o livro, Thorndike foi aceito Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 28 em Harvard, onde estudou com William James. É importante notar que a psicologia de James era focada na mente e utilizava do método de introspecção (relatórios de pessoas sobre sentimentos e pensamentos). Assim, em contraste com John Watson, Thorndike se preocupava com os estados da mente. Em termos de análise do comportamento contemporânea, as contribuições de Thorndike foram mais no âmbito do estudo sistemático do comportamento dos organismo do que suas interpretações mentais sobre o comportamento humano e animal. Thorndike sempre se intrigou com o comportamento dos animais. Enquanto em Harvard, a proprietária de seu apartamento alugado ficou chateada porque ele estava criando galinhas em seu quarto. Nesta época, James e Thorndike já eram bons amigos, então Thorndike mudou seus experimentos para o porão da casa de James, quando não conseguiu espaço nos laboratórios de Harvard. Ele continuou sua pesquisa em Harvard e se manteve durante dois anos, tutoreando alunos. Então Thorndike se mudou para a Columbia University, onde estudou com James McKeen Cattell, o famoso especialista em testes de inteligência. Thorndike levou duas de suas galinhas mais “espertas” com ele para Columbia, mas, logo mudou seu foco para a investigação do comportamento de gatos. Na Universidade de Columbia, Thorndike começou seus famosos experimentos de tentativa-e-erroem gatos. Os animais eram colocados no que Thorndike chamou de “caixa-problema” e era colocada comida na saída da caixa (Chance, 1999). O gato que lutava dentro da caixa para sair iria acidentalmente pisar em um pedal, puxar uma corda e levantar uma trava. Essas respostas resultavam na abertura da porta da caixa-problema. Thorndike descobriu que a maioria dos gatos levavam progressivamente menos tempo para resolver os problemas depois de repetidas vezes na caixa. (i.e. tentativas repetitivas). A partir disso e de observações adicionais, Thorndike criou a primeira formulação da lei de efeito: O gato que está arranhando toda a caixa em sua luta impulsiva provavelmente vai acertar a corda ou anel ou um botão, de modo a abrir a porta. E gradualmente, todas os outros impulsos mal sucedidos serão apagados e o impulso particular que leva a ação bem sucedida será estampada pelo prazer resultante [itálico adicionado], após várias tentativas o gato vai, quando colocado na caixa, apertar o botão ou anel imediatamente na forma definida. Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 29 (Thorndike, 1911, p. 40) Hoje, a lei de efeito de Thorndike é reafirmada como o princípio do reforço. Este princípio estabelece que todos os operantes podem ser seguidos por consequências que aumentam ou diminuem a probabilidade de resposta para a mesma situação. Notem que as referências “estampagem” e “prazer” não são necessárias e que nada é perdido pela nova formulação da lei de efeito. Thorndike foi indicado para a Faculdade de Educação (n.t. Teachers College), na Universidade de Columbia, como professor em 1899, onde permaneceu o resto de sua carreira. Ele estudou e escreveu sobre educação, linguagem, inteligência, testagem, comparação de espécies animais, sobre o problema inato-aprendido, transferência de aprendizagem, sociologia da qualidade de vida, e, mais importante, aprendizagem animal e humana. Thorndike públicou mais de 500 livros e artigos. Seu filho (Robert Ladd Thorndike, 1911-1990) se tornou um psicólogo educacional bem conhecido por seu próprio esforço e em 1937 se juntou ao mesmo departamento de psicologia que seu pai. Edward Lee Thorndike morreu em 1949. B. F. Skinner e a Ascenção da Análise do Comportamento Os trabalhos de Pavlov, Watson, Thorndike, e muitos outros tem influenciado a análise do comportamento contemporânea. Embora as idéias de muitos cientistas e filósofos tenha tido um certo impacto, Burrhus Frederick Skinner (1904-1990) é grandemente responsável pelo desenvolvimento da análise do comportamento moderna. Na seção “Foco em: B. F. Skinner” acima, descrevemos alguns detalhes de sua vida e algumas de suas conquistas. Uma excelente biografia é disponível (Bjork, 1993), e o próprio Skinner escreveu três volumes de sua autobiografia (1976, 1979, 1983). Aqui, vamos esboçar as suas contribuições para a análise do comportamento contemporânea. Skinner estava estudando em Harvard durante uma época de mudanças intelectuais. Ele queria estender o trabalho de Pavlov para instâncias mais complexas do reflexo condicionado. Rudolph Magnus foi contemporâneo de Ivan Pavlov, e esteve trabalhando em condicionamento do movimento físico. Skinner tinha lido seu livro Korperstellun na versão alemã original, e estava Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 30 impressionado com ele. Skinner teria dito, “Eu comecei a pensar em reflexos como comportamento, diferentemente de Pavlov, que o pensava como ‘a atividade do córtex cerebral’, ou, segundo Sherrington, como ‘a ação integrativa do sistema nervoso’” (Skinner, 1979, p.46). A ideia que reflexos poderiam ser estudados como comportamento (ao invés de pensá-los como reflexo do sistema nervoso ou da mente) foi completamente desenvolvida no livro de Skinner (1938), The Behavior of Organism. Neste texto, Skinner, distinguiu entre o reflexo condicionado de Pavlov e o tipo de aprendizado reportado por Thorndike. Skinner propôs que condicionamento respondente e operante controlam o comportamento. Estes termos foram cuidadosamente selecionados para enfatizar o estudo do comportamento por ele mesmo. Pavlov interpretava o reflexo condicionado como o estudo do sistema nervoso central, enquanto o condicionamento respondente de Skinner dirige a atenção para os eventos do ambiente e suas respostas. O aprendizado de tentativa-e-erro de Thorndike era baseado em propriedades da mente não observáveis, e o condicionamento operante de Skinner foca nas relações funcionais entre comportamento e suas consequências. Ambos os condicionamentos, respondente e operante, requeriam o estudo de correlações observáveis entre eventos objetivos e comportamento. Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 31 Skinner logo falou em uma “ciência do comportamento” em vez de uma ciência da fisiologia ou da vida mental. Uma vez afirmado, o estudo do comportamento por ele mesmo parece óbvio, mas considerem que muitos de nós dizemos que fazemos algo porque decidimos fazer isso, ou em termos científicos, por causa de uma conexão neural no nosso cérebro. A maioria das pessoas aceitam explicações para o comportamento que dependem de descrições do cérebro, mente, inteligência, funções cognitivas, atividade neural, pensamento, ou personalidade. Porque esses fatores são considerados como as causa(s) do comportamento, eles se tornam o foco da investigação. Skinner, contudo, sugeriu que lembrar, pensar, sentir, a atividade dos neurônios, etc. são mais comportamentos do organismo que precisam de explicação. Ele ainda propõe que a ação dos organismos poderiam ser investigadas focando no comportamento e nos eventos do ambiente que o procedem e seguem. O foco comportamental de Skinner foi parcialmente mantido e influenciado pelo seu amigo de longa data, Fred Simmons Keller. Skinner e Keller frequentaram Harvard juntos, e Keller encorajou Skinner a perseguir uma visão comportamentalista da psicologia. Em 1946, Skinner já tinha formado um pequeno grupo de behavioristas na Universidade de Indiana. Ao mesmo tempo, Fred Keller e seu amigo Nat Schoenfeld organizaram outro grupo na Universidade de Columbia (Keller, 1977, Capitulos 2 e 6). Embora os números dos analistas do comportamento estivessem crescendo, não havia uma sessão para trabalhos comportamentais nos encontros anuais da Associação Psicológica Americana. Por causa disso, Skinner, Keller, Schoenfeld e outros, organizaram a sua própria conferência na Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 32 Indiana University. Esta foi a primeira conferência sobre análise experimental do comportamento veja (Figura 1.8). Estes novos behavioristas rejeitaram as idéias extremistas de John Watson e ofereceram uma formulação alternativa. Ao contrario de Watson, estes novos behavioristas não rejeitavam as influências genéticas sobre o comportamento; eles estenderam a análise do comportamento ao condicionamento operante, e estudaram comportamento por ele mesmo. Estes novos analistas do comportamento se descobriram em dificuldade para publicar seus trabalhos nas grandes revistas de psicologia. Isto se devia ao uso de pequenas amostragens de sujeitos em seus experimentos, falta de análise estatística, e seus gráficos de taxa de respostas não eram apreciados. Em 1958, o grupo era grande o suficiente para começar a própria revista, e o primeiro volume da Revista de Análise Experimental do Comportamento (JEAB) foi publicada. Com as pesquisas se acumulando, as implicações práticas dos princípios comportamentais se tornaram mais e mais evidentes, e aplicações em doenças mentais, retardo mental, reabilitação, e educação aumentaram. Em 1968, foi publicado pela primeiravez a Revista de Análise do Comportamento Aplicada (JABA). Em 1964 o número de analistas do comportamento tinha crescido tanto que uma divisão especial foi estabelecida pela Associação Psicológica Americana. A Divisão 25 é chamada de A Análise Experimental do Comportamento (The Experimental Analysis of Behavior) e continha várias centenas de membros. Subsequentemente, foi fundada a Associação para Análise do Comportamento (n.t. Association for Behavior Analysis) (ABA) no final da década de 70. Esta associação realiza uma conferência internacional anual que é frequentada por analistas do comportamento de vários países. A associação também publica uma revista em assuntos gerais, O Analista do Comportamento (n.t. The Behavior Analyst). Além da ABA, Robert Epstein, um dos últimos estudantes de B. F. Skinner, e antigo editor da reconhecida revista Psicologia Hoje (n.t. Psychology Today), fundou em 1981 o Centro de Estudos Comportamentais de Cambridge (n.t. Cambridge Center for Behavioral Studies). O centro de estudos é devotado a ajudar pessoas a encontrar soluções efetivas para problemas de comportamento (e.g. em educação, administração, e em outros contextos). Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 33 Como parte de sua missão, o centro mantém um website informativo (www.behavior.org) para o público, publica livros e revistas, e patrocina seminários e conferências em gerenciamento comportamental efetivo em contextos aplicados (e.g., a conferência anual Segurança Comportamental Agora [n.t. Behavioral Safety Now ] no campo de segurança industrial). Um problema contínuo no campo da análise do comportamento é a separação entre a análise do comportamento aplicada e a pesquisa básica. Durante a década de 50 e 60, não existia uma distinção clara entre ambas. Isto se devia porque analistas do comportamento aplicados eram treinados como pesquisadores comuns. Isto é, as primeiras aplicações dos princípios do comportamento eram oriundas das mesmas pessoas que estavam conduzindo experimentos em laboratórios. [A propósito, o segundo livro de Skinner, depois de seu texto clássico The Behavior of Organisms (1938), foi um romance descrevendo as aplicações práticas dos princípios comportamentalistas numa sociedade utópica, Walden Two (1938)]. As aplicações dos princípios comportamentais foram muito bem sucedidas, e isto levou a uma grande demanda de pessoas treinadas em análise do comportamento aplicado. Logo, os pesquisadores aplicados já não trabalhavam mais em laboratórios ou liam as revistas de pesquisa básica. Esta separação entre pesquisas básicas e aplicadas foi descrita primeiro por Sam Deitz (1978), que notou a alteração na ênfase da ciência para a tecnologia entre os analistas do comportamento aplicados (veja também Hayes, Rincover, & Solnick, 1980; Michael, 1980; Pierce & Epling, 1980). Donald Baer (1981) reconheceu as derivações técnicas da análise do comportamento aplicado, mas sugeriu que isso era uma progressão natural no campo e que isso poderia ter efeitos positivos. Hoje o problema da separação não está totalmente resolvido, embora o progresso seja aparente. Pesquisadores aplicados estão em maior contato com as pesquisas básicas através da Revista de Análise do Comportamento Aplicada. Adicionalmente à pesquisas aplicada, esta revista publica artigos aplicados baseados em princípios modernos do comportamento (e.g, Ducharme & Worling, 1994) assim como revisões de pesquisas de áreas básicas (e.g., Mace, 1996). Nós escrevemos esse livro assumindo que algum conhecimento em pesquisa básica é importante, mesmo pra aqueles que estão Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 34 primariamente preocupados com aplicações comportamentais. Estudantes podem usar este texto para adquirir conhecimento fundamental na ciência do comportamento, ou para uma sólida fundação em comportamento humano e sua aplicação. _______________________________________________________________ CIÊNCIA E COMPORTAMENTO: ALGUMAS SUPOSIÇÕES Todos os cientistas fazem suposições sobre seus objetos de estudo. Estas suposições são baseadas em visões predominantes na disciplina e são guiados por pesquisas científicas. Em termos de análise do comportamento, os pesquisadores assumem que o comportamento dos organismos é regido por leis. Isto significa que é possível estudar de maneira objetiva a interação entre um organismo e seu ambiente. Para conduzir a análise, é necessário isolar as relações entre o comportamento e o ambiente. O cientista deve identificar com precisão os eventos que precedem o começo de determinada ação e as consequências específicas que seguem o comportamento. Se o comportamento sistematicamente muda com as variações das condições ambientais, então o analista do comportamento assume que conseguiu explicar a ação do organismo. Existem outras suposições que os analistas do comportamento fazem sobre a sua ciência. O Mundo Privado Analistas do comportamento contemporâneos incluem eventos internos como parte do ambiento do organismo. Este ponto é comumente incompreendido; o funcionamento interno, tal como dores de estomago, bexiga cheia, e baixo nível de açúcar no sangue são de fato parte do ambiente de uma pessoa. Eventos fisiológicos internos tem o mesmo status tais quais os estímulos externos como luz, som, odor e calor. Ambos os eventos externos e internos controlam o comportamento. Apesar disso, analistas do comportamento geralmente enfatizam eventos externos. Isto se deve porque eventos externos são os únicos estímulos disponíveis para uma mudança de comportamento. Os procedimentos objetivos de um experimento psicológico consistem em dar Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 35 instruções e observar como a pessoa age. A partir do ponto de vista comportamental, as instruções são estímulos externos que controlam tanto comportamento verbal como não verbal. Mesmo quando uma droga é ministrada, e sua química altera a bioquímica interna do indivíduo, a injeção direta da droga é um evento externo que subsequentemente controla o comportamento. Para deixar claro, sem a ingestão da droga não haveria mudança nem na bioquímica nem no comportamento da pessoa. Muitos estudos psicológicos envolvem dar informações para uma pessoa com o objetivo de alterar ou ativar processos cognitivos. Assim, psicólogos cognitivistas “... inventam substitutos internos que se tornam o objeto de estudo de sua ciência” (Skinner, 1978, p. 97); e a psicologia cognitiva tem sido definida como “... uma abordagem para a psicologia cientifica – que encoraja psicólogos a inferir constructos não observáveis como base em fenômenos observáveis” (Baars, 1986, p. ix). Na visão cognitiva, pensamentos são usados para explicar comportamento. O problema é que a existência de pensamentos (ou sentimentos) é geralmente inferida a partir do comportamento a ser explicado, levando a um raciocínio circular. Por exemplo, diz que se uma criança olhar para fora da janela aproximadamente no horário que sua mãe chega do trabalho, faz isso devido a uma “expectativa”. A expectativa da criança da criança explica porque ele olha pela janela. De fato, não há nenhuma explicação porque a cognição (expectativa) é inferida do comportamento que diz explicar. Cognições poderiam explicar comportamento se a existência dos processos de pensamentos pudessem ser baseados em outros fatores que não comportamento. Na maioria dos casos, entretanto, não há evidências independentes que mostrem que cognições originaram comportamento e as explicações não são cientificamente válidas. Uma saída para este problema de lógica é não utilizar pensamentos e sentimentos como causa de comportamento. Isto é, pensamentos e sentimentos são tratadoscomo mais comportamentos a serem explicados. Sentimentos e Comportamentos Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 36 Muitas pessoas assumem que os seus sentimentos e pensamentos explicam o porquê eles agem da forma que agem. Analistas do comportamento contemporâneos concordam que as pessoas pensam e sentem, mas não consideram esses como origem do comportamento. Eles apontam que esses termos são mais corretamente usados como verbos ao em vez de substantivos. Em vez de falar sobre pensamentos, analistas do comportamento apontam para a palavra de ação “pensar”. E em vez de analisar sentimentos como algo que possuímos, os cientistas comportamentais focam na ação de sentir. Em outras palavras, pensamentos e sentimentos são atividades dos organismos que precisam ser explicados. Sentimentos: Reais, mas não origens Porque sentimentos ocorrerem ao mesmo tempo em que agimos, eles são frequentemente tomados como origem do comportamento. Embora sentimentos e comportamento necessariamente andem juntos, é o ambiente que determina como agimos, e ao mesmo tempo, como nos sentimos. Sentimentos são reais, mas eles são o resultado dos eventos do ambiente que controlam o comportamento. Assim, uma abordagem comportamental requer que o pesquisador rastreie as origens dos sentimentos de volta a interação entre comportamento e ambiente. Suponha que você está no elevador entre o 15° andar e o 16° quando ele subitamente para, e as luzes desligam. Você escuta o som que aparenta ser dos cabos se rompendo. De repente, o elevador cai cerca de um metro. Você pede ajuda, mas ninguém vem em seu socorro. Depois de uma hora, o elevador começa a subir novamente, e você desce no 16° andar. Seis meses depois, um amigo lhe convida para um jantar. Vocês se encontram no centro, e descobre que o seu amigo fez uma reserva em um restaurante chamado A Sala no Topo, que é localizado no 20° andar de um arranha-céu. Em frente ao elevador você é tomado por um sentimento súbito de pânico. Você dá uma desculpa educada, “não me sinto bem” e vai embora. Qual é a razão para o seu comportamento e dos sentimos que o acompanharam? Sem duvida que você se sentiria ansioso, mas o sentimento não é o motivo pelo qual você decidiu ir para casa. Ambos os sentimentos de Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 37 ansiedade e a sua decisão de sair são facilmente rastreadas até experiência negativa que ocorreu no elevador seis meses atrás. É nesse condicionamento anterior que os analistas do comportamento focarão. Entretanto, é a sua interação anterior com o elevador quebrado que alterou ambas as coisas, como você age e como você sente. Relatos de sentimentos Você ainda pode imaginar porque os analistas do comportamento estudam o comportamento aberto ao invés dos sentimentos – considerando que ambos são alterados pela experiência. A resposta se encontra na acessibilidade dos sentimentos e dos comportamentos abertos. Muitos dos comportamentos dos organismos são diretamente acessíveis ao observador ou cientista. Este comportamento público fornece um objeto de estudo relativamente simples para análise cientifica. Em contraste, os sentimentos são amplamente inacessíveis para a comunidade cientifica. A pessoa que sente tem acesso a essa informação primitiva, mas o problema é que relatos de sentimentos não são confiáveis. Essa falta de confiança ocorre porque nós aprendemos a falar sobre os nossos sentimentos (e outros eventos internos) como fomos treinados a fazer por terceiros. Durante a socialização, as pessoas nos ensinam como descrever a nós mesmos, mas quando o fazem, não possuem meios de saber o que realmente ocorre dentro de nós. Pais e professores dependem de pistas para treinar a autodescrição. Eles assim o fazem ao comentar e corrigir descrições verbais quando o comportamento ou evento sugerem um sentimento. Uma criança na pré-escola é ensinada a dizer “eu estou feliz” quando os pais supõem que a criança está feliz. Os pais podem basear seu julgamento em sorrisos, animação, e respostas afetivas da criança. Outra forma de realizar esse treinamento é perguntando à criança “você está feliz?” em uma situação em que os pais esperem que a criança se sinta assim (e.g., na manhã de Natal). Quando a criança aparenta estar triste, ou as circunstâncias sugerem que isso pode estar acontecendo, dizer “eu estou feliz” não será reforçado pelos pais. Eventualmente, a criança diz “eu estou feliz” em algumas situações e não em outras. Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 38 Talvez você já tenha percebido porque relatos de sentimentos não são boas evidências científicas. Relatos são apenas tão bons quanto o treinamento de correspondência entre as condições públicas e eventos privados. Adicionalmente ao treinamento inadequado, existem outros problemas com a acuidade das descrições de sentimentos. Muitas das nossas funções internas são poucas correlacionadas (ou não correlacionadas) com as condições públicas, e isto significa que não podemos ser ensinados a descrever tais eventos acuradamente. Embora um médico possa perguntar por uma localização geral de uma dor (e.g., abdômen), é improvável que ele ou ela vá perguntar se a dor é no fígado ou no baço. Este relato simplesmente é inacessível ao paciente porque não existe forma de ensinar a correlação entre o local exato da dor e das condições públicas. Geralmente somos capazes de descrever de forma limitada os eventos privados, mas a falta de confiabilidade em tais relatos os tornam questionáveis como observações científicas. Baseando-se em tais noções, os analistas do comportamento se focam no estudo do comportamento ao invés dos sentimentos. Pensamento como Comportamento. Analistas do comportamento também tem considerado o papel do pensamento na ciência do comportamento. Em contraste com as visões que clamam um mundo interno especial de pensamentos, analistas do comportamento sugerem que o pensamento é comportamento humano. Skinner (1974) afirma: A história do pensamento humano é o que as pessoas têm dito e feito. Símbolos são o produto com comportamento escrito e verbal, e os conceitos e relações das quais são símbolos estão no ambiente. Pensar tem a dimensão do comportamento, não um processo interno imaginado que encontra expressão no comportamento. (pp. 117-118) Um número de processos comportamentais, tais como generalização, discriminação, emparelhamento com o modelo (matching to sample), equivalência de estímulos (veja capítulos posteriores), dão origem ao comportamento que, em uma situação particular, pode ser atribuído a funções mentais superiores. A partir dessa perspectiva, pensamento é tratado como Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 39 comportamento privado (veja Moore, 2003 e Tourinho, 2006, sobre eventos privados). Pensamento como comportamento privado Um dos exemplos mais interessantes de pensamento envolve comportamento privado ou comportamento que só é acessível à pessoa que o faz. Pensamento como comportamento privado pode ser observado em um jogo de xadrez. Nós podemos perguntar a outra pessoa “o que o jogador está pensando?”. Uma resposta como “Provavelmente ela está pensando em dar o roque” refere-se a um pensamento que precede o movimento. As vezes este comportamento prévio é observável – o jogador pode colocar a mão em cima da torre em antecipação ao movimento. Em outros momentos, o comportamento é privado e não pode ser observado por outros. Um jogador experiente pode pensar a frente do jogo, imaginando as consequências de mover uma peça em particular. Presumivelmente, este comportamento privado é evidente quando uma pessoa aprende ajogar xadrez. Por exemplo, as regras básicas são explicadas primeiramente e é mostrado ao jogador novato como movimentar e capturar as peças. Ao mover as peças de um lugar a outro, pede-se ao jogador que descreva as relações entre suas peças as do oponente. Isto estabelece o comportamento de visualizar a disposição do tabuleiro de xadrez. Conforme o jogador vai recebendo comentários corretivos adicionais, a visualização do tabuleiro se torna mais habilidosa. A pessoa começa a ver relações e movimentos que antes não eram percebidos. Durante os primeiros jogos, os novatos recebem instruções como “não mova o seu cavalo assim se não você ira perde-lo”. Adicionalmente, pode ser dito ao jogador, “Um movimento melhor seria se...” e uma demonstração do melhor movimento seria feita. Depois de certa experiência, pergunta-se ao estudante por que determinado movimento foi feito, e a explicação é discutida e avaliada. Eventualmente o professor para de dar dicas ao jogador e o encoraja a jogar em silêncio. Neste ponto, visualizar a disposições das peças (e.g., brancas controlam o centro do tabuleiro) e descrever as possíveis consequências dos movimentos (e.g., Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 40 mover o cavalo para aquele quadrado vai separar as duas torres) torna-se encobertos. A função do pensamento, como comportamento privado, é de aumentar a eficiência de ações práticas. Pessoas podem agir no nível encoberto sem se comprometerem publicamente. Uma vantagem é que uma ação pode ser revertidas se as consequências imaginadas não forem reforçadoras. No nosso exemplo, o jogador de xadrez considera os movimentos possíveis e as consequências que podem seguir o movimento, devido as suas experiências prévias. Baseando-se na avaliação encoberta, o jogador faz o movimento que para ele aparenta ser o melhor. Assim, o desempenho privado funciona como uma dica que guia a ação manifesta. Uma vez que o movimento é feito, o jogador enfrenta as consequências objetivas. Se o movimento produz uma vantagem que resulta em checkmate, então pensar em tal movimento em circunstâncias similares é fortalecido. Por outro lado, um movimento ruim enfraquecerá a ação de considerar tal movimento no futuro. No geral, pensamento é um comportamento operante controlado pelas suas consequências. Pensar em um movimento que guia ações efetivas é provável de ocorrer novamente, enquanto pensamentos que levam performances ineficazes diminuem. Nesta seção, nós discutimos pensamento como comportamento encoberto e privado. Existem várias outras formas em que o termo pensamento é usado. Quando uma pessoa lembra de algo, nós podemos falar sobre pensamento no sentido de pesquisa e recordação. Resolução de problemas frequentemente envolve comportamentos privados que requerem uma solução. Ao tomar uma decisão, as pessoas dizem que pensaram nas alternativas antes de fazer sua decisão. O artista criativo pensa em novas idéias. Em cada uma dessas instâncias, é possível analisar pensamento como comportamento privado que é controlado por características específicas do ambiente. O restante deste livro discute os processos comportamentais que subjazem todos os comportamentos, incluindo o pensamento. RESUMO DO CAPITULO Cap. 1 - Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições 41 Este capítulo introduziu a ideia que comportamento frequentemente é adquirido ao longo da vida do indivíduo como resultado de suas experiências. Ao nascer nós emitimos comportamento com poucas atividades organizadas. Contudo, conforme nossos comportamentos produzem consequências, algumas respostas são fortalecidas enquanto outras são enfraquecidas. As consequências do comportamento têm função de selecionar e estabelecer um repertório comportamental. Vários indivíduos proeminentes forma introduzidos para ilustrar a história da ciência da análise do comportamento. B. F. Skinner em particular foi descrito como a maior força por trás da análise experimental e aplicada do comportamento, que é o tópico deste livro. Esta abordagem está relacionada com a biologia em que o comportamento é considerado o produto da interação dos genes interagindo com ambiente do organismo. Análise do comportamento pode se estender à compreensão dos sentimentos e ao comportamento complexo, envolvendo a resolução de problemas e o pensamento. Palavras Chave Análise do Comportamento e Aprendizagem Pierce & Cheney Uma Ciência do Comportamento: Perspectivas, História e Suposições1 1 Análise do comportamento aplicada Comportamento Análise do comportamento Analista do comportamento Neurociência comportamental Behaviorismo (n.t. comportamentalismo) Reflexo condicionado Cultura Análise experimental do comportamento Causalidade imediata Lei do efeito Aprendizagem Condicionamento operante Comportamento privado Reflexo Causalidade remota Respondente Condicionamento respondente Ciência do comportamento Seleção por consequências Aprendizagem por tentativa e erro